Pediatria › Nutrologia Pediátrica
Três camadas, uma criança
Deficiências de micronutrientes: ferro, vitamina A, vitamina D, iodo e zinco
Fortificação obrigatória de alimentos, suplementação profilática por faixa etária e tratamento de deficiência diagnosticada são três políticas diferentes, com públicos diferentes, réguas diferentes e responsáveis diferentes. O interno que as confunde soma o que não pode ser somado, cobra da família o que o serviço nunca entregou, ou pede exame que não decide nada.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Promoção da Saúde. Caderno dos Programas Nacionais de Suplementação de Micronutrientes. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. 52 p. ISBN 978-65-5993-779-0.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 604, de 10 de fevereiro de 2022. Dispõe sobre o enriquecimento obrigatório do sal com iodo e das farinhas de trigo e de milho com ferro e ácido fólico destinados ao consumo humano. Publicada no Diário Oficial da União de 16 de fevereiro de 2022.
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Biomarcadores do estado de micronutrientes: prevalências de deficiências e curvas de distribuição de micronutrientes em crianças brasileiras menores de 5 anos. Relatório 3 do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019). Coordenador geral: Gilberto Kac. Rio de Janeiro: UFRJ, 2021. 156 p. CDD 363.80981.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Endocrinologia. Hipovitaminose D em pediatria: diagnóstico, tratamento e prevenção – Atualização. Documento Científico nº 181, 4 de novembro de 2024. 16 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. 111 p. (versão menino).
Brasil. Ministério da Saúde. Caderno dos programas nacionais de suplementação de micronutrientes: versão preliminar. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 44 p.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Recomendações para o tratamento e prevenção da deficiência de ferro e anemia ferropriva em lactentes – Atualização 2026. Diretrizes da SBP nº 32, 17 de março de 2026.
Organização Mundial da Saúde. Diretriz sobre suplementação de vitamina A em lactentes e crianças de 6 a 59 meses.
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Interno da atenção primária vai prescrever vitamina D profilática a um lactente de 8 meses cuja família comprará o produto na farmácia. Considerando as preparações comerciais disponíveis no Brasil, qual cuidado evita o erro de dose mais comum nessa prescrição?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, oito e quarenta da manhã, unidade básica de saúde de um bairro que fica a quarenta minutos de ônibus do centro. É dia de puericultura e a agenda tem catorze nomes. Você é o interno da manhã; o médico da equipe, o doutor Everaldo, está na sala ao lado com um retorno que vai demorar, e disse, ao passar, a frase que os preceptores dizem quando confiam e estão com pressa: começa que eu entro nas dúvidas.
A terceira ficha é de Analu Ceciliano, 13 meses, 9,4 quilos. A mãe, Wanderléia, entra com a criança no colo, uma bolsa a tiracolo e um saco plástico de mercado. Senta, põe o saco em cima da mesa e diz que não veio por nada: veio porque a consulta estava marcada. Analu está bem. Anda segurando nos móveis, come da comida da casa, mama ainda de manhã e à noite, não teve nenhuma internação, não teve pneumonia nem diarreia com desidratação. É a consulta que a enfermagem chama de rotina e que o interno acha, no começo do estágio, que é a mais fácil do dia.
Antes de você abrir a boca, três coisas acontecem em quarenta segundos. A primeira é Wanderléia esvaziando o saco plástico na mesa: dezenove envelopes pequenos de papel aluminizado, do tamanho de um sachê de açúcar, ainda fechados. "Sobraram esses. Eu esqueci umas semanas. Posso dar dois por dia pra terminar antes de acabar o mês?"
A segunda é ela tirando da bolsa um frasco conta-gotas de vidro âmbar, comprado na farmácia. "A minha sogra levou ela na consulta de um particular quando ela fez um ano, e o médico passou essa vitamina D. Ela toma quatro gotas. Só que acabou e é caro. Tem aqui?"
A terceira é a agente comunitária, Hosana, encostando a cabeça na porta com um frasco na mão e a informação que resolve a manhã dela e complica a sua: "chegou a vitamina A. A enfermeira falou pra dar em toda criança acima de seis meses que vier hoje."
Três camadas de política pública se encontraram na sua mesa em menos de um minuto, e você tem doze minutos de consulta. Uma delas — a farinha do pão que essa família comeu no café da manhã, o sal do feijão de ontem — chegou a Analu sem que ninguém prescrevesse nada e sem que ela pisasse aqui. A segunda é o sachê, que é um programa nacional entregue por faixa etária a quem comparece, e é política, não prescrição individual. A terceira é o frasco da farmácia, comprado, que responde a uma recomendação de sociedade médica que o serviço público não executa. E a quarta coisa, a megadose que Hosana quer dar hoje, não é uma quarta camada: é a mesma segunda, e ela não pode conviver com o sachê.
Se você somar tudo o que está em cima da mesa, Analu sai daqui recebendo micronutrientes por três caminhos ao mesmo tempo, e dois deles o Ministério da Saúde declara, com todas as letras, que não podem ser associados. Se você não somar nada e mandar embora, ela sai com dezenove sachês que a mãe vai administrar dobrados — o que o mesmo documento também proíbe — e com uma receita particular de vitamina D em gotas cuja concentração você não conferiu, num país onde a mesma prescrição de quatro gotas pode significar 800 unidades ou 8.000, dependendo da marca do frasco.
Nada disso é uma pegadinha. É a consulta de puericultura de qualquer terça-feira em qualquer unidade do país, e o que a torna difícil não é a fisiopatologia das vitaminas: é que três políticas com lógicas diferentes chegam à mesma criança pelo mesmo profissional, e ninguém ensinou o interno a distingui-las. A primeira alcança quem nunca vai à unidade e não pergunta o nome de ninguém. A segunda alcança quem comparece, é definida por idade e por região, e não se calibra pelo risco individual. A terceira, e só a terceira, é prescrição médica: tem indicação, dose, duração e critério de resposta.
Este capítulo é sobre a distância entre o que o programa nacional entrega a todas as crianças e o que esta criança precisa. Ele percorre cinco micronutrientes — ferro, vitamina A, vitamina D, iodo e zinco — perguntando de cada um as mesmas cinco coisas: quem tem risco e por quê; o que se dosa e, sobretudo, o que não se dosa; qual sinal clínico aparece antes de qualquer exame; qual é a dose profilática e qual é a terapêutica; e com que apresentação, exatamente, o SUS entrega isso. Termina onde a consulta termina de verdade, que é no que se escreve na caderneta e no que se diz na porta.
Duas fronteiras, ditas agora para não atrapalhar depois. O rastreio, o diagnóstico e o tratamento da anemia ferropriva na infância — os cortes de hemoglobina, a ferritina, a dose de ferro elementar, o conta-gotas e a conversão do sal em ferro — são do capítulo de anemia ferropriva na infância, em Hematologia Pediátrica; aqui o ferro entra apenas como o micronutriente que dá nome a um dos três programas nacionais, e a criança com anemia diagnosticada sai deste capítulo e vai para aquele. E a criança gravemente desnutrida, internada, com megadose de vitamina A e zinco na fase de estabilização, é do capítulo de desnutrição energético-proteica, a duas páginas daqui nesta mesma apostila. A criança deste capítulo está andando pelo consultório, e é isso que muda tudo.
Quem adoece disso
Até 2019, o Brasil discutia carência de micronutriente na infância com estimativas antigas, regionais ou emprestadas. Isso acabou com o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil, o primeiro inquérito nacional de base domiciliar a medir, no sangue, um espectro largo de micronutrientes em crianças de 6 a 59 meses. Foram 12.598 crianças elegíveis e 8.829 coletas de sangue, o que dá 70% de adesão. É o número que o interno precisa ter na cabeça quando alguém disser, no corredor, que "criança brasileira é toda carente de vitamina".
As prevalências, postas em ordem, contam uma história que não é a que se espera. Deficiência de zinco: 17,8%. Deficiência de vitamina B12: 14,2%. Anemia por qualquer causa: 10,0%. Deficiência de vitamina A: 6,0%. Insuficiência de vitamina D: 4,3%. Anemia ferropriva: 3,5%. Deficiência de folato: 1,0%. As duas carências mais prevalentes em criança brasileira são justamente as duas para as quais não existe programa nacional nenhum.
A linha da anemia merece um parêntese, porque ela é o eixo do capítulo vizinho e aqui só se cita. O inquérito mede anemia de qualquer causa em 10,0% e anemia ferropriva em 3,5%, e os próprios autores escrevem que a anemia ferropriva compreendeu apenas um terço dos casos de anemia observados no país, levantando a hipótese da anemia da inflamação e do papel de micronutrientes antioxidantes, entre eles a vitamina A e o zinco. Guarde só isto: anemia não é sinônimo de falta de ferro, e a conduta diante do hemograma pertence ao capítulo de anemia ferropriva na infância, em Hematologia Pediátrica.
A vitamina A é o caso de sucesso, e é por isso que ela é hoje o caso mais delicado. A prevalência de deficiência em menores de 5 anos caiu de 17,4% em 2006 para 6,0% em 2019 — quase dois terços em treze anos. As maiores prevalências regionais estão no Centro-Oeste (9,5%), no Sul (8,9%) e no Norte (8,3%), e a menor no Sudeste (4,3%). Na faixa de 6 a 23 meses, a prevalência nacional é 6,4%, maior no Centro-Oeste (11,5%) e menor no Sudeste (5,0%). Nenhum desses números, nem o maior deles, chega perto do limiar de 20% que o próprio Caderno federal transcreve como o critério com que a Organização Mundial da Saúde caracteriza a deficiência de vitamina A como problema de saúde pública e recomenda a megadose universal.
A vitamina D é o oposto do que o senso comum diz. A insuficiência é 4,3% no país, maior entre 24 e 59 meses (5,3%), e os autores do inquérito escrevem, na conclusão, que a baixa prevalência sugere que a carência desse micronutriente não seja um problema de saúde pública no Brasil. Isso convive com a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria de suplementar profilaticamente 400 unidades por dia toda criança abaixo de 1 ano e 600 unidades por dia dos 1 aos 18 anos. As duas afirmações estão em documentos brasileiros vigentes e não falam da mesma coisa: uma mede população, a outra prescreve indivíduo — e, para a criança da consulta, esta apostila adota a que prescreve.
O zinco é o buraco. Deficiência em 17,8% das crianças, quase três vezes a de vitamina A e cinco vezes a anemia ferropriva, e nenhuma política de suplementação profilática dirigida a ele. O inquérito é explícito ao dizer que o estado nutricional de zinco e de vitamina B12 deve ser discutido no cenário das políticas públicas voltadas à saúde infantil — que é a maneira acadêmica de dizer que hoje não é. O único veículo pelo qual o SUS entrega zinco de forma profilática é o sachê de micronutrientes em pó, e ele chega a uma faixa etária estreita, em ciclos, e só a quem comparece.
Qual régua o Brasil usa, e desde quando. Para as três políticas de suplementação, a régua é o Caderno dos Programas Nacionais de Suplementação de Micronutrientes, e a edição que vale é a segunda, de 2025 — a primeira, de 2022, é rotulada pela própria ficha catalográfica como versão preliminar, com 44 páginas e sem ISBN. Ou seja: por três anos, o documento que orientava a suplementação de micronutrientes da criança brasileira era declaradamente preliminar. Para a fortificação obrigatória de alimentos, a régua é uma única resolução da Anvisa, a RDC nº 604, de 10 de fevereiro de 2022, que trata do sal e das farinhas no mesmo texto. Para o que o SUS entrega, a régua é a Rename 2024. E para a vitamina D, não há régua federal nenhuma: há uma recomendação de sociedade e um elenco de medicamentos que não a contempla.
Vale fechar com a frase que o Ministério escreveu e que explica por que este capítulo é sobre a distância entre política e criança. Depois de apresentar a queda da anemia e da deficiência de vitamina A, o Caderno registra que o cenário mostra avanços e que, para algumas ações, será possível redirecionar o público-alvo do universal para o focalizado. É o próprio documento anunciando que a lógica de "dar a todos" está em revisão. Enquanto essa revisão não desce à prática, quem decide o que fazer com a criança concreta, na cadeira, é o profissional da consulta — e ele precisa saber de qual camada está falando.
Por que acontece o que acontece
Uma carência de micronutriente não começa quando o exame fica alterado; ela começa muito antes, e passa por estágios que o laboratório enxerga em ordem inversa à que a criança adoece. Primeiro esvazia-se o estoque, e o corpo funciona igual. Depois cai a oferta ao tecido, e a função bioquímica começa a se degradar sem sintoma. Só no fim aparece o sinal clínico — e, em vários micronutrientes, o sinal clínico aparece antes de o exame de rotina virar. Esse descompasso é o motivo pelo qual, para a maior parte dos micronutrientes deste capítulo, a resposta à pergunta "peço o exame?" é não.
