Pediatria › Oncologia Pediátrica
A família viu primeiro
Sinais de alerta para câncer infantil na atenção primária e tumores sólidos (neuroblastoma, tumor de Wilms e retinoblastoma)
A massa sentida no banho, o brilho branco na foto, a cefaleia que acorda com vômito, o gânglio que não regride: por onde o câncer da criança aparece na atenção primária e o que se faz no mesmo dia — a pergunta, o exame, o pedido e o prazo —, com o neuroblastoma, o tumor de Wilms, o retinoblastoma e os linfomas da criança e do adolescente.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temática. Protocolo de diagnóstico precoce para oncologia pediátrica. Brasília: Ministério da Saúde, 2017. 29 p. Recurso eletrônico.
Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva; Instituto Ronald McDonald. Diagnóstico precoce do câncer na criança e no adolescente. 2. ed. rev. ampl., 3. reimp. Rio de Janeiro: INCA, 2014. 146 p. ISBN 978-85-7318-185-2.
Brasil. Lei nº 14.308, de 8 de março de 2022, com a alteração da Lei nº 15.442, de 26 de junho de 2026. Institui a Política Nacional de Atenção à Oncologia Pediátrica. Diário Oficial da União, 9 mar. 2022.
Brasil. Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012, com as alterações da Lei nº 13.896, de 30 de outubro de 2019, e da Lei nº 15.233, de 2025. Dispõe sobre o primeiro tratamento de paciente com neoplasia maligna comprovada e estabelece prazo para seu início. Diário Oficial da União, 23 nov. 2012.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Protocolo de encaminhamento às Ofertas de Cuidados Integrados em Oftalmologia. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania. 7. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Oncologia. Neuroblastoma: o que o pediatra precisa saber? Documento Científico nº 207. Rio de Janeiro: SBP, 20 maio 2025.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Oncologia. Linfomas. Documento Científico nº 166. Rio de Janeiro: SBP, 2 set. 2024.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Oncologia. Epidemiologia e diagnóstico precoce do câncer infantojuvenil. Documento Científico nº 4. Rio de Janeiro: SBP, 9 set. 2021.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e de Infectologia. Manejo da febre aguda. Documento Científico. Rio de Janeiro: SBP, 5 out. 2021.
Instituto Nacional de Câncer. Tumor de Wilms; Neuroblastoma; Retinoblastoma: versões para profissionais de saúde. Rio de Janeiro: INCA. Páginas do portal gov.br/inca atualizadas em 10 abr. 2026 (tumor de Wilms e neuroblastoma) e em 11 jul. 2023 (retinoblastoma).
National Cancer Institute. Wilms Tumor and Other Childhood Kidney Tumors Treatment (PDQ®) – Health Professional Version. Bethesda: NCI; atualização de 15 abr. 2025.
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Royal Children’s Hospital. Oncological emergencies: Mediastinal mass. Dezembro de 2025. https://www.rch.org.au/clinicalguide/guideline_index/Oncological_emergencies__Mediastinal_mass/
National Cancer Institute. Wilms Tumor and Other Childhood Kidney Tumors Treatment (PDQ), versão profissional. https://www.cancer.gov/types/kidney/hp/wilms-treatment-pdq
Responda antes de ler
Menino de 1 ano e 3 meses chega ao pronto atendimento com equimose arroxeada ao redor dos dois olhos há quatro dias, sem trauma presenciado. Há duas semanas tem febre baixa intermitente, irritabilidade e recusa a ficar em pé. Está pálido, com proptose discreta à esquerda, massa firme no abdome superior e fígado palpável a 4 cm do rebordo costal; não há outras lesões na pele. O hemograma mostra hemoglobina de 8,6 g/dL, leucócitos de 7.200/mm³ e plaquetas de 105.000/mm³. Qual hipótese explica o conjunto, e qual investigação o serviço especializado usa para caracterizá-la?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, 8h40, numa unidade de saúde da família cuja agenda não acompanhou o crescimento do bairro. A médica da equipe saiu para as visitas domiciliares e volta às dez; até lá, a sala é sua. Josiane Sardinha entra com a filha no colo — Lavínia, 2 anos e 10 meses, que já está querendo descer para mexer no lixo de pedal — e senta sem esperar o convite. A queixa vem pronta, ensaiada no caminho: "A barriga dela está dura de um lado." Ela aponta no próprio corpo, abaixo das costelas, à esquerda.
No domingo, no banho, passou a mão e sentiu "uma bola". Mas a história é mais velha que o domingo. Há três semanas, numa unidade de pronto atendimento, Lavínia foi levada por barriga estufada e três dias sem evacuar; saiu com lactulose, albendazol e a explicação de prisão de ventre com verme. O intestino voltou a funcionar em dois dias. A barriga, diz Josiane, "nunca desinchou direito". A avó achou que era gases. Desde domingo a mãe apertou várias vezes para ver se estava crescendo, pediu à vizinha, que é técnica de enfermagem, que sentisse também, e hoje, na triagem, a enfermeira palpou "para ver o tamanho" antes de anotar a queixa.
A menina, no seu banquinho, está ótima. Brinca com a tampa do otoscópio, pede biscoito, não tem febre que a mãe tenha notado, dorme a noite inteira. Uma vez, na semana passada, a urina saiu "mais escura, achei que era pouca água". Você abre a caderneta: 13,5 kg hoje, na mesma faixa da curva da consulta dos 2 anos; vacinas em dia; o campo do teste do olhinho, na página das triagens, marcado como normal nos dois olhos antes da alta da maternidade. A triagem anotou pressão de 108 por 68 mmHg — medida com o manguito de adulto, o único da sala de acolhimento que estava funcionando.
Você esquenta as mãos, deixa Lavínia no colo da mãe, distrai a menina com a lanterna e palpa uma vez, devagar. Há uma massa firme, lisa, arredondada, ocupando o flanco esquerdo, que desce abaixo do rebordo costal e que você não consegue separar do rim nem do baço pela palpação; não dói, não tem nódulos na superfície e mexe pouco com a respiração. O fígado está no lugar, não há gânglios aumentados, não há manchas roxas nem petéquias, a menina não está pálida. As duas íris estão inteiras e da mesma cor, os braços e as pernas têm o mesmo tamanho, a genitália é normal, e ela desce do colo e anda até a porta sem mancar.
Agora a sala parece menor. A hipótese de três semanas atrás não era absurda: criança pequena com barriga distendida e sem evacuar tem, na imensa maioria das vezes, o intestino como causa. Mas o intestino esvaziou e a massa ficou. Você sabe que a maior parte das massas abdominais da criança é benigna — o próprio protocolo federal diz isso — e sabe também que a criança que está bem é justamente a que ninguém corre para investigar.
O telefone da regulação informa que a ultrassonografia de abdome pela fila ambulatorial está marcando para daqui a 45 dias. A unidade tem fita reagente de urina e, na sala de vacina, um manguito infantil. Josiane precisa estar no trabalho às 11h e já faltou na semana da unidade de pronto atendimento. Antes de você dizer qualquer coisa, ela faz as duas perguntas que vinha guardando: "É do intestino, né? Dá para esperar o ultrassom do posto?" E, baixando a voz: "A vizinha falou para eu parar de ficar apertando. Faz mal?"
O que está em jogo nesta sala não é acertar o nome da massa. Nenhum exame que você tem hoje dirá se é um rim com água, um cisto, um baço grande ou um tumor. A decisão que cabe a você é outra, e ela tem prazo: o que precisa acontecer antes de Lavínia sair desta sala para que, se for um tumor, ela não perca uma semana — nem 45 dias.
Você tem 40 minutos, uma fita de urina, um manguito do tamanho certo em outra sala, um telefone e uma massa que, desde domingo, já foi palpada por quatro pessoas. Este capítulo é sobre o que se faz com cada um deles — e sobre os outros sinais por onde o câncer da criança chega à atenção primária sem pedir licença: o brilho branco na foto do aniversário, a dor de cabeça que acorda com vômito, o gânglio que não cede ao antibiótico, a dor no osso que acorda de madrugada.
Quem adoece disso
O câncer da criança é raro em qualquer escala que o interno enxergue da sua sala. A Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer prevê 7.560 casos novos por ano entre 0 e 19 anos para cada ano do triênio 2026-2028, com risco de 136,33 por milhão de crianças e adolescentes — 3.960 casos em meninos e 3.600 em meninas. O risco estimado é maior na região Sul, com 165,96 por milhão no sexo masculino e 181,09 no feminino, e menor na região Norte, com 102,20 e 91,29. A conta da raridade para uma equipe de Saúde da Família, com o número de pessoas pelas quais ela responde, está feita em Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, nesta apostila, e não se repete aqui.
Raro não quer dizer irrelevante. Em 2023 houve 2.326 óbitos por câncer infantojuvenil no Brasil, 1.331 no sexo masculino e 995 no feminino, pelos dados que o próprio instituto publica. O protocolo federal de diagnóstico precoce, de 2017, lembrava que o câncer é a doença que mais mata crianças e adolescentes no país, superado como causa de óbito apenas por acidentes e violências. E a Estimativa 2026 registra o que acontece quando o diagnóstico falha: nos países de desenvolvimento médio e baixo, a taxa de cura fica abaixo de 30%, por ausência ou atraso do diagnóstico, barreiras de acesso, abandono, toxicidade e recidiva.
Essa é a epidemiologia que importa na atenção primária: não a incidência, e sim o atraso. O manual do INCA de 2014 descreve o paciente diagnosticado tarde como aquele que procurou o serviço várias vezes, durante semanas ou meses, com a mesma queixa ou com a queixa piorando. O protocolo federal pede atenção redobrada à criança que volta com as mesmas queixas e aos sintomas que persistem apesar das primeiras medidas. Lavínia é esse retrato: uma consulta, um diagnóstico razoável, uma melhora parcial — e a massa que ficou.
Os tumores não se distribuem por igual nas idades, e isso é ferramenta de consultório. O neuroblastoma é a neoplasia mais frequente do primeiro ano de vida; a mediana de idade ao diagnóstico é de 19 meses na página do INCA e a média, de 23 meses no documento da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2025, com mais de 80% dos casos abaixo dos 5 anos e raríssimos depois dos 10. O retinoblastoma tem média de idade de 2 anos, cerca de 80% diagnosticados antes dos 3 ou 4 anos, e é raro depois dos 6. O tumor de Wilms aparece um pouco depois: a idade média ao diagnóstico é de 44 meses na doença unilateral e de 31 meses na bilateral, no sumário do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos. O linfoma de Burkitt esporádico predomina em meninos de 5 a 10 anos; o linfoma de Hodgkin é raro antes dos 2 anos, pouco frequente antes dos 5 e cresce a partir dos 11; os tumores ósseos são, pelo protocolo federal, doença típica do adolescente.
Na proporção, as leucemias vêm primeiro, os tumores do sistema nervoso central em segundo — são os tumores sólidos mais frequentes da criança — e os linfomas em terceiro, com 14% das doenças malignas da infância pela Sociedade Brasileira de Pediatria. O neuroblastoma responde por 8% a 10% dos cânceres infantis, com incidência de 10,5 casos por milhão de crianças abaixo de 15 anos; o retinoblastoma, por 2% a 4% dos tumores malignos pediátricos. A leucemia, a régua do hemograma e a do linfonodo são de Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce; este capítulo fica com os tumores sólidos, os linfomas e os sinais que apontam para eles.
A apresentação tardia tem números próprios em cada tumor. No neuroblastoma, 60% das crianças já têm doença avançada ao diagnóstico, com sinais que não apontam o abdome — febre persistente, irritabilidade, cansaço, hipertensão. Nos tumores do sistema nervoso central, o manual do INCA registra que o diagnóstico pode demorar mais de seis meses, porque o vômito é conduzido como problema gastrintestinal e a cefaleia é atribuída a vício de refração. No retinoblastoma, o mesmo manual cita que, quando o intervalo entre o primeiro sinal e o atendimento especializado passa de seis meses, o risco de tumor extraocular é nove vezes maior. No tumor de Wilms, a criança está em bom estado geral na maior parte das vezes — e é esse bom estado que adia a investigação.
A hereditariedade é pequena no conjunto e grande em um tumor. A Estimativa 2026 atribui a fatores hereditários cerca de 5% dos cânceres infantojuvenis, e a radiação ionizante é o único agente ambiental comprovadamente associado. O retinoblastoma é a exceção que muda a consulta do irmão: cerca de 40% são bilaterais e ligados a mutação germinativa do gene RB1, e entre os unilaterais cerca de um em cada dez também é hereditário. No Sul e no Sudeste há uma peculiaridade brasileira que a Sociedade Brasileira de Pediatria destaca: a incidência de tumor do córtex suprarrenal no Paraná é estimada em 3,5 por milhão, de 12 a 18 vezes a dos Estados Unidos e da França, ligada à mutação TP53 R337H herdada de um dos pais — e ele pode chegar como massa abdominal com virilização, puberdade precoce ou ganho de peso.
O que se ganha com o diagnóstico precoce também tem número. Mais de 80% das crianças com linfoma não Hodgkin sobrevivem, e 70% a 90% das que têm linfoma de Hodgkin ficam livres de doença mesmo em estádios avançados, pela Sociedade Brasileira de Pediatria. A Lei nº 14.308, de 2022, que instituiu a Política Nacional de Atenção à Oncologia Pediátrica, abrange de 0 a 19 anos toda criança e adolescente com suspeita ou diagnóstico de câncer, põe o diagnóstico precoce entre as diretrizes e manda capacitar a Estratégia Saúde da Família; a Lei nº 15.442, de 2026, acrescentou que as campanhas nacionais devem priorizar os sinais e sintomas e a educação continuada da atenção primária. A lei não fixa prazo próprio para a criança: o prazo dos exames vem de outra lei, e o capítulo o usa na hora de escrever o pedido.
Por que acontece o que acontece
O câncer da criança não é o câncer do adulto em tamanho menor. No adulto, a maior parte das neoplasias nasce de epitélio, cresce devagar e tem fator de risco que se evita — tabaco, álcool, sedentarismo, obesidade. Na criança, pelo manual do INCA de 2014, os tumores são em geral de origem embrionária, mais agressivos e de evolução mais rápida, e o ambiente pesa pouco ou nada na sua gênese. Consequência prática: quase não existe prevenção primária a oferecer, e o diagnóstico precoce é a medida de prevenção secundária que muda o desfecho — tratar em estádio inicial significa tratamento menos agressivo, menos tóxico e com menos sequelas.
