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Olho vermelho

Quase todo olho vermelho vai embora sozinho. Uma minoria perde o olho em horas, e quem a atende primeiro não tem lâmpada de fenda, nem tonômetro, nem oftalmologista no plantão. Três perguntas separam um do outro: dói de verdade, enxerga pior, a pupila está normal?

Fontes deste capítulo

TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de encaminhamento para Oftalmologia Adulto. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 2017

TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de encaminhamento para Oftalmologia Pediátrica. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 2017

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3; Portaria GM/MS nº 6.324, de 26 de dezembro de 2024

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Glaucoma. Portaria SAS/MS nº 1.279, de 19 de novembro de 2013, retificada em 23 de janeiro de 2014

Cunha CAC, Borges EA, Rolim H. Perfil epidemiológico dos pacientes atendidos com queixa de olho vermelho na Fundação Hilton Rocha, MG, Brasil. Rev Bras Oftalmol. 2015;74(6)

01

Responda antes de ler

Pedreiro de 45 anos chega ao pronto atendimento 15 minutos depois de receber respingo de cal no olho esquerdo. Ele está com o olho fechado, lacrimejando, com dor intensa. Qual é a primeira conduta?

02

O paciente que você vai ver

Vinte e duas e dez de uma quinta-feira na unidade de pronto atendimento. A classificação de risco despejou quatro pulseiras verdes na mesma fileira de cadeiras, e as quatro trazem a mesma frase escrita no papel: olho vermelho. O oftalmologista de referência atende em outro município e volta na segunda. Na sala há uma lanterna de bolso, um oftalmoscópio direto com a pilha fraca, e nenhuma lâmpada de fenda.

O primeiro é o senhor Aparecido, 34 anos, motorista de aplicativo. Acordou com os dois olhos vermelhos e as pálpebras coladas de secreção, sente areia, lacrimeja, e a irmã dele está igual desde domingo. Enxerga bem, não dói de verdade — incomoda. As pupilas são iguais e reagem à luz.

A segunda é a dona Terezinha, 66 anos. Começou há cinco horas, de um lado só, com dor que ela chama de dor de dente atrás do olho, vomitou duas vezes, enxerga embaçado e vê um halo colorido em volta da lâmpada do corredor. O olho está vermelho mais forte na parte que rodeia a íris, a córnea parece embaçada, e a pupila daquele lado está no meio do caminho e não se mexe quando a lanterna bate nela. O globo, tocado por cima da pálpebra, está duro como uma bola de gude.

O terceiro é o Vinícius, 21 anos, estudante. Dormiu com a lente de contato — dorme quase sempre — e acordou com o olho esquerdo vermelho, dor forte, luz insuportável e a visão pior. Ele já pingou um colírio que a farmácia vendeu, e trouxe o frasco: um combinado de antibiótico com corticoide. Sob a lanterna, a vermelhidão se concentra em torno da córnea, e há uma mancha branca no meio dela, pequena como a ponta de um alfinete.

A quarta é a dona Sônia, 41 anos. Olho direito vermelho há três dias, dói mais quando ela lê ou olha para a luz, a visão está levemente embaçada e a pupila daquele lado está menor que a do outro. Ela tem dor lombar inflamatória desde os trinta e nunca investigou.

As quatro pulseiras são verdes. Uma dessas pessoas vai melhorar sozinha em uma semana com pano limpo e lavagem. Três podem perder o olho — uma delas em horas. Nada na cor do olho separa uma da outra, porque vermelho é o que a conjuntiva sabe fazer, e ela faz igual para a poeira e para a catástrofe.

O que separa cabe em três perguntas feitas na porta, antes de qualquer colírio: dói de verdade, enxerga pior, a pupila está normal? Quem responde não, não e sim tem quase certamente uma conjuntivite. Quem responde sim a qualquer uma sai da fila. É essa triagem que este capítulo ensina a fazer com uma lanterna, uma folha de papel e cinco minutos — e é ela que decide qual dos quatro espera até segunda e qual precisa de um telefonema agora.

03

Quem adoece disso

Olho vermelho é uma das razões mais comuns pelas quais um brasileiro procura atendimento por causa do olho. Num serviço de urgência oftalmológica de referência da rede pública de Minas Gerais, 390 de 1.140 atendimentos consecutivos — 34,2% — foram por queixa de olho vermelho. Não é uma queixa de plantão eventual: é uma em cada três pessoas que entram pela porta de um serviço ocular de urgência, e a maioria delas passa antes por uma unidade básica ou por um pronto atendimento geral, onde quem examina não é oftalmologista.

A distribuição dos diagnósticos desse mesmo estudo é a régua de probabilidade que o interno precisa carregar. Conjuntivite e blefaroconjuntivite infecciosas somaram 127 dos 390 casos, 32,6%. Vieram depois complicações pós-operatórias com 58 (14,9%), corpo estranho com 49 (12,6%), doença da superfície ocular com 36 (9,2%), degenerações da conjuntiva com 33 (8,5%) e alergia ocular com 24 (6,2%). No fim da lista, os que interessam: úlcera de córnea, 15 casos; glaucoma agudo, 15 casos; endoftalmite, 3. Somados, 33 dos 390 — 8,5%, ou aproximadamente um a cada doze olhos vermelhos daquele serviço.

Esse um em doze é o número que organiza o capítulo, e ele precisa ser lido com o denominador certo. O estudo foi feito num serviço oftalmológico de referência, para onde os casos graves são mandados; numa unidade básica de bairro a proporção de doença cegante é bem menor, e a de conjuntivite, bem maior. Mas a consequência clínica é a mesma nos dois lugares, e é contraintuitiva: como a doença que cega é minoria, ela nunca vai ser reconhecida por quem espera encontrá-la. Ela é reconhecida por quem faz o mesmo exame curto em todo mundo, inclusive nos onze de doze em que ele vai dar normal. Rastreio não se faz com suspeita; faz-se com rotina.

O mesmo estudo mostra por que a acuidade visual é o divisor de águas prático: apenas 75 dos 390 pacientes (19,2%) tinham baixa acuidade visual. Ou seja, quatro em cada cinco olhos vermelhos enxergam normalmente — e o quinto, que não enxerga, concentra quase toda a doença que importa. E a intensidade da vermelhidão não ajuda: 46,7% tinham hiperemia mínima e 38,7% leve, contra 10,8% moderada e 3,8% intensa. Quem triar por quanto o olho está vermelho vai priorizar errado, porque o glaucoma agudo e a úlcera de córnea não estão no grupo dos olhos mais vermelhos — estão no grupo dos que doem e não enxergam.

O perfil social daquela amostra explica outra parte do problema: 74,2% pertenciam às classes D e E, 36,7% não tinham instrução ou tinham fundamental incompleto e 62% chegaram de ônibus. Encaminhar um paciente assim para uma consulta em outro município na semana seguinte não é encaminhar; é adiar. Quando a régua diz hoje, ela precisa vir com o telefonema dado, o transporte resolvido e o nome do serviço escrito no papel — porque a barreira que faz esse paciente perder o olho quase nunca é diagnóstica.

O contexto de oferta fecha o quadro e não é animador. Em 2022 o SUS registrou 11.235.014 consultas oftalmológicas, 2.157.701 tratamentos clínicos e 1.912.879 cirurgias do aparelho da visão. O Censo Oftalmológico de 2019, do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, contou 19.471 oftalmologistas nominais em todo o país — 21.631 quando se contam os que atuam em mais de um município —, distribuídos por menos de um terço dos municípios brasileiros. Com 208.494.900 habitantes, isso dá aproximadamente um oftalmologista para cada 9.600 habitantes no papel; mas o número nacional esconde a distribuição, que é o que decide o seu plantão. Na região Norte a proporção é de um para cada 21.118 habitantes, e no Maranhão, de um para cada 29.313 — contra um para cada 4.368 no Distrito Federal. Vinte e duas unidades da federação estão abaixo da proporção de um especialista para cada 17 mil habitantes recomendada pela Organização Mundial da Saúde para países desenvolvidos.

A leitura prática desses números não é lamento de infraestrutura: é definição de tarefa. Em boa parte do Brasil, o médico que decide o destino de um olho vermelho nas primeiras horas não é oftalmologista e não vai ser. Ele é o interno, o clínico do pronto atendimento, o médico de família. A pergunta que o capítulo responde não é como tratar ceratite — é como reconhecer, sem lâmpada de fenda e sem tonômetro, qual olho vermelho não pode esperar o tempo que a rede leva.

04

Por que acontece o que acontece

O olho fica vermelho porque vasos se enchem de sangue, e a pergunta que separa o banal do cegante é qual conjunto de vasos se encheu. Existem dois, com origens diferentes, profundidades diferentes e significados clínicos opostos, e a lanterna consegue distinguir os dois.

O primeiro é a rede conjuntival superficial. A conjuntiva é a mucosa fina e translúcida que reveste a face interna das pálpebras e cobre a esclera até a borda da córnea; seus vasos correm por cima da esclera, são móveis com o deslizamento da mucosa, são vermelho-vivo e ficam mais densos quanto mais perto do fundo de saco, isto é, longe da córnea. Quando a agressão é da superfície — vírus, bactéria, alérgeno, poeira, fumaça —, é essa rede que dilata. O resultado é uma vermelhidão difusa, mais intensa na periferia e que se apaga ao aproximar-se do limbo, o anel onde a córnea encontra a esclera. Esse é o vermelho da conjuntivite, e ele é grande, espalhado e barulhento — parece grave e quase nunca é.

O segundo é o plexo ciliar anterior, mais profundo, que penetra na esclera perto do limbo para irrigar a íris e o corpo ciliar. Ele responde ao que acontece dentro do olho e na córnea: inflamação da íris, aumento agudo da pressão, úlcera corneana. Como esses vasos entram no globo justamente no limbo, o congestionamento deles desenha um anel violáceo colado à córnea, que vai clareando para a periferia — exatamente o inverso do padrão anterior. É a injeção ciliar, também chamada hiperemia perilímbica. O protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS-UFRGS transforma isso em regra operacional: olho vermelho agudo, principalmente quando a hiperemia predomina ao redor da córnea, é caso de avaliação oftalmológica de emergência. Traduzido para a beira do leito: vermelho que se acumula na periferia tranquiliza; vermelho que se acumula em volta da íris assusta.

A dor obedece à mesma anatomia. A conjuntiva tem inervação sensitiva esparsa, e por isso a conjuntivite produz sensação de areia, ardor, corpo estranho — desconforto, não dor. A córnea, ao contrário, é o tecido mais densamente inervado do corpo humano: terminações livres do nervo nasociliar, ramo da divisão oftálmica do trigêmeo, chegam até o epitélio. Qualquer solução de continuidade epitelial expõe essas terminações, e a dor que resulta é intensa, contínua, do tipo que impede dormir. A íris e o corpo ciliar também são inervados pelo trigêmeo, e a inflamação deles produz dor profunda, surda, em peso, que piora quando a pupila se move. Por isso a primeira pergunta do capítulo não é onde dói, é dói de verdade: a intensidade da dor mapeia a profundidade da lesão.

A fotofobia sai do mesmo circuito e é um sinal muito mais específico do que parece. Luz que entra no olho provoca contração do esfíncter pupilar; num olho com iridociclite ou com epitélio corneano rompido, essa contração puxa tecido inflamado e dói. A prova de mesa é elegante: ilumine o olho são e pergunte se dói no olho doente. Como o reflexo fotomotor é consensual, a pupila do olho doente contrai junto — e a dor aparece sem que um único fóton tenha entrado nele. Fotofobia consensual positiva é inflamação intraocular ou corneana, não conjuntivite.

A pupila é o terceiro eixo, e cada doença a mexe de um jeito próprio. Na uveíte anterior, a inflamação irrita o esfíncter e o mantém contraído: a pupila fica menor que a do outro olho, preguiçosa, e pode ficar irregular quando a íris inflamada gruda na cápsula do cristalino, formando sinéquias posteriores — o desenho em trevo que aparece quando se tenta dilatar. No glaucoma agudo, a pressão intraocular sobe tanto que supera a perfusão dos ramos que nutrem o esfíncter e paralisa o músculo: a pupila fica em posição média, oval e sem reação à luz. Na conjuntivite, a pupila não muda, e é isso que a torna a terceira pergunta da triagem. Pupila diferente do outro lado, num olho vermelho, é achado de doença intraocular até que se prove o contrário.

O mecanismo do glaucoma agudo merece ser entendido, e não decorado, porque é ele que explica a história característica. O humor aquoso é produzido pelo corpo ciliar atrás da íris, atravessa a pupila para a câmara anterior e é drenado pela malha trabecular, no ângulo entre a íris e a córnea. Em olhos anatomicamente predispostos — hipermetropes, olhos pequenos, câmara anterior rasa, cristalino espessado pela idade —, a íris encosta na face anterior do cristalino e o aquoso deixa de passar pela pupila. Ele então empurra a periferia da íris para a frente, que se abaúla e fecha o ângulo como uma cortina caindo sobre o ralo. A produção continua; a drenagem para. A pressão, que é de 10 a 21 mmHg num olho normal, sobe a 50, 60, 70 mmHg em minutos.

Cada sintoma do quadro vem dessa curva de pressão. A córnea, que se mantém transparente porque o endotélio bombeia água para fora dela, não vence mais a pressão e se embebe: fica embaçada, e a luz difratada por ela produz os halos coloridos em volta das lâmpadas. O trigêmeo comprimido responde com dor violenta referida ao território de V1, e é por isso que o paciente diz que dói a cabeça, a testa e o dente. A estimulação vagal reflexa produz náusea e vômito — razão pela qual esse paciente é triado como abdome agudo ou enxaqueca e passa horas na sala errada. E a pressão que estrangula o disco óptico começa a matar axônios: a perda de campo visual é permanente e cresce com o tempo de pressão alta.

O ataque tem gatilhos que a história entrega de graça, e todos passam por midríase média — o diâmetro em que a íris toca mais o cristalino e se dobra mais na periferia. Escuro é o mais comum: a crise que começa no cinema, no fim da tarde, no meio da noite. Estresse e dor também dilatam. E drogas com efeito anticolinérgico ou adrenérgico — anti-histamínicos, escopolamina, tricíclicos, descongestionantes, e o colírio de tropicamida pingado para examinar o fundo de olho — desencadeiam a crise em quem tem o ângulo estreito.

Na ceratite o mecanismo é outro e o que importa é a barreira. A córnea é avascular e vive de três defesas: o filme lacrimal, o epitélio íntegro e o piscar. Quebre qualquer uma e o estroma fica exposto. A lente de contato quebra as três ao mesmo tempo — reduz o oxigênio que chega ao epitélio, causa microtraumas de borda, e cria uma superfície onde bactérias formam biofilme, especialmente se a lente dorme no olho, é lavada com água ou guardada em solução caseira. Uma vez no estroma, a resposta inflamatória libera colagenases; o colágeno corneano é o que sustenta a parede, e digerido ele afina até perfurar. Daí a sequência que se quer evitar: úlcera, afinamento, descemetocele, perfuração, endoftalmite. Um olho que perfura não dói mais — o que engana quem examina.

A ceratite herpética tem uma fisiopatologia própria e uma consequência terapêutica dura. O vírus fica latente no gânglio trigeminal e desce pelo axônio até o epitélio, onde se replica e produz uma úlcera com formato de galho de árvore: a revisão brasileira do assunto descreve o dendrito como geralmente central, único mas podendo ser múltiplo, com ramificações e, classicamente, bulbo terminal nessas ramificações. Recidivas repetidas destroem a inervação, e a córnea perde sensibilidade — a ceratopatia neurotrófica, em que o olho está doente e não dói, o que atrasa tudo. E aqui está a regra que este capítulo repete mais vezes: os corticosteroides são totalmente contraindicados na vigência de infecção epitelial herpética ativa, porque promovem a replicação viral. Não é uma precaução burocrática. É o mecanismo pelo qual um colírio comprado na esquina transforma um dendrito superficial numa úlcera geográfica profunda em dias.

O corticoide tópico faz mal por três caminhos somados, e é a soma que explica por que a proibição não tem exceção na mão de quem não examinou com lâmpada de fenda. Ele suprime a resposta imune local, e fungo e ameba, que a córnea normalmente contém, passam a crescer sem freio — a ceratite fúngica é classicamente associada ao uso prévio de corticoide. Ele inibe a migração e a proliferação das células epiteliais e reduz a síntese de colágeno pelos ceratócitos, de modo que uma úlcera que estava fechando para de fechar e uma córnea que estava afinando afina mais rápido — é assim que se perfura um olho com um colírio. E eleva a pressão intraocular numa parcela grande da população, os chamados respondedores. A dexametasona em suspensão e em pomada oftálmica a 0,1% está no Componente Básico da Rename 2024, isto é, na farmácia da unidade — e é essa disponibilidade que transforma a decisão de não prescrever num ato ativo.