A fortificação de alimento funciona por uma lógica populacional e por isso alcança quem nunca vai à unidade: o veículo é um alimento de consumo generalizado, e o nutriente entra em quantidade pequena, distribuída por muitas refeições, ao longo da vida inteira. É a única das três camadas que não depende de comparecimento, de adesão, de estoque na farmácia ou de alguém lembrar. Em compensação, ela entrega pouco por dia e entrega proporcionalmente ao consumo — e um lactente de 13 meses come pouquíssima farinha e quase nenhum sal. A política que alcança todo mundo é a que menos alcança o menor de 2 anos, e isso não é falha de execução: é a aritmética do veículo.
A suplementação profilática funciona pela lógica oposta. Entrega muito, concentrado, num intervalo curto, e por isso precisa de um encontro: alguém tem que estar na unidade, com estoque, na idade certa. É por isso que ela é definida por faixa etária e por território, e não por risco individual — porque o instrumento é de saúde pública e não de consultório. O corolário incomoda o estudante e é verdadeiro: quando você entrega a megadose de vitamina A a uma criança saudável, você não está tratando ninguém; está executando uma política de cobertura populacional, e a pergunta certa não é "esta criança precisa?", e sim "esta criança está no público definido, e não está recebendo a outra política ao mesmo tempo?".
O tratamento da deficiência diagnosticada é a terceira lógica, e a única que é medicina no sentido em que o interno aprendeu: tem quadro clínico, dose por peso ou por idade, duração, critério de resposta e reavaliação. É também a única que se soma mal com as outras duas — não porque a soma seja necessariamente tóxica, mas porque ela torna impossível saber o que produziu a melhora e porque, em alguns nutrientes, a margem entre profilaxia e excesso é estreita.
A vitamina A é lipossolúvel, estocada no fígado ligada à proteína ligadora de retinol, e essa característica explica tudo: explica por que a megadose semestral funciona (o fígado guarda), explica por que o retinol sérico é um mau exame individual (ele só cai quando o estoque hepático já se esgotou, e cai também na inflamação aguda, porque a proteína transportadora é negativa de fase aguda), e explica por que o excesso importa (não se elimina na urina). O sinal clínico segue a via da retina e do epitélio: primeiro a adaptação ao escuro, depois a superfície ocular, e o dano de córnea, quando chega, é rápido e não volta.
A vitamina D é um pró-hormônio, não uma vitamina no sentido clássico: é sintetizada na pele sob radiação ultravioleta, hidroxilada no fígado a 25-hidroxivitamina D — a forma de estoque, e por isso a que se dosa — e ativada no rim a 1,25-di-hidroxivitamina D. A consequência prática é que o estado de vitamina D depende de sol, de pigmentação, de vestuário e de latitude tanto quanto de ingestão, e que o desfecho ósseo, o raquitismo nutricional, é o resultado final de uma cascata que passa por cálcio, fósforo, fosfatase alcalina e paratormônio. Doença óssea estabelecida é outro assunto e outro capítulo; aqui interessa a criança que ainda não a tem.
O zinco não tem estoque de reserva mobilizável nem biomarcador confiável, e é isso que o torna o micronutriente mais difícil deste capítulo. O zinco sérico corresponde a uma fração ínfima do zinco corporal, cai na inflamação, cai depois da refeição e varia com a hora do dia — a ponto de o inquérito nacional ter precisado usar dois pontos de corte diferentes, um para coleta de manhã e outro para coleta à tarde. Como não há estoque, a perda entérica importa muito e rápido: é por isso que a diarreia depleta e é por isso que o zinco tem papel no episódio diarreico, assunto do capítulo de diarreia e desidratação na criança, em Gastroenterologia Pediátrica.
O iodo é o único dos cinco cujo destino é uma glândula só: ele é captado pela tireoide e incorporado aos hormônios tireoidianos. Por isso a carência de iodo se manifesta como doença tireoidiana — bócio, e, na forma grave e precoce, comprometimento do desenvolvimento neurológico — e por isso o Brasil resolveu o problema por fortificação universal e não por suplementação: o alvo é a população inteira, e o veículo é o sal. A avaliação do estado de iodo de uma população se faz por iodúria em amostras populacionais; no consultório, não existe exame de iodo a pedir. E a tireoide do recém-nascido já foi interrogada uma vez, na triagem neonatal, que é assunto do capítulo das cinco triagens neonatais, em Puericultura e Desenvolvimento.
Há um último mecanismo, e ele não é bioquímico: é o do erro. Quando um nutriente existe em duas apresentações com concentrações diferentes, ou quando o rótulo declara o sal e a régua declara o elemento, a mesma frase escrita numa receita produz doses diferentes. Isso não é hipótese — é o modo mais comum de errar micronutriente na pediatria brasileira, e volta em vários pontos deste capítulo com a conta feita.

Como se apresenta de verdade
Carência de micronutriente quase nunca se apresenta como queixa. Ela aparece como um detalhe que a família conta de passagem, como um achado no exame de uma criança que veio por outra coisa, ou como uma ausência: a criança que não ganha peso, não anda, não fica boa da diarreia. As seis seções abaixo são organizadas pelo sinal que aparece antes do exame, porque é ele que decide se você vai atrás.
A criança com desnutrição grave ou sinais sistêmicos precisa de avaliação específica; não basta somar os suplementos do ambulatório. Neste capítulo, diferencie prevenção na criança estável e tratamento de uma deficiência suspeita ou demonstrada. Comprometimento ocular, neurológico ou metabólico importante exige escalonamento, mesmo que a consulta tenha começado como rotina.
1 · Vitamina A: a pergunta que a mãe responde e o exame não
O primeiro sinal de deficiência de vitamina A não é visível no consultório: é a cegueira noturna, e ela só existe na história. A criança que já anda passa a tropeçar no fim da tarde, procura o colo quando escurece, não acha o brinquedo no quarto com a luz apagada, chora ao entrar num cômodo escuro. Nenhuma mãe traz isso como queixa, porque não parece coisa de médico. Pergunte diretamente, e pergunte com uma cena, não com um termo: a criança enxerga pior no fim do dia? Ela esbarra nas coisas quando a luz cai?
Depois vem a superfície ocular, e aí sim o exame físico vê. A conjuntiva perde o brilho e fica seca e enrugada — a xerose conjuntival. Podem aparecer as manchas de Bitot, placas brancas, espumosas, com aspecto de escama, tipicamente na conjuntiva bulbar temporal, que não se removem esfregando. A partir daí o processo caminha para a córnea: xerose de córnea, ulceração e amolecimento. Essas duas últimas etapas consomem a córnea em questão de horas, e o que se perde ali não volta, e nesse ponto a criança já não é caso de ambulatório — é caso de dose imediata e de encaminhamento, e o manejo detalhado está no capítulo de desnutrição grave.
Fora do olho, a deficiência de vitamina A se manifesta por aumento da gravidade e da frequência de infecções, especialmente diarreia e infecção respiratória, e por comprometimento do crescimento. Nada disso é específico, e é por isso que não serve para diagnosticar: serve para compor risco. Quem tem risco é a criança de família em insegurança alimentar, com alimentação pobre em fonte animal e em vegetais amarelo-alaranjados, a que teve sarampo, a que tem diarreia persistente ou desnutrição, e a que vive em região de maior prevalência.
2 · Vitamina D: a criança que não anda, e o punho que se apalpa
O raquitismo nutricional não começa pela perna torta. Começa por sinais que passam por outra coisa: irritabilidade, sudorese, atraso para sentar e para andar, atraso de fechamento da fontanela, atraso na erupção dentária. A perna arqueada, quando aparece, é tardia e só aparece em criança que já anda — o que significa que procurar genu varum no lactente de oito meses é procurar no lugar errado.
O que se apalpa antes é o osso em crescimento. Alargamento das metáfises no punho e no tornozelo, que se sente correndo o polegar pela borda distal do rádio; o rosário raquítico, que é o alargamento das junções costocondrais, palpável em fileira ao longo da linha axilar anterior; a craniotabes no lactente pequeno, que é o amolecimento do crânio à pressão do dedo sobre o parietal. Nenhum deles é sensível, todos são baratos, e o interno que nunca palpou um punho de lactente não vai achar o primeiro na vida por acaso.
Duas apresentações merecem nome próprio porque chegam pelo pronto-socorro e não pela puericultura: a convulsão hipocalcêmica do lactente, e a fratura por trauma mínimo. As duas exigem investigação bioquímica imediata e as duas saem do escopo de uma consulta de rotina. Aqui interessa quem tem risco de chegar lá: lactente em aleitamento materno exclusivo sem suplementação, pele mais pigmentada, baixa exposição solar, prematuridade, uso de anticonvulsivante, síndrome de má absorção.
3 · Iodo: um pescoço que ninguém olha na puericultura
A carência de iodo tem uma apresentação clássica e uma silenciosa. A clássica é o bócio: aumento difuso da tireoide, que na criança se vê melhor com o pescoço em leve extensão e se confirma à palpação, com a criança sentada ou no colo. Em populações com carência, o bócio do escolar é o marcador visível; na criança pequena, é raro. A silenciosa é o comprometimento do desenvolvimento neurológico, que decorre sobretudo da carência materna durante a gestação — assunto que pertence ao pré-natal e à triagem neonatal, não a este capítulo.
O que o interno precisa saber é que, no Brasil, a carência de iodo é problema resolvido por norma e não por prescrição, e que a preocupação sanitária atual mudou de sinal: a faixa de iodação do sal foi reduzida em 2013 justamente por evidência de ingestão excessiva de iodo na população brasileira, e essa faixa reduzida foi mantida pela norma que hoje vigora. Ou seja: o risco populacional que o país passou a vigiar não é só o de pouco iodo — é também o de iodo demais.
Há um grupo em que a pergunta volta a ser individual e vale a pena registrá-lo: crianças de famílias que consomem sal não iodado por escolha, sal de origem artesanal ou sal comprado a granel fora do circuito formal. A norma se aplica ao sal destinado ao consumo humano; ela não alcança o que sai de uma salina sem controle. Perguntar de onde vem o sal da casa é rápido e, nessas famílias, é a única forma de saber.
4 · Zinco: a dermatite que passa por eczema
A apresentação cutânea da deficiência de zinco é característica e é sistematicamente confundida com dermatite atópica ou com candidíase. São placas eritematosas bem delimitadas, secas, descamativas ou erosadas, com distribuição periorificial — em volta da boca, do nariz e da região perianal — e acral, nas mãos e nos pés. Traços que ajudam a diferenciar: a lesão perianal costuma ser desproporcional ao restante, a resposta a corticoide tópico é ruim, e a criança frequentemente tem irritabilidade e recusa alimentar associadas.
Fora da pele, os sinais são a diarreia que não termina, o atraso de crescimento sem outra explicação, a queda de cabelo difusa e a maior frequência de infecções. A criança com diarreia prolongada é o cruzamento mais importante, porque nela a deficiência e a perda se alimentam: a diarreia deplete zinco, e a falta de zinco prolonga a diarreia. O manejo do episódio diarreico agudo, com os planos A, B e C e a dose de zinco que entra em todos eles, é do capítulo de diarreia e desidratação na criança, em Gastroenterologia Pediátrica.
Quem tem risco: criança com diarreia persistente ou recorrente, dieta pobre em carne, prematuridade, síndrome de má absorção, e a criança em recuperação de desnutrição. Há ainda uma forma genética rara, a acrodermatite enteropática, que se apresenta exatamente com essa tríade de dermatite periorificial, diarreia e alopecia, tipicamente no desmame — se o quadro é florido e a criança não tem fator de risco nutricional, é essa hipótese que precisa ser lembrada e encaminhada.
5 · Ferro: o que fica neste capítulo, e o que sai
Este capítulo cede o ferro clínico inteiro. O rastreio, os cortes de hemoglobina, a ferritina e sua leitura com proteína C reativa, a dose terapêutica, a escolha da apresentação, o conta-gotas e a conversão de sal para ferro elementar são do capítulo de anemia ferropriva na infância, em Hematologia Pediátrica. Se a criança da sua frente tem palidez, pica, cansaço fácil ou hemograma alterado, é para lá que a leitura segue — e é lá que estão as contas.
