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Outras EspecialidadesNeurocirurgia

A queda que ninguém lembra

Hematomas intracranianos: epidural, subdural agudo e subdural crônico

Três coleções de sangue com três relógios — e a mais tratável delas chega semanas depois, sem trauma na história, como piora da memória

Fontes deste capítulo

Sociedade Brasileira de Neurocirurgia. Projeto Diretrizes (Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina): Traumatismo Craniencefálico Grave — Situações Especiais. Andrade AF, Marino R Jr, Miura FK, Rodrigues JC Jr. Elaboração final: 15 de agosto de 2002

Sociedade Brasileira de Neurocirurgia. Projeto Diretrizes (Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina): Diagnóstico e Conduta no Paciente com Traumatismo Craniencefálico Leve. Andrade AF, Marino R Jr, Miura FK, Carvalhaes CC, Tarico MA, Lázaro RS, Rodrigues JC Jr. Elaboração final: 31 de agosto de 2001

Sousa EB, Brandão LFS, Tavares CB, Borges IBC, Freire Neto NG, Kessler IM. Epidemiological characteristics of 778 patients who underwent surgical drainage of chronic subdural hematomas in Brasília, Brazil. BMC Surgery. 2013;13:5. DOI 10.1186/1471-2482-13-5

Farhat Neto J, Araujo JLV, Ferraz VR, Haddad L, Veiga JCE. Hematoma subdural crônico: análise epidemiológica e prognóstica de 176 casos. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões. 2015;42(5):283-288. DOI 10.1590/0100-69912015005003

Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo. Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma — Diretrizes Clínicas. Versão 2018

01

Responda antes de ler

Homem de 78 anos é levado ao pronto-socorro pela filha com um encaminhamento da unidade básica dizendo 'provável quadro demencial'. Ela relata que há cerca de seis semanas ele parou de sair de casa, dorme quase o dia todo e repete perguntas; há duas semanas passou a arrastar o pé esquerdo. Ao exame: acordado, orientado em pessoa e lugar, erra o mês, responde com latência; pressão 148 por 84 mmHg, glicemia 112 mg/dL, pupilas isocóricas e fotorreagentes; força 5 à direita e 4 à esquerda, com queda do braço esquerdo no teste dos braços estendidos. O hospital tem tomógrafo funcionante e não tem neurocirurgião. Qual conduta muda mais o desfecho na próxima hora?

02

O paciente que você vai ver

Domingo, quinze e vinte. Hospital municipal com pouco mais de cem leitos, numa cidade média do interior. O tomógrafo é de dezesseis canais, funciona, e o técnico está de plantão presencial até as sete da noite — depois disso ele fica de sobreaviso e mora a vinte minutos. Neurocirurgião não há: o mais próximo atende no hospital estadual, a cento e dez quilômetros daqui, e chegar até lá depende de vaga regulada. Hoje a clínica médica é sua, e a sala de observação tem catorze macas para doze lugares.

Policarpo Nabor tem 78 anos, 66 quilos, é aposentado da roça e chega andando devagar, apoiado no braço da filha. A ficha da classificação de risco diz confusão mental em idoso e vem com um papel dobrado da unidade básica: provável quadro demencial, encaminho para avaliação. Ele foi para o amarelo e está esperando há quarenta minutos. Sentado, quieto, olhando para o chão.

Quem conta a história é a filha, Esmeralda Athaide, e ela conta pelo fim. Faz umas seis semanas que o pai não é mais o mesmo. Parou de ir ao dominó da praça, que era a única coisa que ele nunca perdia. Dorme demais — dorme a manhã inteira e cochila à tarde. Repete pergunta. Duas semanas atrás começou a arrastar o pé esquerdo e a esbarrar no batente, e ela achou que fosse fraqueza de quem parou de andar. Na quinta-feira ele urinou na roupa sentado na sala, e foi isso que a trouxe aqui.

Você pergunta o que ela pergunta a si mesma: começou de repente ou foi devagar? Devagar, ela diz, mas não tão devagar: um mês e meio atrás ele estava inteiro. Você pergunta se ele caiu. Ela responde que não, com segurança — ela mora na casa dos fundos e saberia. Você insiste, e pergunta de outro jeito: alguém já viu ele no chão, ou ele apareceu com algum roxo, algum galo, alguma marca? Ela para. Lembra que em julho o vizinho o trouxe do quintal, disse que ele tinha escorregado no barro perto do tanque e batido a cabeça no muro. Ele não quis ir ao posto. Ficou com um galo atrás da orelha por uns dias e ninguém falou mais nisso. Faz uns dois meses.

Ao exame: acordado, abre os olhos sozinho, olha para você. Diz o nome inteiro. Sabe que está no hospital, erra o mês. Responde devagar, com dois ou três segundos entre a pergunta e a resposta, e às vezes começa a frase e para. Pressão 148 por 84, frequência 72, respiração 16, saturação de 96% em ar ambiente, glicemia capilar de 112 mg/dL, temperatura de 36,4 graus. Pupilas iguais e fotorreagentes. A força é 5 à direita e 4 à esquerda nos dois membros, e quando você pede para ele estender os braços à frente e fechar os olhos, o esquerdo desce. A marcha é curta e arrastada, com o pé esquerdo raspando o chão.

Nada disso é dramático e é exatamente esse o problema. Um idoso lento, com um lado mais fraco, uma queda de dois meses que ninguém contava e um papel na mão dizendo provável demência: essa é a apresentação mais comum da lesão neurocirúrgica mais tratável que existe. O que a separa da demência não é o exame cognitivo nem a escala. É a linha do tempo — seis semanas é rápido demais para doença degenerativa — e é o lado, porque demência não faz hemiparesia. As duas coisas cabem numa anamnese de cinco minutos, e as duas já estão na sua frente.

Você anota o exame com a hora ao lado: quinze e cinquenta e dois. Pede a tomografia sem contraste e escreve no pedido, com essas palavras, o que está procurando. Enquanto ela não sai, faz a única coisa que ainda falta e que muda tudo: liga para a filha buscar a caixa de remédios da casa, todos eles, dentro da sacola, e traz também a última receita. Porque se houver um comprimido pequeno cortado ao meio dentro daquela sacola, a conversa de hoje à noite com a regulação vai ser outra.

03

Quem adoece disso

Não existe série nacional de hematoma intracraniano no Brasil. O que existe são duas séries hospitalares de hematoma subdural crônico operado, e elas são boas o bastante para sustentar um capítulo — mas convém dizer de saída que a doença mais tratável desta apostila não tem número federal, não tem código próprio que a separe do traumatismo cranioencefálico no sistema de informação hospitalar, e não tem, portanto, nenhuma medida oficial de quantos brasileiros a têm agora sem que ninguém tenha pedido a imagem.

A maior série brasileira publicada é de Brasília: 778 doentes operados de hematoma subdural crônico no Hospital de Base do Distrito Federal entre janeiro de 2006 e dezembro de 2011, o que dá cerca de cento e trinta operações por ano num único serviço. A idade média foi de 64,3 anos, com extremos de 14 e 93; 442 doentes (56,8%) tinham 65 anos ou mais. Homens foram 643 (82,6%) contra 135 mulheres, razão de 4,8 para 1. A mediana da escala de coma na admissão foi 14, e 540 doentes (69,4%) chegaram na faixa de 15 a 14 pontos — isto é, conversando.

O número que dá nome a este capítulo está nessa mesma série. A origem do hematoma ficou indeterminada em 281 doentes (36,1%), e outros 27 (3,5%) tinham coagulopatia ou usavam anticoagulante ou antiagregante sem nenhum trauma na história. Somando os dois grupos, 308 dos 778 doentes chegaram sem trauma para contar: 39,6%. Quatro em cada dez. A conta é do capítulo, não do artigo, que apresenta os dois grupos separados; mas é ela que traduz a série em conduta, porque descreve o doente que a régua de imagem do trauma nunca alcança: ele não bateu a cabeça, ou bateu e ninguém soube.

Quando o trauma existe, ele é banal. Dos 470 que tinham história de traumatismo, 282 haviam caído — e a queda foi a origem em 60,7% das mulheres (82 de 135) contra 31,1% dos homens (200 de 643). Acidente de trânsito respondeu por 74 casos e agressão por 35, ambos concentrados abaixo dos 65 anos. O retrato é este: a mulher que chega com subdural crônico caiu em casa; o homem mais jovem bateu na rua; e o mais velho dos dois grupos frequentemente não sabe dizer o que houve.

A segunda série é da Santa Casa de São Paulo: 176 doentes operados entre novembro de 2001 e setembro de 2008, com média de 59,3 anos e razão de 2,5 homens para cada mulher. Nela o trauma foi a causa em 92 doentes (52%), e o dado mais útil do artigo inteiro é o intervalo: em média vinte e cinco dias entre o trauma e o diagnóstico por imagem. Vinte e cinco dias é o tamanho da janela em que essa doença existe sem ser vista, e é também o tempo em que a família aprende a chamar aquilo de idade. Hipertensão estava presente em 37,7% dos doentes, etilismo em 19% e antiagregante em uso em 9,6%.

Os desfechos das duas séries brasileiras são bons e discordam entre si de um jeito que o interno precisa saber ler. Em Brasília, 96,5% foram tratados por trepanação com dreno fechado, 88,3% saíram com boa recuperação, a recidiva foi de 5,4% e a mortalidade pós-operatória declarada foi zero; a internação teve mediana de quatro dias e 82% receberam alta em uma semana. Em São Paulo, a trepanação foi usada em 94%, a reabordagem foi necessária em 9%, a internação durou em média 12,1 dias e 10% dos doentes morreram — 7,8 dos 10 pontos percentuais por causas clínicas. Zero e dez por cento não são a mesma medida: uma conta a morte atribuída à operação num serviço que não acompanhou ninguém depois da alta, a outra conta toda morte no hospital, inclusive a pneumonia do décimo dia. Guardar as duas evita tanto o otimismo de prometer operação sem risco quanto o pessimismo de tratar como grave o que costuma sair andando.

Falta a incidência, e ela é onde as fontes brasileiras mais divergem. O artigo de Brasília, na revisão que abre o texto, dá cerca de 3,4 por 100 mil abaixo dos 65 anos e de 8 a 58 por 100 mil acima dos 65. O artigo de São Paulo escreve, na introdução, incidência de 0,0074% acima dos 70 anos — que é 7,4 por 100 mil, abaixo do piso que o outro atribui a uma faixa etária mais nova e mais numerosa. Não há como as duas cifras serem verdadeiras simultaneamente, e nenhuma delas vem de dado brasileiro. Esta apostila adota a faixa do artigo de Brasília, porque ela separa as idades, e o paciente deste capítulo é o idoso; a cifra de São Paulo fica registrada como a da introdução daquele artigo, a faixa publicada em português para a mesma doença varia por um fator de quase oito, e a escolha é desta apostila, não de fonte nenhuma.

Uma última conta ancora tudo o que vem depois, e ela não é de neurocirurgia. A varfarina consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais em comprimidos de 1 e 5 mg, no Componente Básico, e o ácido acetilsalicílico de 100 mg também. O antídoto da varfarina — a fitomenadiona, que é a vitamina K — não consta em nenhuma grafia. Quer dizer: o sistema público dispensa na farmácia da esquina a droga que faz esse hematoma crescer, e não lista a droga que a desfaz. Quantos idosos anticoagulados existem no país é dado que ninguém publica; que eles chegam à sua porta com a cabeça batida é o que a próxima seção descreve.

04

Por que acontece o que acontece

Três coleções de sangue moram dentro do crânio, em três lugares diferentes, e a diferença entre elas não é acadêmica: é o relógio. O que separa um hematoma epidural de um subdural agudo e de um subdural crônico não é o volume, não é a gravidade e não é o tratamento — é qual vaso rompeu, e o que existe em volta dele para segurar o sangramento. Quem entende essa parte não precisa decorar nenhuma das três apresentações, porque elas saem do mecanismo.

A caixa, a curva de pressão e volume e a fisiologia da lesão secundária são do capítulo Trauma cranioencefálico, da apostila de Trauma, que as desenha e as ensina. Este capítulo assume outra coisa: a coleção como entidade — o que cada uma diz sobre o vaso roto, o que cada uma faz no tempo, e sobretudo a que chega sem trauma aparente, que não tem dono em lugar nenhum deste nível e que é o eixo daqui em diante.

O hematoma epidural — extradural, nos documentos brasileiros — nasce entre o osso e a dura-máter, num espaço que normalmente não existe. A dura é colada à tábua interna do crânio, e para haver coleção ali alguma coisa precisa descolá-la à força. É por isso que ele quase sempre vem com fratura, e é por isso que ele quase sempre vem de artéria: o vaso clássico é a artéria meníngea média, que corre num sulco do próprio osso temporal e se rompe quando o osso quebra. Sangue arterial descola dura sob pressão sistêmica, e o descolamento abre espaço para mais sangue, que descola mais dura. A coleção fica presa entre as suturas, onde a dura é firmemente aderida, e por isso ela cresce para dentro em vez de se espalhar: é a lente biconvexa que a tomografia mostra. O relógio é de horas.

O subdural nasce do outro lado da dura, num plano que se abre entre ela e a aracnoide, e vem de veia — tipicamente das veias-ponte que atravessam esse espaço para levar o sangue da superfície do cérebro aos seios durais. Veia sangra em pressão baixa. Não há plano a descolar, porque o espaço subdural se dissecca com facilidade e se estende por toda a convexidade, o que produz a lâmina fina e alongada que acompanha a curva do crânio — a foice, não a lente. Quando o mecanismo é violento e a veia rompe de vez, a coleção se forma em minutos a horas sobre um cérebro que também foi lesado no mesmo impacto: é o subdural agudo, e a gravidade dele vem tanto do sangue quanto do parênquima embaixo. Quando o mecanismo é trivial e a veia apenas goteja, começa a terceira história.

O subdural crônico é a única das três que não é um evento: é um processo. A cabeça de quem envelhece perde volume de encéfalo, e o espaço que sobra estica as veias-ponte como se estica um cabo curto entre dois pontos que se afastam. Basta então uma aceleração pequena — bater a cabeça no muro, sentar de repente, um tranco no ônibus — para uma delas romper. O sangramento é mínimo e para sozinho. E aí, em vez de reabsorver, ele se organiza: forma-se um coágulo, o coágulo liquefaz, e em volta dele o organismo constrói uma cápsula de tecido novo, com vasos novos, finos e frágeis. Essa neomembrana é o motor da doença. Ela sangra de novo, em pequenas quantidades, muitas vezes, e cada micro-sangramento acrescenta volume. O artigo brasileiro que descreve as duas teorias em disputa toma partido pela do sangramento recorrente e traz o argumento medido: seis a vinte e quatro horas antes da drenagem, hemácias marcadas injetadas no doente aparecem dentro da coleção, e o conteúdo do hematoma tem de 0,2% a 28% de sangue novo. Não é um hematoma velho que ninguém drenou. É um hematoma que continua sangrando devagar, por semanas.