O anestésico tópico é o segundo frasco perigoso, e o mecanismo do dano é elegante e cruel. Proparacaína e tetracaína bloqueiam canais de sódio nas terminações do trigêmeo: a dor some em vinte segundos, e o paciente diz que aquele colírio salvou a vida dele. Só que a mesma droga é tóxica para o epitélio corneano e, ao abolir a sensibilidade, abole o piscar reflexo e o lacrimejamento que protegem a superfície. É instrumento de exame, usado uma vez, no serviço; nunca é receita, e o frasco nunca vai para casa.

Falta o quarto padrão, o que mais confunde por parecer grave sem ser. Na hemorragia subconjuntival o sangue de um vaso roto se acumula num plano único entre a conjuntiva e a esclera, e por isso a mancha é vermelho-sangue uniforme, de bordas nítidas e sem vasos visíveis dentro dela — o oposto de qualquer hiperemia, em que se distinguem vasos individuais. É a diferença que se reconhece a um metro de distância e que economiza um encaminhamento por plantão.

Um último mecanismo organiza a conduta inteira: a córnea é transparente porque é avascular, e é avascular porque a transparência depende de um arranjo regular de colágeno que vaso nenhum atravessa sem desorganizar. Isso significa que a córnea cicatriza mal, cicatriza com opacidade, e que qualquer lesão no eixo visual troca dor aguda por perda permanente de visão — mesmo quando o processo é curado. Tempo, na ceratite, não é conforto: é acuidade final. É o mesmo raciocínio do glaucoma agudo, dito com outro tecido.

Dois olhos com pupilas iguais comparam hiperemia conjuntival difusa e concentração vascular pericorneana.
Comparação ilustrativa da distribuição da hiperemia: à esquerda, vasos conjuntivais superficiais difusos; à direita, concentração pericorneana junto ao limbo, ou injeção ciliar. As pupilas foram mantidas iguais para destacar essa diferença. Dor, fotofobia, acuidade, córnea e pupilas completam a avaliação; a distribuição do vermelho não define sozinha o diagnóstico.
05

Como se apresenta de verdade

Olho vermelho não é diagnóstico, é um sinal com quatro grandes donos e uma dúzia de imitadores. A ordem em que se lê o quadro decide o acerto: primeiro dor, visão e pupila, que estratificam gravidade; depois secreção, tempo de instalação e uni ou bilateralidade, que sugerem a causa; e só no fim a intensidade do vermelho, que não estratifica nada.

A razão dessa ordem é probabilística. Dor forte, visão pior e pupila alterada são achados infrequentes — quatro em cada cinco pacientes com olho vermelho num serviço de urgência oftalmológica enxergam normalmente — e é justamente por serem infrequentes que eles carregam informação. Secreção purulenta, ao contrário, é comum e aparece tanto na conjuntivite bacteriana banal quanto na conjuntivite gonocócica que derrete a córnea em dois dias; sozinha, ela não decide nada.

Vale dizer também o que não muda a régua, porque é onde o interno perde tempo. Se o paciente já pingou colírio, se lacrimeja, se acordou com o olho grudado, se coça, se tem alguém em casa igual: nada disso exclui glaucoma agudo, ceratite ou uveíte. Servem para nomear a conjuntivite depois que ela já foi separada do resto, e usar qualquer um deles como tranquilizador é o mecanismo mais comum do erro que este capítulo tenta impedir.

Competência ao concluir este capítulo. Distinguir doença da superfície de ameaça visual; examinar sem causar dano e iniciar o cuidado que não pode esperar. Ao discutir com o supervisor, separe achados observados, hipótese, risco imediato e plano com reavaliação. A prática deve mostrar o raciocínio que sustenta a decisão, além da execução técnica.

A conjuntivite, que é a maioria e se parece com ela mesma

O retrato é este: vermelhidão difusa dos dois olhos, ou de um que virou dois em dois ou três dias, mais intensa longe da córnea e mais fraca no anel que a rodeia. A queixa é de areia, ardor, olho grudado ao acordar, lacrimejamento. A visão está preservada, ou fica turva por segundos e clareia ao piscar — o que muda com o piscar é filme lacrimal e secreção, não é opacidade. A dor é desconforto, não dor. As pupilas são iguais e reagem. Iluminar o olho são não dói no olho doente. Não há fotofobia verdadeira.

A conjuntivite viral, quase sempre por adenovírus, é a mais comum e a mais contagiosa. O achado apoia uma hipótese, mas não confirma sozinho a etiologia. Falta de resposta exige reavaliar diagnóstico, adesão, agente e complicações. Dura de uma a três semanas, e a piora do quarto ao sexto dia é regra, não é falha do tratamento. Antibiótico não encurta nada nela.

A conjuntivite bacteriana produz secreção francamente purulenta, amarelada ou esverdeada, que retorna minutos depois de limpa, e pálpebras coladas ao acordar mais de um dia seguido. Costuma ser unilateral no começo. O quadro é autolimitado na maioria dos adultos imunocompetentes, e é justamente aí que mora a divergência sobre antibiótico tópico, tratada adiante no capítulo.

A conjuntivite alérgica se identifica por um sintoma que os outros não têm: coceira, e coceira de verdade, a que faz esfregar. É bilateral, simétrica, sazonal ou desencadeada por poeira, pelo e mofo, vem com quemose — a conjuntiva edemaciada e gelatinosa que parece bolha d'água — e com lacrimejamento claro. Costuma andar junto com rinite. Não tem secreção purulenta, e o olho não gruda. A conjuntivite alérgica grave, com edema palpebral importante, não é anafilaxia e não se trata como tal; o quadro anafilático é sistêmico e tem capítulo próprio nesta apostila.

Duas formas de conjuntivite saem da regra do autolimitado. A primeira é a conjuntivite hiperaguda: instalação em 12 a 24 horas, com secreção purulenta abundante que jorra, edema palpebral intenso e gânglio pré-auricular — o quadro da infecção gonocócica, que atravessa epitélio corneano íntegro e pode perfurar em 48 horas. O protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS a coloca entre as condições de avaliação emergencial, e o tratamento é sistêmico: o esquema é do capítulo de sífilis e outras IST desta apostila. A segunda é a conjuntivite folicular arrastada, de semanas a meses, com folículos no tarso superior e cicatrizes, em pessoa de área endêmica: o tracoma, que ainda existe no Brasil, é doença de vigilância e não se trata com colírio de plantão.

Por fim, o critério de tempo que transforma conjuntivite em encaminhamento. Conjuntivite aguda com secreção catarral ou mucopurulenta que não melhora depois do segundo ou terceiro dia de antibiótico tópico deixa de ser conjuntivite presumida e vira caso para o oftalmologista, segundo o mesmo protocolo. A frase é curta e a consequência é grande: quem prescreve colírio na conjuntivite precisa marcar quando vai reavaliar, porque a data do retorno é parte da segurança do diagnóstico.

Corte do segmento anterior com córnea, câmara anterior, íris, cristalino, corpo ciliar e ângulo de drenagem.
Corte esquemático do segmento anterior. O humor aquoso é produzido pelos processos ciliares, chega à câmara posterior, passa pela pupila e alcança a câmara anterior. Sua principal via de drenagem passa pela malha trabecular e canal de Schlemm no ângulo iridocorneano. O fechamento do ângulo pode elevar rapidamente a pressão; a figura não representa todas as vias de drenagem.

A ceratite e a úlcera de córnea: dor, fotofobia e uma mancha branca

Ceratite é inflamação da córnea, e a úlcera é a ceratite que já perdeu epitélio e escavou estroma. O quadro é reconhecível: olho vermelho unilateral, dor de verdade — a que impede dormir e não passa com analgésico comum —, fotofobia intensa, lacrimejamento, blefaroespasmo, sensação de corpo estranho que não sai, e visão pior, especialmente se a lesão está no eixo visual. A hiperemia é predominantemente perilímbica.

O achado que fecha o caso é visível com uma lanterna: uma mancha branca ou acinzentada na córnea, que normalmente é transparente. Ela pode ter meio milímetro ou ocupar metade da córnea. Qualquer opacidade branca nova numa córnea de olho vermelho e doloroso é úlcera até prova em contrário, e prova em contrário se faz com lâmpada de fenda, não com observação de 48 horas.

A fluoresceína, aplicada em tira ou colírio e observada sob luz azul, transforma um exame duvidoso em diagnóstico: o corante se fixa onde o epitélio faltou e a área desepitelizada brilha em verde. O formato do que capta é o que nomeia a doença, e a leitura dos formatos está no bloco da investigação. Aqui basta a regra: qualquer defeito epitelial num olho vermelho e doloroso muda o caso de categoria, porque córnea sem epitélio é porta aberta para infecção.

Dois detalhes mudam a urgência. O hipópio — camada de pus branco depositada no fundo da câmara anterior, visível como um nível horizontal atrás da córnea inferior — significa que a inflamação já está dentro do olho, e não espera. E a dor desproporcional aos achados, muita dor com pouca coisa visível, é descrita classicamente na fase precoce da ceratite por Acanthamoeba, que o texto brasileiro sobre o assunto registra como frequentemente confundida com ceratite herpética, o que retarda o tratamento específico.

Um caso especial que engana pelo tempo: a ceratite por radiação ultravioleta, do soldador sem máscara ou de quem passou o dia no sol da praia ou da neve. A dor é bilateral, atroz, e começa de seis a doze horas depois da exposição, quando o paciente já não associa uma coisa à outra; a fluoresceína mostra ceratite pontuada difusa nos dois olhos e o quadro cicatriza em 24 a 48 horas. É exatamente nele que o anestésico tópico levado para casa faz a carreira de estrago descrita adiante.

O herpes-zóster oftálmico entra aqui porque muda a conduta inteira. Vesículas em faixa na testa e na pálpebra superior, respeitando a linha média, num paciente com dor e olho vermelho, são zóster do ramo oftálmico do trigêmeo. Quando as lesões alcançam a ponta e a asa do nariz — o sinal de Hutchinson, território do nervo nasociliar, que é o mesmo que inerva a córnea —, a probabilidade de acometimento ocular sobe muito. Esse paciente precisa de antiviral sistêmico começado o quanto antes, e a prescrição está na linha do tempo da conduta.

O usuário de lente de contato é outro paciente

Existe uma regra que dispensa raciocínio e que o interno deve saber de cor: qualquer sintoma agudo em usuário de lente de contato — baixa de visão, dor ou secreção — é encaminhamento oftalmológico de emergência. Está escrita nessas palavras no protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS-UFRGS, e ela existe porque a probabilidade pré-teste muda de categoria. Olho vermelho em quem usa lente não é conjuntivite até prova em contrário; é ceratite até prova em contrário.

A razão é o que a lente faz com as três defesas da córnea. Ela reduz a oxigenação do epitélio, causa microabrasões nas bordas, e serve de superfície para biofilme. Dormir com a lente multiplica o risco. Lavar a lente ou o estojo com água da torneira, ou guardar em solução salina caseira, acrescenta os patógenos da água — e o texto brasileiro sobre ceratite por Acanthamoeba registra o uso de lente de contato como o principal fator de risco e associa as infecções ao uso frequente de solução salina de diluição caseira ou não preservada.

O agente muda o desenho e a velocidade. Pseudomonas aeruginosa é o clássico do usuário de lente: úlcera de progressão muito rápida, com secreção abundante e infiltrado que pode perfurar em um a dois dias. Acanthamoeba é o oposto no tempo e igual no dano: dor desproporcional aos achados, evolução de semanas, resposta parcial a antibiótico que engana todo mundo. Fungo entra depois de trauma vegetal ou de corticoide.

A conduta do interno, portanto, cabe em quatro atos. Retirar a lente imediatamente — a revisão brasileira de olho vermelho na atenção primária recomenda a remoção imediata diante de qualquer sinal ou sintoma de gravidade. Guardar a lente e o estojo num recipiente limpo e mandar junto com o paciente, porque eles podem ser cultivados. Não pingar corticoide, não ocluir, não prescrever colírio anestésico. E acionar o oftalmologista hoje, não amanhã.

Vale acrescentar uma pergunta que quase ninguém faz e que muda o encaminhamento: a lente é de troca diária, quinzenal, mensal ou anual, e há quanto tempo é a mesma? O usuário que estica a vida útil da lente, que completa a solução do estojo em vez de trocá-la, ou que compra lente cosmética colorida sem prescrição, é o que aparece com úlcera — e é o mesmo que vai repetir o comportamento depois de curado se ninguém disser isso em voz alta.

A uveíte anterior, que dói por dentro e encolhe a pupila

A uveíte anterior — irite ou iridociclite — é inflamação da íris e do corpo ciliar. O quadro é de olho vermelho geralmente unilateral, com dor profunda e surda que piora com a luz e com o esforço de foco, fotofobia marcada, lacrimejamento sem secreção purulenta, e visão discretamente embaçada. O olho não gruda de manhã, e é essa combinação — muito incômodo, nenhuma secreção — que deve acender a lâmpada.

Os dois achados de exame são a hiperemia perilímbica e a pupila. A pupila do olho afetado costuma estar menor que a do outro e responder lentamente à luz. Quando já há sinéquias posteriores, ela fica irregular, com contornos em festão. A fotofobia consensual é positiva: iluminar o olho são dói no olho doente. Um olho vermelho unilateral com pupila menor e fotofobia consensual positiva é uveíte anterior até prova em contrário, e essa combinação pode ser reconhecida com uma lanterna de bolso.

A maioria das uveítes anteriores agudas é idiopática, e uma parte grande é o primeiro sinal de doença sistêmica. A associação mais forte é com a espondiloartrite axial e o antígeno HLA-B27: uveíte anterior aguda, unilateral, recorrente e alternando de olho, em adulto jovem com dor lombar inflamatória, é um par que precisa ser reconhecido. Também entram artrite reativa, doença inflamatória intestinal, sarcoidose, Behçet, sífilis, tuberculose e toxoplasmose ocular. A da artrite idiopática juvenil é a exceção: crônica e de olho branco, ela não chega como olho vermelho e só aparece no rastreio com lâmpada de fenda — em Artrite idiopática juvenil: formas clínicas e diagnóstico, na apostila de Imunologia Pediátrica. A investigação sistêmica pertence a quem vai acompanhar: ela é da reumatologia — a espondiloartrite, a causa mais comum, em Espondiloartrites e artrite psoriásica, na apostila de Reumatologia —, e a causa infecciosa entra pelo capítulo de sífilis e outras IST.

O que o interno precisa fixar é a ordem: a uveíte se encaminha primeiro e se investiga depois. O tratamento é corticoide tópico em esquema intensivo mais cicloplégico, e ele exige que alguém tenha visto a câmara anterior com lâmpada de fenda e medido a pressão intraocular — porque corticoide sobe a pressão, e porque a uveíte pode cursar com pressão alta ou baixa. Uveíte suspeita, especialmente com suspeita de toxoplasmose ocular aguda, está entre as condições de encaminhamento em caráter emergencial no protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS.

Não ensinar palpação digital do globo como medida de pressão. A tonometria exige equipamento e exclusão de globo aberto; sua indisponibilidade não deve atrasar a referência de uma emergência.

O glaucoma agudo de ângulo fechado, que é o relógio

É a única causa de olho vermelho cuja janela se mede em horas, e a história é característica o bastante para ser reconhecida por telefone. Dor ocular de início abrupto e violenta, em geral unilateral, referida ao olho, à testa, à têmpora e até ao dente; visão embaçada; halos coloridos em volta de luzes; e náusea e vômito. O protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS-UFRGS resume o quadro em quatro elementos — olho vermelho geralmente unilateral, dor ocular grave de início abrupto, náuseas e vômitos, olho tenso à palpação — e o coloca como encaminhamento para emergência oftalmológica.

Não ensinar palpação digital do globo como medida de pressão. A tonometria exige equipamento e exclusão de globo aberto; sua indisponibilidade não deve atrasar a referência de uma emergência. Cada um desses gestos está descrito na sequência do exame com lanterna, no bloco da investigação, e todos se fazem sem equipamento.

A história tem gatilhos que o interno deve perguntar sempre: a crise começou no escuro, no cinema, ao anoitecer? A pessoa tomou remédio novo — anti-histamínico, escopolamina, antidepressivo, descongestionante — nas últimas horas? Alguém pingou colírio para dilatar a pupila? E já teve episódios parecidos, mais leves, que passaram sozinhos ao dormir? Esses episódios subagudos com halos e dor de cabeça noturna que cedem ao adormecer, porque o sono contrai a pupila, são a antessala do ataque completo, e quase sempre foram tratados como enxaqueca.

