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Outras EspecialidadesOftalmologia

O olho que não dói

Perda visual sem olho vermelho: acuidade, defeito pupilar aferente, catarata, glaucoma crônico e retinopatia diabética

A súbita e indolor no pronto-socorro e a que se instala devagar na atenção básica — e por que a tabela de acuidade decide as duas

Fontes deste capítulo

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Medicina, TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial – Oftalmologia Adulto: versão digital 2023. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 19 jun. 2017 [atualiz. 10 mar. 2023]

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Glaucoma. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 28, de 6 de dezembro de 2023

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Retinopatia Diabética. Portaria Conjunta nº 17, de 1º de outubro de 2021

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 160 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 36). ISBN 978-85-334-2059-5

01

Responda antes de ler

Mulher de 76 anos vem à unidade básica por cefaleia do lado esquerdo há três semanas, de início recente. Relata que o pente incomoda naquele lado, que cansa e precisa parar de mastigar no meio das refeições, e que perdeu quatro quilos sem estar tentando. Anteontem a visão do olho esquerdo apagou por cerca de dois minutos e voltou sozinha. Hoje a acuidade é 20/25 e 20/30, sem defeito pupilar aferente relativo, com discos ópticos de bordas nítidas à fundoscopia sem midríase. O laboratório da unidade coleta até as 11h e são 9h40. Qual é a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Sábado, vinte e três e dez, unidade de pronto atendimento de um município de sessenta mil habitantes. Você é o interno da noite. A sala tem um oftalmoscópio direto guardado numa gaveta, uma lanterna de bolso no seu jaleco e, colada na parede do corredor desde uma campanha de dois anos atrás, uma tabela de acuidade visual impressa com uma fita crepe nas quatro pontas. Não há lâmpada de fenda, não há tonômetro e não há oftalmologista de plantão: o mais próximo atende a cento e dez quilômetros, de segunda a sexta.

Entra o senhor Adaucto Chiaradia, 61 anos, motorista de caminhão aposentado por invalidez depois de dois stents. Ele chegou dirigindo, sozinho, e não parece doente. A ficha da recepção diz: escureceu a vista. Perguntado, ele conta que estava sentado assistindo televisão quando o olho direito apagou de uma vez — não foi embaçando, foi apagando, como quem baixa uma persiana de cima para baixo até o fim. Faz duas horas e vinte minutos. Não dói. Não doeu em momento nenhum. O olho não está vermelho, não lacrimeja, não incomoda. Ele tapa o olho esquerdo com a mão para lhe mostrar e diz que enxerga um cinza sem forma, e que com o esquerdo enxerga tudo.

A tentação, às onze da noite, é escrever queixa visual, prescrever um lubrificante, orientar procurar o oftalmologista na segunda e liberar. Ele iria embora andando, calmo, agradecido. É o pior desfecho possível da noite, e vai parecer o mais tranquilo.

Segunda-feira, sete e vinte da manhã, unidade básica de saúde do mesmo município, onde você cumpre o outro turno do estágio. A agenda tem dezesseis nomes. Quatro deles têm, escrita pela recepção com a mesma caneta, alguma versão da mesma frase.

Dona Marcelina Bonfante, 66 anos, diabética tipo 2 desde os cinquenta e um, hipertensa, com hemoglobina glicada de 9,1% no exame de março. A queixa dela é que a vista embaçou e ela quer trocar o óculos. Na pasta amarela há quinze anos de consultas e nenhum laudo de fundo de olho. Nenhum pedido, também. Ela nunca foi ao oftalmologista.

Seu Riolando Talarico, 58 anos, pedreiro, pai e irmão com o que ele chama de pressão alta no olho. Ele veio por causa da coluna. No meio da consulta menciona, como quem conta um caso engraçado, que tem esbarrado no batente da porta do lado direito e que quase foi atropelado por uma moto que ele jura ter surgido do nada. Enxerga bem de frente, lê o celular, dirige. Nunca mediu a pressão do olho.

Dona Reginalda Paraíso, 71 anos, tem laudo de catarata dos dois olhos feito por um oftalmologista em mutirão há dois anos e quatro meses, o encaminhamento carimbado e nenhuma data de cirurgia. Ela parou de cozinhar sozinha, parou de sair à noite, e a filha, que veio junto, diz que a mãe caiu duas vezes em casa desde o Natal. Ninguém mediu a acuidade visual dela em nenhuma dessas consultas — nem a do mutirão, cujo laudo traz só a palavra catarata e uma assinatura.

E dona Terezita Frigo, 74 anos, que veio por dor de cabeça. Há três semanas dói de um lado só, na têmpora esquerda, e ela diz que o pente incomoda naquele lado. Emagreceu, está sem ânimo, e conta, sem dar importância, que anteontem a vista do olho esquerdo apagou por uns dois minutos e voltou sozinha.

Nenhum desses cinco olhos dói. Nenhum está vermelho. Quatro dos cinco pacientes vieram por outra coisa. Este capítulo é sobre o que separa o interno que os atende do interno que os despacha, e o instrumento que faz essa separação não é caro: é uma tabela de papel a seis metros da parede e uma lanterna.

03

Quem adoece disso

O olho que perde visão sem doer não tem estatística de porta de pronto-socorro no Brasil como o olho vermelho tem. Ele aparece nos números pelo fim da história — pela cegueira instalada — e a hierarquia dessas causas está escrita, com todas as letras, dentro de um protocolo clínico nacional: depois da catarata, o glaucoma é a segunda causa de cegueira, e é a primeira causa de cegueira irreversível. As duas primeiras colocadas do ranking brasileiro de cegueira são doenças que não doem.

O glaucoma afeta mais de 67 milhões de pessoas no mundo, das quais 10% são cegas — e o protocolo define cegueira, ali mesmo, de forma operacional: acuidade visual corrigida no melhor olho de 0,05, ou campo visual com menos de 10 graus no melhor olho com a melhor correção óptica. No Brasil há escassez de informação de prevalência: a maior parte dos estudos é restrita e antiga, e mostra 2% a 3% da população acima de 40 anos. É essa a prevalência que o Conselho Brasileiro de Oftalmologia adota, com 50% a 60% dos diagnósticos sendo glaucoma primário de ângulo aberto e em torno de 20% sendo de ângulo fechado. Um município de sessenta mil habitantes tem, por essa conta, algo entre quatrocentas e seiscentas pessoas com glaucoma acima dos 40 anos, e a maioria delas não sabe.

A retinopatia diabética tem números melhores porque o denominador é conhecido. O protocolo nacional registra incidência de 24% a 39% da população diabética brasileira e estima prevalência de 2 milhões de casos. A história natural é implacável e previsível: após 20 anos de doença, cerca de 90% das pessoas com diabetes tipo 1 e 60% das com tipo 2 terão algum grau de retinopatia. E ela já está lá na porta de entrada — 4% das pessoas com diabetes tipo 2 têm retinopatia no momento do diagnóstico do diabetes, e de 4% a 8% já têm perda de acuidade visual antes de saberem que são diabéticas.

O que transforma esses números em decisão é o par seguinte, do mesmo protocolo. Sem tratamento, cerca de 50% das pessoas com retinopatia diabética proliferativa evoluem para cegueira em cinco anos. Com diagnóstico e tratamento precoces, o risco de cegueira cai para menos de 5%. É uma diferença de uma ordem de grandeza, e o que fica entre um número e o outro não é um medicamento caro: é o exame de fundo de olho ter sido pedido a tempo.

A retinopatia é assintomática nas suas fases iniciais e não há como detectá-la sem fundoscopia. Essa frase, que está no caderno de atenção básica do diabetes desde 2013, é a razão inteira de existir um rastreamento. O paciente que enxerga bem não é o paciente sem retinopatia; é o paciente cuja retinopatia ainda não chegou à mácula. Perguntar como está a vista é uma pergunta de anamnese, não um método de rastreamento, e usá-la como se fosse é o modo silencioso de nunca encontrar nada.

Do lado da catarata, o que o Brasil tem de mais preciso não é epidemiologia, é fila. A moldura federal que hoje financia o acesso à consulta especializada e à cirurgia eletiva tem nome, número e data: o Programa Nacional de Expansão e Qualificação da Atenção Ambulatorial Especializada, operacionalizado pela Portaria SAES/MS nº 1.640, de 7 de maio de 2024, e a Oferta de Cuidados Integrados, com procedimentos obrigatórios fixados pela Portaria SAES/MS nº 2.331, de 10 de dezembro de 2024. O antigo Programa Nacional de Redução das Filas, criado pela Portaria GM/MS nº 90, de 3 de fevereiro de 2023, foi incorporado a ele no componente de cirurgias em dezembro de 2024. A existência dessa engrenagem tem uma consequência concreta para quem escreve o encaminhamento: a fila é alimentada por documento, e documento sem acuidade visual medida entra nela como prioridade indefinida.

Falta uma linha nesse mapa, e a falta é a informação. Não existe documento nacional brasileiro sobre perda visual súbita como entidade — nenhuma linha de cuidado, nenhum protocolo clínico, nenhum caderno. Existem protocolos nacionais para o glaucoma, para a retinopatia diabética e para a forma neovascular da degeneração macular; existem protocolos estaduais de regulação que dizem para onde mandar. Mas nenhum documento brasileiro em vigor fixa o que fazer, e em quanto tempo, diante de uma oclusão de artéria central da retina, de um descolamento de retina ou de uma neuropatia óptica isquêmica arterítica. O que os protocolos de regulação dizem sobre essas três é a mesma frase: encaminhamento para emergência oftalmológica. Quem estabelece o resto é quem atende o telefone do outro lado.

04

Por que acontece o que acontece

A retina e o nervo óptico não doem porque não têm com que doer. Fibras nociceptivas existem em abundância no epitélio da córnea, na íris, no corpo ciliar e nas estruturas que se distendem quando a pressão intraocular sobe depressa — e é exatamente por isso que o olho vermelho e doloroso é o que chega à porta e o que todo mundo encaminha. Atrás da íris não há nada disso. O tecido que enxerga é tecido nervoso especializado, e tecido nervoso não avisa que está morrendo: ele para de funcionar. A dor, no olho, é um sinal de topografia, não de gravidade.

A consequência prática é que a queixa que substitui a dor é a queixa de função, e função só existe se alguém a medir. O paciente diz que a vista embaçou, que escureceu, que está precisando de óculos novo, que a letra sumiu. Essas frases não distinguem uma catarata de uma oclusão de veia central da retina, e não são melhores nem piores que a frase dói muito: são só menos assustadoras. O interno que troca a medida da acuidade pela impressão do paciente sobre a própria visão está usando um instrumento com resolução de uma casa decimal onde precisava de três.

Há quatro maneiras físicas de a luz não virar imagem, e elas se distribuem ao longo do caminho óptico como quatro estações. A primeira é a opacidade de meios: alguma coisa entre a córnea e a retina deixou de ser transparente. Catarata é o exemplo canônico — o cristalino esclerosa, espalha a luz e reduz o contraste antes de reduzir a acuidade. Hemorragia vítrea é o mesmo mecanismo com outro relógio: o sangue entra na cavidade vítrea e a imagem some em minutos. As duas se denunciam pelo mesmo achado barato, a perda do reflexo vermelho, porque o que impede a luz de chegar à retina também impede o retorno dela ao seu oftalmoscópio.

A segunda estação é a circulação retiniana. A retina é irrigada por dois territórios independentes: a artéria central da retina, que entra pelo nervo óptico e alimenta as camadas internas, e a coriocapilar, que nutre por difusão as camadas externas e os fotorreceptores. Quando a artéria central se ocluiu — quase sempre por êmbolo — as camadas internas isquemiam de uma vez, e a perda visual é súbita, indolor, unilateral e profunda. Quando quem se ocluiu foi a veia central, o sangue continua entrando e não consegue sair: a pressão hidrostática despeja hemorragias e edema pelos quatro quadrantes, e a perda é súbita mas costuma poupar alguma coisa. É a diferença entre cortar o cano de entrada e entupir o de saída, e ela é visível no fundo de olho.

A terceira estação é a condução — o nervo óptico. Aqui moram três mecanismos com velocidades diferentes e um sinal comum. A neurite óptica é inflamação e desmielinização: instala-se em horas a dias, tipicamente em pessoa jovem, e é a única perda visual deste capítulo que costuma doer, e doer de um jeito específico — dor à movimentação do olho, não dor no olho parado. A neuropatia óptica isquêmica é infarto da cabeça do nervo: instala-se de uma vez, tipicamente ao acordar, em pessoa acima dos cinquenta. E o glaucoma é a mesma via lesada devagar, ao longo de anos, pela combinação entre pressão intraocular e perfusão do disco.

Dentro da neuropatia óptica isquêmica há uma bifurcação que muda tudo. Na forma não arterítica, o infarto acontece num disco pequeno e apertado, sem inflamação de parede de vaso, e o olho contralateral não corre risco imediato. Na forma arterítica, o infarto é consequência de uma vasculite de artérias de médio e grande calibre — a arterite de células gigantes — e a mesma vasculite está, naquele momento, nas artérias ciliares do outro olho. A diferença entre as duas não está no olho cego: está na têmpora que dói, no couro cabeludo que incomoda ao pentear, na mandíbula que cansa mastigando, no emagrecimento e na velocidade de hemossedimentação. É a única perda visual indolor deste capítulo em que a doença que cegou um olho está em atividade no outro enquanto você escreve o encaminhamento.

A quarta estação é a mácula — a função, não a via. O edema macular diabético é acúmulo de líquido num tecido de meia milímetro de espessura, e a espessura é o próprio critério: o protocolo nacional define envolvimento do centro da fóvea por espessura do subcampo central foveal igual ou maior que 275 micrômetros medida por tomografia de coerência óptica, e é esse número que abre o critério de inclusão para terapia antiangiogênica. Doença macular tira a visão central e preserva a periférica; doença de nervo e de campo tira a periferia e preserva o centro. O paciente que lê o celular e esbarra no batente está descrevendo a segunda.

