Pediatria › Nutrologia Pediátrica
O risco não é a fome
Desnutrição energético-proteica: marasmo e kwashiorkor, manejo do desnutrido grave
Reconhecer desnutrição grave, identificar complicações e conduzir estabilização, transição e recuperação nutricional, com monitorização e continuidade do cuidado após a alta.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Coordenação Geral da Política de Alimentação e Nutrição. Manual de atendimento da criança com desnutrição grave em nível hospitalar. Brasília: Ministério da Saúde, 2005. 144 p. (Série A. Normas e Manuais Técnicos). ISBN 85-334-0952-4.
World Health Organization. WHO guideline on the prevention and management of wasting and nutritional oedema (acute malnutrition) in infants and children under 5 years. Geneva: WHO, 2023. Versão MAGICapp 1.1, publicada em 7 de julho de 2023. 188 p.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Nutrologia. Princípios da abordagem e tratamento da desnutrição grave em crianças. Nota de Alerta nº 41, 1º de fevereiro de 2023. Rio de Janeiro: SBP, 2023. 9 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Prevenção e Promoção da Saúde. Instrutivo sobre cuidado às crianças com desnutrição na Atenção Primária à Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. 52 p. ISBN 978-65-5993-475-1.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 254 p.
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estado nutricional antropométrico da criança e da mãe: prevalência de indicadores antropométricos de crianças brasileiras menores de 5 anos de idade e suas mães biológicas. Relatório 7 do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019). Coordenador geral: Gilberto Kac. Rio de Janeiro: UFRJ, 2022. 96 p.
WHO. Wasting and nutritional oedema guideline, 2023.
Responda antes de ler
Lactente de 14 meses, 6,4 kg, 74 cm, sem edema, internado há 6 horas por desnutrição grave e diarreia. Temperatura axilar 35,1 graus, glicemia capilar 48 mg/dL, hemoglobina 5,8 g/dL, sem desconforto respiratório e sem hepatomegalia, frequência cardíaca 118. Está sonolento, mas deglute. Não há febre e o leucograma é normal. Qual conjunto de condutas está correto para as próximas 2 horas?
O paciente que você vai ver
Sete e vinte da manhã de uma quinta-feira, enfermaria de pediatria de um hospital municipal de sessenta leitos no interior, referência para mais quatro municípios. Você é o interno da equipe, e a visita da manhã sai do posto às sete e meia. O leito 4 entrou de madrugada, transferido do pronto-socorro, e a prescrição da noite está impressa no posto, com o carimbo da farmácia e quatro itens.
Ravena Quesado tem quinze meses. Pesa 6,1 quilos e mede 72 centímetros. A mãe, Jocilene, está sentada na poltrona ao lado do berço com a bolsa ainda no colo, como quem não desfez a mala porque ninguém disse que ia ficar. Vieram de ônibus de um distrito rural a quarenta quilômetros. A ficha do pronto-socorro diz, na letra de quem escreveu depressa: diarreia há oito dias, três episódios de vômito ontem, aceitando pouco, mãe refere que emagreceu muito nos últimos dois meses.
A criança está acordada. Não chora. Não estende a mão para o estetoscópio nem para a caneta, e é isso que você registra primeiro, sem saber ainda por quê. As nádegas são duas pregas de pele vazia. Os arcos costais desenham a caixa torácica inteira. O rosto é de uma pessoa velha, com as bolas de gordura da bochecha consumidas e os olhos fundos na órbita. Os pés estão frios e a temperatura axilar aferida às seis foi de 35,4 graus. Ninguém anotou isso como alteração.
A prescrição tem quatro linhas. Soro fisiológico 20 mililitros por quilo em bolus, a correr agora. Dieta livre para a idade. Sulfato ferroso, uma vez ao dia. E, na última linha, escrito à mão pelo plantonista: reservar concentrado de hemácias — hemoglobina 6,2.
Três dessas quatro linhas podem matar Ravena hoje. A quarta, a dieta livre, pode matá-la depois de amanhã. Nenhuma delas é um descuido: são exatamente as quatro coisas que um médico competente faria por uma criança de quinze meses desidratada, anêmica e emagrecida. O problema não está na prescrição. Está na premissa.
A premissa é que se trata de uma criança normal com pouco alimento dentro, e que devolver alimento, volume e hemácias devolve a criança. Não é isso que está no leito 4. O que está no leito 4 é uma criança cuja fisiologia inteira desceu de rotação para sobreviver com o pouco que havia: o coração bombeia menos, o rim filtra menos, o fígado guarda menos açúcar, a bomba que separa sódio de potássio dentro de cada célula falhou, o intestino perdeu a superfície que absorve e o sistema imune parou de fazer febre. Cada um desses ajustes é o que a manteve viva até a porta do hospital. Cada um deles transforma um tratamento correto em uma agressão.
O bolus de soro fisiológico entrega, em vinte minutos, volume e sódio a um coração que não tem reserva para bombear e a um rim que não tem como excretar o excesso. A transfusão pelo número da hemoglobina acrescenta mais volume ao mesmo coração. O ferro no primeiro dia entrega ferro livre a um organismo sem as proteínas que o carregam, e ferro livre é combustível para bactéria e para radical livre. A dieta livre para a idade oferece de uma vez a carga de energia que dispara a insulina e joga potássio, magnésio e fósforo para dentro das células de um corpo que já está sem os três — a síndrome de realimentação, que não aparece na admissão e sim no terceiro dia, quando a equipe já está comemorando que a criança melhorou.
A preceptora, Dra. Alzenir Milfont, chega às sete e meia, olha a folha, e não corrige nenhum item na frente de todo mundo. Ela faz uma pergunta: quanto está a glicemia capilar dela? Não está. Ninguém mediu. E é por aí que este capítulo começa, porque a ordem em que as coisas se fazem na criança gravemente desnutrida não é a ordem em que elas parecem urgentes.
O que vem a seguir é a inversão inteira, na ordem em que ela se usa. Primeiro o que identifica e o que classifica — as medidas, e o edema, que muda tudo. Depois a fase de estabilização, com as regras que parecem erradas e não são: não se reidrata com o soro de sempre, não se transfunde por número, não se dá ferro agora, e a realimentação é lenta de propósito. Depois a fase de reabilitação, em que se faz o oposto de tudo isso, e a passagem entre as duas, que é o ponto de maior risco da internação. E, no fim, a alta e o seguimento, que é onde a mortalidade se esconde: a criança que sai do hospital recuperada e volta a morrer em casa não aparece na estatística do serviço, e é justamente ela quem o capítulo quer que você não perca.
Um recorte, antes de começar. A alimentação da criança que não está desnutrida — o aleitamento e a introdução alimentar — é dos outros capítulos desta apostila. O acompanhamento do crescimento, a leitura da curva ao longo do tempo e a conversa sobre a linha que se desviou pertencem ao capítulo de acompanhamento do crescimento, em Puericultura e Desenvolvimento; aqui as medidas entram só para classificar e decidir internação. A anemia ferropriva da infância, com o rastreio, os cortes de hemoglobina e a dose de ferro por apresentação, é do capítulo de anemia ferropriva na infância, em Hematologia Pediátrica; deste capítulo é apenas a parte que ninguém mais assume, que é quando não se dá ferro. E a diarreia com desidratação na criança sem desnutrição, com os planos A, B e C, é do capítulo de diarreia e desidratação, em Gastroenterologia Pediátrica — aqui só entra o que muda quando existe desnutrição grave, que é quase tudo.
Quem adoece disso
A primeira coisa que a epidemiologia brasileira ensina sobre este capítulo é que você vai ver pouco. O inquérito nacional de alimentação e nutrição infantil, com dados coletados em 2019 e publicado em 2022, encontrou magreza — índice de massa corporal para a idade abaixo de dois escores z — em 3,0% das crianças brasileiras menores de cinco anos. Baixa estatura para a idade, o marcador do déficit crônico, apareceu em 7,0%. Baixo peso para a idade, em 2,9%.
Esses números descrevem o país inteiro, e a desnutrição grave é uma fração pequena deles. Um interno pode atravessar o estágio de pediatria sem encontrar um caso completo. É exatamente por isso que os reflexos errados sobrevivem: o que se pratica pouco não corrige o que se aprendeu por analogia com o adulto e com a criança eutrófica.
A distribuição regional da magreza contraria a expectativa de quem lê a palavra desnutrição e pensa em mapa de pobreza. A região Norte teve a menor prevalência do país, 0,9%, e a Sudeste a maior, 3,5% — diferença estatisticamente significativa em relação a todas as demais regiões. Isso não significa que a privação alimentar seja maior no Sudeste. Significa que a magreza, que é o déficit agudo, responde a coisas diferentes das que produzem a baixa estatura, que é o déficit acumulado, e que o mapa de uma não é o mapa da outra. Ler os dois indicadores como se fossem o mesmo agravo é o erro epidemiológico equivalente ao erro clínico de tratar o desnutrido grave como criança magra.
O número que muda a postura de quem entra na enfermaria é outro, e está na apresentação do próprio manual federal: no Brasil, o percentual de óbitos por desnutrição grave em nível hospitalar se mantinha em torno de 20%, contra o patamar inferior a 5% que a Organização Mundial da Saúde considera alcançável. A distância entre esses dois números não é distância de recurso. É distância de protocolo. Foi para fechá-la que o manual existe, e é ela que dá sentido à frase de que a adesão às recomendações reduziu a mortalidade nos serviços onde o protocolo foi implantado.
A mortalidade não se distribui igualmente ao longo da internação. Ela se concentra nas primeiras quarenta e oito horas, e as causas dessa concentração são as três que o protocolo ataca nos primeiros passos: hipoglicemia, hipotermia e infecção não reconhecida — às quais se soma a sobrecarga de líquido causada pelo próprio tratamento. É uma mortalidade de porta de entrada, e é a única fase em que o hospital tem controle total sobre o que acontece.
Há um segundo pico, e é o que ninguém mede. A criança recebe alta com peso melhor, volta para a mesma casa, para a mesma água, para a mesma renda e para a mesma cadeia de cuidado que produziu o quadro, e uma parte morre depois — de diarreia, de pneumonia, de sarampo, de qualquer coisa que uma criança recuperada teria atravessado. Essa morte não entra no indicador de mortalidade hospitalar do serviço, porque acontece fora dele. A diretriz internacional de 2023 dedica um bloco inteiro de recomendações ao que se faz depois da saída do tratamento, e a razão é essa: aconselhamento e educação da família sobre alimentação e sobre reconhecimento das doenças comuns da infância, estímulo psicossocial mantido pelos cuidadores, água segura e saneamento, e, com evidência de certeza moderada, transferência de renda somada ao cuidado de rotina para reduzir a recaída.
Vale registrar o que a mesma diretriz recomenda não fazer depois da alta, porque é contraintuitivo: em criança sem infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, a profilaxia diária com sulfametoxazol-trimetoprima não deve ser mantida como rotina após a transferência do cuidado hospitalar ou a saída do tratamento ambulatorial. O antibiótico da fase aguda tem hora para acabar.
Um dado global fecha o quadro e explica por que a diretriz internacional foi refeita em 2023 e não antes: as estimativas conjuntas das agências das Nações Unidas contaram 45 milhões de crianças menores de cinco anos com magreza em 2022, das quais cerca de 13,7 milhões com magreza grave, e o indicador não vem caindo como caiu o de baixa estatura. O mesmo documento registra que essas contagens são provavelmente subestimadas e que as crianças com edema nutricional não estão bem representadas nelas — porque o edema esconde justamente a medida com que se conta.
Por que acontece o que acontece
O nome que descreve o que acontece com essa criança é adaptação redutora. Diante de meses de oferta insuficiente, o organismo não fica simplesmente com menos reservas: ele desliga funções para gastar menos. É uma adaptação bem-sucedida — ela é a razão de a criança estar viva — e é ela que torna perigoso quase tudo o que se faz de rotina. Todo o protocolo dos dez passos é, no fundo, uma lista de coisas que se fazem devagar porque o corpo perdeu a margem para absorver pressa.
A desnutrição grave altera transporte celular, composição corporal e manejo renal de água e eletrólitos. Pode haver excesso de sódio corporal total e deficiência de potássio mesmo quando o exame sérico não mostra esse estoque. Um sódio baixo não autoriza acrescentar sal indiscriminadamente; também não autoriza ignorar uma hiponatremia importante ou sintomática. Interprete concentração, sintomas, hidratação e perdas com a equipe. A escolha da solução depende da fase do cuidado e do protocolo de desnutrição, incluindo situações de perdas muito intensas.
