Outras Especialidades › Neurocirurgia
A tríade chega tarde
Hipertensão intracraniana não traumática e hidrocefalia
Quando os três sinais clássicos aparecem juntos a decisão já passou — o que se vigia é o ponto que caiu, a pupila que mudou e a válvula que parou
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Gestão Hospitalar no Estado do Rio de Janeiro. Protocolos de Acesso Ambulatorial: Consultas Especializadas — Hospitais Federais no Rio de Janeiro. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. 188 p.
Fundação Oswaldo Cruz. Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira. Diretriz clínica brasileira de linha de cuidado para malformações cirúrgicas: disrafismo espinhal aberto. Rio de Janeiro: Fiocruz/IFF, 25 de janeiro de 2023
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024
Dutra M, Silva SC, Beggiora PS, Santos MV, Machado HR, Lopes LS. Epidemiology of hydrocephalus in Brazil. Jornal de Pediatria (Rio J). 2023;99(3):228-234
Bula para o profissional de saúde. Fosfato dissódico de dexametasona, solução injetável e solução para diluição para infusão 4 mg/mL, medicamento genérico (Lei nº 9.787/1999), versão fosfato dissódico de dexametasona_sol inj_VPS_V03
Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina. Superintendência de Serviços Especializados e Regulação. Gerência de Regulação Ambulatorial. Protocolo de Acesso e Regulação — Consulta em Neurologia Adulto. Junho de 2022
Academia Brasileira de Neurologia, Sociedade Brasileira de Cefaleia e Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor. Protocolo Nacional para Diagnóstico e Manejo das Cefaleias nas Unidades de Urgência do Brasil, 2018
Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo. Protocolo PRT.HINSG.018 — Manejo de Traumatismo Cranioencefálico no Pronto-Socorro
Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina. Projeto Diretrizes: Traumatismo Craniencefálico Leve, Moderado e Grave. Sociedade Brasileira de Neurocirurgia
CNS/ASCO/SNO — corticosteroides em metástases cerebrais
Neurocritical Care Society — tratamento do edema cerebral
Responda antes de ler
Quatro pacientes internados têm hipertensão intracraniana documentada por causas diferentes: metástase encefálica com edema em volta e desvio de linha média; infarto extenso de artéria cerebral média com edema no terceiro dia; meningite criptocócica em paciente com HIV, com pressão de abertura de 32 cmH2O; e hidrocefalia obstrutiva por lesão de fossa posterior. Em qual deles o corticoide é o tratamento indicado da hipertensão intracraniana?
O paciente que você vai ver
Quarta-feira, dezenove e quarenta. Hospital regional de cento e dez leitos, numa cidade de cento e oitenta mil habitantes, referência para mais seis municípios da microrregião. Tem tomógrafo, e o técnico está na escala até as onze. Neurocirurgião não tem: o mais próximo fica na capital, a cento e sessenta quilômetros, e a vaga sai pela regulação. Você é o interno da clínica médica. O plantonista entrou na sala de emergência às dezenove e cinco com uma parada e não saiu de lá.
Irineu Vaz tem 58 anos, é pedreiro aposentado, 74 quilos, e chegou andando com a esposa. A ficha da classificação de risco diz dor de cabeça, e ele foi para o verde. Está sentado numa cadeira do corredor há uma hora e vinte, com a mão sobre a testa e os olhos fechados por causa da luz do teto.
A história, quando você finalmente senta com ele, tem três semanas. A dor começou fraca, atrás dos olhos, e foi ficando diária. Nos últimos cinco dias ele acorda com ela, e há três dias vomita de manhã — sem enjoo antes, ele insiste nesse detalhe, o vômito vem sozinho e depois ele fica bom por algumas horas. Ontem esbarrou duas vezes no batente da porta do banheiro. Hoje à tarde a esposa achou que ele estava lento para responder, e foi por isso que vieram.
Ao exame: acordado, olha para você, responde o que se pergunta com dois ou três segundos de atraso. Sabe o nome, sabe onde está, erra o dia da semana. Pressão 152 por 88, frequência cardíaca 68, frequência respiratória 16, saturação de 97% respirando ar ambiente, glicemia capilar de 104 mg/dL, temperatura axilar de 37,1 graus. Os dois lados da pupila estão iguais e fotorreagentes. A força parece preservada nos quatro membros — mas quando você pede que estenda os braços à frente com os olhos fechados, o direito desce devagar. Ele não tinha percebido.
Nada disso é a tríade. A pressão está alta, mas a frequência é 68 e a respiração é regular; falta tudo o que os desenhos mostram. E é exatamente esse o problema: quem espera a hipertensão com bradicardia e respiração irregular para agir vai agir quando o tronco encefálico já estiver sendo comprimido, porque o tronco é o último a reclamar, não o primeiro. O que existe agora, e é o que decide, cabe em quatro dados que qualquer pessoa colhe sem equipamento — uma dor de três semanas que virou matinal, vômito sem náusea, um braço que desce e um homem lento.
Você anota o exame com a hora ao lado. Dezenove e cinquenta e dois. Esse registro é o único instrumento de medida de pressão intracraniana que este hospital tem hoje à noite, e o valor dele não está no que ele diz agora: está na diferença entre ele e o próximo. Às vinte e uma e dez, quando você repetir, o Irineu vai estar num de dois estados muito diferentes — e o que separa os dois é se alguém voltou ao corredor para olhar.
Quem adoece disso
A hipertensão intracraniana sem trauma não tem estatística própria no Brasil, e não teria como ter: ela não é um diagnóstico com código, é o ponto a que várias doenças diferentes chegam. O que existe são os números das causas, e a mais bem medida delas é a hidrocefalia. Entre 2015 e 2021 o Sistema de Informações Hospitalares do SUS registrou 137.880 internações por hidrocefalia e suas complicações, com gasto somado de 140,6 milhões de dólares e permanência média de 11 dias. O Sudeste concentrou 57.557 delas, o Nordeste 35.386, o Sul 25.152, o Centro-Oeste 10.695 e o Norte 9.090; só o estado de São Paulo respondeu por 32.080, quase um quarto do país.
A decomposição por procedimento diz ao interno mais do que o total. Foram 53.067 internações para derivação ventriculoperitoneal, atrial ou pleural; 50.952 para derivação externa ou subgaleal; 23.585 para tratamento de complicações da hidrocefalia; 798 para derivação lomboperitoneal; 2.079 para retirada de derivação e 7.399 para revisão de derivação. Somando o que é inequivocamente reoperação — complicações, retiradas e revisões —, são 33.063 internações, quase uma para cada duas de implante primário. A tradução prática é curta: o paciente com derivação volta, e volta pela porta em que você está.
A mortalidade direta é baixa em número absoluto e concentrada nas pontas da vida: 6.051 óbitos atribuídos a hidrocefalia entre 2015 e 2019, com taxa de 1,5 por 100.000 nascidos vivos e prevalência de 0,374 por 100.000 habitantes. Esse é o retrato da doença tratada, e ele é bom. O que ele não mostra — e é o que este capítulo persegue — é a morbidade de quem sobreviveu com sequela evitável porque a descompensação demorou a ser reconhecida. Essa não tem código no sistema de informação, e por isso não aparece em relatório nenhum.
Do outro lado do capítulo está a causa que mais produz hipertensão intracraniana no adulto sem trauma: a lesão que ocupa espaço. O Instituto Nacional de Câncer estima, para cada ano do triênio 2023-2025, 11.490 casos novos de câncer do sistema nervoso central no Brasil, 6.110 em homens e 5.380 em mulheres. E essa é apenas a conta dos tumores primários malignos: as metástases encefálicas, que são mais frequentes do que eles, não entram na estimativa de incidência porque não são casos novos de câncer, são evolução de um câncer que já estava contado. O interno de clínica médica vê muito mais metástase do que glioma, e vê as duas chegando do mesmo jeito — como uma dor de cabeça que mudou de padrão.
Um número da criança fecha o quadro, e ele muda o que se pergunta na anamnese. Na criança com mielomeningocele a hidrocefalia aparece em 60% a 95% dos casos, e o intervalo médio entre o fechamento cirúrgico do defeito e o aparecimento da hidrocefalia é de 35 dias, com casos surgindo até 180 dias depois. A diretriz brasileira que traz esses números pede vigilância especialmente nos primeiros 60 dias e revisão semestral ao longo de toda a primeira década de vida, e registra que a instalação de uma derivação carrega complicação em até 40% e complicação infecciosa em até 28%. Um dispositivo com essa taxa de falha não é um tratamento que encerra o caso: é um tratamento que cria um paciente de seguimento permanente — e um motivo recorrente de ida ao pronto-socorro.
Há, por fim, uma lacuna que também é informação. O Brasil não tem série nacional de hipertensão intracraniana por tumor, por trombose venosa cerebral ou por hidrocefalia aguda do adulto, e ninguém mede quanto tempo se passa entre o primeiro sinal de descompensação e a chegada ao serviço que opera. Quem trabalha em hospital sem neurocirurgia sabe que esse intervalo é a variável mais importante do desfecho — e ele é exatamente a que não aparece em relatório nenhum.
Por que acontece o que acontece
Duas coisas muito diferentes se chamam hipertensão intracraniana, e confundi-las é o erro que faz o interno prescrever o remédio de uma para a outra. Na primeira, alguma coisa chegou e ocupou lugar: um tumor, um abscesso, o edema em volta deles, uma coleção. Na segunda, nada chegou — o que existia parou de escoar, e o líquido que o próprio encéfalo produz sem interrupção se acumulou. É a hidrocefalia. As duas terminam no mesmo lugar, com a mesma cefaleia e o mesmo rebaixamento, e têm relógios e tratamentos incompatíveis. A primeira responde a tirar o que chegou, ou a desinchar o que está em volta. A segunda não responde a droga nenhuma: responde a abrir uma saída para o líquido.
A caixa que contém as duas é rígida e o volume dentro dela é fixo — isso está no capítulo de traumatismo cranioencefálico, da apostila de Trauma, com a curva de pressão e volume desenhada, e não vale repetir aqui. O que este capítulo precisa acrescentar é uma correção que muda conduta: a reserva não é uma propriedade do crânio, é uma propriedade daquele paciente. Dois adultos com o mesmo tumor do mesmo tamanho, no mesmo lugar, estão em pontos completamente diferentes da mesma curva, e é o histórico deles que diz onde.
Isso não é abstração — são quatro pacientes concretos, e você vai reconhecê-los pela porta. O lactente de fontanela aberta tem uma caixa que ainda cede: a pressão sobe pouco porque o crânio cresce, e por isso ele passa semanas sem sinal nenhum enquanto a cabeça vai ficando grande. O idoso com atrofia tem litros de espaço sobrando: acomoda uma coleção enorme antes de reclamar, e reclama de forma errada, com lentificação e desequilíbrio em vez de dor. O paciente que já tem uma derivação está no extremo oposto — os ventrículos dele foram mantidos pequenos por anos e ficaram rígidos, de modo que uma obstrução da válvula produz pressão alta com dilatação mínima, e a tomografia pode parecer quase normal enquanto o paciente vai a óbito. E o adulto sem nada disso, como o Irineu, está no meio: tem reserva, gasta essa reserva ao longo de semanas, e a esgota numa tarde.
Onde o líquido pode parar decide a velocidade. O trajeto do liquor tem trechos largos e alguns pontos estreitos, e a regra é simples: quanto mais alto o bloqueio, mais rápido o desastre. Uma obstrução dentro do sistema ventricular fecha uma torneira que continua aberta a montante — a produção não para porque a saída fechou —, e o resultado se conta em horas. Uma falha de absorção lá no fim do caminho, depois que o liquor já saiu do cérebro, deixa o sistema inteiro amortecer o problema, e o resultado se conta em meses. É a mesma doença com dois nomes de urgência: a hidrocefalia obstruída é uma emergência cirúrgica, a hidrocefalia de absorção é um caso de ambulatório. Descobrir qual das duas está na sua frente é a pergunta que a imagem responde.
A derivação ventricular acrescenta um mecanismo que não existe na natureza, e o interno precisa entendê-lo porque ele produz uma das apresentações mais traiçoeiras da porta. A válvula é um encanamento de mão única com três trechos: o cateter que entra no ventrículo, a válvula propriamente dita e o cateter que leva o líquido para o abdome. Cada trecho falha do seu jeito — o proximal entope com plexo ou com debris, a válvula trava, o distal se desconecta, migra, é encapsulado por aderência ou simplesmente fica curto porque a criança cresceu. Qualquer um dos três produz o mesmo quadro, e produz mais rápido do que a doença original, porque o cérebro que passou anos com a pressão controlada perdeu a complacência que tinha antes de operar. O paciente com derivação que descompensa não repete a história lenta de quando era bebê: ele piora em horas.
Falta o mecanismo que separa os dois corticoides deste capítulo — o que salva e o que mata —, e ele é a única fisiopatologia que muda prescrição na porta. O edema em volta de um tumor é vasogênico: a barreira entre o sangue e o tecido, ali, está rota, e plasma vaza para o interstício. Corticoide fecha essa barreira, o líquido para de vazar, o volume cai, e o paciente melhora em horas — é por isso que a bula brasileira da dexametasona injetável lista, em letra explícita, edema cerebral associado a tumor primário ou metastático. O edema da isquemia e do trauma é citotóxico: a célula que perdeu energia incha por dentro, com a barreira ainda fechada. Não há vazamento para estancar, e o corticoide entrega só os efeitos adversos — hiperglicemia, infecção, sangramento —, que foi exatamente o que mediu o ensaio citado no capítulo de traumatismo cranioencefálico, com aumento de mortalidade. A mesma droga, a mesma dose, dois desfechos opostos, e o que decide não é a pressão: é a causa dela.
Existe ainda uma terceira resposta, e ela é da mesma família de raciocínio. Na meningite criptocócica a pressão sobe sem massa e sem obstrução mecânica visível, e o que a baixa é retirar volume pela agulha: o protocolo brasileiro de HIV proíbe manitol, acetazolamida e corticoide nessa indicação, e a rotina, o corte de pressão de abertura e o volume a retirar estão no capítulo de HIV desta coleção. Guarde a forma do raciocínio, não a lista: em hipertensão intracraniana, a pergunta operacional nunca é qual droga baixa a pressão. É o que está fazendo a pressão subir, porque a resposta a essa segunda pergunta é a única que também diz quem tira.

Duas consequências práticas fecham o mecanismo, e as duas custam trinta segundos cada. A primeira: tudo que dificulta o retorno venoso da cabeça aumenta o volume de sangue dentro da caixa e, com ele, a pressão — cabeceira baixa, cabeça rodada, colar apertado, cadarço de tubo estrangulando o pescoço. O capítulo de traumatismo cranioencefálico já fez essa lista e a fez bem; ela vale igual aqui, e vale lembrar que na hipertensão intracraniana não traumática ninguém está de colar, de prancha nem de tubo, de modo que o inimigo é mais banal — é a cabeceira que baixou para a troca de lençol e ninguém subiu de volta. A segunda: dor, febre, tosse, vômito e agitação elevam a pressão intracraniana enquanto duram. Não são desconforto, são carga. Tratar a dor de um paciente com hipertensão intracraniana não é gentileza: é tratamento da pressão, e deixar de tratar por medo de mascarar o exame neurológico é uma troca ruim, porque o parâmetro que se acompanha é a resposta motora e a pupila, e nenhum dos dois é apagado por dipirona.