Falta a peça que amarra tudo, e ela é a pupila. A via aferente do reflexo fotomotor sobe pela retina, pelo nervo óptico e pelo quiasma até o mesencéfalo; a via eferente desce pelo terceiro par para os dois olhos. Como a eferência é bilateral, a luz jogada num olho contrai as duas pupilas por igual. Se a doença estiver na via aferente de um lado — retina extensa, nervo óptico, e não catarata, não córnea, não vítreo — aquele olho manda um sinal mais fraco ao mesencéfalo, e alternar a lanterna entre os dois olhos revela a assimetria: a pupila do olho doente dilata quando a luz chega nela, porque perde mais consenso do que ganha estímulo direto. É o defeito pupilar aferente relativo, e o protocolo nacional do glaucoma o lista entre os itens obrigatórios do exame pupilar. É a única coisa deste capítulo inteiro que separa neuropatia de opacidade de meios com um instrumento que cabe no bolso.

Globo ocular em corte com cristalino, vítreo, retina e cabeça do nervo óptico destacados.
Cristalino em ocre, vítreo em azul-claro, retina como revestimento interno e cabeça do nervo óptico em verde destacam diferentes locais de perda visual. Opacidades dos meios, doenças retinianas e neuropatias podem causar perda sem dor. Defeito pupilar aferente relativo pode ocorrer em doença assimétrica do nervo óptico ou da retina. Ausência de dor não indica benignidade, e doenças anteriores também podem ameaçar a visão.
05

Como se apresenta de verdade

Perda visual não é diagnóstico. É um resultado, e o caminho até ele tem seis retratos que um interno com lanterna e tabela consegue distinguir na maioria das vezes. As três perguntas que os separam são de tempo, de campo e de lado: em quanto tempo se instalou, que parte do campo sumiu, e o outro olho está bom mesmo, ou está bom porque ninguém o tampou para medir.

Vale dizer de saída o que está fora. Olho vermelho de qualquer causa — conjuntivite, ceratite, úlcera de córnea, uveíte anterior e o glaucoma agudo de ângulo fechado — é do capítulo Olho vermelho, que abre esta apostila e trata inclusive da queimadura química, a única coisa em oftalmologia que se faz antes de examinar. Aqui fica o glaucoma crônico de ângulo aberto, que é a mesma doença do nervo com outro relógio e outra porta de entrada: o de ângulo fechado chega com dor de dente atrás do olho e vômito, o de ângulo aberto chega esbarrando no batente vinte anos depois. A remissão vale nos dois sentidos, e é deliberada: quem procurar glaucoma agudo aqui não vai achar, e quem procurar campimetria e colírio hipotensor lá também não.

Retinopatia hipertensiva e as manifestações oculares da emergência hipertensiva são do capítulo Crise hipertensiva. Amaurose fugaz como evento embólico de território carotídeo tem o reconhecimento na porta no capítulo Déficit neurológico focal agudo, e a investigação e a decisão sobre a carótida no capítulo de doença carotídea e estenose de carótida, na apostila de Cirurgia Vascular — aqui ela aparece só quando vem acompanhada de dor temporal e claudicação de mandíbula, porque nessa companhia ela deixa de ser carotídea e passa a ser vasculite. Teste do reflexo vermelho do recém-nascido e retinoblastoma são do capítulo As cinco triagens neonatais. E a indicação, a dose e o acompanhamento da hidroxicloroquina são do capítulo O FAN não fecha o diagnóstico: o que fica aqui é apenas quando e com que intervalo mandar esse paciente rastrear a retina.

Competência ao concluir este capítulo. Localizar perda visual e reconhecer urgências vasculares, inflamatórias e retinianas, mesmo sem dor. Ao discutir com o supervisor, separe achados observados, hipótese, risco imediato e plano com reavaliação. A prática deve mostrar o raciocínio que sustenta a decisão, além da execução técnica.

A que apaga de uma vez e não dói: oclusão de artéria central da retina

O retrato é este: perda profunda, unilateral, indolor, instalada em segundos a poucos minutos, num paciente acima dos cinquenta com fatores de risco cardiovascular. O paciente frequentemente sabe dizer a hora, porque a mudança foi de um estado para outro e não uma progressão. Quando há oclusão de ramo em vez do tronco, o que apaga é um setor do campo, tipicamente metade horizontal, com o resto intacto — e aí o paciente descreve uma sombra que não sai.

O que a lanterna acha antes do oftalmoscópio é o defeito pupilar aferente relativo, e ele costuma ser marcante: a perda funcional é grande e a via aferente daquele olho está mesmo mais fraca. Não ensinar palpação digital do globo como medida de pressão. A tonometria exige equipamento e exclusão de globo aberto; sua indisponibilidade não deve atrasar a referência de uma emergência.

Ao fundo de olho, quando é possível vê-lo, a retina do polo posterior perde a transparência e fica esbranquiçada por edema isquêmico das camadas internas, e a fóvea, que é fina e nutrida por baixo pela coriocapilar, contrasta como uma mancha avermelhada no meio do branco. As artérias ficam finas e o sangue nelas pode aparecer segmentado. Nada disso é obrigatório para decidir: a decisão já foi tomada pelo tempo e pela pupila.

O protocolo estadual de regulação que este capítulo usa não nomeia essa doença. Ele nomeia o gatilho: diminuição de acuidade visual aguda, ou queixa visual associada à percepção súbita de sombra ou cortina sobre parte do campo, fotopsia, moscas volantes ou metamorfopsia — encaminhamento para emergência oftalmológica. E lista, entre as condições que devem ter preferência sobre as demais no encaminhamento, a doença vasoclusiva da retina com até três meses de evolução. Preferência na fila não é o mesmo que janela de tratamento, e nenhum documento brasileiro em vigor fixa uma janela para essa doença.

A leitura que este capítulo faz, e que registra como leitura sua e não como citação, é que a oclusão arterial é o único quadro desta lista em que a estrutura que se perde é tecido nervoso isquêmico, com a mesma lógica de tempo de um infarto cerebral. Isso não autoriza o interno a improvisar manobra nenhuma: massagem ocular, paracentese de câmara anterior e respiração em circuito fechado não têm respaldo em documento brasileiro, e nenhuma delas está no protocolo de regulação. O que o interno faz é reconhecer, telefonar, e não deixar o paciente ir embora com um papel na mão.

E há a parte que não é do olho. Oclusão arterial retiniana é evento embólico, e o êmbolo veio de algum lugar — carótida, coração, arco aórtico. Esse paciente precisa da investigação de fonte embólica que os capítulos AVC isquêmico agudo e Déficit neurológico focal agudo descrevem, e precisa dela mesmo que a visão não volte. Quem trata só o olho tratou metade.

A cortina, os flashes e as moscas: descolamento de retina e hemorragia vítrea

Este é o quadro que o paciente descreve melhor do que qualquer exame, desde que lhe deixem descrever. A tríade é fotopsia, moscas volantes e sombra. As fotopsias são flashes de luz na periferia, em geral piores no escuro e ao mover o olho, e vêm da tração do vítreo sobre a retina. As moscas volantes que importam não são as que o paciente tem há dez anos: são as que apareceram de repente, em chuva, ou que aumentaram muito de número numa semana. E a sombra é uma cortina periférica que avança e não sai quando ele pisca.

A ordem dos sintomas conta uma história com prazo. Enquanto a cortina não alcançou o centro, a mácula ainda está aplicada, e a acuidade central pode estar perfeitamente normal — este é o paciente que enxerga 20/20 e está prestes a ficar cego daquele olho. Quando a acuidade central cai, a mácula descolou. Fotopsias novas, aumento súbito de moscas volantes e cortina no campo visual exigem exame retiniano urgente, mesmo com acuidade 20/20. A acuidade não comprova isoladamente que a mácula esteja aplicada. Descolamento com mácula envolvida também requer referência urgente; duração superior a 14 dias não encerra a possibilidade de benefício nem autoriza adiar avaliação.

Repare no que essa assimetria diz. Fotopsias novas, aumento súbito de moscas volantes e cortina no campo visual exigem exame retiniano urgente, mesmo com acuidade 20/20. A acuidade não comprova isoladamente que a mácula esteja aplicada. Descolamento com mácula envolvida também requer referência urgente; duração superior a 14 dias não encerra a possibilidade de benefício nem autoriza adiar avaliação. O interno que escreve baixa de acuidade visual há um mês, a esclarecer sem dizer se a visão central está preservada acabou de apagar do encaminhamento a informação que decide a fila.

A hemorragia vítrea entra pelo mesmo corredor com outra cara. O paciente descreve fumaça, teia ou uma cortina vermelha, e a perda pode ser de qualquer profundidade. O achado de consultório é a perda do reflexo vermelho num olho branco e indolor, com pupila que reage normalmente e sem defeito aferente relativo — porque o problema é meio, não via. Em pessoa com diabetes, hemorragia vítrea significa retinopatia proliferativa até prova em contrário e classifica o paciente para serviço de alta complexidade. Em pessoa sem diabetes, o protocolo estadual prioriza a hemorragia vítrea densa sem etiologia definida justamente porque ela pode estar escondendo uma rotura de retina que ninguém consegue ver.

O que não fazer aqui é a parte mais fácil de errar. Não se prescreve repouso e reavaliação em uma semana para quem tem fotopsia com moscas novas. Não se pede tomografia de órbita. E não se tranquiliza o paciente pelo fato de a visão central estar boa: no descolamento, visão central boa é o motivo da pressa, não a razão para esperar.

A que entope a saída: oclusão de veia central da retina

A oclusão venosa se instala em horas a um ou dois dias, é indolor e unilateral, e costuma ser percebida ao acordar. A perda é variável — de embaçamento leve a contagem de dedos — e o paciente típico tem mais de cinquenta anos com hipertensão arterial, e às vezes glaucoma crônico já diagnosticado, que é fator de risco por compressão na lâmina cribiforme.

O fundo de olho é o mais reconhecível de todos, quando se consegue vê-lo: hemorragias em chama espalhadas pelos quatro quadrantes, veias tortuosas e ingurgitadas, disco com bordas apagadas. É a imagem que se descreve como fundo em queijo com ketchup, e o padrão dos quatro quadrantes é o que a separa da oclusão de ramo, em que as hemorragias respeitam um setor delimitado por uma linha horizontal.

O defeito pupilar aferente relativo, aqui, tem valor de gravidade e não de diagnóstico: quanto mais marcante, mais isquêmica é a forma, e forma isquêmica é a que evolui para neovascularização de íris e glaucoma neovascular. Essa é a razão de a oclusão venosa não ser uma doença de acompanhar de longe. O protocolo estadual coloca a oclusão de veia central da retina entre as doenças de retina estabelecidas que exigem serviço de alta complexidade, e a doença vasoclusiva de retina com até três meses de evolução entre as que têm preferência de fila.

Do lado sistêmico, esse paciente sai da consulta com pressão arterial aferida nos dois braços, com o controle pressórico revisto e com a pergunta sobre apneia do sono feita — mas o manejo da hipertensão é do capítulo Crise hipertensiva quando aguda e do capítulo de hipertensão na atenção básica quando crônica. O que este capítulo reivindica é só a suspeita e o encaminhamento com data.

A do nervo: neurite óptica, neuropatia isquêmica e a que não pode esperar

As três compartilham o mesmo achado semiológico — defeito pupilar aferente relativo com fundo de olho que pode ser normal — e se separam por idade, velocidade e companhia.

A neurite óptica é doença de adulto jovem, mais em mulheres, e se instala ao longo de horas a dias, com piora progressiva por até duas semanas. É a exceção dolorosa deste capítulo, e a dor tem assinatura: piora ao movimentar o olho, não em repouso. Vem com dessaturação de cores — o vermelho parece lavado, e o paciente percebe isso se lhe perguntarem, tapando um olho de cada vez e comparando a cor de um mesmo objeto vermelho. O fundo de olho é normal em boa parte dos casos, porque a inflamação é retrobulbar, e essa normalidade é armadilha: o interno que confia na fundoscopia normal para tranquilizar está confiando num exame que, nessa doença, é normal por construção.

A neuropatia óptica isquêmica anterior é doença de quem passou dos cinquenta, instala-se de uma vez, muitas vezes notada ao acordar, e o defeito de campo clássico é altitudinal — o paciente perde a metade de cima ou a de baixo, com uma borda horizontal nítida. Ao fundo, o disco está edemaciado, com bordas apagadas e às vezes hemorragias em chama na margem. Na forma não arterítica, o disco do olho contralateral costuma ser pequeno e sem escavação, e o risco do outro olho é diferido, não imediato.

E aí está a bifurcação que muda a conduta da tarde. Na forma arterítica, causada pela arterite de células gigantes, o quadro ocular vem cercado de sintomas que ninguém pergunta se não estiver procurando: cefaleia temporal de início recente em pessoa acima dos cinquenta, dor ou hipersensibilidade do couro cabeludo — o pente incomoda, o travesseiro incomoda —, claudicação de mandíbula, isto é, dor ou fadiga ao mastigar que obriga a parar, febre baixa, emagrecimento, e sintomas de polimialgia reumática com dor e rigidez de cinturas. Amaurose fugaz precedendo a perda definitiva é comum, e é o aviso que costuma ser descartado como coisa da pressão.

Este capítulo assume a urgência visual da arterite de células gigantes — reconhecer a ameaça ao olho e não esperar a biópsia para o corticoide —; a doença sistêmica, com a biópsia, a imagem, a retirada longa do corticoide e a recaída, é de Vasculites sistêmicas, na apostila de Reumatologia. E assume declarando o limite: não existe protocolo clínico, diretriz de sociedade brasileira, caderno do Ministério da Saúde ou documento nacional em vigor sobre arterite de células gigantes. A Rename 2024 traz prednisona em comprimidos de 5 mg e de 20 mg no componente básico, o que significa que o medicamento está na farmácia da unidade — mas nem a Rename nem qualquer protocolo nacional estabelece indicação, dose ou duração para esta doença.