O potássio sérico engana na direção oposta. Ele pode estar normal enquanto o estoque corporal está profundamente depletado, porque o pouco que existe vazou para fora das células. Magnésio e fósforo seguem o mesmo padrão, e o magnésio tem um papel de porteiro: sem magnésio, o potássio reposto não entra na célula nem fica lá. Repor potássio sem repor magnésio é encher um balde furado.
Coração e rim podem ter pouca reserva, por redução da massa muscular, débito e capacidade de manejar sal e água. Por isso, volume, composição e velocidade de reposição exigem o protocolo específico de desnutrição grave, avaliação de choque e monitorização próxima. Pulso e frequência respiratória crescentes durante a infusão são sinais para interromper a escalada automática e reavaliar perfusão, esforço, fígado, pulmões e balanço. Podem indicar sobrecarga, mas febre, infecção e piora do choque também precisam ser consideradas. A variação desses dois números não confirma congestão sozinha.
O fígado esvazia o estoque de glicogênio e reduz a gliconeogênese, e a criança perde a capacidade de atravessar um jejum. Somem-se a isso a redução da produção de calor e a quase ausência de gordura subcutânea, e hipoglicemia e hipotermia deixam de ser eventos raros para se tornarem o modo normal de descompensar. As duas andam juntas e as duas costumam significar infecção. Uma criança hipotérmica deve ser tratada como hipoglicêmica e como infectada até prova em contrário — e a hipoglicemia dessa criança não produz sudorese nem palidez, os sinais que você aprendeu a procurar.
A resposta inflamatória é o sistema cuja falha mais atrapalha o diagnóstico. Sem substrato para montar febre, leucocitose e proteínas de fase aguda, a infecção grave se apresenta por subtração: a criança fica apática, sonolenta, e para de comer. Por isso a regra é presumir infecção em toda criança com desnutrição grave e começar antibiótico desde o início, colhendo culturas antes quando for possível. E por isso a perda de apetite vale como sinal de infecção, e o retorno do apetite vale como marcador de melhora — é o termômetro que sobrou.
No intestino, a atrofia das vilosidades reduz a superfície de absorção e derruba a produção das dissacaridases, sobretudo a lactase. Daí a intolerância secundária à lactose e a exigência de que a dieta da fase inicial tenha baixo teor de lactose e baixa osmolaridade — não por preferência, mas porque uma carga osmótica alta em um intestino assim produz diarreia, vômito e desidratação, isto é, produz de volta o problema que se está tratando. O edema do kwashiorkor tem outra origem: hoje se atribui a exacerbação do estresse oxidativo com queda da defesa antioxidante, gerando radicais livres que atacam o endotélio, aumentam a permeabilidade e deixam líquido e proteínas, inclusive albumina, escaparem para o terceiro espaço. A hipoalbuminemia acompanha o quadro, mas o mecanismo não é só falta de proteína na dieta — e a consequência prática é que edema de desnutrição nunca se trata com diurético.

Falta a peça que explica por que a comida é perigosa. Durante o jejum prolongado o metabolismo funciona à base de gordura, com insulina baixa e com os estoques intracelulares de potássio, magnésio e fósforo já reduzidos. Quando entra carboidrato em quantidade, a insulina sobe, o metabolismo volta a queimar glicose e os três íons são puxados em massa para dentro das células, junto com água. O fósforo despenca justamente quando é mais necessário para fabricar a molécula que carrega energia, e o resultado pode ser arritmia, insuficiência cardíaca, fraqueza muscular respiratória e morte, em uma criança que estava clinicamente melhor no dia anterior. É a síndrome de realimentação, e ela é a razão de a dieta inicial ter teto calórico, e não só piso: abaixo de 80 quilocalorias por quilo por dia a criança continua catabólica, e acima de 100 quilocalorias por quilo por dia ela corre risco metabólico. Poucas vezes na medicina um intervalo tão estreito separa o insuficiente do perigoso.
Como se apresenta de verdade
A desnutrição grave pode se apresentar com emagrecimento acentuado, edema nutricional ou ambos. Reconhecer as formas ajuda a examinar, mas o plano depende também de idade, apetite, complicações e condições de seguimento. As duas formas compartilham princípios de cuidado; isso não significa que recebam volumes e intervenções idênticos em qualquer situação.
O edema pode ocultar a perda de tecido e distorcer a interpretação do peso. Registre sua distribuição, acompanhe a regressão e leia as medidas dentro da faixa etária. Queda de peso com redução do edema pode representar melhora; queda acompanhada de baixa ingestão ou deterioração clínica pede revisão. Nenhum valor isolado substitui essa avaliação.
Marasmo: o corpo que se consumiu
A criança com marasmo consumiu o próprio tecido celular subcutâneo, e o exame físico é uma sequência de ausências. A fácies é descrita como senil porque a gordura da bochecha, que dá a redondeza ao rosto do lactente, desapareceu; os olhos ficam encovados na órbita e a fontanela, quando ainda aberta, deprimida. As proeminências ósseas se desenham sob a pele: arcos costais, clavículas, espinhas escapulares, cristas ilíacas.
Os dois lugares onde a perda de massa é mais confiável de examinar, porque são os últimos a esvaziar em criança bem nutrida, são as nádegas e a face interna das coxas. Nádega que virou uma prega de pele solta, que se pode segurar entre os dedos como um tecido vazio, é sinal de perda profunda e prolongada. O manual federal pede explicitamente que panículo adiposo e massa muscular sejam registrados no exame físico, com atenção a essas duas regiões.
A tradução antropométrica é escore z de peso para estatura, ou de índice de massa corporal para a idade, abaixo de menos três desvios-padrão; ou circunferência do braço abaixo de 11,5 centímetros. Qualquer um dos dois critérios, isoladamente, define desnutrição aguda grave — eles não precisam coincidir e frequentemente não coincidem.
O comportamento acompanha, e é o que a família descreve melhor que qualquer medida: a criança que era ativa ficou parada, para de brincar, para de estender a mão, chora menos e por menos tempo. Uma criança que não protesta ao ser examinada é uma criança grave, não uma criança colaborativa. Registre a reação ao exame físico — o manual pede isso como item, e é um dos poucos itens do exame que a mãe consegue comparar com como era antes.
Kwashiorkor: o edema que esconde o déficit
O kwashiorkor se apresenta com edema de intensidade variável, e a gradação importa porque decide internação. Uma cruz é o edema leve, restrito aos dois pés. Duas cruzes é o edema moderado, que sobe para pés, pernas, mãos e antebraços. Três cruzes é o edema generalizado, que inclui pés, pernas, mãos, braços e rosto — e essa terceira gradação, sozinha, é critério de tratamento hospitalar mesmo sem nenhuma outra complicação.
O edema da desnutrição é sempre simétrico e começa pelos pés. Ele se procura com pressão digital sustentada por alguns segundos sobre o dorso dos dois pés, e o achado é a depressão que permanece depois que o dedo sai. Edema unilateral não é edema de desnutrição, e edema que começa pela face em criança pequena manda pensar primeiro em rim.
Acompanham o quadro alterações que a mãe costuma ter notado antes de você: o cabelo perde cor, fica branco-acinzentado, ralo e quebradiço, e sai com facilidade quando se traciona um tufo. A pele fica xerótica, com aspecto descrito como de esmalte descascado, avermelhada nas áreas descamativas, e as lesões se concentram em períneo, nádegas e dobras — regiões úmidas, que se infectam. Há esteatose hepática, com fígado palpável, e hipoalbuminemia.
A frase operacional é curta: onde há edema, o peso mente. A circunferência do braço não é afetada pelo edema da mesma maneira, e é por isso que ela é a medida recomendada nessa situação — o instrutivo federal de 2023 diz isso com todas as letras, que a presença de edema compromete o diagnóstico de magreza se a avaliação usar apenas peso e altura.
A apresentação por subtração
Este é o parágrafo que mais muda a conduta de quem nunca viu um caso. Na criança com desnutrição grave, a infecção frequentemente ocorre sem os sinais clínicos que você aprendeu a procurar: sem febre, sem inflamação visível, sem dispneia, e com hemograma e proteínas de fase aguda que podem não se alterar. O processo infeccioso é suspeitado apenas porque a criança está apática ou sonolenta.
Some-se a isso o inverso do que se espera: a hipotermia, e não a febre, é o sinal que anuncia sepse nessa criança. O manual federal registra que muitas vezes a criança desenvolve septicemia por infecção cruzada dentro do hospital e o primeiro sinal é a hipotermia — e que, às vezes, quando ela aparece, o quadro já não responde ao antibiótico.
A consequência operacional é a regra que mais estranha quem chega: presume-se que toda criança com desnutrição grave tem infecção, com frequência oculta, e todas recebem antibioticoterapia desde o início do tratamento. Não se espera febre, não se espera hemograma e não se espera cultura para começar — colhem-se as culturas antes, quando é possível, para redirecionar depois.
O apetite é o parâmetro que substitui o termômetro. A redução do apetite é um dos sinais clínicos mais precoces de infecção nessa criança, e o retorno do apetite é marcador de melhora do quadro. Uma criança que estava aceitando a dieta e parou de aceitar não é uma criança birrenta: é uma criança que provavelmente infectou.
Desidratação e choque, que se parecem e não são
Diagnosticar desidratação nessa criança é difícil porque os sinais clássicos não são confiáveis: olhos encovados e prega cutânea persistente existem na desnutrição sem desidratação nenhuma. O manual federal é explícito ao dizer que a desidratação tende a ser hiperdiagnosticada e sua gravidade superestimada — e esse hiperdiagnóstico é perigoso, porque a consequência dele é volume.
O que sobra de confiável é a história: ingestão nas últimas vinte e quatro horas, presença de vômitos, número e aspecto das evacuações, e a confirmação pela mãe de que o afundamento dos olhos é recente. Sede com avidez ao oferecer o copo, criança inquieta e irritável e fluxo de urina preservado apontam para desidratação; ausência de sede, apatia ou letargia, hipotermia e pulso radial fraco com extremidades frias apontam para choque séptico.
Na prática, os dois quadros se misturam: há diarreia, há algum grau de desidratação e há sinais de choque, e trata-se para os dois. Mas a decisão que muda o desfecho é uma só, e é sobre a via: a via oral é a preferencial, e a via intravenosa fica reservada ao colapso circulatório evidente, porque infusão venosa nessa criança tem risco de hiper-hidratação e de insuficiência cardíaca. Os sinais de que se passou do ponto durante a hidratação são o aumento da frequência respiratória e do pulso, o ingurgitamento das jugulares e o aparecimento ou a piora do edema, inclusive das pálpebras.
Os olhos, e a única urgência que se resolve com um frasco
Toda criança com desnutrição grave tem deficiência de vitamina A até prova em contrário, e uma parte já tem manifestação ocular na admissão. As formas vão da cegueira noturna, que só a história revela, à xerose conjuntival, à xerose de córnea, à ulceração e ao amolecimento da córnea. As duas últimas destroem o olho em horas e são irreversíveis.
O manual federal dá uma regra de rastreio que cabe numa frase e que se esquece com facilidade: toda criança com desnutrição grave que permanece com os olhos fechados é suspeita de lesão ocular por hipovitaminose A e deve ter os olhos examinados com atenção. Criança que não abre o olho não está apenas sonolenta — pode estar fotofóbica por ulceração.
Diante de manifestação ocular, o esquema muda de dose única para três doses: uma na internação, a segunda no dia seguinte e a terceira pelo menos duas semanas depois da segunda, todas na dose específica para a idade. Somam-se os cuidados locais: compressas com solução salina, colírio de tetraciclina a 1% quatro vezes ao dia até cederem os sinais inflamatórios, uma gota de atropina a 1% três vezes ao dia por três a cinco dias, e tamponamento — porque a córnea ulcerada pode romper com o atrito do próprio dedo da criança, e por isso se orienta a mãe a vigiar e se colocam luvinhas.
A presença de sinais oculares de deficiência de vitamina A é, por si só, critério de internação na lista de complicações da nota da Sociedade Brasileira de Pediatria.
O menor de seis meses é outra categoria
A criança abaixo de seis meses não entra pelos mesmos critérios, e isso vale tanto para identificar quanto para internar. Os critérios de hospitalização listados pela Sociedade Brasileira de Pediatria para esse grupo são: escore z de peso para estatura ou de índice de massa corporal abaixo de menos três; edema bilateral em membros; perda de peso recente; ganho de peso inadequado por longo período; e dificuldade na amamentação que persiste mesmo depois de orientação materna de manejo.