Os três tumores deste capítulo carregam no nome o tecido em formação de onde vêm. O neuroblastoma nasce de precursores da crista neural que formam o sistema nervoso simpático, e por isso pode aparecer em qualquer ponto dessa cadeia — região paravertebral, mediastino posterior, retroperitônio —, com 65% no retroperitônio, sobretudo na suprarrenal. O retinoblastoma nasce das células embrionárias neurais da retina. O nefroblastoma, o tumor de Wilms, é o tumor do rim em formação. Entender a origem explica o sinal: cada tumor aparece onde o tecido de origem estava e manifesta o que aquele lugar faz.
O primeiro sinal costuma ser visto pela família, e não por acaso. Retroperitônio, flanco, fossa posterior e o fundo do olho são espaços silenciosos: acomodam crescimento sem dor por muito tempo. O pico dos tumores abdominais, entre 1 e 5 anos, coincide com a idade em que a criança não localiza nem descreve a dor e em que o banho e a troca de roupa são feitos por outra pessoa — é na mão de quem dá banho que a massa aparece. A diretriz britânica de encaminhamento por suspeita de câncer transformou essa observação em regra: levar em conta o conhecimento dos pais e considerar o encaminhamento quando a preocupação deles persiste, mesmo que a causa mais provável seja benigna.
O tumor de Wilms cresce dentro do rim e o expande. A criança típica chega bem, com uma massa em flanco, lisa e indolor, notada no banho ou ao vestir; o sumário do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos registra hematúria macroscópica em cerca de 18% e microscópica em 24%, hipertensão em cerca de 25% e dor abdominal em 40%, e doença bilateral ou multicêntrica em 5% a 10%. O mesmo sumário registra que a biópsia feita como primeiro procedimento classifica o tumor como estádio III, e que a ruptura antes da cirurgia também sobe o estádio — o que muda o tratamento para mais intenso. Daí a regra desta apostila, que é leitura do estadiamento e não frase de fonte: a massa abdominal da criança é palpada uma vez, com delicadeza, por quem vai registrar, e ninguém mais a aperta até a imagem.
O neuroblastoma se comporta de outro jeito, porque o tecido de origem é outro. Na suprarrenal e no retroperitônio, dá aumento de volume abdominal. Nas massas torácicas e cervicais altas, compromete a cadeia simpática e o gânglio estrelado e produz a síndrome de Horner — ptose, miose e anidrose —, e qualquer Horner adquirido na criança merece investigação. Na região paravertebral, pode entrar no canal e comprimir a medula, com dor nas costas ou irradiada para as pernas, fraqueza, alteração de sensibilidade e perda de controle de bexiga e intestino: emergência oncológica. Por produzir catecolaminas, pode dar hipertensão, e seus metabólitos — ácido vanilmandélico e ácido homovanílico — aparecem na urina; por produzir peptídeo intestinal vasoativo, pode dar diarreia secretora. E há a síndrome paraneoplásica de opsoclonus-mioclonus-ataxia, com movimentos oculares conjugados caóticos, abalos e perda do equilíbrio.
O neuroblastoma também espalha cedo, e as metástases fazem a criança chegar doente. Na medula óssea, dão anemia e sangramento; nos ossos, dor, irritabilidade e recusa a andar; nos ossos da órbita, proptose e a equimose periorbitária, geralmente bilateral, que se chama sinal do guaxinim; no lactente, nódulos subcutâneos cor de vinho espalhados pelo corpo e fígado grande. Por isso a regra de consultório: a criança com massa abdominal que está bem pede que se pense também em Wilms; a criança menor, pálida, irritada, febril, com dor óssea ou olhos roxos pede que se pense em neuroblastoma — e nas duas o caminho do dia é o mesmo.
No retinoblastoma, o tumor substitui a imagem vermelha que a retina devolve à luz: a pupila passa a refletir branco-amarelado, a leucocoria, que o manual do INCA chama de reflexo de olho de gato. Como o tumor pode ocupar só parte da retina, o reflexo branco muitas vezes aparece só em algumas posições do olhar, à luz artificial com a pupila dilatada ou na foto com flash — por isso a família o vê antes do médico. O estrabismo é o segundo sinal: o olho que perdeu a visão central desvia. A forma bilateral, cerca de 40% dos casos, é ligada a mutação germinativa do gene RB1, geralmente multifocal; a unilateral é, em cerca de nove de cada dez casos, esporádica. Quem herda a mutação carrega também risco de segundas neoplasias, e o quadro de síndromes do INCA liga o retinoblastoma ao osteossarcoma.
Nos tumores do sistema nervoso central da criança, a maioria fica na fossa posterior, abaixo da tenda do cerebelo, e produz sintomas por obstruir a circulação do líquor: hidrocefalia e hipertensão intracraniana, com cefaleia matinal e vômito que muitas vezes alivia a dor. No lactente, com suturas abertas, a mesma pressão aparece como perímetro cefálico que cresce fora da curva, fontanela abaulada e olhar em sol poente; a lesão que tira o equilíbrio aparece como marcha alterada e quedas frequentes; o do hipotálamo, como diabetes insípido, ganho ou perda de peso e puberdade fora de hora. Mais de 90% das crianças têm alguma alteração no exame neurológico quando o diagnóstico é feito — é o exame, e não a queixa, que separa a cefaleia do tumor da cefaleia comum. Nos linfomas, a biologia é outra: o Burkitt está entre os tumores de crescimento mais rápido da criança, e o tecido linfoide é sensível a corticoide, a ponto de o INCA advertir que prednisona ou dexametasona por mais de 48 a 72 horas pode regredir linfonodo, massa e infiltração da medula e impedir o diagnóstico.
Como se apresenta de verdade
O câncer da criança chega por sinais que, isolados, pertencem a doenças comuns — e que ganham peso quando se combinam, quando persistem ou quando aparecem num lugar do corpo que não costuma adoecer assim. O protocolo federal de diagnóstico precoce organiza isso num quadro de classificação, creditado ao manual AIEPI da Organização Pan-Americana da Saúde, com três faixas: risco de câncer ou doença grave, que manda encaminhar com urgência a serviço especializado em onco-hematologia pediátrica; algum risco, que manda examinar a criança inteira, revisar alimentação, afastar tuberculose e HIV, investigar falta de ferro, tratar infecção bacteriana e acompanhar vacina e curva; e a faixa sem sinal, que volta à puericultura. As seções abaixo seguem o lugar do corpo por onde o sinal aparece, porque é assim que a queixa entra na sala.
Organize a suspeita pelo achado de entrada: massa abdominal; leucocoria ou estrabismo novo; cefaleia com sinais neurológicos; linfonodo persistente e suspeito; dor óssea localizada ou massa de partes moles. O quadro de percursos, adiante, aproxima cada apresentação das hipóteses e da primeira decisão. Leucemia e interpretação do hemograma são aprofundadas no capítulo anterior. Aqui, o objetivo é reconhecer tumores sólidos e linfomas, examinar com cuidado e garantir acesso à avaliação adequada. Estadiamento, escolha da biópsia e tratamento definitivo pertencem ao serviço especializado, mas a equipe de origem continua responsável por acompanhar a criança e a família.
A massa no abdome: quem é a criança, e como a massa se comporta
A massa abdominal palpável é uma das principais formas de apresentação dos tumores sólidos da criança, e a maioria das massas abdominais é causada por doença benigna — as duas frases são do protocolo federal e valem juntas. As malignas, pelo manual do INCA, são sobretudo neuroblastoma, tumor de Wilms, linfoma não Hodgkin do tipo Burkitt, hepatoblastoma e tumores de células germinativas. As benignas mudam com a idade: no recém-nascido, hidronefrose, cistos renais, nefroma mesoblástico, cistos mesentéricos e cisto de ovário; depois, hemangiomas, hamartomas hepáticos, infecções com hepatoesplenomegalia, bolo de áscaris, fecaloma e, na adolescente com transtorno psíquico, o bezoar da tricofagia. Quase sempre a massa é assintomática e encontrada por quem cuida da criança; e parasitose e constipação, que de fato existem, são atribuídas como causa do desconforto e figuram entre os motivos de atraso — por isso sintoma que persiste depois do tratamento adequado deve ser investigado.
O tumor de Wilms é a massa da criança que está bem. Ela chega com a barriga maior de um lado, em flanco, lisa, sem dor na maior parte das vezes, notada no banho ou ao vestir; o sumário americano registra dor abdominal em 40%, hipertensão em cerca de 25%, hematúria microscópica em 24% e macroscópica em cerca de 18%. A página do INCA lista ainda infecção urinária, náusea, vômito, perda de apetite e constipação. O que pede atenção especial é o terreno: síndrome WAGR, anomalias geniturinárias como criptorquidia, hipospádia e estenose de junção ureteropélvica, síndrome de Beckwith-Wiedemann, história familiar de Wilms, aniridia isolada e hemi-hipertrofia isolada. Entre 5% e 10% dos tumores são bilaterais ou multicêntricos.
O neuroblastoma é, com mais frequência, a massa da criança que está doente e é menor. Além do volume abdominal, ele se anuncia pelo que produz e por onde espalha: febre persistente, irritabilidade, cansaço e hipertensão; síndrome de Horner nas massas cervicais e torácicas altas; opsoclonus-mioclonus-ataxia; diarreia secretora; dor óssea, anemia, proptose e equimose periorbitária bilateral, o sinal do guaxinim; e, no lactente, nódulos subcutâneos cor de vinho e fígado aumentado. Na tabela de sinais da Sociedade Brasileira de Pediatria, a heterocromia da íris também aponta para ele. Tumor paravertebral pode comprimir a medula — dor nas costas ou nas pernas, claudicação, parestesia, perda do controle da urina e das fezes —, e essa criança não vai para fila nenhuma.
O linfoma de Burkitt é a massa do escolar que cresce em dias. Predomina em meninos de 5 a 10 anos, com o abdome como local mais comum, a partir das placas de Peyer do íleo terminal, e pode chegar como abdome agudo, dor abdominal, alteração do hábito intestinal, sangramento, perfuração, obstrução urinária, infiltração renal ou invaginação intestinal. A invaginação do lactente tem capítulo próprio, Invaginação/intussuscepção intestinal do lactente, na apostila de Cirurgia Pediátrica; na criança fora dessa idade, esta apostila lê a invaginação como sinal de que algo puxou a alça, e o Burkitt está entre as causas que a Sociedade Brasileira de Pediatria descreve. Ainda no abdome, dois exames que o manual do INCA não deixa esquecer: a genitália, porque o testículo aumentado e endurecido pode ser tumor primário, e a busca de virilização e de puberdade precoce, que aparecem nos carcinomas de suprarrenal — no Paraná, com incidência muito acima da de outros países.
O protocolo federal e o manual do INCA juntam, na mesma frase de encaminhamento imediato ao serviço de onco-hematologia pediátrica, o aumento rápido e progressivo do volume abdominal com massa palpável e qualquer suspeita de compressão medular; esta apostila lê cada um desses dois achados, sozinho, como motivo suficiente para não esperar ultrassonografia. Fora delas, os mesmos documentos admitem confirmar a suspeita por ultrassonografia antes de encaminhar, quando o exame sai em tempo hábil com profissional habituado a criança, na criança com queixa abdominal e dor crônica recorrente, massa suspeita ou difícil de examinar, sintomas constitucionais, hematúria, hipertensão, virilização, Cushing, alteração esfincteriana em quem já tinha controle ou aumento testicular. O tamanho desse tempo hábil é uma divergência entre documentos, decidida no bloco de divergências: esta apostila adota 72 horas, e sem essa garantia a criança vai sem o exame.

O olho: o reflexo branco, o estrabismo que começou e o que mais o quadro federal lista
A leucocoria é o sinal mais comum do retinoblastoma e quase sempre é a família que a vê primeiro — muitas vezes numa foto com flash, porque o reflexo branco pode aparecer só em algumas posições do olhar ou à luz artificial com a pupila dilatada. Por isso a foto trazida no celular vale como achado de exame, e não como curiosidade. E por isso também o teste do olhinho normal na maternidade não fecha a questão: ele registra o olho daquele dia, e a média de idade ao diagnóstico do retinoblastoma é de 2 anos.

O estrabismo é o segundo sinal do retinoblastoma em frequência. Depois vêm os sinais de irritação ocular, como o olho vermelho, a alteração da visão e, com a progressão, a proptose e o linfonodo pré-auricular; na doença avançada, cefaleia e vômito pelo sistema nervoso central e dor óssea pela medula. O diagnóstico diferencial que os dois documentos federais listam inclui retinopatia da prematuridade, doença de Coats, toxocaríase, toxoplasmose, persistência hiperplásica do vítreo primário, endoftalmite e metástase de outro tumor na retina — ou seja, mesmo quando não é retinoblastoma, a leucocoria quase nunca é coisa de esperar.
O quadro de classificação do protocolo federal põe na faixa de risco de câncer, com encaminhamento urgente, um conjunto de sinais oculares que o interno precisa reconhecer de uma vez: leucocoria, estrabismo de aparecimento súbito, aniridia, heterocromia, hifema, proptose e alteração da visão. Cada um tem sua razão. A aniridia liga-se ao tumor de Wilms e à síndrome WAGR; a heterocromia, ao neuroblastoma; a proptose, às metástases orbitárias do neuroblastoma, ao retinoblastoma avançado e ao rabdomiossarcoma, que é o tumor maligno de órbita mais frequente da infância pelo protocolo federal de oftalmologia de 2025.
O retinoblastoma é o tumor deste capítulo em que a família inteira entra na consulta. Na página do INCA, a forma bilateral, cerca de 40% dos casos, é ligada a mutação germinativa do gene RB1 — um quarto herdado de um dos pais, três quartos mutação nova —, e cerca de 10% dos unilaterais também são hereditários. O protocolo federal e o manual do INCA mandam que a criança com parente que teve retinoblastoma seja avaliada por oftalmologista com frequência maior; esses documentos não fixam a periodicidade, que é definida pelo serviço de oncologia ocular, e o aconselhamento genético faz parte do cuidado. Na prática da unidade: irmão ou filho de quem teve retinoblastoma sai da consulta com encaminhamento para exame de fundo de olho, e não só com o teste do reflexo.
Na sala, o exame é o do reflexo vermelho com o oftalmoscópio, em ambiente escurecido, comparando os dois olhos, cuja técnica está em Triagens neonatais: teste do pezinho, orelhinha, olhinho, coraçãozinho e linguinha. O estrabismo se confirma com o teste de Hirschberg, das versões oculares e da cobertura, que o protocolo federal de oftalmologia recomenda para separá-lo do pseudoestrabismo. A porta de entrada na rede também está nesse protocolo de 2025: leucocoria e proptose unilateral são critérios da oferta de avaliação inicial em oncologia oftalmológica, e o teste do olhinho alterado é prioridade alta na avaliação inicial de 0 a 8 anos. O prazo não está escrito ali — está no manual do INCA, e o bloco de divergências diz qual prazo esta apostila escreve no pedido.
