Clínica Médica › Oncologia
Antes do órgão
Sinais de alarme e diagnóstico precoce de neoplasias na APS
O adulto que chega à unidade básica com um sinal que pode ser câncer: por que ele não é caso de rastreamento, os sinais de alarme que não pertencem a órgão nenhum, o primeiro exame de cada um, o pedido que aciona o prazo legal de trinta dias e a conversa que sustenta a espera.
Instituto Nacional de Câncer (INCA). Detecção precoce do câncer. Rio de Janeiro: INCA; 2021. 72 p. ISBN 978-65-88517-22-2 (versão eletrônica)
Brasil. Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012. Dispõe sobre o primeiro tratamento de paciente com neoplasia maligna comprovada e estabelece prazo para seu início. Texto compilado, com as alterações das Leis nº 13.685/2018, nº 13.896/2019 e nº 15.233/2025
National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Suspected cancer: recognition and referral. NICE guideline NG12. Publicado em 23 jun. 2015; última atualização em 15 abr. 2026
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de encaminhamento para Hematologia adulto. Versão digital 2023. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 2023
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de encaminhamento para Cirurgia Geral adulto. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 2020
Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA; 2026. 168 p. ISBN 978-65-88517-52-9 (versão eletrônica)
Instituto Nacional de Câncer (INCA). Parâmetros de programação para o diagnóstico precoce do câncer de próstata: nota técnica. Rio de Janeiro: INCA; 2025
NICE NG12. Suspected cancer: recognition and referral. https://www.nice.org.uk/guidance/ng12/chapter/recommendations-organised-by-site-of-cancer
Responda antes de ler
Mulher de 47 anos, sem queixas, pede todos os exames de sangue que detectam câncer, porque uma amiga morreu recentemente de câncer de ovário. Não há casos de câncer na família. O rastreamento do colo do útero e da mama está em dia e o exame físico é normal. Qual conduta é a mais adequada?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, 4 de agosto, 7h50, unidade básica de saúde num bairro erguido ao lado de uma garagem de ônibus. A fila da recepção já dobrou a esquina da farmácia. Na sua agenda de interno há três nomes antes das nove, cada um com o motivo que a recepção copiou do jeito que ouviu: "exames de câncer", "renovar receita da pressão" e "hemorroida". A preceptora atende no consultório ao lado e avisou ontem que hoje você conduz; ela entra se for chamada. A unidade pede exames de sangue, urina e radiografia de tórax pela central do município. Ultrassom, tomografia, endoscopia e colonoscopia passam pela regulação, e é lá que se decide quem entra na frente.
Saulina Henriques, 49 anos, merendeira, entra primeiro, com uma folha de caderno dobrada em quatro. A vizinha de muro morreu em junho de um câncer "que ninguém viu", e ela quer "os exames de sangue que mostram câncer, todos, para ficar tranquila". Não tem queixa. Não emagreceu, não sangra, não palpou caroço, não sente nada que não sentisse há um ano. O preventivo e a mamografia, diz, estão em dia, e o cartão confirma as datas. Ela está com medo, e o medo é legítimo. O que ela pede é que não serve para o que ela teme.
Rufino Teixeira, 64 anos, motorista de ônibus aposentado, veio pela receita da pressão. Senta, estende o cartão e comenta, rindo, que o cinto já está no último furo. Fumou um maço por dia durante trinta e cinco anos e parou há oito. No prontuário, a última pesagem é de 10 de fevereiro, numa consulta de hipertensão: 81 kg. A balança do corredor marcou 74 kg às 7h40. Ele não fez dieta. Come menos, "enjoa da comida", e se cansa na subida da rua de casa, que antes subia conversando. Nas consultas de março e de maio, com outros profissionais, a queixa de cansaço foi anotada duas vezes, uma como "cansaço, orientado repouso" e outra como "inapetência, sem alterações". Nenhuma das duas registra peso.
Cândido Bretas, 57 anos, pedreiro, é o terceiro. Sangra ao evacuar há três meses, sangue vivo, no papel e às vezes no vaso. Em maio, numa unidade de pronto atendimento, disseram que era hemorroida e deram uma pomada; melhorou alguns dias. O intestino, que funcionava todo dia no mesmo horário, agora alterna dias presos e dias soltos, e ele sente que não esvaziou quando sai do banheiro. Veio buscar outra pomada, porque a primeira acabou.