A consequência para o interno é reconhecer a ameaça visual, chamar supervisão e articular tratamento e transferência imediatos. Em pessoa acima de 50 anos, cefaleia nova, claudicação mandibular, hipersensibilidade do couro cabeludo e alteração visual levantam suspeita de arterite de células gigantes. Acionar supervisão e avaliação hospitalar urgente e iniciar glicocorticoide em alta dose quando a suspeita for forte, sem esperar biópsia, imagem ou resultado laboratorial. Colher VHS, PCR e hemograma se isso não atrasar tratamento. Ameaça visual favorece discussão de pulsoterapia intravenosa; indisponibilidade imediata não justifica ficar sem glicocorticoide enquanto se organiza transferência. Marcadores normais e exame ocular normal após amaurose não excluem a doença.

A que rouba pela periferia: glaucoma crônico de ângulo aberto

É a doença que melhor define o título deste capítulo. Não dói, não deixa o olho vermelho, não embaça o centro, e o paciente enxerga bem a tabela de acuidade até muito tarde. O que se perde é campo, em feixe, começando por escotomas paracentrais e degraus nasais, e o cérebro preenche o buraco. A queixa, quando existe, é a de seu Riolando: esbarrar no batente, não ver a moto que vinha do lado, tropeçar em degrau, achar que está ficando desastrado.

O protocolo nacional descreve o alvo e o instrumento. O alvo é o nervo óptico, e o que se procura nele é aumento e verticalização da escavação, afinamento do anel neural, quebra da regra ISNT — em olhos saudáveis a rima inferior é a mais espessa, seguida da superior, da nasal e da temporal —, chanfradura localizada e hemorragias na margem do disco. Dois números do protocolo ajudam a olhar: na maior parte da população a relação escavação/disco é igual ou inferior a 0,4, mas indivíduos normais podem chegar a 0,8; e menos de 0,5% dos indivíduos normais apresentam assimetria de escavação acima de 0,2 entre os dois olhos.

Essa última frase é a mais útil que um interno pode levar deste bloco. A assimetria de escavação entre os dois olhos é mais informativa do que o tamanho da escavação de um olho só, porque disco grande comporta escavação fisiológica grande. Olhar um olho e achar 0,7 diz pouco; olhar os dois e achar 0,4 de um lado e 0,7 do outro é achado.

A pressão intraocular não define a doença e não a exclui. O protocolo nacional descreve, como entidades separadas, a hipertensão ocular — pressão acima de 21 mmHg sem dano de nervo nem de campo, que ele explicitamente não preconiza tratar, porque 90% desses pacientes não desenvolvem glaucoma — e o glaucoma de pressão normal, com pressão igual ou inferior a 21 mmHg e dano típico do nervo e do campo, que ele preconiza tratar. Quem usa a pressão como teste de rastreamento vai perder os que têm glaucoma com pressão normal e tratar os que têm pressão alta sem glaucoma.

Os fatores de risco que o protocolo lista mudam quem você procura: idade acima de 40 anos, escavação aumentada, história familiar, ascendência negra para o de ângulo aberto, miopia, pressão de perfusão ocular diminuída e diabetes mellitus tipo 2. Sobre a história familiar, ele traz um número que vale citar na consulta: segundo o Rotterdam Eye Study, ter um irmão com glaucoma multiplica por 9,2 a chance de desenvolver a doença. Seu Riolando, com pai e irmão em tratamento, não é um paciente com queixa vaga de coluna: é um caso de rastreamento familiar que entrou na sala por outra porta.

Um último mecanismo, porque ele nasce dentro da própria unidade: o glaucoma secundário a corticoide. A Rename 2024 traz dexametasona em pomada oftálmica a 0,1% e em suspensão oftálmica a 0,1% no componente básico — quer dizer, na farmácia de qualquer unidade —, e o uso prolongado de corticoide tópico ocular eleva a pressão intraocular em uma parcela dos pacientes. O protocolo nacional prevê a categoria glaucoma secundário a drogas, com código próprio, e manda tratar a causa básica antes de tudo. Quem prescreve colírio de corticoide sem prazo e sem reavaliação está fabricando um dos poucos glaucomas evitáveis que existem.

As que embaçam devagar: catarata e retinopatia diabética

A catarata é a mais previsível e a mais bem definida documentalmente. O protocolo estadual fecha a suspeita de catarata senil em três itens: idade acima de 60 anos, queixa de turvação não dolorosa e progressiva da visão em um ou nos dois olhos, e perda do reflexo vermelho através da pupila ou obscurecimento dos detalhes do fundo de olho. E acrescenta que ela ocorre em adultos não idosos quando há diabetes, uso prolongado de corticoide sistêmico ou trauma ocular prévio — três situações que o interno de enfermaria vê toda semana.

A queixa clássica é o embaçamento progressivo com ofuscamento — piora com farol de carro à noite, com sol a pino, com luz contra —, halos ao redor de fontes de luz e necessidade de mais luz para ler. Alguns pacientes descrevem melhora temporária da visão de perto, porque a esclerose nuclear miopiza o cristalino: a pessoa larga o óculos de leitura e acha que a vista melhorou, quando o que está acontecendo é catarata avançando.

O que separa a catarata que espera da catarata que anda é medida, e o protocolo estadual dá o corte com número: encaminha-se quem tem diagnóstico de catarata e queixa de diminuição da capacidade visual funcional, isto é, diminuição que interfere nas atividades da vida diária; ou acuidade visual medida com a tabela em 20/30 ou pior, com correção se indicada. Dona Reginalda, que parou de cozinhar e caiu duas vezes, preenche o primeiro critério sem que ninguém precise medir nada — mas o encaminhamento sem a acuidade medida entra na fila sem argumento.

A retinopatia diabética é o oposto: quem tem não sabe, quem sabe já perdeu. A escala nacional tem cinco níveis, e o interno precisa saber o que cada um significa em termos de para onde mandar. Sem retinopatia aparente: fundo normal. Não proliferativa leve: apenas microaneurismas. Não proliferativa moderada: mais que microaneurismas, sem caracterizar grave. Não proliferativa grave: hemorragias intrarretinianas nos quatro quadrantes, ou alterações venosas em conta em dois ou mais quadrantes, ou alterações microvasculares intrarretinianas moderadas em um ou mais quadrantes — com um desses critérios; com dois, é muito grave. Proliferativa: neovascularização de disco ou de retina, ou hemorragia vítrea ou pré-retiniana.

A escala não avalia mácula, e é por isso que o edema macular é uma classificação paralela. Ele pode acometer pessoas em qualquer estágio da retinopatia, inclusive na leve, e é a causa mais comum de baixa de visão central no diabetes. O paciente com retinopatia leve e edema macular enxerga pior do que o paciente com retinopatia grave sem edema — e a régua de encaminhamento do protocolo estadual reflete isso: retinopatia não proliferativa leve sem edema macular pode ficar em acompanhamento anual, e qualquer edema macular vai para serviço de alta complexidade.

Por fim, o grupo que ninguém lembra de rastrear: quem usa cloroquina ou hidroxicloroquina. A indicação, a dose e o acompanhamento clínico dessas drogas são do capítulo O FAN não fecha o diagnóstico. O que é deste capítulo é o calendário da retina, e o protocolo estadual o dá: avaliação de base no primeiro ano de uso, com fundoscopia para excluir doença retiniana preexistente; e avaliação anual a partir do quinto ano de uso na ausência de fatores de risco, antecipada para o primeiro ano na presença deles. Os fatores de risco listados são dose diária acima de 5 mg/kg de peso real para hidroxicloroquina e acima de 2,3 mg/kg de peso real para cloroquina, duração de uso igual ou superior a cinco anos, doença renal crônica, uso concomitante de tamoxifeno e doença macular subjacente.

06

Como fechar o diagnóstico

Na unidade básica, história e exame orientam a prioridade da perda visual sem dor. Meça a acuidade de cada olho, examine a resposta pupilar, procure o reflexo vermelho e avalie o fundo até onde a técnica permitir. Exames complementares são escolhidos pela hipótese; não devem atrasar a referência de uma emergência ocular ou vascular.

Para esses atos, são necessários tabela de acuidade, oclusor, lanterna e oftalmoscópio, além de técnica adequada. Registre o que foi possível avaliar e a limitação dos recursos disponíveis. A ausência de equipamento não transforma uma perda súbita em queixa eletiva, nem autoriza registrar um exame que não foi realizado.

Medir acuidade visual de verdade, com o que existe na unidade

Prepare a tabela de acuidade visual na distância para a qual ela foi calibrada, com iluminação adequada e os optotipos na altura dos olhos. Teste cada olho separadamente, sem comprimir o olho coberto. Registre primeiro a condição habitual de correção: com os óculos usados para longe, quando disponíveis, ou sem correção. Anote a menor linha lida segundo o critério da tabela; quando a notação permitir, registre também os optotipos acertados ou perdidos. Mudar a distância sem ajustar a escala altera o resultado.

Registre olho, método, distância e condição de correção. Por exemplo: AV sem correção, OD 20/30 e OE 20/40. Uma acuidade de 20/60 sem óculos pode ter componente refracional, mas o número sozinho não estabelece normalidade. Uma medida de 20/60 com os óculos habituais também não prova doença: a receita pode estar desatualizada. Perda que persiste após avaliação da melhor correção exige procurar outras causas. Compare com medidas anteriores e com a função que o paciente perdeu.

Para perto, o protocolo descreve outro exame, com outra regra: tabela de leitura a 33 a 40 centímetros, testada de maneira binocular, com a lente corretiva de perto se o paciente a usa, em local iluminado, e registrada pela menor linha que ele consegue ler — a notação J1, J2 e assim por diante. Não é substituto da medida de longe: mede outra coisa, e num paciente présbita mal corrigido pode estar ruim com a visão de longe perfeita.

E quando não há tabela? Mede-se assim mesmo, e registra-se o método. Qualquer texto impresso padronizado a distância fixa serve para comparação com o próprio paciente ao longo do tempo. Abaixo disso existe uma escala grosseira e útil, em degraus: contar dedos, dizendo a distância em que ele acertou; perceber movimento de mão; perceber luz, dizendo se ele acerta a direção de onde ela vem; e não perceber luz. Escrever conta dedos a um metro no olho direito é infinitamente mais informativo do que escrever baixa acuidade visual, e é a diferença entre um encaminhamento que o regulador prioriza e um que ele devolve.

Dois cuidados fecham o ato. O primeiro é medir antes de instilar qualquer coisa e antes de qualquer manobra, porque a primeira medida é a que serve de linha de base para todas as outras. O segundo é medir o olho que o paciente diz que está bom. É comum descobrir aí uma perda antiga que ninguém sabia, e é a comparação entre os dois olhos que dá sentido a tudo o que vem depois — inclusive à pupila.

O furo estenopeico ajuda a explorar o componente óptico da baixa visual. Com o outro olho ocluído, alinhe um pequeno orifício, em geral de 1 a 2 mm, à pupila do olho testado e peça que releia a mesma tabela, na mesma distância e com boa iluminação. O orifício reduz os raios periféricos e pode diminuir o borramento. Melhora sugere componente óptico corrigível, mas não identifica o tipo nem o grau do erro e não exclui doença associada. Ausência de melhora também não exclui erro refracional: alinhamento, iluminação, limitação do teste ou doença concomitante podem interferir. Registre a acuidade inicial e a obtida com o furo separadamente; o resultado não equivale à melhor acuidade corrigida por refração.

Adulto fictício testa o olho direito por um pequeno orifício em disco preto, enquanto o olho esquerdo permanece ocluído.
Simulação didática. Teste do olho direito com furo estenopeico e oclusão do esquerdo, sem pressionar os olhos. A comparação usa a mesma tabela e distância. Melhora apoia um componente óptico; não dispensa a investigação de sinais de alarme.

Erros de refração: entender o foco ajuda a interpretar a queixa. Na miopia, o foco tende a se formar antes da retina e a visão de longe costuma ser pior; a nitidez de perto depende do grau e da distância. Na hipermetropia, o foco tenderia a ficar atrás da retina sem acomodação: o jovem pode compensar e manter boa acuidade, com esforço visual, enquanto graus maiores ou menor capacidade de acomodar também prejudicam a visão de longe. No astigmatismo, diferenças de poder óptico entre meridianos da córnea ou do cristalino produzem borramento ou distorção em diferentes distâncias. Na presbiopia, a acomodação diminui com a idade, geralmente tornando a leitura próxima mais difícil a partir dos 40 a 45 anos. Ela pode coexistir com qualquer uma das outras condições.

O que define a prioridade é o conjunto da história e do exame. Dificuldade gradual e estável, sem sinais de alarme, permite encaminhamento eletivo para exame oftalmológico e refração, pela rede disponível, com correção e acompanhamento. O furo não autoriza prescrever um grau por tentativa. Se não houver melhora, prossiga na investigação de meios, retina e nervo óptico, sem concluir automaticamente que não existe ametropia. Se houver perda súbita, sombra ou cortina, flashes ou moscas volantes novos, ou distorção visual recente, encaminhe com urgência mesmo que a leitura melhore parcialmente com o furo. A criança precisa de avaliação apropriada à idade e ao risco de ambliopia; não se deve transferir para ela, sem adaptação, a rotina eletiva do adulto.

A lanterna alternada: procurar o defeito pupilar aferente relativo

É o exame mais barato de toda a oftalmologia e o que mais muda a interpretação de uma perda visual. Faz-se numa sala com luz reduzida, com o paciente olhando para um ponto distante — olhar para a lanterna ativa a acomodação e a miose de perto e estraga o teste. A lanterna vem de baixo e de lado, ilumina um olho por cerca de dois a três segundos, e passa rapidamente para o outro, sem intervalo de escuro no meio, repetindo o vaivém três ou quatro vezes.

O que se observa é a pupila do olho que está recebendo a luz naquele instante. Normalmente ela contrai e fica contraída. Se, ao receber a luz, ela dilata em vez de contrair, aquele olho tem defeito pupilar aferente relativo: ele perde mais consenso do outro lado do que ganha estímulo direto. É relativo porque compara os dois olhos, e por isso não existe defeito aferente relativo bilateral e simétrico — doença igual nos dois olhos dá pupilas iguais e teste normal.