Repare no que essa lista tem de diferente: dois dos cinco itens são sobre a trajetória, não sobre o ponto — perda recente e ganho inadequado prolongado. Nessa idade, a velocidade é o sinal, e a leitura da velocidade na curva é do capítulo de acompanhamento do crescimento, em Puericultura e Desenvolvimento.
A abordagem alimentar também é outra. A diretriz internacional de 2023 é explícita ao dizer que, para esse grupo, a alimentação deve priorizar estabelecer ou restabelecer a amamentação exclusiva efetiva pela mãe ou por outro cuidador — não substituí-la por fórmula terapêutica. O manejo prático dessa amamentação, com a técnica, a pega e a relactação, é do capítulo de aleitamento materno exclusivo desta mesma apostila; o manual federal apenas acrescenta o recado de que, nas crianças abaixo de quatro meses com possibilidade real de relactação, a tentativa se faz depois da estabilização, não durante.
O cuidado médico geral, esse, é o mesmo do maior de seis meses: internado, recebe antibiótico parenteral para tratar possível sepse; não internado, recebe antibiótico oral de amplo espectro em dose ajustada ao peso.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da criança com desnutrição grave tem uma característica que a distingue de quase todas as outras deste nível: o exame que mais decide não é de laboratório, é uma fita métrica; e a maior parte dos exames laboratoriais que se pediria por reflexo ou não muda conduta ou muda conduta na direção errada.
O manual federal diz isso de forma direta: para a criança com desnutrição não se preconiza a realização de um conjunto de exames de rotina, porque os resultados são alterados pela própria desnutrição e confundem com frequência quem os lê. Os exames se pedem para esclarecer o que o exame clínico suspeitou.
As três medidas, e a técnica que as invalida
São três: peso, comprimento ou estatura, e circunferência do braço. O peso é a medida mais sensível ao déficit agudo, e é o primeiro parâmetro a ser afetado quando falta alimento ou quando uma doença aumenta a demanda. A estatura é a medida cuja acurácia mais depende do posicionamento, e o instrutivo federal de 2023 registra que erros nessa medida são muito comuns e invalidam a vigilância do crescimento — comprimento deitado até os dois anos, estatura em pé depois.
A circunferência do braço se mede no ponto médio entre o acrômio e o olécrano, com o braço relaxado ao longo do corpo. O ponto médio se marca com o cotovelo fletido a noventa graus e a fita se aplica com o braço já solto; medir com o braço fletido ou com a fita apertada muda o número na casa que decide.
Os cortes que o instrutivo federal declara para crianças de seis a cinquenta e nove meses são dois: de 11,5 até menos de 12,5 centímetros define desnutrição moderada, e abaixo de 11,5 centímetros define desnutrição grave. É um corte único para toda a faixa, sem tabela por idade, e é exatamente por isso que ele funciona em triagem.
Os índices antropométricos que o mesmo documento manda usar são os da Caderneta da Criança: índice de massa corporal para a idade e comprimento ou estatura para a idade, com desnutrição abaixo de menos dois desvios-padrão e desnutrição grave abaixo de menos três, para qualquer um dos dois indicadores. Há um aviso explícito sobre o peso para a idade: se a criança tem baixa estatura, o peso esperado é menor, e o peso para a idade pressupõe estatura adequada — usar essa curva sozinha em criança com déficit estatural leva a conclusões erradas nos dois sentidos.
Duas regras de registro, para a criança que interna. Se há desidratação ou edema, considera-se como peso inicial o peso do dia em que essas situações estiverem resolvidas — porque o peso da admissão é peso de água. E anota-se o peso diário, sempre no mesmo horário e antes da oferta da dieta, no gráfico do prontuário.
O que o laboratório diz e o que ele mente
O sódio sérico é a armadilha mais consequente. Ele pode vir falsamente baixo na fase inicial da estabilização por mau funcionamento da bomba de sódio e potássio, e a nota da Sociedade Brasileira de Pediatria registra isso. A leitura correta é que essa criança tem sódio corporal total alto, e o número baixo no papel não autoriza dar sódio. A recomendação é a oposta: menor oferta de sódio pelos insumos de reidratação, pelas dietas e pelos suplementos.
O potássio, o magnésio e o fósforo podem vir normais ou baixos, e o que a nota acrescenta é a direção do movimento: eles tendem a cair de forma rápida, especialmente durante a realimentação. Um potássio normal na admissão não é tranquilizador — é um valor que vai cair quando a comida entrar. A conduta correspondente é oferecer mais potássio, magnésio e fósforo, e ter acesso a soluções de eletrólitos, orais ou intravenosas, para corrigir.
A albumina confirma o que o edema já mostrou e não muda o manejo. O instrutivo federal de 2023 lista proteínas totais e albumina entre os indicadores laboratoriais com pontos de corte, e o valor dela aqui é de documentação e de acompanhamento, não de decisão. Nada do que se prescreve nas primeiras quarenta e oito horas depende do resultado da albumina.
A proteína C reativa merece um parágrafo pela razão inversa: ela pode não subir. A nota da Sociedade Brasileira de Pediatria coloca a alteração do leucograma e das proteínas inflamatórias entre os sinais que podem não estar presentes. Proteína C reativa normal nessa criança não afasta infecção e não autoriza suspender antibiótico.
Os dois exames da primeira hora
Glicemia e temperatura são os dois exames que se fazem antes de qualquer outra coisa, e os dois se fazem à beira do leito. A glicemia deve ser realizada em toda criança com desnutrição grave, e o corte é glicemia menor que 54 miligramas por decilitro, ou menor que 3 milimoles por litro.
A regra que acompanha o corte é mais importante que o corte: se não for possível avaliar a glicemia, considere a criança hipoglicêmica e institua o tratamento. Não se espera resultado. E os sinais que você usaria em outra criança não valem — sudorese e palidez habitualmente não ocorrem na criança desnutrida hipoglicêmica; o que ocorre é letargia, incoordenação, perda de consciência, convulsão e coma.
A hipotermia se define por temperatura axilar abaixo de 35,0 graus ou retal abaixo de 35,5 graus, e há uma quarta condição que costuma passar: temperatura tão baixa que não pode ser lida no termômetro disponível conta como hipotermia, não como medida inválida. O manual chama atenção para o oco axilar da criança com desnutrição grave, que é raso e não fecha em torno do bulbo: é preciso pressionar o braço contra o tórax e esperar o tempo adequado, ou a medida vem falsamente normal.
As duas alterações costumam vir juntas e as duas apontam para infecção. Uma não afasta a outra, e nenhuma das duas afasta a terceira.
Hemograma, e os dois cortes que decidem transfusão
O hemograma se pede, e por dois motivos: avaliar anemia e procurar sinal de processo infeccioso — sabendo que o segundo pode não aparecer. Os cortes de hemoglobina que o manual federal define são dois: abaixo de 4 gramas por decilitro caracteriza anemia muito grave, e abaixo de 6 gramas por decilitro, anemia grave.
O que transforma esses números em indicação de transfusão não é o número sozinho. É a combinação: hemoglobina abaixo de 4, ou entre 4 e 6 quando associada a dificuldade respiratória e a sinais de insuficiência cardíaca, como taquicardia e hepatomegalia. A hemoglobina de 6,2 do leito 4 não está em nenhuma das duas faixas — e é por isso que a última linha da prescrição da noite não se cumpre.
O manual acrescenta um aviso que vale para qualquer valor: em criança com desnutrição e infecção associada, observe rigorosamente sinais de descompensação cardiorrespiratória, independentemente dos níveis de hemoglobina. O que se monitora é a criança, não o exame.
E acrescenta a regra do que não fazer depois: não se repete a transfusão mesmo que a hemoglobina permaneça baixa. A tendência é ela subir à medida que a criança se recupera, e o tratamento da anemia se completa com a suplementação de ferro, que começa mais tarde.
Procurar a infecção que não dá sinal
Como o antibiótico começa de qualquer maneira, a investigação infecciosa serve para redirecionar, não para decidir se trata. Culturas antes da primeira dose, sempre que possível: hemocultura e urocultura. O manual é explícito quanto à urina — o diagnóstico de infecção do trato urinário deve ser feito por urocultura, e não pelo sumário isolado.
A radiografia de tórax entra pela mesma lógica: a pneumonia dessa criança pode não ter febre nem estertor, e a taquipneia é o sinal que sobra. Os cortes de frequência respiratória que o manual usa para indicar sonda nasogástrica por desconforto respiratório servem de referência: 50 incursões por minuto entre 2 e 11 meses, e 40 entre 12 meses e 5 anos.
Há duas suspeitas cuja apresentação muda tanto que valem menção separada. A meningite dessa criança costuma se apresentar por irritabilidade, vômitos, convulsões, letargia, incapacidade de beber ou mamar e petéquias ou púrpura — e o manual registra que os sinais de irritação meníngea e de hipertensão intracraniana, como rigidez de nuca e abaulamento de fontanela, são pouco frequentes na criança com desnutrição grave. Procurar rigidez de nuca aqui é procurar o sinal errado. E a diretriz internacional de 2023 trata a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana e a tuberculose como comorbidades a identificar e tratar, porque mudam o prognóstico e o seguimento.
Por fim, o intestino: a nota da Sociedade Brasileira de Pediatria pede que se avalie e se considere o tratamento de infestações e de sobrecrescimento bacteriano no trato gastrintestinal, e o manual federal já prescrevia antiparasitário e metronidazol de rotina. É a parte do protocolo que mais mudou de disponibilidade no Brasil, e ela está detalhada nas notas de critério.
O que não se pede, e por quê
Não se dosam vitaminas nem minerais para decidir repor. A nota da Sociedade Brasileira de Pediatria é categórica: não é necessário realizar dosagem laboratorial de vitaminas e minerais, porque o quadro de deficiência acompanha a desnutrição grave. Repõe-se por presunção, e a reposição começa antes da fase de recuperação nutricional.
Não se dosa ferritina nem se investiga a causa da anemia nas primeiras semanas. A anemia dessa criança é multifatorial, os marcadores de ferro são distorcidos pela inflamação, e a conduta nas duas primeiras semanas é a mesma independentemente do resultado, porque ferro não se dá agora. A investigação das anemias microcíticas e a leitura dos marcadores de ferro são do capítulo de anemia ferropriva na infância, em Hematologia Pediátrica.
Não se pede painel metabólico repetido para acompanhar melhora. O que acompanha melhora é o peso diário, o apetite, o edema e a frequência de pulso e respiratória. O laboratório entra quando há pergunta — e a pergunta mais frequente da segunda fase é sobre potássio, magnésio e fósforo, que se monitoram e se corrigem precocemente durante a realimentação.
E não se pede exame para decidir começar antibiótico. Essa decisão já está tomada na porta.
Classificar, internar, tratar e dar alta: as réguas e as contas
Primeiro reconheça desnutrição grave e complicações; depois escolha a fase do tratamento. Os cortes de circunferência braquial apresentados para 6 a 59 meses não devem ser aplicados automaticamente ao lactente menor. A comparação com o manual hospitalar de 2005 é histórica: a classificação e a avaliação de saída devem respeitar os critérios atuais e a população atendida. Dieta terapêutica e soluções exigem conferência da formulação disponível e prescrição da equipe.
- 11. Pese, meça comprimento ou estatura e circunferência do braço conforme a idade. Procure edema bilateral: ele pode mascarar déficit ponderal, e uma circunferência normal não exclui desnutrição edematosa.
- 22. Procure edema com pressão digital sustentada sobre o dorso dos dois pés. Gradue: pés apenas, até antebraços, ou generalizado com face.
- 33. Meça glicemia capilar e temperatura antes de qualquer prescrição. Sem glicemia disponível, trate como hipoglicemia.
- 44. Entre 6 e 59 meses, peso para comprimento/estatura abaixo de −3 escores-z, circunferência do braço <11,5 cm ou edema nutricional bilateral caracterizam desnutrição aguda grave. Fora dessa faixa, use critérios e avaliação próprios da idade; o corte de 11,5 cm não é universal.
- 55. Decida internação pela lista de complicações, não pelo número: sem apetite, vômitos incoercíveis, convulsão ou rebaixamento, desidratação grave ou choque, hipoglicemia, hipotermia, febre alta, infecção, anemia grave, dermatose intensa, edema generalizado ou sinais oculares de deficiência de vitamina A.
- 66. Internada: comece pelos passos 1 a 7, na ordem — hipoglicemia, hipotermia, desidratação, eletrólitos, infecção, micronutrientes sem ferro, alimentação cautelosa.