O que fica aqui é a camada de política: o ferro é o micronutriente com mais caminhos simultâneos até a mesma criança, e é justamente por isso que ele é o que mais se soma sem que ninguém perceba. Ele chega pela farinha de trigo e de milho enriquecidas, por obrigação legal. Chega pelo sulfato ferroso do Programa Nacional de Suplementação de Ferro, entregue na unidade. Chega pelo sachê de micronutrientes em pó, que contém 10 miligramas de ferro. E chega pela fórmula infantil, quando a criança usa fórmula. Quatro fontes, e a maioria das prescrições não pergunta por nenhuma delas.
A regra operacional que este capítulo assume, e que vale antes de qualquer prescrição de ferro, é uma pergunta de anamnese: esta criança recebe sachê de micronutrientes em pó? Se recebe, ela não deve receber outro suplemento contendo ferro — o Ministério é explícito — e também não precisa da megadose de vitamina A. Se não recebe, aí sim entram o programa do ferro e o da vitamina A, cada um com sua régua.
6 · O que não é carência, e a teoria da família
Metade do trabalho desta consulta é desfazer atribuições. As manchas brancas e ásperas na face da criança, que a família chama de "pano" e atribui a verminose ou a falta de vitamina, são quase sempre pitiríase alba, associadas a pele seca e atopia, e não respondem a suplemento nenhum. As manchas brancas nas unhas não indicam falta de cálcio nem de zinco; são leuconíquia traumática. Cabelo fino e ralo em criança pequena é, na maioria esmagadora das vezes, cabelo de criança pequena.
"Falta de apetite" é a queixa mais frequente do ambulatório de puericultura e a menos específica de todas. Na criança que cresce na curva, come pouco em quantidade mas variado, e está ativa, ela costuma ser a expressão da desaceleração fisiológica do ganho de peso depois do primeiro ano, somada à expectativa da família. Prescrever suplemento nessa criança é responder a uma angústia com um frasco, e o custo não é só financeiro: cria a ideia de que comer é problema médico e que existe remédio para gostar de comida.
A regra que evita a maior parte dos erros deste bloco: suplemento não é resposta a sintoma inespecífico. Ou existe critério que justifica profilaxia — o do programa, ou a idade, na vitamina D que esta apostila adota para toda criança —, ou existe um quadro clínico que justifica tratamento, ou não se prescreve. E há uma exceção honesta a registrar: a criança em dieta vegetariana estrita, cuja família precisa de orientação específica sobre vitamina B12 e ferro, é a única em que a conversa sobre suplementação começa pela dieta e não pelo sintoma — e ela é, aliás, do grupo em que o inquérito nacional achou a segunda maior prevalência de carência do país sem programa que a cubra.
Como fechar o diagnóstico
A pergunta que organiza este bloco não é "qual exame pedir", é "o que muda se eu pedir". Para a maioria dos micronutrientes deste capítulo, a resposta é: nada — a decisão já está tomada pela idade, pelo risco ou pelo quadro clínico, e o exame só acrescenta um número ambíguo, um custo e, com frequência, um tratamento sem doença.
Vale dizer o que se ganha ao não pedir. Dosar micronutriente sem indicação produz três danos previsíveis: o resultado limítrofe, que gera repetição e ansiedade; o resultado falsamente baixo por inflamação, que gera tratamento de quem não precisa; e o resultado normal em criança de risco, que gera falsa segurança e adia a profilaxia que deveria ter sido feita de qualquer jeito.
1 · A regra geral: profilaxia não se dosa
Suplementação profilática de micronutriente, no Brasil, é definida por faixa etária, por região e por condição de risco — nunca por exame. Isso está escrito na estrutura dos três programas nacionais: o público do sachê é etário; o do ferro é etário e por condição; o da vitamina A é etário e regional. Em nenhum deles há um exame como porta de entrada, e isso é uma decisão de desenho, não um esquecimento.
A consequência para a consulta é simples e libertadora: você não precisa de nenhum exame para entregar o sachê a uma criança de 13 meses, nem para administrar a megadose de vitamina A a uma criança de 24 meses do Centro-Oeste, nem para prescrever vitamina D profilática a um lactente. Precisa da idade, da região, do registro na caderneta e da pergunta sobre o que ela já recebe.
A exceção que confirma a regra: a criança com diagnóstico de anemia ou de qualquer outra carência nutricional deve interromper a suplementação profilática com o sachê e iniciar o tratamento adequado ao seu agravo, com acompanhamento na unidade. O documento federal é explícito nesse ponto. Diagnóstico feito muda a camada, e as duas não convivem.
2 · Vitamina A: retinol sérico é exame de inquérito
O retinol sérico é o marcador que o inquérito nacional usou, com ponto de corte de 0,7 micromol por litro, e é um bom instrumento para medir população. Como exame individual, ele tem dois problemas que o inutilizam no consultório. O primeiro é fisiológico: o retinol circulante é mantido estável por regulação hepática e só cai quando a reserva já se esgotou, de modo que um valor normal não exclui reserva baixa. O segundo é a inflamação: a proteína ligadora de retinol se comporta como proteína negativa de fase aguda, e qualquer infecção intercorrente derruba o retinol sérico de uma criança que estava bem.
Não se pede retinol sérico para decidir se a criança recebe a megadose. A decisão é da política. E não se pede retinol sérico para decidir se a criança com sinal ocular será tratada — nesse caso a decisão é do exame físico, e o tratamento é imediato, sem esperar laboratório.
Existe uma situação em que o exame reaparece, e não é ambulatorial: a investigação de má absorção de gorduras, em que a vitamina A entra num conjunto com as demais lipossolúveis. Aí não se está medindo carência nutricional; está-se medindo função intestinal, e o pedido pertence à investigação daquela doença.
3 · Vitamina D: quem se dosa, e por que os cortes brigam
A recomendação brasileira é explícita e vai contra a prática instalada: a suficiência de vitamina D deve ser pesquisada apenas nos grupos de risco, e não se recomenda a triagem universal. O exame indicado, quando indicado, é a dosagem da 25-hidroxivitamina D — não a 1,25-di-hidroxi, que mede a forma ativa, é regulada por paratormônio e pode estar normal ou alta com estoque baixo. Os ensaios mais usados são quimioluminescência e imunoenzimáticos; a cromatografia líquida acoplada a espectrometria de massa é o método ideal.
O motivo de o exame render tão pouco é que não existe consenso sobre o ponto de corte. Três critérios convivem no mesmo documento da sociedade brasileira e discordam: pela Academia Americana de Pediatria, suficiência é de 21 a 100 nanogramas por mililitro e deficiência é abaixo de 15; pela Endocrine Society, suficiência é de 30 a 100 e deficiência é abaixo de 20; pelo consenso global sobre raquitismo nutricional, suficiência é acima de 20, insuficiência de 12 a 20 e deficiência abaixo de 12. A mesma criança com 22 nanogramas por mililitro é suficiente por dois critérios e insuficiente por nenhum — ou deficiente, se o laboratório imprimir o corte da Endocrine Society como referência.
Se o valor vier abaixo de 20 nanogramas por mililitro, o passo seguinte não é repetir a vitamina D: é investigar raquitismo, com cálcio, fósforo, magnésio, fosfatase alcalina, proteínas totais e frações e paratormônio. E há uma regra de monitoramento que economiza exame: em criança sem raquitismo e em uso de doses de até 2.000 unidades por dia, a dosagem rotineira de controle não se justifica.
4 · Zinco: o exame que a própria pesquisa teve de corrigir
O zinco sérico é o marcador disponível e é um marcador ruim para o indivíduo. Ele representa uma fração mínima do zinco corporal, cai na resposta inflamatória, cai depois de refeição e varia ao longo do dia. O tamanho dessa variação diurna aparece de forma concreta no inquérito nacional: para estimar prevalência, foi preciso adotar dois pontos de corte diferentes conforme o turno da coleta — 65 microgramas por decilitro para sangue colhido de manhã e 57 para sangue colhido à tarde. Uma diferença de corte de oito unidades pelo simples horário da punção.
A leitura prática é que um zinco sérico isolado, colhido em horário qualquer, numa criança com qualquer processo inflamatório, não decide nada. Se você vai pedir mesmo assim — por exemplo, numa criança com dermatite periorificial e diarreia prolongada, em que a hipótese é forte — colha em jejum, pela manhã, com proteína C reativa junto, e interprete o resultado contra o quadro, não contra o corte.
Na prática ambulatorial, o teste que decide costuma ser terapêutico: quadro compatível, curso de reposição, reavaliação clínica em duas a quatro semanas. Melhora da dermatite e da diarreia com reposição é informação melhor do que um número no meio da faixa. E se o quadro é florido, precoce e sem fator nutricional que o explique, a hipótese muda de natureza e vira encaminhamento.
5 · Iodo: não existe exame de consultório
Não se dosa iodo na criança para decidir conduta ambulatorial. O estado de iodo se avalia por iodúria em amostras populacionais, com mediana de excreção urinária, e é instrumento de vigilância, não de consulta. Não existe indicação, na puericultura de rotina, de pedir iodúria, iodo sérico ou tireoglobulina.
O que existe é a avaliação da tireoide quando há sinal: bócio palpável, sinais de hipofunção ou de hiperfunção. Nesses casos o exame é o dos hormônios tireoidianos, e a criança sai do capítulo de micronutrientes e entra na avaliação de doença tireoidiana, que é da endocrinologia. O hipotireoidismo congênito, por sua vez, já foi rastreado no quinto dia de vida, e a triagem neonatal é assunto do capítulo das cinco triagens neonatais, em Puericultura e Desenvolvimento.
Este capítulo assume apenas o mínimo que ninguém mais assume: que o interno saiba de onde vem o iodo da criança brasileira, qual norma fixa o teor, quanto isso entrega por dia num consumo realista de sal, e por que essa entrega é quase nula justamente no menor de 2 anos. O resto é do vizinho.
6 · Quando a criança já está em tratamento e não melhora
Antes de trocar a droga ou subir a dose, percorra a ordem que resolve a maior parte dos casos. Primeiro, adesão: conte frascos, conte sachês, pergunte quantas vezes por semana a criança realmente tomou, e pergunte quem dá. Segundo, a dose escrita contra a apresentação real: refaça a conta com o frasco que a família tem na mão, porque a mesma prescrição em gotas produz doses diferentes conforme a marca.
Terceiro, o fator causal que continua: leite de vaca em excesso, dieta sem fonte animal, diarreia que não parou, doença de base não investigada. Suplemento não vence causa mantida. Quarto, a hipótese de que o diagnóstico esteja errado — e aqui vale lembrar que uma criança pode ter duas carências ao mesmo tempo, e que uma delas pode estar escondendo a outra no exame.
Só depois de percorrer os quatro é que entra investigação ampliada. E, se a criança tem carências múltiplas, crescimento comprometido e um contexto de insegurança alimentar, a pergunta deixa de ser sobre qual micronutriente e passa a ser sobre a família — o que muda o encaminhamento e o registro, e não a receita.
As três camadas, o que cada uma entrega, e o que as contas mostram
Antes da receita, identifique a finalidade: alimentação e fortificação, prevenção ou tratamento. Abra a caderneta e peça os frascos, sachês e receitas em uso. A matriz relaciona idade, risco, finalidade e acompanhamento; a dose só é convertida em gotas depois de conferir o nutriente declarado e a concentração. Regras de oferta de programas públicos devem ser verificadas no serviço, sem substituir a avaliação individual.
- 11. Antes de qualquer coisa, abra a caderneta em duas seções: a de registros da suplementação de vitamina A, ferro ou outros micronutrientes, e a da consulta de puericultura, no item de atenção e cuidados especiais desta fase.
- 22. Pergunte, com estas palavras: a criança recebe sachê de micronutrientes em pó? Se recebe, ela não recebe outro suplemento com ferro e não precisa da megadose de vitamina A. A pergunta vem antes da prescrição, não depois.
- 33. Decida a camada. Se não há diagnóstico de carência, você está executando política: idade, região e registro. Se há diagnóstico, você está tratando, e a suplementação profilática do programa se interrompe.
- 44. Vitamina A: confira a idade e a região. De 6 a 11 meses, uma dose de 100.000 unidades. De 12 a 59 meses, 200.000 unidades a cada seis meses, com intervalo mínimo de quatro meses entre doses. A faixa vai até 59 meses no Norte, Nordeste e Centro-Oeste e até 23 meses no Sul e Sudeste.
- 55. A megadose é administrada na unidade, pelo profissional, e não entregue à família. Na falta da apresentação certa, não dobre a de 100.000 nem fracione a de 200.000.
- 66. Ferro: se a criança não está no sachê, oriente a suplementação profilática pelo programa nacional — e, se há suspeita ou diagnóstico de anemia, a conduta é a do capítulo de anemia ferropriva na infância, em Hematologia Pediátrica.