Duas armadilhas de triagem matam o campo visual desse paciente. A náusea e o vômito fazem o quadro ser lido como abdome agudo ou gastroenterite, e ele vai para a fila da hidratação. A cefaleia unilateral com fotofobia faz o quadro ser lido como enxaqueca. A diferença está na visão embaçada com halos, na pupila e no globo duro — e é por isso que a lanterna deve entrar em toda cefaleia com olho vermelho.

O que se perde com o tempo é preciso dizer com o nome certo: axônio do nervo óptico. A pressão muito alta estrangula a perfusão do disco óptico, e o campo visual que morre não volta depois que a pressão baixa. É por isso que a régua desse quadro não é ver em quanto tempo consigo vaga, e sim acionar agora, com o paciente já em tratamento na maca enquanto o transporte é resolvido.

Os que parecem e não são

A hemorragia subconjuntival é uma mancha vermelho-viva, uniforme, de bordas nítidas, em que não se distinguem vasos individuais, num olho que não dói, enxerga normalmente e tem pupila normal. Costuma aparecer depois de tosse, espirro, esforço, vômito ou nada. Reabsorve em duas a três semanas mudando de cor. A conduta é medir a pressão arterial, perguntar sobre anticoagulante e antiagregante, tranquilizar e não prescrever colírio. Se for de repetição, ou se houver sangramento em outros sítios, investigar coagulação. Se houve trauma, é outra história — ver a régua do trauma adiante.

A episclerite é hiperemia setorial, num quadrante, de tom rosa-avermelhado, com desconforto leve e sem baixa de visão. A esclerite, já descrita, é a versão grave: dor profunda que acorda à noite, tom azulado, dor à palpação. A distinção prática usa a mobilidade dos vasos: os vasos episclerais deslizam quando se empurra a conjuntiva com um cotonete, os vasos esclerais profundos não deslizam.

A síndrome do olho seco e a blefarite crônica são a causa mais comum de olho vermelho arrastado, de meses, que piora ao fim do dia, com ar-condicionado, telas e leitura. Vêm com sensação de areia, lacrimejamento paradoxal, e borda palpebral espessada, com crostas e telangiectasias; a ceratite pontuada difusa da fluoresceína confirma. O tratamento é mecânico antes de ser farmacológico, e está na conduta.

Hordéolo e calázio são nódulos palpebrais, e não olho vermelho propriamente dito, mas chegam com essa queixa: o hordéolo é agudo e doloroso, o calázio é crônico e endurecido, e ambos respondem a compressa morna e massagem. A celulite periorbitária, com edema e calor de toda a pálpebra e febre, é outra doença: se houver proptose, dor à movimentação ocular, diplopia ou queda de visão, a suspeita é de celulite orbitária, que é internação e antibiótico endovenoso.

Fecha a lista o pterígio, aquela membrana triangular carnosa que cresce do canto nasal em direção à córnea, comum em quem trabalha ao sol. Ele fica vermelho quando irritado e não é urgência. O encaminhamento se justifica quando associado a diminuição da acuidade visual, ou quando sintomático e sem alívio com tratamento clínico.

Quando é trauma — e a única coisa que se faz antes de examinar

A régua do trauma é curta. Se houve impacto, projétil, ferramenta, martelo sobre metal, explosão, corte palpebral, ou contato com produto químico, o caso sai da lógica deste capítulo e entra na do capítulo de trauma desta apostila. E há três achados que, mesmo sem história clara, obrigam a tratar como trauma penetrante: pupila em gota ou deformada, câmara anterior rasa ou com sangue, e conteúdo escuro herniado através da esclera. Diante deles, nada de tocar, nada de pingar, nada de medir pressão pela palpação: protetor rígido sobre o olho — um copo plástico fixado com esparadrapo serve —, jejum, analgesia, antiemético, profilaxia antitetânica e transferência.

A exceção — a única coisa em oftalmologia que se faz antes de qualquer avaliação, inclusive antes de medir acuidade visual — é a queimadura química. Ácido ou álcali no olho, e o relógio começa a correr no segundo do acidente; a técnica e o tempo da irrigação abrem a linha do tempo da conduta. O que importa fixar aqui é por que ela não pode ser interrompida: a série brasileira sobre queimaduras oculares químicas registra a lavagem copiosa com solução salina como primeira medida e registra também que nenhum dos 47 pacientes daquela casuística havia irrigado por tempo suficiente.

A mesma série mostra quem se queima no Brasil: 83% homens, com pico entre 21 e 30 anos, e o agente mais frequente sendo cal e massa fina, com 40% dos casos, seguidos de álcool e de ácidos de limpeza. Álcalis responderam por 55% e ácidos por 32%. Isso não é curiosidade: cal é álcali, e álcali penetra a córnea muito mais fundo que ácido, porque saponifica as membranas celulares e continua avançando depois do contato, enquanto o ácido coagula proteína e faz uma barreira contra si mesmo. Por isso a queimadura por cal de obra, que parece pouco na primeira hora, é a que perde o olho na primeira semana — e por isso partícula de cal presa no fundo de saco tem de ser removida, não só lavada por cima.

Corpo estranho da superfície ocular é a outra fronteira e é frequente: no serviço de urgência oftalmológica de Minas Gerais, corpo estranho respondeu por 49 dos 390 olhos vermelhos, quase 13%. O conjuntival superficial, visível e livre, pode ser removido com irrigação ou haste de algodão umedecida, depois de anestésico instilado uma vez. O corneano, aderido, metálico ou com halo de ferrugem, e qualquer suspeita de penetração intraocular, não são do interno, e o protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS lista corpo estranho ocular entre as condições de avaliação emergencial. A pergunta que decide é sempre a mesma: o que a pessoa estava fazendo? Martelar metal contra metal, esmerilhar ou usar roçadeira produz fragmento de alta velocidade, e esse fragmento entra no olho sem ferida visível e sem dor proporcional.

O recém-nascido, a criança, o idoso e o imunossuprimido

No recém-nascido, olho vermelho com secreção é sempre doença, nunca irritação. A conjuntivite neonatal se organiza pelo tempo de aparecimento e pelo que a mãe teve. Nas primeiras 24 a 48 horas de vida costuma ser química, reação à profilaxia instilada ao nascer, e se resolve sozinha — o protocolo de conjuntivite neonatal de maternidade pública descreve que a conjuntivite química pode ocorrer nas primeiras 24 horas e desaparece em 48. Do segundo ao quinto dia é a janela do gonococo, com secreção purulenta abundante e edema palpebral tenso: é urgência, porque perfura córnea. Da segunda à quarta semana entra a clamídia, com quadro mais arrastado e mucopurulento, muitas vezes acompanhada de pneumonia afebril. O herpes simples aparece de duas maneiras — vesículas e ceratite —, e é o que mais assusta pelo risco de doença disseminada.

Três consequências práticas. A profilaxia feita ao nascimento previne a conjuntivite gonocócica mas não previne a por clamídia, de modo que conjuntivite tardia em recém-nascido profilaticamente tratado continua sendo doença. O tratamento é sistêmico e não é colírio, com os esquemas escritos por extenso na linha do tempo da conduta. E, sempre, os pais entram no tratamento — o que devolve o caso ao capítulo de sífilis e outras IST desta apostila.

Na criança maior, duas coisas mudam. Olho vermelho com dor e baixa de visão tem os mesmos donos do adulto, mas a criança não descreve baixa de visão: ela fecha o olho, encosta a cabeça, para de brincar. E há uma bandeira própria da faixa etária, a alteração do reflexo vermelho — o teste do olhinho —, cuja perda parcial ou total pode significar catarata, retinoblastoma ou retinopatia da prematuridade avançada, e que é encaminhamento oftalmológico obrigatório, sem exceção. O protocolo pediátrico do TelessaúdeRS-UFRGS dá ainda os cortes de acuidade que justificam encaminhamento: 20/50 ou pior aos 3 anos, 20/40 ou pior dos 4 aos 5, 20/30 ou pior dos 6 em diante, e diferença de duas linhas ou mais entre os olhos em qualquer idade.

Conjuntivite na criança tem duas particularidades que mudam prescrição: a associação com otite média — a síndrome conjuntivite-otite, por Haemophilus influenzae não tipável —, em que o tratamento é sistêmico por causa da otite; e a forma membranosa, com película esbranquiçada aderida ao tarso, que precisa de oftalmologista porque pode deixar cicatriz. E há a régua geral da pediatria: criança com olho vermelho, febre alta e comprometimento do estado geral pode estar num quadro exantemático, e a conjuntivite do sarampo é assunto de Doenças exantemáticas: sarampo, rubéola, eritema infeccioso, exantema súbito, na apostila de Infectologia Pediátrica, e a hiperemia não exsudativa da doença de Kawasaki, de Doença de Kawasaki: critérios diagnósticos e tratamento, na mesma apostila.

No idoso, três coisas se somam: a câmara anterior fica mais rasa com o espessamento do cristalino, o que aumenta o risco de fechamento angular; o olho seco é muito mais prevalente e mimetiza tudo; e a apresentação é atípica, com menos dor relatada. Dor de cabeça com vômito em idoso merece uma lanterna no olho antes do soro. E toda baixa súbita de visão nessa faixa pede a pergunta sobre claudicação de mandíbula, dor no couro cabeludo e polimialgia, porque arterite de células gigantes cega o segundo olho em dias se ninguém pensar nela.

No imunossuprimido — quimioterapia, transplante, corticoide crônico, HIV com contagem baixa, diabetes descompensado — a régua se inverte: a inflamação é menor do que a doença, a dor pode ser menor do que a lesão, e um quadro que pareceria banal em outro paciente merece avaliação especializada logo. Ceratite fúngica e por Acanthamoeba, endoftalmite endógena e retinite por citomegalovírus vivem nesse grupo. E no diabético mal controlado, qualquer infecção periocular é potencialmente grave — o que inclui a suspeita de mucormicose rino-orbitária diante de dor facial, edema periorbitário, oftalmoplegia e crosta escura no nariz ou no palato, que é emergência de internação, não de ambulatório.

O paciente que chega já tratado

É uma apresentação por si só e cada vez mais comum: o paciente entra com um frasco na mão, comprado sem receita ou emprestado por parente, e diz que melhorou um pouco e depois piorou. O frasco precisa ser visto, porque o nome dito de memória erra sempre — e três achados do rótulo mudam a conduta na hora. Corticoide ou anestésico: presume-se dano até prova em contrário, e o caso vai para encaminhamento hoje. Vasoconstritor de venda livre, à base de nafazolina ou tetraidrozolina: o uso repetido produz hiperemia de rebote, o olho fica mais vermelho a cada suspensão e isso realimenta o uso, de modo que explicar o rebote antes que ele aconteça é o que evita o retorno ao frasco no terceiro dia. E vale perguntar por colírio de glaucoma que outra pessoa da casa usa: midriático pingado por engano em quem tem ângulo estreito é um dos gatilhos clássicos da crise aguda.

06

Como fechar o diagnóstico

No olho vermelho não existe exame complementar que decida o caso na primeira hora. Não há hemograma que diga se é úlcera, nem tomografia que diga se a pressão está em 60. O que decide é um exame clínico de cinco minutos feito com uma lanterna, uma folha de papel, uma tira de fluoresceína e as próprias mãos — e o erro do interno quase nunca é não saber a doença; é não ter feito esse exame, ou tê-lo feito pela metade.

Por isso o que segue não é uma lista de exames a pedir: é uma sequência de gestos a executar, sempre na mesma ordem, em todo olho vermelho, inclusive nos que vão dar normal. Ela começa pela acuidade visual, que é o dado que o serviço mais deixa de registrar e o que mais pesa depois, na regulação e no encaminhamento.

Acuidade e limites do exame. Medir cada olho com correção habitual, à distância adequada da tabela, e documentar o método se for necessário usar texto, dedos ou percepção luminosa. Melhora pelo orifício estenopeico favorece componente refrativo, mas não exclui doença coexistente. Colírios podem modificar o exame; prefira o registro basal quando isso não atrasar irrigação, analgesia necessária ou atendimento urgente. Eversão, fluoresceína e tonometria não são etapas obrigatórias diante de suspeita de globo aberto.

As três perguntas da porta, e o que cada uma responde

Dói de verdade? A distinção é entre desconforto e dor. Areia, ardor, coceira, sensação de cisco que vai e volta, olho pesado no fim do dia: desconforto, e desconforto é superfície. Dor que impede dormir, que não cede a analgésico comum, que o paciente localiza atrás do olho ou que irradia para a testa e a têmpora: dor, e dor é córnea, íris ou pressão. A pergunta que separa as duas em uma frase é esta — o senhor conseguiu dormir esta noite?

Enxerga pior? A pergunta precisa ser feita olho por olho, com o outro tapado, porque ninguém percebe perda unilateral enquanto tiver um olho bom. E precisa distinguir dois padrões: visão que embaça e clareia ao piscar é filme lacrimal e secreção, e não é sinal de alarme; visão que está embaçada o tempo todo, ou com halos em volta das luzes, ou com um borrão fixo, é opacidade de meios ou doença intraocular, e é alarme.

A pupila está normal? Compara-se com a do outro olho, no mesmo ambiente de luz. Igual e reagindo bem: tranquilizador. Menor e preguiçosa: uveíte. Em posição média, oval e fixa: glaucoma agudo. Irregular, em festão ou em gota: sinéquia ou trauma penetrante. Não há conjuntivite que mexa na pupila, e essa é a razão de a pergunta valer tanto.

Três respostas tranquilizadoras — não dói, enxerga igual, pupila normal — em olho vermelho difuso e com secreção definem conjuntivite com margem confortável, desde que nenhum dos cinco cancelamentos esteja presente. Qualquer um deles anula o tranquilizador, mesmo com as três perguntas respondidas do jeito bom.

Acuidade visual: sempre, olho por olho, e como fazer sem tabela

A acuidade visual é o sinal vital do olho, e o exame ocular sem ela é como avaliar dor torácica sem medir a pressão. Ela precisa ser medida antes de qualquer colírio, olho por olho, com o outro ocluído pela palma da mão do próprio paciente — sem apertar o globo — e com a correção que ele usa. O protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS-UFRGS descreve a técnica: tabela de optotipos com a linha 20/20 na altura dos olhos, distância marcada no chão, preferencialmente entre 4 e 6 metros, cobrindo primeiro o olho esquerdo para medir o direito; considera-se como acuidade a última linha em que o paciente acerta os optotipos, e se acertar apenas parte da linha registra-se a linha de cima. Anota-se se foi com ou sem correção.

A tabela nem sempre existe, e é aí que a maioria dos serviços simplesmente não mede. Existe uma escada de improviso que funciona, e ela deve ser registrada com o método usado. Primeiro degrau: qualquer texto impresso serve como teste de perto, a 40 centímetros, com a correção de leitura se o paciente usa — anote o menor tamanho de letra que ele lê, por exemplo lê bula de remédio, lê manchete de jornal mas não lê o corpo do texto. Segundo degrau: se não lê nada, conte dedos, aproximando-se até ele acertar, e registre a distância — conta dedos a 2 metros, conta dedos a 50 centímetros. Terceiro: se não conta dedos, mova a mão diante do olho e registre movimentos de mão. Quarto: se não vê a mão, ilumine com a lanterna de várias direções e registre percepção e projeção luminosa. Quinto: se não percebe luz, registre ausência de percepção luminosa, que é o pior desfecho possível e muda a prioridade do encaminhamento inteiro.

Existe um truque que separa perda por opacidade de perda por refração e custa dez segundos: o teste do orifício estenopeico. Fure um cartão com a ponta de uma agulha ou de uma caneta, e peça ao paciente que olhe através do furo. Se a visão melhora, boa parte da perda é erro de refração ou opacidade de meios que o furo compensa — o quadro é menos grave do que parecia. Se não melhora, a perda é retiniana, do nervo óptico ou de opacidade densa. Um cartão furado no bolso do jaleco é o equipamento oftalmológico com melhor relação entre custo e informação que existe.

Dois cuidados fecham a técnica. Meça antes de pingar qualquer coisa, porque anestésico, corante e midriático mudam o valor e a validade do registro. E, na criança pequena que ainda não informa acuidade, avalie por comportamento: se ela fixa e segue um objeto com cada olho separadamente, e se protesta ao ter um olho ocluído mais do que o outro — protesto assimétrico significa que o olho descoberto enxerga pior.