O que o achado significa, na prática de unidade básica, é topografia. Defeito aferente relativo aponta para retina extensa ou nervo óptico — oclusão arterial ou venosa isquêmica, descolamento grande, neurite, neuropatia isquêmica, glaucoma muito assimétrico. Catarata não produz defeito aferente relativo, por mais densa que seja; hemorragia vítrea, em geral, também não. Isso responde à pergunta que o interno mais precisa responder às onze da noite: a perda de visão deste olho branco é de meio ou de via.

Duas armadilhas técnicas derrubam o teste. A primeira é uma pupila que não se mexe por causa de colírio midriático, de trauma de esfíncter ou de paralisia do terceiro par — nesses casos, observa-se a pupila do outro olho, que continua respondendo por via consensual. A segunda é fazer o teste com a luz ambiente acesa: a pupila já está contraída e a diferença some. Se o teste vier duvidoso, refaça no escuro e com lanterna forte antes de registrá-lo como negativo.

O reflexo vermelho e o fundo de olho até onde a pupila deixar

O reflexo vermelho se procura a cerca de meio metro do paciente, com o oftalmoscópio em dioptria zero, olhando os dois olhos ao mesmo tempo se possível. O que se vê é a luz que voltou da retina através dos meios transparentes. Reflexo presente e homogêneo nos dois olhos significa meios transparentes; reflexo apagado ou heterogêneo significa que alguma coisa entre a córnea e a retina deixou de ser transparente — e no adulto com perda visual sem dor as duas principais são catarata e hemorragia vítrea. O protocolo estadual usa exatamente esse achado, a perda do reflexo vermelho, como um dos três itens da suspeita de catarata senil.

A fundoscopia depende do equipamento, da pupila e da experiência do examinador. A avaliação especializada do nervo óptico e da retina pode exigir dilatação, biomicroscopia e mapeamento retiniano. Se esses recursos não estiverem disponíveis, registre a limitação e mantenha o encaminhamento indicado. A presença ou ausência de um medicamento em uma lista nacional, isoladamente, não informa o estoque da unidade nem substitui a consulta à rede local. Não adie uma emergência para conseguir realizar um exame completo na atenção primária.

Isso não dispensa olhar. A fundoscopia sem dilatação enxerga o disco óptico na maior parte dos pacientes, numa sala escura e com paciente colaborativo, e o disco é onde moram a escavação do glaucoma, o edema da neuropatia isquêmica e as hemorragias em chama da oclusão venosa. O que ela não enxerga com confiabilidade é periferia de retina — que é onde estão a rotura, o descolamento inicial e boa parte da retinopatia. Fundoscopia sem midríase normal não afasta descolamento de retina, e escrever fundo de olho sem alterações depois de um exame não dilatado é afirmar mais do que se viu.

Não usar palpação do globo como medida de pressão ou substituto de tonometria. Quando indicada, a tonometria exige equipamento, técnica e exclusão de globo aberto; sua indisponibilidade não deve atrasar a referência de uma emergência. A ausência de dor ou uma impressão digital de consistência não confirma normalidade ocular nem exclui doença de retina, nervo óptico ou glaucoma.

Exames complementares: escolher pela hipótese sem atrasar a referência

Diante de forte suspeita de arterite de células gigantes com ameaça visual, acionar o supervisor e a referência hospitalar imediatamente e iniciar o glicocorticoide indicado. Colher VHS, PCR e hemograma prontamente se isso não atrasar a primeira dose; não aguardar resultados, imagem ou biópsia para tratar. Organizar tratamento e transferência em paralelo. O hemograma pode mostrar anemia e trombocitose; exames normais não afastam isoladamente a hipótese.

A razão de a coleta ser prioritária não é que o resultado libere o paciente. É o contrário: o resultado normal não exclui a doença, e o resultado alterado não a confirma. Glicocorticoide pode modificar marcadores; colher antes se prontamente possível, mas não atrasar tratamento. Exames posteriores continuam úteis quando interpretados com dose e tempo de exposição. Colher primeiro preserva a informação para quem vai decidir depois.

A investigação vascular também pode ser urgente. Oclusão arterial retiniana e amaurose fugaz de provável origem isquêmica exigem avaliação em serviço capaz de conduzir AVC ou ataque isquêmico transitório, junto à oftalmologia. Glicemia, exames laboratoriais, investigação cardíaca e vascular são definidos conforme a apresentação e o protocolo de emergência. Exames de seguimento, como hemoglobina glicada, não substituem esse fluxo.

Uma tomografia normal não exclui doença de retina. Por isso, não se deve solicitar tomografia de órbitas como condição para encaminhar toda perda visual indolor. Entretanto, suspeita de isquemia retiniana pode indicar imagem cerebral e dos vasos no fluxo de AVC; trauma, proptose e sinais de compressão têm outras indicações. No paciente que perdeu subitamente a visão de um olho enquanto via televisão, a avaliação neurovascular pode ser parte da urgência, mesmo sem déficit motor. O erro é usar um exame isolado para encerrar a investigação ou atrasar o destino correto.

O calendário do rastreamento: quem, quando e de quanto em quanto tempo

Aqui a investigação deixa de ser do paciente que veio e passa a ser do paciente que não veio, e as duas doenças rastreáveis são a retinopatia diabética e o glaucoma. Elas se comportam de modo oposto do ponto de vista documental.

A retinopatia diabética tem régua nacional, e ela é explícita. O protocolo nacional de 2021 manda fazer o primeiro exame oftalmológico em até cinco anos após a instalação do diabetes tipo 1, ou no início da puberdade; e imediatamente após o diagnóstico no diabetes tipo 2. As avaliações seguintes devem ocorrer anualmente, ou em período menor conforme o estágio da retinopatia. Gestantes com diabetes devem fazer exame oftalmológico trimestral. Não é necessário rastrear retinopatia em quem tem diabetes gestacional — isso é consenso entre os três documentos que este capítulo leu.

O glaucoma não tem régua de rastreamento nacional, e essa ausência é conteúdo. O protocolo nacional do glaucoma é um protocolo de diagnóstico e de tratamento de quem já é suspeito ou doente, não de busca ativa: ele define quem entra, o que medir e o que prescrever, e não estabelece a quem oferecer exame nem com que periodicidade. O protocolo estadual de regulação define a porta pelo achado — suspeita de glaucoma, por exemplo aumento da pressão intraocular ou aumento da escavação do disco óptico — o que pressupõe que alguém tenha medido a pressão ou olhado o disco. Na prática de uma unidade básica sem tonômetro, quem produz a suspeita é a história familiar somada à fundoscopia do disco e à queixa de campo.

Rastrear catarata, por sua vez, não requer nenhum programa: requer medir acuidade em toda pessoa acima de 60 anos que se queixe de vista, e em toda pessoa que caiu. O protocolo estadual diz que o acompanhamento da acuidade visual pode ser feito na atenção primária com a tabela — o que quer dizer, sem rodeios, que a atenção primária tem a ferramenta e a atribuição.

Uma nota sobre teleoftalmologia, porque muda o que é possível pedir. O protocolo estadual descreve um serviço de telediagnóstico que afere acuidade visual, refração, pressão intraocular, documentação fotográfica de segmento anterior e de fundo, pálpebras, motilidade e reflexos pupilares, e cujos critérios de inclusão são pacientes a partir de 8 anos com baixa de acuidade inespecífica — incluindo erros refracionais e catarata sem indicação cirúrgica prévia — e rastreamento de retinopatia diabética. Ficam de fora, por critério explícito, gestantes a partir de 27 semanas e puérperas até 6 semanas, alterações agudas com indicação de emergência oftalmológica, condições com indicação cirúrgica e usuários de lente de contato. É um recurso do Rio Grande do Sul, não do país; a lição transferível é que rastreamento de retina por retinografia com laudo remoto é modalidade existente e regulada no Brasil, e vale perguntar o que a sua região tem.

O que o encaminhamento precisa dizer para não voltar

O protocolo estadual publica, para cada um dos oito protocolos, um conteúdo descritivo mínimo. Lidos em conjunto, eles convergem numa lista curta que serve para qualquer perda visual: sinais e sintomas com tempo de evolução; medida de acuidade visual em cada olho, informando se foi com ou sem lente corretiva; diagnóstico prévio, se houver, com o que já foi tratado e com que medicamento e posologia; e laudos de exames anexados, preferencialmente, ou descritos na íntegra com data.

Acrescente o resultado do teste pupilar e suas limitações, a acuidade de cada olho e a descrição do campo visual. Na suspeita de descolamento, informe também o início e a evolução dos sintomas e organize referência urgente; o prazo cirúrgico será definido pela equipe de retina. Nas perdas graduais, descreva o prejuízo funcional em atividades concretas: deixou de cozinhar, passou a cair ou não consegue ler os rótulos. Esses dados permitem priorizar melhor do que o adjetivo importante.

O protocolo também é explícito sobre o que não impede o encaminhamento: os exames complementares constam do conteúdo descritivo mínimo, mas não são obrigatórios onde não existem, e a falta deles não impede a solicitação de consulta especializada. Isso importa porque a espera pela retinografia que a região não oferece é uma das maneiras mais comuns de um encaminhamento urgente virar um encaminhamento de seis meses.

Por fim, uma instrução do próprio protocolo que costuma ficar de fora da consulta: orientar o paciente a levar, na primeira consulta especializada, o documento de referência com as informações clínicas e o motivo do encaminhamento, as receitas dos medicamentos em uso e os exames complementares recentes. Dito ao paciente, isso evita a consulta perdida em que o especialista pede de volta o que já existia na pasta amarela.

07

Dois relógios, e o encaminhamento que sabe em qual deles está

Toda perda visual sem dor está num de dois relógios. Num deles o tecido morre enquanto se decide, e a unidade de tempo é a hora; no outro o tecido morre ao longo de anos, e a unidade de tempo é a consulta que não aconteceu. Confundir os dois custa caro nas duas direções: tratar tudo como o segundo relógio perde o primeiro, e tratar tudo como o primeiro entope a emergência e faz com que ninguém acredite no próximo encaminhamento urgente que você escrever.

  1. 1Pergunte primeiro em quanto tempo se instalou, e faça o paciente reconstruir o momento. Súbito de verdade é o paciente que sabe a hora, o cômodo e o que estava fazendo. Progressivo é o que diz que faz uns meses, ou que percebeu quando tampou um olho por acaso.
  2. 2Meça a acuidade visual de cada olho separadamente, antes de qualquer colírio e antes de qualquer manobra, com a lente corretiva do paciente se ele a usa, e registre o método e a notação — s/c ou c/c, olho, fração da tabela. Meça também o olho que ele diz estar bom.
  3. 3Faça a lanterna alternada no escuro. Defeito pupilar aferente relativo presente significa retina extensa ou nervo óptico, e tira a catarata da lista.
  4. 4Procure o reflexo vermelho nos dois olhos a meio metro. Reflexo apagado num olho branco e indolor, no adulto, é catarata ou hemorragia vítrea — e a segunda tem relógio de horas.
  5. 5Não usar palpação do globo como medida de pressão ou substituto de tonometria. Quando indicada, a tonometria exige equipamento, técnica e exclusão de globo aberto; sua indisponibilidade não deve atrasar a referência de uma emergência. Dor, olho vermelho e perda visual exigem considerar glaucoma agudo e seguir a avaliação urgente descrita em Olho vermelho.
  6. 6Se a perda foi súbita, indolor e unilateral: relógio de horas. Telefone ao serviço de referência antes de escrever o papel, e organize o transporte antes de o paciente sentar de novo na sala de espera.
  7. 7Se houve fotopsia, moscas volantes novas ou cortina periférica: relógio de horas, mesmo com acuidade central de 20/20 — e diga no encaminhamento, com essas palavras, que a visão central está preservada.
  8. 8Em pessoa acima de 50 anos, alteração visual ou amaurose fugaz associada a cefaleia nova, claudicação mandibular, hipersensibilidade do couro cabeludo ou sintomas constitucionais exige considerar arterite de células gigantes. Diante de forte suspeita de arterite de células gigantes com ameaça visual, acionar o supervisor e a referência hospitalar imediatamente e iniciar o glicocorticoide indicado. Colher VHS, PCR e hemograma prontamente se isso não atrasar a primeira dose; não aguardar resultados, imagem ou biópsia para tratar. Organizar tratamento e transferência em paralelo.
  9. 9Se a perda é progressiva, some duas informações antes de decidir a fila: a acuidade medida e o prejuízo funcional concreto. Acuidade de 20/30 ou pior com correção, ou prejuízo em atividades da vida diária, encaminha catarata.
  10. 10Se o paciente tem diabetes, procure na pasta a data do último exame de fundo de olho. Se não houver nenhuma, o rastreamento não está atrasado: ele nunca começou, e o pedido sai nesta consulta.
  11. 11Se a queixa é de campo — esbarrar, não ver o que vem do lado, tropeçar — e há história familiar de glaucoma, olhe o disco óptico dos dois olhos e compare a escavação de um com a do outro. Assimetria é achado.
  12. 12Antes de liberar qualquer paciente com queixa visual, releia o que escreveu e pergunte: um regulador que só tenha este papel consegue priorizar? Se a resposta depende de algo que ficou na sua cabeça, o papel está incompleto.

Relógio de horas — o tecido está morrendo agora

Perda súbita indolor com defeito pupilar aferente relativo; cortina, fotopsia ou moscas volantes novas, inclusive com visão central preservada; perda súbita com reflexo vermelho apagado; e o conjunto temporal da arterite de células gigantes acima dos cinquenta. Aqui o telefone vem antes do papel, o transporte é resolvido dentro da unidade, e o paciente não volta para a sala de espera. Fotopsias novas, aumento súbito de moscas volantes e cortina no campo visual exigem exame retiniano urgente, mesmo com acuidade 20/20. A acuidade não comprova isoladamente que a mácula esteja aplicada. Descolamento com mácula envolvida também requer referência urgente; duração superior a 14 dias não encerra a possibilidade de benefício nem autoriza adiar avaliação.