- 77. Vitamina D e zinco: não há programa nacional que os entregue isoladamente. A vitamina D profilática vai por idade, para toda criança; o zinco, caso a caso. Declare à família que a origem é uma recomendação de sociedade e não uma entrega do SUS, e escreva a receita conferindo o frasco que a família vai comprar ou já tem.
- 88. Registre. Caderneta nas duas seções, com data, produto e quantidade; sistema de informação com o código de procedimento correspondente; e evolução dizendo qual camada você executou e por quê.
O que não se soma, e o que se soma sem que ninguém perceba
Três proibições e uma pergunta. Primeira: a criança que recebe o sachê de micronutrientes não deve receber outro suplemento contendo ferro. Segunda: a mesma criança não necessita receber a megadose de vitamina A. Terceira: não se administra mais de um sachê por dia, e o sachê esquecido não se recupera dobrando no dia seguinte — o ciclo se estende, não se comprime. A pergunta que precede tudo: esta criança já recebe alguma coisa? Porque o que se soma sem que ninguém perceba não é o que o médico prescreve; é o que a avó comprou, o que o particular passou, o que a creche oferece e o que a fórmula infantil já traz. A soma só aparece se alguém perguntar, e ninguém pergunta.
As três camadas: quem alcança, quem decide, o que o interno faz
| Camada | Como chega à criança | Quem define quem recebe | O que o interno faz na consulta |
|---|---|---|---|
| Fortificação obrigatória de alimentos | Sal enriquecido com iodo (15 a 45 mg/kg) e farinhas de trigo e de milho enriquecidas com ferro (4 a 9 mg/100 g) e ácido fólico (140 a 220 µg/100 g), por obrigação da RDC nº 604/2022 | A norma sanitária. Alcança quem consome o alimento, inclusive quem nunca vai à unidade — e não alcança quem consome pouco desses veículos, que é justamente o menor de 2 anos | Não prescreve nada. Sabe que existe, sabe quanto entrega, e sabe as exceções legais para não superestimar a proteção de uma criança específica |
| Suplementação profilática por programa | Sachê de micronutrientes em pó (NutriSUS), sulfato ferroso e ácido fólico (PNSF) e megadose de vitamina A em cápsula (PNSVA), entregues na unidade básica | O Ministério da Saúde, por faixa etária, região e condição. É política de cobertura populacional, não prescrição individual | Verifica idade e região, pergunta o que já recebe, executa o que couber, não soma o que o documento proíbe somar, e registra na caderneta e no sistema |
| Tratamento de deficiência diagnosticada | Prescrição médica, com dose, via, frequência e duração, e com critério de resposta | O médico, diante do quadro clínico e, quando cabe, do exame | Suspende a suplementação profilática do programa, prescreve, marca reavaliação e escreve na evolução o que foi rastreio e o que foi tratamento |
Cinco micronutrientes, cinco perguntas
| Micronutriente | Quem tem risco | Dosa-se? | Sinal que aparece antes do exame | Profilaxia no Brasil | O que o SUS entrega |
|---|---|---|---|---|---|
| Ferro | Prematuro e baixo peso ao nascer, leite de vaca no primeiro ano, alimentação complementar pobre em fonte animal, falha na entrega da profilaxia | Só por indicação; o rastreio e seus critérios são do capítulo de anemia ferropriva na infância | Palidez de mucosas e de leito ungueal, pica, cansaço fácil, irritabilidade | Programa Nacional de Suplementação de Ferro: sulfato ferroso para crianças de 6 a 23 meses, gestantes, puérperas e pós-aborto, em dois ciclos de três meses de uso com três de pausa | Sulfato ferroso equivalente a 5 mg/mL de ferro elementar (xarope), a 25 mg/mL (solução oral) e a 40 mg (comprimido), componente básico |
| Vitamina A | Insegurança alimentar, dieta pobre em fonte animal e em vegetais amarelo-alaranjados, sarampo, diarreia persistente, desnutrição, residência em região de maior prevalência | Não. Retinol sérico é exame de inquérito e cai na inflamação | Cegueira noturna (só a história revela), xerose conjuntival, mancha de Bitot | Programa Nacional de Suplementação de Vitamina A: megadose semestral, 6 a 59 meses no Norte, Nordeste e Centro-Oeste e 6 a 23 meses no Sul e Sudeste | Palmitato de retinol em cápsula mole de 100.000 UI e de 200.000 UI (componente estratégico) e em solução oral de 150.000 UI/mL (componente básico) |
| Vitamina D | Aleitamento exclusivo sem suplementação, pele mais pigmentada, baixa exposição solar, prematuridade, anticonvulsivante, má absorção, obesidade, hepatopatia e nefropatia crônica | Só nos grupos de risco. A triagem universal não é recomendada | Irritabilidade, atraso motor, alargamento de punhos e tornozelos, rosário raquítico, craniotabes | Não há programa nacional. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda 400 UI/dia abaixo de 1 ano e 600 UI/dia dos 1 aos 18 anos, e 1.200 a 1.800 UI/dia nos grupos de risco | Nada isolado. A Rename 2024 só traz colecalciferol associado a cálcio, em comprimidos de 500 ou 600 mg de cálcio elementar com 200 ou 400 UI |
| Iodo | Consumo de sal fora do circuito formal, sal artesanal ou a granel sem controle; dietas de exclusão amplas | Não. Iodúria é instrumento de vigilância populacional | Bócio difuso, mais visível no escolar que no lactente | Fortificação obrigatória do sal, desde os anos 1950; faixa atual de 15 a 45 mg de iodo por quilograma de sal, com iodato de potássio como fonte | Nenhum suplemento nutricional de iodo. O que a Rename traz é solução tópica de iodo com iodeto de potássio e iodeto de potássio como item estratégico — nenhum dos dois é suplemento alimentar |
| Zinco | Diarreia persistente ou recorrente, dieta pobre em carne, prematuridade, má absorção, recuperação de desnutrição | Marcador ruim: o zinco sérico varia com turno, jejum e inflamação. Se pedir, colha de manhã, em jejum, com proteína C reativa | Dermatite periorificial e acral, diarreia prolongada, alopecia, atraso de crescimento | Não há programa nacional de profilaxia com zinco isolado. O sachê de micronutrientes contém 4,1 mg por dose, nos ciclos em que é usado | Sulfato de zinco em xarope de 4 mg/mL, comprimido mastigável de 10 mg e solução injetável de 200 mcg/mL, componente básico |
Da régua ao frasco: conversão para uma criança de 9,4 kg, com a apresentação real
| Item | Dose da régua | Apresentação da Rename 2024 | A conta |
|---|---|---|---|
| Palmitato de retinol, criança de 12 a 59 meses | 200.000 UI por via oral, dose única, a cada 6 meses | Cápsula mole de 200.000 UI (estratégico); há também solução oral de 150.000 UI/mL (básico) | Uma cápsula, aberta por torção da ponta e derramada na boca da criança. Pela solução oral seriam 1,33 mL. O programa distribui a cápsula e proíbe fracioná-la; nada nos documentos consultados autoriza ou proíbe a substituição pela solução |
| Palmitato de retinol, criança de 6 a 11 meses | 100.000 UI por via oral, dose única | Cápsula mole de 100.000 UI (estratégico); solução oral de 150.000 UI/mL (básico) | Uma cápsula de 100.000 UI. Pela solução seriam 0,67 mL. Na falta da cápsula certa, o Caderno proíbe expressamente dar parte da cápsula de 200.000 UI — e não oferece alternativa |
| Sachê de micronutrientes (NutriSUS) | 1 sachê por dia, em uma das refeições, 60 sachês por ciclo, 3 ciclos com 6 meses entre as entregas | Sachê de 1 g com 15 vitaminas e minerais, componente estratégico | Um sachê contém 400 µg de vitamina A, 5 µg (200 UI) de vitamina D, 10 mg de ferro, 4,1 mg de zinco e 90 µg de iodo. Somados os ativos declarados, dão 57,8 mg em 1.000 mg de pó — 5,8% da massa do sachê |
| Vitamina D profilática, criança abaixo de 1 ano | 400 UI por dia, todos os dias, desde as primeiras semanas de vida (recomendação de sociedade, não de programa) | Não consta isoladamente na Rename 2024. As preparações comerciais listadas pela sociedade vão de 1 gota igual a 200 UI a 1 gota igual a 2.000 UI | Com o frasco de 200 UI por gota, 400 UI são 2 gotas. Com o de 400 UI por gota, 1 gota. Com o de 2.000 UI por gota, uma única gota entrega 2.000 UI — cinco vezes a dose. A mesma receita de '2 gotas ao dia' vale de 400 a 4.000 UI conforme o frasco |
| Vitamina D pelo elenco do SUS | 400 UI por dia num lactente | Carbonato de cálcio 1.250 mg (equivalente a 500 mg de cálcio elementar) + colecalciferol 400 UI, comprimido | Um comprimido entrega as 400 UI e, junto, 500 mg de cálcio elementar num lactente. É apresentação de adulto; não há via pediátrica de vitamina D isolada no elenco |
| Sulfato de zinco em xarope | Depende de como se lê o rótulo | Xarope de 4 mg/mL; comprimido mastigável de 10 mg | Lido como zinco elementar, 5 mL entregam 20 mg. Lido como sal heptaidratado, os mesmos 5 mL entregam 4,55 mg — 4,4 vezes menos. A Rename declara equivalência em ferro elementar para o sulfato ferroso e não declara equivalência em zinco elementar para o sulfato de zinco |
| Iodo pelo sal iodado | Sem dose individual: é fortificação populacional | Sal para consumo humano com 15 a 45 mg de iodo por quilograma | Com 2 g de sal por dia, a entrega vai de 30 a 90 µg de iodo. Um lactente de 13 meses come muito menos que 2 g de sal por dia, e a alimentação recomendada para essa idade não leva sal acrescentado |
| Ferro pela farinha enriquecida | Sem dose individual: é fortificação populacional | Farinha de trigo e de milho com 4 a 9 mg de ferro por 100 g | Trinta gramas de farinha entregam de 1,2 a 2,7 mg de ferro não heme, de absorção pequena. O detalhe do ferro individual e sua conta pertencem ao capítulo de anemia ferropriva na infância, em Hematologia Pediátrica |
Uma matriz para decidir antes de prescrever
| Nutriente | Idade ou risco a conferir | Prevenção | Quando muda para tratamento | Acompanhamento |
|---|---|---|---|---|
| Ferro | Idade, prematuridade, peso ao nascer, dieta e perdas | Esquema preventivo correspondente; conferir sachês e outros suplementos | Anemia ou deficiência exige investigação e dose terapêutica própria | Resposta hematológica e causa; consultar Anemia ferropriva, em Hematologia Pediátrica |
| Vitamina A | Faixa do programa, região, recebimento anterior e sinais oculares | Oferta do programa quando aplicável, com registro da última dose | Sinais de deficiência, especialmente oculares, exigem avaliação individual oportuna | Resposta clínica e risco de repetição de megadose |
| Vitamina D | Idade, dieta, exposição, doença crônica e produtos combinados | Esquema da faixa etária e risco adotado pela equipe | Raquitismo, deficiência ou distúrbio metabólico pede percurso específico | Dose em UI, concentração e exames quando indicados |
| Iodo | Origem do sal, restrições alimentares e doença tireoidiana | Uso alimentar de sal iodado em quantidade apropriada; não aumentar o sal | Suspeita de disfunção tireoidiana não se resolve com iodo empírico | Avaliação clínica e tireoidiana conforme hipótese |
| Zinco | Dieta, diarreia, crescimento e outras causas de má absorção | Alimentação e medidas preventivas do contexto | Tratamento de diarreia e investigação de deficiência têm finalidades distintas | Distinguir zinco elementar do sal e avaliar a resposta |
Fortificação obrigatória e programas de suplementação não são a mesma intervenção. Consulte a norma aplicável ao produto e a oferta vigente no serviço; uma citação antiga em um caderno não deve ser transportada como regra atual.
Para ferro, use o mesmo percurso dos capítulos de anemia: prevenção em criança sem deficiência é diferente de tratamento. A presença de sachê ou outro produto deve entrar na conta total; necessidade terapêutica exige reorganizar o conjunto, não apenas acrescentar gotas.