O que se faz com o número é o que importa. Acuidade normal e simétrica num olho vermelho é um dos maiores tranquilizadores da medicina de plantão. Acuidade pior do que a do outro olho, ou pior do que a habitual do paciente, num olho vermelho, é encaminhamento — o protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS-UFRGS coloca a diminuição de acuidade visual aguda, ou associada a sintomas de gravidade como dor ocular e olho vermelho, como primeira condição de avaliação oftalmológica emergencial.

Cinco quadros mostram leitura próxima, contagem de dedos, movimento de mão e percepção ou não de luz.
Da esquerda para a direita: leitura próxima, contagem de dedos, movimentos de mão, percepção luminosa e ausência de percepção luminosa. Quando faltam optotipos, esses métodos permitem documentar a função visual, mas leitura informal não equivale a medida padronizada. Avalie cada olho separadamente e registre método, distância e correção usada. A urgência depende também do início e do contexto; não é preciso chegar ao último estágio para haver emergência.

O exame com a lanterna, em sete gestos

Primeiro gesto: olhe as pálpebras e a pele em volta antes de olhar o olho. Vesículas em faixa na testa e na pálpebra superior, respeitando a linha média, são zóster oftálmico, e lesões na ponta ou na asa do nariz — o sinal de Hutchinson — sobem muito a chance de doença ocular. Edema quente de toda a pálpebra com febre é celulite. Crostas na borda ciliar são blefarite. Nódulo é hordéolo ou calázio. Laceração palpebral é trauma.

Segundo gesto: descreva o padrão da hiperemia iluminando de frente e depois de lado — difusa e mais forte na periferia, anel denso colado ao limbo, setorial num quadrante, ou mancha vermelho-sangue sem vasos visíveis dentro. Essa frase é o que vai escrito no prontuário, e não a palavra hiperemia sozinha.

Terceiro gesto: olhe a córnea contra o reflexo da lanterna. Numa córnea normal, o reflexo do ponto luminoso é único, nítido e redondo, e a íris atrás dela aparece com desenho detalhado. Reflexo distorcido, córnea sem brilho, ou desenho da íris apagado como visto através de um vidro embaçado, significam edema ou opacidade corneana. Procure ativamente qualquer mancha branca, mesmo mínima.

Quarto gesto: olhe a câmara anterior. Um nível de líquido esbranquiçado no fundo dela é hipópio, e um nível de sangue é hifema — ambos são encaminhamento imediato. E faça a iluminação oblíqua: com a lanterna encostada na têmpora do paciente, projetando o feixe rasante à superfície da íris, uma câmara de profundidade normal ilumina a íris toda, enquanto uma câmara rasa deixa a metade nasal em sombra. Sombra nasal em olho vermelho e doloroso sugere ângulo estreito.

Quinto gesto: compare as pupilas em luz ambiente e depois com a lanterna, uma de cada vez, observando tamanho, forma e velocidade de reação; em seguida, ilumine o olho são e pergunte se dói no olho doente.

Sexto gesto: everta a pálpebra superior em todo olho vermelho com sensação de corpo estranho, e não apenas quando o paciente conta um acidente. Peça que ele olhe para baixo, segure os cílios, apoie uma haste de algodão sobre o sulco da pálpebra e vire. Corpo estranho subtarsal é comum, invisível sem eversão, e produz uma dor e um risco de arranhadura corneana que somem em segundos depois de removido.

Não ensinar palpação digital do globo como medida de pressão. A tonometria exige equipamento e exclusão de globo aberto; sua indisponibilidade não deve atrasar a referência de uma emergência. O conjunto de dor intensa, baixa visual, córnea turva e pupila pouco reativa já justifica suspeita de fechamento angular e atendimento imediato. Não comprimir o olho para obter uma sensação subjetiva de dureza.

A fluoresceína, que é o exame complementar deste capítulo

A fluoresceína é o único recurso diagnóstico de bancada que muda decisão no olho vermelho, e ela é barata, rápida e subutilizada. O corante não atravessa epitélio íntegro; onde o epitélio faltou, ele se prende ao estroma exposto e brilha em verde sob luz azul de cobalto — a luz azul do oftalmoscópio direto serve, e muitas lanternas clínicas têm o filtro.

A técnica cabe em quatro passos. Meça a acuidade visual antes. Instile uma gota de anestésico tópico se o blefaroespasmo impedir o exame — uma vez, no serviço, nunca receitado. Umedeça a tira de fluoresceína com soro fisiológico e toque de leve a conjuntiva do fundo de saco inferior, ou pingue uma gota do colírio; peça que o paciente pisque. Observe com luz azul, procurando a área que capta.

O que a fluoresceína responde, em ordem de importância. Existe defeito epitelial? Se existe, o caso mudou de categoria, porque córnea desepitelizada é porta aberta para infecção. Qual o formato? Área única, arredondada ou geográfica, com fundo esbranquiçado e infiltrado: úlcera infecciosa, encaminhamento hoje. Linha ramificada com bulbos terminais: dendrito herpético, encaminhamento hoje e nenhum corticoide jamais. Pontilhado difuso: olho seco, exposição, toxicidade de colírio ou ceratite ultravioleta. Linhas verticais paralelas na córnea superior: corpo estranho no tarso, everta a pálpebra. Erosão linear ou em mapa sem infiltrado, com história de arranhadura: abrasão corneana simples.

Há um achado raro e decisivo que a fluoresceína entrega e que quase ninguém procura: o sinal de Seidel. Numa perfuração corneana, o aquoso vaza pelo orifício e dilui o corante, e vê-se um filete claro correndo dentro do verde, como uma nascente. Seidel positivo é ferida aberta do globo: nada de pressão, protetor rígido e transferência imediata.

Duas cautelas. Fluoresceína mancha permanentemente lentes de contato gelatinosas — retire a lente antes, o que de todo modo já estava indicado. E a fluoresceína não é anestésico nem tratamento: ela responde uma pergunta e sai de cena.

O que não pedir, e o que custa pedir

Não existe painel laboratorial de olho vermelho. Hemograma, velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa não distinguem conjuntivite de ceratite e não se pedem por causa do olho; eles entram quando há pergunta sistêmica — febre com celulite orbitária, suspeita de arterite de células gigantes no idoso com baixa súbita de visão, investigação de uveíte recorrente conduzida por quem vai acompanhar.

Cultura de secreção conjuntival não é rotina da conjuntivite do adulto. Ela tem lugar em três situações: conjuntivite hiperaguda com suspeita de gonococo, conjuntivite neonatal, e ceratite com úlcera — e nesta última a coleta é raspado corneano feito pelo oftalmologista com lâmpada de fenda, não swab de secreção colhido no plantão. Colher swab de conjuntiva sem que ninguém vá interpretar o resultado atrasa a conduta e produz um crescimento de flora que confunde.

Tomografia e ressonância de órbita não fazem parte da avaliação do olho vermelho: entram quando a pergunta é orbitária ou traumática — celulite orbitária, corpo estranho intraocular ou intraorbitário, fratura, processo expansivo. A radiografia simples de órbita tem um único uso residual e ainda válido: rastrear corpo estranho metálico antes de uma ressonância, na história de martelar metal.

Vale dizer o custo de investigar o que não precisa, porque ele não é financeiro. Cada exame pedido no plantão adia a decisão que já estava tomada, e no glaucoma agudo o adiamento é medido em axônios. Um hemograma normal num olho com úlcera tranquiliza quem pediu e não muda nada no olho. E a vaga de oftalmologia consumida por um pterígio assintomático é a vaga que falta para o usuário de lente de contato com dor: numa rede em que 22 unidades da federação têm menos de um oftalmologista para cada 17 mil habitantes, encaminhamento sem critério é uma forma de negar atendimento a outra pessoa.

E o custo que menos aparece: o exame pedido substitui o exame físico. Quem pede tomografia não everteu a pálpebra, não pingou fluoresceína, não comparou as pupilas e não mediu acuidade — e é justamente esse conjunto de gestos que teria feito o diagnóstico em cinco minutos, de graça, na própria sala.

O diferencial, que mora dentro do exame

Separar as causas de olho vermelho não é exercício de memória, porque cada gesto do exame já exclui um grupo enquanto confirma outro. A acuidade normal exclui, na prática, glaucoma agudo e úlcera central. A pupila normal e reativa exclui uveíte e glaucoma agudo. A fluoresceína negativa exclui defeito epitelial, o que tira ceratite ulcerativa e abrasão da mesa. A hiperemia difusa periférica com secreção e sem dor deixa quase só conjuntivite de pé. É o mesmo raciocínio de sempre: o achado que confirma um é o que exclui o outro.

Cinco padrões respondem por quase tudo, e a tabela do bloco seguinte é a página deste capítulo para levar impressa. A ordem de raciocínio que a produz: comece pela lateralidade e pelo tempo — bilateral e gradual empurra para conjuntivite e alergia, unilateral e súbito para glaucoma agudo, uveíte, ceratite e trauma. Some a secreção: purulenta abundante é bacteriana, aquosa é viral, ausente com muita dor é intraocular. Some a dor e a visão. E, no fim, some os cinco cancelamentos, que reclassificam qualquer quadro para cima.

Não se esqueça das causas que nem são do olho. Cefaleia em salvas produz olho vermelho unilateral com lacrimejamento, ptose e miose, em crises de 15 a 180 minutos, no mesmo horário — o olho é um efeito, não a doença. Fístula carótido-cavernosa dá olho vermelho com vasos em saca-rolhas, proptose pulsátil e sopro que se ausculta na órbita. Doença de Graves dá hiperemia com retração palpebral e proptose. Rosácea ocular dá blefarite crônica com telangiectasias da face. E a conjuntivite que não passa com nada, em adulto jovem sexualmente ativo, pode ser clamidiana — folicular, arrastada por semanas, com gânglio pré-auricular, e que se trata por via sistêmica, no capítulo de sífilis e outras IST desta apostila.

Fica de fora deste capítulo, e vale a remissão, a baixa de visão sem olho vermelho. Catarata, erros de refração e glaucoma crônico de ângulo aberto estão no capítulo O olho que não dói, sobre perda visual sem olho vermelho, e retinopatia diabética e hipertensiva, no capítulo O laudo que volta — os dois desta apostila. A régua que os separa daqui é justamente a que abre este bloco: olho vermelho que enxerga mal é urgência hoje; olho branco que enxerga mal é ambulatório quando a perda veio devagar, e também é urgência hoje quando veio de uma vez.

O que a rede entrega, e o que mandar junto no encaminhamento

O que existe numa unidade básica ou num pronto atendimento geral brasileiro é pouco e é suficiente para tudo o que este capítulo pede: lanterna, oftalmoscópio direto com luz azul, soro fisiológico, fluoresceína em tira ou colírio, anestésico tópico para exame, hastes de algodão e uma tabela de optotipos impressa — que custa uma folha e uma fita métrica no chão. Das medicações, o Componente Básico da Rename 2024 traz gentamicina em pomada e em solução oftálmica, cloridrato de tetraciclina em pomada oftálmica, hipromelose como lubrificante, e também dexametasona oftálmica, timolol e pilocarpina. Ter na prateleira não é ter indicação: três desses frascos só se abrem com quem examinou com lâmpada de fenda.

O que não existe na maior parte da rede é o que decide o caso na oftalmologia: lâmpada de fenda e tonômetro. É por isso que o encaminhamento não é um pedido de segunda opinião — é o próprio exame que falta. Dizer isso ao paciente com essas palavras evita a leitura de descaso: o senhor precisa de um exame que esta unidade não tem, e ele se faz com um aparelho que amplia o olho e mede a pressão dentro dele.

O conteúdo do encaminhamento é o que decide se ele será regulado com a prioridade certa, e o protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS-UFRGS lista o mínimo descritivo: sinais e sintomas; se há diminuição de acuidade visual; a medida da acuidade visual de cada olho, informando se foi feita com ou sem lente corretiva; o tratamento já realizado; e o número da teleconsultoria, se o caso foi discutido com o serviço de telessaúde. Não ensinar palpação digital do globo como medida de pressão. A tonometria exige equipamento e exclusão de globo aberto; sua indisponibilidade não deve atrasar a referência de uma emergência. São quatro frases que fazem o regulador entender em dez segundos por que este caso é de hoje.

Vale saber como a rede está organizada para receber esse pedido. Desde a Portaria SAES nº 181, de 11 de junho de 2024, a oftalmologia entra em Ofertas de Cuidados Integrados no âmbito do Programa Mais Acesso a Especialistas, e o protocolo municipal de Curitiba registra que as ofertas de oftalmologia realizam avaliação, diagnóstico e retorno em até 60 dias. Sessenta dias é um prazo excelente para catarata e péssimo para úlcera de córnea — por isso a urgência não entra por essa porta: resolve-se por contato direto com o serviço de referência, com o paciente saindo com o encaminhamento na mão e, quando possível, com hora marcada.

Um último ponto, operacional e frequentemente esquecido: a teleoftalmologia já é parte da rede em vários estados e resolve a fila do que não é urgente — acuidade visual, refração, pressão intraocular, documentação fotográfica do segmento anterior e do fundo de olho, pálpebras e reflexos pupilares —, deixando a consulta presencial para quem precisa dela. O que ela explicitamente não atende são as alterações oculares agudas que necessitam pronto atendimento. Saber disso muda o encaminhamento de dois pacientes por plantão: o olho vermelho crônico com baixa visão vai para o telediagnóstico, e a vaga presencial fica para o olho que dói.

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As três velocidades do olho vermelho

Todo olho vermelho sai da sala em uma de três velocidades: agora, hoje ou semanas. A maioria absoluta sai na terceira, e é justamente por isso que a primeira precisa de uma lista escrita — o que se faz muitas vezes seguidas deixa de ser conferido. O fluxo abaixo é a ordem em que essa velocidade se decide, e não a ordem em que o diagnóstico se fecha: na conjuntivite o diagnóstico é presumido, e a decisão sai mesmo assim.

  1. 1Houve contato com produto químico? Irrigue primeiro. Soro fisiológico ou água corrente limpa, pálpebras evertidas, por 20 a 30 minutos no mínimo, sem interromper para examinar. Só depois da irrigação começa a avaliação.
  2. 2Houve impacto, projétil, ferramenta ou corte? É trauma: protetor rígido, sem pressão sobre o globo, jejum, analgesia, antiemético, profilaxia antitetânica e transferência. Pupila em gota, hifema, câmara rasa ou Seidel positivo entram aqui mesmo sem história clara.
  3. 3Meça a acuidade visual de cada olho separadamente, antes de qualquer colírio, e registre o método usado — tabela, texto impresso, contagem de dedos, movimentos de mão ou percepção luminosa.
  4. 4Faça as três perguntas: dói de verdade, enxerga pior, a pupila está normal? Qualquer sim para as duas primeiras, ou qualquer não para a terceira, tira o paciente da fila da conjuntivite.
  5. 5Confira os cinco cancelamentos, que reclassificam para cima mesmo com as três perguntas respondidas do jeito bom: usuário de lente de contato, recém-nascido, imunossuprimido, história de trauma e uso prévio de colírio com corticoide ou anestésico.
  6. 6Não ensinar palpação digital do globo como medida de pressão. A tonometria exige equipamento e exclusão de globo aberto; sua indisponibilidade não deve atrasar a referência de uma emergência.
  7. 7Pingue fluoresceína e olhe com luz azul. Registre se há defeito epitelial e qual o formato: geográfico com infiltrado, dendrítico, pontuado difuso, linear vertical, ou nenhum.
  8. 8Se há suspeita de glaucoma agudo, úlcera de córnea, endoftalmite, conjuntivite hiperaguda, sintoma agudo em usuário de lente de contato, trauma penetrante ou queimadura química: velocidade AGORA. Telefone para o serviço de referência antes do encaminhamento escrito, e trate na maca enquanto o transporte é resolvido.
  9. 9Se há uveíte aguda, zóster oftálmico, corpo estranho corneano, baixa de acuidade sem causa definida, ou conjuntivite sem melhora no segundo ou terceiro dia de antibiótico tópico: velocidade HOJE, com o serviço avisado e o papel na mão do paciente.
  10. 10Se nada disso aparece e o quadro é de conjuntivite, alergia, olho seco, blefarite, hemorragia subconjuntival ou episclerite: tratamento com prazo escrito, orientação de transmissão quando couber, e retorno marcado com data — nunca apenas o aviso de voltar se piorar.
  11. 11Reavalie no prazo combinado, e reavalie a decisão, não só o olho: o paciente que voltou pior é um paciente novo, e a sequência inteira se refaz, começando pela acuidade visual.