Três pessoas, três pedidos e uma palavra que só uma delas disse em voz alta. Saulina fala de câncer o tempo inteiro e é, das três, a que tem menos motivo clínico para um exame hoje. Rufino e Cândido não pronunciam a palavra, e cada um carrega um sinal que, na idade deles, obriga a investigar agora: um adulto de 64 anos que perdeu 7 kg em menos de seis meses sem tentar, e um homem de 57 anos com sangramento retal que mudou o próprio intestino.
A diferença entre os três não é de gravidade aparente, porque os três estão de pé, conversando e sem dor. É de estratégia. Para Saulina, a pergunta é de rastreamento: o que se oferece a uma mulher sem sinal nem sintoma, e o que se deixa de oferecer porque faz mais mal do que bem. Para Rufino e Cândido, a pergunta é de diagnóstico precoce, a outra metade da detecção precoce do câncer, a que começa num sinal. Parece diferença de nome. Ela decide qual exame se pede, em que fila ele entra, que prazo a lei dá e o que precisa estar escrito no papel para esse prazo valer.
O caso de Cândido tem dono, e você vai mandá-lo para lá com o pedido certo: sangramento retal e mudança do hábito intestinal são assunto do capítulo de câncer colorretal. O de Rufino não tem órgão. Ninguém sabe ainda de onde vem a perda de peso dele, e é justamente por isso que ela costuma ficar sem dono entre uma consulta e outra, a cada vez com um rótulo diferente. A preceptora bate na porta às 7h58 com duas perguntas: quem sai hoje com pedido de exame, e o que precisa estar escrito nesse pedido para que ele não durma três meses na mesma pilha das mamografias de rotina.
Quem adoece disso
Para cada ano entre 2026 e 2028, a Estimativa 2026 do INCA calcula cerca de 781 mil casos novos de câncer no Brasil, e 518 mil quando se exclui a pele não melanoma, que é o mais frequente nos dois sexos e é contado à parte por ser muito incidente e pouco letal. No homem, os cinco mais incidentes são próstata (30,5%), cólon e reto (10,3%), pulmão (7,3%), estômago (5,4%) e cavidade oral (4,8%). Na mulher, mama (30,0%), cólon e reto (10,5%), colo do útero (7,4%), pulmão (6,4%) e tireoide (5,1%). O mesmo documento registra que o câncer se aproxima das doenças cardiovasculares como principal causa de morte no país.
Traduza esse número para o território. A taxa bruta nacional sem pele não melanoma é de 241,71 casos novos por 100 mil habitantes por ano, ou 2,4 por mil. Uma equipe que acompanha 3.000 pessoas vê surgir, em média, sete cânceres novos por ano. A conta muda com a idade da população adscrita, mas dá a ordem de grandeza: poucos casos, espalhados entre milhares de consultas por cansaço, dor nas costas, falta de apetite e intestino preso. O câncer na atenção primária quase nunca chega com cara de câncer. Chega misturado ao resto da agenda, e a tarefa do médico é separá-lo sem transformar a agenda inteira em suspeita.
O rastreamento, que procura a doença em quem não tem sintoma, cobre uma parte pequena desse volume. O livro do INCA de 2021 sobre detecção precoce registra benefício documentado do rastreamento para um número limitado de cânceres, com colo do útero e mama como exemplos, e evidência de danos e custos significativos quando o teste é aplicado a toda uma população. Dos cinco mais incidentes no homem, a próstata não tem rastreamento recomendado pelo Ministério da Saúde, posição que o INCA repetiu em nota técnica de 2025. Para o pulmão, o livro de 2021 registrava que não havia diretriz nacional de rastreamento. A cavidade oral aparece no mesmo livro como alvo de diagnóstico precoce: inspeção da boca e reconhecimento da lesão suspeita. Para boa parte dos cânceres que o interno vai encontrar, a porta de entrada é um sinal, e não um exame de rotina.
O problema, então, é de probabilidade. Um sintoma isolado, como cansaço ou perda de apetite, tem na atenção primária valor preditivo positivo baixo para câncer, porque a doença é rara entre as muitas pessoas que se queixam dele. A diretriz inglesa da NICE sobre suspeita de câncer foi construída sobre um limiar explícito: quando a probabilidade de que um sintoma, ou uma combinação de sintomas, seja câncer chega a 3%, cabe exame urgente de acesso direto ou encaminhamento por suspeita. O número é pequeno por escolha. O comitê considerou que, para melhorar o diagnóstico, era preferível um limiar abaixo dos 5% que a edição anterior praticava. No limiar, 97 de cada 100 pessoas encaminhadas não têm câncer, e dizer isso ao paciente faz parte da conduta.