A cabeça: a cefaleia que acorda, o vômito da manhã e o andar que mudou
O tumor do sistema nervoso central é o tumor sólido mais frequente da criança e é sinal de alerta deste capítulo; a triagem da cefaleia da criança, com os critérios de emergência e de imagem ambulatorial, é de Cefaleias primárias: migrânea, tensional e em salvas, na apostila de Neurologia, e a imagem que mostra tumor vai à neurocirurgia pediátrica. A cefaleia é o principal sintoma dos tumores cerebrais e, ainda assim, tumor é causa pouco frequente de cefaleia; quando é tumor, pelo manual do INCA, a dor tem evolução crônica e progressiva e vem acompanhada — de visão dupla, vômitos, mudança de comportamento e de personalidade, queda no rendimento escolar.
A lista do INCA de situações que, associadas a exame neurológico alterado, pedem neuroimagem rápida é o roteiro da anamnese: cefaleia persistente com exame alterado; cefaleia com vômitos matinais ou que acorda a criança; mudança no padrão da dor, com mais intensidade e frequência; vômitos persistentes e cada vez mais frequentes; papiledema; hipertensão arterial; crises convulsivas; paralisia de nervo craniano; diplopia, alteração de campo visual, estrabismo adquirido, anisocoria e nistagmo; marcha alterada e quedas frequentes; parada ou regressão do desenvolvimento; dificuldade escolar de aparecimento repentino; mudança de comportamento e de humor sem causa; fontanela abaulada; perímetro cefálico que cresce desproporcionalmente; olhar em sol poente; sonolência; e diagnóstico de neurofibromatose. O protocolo federal acrescenta as síndromes familiares — neurofibromatose, esclerose tuberosa, von Hippel-Lindau e Li-Fraumeni.
A criança pequena não diz que tem dor de cabeça nem que vê dobrado, e o protocolo federal registra esse atraso. O quadro de frequência dos sinais no manual do INCA mostra a diferença: no conjunto dos tumores intracranianos, cefaleia em 33%, náusea e vômito em 32% e alteração da marcha e da coordenação em 27%; abaixo dos 4 anos, macrocefalia em 41%, náusea e vômito em 30%, irritabilidade em 24%, letargia em 21%, alteração da marcha em 19%, perda de peso em 14% e fontanela abaulada ou suturas alargadas em 13%. No lactente, portanto, o sinal está na fita métrica e na curva do perímetro cefálico — cuja leitura está em Acompanhamento do crescimento: curvas da OMS, peso, estatura e perímetro cefálico, na apostila de Puericultura e Desenvolvimento.
O que separa a dor comum da dor do tumor é o exame: em mais de 90% das crianças com tumor há alguma alteração no momento do diagnóstico. Procure estrabismo, nistagmo, papiledema no fundo de olho, fontanela abaulada, aumento do perímetro cefálico, inclinação da cabeça ou torcicolo, rigidez de nuca, perda de força, atraso ou perda de habilidades, alteração da marcha e do equilíbrio, distúrbio da fala e paralisia de nervos cranianos. Se o exame neurológico não puder ser feito direito na unidade, o manual manda encaminhar para avaliação por especialista. Criança com sinais inequívocos de hipertensão intracraniana e rebaixamento da consciência é encaminhada imediatamente, como emergência; e punção lombar na suspeita de massa intracraniana é desencorajada, porque pode provocar herniação e morte.
O gânglio e o mediastino: Hodgkin, linfoblástico e Burkitt
Linfonodo palpável é achado comum na criança saudável, e a régua de tamanho e de tempo que separa o reativo do suspeito é de Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, que discute as três réguas federais. O que este capítulo acrescenta é a lista de características que, descartada causa infecciosa, tornam a adenomegalia suspeita de linfoma, igual nos dois documentos federais: febre sem causa, perda de peso e sudorese noturna; alteração em duas ou mais séries do hemograma; hepatoesplenomegalia; sorologias negativas para toxoplasmose, rubéola, HIV, citomegalovírus, mononucleose e sífilis; gânglio que persiste depois de tratamento adequado; aumento progressivo depois de duas semanas de observação; localização supraclavicular ou cervical baixa; axilar ou epitroclear sem porta de entrada nem dermatite; e gânglio duro, indolor e aderido aos planos profundos.
O linfoma de Hodgkin é o linfoma do adolescente. A apresentação mais comum, pela Sociedade Brasileira de Pediatria, é o linfonodo cervical lateral, indolor, de consistência firme, borrachoide, sem sinais inflamatórios, que cresce em semanas a meses, podendo começar também na região supraclavicular, no mediastino, na axila ou na virilha. Dois terços têm doença no mediastino à apresentação, o que explica a tosse seca e os sintomas de compressão da traqueia e dos brônquios; cerca de 30% têm febre, sudorese noturna e emagrecimento. O diagnóstico é feito por biópsia excisional com exame anatomopatológico e imuno-histoquímica. O protocolo federal do linfoma de Hodgkin, de 2020, declara-se do adulto no próprio título; para a criança e o adolescente, a régua do reconhecimento é a dos documentos de diagnóstico precoce e a da sociedade de pediatria.
O linfoma não Hodgkin da criança é quase sempre de alto grau, de crescimento rápido. O linfoblástico, cerca de 30% dos casos, apresenta-se com massa mediastinal, muitas vezes com derrame pleural cuja citologia pode dar o diagnóstico; o Burkitt, no abdome; o de grandes células, em linfonodos periféricos, mediastino anterior ou abdome. A emergência está escrita nos dois documentos federais: linfadenomegalia com dispneia exige encaminhamento em poucas horas, porque a massa mediastinal pode comprimir a via aérea e a veia cava superior. A radiografia de tórax, se estiver à mão, confirma a suspeita, mas não pode atrasar o encaminhamento — e o alargamento do mediastino é facilmente confundido com aumento da área cardíaca, com pneumonia ou com crise de asma.
A regra que atravessa todos os linfomas é a do corticoide. O manual do INCA adverte que prednisona ou dexametasona por mais de 48 a 72 horas pode impedir o diagnóstico, porque regride o linfonodo, a massa e a infiltração da medula que a biópsia e o mielograma precisam ler; a Sociedade Brasileira de Pediatria pede que o pediatra evite corticoide antes do diagnóstico definitivo. Na atenção primária isso tem três rostos conhecidos: o corticoide para a asma que não fecha num adolescente com tosse seca e gânglio, o corticoide para o gânglio inflamado que não inflamou e o corticoide para a dor que não cede. Antibiótico para adenite com sinal de infecção bacteriana é conduta prevista na faixa de algum risco do quadro federal; gânglio que persiste depois dele muda de faixa.

O osso e as partes moles: a dor que acorda e o caroço que cresce sem inflamação
Os tumores ósseos malignos são, pelo protocolo federal, doença típica do adolescente: o osteossarcoma, na região do joelho — fêmur distal e tíbia proximal —, e os tumores da família Ewing, no esqueleto axial, na pelve e na parede torácica. Manifestam-se por dor local com aumento de volume das partes moles da região, e o que mais atrasa o diagnóstico é tratá-los como tendinite ou como osteomielite. Não existe exame de sangue que os denuncie cedo; o diagnóstico precoce é estar atento ao sinal. Na tabela da Sociedade Brasileira de Pediatria, a dor óssea ou articular persistente que acorda a criança à noite, com ou sem edema, massa ou limitação, aponta para leucemia, tumor ósseo maligno e neuroblastoma.
O exame que decide é a radiografia da região, e o protocolo federal diz o que nela manda encaminhar imediatamente a uma unidade habilitada em oncologia pediátrica: rarefação e lise óssea, reação periosteal com espessamento ou ruptura da linha do periósteo, e triângulo de Codman. A fronteira com a ortopedia fica escrita nos dois sentidos: Quadril na infância (epifisiólise e sinovite transitória) assumiu o mínimo — dor óssea localizada, fixa, progressiva, que acorda a criança à noite e não cede com analgesia comum é encaminhamento prioritário à ortopedia com radiografia em duas incidências —, e este capítulo acrescenta que radiografia com sinal de agressividade não entra na fila da ortopedia: vai, no mesmo dia, ao serviço habilitado em oncologia pediátrica. A diretriz britânica usa a mesma lógica com prazo explícito, radiografia de acesso direto muito urgente, em até 48 horas, para dor ou aumento de volume ósseo inexplicado na criança.
A dor óssea nem sempre é do osso. Com palidez, febre, sangramento ou hepatoesplenomegalia, ela é da régua de Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, que traz também a advertência sobre corticoide antes do mielograma. No lactente ou na criança pequena irritada, que recusa ficar em pé e chora quando é pega no colo, com olhos roxos ou massa no abdome, pense em metástase de neuroblastoma antes de pensar em queda.
O rabdomiossarcoma é o tumor de partes moles da infância, mais comum em meninos, com média de 4 anos, e pode aparecer em qualquer lugar. O sinal, na maioria das vezes, é um caroço que cresce sem dor e sem inflamação — no tronco, nos membros, na virilha, no testículo. Na órbita, o local mais comum, dá inchaço da pálpebra, proptose ou estrabismo; no ouvido e nos seios da face, otalgia, otorreia crônica, obstrução nasal com sangramento; na bexiga e na próstata, hematúria e retenção urinária; na vagina, sangramento vaginal; nas vias biliares, icterícia. Nas extremidades, é mais comum na segunda década e mais agressivo, e cerca de 25% das crianças já têm metástase ao diagnóstico. A Sociedade Brasileira de Pediatria acrescenta um detalhe que confunde famílias e médicos: o trauma é relatado com frequência, mas não tem relação de causa com o tumor. O quadro federal põe a massa sem sinal de inflamação na faixa de risco de câncer.
Os sinais sem endereço e a criança que já nasce com risco
Há sinais que não apontam órgão. Na faixa de algum risco do quadro federal estão perda de apetite, perda de peso e cansaço nos últimos três meses, sudorese noturna sem causa, palidez leve e gânglio doloroso, menor, mole ou recente; a conduta é exame completo, orientação alimentar, afastar tuberculose e HIV, investigar deficiência de ferro, tratar infecção bacteriana e acompanhar vacina e curva de crescimento. O que o quadro não resolve sozinho é o tempo: a mesma criança pode estar na faixa de algum risco hoje e na de risco de câncer daqui a três semanas, e o protocolo federal pede atenção redobrada à que retorna com a mesma queixa ou continua sintomática apesar das primeiras medidas. A diretriz britânica acrescenta uma instrução que cabe em qualquer sistema: a preocupação persistente dos pais conta como dado.
A febre por mais de sete dias sem causa aparente está na faixa de risco de câncer ou doença grave — e a linha impressa no quadro federal, com a negação faltando, está discutida em Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, que é dona da febre como peça da suspeita de leucemia. Neste capítulo, a febre prolongada interessa quando vem com massa, gânglio ou dor óssea: a Sociedade Brasileira de Pediatria liga a febre prolongada de causa não identificada a linfomas, leucemias, neuroblastoma e sarcoma de Ewing. O lactente febril sem foco, na fase aguda, é de Febre sem sinais localizatórios no lactente e abordagem da criança febril, na apostila de Emergências Pediátricas.
Algumas crianças já chegam com risco escrito. O protocolo federal e o manual do INCA listam: síndrome de Down, com risco maior de leucemia, que é da régua de Leucemia linfoblástica aguda; neurofibromatose, com tumores do sistema nervoso central e sarcomas; malformações do trato geniturinário, aniridia, hemi-hipertrofia e síndrome de Beckwith-Wiedemann — visceromegalias, defeitos de fechamento da parede abdominal, hipoglicemia neonatal —, ligadas ao tumor de Wilms; síndromes WAGR, de Denys-Drash e de Frasier, também ligadas ao Wilms; Beckwith-Wiedemann e hemi-hipertrofia ligadas ainda a hepatoblastoma, neuroblastoma e carcinoma de suprarrenal; e o retinoblastoma na família, que pede avaliação oftalmológica. No Sul e no Sudeste, a mutação TP53 R337H soma o tumor do córtex suprarrenal a essa lista.
O papel da unidade diante dessas crianças é triplo: saber quem são, pelo registro da caderneta e do prontuário; garantir que o rastreio esteja de fato acontecendo, no intervalo que o critério deste capítulo adota, porque os documentos brasileiros mandam rastrear sem dizer de quanto em quanto tempo; e ensinar à família que um ultrassom normal não encerra a vigilância, porque a massa pode aparecer entre dois exames. A criança com hemi-hipertrofia que chega com a barriga maior não espera o próximo ultrassom programado: entra no caminho da massa abdominal no mesmo dia.
Como fechar o diagnóstico
Na atenção primária, investigar a suspeita de câncer da criança não é fazer o diagnóstico. É registrar o que o serviço de referência vai precisar, pedir só o que ajuda sem atrasar e deixar de fazer o que atrapalha. O manual do INCA repete, a cada grupo de tumor, a mesma frase de método: exame complementar, por melhor que seja, não pode atrasar o encaminhamento para a confirmação diagnóstica. E os dois documentos federais acrescentam uma preferência que economiza semanas: que a criança seja investigada pelo mesmo serviço que vai tratá-la.
Três perguntas organizam as seções abaixo. O que o seu exame físico precisa deixar escrito para que ninguém precise repeti-lo? O que se pede na unidade, e o que não se pede? E o que acontece do outro lado — no serviço que recebe a criança —, para que você saiba explicar à família por que ela vai para lá e o que vai viver nos próximos dias.
Exame delicado e registro que orienta a próxima equipe
Acalme a criança, aqueça as mãos e permita que fique perto de quem cuida. Inspecione o abdome e faça palpação suave, suficiente para descrever lado, limites, superfície, consistência, mobilidade e dor. Registre fígado e baço separadamente, quando distinguíveis, e use um desenho para comunicar o contorno. Atravessar a linha média ajuda a descrever a massa e o diferencial, mas não estabelece estadiamento por palpação. Se o exame precisar ser repetido por uma mudança clínica ou pelo responsável, explique a finalidade e evite pressão vigorosa.
Evitar manipulação desnecessária é diferente de proibir novo exame. O NCI descreve consequências da ruptura e da biópsia no estadiamento do tumor de Wilms, dentro dos protocolos oncológicos; isso não sustenta uma regra universal de “uma palpação”. A decisão sobre imagem e obtenção de tecido deve ser da equipe especializada, pois a sequência de tratamento varia conforme o protocolo. Na atenção primária, a conduta é reconhecer, documentar e encaminhar sem realizar procedimentos invasivos de triagem (NCI, PDQ).