Três consequências saem daí e as três mudam conduta. A primeira: o volume final não tem relação com a força do trauma, o que explica por que a história é sempre desproporcional ao achado — e por que perguntar sobre queda pelo mecanismo (bateu forte? desmaiou?) não funciona, enquanto perguntar pelo fato (alguém já te viu no chão?) funciona. A segunda: qualquer coisa que dificulte a hemostasia acelera o processo, e é por isso que anticoagulante, antiagregante, álcool e hepatopatia são fatores de risco de uma doença que não é hemorrágica no sentido usual. A terceira: por ser lento, o crescimento acontece dentro do espaço que a atrofia deixou, e a compressão só começa quando esse espaço acaba. Daí a evolução em rampa e depois em degrau — semanas de nada, depois dias de piora rápida.

Três arcos cranianos separados: coleção biconvexa terracota à esquerda, crescente subdural fino ao centro e crescente mais espesso com cápsula à direita.
Da esquerda para a direita: forma lentiforme típica do hematoma epidural, crescente típico do subdural agudo e coleção subdural crônica com membrana. São formas esquemáticas, sem escala; as cores não representam densidade tomográfica. A morfologia ajuda a reconhecer o compartimento, mas não determina sozinha a origem do sangramento nem a idade da coleção.

Falta o mecanismo que engana mais gente, e ele é do epidural: o intervalo lúcido. O paciente bate a cabeça, perde a consciência por segundos ou nem isso, acorda, conversa, pede o celular, quer ir embora — e horas depois está em coma. A explicação não é misteriosa. A perda inicial de consciência, quando existe, é a concussão do impacto, que é reversível e passa. O hematoma que começou a se formar no mesmo instante ainda é pequeno, e o crânio tem, no adulto jovem, reserva de sobra: liquor e sangue venoso saem da caixa e absorvem o volume novo sem que a pressão suba. Enquanto essa reserva durar, o exame neurológico é normal — não porque não haja hematoma, mas porque ainda há para onde empurrar. O intervalo lúcido, portanto, não é um sinal de que o doente está bem: é a medida do que sobrou de espaço. Quando acaba, acaba de uma vez. Isso é o oposto de tranquilizador, e é a razão de a régua de reavaliação existir. O padrão de deterioração em quem chegou falando tem nome, número brasileiro e descrição no capítulo de Trauma cranioencefálico, e é lá que ele deve ser lido.

Duas notas fecham o mecanismo, e as duas são fronteira. A primeira: o mesmo espaço subdural produz uma coleção que não é sangue — o higroma, que é liquor acumulado depois de uma rotura da aracnoide, e que na imagem se parece com o subdural crônico sem ter a mesma história nem o mesmo desfecho; distingui-los é do radiologista e do neurocirurgião, e o interno só precisa saber que a distinção existe e que ela muda a pressa. A segunda: o que este capítulo cobre é o sangue que fica fora do encéfalo, entre as membranas, porque é esse que se tira. Sangue dentro do parênquima, ou espalhado pelo espaço subaracnóideo, obedece a outra lógica e a outros donos, nomeados no fim do bloco seguinte.

05

Como se apresenta de verdade

Objetivos práticos no internato. Integrar mecanismo do trauma, evolução, exame e imagem; reconhecer expansão de hematoma, avaliar anticoagulação e garantir reavaliação segura. O interno colhe e apresenta os dados, propõe o plano e executa atividades sob supervisão; prescrições, procedimentos e documentos são validados pelo profissional responsável. Estude o caso acompanhando o que cada achado muda na decisão, não apenas decorando critérios.

As três coleções não têm três apresentações: têm três velocidades. E como a velocidade governa tudo, o interno que sabe em que ponto do relógio está o doente à frente acerta a conduta mesmo antes de saber o nome da lesão. O epidural conta-se em horas, o subdural agudo em minutos a horas, e o subdural crônico em semanas — e é essa última que engana, porque semanas é tempo suficiente para a família construir uma explicação inteira, e a explicação costuma ser a idade.

Vale escrever a regra que organiza a leitura do bloco, porque ela é curta e vale para as três: a coleção não produz sintoma nenhum enquanto houver espaço; produz sintoma quando o espaço acaba. Por isso a mesma quantidade de sangue é irrelevante num idoso atrófico e letal num rapaz de vinte anos, e por isso a pergunta útil na anamnese nunca é quanto sangrou, e sim quanto tempo faz e o que mudou desde então.

O intervalo lúcido, e por que ele engana quem o entende mal

É a apresentação mais famosa da neurotraumatologia e a mais mal usada. O doente bate a cabeça, apaga por instantes ou nem isso, levanta, conversa, reclama de dor de cabeça, quer ir para casa — e algumas horas depois não abre os olhos. Entre as duas cenas houve um intervalo em que tudo estava normal, inclusive o exame neurológico, inclusive a escala de coma. Esse intervalo é a assinatura clínica do hematoma epidural.

O intervalo lúcido pode ocorrer no hematoma epidural, mas não é obrigatório nem garante segurança. O paciente pode estar orientado enquanto o hematoma cresce. A complacência intracraniana contribui para compensação inicial, porém o exame clínico não mede quantitativamente essa reserva. A evolução, a TC e a reavaliação orientam a decisão.

Duas consequências práticas. A primeira: nenhum valor da escala de coma na admissão autoriza deixar de repetir o exame. Um 15 informa sobre aquele minuto e sobre mais nada. A segunda: quem decide é a diferença entre duas medidas, e não a medida isolada — dois pontos perdidos em uma hora pesam mais do que os mesmos dois pontos parados desde o café da manhã. Os gatilhos que disparam conduta — dois pontos perdidos, pupilas que ficaram diferentes, um déficit que não existia — e o padrão brasileiro de deterioração de quem chegou falando, com a frequência que a neurocirurgia nacional publicou, estão no capítulo Trauma cranioencefálico, da apostila de Trauma, e é lá que se leem por inteiro.

Uma advertência sobre o próprio termo, porque ele cria uma armadilha simétrica. Nem todo epidural tem intervalo lúcido, e a ausência dele não afasta nada: o doente que chega em coma desde o impacto pode ter exatamente a mesma lesão, agora somada a uma concussão grave ou a uma lesão de parênquima. E o intervalo lúcido também aparece em outras coleções, inclusive no subdural agudo de crescimento mais lento. Ele é um padrão que aumenta a suspeita; não é um critério, e não pertence a uma lesão só.

O subdural agudo: o sangue é o menor dos problemas

O subdural agudo tem uma característica que o separa dos outros dois e que costuma passar despercebida ao interno: a gravidade dele não vem principalmente da coleção. Vem do que aconteceu embaixo dela. Para romper uma veia-ponte num cérebro que ainda não atrofiou é preciso um mecanismo de aceleração e desaceleração violento — a mesma energia que produz contusão, edema e lesão axonal. O sangue que a tomografia mostra é a parte visível de um trauma que atingiu o parênquima inteiro.

Daí sai o padrão de apresentação: o doente com subdural agudo raramente conversa, raramente tem intervalo, e quase sempre chega já com nível de consciência rebaixado. Daí sai também a razão de a drenagem, sozinha, nem sempre resolver — tira-se o sangue e o cérebro continua inchando, porque a lesão que importava não era a coleção. E daí sai, por fim, a única coisa que o interno realmente decide neste cenário, que é o tempo: entre a lesão reconhecida e a mesa cirúrgica há um relógio, e a referência clássica que a própria neurocirurgia brasileira lista em suas diretrizes é um trabalho cujo título já diz o achado — a redução importante de mortalidade em doentes comatosos tratados dentro de quatro horas.

No idoso, porém, a mesma lesão muda de cara. Com atrofia, uma queda da própria altura basta para romper a veia-ponte, e o cérebro embaixo pode estar quase intacto: aparece então um subdural agudo com pouco parênquima lesado, num doente que às vezes ainda conversa. É o caso em que a decisão cirúrgica é mais favorável e mais frequentemente adiada, porque o quadro clínico não assusta. A régua de tamanho existe e é brasileira: a diretriz estadual capixaba manda considerar drenagem no hematoma subdural com mais de 1 cm de espessura, e no epidural com mais de 1,5 cm.

Uma última forma da mesma lesão fecha a seção porque é a que mais aparece na enfermaria e a que menos se ensina: o subdural agudo sobre crônico. Um doente que já tinha uma coleção crônica cai de novo, ou apenas sangra mais forte de uma vez a partir da própria cápsula, e a imagem mostra sangue novo, denso, dentro de uma coleção antiga, hipodensa. Ele piora em horas depois de semanas de estabilidade, e é o único dos crônicos que vira urgência de verdade.

O subdural crônico: o que a família descreve e o que o interno escreve

Esta é a apresentação que dá título ao capítulo e é a que o Internato mais deixa passar — e o motivo não é ignorância, é ausência de encaixe. O doente não se apresenta como neurológico. Ele se apresenta como um idoso que piorou, e o serviço tem um nome pronto para idoso que piora.

A série de Brasília mede o que ele traz. Entre os 778 operados, cefaleia foi o sintoma mais frequente (458 casos, 58,9%), seguida de alteração de comportamento (272, 35%) e hemiparesia (271, 34,8%); distúrbio cognitivo apareceu em 176 (22,6%) e crise convulsiva em apenas 20 (2,6%). E a estratificação por idade dá o essencial: alteração de comportamento foi significativamente mais frequente acima dos 65 anos do que abaixo — 38,7% contra 22%. A série de São Paulo diz o mesmo com outras palavras: nos que tinham 65 anos ou mais, o distúrbio de consciência foi o achado mais comum; nos mais jovens, foi a cefaleia.

Traduza isso para a linguagem da acompanhante e o quadro fica reconhecível. Ela não diz alteração de comportamento: ela diz que ele ficou quieto, ou emburrado, ou preguiçoso, ou que não quer mais sair. Ela não diz distúrbio cognitivo: diz que ele repete pergunta e esqueceu o caminho de casa. Ela não diz hemiparesia: diz que ele arrasta o pé, ou que derruba as coisas de um lado só, ou que a mão fica meio boba. E ela não diz nada sobre a queda, porque para ela a queda foi um episódio banal que já passou. O interno que espera pelas palavras técnicas não vai ouvi-las nunca.

Duas coisas separam esse quadro de uma demência, e as duas se obtêm sem exame. A primeira é o tempo: seis semanas, dois meses, três meses. Doença degenerativa não faz isso — ela leva anos, e quando parece rápida é porque alguém só reparou agora. Piora cognitiva que a família consegue datar por mês, e não por ano, muda de categoria. A segunda é a assimetria: demência não produz um lado mais fraco, uma mão que cai no teste dos braços estendidos, um pé que raspa. Déficit focal em quem está sendo chamado de demente é um achado neurocirúrgico até prova em contrário. Some a essas duas a incontinência urinária de instalação recente e o quadro deixa de ser sutil.

Há uma terceira apresentação, mais rara e mais traiçoeira, que vale nomear: a flutuação. A coleção crônica pode produzir dias melhores e dias piores, com o doente lúcido pela manhã e confuso à tarde, o que faz o serviço registrar delirium e procurar infecção. Delirium no paciente internado tem capítulo próprio, nas Síndromes do Paciente Internado, e a maior parte dos casos flutuantes é dele mesmo; mas delirium sem fator precipitante identificado, em idoso com déficit focal ou com queda nas últimas semanas, é indicação de olhar dentro da cabeça antes de fechar o diagnóstico.

Por fim, o inverso do que todo mundo espera: ausência de cefaleia não afasta nada. Na série de São Paulo, entre os doentes com 65 anos ou mais a cefaleia foi o sintoma menos frequente dos três principais. O idoso com subdural crônico frequentemente não tem dor de cabeça alguma, e é justamente por isso que ele não vai ao pronto-socorro por conta própria — quem o traz é a filha, e o que ela traz é a queixa dela, não a dele.

Quem bateu a cabeça usando anticoagulante ou antiagregante

No traumatismo craniano leve, anticoagulação reduz o limiar para a tomografia inicial. Após TC sem hemorragia e exame neurológico no estado basal, a ACEP 2023 não recomenda repetição de TC nem internação apenas pelo uso de anticoagulante. A decisão muda com piora, sintomas persistentes relevantes, INR excessivo, outras lesões, dificuldade de observação em casa ou outra indicação clínica. Individualize observação e repetição, registre os motivos e forneça sinais de retorno. Isso não se aplica à deterioração neurológica, que exige reavaliação imediata.

O problema é anterior à régua: descobrir que o doente é anticoagulado. Quem chega confuso não conta, e a família muitas vezes não sabe o nome do remédio — sabe que é um comprimidinho, ou o remédio do coração, ou o que ele toma por causa da arritmia. Peça a caixa, a receita, a foto no celular, o cartão do ambulatório de anticoagulação. Se houver comprimido cortado ao meio, é sinal de dose fracionada, o que aponta para antagonista da vitamina K muito mais do que para qualquer outra coisa. E pergunte também pelo antiagregante, que quase ninguém considera remédio: o ácido acetilsalicílico de 100 mg é comprado sem receita, tomado por conta própria, e nunca aparece quando se pergunta se ele toma algum medicamento.

Há uma armadilha de escala aqui e ela merece ser dita com clareza. O anticoagulado não é apenas um doente com mais risco de sangrar: ele é um doente cuja régua de imagem é outra. A diretriz estadual capixaba manda avaliar de forma individualizada o usuário de antiagregante, de anticoagulante ou com distúrbio de coagulação, e as regras de decisão validadas para dispensar tomografia no traumatismo leve foram construídas em populações que excluíam esse grupo — quer dizer, elas não respondem a pergunta nenhuma sobre ele. A régua de imagem no trauma agudo, com os critérios completos, é do capítulo Trauma cranioencefálico.

E há o que a série de Brasília sugere sobre o Brasil. Naquele hospital, apenas 3,5% dos operados de subdural crônico estavam anticoagulados ou tinham coagulopatia, contra 41% de uma série suíça que os próprios autores citam para comparação. Os autores atribuem a diferença a registro incompleto e a deficiências brasileiras no diagnóstico das doenças que exigem essas drogas e na distribuição delas. Seja qual for a explicação, a consequência para o interno é a mesma: aqui, a informação sobre anticoagulação chega ao prontuário com menos frequência do que o doente a carrega no bolso.

A criança, e a coleção que não é acidente

A criança pequena com coleção subdural exige um raciocínio diferente e ele cabe em poucas linhas, porque a maior parte do assunto tem dono. No lactente de fontanela aberta a caixa ainda cede, de modo que a coleção é acomodada pelo crescimento do crânio e não pela subida da pressão: o que aparece não é rebaixamento, e sim perímetro cefálico cruzando percentis, fontanela tensa, irritabilidade e vômito. A vigilância por fita métrica, os sinais federais por faixa etária e a ultrassonografia transfontanela são do capítulo A tríade chega tarde, aqui ao lado, que os expõe por inteiro.