Como se apresenta de verdade
Objetivos práticos no internato. Reconhecer deterioração antes da tríade de Cushing, separar edema de obstrução liquórica e escolher a sequência de estabilização, imagem e referência. O interno colhe e apresenta os dados, propõe o plano e executa atividades sob supervisão; prescrições, procedimentos e documentos são validados pelo profissional responsável. Estude o caso acompanhando o que cada achado muda na decisão, não apenas decorando critérios.
A hipertensão intracraniana não se apresenta: ela se acumula. Não há um sintoma que a anuncie, não há um valor de exame que a defina à beira do leito, e o paciente que a tem quase sempre chega andando, falando e classificado como verde. O que existe é uma sequência, e ela é razoavelmente fiel — os sinais aparecem numa ordem, e a ordem vai do que o próprio paciente conta até o que só o tronco encefálico consegue produzir.
Quem aprende a doença pela tríade clássica aprende a ver o último terço dela. Vale escrever a sequência inteira uma vez, porque é ela que organiza tudo o que vem neste capítulo: primeiro a dor que muda de padrão; depois o vômito e a piora ao acordar; depois o olho — diplopia, borrão que vem e vai, papiledema; depois a lentificação, que a família percebe antes de você; depois o déficit focal; depois a queda do nível de consciência; e só então a pupila, a bradicardia e a respiração irregular. Cada degrau desses é uma oportunidade, e todos eles vêm antes da tríade.
A tríade chega tarde — e o que chega cedo
A tríade que os livros desenham — hipertensão arterial, bradicardia e respiração irregular — não é um sinal de hipertensão intracraniana. É a resposta do tronco encefálico à própria compressão: quando a perfusão dele começa a falhar, ele eleva a pressão arterial sistêmica para tentar se perfundir, e a bradicardia vem por reflexo a essa pressão. Ou seja, ela só existe depois que a estrutura mais protegida do encéfalo já está sendo espremida. Reconhecê-la é obrigatório, mas reconhecê-la é reconhecer que se perdeu tempo.
Repare no que aconteceu com o Irineu. A pressão dele estava 152 por 88, o que muita gente lê como hipertensão descontrolada e trata com anti-hipertensivo. A frequência era 68 e a respiração regular: não é a tríade, e não é doença hipertensiva. Se a pressão arterial estiver sendo mantida alta para vencer uma pressão intracraniana alta, baixá-la com droga reduz a perfusão do tecido que já estava mal perfundido. Essa é uma armadilha de plantão real e ela tem uma regra curta: em paciente com suspeita de hipertensão intracraniana, pressão arterial elevada é dado, não alvo. Trate a causa; a pressão desce sozinha quando a caixa alivia.
O que chega cedo é banal e por isso passa. A dor de cabeça que muda de padrão. O vômito que aparece de manhã. Um erro de dia da semana. Uma frase que demora. Um braço que desce no teste de queda. Um esbarrão no batente. Nenhum desses seis achados é dramático, todos entram numa evolução em três linhas, e é a soma deles com uma trajetória de semanas que constrói a suspeita. A pergunta que organiza a anamnese não é quanto dói: é o que está diferente do mês passado, feita ao acompanhante e não ao paciente, porque quem tem o córtex frontal comprimido é justamente quem não percebe que mudou.
Há um degrau intermediário que quase todo mundo pula e que vale ouro num hospital sem tomógrafo à noite: a mudança de comportamento. A diretriz brasileira do seguimento da mielomeningocele nomeia, entre os sinais de descompensação da hidrocefalia, coisas que não parecem neurológicas — declínio intelectual e de aprendizagem, mutismo, mudanças comportamentais. Isso vale para a criança com válvula e vale para o adulto com tumor frontal. Quando a família diz que a pessoa ficou quieta, ou emburrada, ou preguiçosa, o que ela está descrevendo é frequentemente pressão intracraniana, e vem semanas antes de qualquer sonolência.
A cefaleia da hipertensão intracraniana: a bifurcação, e para onde vai o resto
Este capítulo não é sobre dor de cabeça. Quem chega ao pronto-socorro com a queixa dor de cabeça e precisa ser triado, investigado e mandado para casa ou para a imagem é assunto do capítulo Cefaleia no pronto-socorro, das Síndromes do Paciente na Emergência, que tem a régua de sinais de alerta, os critérios de indicação de tomografia, a técnica do fundo de olho e o manejo da crise. Nada disso se repete aqui, e quem precisa de qualquer uma dessas quatro coisas deve ir para lá.
O que é deste capítulo é a bifurcação: uma vez suspeitada a hipertensão intracraniana, o que a cefaleia dela ensina sobre o que está acontecendo dentro da caixa. E ela ensina três coisas. A primeira é a curva — a dor que sobe em degraus ao longo de semanas, sem que nenhum dia devolva o paciente ao patamar do anterior, é a curva de um volume que cresce; a dor que chega ao máximo em segundos é a curva do sangramento, e o sangramento tem dono em outro lugar. A segunda é o horário — pior ao acordar e melhorando ao longo da manhã, porque durante o sono a pessoa fica deitada, drena pior e ventila menos, retendo gás carbônico, que dilata os vasos cerebrais. A terceira é o gatilho mecânico — piora ao tossir, espirrar, evacuar com esforço ou abaixar a cabeça, que são manobras que aumentam a pressão venosa e, com ela, a intracraniana.
Essas três características, juntas, valem mais do que qualquer uma isolada e valem mais do que a intensidade. Um paciente com dor 4 de 10 que é progressiva, matinal e piora com Valsalva está numa categoria completamente diferente da de um paciente com dor 10 de 10 que já teve vinte iguais. E o dado mais forte da anamnese não é nenhum desses: é a primeira vez. Cefaleia que é a primeira da vida, depois dos cinquenta, muda de categoria por si só.
Uma advertência sobre o sentido inverso. Ausência de cefaleia não exclui hipertensão intracraniana, e essa é a forma mais comum de perdê-la na enfermaria. O idoso com coleção subdural crônica, a criança com válvula que só ficou quieta, o paciente com tumor frontal que ficou apático — nenhum dos três precisa reclamar de dor para estar com a pressão alta. Em quem não verbaliza, o sintoma de hipertensão intracraniana é comportamental, e quem o percebe é a enfermagem e a família, não a evolução médica.
O vômito que não pede licença, e os olhos que enganam
O vômito da hipertensão intracraniana tem uma característica que o separa do vômito digestivo e que o paciente relata espontaneamente se você deixar: ele vem sem náusea que o anteceda, é rápido, às vezes em jato, e alivia a dor por algumas horas. A descrição federal brasileira dos sinais de hipertensão intracraniana na criança usa exatamente essa expressão — vômitos comumente em jato — ao lado de cefaleia, irritabilidade e letargia. Não é patognomônico e não é obrigatório, mas o padrão sem náusea prévia, matinal e com alívio depois é um dos poucos detalhes de anamnese que realmente muda a probabilidade.
Dois enganos moram aqui. O primeiro é atribuir o vômito matinal a gastrite, jejum prolongado ou remédio, o que é o que se faz na maioria das vezes e o que é correto na maioria das vezes — a diferença está no que acompanha. Vômito matinal isolado, em quem não tem cefaleia nova nem alteração de comportamento nem nada no exame, quase nunca é pressão intracraniana. Vômito matinal com dor de cabeça de três semanas é outra coisa. O segundo engano é o inverso: tratar o vômito e considerar o caso resolvido porque ele parou. O antiemético trata o sintoma que sinaliza; não trata o que sinaliza.
O olho contribui com três achados, e os três são de exame simples. A diplopia por paralisia do sexto nervo é o mais mal aproveitado: o sexto tem o trajeto intracraniano mais longo e é o primeiro a ser esticado quando a pressão sobe, de modo que ele avisa sem dizer onde está a lesão — daí ele ser chamado de sinal falso localizador. Na prática de porta, isso significa que visão dupla ao olhar para o lado, num paciente com cefaleia progressiva, é sinal de pressão e não de acidente vascular; e significa que perguntar sobre visão dupla, com essas palavras, custa cinco segundos e é raramente feito.
O segundo achado é o obscurecimento visual transitório: a visão apaga por segundos, geralmente ao levantar ou ao abaixar a cabeça, e volta inteira. O paciente costuma chamar isso de fraqueza ou de tontura, e não conta porque acha irrelevante. É um sinal de que a perfusão da cabeça do nervo óptico está no limite, e ele antecede perda visual permanente — é dos poucos sintomas deste capítulo em que o que está em risco não é a vida, é a visão.
O terceiro é o papiledema, e sobre ele este capítulo diz apenas o que a fronteira permite: a técnica do fundo de olho e o valor dele na triagem da cefaleia são do capítulo Cefaleia no pronto-socorro, e o olho como órgão é do capítulo O olho que não dói, da Oftalmologia. O que é deste capítulo é a assimetria temporal do achado, que muda como você usa o resultado. O papiledema demora dias a se instalar e demora semanas a desaparecer depois que a pressão normaliza. As duas consequências são operacionais e opostas: fundo de olho normal não exclui hipertensão intracraniana aguda, e por isso não serve para liberar o paciente da criança com válvula que descompensou hoje; e papiledema presente não prova que a pressão ainda está alta agora, e por isso não serve sozinho para indicar cirurgia. Ele é excelente para provar que a pressão esteve alta por algum tempo — que é justamente o que falta quando a história é vaga.
A criança de fontanela aberta: a cabeça cresce em vez de a pressão subir
No lactente, a caixa não é rígida — as suturas ainda não fundiram e a fontanela é uma janela complacente. A consequência é que o volume novo é absorvido por crescimento em vez de por aumento de pressão, e a criança pode passar semanas com hidrocefalia franca sem nenhum sinal de sofrimento agudo. Isso muda o exame inteiro: o instrumento de rastreio deixa de ser o nível de consciência e passa a ser a fita métrica.
Os sinais que o documento federal brasileiro descreve para essa faixa são de inspeção e palpação e não custam nada: aumento progressivo do perímetro cefálico, fontanela tensa, irritabilidade, náuseas, vômitos e, nos casos mais avançados, o desvio do olhar para baixo que se chama olhar de sol-poente. A palavra que faz o trabalho é progressivo — uma medida isolada de perímetro cefálico não diz nada, e duas medidas em datas diferentes, na mesma curva, dizem tudo. A diretriz brasileira do seguimento da mielomeningocele transforma isso em rotina explícita: medir o perímetro cefálico em todos, com atenção especial nos portadores de derivação.
A fontanela precisa ser examinada direito ou o achado vira ruído. Ela se avalia com a criança sentada e calma, porque no lactente deitado e chorando a fontanela abaula por motivo hemodinâmico e não por pressão intracraniana. Esse detalhe é o mesmo que o capítulo A ordem certa não é a ordem do raciocínio, da Infectologia Pediátrica, usa para a meningite, e vale igual aqui — com uma diferença que importa: naquele capítulo a fontanela tensa não indica imagem antes da punção; neste, fontanela tensa com perímetro que cruza percentis é indicação de imagem e de acionar quem opera.
Quando a fontanela já fechou, a criança volta a se comportar como adulto pequeno, com uma exceção que vale guardar porque é gratuita: o sinal de MacEwen, que o mesmo documento federal descreve como a sensação, à percussão do crânio, de que ele soa como um pote rachado. É um sinal de ventrículo dilatado com suturas ainda não completamente consolidadas. Ao lado dele o documento lista cefaleia, náuseas, vômitos em jato, irritabilidade, letargia, distúrbios do equilíbrio e da marcha, estrabismo e edema de papila nos casos de longa evolução.
Uma advertência de fronteira, porque a linha aqui é fina e é clínica. Criança com sinais de hipertensão intracraniana e uma massa é, até prova em contrário, tumor de sistema nervoso central, e o reconhecimento do sinal de alerta oncológico na criança, com a demora diagnóstica que o caracteriza, é da Oncologia Pediátrica. Criança com crise convulsiva febril é do capítulo de crise febril; criança com meningite é da Infectologia Pediátrica. E no lactente com achado neurológico que a história contada não justifica, a suspeita de violência precisa ser considerada, e ela tem capítulo próprio. Deste capítulo é a criança em que a pressão é o problema — e, sobretudo, a criança que já tem uma válvula.
O paciente com derivação: a família chega sabendo antes de você
Nenhuma apresentação deste capítulo é tão frequente e tão mal atendida quanto esta: o portador de derivação ventricular que chega ao pronto-socorro com cefaleia, vômito, sonolência ou irritabilidade. Os números brasileiros mostram o tamanho disso — no período de sete anos analisado no SIH/SUS, foram 7.399 internações para revisão de derivação, 2.079 para retirada e 23.585 para tratamento de complicações da hidrocefalia, contra 53.067 de implante. A disfunção não é evento raro do dispositivo: é parte previsível da vida dele.
Três coisas tornam essa apresentação perigosa. A primeira é que ela é rápida — o paciente já derivado perdeu complacência, e a piora que na doença original levava semanas aqui leva horas. A segunda é que a tomografia pode enganar: ventrículo que não dilata muito não significa válvula funcionando, e a comparação que vale não é com o normal da população, é com a tomografia anterior daquele mesmo paciente. A terceira é que a apresentação inicial é inespecífica e chega classificada como virose: vômito, febre baixa, criança irritada, adolescente com dor de cabeça.
Existe um recurso diagnóstico neste cenário que não existe em quase nenhum outro da medicina, e o interno costuma desprezá-lo: a família sabe. Mãe de criança com válvula reconhece descompensação melhor que a maioria dos plantonistas, porque já viu duas ou três, e a diretriz brasileira do seguimento da mielomeningocele torna isso conduta ao orientar que se ensine a família a reconhecer sinais precoces de hipertensão intracraniana, em termos acessíveis. Quando essa mãe diz que está igual à vez em que a válvula entupiu, essa frase é o dado com maior valor preditivo do atendimento. Anote-a com essas palavras na evolução.
A infecção do sistema de derivação é a segunda cara do mesmo problema e se apresenta de forma diferente: febre, dor abdominal, sinais inflamatórios sobre o trajeto do cateter, às vezes só irritabilidade e recusa alimentar. O documento brasileiro registra complicação infecciosa em até 28% nas derivações de crianças com mielomeningocele — e registra que essas infecções, quando levam a falhas repetidas, associam-se a declínio cognitivo importante nessa população. O ponto operacional para o interno é que febre em portador de derivação não é febre sem foco: é um foco possível até que alguém prove o contrário, e essa prova envolve neurocirurgia.
Uma última apresentação da mesma família, e é a mais silenciosa: a hiperdrenagem. A válvula que drena demais produz cefaleia que piora de pé e melhora deitada — o inverso exato da hipertensão intracraniana —, e pode produzir coleção subdural crônica. O paciente com derivação e cefaleia postural não está com a válvula entupida; está com o problema oposto, e o tratamento é oposto. Perguntar se a dor melhora ao deitar separa os dois em uma frase.
O que este capítulo não cobre, e onde está
A hipertensão intracraniana do trauma não é daqui. A escala de coma de Glasgow ponto a ponto, a régua de indicação de tomografia no traumatismo, os alvos fisiológicos da lesão secundária, os sinais de herniação e a terapia hiperosmolar com dose, diluição e tempo de infusão são do capítulo Trauma cranioencefálico, da apostila de Trauma. Este capítulo usa a escala e usa a noção de herniação, mas não os reensina e não escreve dose de manitol nem de salina hipertônica: quem precisa prescrever vai para lá. A sequência primária, os adjuntos de sala e o manejo do politraumatizado são do Atendimento inicial ao politraumatizado, e a técnica e as drogas da intubação são do Via aérea no trauma.