O resto do exame muda o caminho. A pressão arterial, por ausculta e com manguito adequado ao braço, comparada à tabela por idade, sexo e estatura, cuja técnica e cujos cortes estão em Glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica. A genitália e os testículos. A pele: palidez, equimoses, petéquias, nódulos cor de vinho. Os olhos: íris inteira e da mesma cor, pupilas e pálpebras simétricas — ptose com miose é Horner —, reflexo vermelho, proptose, equimose periorbitária. Os membros: assimetria de tamanho, que é hemi-hipertrofia. Todas as cadeias de linfonodos, inclusive supraclavicular, axilar e epitroclear. E o exame neurológico — marcha, força, sensibilidade, reflexos — com a pergunta que ninguém faz: a criança que já tinha controle de xixi e cocô perdeu esse controle? O manual do INCA inclui ainda o toque retal no exame da criança com suspeita de tumor abdominal, porque identifica massa pélvica, fecaloma e sangue ou muco na luva.
A caderneta completa o exame. O peso de hoje contra a curva mostra perda que a família não percebeu; no menor de 2 anos, o perímetro cefálico contra a curva mostra a cabeça que cresce além do esperado, e a leitura dessas curvas está em Acompanhamento do crescimento: curvas da OMS, peso, estatura e perímetro cefálico. Na página das triagens, o registro do teste do olhinho por olho; nas consultas seguintes, o campo de exame ocular com reflexo e estrabismo. O que não estiver anotado ali é informação que a criança não tem.
O que a unidade pede, e o que deixa para o serviço
Alguns exames ajudam e cabem no dia. A fita de urina e a urina tipo 1 mostram a hematúria que aproxima a massa do rim. O hemograma entra quando há palidez, sangramento, dor óssea, hepatoesplenomegalia ou febre prolongada, e a leitura — duas séries alteradas encaminham com urgência; os quatro cortes de risco de morte encaminham em horas — é a régua de Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, onde está também a exigência de contagem diferencial manual com resultado em 24 horas. A radiografia de tórax entra no gânglio suspeito e na tosse seca que não fecha, sem atrasar o encaminhamento. A radiografia da região, em duas incidências, entra na dor óssea localizada.
A ultrassonografia é o exame que mais seduz e mais atrasa. Os documentos federais admitem confirmar a suspeita por ultrassonografia antes de encaminhar a criança com massa abdominal, quando o exame sai em tempo hábil e é feito por profissional habituado a criança; o fluxograma do INCA põe 72 horas na ultrassonografia abdominal e na testicular. Esta apostila adota esse prazo como teto: se a unidade consegue o laudo em até 72 horas, ele vem antes; se o exame depende da fila ambulatorial comum, ele não é pedido por essa fila, e a criança é encaminhada no mesmo dia sem ele.
Outros atos não se fazem fora do serviço que vai tratar. Biópsia ou punção de massa abdominal não, porque na doença renal a biópsia como primeiro procedimento sobe o estádio. Punção aspirativa de gânglio suspeito como triagem também não: os dois documentos federais deixam a decisão sobre qual exame, em que local e com que tipo de biópsia para a equipe especializada, e a Sociedade Brasileira de Pediatria descreve o padrão — biópsia a céu aberto no linfoma não Hodgkin e biópsia excisional no linfoma de Hodgkin. Punção lombar na suspeita de massa intracraniana, nunca. Corticoide de prova, nunca. E marcador tumoral — catecolaminas urinárias, desidrogenase lática, ferritina, alfafetoproteína — não é condição para encaminhar: são exames da avaliação que o serviço especializado faz, e esperar por eles fora de lá é trocar dias por um papel.
Nada disso proíbe o exame que o próprio serviço de referência pedir por telefone, antes de receber a criança. O que muda a conduta é quem decide: exame pedido pelo serviço que vai tratar entra no percurso dele; exame pedido para decidir se vale a pena encaminhar entra na frente do percurso e o empurra.
O pedido que abre o prazo
A Lei nº 12.732, de 2012, no § 3º do art. 2º incluído em 2019, manda que os exames necessários à elucidação sejam feitos em até 30 dias quando a principal hipótese diagnóstica for neoplasia maligna, mediante solicitação fundamentada do médico responsável. O prazo, portanto, depende do que está escrito no pedido. Encaminhamento que diz apenas massa abdominal a esclarecer não invoca a regra; encaminhamento que declara hipótese diagnóstica principal de neoplasia maligna, com o achado que a fundamenta, invoca. A leitura completa dos prazos legais, do laudo ao início do tratamento, está em Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce.
O pedido bom cabe em meia página e responde tudo o que o serviço perguntaria. Nome, idade, peso e telefone de quem cuida. O sinal e o dia em que foi notado. O exame, com as medidas e o desenho, a pressão arterial com o manguito usado e a fita de urina. O que já foi feito e o que não foi: nenhuma biópsia, nenhum corticoide, exame abdominal delicado documentado. O item do quadro federal que classifica a criança como risco de câncer. O prazo pedido — 72 horas para a massa, uma semana para a leucocoria, horas para a emergência. E a frase que ancora a urgência na lei: criança abrangida pela Política Nacional de Atenção à Oncologia Pediátrica, Lei nº 14.308, de 2022, que prevê encaminhamento ágil da criança com suspeita de câncer no inciso I do art. 4º.
O encaminhamento não encerra a responsabilidade da unidade. O protocolo federal é explícito: a criança em investigação diagnóstica ou em tratamento num serviço habilitado continua sob responsabilidade da equipe de Saúde da Família a que pertence, que verifica se a família está conseguindo seguir o que o serviço especializado orientou. Isso se traduz em três atos com nome e data no prontuário: confirmar a vaga, confirmar a chegada e marcar o próximo contato.
O que o serviço de referência vai fazer — para explicar à família
Na suspeita de neuroblastoma, pela Sociedade Brasileira de Pediatria, o serviço colhe hemograma, função renal e hepática, desidrogenase lática e ferritina e pesquisa as catecolaminas na urina — ácido vanilmandélico e ácido homovanílico —, lembrando que no recém-nascido boa parte dos tumores não secreta e o exame perde sensibilidade. A extensão se avalia por ultrassonografia, tomografia ou ressonância, cintilografia com metaiodobenzilguanidina, mielograma e biópsia de medula. O diagnóstico definitivo é histológico, e o tecido é estudado quanto à biologia: a amplificação do oncogene NMYC, em cerca de 20% dos casos, marca um tumor mais agressivo. Com idade, estadiamento, histologia e genética, a criança é classificada em risco baixo, intermediário ou alto, e o tratamento vai da observação à terapia intensiva combinada.
Na suspeita de tumor de Wilms, a imagem é o primeiro passo: ultrassonografia abdominal, tomografia de abdome e pelve ou ressonância, pela página do INCA, olhando os dois rins, porque de 5% a 10% dos tumores são bilaterais ou multicêntricos. A decisão de biopsiar, operar primeiro ou tratar antes da cirurgia é da equipe do centro de referência, e o sumário americano explica por que esse passo não se improvisa: biópsia como primeiro procedimento já classifica o tumor como estádio III.
Na suspeita de retinoblastoma, o manual do INCA descreve exame oftalmológico sob sedação e tomografia e ressonância de crânio e órbitas, para confirmar e medir a extensão; como parte do cuidado, entra o aconselhamento genético, porque a forma hereditária muda o seguimento da própria criança, dos irmãos e dos filhos que ela vier a ter. Na suspeita de tumor do sistema nervoso central, tomografia de crânio ou ressonância, que identificam a lesão e planejam a neurocirurgia; lesão tumoral encaminha em caráter de urgência a serviço de oncologia pediátrica com neurocirurgia.
Na suspeita de linfoma não Hodgkin, o diagnóstico precisa ser preciso e urgente, pela velocidade de crescimento: biópsia a céu aberto sempre que possível e, quando a criança não tem condição de receber anestesia geral — a massa mediastinal que aperta a via aérea é o exemplo —, punção de líquido pleural ou ascítico, aspirado ou biópsia de medula ou de linfonodo, com material enviado a fresco para morfologia, citometria de fluxo e citogenética. A admissão inclui hemograma, função renal e hepática, ácido úrico, fósforo, potássio, cálcio, desidrogenase lática, urina, pesquisa de células no líquor e análise da medula, com radiografia de tórax e ultrassonografia de abdome e pelve. No linfoma de Hodgkin, biópsia excisional com imuno-histoquímica, velocidade de hemossedimentação, provas hepáticas, renais e fosfatase alcalina, e estudo de imagem do tórax e do abdome.
Quando o prazo vira horas
Algumas suspeitas pulam a regulação ambulatorial e vão direto para a urgência. A primeira é a da via aérea: linfadenomegalia com dispneia, que os dois documentos federais tratam como risco iminente de morte, com encaminhamento em poucas horas, porque a massa mediastinal pode comprimir traqueia e veia cava superior. O reconhecimento dessa emergência na criança é de Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, e a proibição de deitar, sedar ou anestesiar quem só respira sentado é de Massas de mediastino (diagnóstico diferencial por compartimento). O que este capítulo acrescenta é a origem: no escolar e no adolescente, tosse seca persistente com gânglio e piora ao deitar pede radiografia de tórax no mesmo dia, e não corticoide para asma.
A segunda é a da cabeça: sinais inequívocos de hipertensão intracraniana com rebaixamento do nível de consciência encaminham imediatamente, pelo manual do INCA, e o quadro federal manda iniciar o manejo da hipertensão intracraniana quando houver indicação — manejo que está em Hipertensão intracraniana não traumática e hidrocefalia, na apostila de Neurocirurgia. A terceira é a da medula: dor nas costas que piora deitado, fraqueza nas pernas, alteração de sensibilidade ou perda de controle dos esfíncteres numa criança com massa, com tumor conhecido ou com os sinais deste capítulo. Entre as consequências do atraso descritas no manual do INCA está a criança com neuroblastoma retroperitoneal que invadiu o canal medular e ficou paraplégica antes de chegar ao centro de tratamento. Compressão medular não traumática: metástase, abscesso epidural e cauda equina, na apostila de Neurocirurgia, cede os tumores sólidos da criança a esta apostila; a sua parte é reconhecer e transferir na mesma hora, e a decisão sobre corticoide e descompressão é da equipe que recebe, porque o corticoide que desincha a medula pode apagar o diagnóstico de um linfoma.
A quarta é a do abdome que muda em horas ou dias: massa que cresce a olho nu, dor com vômitos e distensão de obstrução, urina que diminui. No linfoma de Burkitt, o manual do INCA descreve massas volumosas de crescimento rápido que obstruem o intestino e as vias urinárias, e a Sociedade Brasileira de Pediatria põe ácido úrico, potássio, fósforo, cálcio e desidrogenase lática nos exames da admissão, porque a mesma velocidade que faz a massa crescer faz esses valores subirem quando as células morrem. O manejo de plantão da lise tumoral é de Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia), e a hidratação e o hipouricemiante da criança são prescritos por superfície corporal ou peso com o oncologista pediátrico. Uma última situação é leitura desta apostila, sem número de fonte: criança com massa abdominal conhecida que passa a ter dor súbita e forte com palidez é tratada como sangramento até prova em contrário, e vai à emergência.
A quinta é a do sangue, e ela tem dono: plaquetas abaixo de 20.000, leucócitos acima de 50.000, hemoglobina abaixo de 6 g/dL ou sangramento ativo mudam o prazo para poucas horas, pela régua de Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce. Um neuroblastoma que infiltrou a medula pode chegar exatamente assim.
Os diagnósticos que atrasam
O manual do INCA faz uma lista de rótulos que, corretos na maioria das crianças, atrasam o diagnóstico nas poucas que têm câncer: o vômito conduzido como problema gastrintestinal e a cefaleia atribuída a vício de refração, no tumor cerebral; a constipação e a parasitose, na massa abdominal; o alargamento do mediastino lido como aumento da área cardíaca, pneumonia ou crise de asma, no linfoma; o tumor ósseo tratado como osteomielite; a manifestação osteoarticular de leucemia tratada com corticoide como artrite. O protocolo federal soma a tendinite no tumor ósseo. A tabela da Sociedade Brasileira de Pediatria acrescenta sinais que parecem de outras especialidades: dor de dente rebelde ao tratamento, que pode ser linfoma ou rabdomiossarcoma; otalgia e otorreia crônicas; obstrução nasal com sangramento; dor nas costas que piora deitado.
A equimose periorbitária bilateral merece parágrafo próprio, porque tem duas leituras que não se excluem. Numa criança pequena, olhos roxos sem história coerente levantam suspeita de violência, e a identificação, o registro e a notificação dessa suspeita são de Violência e maus-tratos infantis: identificação e notificação compulsória (ECA), na apostila de Emergências Pediátricas. O neuroblastoma produz o mesmo sinal por infiltração dos ossos da órbita — o sinal do guaxinim —, em geral com outros achados: proptose, palidez, irritabilidade, dor óssea, massa abdominal, fígado grande. A conduta não escolhe entre as duas leituras: examina a criança inteira, pede hemograma e segue os dois caminhos que o exame apontar, sem que um espere pelo outro.
A regra geral é de tempo, e está nos três documentos que o capítulo usa: sintoma que persiste depois do tratamento adequado precisa ser investigado, pelo manual do INCA; a criança que volta com as mesmas queixas merece atenção redobrada, pelo protocolo federal; e a preocupação persistente de pais e cuidadores entra na decisão de encaminhar, pela diretriz britânica. O rótulo benigno pode ser o certo — o erro é não marcar o dia de conferir.
Do sinal ao serviço: o que decide, e em quanto tempo
A régua brasileira do reconhecimento do câncer da criança na atenção primária é o Protocolo de diagnóstico precoce para oncologia pediátrica do Ministério da Saúde, de 2017, com o quadro de classificação creditado ao manual AIEPI, apoiado no manual do INCA com o Instituto Ronald McDonald, de 2014, cujos fluxogramas o protocolo reproduz. Para a porta de entrada do olho na rede, a régua é o protocolo federal de encaminhamento às ofertas de cuidado integrado em oftalmologia, de 2025. Três decisões centrais deste capítulo não têm número em documento brasileiro, e isso fica dito: o prazo em horas do encaminhamento urgente do quadro federal; o intervalo do ultrassom nas síndromes que predispõem ao tumor de Wilms, que o INCA manda fazer periodicamente sem dizer de quanto em quanto tempo; e a periodicidade do exame de fundo de olho no irmão de quem teve retinoblastoma. Na primeira, esta apostila escreve o prazo que a unidade consegue cumprir — no mesmo dia pela regulação, ou em horas pela emergência — e usa a diretriz britânica só como ordem de grandeza; na segunda, adota o intervalo do sumário do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos e declara a origem; na terceira, remete ao serviço de oncologia ocular. O linfoma da criança não tem protocolo federal de tratamento próprio entre os documentos deste capítulo — o do linfoma de Hodgkin, de 2020, é do adulto —, e o reconhecimento segue os documentos de diagnóstico precoce e a Sociedade Brasileira de Pediatria. O fluxo abaixo vai da queixa ao destino; as tabelas dizem o prazo de cada sinal, quem é a criança típica de cada tumor, a conta do único fármaco prescrito e o rastreio das síndromes.