- 77. Só depois que voltar o apetite e o quadro estabilizar, passe para a fase de reabilitação: transição gradual da dieta, estímulo, e ferro.
- 88. Prepare a alta desde a admissão, e não pelo peso: pelo plano de seguimento que existe do lado de fora.
O que o protocolo pede e a relação nacional não fornece
Busca por grep exato sobre o texto normalizado da Rename 2024, insensível a espaço e a hífen. Não constam: a solução de reidratação para desnutrido grave (zero ocorrências); ampicilina, em qualquer forma; gentamicina injetável — há apenas pomada e solução oftálmicas; mebendazol, que o manual de 2005 prescreve, havendo em seu lugar albendazol suspensão 40 mg/mL e comprimido mastigável de 400 mg; acetato de zinco, havendo sulfato de zinco; cloranfenicol injetável, havendo apenas cápsula, comprimido e suspensão oral; e nenhuma fórmula terapêutica industrializada, nem alimento terapêutico pronto para uso, nem leite em pó. Constam, e cobrem o protocolo: sais para reidratação oral em pó (na formulação com citrato de sódio di-hidratado), sulfametoxazol com trimetoprima, amoxicilina, benzoilmetronidazol suspensão, palmitato de retinol, ácido fólico em comprimido e em solução, sulfato ferroso em três apresentações, sulfato de zinco, cloreto de potássio injetável a 19,1% e sulfato de magnésio a 10% e a 50%. A consequência prática é que a dieta terapêutica e a solução de reidratação específica dependem de preparo local — em farmácia hospitalar, universitária ou de manipulação — e não de dispensação, e é isso que decide se um serviço consegue ou não cumprir os passos 3, 4, 7 e 8.
As três réguas que classificam a mesma criança
| Documento | Como mede | Desnutrição grave | Quando encerra o tratamento |
|---|---|---|---|
| Manual do Ministério da Saúde, 2005 (hospitalar) | Edema simétrico; peso/altura e altura/idade em desvios-padrão e em percentual da mediana da referência NCHS de 1977 | Edema simétrico presente (desnutrição edematosa), ou peso/altura abaixo de menos três desvios-padrão, isto é, menos de 70% da mediana | Peso/altura em menos um desvio-padrão; alta antes disso é possível com nove critérios clínicos e sociais preenchidos |
| Instrutivo do Ministério da Saúde, 2023 (Atenção Primária) | Índice de massa corporal para idade e estatura para idade em escore z, pelas curvas da Caderneta da Criança; circunferência do braço | Qualquer um dos dois índices abaixo de menos três escores z, ou circunferência do braço abaixo de 11,5 cm, ou presença de edema | Não define encerramento: define encaminhamento imediato para atendimento especializado ou internação |
| Diretriz da Organização Mundial da Saúde, 2023 | Peso para estatura em escore z pelas curvas da própria Organização; circunferência do braço; edema nutricional | Peso para estatura abaixo de menos três escores z, ou circunferência do braço abaixo de 115 mm, ou edema nutricional | Peso para estatura igual ou acima de menos dois escores z e circunferência do braço igual ou acima de 125 mm, ambos em duas medidas consecutivas, e sem edema em duas medidas consecutivas |
| Nota de Alerta nº 41 da Sociedade Brasileira de Pediatria, 2023 | Escore z de peso para estatura ou de índice de massa corporal; circunferência do braço; edema graduado em uma, duas ou três cruzes | Escore z abaixo de menos três, ou circunferência do braço abaixo de 11,5 cm, ou edema — com internação obrigatória se edema de três cruzes ou se houver complicação clínica | Escore z igual ou acima de menos dois, circunferência do braço igual ou acima de 12,5 cm e ausência de edema há pelo menos duas semanas |
Os dez passos, por fase: o que cada um exige e o que cada um proíbe
| Passo | Fase | O que se faz | O que não se faz |
|---|---|---|---|
| 1. Hipoglicemia | Estabilização | Glicemia capilar na chegada; consciente, glicose ou sacarose a 10% por via oral; inconsciente ou convulsivando, 5 mL/kg de glicose a 10% intravenosa e manutenção a 4-6 mg/kg/min; dieta de 2 em 2 horas dia e noite por no mínimo 24 horas | Não esperar o resultado da glicemia para tratar; não procurar sudorese e palidez, que costumam faltar |
| 2. Hipotermia | Estabilização | Contato pele a pele, agasalhar inclusive a cabeça, cobertor aquecido, ambiente entre 25 e 30 graus, troca frequente de roupa úmida; tratar como hipoglicêmica e como infectada | Não usar bolsa de água quente nem frasco de soro aquecido sobre a pele, pelo risco de queimadura; não usar lâmpada fluorescente para aquecer |
| 3. Desidratação e choque | Estabilização | Via oral ou sonda com solução de reidratação para desnutrido grave: 5 mL/kg a cada 30 minutos nas primeiras 2 horas, depois 6-10 mL/kg por hora por 4 a 10 horas, totalizando 70-100 mL/kg em 12 horas; via intravenosa só no colapso circulatório, com 15 mL/kg em 1 hora de solução com metade do sódio e glicose a 5% | Não usar a solução de reidratação oral padrão sem ajuste; não fazer bolus de soro fisiológico; não repetir expansão sem reavaliar pulso, frequência respiratória, jugulares e edema |
| 4. Distúrbios hidroeletrolíticos | Estabilização | Mistura de eletrólitos e minerais a 20 mL por litro na dieta e na solução de reidratação; na falta dela, potássio, magnésio, zinco e cobre separadamente | Evitar sobrecarga de sódio e adição indiscriminada de sal; avaliar disnatremia importante ou sintomática com a equipe; considerar potássio e magnésio em conjunto. |
| 5. Infecção | Estabilização | Antibiótico de largo espectro em todas as crianças desde o início, com culturas colhidas antes quando possível; antiparasitário e antibiótico com ação intestinal conforme o protocolo adotado | Não esperar febre, leucocitose ou proteína C reativa; não suspender antibiótico por exames normais; se a anorexia persiste após 7 dias, não encerrar em 7 — completar 10 |
| 6. Micronutrientes | Estabilização | Vitamina A conforme a idade e conforme o tipo de dieta usada; ácido fólico; zinco e cobre; multivitamínico sem ferro | Não dosar vitaminas e minerais para decidir repor; não usar polivitamínico que contenha ferro nesta fase |
| 7. Alimentação cautelosa | Estabilização | Preparado com 75 kcal e 0,9 g de proteína por 100 mL, 130 mL/kg/dia, baixa lactose e baixa osmolaridade, de 2 em 2 horas nos dias 1 e 2, de 3 em 3 nos dias 3 a 5, de 4 em 4 a partir do dia 6 | Não passar de 100 kcal/kg/dia nem ficar abaixo de 80; não ultrapassar o teto de líquido total de 120 a 140 mL/kg/dia; não oferecer dieta livre para a idade |
| 8. Reabilitação | Reabilitação | Transição para o preparado com 100 kcal e 2,9 g de proteína por 100 mL, mesmo volume por 48 horas, depois aumento de 10 mL por refeição até a criança deixar sobras; ferro elementar 3 mg/kg/dia quando o apetite voltar e o peso subir | Não aumentar o volume antes de 48 horas de troca da fórmula; não iniciar ferro na primeira semana; ao primeiro sinal de congestão, não insistir — voltar a 100 mL/kg/dia |
| 9. Estimulação | Reabilitação | Brincadeira individual de 15 a 30 minutos por dia, ambiente com cor e som, mãe ou cuidador presente e envolvido no cuidado direto, atividade física progressiva | Não cobrir a face, não conter a criança a ponto de impedir movimento, não fazer procedimento doloroso no leito comum sem acolher depois |
| 10. Alta e seguimento | Acompanhamento | Plano de alta iniciado logo após a admissão; relatório com resumo, dieta orientada e treinada com a família, consulta marcada, vitamina A a cada 6 meses e calendário vacinal atualizado | Não dar alta sem consulta marcada e sem alguém treinado para preparar a dieta em casa; não usar ganho percentual de peso como critério de saída |
Conversão mg ↔ mL ↔ apresentação, para uma criança de 8,0 kg
| Item | Dose do protocolo | Apresentação da Rename 2024 | Conta |
|---|---|---|---|
| Glicose a 10% (hipoglicemia) | 5 mL/kg em bolus; manutenção 4 a 6 mg/kg/min | Glicose 100 mg/mL solução injetável, componente básico | Bolus 40 mL, que contêm 4 g de glicose. Manutenção a 5 mg/kg/min em criança de 10 kg: 3.000 mg/h, ou 30 mL/h, ou 10 gotas por minuto |
| Palmitato de retinol (vitamina A) | Dose única no dia 1: 50.000 UI abaixo de 6 meses, 100.000 UI dos 6 aos 12 meses, 200.000 UI a partir de 12 meses | Solução oral 150.000 UI/mL (básico); cápsulas moles de 100.000 e 200.000 UI (estratégico) | Pela solução oral: 0,33 mL, 0,67 mL e 1,33 mL respectivamente. Não há apresentação de 50.000 UI — abaixo de 6 meses, a solução é a única via de acertar a dose |
| Ácido fólico | 5 mg no primeiro dia, depois 1 mg/dia por pelo menos duas semanas | Comprimido 5 mg e solução oral 0,2 mg/mL (básico) | Primeiro dia: 1 comprimido, ou 25 mL da solução. Manutenção de 1 mg: 5 mL da solução. Pelo comprimido seria um quinto de comprimido por dia |
| Sulfato de zinco | O manual de 2005 usa acetato de zinco a 1,5%, 1 mL/kg/dia por via oral | Sulfato de zinco 4 mg/mL xarope e 10 mg comprimido mastigável (básico); não há acetato de zinco na relação | Pelo xarope, 10 mg de zinco correspondem a 2,5 mL e 20 mg a 5 mL. A conversão do acetato do manual para o sulfato disponível não está escrita em nenhum dos documentos consultados |
| Sulfametoxazol + trimetoprima | 25 mg/kg/dia por via oral, de 12 em 12 horas, por 7 dias, na criança sem sinais aparentes de infecção | Suspensão oral 40 mg/mL + 8 mg/mL (básico), classificação AWaRe de acesso | Lendo os 25 mg como a soma dos dois componentes: 200 mg/dia, 100 mg por dose, 2,1 mL por dose. Lendo como sulfametoxazol isolado: 2,5 mL por dose. O manual não diz a qual componente o número se refere |
| Gentamicina + ampicilina | Gentamicina 7,5 mg/kg/dia em dose única por 7 dias; ampicilina 50 mg/kg a cada 6 horas por 2 dias | A Rename 2024 traz gentamicina apenas em pomada e solução oftálmicas; não traz ampicilina em nenhuma forma | Gentamicina 60 mg/dia e ampicilina 400 mg por dose, 1.600 mg/dia — doses que o protocolo pede e que a relação nacional não cobre com essas apresentações |
| Amoxicilina | 15 mg/kg a cada 8 horas por 5 dias, na sequência da ampicilina; e é o antibiótico oral que a diretriz internacional indica no caso não complicado | Suspensão oral 50 mg/mL; cápsula e comprimido de 500 mg (básico), classificação AWaRe de acesso | 120 mg por dose, ou 2,4 mL da suspensão a cada 8 horas |
| Metronidazol | 7,5 mg/kg três vezes ao dia por 7 dias | Benzoilmetronidazol suspensão oral 40 mg/mL (básico); metronidazol comprimidos de 250 e 400 mg | 60 mg por dose, ou 1,5 mL da suspensão três vezes ao dia |
| Sulfato de magnésio | Dose única: 0,3 mL/kg da solução a 50% por via intramuscular, no máximo 2 mL; ou 1 mL/kg da solução a 10% por via intravenosa | Solução injetável a 10% (0,81 mEq/mL de magnésio) e a 50% (4,05 mEq/mL) (básico) | Intramuscular: 2,0 mL, que são 1.000 mg de sal, ou 125 mg/kg. Intravenoso: 8 mL, que são 800 mg, ou 100 mg/kg. As duas vias não entregam a mesma dose |
| Papa de hemácias | 10 mL/kg em 3 horas, apenas se hemoglobina abaixo de 4 g/dL, ou entre 4 e 6 com dificuldade respiratória e sinais de insuficiência cardíaca | Hemocomponente, fora do escopo da relação de medicamentos | 80 mL em 3 horas, ou cerca de 27 mL/h, com pulso e frequência respiratória medidos a cada 15 minutos no máximo |
| Preparado alimentar da fase inicial | 130 mL/kg/dia | Não consta da Rename 2024: nem fórmula terapêutica pronta, nem alimento terapêutico pronto para uso, nem leite em pó | 1.040 mL/dia, divididos em 12 refeições de 87 mL nos dias 1 e 2, em 8 de 130 mL nos dias 3 a 5, e em 6 de 173 mL a partir do dia 6 |
Da apresentação à fase de cuidado
| Etapa | Pergunta que decide | Resposta acompanhada |
|---|---|---|
| Reconhecimento | Qual a idade, a medida válida e a presença de edema? | Classificação interpretada com o exame |
| Destino | Há sinal de perigo, complicação ou dificuldade de alimentar? | Local com suporte e seguimento adequados |
| Estabilização | Quais riscos ameaçam a criança agora? | Glicemia, temperatura, perfusão, ingestão e balanço |
| Transição | Há estabilidade e recuperação do apetite? | Tolerância à progressão e sinais de sobrecarga |
| Recuperação | A dieta cobre necessidades sem duplicações? | Crescimento, função e resolução do edema |
| Continuidade | Quem mantém o plano fora do hospital? | Acesso à dieta, consulta e resposta aos sinais de alerta |
Soluções para desnutrição grave precisam de formulação validada. A unidade escrita na prescrição, a composição do produto e o volume final devem concordar; conferir uma coluna de sais não substitui a validação pela farmácia.