O que este capítulo acrescenta é a frase que o interno precisa ter pronta. Coleção subdural em lactente, sobretudo bilateral, sobretudo sem história de trauma que a explique, ou com história que não corresponde à idade e à mobilidade da criança, obriga a considerar violência antes de qualquer outra hipótese — e obriga a comunicar, que é obrigação legal e não escolha clínica. Isso não é diagnóstico do interno e não é acusação: é a colocação da hipótese no prontuário e o acionamento de quem avalia. O tema tem capítulo próprio e é para lá que se vai.

A outra criança deste capítulo já foi operada. Quem tem derivação ventricular pode desenvolver coleção subdural pelo motivo oposto ao de todo mundo: hiperdrenagem. A válvula tira liquor demais, o encéfalo se afasta da dura e as veias-ponte se rompem exatamente como se rompem no idoso atrófico. A pista clínica está no que a posição faz com a dor: piora quando o paciente fica de pé e cede quando ele se deita, exatamente ao contrário do que a pressão alta produz. Esse cenário, com o manejo da válvula, é do capítulo A tríade chega tarde.

O que este capítulo não cobre, e onde está

O trauma agudo não é daqui. As duas primeiras horas de quem acabou de bater a cabeça pertencem inteiras ao capítulo Trauma cranioencefálico, da apostila de Trauma: a pontuação da escala de coma item por item, a régua nacional de quem vai para a tomografia, as faixas de gravidade, os alvos fisiológicos que evitam a lesão secundária, a terapia hiperosmolar com dose e tempo, o ácido tranexâmico e a profilaxia de crise no traumatizado. Ele é dono do doente que acabou de bater a cabeça; este capítulo é dono da coleção de sangue como entidade — a taxonomia, o relógio de cada uma e, sobretudo, a crônica sem trauma aparente. A sequência primária e os adjuntos de sala são do Atendimento inicial ao politraumatizado; a técnica e as drogas da intubação, do Via aérea no trauma.

A hipertensão intracraniana não traumática, a hidrocefalia, as medidas gerais que reduzem pressão e a terapia hiperosmolar fora do trauma são do capítulo A tríade chega tarde, posição 1 desta apostila. Ele é dono do mecanismo e da vigilância neurológica seriada, e este capítulo usa os dois sem os reescrever: quando uma coleção deste capítulo produz hipertensão intracraniana, o que se faz enquanto a cirurgia não vem está lá.

O sangramento dentro do cérebro e no espaço subaracnóideo não é daqui. O acidente vascular cerebral hemorrágico e a hemorragia subaracnóidea serão capítulos próprios; enquanto não existirem, quem chega com a pior dor de cabeça da vida encontra porta no Cefaleia no pronto-socorro; quem chega rebaixado sem explicação, no Alteração do nível de consciência; e quem chega com déficit e relógio correndo, no Déficit neurológico focal agudo — os três nas Síndromes do Paciente na Emergência. O acidente vascular isquêmico, com janela e trombólise, é do AVC isquêmico agudo, da Neurologia.

A investigação da piora cognitiva é do capítulo A queixa é da filha, da Geriatria, e a fronteira entre os dois é a bifurcação deste capítulo: lá está o rastreio cognitivo, a bateria de causas reversíveis, os instrumentos e o diagnóstico das demências; aqui está o que se faz quando a imagem pedida por aquele capítulo mostra uma coleção. Os dois se apontam de propósito. O delirium é do Delirium no paciente internado, e a queda em si — a investigação da causa, a prevenção, o que se faz com quem cai — é do Queda do paciente internado e, quando há fratura de quadril, do O relógio começa na queda, da Ortopedia.

A anticoagulação e a antiagregação são de outros capítulos: a indicação, o alvo e o seguimento estão na Fibrilação atrial e nos demais capítulos de Cardiologia, e a leitura dos testes, os produtos de reversão e as doses estão no Coagulograma, da Interpretação de Exames à Beira do Leito, e na Trombose venosa profunda. Este capítulo assume só a fatia que é sua e a declara: a decisão de reverter diante de sangramento intracraniano — quem reverte, com que pressa, e o que existe no Brasil para reverter com.

Quem convulsiona vai para O cronômetro e a segunda dose, da Neurologia. Quem não acorda mais tem, em A morte que ainda respira, da Medicina Legal e Bioética, o protocolo que só se abre depois de uma palavra: irreversível. E é justamente aí que este capítulo trava a porta — coleção drenável em cima da mesa impede que essa palavra seja usada. Já a escolha de não operar alguém muito idoso, quando ela é escolha de fim de vida, pertence a Cuidados paliativos e dor oncológica e a O que continua quando se decide parar; daqui vem só o que antecede essa conversa, que é a certeza de haver uma lesão tratável a discutir.

Resta o que fica sob a responsabilidade daqui, por não haver outro dono no nível inteiro, e fica declaradamente: a taxonomia das três coleções e o que a forma de cada uma diz sobre o vaso roto; o intervalo lúcido como fenômeno de reserva de espaço; o hematoma subdural crônico inteiro — apresentação, investigação, decisão e conversa; a bifurcação entre piora cognitiva subaguda e coleção; a régua de observação do anticoagulado que bateu a cabeça; a reversão diante de sangramento intracraniano até a fronteira do produto; e o limite exato entre o que o interno reconhece, o que ele registra e o que ele não decide.

06

Como fechar o diagnóstico

Vale começar por uma inversão. O exame que mais falta neste capítulo não é de imagem: é a pergunta. A tomografia, quando pedida, praticamente sempre responde. O que falha é a etapa anterior, em que alguém precisa desconfiar o suficiente para pedi-la num doente que não parece caso de imagem.

Isso não é impressão. O documento federal mais recente para o idoso com queixa cognitiva na atenção primária lista os exames que excluem causas reversíveis e termina em neuroimagem, se disponível; a categoria em que a coleção subdural se encaixa aparece nele apenas como a palavra estruturais, entre parênteses, e as palavras hematoma, subdural, queda e trauma não aparecem nenhuma vez no documento inteiro. O caderno federal de 2006 sobre saúde da pessoa idosa faz o contrário e chega mais perto: nomeia o hematoma subdural crônico entre as causas reversíveis de demência e entre as complicações da queda, e avisa que a demora em tratar converte o reversível em irreversível — mas em 192 páginas as palavras tomografia e ressonância não aparecem uma única vez. Um documento nomeia a doença e não nomeia o exame; o outro nomeia o exame e não nomeia a doença. Nenhum dos dois manda perguntar sobre queda.

A pergunta que vale mais que o exame

Existe uma frase que muda a probabilidade deste diagnóstico mais do que qualquer achado de exame físico, e ela custa dez segundos: alguém já viu essa pessoa no chão nos últimos três meses? Repare no que ela evita. Não pergunta se caiu, porque quem tem a memória comprometida não sabe e quem tem vergonha nega. Não pergunta se bateu a cabeça, porque a resposta exige que a pessoa tenha registrado o impacto. Pergunta por um fato observável por terceiros, e por isso ela é feita ao acompanhante, não ao doente.

Se a resposta for não, insista mudando o objeto: apareceu algum roxo, algum galo, algum corte no couro cabeludo? Alguém teve que ajudar a levantar? Houve alguma vez em que ele não soube explicar como se machucou? Na série de Brasília, mais de um terço dos doentes operados chegou sem origem determinada, e outra parcela tinha coagulopatia sem trauma nenhum; nesses, nenhuma pergunta encontraria a queda, porque ela não existiu. Mas nos que caíram, a queda estava lá — e o que a manteve invisível foi ninguém ter perguntado desse jeito.

A segunda pergunta é sobre o relógio, e ela também é do acompanhante: desde quando ele está assim, e em que mês ele ainda estava bem? Uma resposta em meses é diferente de uma resposta em anos, e essa diferença sozinha reordena a lista de hipóteses. A terceira é sobre a caixa de remédios, e a resposta útil não é uma lista falada: é a sacola trazida de casa. A quarta é sobre álcool, que na série de São Paulo estava presente em 19% dos doentes — e que aqui não é fator de estilo de vida, é fator de atrofia e de hemostasia.

A imagem: forma, densidade, lado e desvio

O exame é a tomografia computadorizada de crânio sem contraste, e no subdural crônico ela resolve praticamente tudo: na série de São Paulo, 92% dos diagnósticos foram feitos por tomografia e apenas 8% exigiram ressonância. Diante de uma coleção, quatro atributos organizam a leitura e o interno deve saber lê-los no laudo mesmo sem abrir a imagem.

A forma diz o compartimento. Coleção biconvexa, em lente, limitada por suturas, é epidural. Coleção em foice, acompanhando a curva do crânio e cruzando as linhas de sutura, é subdural. Essa distinção não é estética: ela indica o vaso, e portanto o relógio.

A densidade diz a idade. Sangue recente é mais denso que o parênquima e aparece claro; com o passar dos dias ele vai se degradando e clareando na escala até ficar mais escuro que o cérebro. O artigo brasileiro de São Paulo, citando uma série de mil casos, registra a distribuição no subdural crônico: hipodenso em 70,5%, com várias densidades em 19,6%, isodenso em 7,5% e hiperdenso em 2,4% — as quatro somando exatamente 100%. Coleção de densidades misturadas, com um componente claro dentro de um escuro, é sangramento novo dentro de coleção antiga, e essa é a que muda de urgência.

O lado importa por um motivo prático: o déficit é do lado oposto à coleção, e a pupila que dilata é do mesmo lado dela. Nas duas séries brasileiras a distribuição entre direita e esquerda é praticamente igual, e a bilateralidade é frequente — 22,3% em Brasília e 16% em São Paulo. Coleção bilateral é a que mais engana, porque ela comprime dos dois lados e o doente não fica assimétrico: fica só lento, e o desvio de linha média pode ser mínimo mesmo com muito sangue.

O desvio das estruturas da linha média é a medida de quanto essa coleção está de fato empurrando, e é o número que o neurocirurgião vai pedir por telefone. Ele estava descrito em 42% dos doentes da série de São Paulo — e naquele estudo não houve diferença estatística de prognóstico entre quem tinha e quem não tinha, o que é um bom lembrete de que desvio pequeno não autoriza tranquilidade num doente que está piorando.

A coleção que a tomografia quase não mostra

Há dois cenários em que a tomografia sem contraste pode ser lida como normal com uma coleção presente, e os dois aparecem justamente no doente deste capítulo. O primeiro é o hematoma isodenso: no intervalo em que o sangue já perdeu densidade mas ainda não ficou francamente escuro, ele fica com o mesmo tom do cérebro e some no fundo. O que o denuncia então não é a coleção, e sim o que ela faz: apagamento dos sulcos de um lado, o ventrículo daquele lado comprimido, a linha média empurrada, a interface entre substância cinzenta e branca deslocada para dentro.

O segundo é o bilateral. Com coleções dos dois lados, o efeito de massa se cancela, a linha média fica no lugar e o achado mais chamativo desaparece; sobra um cérebro que parece comprimido de fora para dentro, com sulcos apagados nos dois lados e ventrículos estreitos. É a apresentação de imagem mais fácil de assinar como normal, e ela é mais frequente do que se imagina — quase um quarto dos casos na série de Brasília.

A consequência prática é uma frase que o interno deve saber dizer ao radiologista e escrever no pedido: a pergunta clínica é coleção extra-axial, e a suspeita é subdural crônico. Um pedido escrito como investigar demência produz um laudo diferente de um pedido escrito como idoso com déficit focal e queda há dois meses, investigar coleção subdural. O artigo brasileiro registra que a ressonância é indicada exatamente para esses dois casos — o isodenso e o bilateral —, e é esse o argumento com que se pede a ressonância quando a tomografia veio normal e o quadro não fecha.

O laboratório que decide, e a sacola de remédios que decide mais

A investigação laboratorial aqui é curta e cada exame tem função declarada, o que é diferente de pedir um painel. Glicemia capilar diante de qualquer rebaixamento, sem exceção — e sobretudo quando a lesão na imagem já parece explicar tudo. Sódio, porque a hiponatremia copia a coleção sintoma por sintoma, com confusão e sonolência, e é frequente no idoso que toma diurético. Função renal, hemograma e função hepática, que aqui não são rotina: são o que separa um doente operável de um doente que vai precisar de preparo.

E o coagulograma, que neste capítulo tem um papel específico e não é o de triagem. Ele existe para responder três perguntas de conduta: este doente está anticoagulado a ponto de a coleção continuar crescendo, é possível operá-lo agora, e o que precisa ser corrigido antes. A leitura do exame, o que cada teste mede, o que a relação normatizada internacional significa fora de quem usa antagonista da vitamina K, e por que ela não serve para inibidor direto do fator Xa pertencem ao capítulo Coagulograma, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e não se reescrevem aqui.

O que é deste capítulo é a ordem em que essas informações chegam. O coagulograma demora; a sacola de remédios chega em vinte minutos, se alguém pedir. E é a sacola que muda a conduta primeiro, porque ela diz qual é a droga — e a droga determina se existe reversão possível, quanto ela demora e o que precisa ser pedido ao banco de sangue. Um doente em uso de anticoagulante oral direto e um doente em uso de antagonista da vitamina K têm relações normatizadas internacionais que se leem de maneiras diferentes e reversões completamente diferentes; descobrir isso pelo exame é lento, descobrir pela caixa é imediato.

Uma nota sobre o que não pedir. Radiografia simples de crânio não responde a pergunta deste capítulo: crânio radiologicamente íntegro convive com hematoma, e fratura linear isolada não determina conduta. A diretriz brasileira de 2001 que estratifica o traumatismo leve ainda a inclui no fluxo de triagem, e isso é um bom retrato da idade da régua nacional: o documento de sociedade que mais perto chega de governar estas lesões foi elaborado quando a tomografia era recurso escasso.

Quem se investiga, e por que a lista de quem não se investiga é curta

No traumatismo craniano leve, anticoagulação reduz o limiar para a tomografia inicial. Após TC sem hemorragia e exame neurológico no estado basal, a ACEP 2023 não recomenda repetição de TC nem internação apenas pelo uso de anticoagulante. A decisão muda com piora, sintomas persistentes relevantes, INR excessivo, outras lesões, dificuldade de observação em casa ou outra indicação clínica. Individualize observação e repetição, registre os motivos e forneça sinais de retorno. Isso não se aplica à deterioração neurológica, que exige reavaliação imediata.

A lista de quem não precisa de imagem é curta de propósito, porque a razão da omissão quase nunca é uma regra: é a fila, o custo e a impressão de que não vale a pena investigar um idoso. Vale a pena, e o argumento é o desfecho, não a esperança: entre os 778 operados em Brasília, 88,3% tiveram boa recuperação e a internação teve mediana de quatro dias. É um dos melhores números de qualquer doença deste nível, e ele existe exatamente porque alguém pediu a imagem.