Agora — a janela é de horas

Glaucoma agudo de ângulo fechado, úlcera de córnea, endoftalmite, conjuntivite hiperaguda com secreção purulenta abundante, qualquer sintoma agudo em usuário de lente de contato, trauma penetrante e queimadura química. Telefone dado antes do papel, tratamento iniciado na maca, transporte resolvido pelo serviço. Nesta faixa o atraso não custa desconforto: custa axônio do nervo óptico e transparência de córnea, e o que se perde não volta.

Hoje — avaliado antes do fim do dia

Uveíte anterior aguda, herpes-zóster oftálmico com sinal de Hutchinson, corpo estranho corneano ou com halo de ferrugem, baixa de acuidade visual sem causa definida, e conjuntivite que não melhorou depois do segundo ao terceiro dia de antibiótico tópico. O paciente sai com o encaminhamento escrito, o serviço avisado e a acuidade visual de cada olho registrada no papel — sem esses três, o caso vira fila comum.

Semanas — ambulatório regulado

Conjuntivite viral, bacteriana ou alérgica sem sinal de alarme, olho seco, blefarite, hemorragia subconjuntival, episclerite, pterígio sintomático e calázio. Tratamento escrito com dose e prazo, orientação de transmissão, e retorno com data marcada. A imagem e o exame de sangue não entram, e o encaminhamento só entra se o prazo do tratamento passar sem resposta.

Cinco padrões de olho vermelho — o que os separa e para onde cada um vai

PadrãoDor, visão e pupilaO que o denuncia ao exameVelocidade
Conjuntivite (viral, bacteriana, alérgica)Desconforto, não dor; visão preservada ou que clareia ao piscar; pupilas iguais e reativasHiperemia difusa, mais forte longe da córnea; secreção; bilateral ou que virou bilateral; gânglio pré-auricular na viral; coceira na alérgica; fluoresceína negativaSemanas: tratamento com prazo e retorno com data. Encaminhar se não melhorar no 2º ao 3º dia de antibiótico tópico
Ceratite e úlcera de córneaDor forte que impede dormir; fotofobia intensa; visão pior se a lesão for central; pupila normal ou pequena por reaçãoHiperemia perilímbica; mancha branca na córnea; fluoresceína positiva — geográfica com infiltrado, ou dendrítica com bulbo terminal; hipópio nos casos gravesAgora. Retirar lente de contato, guardar lente e estojo, nenhum corticoide, nenhuma oclusão
Uveíte anterior (irite, iridociclite)Dor profunda em peso que piora com a luz e com o foco; fotofobia consensual positiva; visão discretamente embaçada; pupila MENOR e lenta, às vezes irregularHiperemia perilímbica; sem secreção purulenta; olho que não gruda de manhã; história de dor lombar inflamatória, artrite, doença intestinal ou infecçãoHoje. O tratamento exige lâmpada de fenda e medida de pressão; a investigação sistêmica vem depois
Glaucoma agudo de ângulo fechadoDor violenta de início abrupto irradiada para testa e dente; visão embaçada com halos coloridos; pupila em posição MÉDIA, oval e fixaNão ensinar palpação digital do globo como medida de pressão. A tonometria exige equipamento e exclusão de globo aberto; sua indisponibilidade não deve atrasar a referência de uma emergência.Agora, e é o único cujo relógio se conta em horas. Telefonar antes de escrever
Os que parecem e não sãoSem dor verdadeira, sem baixa de visão e sem alteração pupilar em todos elesHemorragia subconjuntival: mancha uniforme sem vasos visíveis. Episclerite: setorial, vasos que deslizam. Olho seco e blefarite: crônico, pior no fim do dia, ceratite pontuada. Pterígio: membrana triangular nasalSemanas ou nenhuma. Medir pressão arterial na hemorragia; lubrificante e higiene palpebral no olho seco; esclerite, que dói à palpação e acorda à noite, sai desta linha e vai para HOJE

O que não se prescreve no olho vermelho sem lâmpada de fenda — e o mecanismo do dano

O que não se prescrevePor que a tentação existeO mecanismo do dano
Colírio ou pomada com corticoide (dexametasona, prednisolona, fluormetolona) — isolado ou combinado com antibióticoReduz vermelhidão e desconforto em horas, e a dexametasona oftálmica a 0,1% está no Componente Básico da Rename 2024, isto é, na prateleira da unidadePromove a replicação viral e é totalmente contraindicado na infecção epitelial herpética ativa, transformando dendrito em úlcera geográfica; suprime a defesa local e libera fungo e ameba; inibe a reepitelização e a síntese de colágeno, de modo que a úlcera afina e perfura; e eleva a pressão intraocular nos respondedores
Colírio anestésico (proparacaína, tetracaína) para levar para casaAbole a dor em vinte segundos, e o paciente atribui a ele o alívio de um quadro que dói muito, como a ceratite ultravioleta do soldadorÉ tóxico para o epitélio corneano, inibindo a mitose e a migração das células que fechariam o defeito, e abole o piscar reflexo e o lacrimejamento protetores. Ainda mascara a piora: um olho anestesiado não avisa. O uso repetido leva a ceratite tóxica, epitélio que não cicatriza e, no extremo, perfuração
Oclusão ocular (curativo compressivo, tampão) em olho infectado ou em usuário de lente de contatoParece proteger e alivia a fotofobia; foi rotina por décadas na abrasão corneanaCria câmara quente, úmida e sem piscar sobre córnea sem epitélio — o meio ideal para crescimento bacteriano — e acelera exatamente o processo que se quer parar. Ainda impede a reavaliação, que é o que sustenta a segurança do caso
Colírio vasoconstritor de venda livre (nafazolina, tetraidrozolina) por mais de alguns diasClareia o olho na hora e o paciente vê o resultado no espelhoProduz hiperemia de rebote: a cada suspensão o olho fica mais vermelho, o que realimenta o uso e cria um olho vermelho crônico iatrogênico. Além disso, apaga o sinal — um olho artificialmente branco esconde a hiperemia perilímbica que decidiria o caso
Colírio midriático ou cicloplégico iniciado sem avaliação especializadaAlivia a dor da uveíte ao paralisar o corpo ciliar e previne sinéquiasEm olho com ângulo estreito, dilatar a pupila é o gatilho clássico da crise de fechamento angular. Sem lâmpada de fenda e sem medida de pressão, quem pinga não sabe em qual dos dois olhos está pingando
Antibiótico tópico como resposta automática a qualquer olho vermelhoParece a conduta cuidadosa e custa trinta segundos, contra dez minutos de explicaçãoNão trata conjuntivite viral nem alérgica, que são a maioria; produz toxicidade de superfície e alergia ao conservante; seleciona resistência; e converte um caso não resolvido em caso tratado, adiando por dias a suspeita de ceratite ou uveíte

Os cinco cancelamentos — quadros em que olho vermelho nunca é apenas conjuntivite

SituaçãoO que mudaConduta imediata
Usuário de lente de contato com qualquer sintoma agudo — baixa de visão, dor ou secreçãoA probabilidade pré-teste muda de categoria: é ceratite até prova em contrário, com Pseudomonas em um a dois dias e Acanthamoeba em semanas de dor desproporcionalRetirar a lente na hora, guardar lente e estojo para cultura, nada de corticoide, nada de oclusão, encaminhamento de emergência
Recém-nascido com olho vermelho e secreçãoNunca é irritação. Primeiras 24 a 48 horas: química, da profilaxia. Do 2º ao 5º dia: gonococo, que perfura córnea. Da 2ª à 4ª semana: clamídia. Em qualquer momento: herpesTratamento sistêmico, não colírio; cultura de conjuntiva colhida após higiene com soro; avaliação oftalmológica; e tratamento dos pais, pelo capítulo de sífilis e outras IST desta apostila
Imunossuprimido — quimioterapia, transplante, corticoide crônico, HIV com contagem baixa, diabetes descompensadoA inflamação visível é menor que a doença, e entram ceratite fúngica e por Acanthamoeba, endoftalmite endógena e retinite por citomegalovírusLimiar baixo para encaminhar, mesmo com quadro aparentemente banal. Dor facial com edema periorbitário, oftalmoplegia e crosta escura no nariz é suspeita de mucormicose: internação
História de trauma, mesmo antiga ou aparentemente trivialMuda a lógica inteira do caso. Martelar metal contra metal, esmerilhar e roçar produzem fragmento de alta velocidade que entra sem ferida visívelProtetor rígido sem pressão, sem colírio, jejum, profilaxia antitetânica, transferência. O manejo é do capítulo de trauma desta apostila
Uso prévio de colírio com corticoide ou anestésico, comprado sem receita ou emprestadoUm olho que piorou sob corticoide é herpes, úlcera bacteriana ou ceratite fúngica até que alguém com lâmpada de fenda diga o contrárioVer o frasco, não confiar no nome dito de memória; suspender; encaminhar hoje; e registrar no encaminhamento o que foi usado e por quanto tempo

Hiperemia perilímbica é o achado que mais muda decisão no olho vermelho e o que menos aparece escrito nos prontuários. Descrever apenas hiperemia conjuntival, sem dizer onde ela é mais densa, é o equivalente ocular de escrever abdome doloroso sem dizer em qual quadrante — o regulador que lê o encaminhamento não consegue priorizar, e o caso entra na fila comum.

As três velocidades não são graus de gravidade percebida; são prazos de perda irreversível. O glaucoma agudo perde campo visual enquanto se espera, a úlcera de córnea troca dor por opacidade permanente no eixo visual, e a conjuntivite não perde nada. Quem tratar as três com o mesmo grau de urgência vai, na prática, tratar todas com a urgência da terceira.

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A conduta, hora a hora

A conduta do olho vermelho tem duas metades desproporcionais. A primeira, que ocupa quinze minutos e decide tudo, é classificar a velocidade. A segunda, que ocupa uma receita, é tratar o que ficou na velocidade lenta — e é curta de propósito, porque a maior parte do que se escreveria não deveria ser escrito.

As doses estão por extenso, com a apresentação que existe no Componente Básico da Rename 2024, porque prescrição sem dose, via, frequência e duração é a informação que falta justamente quando o interno está sozinho. Onde a fonte brasileira aberta define o esquema, ele vem citado; onde a decisão é do capítulo, isso está dito, com o motivo. E nenhum marco de velocidade Agora se resolve com prescrição: todos se resolvem com um telefonema dado antes do papel, e o que se prescreve neles serve para atravessar o tempo do transporte, não para tratar a doença.

Tratar de acordo com o tecido e a causa. Na conjuntivite alérgica, compressa fria, lubrificação e anti-histamínico tópico ou estabilizador de mastócitos, conforme disponibilidade e contraindicações, costumam agir melhor nos sintomas oculares que anti-histamínico oral isolado. Conjuntivite bacteriana simples pode ser autolimitada; decidir antibiótico por gravidade, evolução e contexto, e não somente por creche ou diabetes. Calázio sem infecção associada não requer antibiótico rotineiro; compressas mornas e avaliação da persistência orientam a conduta. Lesão recorrente no mesmo ponto ou atípica exige avaliação. Persistência de dor após abrasão pede reexame para corpo estranho retido, infecção, erosão recorrente e outro diagnóstico, sem rotular toda persistência de infecção.

Situações infecciosas específicas. Suspeita de conjuntivite gonocócica no adulto requer cultura quando viável, oftalmologia urgente e ceftriaxona 1 g IM em dose única no regime CDC, com avaliação de alergia e tratamento de clamídia quando não excluída conforme população e protocolo. No zóster oftálmico, antiviral sistêmico deve começar cedo; início após 72 horas ainda pode ser apropriado se novas lesões, acometimento ocular ou imunossupressão. Ajustar à função renal e organizar avaliação ocular. Conjuntivite neonatal não deve ser classificada apenas pelo dia de início.

  1. Minuto 0 — se houve produto químico

    Em exposição química, iniciar irrigação imediatamente, com água limpa se não houver solução apropriada; não esperar história, acuidade ou transporte. Retirar lentes e partículas acessíveis com técnica delicada e inspecionar fundos de saco quando seguro. Irrigar até pH próximo do fisiológico (cerca de 7–7,2), reavaliado após pausa de 5–10 minutos; tempo e volume não são pontos fixos de parada. Não neutralizar ácido com base ou vice-versa. Providenciar avaliação oftalmológica urgente.

  2. Minuto 1 — a triagem que decide a velocidade

    Antes de qualquer colírio: dói de verdade, enxerga pior, a pupila está normal? E a conferência dos cinco cancelamentos: lente de contato, recém-nascido, imunossupressão, trauma, corticoide ou anestésico prévios. Esse minuto vale mais que todo o resto do plantão, e ele é o que quase nunca é feito quando há quatro pulseiras verdes na mesma fila.

    Prescrição
    • Nada. É o único marco da linha do tempo em que a conduta correta é não prescrever coisa alguma antes de terminar.
  3. Minuto 5 — acuidade visual de cada olho, registrada

    Com o outro olho tapado pela palma da mão do próprio paciente, sem apertar o globo, e com a correção que ele usa. Tabela de optotipos entre 4 e 6 metros quando existir; texto impresso a 40 centímetros, contagem de dedos com a distância anotada, movimentos de mão ou percepção luminosa quando não existir. O orifício estenopeico ajuda a reconhecer componente refrativo; não exclui lesão associada. Documente a acuidade e as condições do teste sem atrasar cuidados urgentes. O valor vai para o prontuário e para o encaminhamento — sem ele, o caso não é priorizado pela regulação.

    Prescrição
    • Nada a prescrever. O orifício estenopeico ajuda a reconhecer componente refrativo; não exclui lesão associada. Documente a acuidade e as condições do teste sem atrasar cuidados urgentes.
  4. Minuto 10 — os sete gestos e a fluoresceína

    Não ensinar palpação digital do globo como medida de pressão. A tonometria exige equipamento e exclusão de globo aberto; sua indisponibilidade não deve atrasar a referência de uma emergência. Depois, fluoresceína e luz azul. Ao fim desses dez minutos o caso já está classificado, e o que vem a seguir é execução.

    Prescrição
    • Fluoresceína sódica em tira estéril umedecida com soro fisiológico 0,9%, ou fluoresceína sódica 1% solução oftálmica, 1 gota no fundo de saco inferior, aplicação única para exame. Cloridrato de proparacaína 0,5% solução oftálmica, 1 gota, dose única, apenas se o blefaroespasmo impedir o exame. Retirar lente de contato antes: a fluoresceína mancha lentes gelatinosas de forma permanente.
  5. Hora 0 — suspeita de glaucoma agudo de ângulo fechado

    Suspeita de fechamento angular agudo exige contato e transferência imediatos. Tratar dor e vômito e, com supervisão, iniciar redução da pressão sem aguardar o transporte. Acetazolamida 500 mg oral ou intravenosa é uma dose inicial usual, após avaliar função renal, doença hepática, distúrbios eletrolíticos e reação grave prévia ao medicamento. Timolol 0,5%, uma gota, requer avaliar asma, bradicardia e bloqueio cardíaco. Monitorar resposta quando possível. Outros hipotensores, hiperosmótico e pilocarpina dependem do mecanismo, pressão e avaliação especializada; pilocarpina não é automática em toda crise. O tratamento definitivo usual do fechamento por bloqueio pupilar é iridotomia, com avaliação do outro olho. Monitorar resposta quando possível. Posição confortável e segura, sem obrigar decúbito sem travesseiro.

  6. Hora 0 — úlcera de córnea, ou qualquer sintoma agudo em usuário de lente de contato

    Infiltrado corneano em usuário de lente exige avaliação oftalmológica imediata. Retirar a lente, preservar lente e estojo para possível microbiologia e iniciar tratamento antimicrobiano tópico com cobertura apropriada, inclusive para Pseudomonas, em articulação com a referência. Colher raspado antes quando indicado e prontamente viável, sobretudo em úlcera central, grande, profunda ou atípica, mas não adiar tratamento por horas apenas para preservar cultura. Evitar oclusão e corticoide empírico; frequência inicial intensiva e seguimento próximo dependem da gravidade.

  7. Hora 0 — conjuntivite hiperaguda, endoftalmite e conjuntivite do recém-nascido

    Conjuntivite neonatal precisa de avaliação urgente etiológica e sistêmica. Na suspeita gonocócica, colher material sem atrasar antibiótico e investigar disseminação. O CDC recomenda ceftriaxona 25–50 mg/kg IM ou IV, dose única, máximo 250 mg; referências brasileiras antigas utilizam teto de 125 mg, diferença que deve ser conciliada com o protocolo neonatal vigente. Considerar hiperbilirrubinemia, prematuridade e cálcio intravenoso antes de ceftriaxona; cefotaxima 100 mg/kg em dose única é alternativa prevista pelo CDC quando ceftriaxona não pode ser usada. Tratamento tópico isolado não basta para gonococo. Clamídia e herpes exigem regimes sistêmicos próprios e avaliação pediátrica. Investigar e tratar mãe e parceiros quando houver IST identificada ou suspeita pertinente, sem prescrever o mesmo tratamento a todos indistintamente. Tratamento tópico isolado não basta para gonococo.