A idade é o modificador mais forte dessa conta. Na revisão de abril de 2026, a NICE encontrou valor preditivo positivo de 3% ou mais para a perda de peso inexplicada só em pessoas com 60 anos ou mais que perderam mais de 5% do peso em seis meses, e reescreveu a recomendação com essas duas condições. O próprio comitê reconheceu que a regra não se aplica dos 18 aos 59 anos e apoiou essa faixa na rede de segurança, a reavaliação planejada de quem tem sintoma associado a risco aumentado sem preencher critério de encaminhamento. Rufino, com 64 anos e 8,6% de perda em menos de seis meses, está acima dos dois cortes. A régua inglesa, porém, decide o acesso a vias de encaminhamento que o SUS não tem, e o bloco de divergências trata do que isso muda para o paciente brasileiro abaixo dos 60.
O atraso tem nomes conhecidos. O livro do INCA lista as barreiras do diagnóstico precoce: a população que não reconhece as manifestações da doença, o estigma do câncer como incurável, que afasta a pessoa do serviço, a formação insuficiente ou desatualizada dos profissionais e a dificuldade de acesso à avaliação, aos exames e ao tratamento. Das quatro, uma pertence ao interno, e ela tem forma precisa: o sintoma volta, e a cada volta recebe um rótulo que encerra a consulta sem encerrar a dúvida. Desde 2019, a Lei nº 12.732 dá trinta dias aos exames de elucidação quando a principal hipótese diagnóstica é neoplasia maligna. O prazo, porém, depende de uma solicitação fundamentada, e ninguém a escreve para um paciente cujo cansaço foi anotado como estresse.
Qual régua o Brasil usa, decisão por decisão? Para distinguir rastreamento de diagnóstico precoce e para os sinais de alerta de sete cânceres, o livro do INCA de 2021, que o próprio INCA voltou a citar como referência numa nota técnica de 2025. Para o prazo dos exames, a Lei nº 12.732, com o parágrafo incluído pela Lei nº 13.896, de 2019. Para os sinais que não pertencem a órgão, o livro do INCA não fixa exame nem limiar. Os números brasileiros disponíveis vêm de protocolos estaduais de regulação, como os do TelessaúdeRS para o linfonodo e para a suspeita de neoplasia hematológica. O único limiar numérico para a perda de peso e o único painel para a dor óssea entre as fontes deste capítulo são os da diretriz inglesa, e cada vez que ela for usada o texto diz que é ela.
Por que acontece o que acontece
Um câncer passa a maior parte da vida sem dar sinal nenhum. Quando dá, raramente é um sinal que aponta para o órgão de origem. É mais comum que ele se anuncie pelo que faz ao corpo: consome, sangra, obstrui, invade um linfonodo, destrói osso. Isso costuma acontecer antes de o tumor crescer o bastante para ser palpado ou visto no lugar onde nasceu. O sinal de alarme transversal é a tradução clínica dessas cinco ações, e entender o mecanismo de cada uma é o que permite perguntar pelo sinal certo e escolher o primeiro exame, em vez de pedir exames de câncer em bloco.
Perder peso sem tentar é uma conta que fecha negativa pelos dois lados. Na entrada, o paciente come menos. Os mediadores inflamatórios liberados pelo tumor e pela resposta do hospedeiro, como interleucinas e fator de necrose tumoral, agem no hipotálamo, tiram o apetite, mudam o paladar e antecipam a saciedade. Os tumores do tubo digestivo somam obstrução, dor ao comer e má absorção. Na saída, o organismo gasta mais: o mesmo ambiente inflamatório eleva o gasto de repouso e desvia o metabolismo para a quebra de músculo e de gordura, que a oferta de comida não reverte. Hipertireoidismo, diabetes descompensado, tuberculose, infecção pelo HIV e depressão fazem contas parecidas, e é por isso que a perda de peso pede investigação, e não um nome. A pergunta sobre o apetite não fecha nada: Rufino come menos, e o enjoo dele precisa de causa.
Tumores de mucosa sangram porque crescem com vasos novos, frágeis e mal sustentados, sob uma superfície que se ulcera. A perda pode ser visível, como sangue vivo nas fezes, urina vermelha sem dor, sangramento vaginal depois da menopausa ou escarro com sangue. Ou pode ser invisível, gota a gota, até esgotar o ferro. No homem adulto e na mulher que já não menstrua não existe perda fisiológica de sangue que explique a deficiência de ferro, e nesses dois grupos a anemia ferropriva é tratada como sangramento oculto até prova em contrário. O câncer também produz anemia sem sangrar. A inflamação crônica eleva a hepcidina, que prende o ferro nos depósitos e o nega à medula, e a medula ocupada por neoplasia hematológica ou por metástase produz menos. A anemia normocítica de um idoso que emagrece também pede explicação antes de qualquer reposição.