Um contraponto honesto, que também é do capítulo. Nem toda coleção precisa ser drenada, e nem todo achado muda o que se faz hoje. O serviço de Brasília operava quando a espessura passava de 10 mm, quando havia sintoma focal, ou quando havia mudança neurológica significativa em qualquer espessura — o que quer dizer que existe uma faixa de doentes com coleção pequena e sem déficit em que a conduta é acompanhar, e essa decisão é do neurocirurgião. Pedir a imagem não é o mesmo que indicar operação; é o que permite a alguém decidir com informação.

O que fazer quando falta o tomógrafo, e quando falta o neurocirurgião

As duas faltas são diferentes e exigem condutas opostas, e confundi-las é comum. Sem tomógrafo, a indicação de imagem não desaparece — ela muda de destino: em vez de disparar o exame, dispara a transferência ou a observação com exame neurológico seriado e hora anotada. A diretriz estadual capixaba diz isso de forma explícita para o serviço sem neurocirurgião: providenciar transferência para unidade com atendimento de emergência em neurocirurgia, havendo estabilidade clínica para tal.

Sem neurocirurgião mas com tomógrafo — que é a situação da maioria dos hospitais brasileiros de porte médio — a conduta é oposta: faça o exame primeiro. Um doente transferido com laudo é um doente que a regulação classifica; um doente transferido sem laudo é um pedido de vaga sem argumento, e a fila trata os dois de maneira diferente. O tempo gasto esperando o técnico do tomógrafo é quase sempre menor do que o tempo gasto conseguindo vaga sem imagem.

Há um único cenário, e ele é raro, em que a neurocirurgia brasileira admite operar sem imagem: o doente em coma com sinal pupilar e sem possibilidade de tomografia antes de uma cirurgia geral imprescindível, em que se preconiza trepanação diagnóstico-terapêutica temporal do lado da pupila dilatada. O documento que descreve isso é de 2002 e traz os números que justificam o lado escolhido: numa série de 210 doentes com traumatismo grave e assimetria pupilar, 30% a 43% tinham hematoma intracraniano, e em 64% a 73% a lesão era do mesmo lado da pupila — restando de 27% a 36% do lado oposto, proporção que o próprio documento chama de não desprezível. Isso não é conduta de interno em nenhuma circunstância, e está aqui por uma razão só: para que ninguém interprete a ausência de neurocirurgião como ausência de opção, e para que o pedido de transferência seja feito com o peso que ele tem.

E a regulação, que é a etapa que o interno de fato executa. A guia precisa conter, em texto e não em código: a hora do início dos sintomas ou da queda, o exame neurológico atual com os três componentes da escala de coma escritos separadamente e com a hora ao lado, o exame anterior para que a comparação exista, o laudo ou a descrição da imagem com forma, lado, espessura e desvio de linha média, e a lista de medicamentos com destaque para anticoagulante e antiagregante. Uma guia com essas cinco coisas é aceita mais rápido do que uma guia com o diagnóstico escrito em caixa e nada mais.

07

As réguas das coleções intracranianas

Quatro quadros e um fluxo, com a conferência das contas de cada documento logo abaixo. O primeiro quadro é a taxonomia que governa o capítulo inteiro. O segundo é a bifurcação que dá título a ele: o que, num idoso que piorou, aponta para coleção e o que aponta para demência. O terceiro põe lado a lado as réguas brasileiras que de fato existem, com o que cada uma não cobre. O quarto traduz prescrição em ampola e frasco, num adulto de 66 quilos, contra a apresentação real e contra o elenco nacional.

  1. 1Antes de qualquer hipótese estrutural: glicemia capilar, saturação, pressão arterial, temperatura e sódio. Rebaixamento com hipoglicemia é hipoglicemia até a glicose correr e o exame se refazer.
  2. 2Exame neurológico completo com a hora ao lado, e escrito de forma comparável: escala de coma com os três componentes separados, pupilas com diâmetro em milímetros, força nos quatro membros e teste de queda dos braços estendidos. É a linha de base contra a qual tudo o que vier depois será lido.
  3. 3Ao acompanhante, não ao doente, três perguntas: alguém já viu essa pessoa no chão nos últimos três meses; em que mês ela ainda estava bem; e o que tem dentro da sacola de remédios de casa. A terceira exige que alguém vá buscar a sacola.
  4. 4Tomografia de crânio sem contraste, com a pergunta clínica escrita no pedido — coleção extra-axial, e a suspeita. Pedido escrito como investigar demência produz laudo diferente de pedido escrito como idoso com déficit focal e queda há dois meses.
  5. 5Do laudo, retire e anote quatro coisas: forma (lente ou foice), densidade (clara, escura ou misturada), lado, e desvio da linha média em milímetros. São os quatro dados que o neurocirurgião vai pedir por telefone.
  6. 6Com coleção confirmada: acione a neurocirurgia ou a regulação antes de completar a investigação, e em paralelo estabeleça por escrito o intervalo de reavaliação e os gatilhos. Reavaliar se piorar não é conduta, porque delega ao doente rebaixado a tarefa de avisar que rebaixou.
  7. 7Havendo anticoagulante ou antiagregante em uso, a pergunta sobre reversão entra na primeira hora, não depois do exame de coagulação — o coagulograma diz quanto, a caixa de remédios diz o quê, e é o quê que determina se existe reversão possível.
  8. 8Sem neurocirurgião no serviço: faça a imagem antes de pedir vaga, e monte a guia com hora do início, exame atual, exame anterior, descrição da imagem e lista de medicamentos. Sem tomógrafo: a indicação não desaparece, muda de destino — vira transferência ou observação com exame seriado e hora anotada.
ColeçãoOnde fica e de que vaso vemForma na tomografiaRelógioO que decide a conduta
Epidural (extradural)Entre o osso e a dura-máter, num espaço que só existe depois que alguma coisa descola a dura. Quase sempre arterial, tipicamente da artéria meníngea média, e quase sempre com fratura associadaLente biconvexa, limitada pelas suturas, que cresce para dentroHoras. Sangue arterial descola dura sob pressão sistêmicaO tempo até a drenagem. A diretriz estadual capixaba manda considerar drenagem acima de 1,5 cm de espessura. O intervalo lúcido, quando existe, mostra função preservada naquele momento, sem medir a reserva nem excluir expansão
Subdural agudoEntre a dura e a aracnoide, num plano que se dissecca com facilidade. Venoso, das veias-ponte, rompidas por aceleração e desaceleraçãoFoice fina e alongada, acompanhando a curva do crânio e cruzando as suturasMinutos a horas, mas a gravidade vem do parênquima lesado embaixo, não do volume de sangueA drenagem acima de 1 cm pela mesma régua estadual, e o estado do cérebro embaixo. No idoso atrófico a mesma lesão vem de trauma trivial, com parênquima quase intacto — e é a versão mais operável e mais adiada
Subdural crônicoMesmo plano, mesma veia-ponte, mas em cérebro atrófico: o sangramento é mínimo, para sozinho, e depois se organiza dentro de uma cápsula com vasos novos que voltam a sangrarFoice larga, escura na maioria dos casos; isodensa ou de densidades misturadas numa parte deles; bilateral em cerca de um quinto a um quartoSemanas a meses. Não é evento: é processo, alimentado por micro-sangramentos repetidos da própria cápsulaO reconhecimento, que é onde ele se perde. Depois disso a doença é boa: trepanação com dreno fechado em mais de 94% das duas séries brasileiras, boa recuperação em 88,3% da maior delas, alta em mediana de quatro dias

Idoso que piorou: para onde cada dado aponta

DadoAponta para coleçãoAponta para demênciaComo se obtém
Velocidade da pioraA família data por mês: estava inteiro em julho, piorou em agosto e setembroA família data por ano, ou não consegue datar: vem piorando desde antes da pandemiaPergunta ao acompanhante: em que mês ele ainda estava bem?
Simetria do exameUm lado mais fraco, uma mão que cai no teste dos braços estendidos, um pé que raspa, desvio da comissuraExame motor simétrico. Demência não faz hemiparesiaForça nos quatro membros e teste de queda dos braços estendidos com olhos fechados
Queda nos últimos três mesesAlguém viu no chão, ou apareceu galo, roxo ou corte no couro cabeludo sem explicaçãoSem queda, ou queda só depois de a marcha já estar alterada há muito tempoPergunta feita ao acompanhante pelo fato observável, nunca ao doente pelo impacto
Anticoagulante, antiagregante ou álcoolQualquer um dos três presentes, e os três aumentam a chance de a coleção existir e de continuar crescendoNão distingue: os três também são comuns em quem tem demênciaSacola de remédios trazida de casa, receita, foto no celular; e pergunta direta sobre bebida
CefaleiaProgressiva, pior ao acordar, pior a tossir ou abaixar a cabeça. Mas a ausência não afasta: acima dos 65 anos ela é o menos frequente dos três sintomas principaisHabitualmente ausente, e quando presente costuma ser antiga e do mesmo padrão de sempreAnamnese sobre padrão e horário, não sobre intensidade
Flutuação ao longo do diaExiste e pode ocorrer, mas não é o que distingue: coleção crônica flutuaDelirium sobreposto flutua muito mais, e tem capítulo próprio nas Síndromes do Paciente InternadoRelato da noite e da manhã, e comparação com a evolução da enfermagem
Incontinência urinária de instalação recenteSomada a marcha alterada e lentificação, compõe um quadro que é frontal e é estrutural até prova em contrárioAparece, mas tarde, quando o quadro cognitivo já é gravePergunta ao acompanhante sobre quando começou, e sobre o que veio antes

As réguas brasileiras que existem para estas lesões — e o que cada uma deixa de fora

DocumentoO que ele fixaO que ele não cobre
Diretrizes Clínicas de trauma da Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, versão 2018, Quadro 16Considerar drenagem: epidural acima de 1,5 cm de espessura; subdural acima de 1 cm; hematoma intracerebral acima de 20 mL nas regiões frontal e temporal e acima de 50 mL nas demais. Acionar neurocirurgia no traumatismo grave, moderado e leve de médio e alto risco, e transferir quando o serviço não temÉ régua de trauma agudo. Não trata da coleção crônica, não trata de quem chegou sem trauma, e mede duas lesões por espessura e a terceira por volume sem dar a conversão entre as duas grandezas
Projeto Diretrizes da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia — traumatismo leve, 31 de agosto de 2001No traumatismo craniano leve, anticoagulação reduz o limiar para a tomografia inicial. Após TC sem hemorragia e exame neurológico no estado basal, a ACEP 2023 não recomenda repetição de TC nem internação apenas pelo uso de anticoagulante. A decisão muda com piora, sintomas persistentes relevantes, INR excessivo, outras lesões, dificuldade de observação em casa ou outra indicação clínica. Individualize observação e repetição, registre os motivos e forneça sinais de retorno. Isso não se aplica à deterioração neurológica, que exige reavaliação imediata.Nomeia o distúrbio de coagulação e não nomeia a idade: o único critério etário do documento é idade inferior a dois anos, no grupo de médio risco. Ainda usa a radiografia simples de crânio no fluxo de triagem
Projeto Diretrizes da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia — traumatismo grave e situações especiais, 2002Prioriza o diagnóstico dos hematomas extracerebrais, sobretudo o extradural; descreve a trepanação diagnóstico-terapêutica temporal do lado da pupila dilatada quando não há tomografia possível antes de uma cirurgia geral imprescindível, com o procedimento contralateral se a primeira for negativaÉ documento de doente em coma e em choque. Não fala de coleção crônica, não fala de idoso, e tem vinte e quatro anos
Protocolos de Acesso Ambulatorial do Ministério da Saúde, 2015 — seção de NeurocirurgiaFixa a fila da neurocirurgia com prioridades de P0 a P3 e lista os motivos de encaminhamento: cranioplastia, infecção do sistema nervoso central, fístula liquórica, hidrocefalia do adulto e da criança, neuralgia do trigêmeo, espasmo hemifacial, dor intratável, epilepsia refratária, tremor, aneurismas, acidente vascular hemorrágico, malformações e as linhas de colunaColeção intracraniana não está na lista, em nenhuma prioridade. Nas 188 páginas a palavra hematoma aparece duas vezes e nenhuma delas é craniana
Cadernos de Atenção Básica nº 19 — Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa, Ministério da Saúde, 2006Nomeia o hematoma subdural crônico duas vezes: entre as complicações da queda e entre as causas reversíveis de demência, ao lado da hidrocefalia de pressão normal e do tumor; e avisa que a demora em tratar converte o reversível em irreversívelEm 192 páginas as palavras tomografia e ressonância não aparecem uma única vez, e neuroimagem aparece uma vez, no diagnóstico da demência vascular. Nomeia a doença e não nomeia o exame que a encontra
Identificação da Demência na Atenção Primária, Ministério da Saúde, 2024Fluxograma de três etapas e lista de exames para excluir causas reversíveis, terminando em neuroimagem, se disponível; a categoria em que a coleção se encaixa aparece como a palavra estruturais, entre parêntesesAs palavras hematoma, subdural, queda, trauma e anticoagulante têm zero ocorrência no documento inteiro. É o instrumento federal mais novo para esse doente e não manda perguntar sobre queda
Relação Nacional de Medicamentos Essenciais 2024Constam varfarina sódica de 1 e 5 mg e ácido acetilsalicílico de 100 mg no Componente Básico; cloridrato de protamina 10 mg/mL no Básico; complexo protrombínico humano de 500 e 600 UI no Estratégico; fenitoína sódica 50 mg/mL injetável no Básico; cloreto de sódio a 20% no BásicoNão consta fitomenadiona — a vitamina K — em nenhuma grafia, nem manitol, nem os anticoagulantes orais diretos, nem seus antídotos. O ácido tranexâmico consta em uma única apresentação, comprimido de 250 mg

Da prescrição ao que existe na bandeja, num adulto de 66 quilos, conferido contra a apresentação real