O AVC hemorrágico e a hemorragia subaracnóidea são abordados em A dor que avisou, na apostila de Neurologia do Internato. AVC isquêmico agudo, da mesma apostila, trata da janela e da reperfusão. Aqui se acompanha o cruzamento com neurocirurgia: edema, desvio de linha média, hidrocefalia e deterioração que exigem avaliação cirúrgica urgente.
O déficit focal agudo com relógio correndo é do Déficit neurológico focal agudo, e o rebaixamento de consciência indiferenciado, com toda a investigação metabólica, tóxica e infecciosa, é do Alteração do nível de consciência, ambos das Síndromes do Paciente na Emergência. A crise convulsiva e o estado de mal são do O cronômetro e a segunda dose, da Neurologia — e vale trazer de lá a regra que também governa aqui: a crise que se medica é a que ocorreu, e não a que se antecipa por haver lesão.
A punção lombar — indicação, técnica, consentimento, contraindicação e medida da pressão de abertura — é do capítulo Punção lombar, de Procedimentos e Vias de Acesso. A meningite da criança é do A ordem certa não é a ordem do raciocínio, da Infectologia Pediátrica, e a hipertensão intracraniana da criptococose, com a punção de alívio como tratamento e a proibição explícita de manitol, acetazolamida e corticoide, é do HIV: quem se testa, e o que começa no mesmo dia, da Infectologia. A hipertensão intracraniana idiopática — o perfil, o papiledema e a pressão de abertura que fecha o diagnóstico — está descrita no Cefaleia no pronto-socorro; deste capítulo é só o achado de elenco sobre a acetazolamida, que está nos critérios.
A morte encefálica, com os critérios, o teste de apneia e o exame complementar, é do A morte que ainda respira, da Medicina Legal e Bioética — e a fronteira entre os dois capítulos é a palavra irreversível: enquanto houver hidrocefalia drenável ou hematoma operável, o coma não é irreversível e o protocolo não se abre. A comunicação do diagnóstico grave à família é do Comunicação de más notícias.
E o que este capítulo assume, por não ter encontrado dono em lugar nenhum do nível, e assume declaradamente: o exame neurológico seriado à beira do leito como instrumento de vigilância no paciente sem trauma; as medidas gerais que reduzem pressão e as que apenas parecem reduzir; a hidrocefalia em todas as idades, incluindo a hidrocefalia de pressão normal do idoso; a disfunção e a infecção de derivação ventricular; a diferença de conduta entre edema vasogênico e citotóxico; e a decisão de quando o caso deixa de ser do interno e passa a ser de quem opera.
Como fechar o diagnóstico
Há um exame neste capítulo que decide mais do que todos os outros somados, custa zero e não aparece em pedido nenhum: o exame neurológico repetido, com hora anotada. Ele não é confirmação do diagnóstico nem controle do tratamento — ele é o monitor de pressão intracraniana de um hospital que não tem monitor de pressão intracraniana, que é a situação da imensa maioria das portas brasileiras. Tudo o que vem abaixo se organiza em torno dele.
Este capítulo assume esse ponto e o declara: não foi encontrado documento brasileiro que padronize a vigilância neurológica seriada do paciente com hipertensão intracraniana não traumática. Os documentos federais que tratam do assunto tratam de encaminhamento e de indicação cirúrgica, não do que se faz enquanto se espera. O que segue é, portanto, régua deste capítulo, montada a partir do que os documentos brasileiros de trauma e de seguimento da hidrocefalia exigem em situações análogas, e o leitor precisa saber disso para não citá-la como se fosse norma.
Registre imediatamente um exame neurológico basal possível, em paralelo à estabilização. Corrija hipóxia, hipotensão e hipoglicemia sem esperar uma avaliação completa; depois reavalie e identifique sedativos e outras interferências. Cabeceira elevada e cabeça em posição neutra podem favorecer drenagem venosa se a perfusão e as precauções necessárias permitirem. Hiperventilação não é rotina: eventual uso de resgate exige equipe experiente e ponte para controle definitivo.
O exame que se repete é o exame
Quatro parâmetros compõem a série, e a disciplina de sempre colher os mesmos quatro, do mesmo jeito, é o que dá valor a ela. Primeiro, o nível de consciência pela escala de coma, com os três componentes escritos separadamente — a técnica está no capítulo Trauma cranioencefálico e não se repete aqui, mas a regra de decompor vale igual: um paciente que abre olhos ao chamado, fala palavras soltas e localiza é clinicamente diferente de um que abre olhos espontaneamente, está confuso e apenas retira, e os dois somam o mesmo número. Segundo, as pupilas, com diâmetro em milímetros, reatividade e simetria. Terceiro, a força nos quatro membros, graduada com número, e o teste de queda dos braços estendidos, que é o que pega a paresia discreta que a força grosseira não pega. Quarto, a movimentação ocular, procurando visão dupla e limitação da abdução.
A frequência é a parte que se negocia com a realidade do serviço, e o critério é a velocidade esperada da doença. No paciente com suspeita de descompensação aguda — o portador de válvula, o paciente que já rebaixou um ponto, quem está aguardando transferência —, o intervalo é de 15 a 30 minutos. No paciente estável com lesão conhecida em observação, de 1 a 2 horas. Na enfermaria, a cada turno, com registro. O que não existe é vigilância sem intervalo definido: a frase reavaliar se piorar não é conduta, porque delega ao paciente rebaixado a tarefa de avisar que rebaixou.
A régua de gatilho é a mesma que o capítulo de trauma consagrou, e este capítulo a adota deliberadamente para que o interno tenha um número só na cabeça em qualquer paciente neurológico: queda de 2 pontos ou mais na escala, anisocoria nova acima de 1 milímetro, ou déficit focal novo mudam a conduta imediatamente. Vale acrescentar dois gatilhos próprios da hipertensão intracraniana sem trauma, porque aqui eles aparecem antes do rebaixamento: vômito novo em quem não vomitava e cefaleia que passou a exigir analgesia parenteral.
E vale a mesma cautela do vizinho, invertida para o cenário sem trauma. Antes de atribuir uma piora à pressão intracraniana, cheque em dez segundos o que é reversível em minutos: glicemia capilar, saturação, pressão arterial e — nesta população, mais do que no trauma — sódio, sedativo prescrito na véspera, opioide acumulado, febre e retenção urinária. Rebaixamento em paciente com tumor cerebral tem, com muita frequência, uma causa banal e corrigível somada à causa estrutural, e corrigir a banal é o que devolve o paciente enquanto a vaga não sai.
A imagem: as quatro perguntas que a tomografia responde, e a lista do que ela não vê
O exame de porta é a tomografia de crânio sem contraste, e ela responde bem a quatro perguntas: há sangue agudo, há uma massa com efeito de compressão, há desvio das estruturas da linha média, e há dilatação do sistema ventricular. Essas quatro respostas decidem, sozinhas, se existe alguma coisa que precisa de neurocirurgião hoje. Fora delas o exame informa pouco, e a lista do que ele não vê é longa o bastante para valer decorar: lesão de fossa posterior pequena, isquemia nas primeiras horas, trombose venosa, meningite, encefalite, carcinomatose meníngea e pressão alta com ventrículo de tamanho normal.
A combinação de alteração de marcha, cognição e continência com ventriculomegalia sugere hidrocefalia de pressão normal, sem confirmar o diagnóstico. A ordem dos sintomas apoia o raciocínio, mas não separa todas as demências. Reavaliar imagem em busca de ventriculomegalia desproporcional, padrão dos sulcos e achados como DESH, com correlação clínica; sulcos apagados versus alargados não é uma regra binária suficiente. Medir marcha e capacidade funcional antes de testes de drenagem especializados. Em paciente estável com evolução crônica, organizar referência oportuna; novos sinais agudos mudam a urgência. Não presumir pressão liquórica medida quando a vinheta não fornece esse dado.
A tomografia com contraste e a ressonância entram depois e para outra pergunta. Contraste procura lesão que realça — tumor, abscesso, metástase — e é o que se pede quando a tomografia simples mostra massa ou quando ela é normal e a suspeita clínica persiste. A ressonância vê o que a tomografia não vê, sobretudo em fossa posterior e no trajeto do liquor, e é ela, junto do estudo de fluxo liquórico, que o documento federal brasileiro nomeia como o exame que deve acompanhar o encaminhamento de hidrocefalia no adulto e na criança. Nenhuma das duas é exame de emergência no paciente instável, pelo mesmo motivo de sempre: são demoradas e colocam o paciente onde ninguém o alcança.
Um ponto de sequência que se erra o tempo todo. Não se leva à tomografia o paciente que ainda não está estabilizado, e não se espera a tomografia para começar o que independe dela. As duas linhas do tempo são separadas: a da imagem depende do serviço e da fila; a das medidas gerais e do telefonema depende de você e começa no minuto zero. Um teste mental resolve a dúvida antes de sair da sala — suponha que o exame só fique pronto amanhã de manhã: alguma coisa da sua conduta de agora seria diferente? Se a resposta for nada, então a espera nunca justificou a inação.
A criança com válvula: contra o que se compara
No lactente de fontanela aberta há um exame que resolve a maior parte das perguntas sem radiação, sem sedação e à beira do leito: a ultrassonografia transfontanela. Ela é o exame que o documento federal brasileiro lista entre os que devem acompanhar o encaminhamento de neurocirurgia pediátrica na suspeita de tumor sólido, e é a mesma janela que a diretriz do seguimento da mielomeningocele usa para acompanhar a dilatação ventricular seriada durante o primeiro ano de vida — foi justamente essa possibilidade de acompanhar por imagem que permitiu aos neurocirurgiões adotarem uma postura mais conservadora, tolerando dilatação ventricular moderada em vez de operar cedo.
Quando a fontanela já fechou, a imagem volta a ser tomografia — e aqui está a regra que decide o caso: a tomografia do portador de derivação não se compara com o normal, compara-se com a tomografia anterior daquele paciente. Ventrículo que aumentou 2 milímetros em relação ao exame de seis meses atrás, num paciente sintomático, significa disfunção; o mesmo ventrículo lido isoladamente sai laudado como discreta ventriculomegalia, sem urgência. Peça o exame anterior, procure no sistema, ligue para o serviço que acompanha. E se não existir comparação nenhuma, diga isso em voz alta e por escrito, porque muda o peso da imagem na decisão.
O sistema de derivação inteiro pode ser visto com radiografia simples, e essa é uma investigação barata que quase nunca é pedida por quem não trabalha em serviço de neurocirurgia: a chamada série de válvula — radiografias de crânio, tórax e abdome — mostra o trajeto do cateter, desconexões, quebras, migração e o cateter distal que ficou curto porque a criança cresceu. Ela não diz se a válvula funciona, mas quando mostra uma desconexão a pergunta acabou.
Duas conferências de beira de leito completam. A palpação do reservatório da válvula é usada por quem tem prática, e a interpretação dela é notoriamente pouco confiável — o reservatório que não enche sugere obstrução proximal e o que não esvazia sugere obstrução distal, mas nenhum dos dois exclui nada, e apertar demais um reservatório é um procedimento com risco. A regra prudente para o interno é: examine o trajeto do cateter procurando sinal inflamatório, coleção e desconexão palpável, e deixe o teste do reservatório para quem opera. A segunda conferência é a temperatura e o abdome, porque infecção do sistema e pseudocisto abdominal são apresentações do mesmo dispositivo.
A punção lombar: quando ela é diagnóstico, quando é tratamento, e quando é catástrofe
A punção lombar aparece três vezes neste capítulo, com três papéis incompatíveis, e distingui-los é obrigação do interno mesmo que quem punciona seja outro. Como diagnóstico, ela mede a pressão de abertura e analisa o liquor — e é ela que fecha a hipertensão intracraniana idiopática, quando o resto da investigação não mostra nada. Como tratamento, ela retira volume e baixa a pressão, que é o que se faz na criptococose e o que se faz no teste de retirada de liquor da investigação da hidrocefalia de pressão normal. E como catástrofe, ela retira liquor de baixo de um sistema que está sendo empurrado de cima, permitindo que o parênquima desça pela única saída que existe.
A técnica, o consentimento, a medida da pressão de abertura e a lista completa de contraindicações são do capítulo Punção lombar, de Procedimentos e Vias de Acesso, e não se repetem aqui. Deste capítulo é apenas a regra de decisão que ele deixa implícita e que o interno precisa carregar: diante de sinal focal, papiledema, rebaixamento de consciência ou crise convulsiva recente, a imagem vem antes. E quando a imagem mostra massa comprimindo, linha média deslocada ou liquor represado por obstrução, a punção não é apenas adiada — ela sai da mesa enquanto aquele achado existir.
A confusão mais comum, e ela é do sentido oposto, merece ser desfeita por escrito: imagem normal não libera a agulha em quem tem hipertensão intracraniana clínica, e imagem alterada não a proíbe por si só. O que a tomografia informa é estreito — se há alguma coisa comprimindo, deslocando ou represando que torne perigoso retirar volume por baixo agora. Pressão alta sem nenhum desses três achados, que é o caso da hipertensão intracraniana idiopática e o da criptococose, não contraindica nada, e nas duas a agulha é justamente o que resolve. Quem transfere ao tomógrafo uma decisão que ele não toma erra nas duas direções.
Nesta fronteira, um lembrete que atravessa três capítulos: na suspeita de meningite, nada disso adia o antimicrobiano. Nem a imagem, nem o adiamento da punção. Essa é a regra do capítulo A ordem certa não é a ordem do raciocínio, e ela vale integralmente aqui.
O laboratório que muda conduta, e o que não muda
A investigação laboratorial deste capítulo é curta e cada item tem função declarada. Glicemia capilar em todo rebaixamento, sempre, inclusive quando a explicação estrutural parece óbvia — nenhum outro exame do carrinho custa tão pouco nem reverte tanto sozinho. Sódio sérico, por três motivos somados: a hiponatremia rebaixa e produz edema por conta própria, ela acompanha lesões intracranianas com frequência, e é ela que vai balizar a segurança se houver terapia hiperosmolar adiante. Hemograma e proteína C reativa quando há febre ou dispositivo implantado. Coagulograma e plaquetas antes de qualquer punção e em quem usa anticoagulante.
A hiponatremia merece um parágrafo próprio porque produz um erro de sentido único. Corrigir sódio rápido demais tem risco próprio e grave, e o manejo está no capítulo de hiponatremia; o que este capítulo precisa dizer é o oposto — que a hiponatremia em paciente com lesão intracraniana não é achado incidental de laboratório, é uma causa somada de rebaixamento e de edema, e que atribuir toda a piora à pressão intracraniana sem olhar o sódio deixa um problema tratável em pé.
E há o que não muda conduta e é pedido assim mesmo. Radiografia simples de crânio não avalia parênquima e não decide nada na hipertensão intracraniana não traumática — a exceção é a série de válvula, que é outra pergunta. Eletroencefalograma não mede pressão intracraniana; ele responde sobre crise, inclusive crise não convulsiva, que é diagnóstico diferencial legítimo do rebaixamento e está no capítulo O cronômetro e a segunda dose. Dosagem de marcador tumoral no sangue não diagnostica tumor cerebral. E fundo de olho, como já dito, é ótimo para provar que a pressão esteve alta e ruim para excluir que ela esteja alta agora.
O que o SUS oferece, e o que fazer quando o que falta é o neurocirurgião
A tomografia existe em boa parte da rede, e é justamente por isso que a falta dela surpreende: há portas que não têm o aparelho, e há portas que têm o aparelho e não têm o técnico naquele turno. A ressonância e o estudo de fluxo liquórico — que é o que o documento federal pede junto do encaminhamento de hidrocefalia — são ambulatoriais e regulados, o que significa fila. E o neurocirurgião é o recurso mais escasso dos três: existe em poucos serviços, e a vaga passa por regulação. Um capítulo que descrevesse só a conduta com neurocirurgia na porta seria inútil na maior parte do país.