A coluna de potássio da tabela antiga não é uma receita segura de preparo: há inconsistência entre milimoles e miligramas. Não transcreva essa linha como dose nem tente corrigir a formulação à beira do leito.
A receita descrita no manual usa um envelope específico e uma mistura de minerais. Trocar qualquer componente exige recalcular a composição; a presença de um envelope com o mesmo nome não garante equivalência.
As tabelas antigas descrevem envelopes com bicarbonato e com citrato de modo inconsistente. Conferir o rótulo efetivamente disponível evita aplicar ao produto atual uma composição que pertence a outra formulação.
A distinção deixou de ser acadêmica. O envelope que a Rename 2024 arrola é o de 'cloreto de sódio, glicose anidra, cloreto de potássio, citrato de sódio di-hidratado' — a formulação com citrato. O envelope com bicarbonato descrito no rodapé do manual de 2005 não é o que a farmácia hospitalar brasileira recebe hoje. A Rename não publica as quantidades de cada sal, então não é possível recalcular a solução final a partir dela; quem preparar a solução de reidratação para desnutrido grave a partir do envelope atual precisa conferir a composição impressa naquele envelope, e não a do rodapé de 2005.
O preparo da mistura de eletrólitos e minerais é uma tarefa padronizada da farmácia, com registro da formulação, concentração e validade. O interno aprende a reconhecer a finalidade e a conferir a prescrição, sem improvisar soluções.
Preparados alimentares, Tabela 12, recalculados com a composição do leite em pó integral usada pela própria referência (26% de proteína, 26,7% de gordura, 38% de lactose). Fase inicial, com 35 g de leite, 100 g de açúcar e 20 g de óleo por litro: 75,4 kcal por 100 mL contra 75 declaradas, 0,91 g de proteína por 100 mL contra 0,9 declaradas, e 13,3 g de lactose por litro — que fecha com a exigência de baixo teor de lactose de 13 g/L escrita no mesmo passo. Fase de crescimento rápido, com 110 g de leite, 50 g de açúcar e 30 g de óleo: 101,6 kcal por 100 mL contra 100 declaradas e 2,86 g de proteína contra 2,9. As duas receitas fecham.
Na reabilitação, registre separadamente volume, energia e proteína oferecidos. Um volume pode atingir a meta calórica e ultrapassar a proteica; a progressão deve ser validada com a equipe de nutrição.
Some todos os líquidos: dieta, reidratação, diluições e medicações. Não some automaticamente os volumes completos de tabelas destinadas a momentos diferentes; use balanço e reavaliação para o plano individual.
Não duplique volume oral ou por sonda enquanto se inicia reposição intravenosa. A via e a velocidade são reavaliadas pelo estado circulatório e pela tolerância, com supervisão próxima.
As contas de gotejamento do mesmo Box fecham. A fórmula que o manual dá, gotas por minuto igual ao volume dividido pelo produto das horas por três, é a forma reduzida de volume vezes 20 gotas por mililitro dividido por 60 minutos, e conferida de forma independente dá o mesmo resultado: 120 mL em 1 hora são 40 gotas por minuto.
Box 1 do passo 1, sobre velocidade de infusão de glicose, conferido linha a linha para criança de 10 kg. 5 mg/kg/min × 10 kg × 60 min = 3.000 mg/h; a 100 mg/mL, 30 mL/h; 0,5 mL/min; com equipo de 20 gotas por mililitro, 10 gotas por minuto; em microgotas, 30 por minuto. Todos os passos fecham. Duas observações que o Box não faz e que mudam a prescrição: essa manutenção sozinha consome 72 mL/kg/dia, mais da metade do teto diário de líquido; e a diluição indicada para quem só tem glicose a 50% — 10 mL diluídos em água estéril na proporção de um para quatro — significa 10 mL de glicose mais 40 mL de água, dando 50 mL a 10%, e não 10 mL levados a 40 mL, que dariam 12,5%.
Solução de hidratação venosa do passo 3, conferida: partes iguais de salina a 0,9% e glicose a 10% resultam em cloreto de sódio a 0,45% e glicose a 5%, exatamente como o manual declara. O sódio dessa mistura é de 77 mmol/L. A recomendação de acrescentar 20 mmol/L de cloreto de potássio estéril, quando possível, é o que aproxima a solução das necessidades desta criança.
Sulfato de magnésio: o passo 4 dá duas vias e elas não entregam a mesma dose. Por via intramuscular, 0,3 mL/kg da solução a 50% com teto de 2 mL; por via intravenosa, 1 mL/kg da solução a 10%. Abaixo de 6,67 kg, quando o teto de 2 mL ainda não morde, a via intramuscular entrega 150 mg/kg contra 100 mg/kg da intravenosa — 1,5 vez. O teto aproxima as duas conforme o peso sobe: aos 8 kg a razão cai para 1,25, aos 10 kg as duas se igualam em 1.000 mg, e acima disso a intramuscular passa a entregar menos. A rotulagem em miliequivalentes da Rename confere: a solução a 50% tem 500 mg/mL de sulfato de magnésio hepta-hidratado, que dão 4,06 mEq/mL de magnésio contra os 4,05 impressos; a de 10%, 0,81 mEq/mL contra 0,81 impressos.
Cloreto de potássio injetável da Rename, conferido: 191 mg/mL divididos pela massa molar de 74,55 dão 2,562 mmol por mililitro, e o impresso é 2,56 mEq/mL. Fecha. Vale a distinção, porém: essa apresentação é injetável, e a alternativa que o manual de 2005 oferece a quem não tem a mistura de minerais é uma solução de cloreto de potássio a 10% por via oral, que não consta da relação nacional.
Unidade da glicemia na Nota de Alerta nº 41 da Sociedade Brasileira de Pediatria: o documento define hipoglicemia como glicemia abaixo de 54 mg/dL ou abaixo de 3 nmol/L. A unidade correta é milimol por litro — 3 mmol/L × 18,02 = 54,1 mg/dL, que é justamente o outro corte da mesma frase. Nanomol por litro é um milhão de vezes menor. O manual federal de 2005, que a nota cita como referência, escreve corretamente 3 mmol/L nas duas vezes em que traz o corte. Errata e retificação da nota: procuradas e não encontradas.
Sachê de micronutrientes na Rename 2024: o mesmo produto aparece duas vezes no documento, e as duas listagens divergem em um item. Numa delas se lê 'vitamina B6 0,5 g'; na outra, 'vitamina B6 0,5 mg'. É um fator de mil. O sachê pesa 1 grama no total, de modo que 0,5 g de piridoxina seria metade da massa do sachê; somando os ativos declarados com a leitura de 0,5 mg chega-se a cerca de 58 mg em 1.000 mg, e todas as demais vitaminas do complexo B da mesma linha vêm em miligrama ou micrograma. A leitura em grama é a incorreta. A divergência foi confirmada em três cópias do documento de origens distintas, com o texto normalizado quanto a espaço e hifenização.
A conferência documental das apresentações fica registrada nas referências. Na prescrição, use composição, concentração e unidade do produto real, com atenção a erros por fator mil.
Dose de sulfametoxazol com trimetoprima no manual de 2005: '25 mg/Kg de peso/dia, via oral, de 12 em 12 horas'. O documento não diz a qual dos dois componentes os 25 mg se referem, e a suspensão da Rename traz 40 mg/mL de sulfametoxazol com 8 mg/mL de trimetoprima. Lendo como a soma dos dois, a criança de 8 kg recebe 2,1 mL por dose; lendo como sulfametoxazol isolado, 2,5 mL — 1,2 vez mais. Qual das duas leituras é a pretendida é decisão farmacológica, e este capítulo não a toma.
Percentual de mediana de uma referência antiga não deve ser convertido por aproximação em escore-z atual. Use a curva e os critérios correspondentes à idade e diferencie recuperação nutricional de alta hospitalar.
A referência antropométrica do manual de 2005 é anterior às curvas atuais da OMS. Para classificar e acompanhar hoje, consulte a curva apropriada; a tabela histórica permanece apenas para contextualizar o documento.
Circunferência do braço no instrutivo federal de 2023: o corte declarado no item de avaliação nutricional vale para crianças de 6 a 59 meses, com 11,5 a 12,5 cm definindo desnutrição moderada e abaixo de 11,5 cm definindo grave, citando as recomendações internacionais de 1995, 2013 e 2014. A tabela de valores publicada no mesmo documento, porém, cobre de 3 a 24 meses e traz, aos 3 meses, menos três desvios-padrão em 10,2 cm para meninas e 10,7 cm para meninos. Uma criança de 3 meses com 11,4 cm está acima de menos dois desvios-padrão pela tabela e abaixo do corte de 11,5 cm pelo texto. As duas réguas não se contradizem porque não valem para a mesma faixa etária — mas estão no mesmo documento, a poucas páginas de distância, e o que as separa é somente a faixa etária que cada uma cobre.
Volume e alvo calórico da fase inicial, conferidos: 130 mL/kg/dia do preparado com 75 kcal por 100 mL entregam 97,5 kcal/kg/dia, e o título da Tabela 11 anuncia 100 kcal/kg/dia. A diferença é de 2,5% e cabe no arredondamento, mas convém saber que a conta exata cai um pouco abaixo do rótulo, porque o piso de segurança declarado no mesmo passo é 80 kcal/kg/dia e a margem real é menor do que o título sugere. A proteína, essa, fecha: 130 mL/kg × 0,9 g por 100 mL = 1,17 g/kg/dia, dentro da faixa declarada de 1 a 1,5.
Distribuição das refeições da fase inicial, conferida para a criança de 8 kg: 130 mL/kg dão 1.040 mL/dia; em 12 refeições de 2 em 2 horas, 87 mL, que são 10,8 mL/kg por refeição para os 11 declarados; em 8 refeições de 3 em 3 horas, 130 mL, que são 16,3 mL/kg para os 16 declarados; em 6 refeições de 4 em 4 horas, 173 mL, que são 21,7 mL/kg para os 22 declarados. Todas fecham. Há um erro de remissão no Box 4 do passo 8: ele manda ver a Tabela 12 para o esquema de refeições, e o esquema de refeições está na Tabela 11; a Tabela 12 é a das receitas.
A conduta, hora a hora
Os marcos acompanham Ravena, de 15 meses e 6,1 kg, com diarreia, hipotermia e anemia. O plano organiza riscos imediatos, alimentação inicial e recuperação. As contas pertencem a esse peso e a esse cenário hospitalar; mudanças na perfusão, nos eletrólitos ou na tolerância exigem ajuste, sem transformar a sequência em uma lista que impeça ações simultâneas.
Estabilização, transição e reabilitação são fases clínicas, não datas fixas. A recuperação do apetite é um sinal relevante, mas precisa ser lida com estabilidade, resolução das complicações e tolerância à dieta. Na criança edemaciada, interprete a variação do peso junto com ingestão, balanço e exame.