Erro de unidade por fator mil na Rename 2024, confirmado por conta própria. O produto 'micronutrientes, cada sachê de 1 g' aparece duas vezes no documento, em listagens diferentes, e as duas divergem em um item: numa lê-se 'vitamina B6 0,5 g' e na outra 'vitamina B6 0,5 mg'. A busca foi feita sobre o texto normalizado, sem espaço e sem hífen, e as duas ocorrências estão lá. A conta decide qual é a correta: com a leitura de 0,5 mg, a soma dos quinze ativos declarados fica em 57,8 mg dentro de um sachê de 1.000 mg, ou 5,8% da massa; com a leitura de 0,5 g, a piridoxina sozinha seria 500 mg, metade da massa do sachê, e o total iria a 557 mg. O Caderno federal de 2025, na composição do mesmo produto, escreve 0,5 mg. A leitura em grama é a incorreta. O capítulo de desnutrição grave, nesta mesma apostila, registrou a divergência primeiro e pediu confirmação independente; ela está dada.
Uma incoerência de conduta dentro do mesmo documento, sobre quem recebe a megadose de vitamina A. O Caderno define o público do Programa Nacional de Suplementação de Vitamina A em dois quadros — o da página 37 e o da página 43 — por região e idade: 6 a 59 meses no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, 6 a 23 meses no Sul e Sudeste, 6 a 59 meses para crianças assistidas pelo subsistema indígena. Mas o fluxograma de organização do cuidado, no mesmo documento, instrui de outro jeito: 'se o seu município está aderido ao Programa Nacional de Suplementação de Vitamina, realize a administração da megadose'. Adesão municipal e faixa etária regional são critérios diferentes, e o documento não diz qual prevalece.
Um terceiro critério, para a mesma decisão, no documento que a família carrega. A Caderneta da Criança, 3ª edição, escreve que 'as crianças de 6 meses a 5 anos que residem em área de risco para a deficiência de vitamina A devem ser suplementadas' e manda a família verificar na unidade se o município faz parte do programa. São três formulações da mesma regra em dois documentos federais vigentes: por região e idade, por adesão municipal e por área de risco. Sujeitos diferentes para a mesma obrigação.
A tabela impressa na caderneta cobre uma faixa que o programa, em duas regiões, não cobre. A Caderneta traz o quadro de registro sob o título 'Megadose de Vitamina A (6 meses a 4 anos e 11 meses)', ou seja, de 6 a 59 meses. No Sul e no Sudeste, o programa termina aos 23 meses desde 2022. São 36 meses de tabela impressa sem programa por trás naquelas regiões, na caderneta que toda criança brasileira recebe. Conferência da equivalência de idades: 4 anos e 11 meses são 59 meses; nesse ponto os dois documentos falam da mesma coisa.
Prevalência populacional ajuda a organizar políticas, mas não define sozinha o diagnóstico da criança. O atendimento combina idade, dieta, sinais e risco; o programa é verificado no serviço e registrado na caderneta.
Conferência que fechou: o esquema de vitamina A é internamente consistente. O quadro de dosagem prevê 100.000 UI em dose única de 6 a 11 meses e 200.000 UI a cada seis meses de 12 a 59 meses; o texto acrescenta que o intervalo seguro mínimo entre administrações é de quatro meses. Uma criança que receba a primeira dose aos 6 meses e a seguinte aos 12 respeita os dois enunciados. As cores dos frascos declaradas (amarela para 100.000 UI, vermelha para 200.000 UI) e a proibição de dobrar ou fracionar cápsula são coerentes com a existência de duas apresentações distintas na Rename. Nada a corrigir aqui.
Conferência que fechou: a composição do sachê bate entre os dois documentos, exceto pela piridoxina. Comparando item a item o quadro do Caderno com a descrição da Rename, coincidem vitamina A 400 µg, vitamina D 5 µg, vitamina E 5 mg, vitamina C 30 mg, B1 0,5 mg, B2 0,5 mg, B12 0,9 µg, niacina 6 mg, ácido fólico 150 µg, ferro 10 mg, zinco 4,1 mg, cobre (0,56 mg no Caderno, 560 mcg na Rename — a mesma quantidade), selênio 17 µg e iodo 90 µg. Quinze itens, catorze idênticos, um divergente.
O que o sachê entrega de vitamina A contra o que a megadose entrega, na mesma janela. Três ciclos de 60 sachês com 400 µg de retinol equivalente dão 72.000 µg, o que a 3,33 unidades por micrograma equivale a cerca de 239.800 UI ao longo dos 18 meses. Pela megadose, uma criança que recebe aos 6, 12 e 18 meses acumula 100.000 mais 200.000 mais 200.000, ou 500.000 UI. A rota da megadose entrega 2,1 vezes mais vitamina A no mesmo período — e o Caderno declara que quem recebe o sachê não necessita da megadose. As duas afirmações podem conviver, porque exposição total não é o desfecho que interessa; mas a diferença é grande o bastante para ser dita, e nenhum dos documentos consultados a discute.
O que o sachê entrega de vitamina D contra o que a sociedade de pediatria recomenda. O sachê traz 5 µg, ou 200 unidades, por dose, e é usado 60 dias por ciclo, dois ciclos dentro de um ano: 24.000 unidades ao ano. A recomendação de 400 unidades por dia, todos os dias, dá 146.000 unidades ao ano. A rota recomendada entrega 6,1 vezes mais. Nenhuma criança brasileira recebe vitamina D profilática pelo SUS, e o sachê não preenche essa lacuna.
Ausência que muda conduta na Rename 2024: não há colecalciferol isolado. A busca sobre o texto normalizado devolve colecalciferol apenas em associação com cálcio — carbonato de cálcio 1.250 mg (equivalente a 500 mg de cálcio elementar) com 200 UI ou com 400 UI, carbonato de cálcio 1.500 mg (equivalente a 600 mg) com 400 UI, e fosfato de cálcio tribásico 1.661,616 mg (600 mg de cálcio) com 400 UI. Ergocalciferol: zero ocorrências. Todas as apresentações são comprimidos com dose de cálcio de adulto. A consequência prática é direta: a profilaxia de vitamina D que a sociedade brasileira recomenda para todo lactente não tem, no elenco nacional, nenhuma forma pela qual ser executada.
Ausência que muda conduta na Rename 2024: não há suplemento nutricional de iodo. O que consta é 'iodo + iodeto de potássio 20 mg/mL + 40 mg/mL, solução para uso tópico', arrolado como insumo do componente básico, e 'iodeto de potássio 130 mg comprimido' e '20 mg/mL xarope', do componente estratégico. Nenhum dos dois é suplementação alimentar. Fora do sachê de micronutrientes, o iodo chega à criança brasileira exclusivamente pelo sal.
Uma incoerência de classificação na própria Rename. A solução de iodo com iodeto de potássio tem forma farmacêutica declarada como 'solução para uso tópico' e, no anexo de classificação anatômico-terapêutica, aparece sob a classe 'preparações hormonais sistêmicas, excluindo hormônios sexuais e insulinas', código H03CA. Um produto de uso tópico classificado como preparação hormonal sistêmica. Não muda conduta; muda a chance de alguém encontrá-lo procurando pela indicação certa.
Assimetria de declaração entre dois sais na mesma página da Rename. Para o sulfato ferroso, as três apresentações vêm com a equivalência explícita: 'equivalente a 5 mg/mL de ferro elementar', 'equivalente a 25 mg/mL de ferro elementar', 'equivalente a 40 mg de ferro elementar'. Para o sulfato de zinco, listado poucas linhas acima, lê-se apenas '200 mcg/mL solução injetável', '10 mg comprimido mastigável' e '4 mg/mL xarope', sem qualquer equivalência. A ambiguidade tem tamanho: a fração de zinco no sulfato heptaidratado é 65,38 dividido por 287,55, ou 0,2274, e no monoidratado é 0,3643. Se '4 mg/mL' for sal heptaidratado, 5 mL entregam 4,55 mg de zinco em vez de 20 mg — 4,4 vezes menos. Se for zinco elementar, 5 mL entregam os 20 mg esperados. Os documentos consultados não resolvem, e a diferença é grande demais para ser presumida.
Aritmética de cobertura do sachê. Três ciclos de 60 sachês dão 180 dias de suplementação dentro de uma janela de elegibilidade de 6 a 23 meses, que tem 18 meses, ou cerca de 540 dias. A criança está suplementada em um terço do tempo em que é elegível, por desenho: cada ciclo prevê dois meses de uso e quatro de pausa. Isso é o programa funcionando, não falhando — mas a família que ouve 'seu filho está recebendo micronutrientes' entende outra coisa, e a frase da porta precisa dizer o intervalo.
Uma imprecisão menor, dentro do mesmo Caderno, sobre a duração do ciclo do sachê. O texto diz que se prevê um período de dois meses de suplementação, mas que pode acontecer em até três meses sem prejuízo, e, na mesma seção, que o intervalo entre entregas garante uma pausa de no máximo quatro meses. O quadro de critérios, três páginas adiante, resume o ciclo como 'dois meses de uso mais quatro meses de pausa'. Se a criança levar três meses para consumir os 60 sachês, a pausa será de três meses e não de quatro, e o resumo não contempla essa possibilidade que o próprio texto autoriza.
A cadeia de edições do Caderno, e o que ela explica. A 1ª edição, de 2022, é rotulada na própria ficha catalográfica como 'versão preliminar', tem 44 páginas e traz o campo de ISBN em branco. A 2ª edição, de 2025, tem 52 páginas e ISBN 978-65-5993-779-0. Isso significa que, de 2022 a 2025, o documento nacional que descrevia os três programas era declaradamente preliminar — e explica a linha de copyright '2022 Ministério da Saúde' que sobrevive na edição de 2025, notada pelo capítulo de anemia ferropriva na infância, em Hematologia Pediátrica.
Duas cópias do Caderno de 2025, de proveniências distintas, foram comparadas depois de normalizados espaço e hifenização, e são idênticas — 67.772 caracteres nas duas. A comparação por resumo criptográfico do texto extraído daria falso positivo, porque a extração de PDF varia; normalizada, a técnica presta para o oposto, que é provar que uma frase controversa está mesmo no documento. Foi assim que as citações da RDC nº 150/2017 e da RDC nº 23/2013 foram confirmadas.
Lacunas de classificação no quadro de pontos de corte de vitamina D, como impresso. Pelos valores da Academia Americana de Pediatria, deficiência é abaixo de 15 nanogramas por mililitro, insuficiência é de 16 a 20 e suficiência é de 21 a 100: um resultado de 15 não pertence a nenhuma classe, e um de 20,5 tampouco; entre 100 e 150, onde começa a toxicidade, também não há classe. Pelos valores da Endocrine Society, deficiência é abaixo de 20 e insuficiência é de 21 a 29: o valor 20 não pertence a nenhuma classe, e nem 29,5. Pelo consenso global sobre raquitismo, as faixas se encaixam sem lacuna. Na prática, o laboratório imprime um corte só e a lacuna some — mas o quadro que o interno consulta tem buracos, e é bom saber onde eles estão antes de discutir um resultado limítrofe.
A tabela de tratamento e a de prevenção do mesmo documento não coincidem para a mesma criança, e cada uma tem um dono diferente. Pela tabela de prevenção, a manutenção de uma criança abaixo de 1 ano é 400 unidades por dia. Pela tabela de tratamento que reproduz a Academia Americana de Pediatria, a manutenção de uma criança de 1 a 12 meses depois do tratamento é 'pelo menos 600 unidades por dia'. As duas convivem no mesmo documento porque uma é recomendação da sociedade brasileira e a outra é transcrição de recomendação estrangeira, mas quem lê rápido sai com dois números para o mesmo lactente.
Conferência que fechou: as seções da caderneta que os dois documentos federais mandam preencher existem e têm exatamente o nome citado. A seção 'Registros da suplementação de vitamina A, ferro ou outros micronutrientes' está na página 103, com quadros separados para a megadose e para ferro e outros micronutrientes; e o item 'Atenção e cuidados especiais nesta fase', na folha de cada consulta de puericultura, traz três marcações independentes — suplementação de ferro, suplementação de micronutrientes e suplementação de vitamina A. Não há campo para vitamina D, zinco ou iodo, o que é coerente com a inexistência de programa para eles.
A fortificação obrigatória tem exceções legais que mudam quem ela alcança, e elas raramente são ditas. Pelo parágrafo único do artigo 1º da RDC nº 604/2022, a exigência não se aplica à farinha de biju, à farinha de milho flocada ou flocos de milho pré-cozidos, à farinha de trigo integral, à farinha de trigo durum, nem às farinhas contidas em produtos alimentícios importados. E, pelo inciso II do artigo 8º, as farinhas de milho fabricadas por agricultor familiar, empreendedor familiar rural, empreendimento econômico solidário e microempreendedor individual estão dispensadas do enriquecimento. Uma família que consome fubá de moinho local e flocos de milho pré-cozidos pode estar inteiramente fora da política que a norma descreve como universal. Isso é leitura do texto legal, não interpretação de risco: a norma diz a quem não se aplica.