Obstruir é a ação dos tumores que crescem dentro de um tubo. No cólon esquerdo e no reto, onde a luz é mais estreita e as fezes já são sólidas, o tumor muda o hábito intestinal: alternância entre prisão de ventre e diarreia, fezes afiladas, sensação de evacuação incompleta, exatamente o que Cândido descreve. No esôfago, o mesmo processo aparece como disfagia para sólidos. Na via biliar e na cabeça do pâncreas, como icterícia sem dor. No brônquio, como tosse que não passa e pneumonia que volta no mesmo lugar. Cada um desses sinais já aponta um órgão, e cada órgão tem capítulo próprio no nível. Em comum, a obstrução costuma indicar um tumor que já ocupa boa parte da luz, e é por isso que ela não se deixa para a consulta seguinte.
O linfonodo é um filtro no caminho da linfa, e cada cadeia recebe a linfa de um território conhecido. A célula tumoral que entra num vaso linfático para no primeiro filtro, cresce ali e substitui a arquitetura do linfonodo. Ele fica duro e costuma não doer, porque cresce devagar e não distende a cápsula de uma vez, como faz a inflamação. Quando o tumor rompe a cápsula, o linfonodo adere aos planos vizinhos e se funde a outros. O linfonodo reacional tende ao contrário: cresce rápido, dói, é elástico, móvel e regride quando a causa passa. Os protocolos do TelessaúdeRS resumem as características de malignidade em quatro palavras: indolor, aderido, endurecido, fusionado. Usam também o mapa de drenagem para dizer onde procurar a origem. A axila drena membro superior, mama e tórax. A virilha, abdome inferior, genitália externa, canal anal e membros inferiores. A fossa supraclavicular, tórax, abdome e pelve. No linfoma, o linfonodo não filtra a doença de ninguém: é o lugar onde ela nasce, muitas vezes em mais de uma cadeia.
O osso dói quando o tumor o destrói ou o distende. As metástases ósseas mais comuns vêm de mama, próstata, pulmão, rim e tireoide. O mieloma múltiplo, que nasce dos plasmócitos da medula, faz o mesmo sem tumor primário em outro lugar: as células ativam os osteoclastos e freiam os osteoblastos, e o resultado são lesões líticas, fraturas com trauma mínimo e cálcio que sai do osso para o sangue. As cadeias leves produzidas em excesso lesam o rim, e a medula ocupada produz menos hemácias. A dor que não melhora com o repouso e acorda a pessoa à noite tem essa marca, diferente da dor mecânica, que piora com carga e alivia deitado. Anemia, hipercalcemia, perda de função renal e fratura patológica são os achados que o protocolo de Hematologia do TelessaúdeRS usa para dizer que o quadro sugere gamopatia monoclonal.
Por que a mesma queixa é alarme num paciente e ruído no outro? Porque o valor preditivo positivo de um achado depende da prevalência da doença em quem o apresenta. O livro do INCA faz essa conta pelo avesso, para o rastreamento: aplicado a quem não tem sintoma, o teste encontra poucos doentes, o valor preditivo positivo cai e os falsos-positivos sobem, e tanto mais quanto menor a prevalência na faixa rastreada. No diagnóstico precoce, a população já chegou filtrada pelo sintoma. Idade, tabagismo, duração e combinação de sinais funcionam como filtros adicionais. É assim que a perda de peso inexplicada cruza o limiar de 3% da NICE aos 60 anos com mais de 5% em seis meses, e que o linfonodo supraclavicular vai para biópsia em qualquer adulto. Um sinal de alarme é isto: uma combinação de achado e contexto em que a probabilidade de câncer ficou alta demais para esperar.
O diagnóstico precoce existe porque o estádio em que o câncer é descoberto muda o tratamento possível. O INCA descreve o efeito como redução do estadiamento: descoberto mais cedo, o tumor é tratado com terapias mais simples e efetivas, em fase potencialmente curável. O mesmo livro faz duas ressalvas. Nem todo câncer é passível de diagnóstico precoce, porque alguns só dão sinal quando já avançaram, e o de pulmão é o exemplo que ele usa. E o ganho depende de a rede entregar a confirmação e o tratamento a tempo. Do lado do consultório, o mecanismo do atraso é previsível. Cada consulta resolve a queixa do dia com a explicação mais comum, o registro não guarda o peso nem a data de início, e três explicações plausíveis somam cinco meses. Esta apostila chama isso de sinal sem dono.