Relógio de anos — mas a data é hoje

Catarata com prejuízo funcional ou acuidade de 20/30 ou pior com correção; diabetes sem nenhum fundo de olho na pasta; queixa de campo com história familiar de glaucoma; usuário crônico de cloroquina ou hidroxicloroquina sem avaliação de base. Nada disso pede ambulância, e tudo isso pede data. O encaminhamento sai desta consulta com acuidade medida em cada olho, prejuízo funcional descrito em atividade concreta, e retorno marcado na própria unidade para conferir se a consulta especializada aconteceu — porque a única coisa que converte fila em cegueira é ninguém estar olhando para ela.

Nove maneiras de perder visão num olho que não está vermelho e não dói

QuadroComo se instalaO que o paciente descreveLanterna: defeito aferente e reflexo vermelhoPara onde, e em que prazo
Oclusão de artéria central da retinaSegundos a poucos minutos, indolor, unilateralApagou de uma vez; sabe a hora e o que estava fazendoDefeito aferente marcante; reflexo vermelho presenteEmergência oftalmológica, telefone antes do papel; sem janela fixada em documento brasileiro
Descolamento de retina regmatogênicoHoras a dias, indolor, unilateral, progressivo em cortinaFlashes, chuva de moscas novas, sombra que avança e não saiDefeito aferente se extenso; reflexo vermelho presenteFotopsias novas, aumento súbito de moscas volantes e cortina no campo visual exigem exame retiniano urgente, mesmo com acuidade 20/20. A acuidade não comprova isoladamente que a mácula esteja aplicada. Descolamento com mácula envolvida também requer referência urgente; duração superior a 14 dias não encerra a possibilidade de benefício nem autoriza adiar avaliação.
Hemorragia vítreaMinutos a horas, indolor, unilateralFumaça, teia, cortina avermelhada; perda de qualquer grauSem defeito aferente em geral; reflexo vermelho apagadoEmergência; prioridade específica quando densa e sem etiologia definida
Oclusão de veia central da retinaHoras a um ou dois dias, indolor, unilateral, notada ao acordarEmbaçou de um olho; perda variável, raramente totalDefeito aferente proporcional à isquemia; reflexo vermelho presenteEmergência e depois alta complexidade; preferência de fila até 3 meses de evolução
Neurite ópticaHoras a dias, piora por até duas semanas; adulto jovemEmbaçou e o vermelho ficou lavado; dói ao mover o olhoDefeito aferente presente; reflexo vermelho presenteEmergência oftalmológica; fundo de olho normal não afasta
Neuropatia óptica isquêmica arterítica (arterite de células gigantes)De uma vez, acima dos cinquenta, precedida ou não de amaurose fugazPerdeu a metade de cima ou de baixo; dor na têmpora, pente incomoda, cansa mastigandoDefeito aferente presente; reflexo vermelho presenteTransferência no mesmo dia, com VHS, PCR e hemograma já colhidos; sem régua brasileira
Glaucoma primário de ângulo abertoAnos, indolor, bilateral e assimétricoEsbarra no batente, não vê o que vem do lado; lê bem de pertoDefeito aferente só se muito assimétrico; reflexo vermelho presenteOftalmologia de média complexidade; suspeita se escavação aumentada ou pressão elevada
CatarataMeses a anos, indolor, em geral bilateralEmbaçou, ofusca no farol e no sol, precisa de mais luz para lerSem defeito aferente, por densa que seja; reflexo vermelho apagadoOftalmologia se acuidade 20/30 ou pior com correção, ou prejuízo funcional
Retinopatia diabética e edema macular diabéticoAnos em silêncio; a perda central pode ser rápida quando a mácula edemaciaNada, até tarde; depois, mancha ou distorção no centro da imagemSem defeito aferente em geral; reflexo vermelho presenteRastreio anual pelo protocolo nacional; alta complexidade se edema macular, proliferativa ou não proliferativa grave

O elenco do glaucoma no SUS: do rótulo à gota, com a conta refeita contra a Rename 2024 e o esquema do protocolo nacional

Fármaco (denominação e forma da Rename 2024)Concentração declaradamg/mL recalculadomg por gota de 0,05 mLEsquema do protocolo nacional, por olhoComponente de financiamento
Maleato de timolol, solução oftálmica5 mg/mL (0,5%)5,0 — confere0,25 mg1 gota 2 vezes ao diaBásico e Especializado
Latanoprosta, solução oftálmica0,05 mg/mL (0,005%)0,05 — confere0,0025 mg1 gota 1 vez ao dia, à noiteEspecializado
Bimatoprosta, solução oftálmica0,3 mg/mL (0,03%)0,3 — confere0,015 mg1 gota 1 vez ao dia, à noiteEspecializado
Travoprosta, solução oftálmica0,04 mg/mL (0,004%)0,04 — confere0,002 mg1 gota 1 vez ao dia, à noiteEspecializado
Cloridrato de dorzolamida, solução oftálmica20 mg/mL, sem porcentagem no elenco20,0 — equivale a 2%, como diz o protocolo1,0 mg1 gota 2 a 3 vezes ao diaEspecializado
Brinzolamida, suspensão oftálmica10 mg/mL (1%)10,0 — confere0,5 mg1 gota 2 a 3 vezes ao diaEspecializado
Tartarato de brimonidina, solução oftálmica2 mg/mL (0,2%)2,0 — confere0,1 mg1 gota 2 a 3 vezes ao diaEspecializado
Cloridrato de pilocarpina, solução oftálmica20 mg/mL (2%)20,0 — confere1,0 mg1 gota de 6 em 6 horasBásico e Especializado
Acetazolamida, comprimido250 mg1 comprimido = 250 mgnão se aplica — via oral1 comprimido até de 6 em 6 horas, ou 1.000 mg ao diaBásico e Especializado
Manitol, solução intravenosa a 20%200 mg/mL200,0 — confere com o rótulo de 20%não se aplica — via intravenosa1,5 a 2 g/kg de 8 em 8 horas: 105 a 140 g por dose num adulto de 70 kgausente da Rename 2024

A conferência das concentrações da Rename 2024 fecha. Cada colírio oftalmológico do elenco traz a porcentagem e o mg/mL lado a lado, e a conversão de 1% para 10 mg/mL foi refeita para os dez itens da tabela acima: timolol 0,5% e 5 mg/mL; latanoprosta 0,005% e 0,05 mg/mL; bimatoprosta 0,03% e 0,3 mg/mL; travoprosta 0,004% e 0,04 mg/mL; brinzolamida 1% e 10 mg/mL; brimonidina 0,2% e 2 mg/mL; pilocarpina 2% e 20 mg/mL; dexametasona oftálmica 0,1% e 1 mg/mL. Todas conferem, sem uma casa decimal fora do lugar. Uma única entrada foge do padrão editorial da própria tabela: o cloridrato de dorzolamida aparece como 20 mg/mL sem a porcentagem entre parênteses que todos os vizinhos carregam. Não é erro de conta — 20 mg/mL é 2%, que é o que o protocolo nacional prescreve —, é falta de simetria numa tabela em que a porcentagem é a forma como o rótulo do frasco se apresenta ao paciente.

A Rename 2024 não declara o volume do frasco de nenhum colírio: registra denominação, concentração, forma farmacêutica e componente de financiamento. Isso torna impossível calcular, só com o elenco, quantos frascos um paciente precisa por ano. A conta que dá para fazer é a do consumo em volume: a 0,05 mL por gota, uma prostaglandina em dose noturna consome 1,5 mL por olho por mês; o timolol duas vezes ao dia consome 3,0 mL; dorzolamida, brinzolamida ou brimonidina três vezes ao dia consomem 4,5 mL; e a pilocarpina de 6 em 6 horas consome 6,0 mL. Dobre tudo em doença bilateral, que é a regra no glaucoma crônico. O valor de 0,05 mL por gota é a convenção de vinte gotas por mililitro para solução oftálmica aquosa — é premissa deste capítulo, não dado de nenhuma das fontes lidas, e frascos com bico diferente entregam gotas diferentes.

O manitol é o achado que muda conduta. O protocolo nacional do glaucoma o lista entre os seus fármacos, como solução intravenosa a 20%, e fixa o esquema em 1,5 a 2 g/kg por via intravenosa de 8 em 8 horas, para uso hospitalar em pressão intraocular elevada. A conta, refeita num adulto de 70 kg: 1,5 g/kg são 105 g, que a 200 mg/mL correspondem a 525 mL de solução por dose; 2 g/kg são 140 g, ou 700 mL por dose. De 8 em 8 horas, isso dá de 315 a 420 g por dia, ou de 1,6 a 2,1 litros de manitol a 20% em 24 horas. E o elenco não o tem: procurada com grep exato sobre o texto da Rename 2024 normalizado para espaço e hífen, a palavra manitol não aparece uma única vez. O fármaco que o protocolo nacional prescreve está fora da relação nacional de medicamentos essenciais. As duas coisas — a magnitude do esquema e a ausência no elenco — estão registradas aqui como o que são, uma conta e uma busca. Se o esquema está certo é julgamento clínico, e não é o interno quem o faz.

A mesma busca exata devolve zero ocorrência de tropicamida, de fenilefrina e de ciclopentolato na Rename 2024. O elenco nacional não tem midriático, enquanto dois protocolos clínicos nacionais exigem o exame que só o midriático permite: o do glaucoma manda avaliar o nervo óptico sob midríase, e o da retinopatia diabética classifica os cinco níveis de gravidade pelas alterações observáveis à fundoscopia dilatada e diz que o mapeamento com pupila dilatada é preferencial. A consequência prática, para quem escreve prontuário, é que fundo de olho sem alterações depois de um exame não dilatado afirma mais do que se viu, e não afasta descolamento de retina nem retinopatia periférica.

Terceira ausência, e a mais direta: a Rename 2024 não traz ranibizumabe, e o protocolo nacional da retinopatia diabética o preconiza nominalmente, ao lado do aflibercepte, para edema macular que envolve o centro da fóvea. O aflibercepte aparece na Rename 2024 uma única vez, na tabela de incorporações, com a ressalva de que a incorporação para edema macular diabético ficou condicionada à negociação de preço e à elaboração do protocolo do Ministério da Saúde. Fluoresceína também não consta. Nada disso muda o que o interno faz — o antiangiogênico é decisão de retinólogo —, mas muda o que ele deve prometer ao paciente na hora de encaminhar.

Três achados de coerência interna no protocolo nacional do glaucoma, todos verificáveis dentro do próprio documento. O primeiro é uma fronteira numérica. O critério de inclusão exige pressão intraocular média acima de 21 mmHg sem tratamento, e o critério de gravidade menor é pressão de 21 a 26 mmHg sem medicamento. Uma pressão de exatamente 21,0 mmHg, portanto, não conta como critério de inclusão e conta como critério de gravidade menor: o mesmo número que não permite entrar no protocolo qualifica a gravidade de quem entrou. O corte de 26 não tem esse problema — 26,0 é menor, e maior é acima de 26.

O segundo é a escada terapêutica, e ele tem consequência de autorização e de ressarcimento, porque o protocolo é usado justamente para isso. A monoterapia com timolol é indicada para quem tem dois ou mais critérios de gravidade menores, ou um menor e um maior. A monoterapia com prostaglandina é indicada para quem tem dois ou mais maiores, ou um maior e dois ou mais menores. Basta escrever as duas regras lado a lado para ver que elas se cruzam: um paciente com um critério maior e dois menores satisfaz as duas ao mesmo tempo — tem dois ou mais menores, o que o manda para o timolol, e tem um maior com dois menores, o que o manda para a prostaglandina. O mesmo vale para um maior com três menores e para dois maiores com um menor. O protocolo não oferece critério de desempate, e as duas primeiras linhas têm custo e potência diferentes.

O terceiro fecha em vez de abrir, e vale registrar porque conferência que dá certo diz tanto quanto a que falha. A hipertensão ocular é definida por pressão acima de 21 mmHg sem dano de nervo nem de campo — um único critério de inclusão dos três exigidos —, e o protocolo explicitamente não preconiza tratá-la, com o argumento de que 90% desses pacientes não desenvolvem glaucoma. O glaucoma de pressão normal, por sua vez, tem pressão igual ou inferior a 21 mmHg e exige, por definição, dano típico do nervo e campo visual compatível: são dois dos três critérios, e por isso ele entra no protocolo, que manda tratá-lo. As duas entidades encaixam sem contradição na regra de pelo menos dois critérios.

Duas conferências no protocolo estadual de regulação, uma que passa e outra que não. A que passa: os cortes de dose do rastreamento de retinopatia por antimaláricos reproduzem sem desvio a referência que o quadro cita, com 5 mg/kg de peso real para hidroxicloroquina e 2,3 mg/kg de peso real para cloroquina. A que não passa está no mesmo quadro e é lógica, não aritmética: a regra manda começar a avaliação anual a partir do quinto ano de uso na ausência de fatores de risco e antecipá-la para o primeiro ano na presença deles — e a lista de fatores de risco inclui duração de uso igual ou superior a cinco anos. Um fator que só se conhece no quinto ano não pode disparar uma antecipação para o primeiro. O que o quadro parece ter feito foi colar numa mesma lista os fatores de risco para toxicidade retiniana, em que a duração de uso pertence por direito, e os fatores que antecipam o início do rastreamento, em que ela não cabe.

Ainda no protocolo estadual, um deslize de numeração que atrapalha quem procura. A seção Mudanças da nova versão diz que o Protocolo 7 ganhou quadros complementares com apresentação de colírios lubrificantes nos quadros 4 e 5. No corpo do documento, o quadro 4 é a lista de critérios de encaminhamento para a agenda de retina, e os colírios lubrificantes estão nos quadros 5 e 6 — como o próprio rodapé do Protocolo 7 informa corretamente. O erro está no resumo das mudanças, não no corpo, e é uma diferença de uma unidade; mas quem for buscar o quadro 4 confiando no resumo vai encontrar critérios de descolamento de retina onde esperava encontrar lágrima artificial.

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A conduta, hora a hora

A conduta na perda visual sem dor tem duas metades que quase não se tocam. A primeira cabe em quinze minutos e é quase toda exame físico e telefone; a segunda dura anos e é quase toda calendário. O erro mais comum não é errar o diagnóstico: é executar a segunda metade num paciente que estava na primeira.