O que se prescreveEm mL da apresentação realEm ampolas ou frascosConferência
Fenitoína sódica, ataque de 15 mg/kg por via endovenosa — a rotina publicada pelo serviço de Brasília após a drenagem do subdural crônico990 mg em solução de 50 mg/mL = 19,8 mL3,96 ampolas de 5 mL; na prática, 4 ampolas, que dão 1.000 mgA bula limita a infusão a 50 mg por minuto: 990 mg exigem no mínimo 19,8 minutos. A rotina publicada diz apenas por via endovenosa lenta, sem declarar taxa
Fenitoína sódica, manutenção de 100 mg por via endovenosa a cada 8 horas300 mg por dia = 6 mL por dia1,2 ampola de 5 mL por diaEstá dentro da manutenção usual da bula para a indicação de crises durante ou após neurocirurgia, que é de 300 a 400 mg por dia
Fenitoína sódica: o total do primeiro dia, somando ataque e manutenção1.290 mg = 25,8 mL5,16 ampolas de 5 mL no primeiro diaA mesma bula declara, para a indicação de crises durante ou após neurocirurgia, dose máxima de 600 mg por dia. O primeiro dia da rotina publicada entrega 2,15 vezes esse teto num doente de 66 quilos, e 2,25 vezes num de 70
Complexo protrombínico humano, 25 U/kg — a menor faixa de dose por relação normatizada internacional; a faixa e a indicação são do capítulo Coagulograma, e o que esta linha acrescenta é a conta de frascos1.650 UI3,3 frascos de 500 UI; pede-se 4 frascos, que dão 2.000 UIO elenco nacional só tem as apresentações de 500 e 600 UI; qualquer dose por peso vira número inteiro de frascos arredondado para cima, e sobra produto
Complexo protrombínico humano, 50 U/kg — a maior faixa3.300 UI6,6 frascos de 500 UI; pede-se 7 frascos, que dão 3.500 UISete frascos é um pedido que o banco de sangue precisa saber com antecedência. É um dos motivos de a pergunta sobre reversão entrar na primeira hora e não depois do coagulograma
Fitomenadiona (vitamina K) — a droga que a rotina publicada do serviço federal de Brasília usa para reverter na urgência, junto com plasma fresco congeladoSem apresentação a converterSem frasco a contarNão consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais 2024 em nenhuma grafia testada. O elenco dispensa a varfarina no Componente Básico e não lista o antídoto dela
Varfarina sódica em comprimido partido ao meio, achado dentro da sacola de remédiosComprimido de 5 mg partido = 2,5 mg1 comprimido de 5 mg partido, ou 2,5 comprimidos de 1 mg — as duas apresentações constam do elencoComprimido partido é assinatura de dose fracionada, que aponta para antagonista da vitamina K muito mais do que para qualquer outra classe. É informação clínica que chega antes do exame

Auditoria 1 — na maior série brasileira, as quedas somam 282 quando separadas por sexo e 250 quando separadas por idade. O artigo de Brasília declara 282 quedas em duas passagens, e a decomposição por sexo fecha exatamente: 60,7% das 135 mulheres são 82, 31,1% dos 643 homens são 200, e 82 mais 200 dão 282. A decomposição por idade, na mesma página, dá 154 doentes com 65 anos ou mais e 96 abaixo de 65, que somam 250. Faltam 32 quedas, ou 11,3% delas, entre uma decomposição e a outra da mesma variável. Nada no texto explica a diferença.

Auditoria 2 — as três faixas de gravidade do mesmo artigo cobrem 762 dos 778 doentes. A Tabela 1 declara escala de coma de 15 a 14 em 540 (69,4%), de 13 a 9 em 192 (24,7%) e de 8 a 3 em 30 (3,9%). A soma dos números absolutos é 762, e a das porcentagens é 98,0%. Dezesseis doentes não pertencem a nenhuma faixa, num intervalo — de 3 a 15 — que não deixa espaço para valor fora dele. Como a mesma tabela declara mediana 14 com intervalo interquartil de 13 a 15, os dezesseis ausentes provavelmente estão na faixa mais leve, mas isso é dedução deste capítulo e não está escrito no artigo.

Auditoria 3 — no mesmo artigo os lados estão trocados entre o texto e a tabela. O corpo dos resultados escreve coleção à direita em 293 doentes (37,7%) e à esquerda em 311 (40,0%); a Tabela 1 escreve exatamente o oposto, esquerda 293 (37,7%) e direita 311 (40,0%). Os totais fecham nos dois lugares — 293 mais 311 mais 174 dão 778 —, de modo que o erro não muda nenhuma conta: muda apenas qual lado o leitor guarda como mais frequente.

Auditoria 4 — a tabela de resultados pós-operatórios do mesmo artigo rotula a escala de desfecho como medida na admissão. A Tabela 3 se intitula resultados pós-operatórios e traz a linha escala de desfecho de Glasgow, mediana e intervalo interquartil, na admissão, com valor 5, que é a categoria de boa recuperação. Os métodos do próprio artigo declaram que essa escala foi registrada na alta. Uma escala de desfecho não tem valor de admissão, e uma mediana de boa recuperação medida na entrada de doentes que ainda seriam operados não descreve nada. O asterisco da linha remete a outra observação — a de que não houve doentes nas categorias 1 e 2 —, e não corrige o rótulo.

Auditoria 5 — as conferências que fecharam no artigo de Brasília, e são muitas. Sexo: 643 mais 135 dão 778. Faixas etárias: 336 mais 442 dão 778, com 43,2% e 56,8%. Origens: 282 mais 74 mais 35 mais 79 mais 27 mais 281 dão 778. Lados: 293 mais 311 mais 174 dão 778, com 37,7% mais 40,0% mais 22,3% igual a 100,0%. Desfecho: 687 mais 56 mais 35 dão 778, com 88,3% mais 7,2% mais 4,5% igual a 100,0%. Bilateralidade por idade: 26,5% de 336 dão 89,0 e 19,2% de 442 dão 84,9, somando 173,9 contra os 174 declarados. E a reconstrução mais exigente de todas: os desfechos ruins por gravidade — 50,0% de 30, mais 0,9% de 540, mais 7,8% de 192 — somam 34,8, contra os 35 doentes na categoria 3 da escala de desfecho. Um artigo cujas contas fecham nesse nível de detalhe é um artigo cujas quatro falhas acima merecem ser lidas como descuido de redação, não como fragilidade do dado.

Auditoria 6 — a mesma discrepância aparente entre 63,9% e 60,4% no artigo de Brasília, que se resolve e por isso vale registrar. Os resultados dizem que a origem foi determinada em 497 doentes (63,9%); a discussão diz que a história de trauma foi obtida em 60,4%. A diferença são exatamente os 27 doentes com coagulopatia ou anticoagulante sem trauma, que estão dentro da origem determinada e fora da história de trauma: 497 menos 470 dão 27, e 63,9% menos 60,4% dão 3,5%. As duas frases estão certas e descrevem coisas diferentes com nomes parecidos. É dessa reconciliação que sai a conta central deste capítulo: 281 sem origem mais 27 sem trauma dão 308 de 778, ou 39,6% chegando sem trauma para contar. Esse número é deste capítulo, não do artigo.

Auditoria 7 — no artigo de São Paulo, uma mesma frequência aparece com três valores e o do resumo não se reproduz. O resumo afirma que, entre os doentes com 65 anos ou mais, a alteração da consciência esteve presente em 63% dos casos. A Tabela 3 registra 45 doentes com distúrbio de consciência entre os 85 que tinham 65 anos ou mais, o que dá 52,9%; o corpo dos resultados apresenta o mesmo achado como 25,6%, que é 45 dividido por 176, isto é, pela amostra inteira. Os 63% do resumo não saem de nenhum dos dois denominadores que o artigo usa. Para os doentes abaixo de 65 anos o resumo é coerente: 44% são 40 de 91, 40% são 37 de 91 e 27,5% são 25 de 91 — todos com o denominador do subgrupo. Só a linha dos idosos escapa, e é justamente a que descreve o achado central do artigo.

Auditoria 8 — no mesmo artigo, os 20% de doença neurológica são um total no texto e um subtotal na tabela. O corpo escreve que 20% dos doentes tinham alguma doença neurológica, sendo 7,5% com doenças cerebrovasculares e 12,5% com malformações e neoplasias — e 7,5 mais 12,5 dão exatamente 20, o que faz do 20% um total que contém o 7,5%. A Tabela 1 traz duas linhas separadas: doenças neurológicas não vasculares, 20%, e doenças cerebrovasculares, 7,5%, o que faz do 20% um subtotal que exclui o 7,5% e leva o total a 27,5%. A diferença de 7,5 pontos percentuais corresponde a 13 doentes de 176.

Auditoria 9 — o mesmo artigo troca a escala no seguimento ambulatorial. Os métodos declaram que os parâmetros do acompanhamento foram a força muscular nos quatro membros e a escala de coma de Glasgow. Os resultados registram que o valor médio da escala de coma de Glasgow foi quatro no seguimento ambulatorial. Uma média de 4 na escala de coma descreveria sobreviventes em coma profundo, o que é incompatível com os 82% de boa recuperação que o mesmo artigo declara, e com a escala de coma pós-operatória que ele registra com média 14. A discussão resolve o enigma sem corrigir o texto: ela fala em escore ambulatorial maior do que 3, ou seja, com vida independente, que é a linguagem da escala de desfecho de Glasgow, cuja categoria 4 é justamente incapacidade moderada com vida independente. O número está certo e o nome da escala está errado.

Auditoria 10 — as duas séries brasileiras dão incidências que não podem ser ambas verdadeiras. O artigo de Brasília, na revisão de abertura, registra cerca de 3,4 por 100 mil abaixo dos 65 anos e de 8 a 58 por 100 mil acima dos 65. O artigo de São Paulo, na introdução, registra incidência de 0,0074% acima dos 70 anos, que convertido é 7,4 por 100 mil. O valor atribuído à faixa mais velha é menor que o piso atribuído à faixa mais nova e maior, e menor que o teto dela por um fator de 7,8. Nenhum dos dois números é dado brasileiro: ambos são citados de séries estrangeiras. O capítulo não escolhe entre eles e registra que a incidência desta doença no Brasil não está medida.

Auditoria 11 — zero e dez por cento de mortalidade, e por que as duas estão certas. A série de Brasília declara mortalidade pós-operatória de 0% em 778 doentes; a de São Paulo declara 10% de óbito, sendo 7,8 pontos percentuais por causas clínicas. As duas medem coisas diferentes: a primeira conta a morte atribuída à operação e o próprio artigo registra que não houve nenhum acompanhamento após a alta; a segunda conta toda morte no hospital, inclusive a infecção do décimo dia num doente de 80 anos. Os autores de Brasília, aliás, levantam a mesma ressalva a respeito da própria taxa de recidiva de 5,4%, atribuindo-a em parte à falta de seguimento. A leitura correta das duas é: a operação em si é segura, e o doente que a faz é frágil por outros motivos.

Auditoria 12 — a régua estadual mede duas lesões por espessura e a terceira por volume, e não dá a ponte. O Quadro 16 da diretriz capixaba fixa 1,5 cm para o epidural e 1 cm para o subdural, ambos em espessura, e 20 mL ou 50 mL para o hematoma intracerebral, em volume estimado. Espessura e volume não são comparáveis sem uma hipótese geométrica, e o documento não fornece nenhuma, nem indica o método de estimar o volume. Vale notar também a direção do corte: o limiar do epidural é 50% maior que o do subdural, isto é, tolera-se uma coleção arterial mais espessa antes de drenar do que uma venosa — o que é coerente com a prática internacional, em que o epidural tem outros critérios além da espessura, mas é contraintuitivo para quem lê a tabela sozinha.

Auditoria 13 — a rotina publicada de profilaxia de crise depois da drenagem entrega, no primeiro dia, mais que o dobro do teto que a própria bula brasileira declara para essa indicação. O serviço de Brasília descreve, como rotina após a operação, fenitoína 15 mg/kg por via endovenosa lenta seguida de 100 mg a cada 8 horas. A bula profissional brasileira da fenitoína sódica injetável tem uma entrada com o nome exato dessa indicação — crises convulsivas durante ou após neurocirurgia, tratamento e profilaxia — e prescreve para ela 100 a 200 mg por via intramuscular a cada quatro horas durante a operação, com manutenção usual de 300 a 400 mg por dia e dose máxima declarada de 600 mg por dia. Os 15 mg/kg são, na mesma bula, a dose de ataque do estado de mal epiléptico, e não da profilaxia. Num doente de 66 quilos a rotina entrega 990 mg de ataque mais 300 mg de manutenção, isto é, 1.290 mg no primeiro dia, ou 2,15 vezes o teto declarado; num de 70 quilos, 1.350 mg, ou 2,25 vezes. A mesma bula fixa taxa máxima de 50 mg por minuto, o que obriga a infusão de 990 mg a durar no mínimo 19,8 minutos — e a rotina publicada diz apenas por via endovenosa lenta.

Auditoria 14 — a régua federal de regulação não tem porta de entrada para esta doença. Os Protocolos de Acesso Ambulatorial do Ministério da Saúde organizam a fila da neurocirurgia com prioridades de P0 a P3 e listam nominalmente os motivos de encaminhamento, incluindo hidrocefalia do adulto como P0. Busca exata sobre o texto inteiro normalizado por espaço e hífen devolve a palavra hematoma duas vezes em 188 páginas, nenhuma delas craniana, e nenhuma ocorrência de subdural, de higroma ou de coleção intracraniana. Uma lesão cirúrgica com 88,3% de boa recuperação na maior série brasileira não tem linha na régua federal que decide quem entra na fila do neurocirurgião — e o caminho que sobra para ela é o pronto-socorro.

Auditoria 15 — os dois documentos federais que governam o idoso com piora cognitiva erram por lados opostos. O caderno de 2006 nomeia o hematoma subdural crônico entre as causas reversíveis de demência e entre as complicações da queda, e escreve que a demora em tratar converte o reversível em irreversível; mas em 192 páginas as palavras tomografia e ressonância não aparecem nenhuma vez, e neuroimagem aparece uma única vez, no diagnóstico da demência vascular. O instrumento de 2024, que é o mais novo e é citado pelo protocolo federal de doença de Alzheimer de 2025, faz o inverso: manda excluir causas reversíveis, cita neuroimagem com a ressalva se disponível, e as palavras hematoma, subdural, queda, trauma e anticoagulante têm zero ocorrência no documento inteiro. Nenhum dos dois manda perguntar se o doente caiu. Este capítulo assume essa pergunta e a declara como assumida.

Nota de fronteira, e não de auditoria. A faixa de dose do complexo protrombínico por relação normatizada internacional, a comparação entre plasma e complexo, a leitura da relação normatizada internacional fora de quem usa antagonista da vitamina K e os antídotos dos anticoagulantes orais diretos pertencem ao capítulo Coagulograma, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito. Daqui sai apenas uma coisa a respeito deles: a conta de frascos e a decisão de quando a pergunta sobre reversão entra na conduta. Do mesmo modo, os limiares de tamanho citados aqui vêm de um documento de trauma agudo e foram importados para uma discussão que inclui a coleção crônica, para a qual nenhum documento brasileiro de acesso público fixa limiar — a série de Brasília operava acima de 10 mm de espessura, ou com sintoma focal, ou com mudança neurológica em qualquer espessura, mas isso é rotina de um serviço, não régua nacional.