Como se apresenta de verdade
O paciente com câncer inicial não chega dizendo que tem um sinal de alarme. Chega com a roupa larga, com o cansaço que atribui à idade, com o sangue que atribui à hemorroida, com um caroço que já estava lá. Este bloco descreve os sinais que o paciente traz sem nome de órgão e os que já apontam um órgão, mas atravessam a mesma porta, a da unidade básica, e correm o mesmo risco, o de receber um rótulo no lugar de uma investigação.
Antes, a fronteira. Quando o sinal já tem órgão, o órgão tem dono no nível, e este capítulo manda o leitor para lá. Mama, colo do útero, endométrio e ovário ficam com a Ginecologia. Cólon, reto e canal anal, com a Coloproctologia. Próstata, bexiga e testículo, com a Urologia. Nódulo e câncer de pulmão, com a Cirurgia Torácica. Esôfago, estômago, pâncreas e fígado, com a Cirurgia do Aparelho Digestivo. Pele, com a Dermatologia. Boca, tireoide e pescoço, com a Cirurgia de Cabeça e Pescoço. A criança, com Sinais de alerta para câncer infantil na atenção primária e tumores sólidos (neuroblastoma, tumor de Wilms e retinoblastoma), na apostila de Oncologia Pediátrica. Este capítulo assume o sinal antes de ter órgão, o primeiro exame que decide para onde ele vai e o que se faz na unidade até ele chegar lá.
Percurso de aprendizagem
Diferencie rastreamento de investigação de sintomas. Perda de peso, massa, linfonodo, sangramento e dor persistente precisam de história, exame e hipótese orientadora, incluindo causas não neoplásicas.
Escolha exames que respondam à hipótese e mantenha acompanhamento dos resultados e da evolução. Urgência clínica define a velocidade; prazos de acesso e cartas de referência ajudam a executar o cuidado, sem substituir essa decisão.
Use os casos para explicar decisões e consequências. As doses e os horários da narrativa são exemplos contextualizados; confirme sua adequação ao paciente e ao protocolo assistencial. Consulte as divergências e regras de acesso quando elas mudarem uma decisão concreta.
A perda de peso que ninguém pesou
A perda de peso raramente chega como queixa. Chega como detalhe: o cinto no último furo, a aliança que roda no dedo, a dentadura que ficou folgada, a filha que comentou. Três perguntas a transformam em sinal. Foi sem querer, ou houve dieta, exercício, mudança de trabalho? Quanto, e em quanto tempo? E continua perdendo? A última se responde pesando de novo em duas ou três semanas, e por isso o peso de hoje precisa ficar escrito no prontuário, com a balança usada.
O número que decide é a porcentagem, e não os quilos. Divida a diferença pelo peso anterior e multiplique por cem: Rufino perdeu 7 kg sobre 81 kg, ou 8,6%, entre fevereiro e agosto. O peso anterior pode vir do prontuário, de outro serviço, de um exame admissional ou do relato da pessoa, que vale menos, mas vale. A NICE usa mais de 5% em seis meses como um dos cortes da recomendação de 2026 para quem tem 60 anos ou mais. Nenhuma das fontes brasileiras deste capítulo dá número; o livro do INCA lista a perda de peso sem explicação entre os sinais de alerta do câncer colorretal, do colo do útero e do pulmão, e os protocolos do TelessaúdeRS a tratam como sinal de alarme em mais de uma especialidade.
Depois do número, o acompanhante. Perda de peso sozinha aponta muitos cânceres ao mesmo tempo, e o que estreita o caminho é o que vem junto. A tabela de sintomas da NICE mostra isso linha por linha: com tosse, falta de ar, dor torácica ou história de tabagismo a partir dos 40 anos, o primeiro exame é a radiografia de tórax. Com dor no andar superior do abdome, refluxo ou dispepsia a partir dos 55, a suspeita é de esôfago ou estômago. Aos 60 ou mais, com diarreia, dor lombar, dor abdominal, náusea, vômito, constipação ou diabetes de início recente, o alvo é o pâncreas. Com linfonodo ou baço aumentado, é linfoma. Pergunte também por febre e suor noturno, por mudança do intestino e da urina, por disfagia, por sangramento e por dor óssea. E pergunte pelo que não é câncer e emagrece do mesmo jeito: sede e urina em excesso, tremor e palpitação, tosse com febre à tarde, exposição de risco ao HIV, tristeza e perda de interesse.