Glicocorticoide pode modificar marcadores; colher antes se prontamente possível, mas não atrasar tratamento. Exames posteriores continuam úteis quando interpretados com dose e tempo de exposição. Não é timidez: é onde a régua brasileira coloca cada decisão. O protocolo nacional do glaucoma condiciona a escolha do hipotensor a campimetria, paquimetria, gonioscopia e pressão basal aferida em dias diferentes — nenhuma delas disponível na unidade —, e o antiangiogênico depende de tomografia de coerência óptica com um corte de espessura. O que o interno controla é tudo o que vem antes: medir, localizar, telefonar, escrever e marcar retorno.

  1. Minuto 0 — a pergunta da porta

    Antes de tudo, separe olho vermelho de olho branco. Olho vermelho com dor, secreção, sensação de areia ou fotofobia é do capítulo Olho vermelho, e lá a primeira medida pode ser irrigação, se houve produto químico. Este capítulo começa quando o olho está branco e quieto. Feita a separação, a única pergunta que organiza os próximos quinze minutos é de tempo: instalou-se de uma vez ou foi chegando? Peça ao paciente que reconstrua o momento — onde estava, o que fazia, que horas eram. Quem sabe responder está no relógio de horas.

  2. Minutos 0 a 10 — os quatro atos que decidem o caso

    Registrar acuidade de cada olho com a correção habitual, pupilas e defeito aferente, reflexo vermelho e campos por confrontação quando viável. Integrar os achados ao início e à evolução da perda visual, ao exame neurológico e à suspeita clínica. Descrever método, limitações e resultados; achados normais isolados não encerram a investigação. Não usar palpação do globo como medida de pressão ou substituto de tonometria. Quando indicada, a tonometria exige equipamento, técnica e exclusão de globo aberto; sua indisponibilidade não deve atrasar a referência de uma emergência.

    Prescrição
    • Registrar acuidade por olho e método, pupilas e defeito aferente, campos por confrontação quando viável, reflexo vermelho e sinais neurológicos associados. Não palpar globos como substituto de tonometria.
  3. Minutos 10 a 20 — perda súbita indolor: telefonar antes de escrever

    Perda visual monocular súbita, inclusive amaurose transitória, exige avaliação emergencial. Suspeita de oclusão arterial retiniana deve acionar fluxo de AVC e oftalmologia em paralelo: anotar último momento sem déficit e pesquisar causas vasculares e arterite. Não esperar consulta eletiva, fundo de olho perfeito ou melhora espontânea. Avaliação de reperfusão é especializada e depende da evidência e do protocolo; não prometer trombólise nem ensinar massagem ocular como tratamento efetivo.

    Prescrição
    • Encaminhamento com destino de emergência oftalmológica, contendo tempo de instalação em horas, acuidade visual medida em cada olho com a notação do protocolo, resultado da lanterna alternada e do reflexo vermelho, comorbidades e medicamentos em uso.
    • Orientar o paciente a levar na primeira consulta o documento de referência, as receitas dos medicamentos em uso e os exames complementares recentes.
  4. Minutos 10 a 20 — cortina, flashes ou moscas novas

    Fotopsias novas, aumento súbito de moscas volantes e cortina no campo visual exigem exame retiniano urgente, mesmo com acuidade 20/20. A acuidade não comprova isoladamente que a mácula esteja aplicada. A acuidade não comprova isoladamente que a mácula esteja aplicada. Descolamento com mácula envolvida também requer referência urgente; duração superior a 14 dias não encerra a possibilidade de benefício nem autoriza adiar avaliação.

    Prescrição
    • Encaminhamento de emergência oftalmológica, com a frase explícita sobre visão central preservada ou comprometida, a acuidade medida em cada olho, e a data e hora aproximadas do início dos sintomas.
  5. Minutos 10 a 30 — suspeita de arterite de células gigantes

    Em pessoa acima de 50 anos, cefaleia nova, claudicação mandibular, hipersensibilidade do couro cabeludo e alteração visual levantam suspeita de arterite de células gigantes. Acionar supervisão e avaliação hospitalar urgente e iniciar glicocorticoide em alta dose quando a suspeita for forte, sem esperar biópsia, imagem ou resultado laboratorial. Colher VHS, PCR e hemograma se isso não atrasar tratamento. Ameaça visual favorece discussão de pulsoterapia intravenosa; indisponibilidade imediata não justifica ficar sem glicocorticoide enquanto se organiza transferência. Marcadores normais e exame ocular normal após amaurose não excluem a doença.

    Prescrição
    • Colher VHS, PCR e hemograma sem atrasar a primeira dose de glicocorticoide; iniciar tratamento sob supervisão diante de forte suspeita e encaminhar urgentemente.
    • Ameaça visual: discutir pulsoterapia IV, usualmente metilprednisolona 500–1.000 mg/dia por três dias conforme avaliação e protocolo. Se não prontamente disponível, iniciar esquema sistêmico acessível em alta dose enquanto organiza transferência, sem deixar o paciente sem tratamento.
  6. Consulta de rotina — o diabético cujo fundo de olho nunca foi pedido

    A régua nacional é do protocolo clínico da retinopatia diabética: primeiro exame em até cinco anos após a instalação do diabetes tipo 1, ou no início da puberdade; imediatamente após o diagnóstico no tipo 2; avaliações anuais depois, ou em período menor conforme o estágio; e exame trimestral na gestante com diabetes. Quem tem diabetes gestacional não precisa ser rastreado. Se não há nenhum laudo na pasta, não há atraso a recuperar — há um rastreamento que nunca começou, e o pedido sai desta consulta com data de retorno marcada para conferir se a consulta aconteceu. O controle glicêmico, as metas e o tratamento do diabetes são do capítulo Diabetes tipo 2 na unidade básica; a periodicidade do fundo de olho é deste.

    Prescrição
    • Solicitação de avaliação oftalmológica para rastreamento de retinopatia diabética, informando tipo de diabetes, idade aproximada ao diagnóstico, medicamentos em uso para controle metabólico, último valor de hemoglobina glicada e acuidade visual medida em cada olho.
    • Retorno na unidade em 60 dias para conferir se a consulta especializada aconteceu e para anexar o laudo à pasta.
  7. Consulta de rotina — a queixa de campo que vira suspeita de glaucoma

    Pressão elevada isolada não define glaucoma, e pressão normal não o exclui. Na hipertensão ocular, avaliar córnea, nervo, campo, idade, antecedentes e risco de perda funcional ao longo da vida. Algumas pessoas precisam apenas de seguimento; outras se beneficiam de tratamento. Na diretriz NICE, pressão de 24 mmHg ou mais associada a risco de perda visual fundamenta oferecer tratamento, sem transformar esse corte em diagnóstico universal.

    Prescrição
    • Encaminhamento à oftalmologia com a descrição da escavação estimada em cada olho, a acuidade visual medida em cada olho, a história familiar detalhada por grau de parentesco, e a queixa de campo descrita em situação concreta.
  8. Consulta de rotina — a catarata que já está custando a vida diária

    Aqui o encaminhamento é fácil e o que costuma faltar é o argumento. O protocolo estadual encaminha catarata por dois caminhos independentes: queixa de diminuição da capacidade visual funcional, isto é, que interfere nas atividades da vida diária; ou acuidade medida em 20/30 ou pior com correção, se indicada. Meça, escreva o número, e escreva o prejuízo em atividade concreta — parou de cozinhar, caiu duas vezes desde dezembro, não enxerga o fogão aceso. Enquanto a fila anda, o que a unidade oferece é o que evita a fratura: revisão de medicamentos que aumentam risco de queda, luz de corredor, tapete retirado, corrimão, e a orientação de não dirigir à noite.

    Prescrição
    • Encaminhamento à oftalmologia com acuidade visual medida em cada olho e a informação de se foi com ou sem lente corretiva, descrição do prejuízo funcional em atividades da vida diária, e informação sobre cirurgia prévia de catarata, se houver, com data e local.
    • Retorno na unidade em 90 dias para reconferir a acuidade e verificar o andamento da fila.
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar perda visual sem dor tem uma vantagem que quase nenhuma outra queixa oferece: o desfecho é um número, e o número é comparável consigo mesmo. A pergunta está funcionando tem resposta objetiva se, e só se, a primeira medida tiver sido feita e registrada com o método.

A regra que vale para todos os parâmetros abaixo é medir do mesmo jeito. Mesma tabela, mesma distância marcada no chão, mesma condição de correção, mesmo olho primeiro. Uma acuidade medida a três metros comparada com outra medida a seis metros não é um seguimento, é ruído.

E vale a inversão que o capítulo inteiro persegue: nas doenças de relógio longo, o parâmetro que mais importa não é o do olho, é o da agenda. Encaminhamento sem retorno marcado na própria unidade é encaminhamento que ninguém vai reavaliar.

Acuidade visual de cada olho, pelo mesmo método da primeira medidaEm toda reavaliação, antes de qualquer colírio da consulta

Esperado: Estável ou melhor. Na catarata, a piora é de linhas ao longo de meses; no glaucoma crônico, a acuidade central costuma ficar preservada até muito tarde, e por isso acuidade estável não é sinônimo de doença controlada.

Se não melhora: Queda de duas linhas ou mais entre duas medidas feitas do mesmo jeito reclassifica o caso e antecipa a consulta. Queda súbita, em qualquer contexto, volta ao relógio de horas — inclusive em quem já tem diagnóstico de catarata ou de glaucoma, porque ter uma doença crônica no olho não protege contra ter outra aguda.

Defeito pupilar aferente relativo, refeito com a lanterna alternadaEm toda reavaliação de quem teve perda súbita, e sempre que a acuidade cair

Esperado: Ausente em quem nunca teve; estável ou menos marcante em quem teve. Ele é o único parâmetro deste bloco que não depende de o paciente colaborar com uma tabela.

Se não melhora: Defeito novo em olho que não tinha, ou defeito que apareceu do lado oposto ao original, é achado de emergência: significa que a via aferente do segundo olho está agora pior que a do primeiro. Em paciente com suspeita de arterite de células gigantes, é o cenário que a transferência no mesmo dia existe para evitar.

Reflexo vermelho em cada olhoEm toda reavaliação de queixa visual progressiva, e em qualquer perda nova

Esperado: Estável. Na catarata em evolução ele se apaga devagar, e o obscurecimento dos detalhes do fundo de olho é um dos três itens da suspeita de catarata senil no protocolo estadual.

Se não melhora: Reflexo que se apagou de repente num olho que o tinha, em paciente com diabetes, é hemorragia vítrea até prova em contrário, e hemorragia vítrea em diabético significa retinopatia proliferativa — destino de alta complexidade, com relógio de horas para a avaliação inicial.

Data do último exame de fundo de olho anexado à pasta, e não apenas pedidoEm toda consulta de pessoa com diabetes, e a cada renovação de receita

Esperado: Um laudo com data, dentro do intervalo que o protocolo nacional estabelece: anual em quem não tem retinopatia, mais curto conforme o estágio, trimestral na gestante com diabetes preexistente.

Se não melhora: Pedido sem laudo é rastreamento não feito. Se o pedido tem mais de 60 dias sem consulta marcada, que é o prazo do retorno combinado na consulta em que ele foi feito, o problema deixou de ser clínico e passou a ser de regulação: vale telefonar à central, registrar a tentativa no prontuário e, quando houver modalidade de telediagnóstico com retinografia na região, verificar se o paciente preenche os critérios de inclusão dela.

Prejuízo funcional descrito em atividade concretaA cada 90 dias em quem aguarda cirurgia de catarata ou consulta especializada

Esperado: Estável ou em melhora, e sempre descrito com o mesmo vocabulário: cozinha sozinha, sai à noite, lê o rótulo do medicamento, reconhece rosto no fim do corredor, dirige.

Se não melhora: Perda de uma atividade nova, e sobretudo queda, é motivo para refazer o encaminhamento com a informação atualizada em vez de esperar a fila correr. É também o momento de agir sobre o que não depende da fila: revisão de medicamentos de risco, iluminação, tapetes, corrimão, e a conversa sobre dirigir.

Adesão ao colírio hipotensor, contada em frascos e não em intençãoA cada consulta de quem já tem glaucoma em tratamento

Esperado: Uso diário sem falhas, com o frasco acabando no ritmo esperado. A conta de consumo ajuda: uma prostaglandina em dose noturna consome cerca de 1,5 mL por olho por mês, e o timolol duas vezes ao dia consome o dobro disso.

Se não melhora: Frasco que dura muito mais do que deveria é falta de adesão, não economia. O protocolo nacional é explícito quanto ao desfecho dessa conversa: quando o tratamento clínico é ineficaz, intolerável ou não conta com a adesão do paciente, a cirurgia antiglaucomatosa deve ser considerada. Não adianta trocar o colírio de quem não pinga o que tem.

Registro da queixa de campo em situação concretaA cada consulta de quem tem glaucoma, suspeita de glaucoma ou história familiar

Esperado: Estável. O campo visual não se acompanha por queixa — acompanha-se por campimetria computadorizada, que o protocolo nacional chama de exame padrão-ouro para detectar o dano funcional e monitorar a progressão.

Se não melhora: Queixa nova de campo em quem já tem diagnóstico, ou aparecimento de dificuldade em atividade que antes fazia, antecipa a consulta com o oftalmologista mesmo com acuidade central inalterada. E vale lembrar que a progressão do campo pode ocorrer com a pressão na meta: o protocolo define falha terapêutica como não atingir a pressão-alvo ou como progressão documentada mesmo tendo atingido a pressão-alvo inicial.

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Onde o erro machuca

Escrever baixa de acuidade visual a esclarecer no encaminhamento, sem ter medido a acuidade de cada olho.

O dano: O regulador do outro lado não tem como priorizar, e o caso entra na fila comum. Os oito protocolos de encaminhamento de oftalmologia do documento estadual pedem, sem exceção, medida de acuidade visual em cada olho no conteúdo descritivo mínimo — e a catarata tem corte numérico explícito, 20/30 ou pior com correção. Sem o número, não há como aplicar o corte, e o encaminhamento que poderia ser priorizado por critério é priorizado por data de emissão.