  8. Hora 0 a 6 — uveíte anterior aguda e herpes-zóster oftálmico

    A uveíte não é emergência de minutos, mas é encaminhamento do mesmo dia: o tratamento exige lâmpada de fenda e medida de pressão, e sinéquias formadas nas primeiras 48 horas deixam sequela pupilar permanente. Não inicie o corticoide você. No zóster oftálmico, ao contrário, o antiviral sistêmico é do interno e quanto antes melhor: a janela de benefício máximo é de 72 horas do início das vesículas.

    Prescrição
    • Uveíte: analgesia com dipirona 500 mg comprimido, 1 a 2 comprimidos por via oral de 6 em 6 horas, máximo 4 g ao dia; óculos escuros para conforto; encaminhamento com data e horário. Nenhum corticoide tópico e nenhum midriático iniciados no plantão. Herpes-zóster oftálmico: aciclovir 200 mg comprimido (Componente Básico da Rename 2024), 4 comprimidos por dose — 800 mg — por via oral, 5 vezes ao dia, por 7 dias; são 20 comprimidos por dia e 140 comprimidos no total, e a receita precisa dizer isso com todas as letras, senão a farmácia dispensa quantidade insuficiente. A escolha de 800 mg cinco vezes ao dia por 7 dias é do capítulo, por ser o esquema consagrado do zóster no adulto imunocompetente; em disfunção renal a dose muda, e o ajuste está no capítulo de ajuste de dose desta apostila. Somar analgesia e encaminhamento oftalmológico no mesmo dia se houver sinal de Hutchinson, dor ocular, baixa de visão ou olho vermelho.
  9. Dia 0 — conjuntivite viral, que é a mais comum

    O tratamento é sintomático e a conduta principal é a conversa. Explique o curso — de uma a três semanas, com piora esperada do quarto ao sexto dia e o segundo olho pegando em dois a três dias — e explique a transmissão, que é o que evita cinco casos novos: lavar as mãos com frequência, não compartilhar toalha, fronha e maquiagem, não coçar, e afastar-se de contato próximo enquanto houver secreção. Antibiótico tópico não encurta nada aqui e não previne nada.

    Prescrição
    • Compressas frias sobre as pálpebras fechadas, 10 minutos, 3 a 4 vezes ao dia. Higiene das pálpebras com soro fisiológico 0,9% ou água fervida e fria, com gaze limpa, sempre do canto interno para o externo, uma gaze por olho. Hipromelose 0,5% solução oftálmica (Componente Básico da Rename 2024), 1 gota em cada olho, 4 a 6 vezes ao dia, por 7 a 10 dias, para conforto — o protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS-UFRGS usa a faixa de 3 a 6 vezes ao dia como o padrão de lubrificação ocular. Dipirona 500 mg comprimido, 1 a 2 comprimidos por via oral de 6 em 6 horas se houver desconforto importante, máximo 4 g ao dia. Retorno em 3 a 5 dias com data marcada, e retorno imediato se houver dor verdadeira, baixa de visão ou fotofobia.
  10. Dia 0 — conjuntivite bacteriana presumida

    Se o quadro for de conjuntivite bacteriana simples, decidir tratamento tópico por gravidade, duração, contexto e seguimento; muitos casos são autolimitados. Não usar antibiótico como teste que confirma ou exclui a hipótese. Piora, dor, fotofobia ou baixa visual requerem reavaliar córnea e outros diagnósticos. Secreção hiperpurulenta com suspeita gonocócica pede atendimento urgente e tratamento sistêmico, não apenas troca de colírio.

    Prescrição
    • Quando indicado, escolher antibiótico tópico e duração conforme protocolo local, considerando toxicidade de superfície, alergia e uso de lente.
    • Orientar higiene, não compartilhar frasco e retornar antes se dor, fotofobia ou alteração visual; não iniciar corticoide empírico.
  11. Dia 0 — conjuntivite alérgica

    O sintoma que a define é coceira. O tratamento tem três degraus e o primeiro é o que mais funciona e menos se faz: afastar o alérgeno e parar de esfregar, porque esfregar libera mais histamina dos mastócitos e alimenta o ciclo. Compressa fria é anti-histamínico de graça. Corticoide tópico ocular não entra nesta prescrição em nenhuma circunstância sem lâmpada de fenda, mesmo com quadro exuberante. E conjuntivite alérgica grave, com edema palpebral importante, não é anafilaxia: o quadro anafilático tem capítulo próprio nesta apostila.

    Prescrição
    • Afastamento do alérgeno identificado e orientação explícita de não esfregar os olhos. Compressas frias sobre as pálpebras fechadas, 10 minutos, 3 a 4 vezes ao dia. Hipromelose 0,5% solução oftálmica (Componente Básico da Rename 2024), 1 gota em cada olho 4 a 6 vezes ao dia, que dilui e remove o alérgeno da superfície além de lubrificar; manter o frasco na geladeira aumenta o alívio. Loratadina 10 mg comprimido (Componente Básico da Rename 2024), 1 comprimido por via oral 1 vez ao dia, por 7 a 14 dias, quando houver rinite associada ou sintomas sistêmicos; em criança, loratadina 1 mg/mL xarope, conforme peso e idade. Sem antibiótico tópico e sem corticoide tópico.
  12. Dia 0 — abrasão corneana simples, sem infiltrado e sem lente de contato

    Arranhadura por unha, galho, papel ou remoção de corpo estranho superficial, com fluoresceína mostrando defeito de bordas limpas, sem mancha branca, sem hipópio e em quem não usa lente de contato. Cicatriza em 24 a 72 horas. Não ocluir. Não prescrever anestésico. Reavaliar em 24 a 48 horas é obrigatório, porque abrasão que não fecha no prazo é abrasão infectada.

    Prescrição
    • Abrasão exige analgesia, remoção segura de corpo estranho superficial quando possível, exclusão de penetração e seguimento pela dimensão, localização e evolução.
    • Profilaxia tópica é especialmente importante em usuário de lente ou trauma contaminado; escolher cobertura apropriada ao risco e ao protocolo. Aminoglicosídeo não é escolha universal para toda abrasão.
    • Não ocluir, não usar lente até cicatrização e liberação, e não fornecer anestésico para uso domiciliar indiscriminado.
  13. Dia 0 — olho seco, blefarite, hordéolo e calázio

    São o olho vermelho crônico do ambulatório e respondem a medidas mecânicas mais do que a colírio. A higiene palpebral é a base: compressa morna para liquefazer a secreção das glândulas, massagem da borda no sentido dos cílios e limpeza com gaze. Feita duas vezes ao dia por semanas, resolve a maioria dos casos; feita por três dias, não resolve nenhum — e dizer isso ao paciente é parte do tratamento.

    Prescrição
    • Compressa morna sobre as pálpebras fechadas, 5 a 10 minutos, seguida de massagem da borda palpebral e limpeza com gaze umedecida, 2 vezes ao dia por no mínimo 4 semanas. Hipromelose 0,3% ou 0,5% solução oftálmica (Componente Básico da Rename 2024), 1 gota em cada olho de 3 a 6 vezes ao dia — a faixa é a do protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS, que usa a falta de alívio com lubrificante ocular 3 a 6 vezes ao dia por 1 mês como critério de encaminhamento. Calázio sem infecção associada não requer antibiótico rotineiro; compressas mornas e avaliação da persistência orientam a conduta.
  14. Antes de assinar — a receita que não se escreve

    Este é o marco que mais evita dano no capítulo inteiro, e ele é uma conferência de trinta segundos sobre o papel já escrito. Se qualquer um dos seis itens abaixo estiver ali, o problema não é a droga: é que o caso não foi classificado.

    Prescrição
    • Conferir e riscar, se houver: corticoide tópico ocular isolado ou combinado com antibiótico; colírio anestésico para uso domiciliar; oclusão ocular em olho infectado, em usuário de lente de contato ou em queimadura química; colírio vasoconstritor de venda livre para uso prolongado; midriático ou cicloplégico iniciado sem avaliação especializada; e antibiótico tópico prescrito reflexamente a olho vermelho sem secreção purulenta. Conferir ainda três ausências que são erro por omissão: a acuidade visual de cada olho registrada, a data do retorno escrita no papel, e a lista do que faz o paciente voltar antes — dor que piora, visão que piora, mancha branca no olho e halos em volta das luzes.
  15. Dia 2 a 3 — a reavaliação marcada

    É a consulta que sustenta a segurança de todo diagnóstico presumido deste capítulo. Refaça acuidade visual, padrão da hiperemia, pupila e fluoresceína, e compare com o que está escrito. O critério do protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS vale como régua: conjuntivite aguda com secreção catarral ou mucopurulenta sem melhora depois do segundo ao terceiro dia de antibiótico tópico é encaminhamento oftalmológico. Piora da dor, queda de acuidade, opacidade corneana nova ou hiperemia perilímbica reclassificam o caso na hora.

    Prescrição
    • Se melhorou: manter o esquema até completar 5 a 7 dias, reforçar higiene e transmissão, alta com orientação de retorno se houver dor, baixa de visão ou fotofobia. Se não melhorou ou piorou: suspender o antibiótico tópico, não trocar por outro colírio às cegas, e encaminhar hoje com a acuidade visual comparada entre as duas consultas escrita no papel — a comparação é o dado que faz o regulador entender a urgência.
  16. Dia 7 a 14 — alta, ou reencaminhamento com o que mudou

    Conjuntivite viral pode ainda estar sintomática na segunda semana e isso não é falha: o que decide alta é a acuidade preservada, a ausência de dor e a curva de melhora. Olho vermelho que passou de duas a três semanas sem diagnóstico firme deixa de ser agudo e muda de lista — entram olho seco, blefarite, rosácea ocular, conjuntivite clamidiana do adulto, tracoma em área endêmica, esclerite e uveíte crônica. Nenhum deles se resolve com mais um ciclo de antibiótico tópico.

    Prescrição
    • Alta com orientação escrita de retorno se houver dor verdadeira, baixa de visão, fotofobia, mancha branca ou halos. Se persistir além de 2 a 3 semanas: encaminhamento ambulatorial regulado, com o histórico completo de todos os colírios usados, a acuidade visual de cada consulta e a descrição do padrão da hiperemia — e a suspeita nomeada, porque encaminhamento sem hipótese volta da regulação.
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Como saber se está funcionando

No olho vermelho, a pergunta está funcionando tem resposta objetiva e barata, e ela quase sempre é ignorada: a acuidade visual medida do mesmo jeito, com o mesmo método, e comparada com o número anterior. Adjetivo não se compara; 20/40 comparado com 20/25 se compara.

A régua geral é simples de enunciar e difícil de sustentar num plantão cheio: melhora é dor que cai, secreção que reduz e acuidade que se mantém ou sobe. Piora é qualquer um dos três indo para o outro lado, e piora não se responde trocando de colírio — responde-se reabrindo o diagnóstico.

Há um sinal traiçoeiro que precisa ser dito antes da tabela: dor que some sem que a visão melhore pode ser piora disfarçada de melhora. Acontece na ceratite herpética de repetição, quando a córnea perde sensibilidade, e acontece quando o paciente usa anestésico tópico por conta própria. Olho que parou de doer e continua enxergando mal não recebeu alta.

Acuidade visual de cada olho, pelo mesmo método da primeira medidaEm toda reavaliação, sempre antes de qualquer colírio da consulta

Esperado: Igual ou melhor que na consulta anterior; na conjuntivite deve estar preservada desde o início

Se não melhora: Queda de uma linha ou mais reclassifica o caso para HOJE, mesmo que o olho pareça melhor. Encaminhar com os dois valores escritos lado a lado e a data de cada um

Dor — a pergunta é se conseguiu dormir48 a 72 horas na conjuntivite; 24 a 48 horas na abrasão corneana

Esperado: Desconforto decrescente na conjuntivite; na abrasão, dor forte nas primeiras 24 horas e queda nítida depois

Se não melhora: Dor que aumenta, ou que passa a impedir o sono, é ceratite, uveíte ou pressão alta até prova em contrário. Não ensinar palpação digital do globo como medida de pressão. A tonometria exige equipamento e exclusão de globo aberto; sua indisponibilidade não deve atrasar a referência de uma emergência.

Padrão da hiperemia, descrito por onde é mais densaEm toda reavaliação

Esperado: Difusa e decrescente na conjuntivite; a periferia clareia antes do resto

Se não melhora: Aparecimento ou aumento do anel perilímbico é mudança de categoria: encaminhamento no mesmo dia, mesmo que a secreção tenha diminuído

Fluoresceína — existe defeito epitelial, e ele diminuiu?24 a 48 horas na abrasão corneana; sempre que houver dor persistente

Esperado: Abrasão simples fecha em 24 a 72 horas, com área que encolhe visivelmente a cada dia

Se não melhora: Defeito persistente, infiltrado ou piora de dor e visão exige reexame urgente para infecção, corpo estranho retido, erosão recorrente e outras causas; a persistência não confirma sozinha etiologia infecciosa.

Secreção — volume, aspecto e se retorna logo depois de limpa48 a 72 horas na conjuntivite bacteriana presumida

Esperado: Redução clara do volume e passagem de purulenta a mucosa até o 3º dia

Se não melhora: O critério do protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS vale como corte: sem melhora depois do 2º ao 3º dia de antibiótico tópico, é encaminhamento oftalmológico — e não troca de colírio

Pupila comparada com a do outro olhoEm toda reavaliação de olho vermelho unilateral

Esperado: Simétrica e reativa; se estava menor por uveíte, deve voltar a responder com o tratamento do especialista

Se não melhora: Pupila que ficou irregular indica sinéquia instalada — o tratamento atrasou. Pupila que passa a média e fixa é pressão alta: emergência agora

O segundo olho72 horas na conjuntivite viral; sempre na uveíte e no glaucoma agudo

Esperado: Na viral, o segundo olho pega em 2 a 3 dias com quadro mais brando — é evolução esperada

Se não melhora: Segundo olho com dor e baixa de visão não é contágio: é doença bilateral, e muda a lista inteira para uveíte, doença sistêmica e toxicidade de colírio

Adesão e técnica de instilaçãoEm toda reavaliação em que o esquema parece ter falhado

Esperado: O paciente sabe puxar a pálpebra inferior, pingar no fundo de saco, não encostar o bico do frasco no olho e esperar 5 minutos entre colírios diferentes

Se não melhora: Antes de declarar falha terapêutica, peça que ele demonstre com o próprio frasco. Gota que escorre pela bochecha e frasco contaminado explicam boa parte do que se chama de refratariedade

Uso de colírio não prescrito entre as consultasEm toda reavaliação, com a pergunta feita em voz alta e o frasco pedido

Esperado: Nenhum colírio além do prescrito

Se não melhora: Corticoide, anestésico ou vasoconstritor iniciados por conta própria mudam o caso de categoria: um olho que piorou sob corticoide vai para encaminhamento hoje, com o nome e o tempo de uso escritos no papel

Pressão arterial e uso de anticoagulante, na hemorragia subconjuntivalNa primeira consulta e no retorno, se houver recorrência

Esperado: Mancha que muda de cor e reduz ao longo de 2 a 3 semanas, sem dor e sem alteração de visão

Se não melhora: Recorrência, sangramento em outros sítios ou hipertensão não controlada mudam o alvo: a investigação passa a ser sistêmica, e o olho deixa de ser o problema

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Onde o erro machuca

Prescrever colírio com corticoide, ou com a combinação antibiótico mais corticoide, a um olho vermelho que não foi examinado com lâmpada de fenda

O dano: Com herpes epitelial, o corticoide promove a replicação viral e converte um dendrito superficial em úlcera geográfica profunda em dias. Com úlcera bacteriana ou fúngica, suprime a defesa local e inibe a reepitelização e a síntese de colágeno, de modo que a córnea afina e pode perfurar. E eleva a pressão intraocular em quem responde

Como pegar a tempo: Regra sem exceção para quem não tem lâmpada de fenda: nenhum corticoide tópico ocular. Se a inflamação parece exigir corticoide, o que ela exige de verdade é o oftalmologista. Ver o frasco que o paciente trouxe antes de qualquer decisão, porque muitos combinados de venda balcão contêm corticoide e o paciente não sabe