A fronteira com a Medicina de Família e Comunidade precisa ser dita com as mesmas palavras dos dois lados. O capítulo Metade não vira nome é dono da queixa indiferenciada, do tempo como instrumento diagnóstico e da decisão de que a perda de peso não intencional sai da conduta de tempo. Este capítulo assume o que vem depois dessa saída: a investigação da perda de peso como possível câncer, o primeiro exame e o encaminhamento.
Sangue onde não deveria haver, e a anemia que é sangue perdido
Sangramento visível num lugar onde ele não deveria acontecer é sinal até que alguém o explique com exame, e não com suposição. Cada lugar tem dono, e a regra transversal é uma só: o sangramento nunca sai da consulta com um nome que ninguém verificou. A urina vermelha sem dor é do capítulo Vermelha, e não doeu, na apostila de Urologia. O sangramento vaginal depois da menopausa, do capítulo Sangramento depois da menopausa, na Ginecologia. O sangue nas fezes com mudança do hábito intestinal, do capítulo Câncer colorretal, na Coloproctologia, e o sangramento baixo volumoso, do capítulo Hemorragia digestiva baixa. A lesão de boca que sangra ou não cicatriza, do capítulo Ninguém olha a boca, e a lesão de pele que sangra, dos capítulos de Dermatologia.
A hemoptise merece uma linha à parte, porque o primeiro passo dela cabe à unidade. O livro do INCA a coloca, junto com tosse ou rouquidão que persistem por mais de duas a três semanas, dor torácica, falta de ar, cansaço com perda de peso e pneumonias de repetição, na lista de sinais de câncer de pulmão que devem ser investigados, e a lista vem declaradamente da NICE e do serviço inglês de saúde. A radiografia de tórax é o primeiro exame, e o que se faz com uma imagem suspeita é dos capítulos O achado que ninguém foi procurar e A mesma sombra, no mesmo lugar, na Cirurgia Torácica.
A anemia é o sangramento que não se vê. A regra do homem adulto e da mulher na pós-menopausa com anemia ferropriva, os cortes laboratoriais que a confirmam e a indicação de endoscopia digestiva alta e colonoscopia na mesma consulta estão no capítulo Anemia ferropriva, da apostila de Hematologia e Hemoterapia, que é o dono dessa regra. O que este capítulo acrescenta é o lugar da anemia na lista dos sinais transversais e o erro que ela produz na unidade: repor ferro, ver a hemoglobina subir e dar o caso por resolvido, com a causa ainda sangrando.
Há ainda o sangramento que vem da medula, e não de um tumor sólido: gengiva que sangra, manchas roxas sem trauma e petéquias, junto com palidez, febre ou infecções que se repetem. O protocolo de Hematologia do TelessaúdeRS chama esse conjunto de manifestação suspeita de neoplasia hematológica quando ele aparece com duas ou três linhagens baixas no hemograma. Esse paciente não entra em fila de ambulatório, e os cortes que o mandam para a urgência estão na investigação.
O linfonodo que fica
Linfonodo palpável é achado comum, e quase sempre benigno. O que o torna sinal de alarme é uma combinação que se descreve com as mesmas palavras em toda consulta: onde está, quanto mede em centímetros, se é duro ou elástico, se é móvel ou aderido, se dói, desde quando está ali e se está só numa cadeia ou em várias. O protocolo de Hematologia do TelessaúdeRS chama de generalizada a linfonodomegalia em duas ou mais cadeias não contíguas. Sem essas medidas escritas, a consulta seguinte não consegue dizer se ele cresceu, e crescer é metade da resposta.
Examine sempre o território de drenagem, porque o linfonodo costuma apontar para lá. Na axila, a mama, a pele do braço e do tronco, uma prótese mamária, uma arranhadura de gato, uma vacina recente no mesmo braço. Na virilha, as feridas do pé e da perna, a genitália, o canal anal, uma infecção sexualmente transmissível. O protocolo lista a vacinação recente contra COVID-19, difteria e tétano, BCG, tríplice viral e raiva entre as causas reacionais, e essa pergunta poupa uma biópsia. Pergunte pelos sintomas B, febre, sudorese noturna e perda de peso sem intenção, porque eles mudam o destino do encaminhamento.