- 1Escute a queixa como dado: sinal visto pela família — a massa no banho, o brilho na foto — conta como achado, e a preocupação persistente de quem cuida entra na decisão.
- 2Procure na criança inteira os itens da faixa de risco de câncer do quadro federal: massa abdominal, massa sem inflamação, leucocoria, estrabismo súbito, aniridia, heterocromia, hifema, proptose, alteração visual, sinal neurológico focal, cefaleia que acorda com vômito, dor óssea progressiva, gânglio suspeito, hepatoesplenomegalia, sangramento, palidez grave, febre prolongada sem causa.
- 3Antes de qualquer fila, separe a emergência: dispneia com gânglio ou mediastino; hipertensão intracraniana com rebaixamento; sinal de compressão medular; massa que cresce em dias ou com dor súbita e palidez; critério hematológico de risco de morte. Nessas, transferência em horas.
- 4Massa abdominal sem emergência: palpação delicada, com desenho e medida; pressão com manguito adequado; fita de urina; genitália; exame neurológico. Ultrassonografia só se o laudo sair em até 72 horas; sem essa garantia, encaminhamento no mesmo dia sem ela.
- 5Leucocoria, na sala ou na foto, ou reflexo vermelho ausente ou branco: exame do reflexo no mesmo dia e pedido à oferta de oncologia oftalmológica com o prazo de uma semana escrito, mais contato direto com o serviço.
- 6Cefaleia com vômito matinal, que acorda, que muda de padrão, ou qualquer alteração no exame neurológico: neuroimagem rápida, na prática pela emergência no mesmo dia; sem sinal de alerta, a triagem da cefaleia segue o capítulo de cefaleias primárias.
- 7Gânglio com características suspeitas: hemograma e radiografia de tórax sem atrasar, encaminhamento rápido, evitar corticoide empírico e discutir indicações urgentes; a régua de tamanho e de tempo está no capítulo de leucemia linfoblástica aguda.
- 8Dor óssea localizada que acorda à noite ou aumento de volume: radiografia em duas incidências; lise, reação periosteal ou triângulo de Codman encaminham no mesmo dia ao serviço habilitado em oncologia pediátrica; sem alteração, encaminhamento prioritário à ortopedia e reavaliação marcada.
- 9Caroço de partes moles que cresce sem inflamação: registro com medida e encaminhamento urgente; ultrassonografia só se sair em dias.
- 10Escreva o pedido com hipótese diagnóstica principal de neoplasia maligna, o achado que a fundamenta, o item do quadro federal e o prazo pedido; nenhum marcador tumoral é condição para encaminhar.
- 11Não faça fora do serviço que vai tratar: biópsia ou punção de massa ou de gânglio, punção lombar com suspeita de massa intracraniana, corticoide de prova.
- 12A unidade continua responsável: confirme a vaga em 24 horas, a chegada e o próximo contato, com nome e data no prontuário; criança com síndrome predisponente sai com o rastreio agendado.
Sinal de alerta, o que se faz na consulta, prazo e destino
| Sinal | O que fazer na consulta | Prazo | Destino |
|---|---|---|---|
| Massa abdominal em criança bem, sem crescimento rápido | Palpação delicada com desenho e medida; pressão com manguito adequado; fita de urina; genitália | Ultrassonografia só se sair em até 72 horas; sem isso, encaminhar no mesmo dia | Onco-hematologia pediátrica, pela regulação |
| Massa que cresce em dias, dor súbita com palidez, ou sinal de compressão medular | Não esperar exame; força, sensibilidade e controle de esfíncteres | Imediato | Urgência de hospital com oncologia pediátrica |
| Leucocoria, inclusive em foto com flash; reflexo vermelho ausente ou branco | Reflexo vermelho nos dois olhos em sala escura; pupilas; motilidade | Avaliação onco-oftalmológica em até uma semana, escrita no pedido | Oferta de oncologia oftalmológica, com contato direto |
| Estrabismo de início súbito, heterocromia, hifema, proptose ou aniridia | Reflexo vermelho, Hirschberg e cobertura; exame neurológico | Urgente; com sinal neurológico, no mesmo dia | Oftalmologia com oncologia ocular; com sinal neurológico, emergência |
| Cefaleia com vômito matinal ou que acorda; exame neurológico alterado | Exame neurológico completo; fundo de olho; perímetro cefálico no lactente | Neuroimagem rápida; com rebaixamento, imediato | Emergência com imagem; tumor vai à oncologia pediátrica com neurocirurgia |
| Gânglio supraclavicular, duro, aderido, que cresce ou com sintomas B | Hemograma e radiografia de tórax sem atraso do encaminhamento; evitar corticoide empírico | Encaminhamento rápido | Onco-hematologia pediátrica |
| Dispneia, ortopneia ou tosse seca com gânglio ou mediastino alargado | Deixar na posição em que respira melhor; não deitar, não sedar | Poucas horas | Urgência de hospital com oncologia pediátrica |
| Dor óssea localizada que acorda à noite, com ou sem aumento de volume | Radiografia da região em duas incidências | Com lise, reação periosteal ou Codman: no mesmo dia; sem alteração: prioritário | Serviço habilitado em oncologia pediátrica; sem alteração, ortopedia |
| Caroço de partes moles que cresce sem inflamação | Medida e registro; ultrassonografia se sair em dias | Urgente | Onco-hematologia pediátrica |
| Olhos roxos bilaterais, proptose, recusa a andar, irritabilidade | Criança inteira: abdome, fígado, pele, olhos; hemograma | Urgente; com duas séries alteradas, no mesmo dia | Onco-hematologia pediátrica; a suspeita de violência segue seu próprio caminho |
| Síndrome predisponente sem queixa nova | Conferir se o ultrassom programado está em dia | Ver a tabela de rastreio | Serviço que acompanha a síndrome |
| Irmão ou filho de quem teve retinoblastoma | Reflexo vermelho e encaminhamento | Periodicidade do serviço de oncologia ocular | Oftalmologia com oncologia ocular e aconselhamento genético |
Quem é a criança: idade típica e jeito de chegar de cada tumor
| Tumor | Idade típica | Como costuma chegar | O que procurar no exame |
|---|---|---|---|
| Neuroblastoma | Mediana de 19 meses; mais de 80% abaixo de 5 anos | Criança doente: febre, irritabilidade, dor óssea, volume abdominal | Hipertensão, Horner, equimose periorbitária, proptose, nódulos cor de vinho no lactente, sinais de compressão medular |
| Tumor de Wilms | Média de 44 meses (unilateral) e 31 meses (bilateral) | Criança bem, massa em flanco notada no banho | Massa lisa em flanco; hipertensão em cerca de 25%; hematúria; aniridia, hemi-hipertrofia, anomalia genital |
| Retinoblastoma | Média de 2 anos; raro depois dos 6 | Leucocoria vista pela família, muitas vezes em foto | Reflexo branco ou assimétrico; estrabismo; olho vermelho; proptose se avançado |
| Linfoma de Burkitt | Meninos de 5 a 10 anos | Dor e massa abdominal que crescem em dias; invaginação; obstrução | Massa abdominal, distensão, sinais de obstrução, diurese diminuída |
| Linfoma de Hodgkin | Aumenta a partir dos 11 anos; raro antes dos 2 | Gânglio cervical indolor que cresce em semanas; tosse seca | Gânglio borrachoide, supraclavicular; sudorese noturna, perda de peso, febre; mediastino |
| Linfoma linfoblástico | Criança e adolescente; meninos 2,5 para 1 | Tosse, dispneia, derrame pleural | Massa mediastinal; sinais de compressão da via aérea e da veia cava superior |
| Tumores do sistema nervoso central | Toda a infância; abaixo de 4 anos com sinais próprios | Cefaleia matinal com vômito, marcha alterada; no lactente, cabeça que cresce e irritabilidade | Papiledema, estrabismo adquirido, nistagmo, alteração da marcha, perímetro cefálico, fontanela |
| Osteossarcoma e família Ewing | Adolescente | Dor local com aumento de volume, tratada como tendinite ou osteomielite | Joelho no osteossarcoma; pelve, coluna e parede torácica no Ewing; radiografia |
| Rabdomiossarcoma | Meninos, média de 4 anos | Caroço sem inflamação; proptose; otorreia; obstrução nasal com sangue; hematúria ou sangramento vaginal | Massa de partes moles; órbita; ouvido e seios da face; bexiga e vagina |
Paracetamol em solução oral de 200 mg/mL: a conta para as crianças deste capítulo
| Criança e peso | Dose de 15 mg/kg e volume na seringa | Frequência e total em 24 horas | Teto de 75 mg/kg por dia |
|---|---|---|---|
| Pietro, 10,5 kg | 157,5 mg, arredondados para 0,8 mL = 160 mg (15,2 mg/kg) | De 6 em 6 horas: até 4 doses = 640 mg (61 mg/kg) | 787,5 mg, ou 3,9 mL por dia |
| Lavínia, 13,5 kg | 202,5 mg, arredondados para 1,0 mL = 200 mg (14,8 mg/kg) | De 6 em 6 horas: até 4 doses = 800 mg (59 mg/kg) | 1.012,5 mg, ou 5,0 mL por dia |
| Escolar de 7 anos, 22 kg | 330 mg, arredondados para 1,6 mL = 320 mg (14,5 mg/kg) | De 6 em 6 horas: até 4 doses = 1.280 mg (58 mg/kg) | 1.650 mg, ou 8,2 mL por dia |
Síndromes que pedem rastreio: o que o documento brasileiro escreve e o intervalo adotado
| Condição | Tumor associado | O que o documento brasileiro manda | Intervalo que esta apostila adota |
|---|---|---|---|
| Síndrome de Beckwith-Wiedemann | Wilms, hepatoblastoma, neuroblastoma, carcinoma de suprarrenal | Ultrassom abdominal e alfafetoproteína, sem intervalo (INCA 2014) | Ultrassom abdominal a cada 3 meses até 8 anos (sumário do NCI, recomendação da AACR de 2016) |
| Hemi-hipertrofia isolada | Wilms, hepatoblastoma, neuroblastoma, carcinoma de suprarrenal | Como na Beckwith-Wiedemann; rastreio periódico por ultrassom (INCA) | Ultrassom a cada 3 meses até pelo menos 8 anos (risco de Wilms de 3% a 4%, sumário do NCI); abdominal com alfafetoproteína até 4 anos, depois pode ser só renal |
| Síndrome WAGR (aniridia) | Wilms, com risco de cerca de 50% | Ultrassom renal, sem intervalo (INCA 2014) | Ultrassom a cada 3 meses até 8 anos (sumário do NCI) |
| Síndromes de Denys-Drash e de Frasier; anomalias genitais masculinas | Wilms; gonadoblastoma na Frasier | Ultrassom renal ou considerar rastreio de Wilms, sem intervalo (INCA 2014) | Intervalo definido pelo serviço que acompanha a síndrome |
| Retinoblastoma na família | Retinoblastoma; osteossarcoma no sobrevivente da forma hereditária | Avaliação oftalmológica com mais frequência (MS 2017, INCA 2014) | Fundo de olho com a periodicidade do serviço de oncologia ocular, mais aconselhamento genético |
| Neurofibromatose tipo 1 | Tumores do sistema nervoso central, sarcomas, tumor de bainha de nervo, leucemia | Atenção aos sinais e sintomas de alerta (INCA 2014) | Vigilância clínica em cada consulta; sem exame programado nos documentos |
| Síndrome de Down | Leucemia | Hemograma no período neonatal e atenção aos sinais (INCA 2014) | Régua de Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce |
Percursos de reconhecimento: o achado orienta a hipótese, sem confirmar o tumor
| Entrada clínica | Hipóteses a considerar | Primeira decisão |
|---|---|---|
| Massa em flanco, criança por vezes em bom estado; hematúria ou hipertensão podem acompanhar | Tumor de Wilms; outras massas renais e abdominais | Examinar delicadamente, aferir pressão e encaminhar com urgência. Ultrassonografia se prontamente acessível, sem atrasar a avaliação especializada. |
| Massa abdominal com dor óssea, palidez, proptose ou equimose periorbitária | Neuroblastoma; leucemia e outros diferenciais | Avaliar a criança inteira e o hemograma. Déficit motor ou alteração esfincteriana exige atendimento imediato. O aspecto da massa não fecha o diagnóstico. |
| Reflexo pupilar branco ou estrabismo novo | Retinoblastoma e outras causas oculares de leucocoria | Avaliação oftalmológica urgente; uma foto sugestiva merece avaliação mesmo com exame de triagem anterior normal. |
| Linfonodo persistente, supraclavicular ou associado a sintomas sistêmicos | Linfoma; infecções e outras causas | Hemograma e investigação dirigida sem atrasar referência. Tosse com ortopneia exige avaliação hospitalar urgente e cuidado com sedação. |
O protocolo federal de 2017 dá dois prazos para a mesma massa abdominal. No Quadro 1, massa palpável no abdome está na faixa de risco de câncer ou doença grave, cuja conduta é encaminhar urgentemente a serviço especializado em onco-hematologia pediátrica. No item 5.4 do mesmo documento, a criança com massa e queixa abdominal, sem crescimento rápido nem suspeita de compressão medular, pode primeiro fazer ultrassonografia, desde que o exame não passe de uma semana. Conta: massa palpada numa segunda-feira — pelo quadro, o encaminhamento urgente sai na segunda; pelo item 5.4, o laudo pode chegar na segunda seguinte e só então a criança é encaminhada. São até 7 dias de diferença dentro de um único protocolo. Esta apostila resolve pelo teto de 72 horas do fluxograma do INCA, detalhado na nota seguinte e no bloco de divergências.
O manual do INCA de 2014 se contradiz no mesmo ramo. O texto do capítulo de massas abdominais admite confirmar a suspeita por ultrassonografia feita em tempo hábil, no máximo em uma semana, antes de encaminhar; a Figura 5, o fluxograma dos sinais de alerta para as massas abdominais, na página seguinte, rotula a ultrassonografia abdominal e a testicular com 72 horas. Conta: 7 dias contra 3 dias — quatro dias de diferença para a mesma criança. Como 72 horas cumprem ao mesmo tempo o texto, o fluxograma e a urgência do Quadro 1 do protocolo federal, e uma semana cumpre só o texto, esta apostila adota 72 horas; e, se a unidade não tem garantia de laudo nesse prazo, a criança é encaminhada no mesmo dia sem ultrassonografia.