Primeiros 30 minutos, antes de qualquer prescrição nova
Suspenda o bolus de soro fisiológico e a reserva de hemácias, e não escreva a dieta ainda. Meça glicemia capilar e temperatura, nesta ordem, e examine os olhos e os dois pés. A temperatura de 35,4 graus já classifica hipotermia e obriga a tratar como hipoglicemia e como infecção, mesmo sem confirmação. Aqueça pelo contato pele a pele com a mãe e por agasalho, incluindo a cabeça; não use bolsa de água quente nem frasco de soro aquecido sobre a pele, porque queima. Confira a temperatura da enfermaria e feche a janela: o ambiente ideal fica entre 25 e 30 graus, e a criança com marasmo não produz calor.
Prescrição- Glicemia capilar agora e repetir 30 minutos após qualquer correção
- Temperatura axilar com o braço comprimido contra o tórax, e reaferir de 2 em 2 horas
- Contato pele a pele com a mãe; agasalhar inclusive a cabeça; cobertor previamente aquecido
- Suspender soro fisiológico em bolus e a reserva de concentrado de hemácias
- Suspender sulfato ferroso
Hora 1 — hipoglicemia e o começo da reidratação
Se a criança está consciente e deglute, trate por via oral com solução de glicose ou de sacarose a 10%, ou já com o preparado alimentar inicial. Se está rebaixando, não deglute ou convulsiona, faça glicose a 10% intravenosa e mantenha infusão. Sem glicemia disponível, trate assim mesmo. Para a desidratação, a via é a oral ou a sonda: 5 mL/kg a cada 30 minutos nas primeiras duas horas, alternando com a dieta de hora em hora. A via intravenosa só entra se houver colapso circulatório — e, se entrar, 15 mL/kg em uma hora de solução com metade do sódio e glicose a 5%, com você ao lado do leito contando pulso e frequência respiratória.
Prescrição- Consciente: solução de glicose ou sacarose a 10% por via oral, 50 mL
- Rebaixada ou convulsivando: glicose a 10% intravenosa, 5 mL/kg = 30 mL, e manutenção a 4-6 mg/kg/min
- Solução de reidratação para desnutrido grave por via oral ou sonda: 30 mL a cada 30 minutos nas 2 primeiras horas
- Se colapso circulatório: salina a 0,9% e glicose a 10% em partes iguais, 15 mL/kg = 92 mL em 1 hora, com 20 mmol/L de cloreto de potássio se possível
- Manter aleitamento materno se a criança sugar; se não sugar, leite ordenhado por sonda
Horas 2 a 12 — completar a reidratação sem afogar
De 6 a 10 mL/kg por hora nas quatro a dez horas seguintes, para um total de 70 a 100 mL/kg em doze horas, e mais 50 a 100 mL depois de cada evacuação amolecida em criança abaixo de dois anos. Comece o preparado alimentar inicial dentro de duas a três horas, mesmo antes de a reidratação terminar; a dieta e a solução se alternam de hora em hora. Reidratação completa é a criança sem sede, urinando claro e em quantidade, com os sinais desaparecidos — não é o volume prescrito ter acabado. Interrompa e reavalie ao primeiro sinal de excesso: pulso e frequência respiratória subindo, jugulares ingurgitadas, pálpebras inchando.
Prescrição- Solução de reidratação para desnutrido grave 36 a 60 mL por hora, por 4 a 10 horas
- Acrescentar 50 a 100 mL após cada evacuação amolecida
- Preparado alimentar inicial iniciado em 2 a 3 horas, alternado de hora em hora com a solução
- Pulso, frequência respiratória e presença de edema a cada 30 minutos nas 2 primeiras horas, depois de 2 em 2 horas
- Sonda nasogástrica se debilitada, se vomitar ou se a frequência respiratória passar de 40 por minuto nesta idade
Primeiras 24 horas — antibiótico, micronutrientes e a dieta com teto
O antibiótico começa hoje, sem febre e sem hemograma alterado, porque a presunção é de infecção oculta. Colha as culturas antes se der. Ravena está letárgica e hipotérmica, o que a coloca no esquema de criança com complicação, não no de criança sem sinais aparentes de infecção. Os micronutrientes entram agora, todos menos um: vitamina A conforme a idade, ácido fólico, zinco, cobre, e um polivitamínico que não contenha ferro. A dieta é o preparado inicial, com teto: nunca acima de 100 kcal/kg/dia, nunca abaixo de 80, de 2 em 2 horas dia e noite. As refeições noturnas não são opcionais.
Prescrição- Gentamicina 7,5 mg/kg/dia = 46 mg intravenosa ou intramuscular, 1 vez ao dia, por 7 dias
- Ampicilina 50 mg/kg/dose = 305 mg intravenosa ou intramuscular de 6 em 6 horas por 2 dias, seguida de amoxicilina 15 mg/kg/dose = 92 mg (1,8 mL da suspensão) de 8 em 8 horas por 5 dias
- Palmitato de retinol 200.000 UI por via oral em dose única, o que são 1,33 mL da solução de 150.000 UI/mL
- Ácido fólico 5 mg hoje, depois 1 mg/dia — 5 mL da solução de 0,2 mg/mL — por pelo menos 2 semanas
- Preparado alimentar inicial 130 mL/kg/dia = 793 mL/dia, em 12 refeições de 66 mL, de 2 em 2 horas
- Mistura de eletrólitos e minerais 20 mL por litro de dieta; sem sal de cozinha no preparo
- Hemocultura e urocultura antes da primeira dose; radiografia de tórax
Dias seguintes — estabilização e resposta clínica
O peso pode não subir, e em criança com edema vai cair. A diarreia deve diminuir gradualmente; se piorar e o peso não subir, suspeite de intolerância secundária à lactose antes de suspeitar de falha do tratamento. Espace a dieta para 3 em 3 horas do terceiro ao quinto dia, mantendo o mesmo volume diário. Monitore potássio, magnésio e fósforo, que é quando eles caem. E vigie os dois sinais de congestão a cada quatro horas: aumento de 25 batimentos no pulso e de 5 incursões na frequência respiratória, em duas medidas sucessivas, obriga a reduzir a oferta.
Prescrição- Preparado alimentar inicial 793 mL/dia em 8 refeições de 99 mL, de 3 em 3 horas
- Peso diário, sempre no mesmo horário e antes da refeição
- Potássio, magnésio e fósforo séricos; corrigir precocemente
- Registro por refeição do oferecido, do aceito e das perdas por vômito e por evacuação
- Se a anorexia persistir após 7 dias, estender o antibiótico até completar 10 dias
Estabilidade e retorno do apetite — transição monitorizada
O retorno do apetite marca a passagem para a reabilitação, e a passagem é gradual por uma razão específica: o aumento súbito da carga nutricional pode causar sobrecarga cardíaca e morte, e pode produzir diarreia por hiperosmolaridade que será confundida com intolerância à lactose. Troque a fórmula sem mexer no volume por 48 horas. Só depois disso comece a subir 10 mL por refeição a cada dia, até a criança deixar sobras — o que costuma acontecer perto de 200 mL/kg/dia. Se aparecerem sinais de insuficiência cardíaca, volte para 100 mL/kg/dia por 24 horas, suba para 115 nas 24 horas seguintes, para 130 nas 48 seguintes, e só então retome o aumento de 10 mL.
Prescrição- Dias 1 e 2 da transição: substituir o preparado inicial pelo de crescimento rápido, mesmo volume e mesma frequência
- A partir do dia 3: aumentar 10 mL em cada refeição sucessiva, até sobrar
- Meta da fase: ganho de peso acima de 10 g/kg/dia
- Pulso e frequência respiratória de 4 em 4 horas durante toda a transição
- Se congestão: reduzir para 100 mL/kg/dia por 24 h, 115 nas 24 h seguintes, 130 nas 48 h seguintes
Segunda semana — o ferro, e só agora
Quando o apetite voltou e o peso está subindo, o que costuma ocorrer no início da segunda semana, começa o ferro. Antes disso ele é contraindicado, porque facilita o crescimento de bactérias patogênicas e agrava a lesão tecidual. O recado prático para a prescrição: a dose se escreve em ferro elementar, e o rótulo do frasco declara outra coisa — a regra de escrita e a tabela de conversão por apresentação são do capítulo de anemia ferropriva na infância, em Hematologia Pediátrica. O que este capítulo assume é apenas o momento de começar. Junto com o ferro, entra a estimulação: brincadeira individual de 15 a 30 minutos por dia, movimento passivo se a criança não se move, e a mãe fazendo o cuidado direto, não assistindo a ele.
Prescrição- Ferro elementar 3 mg/kg/dia por via oral, iniciado quando o apetite voltar e o peso subir
- Manter zinco, cobre, ácido fólico e polivitamínico
- Brincadeira individual 15 a 30 minutos por dia, com material lavável e apropriado à idade
- Mãe ou cuidador treinado no preparo da dieta, participando das refeições
- Atualizar o calendário vacinal durante a internação
Alta — que se planeja desde a admissão e não se decide pelo peso
Planeje a transferência para seguimento ambulatorial pela condição clínica e pela capacidade de manter o cuidado. A resolução do problema que motivou a internação, ausência de sinais de perigo, apetite e plano de alimentação viável pesam mais do que alcançar um peso durante a hospitalização. Diferencie transferência do hospital e encerramento do tratamento nutricional. A diretriz da OMS de 2023 trata crianças menores de cinco anos; o lactente menor de seis meses exige percurso próprio. A equipe confirma critérios, fornecimento da dieta, treinamento do cuidador e acesso ao retorno antes da saída.
Prescrição- Relatório de alta com resumo da internação, diagnósticos com código, dieta orientada e recomendações, entregue à família e copiado no prontuário
- Consulta de retorno marcada antes da saída, com data e serviço nomeados
- Vitamina A a cada 6 meses e calendário vacinal completado
- Registro do peso de admissão e de alta na Caderneta da Criança
- Acompanhamento ambulatorial ou domiciliar frequente, diário ou semanal, pactuado com a equipe do território onde a família mora
- Não manter sulfametoxazol com trimetoprima profilático após a alta em criança sem infecção pelo vírus da imunodeficiência humana
Como saber se está funcionando
O que se acompanha nesta criança é quase tudo de beira de leito, e o instrumento principal é uma folha de registro por refeição presa na prancheta do próprio leito — o manual federal sugere isso justamente para que o dado seja anotado na hora e não reconstruído de memória no fim do plantão.
Pulso e frequência respiratória crescentes durante reposição ou realimentação são sinais de alerta, mas não confirmam congestão isoladamente. Reavalie perfusão, esforço respiratório, ausculta, fígado, edema, diurese e balanço; considere também dor, infecção e outras causas. A equipe decide se interrompe ou ajusta a intervenção.