08

A conduta, hora a hora

A conduta deste capítulo tem uma característica que a torna própria do interno: quase nada nela é procedimento. O que muda desfecho aqui é reconhecer, registrar de forma comparável, perguntar o que ninguém perguntou, e acionar quem opera antes de a investigação estar completa. A operação é de outra pessoa; o tempo até ela é seu.

O relógio abaixo dispara no instante do reconhecimento, e esse instante quase nunca acontece na sala vermelha: acontece no corredor, na enfermaria ou no ambulatório, diante de alguém com cara de qualquer outra coisa. Uma ressalva antecede a lista inteira: doente sem reflexo que proteja a traqueia, ou rebaixado a ponto de não protegê-la, tem uma prioridade acima de tudo o que vem abaixo, e ela está no Via aérea no trauma.

O exame basal deve ocorrer junto da estabilização, sem aguardar todos os exames laboratoriais. Exame normal descreve função atual, não mede reserva intracraniana nem garante estabilidade futura. No hematoma subdural crônico, sintomas, efeito de massa, evolução e risco individual orientam discussão neurocirúrgica; uma espessura isolada não decide todos os casos. Corticoide não deve ser prescrito rotineiramente para resolver a coleção. Osmoterapia pode ser resgate de herniação, sem substituir evacuação quando indicada.

  1. Os primeiros dez minutos — corrigir o reversível, depois colher a linha de base

    Cinco coisas acontecem antes de qualquer hipótese estrutural, e nenhuma depende de imagem: glicemia capilar, saturação, pressão arterial, temperatura e — no idoso, sempre — sódio. Rebaixamento com hipoglicemia é hipoglicemia até a glicose correr e o exame se refazer, e hiponatremia produz confusão e sonolência indistinguíveis das que uma coleção produz. Junto com isso, cabeceira entre 30 e 45 graus e cabeça alinhada no eixo do corpo, que custa trinta segundos e não precisa de autorização de ninguém. Só então o exame neurológico significa alguma coisa — e ele precisa ser colhido de um jeito que permita comparação, porque o que ele informa não é o estado de agora, e sim o degrau que vai separá-lo do exame seguinte. Escala de coma com os três componentes escritos separadamente, e não só o total. Pupilas com diâmetro em milímetros e reatividade de cada lado. Força graduada nos quatro membros, e o teste em que o paciente estende os dois braços à frente de olhos fechados — é ele que denuncia a hemiparesia discreta de que o próprio doente não se deu conta. Marcha, se ele deambula. E a hora ao lado de tudo. No idoso que chegou por piora cognitiva, é este exame que separa o encaminhamento à geriatria do telefonema ao neurocirurgião.

    Prescrição
    • Glicemia capilar imediata; corrigir hipoglicemia antes de refazer o exame neurológico
    • Sódio sérico em todo idoso com confusão ou rebaixamento novo
    • Cabeceira a 30-45 graus, cabeça no eixo, nada apertando o pescoço
    • Escala de coma com abertura ocular, resposta verbal e resposta motora escritas separadamente, com a hora
    • Pupilas com diâmetro em milímetros; força nos quatro membros; teste de queda dos braços estendidos
  2. Nos primeiros vinte minutos — as três perguntas, e a sacola

    As perguntas são feitas ao acompanhante e não ao doente, e nessa ordem. Alguém já viu essa pessoa no chão nos últimos três meses? Em que mês ela ainda estava bem? E o que existe dentro da caixa de remédios de casa? A terceira exige ação: alguém precisa ir buscar a sacola, com tudo dentro, e trazer a última receita. Isso não é burocracia — é o exame que chega mais rápido. O coagulograma demora; a sacola chega em vinte minutos e diz qual é a droga, e é a droga que determina se existe reversão possível, quanto ela demora e o que precisa ser pedido ao banco de sangue. Se a resposta sobre a queda for não, reformule pelo achado: apareceu galo, roxo, corte no couro cabeludo, alguém teve de ajudar a levantar?

    Prescrição
    • Anamnese com o acompanhante: queda observada nos últimos três meses; mês em que o doente ainda estava bem
    • Solicitar formalmente que a família traga a sacola de medicamentos de casa e a última receita
    • Registrar no prontuário, com essas palavras, o que a família respondeu sobre queda — inclusive quando a resposta for não
  3. Assim que a suspeita se forma — a imagem, pedida com a pergunta escrita

    Tomografia de crânio sem contraste. O que muda o rendimento do exame não é o exame: é o pedido. Escreva a pergunta clínica — coleção extra-axial — e o que a sustenta: idade, tempo de evolução, déficit focal, queda referida, uso de anticoagulante. Um pedido que diz investigar demência produz um laudo sobre atrofia; um pedido que diz idoso com hemiparesia esquerda e queda há dois meses produz um laudo sobre a convexidade direita. Do resultado, retire quatro dados e anote-os separadamente: forma, densidade, lado e desvio da linha média em milímetros. Se a tomografia vier normal e o quadro não fechar, lembre que há duas coleções que ela quase não mostra — a isodensa e a bilateral — e que a ressonância é indicada exatamente para esses dois casos.

    Prescrição
    • Tomografia de crânio sem contraste, com a pergunta clínica escrita no pedido
    • Anotar do laudo: forma, densidade, lado e desvio da linha média em milímetros
    • Tomografia normal com quadro discordante: discutir ressonância pela hipótese de coleção isodensa ou bilateral
  4. Coleção confirmada — o telefonema antes da investigação terminar

    Acione a neurocirurgia, ou a regulação se não houver neurocirurgião no serviço, antes de completar exames. A informação que faz a vaga sair é curta: idade, tempo de evolução, exame neurológico atual e anterior com hora, os quatro dados da imagem, e a lista de medicamentos com destaque para anticoagulante e antiagregante. Em paralelo, estabeleça por escrito o intervalo de reavaliação e os gatilhos que mudam a conduta — queda de dois pontos na escala de coma, anisocoria nova, déficit focal novo ou piora do que já havia. Escrever reavaliar se piorar não é conduta: delega ao doente rebaixado a tarefa de avisar que rebaixou. E deixe registrado quem reavalia e a que horas.

    Prescrição
    • Contato com neurocirurgia ou regulação antes de completar a investigação, com os quatro dados da imagem em mãos
    • Intervalo de reavaliação escrito no prontuário, com nome de quem reavalia e horário
    • Gatilhos escritos: queda de 2 pontos na escala de coma, anisocoria nova, déficit focal novo ou piora do existente
  5. Sangramento intracraniano em quem usa anticoagulante — a decisão que entra na primeira hora

    Hemorragia intracraniana grave associada a anticoagulante exige suspensão e reversão urgente orientada pelo fármaco, última dose, função renal e protocolo do serviço. Na varfarina, prefere-se complexo protrombínico de quatro fatores associado a vitamina K intravenosa; plasma é alternativa quando o complexo não está disponível. Antídotos e alternativas para anticoagulantes diretos seguem o agente e a disponibilidade. INR normal não exclui efeito de anticoagulante direto. O médico responsável pode iniciar a reversão protocolada enquanto aciona especialistas; não esperar parecer para tratar sangramento com risco de vida. TC negativa, por si, não indica reversão rotineira: outras indicações devem ser avaliadas individualmente.

    Prescrição
    • Identificar a droga pela caixa, receita ou foto; registrar nome, dose e horário da última tomada
    • Coagulograma com relação normatizada internacional e contagem de plaquetas
    • Comunicar ao banco de sangue e à hematologia a possibilidade de reversão na primeira hora, antes do resultado
    • Revisar anticoagulantes e antiagregantes imediatamente. Em hemorragia confirmada, suspender e discutir reversão específica; em trauma leve com TC negativa, individualizar interrupção e risco trombótico, sem suspensão automática de todos os fármacos.
  6. Coleção crônica sem déficit — o que não se faz

    Osmoterapia pode ser resgate temporário em suspeita de herniação, sob protocolo e monitorização. Não trata definitivamente a coleção. Não usar corticoide rotineiramente para resolver hematoma subdural crônico. A indicação depende do quadro, e o acesso deve ser confirmado na farmácia; RENAME não é inventário hospitalar.

    Prescrição
    • Rever com quem indicou o anticoagulante se a indicação se mantém, sem suspender por conta própria
    • Não iniciar corticoide nem manitol para tratar a coleção
    • Reavaliação de imagem marcada e por escrito, com a data na alta
    • Folha de orientação ao acompanhante com os sinais que obrigam a voltar
  7. Piora aguda — a janela que fecha

    Quatro achados viram a mesa de uma vez: uma pupila que cresceu em relação à outra, o nível de consciência que despenca, membros em postura anormal, ou o conjunto de pressão que sobe com pulso que desacelera e respiração que perde o ritmo. Nada aqui é sequencial — tudo acontece junto: protege-se a via aérea, sobe-se a cabeceira e alinha-se a cabeça, anuncia-se em voz alta para a sala o que está ocorrendo, e refaz-se o contato com quem opera usando a palavra que abre porta, herniação. O resgate farmacológico, com dose, diluição e tempo, está no Trauma cranioencefálico; fora do trauma, no A tríade chega tarde. O que é deste capítulo é a informação que vai junto: o lado da pupila que dilatou é, na maioria das vezes, o lado da coleção — mas não sempre. O documento brasileiro que descreve a exploração cirúrgica guiada pela pupila registra que, numa série de 210 doentes com traumatismo grave e assimetria pupilar, a lesão era homolateral em 64% a 73% dos casos, restando de 27% a 36% do lado oposto, proporção que o próprio documento chama de não desprezível.

    Prescrição
    • Cabeceira a 30 graus, cabeça alinhada, via aérea protegida conforme o capítulo de via aérea
    • Contato imediato com neurocirurgia ou regulação, dizendo a palavra herniação e o lado da pupila
    • Anotar hora exata da mudança e o exame imediatamente anterior, que é o que dá a velocidade
  8. Transferência — a guia que decide a fila

    Transferir bem e transferir são coisas diferentes, e a diferença cabe num papel. A guia precisa conter, em texto e não em código: a hora do início dos sintomas ou da queda; o exame neurológico atual com os três componentes da escala escritos separadamente e a hora ao lado; pelo menos um exame anterior, para que exista comparação; a descrição da imagem com forma, lado, espessura e desvio da linha média; e a lista de medicamentos com anticoagulante e antiagregante em destaque. Uma guia com essas cinco coisas é aceita mais rápido que uma guia com o diagnóstico escrito e nada mais, porque quem regula precisa justificar a vaga e essas cinco linhas são a justificativa. E enquanto a vaga não sai, o doente não fica parado: o exame se repete no intervalo que você escreveu, e cada repetição entra na guia. A série de exames é o produto mais valioso de um plantão em hospital sem neurocirurgia.

    Prescrição
    • Guia de transferência com hora do início, exame atual e anterior, descrição da imagem e lista de medicamentos
    • Manter a série de exames neurológicos durante a espera, anexando cada um à guia
    • Registrar no prontuário o horário de cada contato com a regulação e a resposta recebida
09

Como saber se está funcionando

Numa coleção intracraniana, repetir o exame não é conferir o tratamento: é fazer o diagnóstico. Nenhum resultado de laboratório denuncia um hematoma que cresceu, e a imagem congela um instante que já ficou para trás quando o laudo sai. Quem carrega a informação é a sequência de exames — os mesmos itens, colhidos do mesmo modo, com a hora ao lado, no intervalo que alguém teve o trabalho de escrever.

Dois princípios governam a lista abaixo. O primeiro: para onde o exame está indo importa mais do que onde ele está. Duas linhas idênticas no prontuário descrevem doentes diferentes se uma delas vem de cima e a outra está parada há horas. O segundo: o intervalo entre um exame e o seguinte precisa constar por escrito, com nome e hora de quem o fará — a fórmula reavaliar se piorar entrega ao paciente rebaixado a incumbência de comunicar que rebaixou. A régua completa de vigilância neurológica seriada, com os gatilhos, é do capítulo A tríade chega tarde, posição 1 desta apostila; aqui estão os parâmetros que a coleção acrescenta.

Escala de coma, com os três componentes escritos separadamenteNo intervalo escrito no prontuário — de 1 em 1 hora enquanto a decisão cirúrgica estiver pendente, de 2 em 2 horas no doente estável com coleção conhecida

Esperado: Estabilidade, ou melhora quando a causa reversível foi corrigida

Se não melhora: Queda de 2 pontos ou mais em relação ao exame anterior é gatilho de conduta, qualquer que seja o valor de onde partiu: refaça a checagem do reversível, avise quem opera e registre a hora exata da mudança

Pupilas: diâmetro em milímetros, fotorreatividade e simetriaNa mesma frequência da escala de coma, e sempre que houver qualquer mudança de comportamento

Esperado: Isocóricas e fotorreagentes; ou anisocoria antiga já registrada e inalterada

Se não melhora: Anisocoria nova acima de 1 milímetro, sobretudo com a maior arreativa, é herniação até prova em contrário. O lado que dilatou é, na maioria das vezes, o lado da coleção — mas de 27% a 36% das lesões ficam do lado oposto na série brasileira citada nos critérios

Força nos quatro membros e teste de queda dos braços estendidosA cada reavaliação no doente que colabora; na enfermaria, pelo menos uma vez por plantão

Esperado: Simetria, ou a assimetria já conhecida sem progressão

Se não melhora: Déficit focal novo, ou aprofundamento do que havia, é gatilho independente do nível de consciência — e é o parâmetro que muda primeiro na coleção que cresce devagar

O que a família observa entre as suas visitasA cada passagem pelo leito, e ativamente no doente idoso que fala pouco

Esperado: Nenhuma mudança relatada, ou melhora que a família reconhece

Se não melhora: Ele está mais quieto que ontem, ou não me reconheceu hoje de manhã, dito por quem convive, tem valor preditivo alto e chega antes de qualquer escala. Anote com as palavras da pessoa e a hora

Cefaleia: presença, padrão e necessidade de analgesiaA cada reavaliação, com pergunta direta e não por observação

Esperado: Ausente, ou estável e controlada com o que já estava prescrito

Se não melhora: Cefaleia que aparece onde não havia, ou que passa a exigir analgesia parenteral, é mudança de estado. Tratar a dor não mascara o exame que importa, que é a resposta motora e a pupila

Sódio sérico e glicemiaDiariamente no internado, e imediatamente diante de qualquer piora do nível de consciência

Esperado: Sódio estável na faixa do doente; glicemia sem hipoglicemia

Se não melhora: Antes de atribuir a piora à coleção, exclua as duas causas que se corrigem em minutos. Piora de consciência com hiponatremia nova é hiponatremia até que se prove o contrário

Ferida operatória, dreno e nível de consciência no pós-operatório imediatoNas primeiras 48 horas após a drenagem, na frequência que a equipe cirúrgica determinar

Esperado: Melhora do nível de consciência e do déficit nas primeiras horas, que é o padrão nas duas séries brasileiras