Quando o que falta é o especialista, a régua não desaparece — ela muda de função. Deixa de ser critério de exame e passa a ser critério de transferência e de vigilância. Quem preencheria indicação de avaliação neurocirúrgica e não a tem aqui precisa sair daqui, ou ficar sob a série neurológica com horários enquanto o transporte já está sendo providenciado. E a ligação não fica esperando o laudo: aciona-se a regulação com a suspeita e com o exame, porque conseguir vaga e ambulância leva horas e o exame leva minutos.
As listas brasileiras de encaminhamento dizem quem vai. O documento federal de acesso ambulatorial marca com a prioridade máxima de regulação — P0, permanecer no nível especializado — a hidrocefalia na infância, a hidrocefalia no adulto, a síndrome de hipertensão intracraniana pós-traumática, a síndrome de Hakim-Adams e a hidrocefalia de pressão normal, além das neoplasias encefálicas e das perdas de liquor. O protocolo estadual de Santa Catarina, de 2022, encaminha à neurocirurgia a hidrocefalia com indicação cirúrgica, a fístula liquórica, as neoplasias encefálicas e do cordão espinhal, os abscessos encefálicos, as malformações do desenvolvimento e a mielomeningocele ainda não avaliada ou com hidrocefalia — e manda direto para emergência hospitalar a cefaleia associada a alteração do exame neurológico, distúrbio de comportamento, convulsão ou instalação súbita.
Três coisas continuam inteiramente nas suas mãos, sem depender de aparelho, de vaga nem de especialista — e é nelas que o interno de hospital pequeno decide o desfecho: manter o paciente posicionado e sem dor, produzir a série neurológica com horários, e avisar cedo. A quarta é escrever. A guia de transferência de um paciente com hipertensão intracraniana precisa levar a série inteira com horários, o valor anterior a qualquer sedativo, o exame de imagem anterior se houver, e o nome e o telefone de quem acompanhava aquela válvula. Quem recebe decide com o que está escrito.
As réguas da hipertensão intracraniana sem trauma
A ordem do que se faz antes de saber a causa, a régua que liga cada causa ao tratamento que de fato a resolve, os sinais que mudam de nome conforme a idade do paciente, os quatro modos de falha de uma derivação ventricular, e as contas conferidas contra as fontes oficiais brasileiras — com as que fecharam e as que não fecharam.
- 1Antes de qualquer hipótese: glicemia capilar, saturação, pressão arterial e temperatura. Rebaixamento com hipoglicemia é hipoglicemia até que a glicose corra e o exame se refaça.
- 2Cabeceira entre 30 e 45 graus, cabeça alinhada no eixo do corpo, nada apertando o pescoço. Custa trinta segundos, não precisa de autorização e é a única medida deste capítulo que funciona em todas as causas.
- 3Primeiro exame neurológico completo, com a hora ao lado: escala de coma com os três componentes escritos separadamente, pupilas com diâmetro e reatividade, força nos quatro membros com o teste de queda dos braços, e movimentação ocular procurando visão dupla.
- 4Tratar o que eleva a pressão e é tratável agora: dor, febre, vômito, agitação, bexiga cheia. Não é conforto, é conduta — e analgesia não apaga pupila nem resposta motora.
- 5Definir a velocidade do caso pela história: semanas com piora progressiva, horas com piora rápida, ou súbito. Súbito muda a suspeita para sangramento, que tem porta em outro capítulo.
- 6Perguntar sempre, e com essas palavras: existe derivação ventricular? Se existe, desde quando, quem acompanha, quantas revisões, e a família reconhece este quadro de alguma vez anterior?
- 7Tomografia de crânio sem contraste, com quatro perguntas escritas no pedido: sangue, massa com efeito de compressão, desvio de linha média, dilatação ventricular. No portador de derivação, buscar a tomografia anterior para comparar.
- 8Acionar a regulação ou a neurocirurgia antes do laudo, sempre que já houver rebaixamento, déficit focal novo, anisocoria, história de derivação ou massa conhecida. O telefonema não espera o resultado.
- 9Definir a causa antes de escolher a droga: massa com edema em volta responde a corticoide; hidrocefalia responde a drenagem e não responde a droga nenhuma; pressão da criptococose responde à agulha e o protocolo brasileiro proíbe manitol, acetazolamida e corticoide nela.
- 10Diante de deterioração com suspeita de herniação, acione imediatamente equipe de emergência e neurocirurgia, estabilize via aérea, oxigenação e perfusão e organize tratamento definitivo. A equipe pode usar solução salina hipertônica ou manitol como medida temporizadora segundo contexto e protocolo, com monitorização hemodinâmica, renal, de sódio e osmolaridade. A RENAME não informa o estoque do hospital nem define, isoladamente, indicação ou contraindicação. Cloreto de sódio a 20% é concentrado: não administrar a ampola como se fosse solução de infusão pronta; preparo, concentração final, via e velocidade devem seguir protocolo validado e dupla conferência.
- 11Repetir o exame no intervalo que você definiu e escreveu. Queda de 2 pontos, anisocoria nova acima de 1 milímetro, déficit focal novo, vômito novo ou cefaleia que passou a exigir analgesia parenteral mudam a conduta na hora.
- 12Diante de sinais de herniação: cabeceira, alinhamento, oxigenação, via aérea se indicada, hiperosmolar como ponte, e o neurocirurgião no mesmo minuto. Nunca hiperventilação profilática — só como resgate, com alvo e por tempo curto, conforme o capítulo de trauma.
- 13Ao transferir, escrever: a série neurológica com horários, o valor anterior a qualquer sedativo, a imagem e a comparação, o dispositivo implantado e quem o acompanha.
| Cenário | O que está fazendo a pressão subir | O que resolve | O que não resolve, e por quê |
|---|---|---|---|
| Tumor primário ou metastático com edema em volta | Edema vasogênico: a barreira entre sangue e tecido está rota e plasma vaza para o interstício | Corticoide, que fecha a barreira e reduz o vazamento; depois, o tratamento da lesão. A bula brasileira da dexametasona injetável lista essa indicação em letra explícita | Drenar não resolve, porque não há liquor represado. E a própria bula avisa que o corticoide não substitui a avaliação neurológica nem o tratamento definitivo |
| Hidrocefalia obstrutiva aguda | O liquor continua sendo produzido e a saída fechou | Abrir uma saída: derivação ventricular externa, derivação interna ou ventriculostomia endoscópica. É decisão e ato de quem opera | Corticoide não resolve e atrasa; hiperosmolar compra minutos e não horas. Nenhuma droga desobstrui um canal |
| Disfunção de derivação já implantada | O encanamento parou: obstrução proximal, válvula travada, ou falha do cateter distal | Revisão cirúrgica do sistema, com derivação externa como ponte quando necessário | Antiemético e analgésico melhoram o sintoma e escondem a trajetória; o dispositivo continua parado |
| Hipertensão intracraniana da meningite criptocócica | Pressão alta sem massa e sem obstrução mecânica visível | Retirada de liquor pela punção, repetida — é tratamento, não coleta. Conduta, cortes e volume estão no capítulo de HIV | O protocolo brasileiro proíbe explicitamente manitol, acetazolamida e corticoide nessa indicação. O reflexo aprendido no tumor está errado aqui |
| Hidrocefalia de pressão normal do idoso | Falha crônica de escoamento, com pressão que a medição isolada mostra normal | Avaliação para derivação, precedida do teste de retirada de liquor. É caso de ambulatório com prioridade, não de sala de emergência | Anticolinesterásico, fisioterapia isolada e o rótulo de demência não resolvem — e o rótulo é o que mais frequentemente encerra a investigação |
| Edema por isquemia extensa ou por trauma | Edema citotóxico: a célula sem energia incha por dentro, com a barreira ainda fechada | Medidas gerais, alvos fisiológicos e, quando indicada, cirurgia descompressiva — conforme os capítulos AVC isquêmico agudo e Trauma cranioencefálico | Corticoide não tem vazamento para estancar e entrega só os efeitos adversos; em traumatismo cranioencefálico aumentou a mortalidade, e a contraindicação é formal |
Os mesmos sinais, três idades, três exames
| Faixa | O que se procura | Como se examina | O que muda a conduta |
|---|---|---|---|
| Lactente com fontanela aberta | Aumento progressivo do perímetro cefálico, fontanela tensa, irritabilidade, vômitos, olhar de sol-poente nos casos avançados | Fita métrica na mesma curva, em duas datas; fontanela palpada com a criança sentada e calma, nunca deitada e chorando | Perímetro que cruza percentis, ou fontanela que permanece ou volta a abaular: imagem e avaliação de quem opera |
| Criança com fontanela fechada | Cefaleia, vômitos em jato, irritabilidade, letargia, distúrbio de equilíbrio e de marcha, estrabismo, edema de papila na longa evolução, e o sinal de MacEwen à percussão do crânio | Marcha e equilíbrio observados no corredor; percussão do crânio; movimentação ocular procurando estrabismo e visão dupla | Qualquer um deles em portador de derivação é disfunção até prova em contrário. Sem derivação, é indicação de imagem |
| Adulto | Cefaleia progressiva e matinal que piora com Valsalva, vômito sem náusea prévia, visão dupla, obscurecimento visual transitório, lentificação, déficit focal | Anamnese feita ao acompanhante sobre o que mudou no último mês; teste de queda dos braços estendidos; movimentação ocular; nível de consciência decomposto | Trajetória de semanas com déficit novo: imagem hoje. Rebaixamento de 2 pontos: conduta imediata e telefonema |
| Idoso | Lentificação, apatia, desequilíbrio, queda de rendimento, marcha alterada, incontinência — com pouca ou nenhuma dor | Perguntar ativamente por queda nas últimas semanas, e observar a marcha antes de sentar o paciente | A atrofia dá espaço e compra semanas de silêncio: o limiar para imagem é mais baixo, não mais alto |
| Qualquer idade, com derivação | O mesmo quadro do dia em que a válvula falhou da última vez, e sinais sutis: mutismo, mudança de comportamento, declínio de aprendizagem | Perguntar à família se está igual a alguma vez anterior, e anotar a resposta com as palavras dela | Piora em horas e não em semanas. Aciona-se cedo, e a imagem é comparada com a anterior daquele paciente |
Disfunção de derivação: quatro modos de falha, quatro caras diferentes
| Modo de falha | Como se apresenta | O que ajuda a reconhecer |
|---|---|---|
| Obstrução proximal (cateter ventricular) | Quadro clássico de hipertensão intracraniana instalado em horas: cefaleia, vômito, sonolência, irritabilidade | É o modo mais comum e o mais rápido. A comparação com a tomografia anterior é o que faz o diagnóstico quando a dilatação é discreta |
| Válvula travada ou mal ajustada | Mesmo quadro, às vezes intermitente, com melhora e piora ao longo do dia | A intermitência não tranquiliza — ela é típica. Válvula programável pode ter o ajuste alterado por campo magnético |
| Falha do cateter distal (desconexão, migração, encapsulamento, cateter curto) | Hipertensão intracraniana somada a achado abdominal: dor, massa palpável, coleção no trajeto | A série de válvula com radiografias de crânio, tórax e abdome mostra desconexão, quebra e cateter que ficou curto porque a criança cresceu |
| Infecção do sistema | Febre, dor abdominal, sinal inflamatório sobre o trajeto, irritabilidade e recusa alimentar; pode não haver rigidez de nuca | Febre em portador de derivação nunca é febre sem foco. Documento brasileiro registra complicação infecciosa em até 28% nas derivações de crianças com mielomeningocele |
| Hiperdrenagem (o problema oposto) | Cefaleia que piora de pé e melhora deitada; pode evoluir com coleção subdural crônica | Cefaleia que piora em pé e melhora ao deitar sugere hiperdrenagem, mas não exclui outras disfunções. Integrar evolução, exame e comparação de imagem e discutir prontamente com neurocirurgia; não inverter o tratamento com base apenas na postura. |
Da prescrição ao que existe na bandeja: dexametasona e cloreto de sódio, conferidos contra a apresentação real
| O que se prescreve | Em mL da apresentação real | Em ampolas ou frascos | Conferência |
|---|---|---|---|
| Dexametasona 4 mg por via intravenosa | 1,0 mL da solução de 4 mg/mL | 0,4 ampola de 2,5 mL — sobra material na ampola | A ampola inteira tem 10 mg, não 4 mg. Ver a primeira nota de auditoria abaixo |
| Dexametasona 8 mg por via intravenosa | 2,0 mL | 0,8 ampola | Duas doses de 8 mg consomem 1,6 ampola: programe o desprezo de sobra ou a diluição |
| Dexametasona 10 mg por via intravenosa (a dose de ataque que a própria bula escreve, com o volume ao lado) | 2,5 mL | 1 ampola exata | É a única dose deste capítulo que corresponde a uma ampola inteira, e é por isso que ela é a mais segura de prescrever |
| Dexametasona 16 mg por via intravenosa | 4,0 mL | 1,6 ampola | Quem lê o bloco de composição da bula e acredita que a ampola tem 4 mg prescreve 4 ampolas e administra 40 mg — dois vírgula cinco vezes a dose pretendida |
| Dexametasona 20 mg por via intravenosa | 5,0 mL | 2 ampolas exatas | Confere: 2 x 2,5 mL x 4 mg/mL = 20 mg |
| Cloreto de sódio a 20% — o que existe na Rename 2024, pelo Componente Básico | 1 ampola de 10 mL contém 2,0 g de cloreto de sódio | 34 mEq de sódio por ampola, a 3,4 mEq/mL | Confere contra a Rename: 200 mg/mL equivale a 3,4 mEq/mL, e 10 mL x 200 mg/mL = 2.000 mg |
| Cada 100 mL de solução salina a 3%, quando o serviço não tem a solução pronta | 15 mL de cloreto de sódio a 20% mais 85 mL de água para injeção | 1,5 ampola de 10 mL | Confere: 15 mL x 200 mg/mL = 3,0 g em 100 mL = 3,0%. A dose por quilo e o tempo de infusão são do capítulo Trauma cranioencefálico e não se escrevem aqui |
| Manitol | Não se aplica | Não se aplica | Osmoterapia é ponte de emergência, sob protocolo e monitorização; não usar NaCl concentrado como infusão pronta. Confirmar estoque local. |
Auditoria 1 — a conta que não fecha no artigo brasileiro de epidemiologia da hidrocefalia. O texto declara 137.800 internações no SIH/SUS entre 2015 e 2021. Mas as parcelas por região somam 57.557 + 35.386 + 25.152 + 10.695 + 9.090 = 137.880, e as parcelas por procedimento somam 53.067 + 50.952 + 23.585 + 798 + 2.079 + 7.399 = 137.880. Duas decomposições independentes dão o mesmo número, e ele é 80 maior que o total declarado. O desempate está no custo: o gasto total, 140.610.585,51 dólares, dividido por 137.800 dá 1.020,39, que é exatamente o custo médio por internação que o artigo publica; dividido por 137.880 daria 1.019,80. Ou seja, o total menor é o que foi usado na conta nacional — enquanto os cinco custos médios regionais publicados se reproduzem, todos, a partir das parcelas que somam 137.880. Conclusão deste capítulo: a parcela está certa, o total é que caiu um dígito, e o custo médio nacional correto é 1.019,80 dólares. Nada disso muda a mensagem clínica; muda o número que o aluno vai copiar.