Entregar colírio anestésico para o paciente usar em casa, tipicamente na ceratite ultravioleta do soldador ou na abrasão corneana

O dano: Ceratite tóxica: a droga inibe a mitose e a migração das células epiteliais, abole o piscar reflexo e o lacrimejamento protetores e mascara a piora. O epitélio para de fechar, aparece infiltrado em anel, e casos avançados evoluem para necrose e perfuração. O paciente, que sente alívio imediato, aumenta a frequência por conta própria

Como pegar a tempo: Anestésico tópico é instrumento de exame: uma gota, no serviço, sob os seus olhos. Nunca vai na receita e nunca vai na sacola. Para a dor, analgesia sistêmica escrita com dose, e a explicação de que a dor cede em 24 a 48 horas com a cicatrização

Tratar como conjuntivite o olho vermelho de quem usa lente de contato

O dano: Ceratite por Pseudomonas progride e pode perfurar em um a dois dias; ceratite por Acanthamoeba avança por semanas com dor desproporcional aos achados e é frequentemente confundida com herpética, o que retarda o tratamento específico. Em ambos, o desfecho é opacidade no eixo visual, transplante de córnea ou perda do olho

Como pegar a tempo: A pergunta sobre lente de contato entra na triagem, não na anamnese detalhada — antes de qualquer colírio. Diante de qualquer sintoma agudo em usuário de lente, retirar a lente, guardar lente e estojo para cultura e encaminhar como emergência

Deixar de medir e registrar a acuidade visual de cada olho separadamente

O dano: Perde-se o único parâmetro objetivo de gravidade e de evolução: sem ele, a reavaliação vira impressão, o encaminhamento perde prioridade na regulação e a piora só é percebida quando já é irreversível. Perda unilateral passa despercebida porque o paciente enxerga com o outro olho e não se queixa

Como pegar a tempo: Medir antes de qualquer colírio, olho por olho, com o outro tapado pela palma do próprio paciente. Sem tabela, usar a escada do improviso — texto impresso, contagem de dedos com a distância, movimentos de mão, percepção luminosa — e registrar o método junto do resultado

Triar a fila de olho vermelho pela intensidade do vermelho

O dano: Prioriza-se ao contrário: no serviço de urgência oftalmológica de Minas Gerais, 85% dos 390 olhos vermelhos tinham hiperemia apenas mínima ou leve, e a doença cegante não está no grupo dos olhos mais vermelhos — está no grupo dos que doem e não enxergam. Quem tria por cor manda o glaucoma agudo para o fim da fila

Como pegar a tempo: Triar pelas três perguntas — dor, visão, pupila — e não pela aparência. Colocar a acuidade visual de cada olho na ficha de classificação de risco muda o comportamento do serviço inteiro

Ler náusea e vômito com dor de cabeça como quadro abdominal ou como enxaqueca no idoso

O dano: É a apresentação clássica do glaucoma agudo, e o paciente passa horas em hidratação e antiemético enquanto a pressão intraocular estrangula o disco óptico. O campo visual perdido nessas horas não volta depois que a pressão baixa

Como pegar a tempo: Não ensinar palpação digital do globo como medida de pressão. A tonometria exige equipamento e exclusão de globo aberto; sua indisponibilidade não deve atrasar a referência de uma emergência. Perguntar por halos coloridos em volta das luzes e por episódios anteriores que passaram ao dormir

Ocluir o olho — curativo compressivo ou tampão — em olho infectado, em usuário de lente de contato ou depois de queimadura química

O dano: Cria câmara quente, úmida e sem piscar sobre córnea sem epitélio, que é o meio ideal para crescimento bacteriano, e acelera exatamente o processo que se quer parar. Ainda impede a reavaliação, que é o que sustentava a segurança do caso

Como pegar a tempo: Para fotofobia, óculos escuros. Para dor, analgesia sistêmica. Oclusão não acelera a cicatrização da abrasão corneana simples e não tem lugar em olho infectado, em usuário de lente nem em queimadura química

Interromper cedo a irrigação da queimadura química, ou pará-la para examinar

O dano: Álcali continua penetrando depois do contato, porque saponifica membranas celulares e avança em profundidade — foi o agente de 55% dos casos numa série brasileira, com cal e massa fina liderando com 40%. A série registra que a totalidade dos pacientes irrigou por tempo insuficiente, e o dano final do álcali é definido justamente nos primeiros minutos

Como pegar a tempo: Irrigar por 20 a 30 minutos no mínimo, sem interromper, com as pálpebras evertidas e removendo grumos de cal com haste de algodão. Examinar depois. Acuidade visual depois. O único gesto que antecede a irrigação é deitar o paciente

Encaminhar o olho vermelho grave apenas por escrito, sem telefonar, ou marcar retorno com a fórmula volte se piorar

O dano: Encaminhamento escrito entra em fila regulada — nas ofertas de cuidados integrados de oftalmologia o prazo de avaliação e diagnóstico chega a 60 dias, o que é adequado para catarata e fatal para úlcera de córnea. E volte se piorar transfere ao paciente uma decisão clínica que ele não tem como tomar: ele não sabe que halo colorido é sinal de pressão alta

Como pegar a tempo: Nas velocidades AGORA e HOJE, telefonar antes de escrever, e resolver transporte. Sempre marcar data de retorno no papel e escrever, em linguagem do paciente, quatro gatilhos de retorno imediato: dor que piora, visão que piora, mancha branca no olho e halos em volta das luzes

Aceitar o nome do colírio dito de memória, sem pedir o frasco

O dano: Combinações de antibiótico com corticoide são vendidas com nomes comerciais que o paciente memoriza como colírio para o olho, e a informação de que houve corticoide é justamente a que muda a categoria do caso. Sem ela, um olho já lesado recebe mais dias de conduta expectante

Como pegar a tempo: Pedir o frasco em todas as consultas — o de casa, o do vizinho, o que sobrou de um tratamento antigo. Ler o rótulo em voz alta e escrever o princípio ativo e o tempo de uso no prontuário e no encaminhamento

Tratar o recém-nascido com secreção ocular usando colírio e reavaliação em uma semana

O dano: Conjuntivite gonocócica neonatal perfura córnea em dias, e a clamidiana costuma vir acompanhada de pneumonia afebril. O tratamento tópico não é efetivo na clamídia, e a profilaxia feita ao nascimento previne a gonocócica mas não previne a por clamídia — de modo que o recém-nascido profilaticamente tratado continua em risco

Como pegar a tempo: Todo recém-nascido com olho vermelho e secreção recebe avaliação no dia, cultura de conjuntiva colhida após higiene com soro fisiológico, tratamento sistêmico conforme o agente e encaminhamento dos pais para tratamento — o que devolve o caso ao capítulo de sífilis e outras IST desta apostila

Pingar midriático para examinar o fundo de olho num paciente com câmara anterior rasa

O dano: Dilatar a pupila em olho com ângulo estreito é um dos gatilhos clássicos da crise de fechamento angular, e o quadro que começa uma hora depois costuma ser atribuído à doença, não ao colírio. O mesmo vale para anti-histamínicos, escopolamina, antidepressivos tricíclicos e descongestionantes sistêmicos em quem já tem o ângulo estreito

Como pegar a tempo: Antes de dilatar, fazer a iluminação oblíqua com a lanterna: se a metade nasal da íris fica em sombra, a câmara é rasa e a dilatação sai da mão do plantão. E, no idoso com dor ocular aguda depois de medicação nova, perguntar o que foi tomado nas últimas horas antes de investigar qualquer outra coisa

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O que dizer ao paciente e à família

Metade do desfecho do olho vermelho depende de três frases ditas na hora certa: por que este caso é hoje e aquele é semana que vem, o que vai fazer o paciente voltar antes, e por que não se prescreve o colírio que já o ajudou uma vez. Nenhuma é intuitiva, e todas se perdem quando a consulta termina no papel da receita.

A dificuldade específica desta queixa é que o paciente vê o próprio olho no espelho e chega com uma teoria pronta: está vermelho, o vizinho tinha igual, o colírio do vizinho resolveu. Discutir o diagnóstico sem antes reconhecer a observação dele transforma orientação em disputa. E há o pedido que aparece em quase todo plantão — doutor, passa um colírio forte —, em que forte, no vocabulário do balcão, quase sempre quer dizer com corticoide: responder apenas que não pode soa como economia, e responder com o mecanismo, em vinte segundos e em português, muda o comportamento do paciente inclusive na próxima vez, quando ninguém estiver olhando.

Explicar por que não vai receitar o colírio que o paciente pediu, ou que já usou antes

Esse colírio que o senhor usou tem cortisona. Ela tira o vermelho rápido, é verdade, e é por isso que muita gente gosta dele. O problema é que ela desliga a defesa do olho. Se por trás desse vermelho existir uma ferida na parte transparente do olho, a cortisona faz a ferida crescer e afinar, e essa parte pode furar. Não dá para saber se existe ferida sem um aparelho que eu não tenho aqui. Então eu prefiro te mandar hoje para quem tem esse aparelho, e enquanto isso te dar o que alivia sem esconder o problema.

Não diga: Não diga apenas que é contraindicado, nem que não pode. E não diga que o colírio é fraco ou forte — o vocabulário de potência é exatamente o que faz o paciente procurar outro médico que receite o forte.

Dizer que a conjuntivite viral vai piorar antes de melhorar

O que a senhora tem é uma conjuntivite de vírus. Ela dura de uma a três semanas, e eu preciso te avisar de uma coisa agora para a senhora não se assustar: entre o quarto e o sexto dia costuma piorar. Fica mais vermelho, lacrimeja mais, e o outro olho geralmente pega também. Isso é o caminho normal da doença, não é o remédio falhando. O que me faria querer te ver antes é outra coisa, e eu vou escrever aqui no papel.

Não diga: Não prometa melhora em três dias para tranquilizar. A promessa quebrada é o que faz o paciente procurar outro serviço, receber antibiótico ou corticoide e sair pior.

Ensinar os gatilhos de retorno imediato, em linguagem do paciente

Vou escrever aqui quatro coisas. Se qualquer uma acontecer, não espere a data do retorno, venha na hora. Primeira: dor de verdade, do tipo que não deixa dormir. Segunda: enxergar pior — e para saber isso a senhora tapa um olho de cada vez, todo dia, e compara. Terceira: aparecer uma manchinha branca na parte transparente do olho. Quarta: ver um arco-íris ou um halo em volta das luzes. Essas quatro são as que a gente não pode deixar passar.

Não diga: Não diga volte se piorar. Piorar é palavra ampla demais e o paciente vai calibrar por vermelhidão, que é justamente o sinal que não serve.

Explicar a urgência do glaucoma agudo a um paciente com dor e vômito, e à família

A pressão dentro do olho da senhora subiu muito, de uma vez. É isso que está causando a dor, o embaçado e o enjoo. Essa pressão machuca o nervo que leva a visão para o cérebro, e o pedaço de visão que se perde não volta. Por isso eu já liguei para o oftalmologista e a senhora vai agora, não amanhã. Aqui eu vou começar um comprimido e um colírio para baixar a pressão e um remédio para a dor e para o enjoo, enquanto o transporte chega.

Não diga: Não diga que é uma inflamação no olho para simplificar, e não minimize com vai passar. Este é o quadro em que a percepção de urgência da família é o que garante que o paciente saia da unidade.

Falar com o usuário de lente de contato, sem culpar e sem amenizar

Quem usa lente tem um risco diferente, e por isso eu trato o teu caso de outro jeito desde já. A lente reduz o oxigênio da parte transparente do olho e vira uma superfície onde bactéria gruda. Dormir com ela multiplica isso, e lavar com água da torneira acrescenta germe que a água tem. Não estou dizendo isso para te dar bronca; estou dizendo porque tem infecção que anda muito rápido nesse cenário. Vou tirar a lente agora, guardar a lente e o estojo para exame, e te encaminhar hoje.

Não diga: Não pergunte se ele dorme com a lente com tom de reprovação — a resposta vira mentira e você perde o dado. E não devolva a lente no fim da consulta.

Explicar a transmissão sem produzir isolamento desnecessário

Pega, sim, e pega principalmente pela mão. O caminho é este: a pessoa coça o olho, encosta na maçaneta, no celular, na toalha, e outra pessoa leva a mão ao próprio olho. Então o que mais resolve é lavar as mãos com frequência e não dividir toalha, fronha nem maquiagem. Enquanto tiver secreção, evite trabalho de contato próximo. Não precisa ficar trancado em casa nem separar prato e talher.

Não diga: Não use o afastamento como medida genérica. Afastamento vago sem prazo produz perda de renda e nenhuma redução de transmissão; a lavagem de mãos, essa sim, reduz.

Dizer que ainda não se sabe o que é, sem perder a confiança

Vou ser direto com o senhor: pelo que examinei hoje, isto tem cara de conjuntivite, e é o mais provável. Mas o exame que separa com certeza uma coisa da outra usa um aparelho que amplia o olho, e ele não existe aqui. Então o meu plano tem duas partes: trato o mais provável agora, e marco a sua volta para daqui a três dias para conferir se está seguindo o caminho esperado. Se sair do caminho, eu mudo de hipótese e te mando para quem tem o aparelho.

Não diga: Não invente certeza para tranquilizar, e não diga que não é nada. Nomear a incerteza junto com o plano é o que sustenta a confiança quando o quadro muda.

Explicar a hemorragia subconjuntival, que assusta e não é nada

Esse sangue no branco do olho é um vasinho que rompeu, como um roxo na pele. Não afeta a visão, não vai para dentro do olho e não é sinal de derrame. Vai mudar de cor e sumir sozinho em duas a três semanas. Não precisa de colírio. O que eu vou fazer hoje é medir sua pressão do braço e perguntar sobre remédios que afinam o sangue, porque é isso que às vezes está por trás.

Não diga: Não prescreva colírio para dar alguma coisa. Prescrever aqui ensina que toda mancha vermelha precisa de remédio, e é assim que se cria o próximo usuário crônico de vasoconstritor.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Antibiótico tópico na conjuntivite bacteriana presumida: por quanto tempo, e o que fazer no terceiro dia

Curso completo de 7 a 10 dias

A revisão brasileira de olho vermelho não traumático na atenção primária trata o antibiótico tópico como o tratamento padrão da conjuntivite bacteriana aguda e escreve que o tratamento tópico geralmente é feito com antibiótico tópico por 7 a 10 dias. A lógica é de erradicação: curso completo reduz recidiva, reduz o período de transmissão e cobre o paciente que não vai voltar para reavaliação — realidade frequente em rede com acesso difícil.

Miranda BA, Reis C, Botteon CS. Importância do diagnóstico diferencial de olho vermelho não traumático na atenção primária: uma revisão da literatura. Rev Med Minas Gerais. 2021;31:e31202

Curso curto com decisão no 2º ao 3º dia

O protocolo de encaminhamento estadual constrói o critério de encaminhamento em cima de um corte precoce: conjuntivite aguda com secreção catarral ou mucopurulenta sem melhora após o 2º ao 3º dia de antibiótico tópico é caso de avaliação oftalmológica. O achado apoia uma hipótese, mas não confirma sozinho a etiologia. Falta de resposta exige reavaliar diagnóstico, adesão, agente e complicações.

TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de encaminhamento para Oftalmologia Adulto. Porto Alegre, 2017

Como decidir

Decida pelo acesso do paciente e pela gravidade do que você não excluiu. Se ele volta em três dias com facilidade, o curso curto com reavaliação marcada é superior, porque converte o antibiótico em teste com prazo e captura mais cedo o caso que não era conjuntivite. Se ele mora longe, veio de ônibus e não tem como retornar — perfil de três quartos dos pacientes do serviço público de urgência ocular estudado —, o curso completo protege contra a perda de seguimento, e a compensação é escrever com muito mais detalhe os quatro gatilhos de retorno imediato. Em criança em creche, imunossuprimido e diabético, ambas as posições convergem para tratar. E em nenhuma delas se troca de antibiótico no terceiro dia sem resposta: o que muda é a hipótese, não a droga.

Ceratite herpética epitelial: antiviral tópico ou sistêmico, quando o tópico não existe no serviço

Antiviral tópico, com debridamento

A revisão brasileira de ceratite herpética descreve como conduta da doença epitelial o debridamento associado à introdução de antiviral tópico, e é essa a lógica clássica: o vírus está replicando no epitélio, e a droga aplicada na superfície alcança concentração alta exatamente onde está a lesão, com pouca exposição sistêmica. Ela também é a fonte da regra que não se negocia neste quadro — os corticosteroides são totalmente contraindicados na vigência de infecção epitelial herpética ativa, porque promovem a replicação viral.