O item 5.5 do protocolo federal de 2017, sobre retinoblastoma, manda a criança com sinal de alerta a dois destinos diferentes sem prazo: primeiro a centros especializados em Pediatria e, dois parágrafos depois, ao médico oftalmologista apto a fazer o diagnóstico com exame de imagem. O manual do INCA de 2014 dá um destino só — serviço de oncologia e oftalmologia pediátrica, onde a criança faz exame sob sedação e imagem de órbitas — e um prazo ideal de até uma semana. A diferença muda a conduta: a leucocoria mandada a um ambulatório geral de pediatria entra numa fila que não faz o exame que responde. O protocolo federal de oftalmologia de 2025 fecha a porta certa — leucocoria é critério da oferta de oncologia oftalmológica —, e esta apostila escreve o pedido para ela, com o prazo do INCA.
A conduta, hora a hora
A conduta abaixo é a de Lavínia, do minuto em que você fecha a porta até o dia em que a família volta com o primeiro laudo. Ela não trata tumor nenhum — isso é do centro habilitado. Ela garante que a menina chegue lá no prazo, sem manipulação desnecessária da massa, sem exame que atrase e com a família entendendo o que está acontecendo.
O princípio que atravessa os marcos é simples de dizer e difícil de cumprir numa manhã cheia: o dia da consulta é o dia da decisão. A pressão, a fita e o desenho do exame levam minutos; o que leva tempo é o telefone. Por isso o telefone vem antes de a preceptora voltar da visita, e não depois.
Terça, 8h55 — antes de qualquer exame, a história que ninguém fez inteira
Você refaz a história com as perguntas que a unidade de pronto atendimento não precisou fazer. A massa foi notada no domingo, mas a barriga já estava maior há pelo menos três semanas; a mãe acha que não cresceu desde domingo. Não há febre, sudorese, perda de peso nem dor que acorde a menina; não há vômitos; a urina escureceu uma vez; ela estava em treino de desfralde e nada mudou. A curva da caderneta está no mesmo canal. A gestação e o parto foram sem intercorrências, não há diagnóstico de síndrome nem ninguém na família com câncer na infância ou doença renal. E você anota o que costuma sumir do prontuário: desde domingo, quatro pessoas palparam aquela barriga.
Prescrição- Registrar a data em que a massa foi notada, a velocidade de crescimento relatada e quem a palpou desde então
- Perguntar por febre, perda de peso, sudorese, dor noturna, vômitos, cor da urina e mudança no controle de xixi e cocô
- Conferir na caderneta a curva de peso, o teste do olhinho e as intercorrências de gestação e parto
- Perguntar por câncer na infância e por doença renal na família
9h05 — o exame completo, com a palpação que já foi feita
A palpação delicada já descreveu a massa; transforme o achado em desenho para evitar repetição sem finalidade. A borda inferior da massa está a 6 cm do rebordo costal esquerdo na linha hemiclavicular, não chega à cicatriz umbilical e não passa da linha média; a superfície é lisa, a consistência firme, não há dor. O fígado é palpado a 1 cm do rebordo; o baço não se distingue da massa pela palpação — a imagem vai dizer. O resto do exame é o que muda o caminho: nenhum linfonodo aumentado; pele sem palidez, equimose, petéquia ou nódulo; íris inteiras e da mesma cor, pupilas e pálpebras simétricas, reflexo vermelho simétrico nos dois olhos na sala escurecida; braços e pernas do mesmo tamanho; genitália normal; marcha, força e reflexos normais.
Prescrição- Desenhar no prontuário o contorno da massa, com a distância ao rebordo costal e a relação com a cicatriz umbilical e a linha média
- Examinar na mesma consulta olhos, pele, todas as cadeias de linfonodos, membros, genitália e marcha
- Evitar palpação vigorosa e exames repetidos sem finalidade; reavaliar delicadamente quando houver uma pergunta clínica
9h15 — a pressão com o manguito certo e a fita de urina
O valor da triagem foi obtido com manguito de adulto e não serve para decidir nada. Você busca o manguito infantil na sala de vacina, deixa Lavínia alguns minutos quieta no colo e mede por ausculta: 126 por 82 mmHg; repete, e dá 124 por 80. Comparados à tabela por idade, sexo e estatura, os dois valores estão acima do que a idade dela permite — a técnica e os cortes estão em Glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica. Ela não tem cefaleia, vômito, alteração visual nem convulsão. A fita de urina mostra sangue 2+, proteína em traços, leucócitos e nitrito negativos: hematúria sem sinal de infecção na fita. Massa em flanco, hipertensão e hematúria na criança que está bem formam o retrato que o sumário americano descreve para o tumor de Wilms — sem que isso seja diagnóstico.
Prescrição- Pressão arterial por ausculta, com manguito infantil adequado ao braço, depois de alguns minutos de repouso no colo, repetida uma vez
- Registrar os dois valores, o manguito usado e a comparação com a tabela por idade, sexo e estatura
- Fita reagente de urina na consulta e urina tipo 1 colhida para seguir com a criança
- Registrar a ausência de cefaleia, vômitos, alteração visual e convulsão
9h25 — o caminho: a ultrassonografia só vem antes se vier em 72 horas
Você liga para o serviço municipal de ultrassonografia: pela fila ambulatorial, 45 dias; não há vaga de urgência na rede antes de sexta-feira da semana seguinte. Pela regra que esta apostila adota, o exame não entra na frente do encaminhamento. A classificação vem do quadro federal: massa palpável no abdome é faixa de risco de câncer, com encaminhamento urgente a serviço de onco-hematologia pediátrica, e a pressão elevada e a hematúria só reforçam. Você aciona a regulação pedindo avaliação urgente no serviço que investiga e trata câncer infantil, lê ao regulador os achados e deixa combinado com a preceptora, por mensagem, o contato médico a médico com a oncologia pediátrica do hospital de referência se não houver resposta até as 11h.
Prescrição- Não pedir ultrassonografia pela fila ambulatorial comum
- Solicitar à regulação avaliação urgente em onco-hematologia pediátrica, no serviço que trata, pelo item massa palpável no abdome do quadro federal
- Informar na solicitação a pressão elevada e a hematúria
- Combinar o contato médico a médico se não houver resposta até as 11h
9h40 — o pedido que abre o prazo
O encaminhamento sai escrito para ser lido por quem vai decidir a vaga. Na primeira linha, hipótese diagnóstica principal: neoplasia maligna — massa em flanco esquerdo, provável origem renal, a esclarecer. Embaixo, o desenho e as medidas, os dois valores de pressão com o manguito usado, a fita de urina e a frase que protege a criança no próximo examinador: foi feita exame abdominal delicado documentado; evitar novas palpações antes da imagem. Depois, o que não foi feito — nenhum corticoide, nenhuma biópsia — e o prazo pedido, com a base legal: exames de elucidação em até 30 dias pelo § 3º do art. 2º da Lei nº 12.732, de 2012, e encaminhamento ágil pelo inciso I do art. 4º da Lei nº 14.308, de 2022. Uma cópia fica na caderneta.
Prescrição- Escrever como hipótese diagnóstica principal: neoplasia maligna, massa em flanco esquerdo a esclarecer
- Anexar o desenho do exame, os valores de pressão com o manguito usado e o resultado da fita
- Escrever o prazo pedido e a base legal: art. 2º, § 3º, da Lei nº 12.732/2012 e art. 4º, I, da Lei nº 14.308/2022
- Registrar no pedido: exame abdominal delicado documentado, sem corticoide, sem biópsia
9h50 — o que a família leva para casa
Lavínia não tem dor hoje, mas a noite pode trazer. O único remédio que sai da consulta é o analgésico, prescrito por quilo, em mililitros, com seringa, porque a Sociedade Brasileira de Pediatria registra que os gotejadores variam de volume. Anti-inflamatório e corticoide ficam proibidos por escrito até o serviço de referência dizer outra coisa. A família recebe a lista dos sinais que não esperam a vaga, e a mãe recebe a declaração de que acompanhou a filha na unidade. A conversa com ela — o que dizer da suspeita, da palpação da vizinha e do hospital para onde a menina vai — está no bloco de comunicação.
Prescrição- Paracetamol 200 mg/mL, solução oral (Rename 2024, Componente Básico): 1,0 mL (200 mg, 14,8 mg/kg para 13,5 kg), por via oral, se dor, de 6 em 6 horas, no máximo 4 doses em 24 horas (800 mg); teto de 75 mg/kg/dia = 1.012,5 mg
- Medir com seringa dosadora, e não com gotejador
- Não dar anti-inflamatório nem corticoide sem orientação do serviço de referência
- Ir direto ao pronto-socorro se houver dor forte e súbita na barriga, palidez ou moleza, barriga que cresce de um dia para o outro, vômitos repetidos, urina com sangue vivo, dor de cabeça forte com vômito ou convulsão
- Ninguém aperta a barriga da criança em casa nem na creche
Terça, 13h30 — a vaga, e a equipe que não solta a família
A regulação confirma avaliação para quarta-feira às 7h30 na oncologia pediátrica do hospital de referência, com transporte do município. Você registra quem confirmou e a que horas. O protocolo federal é explícito sobre o resto: a criança em investigação continua sob responsabilidade da equipe de Saúde da Família. A agente comunitária passa na casa no fim da tarde para conferir endereço, telefone, horário do transporte e os papéis — caderneta, pedido, urina colhida. A equipe marca a ligação de quarta-feira à tarde para saber se Lavínia chegou e o que foi pedido.
Prescrição- Registrar data, hora, serviço e nome de quem confirmou a vaga
- Agente comunitário confirma com a família, no mesmo dia, transporte e documentos
- Marcar a ligação da equipe para o dia seguinte à tarde
Quinta-feira — o retorno com o primeiro laudo
Josiane volta à unidade com o resumo da quarta-feira. A ultrassonografia feita no hospital mostrou massa sólida no rim esquerdo, com rim direito normal; a tomografia está marcada e Lavínia foi internada para completar a investigação, sem biópsia decidida. A pergunta que ela traz não é médica: como vai ficar o trabalho, onde vai dormir perto do hospital, se a filha mais velha precisa de exame. Você registra a contrarreferência, marca a visita da equipe para a mesma semana e aponta o caminho que a Política Nacional de Atenção à Oncologia Pediátrica prevê para a rede de apoio, pelo serviço social do centro. O resto da conversa é do centro que vai tratar; a continuidade é da unidade.
Prescrição- Registrar a contrarreferência e a data de cada etapa no prontuário da unidade
- Visita domiciliar da equipe na mesma semana
- Orientar a família a procurar o serviço social do centro sobre as casas de apoio previstas no art. 2º, IV, da Lei nº 14.308/2022
Como saber se está funcionando
Reavalie o estado clínico, a evolução dos sintomas e o acesso ao serviço de referência. Confirme quem assumiu o caso e se a família conseguiu comparecer. Faça novo exame dirigido quando necessário, com palpação delicada se houver uma pergunta abdominal; não repita manobras apenas para confirmar o que já foi bem descrito. Dor súbita, piora respiratória, vômitos persistentes ou alteração neurológica mudam a prioridade do atendimento.
Na criança que ficou na faixa de algum risco do quadro federal — o gânglio doloroso recente, a palidez leve, o cansaço —, a reavaliação é a própria conduta: é ela que decide se a criança continua na puericultura ou sobe de faixa. Nesse caso, a data de retorno sai marcada da consulta, com o nome de quem vai examinar, e a família sai sabendo o que a faz voltar antes.
Esperado: Data e hora confirmadas, dentro do prazo escrito: 72 horas para massa abdominal, uma semana para leucocoria, horas para emergência
Se não melhora: Sem resposta da regulação no prazo, contato médico a médico com o serviço que trata, registrado no prontuário; passado o prazo sem vaga, a criança vai à urgência do hospital de referência, com o pedido na mão.
Esperado: Criança avaliada, exames de imagem pedidos ou feitos, família orientada
Se não melhora: Se a criança não chegou — transporte, trabalho, medo —, a equipe descobre o motivo no mesmo dia e remarca com a regulação; falta sem busca ativa é atraso que só a equipe de Saúde da Família, que conhece a casa, consegue evitar.
Esperado: Laudo disponível, pela unidade ou pelo serviço de referência
Se não melhora: A ausência de laudo não segura o encaminhamento: a criança segue sem ele, e a imagem é feita onde ela for recebida.
Esperado: Sem cefaleia intensa, vômitos, alteração visual ou convulsão
Se não melhora: Qualquer um desses sintomas numa criança com pressão elevada é ida ao pronto-socorro no mesmo momento, sem esperar a vaga ambulatorial.
Esperado: Sem crescimento perceptível, sem dor súbita, sem sangue vivo na urina, diurese mantida
Se não melhora: Barriga que cresce de um dia para o outro, dor súbita com palidez, urina que diminui ou vômitos repetidos mudam o prazo para horas: pronto-socorro, com o pedido.
Esperado: Imagem e diagnóstico histológico concluídos, pelo § 3º do art. 2º da Lei nº 12.732/2012
Se não melhora: Registrar a data do pedido e a do descumprimento e acionar a regulação e a gestão; a leitura completa dos prazos legais e do que fazer quando estouram está em Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce.
Esperado: Família sabendo o nome do serviço e de quem procurar, transporte resolvido, irmãos cuidados, casa de apoio orientada se o centro for longe
Se não melhora: Visita domiciliar da equipe e articulação com a assistência social do município e do centro; a criança continua sob responsabilidade da equipe de Saúde da Família durante todo o tratamento.
Onde o erro machuca
O dano: O manual do INCA registra que parasitose e constipação, que de fato são comuns, aparecem entre as causas de atraso do diagnóstico de câncer na criança, às vezes até associadas a ele. A massa que persiste depois de o intestino esvaziar não é mais uma hipótese intestinal, e um mês é o tempo em que um tumor de crescimento rápido muda de estádio — e em que a família, tranquilizada, deixa de voltar.
Como pegar a tempo: Faça a pergunta que separa: a barriga desinchou depois que a criança evacuou? Massa palpável que ficou depois do tratamento adequado entra na faixa de risco de câncer do quadro federal no mesmo dia. Se a dúvida for real, a reavaliação é em dias, com data e nome, e não em um mês.
O dano: Massas abdominais devem ser examinadas com delicadeza. Ruptura tumoral tem consequências para o tratamento, mas as fontes citadas não estabelecem um número máximo de palpações. A recomendação de evitar manipulação desnecessária não autoriza deixar de reavaliar dor, distensão ou sinais de complicação.