Auditoria 2 — as conferências que fecharam no mesmo artigo, e elas importam tanto quanto a que falhou. Os cinco gastos regionais somam 63.171.293,12 + 31.703.993,37 + 27.464.330,00 + 10.693.188,73 + 7.577.780,29 = 140.610.585,51, exatamente o total publicado, sem um centavo de diferença. A fração do Sudeste, 63.171.293,12 sobre o total, dá 44,93%, e o artigo declara 44,9%. Os óbitos por categoria fecham: 3.966 de hidrocefalia não especificada mais 2.085 de hidrocefalia congênita dão exatamente os 6.051 publicados. E os cinco custos médios regionais reproduzem-se com quatro casas a partir das parcelas. Um documento que erra um total e acerta doze contas é um documento confiável com um erro de digitação, não um documento frouxo — e a diferença entre esses dois julgamentos é o que a conferência serve para estabelecer.
Auditoria 3 — a bula da dexametasona injetável diz que a ampola contém dois vírgula cinco vezes menos do que contém. A folha de rosto declara a apresentação: solução de 4 mg/mL, embalagem com 50 ampolas de 2,5 mL. O bloco de composição, logo abaixo, diz que cada ampola contém 4,37 mg de fosfato dissódico de dexametasona, equivalentes a 4,0 mg. Mas 4 mg/mL vezes 2,5 mL são 10 mg, e a própria bula confirma isso duas vezes mais adiante, ao escrever a dose de ataque do edema cerebral como 10 mg (2,5 mL) e a dose de manutenção como 4 mg (1 mL). O que o bloco de composição declara como conteúdo da ampola é, na verdade, o conteúdo de um mililitro. A consequência é aritmética e não é teórica: quem prescreve 16 mg contando 4 mg por ampola pede 4 ampolas e administra 40 mg.
No edema vasogênico sintomático associado a metástase cerebral, a diretriz CNS, endossada por ASCO/SNO, orienta dexametasona em doses iniciais de 4–8 mg/dia nos sintomas leves; diante de sintomas graves de hipertensão intracraniana, considerar 16 mg/dia ou regime individualizado pela equipe. Usar a menor dose eficaz, reavaliar e reduzir assim que clinicamente tolerado. Não aplicar esquemas históricos de doses muito altas como rotina nem transferir essa indicação para AVC ou traumatismo. A dose prescrita e a concentração do produto devem usar a mesma convenção química; divergências de rótulo exigem conferência com a farmácia, não conversão improvisada de sal em base.
No edema vasogênico sintomático associado a metástase cerebral, a diretriz CNS, endossada por ASCO/SNO, orienta dexametasona em doses iniciais de 4–8 mg/dia nos sintomas leves; diante de sintomas graves de hipertensão intracraniana, considerar 16 mg/dia ou regime individualizado pela equipe. Usar a menor dose eficaz, reavaliar e reduzir assim que clinicamente tolerado. Não aplicar esquemas históricos de doses muito altas como rotina nem transferir essa indicação para AVC ou traumatismo. A dose prescrita e a concentração do produto devem usar a mesma convenção química; divergências de rótulo exigem conferência com a farmácia, não conversão improvisada de sal em base.
Auditoria 6 — a diretriz brasileira do disrafismo espinhal aberto dá duas frequências incompatíveis para o mesmo fato, em dois capítulos seus. No Capítulo 3 ela escreve que a hidrocefalia pode ocorrer em até 80% dos recém-nascidos com mielomeningocele. No Capítulo 4 ela escreve que a hidrocefalia ocorre em 60% a 95% das crianças. Os dois tetos diferem em 15 pontos percentuais e citam referências diferentes, sem que o documento reconcilie as duas passagens nem diga qual adotar. Para o leitor de plantão a diferença é irrelevante — em qualquer das duas leituras, a maioria dessas crianças terá hidrocefalia, e a conduta é a mesma. Para o leitor que vai citar o número, não é: registre a faixa e diga de qual capítulo ela veio.
Diante de deterioração com suspeita de herniação, acione imediatamente equipe de emergência e neurocirurgia, estabilize via aérea, oxigenação e perfusão e organize tratamento definitivo. A equipe pode usar solução salina hipertônica ou manitol como medida temporizadora segundo contexto e protocolo, com monitorização hemodinâmica, renal, de sódio e osmolaridade. A RENAME não informa o estoque do hospital nem define, isoladamente, indicação ou contraindicação. Cloreto de sódio a 20% é concentrado: não administrar a ampola como se fosse solução de infusão pronta; preparo, concentração final, via e velocidade devem seguir protocolo validado e dupla conferência.
Auditoria 8 — uma régua federal brasileira classifica como prioridade máxima de regulação uma síndrome que evolui em meses. O documento federal de acesso ambulatorial marca com P0, a prioridade mais alta, e com contrarreferência de permanecer no nível especializado, tanto a fístula liquórica com perda ativa de liquor quanto a síndrome de Hakim-Adams e a hidrocefalia de pressão normal. Clinicamente, essas duas famílias não têm o mesmo relógio: uma perde liquor agora e a outra vem arrastando marcha e cognição há dois anos. Duas leituras são possíveis e o capítulo não escolhe entre elas: ou o P0 desse documento significa apenas encaminhamento sem triagem adicional, e não urgência de tempo; ou a régua achatou prioridades que deveriam ser distintas. O que interessa ao interno é que, nos dois casos, a hidrocefalia de pressão normal não é caso de observar e reavaliar em seis meses na unidade básica.
Diante de deterioração com suspeita de herniação, acione imediatamente equipe de emergência e neurocirurgia, estabilize via aérea, oxigenação e perfusão e organize tratamento definitivo. A equipe pode usar solução salina hipertônica ou manitol como medida temporizadora segundo contexto e protocolo, com monitorização hemodinâmica, renal, de sódio e osmolaridade. A RENAME não informa o estoque do hospital nem define, isoladamente, indicação ou contraindicação. Cloreto de sódio a 20% é concentrado: não administrar a ampola como se fosse solução de infusão pronta; preparo, concentração final, via e velocidade devem seguir protocolo validado e dupla conferência.
Nota de fronteira, e não de auditoria. A régua de gatilho deste capítulo — queda de 2 pontos na escala de coma, anisocoria nova acima de 1 milímetro, déficit focal novo — foi importada deliberadamente do capítulo Trauma cranioencefálico, onde ela tem fonte brasileira. Não foi encontrado documento brasileiro que fixe gatilho equivalente para a hipertensão intracraniana não traumática. A importação é decisão editorial deste capítulo, tomada para que o interno carregue um número só, e está declarada aqui para que ninguém a cite como se fosse norma.
A conduta, hora a hora
A conduta da hipertensão intracraniana sem trauma tem uma característica que a torna adequada ao interno: quase tudo o que muda desfecho nas primeiras horas não precisa de autorização, não precisa de equipamento e não precisa do diagnóstico pronto. Posicionar, tratar dor e febre, medir a glicemia, repetir o exame com hora, ligar cedo e escrever. O que precisa de neurocirurgião — a válvula, a drenagem, a ressecção — depende de uma vaga que você não controla, e por isso o telefonema entra na linha do tempo antes do laudo.
O relógio abaixo começa quando o paciente é reconhecido, e o reconhecimento costuma acontecer no corredor, não na sala. Havendo rebaixamento profundo ou perda do reflexo de proteção da traqueia, nada disso começa antes da via aérea — e a indicação, as drogas e a técnica estão no capítulo Alteração do nível de consciência, e, no traumatizado, no Via aérea no trauma.
Diante de deterioração com suspeita de herniação, acione imediatamente equipe de emergência e neurocirurgia, estabilize via aérea, oxigenação e perfusão e organize tratamento definitivo. A equipe pode usar solução salina hipertônica ou manitol como medida temporizadora segundo contexto e protocolo, com monitorização hemodinâmica, renal, de sódio e osmolaridade. A RENAME não informa o estoque do hospital nem define, isoladamente, indicação ou contraindicação. Cloreto de sódio a 20% é concentrado: não administrar a ampola como se fosse solução de infusão pronta; preparo, concentração final, via e velocidade devem seguir protocolo validado e dupla conferência.
Minuto 0 a 10 — o que se faz sem saber a causa
Cinco coisas acontecem antes de qualquer hipótese, e nenhuma delas depende de exame. Corrigir o que é reversível em minutos, posicionar a cabeça, tratar o que eleva a pressão e é tratável, medir e anotar. Se você é o interno sem tarefa atribuída, assuma as duas que ninguém disputa e que decidem o plantão: cronometrar e registrar.
Prescrição- Glicemia capilar imediata em todo rebaixamento, inclusive quando a explicação estrutural parece óbvia; corrigir a hipoglicemia e refazer o exame neurológico em seguida
- Oxigênio suplementar para manter saturação adequada; hipoxemia por si só rebaixa e piora um tecido que já está com oferta limitada
- Cabeceira elevada entre 30 e 45 graus e cabeça mantida no eixo do corpo, sem nada comprimindo o pescoço — a medida mais barata do capítulo, e a única que funciona em todas as causas
- Analgesia para a cefaleia, por via parenteral se a dor for intensa: dipirona 1 g por via intravenosa (dipirona 500 mg/mL solução injetável, Componente Básico da Rename 2024) — dor não é desconforto, é carga de pressão, e analgésico não apaga pupila nem resposta motora
- Antitérmico para febre e antiemético para vômito persistente: metoclopramida 10 mg por via intravenosa (solução injetável de 5 mg/mL, Componente Básico da Rename 2024) ou ondansetrona por via oral quando disponível — com a ressalva de que tratar o vômito não trata o que o produz
- Esvaziar bexiga cheia e reduzir estímulo: luz baixa, ambiente calmo. Agitação e retenção elevam pressão enquanto duram
- Não iniciar anti-hipertensivo pela pressão arterial elevada isolada: em suspeita de hipertensão intracraniana, a pressão alta pode estar sustentando a perfusão, e baixá-la piora o que se quer proteger
Minuto 10 a 30 — o exame que vira a linha de base, e a pergunta da válvula
Agora, e só agora, o exame neurológico significa alguma coisa: depois que a glicemia é conhecida, a saturação subiu e a dor cedeu. Tudo o que vier depois vai ser lido contra ele, e é ele que a neurocirurgia quer ouvir no telefone — não o diagnóstico, o exame. Se existe qualquer chance de sedação ou de intubação nas próximas horas, este registro tem de estar no papel antes que a primeira droga entre na veia, porque a partir dali ele deixa de ser obtenível. E há uma pergunta que só se faz se alguém lembrar de fazê-la.
Prescrição- Escala de coma com os três componentes anotados separadamente e a hora ao lado; pupilas com diâmetro em milímetros, fotorreatividade e simetria; força nos quatro membros graduada com número; teste de queda dos braços estendidos com olhos fechados; movimentação ocular procurando limitação da abdução e visão dupla
- Perguntar, com essas palavras, se o paciente tem derivação ventricular — e, se tiver: desde quando, por qual causa, quantas revisões já fez, quem acompanha, e se a família reconhece este quadro de alguma vez anterior. Anotar a resposta da família com as palavras dela
- Perguntar ao acompanhante, e não ao paciente, o que mudou no último mês: comportamento, rendimento, marcha, sono, palavra. Quem tem o frontal comprimido é justamente quem não percebe que mudou
- Acesso venoso periférico com coleta na mesma punção: hemograma, sódio, glicemia, coagulograma com plaquetas e proteína C reativa se houver febre ou dispositivo implantado
- Registrar a lista de medicamentos em uso, com atenção a anticoagulante, antiagregante e corticoide já iniciado — pedir a receita, a caixa ou a foto no celular, porque o paciente confuso não conta
Minuto 30 a 90 — a imagem, e o telefonema que não espera o laudo
A tomografia responde quatro perguntas, e num paciente com trajetória de semanas e achado neurológico novo não há alternativa a pedi-la. O que costuma ser feito fora de ordem não é o exame, é a sequência em torno dele: estabiliza-se antes de transportar, e a regulação é avisada enquanto o paciente ainda está na fila da imagem, não depois do laudo. Conseguir uma vaga e um transporte leva horas; conseguir um exame leva minutos. Comece pelo que demora.
Prescrição- Tomografia de crânio sem contraste, com as quatro perguntas escritas no pedido: sangue agudo, massa com efeito de compressão, desvio de linha média, dilatação do sistema ventricular
- No portador de derivação, buscar ativamente a tomografia anterior daquele paciente e pedir a comparação no laudo; se não houver comparação, registrar por escrito que não há
- No portador de derivação, série de válvula com radiografias de crânio, tórax e abdome, procurando desconexão, quebra, migração e cateter distal curto
- No lactente com fontanela aberta, ultrassonografia transfontanela — sem radiação, sem sedação, à beira do leito — e medida do perímetro cefálico plotada na curva, comparada com a medida anterior
- Transporte para a imagem apenas depois da estabilização clínica; a sala de tomografia é o pior lugar do hospital para uma intercorrência
- Acionar a regulação ou a neurocirurgia sem esperar o laudo diante de rebaixamento, déficit focal novo, anisocoria, massa já conhecida, derivação implantada ou febre em portador de derivação
Quando a imagem mostra massa com edema em volta
Este é o cenário em que o corticoide é o tratamento, e não um erro. O edema em volta de um tumor é vasogênico, a barreira vaza, e fechá-la reduz volume em horas. A bula brasileira da dexametasona injetável nomeia essa indicação em letra explícita — edema cerebral associado a tumor cerebral primário ou metastático, a neurocirurgia, ao pseudotumor cerebral e ao pré-operatório da hipertensão intracraniana secundária a tumor — e, na mesma frase, avisa que o corticoide não substitui a avaliação neurológica cuidadosa nem o tratamento definitivo. Prescrever dexametasona e parar por aí é o erro que a própria bula antecipou.
Prescrição- Dexametasona 10 mg por via intravenosa em dose de ataque, seguida de 4 mg a cada 6 horas, conforme o esquema que a bula escreve para o edema cerebral associado a tumor (bula profissional do fosfato dissódico de dexametasona 4 mg/mL). Em ampolas: 10 mg correspondem a 2,5 mL, ou uma ampola inteira; 4 mg correspondem a 1 mL
- No edema vasogênico sintomático associado a metástase cerebral, a diretriz CNS, endossada por ASCO/SNO, orienta dexametasona em doses iniciais de 4–8 mg/dia nos sintomas leves; diante de sintomas graves de hipertensão intracraniana, considerar 16 mg/dia ou regime individualizado pela equipe. Usar a menor dose eficaz, reavaliar e reduzir assim que clinicamente tolerado. Não aplicar esquemas históricos de doses muito altas como rotina nem transferir essa indicação para AVC ou traumatismo. A dose prescrita e a concentração do produto devem usar a mesma convenção química; divergências de rótulo exigem conferência com a farmácia, não conversão improvisada de sal em base.
- Resposta esperada em 12 a 24 horas, segundo a própria bula; se não houver resposta nenhuma nesse prazo, a hipótese de edema vasogênico precisa ser revista antes de subir a dose
- Manter a dose alta apenas até a estabilização, o que a bula diz não passar usualmente de 48 a 72 horas; depois, redução gradual, com passagem para a via oral assim que possível
- Prescrever junto: protetor gástrico, controle de glicemia capilar pelo menos duas vezes ao dia e atenção a agitação e insônia, que são efeitos previsíveis e frequentemente atribuídos à doença
- Não iniciar anticonvulsivante profilático apenas por existir lesão expansiva: o que se medica é a crise que aconteceu, e o manejo dela é do capítulo O cronômetro e a segunda dose
- Acionar oncologia e neurocirurgia. Em tumor inoperável ou recidivante, a mesma bula descreve manutenção paliativa com 2 mg, duas a três vezes ao dia, decisão que não é de porta
Quando a imagem mostra hidrocefalia
Aqui está a lição que mais separa este capítulo do capítulo de trauma: não existe droga que trate hidrocefalia. O liquor continua sendo produzido, a saída está fechada, e nenhuma substância abre um canal. Corticoide não resolve e atrasa. Terapia hiperosmolar compra minutos e serve apenas como ponte enquanto alguém organiza a drenagem. O tratamento é mecânico, e é de quem opera — o que significa que a conduta do interno, deste ponto em diante, é quase toda logística e vigilância.