Como pegar a tempo: Meça sempre, mesmo sem tabela, e registre o método. Contar dedos a um metro é uma medida; baixa acuidade não é. E registre a notação completa, com s/c ou c/c, olho e fração, porque 20/60 sem óculos num míope e 20/60 com óculos são dois pacientes diferentes.

Tranquilizar o paciente com fotopsia, moscas volantes novas ou cortina periférica porque a visão central está boa.

O dano: É a inversão exata da regra. Fotopsias novas, aumento súbito de moscas volantes e cortina no campo visual exigem exame retiniano urgente, mesmo com acuidade 20/20. A acuidade não comprova isoladamente que a mácula esteja aplicada. Descolamento com mácula envolvida também requer referência urgente; duração superior a 14 dias não encerra a possibilidade de benefício nem autoriza adiar avaliação. A acuidade de 20/20 num olho com cortina é o motivo da urgência, não o argumento contra ela.

Como pegar a tempo: Trate a tríade fotopsia, moscas novas e sombra como emergência independentemente da acuidade, e escreva no encaminhamento, com todas as letras, se a visão central está preservada. É a frase que decide a fila e a que mais falta.

Registrar fundo de olho sem alterações depois de uma fundoscopia sem midríase.

O dano: Afirma mais do que se viu, e a afirmação circula. O protocolo nacional da retinopatia diabética classifica os cinco níveis de gravidade pelas alterações observáveis à fundoscopia dilatada e diz que o mapeamento com pupila dilatada é preferencial; o do glaucoma manda examinar o nervo óptico sob midríase. Sem dilatação vê-se o disco na maioria dos pacientes e não se vê periferia — que é onde estão a rotura, o descolamento inicial e boa parte da retinopatia. O especialista que ler o prontuário vai supor que a periferia foi examinada.

Como pegar a tempo: Escreva o que fez e o que não fez: disco óptico visualizado sem midríase, com escavação estimada em tanto; periferia não avaliada. E saiba que a lacuna não é sua: busca exata sobre a Rename 2024 devolve zero ocorrência de tropicamida, de fenilefrina e de ciclopentolato — o elenco nacional não tem midriático.

Atribuir o embaçamento do paciente com diabetes ao grau do óculos ou à catarata, trocar a receita e não pedir o fundo de olho.

O dano: É a maneira mais comum de um rastreamento nunca começar. Quatro por cento das pessoas com diabetes tipo 2 já têm retinopatia no momento do diagnóstico do diabetes, e de quatro a oito por cento já têm perda de acuidade visual; após vinte anos, cerca de sessenta por cento terão alguma retinopatia. Sem tratamento, metade das retinopatias proliferativas evolui para cegueira em cinco anos; com diagnóstico e tratamento precoces, o risco cai para menos de cinco por cento. A troca de receita não é errada — é insuficiente, e a sensação de ter resolvido é o que fecha a consulta.

Como pegar a tempo: Em toda consulta de pessoa com diabetes, procure na pasta a data do último laudo de fundo de olho. Pedido sem laudo não conta. Se não há nenhum, o pedido sai nesta consulta, com retorno marcado para conferir se a consulta especializada aconteceu.

Usar a palpação como medida de pressão ou um valor isolado de pressão como diagnóstico de glaucoma

O dano: Erra nos dois sentidos, e o protocolo nacional descreve as duas entidades que provam isso. O glaucoma de pressão normal tem pressão igual ou inferior a 21 mmHg com dano típico de nervo e campo, e o protocolo preconiza tratá-lo; a hipertensão ocular tem pressão acima de 21 mmHg sem dano nenhum, e o protocolo explicitamente não preconiza tratá-la, porque noventa por cento desses pacientes não desenvolvem glaucoma. Não ensinar palpação digital do globo como medida de pressão. A tonometria exige equipamento e exclusão de globo aberto; sua indisponibilidade não deve atrasar a referência de uma emergência.

Como pegar a tempo: Rastreie pelo nervo e pela história, não pela pressão. Compare a escavação dos dois olhos: menos de meio por cento dos indivíduos normais tem assimetria acima de 0,2. E pergunte por parentes de primeiro grau — ter um irmão com glaucoma multiplica por 9,2 a chance de desenvolver a doença, segundo o estudo que o próprio protocolo nacional cita.

Tratar como cefaleia tensional a dor temporal recente de uma pessoa acima dos cinquenta que relata um episódio de escurecimento visual passageiro.

O dano: É a única situação deste capítulo em que a doença que ameaça o segundo olho está em atividade enquanto o paciente vai para casa com o analgésico. A amaurose fugaz precedendo a perda definitiva é um aviso, e é o que costuma ser desvalorizado por ter durado dois minutos e ter voltado sozinho. Glicocorticoide pode modificar marcadores; colher antes se prontamente possível, mas não atrasar tratamento. Exames posteriores continuam úteis quando interpretados com dose e tempo de exposição.

Como pegar a tempo: Em toda cefaleia nova acima dos cinquenta, faça as três perguntas que não se fazem sozinhas: o pente ou o travesseiro incomodam daquele lado? A mandíbula cansa mastigando, a ponto de precisar parar? A vista escureceu e voltou alguma vez? Duas respostas afirmativas mudam o destino da consulta de casa para transferência no mesmo dia, com os exames colhidos antes.

Usar o furo estenopeico como uma decisão binária entre óculos e doença

O dano: A melhora parcial pode coexistir com doença ocular; a ausência de melhora pode refletir limitação técnica ou condições associadas. Usar o teste sozinho pode atrasar uma emergência ou encerrar a investigação cedo demais.

Como pegar a tempo: Registre o resultado de cada olho, interprete junto à evolução e aos sinais de alarme e encaminhe para refração e exame completo quando indicado.

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O que dizer ao paciente e à família

As frases deste bloco existem porque, na perda visual, quase todo o desfecho depende de o paciente fazer alguma coisa que ele não sente necessidade de fazer: ir embora agora para outra cidade quando não dói nada, aceitar um exame de fundo de olho quando enxerga bem, pingar um colírio para sempre quando não sente diferença.

A regra comum a todas é não vender esperança como argumento. Dizer que o tratamento devolve a visão para conseguir adesão é comprar adesão hoje com abandono daqui a três meses, quando o paciente perceber que a visão não voltou.

Convencer a ir agora quem não sente dor nenhuma e chegou dirigindo

O senhor está com uma perda de visão que começou de uma hora para outra, e isso é diferente de uma vista que vai embaçando. Nesse tipo de perda o que está em jogo é a circulação dentro do olho, e ela não avisa doendo. Eu não consigo resolver isso aqui, e não é caso de esperar segunda-feira. Vou telefonar agora para o serviço que tem oftalmologista de plantão e vou organizar o transporte com o senhor antes de o senhor sair desta sala.

Não diga: Não diga que é para descartar coisa grave, nem que é só por precaução. As duas frases dão permissão para o paciente decidir sozinho que a precaução pode esperar. E não peça que ele mesmo se dirija até lá dirigindo, que é o que ele vai propor.

Falar de prognóstico sem prometer e sem tirar a razão de ir

Eu não sei dizer se essa visão volta, e quem vai poder dizer é o oftalmologista que examinar o senhor hoje. O que eu sei é que quanto mais cedo ele examinar, mais opções ele tem, e que existe uma parte disso que não é do olho: uma perda assim pode ser o aviso de que alguma coisa está soltando coágulo em outro lugar. Mesmo que a visão não volte, essa investigação precisa ser feita, porque é ela que protege o resto.

Não diga: Não diga vamos tentar salvar a visão, nem se chegar a tempo dá para recuperar. Não se sabe, e prometer aqui é criar culpa depois — no paciente, que demorou, e na família, que não trouxe antes.

Explicar por que o problema da diabética não é o grau do óculos

A senhora pode até precisar trocar o óculos, e a gente resolve isso. Mas o diabetes mexe nos vasinhos do fundo do olho, e isso não dá sintoma nenhum no começo — quando dá, já avançou. A senhora tem diabetes há quinze anos e nunca fez esse exame, então não é um exame atrasado: é um exame que ainda não começou. Vou pedir hoje, e vou marcar a senhora aqui daqui a dois meses para conferir se a consulta saiu e para guardar o laudo na sua pasta.

Não diga: Não diga que é só uma rotina, nem que provavelmente não tem nada. As duas coisas transformam um pedido com prazo num papel que fica na bolsa. E não condicione o exame ao controle do açúcar — o rastreamento não espera a glicada melhorar.

Explicar ao paciente com glaucoma que o tratamento não devolve o perdido

O tratamento do glaucoma serve para segurar o que o senhor ainda enxerga. O que já se perdeu não volta, e eu prefiro que o senhor saiba disso por mim, agora, do que descubra sozinho daqui a um ano e ache que o colírio não funcionou. O colírio funciona exatamente assim: nada vai melhorar, e o objetivo é que nada piore. Por isso ele é todo dia, para sempre, mesmo quando o senhor estiver enxergando bem.

Não diga: Não use a palavra controlar sem explicar o que ela significa, porque para muita gente controlar quer dizer melhorar. E não deixe o paciente sair sem combinar como ele vai lembrar de pingar todos os dias — a falta de adesão é o motivo mais comum de o tratamento parecer ineficaz.

Responder à família que quer uma data para a cirurgia de catarata

Data eu não tenho, e prefiro dizer isso a chutar um prazo que não depende de mim. O que está na minha mão é fazer o encaminhamento da sua mãe pesar mais na fila: hoje eu medi a visão dela de cada olho, e vou escrever que ela parou de cozinhar sozinha e que caiu duas vezes desde o Natal. Isso muda o peso do pedido. E enquanto a fila anda, tem coisa que a gente resolve aqui e que é o que evita a fratura: revisar os remédios que dão tontura, tirar tapete solto, pôr luz no corredor e um apoio no banheiro.

Não diga: Não diga que é rápido nem que costuma sair em poucos meses. E não sugira que a família procure pelo particular como saída — a orientação que cabe é sobre o que fazer no intervalo, não sobre sair do sistema.

Perguntar sobre claudicação de mandíbula sem induzir a resposta

Quando a senhora está comendo, alguma coisa muda depois de alguns minutos mastigando? Cansa, dói, a senhora precisa parar um pouco antes de continuar? E quando a senhora penteia o cabelo, o pente incomoda em algum lugar da cabeça? Não estou perguntando se dói a cabeça — é se o couro cabeludo incomoda ao encostar.

Não diga: Não pergunte a senhora tem dor ao mastigar, porque quase todo mundo responde que sim pensando em dente ou em articulação. O que caracteriza a claudicação é o padrão de fadiga que obriga a parar e melhora com o repouso, e ele só aparece se a pergunta descrever o padrão.

Dizer que o exame do fundo do olho não ficou completo

Eu consegui olhar o fundo do olho da senhora, mas só a parte central, porque aqui na unidade não temos o colírio que dilata a pupila. A parte de fora da retina eu não vi, e é lá que ficam algumas coisas importantes. Então o que eu escrevi no seu papel é exatamente isso: o que eu vi e o que eu não consegui ver. Quem vai completar esse exame é o oftalmologista, e por isso o encaminhamento continua valendo mesmo eu tendo achado o centro normal.

Não diga: Não diga que o fundo de olho está normal quando o exame foi parcial. Além de ser impreciso, é a frase que o próximo médico vai ler e usar para não repetir o exame.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

De quanto em quanto tempo repetir o fundo de olho de quem tem diabetes e não tem retinopatia

Anualmente — dois documentos do Ministério da Saúde

O protocolo clínico nacional da retinopatia diabética diz, sem condicionantes, que as avaliações deverão ocorrer anualmente, ou em período menor dependendo do estágio da retinopatia. O caderno de atenção básica do diabetes chega à mesma periodicidade por outro caminho: sugere que o rastreamento seja realizado anualmente para garantir a relação de custo-efetividade da intervenção preventiva, e reserva o intervalo mais curto para quem já tem retinopatia.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Retinopatia Diabética, Portaria Conjunta nº 17, de 1º de outubro de 2021, seção 3; e Cadernos de Atenção Básica n. 36, Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus, 2013, capítulo de complicações crônicas.

A cada dois anos quando não há retinopatia — protocolo estadual de regulação

O quadro de indicações de rastreamento do protocolo estadual de regulação, na versão digital de 2023, fixa o acompanhamento mínimo de rotina em anualmente se houver retinopatia e a cada dois anos se não houver evidência de retinopatia, para diabetes tipo 1 e tipo 2 igualmente, atribuindo a régua à norma da American Diabetes Association de 2021. É este o documento que regula, na prática, a entrada na fila da oftalmologia no estado em que vigora.

TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial – Oftalmologia Adulto, versão digital 2023, Protocolo 3 e quadro 2.

Como decidir

Decida pelo risco do paciente à sua frente e pelo que o serviço consegue entregar, e deixe escrito no prontuário de qual dos dois documentos você tirou o intervalo, com o motivo. Em vinte anos de diabetes tipo 2 sem retinopatia, a diferença entre as duas réguas é de dez exames de fundo de olho por paciente — metade dos que a régua nacional pede. Para quem tem hemoglobina glicada persistentemente alta, hipertensão associada, nefropatia, gestação planejada ou longa duração de doença, o intervalo anual é o defensável, e é o que o protocolo de caráter nacional determina. Para quem tem diabetes recente, bem controlado, com exame anterior documentadamente normal e numa região onde a vaga anual não existe, o intervalo de dois anos é o que o documento que regula a fila autoriza — e escolhê-lo sem registrar o raciocínio transfere a decisão para quem só vê a data do último laudo.

Com que frequência examinar a retina da gestante com diabetes preexistente

Exame trimestral, com intervalo mínimo fixado

O protocolo nacional é direto: gestantes com diabete deverão se submeter a exame oftalmológico trimestral. O caderno de atenção básica constrói a mesma obrigação com mais detalhe — avaliação da retina antes da gravidez e no primeiro trimestre, e acompanhamento estabelecido conforme as alterações observadas, mas feito, no mínimo, a cada três meses, com controle mais frequente se houver modificações retinianas ou hipertensão arterial.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Retinopatia Diabética, Portaria Conjunta nº 17, de 1º de outubro de 2021, seção 3; e Cadernos de Atenção Básica n. 36, 2013.