Como pegar a tempo: Faça exame delicado, orientado por uma pergunta clínica, e registre localização, limites, consistência, dor e medidas. Compartilhe o registro para evitar repetições sem finalidade. Uma nova avaliação pelo responsável pode ser necessária e deve manter a mesma cautela; a família não precisa tentar localizar ou medir a massa em casa.
O dano: Os documentos federais admitem confirmar a massa por ultrassonografia antes de encaminhar só quando o exame sai em tempo hábil, com profissional habituado a criança — uma semana no texto, 72 horas no fluxograma do INCA. Pela fila ambulatorial comum, o tempo hábil vira 45 dias, e a regra que existia para agilizar vira o atraso.
Como pegar a tempo: Pergunte no dia se o laudo sai em até 72 horas. Se sai, peça. Se não sai, não peça pela fila: encaminhe no mesmo dia à onco-hematologia pediátrica pela regulação, e a imagem é feita onde a criança for recebida.
O dano: A leucocoria do retinoblastoma pode aparecer só em algumas posições do olhar ou só na foto com flash, pela página do INCA, e a média de idade ao diagnóstico é de 2 anos — muito depois do teste da maternidade. O manual do INCA registra que, com mais de seis meses entre o primeiro sinal e o especialista, o risco de tumor extraocular é nove vezes maior, com tratamentos mais mutilantes.
Como pegar a tempo: Foto com reflexo branco é achado: examine o reflexo vermelho nos dois olhos no mesmo dia, em sala escurecida. Mesmo com o reflexo normal na sua sala, a foto sustenta o encaminhamento à oferta de oncologia oftalmológica, com o prazo de uma semana escrito no pedido.
O dano: O manual do INCA adverte que prednisona ou dexametasona por mais de 48 a 72 horas pode impedir o diagnóstico de linfoma, porque regride o gânglio, a massa e a infiltração da medula que a biópsia e o mielograma precisam ler; a Sociedade Brasileira de Pediatria acrescenta que o corticoide mascara o quadro e pode piorar o prognóstico. A criança melhora, some da unidade e volta com a doença intacta e o diagnóstico mais difícil.
Como pegar a tempo: Evite iniciar corticoide sistêmico como tentativa de tratar gânglio, dor óssea ou tosse inexplicada quando existe suspeita de neoplasia. Registre uso anterior e discuta com o responsável e a oncologia. Uma emergência compressiva exige decisão especializada imediata; outra doença com indicação de corticoide deve ser avaliada individualmente. Não suspenda automaticamente tratamento inalatório de asma confirmada apenas pela regra geral deste capítulo.
O dano: A equimose periorbitária bilateral é o sinal do guaxinim do neuroblastoma metastático, por infiltração dos ossos da órbita, e também pode ser sinal de violência. Quem só pensa em queda ou em agressão deixa de examinar o abdome, o fígado, a pele e o hemograma de uma criança com câncer; quem só pensa em tumor deixa de proteger uma criança agredida.
Como pegar a tempo: Examine a criança inteira e peça hemograma no mesmo atendimento. Proptose, palidez, irritabilidade, dor óssea, massa abdominal ou fígado grande colocam o neuroblastoma no caminho urgente; a suspeita de violência, se existir, segue o seu próprio caminho de identificação e notificação, em Violência e maus-tratos infantis: identificação e notificação compulsória (ECA), sem que um espere pelo outro.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa da suspeita sem certeza tem uma dificuldade própria: o médico precisa convencer a família da urgência sem dar um diagnóstico que ainda não existe, e a família precisa sair com medo suficiente para cumprir o combinado e sem medo tanto que a paralise. As falas abaixo são com Josiane, na sala, e com o pai de Lavínia, por telefone, e cada uma tem ao lado o que costuma ser dito no lugar — e por que não serve. Com o adolescente, como Ítalo no caso para completar, a conversa é com ele também, e não só com quem o acompanha.
A mãe pergunta antes de você dizer qualquer coisa: "É do intestino, né?"
“"Não parece do intestino. Ela voltou a fazer cocô e a barriga continuou com uma coisa firme do lado esquerdo, e isso eu não posso deixar para ver no mês que vem. Pode ser várias coisas. A maioria delas não é grave, mas uma parte pequena é tumor, e é exatamente essa parte que eu não quero atrasar. Então hoje eu vou fazer três coisas: medir a pressão com o aparelho do tamanho dela, olhar a urina e pedir que ela seja vista num serviço especializado nos próximos dias."”
Não diga: "Deve ser gases, vamos esperar o ultrassom." Tranquiliza agora e cobra depois. E o oposto, "isso é um tumor", afirma o que nenhum exame mostrou e tira da família a chance de ouvir a explicação inteira.
Ela pergunta direto: "É câncer?"
“"Hoje ninguém consegue te responder isso com certeza, e eu não vou chutar. O que eu posso te dizer é o que eu vi e o que vamos fazer: tem uma massa na barriga, a pressão dela está alta para a idade e tem um pouco de sangue na urina. Esse conjunto precisa de um exame de imagem e de uma equipe que sabe investigar isso em criança. Se for tumor, é lá que começa o tratamento. Se não for, é lá também que vão te dizer isso primeiro."”
Não diga: "Não pense nisso agora." A mãe já pensou, e a frase só avisa que o assunto é proibido. Também não sirva estatística de câncer infantil em geral para uma pergunta sobre a filha.
Ela conta, com culpa: "A vizinha e a enfermeira apertaram também. Fez mal?"
“"Vocês fizeram o que qualquer pessoa faria para entender o que estava acontecendo. A partir de agora a combinação muda: ninguém aperta a barriga dela — nem em casa, nem na creche, nem outro médico sem motivo. Algumas massas dessa região são frágeis, e quanto menos mexer, melhor. O que eu senti ficou desenhado aqui, e quem precisar saber vai olhar a imagem."”
Não diga: "Não podia ter apertado." A culpa não muda nada do que já foi feito, fecha a mãe para o resto da conversa e não ensina a regra que vale daqui para a frente.
"Não dá para esperar o ultrassom do posto? Eu já faltei no trabalho semana passada."
“"O ultrassom pela fila do posto demora 45 dias, e esse tempo é grande demais para o que eu estou vendo. Por isso ele não vai ser feito aqui: ela vai direto para o serviço que faz o exame e já sabe o que fazer com o resultado. Eu te dou a declaração de que você esteve aqui com ela hoje, e a nossa equipe vai te ligar para confirmar o dia e o transporte. Se você não conseguir ir, me avisa antes, e a gente resolve junto — não deixa de ir sem avisar."”
Não diga: "Então vê o que dá para fazer e volta quando tiver o ultrassom." Transfere para a mãe, que tem patrão e ônibus, a decisão de quanto tempo a filha pode esperar.
O pai liga à tarde, irritado: "Por que mandaram minha filha para o hospital do câncer? Ninguém disse que ela tem câncer."
“"O senhor tem razão: ninguém disse, porque ainda não sabemos. Ela vai para esse serviço porque é lá que se investiga uma massa na barriga de criança do jeito certo e mais rápido, com os exames e as pessoas que entendem disso. Ir para lá não é o diagnóstico: é o caminho mais curto até ele. Se ficar provado que não é nada disso, melhor ainda — e vocês vão saber em dias, e não em meses."”
Não diga: "É só para garantir, não se preocupe." Minimiza para encerrar a ligação e deixa o pai sem motivo para garantir que a filha chegue. E não entre em disputa sobre o nome do hospital: responda à pergunta que está por baixo, que é medo.
Josiane pergunta, já na porta: "Se for, tem cura?"
“"Muitos tumores de criança têm tratamento com boa chance de cura, e o que mais pesa nisso é encontrar cedo — é por isso que estamos correndo hoje. Eu não vou te dar um número agora, porque o número depende do que for, e quem vai poder te falar com segurança é a equipe que vai examinar a Lavínia. O que depende de nós hoje é o tempo, e esse a gente não vai perder."”
Não diga: "Tem noventa por cento de cura." Um número dito antes do diagnóstico vira promessa, e a família vai cobrá-lo de quem não o fez. "Não sei", solto, também não serve: diga o que se sabe e quem vai responder o resto.
"E o que eu faço agora, em casa?"
“"Três coisas. Se ela sentir dor, dá 1 mililitro do paracetamol na seringa, e no máximo quatro vezes no dia; nada de anti-inflamatório nem de corticoide sem o hospital mandar. Ninguém aperta a barriga. E, se ela tiver dor forte de repente, ficar pálida ou molinha, a barriga crescer de um dia para o outro, vomitar muito ou a urina sair com sangue vivo, você não espera a consulta: vai direto ao pronto-socorro e leva este papel. Guarda a caderneta junto com ele."”
Não diga: Uma lista de dez sinais lida às pressas na porta. Poucos sinais, ditos com as palavras da família, escritos no papel que ela leva — e a certeza de que ela sabe o que fazer com cada um.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Confirmar por ultrassonografia em tempo hábil antes de encaminhar — Ministério da Saúde (2017, item 5.4) e INCA (2014)
O protocolo federal de 2017 e o manual do INCA de 2014 admitem que, onde a ultrassonografia sai em tempo hábil e é feita por profissional habituado a criança, a suspeita seja confirmada antes do encaminhamento ao serviço de onco-hematologia pediátrica, na criança com queixa abdominal e dor crônica recorrente, massa suspeita, sintomas constitucionais, hematúria, hipertensão, virilização, Cushing, alteração esfincteriana ou aumento testicular. O tempo hábil é de até uma semana no texto dos dois documentos e de 72 horas no fluxograma do INCA. Crescimento rápido com massa e suspeita de compressão medular encaminham imediatamente.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo de diagnóstico precoce para oncologia pediátrica, 2017, item 5.4; INCA; Instituto Ronald McDonald. Diagnóstico precoce do câncer na criança e no adolescente, 2. ed., 2014, capítulo 5 e Figura 5.
Encaminhar sem condicionar à imagem — Quadro 1 do Ministério da Saúde (2017) e NICE NG12 (recomendações de 2015 mantidas na edição de 2026)
O Quadro 1 do mesmo protocolo federal, creditado ao manual AIEPI, classifica toda massa palpável no abdome como risco de câncer ou doença grave, com encaminhamento urgente a serviço especializado, sem mencionar exame prévio. A diretriz britânica recomenda considerar encaminhamento muito urgente, com consulta em até 48 horas, para avaliação especializada de neuroblastoma e de tumor de Wilms na criança com massa abdominal palpável ou órgão abdominal aumentado sem explicação — e de Wilms também diante de hematúria macroscópica sem explicação —, sem condicionar a imagem.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo de diagnóstico precoce para oncologia pediátrica, 2017, Quadro 1; National Institute for Health and Care Excellence. Suspected cancer: recognition and referral (NG12), recomendações 1.12.1 e 1.12.3 (2015), edição de 15 abr. 2026.
Pela régua, primeiro o escopo: o item 5.4 do protocolo federal e o capítulo de massas abdominais do INCA foram escritos para a criança com massa abdominal, enquanto o Quadro 1 é uma classificação geral de sinais e a diretriz britânica é de outro sistema de saúde — o escopo favorece o caminho da ultrassonografia prévia. Depois, a coerência interna, porque esse caminho tem dois prazos no mesmo manual do INCA, uma semana no texto e 72 horas no fluxograma, e o Quadro 1 chama a mesma massa de urgente: só 72 horas cumprem ao mesmo tempo o texto, o fluxograma e a urgência do quadro. Esta apostila adota o caminho brasileiro com o prazo do fluxograma. A ultrassonografia vem antes só se o laudo sair em até 72 horas, feita por profissional habituado a criança; sem essa garantia no dia da consulta, a criança é encaminhada no mesmo dia sem o exame. Crescimento rápido, dor súbita com palidez, sinal de compressão medular ou hipertensão com sintoma pulam o exame e vão à urgência. A diretriz britânica fica como referência de ordem de grandeza: em nenhum dos dois sistemas a massa abdominal da criança espera semanas.
Avaliação onco-oftalmológica idealmente em até uma semana da suspeita — INCA (2014)
O manual do INCA manda a criança com leucocoria, estrabismo, irritação ocular, alteração da visão, proptose, cefaleia com vômitos ou dor óssea generalizada a serviço de oncologia e oftalmologia pediátrica, onde faz exame sob sedação e imagem de crânio e órbitas, e diz que o ideal é a avaliação onco-oftalmológica em até uma semana após a suspeita clínica. O mesmo manual registra que mais de seis meses entre o primeiro sinal e o especialista multiplicam por nove o risco de tumor extraocular.
INCA; Instituto Ronald McDonald. Diagnóstico precoce do câncer na criança e no adolescente, 2. ed., 2014, capítulo 5, tumores oculares.
Diagnóstico ou exclusão em até 28 dias pela via de suspeita de câncer — NICE NG12 (2015, mantida em 2026); porta regulada sem prazo em dias — protocolo federal de oftalmologia (2025)
A diretriz britânica recomenda encaminhar a criança com reflexo vermelho ausente pela via de suspeita de câncer, cujo padrão é diagnosticar ou excluir o câncer em até 28 dias do encaminhamento. No Brasil, o protocolo federal de encaminhamento às ofertas de cuidado integrado em oftalmologia, de 2025, põe a leucocoria entre os critérios da oferta de oncologia oftalmológica e o teste do olhinho alterado como prioridade alta da avaliação inicial de 0 a 8 anos, sem fixar prazo em dias. O capítulo Triagens neonatais: teste do pezinho, orelhinha, olhinho, coraçãozinho e linguinha trabalha com 30 dias como teto para o reflexo ausente, esbranquiçado ou assimétrico, e avisa que o teto não autoriza esperar, porque a leucocoria pode ser retinoblastoma.
National Institute for Health and Care Excellence. Suspected cancer: recognition and referral (NG12), recomendação 1.12.2 (2015), edição de 15 abr. 2026; Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo de encaminhamento às Ofertas de Cuidados Integrados em Oftalmologia, 2025.
Os lados não disputam a porta: todos mandam a leucocoria ao oftalmologista que cuida de tumor, e o protocolo federal de 2025 dá nome a essa porta na rede. Disputam o relógio, e a régua decide pelo escopo: o manual do INCA foi escrito para a criança com suspeita de câncer — e a leucocoria é, por definição, suspeita de retinoblastoma —, enquanto a oferta federal de oftalmologia serve a todas as idades e a todos os tumores oculares, e a diretriz britânica é de outro sistema. Esta apostila adota a semana do INCA como prazo clínico, escrita no pedido para a oferta de oncologia oftalmológica, com contato direto com o serviço quando a regulação não garantir a data. Os 30 dias continuam valendo para o que não é leucocoria — o reflexo apenas duvidoso ou assimétrico na triagem —, que é outro paciente. E a foto trazida pela família com reflexo branco conta como leucocoria, mesmo que o reflexo pareça normal na sua sala.