Prescrição- Acionar a neurocirurgia ou a regulação imediatamente, com a suspeita e o exame, sem esperar segundo laudo. Hidrocefalia com indicação cirúrgica está na lista estadual de encaminhamento à neurocirurgia (SES-SC, 2022) e a hidrocefalia no adulto e na infância está com prioridade P0 no documento federal de acesso ambulatorial (MS, 2015)
- Manter as medidas gerais e o exame seriado com intervalo de 15 a 30 minutos enquanto a vaga não sai; é nesse intervalo que se perde ou se ganha o paciente
- Não puncionar o líquor. Diante de hidrocefalia obstrutiva, de massa com efeito de compressão ou de desvio de linha média, a punção lombar deixa de ser opção enquanto aquilo estiver lá
- Diante de deterioração com suspeita de herniação, acione imediatamente equipe de emergência e neurocirurgia, estabilize via aérea, oxigenação e perfusão e organize tratamento definitivo. A equipe pode usar solução salina hipertônica ou manitol como medida temporizadora segundo contexto e protocolo, com monitorização hemodinâmica, renal, de sódio e osmolaridade. A RENAME não informa o estoque do hospital nem define, isoladamente, indicação ou contraindicação. Cloreto de sódio a 20% é concentrado: não administrar a ampola como se fosse solução de infusão pronta; preparo, concentração final, via e velocidade devem seguir protocolo validado e dupla conferência.
- Jejum e acesso venoso mantidos, porque o destino provável é o centro cirúrgico de outro serviço
- Se o rebaixamento progredir e a vaga não sair, reavaliar a indicação de via aérea definitiva conforme o capítulo Alteração do nível de consciência, registrando o exame neurológico completo antes da primeira droga
O paciente com derivação que chega vomitando
Este é o cenário mais frequente do capítulo e o que mais depende de o interno fazer uma pergunta. A criança chega irritada, vomitando, com febre baixa, e a hipótese que a fila oferece é virose. A diferença entre os dois desfechos possíveis está em quanto tempo leva até alguém perguntar se existe uma válvula — e, existindo, em tratar isso como disfunção até prova em contrário, porque o paciente já derivado piora em horas e não em semanas.
Prescrição- Tratar como disfunção de derivação até prova em contrário: exame neurológico seriado a cada 15 a 30 minutos, com hora anotada, e reavaliação por quem opera
- Tomografia de crânio comparada com a anterior do mesmo paciente, mais série de válvula com radiografias de crânio, tórax e abdome
- Examinar todo o trajeto do cateter procurando sinal inflamatório, coleção, desconexão palpável e abdome doloroso ou com massa; medir temperatura e registrar
- Não manipular o reservatório da válvula: a interpretação é pouco confiável e a manobra tem risco. Deixe para quem opera
- Febre em portador de derivação não é febre sem foco. Colher hemocultura e proteína C reativa e discutir com a neurocirurgia antes de rotular; documento brasileiro registra complicação infecciosa em até 28% nas derivações de crianças com mielomeningocele
- Cefaleia ortostática em paciente com derivação sugere hiperdrenagem, mas não fecha diagnóstico nem autoriza baixa prioridade por si só. Avaliar sinais de gravidade, comparar imagem e discutir prontamente com neurocirurgia; investigar coleção subdural e outras falhas do sistema antes de programar ajuste.
- Valorizar o relato do cuidador sobre mudança em relação ao estado habitual e episódios prévios; integrar esse dado ao exame seriado e às imagens, sem atribuir-lhe superioridade diagnóstica universal.
O minuto da herniação
Quatro achados abrem esta janela: pupila que ficou maior de um lado, nível de consciência que despencou, postura anormal de membros, ou pressão arterial subindo enquanto a frequência cardíaca cai e a respiração perde o ritmo. A partir daí nada é sequencial — quatro pessoas fazem quatro coisas no mesmo minuto, e a única ordem que importa é que ninguém espere a outra terminar. E há uma checagem de dez segundos que precede a conclusão: glicemia, saturação e pressão arterial. Corrigi-las é mais rápido do que qualquer ampola, e em alguns pacientes é tudo o que estava faltando.
Prescrição- Cabeceira a 30 graus, cabeça alinhada, nada comprimindo o pescoço, e oxigenação garantida — nesta ordem, porque são as três que começam no mesmo segundo
- Terapia hiperosmolar como resgate, com dose, diluição, tempo de infusão e monitorização no capítulo Trauma cranioencefálico. Este capítulo não repete a prescrição: cede o assunto por nome
- Hiperventilação apenas como resgate, com alvo definido e por tempo curto, enquanto a cirurgia é organizada — nunca profilática, nunca prolongada. A regra e os alvos estão no capítulo Trauma cranioencefálico
- Telefonar para a neurocirurgia no mesmo minuto, com o exame anterior e o exame atual, com as horas das duas medidas
- Reavaliar em 5 minutos e registrar. Uma anisocoria que reverte com as medidas gerais é informação, não engano
- Não iniciar corticoide na herniação por edema citotóxico — isquemia extensa, trauma. A indicação de corticoide neste capítulo é o edema vasogênico da massa, e só ele
Quando o caso deixa de ser seu
Existe um momento em que a melhor conduta do interno é transferir, e existe uma diferença enorme entre transferir bem e transferir. A guia de um paciente com hipertensão intracraniana é um documento clínico, não burocrático: quem recebe vai decidir a indicação cirúrgica com o que estiver escrito nela, e o que mais falta é justamente o que só existia à beira do leito.
Prescrição- Vão para a neurocirurgia, com prioridade máxima no documento federal de acesso ambulatorial: hidrocefalia na infância, hidrocefalia no adulto, síndrome de hipertensão intracraniana pós-traumática, síndrome de Hakim-Adams, hidrocefalia de pressão normal, neoplasias encefálicas e perda de liquor
- Vão pela lista estadual de Santa Catarina: hidrocefalia com indicação cirúrgica, fístula liquórica, neoplasias encefálicas e do cordão espinhal, abscessos encefálicos, malformações do desenvolvimento, e mielomeningocele ainda não avaliada ou com hidrocefalia
- Vão direto para emergência hospitalar, pela mesma lista estadual: cefaleia associada a alteração do exame neurológico, a distúrbio de comportamento, a convulsão ou de instalação súbita
- Na guia, escrever a série neurológica inteira com os horários de cada medida, e não apenas o último exame — a trajetória é o dado
- Na guia, escrever o valor do exame anterior a qualquer sedativo, opioide ou bloqueador neuromuscular, com o horário da droga
- Na guia, escrever qual imagem foi feita, contra qual exame anterior foi comparada, e o dispositivo implantado com o serviço e o telefone de quem o acompanha
- Manter o exame seriado durante a espera do transporte e durante o transporte, com registro — e reavaliar na chegada, porque a viagem é justamente o intervalo em que ninguém está olhando
Como saber se está funcionando
Na hipertensão intracraniana sem trauma, a reavaliação não confere o tratamento: ela é o exame diagnóstico. Nenhum resultado de laboratório avisa que a pressão subiu, e a imagem congela um instante que, na hora em que o laudo sai, já passou. Quem informa é a repetição — o mesmo conjunto de achados, colhido pela mesma técnica, em intervalos que alguém escreveu antes, cada um com o horário ao lado.
Dois princípios governam a lista abaixo. O primeiro é que a direção pesa mais do que o número: quem estava 15 e está 13 corre mais risco do que quem está 13 desde a manhã, ainda que a linha do prontuário seja a mesma. O segundo é que nenhuma piora deve ser creditada à pressão intracraniana antes de você percorrer o que se resolve em minutos — glicemia, saturação, pressão arterial, sódio, sedativo, opioide, febre e bexiga cheia. Essa relação é mais longa aqui do que no trauma, porque estes pacientes ficam internados e acumulam iatrogenia.
Esperado: Escore que se mantém ou sobe, colhido sempre pela mesma técnica de estímulo, e sempre com os três componentes anotados um a um em vez do total
Se não melhora: Queda de 2 pontos ou mais muda a conduta imediatamente: nova imagem, reavaliação neurocirúrgica e telefonema. Antes de concluir que é a pressão, cheque glicemia, saturação, pressão arterial e sódio. Se o número cair a ponto de o paciente não proteger a própria via aérea, a indicação de via aérea definitiva é do capítulo Alteração do nível de consciência
Esperado: Isocóricas e fotorreagentes ao longo de toda a série
Se não melhora: Assimetria nova acima de 1 milímetro exige acionar a neurocirurgia no mesmo minuto; se a pupila maior estiver arreativa, conduza como herniação enquanto a imagem se organiza. Guarde por que este parâmetro tem peso especial aqui: quando o paciente é sedado, e mais ainda quando recebe bloqueador neuromuscular, todo o resto do exame desaparece — e a pupila continua respondendo. Ela é o que resta de exame neurológico num paciente intubado, e por isso o valor dela precisa estar registrado desde antes da primeira droga.
Esperado: Movimentos oculares completos nos dois olhos, sem limitação da abdução e sem queixa de visão dupla ao olhar para os lados
Se não melhora: Limitação nova da abdução, com visão dupla que piora ao olhar para aquele lado, é paralisia do sexto nervo e sinal de pressão — não indica onde está a lesão, e por isso não se deve buscar um foco correspondente. É achado que sobe a prioridade da imagem e do telefonema, mesmo com o nível de consciência inalterado
Esperado: Dor que cede com o analgésico prescrito e não retorna com a mesma intensidade; vômito que cessa
Se não melhora: Cefaleia que passou a exigir analgesia parenteral, ou vômito novo em quem não vomitava, são gatilhos deste capítulo — sobem a suspeita mesmo com exame neurológico inalterado. E o inverso também informa: dor que melhorou porque o paciente rebaixou não é melhora, é piora silenciosa. Compare sempre a queixa com o nível de consciência do mesmo momento
Esperado: Perímetro acompanhando o próprio canal de crescimento; fontanela normotensa
Se não melhora: Perímetro que cruza percentis, ou fontanela que permanece ou volta a abaular, exige imagem e avaliação de quem opera. No portador de derivação, a diretriz brasileira do seguimento da mielomeningocele pede vigilância especialmente nos primeiros 60 dias após o fechamento do defeito e revisão semestral ao longo da primeira década
Esperado: Sem queda progressiva e sem salto brusco
Se não melhora: Hiponatremia em paciente com lesão intracraniana não é achado incidental: ela produz rebaixamento e edema por conta própria e é tratável. Atribuir toda a piora à pressão sem olhar o sódio deixa um problema resolvível em pé. A velocidade de correção tem risco próprio e o manejo é do capítulo de hiponatremia — o que se garante aqui é mais modesto e falha com frequência: que o sangue seja colhido no horário combinado e que alguém leve o resultado a quem vai decidir.
Esperado: Acompanhante que descreve o paciente igual ou melhor do que na última vez
Se não melhora: Mudança percebida por paciente ou cuidador exige reavaliação imediata e comparação com o estado basal. O relato é valioso, mas não tem superioridade diagnóstica universal sobre exame e imagem.
Onde o erro machuca
O dano: A hipertensão arterial com bradicardia e respiração irregular é resposta do tronco encefálico à própria compressão — ela existe porque a estrutura mais protegida do encéfalo já está sendo espremida. Quem usa a tríade como critério de ação age no último degrau de uma escada que tinha seis, e todos os cinco anteriores eram reversíveis: a dor que mudou de padrão, o vômito matinal, a visão dupla, a lentificação, o déficit discreto.
Como pegar a tempo: Troque o gatilho. Em vez de procurar a tríade, procure a trajetória: dois exames com hora, e a diferença entre eles. Escreva o intervalo de reavaliação na prescrição, como se escreve um horário de medicação, e trate queda de 2 pontos, anisocoria nova, déficit focal novo, vômito novo e cefaleia que passou a exigir analgesia parenteral como cinco gatilhos de igual peso.
O dano: Paciente com cefaleia e pressão de 170 por 100 recebe anti-hipertensivo e é observado. Se a pressão arterial estava alta para vencer uma pressão intracraniana alta, baixá-la reduz a perfusão do tecido que já estava no limite — e o paciente rebaixa depois do remédio, o que costuma ser interpretado como evolução da doença e não como consequência da prescrição.
Como pegar a tempo: Em suspeita de hipertensão intracraniana, pressão arterial elevada é dado, não alvo. Trate a causa da pressão intracraniana; a pressão arterial desce sozinha quando a caixa alivia. A conduta da emergência hipertensiva propriamente dita, e a diferença entre urgência e emergência, é do capítulo de crise hipertensiva — e a distinção que este capítulo acrescenta é olhar a frequência cardíaca: pressão alta com frequência baixa em paciente com cefaleia progressiva não é doença hipertensiva.
O dano: O mesmo frasco tem três destinos opostos. No edema em volta de um tumor, ele é o tratamento e a bula brasileira o nomeia. Na isquemia extensa e no traumatismo, ele não tem vazamento para estancar e entrega só efeito adverso — em traumatismo cranioencefálico aumentou a mortalidade e a contraindicação é formal. Na hipertensão intracraniana da criptococose, o protocolo brasileiro o proíbe explicitamente, junto com manitol e acetazolamida. E na hidrocefalia obstrutiva ele não faz nada e consome o tempo em que alguém deveria estar organizando a drenagem.
Como pegar a tempo: Antes de assinar corticoide num paciente com hipertensão intracraniana, responda em voz alta a uma pergunta: qual é o mecanismo do edema deste paciente? Se a resposta for vazamento em volta de uma massa, prescreva. Se for isquemia, trauma, infecção fúngica ou obstrução de liquor, não prescreva e diga por quê na evolução.
O dano: É a omissão mais barata e mais cara do capítulo. A criança com válvula chega vomitando, com febre baixa e irritada, e a fila oferece o rótulo de virose. O paciente já derivado perdeu complacência e piora em horas, não em semanas — de modo que o intervalo entre a triagem e a pergunta é literalmente o intervalo em que a doença avança. E quando alguém finalmente pergunta, a família responde na hora, porque ela sabe.
Como pegar a tempo: Ponha a pergunta na rotina, com essas palavras, em todo paciente com cefaleia, vômito, sonolência ou irritabilidade, em qualquer idade: você tem alguma válvula, alguma derivação, alguma cirurgia na cabeça? Procure a cicatriz retroauricular e palpe o trajeto no pescoço e no tórax. E quando a resposta for sim, pergunte a segunda: está igual a alguma vez anterior?
O dano: Num portador de derivação, ventrículo pouco dilatado não significa válvula funcionando: anos de drenagem deixaram esses ventrículos rígidos, e a pressão sobe com dilatação mínima. O laudo isolado sai correto e o paciente vai para casa com a doença em curso. O mesmo vale no sentido oposto, no idoso: ventrículo grande sai laudado como ventriculomegalia e é atribuído à idade, quando pode ser hidrocefalia com sulcos apagados.