Esperado: Cair ou ficar estável nos primeiros dias em criança com edema, à medida que o edema regride; subir a partir da fase de reabilitação, com meta acima de 10 g/kg/dia
Se não melhora: Confira antes se a balança é a mesma, se a criança está sem roupa e sem fralda e se o horário é o mesmo. Depois procure infecção não tratada, dieta não aceita e perdas não contabilizadas. Peso que não sobe na fase de reabilitação, com dieta aceita e sem perdas, é infecção até prova em contrário
Esperado: Estáveis, ou caindo à medida que a desidratação se corrige
Se não melhora: Aumento de 25 batimentos por minuto e de 5 incursões por minuto, em duas medidas sucessivas, é congestão: interrompa a expansão, reduza o volume da dieta para 100 mL/kg/dia e procure jugular ingurgitada e edema palpebral. Durante transfusão, os mesmos números mandam desacelerar a infusão
Esperado: Acima de 35,0 graus na axila, com a criança coberta e a enfermaria entre 25 e 30 graus
Se não melhora: Hipotermia nova em criança que já estava aquecida sugere sepse de aquisição hospitalar, e é frequentemente o primeiro sinal dela. Reavalie o esquema antibiótico e meça a glicemia na mesma passada
Esperado: Aceitação crescente; o retorno do apetite é o marcador que autoriza a passagem para a fase de reabilitação
Se não melhora: Abaixo de 80 kcal/kg/dia depois de descontadas as perdas, insista gentilmente e, se recusar, complete por sonda. Queda do apetite em criança que já vinha aceitando é sinal precoce de infecção — não é birra. Anorexia que persiste após 7 dias de antibiótico manda estender o tratamento até 10 dias
Esperado: Regressão progressiva da graduação, de três cruzes para duas, para uma, para ausente, com queda de peso acompanhando
Se não melhora: Edema que aumenta durante a hidratação é sobrecarga de líquido, e a conduta é reduzir a oferta — nunca diurético. Edema que não regride com o tratamento correto manda reavaliar infecção, oferta de sódio pelos insumos e função renal
Esperado: Redução gradual da diarreia ao longo da fase inicial
Se não melhora: Diarreia que não muda ou piora, com criança que não ganha peso, levanta intolerância secundária à lactose. Se o estado geral é bom, a criança está hidratada e o peso sobe, diarreia persistente não exige mudança de conduta — o manual é explícito quanto a isso
Esperado: Estáveis dentro da faixa, com reposição contínua pelos insumos da dieta
Se não melhora: Queda rápida durante a realimentação é o padrão esperado, não um achado surpreendente: corrija precocemente e não avance o volume até corrigir. Potássio que não sobe apesar da reposição costuma ser magnésio não reposto
Onde o erro machuca
O dano: Entrega volume e sódio a um coração com reserva reduzida e a um rim que não excreta. Produz congestão, edema e insuficiência cardíaca em uma criança que chegou andando, e a piora costuma ser atribuída à doença de base
Como pegar a tempo: A via preferencial é a oral ou a sonda, com solução de reidratação adaptada, 70 a 100 mL/kg em 12 horas. A via intravenosa só entra no colapso circulatório, e com 15 mL/kg em uma hora de solução com metade do sódio, com você ao lado do leito contando pulso e frequência respiratória
O dano: Acrescenta volume ao mesmo coração sem reserva. A hemoglobina baixa dessa criança sobe sozinha com a recuperação, e a transfusão que não estava indicada troca uma anemia que se corrige por um risco que não se desfaz
Como pegar a tempo: Transfunda apenas com hemoglobina abaixo de 4 g/dL, ou entre 4 e 6 com dificuldade respiratória e sinais de insuficiência cardíaca. Use papa de hemácias, 10 mL/kg em 3 horas, com pulso e frequência respiratória a cada 15 minutos, e não repita mesmo que a hemoglobina siga baixa
O dano: Ferro livre em um organismo sem as proteínas transportadoras favorece o crescimento de bactérias patogênicas e agrava a lesão tecidual, na exata janela em que a infecção é a principal causa de morte
Como pegar a tempo: Ferro só a partir do momento em que o apetite voltou e o peso começou a subir, o que costuma acontecer na segunda semana. Confira também os polivitamínicos comerciais: muitos contêm ferro, e o manual pede explicitamente que se escolha um que não contenha
O dano: Dispara a insulina e joga potássio, magnésio e fósforo para dentro das células de um corpo já depletado. A síndrome de realimentação não aparece na admissão: aparece por volta do terceiro dia, quando todos já acharam que a criança tinha melhorado
Como pegar a tempo: Respeite o teto de 100 kcal/kg/dia na fase inicial, com piso de 80, em volume de 130 mL/kg/dia de preparado com baixa lactose e baixa osmolaridade. Na transição, 48 horas com a fórmula nova e o volume antigo antes de qualquer aumento, e aumentos de 10 mL por refeição
O dano: O edema da desnutrição não é sobrecarga de volume circulante, e o diurético aprofunda a perda de potássio e de magnésio que já existe, além de piorar a perfusão. O sódio baixo do exame é falso: o sódio corporal total está alto, e dar sódio piora exatamente o que se quer corrigir
Como pegar a tempo: Edema de desnutrição nunca se trata com diurético, e o manual escreve isso com essas palavras. Para os eletrólitos, ofereça mais potássio e magnésio e menos sódio, pelos insumos da dieta e da reidratação, e não acrescente sal de cozinha ao preparo
O dano: A criança sai com número melhor e volta à mesma casa, à mesma água e à mesma renda, e o segundo pico de mortalidade acontece fora do hospital — onde não entra na estatística do serviço
Como pegar a tempo: Comece o plano de alta logo depois da admissão. Exija consulta marcada com data e serviço nomeados, alguém treinado no preparo da dieta e presente às refeições por pelo menos dois dias antes da saída, vitamina A semestral e calendário vacinal completo. A diretriz internacional acrescenta que a transferência do cuidado hospitalar para o ambulatorial não se decide por antropometria, e sim por ausência de sinais de perigo, resolução do que motivou a internação e retorno do apetite
O que dizer ao paciente e à família
A conversa deste capítulo tem uma dificuldade que as outras não têm: quase tudo o que você vai explicar contraria o que a família enxerga. A criança está magra e você vai dizer que não pode comer muito. A criança está anêmica e você vai tirar o remédio de ferro que alguém já tinha prescrito. A criança está desidratada e você vai reidratar devagar. E, no fundo de tudo, existe uma pergunta que ninguém faz em voz alta e que governa a conversa inteira: a de saber se a culpa é da mãe.
A mãe pergunta por que a criança não pode comer normal, já que o problema é fome
“A senhora tem razão no essencial: falta comida. O que muda é a velocidade. O corpo dela ficou tanto tempo com pouco que aprendeu a funcionar devagar, e agora não dá conta de receber muito de uma vez — o coração e o rim não seguram. Se a gente der comida à vontade agora, ela pode passar mal justamente por causa da comida. Então a gente dá pouco e muitas vezes, inclusive de madrugada, por uns dias. Depois a gente aumenta, e aí ela vai comer bastante mesmo.”
Não diga: Evite dizer que a criança 'não pode comer'. Ela pode e vai — o que muda é o ritmo. Ouvir uma proibição de comida vinda do hospital, quando a família passou meses sem conseguir oferecer, é o tipo de frase que produz alta a pedido
A mãe pergunta por que se acorda a criança de madrugada para dar leite
“Porque o açúcar do sangue dela cai muito rápido quando fica muitas horas sem comer, e cair de madrugada é o mais perigoso, porque ninguém percebe. As refeições da noite são tão importantes quanto as do dia nesses primeiros dias. Depois a gente vai espaçando: primeiro de duas em duas horas, depois de três em três, depois de quatro em quatro.”
Não diga: Evite pedir que a equipe da noite 'deixe a criança dormir se ela estiver bem'. O manual é explícito de que as refeições noturnas são importantes para a boa evolução, e a hipoglicemia noturna é silenciosa nessa criança
A mãe estranha que se suspenda o ferro que outro médico prescreveu
“Aquele remédio vai voltar, e vai fazer falta. Só não agora. Nas primeiras semanas o ferro sobra no sangue dela em vez de ser aproveitado, e ferro sobrando ajuda as bactérias a crescerem, que é justamente o que mais preocupa agora. Quando ela voltar a ter fome e começar a ganhar peso, a gente começa o ferro, e aí ele funciona.”
Não diga: Evite dizer que o outro médico errou. A prescrição de ferro para uma criança anêmica está certa em qualquer outro contexto; o que muda o contexto é a desnutrição grave, e a família não tem como saber disso
A mãe vê o peso cair no terceiro dia e acha que está piorando
“Esse peso que caiu era água. Ela estava inchada, e o inchaço some antes de o corpo começar a ganhar de verdade. É por isso que a gente marca o peso todo dia no mesmo horário: para ver a linha, não o número de hoje. Daqui a alguns dias ele vira e começa a subir, e aí sobe rápido.”
Não diga: Evite mostrar o gráfico sem explicar o eixo. E não prometa a data em que o peso vai virar — a fase de estabilização dura de um a sete dias e depende de coisas que ninguém controla
A avó pergunta, de lado, se a culpa é da mãe
“Não. Isso aqui acontece pelo encontro de várias coisas: doença que se repete, comida que faltou, água, e a dificuldade de chegar ao serviço de saúde. Nenhuma delas se resolve com esforço de uma pessoa só. O que a mãe fez foi trazer a menina — e é isso que muda o desfecho. Agora a gente precisa dela aqui dentro, aprendendo a preparar a comida do jeito certo, porque quem vai fazer isso em casa é ela.”
Não diga: Evite qualquer formulação que culpabilize os pais. O instrutivo federal pede explicitamente que a orientação seja conduzida de forma a dar segurança à família, sem culpabilizar — e a culpa, aqui, produz abandono de seguimento
A família pergunta quando vai poder ir embora
“Vai depender de três coisas, e nenhuma delas é o peso sozinho: ela precisa ter voltado a ter fome, ter terminado o antibiótico, e a gente precisa ter combinado onde ela vai ser vista depois — com dia marcado. Enquanto isso, quero a senhora aqui preparando a comida com a nutricionista, porque em casa não vai ter ninguém para fazer isso por você.”
Não diga: Evite dar alta com 'procure a unidade básica'. Sem data, sem serviço nomeado e sem alguém treinado no preparo, a alta é o começo do segundo pico de mortalidade, e não o fim do tratamento
A mãe conta que não tem geladeira e que a água vem de poço
“Isso muda o que eu vou orientar, e é bom que a senhora tenha dito. A gente vai montar a alimentação com o que dá para preparar na hora, sem sobrar comida guardada, e vou pedir para a equipe do posto passar na casa. Também vou registrar isso no relatório, porque tem programa que pode ajudar, e sem estar escrito ninguém aciona.”
Não diga: Evite prescrever esquema alimentar que dependa de refrigeração ou de água tratada sem perguntar antes. E não deixe as condições de moradia fora do relatório: o manual pede que se avaliem os alimentos disponíveis na casa e a possibilidade real de a família cuidar, e a diretriz internacional de 2023 coloca água segura, saneamento e transferência de renda entre as intervenções que reduzem recaída
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
A criança é considerada recuperada quando o peso para a altura atinge menos um desvio-padrão, e o preparado de crescimento rápido se mantém até lá — o que costuma levar de quatro a oito semanas. A alta pode ocorrer antes disso, mas como exceção justificada por uma lista de nove critérios clínicos e sociais, e não como regra.
Ministério da Saúde, Manual de atendimento da criança com desnutrição grave em nível hospitalar, 2005, passos 8 e 10
O tratamento nutricional se encerra quando o escore z de peso para estatura é igual ou maior que menos dois e a circunferência do braço é igual ou maior que 125 milímetros, ambos observados em pelo menos duas medidas consecutivas, e sem edema nutricional em duas medidas consecutivas. Ganho percentual e ganho absoluto de peso não devem ser usados como critério de saída.
Organização Mundial da Saúde, diretriz de 2023, recomendação B5; a Nota de Alerta nº 41 da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 2023, adota a mesma régua, com circunferência do braço de 12,5 cm e ausência de edema há pelo menos duas semanas
A diferença é de um desvio-padrão inteiro, e ela decide se a sua paciente fica mais quatro semanas ou vai embora hoje. Para o paciente à frente, separe as duas perguntas que o manual de 2005 mistura: quando sair do hospital e quando encerrar o tratamento. A saída do hospital se decide pela lista clínica e social — sem sinal de perigo, antibiótico completo, apetite de volta, sem edema, ganho de peso, e alguém treinado com consulta marcada. O encerramento do tratamento nutricional se decide depois, no ambulatório, e é aí que a régua de menos dois com circunferência do braço acima de 12,5 cm em duas medidas se aplica. Manter a criança internada até menos um desvio-padrão expõe a infecção hospitalar, que o próprio manual de 2005 dá como motivo para não fazer isso; dar alta sem seguimento marcado transfere a criança para o pico de mortalidade que ninguém mede.
Administração rotineira de vitamina A em dose única no primeiro dia de internação para toda criança com desnutrição grave, conforme a idade — 50.000 UI abaixo de 6 meses, 100.000 UI dos 6 aos 12 meses e 200.000 UI a partir de 1 ano —, exceto se a criança já recebeu vitamina A há 30 dias ou menos.
Ministério da Saúde, Manual de atendimento da criança com desnutrição grave em nível hospitalar, 2005, passo 6, Tabela 8
A criança deve receber a ingestão diária recomendada de vitamina A durante todo o tratamento, cerca de 5.000 UI por dia, como parte do alimento terapêutico ou de uma formulação multimicronutriente. A megadose no primeiro dia não é necessária se a criança recebe fórmula terapêutica ou alimento terapêutico pronto para uso que atenda às especificações da Organização — e é indicada apenas quando o alimento usado não é fortificado dessa forma e a vitamina A não faz parte de outros suplementos diários.
Organização Mundial da Saúde, diretriz de 2023, recomendações 4.1, 4.2 e 4.3, recolhidas da atualização de 2013
Diante da criança concreta, o que decide não é escolher entre os dois documentos: é o que ela está comendo. A dieta que o manual federal prescreve é preparada no serviço com leite em pó, açúcar, óleo e mistura de minerais, e a mistura de vitaminas entra nela apenas 'se disponível' — a Rename 2024 não arrola nenhuma fórmula terapêutica industrializada nem alimento terapêutico pronto para uso. Uma criança alimentada com essa preparação, sem a mistura de vitaminas, não está recebendo alimento fortificado segundo as especificações internacionais, e portanto se encaixa exatamente na condição em que a própria diretriz de 2023 manda dar a megadose. Confira o que a cozinha do seu serviço realmente prepara antes de decidir; e, com sinal ocular, a discussão não existe — são três doses, e hoje.