O sal também tem exceção. Pelo artigo 4º da mesma resolução, o enriquecimento do sal com iodo não é obrigatório quando ele é usado como ingrediente em produtos alimentícios em que comprovadamente o iodo cause interferência sensorial indesejável, bastando que a documentação esteja disponível para a autoridade. O sal que a família compra em pacote é iodado por obrigação; o sal que vem dentro de um produto industrializado pode não ser.
Uma leitura minha, declarada como tal. Somando as exceções legais das farinhas, a exigência de o veículo ser efetivamente consumido, e a orientação alimentar brasileira para o menor de 2 anos — que se organiza em torno de alimentos in natura, da comida da família e da ausência de açúcar acrescentado —, a camada de fortificação obrigatória entrega muito pouco ao lactente. Com 2 g de sal por dia, um consumo alto para essa idade, a entrega de iodo iria de 30 a 90 µg; e um lactente de 13 meses não come 30 g de farinha por dia. Isso é dedução a partir dos números das normas e não citação de um documento que o afirme: nenhuma das fontes consultadas calcula a entrega da fortificação para essa faixa etária.
A conduta, hora a hora
Os marcos abaixo percorrem a consulta de Analu, 13 meses, 9,4 quilos, na ordem em que as decisões aparecem. Ela não tem diagnóstico de carência nenhuma: está na camada da política, e a maior parte do trabalho é não errar a soma e registrar direito.
Duas coisas que valem para todos os marcos. A megadose de vitamina A é ato realizado na unidade, e não receita entregue à família. E toda entrega, de qualquer camada, se anota na caderneta antes de a família sair da sala — porque o próximo profissional vai decidir a partir do que estiver escrito ali, e o que não foi escrito, para ele, não aconteceu.
Minuto 0 — a caderneta antes da criança
Abra a caderneta em duas seções antes de examinar. Na de registros da suplementação, veja se há entrega de sachê, de sulfato ferroso ou de megadose, com data. Na folha da consulta de puericultura, veja as três marcações do item de atenção e cuidados especiais. No caso da Analu, há três entregas de sachê registradas, a última há pouco mais de dois meses, o que explica os dezenove envelopes sobre a mesa: ela está no terceiro ciclo, atrasada.
Prescrição- Ler a seção 'Registros da suplementação de vitamina A, ferro ou outros micronutrientes' e anotar a data da última entrega
- Ler o item 'Atenção e cuidados especiais nesta fase' nas últimas consultas de puericultura
- Não iniciar nada antes de saber o que já está em curso
Minuto 1 — a pergunta que precede a prescrição
Pergunte, nestas palavras: a criança recebe sachê de micronutrientes em pó? Complete com as outras três origens que ninguém declara espontaneamente — alguém comprou algum suplemento na farmácia, algum médico particular passou alguma vitamina, a creche oferece alguma coisa? Wanderléia responde sim a duas: o sachê da unidade e a vitamina D que a sogra comprou. Isso, sozinho, decide a maior parte da consulta.
Prescrição- Perguntar explicitamente pelo sachê de micronutrientes em pó
- Perguntar por suplemento comprado, prescrito por outro serviço ou oferecido na creche
- Perguntar se a criança usa fórmula infantil e qual, porque a fórmula entra na conta do ferro
Minuto 2 — a megadose que a agente comunitária trouxe
Analu recebe o sachê. O Caderno é explícito: a criança que recebe o NutriSUS não deve receber outro suplemento contendo ferro e não necessita receber a megadose de vitamina A. A megadose que Hosana trouxe não é para esta criança hoje, e a conversa com Hosana não é uma correção: é a informação de que a instrução da enfermeira vale para as crianças que não estão no sachê, que são a maioria da fila.
Prescrição- Não administrar megadose de vitamina A à criança em uso de sachê de micronutrientes
- Registrar na evolução por que a megadose não foi dada, para que a próxima equipe não conclua que foi esquecimento
- Combinar com a agente comunitária a triagem da fila pela pergunta do sachê, antes de a megadose ser oferecida
Minuto 3 — os dezenove sachês que sobraram
A proposta de dar dois por dia para terminar antes do fim do mês é exatamente o que o documento proíbe: não se administra mais de um sachê por dia, e o esquecido não se recupera dobrando. O ciclo se estende — o próprio Caderno prevê que os dois meses possam virar até três sem prejuízo. Ensine também o que não fazer com o sachê: não misturar em líquido, não pôr em alimento duro, não aquecer, e oferecer o conteúdo dentro de uma hora depois de aberto.
Prescrição- Manter 1 sachê por dia até terminar os 60, ainda que o ciclo se estenda por até três meses
- Não dobrar a dose no dia seguinte a um esquecimento e não somar dois sachês na mesma refeição
- Misturar o pó numa pequena porção da comida já servida no prato e oferecer essa porção primeiro
- Não usar em líquido, em alimento duro ou aquecido; não dividir com irmãos
Minuto 5 — a vitamina D comprada na farmácia
Aqui não há programa nacional e é preciso dizer isso à família com todas as letras. A recomendação de 400 unidades por dia abaixo de 1 ano e 600 unidades por dia dos 1 aos 18 anos é da Sociedade Brasileira de Pediatria; a Rename 2024 não traz colecalciferol isolado, apenas associado a cálcio em comprimido de adulto. Analu tem 13 meses, então a dose recomendada é 600 unidades por dia. E antes de escrever qualquer número de gotas, pegue o frasco: as preparações do mercado vão de 200 a 2.000 unidades por gota, e a receita de 'quatro gotas' que a sogra trouxe pode significar 800 ou 8.000 unidades.
Prescrição- Conferir no rótulo do frasco quantas unidades tem cada gota, antes de escrever a receita
- Escrever a dose em unidades por dia e, ao lado, o número de gotas para aquele frasco específico
- Dizer à família que este item não é fornecido pela unidade e que a compra é decisão informada, não obrigação
- Não pedir dosagem de 25-hidroxivitamina D para acompanhar profilaxia em criança sem fator de risco
Minuto 7 — o exame físico que muda a conduta
Sete manobras, dois minutos. Palpar a borda distal dos rádios e os tornozelos procurando alargamento metafisário; correr os dedos pelas junções costocondrais procurando rosário; olhar a conjuntiva bulbar com a criança de frente para a luz da janela, procurando xerose e mancha de Bitot; olhar as regiões periorificial e perianal e as extremidades, procurando dermatite; olhar mucosa oral e leito ungueal, procurando palidez; palpar a tireoide com o pescoço em leve extensão; e conferir peso e comprimento na curva. Nenhuma delas custa nada e todas mudam a camada em que a criança está.
Prescrição- Palpar punhos, tornozelos e junções costocondrais
- Inspecionar conjuntiva bulbar, região periorificial e perianal, extremidades, mucosas e leito ungueal
- Palpar tireoide
- Registrar peso e comprimento nos gráficos da caderneta e avaliar a linha, não o ponto — a leitura da curva é do capítulo de acompanhamento do crescimento, em Puericultura e Desenvolvimento
Minuto 9 — o registro, que é parte do tratamento
O registro tem três destinos e nenhum é opcional. Na caderneta, a data, o produto e a quantidade entregues, na seção própria, e a marcação no item de atenção e cuidados especiais da consulta. No sistema de informação, o procedimento correspondente na ficha de procedimentos — a dispensação do sachê tem código próprio, assim como a dispensação de suplemento de ferro e a administração de vitamina A. Na evolução, uma linha dizendo qual camada foi executada e por quê. Registro em branco em criança que compareceu é falha do serviço, não da família, e é assim que ela deve ser lida na próxima consulta.
Prescrição- Anotar na caderneta data, produto e quantidade entregue, com assinatura
- Marcar suplementação de micronutrientes no item de atenção e cuidados especiais da consulta de puericultura
- Registrar o procedimento na ficha do sistema de informação da atenção primária
- Escrever na evolução se o que foi feito foi profilaxia de programa ou tratamento de deficiência
Minuto 11 — a porta, e o que a família leva na cabeça
Três frases, ditas com a criança já no colo. A primeira é a do intervalo: o sachê termina, vem uma pausa de alguns meses e a próxima entrega é daqui a seis meses — isso não é abandono nem esquecimento. A segunda é a do alimento: o que sustenta o ferro e a vitamina A é a comida, e a lista é curta e barata (carne, fígado, feijão, ovo, folha verde-escura, manga, abóbora, cenoura, batata-doce), com fruta cítrica na mesma refeição e sem chá nem café perto do almoço. A terceira é a da compra: não é preciso comprar suplemento nenhum sem indicação, e o que a farmácia vende como 'vitamina para abrir o apetite' não resolve o que a família está tentando resolver.
Prescrição- Explicar o intervalo entre ciclos e a data da próxima entrega
- Orientar oferta diária de fonte de ferro heme e de vegetais amarelo-alaranjados e folhas verde-escuras
- Orientar fruta cítrica na mesma refeição e afastar chá, café e leite do horário do suplemento
- Desaconselhar compra de suplemento sem indicação e nomear os sinais de retorno: piora da visão ao anoitecer, diarreia que não passa, lesão de pele em volta da boca ou do ânus, e criança que para de ganhar peso
Como saber se está funcionando
Na prevenção, confira acesso ao produto, administração correta, adesão, alimentação e crescimento. No tratamento, acompanhe também a resposta clínica e os exames pertinentes à deficiência e à gravidade. Melhora inespecífica não confirma sozinha o diagnóstico; ausência de resposta pede rever dose, formulação, adesão, absorção e hipótese.
Os parâmetros abaixo valem para a criança ambulatorial. Para a criança gravemente desnutrida, a reavaliação é outra e está no capítulo de desnutrição energético-proteica, nesta mesma apostila.
Esperado: Data, produto e quantidade preenchidos a cada ciclo, com a marcação correspondente na folha da consulta
Se não melhora: Seção em branco em criança que compareceu é falha documentada do lado do serviço. Não cobre adesão de quem nunca recebeu; investigue estoque, fluxo da unidade e quem entrega
Esperado: Envelopes ou frasco terminados dentro do período previsto, com relato consistente de quem administra
Se não melhora: Conte o que sobrou em vez de perguntar se tomou. Refaça a orientação com a comida real da casa e identifique quem passa o dia com a criança — a orientação precisa chegar a essa pessoa
Esperado: Manutenção do canal de crescimento; a leitura é da linha ao longo do tempo, não do ponto isolado
Se não melhora: Desvio sustentado da linha muda a pergunta de micronutriente para causa global. A conduta da curva é do capítulo de acompanhamento do crescimento, em Puericultura e Desenvolvimento
Esperado: A adaptação ao escuro melhora em dias; a xerose conjuntival regride em semanas
Se não melhora: Sinal ocular que não regride, ou que progride para comprometimento de córnea, não é caso de ambulatório: é encaminhamento imediato, e o manejo hospitalar está no capítulo de desnutrição grave
Esperado: Clareamento das placas e redução do número de evacuações; melhora do apetite e da irritabilidade
Se não melhora: Reconfira a dose contra a apresentação real do frasco, pela ambiguidade entre sal e elemento. Persistindo o quadro típico com boa adesão, pense em acrodermatite enteropática e encaminhe
Esperado: Estabilização dos sinais palpáveis e progressão dos marcos motores; em criança sem raquitismo e em uso de até 2.000 unidades por dia, não se dosa de rotina
Se não melhora: Sinais ósseos que progridem exigem bioquímica — cálcio, fósforo, magnésio, fosfatase alcalina, proteínas totais e frações e paratormônio — e aí a criança sai da profilaxia e entra em investigação de raquitismo
Esperado: Uma única rota de micronutriente ativa por vez; sachê e suplemento de ferro nunca simultâneos; sachê e megadose de vitamina A nunca simultâneos
Se não melhora: Se descobrir sobreposição em curso, suspenda a rota que veio de fora do plano, explique por que, e registre — inclusive para que a próxima equipe não reinicie a mesma soma
Onde o erro machuca
O dano: Duas rotas de ferro simultâneas, com o efeito colateral gastrintestinal somado e abandono das duas. O Ministério declara expressamente que a criança do sachê não deve receber outro suplemento contendo ferro
Como pegar a tempo: Fazer a pergunta antes da prescrição, sempre com estas palavras: a criança recebe sachê de micronutrientes em pó? E ler a seção de registros da caderneta antes de escrever qualquer coisa
O dano: A criança em uso do sachê recebe vitamina A por duas rotas, sem necessidade declarada pelo próprio programa; e a criança fora da faixa etária da sua região recebe algo que a régua não prevê
Como pegar a tempo: Triar a fila por duas perguntas — a idade e o sachê — antes de abrir o frasco. A campanha é da unidade; a decisão de cada criança continua sendo da consulta
O dano: As preparações do mercado vão de 200 a 2.000 unidades por gota. A mesma receita de duas gotas ao dia entrega de 400 a 4.000 unidades, e a receita não muda de aparência
Como pegar a tempo: Escrever a dose em unidades por dia, e só depois traduzir em gotas para o frasco que a família tem ou vai comprar. Pedir para a família trazer o frasco na consulta seguinte
O dano: Resultado ambíguo por falta de consenso entre os critérios, repetição de exame, e tratamento de quem não tem doença. A recomendação brasileira é explícita: a triagem universal não é recomendada
Como pegar a tempo: Reservar a dosagem para os grupos de risco definidos, e lembrar que, em criança sem raquitismo em uso de até 2.000 unidades por dia, nem o controle de rotina se justifica
O dano: Contraria a instrução do programa, que proíbe mais de um sachê por dia, e desorganiza o ciclo e o intervalo entre entregas
Como pegar a tempo: Explicar que o ciclo se estende, não se comprime: um sachê por dia até terminar os 60, ainda que leve até três meses, e a próxima entrega segue o calendário de seis meses
O dano: Culpabiliza a família por uma falha de registro do serviço e leva a reiniciar rotas que já estão em curso, ou a suspender as que estão corretas
Como pegar a tempo: A caderneta é a fonte, não a memória da mãe. Seção em branco em criança que compareceu se lê como falha do lado do serviço — e a conduta que se segue é conferir estoque e fluxo da unidade, não repreender ninguém
O que dizer ao paciente e à família
A conversa deste capítulo tem uma dificuldade própria: é preciso explicar que o serviço entrega algumas coisas e não entrega outras, sem que isso soe como desculpa nem como propaganda de farmácia. As falas abaixo são para a família e para a equipe, porque as duas participam da mesma decisão.