Como pegar a tempo: A comparação é o exame. Procure a tomografia anterior daquele paciente no sistema, ligue para o serviço que o acompanha, peça a comparação no laudo — e, se não houver nenhuma imagem prévia, escreva isso no prontuário, porque muda o peso da tomografia na decisão. No idoso, leia três coisas além do tamanho: sulcos, cornos temporais e transudação periventricular.
O dano: Os quatro elevam a pressão intracraniana enquanto duram — não são desconforto, são carga. O raciocínio de não mascarar é bem-intencionado e está errado nas duas pontas: analgésico e antitérmico não apagam pupila, não apagam resposta motora e não apagam déficit focal, que são os parâmetros que se acompanha; e o paciente com dor 9 de 10, agitado, vomitando, está piorando ativamente enquanto se espera a tomografia.
Como pegar a tempo: Trate dor, febre, vômito e agitação como tratamento da pressão, e registre o exame neurológico antes e depois da analgesia — assim a série continua interpretável. A exceção real é a sedação profunda: essa apaga o exame de verdade, e por isso o exame neurológico completo tem de estar escrito antes da primeira droga sedativa, com a hora.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa deste capítulo tem uma dificuldade específica: em quase todas as versões dela você está pedindo à família que aceite uma transferência para outra cidade com base num exame que ainda não terminou, ou pedindo que ela confie numa vigilância que, do lado de fora, parece inação. As duas coisas se sustentam pela mesma técnica, e ela tem três movimentos: nomear o que já se sabe, admitir em voz alta o que ainda não se sabe, e marcar um horário em que haverá notícia nova.
A comunicação estruturada de má notícia, incluindo o momento em que o diagnóstico oncológico é dado e o momento em que o prognóstico fica sombrio, é do capítulo Comunicação de más notícias. O que segue são as conversas intermediárias, que ninguém ensina e todo interno tem: o corredor, a espera, a válvula e a transferência.
Primeira conversa com a esposa do Irineu, ainda no corredor, antes da tomografia
“"A dor de cabeça dele não é uma dor de cabeça comum, e por dois motivos: ela vem piorando há três semanas e hoje eu encontrei uma coisa no exame que a senhora não tinha notado — o braço direito dele desce um pouco quando ele estica os dois. Isso pode ser várias coisas, e algumas delas precisam de tratamento rápido, então eu vou pedir uma tomografia agora. Enquanto o exame não sai, eu vou voltar aqui de vinte em vinte minutos para examiná-lo de novo e anotar a hora. Não é porque eu espero que ele piore: é porque, se piorar, eu preciso saber no minuto em que acontecer, e não depois."”
Não diga: Não diga que é enxaqueca, nem que provavelmente não é nada. Não diga tumor antes de ter a imagem. E não deixe a família sem intervalo: dizer vou voltar sem dizer quando é o que produz o toque de campainha a cada cinco minutos.
Explicando por que ele vai ser transferido para outra cidade
“"O exame mostrou uma lesão dentro da cabeça dele, e ela está apertando o cérebro em volta. O tratamento disso é de neurocirurgia, e este hospital não tem neurocirurgião — o mais próximo é na capital. Eu já liguei para a regulação e já pedi a vaga, antes mesmo de o laudo ficar pronto, para não perder tempo. Enquanto a vaga não sai, ele fica aqui comigo, com a cabeceira levantada, sem dor, e eu examino de novo a cada vinte minutos. Quando a ambulância chegar, tudo o que eu examinei vai escrito na guia, com os horários, para o médico de lá continuar de onde eu parei."”
Não diga: Não prometa horário de vaga que você não controla. Não diga que a transferência é só protocolo, porque não é. E não descreva a lesão com palavras que a família vai pesquisar no caminho sem ninguém por perto — descreva o que ela está fazendo, não o que ela pode ser.
Quando a família pergunta se não dá para fazer alguma coisa enquanto espera
“"A gente está fazendo. Só que quase tudo o que ajuda aqui não parece tratamento: manter a cabeceira levantada e a cabeça reta ajuda o sangue a sair da cabeça e alivia a pressão; tratar a dor e a febre alivia a pressão também; e o exame que eu repito é o jeito de medir a pressão dentro da cabeça dele sem furar nada. Tem um remédio que eu já comecei, que reduz o inchaço em volta da lesão. O que falta é a parte que só se faz em centro cirúrgico, e essa depende da vaga."”
Não diga: Não diga que não há nada a fazer, porque é falso e porque desmobiliza a família justamente quando ela é útil. E não prometa que o remédio resolve: ele reduz o inchaço, não trata a causa — a própria bula diz isso.
Com a mãe de uma criança com válvula, quando ela diz que está igual à vez anterior
“"A senhora já viu isso antes e reconheceu. Eu vou tratar como se a senhora estivesse certa, porque na maior parte das vezes está. Vou pedir a tomografia e as radiografias que mostram o caminho da válvula, e vou comparar com o exame anterior dele, não com o de qualquer criança. E vou falar com a neurocirurgia agora, antes do resultado. Enquanto isso, o que eu preciso da senhora é que me avise na hora se ele ficar mais sonolento, se vomitar de novo ou se ficar diferente do jeito que está agora."”
Não diga: Não trate o relato como impressão de mãe ansiosa. Não diga que é virose porque tem febre baixa. E não peça que ela espere para ver: ela já esperou em casa, e é por isso que está aqui.
Explicando a uma família por que não se punciona o líquor agora
“"A senhora está certa de que o exame do líquido da espinha ajudaria a saber o que é. Só que ele não pode ser feito agora, e o motivo é mecânico: existe uma coisa empurrando o cérebro de cima, e se eu tirar líquido de baixo, o cérebro desce. Depois que a imagem mostrar que isso não é mais um risco, ou depois que a neurocirurgia resolver a parte dela, aí a punção passa a ser possível — e talvez seja necessária. Não é que ninguém queira fazer: é que a ordem importa."”
Não diga: Não diga apenas está contraindicado. Explique a mecânica, porque ela é intuitiva e a família entende em uma frase. E não deixe a impressão de que a punção foi descartada para sempre, porque frequentemente ela volta à mesa depois.
Passando o caso para o plantão seguinte, com a vaga ainda não confirmada
“"Irineu Vaz, 58 anos, cefaleia progressiva há três semanas, vômito matinal, e hoje lentificação com paresia leve à direita. Chegou 15, às 19h52; às 21h10 estava 14, com a mesma pupila. Tomografia com lesão e edema, com desvio de linha média. Já recebeu dexametasona, cabeceira a 30 graus, analgesia. Regulação acionada às 20h35, vaga não confirmada. O que eu preciso que você faça: exame a cada trinta minutos, anotado com hora, e me liga se cair dois pontos, se a pupila mudar ou se ele vomitar de novo."”
Não diga: Não passe o caso pelo diagnóstico. Passe pela trajetória e pelo gatilho: quem recebe precisa saber de onde ele veio, para onde estava indo e o que muda a conduta — não apenas o que ele tem.
Alta de um paciente com hipertensão intracraniana investigada e afastada, ou com investigação em curso
“"O exame de hoje não mostrou nada que precise de cirurgia agora, e isso é uma boa notícia — mas não é uma alta com o assunto encerrado. A investigação continua, com a consulta que eu já marquei e o exame que eu já pedi. Eu vou escrever aqui, e deixar com o senhor e com a sua esposa, uma lista do que faz voltar antes: dor de cabeça que aumenta, vômito, ficar sonolento, ver dobrado, ficar confuso, uma fraqueza nova, ou qualquer coisa que a esposa achar diferente. Se qualquer uma dessas acontecer, voltem — não esperem a consulta."”
Não diga: Não dê alta oral. A lista precisa sair escrita, em duas vias, e entregue também ao acompanhante — porque quem vai aplicá-la em casa é ele, não o paciente. E não use termo técnico na lista: ver dobrado funciona, diplopia não.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Diretriz CNS endossada por ASCO/SNO
No edema vasogênico sintomático associado a metástase cerebral, a diretriz CNS, endossada por ASCO/SNO, orienta dexametasona em doses iniciais de 4–8 mg/dia nos sintomas leves; diante de sintomas graves de hipertensão intracraniana, considerar 16 mg/dia ou regime individualizado pela equipe. Usar a menor dose eficaz, reavaliar e reduzir assim que clinicamente tolerado. Não aplicar esquemas históricos de doses muito altas como rotina nem transferir essa indicação para AVC ou traumatismo. A dose prescrita e a concentração do produto devem usar a mesma convenção química; divergências de rótulo exigem conferência com a farmácia, não conversão improvisada de sal em base.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6422436/
Diferenciar edema vasogênico tumoral de outras causas, discutir gravidade e dose com a equipe e documentar plano de redução. Esquemas históricos de bula não são alternativas automaticamente equivalentes.
A imagem é o exame que decide, e ventrículo que não dilatou fala contra a disfunção
A leitura que sustenta essa posição é a de que a hidrocefalia é, por definição, distensão ativa do sistema ventricular, e que a imagem existe justamente para demonstrá-la. Os documentos brasileiros que tratam do assunto reforçam o papel da imagem: a diretriz do seguimento da mielomeningocele apoia a conduta conservadora explicitamente na possibilidade de acompanhar a dilatação ventricular por ultrassonografia seriada, e o documento federal de acesso ambulatorial manda o encaminhamento acompanhado de tomografia, ressonância e estudo de fluxo liquórico.
Diretriz clínica brasileira de linha de cuidado para malformações cirúrgicas: disrafismo espinhal aberto, Fiocruz/IFF, 2023; Protocolos de Acesso Ambulatorial: Consultas Especializadas, Ministério da Saúde, 2015
A clínica decide, e a imagem sem comparação não afasta nada
A leitura oposta parte de que o paciente derivado teve os ventrículos mantidos pequenos por anos e perdeu complacência, de modo que a pressão pode subir com dilatação mínima ou ausente. Nesse quadro, o exame que decide é a trajetória clínica — e os mesmos documentos brasileiros dão suporte indireto, ao listarem como sinais de descompensação um conjunto inteiramente clínico, incluindo sinais sutis como mutismo, mudança de comportamento e declínio de aprendizagem, e ao recomendarem que a família seja treinada para reconhecê-los.
Diretriz clínica brasileira de linha de cuidado para malformações cirúrgicas: disrafismo espinhal aberto, Fiocruz/IFF, 2023, capítulo 4
As duas posições ficam compatíveis se a pergunta certa for feita: a imagem não responde tem hidrocefalia, ela responde mudou em relação ao exame anterior deste paciente. Sem exame anterior, o valor dela cai muito, e isso precisa estar escrito. Para o paciente à sua frente, decida por três dados. Primeiro: existe imagem prévia para comparar? Se não, a decisão é clínica e o peso da tomografia é baixo. Segundo: a família reconhece o quadro de alguma descompensação anterior? Se sim, esse é o dado mais forte da mesa. Terceiro: qual a velocidade? Piora em horas em paciente derivado é disfunção até prova em contrário, mesmo com imagem pouco alterada. E o critério que resolve o empate é a reversibilidade do erro: uma avaliação neurocirúrgica desnecessária custa uma viagem e um exame; uma disfunção não reconhecida custa o cérebro que ainda restava.
Prioridade máxima de regulação, e o caso não volta para a atenção básica
O documento federal brasileiro de acesso ambulatorial classifica a síndrome de Hakim-Adams e a hidrocefalia de pressão normal com prioridade P0 — a mais alta da escala do próprio documento — e com contrarreferência de permanecer no nível especializado, ao lado da hidrocefalia no adulto e da síndrome de hipertensão intracraniana pós-traumática. O protocolo estadual de Santa Catarina, por sua vez, encaminha à neurocirurgia a hidrocefalia com indicação cirúrgica.
Protocolos de Acesso Ambulatorial: Consultas Especializadas, Ministério da Saúde, 2015; Protocolo de Acesso e Regulação — Consulta em Neurologia Adulto, SES-SC, junho de 2022
É investigação de síndrome demencial, e entra na fila de quem investiga demência
A leitura oposta parte de que a paciente se apresenta com marcha alterada, declínio cognitivo e incontinência instalados ao longo de meses a anos, e de que a maior parte desses pacientes não tem hidrocefalia tratável — de modo que a porta de entrada natural é a investigação de síndrome demencial, com neuroimagem estrutural procurando as lesões que têm conduta própria, entre elas a hidrocefalia. É a lógica do capítulo A queixa é da filha, da Geriatria, que coloca a hidrocefalia entre as lesões estruturais a procurar e que também a inclui, nominalmente, entre as poucas indicações de punção lombar na investigação de demência.
Capítulo A queixa é da filha, apostila de Geriatria, desta coleção; protocolo clínico brasileiro de demência nele citado
Não existe documento brasileiro de sociedade de especialidade sobre hidrocefalia de pressão normal, e a única régua federal disponível é uma régua de regulação de consulta, não de conduta clínica — o que quer dizer que qualquer posição aqui está apoiada em pouco. Para o paciente à sua frente, três perguntas resolvem sem precisar da doutrina. A marcha veio primeiro? Na hidrocefalia de pressão normal a alteração de marcha costuma preceder a cognição, e a inversão dessa ordem fala contra. A neuroimagem mostra ventrículos grandes com sulcos apagados, e não ventrículos grandes com sulcos também alargados? A primeira é pressão, a segunda é atrofia. E existe caminho real, no seu município, para o teste de retirada de liquor e para a avaliação neurocirúrgica? Se existe, encaminhe com prioridade e escreva o motivo. Se não existe, encaminhe assim mesmo e registre a barreira — porque o que não pode acontecer é o paciente sair da consulta com o rótulo de demência e sem nenhum encaminhamento, que é o desfecho mais comum e o único que fecha a porta.
O raciocínio, em voz alta
Terça-feira, 21h30, pronto-socorro de hospital municipal de sessenta leitos, a cento e dez quilômetros do hospital estadual que tem neurocirurgia. Tem tomógrafo e o técnico está de sobreaviso. Você é o interno da noite. Dona Balbina Neiva entra carregando o filho de 4 anos, 16 quilos, e a primeira frase dela é: ele está igual à vez em que a válvula entupiu. O menino nasceu com mielomeningocele, foi operado nos primeiros dias de vida e recebeu uma derivação ventriculoperitoneal com dois meses; já fez duas revisões, a última há um ano e meio. Está sonolento, mas acorda quando a mãe chama, reconhece a mãe e não quer conversar com você. Vomitou três vezes desde as seis da tarde, sem enjoo antes. Temperatura axilar 37,8 °C, frequência cardíaca 104, frequência respiratória 22, saturação 98% em ar ambiente, pressão 104 por 62, glicemia capilar 96 mg/dL. Pupilas isocóricas e fotorreagentes. Move os quatro membros; a força nos inferiores é a de sempre, segundo a mãe. A ficha da classificação de risco diz: vômitos e febre. Cor amarela.
21h32 — a primeira frase da mãe é o dado mais forte da mesa
Antes de examinar qualquer coisa, eu já tenho uma informação que nenhum exame deste hospital vai me dar hoje: uma mãe que já viu duas disfunções de válvula está me dizendo que este quadro é igual. Isso não é impressão leiga — é reconhecimento de padrão por quem tem a maior casuística individual da sala. A diretriz brasileira do seguimento da mielomeningocele torna isso conduta explícita ao mandar orientar a família a reconhecer sinais precoces de hipertensão intracraniana, em termos que ela compreenda. Se o sistema treina a família para reconhecer, ele tem que ouvir quando ela reconhece. Anoto a frase dela entre aspas na evolução, com a hora.