Se não melhora: Doente que não melhora ou que piora depois de drenado precisa de imagem, não de tempo. As duas séries registram recidiva em 5,4% e reabordagem em 9%, e a maior parte das recidivas ocorre nos três primeiros meses

10

Onde o erro machuca

Aceitar a resposta não sobre queda, quando ela foi dada pelo doente ou pela pergunta errada

O dano: É o erro que produz o diagnóstico perdido deste capítulo. Quem tem a memória comprometida não lembra da queda, e quem tem vergonha a nega; e a pergunta bateu a cabeça? exige que a pessoa tenha registrado o impacto. O resultado é um prontuário que diz sem história de trauma num doente que caiu

Como pegar a tempo: Pergunte ao acompanhante e pelo fato observável: alguém já viu essa pessoa no chão nos últimos três meses? Se a resposta for não, reformule pelo achado — apareceu galo, roxo, corte no couro cabeludo, alguém teve de ajudar a levantar? E registre a resposta com essas palavras, inclusive quando for negativa

Ler o intervalo lúcido como tranquilizador

O dano: O doente que conversa depois de bater a cabeça é liberado, ou é observado sem que ninguém volte ao leito. O exame normal não significa ausência de hematoma: significa que ainda há espaço dentro do crânio para acomodá-lo, e no adulto jovem esse espaço acaba rápido e de uma vez

Como pegar a tempo: Nenhum valor da escala de coma na admissão autoriza deixar de repeti-la. Escreva o intervalo de reavaliação, o nome de quem reavalia e o horário. Se o doente vai para casa, o acompanhante leva por escrito o que procurar e quando voltar

Escrever provável demência num idoso que piorou em semanas e tem um lado mais fraco

O dano: Fecha a investigação com um rótulo que não pede imagem. Duas coisas deveriam ter aberto a suspeita e nenhuma delas exige exame: doença degenerativa não piora em seis semanas, e demência não faz hemiparesia. O documento federal de 2006 avisa que a demora em tratar converte a demência reversível em irreversível

Como pegar a tempo: Antes de aceitar o rótulo, faça o teste de queda dos braços estendidos e pergunte em que mês o doente ainda estava bem. Piora datável por mês, com assimetria no exame, é indicação de imagem — e a bifurcação está declarada nos dois sentidos entre este capítulo e A queixa é da filha, da Geriatria

Deixar de identificar o anticoagulante porque o doente está confuso e a família não sabe o nome

O dano: Perde-se a informação que muda a régua de imagem, o limiar de observação, a pressa da reversão e a logística do banco de sangue. O remédio do coração e o comprimidinho não são respostas utilizáveis, e a que fica no prontuário é nega uso de anticoagulante

Como pegar a tempo: Peça a sacola de remédios de casa, com tudo dentro, e a última receita — alguém vai buscar em vinte minutos, que é menos do que o coagulograma demora. Pergunte separadamente pelo antiagregante, que quase ninguém considera remédio. Comprimido partido ao meio aponta para antagonista da vitamina K

Considerar a tomografia normal quando a coleção é isodensa ou bilateral

O dano: As duas coleções que a tomografia sem contraste quase não mostra são exatamente as deste capítulo. Na bilateral o efeito de massa se cancela, a linha média fica no lugar, e sobra um exame que parece apenas comprimido — e bilateralidade apareceu em mais de um quinto dos doentes na maior série brasileira

Como pegar a tempo: Não pare no desvio da linha média: procure apagamento de sulcos, ventrículo comprimido e deslocamento da interface entre substância cinzenta e branca. Escreva a pergunta clínica no pedido. Tomografia normal com quadro discordante é indicação de discutir ressonância, que é o exame indicado justamente para o isodenso e o bilateral

Tentar tratar clinicamente a coleção, ou esperar a investigação terminar para acionar quem opera

O dano: Osmoterapia pode ser resgate temporário em suspeita de herniação, sob protocolo e monitorização. Não trata definitivamente a coleção. Não usar corticoide rotineiramente para resolver hematoma subdural crônico. A indicação depende do quadro, e o acesso deve ser confirmado na farmácia; RENAME não é inventário hospitalar.

Como pegar a tempo: Com coleção confirmada, o contato com a neurocirurgia ou com a regulação vem antes de completar a investigação, com quatro dados em mãos: forma, densidade, lado e desvio da linha média. O resto se completa enquanto a vaga é negociada

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa deste capítulo tem uma dificuldade específica: a família chega convencida de uma explicação — a idade, a memória, a cabeça fraca — e você vai propor outra que envolve cirurgia no cérebro de um idoso. Duas tentações aparecem juntas. A primeira é vender a operação como cura garantida, porque os números são bons e é agradável dar boa notícia. A segunda é o oposto, e é mais frequente: presumir que a família não vai querer operar e por isso nem oferecer.

A comunicação estruturada de má notícia e as conversas de fim de vida têm capítulos próprios, e a decisão de limitar tratamento é do O que continua quando se decide parar. As falas abaixo são as do meio do caminho: o corredor, a espera da imagem, o telefone da regulação e a alta.

Explicar à filha por que um idoso com queixa de memória vai fazer tomografia

"A senhora descreveu uma coisa que começou há mais ou menos seis semanas, e isso é rápido demais para o tipo de problema de memória que vem com a idade — aquele leva anos. E no exame eu encontrei um lado do corpo mais fraco que o outro, o que também não acontece na demência. As duas coisas juntas me fazem querer olhar dentro da cabeça dele antes de dizer qualquer nome de doença. Existe um tipo de sangramento que se forma devagar, semanas depois de uma pancada pequena, e que se parece exatamente com isso. Se for, tem tratamento."

Não diga: Não diga que é só para descartar coisas graves, que soa como formalidade e faz a família recusar. E não prometa que é isso: diga que é o que se procura e por quê

Perguntar sobre a queda depois de a família já ter dito que não houve nenhuma

"Eu vou insistir num ponto e já explico por quê. Não estou perguntando se ele caiu feio, nem se desmaiou. Estou perguntando se alguém, alguma vez nesses últimos meses, viu ele no chão — ou se apareceu um galo, um roxo, um corte na cabeça que ninguém soube explicar direito. Pergunto assim porque, nesse tipo de sangramento, a pancada costuma ser pequena a ponto de a própria pessoa esquecer. Pergunte também ao vizinho e a quem cuida dele."

Não diga: Não deixe transparecer que a família falhou por não ter contado antes. Ninguém esconde essa informação; ela simplesmente não parecia informação

Explicar o resultado quando a tomografia mostra a coleção

"O exame mostrou o que eu estava procurando: tem um acúmulo de sangue antigo por fora do cérebro, do lado direito, empurrando um pouco para o outro lado. É antigo — provavelmente daquela queda de dois meses atrás. E é isso que está deixando ele lento e com a perna esquerda arrastando. A boa notícia é que esse é o tipo de coisa que se tira, e quem tira é o neurocirurgião. Eu já estou falando com o hospital que tem um. A operação costuma ser pequena, por um furinho no osso, e a maioria das pessoas melhora bem."

Não diga: Não afirme quanto ele vai recuperar nem em quanto tempo. E não use provavelmente é reversível como promessa: diga que é tratável e que a resposta se vê depois

A família pergunta se vale a pena operar alguém de 78 anos

"A pergunta é legítima, e eu vou responder com o que está medido. Nesse tipo específico de sangramento, a operação é das menores da neurocirurgia e os resultados publicados no Brasil são bons: na maior série brasileira, quase nove em cada dez saíram com boa recuperação e a maioria teve alta em cerca de uma semana. Isso não quer dizer risco zero, e o risco maior nele não é a operação: são as outras doenças que ele tem. Quem vai pesar isso é o neurocirurgião com vocês, e eu vou garantir que ele receba a informação completa. O que eu não quero é que essa conversa nem aconteça por a gente ter presumido que não valeria a pena."

Não diga: Não decida por eles nem sinalize sua opinião como se fosse dado. E não use a idade como argumento isolado, em nenhuma das duas direções

O doente anticoagulado bateu a cabeça e está bem — explicar por que ele não vai embora

No traumatismo craniano leve, anticoagulação reduz o limiar para a tomografia inicial. Após TC sem hemorragia e exame neurológico no estado basal, a ACEP 2023 não recomenda repetição de TC nem internação apenas pelo uso de anticoagulante. A decisão muda com piora, sintomas persistentes relevantes, INR excessivo, outras lesões, dificuldade de observação em casa ou outra indicação clínica. Individualize observação e repetição, registre os motivos e forneça sinais de retorno. Isso não se aplica à deterioração neurológica, que exige reavaliação imediata.

Não diga: Não ceda pela lotação da sala nem pela pressa do doente. E deixe de fora qualquer número de mortalidade usado como argumento: o mecanismo já é convincente sem virar ameaça

Ao telefone com a regulação, pedindo vaga em serviço com neurocirurgia

"Homem, 78 anos, quadro de seis semanas de lentificação e hemiparesia esquerda progressiva, com queda referida há dois meses. Escala de coma agora 14, com abertura espontânea, confuso e obedecendo comandos; há duas horas era 15. Pupilas isocóricas e fotorreagentes. Tomografia sem contraste com coleção extra-axial em foice, hipodensa, à direita, com 14 milímetros de espessura e desvio da linha média de 6 milímetros. Não usa anticoagulante nem antiagregante. Glicemia e sódio normais. Estou repetindo o exame de hora em hora e mando a série junto com a guia."

Não diga: Não abrevie o exame em um número só nem diga apenas suspeita de hematoma. A vaga sai do conjunto: hora, comparação, forma, lado, espessura, desvio e medicamentos

Alta do doente com coleção pequena que não será operada agora

"O neurocirurgião viu o exame e a avaliação dele é que, do jeito que está, esse sangramento não precisa de operação agora — ele é pequeno e você não tem perda de força. Mas ele pode crescer, e por isso três coisas. Primeira: você volta em [data] para repetir o exame, e essa data está aqui escrita. Segunda: se aparecer dor de cabeça que não passa, sonolência, confusão, fraqueza de um lado ou vômito, você volta antes, no mesmo dia. Terceira: alguém em casa precisa saber disso também, porque quem costuma perceber primeiro não é a própria pessoa."

Não diga: Não deixe a data da reavaliação combinada só de boca, e não entregue a folha sem ler junto com o acompanhante. Se não houver acompanhante, isso muda a decisão de alta

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

No anticoagulado com déficit focal novo, a reversão começa a ser providenciada antes ou depois da imagem?

Depois: sem imagem não se sabe se há sangramento, e reverter tem custo

Reverter anticoagulação não é neutro: expõe a trombose exatamente o doente que foi anticoagulado por ter risco dela, consome produto do Componente Estratégico que vem do banco de sangue, e pode ser inteiramente desnecessário — a maioria dos idosos com déficit focal novo não tem hematoma. Por essa leitura, colhe-se o coagulograma, faz-se a tomografia e só então se decide, com o dado na mão. É também o que a rotina publicada do serviço de Brasília descreve para a cirurgia eletiva: suspender a droga e esperar a relação normatizada internacional normalizar.

Rotina descrita nos métodos da série de 778 doentes do Hospital de Base do Distrito Federal, BMC Surgery, 2013

Antes: o que se providencia na primeira hora é a logística, não a droga

Nessa leitura não se confunde providenciar com administrar. O que entra na primeira hora é o telefonema ao banco de sangue e à hematologia, avisando que pode haver necessidade de reversão urgente — porque sete frascos de complexo protrombínico não aparecem em quinze minutos, porque a fitomenadiona não consta do elenco nacional e pode não estar na farmácia do hospital, e porque a mesma rotina de Brasília prevê, na urgência, reverter com vitamina K e plasma fresco congelado. Esperar o laudo para começar a mobilizar produto transfere para a logística o tempo que era do cérebro.

Elenco da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais 2024 e a rotina de urgência descrita na mesma série de Brasília

Como decidir

Hemorragia intracraniana grave associada a anticoagulante exige suspensão e reversão urgente orientada pelo fármaco, última dose, função renal e protocolo do serviço. Na varfarina, prefere-se complexo protrombínico de quatro fatores associado a vitamina K intravenosa; plasma é alternativa quando o complexo não está disponível. Antídotos e alternativas para anticoagulantes diretos seguem o agente e a disponibilidade. INR normal não exclui efeito de anticoagulante direto. O médico responsável pode iniciar a reversão protocolada enquanto aciona especialistas; não esperar parecer para tratar sangramento com risco de vida. TC negativa, por si, não indica reversão rotineira: outras indicações devem ser avaliadas individualmente.

TC inicial e repetição após trauma leve no anticoagulado

ACEP 2023

No traumatismo craniano leve, anticoagulação reduz o limiar para a tomografia inicial. Após TC sem hemorragia e exame neurológico no estado basal, a ACEP 2023 não recomenda repetição de TC nem internação apenas pelo uso de anticoagulante. A decisão muda com piora, sintomas persistentes relevantes, INR excessivo, outras lesões, dificuldade de observação em casa ou outra indicação clínica. Individualize observação e repetição, registre os motivos e forneça sinais de retorno. Isso não se aplica à deterioração neurológica, que exige reavaliação imediata.

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10617828/

Como decidir

Usar estado neurológico, TC inicial e riscos adicionais para decidir. Uma recomendação de 2001 não deve ser apresentada como obrigação clínica universal diante de evidência posterior.

Coleção crônica drenável num doente muito idoso com demência avançada e dependência total: indicar a operação ou não indicar?

Indicar, porque a lesão é tratável e o que se está tratando pode não ser a demência

O argumento é o do próprio documento federal: hematoma subdural crônico é causa reversível de quadro demencial, e a demora em tratar converte o reversível em irreversível. Num doente cuja piora foi datada em semanas, parte do que se chama de demência avançada pode ser a coleção — e negar a drenagem é decidir sobre um prognóstico que ainda não foi medido. A operação é pequena, com boa recuperação em 88,3% e alta em mediana de quatro dias na maior série brasileira, e a idade sozinha não é critério de exclusão em documento nenhum.

Cadernos de Atenção Básica nº 19, Ministério da Saúde, 2006, e a série de 778 doentes de Brasília

Não indicar automaticamente, porque a operação tem alvo e o alvo precisa existir

Nenhuma das duas séries brasileiras mede desfecho em demência prévia, e as duas medem desfecho hospitalar num serviço que não acompanhou ninguém depois da alta. Numa demência avançada e estabelecida há anos, drenar uma coleção pequena pode não devolver função nenhuma e ainda assim submeter o doente a anestesia, dreno, imobilidade e infecção — os 10% de mortalidade da série de São Paulo foram quase todos por causas clínicas, não pela cirurgia. Intervenção sem alvo funcional definido é intervenção que precisa de justificativa própria.