Freitas D, Alvarenga L, Lima ALH. Ceratite herpética. Arq Bras Oftalmol. 2001;64(1)

Antiviral sistêmico, porque é o que a rede tem

O Componente Básico da Rename 2024 traz aciclovir em comprimido de 200 mg, creme dermatológico a 5% e pó para solução injetável de 250 mg, e nenhuma apresentação oftálmica — de modo que, na farmácia da unidade básica brasileira, a via disponível para tratar herpes ocular é a sistêmica. A lógica aqui é de exequibilidade: um esquema que não pode ser dispensado não é conduta, e a via oral alcança concentração terapêutica na córnea com adesão melhor que a de um colírio de instilação horária.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília, 2024

Como decidir

Esta escolha não é do interno, e reconhecer isso é a decisão. Ceratite herpética se confirma com lâmpada de fenda e coloração da córnea, e o desenho do dendrito pode ser imitado por abrasão em cicatrização e por toxicidade de colírio. O que o interno decide é a velocidade — encaminhamento hoje — e o que ele não faz: nenhum corticoide, nenhum anestésico para casa, nenhuma oclusão. Se a transferência vai demorar mais de 24 horas e o quadro é típico, a conversa telefônica com o oftalmologista define se o antiviral sistêmico começa antes, e essa conversa fica registrada no prontuário com o nome de quem orientou. No paciente imunossuprimido e no herpes-zóster oftálmico, o antiviral sistêmico já é conduta do plantão, e aí a divergência desaparece.

Glaucoma agudo: quem inicia o hipotensor, o plantonista ou o oftalmologista

Encaminhar, sem iniciar medicação

O protocolo de encaminhamento estadual coloca a suspeita de glaucoma agudo — olho vermelho geralmente unilateral, dor ocular grave de início abrupto, náuseas e vômitos, olho tenso à palpação — como encaminhamento para emergência oftalmológica, e não prescreve nada ao serviço que encaminha. A lógica é diagnóstica: o tratamento definitivo é a iridotomia, cada droga tem contraindicação relevante e efeito paradoxal possível, e a medicação iniciada às cegas pode confundir o quadro que o especialista vai receber.

TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de encaminhamento para Oftalmologia Adulto. Porto Alegre, 2017

Iniciar a redução pressórica onde o paciente está

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Glaucoma publica os esquemas de administração de timolol 0,5% (1 gota, 2 vezes ao dia), pilocarpina 2% (1 gota de 6 em 6 horas), acetazolamida em comprimido de 250 mg (1 comprimido por via oral até de 6 em 6 horas) e manitol 20% intravenoso, e todos esses itens, exceto o manitol, estão no Componente Básico da Rename 2024. A lógica é de tempo: a perda de campo visual é proporcional à duração da pressão alta, e num país em que 22 unidades da federação têm menos de um oftalmologista para cada 17 mil habitantes, o intervalo até o especialista é medido em horas de transporte.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Glaucoma. Portaria SAS/MS nº 1.279, de 19 de novembro de 2013; e Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024

Como decidir

Decida pelo tempo até o especialista e pela reversibilidade do erro. Se o oftalmologista recebe o paciente em menos de uma hora, encaminhar sem medicar é seguro e simples. Se o transporte leva quatro horas, cada hora de pressão a 60 mmHg custa campo visual que não volta, e o cálculo se inverte. O que resolve a divergência na prática não é escolher um lado: é o telefonema. Ligue, descreva o quadro, e inicie sob orientação de quem vai receber — assim a decisão fica com quem tem o dado que falta a você, e o registro protege os dois. Se o contato for impossível, o critério de segurança é começar pelo que tem menor risco sistêmico: acetazolamida oral em quem não tem alergia a sulfonamida, litíase, insuficiência renal ou hepatopatia, e timolol apenas depois de perguntar sobre asma, doença pulmonar obstrutiva, bradicardia e bloqueio atrioventricular. Deixe pilocarpina e manitol para o especialista.

Profilaxia da oftalmia neonatal: nitrato de prata ou povidona-iodo

Nitrato de prata, o método de Credé

É a solução tradicional da profilaxia ao nascimento e figura como opção no protocolo assistencial de conjuntivite neonatal de maternidade pública, com técnica descrita: limpar o olho fechado com gaze estéril, instilar uma gota no saco conjuntival inferior, massagear gentilmente as pálpebras e remover o excesso após um minuto, sem lavagem ocular depois, que reduziria a eficácia. Tem mais de um século de uso e efeito documentado sobre o gonococo.

Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde; Maternidade Municipal Lourdes Nogueira. Protocolo Conjuntivite Neonatal, PR.CMED.009

Povidona-iodo a 2,5%

O mesmo protocolo lista a povidona-iodo a 2,5% como solução alternativa, com a mesma técnica de instilação. A lógica a favor dela é o espectro mais amplo, que inclui atividade contra clamídia e vírus, e a menor irritação — o próprio protocolo registra que pode ocorrer conjuntivite química nas primeiras 24 horas, desaparecendo em 48, efeito classicamente associado ao nitrato de prata e que gera atendimentos e ansiedade evitáveis.

Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde; Maternidade Municipal Lourdes Nogueira. Protocolo Conjuntivite Neonatal, PR.CMED.009

Como decidir

A escolha do agente é da maternidade, não do plantonista, e o interno decide outra coisa: o que fazer com o recém-nascido que aparece com olho vermelho depois de ter recebido a profilaxia. Duas frases resolvem. Nas primeiras 24 a 48 horas, secreção discreta e hiperemia sem edema tenso, em bebê que mama bem, provavelmente são conjuntivite química, e a conduta é higiene com soro e reavaliação em 24 horas. Depois de 48 horas, ou com edema palpebral tenso e secreção purulenta abundante em qualquer momento, é doença: cultura, tratamento sistêmico e avaliação oftalmológica. E, em qualquer cenário, lembre-se de que a profilaxia previne a conjuntivite gonocócica mas não previne a por clamídia — de modo que o quadro que aparece da segunda à quarta semana em bebê profilaticamente tratado é exatamente o esperado, e não uma falha da maternidade.

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O raciocínio, em voz alta

Sexta-feira, 19h40, pronto atendimento de um município de 40 mil habitantes. O oftalmologista de referência fica a 90 quilômetros e atende de segunda a sexta até as 18h. Chega Vinícius, 21 anos, estudante, com o olho esquerdo vermelho desde a manhã, dor forte, luz insuportável e visão embaçada. Pingou um colírio comprado na farmácia e trouxe o frasco.

  1. O que penso na porta

    Antes de qualquer coisa, as três perguntas. Dói de verdade — ele diz que não conseguiu ficar na sala de espera com a luz acesa e que não dormiu à tarde. Enxerga pior — ele acha que sim, do lado esquerdo. Pupila, ainda não olhei. Duas respostas ruins de três já tiram este caso da fila da conjuntivite, e eu ainda não sei nada sobre o olho. Antes de examinar, faço as perguntas dos cancelamentos, e a terceira derruba tudo: ele usa lente de contato e dormiu com ela.

  2. O que isso muda antes do exame

    A regra do protocolo estadual é direta: qualquer sintoma agudo em usuário de lente de contato — baixa de visão, dor ou secreção — é encaminhamento oftalmológico de emergência. Ou seja, a velocidade do caso já está definida antes do exame físico. O que o exame vai fazer não é decidir se encaminho; é decidir o que escrevo no encaminhamento e o que digo no telefone. Retiro a lente agora e guardo lente e estojo num pote limpo identificado.

  3. O que meço primeiro

    Acuidade visual, antes de qualquer colírio, olho por olho. Não tenho tabela impressa na sala, então uso a bula de um remédio a 40 centímetros: com o olho direito ele lê o corpo do texto; com o esquerdo, só a caixa alta do nome do medicamento. Registro assim, com o método. Depois o cartão furado com agulha: a visão do olho esquerdo não melhora pelo furo — a perda não é refrativa.

  4. O que vejo com a lanterna

    Pálpebra sem vesícula e sem edema quente. O padrão da hiperemia é o achado que fecha o raciocínio: o vermelho está concentrado num anel colado à córnea e clareia em direção ao canto do olho — perilímbico, e não difuso. No centro da córnea há uma mancha esbranquiçada de cerca de um milímetro. Ilumino o olho direito e ele se queixa de dor no esquerdo: fotofobia consensual positiva. As pupilas são simétricas, ambas reagem. Não há hipópio visível.

  5. O que peço, e o que a resposta muda

    Peço o único exame que muda decisão aqui: fluoresceína, com o corante na tira umedecida em soro e luz azul do oftalmoscópio. Aparece uma área única, arredondada, de bordas irregulares, coincidindo com a mancha branca. Não é dendrítica, não é pontilhado difuso, não é linear. Isso é defeito epitelial sobre infiltrado — úlcera de córnea. Confiro o sinal de Seidel: não há filete claro, a ferida não está perfurada.

  6. O frasco que ele trouxe

    Leio o rótulo em voz alta em vez de aceitar o nome de memória: é uma combinação de antibiótico com dexametasona, e ele pingou de quatro em quatro horas desde a manhã. Isso não muda o encaminhamento, que já era emergência, mas muda três coisas: a expectativa de progressão, porque o corticoide inibe a reepitelização e a síntese de colágeno e pode acelerar o afinamento; a informação que vai no papel; e a orientação de suspender agora.

  7. O que faço enquanto o transporte é resolvido

    Telefono antes de escrever. Descrevo úlcera central de um milímetro, olho de usuário de lente que dormiu com ela, acuidade comparada entre os olhos, corticoide tópico usado por doze horas. Infiltrado corneano em usuário de lente exige avaliação oftalmológica imediata. Retirar a lente, preservar lente e estojo para possível microbiologia e iniciar tratamento antimicrobiano tópico com cobertura apropriada, inclusive para Pseudomonas, em articulação com a referência. Colher raspado antes quando indicado e prontamente viável, sobretudo em úlcera central, grande, profunda ou atípica, mas não adiar tratamento por horas apenas para preservar cultura. Evitar oclusão e corticoide empírico; frequência inicial intensiva e seguimento próximo dependem da gravidade. Prescrevo analgesia sistêmica — dipirona 500 mg, 2 comprimidos por via oral de 6 em 6 horas, máximo 4 g ao dia — e óculos escuros. Não ocluo o olho: oclusão sobre córnea sem epitélio, num usuário de lente, é câmara quente para bactéria.

  8. O que escrevo, e por quê

    No encaminhamento vão as quatro linhas que fazem o regulador entender em dez segundos: acuidade visual de cada olho com o método usado; hiperemia perilímbica; úlcera corneana central de cerca de 1 mm com fluoresceína positiva, Seidel negativo, sem hipópio; pupilas simétricas e reativas. Acrescento tipo de lente, hábito de dormir com ela, e o colírio com dexametasona usado por 12 horas. Escrevo o nome do oftalmologista contatado e o horário do telefonema.

  9. O que digo a ele

    Que o que ele tem é uma ferida infectada na parte transparente do olho, que ela pode deixar uma cicatriz que atrapalha a visão para sempre se demorar, e que por isso ele vai hoje e não segunda. Que o colírio que ele comprou tem cortisona, que desliga a defesa do olho e pode fazer a ferida afinar — e que ele para de usar agora. Que a lente não volta ao olho até o oftalmologista liberar. E que, no caminho, se a dor piorar muito ou a visão cair mais, ele procura o serviço mais próximo, sem esperar.

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Faça você

Segunda-feira, 6h50, unidade básica de saúde. Dona Terezinha, 66 anos, hipertensa, chega apoiada na filha. Diz que a dor começou ontem à noite, quando estava assistindo televisão com a luz apagada, e que é do lado direito. Vomitou duas vezes durante a madrugada e tomou um comprimido para enjoo que sobrou de uma viagem. Enxerga embaçado do olho direito e diz que as lâmpadas ficaram com um arco-íris em volta. Está com a mão sobre a sobrancelha direita e não quer abrir o olho.

  1. Passo 1 — o que já está decidido antes de tocar no paciente

    As três perguntas: dor de verdade, sim; enxerga pior, sim; pupila, a conferir. Dois de três já saem da fila da conjuntivite. A história tem três elementos que apontam para um único diagnóstico: início abrupto no escuro, halos coloridos e vômito. O comprimido para enjoo tomado na madrugada merece a pergunta — muitos antieméticos e anti-histamínicos têm efeito anticolinérgico e dilatam a pupila.

  2. Passo 2 — a acuidade visual, sem tabela

    Olho por olho, antes de qualquer colírio. Com o olho esquerdo ela lê o nome do medicamento na caixa a 40 centímetros. Com o direito, não lê nada e conta dedos a 50 centímetros. O registro é este, com o método, e ele é o que vai sustentar a prioridade no encaminhamento.

  3. Passo 3 — o exame com a lanterna, gesto a gesto

    Pálpebras sem vesículas e sem edema quente. A hiperemia do olho direito é um anel denso colado à córnea, clareando para a periferia. A córnea está sem brilho, com aspecto de vidro fosco, e o desenho da íris atrás dela aparece apagado. Na iluminação oblíqua, com a lanterna encostada na têmpora, a metade nasal da íris fica em sombra. Não ensinar palpação digital do globo como medida de pressão. A tonometria exige equipamento e exclusão de globo aberto; sua indisponibilidade não deve atrasar a referência de uma emergência.

  4. Passo 4 — decida a velocidade, a conduta imediata e a receita

    Nomeie o diagnóstico e diga em que velocidade este caso sai da unidade. Diga o que se faz antes do transporte e em que posição a paciente deve ficar. Escreva a prescrição inteira, com nome, apresentação da Rename, dose, via, frequência e duração, e diga qual pergunta você faz à paciente antes de pingar cada colírio. Diga o que você NÃO prescreve, e por quê. E escreva as quatro linhas de exame que vão no encaminhamento.

Ver como fecharíamos

Terezinha apresenta quadro fortemente sugestivo de fechamento angular agudo: dor intensa, halos, vômito, baixa visual, córnea turva e pupila pouco reativa. Suspeita de fechamento angular agudo exige contato e transferência imediatos. Tratar dor e vômito e, com supervisão, iniciar redução da pressão sem aguardar o transporte. Acetazolamida 500 mg oral ou intravenosa é uma dose inicial usual, após avaliar função renal, doença hepática, distúrbios eletrolíticos e reação grave prévia ao medicamento. Timolol 0,5%, uma gota, requer avaliar asma, bradicardia e bloqueio cardíaco. Monitorar resposta quando possível. Outros hipotensores, hiperosmótico e pilocarpina dependem do mecanismo, pressão e avaliação especializada; pilocarpina não é automática em toda crise. O tratamento definitivo usual do fechamento por bloqueio pupilar é iridotomia, com avaliação do outro olho. Posição confortável e segura, sem obrigar decúbito sem travesseiro. Registrar acuidade por olho e horários. Não esperar um tonômetro para organizar a transferência nem usar palpação do globo para “confirmar” a crise. A suspeita e a resposta ao tratamento devem ser comunicadas diretamente à equipe que receberá a paciente.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Em exposição química, iniciar irrigação imediatamente, com água limpa se não houver solução apropriada; não esperar história, acuidade ou transporte. Retirar lentes e partículas acessíveis com técnica delicada e inspecionar fundos de saco quando seguro. Irrigar até pH próximo do fisiológico (cerca de 7–7,2), reavaliado após pausa de 5–10 minutos; tempo e volume não são pontos fixos de parada. Não neutralizar ácido com base ou vice-versa. Providenciar avaliação oftalmológica urgente.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare olho vermelho com secreção, infiltrado corneano e pupila pouco reativa: demonstre acuidade e descreva por que cada um recebe prioridade distinta.

Em 30 dias

Retome Terezinha e Vinicius. Simule ausência de tonômetro e demora da referência; explique o que inicia agora, o que evita e como verifica resposta.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 52 anos, pedreiro, chega à unidade básica no fim da tarde com o olho direito vermelho e dor há dois dias, que começou depois de um dia de trabalho quebrando parede sem óculos de proteção. Ele diz que lavou o olho na hora com água da caixa e continuou trabalhando, que a dor piorou à noite e que hoje a visão do lado direito está embaçada. Trouxe um colírio que a farmácia indicou, sem saber o nome. Meça a acuidade visual sem tabela e diga como fez, descreva o padrão da hiperemia, decida a velocidade do caso, escreva o que prescreve e o que se recusa a prescrever com o mecanismo do dano de cada um, e redija o encaminhamento com tudo que o oftalmologista precisa saber.

Olho vermelho — Internato | OsceLabs