A mãe pergunta se pode dar dois sachês por dia para terminar antes do fim do mês
“"Não pode, e o motivo é bom: o sachê foi feito para um por dia, e dois no mesmo dia não fazem o dobro do efeito — só aumentam a chance de a criança recusar a comida. O que a gente faz é continuar um por dia até acabar os que sobraram, mesmo que leve mais tempo. A próxima entrega tem data certa e eu já vou anotar aqui na caderneta."”
Não diga: Dizer só "não pode" sem dar o caminho. A família está tentando cumprir, e o que ela precisa é da instrução do que fazer, não da correção do que pensou
A família pergunta por que a criança não vai receber a vitamina A que "todo mundo está recebendo hoje"
“"Porque ela já está recebendo por outro caminho. O saquinho que ela toma na comida tem vitamina A dentro, e o próprio Ministério da Saúde orienta que quem toma o saquinho não precisa da dose da cápsula. Não é que ela ficou de fora: é que ela já está coberta, e dar os dois não acrescenta nada."”
Não diga: Deixar a família sair achando que faltou insumo, ou que a criança dela vale menos. A frase precisa dizer que ela está coberta, não que ela foi excluída
A avó comprou vitamina D e a mãe pergunta se a unidade fornece
“"Não fornece, e é justo que a senhora saiba por quê. A vitamina D não faz parte dos programas nacionais de suplementação; quem recomenda é a Sociedade Brasileira de Pediatria, e a compra fica com a família. Se puder comprar, eu escrevo a dose certa e confiro o frasco com a senhora, porque cada marca tem uma gota diferente. Se não puder, a gente conversa sobre sol e sobre comida, e eu acompanho de perto os sinais que importam."”
Não diga: Prometer que vai ter na unidade, ou fingir que é obrigatório. A honestidade sobre o que o SUS entrega é o que permite à família decidir e voltar para contar o que conseguiu
A mãe traz a queixa de que a criança não come e pede "uma vitamina para abrir o apetite"
“"Eu entendo o cansaço, porque essa briga acontece três vezes por dia. Só que não existe remédio que faça criança gostar de comida, e a sua está crescendo direitinho na linha dela — eu vou te mostrar aqui no gráfico. Depois do primeiro ano, toda criança come menos do que comia, e isso assusta todo mundo. O que ajuda de verdade é a comida da família, no prato dela, sem TV e sem perseguição."”
Não diga: Prescrever um suplemento para acalhar a angústia. Além de não resolver, ensina a família que comer é assunto de remédio, e a próxima consulta começa pedindo outro frasco
A agente comunitária avisa que a orientação da enfermeira é dar a megadose a todo mundo hoje
“"A orientação vale para a maioria mesmo, e eu vou dar em quase todas. Só que quem está tomando o saquinho de micronutrientes não precisa, e o próprio manual diz isso. Se você puder perguntar isso na recepção — se a criança está tomando o saquinho — a gente já separa a fila e não sobra dúvida na hora."”
Não diga: Corrigir a colega na frente da família, ou desautorizar a orientação da enfermeira. O que se está fazendo é acrescentar uma pergunta ao fluxo, não desmontar a campanha
A família de uma criança do Sul mostra o quadro da caderneta e pergunta por que a megadose parou aos 2 anos
“"A tabela da caderneta é a mesma em todo o país, mas o programa mudou por região. Aqui no Sul, ele vai até os 23 meses, porque a deficiência de vitamina A é menos frequente por aqui. Não é que a unidade deixou de dar: é que, para a idade dele, o programa não prevê mais. O que continua valendo é o acompanhamento e a comida."”
Não diga: Dizer que a criança 'perdeu' a dose, ou improvisar uma explicação que não existe. A diferença é real e está escrita, e dizer isso é mais tranquilizador do que inventar
O preceptor pergunta por que você não pediu exames de vitaminas numa criança de risco social
“"Porque nenhum deles muda o que eu vou fazer. Ela tem 13 meses, está na faixa do programa e vai receber por ele; retinol sérico cai com inflamação, zinco sérico varia com o horário da coleta, e vitamina D a gente só dosa em grupo de risco. O que eu pedi foi a conversa alimentar e o exame físico, e marquei o retorno. Se aparecer sinal, aí o exame decide alguma coisa."”
Não diga: Justificar a ausência do exame por falta de recurso. O argumento é técnico, não orçamentário, e ele fica mais forte quando o interno mostra que sabe o que cada exame faria
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Manter a entrega por faixa etária e região, como está
O Programa Nacional de Suplementação de Vitamina A entrega megadose semestral a todas as crianças de 6 a 59 meses no Norte, Nordeste e Centro-Oeste e de 6 a 23 meses no Sul e Sudeste, sem exame e sem avaliação individual de risco. O argumento é que a suplementação universal é o que produziu a queda de 17,4% para 6,0% em treze anos, que a intervenção é barata, segura e de logística simples, e que focalizar exige identificar individualmente a criança de risco — o que, na prática de uma unidade com fila, significa deixar de alcançar exatamente quem mais precisa. Reduzir a faixa etária no Sul e no Sudeste já foi, ela própria, um passo de focalização.
Ministério da Saúde, Caderno dos Programas Nacionais de Suplementação de Micronutrientes, 2ª edição, 2025, quadros de público prioritário e de critérios de implementação; o programa foi instituído pela Portaria nº 729, de 13 de maio de 2005
Redirecionar do universal para o focalizado
O inquérito nacional que mediu as prevalências conclui que os números observados sugerem a necessidade de repensar as políticas de prevenção e controle no sentido da focalização em grupos mais vulneráveis. E o próprio Caderno federal registra que, diante dos avanços, para algumas ações será possível redirecionar o público-alvo do universal para o focalizado. A isso soma-se um dado interno ao mesmo documento: o critério que ele transcreve da Organização Mundial da Saúde para justificar a megadose universal é prevalência acima de 20%, e a maior prevalência regional brasileira medida é 9,5% — menos da metade do limiar.
UFRJ, ENANI-2019, Relatório 3, considerações finais, 2021; e Ministério da Saúde, Caderno dos Programas Nacionais, 2ª edição, 2025, seção de programas nacionais e figura de prevalência de deficiência de vitamina A
Esta apostila adota a régua vigente — megadose por faixa etária e região, sem avaliação individual —, e decide pela data: o Caderno federal é de 2025, e a recomendação de focalizar vem do relatório do inquérito, de 2021; a natureza aponta para o mesmo lado. A focalização fica registrada como a leitura do inquérito, que o próprio Caderno admite como caminho para algumas ações, e o limiar de 20% que ele transcreve, e que nenhuma região atinge, fica nas notas sem derrubar o que está em vigor. Diante da criança concreta, execute a régua e registre o que ela não vê. Analu está na faixa e na região, e o que decide hoje é o sachê, que dispensa a megadose. Para a criança que não está no sachê, administre conforme a idade e a região, porque é isso que está em vigor. O que a focalização acrescenta à sua consulta, desde já, é a obrigação de olhar o risco individual mesmo em quem recebe por política — a criança de família em insegurança alimentar, com dieta sem fonte animal, continua sendo a que precisa de conversa alimentar e retorno, e não apenas de uma cápsula a cada seis meses.
Suplementar todos, desde as primeiras semanas
A recomendação para prevenção da hipovitaminose D em indivíduos sem fatores de risco é de colecalciferol 400 unidades por dia para crianças abaixo de 1 ano e 600 unidades por dia dos 1 aos 18 anos, subindo a 1.200 a 1.800 unidades por dia nos grupos de risco. O argumento é que o desfecho a evitar — o raquitismo nutricional — é grave, que a intervenção é barata e segura, que o leite materno é pobre em vitamina D, e que a prevalência de insuficiência medida numa amostra populacional não identifica a criança de pele mais pigmentada, pouco sol e aleitamento exclusivo que está dentro dela.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Endocrinologia, Documento Científico nº 181, 4 de novembro de 2024, quadro de recomendações para prevenção e conclusões
Não tratar como problema de saúde pública
O inquérito nacional mediu insuficiência de vitamina D em 4,3% das crianças de 6 a 59 meses, maior entre 24 e 59 meses (5,3%), e conclui, com essas palavras, que a baixa prevalência observada sugere que a carência desse micronutriente não seja um problema de saúde pública no Brasil. Coerentemente, não existe programa nacional de suplementação de vitamina D, e a Rename 2024 não traz colecalciferol isolado em nenhuma apresentação — apenas associado a cálcio, em comprimidos com dose de cálcio de adulto. O argumento é que suplementar universalmente sem problema populacional demonstrado transfere custo à família e desloca atenção do que de fato é prevalente, que é o zinco.
UFRJ, ENANI-2019, Relatório 3, resumo executivo e considerações finais, 2021; e Ministério da Saúde, Rename 2024, elenco do componente básico
Esta apostila adota a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria: vitamina D profilática para toda criança — 400 unidades por dia abaixo de 1 ano e 600 unidades por dia dos 1 aos 18 anos, e 1.200 a 1.800 nos grupos de risco. Decide o escopo: o documento de 2024 é escrito para a criança da consulta, e a conclusão do inquérito é sobre a população — diz que a carência não parece problema de saúde pública, o que explica não haver programa nacional nem colecalciferol isolado no elenco, e não diz que a criança sem risco deixe de receber; a data, 2024 contra 2021, aponta para o mesmo lado. O argumento construído sobre o inquérito de 2021 — que suplementar todos sem problema populacional demonstrado transfere custo à família e desvia atenção do zinco — fica registrado, e o que ele acrescenta à consulta é a honestidade sobre a compra: não é entrega do SUS. Se a família puder, prescreva com a dose em unidades e confira o frasco. Se não puder, registre que a recomendação foi feita, não deixe a consulta sem a conversa sobre sol e sobre comida, marque o retorno e examine os punhos — porque a criança que vai adoecer é a que tem risco, e ela dá sinal antes de dar exame.
Ler como zinco elementar, que é como a prática prescreve
Os protocolos que prescrevem zinco na criança falam em miligramas de zinco por dia, e a tradução corrente para o xarope disponível assume que 5 mL do produto de 4 mg/mL entregam 20 mg de zinco. É essa leitura que faz a apresentação do elenco nacional casar com a dose dos protocolos; qualquer outra leitura tornaria o produto inadequado para a indicação para a qual ele está no elenco.