Série de 176 doentes da Santa Casa de São Paulo, Rev Col Bras Cir, 2015, e a ressalva de ausência de seguimento declarada pela série de Brasília

Como decidir

O que separa as duas posições não é a idade e não é o tamanho da coleção: é a linha do tempo. Se a família consegue datar a piora em semanas ou poucos meses, existe uma função perdida recentemente que pode voltar, e o alvo da operação existe — a hipótese de demência avançada, nesse caso, é justamente o que está em julgamento. Se a dependência total é de anos e a coleção foi achado incidental num exame pedido por outro motivo, o alvo precisa ser nomeado antes de indicar, e a conversa passa a ser de proporcionalidade, com o capítulo O que continua quando se decide parar. Nenhuma das duas leituras tolera, porém, a decisão tomada sozinho no corredor, sem que a informação chegue a quem opera e à família: para o interno, a conduta é garantir que a existência de uma lesão tratável entre na conversa, e não substituí-la.

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O raciocínio, em voz alta

Januária Ramires, 81 anos, 58 quilos, aposentada, chega ao pronto-socorro de um hospital de porte médio às 20h40 de uma terça-feira, trazida pela filha, Dorotea Navarra. Escorregou no banheiro há cerca de três horas, sentou no chão e bateu a nuca na borda do vaso. Não desmaiou, levantou sozinha com ajuda da filha, e desde então está bem — conversa, anda, reclama de dor no local. A filha só a trouxe porque a mãe toma um remédio para o coração e ela ficou insegura. O serviço tem tomógrafo com técnico presencial; não tem neurocirurgião.

  1. 1. O que eu penso antes de examinar

    Duas coisas, em paralelo. Uma delas é o que se passa neste minuto: ela conversa, está bem, e o exame provavelmente virá normal — o que não equivale a estar tudo resolvido, porque três horas é pouco tempo. A segunda é o que muda a régua: idade de 81 anos, mecanismo de queda da própria altura, impacto occipital, e um remédio para o coração que a filha não sabe nomear. Esse último item pode reordenar toda a conduta, e é o único que ainda não tenho. Antes de qualquer coisa, peço à Dorotea que ligue para casa e mande alguém fotografar as caixas — ou, melhor, trazê-las.

  2. 2. Exame, e o registro que vale como linha de base

    Glicemia capilar 106 mg/dL. Pressão 142 por 78, frequência 76, saturação 96% em ar ambiente, temperatura 36,2. Escala de coma: abre os olhos espontaneamente — 4; orientada, sabe o dia e onde está — 5; obedece a comandos — 6; total 15. Pupilas de 3 milímetros, iguais, fotorreagentes. Força 5 nos quatro membros, teste de queda dos braços estendidos sem assimetria. Marcha um pouco insegura, mas ela diz que é assim há tempo. Hematoma subgaleal occipital de uns quatro centímetros, sem ferimento aberto. Anoto tudo com a hora ao lado: 20h58. É esse registro que, daqui a duas horas, vai dizer se alguma coisa mudou.

  3. 3. A sacola chega, e a conduta muda

    Às 21h20 o genro traz a sacola. Dentro dela: losartana, sinvastatina, um comprimido de metformina, e uma cartela de varfarina de 5 miligramas com os comprimidos partidos ao meio. Junto, uma receita do ambulatório de anticoagulação e um cartãozinho com valores anotados à mão. O comprimido partido é a assinatura: dose fracionada aponta para antagonista da vitamina K, e a receita confirma. Januária está anticoagulada há quatro anos por fibrilação atrial. A partir daqui ela deixou de ser uma senhora que bateu a cabeça e está bem.

  4. 4. A régua que passa a valer

    No traumatismo craniano leve, anticoagulação reduz o limiar para a tomografia inicial. Após TC sem hemorragia e exame neurológico no estado basal, a ACEP 2023 não recomenda repetição de TC nem internação apenas pelo uso de anticoagulante. A decisão muda com piora, sintomas persistentes relevantes, INR excessivo, outras lesões, dificuldade de observação em casa ou outra indicação clínica. Individualize observação e repetição, registre os motivos e forneça sinais de retorno. Isso não se aplica à deterioração neurológica, que exige reavaliação imediata.

  5. 5. O que peço ao mesmo tempo, e por quê

    Coagulograma com relação normatizada internacional, hemograma com plaquetas, sódio, ureia e creatinina. O coagulograma aqui não é triagem: ele responde três perguntas de conduta — quanto ela está anticoagulada, se dá para operar hoje se precisar, e o que teria de ser corrigido antes. E ligo para o laboratório perguntando o tempo de resultado, porque essa informação decide o próximo passo. A leitura fina do exame é do capítulo Coagulograma, da Interpretação de Exames à Beira do Leito; o que preciso agora é do número e da hora dele.

  6. 6. A tomografia sai normal — e é aqui que quase todo mundo erra

    No traumatismo craniano leve, anticoagulação reduz o limiar para a tomografia inicial. Após TC sem hemorragia e exame neurológico no estado basal, a ACEP 2023 não recomenda repetição de TC nem internação apenas pelo uso de anticoagulante. A decisão muda com piora, sintomas persistentes relevantes, INR excessivo, outras lesões, dificuldade de observação em casa ou outra indicação clínica. Individualize observação e repetição, registre os motivos e forneça sinais de retorno. Isso não se aplica à deterioração neurológica, que exige reavaliação imediata.

  7. 7. A relação normatizada internacional volta em 4,1

    INR acima do alvo requer avaliar quanto excede o intervalo, outros riscos de sangramento e indicação da varfarina. Hemorragia intracraniana grave associada a anticoagulante exige suspensão e reversão urgente orientada pelo fármaco, última dose, função renal e protocolo do serviço. Na varfarina, prefere-se complexo protrombínico de quatro fatores associado a vitamina K intravenosa; plasma é alternativa quando o complexo não está disponível. Antídotos e alternativas para anticoagulantes diretos seguem o agente e a disponibilidade. INR normal não exclui efeito de anticoagulante direto. O médico responsável pode iniciar a reversão protocolada enquanto aciona especialistas; não esperar parecer para tratar sangramento com risco de vida. TC negativa, por si, não indica reversão rotineira: outras indicações devem ser avaliadas individualmente.

  8. 8. O que escrevo na prescrição da noite

    Exame neurológico de duas em duas horas, com os três componentes da escala escritos separadamente, pupilas com diâmetro e hora — e com o nome de quem reavalia. Gatilhos escritos, um por linha: perda de dois pontos na escala; diferença nova entre as pupilas maior que um milímetro; qualquer déficit focal que não existia; ou dor de cabeça que passe a pedir analgésico venoso. Qualquer um deles, chamar o plantonista e refazer a tomografia. Analgesia simples liberada, porque tratar a dor não apaga o que se acompanha, que é a resposta motora e a pupila. Cabeceira a 30 graus. Varfarina suspensa até decisão conjunta — e escrevo suspensa, com a data, para que ninguém a reintroduza por rotina de reconciliação. Rediscutir a reintrodução com quem indicou a anticoagulação é do capítulo Fibrilação atrial, e a decisão não é minha sozinho.

  9. 9. O desfecho, e o que ele ensina

    Na manhã seguinte Januária está igual: escala 15, sem déficit. Às 44 horas do trauma a tomografia de controle mostra uma lâmina hiperdensa fina na convexidade direita, com 5 milímetros de espessura, sem desvio da linha média. Ela continua sem sintoma. Ligo para a regulação com os quatro dados — foice, hiperdensa, direita, 5 milímetros, sem desvio — e com a série de exames neurológicos anexada, e o neurocirurgião de referência opta por conduta conservadora, com reavaliação de imagem em duas semanas e a anticoagulação suspensa até lá, a ser rediscutida por ele com a cardiologia. Ela recebe alta no quarto dia com data marcada, folha de orientação lida em voz alta junto com a filha, e a caixa da varfarina guardada. O que salvou o caso não foi nenhuma decisão difícil: foi a sacola de remédios que chegou às 21h20 e o exame repetido que não estava previsto no primeiro pedido.

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Faça você

Outro plantão, outro serviço: enfermaria de um hospital universitário, numa quinta-feira pela manhã. Ignácio Catão, 62 anos, 71 quilos, pedreiro, internado há dois dias para investigação de confusão mental. A irmã conta que há cerca de três semanas ele começou a ficar 'devagar', trocar o nome das pessoas e dormir demais; na semana passada ele parou de ir ao trabalho. Bebe destilado diariamente há trinta anos, e nos últimos dez dias bebeu menos, porque não estava saindo de casa. Nega queda; a irmã também nega. Na admissão: escala de coma 14 (abertura espontânea, confuso, obedece), sem déficit motor descrito, sem febre. Sódio 134 mEq/L, glicemia 98 mg/dL, transaminases discretamente elevadas, plaquetas 118 mil, relação normatizada internacional 1,4. Uma tomografia de crânio sem contraste foi feita na admissão e o laudo diz: acentuada atrofia córtico-subcortical, sulcos alargados, sem desvio da linha média, sem coleções. A equipe registrou provável encefalopatia hepática e síndrome de abstinência, e iniciou tiamina e lactulose.

  1. 1. O que já está bem feito, e vale reconhecer

    As três causas mais prováveis num etilista com confusão subaguda foram consideradas e algumas já estão sendo tratadas: abstinência, encefalopatia hepática e distúrbio metabólico. A glicemia foi medida, o sódio foi medido, a tiamina foi iniciada — e a decisão de dar tiamina antes de glicose em etilista é correta e tem capítulo próprio, na Toxicologia. Nada disso é erro, e o caso não se resolve desfazendo o que foi feito.

  2. 2. Os quatro dados que ninguém ligou entre si

    Três semanas de piora datável. Etilismo crônico de trinta anos. Relação normatizada internacional de 1,4 e plaquetas de 118 mil. E uma tomografia laudada como acentuada atrofia. Cada um foi lido isoladamente e cada um tem explicação própria. Juntos, eles descrevem exatamente a população de risco do capítulo — atrofia cortical, veias-ponte esticadas e hemostasia ruim — num doente cuja piora tem data. Na série brasileira de 176 casos, 19% dos operados de coleção crônica eram etilistas.

  3. 3. A pergunta que ainda não foi feita

    Nega queda não é resposta enquanto a pergunta tiver sido essa. Refaça: alguém já viu o Ignácio no chão nos últimos três meses? Apareceu galo, roxo, corte no couro cabeludo que ninguém soube explicar? E como a irmã não mora com ele, pergunte a quem mora — e a quem trabalha com ele. Em um doente que bebe diariamente, a queda que importa raramente é lembrada por quem caiu.

  4. 4. O laudo que precisa ser olhado outra vez — complete você

    A tomografia foi laudada como acentuada atrofia, sulcos alargados, sem desvio da linha média e sem coleções. Escreva por que esse laudo, neste doente, não afasta a hipótese deste capítulo; que dois cenários de imagem produzem exatamente esse relatório; que achados, além do desvio da linha média, precisam ser procurados; e o que se faz em seguida, incluindo o que se escreve no novo pedido e qual exame se discute se a tomografia continuar discordante do quadro.

Ver como fecharíamos

O laudo descreve o resultado de uma tomografia sem contraste, e há dois cenários em que ela mostra exatamente isso com coleção presente. O primeiro é o hematoma isodenso: no intervalo em que o sangue já perdeu densidade mas ainda não ficou francamente escuro, ele assume o mesmo tom do parênquima e desaparece no fundo — e o artigo brasileiro que descreve a distribuição de densidades registra o isodenso em 7,5% dos casos, e coleções de densidades misturadas em outros 19,6%. O segundo, e é o que mais se parece com este laudo, é o bilateral: com coleções dos dois lados o efeito de massa se cancela, a linha média fica no lugar, e o que sobra é um cérebro que parece comprimido de fora para dentro — que é como um exame com sulcos alargados pode ser lido às avessas. Bilateralidade apareceu em 22,3% dos 778 doentes da série de Brasília e em 16% dos 176 de São Paulo. Além do desvio da linha média, o que se procura é: apagamento ou assimetria dos sulcos da convexidade, ventrículos comprimidos, e deslocamento para dentro da interface entre substância cinzenta e branca, que denuncia uma camada entre o osso e o córtex mesmo quando ela tem a mesma densidade do cérebro. A conduta é refazer o exame neurológico completo procurando ativamente assimetria — força nos quatro membros e teste de queda dos braços estendidos com olhos fechados, que é o que revela a hemiparesia que não foi descrita na admissão —, refazer a pergunta sobre queda pelo fato observável e a quem convive com ele, e rediscutir a imagem com o radiologista com a pergunta clínica escrita, e não com investigar confusão mental: homem de 62 anos, etilista, piora cognitiva em três semanas, coagulação alterada; investigar coleção subdural crônica, inclusive isodensa ou bilateral. Se a tomografia continuar discordante do quadro clínico, o exame a discutir é a ressonância, que o mesmo artigo brasileiro indica exatamente para os dois casos — o isodenso e o bilateral. E nada disso substitui o que já foi iniciado: abstinência e encefalopatia hepática continuam sendo hipóteses ativas, e as três podem coexistir no mesmo doente.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Declínio em semanas associado a déficit motor focal exige investigar causa estrutural e potencialmente tratável, como hematoma subdural crônico. Solicitar TC de crânio sem contraste com urgência, manter reavaliação neurológica e organizar referência conforme o resultado. Perguntar a familiares sobre quedas, traumas e uso de antitrombóticos ajuda, mas não deve atrasar a imagem nem sua indicação depende de trauma lembrado. Seis semanas não excluem todas as doenças degenerativas ou síndromes demenciais rapidamente progressivas, e comprometimento cognitivo vascular pode coexistir com déficit focal. O erro seria aceitar o rótulo de demência sem esclarecer esses sinais. Informar a hipótese e os achados no pedido auxilia a correlação clínica; não determina nem limita o que o radiologista deve examinar. A PA apresentada não indica redução intravenosa agressiva.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o texto, apresente o caso principal em um minuto. Explique: Integrar mecanismo do trauma, evolução, exame e imagem; reconhecer expansão de hematoma, avaliar anticoagulação e garantir reavaliação segura. Justifique a primeira conduta e indique um achado que mudaria o destino do paciente.

Em 30 dias

Resolva novamente o caso para completar. Compare hipótese, diferenciais, gravidade, plano e seguimento com o gabarito. Acrescente uma mudança de contexto — comorbidade, piora, gestação, barreira de acesso ou baixa adesão — e explique como adaptaria a decisão com o supervisor.

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Agora atenda

Agora atenda: mulher de 76 anos trazida pelo filho ao pronto-socorro por 'confusão'. Ele conta que a mãe está mais lenta e esquecida há cerca de dois meses, dorme demais e ultimamente derruba as coisas com a mão direita. Anda com apoio. Não sabe dizer se ela caiu. Está acordada, responde devagar, sabe o nome e erra a data. Colha a história com o acompanhante, faça o exame que decide, e diga o que pede e por quê.

Hematomas intracranianos – A queda que ninguém lembra — Internato | OsceLabs