Primeiro trimestre e depois conforme o oftalmologista, sem piso

O quadro de rastreamento do protocolo estadual estabelece, para gravidez com diabetes preexistente, primeiro exame antes da concepção e durante o primeiro trimestre, com aconselhamento sobre o risco de desenvolvimento e progressão da retinopatia; e acompanhamento rigoroso durante o primeiro trimestre e, depois disso, conforme orientação do oftalmologista. Não fixa intervalo mínimo para o segundo e o terceiro trimestres.

TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial – Oftalmologia Adulto, versão digital 2023, Protocolo 3 e quadro 2.

Como decidir

A pergunta prática não é qual documento está certo, é quem garante o segundo e o terceiro exames. Deixar o intervalo a critério do oftalmologista funciona quando a gestante tem oftalmologista de referência com agenda; sem isso, a régua aberta vira exame único no primeiro trimestre. Na dúvida, use a régua que fixa piso: agende o exame de cada trimestre na própria consulta de pré-natal, junto com os outros exames do trimestre, em vez de deixar o retorno para o especialista marcar. E note o que os três documentos concordam, porque isso não é divergência: quem tem diabetes gestacional não precisa ser rastreada. O protocolo estadual ainda acrescenta um detalhe operacional que só ele traz — a gestante com diabetes preexistente é encaminhada ao serviço presencial, preferencialmente no primeiro trimestre, e fica fora dos critérios do telediagnóstico a partir de 27 semanas.

Retinografia com laudo remoto conta como o exame de rastreamento da retinopatia, ou é apenas um auxiliar do exame presencial

A fotografia do fundo é o método de escolha para rastrear

O caderno de atenção básica hierarquiza os métodos e coloca a fotografia acima da fundoscopia: diz que o método com sensibilidade e especificidade adequadas para esse contexto, acima de 80% e acima de 95% respectivamente, é a fotografia do fundo de olho sob dilatação pupilar, e apresenta a fundoscopia sob dilatação como alternativa de menor sensibilidade, com a escolha dependendo da disponibilidade de recursos. O protocolo estadual segue essa lógica ao permitir que o rastreamento de retinopatia diabética seja resolvido por telediagnóstico com retinografia e laudo remoto.

Brasil. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica n. 36, 2013, capítulo de complicações crônicas; e TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Regulação Ambulatorial – Oftalmologia Adulto, versão digital 2023, Protocolo 3 e seção do projeto de telediagnóstico.

O exame é oftalmoscopia e biomicroscopia; a fotografia se associa a elas

O protocolo nacional inverte a ordem: recomenda o uso dos métodos de oftalmoscopia binocular indireta e biomicroscopia de fundo, com a possibilidade de se associar a fotografia estereoscópica, que possibilita o uso da telessaúde em locais de baixo ou nenhum acesso a oftalmologista. E preconiza avaliação completa da retina, com visualização estereoscópica do polo posterior e exame da periferia da retina e do vítreo, em todas as consultas de acompanhamento — reservando à retinografia o papel de padrão-ouro para documentar a gravidade, não para substituir o exame.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Retinopatia Diabética, Portaria Conjunta nº 17, de 1º de outubro de 2021, seções 4 e 4.2.2.

Como decidir

Decida pelo que existe na sua região e pelo estágio do paciente, e diga ao paciente qual dos dois ele fez. Para quem nunca foi rastreado, não tem sintoma e mora onde não há oftalmologista, a retinografia com laudo remoto é infinitamente melhor do que a espera indefinida por um exame presencial que não vem, e é modalidade regulada e prevista nos dois lados. Para quem já tem retinopatia diagnosticada, quem tem baixa de visão apesar da melhor correção, quem usa lente de contato ou quem tem opacidade de meios que a foto não atravessa, o exame presencial não é substituível — e os critérios de exclusão do próprio serviço de telediagnóstico reconhecem isso ao mandar o usuário de lente de contato e a condição com indicação cirúrgica para a consulta presencial. Registre no prontuário qual modalidade foi feita: um laudo de retinografia e um exame de fundo dilatado não respondem à mesma pergunta.

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O raciocínio, em voz alta

Sábado, 23h10, unidade de pronto atendimento de um município de sessenta mil habitantes. Senhor Adaucto Chiaradia, 61 anos, hipertenso, dislipidêmico, com dois stents coronarianos há quatro anos, em uso de ácido acetilsalicílico e atorvastatina. Chegou dirigindo. Há duas horas e vinte minutos, sentado assistindo televisão, a visão do olho direito apagou de uma vez, de cima para baixo, até o fim. Não doeu em momento nenhum. O olho não está vermelho. Na unidade há lanterna, oftalmoscópio direto e uma tabela de acuidade colada na parede do corredor; não há lâmpada de fenda, tonômetro nem midriático. O oftalmologista de referência fica a cento e dez quilômetros.

  1. O que eu penso na porta

    Olho branco, indolor, perda súbita e unilateral. Isso já tira daqui o glaucoma agudo, a ceratite e a uveíte — todos doem e todos deixam o olho vermelho, e todos são do capítulo Olho vermelho. O que sobra é atrás da íris. E ele sabe a hora, o cômodo e o que estava fazendo: é súbito de verdade, e súbito de verdade é relógio de horas.

  2. Acuidade, e o olho que ele diz que está bom

    Levo-o ao corredor, marco os seis metros, ponho a linha 20/20 na altura dos olhos dele. Tapo o direito: o esquerdo lê 20/25 com os óculos de longe. Tapo o esquerdo: ele não identifica a maior letra da tabela. Aproximo, mostro os dedos: acerta a contagem a cinquenta centímetros e erra a um metro. Registro assim, e não como baixa acuidade: AV c/c OD conta dedos a 50 cm, OE 20/25.

  3. A lanterna alternada

    Apago a luz do corredor, peço que ele olhe para o fim do corredor e não para a lanterna. Ilumino o esquerdo por três segundos: as duas pupilas contraem. Passo rápido para o direito: a pupila direita, em vez de contrair, dilata. Volto ao esquerdo: contrai de novo. Repito quatro vezes e o padrão se mantém. Defeito pupilar aferente relativo à direita, marcante. Isso localiza: retina extensa ou nervo óptico, e não meio óptico.

  4. Reflexo vermelho, pupilas e limites do exame

    A meio metro, com o oftalmoscópio em zero, os dois olhos devolvem reflexo vermelho, e o direito não está apagado. Não ensinar palpação digital do globo como medida de pressão. A tonometria exige equipamento e exclusão de globo aberto; sua indisponibilidade não deve atrasar a referência de uma emergência.

  5. O fundo até onde a pupila deixa

    Sala escura, pupila não dilatada porque a unidade não tem midriático. Consigo o disco óptico dos dois olhos. À direita, o polo posterior parece perder transparência, esbranquiçado, e há uma mancha mais avermelhada no centro; as artérias parecem finas. À esquerda, nada disso. Registro o que vi e o que não vi: disco visualizado sem midríase, periferia não avaliada.

  6. A conclusão, e o que ela não autoriza

    Perda súbita, indolor, profunda, unilateral, com defeito aferente marcante, reflexo vermelho preservado e polo posterior pálido em paciente com doença coronariana estabelecida: oclusão de artéria central da retina até prova em contrário. Isso não me autoriza a fazer massagem ocular, paracentese nem qualquer manobra: nenhuma delas está em documento brasileiro, e nenhuma está no protocolo de regulação que eu sigo. O que a conclusão autoriza é a pressa.

  7. Telefone, transporte, papel — nessa ordem

    Ligo para o serviço de referência antes de escrever qualquer coisa e digo as quatro informações que fazem eles decidirem: começou há duas horas e vinte minutos, de uma vez; AV conta dedos a 50 cm no direito e 20/25 no esquerdo; defeito pupilar aferente relativo à direita; reflexo vermelho presente nos dois. Combino a vaga, aciono o transporte, e só então escrevo. No papel vai tudo isso mais as comorbidades e os medicamentos, e a instrução para ele levar as receitas e os exames recentes.

  8. A metade que não é do olho

    Oclusão arterial retiniana é evento embólico, e o êmbolo veio de algum lugar. Anoto no encaminhamento que ele precisa de investigação de fonte embólica, com a mesma lógica dos capítulos AVC isquêmico agudo e Déficit neurológico focal agudo, e que essa investigação vale mesmo que a visão não retorne. Aferi a pressão nos dois braços, examinei os pulsos, ausculto as carótidas e o precórdio e registro o que achei.

  9. A conversa antes de ele sair

    Digo que não sei se a visão volta e que quem vai poder dizer é o oftalmologista que o examinar hoje; que quanto mais cedo, mais opções ele tem; e que existe uma parte disso que não é do olho — uma perda assim pode ser o aviso de que alguma coisa está soltando coágulo em outro lugar, e essa parte precisa ser investigada de qualquer jeito. Peço que ele não dirija, e chamo a filha pelo telefone dele.

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Faça você

Segunda-feira, 9h40, unidade básica de saúde. Dona Terezita Frigo, 74 anos, hipertensa em uso de losartana, veio por dor de cabeça. Há três semanas dói do lado esquerdo, na têmpora, e ela conta que o pente incomoda naquele lado e que o travesseiro também. Perdeu quatro quilos desde o começo do ano sem estar tentando, sente-se sem ânimo e com dor nos ombros ao acordar, que melhora ao longo da manhã. Anteontem, lavando louça, a vista do olho esquerdo apagou por cerca de dois minutos e voltou sozinha. Hoje ela enxerga normalmente dos dois olhos. AV c/c OD 20/25, OE 20/30. Lanterna alternada sem defeito aferente relativo. Reflexo vermelho presente nos dois. Fundoscopia sem midríase: discos com bordas nítidas nos dois olhos. Não há oftalmologista no município. O laboratório da unidade coleta até as onze.

  1. Passo 1 — o que já está decidido antes de qualquer exame

    Cefaleia de início recente acima dos cinquenta, dor de couro cabeludo ao pentear, sintomas constitucionais com emagrecimento, dor e rigidez de cinturas, e um episódio de amaurose fugaz. Falta uma pergunta que ainda não foi feita e que muda o peso do conjunto — e ela não é sobre dor de cabeça.

  2. Passo 2 — o exame normal é o que mais engana

    Acuidade quase normal, pupilas simétricas, discos com bordas nítidas. Cada um desses achados, isoladamente, é tranquilizador. Falta decidir o que eles significam quando o episódio visual já foi e voltou, e por que a normalidade de hoje não é argumento para marcar retorno em uma semana.

  3. Passo 3 — o que se colhe, e por que a ordem importa

    Quais exames ajudam a investigar arterite e como colhê-los sem atrasar a primeira dose de glicocorticoide? Explique por que resultados normais não afastam a hipótese.

  4. Passo 4 — para onde, e o que este capítulo não decide

    Defina a urgência e a conduta imediata com supervisão, incluindo tratamento antes da confirmação e discussão da via intravenosa diante de ameaça visual.

Ver como fecharíamos

Terezita tem síndrome compatível com arterite de células gigantes e manifestação isquêmica ocular transitória. Perguntar especificamente sobre dor ou fadiga mandibular ao mastigar e sintomas de polimialgia. A normalidade atual da visão e dos discos não afasta o risco. Em pessoa acima de 50 anos, cefaleia nova, claudicação mandibular, hipersensibilidade do couro cabeludo e alteração visual levantam suspeita de arterite de células gigantes. Acionar supervisão e avaliação hospitalar urgente e iniciar glicocorticoide em alta dose quando a suspeita for forte, sem esperar biópsia, imagem ou resultado laboratorial. Colher VHS, PCR e hemograma se isso não atrasar tratamento. Ameaça visual favorece discussão de pulsoterapia intravenosa; indisponibilidade imediata não justifica ficar sem glicocorticoide enquanto se organiza transferência. Marcadores normais e exame ocular normal após amaurose não excluem a doença. Documentar hora do episódio, acuidade por olho, medicamentos e dose aplicada; telefonar para a referência e garantir transporte e continuidade do tratamento. A investigação confirmatória continua após iniciar a proteção contra nova isquemia.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Em pessoa acima de 50 anos, cefaleia nova, claudicação mandibular, hipersensibilidade do couro cabeludo e alteração visual levantam suspeita de arterite de células gigantes. Acionar supervisão e avaliação hospitalar urgente e iniciar glicocorticoide em alta dose quando a suspeita for forte, sem esperar biópsia, imagem ou resultado laboratorial. Colher VHS, PCR e hemograma se isso não atrasar tratamento. Ameaça visual favorece discussão de pulsoterapia intravenosa; indisponibilidade imediata não justifica ficar sem glicocorticoide enquanto se organiza transferência. Marcadores normais e exame ocular normal após amaurose não excluem a doença.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Apresente um caso de perda súbita em sessenta segundos, incluindo horário, acuidade, pupilas e destino. Explique quando aciona fluxo de AVC. Compare agora duas pessoas: uma com dificuldade gradual para longe e melhora de 20/80 para 20/25 com o furo; outra com perda súbita e melhora apenas parcial. Explique por que a primeira pode seguir avaliação eletiva se o restante for tranquilizador e a segunda mantém prioridade urgente.

Em 30 dias

Refaça Terezita com VHS normal: mantenha ou revise a hipótese e justifique tratamento antes da confirmação. Compare catarata, descolamento e arterite. Explique miopia, hipermetropia, astigmatismo e presbiopia sem usar apenas uma lista de sintomas. Depois diga por que um teste estenopeico sem melhora não encerra a avaliação refracional.

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Agora atenda

Agora atenda: mulher de 66 anos, diabética tipo 2 há quinze anos, hipertensa, chega à unidade básica de manhã dizendo que a vista embaçou e que quer trocar o óculos. Enxerga o suficiente para tocar a vida, não sente dor nenhuma, os olhos estão brancos, e a pasta dela tem quinze anos de consultas sem um único laudo de fundo de olho. Meça, localize e decida o que sai desta consulta com data.

Perda visual sem olho vermelho – O olho que não dói — Internato | OsceLabs