Leitura de coerência entre a apresentação arrolada na Rename 2024 (sulfato de zinco 4 mg/mL xarope, componente básico) e as doses em miligramas de zinco usadas nos protocolos brasileiros; a dose e a duração no episódio diarreico são do capítulo de diarreia e desidratação na criança, em Gastroenterologia Pediátrica
Ler como sal, porque é o que o documento declara
Na mesma página da Rename 2024, o sulfato ferroso vem com equivalência explícita nas três apresentações — 'equivalente a 5 mg/mL de ferro elementar', 'equivalente a 25 mg/mL', 'equivalente a 40 mg' — e o sulfato de zinco vem sem nenhuma. Onde o documento quis declarar equivalência ao elemento, ele declarou; onde não declarou, a leitura literal é a do sal. Pelo sulfato de zinco heptaidratado, cuja fração de zinco é 65,38 sobre 287,55, ou 0,2274, 4 mg/mL correspondem a 0,91 mg de zinco por mL, e 5 mL entregam 4,55 mg em vez de 20 — uma diferença de 4,4 vezes.
Ministério da Saúde, Rename 2024, elenco do componente básico, entradas de sulfato de zinco e de sulfato ferroso; massas molares recalculadas
Não decida pela tabela: decida pelo frasco. Peça à farmácia da unidade a embalagem ou a bula do lote que vai ser dispensado e leia o que está declarado por mililitro — se o rótulo diz zinco, a conta é direta; se diz sulfato de zinco sem equivalência, a dose em zinco é quatro vezes menor do que o número sugere e a prescrição precisa de outro volume. Escreva a receita em miligramas de zinco por dia e, ao lado, o volume calculado para aquele produto, com a concentração escrita por extenso. E, se a criança em reposição não melhorar no prazo esperado, esta é a primeira coisa a reconferir, antes de trocar o diagnóstico.
O raciocínio, em voz alta
Pietro tem 7 meses e 7,8 quilos. É a primeira consulta dele nesta unidade: a família mudou de cidade há três semanas e a mãe traz a caderneta, que está preenchida até os 4 meses e depois vazia. Ele nasceu a termo, com 3.240 g, mamou exclusivamente até os 5 meses e há duas semanas começou a comida. Está ativo, senta sem apoio, cresce na linha. A mãe conta, quando você pergunta pela alimentação, que a família é do interior e usa o fubá que a avó traz do moinho da comunidade, e que o sal também vem de lá, comprado a granel numa feira. Hoje é dia de puericultura, a unidade recebeu megadose de vitamina A e não tem sachê de micronutrientes em estoque há dois meses.
leio a caderneta antes de decidir qualquer coisa
A seção de registros da suplementação está em branco a partir dos 4 meses, e a folha das consultas de puericultura também. Isso não me diz que ele não recebeu nada: diz que, se recebeu, ninguém anotou, e que a partir de agora quem responde por esse registro sou eu. Anoto na evolução que o registro anterior é incompleto, para que a próxima equipe não interprete o que eu escrever hoje como a história completa.
faço a pergunta que precede a prescrição
Pergunto pelo sachê de micronutrientes em pó, por suplemento comprado, por prescrição de outro serviço e por fórmula infantil. A mãe responde não a todos. Pietro está fora de qualquer rota de micronutriente neste momento, o que torna a decisão de hoje mais simples do que a da criança que já recebe alguma coisa.
administro a megadose, porque ele está na faixa e não está no sachê
Sete meses põe Pietro na faixa de 6 a 11 meses, cuja dose é 100.000 unidades em dose única, e ele não recebe o sachê — que é a única condição que dispensaria a megadose. Confiro no rótulo do frasco que a cápsula é de 100.000 unidades, abro por torção da ponta, esvazio na boca dele segurando o queixo, e confirmo que engoliu tudo. Se só houvesse cápsula de 200.000, eu não daria metade: o Caderno proíbe fracionar, e a conduta seria adiar até haver a apresentação certa.
oriento a profilaxia de ferro sem entrar no que não é meu
Pietro tem 7 meses, nasceu a termo com peso adequado e está na faixa do Programa Nacional de Suplementação de Ferro. Como não há sachê no estoque, a rota é o sulfato ferroso do programa. A dose, a apresentação, o conta-gotas e a conta em ferro elementar são do capítulo de anemia ferropriva na infância, em Hematologia Pediátrica — e é para lá que eu vou se aparecer palidez, pica ou hemograma alterado.
não peço exame nenhum
Não peço retinol sérico, não peço zinco sérico, não peço 25-hidroxivitamina D. Nenhum deles muda o que vou fazer hoje: a megadose é decidida por idade e região, a profilaxia de ferro por idade, e a de vitamina D também por idade — 400 unidades por dia abaixo de 1 ano, que a família compra e que eu escrevo com o frasco na mão —; a dosagem é que fica para quem tem fator de risco, e Pietro não tem, hoje, nenhum além do aleitamento, que a mãe já não faz de forma exclusiva. O exame físico eu faço inteiro: conjuntiva, punhos, tornozelos, junções costocondrais, pele periorificial, mucosas, tireoide.
trato o sal e o fubá como informação, não como curiosidade
O sal comprado a granel numa feira, fora do circuito formal, pode não estar iodado — a obrigação legal alcança o sal destinado ao consumo humano, e o que sai de uma salina sem controle escapa. E o fubá de moinho comunitário está expressamente dispensado do enriquecimento com ferro e ácido fólico quando fabricado por agricultor familiar ou microempreendedor individual. Ou seja: esta família está, em boa parte, fora da camada de fortificação. Isso não vira prescrição hoje, mas vira uma orientação concreta — comprar sal em pacote, com a frase de enriquecimento no rótulo — e vira uma linha na evolução.
registro nos três lugares
Na caderneta, a data e a assinatura no quadro da megadose de vitamina A, e a data, o produto e a quantidade no quadro de ferro e outros micronutrientes; e as marcações no item de atenção e cuidados especiais. No sistema, o procedimento de administração de vitamina A e o de dispensação de suplemento de ferro. Na evolução, uma frase dizendo que o que foi feito foi profilaxia de programa em criança sem carência diagnosticada, e que o registro anterior estava incompleto.
digo as três frases da porta
A dose de vitamina A se repete daqui a seis meses e eu já marquei; o ferro é diário e o frasco tem que durar o ciclo inteiro; e o sal do pacote, com a frase de enriquecimento escrita no rótulo, é o único item de compra que eu peço para mudar. Nomeio o que faz voltar antes: piora da visão ao anoitecer, diarreia que não passa, lesão de pele em volta da boca ou do ânus, e criança que para de ganhar peso.
Faça você
Iasmin tem 10 meses e 8,1 quilos. Está no ambulatório porque a mãe se assustou com uma lesão avermelhada e descamativa em volta da boca e nas nádegas, que já tratou com creme de corticoide por dez dias sem melhorar. Ela teve diarreia por quase quatro semanas no mês passado, resolvida sem internação, e desde então come mal. Cresce, mas a linha do peso perdeu inclinação nos últimos dois meses. A caderneta mostra três coisas: entrega de sachê de micronutrientes registrada aos 6 meses, megadose de vitamina A aos 7 meses, e nada depois disso. A residente que te acompanha olha a lesão, olha a caderneta e diz: "pede zinco sérico, vitamina A e 25-hidroxivitamina D, e já começa polivitamínico enquanto os exames não voltam". O que você faz com cada uma dessas quatro condutas?
o que a caderneta já respondeu, e o que ela levanta
Duas rotas registradas e nenhuma ativa há três meses. Sachê aos 6 e megadose aos 7 é, aliás, exatamente a soma que o programa não prevê — a criança do sachê não necessita da megadose — e alguém executou as duas. Isso não faz mal hoje, mas explica por que a pergunta do sachê tem que ser feita antes de qualquer entrega, e vira uma linha na evolução.
o zinco sérico que a residente pediu
É o exame de que a hipótese mais precisa e o que menos decide. Se for pedido, tem que ser de manhã, em jejum, com proteína C reativa junto — e ainda assim um valor no meio da faixa não afasta nada, porque os pontos de corte mudam conforme o turno da coleta e o zinco sérico cai em qualquer inflamação.
os outros dois exames
Retinol sérico não decide: cai na inflamação e só se altera depois de esgotada a reserva hepática, e a criança já recebeu megadose há três meses. A 25-hidroxivitamina D exigiria que Iasmin estivesse num grupo de risco definido; a dermatite periorificial não é um deles, e a triagem universal não é recomendada.
o polivitamínico enquanto os exames não voltam
É a conduta mais problemática das quatro, e não pelo custo. Ela mistura as três camadas ao mesmo tempo, entrega dose desconhecida de vários micronutrientes juntos, e torna impossível saber, daqui a três semanas, o que produziu a melhora — se ela vier.
o que o quadro clínico está dizendo
Dermatite periorificial e acral, corticoide-resistente, depois de quatro semanas de diarreia, com desaceleração do ganho de peso e recusa alimentar, numa criança de 10 meses. É a apresentação típica de deficiência de zinco, e ela tem fator de risco explícito, que é a perda entérica prolongada.
o que eu preciso ver antes de escrever a receita
O frasco. Sulfato de zinco em xarope de 4 mg/mL entrega 20 mg em 5 mL se o rótulo declarar zinco, e 4,55 mg se declarar o sal heptaidratado sem equivalência — quatro vezes e meia de diferença, na mesma prescrição escrita da mesma forma.
Ver como fecharíamos
Das quatro condutas propostas, uma se aproveita com ressalva e três não. O zinco sérico pode ser colhido, mas só se for de manhã, em jejum e com proteína C reativa, e sabendo que ele não vai fechar nem afastar o diagnóstico: o teste que decide aqui é terapêutico. Retinol sérico e 25-hidroxivitamina D saem: o primeiro não decide nada nesta criança e cai com inflamação; o segundo exigiria um fator de risco que Iasmin não tem, e a triagem universal de vitamina D não é recomendada. O polivitamínico sai inteiro, porque mistura as três camadas, entrega dose desconhecida e destrói a informação da resposta terapêutica. A conduta é reposição de zinco isolada, com a dose escrita em miligramas de zinco por dia e o volume calculado contra a concentração declarada no frasco que a farmácia vai dispensar — conferida antes, porque a mesma receita pode entregar 20 mg ou 4,55 mg. Reavaliação clínica em duas a quatro semanas, olhando a dermatite, as evacuações, o apetite e o peso. Retomar a rota profilática de micronutrientes que está parada há três meses, escolhendo uma só — sachê ou suplemento de ferro, nunca os dois — e registrando a escolha. E, se em três a quatro semanas a lesão não clarear com boa adesão, reconferir a concentração do frasco antes de trocar o diagnóstico; persistindo o quadro típico, pensar em acrodermatite enteropática e encaminhar. A anemia, se o hemograma vier alterado nessa investigação, sai deste capítulo e vai para o de anemia ferropriva na infância, em Hematologia Pediátrica.
As preparações comerciais brasileiras de colecalciferol vão de uma gota igual a 200 unidades até uma gota igual a 2.000 unidades, e existem ainda frascos de 400, 500, 600 e 1.000 unidades por gota. Uma prescrição escrita apenas em gotas pode entregar dez vezes mais do que o pretendido sem que a receita mude de aparência. Não há padronização de gota no país, o que elimina a prescrição em gotas apoiada numa padronização que não existe. O comprimido não resolve, porque as apresentações em comprimido são de dose alta e voltadas a criança maior e adulto, e não servem para o lactente. Dosar 25-hidroxivitamina D antes de suplementar contraria a recomendação brasileira, que reserva a pesquisa aos grupos de risco e não recomenda a triagem universal. E a dose semanal é indicada quando há baixa adesão, não como estratégia de segurança: o uso diário é o mais eficaz. O que protege é escrever a dose em unidades por dia e traduzir em gotas contra o frasco específico que a família terá em casa.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare fortificação de alimentos, suplementação preventiva e tratamento. Para uma criança de idade definida, levante dieta, prematuridade ou outros fatores de risco e todos os produtos em uso. Explique quando a regra vem de um programa público e quando a conduta decorre de diagnóstico individual. Identifique duplicações, sobretudo de ferro e vitaminas, antes de converter a receita em gotas.
Em 30 dias
A família traz um sachê, um polivitamínico e uma receita de ferro. Reconcilie os produtos e diferencie a dose preventiva da terapêutica. Depois avalie uma criança com alteração ocular, outra com sinais de raquitismo e outra com diarreia prolongada: justifique urgência, exames pertinentes e acompanhamento. Mostre no frasco onde estão nutriente, unidade e concentração; combine qual melhora observar e quando retornar.
Agora atenda
Agora atenda: consulta de puericultura numa unidade básica, criança de 14 meses trazida pela mãe para consulta de rotina, caderneta com registros incompletos e uma sacola de suplementos comprados na farmácia. Descubra o que ela já recebe antes de prescrever qualquer coisa, decida a camada, e registre.