Três achados, pelo mesmo protocolo, mandam o linfonodo para biópsia. Dois deles não esperam nada: a localização supraclavicular e as características de malignidade. O terceiro é o tempo: linfonodo de 2 cm ou mais que persiste depois de quatro semanas sem causa definida, com a investigação da unidade feita. Linfonodo com alteração no hemograma, com sintomas B ou com baço aumentado sem infecção aguda vai para a Oncologia Hematologia.
As fronteiras do linfonodo são muitas, e cada uma tem nome. O linfonodo do pescoço, inclusive o supraclavicular, e a tuberculose ganglionar cervical são do capítulo O número e o caroço, na Cirurgia de Cabeça e Pescoço. O linfonodo cervical que vem de tumor da boca ou da faringe, com a procura do primário, é do capítulo Ninguém olha a boca. A linfadenomegalia de quem vive com HIV, do capítulo HIV: quem se testa, e o que começa no mesmo dia, na Infectologia. O linfonodo do mediastino, do capítulo O andar em que ela mora, na Cirurgia Torácica. Este capítulo assume a axila sem achado de mama, a virilha, o epitroclear e a linfonodomegalia generalizada no adulto sem imunossupressão conhecida.
A massa que se palpa
Massa é o sinal que o paciente mais reconhece e o que ele mais demora a mostrar, porque não dói. Na mama, no testículo, no pescoço, na tireoide, na parótida, no abdome e na pelve, o órgão tem dono: Nódulo mamário, na Ginecologia; Do testículo, ou do lado dele, na Urologia; os capítulos de nódulo de tireoide, glândula salivar e massa cervical, na Cirurgia de Cabeça e Pescoço; A massa que o ultrassom achou, para a massa anexial; e Câncer colorretal, para a massa abdominal em topografia de cólon. Aqui, o que importa é não deixar a massa sem exame físico completo, porque ela quase nunca é o único achado.
Massa de partes moles que cresce, é profunda, mede mais de 5 cm ou tem características preocupantes merece investigação e encaminhamento apropriados. A história de crescimento já importa: não é preciso esperar uma segunda medida no serviço para agir. Ultrassom pode ser o primeiro exame de massa superficial; resultado suspeito ou inconclusivo com preocupação clínica persistente exige referência. Suspeita de sarcoma deve ter imagem e biópsia planejadas pela equipe responsável, evitando retirada casual que prejudique a cirurgia definitiva.
Tumefação óssea no adulto, com ou sem dor, entra pela radiografia, e é essa a leitura desta apostila: a NICE só diz o que fazer quando a radiografia do adulto sugere sarcoma ósseo, que é encaminhar por suspeita, e reserva a radiografia muito urgente de acesso direto para crianças e jovens.
A dor que acorda
Dor persistente, progressiva, em repouso ou que acorda do sono aumenta a preocupação, sobretudo com câncer prévio, perda de peso, anemia ou fratura. Essas características não têm assinatura exclusiva de câncer; dor neoplásica também pode piorar com carga por lesão estrutural. Pergunte por fraqueza, alterações sensitivas e esfincterianas e examine o sistema neurológico para reconhecer compressão medular.
A partir dos 60 anos, dor óssea persistente, sobretudo lombar, ou fratura sem explicação é o sinal com que a NICE abre a investigação de mieloma na atenção primária. O painel está na investigação. O protocolo do TelessaúdeRS acrescenta o outro lado: anemia, cálcio alto, função renal em queda, fratura patológica ou banda monoclonal na eletroforese de proteínas séricas descrevem um quadro sugestivo de gamopatia monoclonal, que vai para a Oncologia Hematologia.
A lombalgia com sinais de alarme tem dois donos no nível: o capítulo Lombalgia e hérnia de disco, na Ortopedia, para o ambulatório, e o capítulo Dor lombar aguda no pronto-socorro, nas Síndromes do Paciente na Emergência. A dor nas costas com fraqueza das pernas, alteração de sensibilidade ou perda de controle de urina e fezes em quem tem câncer, ou em quem pode ter, é emergência, e pertence ao capítulo A lombalgia que era outra coisa, na Neurocirurgia. O controle da dor oncológica é do capítulo Cuidados paliativos e dor oncológica, na Geriatria.