Sulfametoxazol com trimetoprima, 25 mg/kg/dia por via oral, de 12 em 12 horas, durante 7 dias, para a criança sem sinais aparentes de infecção; gentamicina com ampicilina, seguida de amoxicilina, para a criança letárgica ou com complicações. Todas as crianças recebem antibiótico desde o início.
Ministério da Saúde, Manual de atendimento da criança com desnutrição grave em nível hospitalar, 2005, passo 5, Tabela 7
Criança com desnutrição aguda grave não complicada, que não exige internação e é conduzida em ambulatório, deve receber um curso de antibiótico oral como a amoxicilina. Criança internada recebe antibiótico parenteral conforme o protocolo nacional de manejo hospitalar. Criança desnutrida que não tem magreza grave nem edema nutricional não deve receber antibiótico de rotina, salvo sinais de infecção clínica.
Organização Mundial da Saúde, diretriz de 2023, recomendações 3.1 e 3.2, recolhidas da atualização de 2013
As duas recomendações não descrevem exatamente a mesma criança — uma fala do internado sem sinal aparente e a outra do não complicado em ambulatório —, e a sobreposição entre elas é onde a decisão fica com você. Três coisas ajudam no caso concreto. A primeira: a diretriz de 2023 remete explicitamente ao protocolo nacional para o manejo hospitalar, o que no Brasil significa o esquema de 2005. A segunda: a Rename 2024 não arrola ampicilina e traz gentamicina apenas em apresentação oftálmica, de modo que o esquema parenteral do manual depende do que o seu hospital padronizou, e não do que a relação nacional dispensa. A terceira: sulfametoxazol com trimetoprima e amoxicilina estão os dois na relação, os dois na classificação de acesso, e a escolha entre eles passa a depender do perfil de resistência do seu serviço — que é o que o próprio manual de 2005 autoriza levar em conta ao dizer que o esquema pode ser modificado conforme a disponibilidade local e o conhecimento da resistência bacteriana.
O raciocínio, em voz alta
Emilly Estevam tem 22 meses e chega ao pronto-socorro no colo do pai numa segunda-feira de manhã. Pesa 9,4 kg e mede 79 cm. A queixa é que está inchada há duas semanas e 'muito parada'. Os dois pés estão edemaciados, as pernas e as mãos também, e há edema nas pálpebras. O cabelo é ralo, claro e sai com facilidade. Há descamação avermelhada no períneo e nas nádegas. A circunferência do braço é de 11,1 cm. Temperatura axilar 36,2 graus, frequência cardíaca 128, frequência respiratória 34, glicemia capilar 61 mg/dL. Não tem febre. O plantonista pediu hemograma, que voltou com hemoglobina de 7,8 g/dL e leucócitos de 6.400, e escreveu na ficha: 'sem sinais de infecção, aguardar avaliação da pediatria'.
Classifique antes de tudo, e não pelo peso
O peso de 9,4 kg em 79 cm não parece dramático, e não é para parecer: parte desse peso é o líquido do edema. A classificação aqui se faz por dois caminhos independentes, e os dois fecham em desnutrição grave. O primeiro é o edema nutricional, que basta sozinho. O segundo é a circunferência do braço de 11,1 cm, abaixo do corte de 11,5 cm, e essa é justamente a medida que o edema não falseia — é para isso que o instrutivo federal de 2023 a recomenda.
Gradue o edema, porque a graduação decide a internação
Pés, pernas, mãos e face: é edema generalizado, três cruzes. Na lista de critérios de hospitalização da Nota de Alerta nº 41, o edema de três cruzes aparece isoladamente, sem precisar de nenhuma outra complicação associada. Emilly interna hoje, e não é uma decisão que dependa de vaga, de exame ou de reavaliação em 24 horas.
Leia a frase da ficha ao contrário
'Sem sinais de infecção' é a frase mais perigosa deste caso. Ausência de febre e leucograma normal não afastam infecção nesta criança: os sinais clássicos frequentemente não existem, e a nota da Sociedade Brasileira de Pediatria arrola exatamente febre, piora do estado geral, alteração de leucograma e proteínas inflamatórias entre os sinais que podem faltar. O 'muito parada' que o pai descreveu vale mais que os três exames somados. Antibiótico começa hoje, com culturas colhidas antes.
Trate a glicemia de 61 como o que ela é
Sessenta e um está acima do corte de 54 mg/dL, então não é hipoglicemia agora. Mas é uma criança com reserva hepática esgotada, e o que o protocolo faz com esse número não é ignorá-lo: é prevenir. A dieta começa de 2 em 2 horas, dia e noite, e a glicemia se repete. A prevenção da hipoglicemia é o passo 1 tanto quanto o tratamento dela.
Não transfunda, e não dê ferro
Hemoglobina de 7,8 g/dL não está abaixo de 4 nem entre 4 e 6, e não há dificuldade respiratória nem sinal de insuficiência cardíaca. Não há indicação de transfusão, e transfundir acrescentaria volume a uma criança que já está com o terceiro espaço cheio. O ferro fica para a segunda semana, quando o apetite voltar e o peso começar a subir — que aqui só vai acontecer depois de o edema sair.
Não prescreva diurético, e explique o peso que vai cair
Edema de desnutrição nunca se trata com diurético — o manual federal escreve isso com essas palavras, e o mecanismo é permeabilidade endotelial por estresse oxidativo, não sobrecarga de volume circulante. O que faz o edema sair é o tratamento nutricional e a correção dos eletrólitos. Avise o pai agora, antes que ele veja: o peso de Emilly vai cair nos próximos dias, e é assim que se sabe que está dando certo.
Escreva a dieta com teto
Preparado inicial com 75 kcal e 0,9 g de proteína por 100 mL, a 130 mL/kg/dia. Mas atenção ao peso que entra na conta: com edema, usa-se o menor valor da faixa de líquido total, e o peso que vai servir de base para o acompanhamento é o do dia em que o edema tiver saído. Nos dias 1 e 2, 12 refeições de 2 em 2 horas, inclusive de madrugada.
Marque o retorno antes de a criança subir para a enfermaria
O plano de alta começa agora, não na véspera da saída. Registre no prontuário as condições da casa, quem cuida, o que há para comer, se há água tratada, e acione a equipe do território. A diretriz internacional de 2023 pede que a avaliação do ambiente domiciliar seja feita logo depois da admissão, justamente para dar tempo de organizar o serviço que vai continuar o tratamento.
Faça você
Erivelton Timóteo tem 3 anos, 10,2 kg e 89 cm, e está no quinto dia de internação por desnutrição grave sem edema. Entrou letárgico e hipotérmico, recebeu gentamicina com ampicilina, vitamina A, ácido fólico e o preparado inicial, e melhorou: hoje de manhã pediu comida pela primeira vez, terminou as duas últimas refeições e brincou com a mãe na poltrona. O peso subiu 40 gramas em relação a ontem. A residente passa no posto e diz, de saída: 'ele já está aceitando bem, libera a dieta e sobe o volume, e vamos programar a alta para amanhã'. Você tem a folha na mão.
Reconheça o que acabou de acontecer
O retorno do apetite é o marcador que autoriza a passagem para a fase de reabilitação. Erivelton não está pronto para alta: está pronto para a transição — que é coisa diferente, e é o momento de maior risco da internação inteira.
Recuse a metade errada da ordem, e diga por quê
'Libera a dieta' e 'sobe o volume' são duas coisas, e as duas juntas de uma vez são a receita da complicação que o manual descreve: sobrecarga cardíaca, e diarreia por hiperosmolaridade que vai ser confundida com intolerância à lactose. Formule a alternativa antes de recusar, porque a residente está certa no diagnóstico e errada só na velocidade.
Escreva a transição em duas etapas
Primeiro: trocar o preparado inicial pelo de crescimento rápido, mantendo exatamente o mesmo volume e a mesma frequência, por 48 horas. Só depois disso começa o aumento, e ele é de 10 mL por refeição a cada dia, sucessivamente, até a criança deixar sobras — o que costuma acontecer perto de 200 mL/kg/dia.
Defina o que vai fazer você parar
Pulso e frequência respiratória de 4 em 4 horas. Aumento de 25 batimentos e de 5 incursões por minuto em duas medidas sucessivas manda reduzir para 100 mL/kg/dia por 24 horas, subir para 115 nas 24 horas seguintes, 130 nas 48 seguintes, e só então retomar.
Some o que entra agora e o que não entra ainda
Entra o ferro, porque o apetite voltou e o peso subiu. Entra a estimulação formal, com brincadeira individual diária e a mãe fazendo o cuidado direto. Não entra dieta livre: mesmo depois da transição, o preparado continua sendo oferecido, e em criança acima de 24 meses ele se mantém entre as refeições principais para garantir a oferta de minerais.
Responda sobre a alta com a lista, não com o peso
Quarenta gramas em um dia dão 3,9 g/kg/dia, e o critério de alta antecipada pede ganho acima de 10 g/kg/dia por três dias consecutivos. Falta também completar o antibiótico, completar duas semanas de micronutrientes, treinar a mãe no preparo da dieta e marcar o retorno com data e serviço nomeados. Amanhã não.
Ver como fecharíamos
O que a residente viu está certo: o apetite voltou, e isso muda a fase. O que ela pediu é o erro que mata na segunda semana. A conduta é trocar a fórmula sem mexer no volume por 48 horas, e só então subir 10 mL por refeição por dia, com pulso e frequência respiratória de 4 em 4 horas e um critério escrito para recuar. Ferro começa agora. Alta, não: o ganho de peso de ontem para hoje foi de 3,9 g/kg/dia, abaixo dos 10 g/kg/dia por três dias consecutivos que o critério exige, e ainda faltam o antibiótico completo, as duas semanas de micronutrientes, o treinamento da mãe no preparo da dieta e o retorno marcado com data e serviço. O que se pode adiantar hoje é justamente isso: acionar a equipe do território e agendar.
A glicemia de 48 mg/dL está abaixo do corte de 54 mg/dL e a temperatura axilar de 35,1 graus caracteriza hipotermia; as duas se tratam imediatamente e as duas apontam para infecção. Como a criança deglute, a correção da glicemia é por via oral. O antibiótico de largo espectro entra em toda criança com desnutrição grave desde o início, sem esperar febre, leucocitose ou cultura, porque a infecção se apresenta por apatia e perda de apetite. A reidratação é pela boca, com solução de menos sódio e mais potássio que a padrão, porque o sódio corporal total já está alto e o coração e o rim não têm reserva para uma carga de volume. Bolus de soro fisiológico produz congestão. A hemoglobina de 5,8 g/dL só indicaria transfusão se houvesse dificuldade respiratória e sinais de insuficiência cardíaca, o que não há. E ferro na primeira semana favorece o crescimento bacteriano.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconheça perda de tecido e edema nutricional e explique por que o peso isolado pode enganar. Identifique quais cortes se aplicam à idade da criança. Compare um caso sem complicações e um caso com hipotermia, baixa ingestão e alteração da perfusão; justifique o local de cuidado. Na internação, apresente as prioridades de glicemia, temperatura, infecção, hidratação e alimentação inicial, sem transportar automaticamente protocolos de crianças sem desnutrição grave.
Em 30 dias
Reconstrua a passagem da estabilização para a recuperação: que achados autorizam progredir, o que acompanhar e que alterações exigem parar e reavaliar? Some o volume de todas as vias e confira energia, proteína e eletrólitos do produto prescrito. Explique por que ferro e dieta de recuperação têm momento próprio. Diferencie transferência do hospital e encerramento do tratamento nutricional. Escreva um plano de alta com responsável, dieta acessível, retorno e sinais de alerta.
Agora atenda
Agora atenda: enfermaria de pediatria de hospital do interior, criança de 15 meses e 6 quilos transferida do pronto-socorro de madrugada com diarreia de oito dias, temperatura axilar de 35,4 graus e hemoglobina de 6,2. A prescrição da noite tem bolus de soro fisiológico, dieta livre, sulfato ferroso e reserva de hemácias. Conduza: decida o que sai da folha e por quê, estabeleça a ordem dos primeiros passos, escreva a reidratação e a dieta com os números, e explique à mãe por que a criança magra vai comer pouco e muitas vezes.