O raciocínio, em voz alta
Sábado, 10h15, unidade de pronto atendimento de um bairro de periferia. Rayane Matos chega com Pietro, 1 ano e 4 meses, no colo: "Os dois olhos ficaram roxos e ele não quer mais ficar em pé." Os olhos roxos começaram há cinco dias, sem queda que alguém tenha visto — "ele bate a cabeça em tudo", diz a mãe; a avó, que cuida dele durante o dia, jura que não. Há duas semanas há febre baixa que vai e volta; há dez dias ele chora quando é pego no colo e não firma as pernas, ele que andava sozinho desde 1 ano; come pouco. A enfermeira da classificação de risco vê uma criança pequena com equimose nas duas pálpebras e anota, com razão, que é preciso afastar maus-tratos. No exame, Pietro está pálido, irritado, com 38,1 °C; as equimoses são arroxeadas, bilaterais, em torno das órbitas, e o olho esquerdo parece um pouco mais saliente que o direito; não há outras manchas no corpo, petéquias nem lesões em diferentes fases de cicatrização. O abdome está distendido, com uma massa firme no andar superior, e o fígado é palpado a 4 cm do rebordo costal. Pesa 10,5 kg; na caderneta, eram 11,2 kg há dois meses. A unidade libera um hemograma em uma hora: hemoglobina de 8,4 g/dL, leucócitos de 6.900/mm³ e plaquetas de 98.000/mm³.
Passo 1 — nomear o sinal sem escolher cedo demais
Equimose periorbitária bilateral numa criança de 16 meses tem mais de uma leitura, e o atendimento precisa manter as duas abertas. Uma é a violência, cuja identificação, registro e notificação estão em Violência e maus-tratos infantis: identificação e notificação compulsória (ECA). A outra está na página do INCA e no documento da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2025: o neuroblastoma infiltra os ossos da órbita e produz equimose periorbitária, geralmente bilateral — o sinal do guaxinim —, muitas vezes com proptose. A pergunta deste passo não é qual das duas; é o que mais o corpo mostra.
Passo 2 — ler a criança inteira: o que acompanha os olhos roxos
Pietro não tem só os olhos roxos. Tem febre há duas semanas, irritabilidade, recusa a ficar em pé e dor ao ser pego no colo, palidez, perda de 700 g em dois meses, fígado grande, massa no abdome e um olho mais saliente. A Sociedade Brasileira de Pediatria descreve esse conjunto no neuroblastoma avançado — febre persistente, irritabilidade, dor óssea, anemia, proptose e equimose periorbitária, pelas metástases em medula óssea, ossos e fígado — e registra que 60% das crianças já chegam com doença avançada. A idade também encaixa: a mediana ao diagnóstico é de 19 meses, pela página do INCA.
Passo 3 — o hemograma, pela régua que já existe
Hemoglobina de 8,4 g/dL e plaquetas de 98.000/mm³ são duas séries alteradas, e duas séries alteradas encaminham com urgência a onco-hematologia pediátrica, pela régua de Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce; nenhum dos quatro cortes que mudam o prazo para poucas horas foi atingido. A Sociedade Brasileira de Pediatria lista o neuroblastoma entre os tumores que infiltram a medula e alteram o hemograma. A leucemia continua no diagnóstico diferencial, e quem vai separar uma da outra é o serviço de referência.
Passo 4 — o quadro federal classifica antes de qualquer imagem
Pelo Quadro 1 do protocolo federal, Pietro soma vários itens da faixa de risco de câncer ou doença grave: proptose, massa palpável no abdome, hepatomegalia, dor óssea progressiva e febre por mais de sete dias sem causa aparente. A conduta que o quadro manda é encaminhar urgentemente a serviço especializado em onco-hematologia pediátrica e estabilizar a criança se for preciso. A tomografia de crânio que alguém sugere no plantão para procurar fratura não muda esse destino; se a equipe julgar que ela é necessária, que seja feita no hospital que vai receber a criança, e não como condição para a transferência.
Passo 5 — a suspeita de violência não sai da mesa, e não segura a criança
O exame não mostrou outras lesões, e há sinais sistêmicos que trauma nenhum explica. Isso não autoriza apagar a anotação da classificação de risco; autoriza completá-la com o que foi encontrado. Se ao fim do atendimento persistir suspeita de violência, a identificação e a notificação seguem o capítulo dono, em paralelo à transferência. O que não se faz é manter na unidade uma criança com duas séries alteradas, massa abdominal e proptose enquanto a dúvida sobre os olhos roxos é resolvida.
Passo 6 — o destino, o prazo e o que o serviço vai fazer
Transferência no mesmo dia, pela regulação e com contato médico a médico, para hospital com oncologia pediátrica, com o pedido que declara hipótese diagnóstica principal de neoplasia maligna, lista os itens do quadro federal e registra que não houve corticoide nem punção. No serviço, pela Sociedade Brasileira de Pediatria, virão hemograma, funções renal e hepática, desidrogenase lática, ferritina, catecolaminas urinárias, imagem do abdome, cintilografia com metaiodobenzilguanidina, mielograma e biópsia de medula, confirmação histológica e estudo do NMYC. A mãe precisa ouvir hoje que o exame que responde não existe na unidade de pronto atendimento — e que por isso o filho vai agora.
Passo 7 — o que se prescreve no sábado, e o que não
Para a dor e a febre, paracetamol pela seringa: 15 mg/kg para 10,5 kg dá 157,5 mg, arredondados para 0,8 mL da solução oral de 200 mg/mL, ou 160 mg, de 6 em 6 horas se necessário, sem passar de 4 doses nem do teto de 75 mg/kg por dia, 787,5 mg. Corticoide não, porque, se a doença for linfoide, ele pode apagar o diagnóstico. Punção de nada. E anti-inflamatório fica fora numa criança com 98.000 plaquetas e investigação a caminho — escolha desta apostila, que prefere o analgésico que não mexe na agregação plaquetária. A mãe sai sabendo para onde o filho vai, por que vai hoje e que a pergunta sobre os olhos roxos será respondida lá.
Faça você
Quarta-feira, 15h, unidade básica. Ítalo Barros, 14 anos, vem com o pai, Cleber, por um caroço no pescoço que apareceu há dois meses. Recebeu amoxicilina por dez dias numa unidade de pronto atendimento e, sem melhora, amoxicilina com clavulanato por mais dez dias; o caroço não diminuiu, e há três semanas surgiu outro acima da clavícula esquerda. Quando o pai sai da sala para atender o telefone, Ítalo conta que acorda com a camiseta molhada quase toda noite e que as calças ficaram largas: a balança da unidade marca 47 kg, e o atestado da escola, de julho, registrava 52 kg. Há três semanas tem tosse seca, pior quando deita, e na semana passada a unidade de pronto atendimento prescreveu bombinha e prednisolona por cinco dias para asma; o pai comprou o corticoide, e Ítalo tomou a primeira dose ontem à noite. No exame, está afebril, com saturação de 97% em ar ambiente e 20 incursões respiratórias por minuto, prefere ficar sentado, sem estridor, sem turgência jugular e sem edema de face. Há um conglomerado de linfonodos cervicais laterais à esquerda com 3,5 cm, firmes, borrachoides e indolores, e um linfonodo supraclavicular esquerdo de 2 cm, duro e aderido. Fígado e baço não são palpáveis; não há petéquias. A unidade não tem radiografia, e o hospital geral do município fica a 20 minutos.
Passo 1 — quantas características de adenomegalia suspeita ele tem pela lista federal, e o que elas dizem juntas?
Confira a lista dos dois documentos federais item por item contra a história e o exame de Ítalo, calcule a perda de peso em porcentagem e diga qual linfoma a idade e o tipo de gânglio descrevem.
Passo 2 — o que fazer com a prednisolona que já começou?
Leve em conta o que o manual do INCA diz sobre corticoide e diagnóstico de linfoma, o que já foi tomado e o que o serviço precisa saber.
Passo 3 — há emergência agora? Que sinal mudaria o prazo para horas?
Olhe a tosse que piora ao deitar, a preferência por ficar sentado, a saturação e o que os documentos federais dizem sobre linfadenomegalia com dispneia, e diga a quem pertence o manejo se o quadro piorar.
Passo 4 — o que se pede, onde, e o que não se pede
Decida o exame de imagem e o de sangue, o destino e o prazo, o que o pedido precisa declarar, quem escolhe a biópsia e de que tipo, e o que não se faz na unidade.
Passo 5 — a conversa, com o pai e com Ítalo
Decida o que dizer ao pai sobre a suspeita e sobre o corticoide interrompido, como tratar o que Ítalo contou quando o pai saiu e que sinais ele leva para voltar antes da consulta.
Ver como fecharíamos
Passo 1: pela lista do protocolo federal e do manual do INCA, Ítalo tem pelo menos cinco características de adenomegalia suspeita — perda de peso e sudorese noturna; persistência depois de tratamento antimicrobiano adequado, duas vezes; aumento progressivo, com gânglio novo, depois de semanas de observação; localização supraclavicular; e linfonodo duro, indolor e aderido. A perda é de 5 kg sobre 52 kg, ou 9,6%, em cerca de dois meses. Juntas, na idade dele e com o conglomerado cervical lateral borrachoide e indolor, descrevem o linfoma de Hodgkin como a Sociedade Brasileira de Pediatria o apresenta; a tosse seca que piora ao deitar sugere doença no mediastino, presente em dois terços dos casos. A régua de tamanho do linfonodo nem precisa ser aberta — as características bastam —, e ela está em Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce. Passo 2: suspender a prednisolona hoje, por escrito, e registrar no pedido que ele tomou uma dose na noite anterior. O manual do INCA adverte que corticoide por mais de 48 a 72 horas pode impedir o diagnóstico de linfoma, porque regride gânglio e massa; não há uma janela garantida de ausência de interferência, e o serviço precisa saber o que foi tomado e quando. Identifique a bombinha e sua indicação. A decisão de manter ou suspender tratamento inalatório é individualizada pelo responsável; ela não decorre automaticamente do alerta sobre corticoide sistêmico empírico. O que não se faz é continuar tratando como asma uma tosse que ninguém estudou. Passo 3: saturação de 97% e ausência de estridor não excluem risco por massa mediastinal. A avaliação hospitalar é no mesmo dia, com atenção à posição de conforto e possibilidade de deterioração. Há sinal de alerta: tosse que piora deitado e preferência por ficar sentado num adolescente com gânglio suspeito. Os dois documentos federais tratam a linfadenomegalia com dispneia como risco iminente de morte, com encaminhamento em poucas horas, porque a massa mediastinal comprime via aérea e veia cava superior. Falta de ar, estridor, inchaço de face ou pescoço ou incapacidade de deitar mudam o prazo para horas; nesse cenário, o reconhecimento da emergência na criança e no adolescente é de Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, e a proibição de deitar, sedar ou anestesiar quem só respira sentado é de Massas de mediastino (diagnóstico diferencial por compartimento). Passo 4: radiografia de tórax hoje, no hospital geral, sem que ela atrase o encaminhamento, e hemograma no mesmo pedido. Encaminhamento rápido a onco-hematologia pediátrica: Ítalo tem 14 anos e está dentro da Política Nacional de Atenção à Oncologia Pediátrica, que abrange de 0 a 19 anos e manda os centros habilitados atenderem essa faixa inteira. O pedido declara hipótese diagnóstica principal de neoplasia maligna, com os achados que a fundamentam, o que invoca o prazo de 30 dias para os exames de elucidação da Lei nº 12.732. A biópsia é da equipe especializada: pela Sociedade Brasileira de Pediatria, biópsia excisional com imuno-histoquímica no linfoma de Hodgkin; se a imagem mostrar massa mediastinal volumosa e a anestesia não for segura, a equipe escolhe outra via, como derrame pleural, medula ou aspirado de linfonodo. Na unidade, não se faz punção aspirativa do gânglio, não se inicia terceiro antibiótico e não se exige sorologia como condição para encaminhar. Passo 5: com o pai, a conversa da suspeita sem certeza — há um conjunto de sinais que precisa ser investigado já, num serviço que sabe fazer isso, e o corticoide para asma foi interrompido de propósito, para não atrapalhar o exame que responde. Com Ítalo, a conversa é também com ele: tem 14 anos e contou a sudorese e a perda de peso quando o pai saiu. Vale perguntar o que ele prefere que seja dito ao pai e explicar por que esses dois dados precisam ir no pedido — são eles que mudam a pressa. Ele sai sabendo o que o faz voltar antes da consulta: falta de ar, não conseguir deitar, inchaço no rosto ou no pescoço.
Equimose periorbitária bilateral com proptose é o sinal do guaxinim do neuroblastoma metastático, por infiltração dos ossos da órbita, pela página do INCA e pelo documento da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2025; febre, irritabilidade, dor óssea, anemia, massa abdominal e fígado grande completam o quadro de doença avançada, que é a apresentação de 60% das crianças, e a idade encaixa na mediana de 19 meses. No serviço, a SBP lista a pesquisa de catecolaminas na urina, a imagem do abdome, a cintilografia com metaiodobenzilguanidina, o mielograma e a biópsia. Duas séries alteradas encaminham com urgência, e a suspeita de violência, se persistir, segue o seu caminho em paralelo.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Diante de uma massa abdominal, de leucocoria, de um gânglio supraclavicular e de dor óssea persistente, descreva primeiro o achado e depois as hipóteses. Para cada entrada, justifique a primeira investigação e o prazo de encaminhamento. Explique por que bom estado geral ou hemograma pouco alterado não encerram a avaliação e como examinar uma massa com delicadeza sem proibir reavaliação necessária.
Em 30 dias
Retome o caso de Ítalo: quais elementos sugerem risco mediastinal apesar da saturação normal? Organize avaliação no mesmo dia, posição de conforto, comunicação com a referência e revisão dos medicamentos já usados. Compare esse percurso com o da criança com leucocoria sem sinais sistêmicos. Em ambos, ensaie como comunicar suspeita, incerteza e próximos passos à família e, quando possível, diretamente à criança ou ao adolescente.
Agora atenda
Agora atenda: Ayla Cardoso, 1 ano e 1 mês, trazida pela mãe, Nicole, à unidade de saúde da família com uma foto de aniversário no celular em que a pupila de um dos olhos da filha brilha branca. Examine o reflexo vermelho no mesmo dia, procure o que mais o quadro federal lista no olho e no corpo, decida a porta e o prazo do encaminhamento, escreva o pedido — e explique à família por que a foto vale como exame e por que o teste do olhinho normal na maternidade não encerra a questão.