21h34 — por que o rótulo da triagem está errado, e por que isso importa
A ficha diz vômitos e febre, e a leitura natural de vômito com febre de 37,8 numa criança de 4 anos é gastroenterite. Não é errado como hipótese; é errado como parada. Duas coisas quebram o rótulo. A primeira: os vômitos são sem náusea prévia, três episódios em três horas, e não há diarreia. A segunda, e decisiva: existe um dispositivo implantado, e febre em portador de derivação não é febre sem foco — é um foco possível até que alguém prove o contrário. O rótulo da triagem não é uma hipótese diagnóstica, é um encaminhamento de fila; e o meu trabalho começa por refazê-lo.
21h36 — o exame que vira a linha de base, feito antes de tudo
Registro com a hora: abre os olhos ao ser chamado pela mãe (3), fala palavras e frases curtas mas está irritado e não coopera com perguntas de orientação (4 pela melhor resposta obtida), obedece a comando simples quando a mãe pede (6) — total 13, e escrevo os três componentes separados, porque 13 pode ser feito de várias somas diferentes e só a decomposição permite comparar. Pupilas de 3 milímetros, iguais, as duas reagem. Move os quatro membros; força dos inferiores igual à basal segundo a mãe, o que é o único jeito de avaliar força numa criança com mielomeningocele — o basal dela é o dela, não o da população. Movimentação ocular completa, sem estrabismo novo. Perímetro cefálico não ajuda aqui: a fontanela dele fechou há anos.
21h40 — o exame do dispositivo, que é o exame desta doença
Palpo o trajeto inteiro: cicatriz retroauricular direita, o cateter palpável descendo pelo pescoço e pela parede torácica até o abdome. Não há hiperemia, não há calor local, não há coleção flutuante sobre o trajeto, não há solução de continuidade palpável. Abdome flácido, indolor, sem massa. O que eu não faço é apertar o reservatório da válvula: a interpretação de enche e esvazia é notoriamente pouco confiável, não exclui nada, e a manobra tem risco. Isso é para quem opera. O que eu faço é descrever o trajeto por escrito, porque quem receber este menino vai querer saber se alguém olhou.
21h42 — o telefonema, antes de qualquer exame
Ligo para a regulação com o quadro em três frases: menino de 4 anos, mielomeningocele operada, derivação ventriculoperitoneal com duas revisões, quadro de vinte e quatro horas com vômitos sem náusea e sonolência, escala de coma 13 decomposta, pupilas normais, febre de 37,8, mãe reconhece como disfunção prévia. Peço avaliação neurocirúrgica. Não espero o laudo da tomografia porque a informação que muda a decisão da regulação já está toda na minha mão, e porque duas ligações e um transporte demoram mais do que um exame. Registro o horário do contato e o nome de quem atendeu.
21h45 — o que peço, e contra o que vou comparar
Tomografia de crânio sem contraste — e no pedido escrevo as quatro perguntas: sangue, massa com efeito de compressão, desvio de linha média e dilatação ventricular. Escrevo também a frase que muda o laudo: paciente com derivação ventriculoperitoneal, comparar com exame anterior. E aqui está o trabalho de verdade: eu ligo para o hospital estadual e peço o exame de um ano e meio atrás, ou peço à mãe a pasta que ela carrega, porque famílias de crianças com válvula carregam pasta. Peço junto a série de válvula — radiografias de crânio, tórax e abdome — que mostra desconexão, quebra, migração e cateter distal que ficou curto porque ele cresceu. E colho hemograma, proteína C reativa e hemocultura, por causa da febre e do dispositivo.
21h50 — o que prescrevo enquanto o técnico não chega
Cabeceira a 30 graus e cabeça alinhada. Analgesia e antitérmico: dipirona, que trata a febre e a dor e não apaga nem pupila nem resposta motora — e febre, aqui, não é só sintoma, é carga de pressão. Antiemético para o vômito, sabendo que trato o sintoma e não a causa. Acesso venoso com hidratação de manutenção, jejum, porque o destino provável é centro cirúrgico em outra cidade. E o item que não é droga e é o mais importante: escrevo na prescrição o intervalo de reavaliação. Exame neurológico a cada 20 minutos, com hora anotada, e os gatilhos escritos ao lado — queda de 2 pontos, pupila que muda, vômito novo.
22h20 — a tomografia sai, e ela quase engana
Laudo: ventrículos laterais discretamente aumentados, sem desvio de linha média, sem lesão expansiva, sem hemorragia. Cateter de derivação com extremidade em topografia ventricular. Conclusão do radiologista: sem alterações agudas. Este é o parágrafo do capítulo. Se eu parar aqui, o menino vai para casa com antiemético e retorno se piorar. Mas a comparação chegou junto — a mãe tinha a pasta —, e no exame de um ano e meio atrás os ventrículos eram menores. Num paciente derivado, ventrículo que aumentou é disfunção, ainda que o aumento seja discreto: anos de drenagem deixaram esses ventrículos rígidos, e a pressão sobe com dilatação mínima. O laudo está correto e a conclusão dele não se aplica a este paciente, porque ele não foi comparado com ele mesmo.
22h35 — a série neurológica decide antes de qualquer discussão
Reavaliação das 22h30: abre os olhos só ao estímulo de pressão (2), palavras soltas (3), localiza o estímulo (5) — total 10. Eram 13 às 21h36. São três pontos em menos de uma hora. Isso encerra qualquer discussão sobre se a tomografia mostra ou não mostra: a trajetória é o exame, e ela está descendo. Ligo de novo para a regulação, agora com dois exames e dois horários, que é uma informação completamente diferente de um exame só. Reforço a cabeceira, garanto oxigenação e via aérea pérvia, e reavalio em 10 minutos em vez de 20.
22h40 — o que não se faz aqui, e por quê
Não punciono o líquor: há hidrocefalia e um sistema que está sendo empurrado de cima, e retirar líquido de baixo é o mecanismo exato da catástrofe. Não prescrevo corticoide: não há massa com edema vasogênico em volta, há liquor represado, e nenhuma droga abre um canal — corticoide aqui só consome tempo. Não dou antibiótico por conta própria pela febre de 37,8 sem foco definido, mas colho as culturas e sinalizo a hipótese de infecção de sistema para quem vai receber, porque ela muda a cirurgia. E não hiperventilo: se a criança precisar de via aérea, a hiperventilação é resgate de herniação com alvo e tempo, conforme o capítulo Trauma cranioencefálico, não uma medida de rotina.
23h10 — a transferência, e o que vai escrito
Vaga confirmada. Na guia vai a série inteira, e não o último exame: 21h36, escala 13 decomposta em 3-4-6, pupilas 3 milímetros iguais e reagentes; 22h30, escala 10 decomposta em 2-3-5, pupilas inalteradas. Vai a tomografia de hoje e a de um ano e meio atrás, com a comparação escrita. Vai a série de válvula. Vai a frase da mãe, entre aspas. Vai o nome e o telefone do serviço que acompanha a derivação. Vai a temperatura e o fato de que as culturas foram colhidas antes de qualquer antibiótico. E vai o meu telefone. Durante o transporte, exame a cada 15 minutos, anotado — porque a viagem é justamente o intervalo em que ninguém está olhando.
O que este caso ensina, em uma linha
O diagnóstico não veio da tomografia: veio de uma pergunta feita na triagem, de uma comparação que alguém foi buscar e de dois exames neurológicos separados por cinquenta e quatro minutos. Nenhum dos três precisa de equipamento, de especialista ou de autorização — e os três são exatamente o que o interno pode fazer sozinho num hospital que não tem neurocirurgião.
Faça você
Outro cenário: ambulatório de clínica médica num hospital universitário, quinta-feira, 10h20. Aglaia Isidoro tem 71 anos, é aposentada, mora com a filha, e vem encaminhada pela unidade básica com a hipótese escrita na guia: demência a esclarecer. A filha conta que há cerca de dois anos a mãe começou a andar diferente — passos curtos, pés que parecem grudados no chão, dificuldade para começar a andar e para virar, com duas quedas nos últimos seis meses. Há cerca de um ano ficou mais lenta para conversar, esquece recados e parou de cozinhar. Há oito meses começou a escapar urina, primeiro de vez em quando e agora quase todo dia; a filha atribuiu à idade e comprou fralda. Não tem cefaleia. Não tem tremor de repouso, e a filha diz que os braços dela estão normais. Ao exame: orientada no tempo com hesitação, orientada no espaço, atenção reduzida, sem afasia. Marcha de base alargada, passos curtos e arrastados, dificuldade de iniciar e de virar; força 5 nos quatro membros, sem rigidez em roda denteada, sem tremor. Fundo de olho sem borramento das margens do disco. Pressão 138 por 82, glicemia 102 mg/dL. Não usa anticoagulante. A tomografia de crânio que ela traz, feita há três meses na rede, tem laudo de ventriculomegalia supratentorial, compatível com a faixa etária.
1. Qual é a tríade que a história dela desenha, e em que ordem ela apareceu?
Aglaia apresenta marcha alterada primeiro, seguida de dificuldade cognitiva e incontinência. Essa sequência e a ventriculomegalia sustentam investigar hidrocefalia de pressão normal, mas não constituem confirmação nem uma inversão universal das demências.
2. O laudo diz ventriculomegalia compatível com a faixa etária. Isso encerra a imagem?
A combinação de alteração de marcha, cognição e continência com ventriculomegalia sugere hidrocefalia de pressão normal, sem confirmar o diagnóstico. A ordem dos sintomas apoia o raciocínio, mas não separa todas as demências. Reavaliar imagem em busca de ventriculomegalia desproporcional, padrão dos sulcos e achados como DESH, com correlação clínica; sulcos apagados versus alargados não é uma regra binária suficiente. Medir marcha e capacidade funcional antes de testes de drenagem especializados. Em paciente estável com evolução crônica, organizar referência oportuna; novos sinais agudos mudam a urgência. Não presumir pressão liquórica medida quando a vinheta não fornece esse dado.
3. Ela tem hipertensão intracraniana? E ela é urgência?
Não há sinais descritos de descompensação aguda. A pressão liquórica não foi medida na vinheta e não pode ser declarada normal como dado observado. No quadro crônico estável, não há indicação de corticoide ou osmoterapia por esses achados; encaminhar para investigação e seleção terapêutica, com sinais de retorno urgente.
4. O que se faz antes de encaminhar, para que o encaminhamento não volte?
Duas coisas. A primeira é excluir o que é reversível e barato e que também produz esse quadro, e que é a investigação de qualquer declínio cognitivo — hipotireoidismo, vitamina B12, sífilis, depressão, medicamento com efeito cognitivo, delirium, e os óculos e o aparelho auditivo. Essa investigação é do capítulo A queixa é da filha, da Geriatria, que também traz a relação fechada de situações em que a punção lombar entra na demência — e a hidrocefalia é uma delas. Não se refaz nada disso aqui. A segunda é documentar a marcha: filme se possível, e no mínimo descreva por escrito quantos passos ela leva para virar 180 graus e quanto tempo leva para percorrer uma distância marcada. Sem essa medida basal, ninguém vai conseguir dizer depois se o teste de retirada de liquor funcionou.
5. Para onde ela vai, com que prioridade, e o que se escreve na guia?
Ela vai para a neurocirurgia. O documento federal de acesso ambulatorial classifica a síndrome de Hakim-Adams e a hidrocefalia de pressão normal com prioridade P0 — a mais alta da escala dele — e com contrarreferência de permanecer no nível especializado; o protocolo estadual de Santa Catarina encaminha à neurocirurgia a hidrocefalia com indicação cirúrgica. Na guia vão: a ordem cronológica dos três sintomas, com as datas aproximadas; a medida basal da marcha; a imagem com as três perguntas de leitura; a lista do que já foi excluído; e a frase que muda a fila, escrita sem eufemismo — suspeita de hidrocefalia de pressão normal, quadro potencialmente reversível.
6. E se o serviço não tiver como fazer o teste de retirada de liquor nem a avaliação neurocirúrgica?
Encaminhe assim mesmo, e registre a barreira por escrito no prontuário e na guia. Registrar a barreira não é burocracia nem desabafo: é o que transforma uma falta de acesso individual em um dado que a regulação enxerga, e é o que protege o paciente de sair da consulta com um diagnóstico de exclusão que fecha a porta. O desfecho a evitar tem nome e é o mais comum: a senhora sai com o rótulo de demência, a filha recebe orientação sobre cuidados, e ninguém mais volta a perguntar por que a marcha veio antes da memória.
Ver como fecharíamos
A combinação de alteração de marcha, cognição e continência com ventriculomegalia sugere hidrocefalia de pressão normal, sem confirmar o diagnóstico. A ordem dos sintomas apoia o raciocínio, mas não separa todas as demências. Reavaliar imagem em busca de ventriculomegalia desproporcional, padrão dos sulcos e achados como DESH, com correlação clínica; sulcos apagados versus alargados não é uma regra binária suficiente. Medir marcha e capacidade funcional antes de testes de drenagem especializados. Em paciente estável com evolução crônica, organizar referência oportuna; novos sinais agudos mudam a urgência. Não presumir pressão liquórica medida quando a vinheta não fornece esse dado. Para Aglaia, registre cronologia, autonomia, quedas, exame cognitivo e marcha; reveja medicamentos, audição, visão e outros diferenciais conforme a avaliação. A referência poderá indicar RM e teste de drenagem; não bloquear encaminhamento por falta de estudo de fluxo liquórico. Explique à filha que existe uma hipótese potencialmente tratável, mas recuperação e indicação cirúrgica dependem da avaliação, sem prometer reversão completa.
Dexametasona pode aliviar temporariamente sintomas de edema peritumoral, reduzindo permeabilidade vascular; não substitui avaliação neurocirúrgica e tratamento da lesão. Não se indica corticoide rotineiro para edema do infarto ou do trauma. Edema cerebral pode ter componentes citotóxico e vasogênico coexistentes: não afirmar que no trauma a barreira está sempre intacta. No TCE grave, altas doses de metilprednisolona aumentaram mortalidade. Na hipertensão liquórica da criptococose, o manejo envolve controle de pressão com retirada de líquor conforme segurança e protocolo, além de antifúngicos. Hidrocefalia obstrutiva exige avaliação neurocirúrgica urgente.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar o texto, apresente o caso principal em um minuto. Explique: Reconhecer deterioração antes da tríade de Cushing, separar edema de obstrução liquórica e escolher a sequência de estabilização, imagem e referência. Justifique a primeira conduta e indique um achado que mudaria o destino do paciente.
Em 30 dias
Resolva novamente o caso para completar. Compare hipótese, diferenciais, gravidade, plano e seguimento com o gabarito. Acrescente uma mudança de contexto — comorbidade, piora, gestação, barreira de acesso ou baixa adesão — e explique como adaptaria a decisão com o supervisor.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 46 anos trazida pelo marido ao pronto-socorro às 22h com dor de cabeça há duas semanas que piorou muito hoje, dois episódios de vômito pela manhã e, segundo ele, um jeito estranho de responder desde ontem. Ela está acordada, conversa, e diz que está tudo bem. Não tem febre. Você tem as suas mãos, um oxímetro, uma fita de glicemia, um telefone e um tomógrafo cujo técnico está de sobreaviso. Conduza: colha a história pelo acompanhante e não só por ela, faça o exame que vira a linha de base e diga em voz alta cada componente, defina e escreva o intervalo de reavaliação com os gatilhos, decida a imagem e o momento do telefonema, e diga o que você prescreve antes de saber a causa — e o que você não prescreve, com o motivo. Diga também, em voz alta, as duas frases que você usaria para explicar ao marido por que vai continuar examinando a esposa dele de vinte em vinte minutos.