Os sinais que já têm endereço
O livro do INCA de 2021 descreve sinais de alerta para sete cânceres, e eles funcionam como mapa de encaminhamento da unidade. No câncer colorretal, a lista junta mudança de hábito intestinal, anemia, perda de peso sem explicação, fezes escuras ou com sangue, massa abdominal e dor abdominal constante, e o livro manda a unidade encaminhar esse paciente à atenção especializada pelo fluxo de regulação. Na boca, qualquer lesão que não cicatrize em até 15 dias precisa ser investigada, assim como placas vermelhas ou brancas sem causa conhecida, caroço no pescoço, rouquidão persistente e dificuldade para mastigar, engolir ou falar.
Na pele, o livro separa a lesão não melanoma, mancha ou nódulo que coça, arde, descama ou sangra e ferida que não cicatriza em quatro semanas, da pinta que surge ou muda de cor, forma e tamanho, com borda irregular. Na mama, qualquer nódulo diferente da nodularidade habitual a partir dos 50 anos, o nódulo endurecido e fixo ou que cresce em mulher adulta de qualquer idade, o nódulo que persiste por mais de um ciclo menstrual depois dos 30 anos, a descarga papilar sanguinolenta de um lado só, a lesão eczematosa que não responde ao tratamento, o linfonodo axilar, a pele em casca de laranja, a retração da pele e a mudança do mamilo, e a massa unilateral no homem acima dos 50 anos. No colo do útero, sangramento espontâneo ou depois da relação, corrimento, dor pélvica e perda de peso.
Para a próstata, o livro lista dificuldade para urinar, jato fraco ou demorado, urinar muitas vezes e sangue na urina, e avisa na mesma página que esses sintomas são inespecíficos e pedem diagnóstico diferencial. O que se faz com cada um desses sinais é do capítulo dono do órgão. O que é deste capítulo é reconhecer que eles são sinais e não deixar que saiam da consulta sem destino, sem data e sem a hipótese escrita.
Como fechar o diagnóstico
A investigação deste capítulo responde a cinco perguntas, nesta ordem. É rastreamento ou diagnóstico precoce? Há algo que não pode esperar fila? O que o exame físico completo mostra? Qual é o primeiro exame para o sinal que se tem? E o que precisa estar escrito para o pedido valer, na regulação e diante da lei?
Uma premissa vale para todas. O exame pedido pela unidade é responsabilidade de quem o pediu até que essa responsabilidade seja passada, com nome, a outra pessoa. A NICE escreve isso como regra de rede de segurança: quem pediu revê o resultado e age sobre ele, ou transfere explicitamente essa tarefa. Sem essa regra, o pedido de exame não é investigação, é esperança.
1. Rastreamento ou diagnóstico precoce: a primeira decisão muda o pedido
O livro do INCA de 2021 divide a detecção precoce em duas estratégias. O rastreamento aplica um exame de rotina a uma população-alvo sem sinais nem sintomas do câncer rastreado, para achar a doença pré-clínica ou a lesão precursora. O diagnóstico precoce se dirige a quem já apresenta sinais ou sintomas suspeitos, para identificar o câncer no estágio mais inicial possível. O quadro comparativo do mesmo livro, adaptado da Organização Mundial da Saúde, mostra o que muda: no diagnóstico precoce o teste é aplicado só às pessoas com sintomas, o potencial de dano é baixo e o benefício esperado é reduzir o estadiamento no diagnóstico; no rastreamento o teste vai a toda a população-alvo, muitos positivos não são câncer e alguns resultam em sobrediagnóstico e sobretratamento.
Na consulta, a diferença produz quatro consequências práticas. A primeira é o exame. O teste de rastreamento foi escolhido para uma população com prevalência baixa, e o paciente com sinal precisa do exame que confirma ou afasta a doença no órgão suspeito: quem sangra pelo reto vai para a colonoscopia pelas regras do capítulo Câncer colorretal, e não para uma pesquisa de sangue oculto de rotina. A segunda é o resultado negativo. Ele não encerra a investigação do sintomático, e a NICE pede atenção explícita ao falso-negativo da radiografia de tórax e da pesquisa de sangue oculto nas fezes.
A terceira consequência é a fila. Pedido escrito como rotina ou como rastreamento entra na fila da rotina, e a regulação não tem como adivinhar o sinal que não foi escrito. A quarta é a idade e a periodicidade: os limites de idade e o intervalo do programa de rastreamento não se aplicam a quem tem sintoma. O livro do INCA manda investigar o nódulo endurecido e fixo da mama em mulher adulta de qualquer idade, e ninguém espera a faixa etária do programa para investigar um sangramento.
O conceito dos níveis de prevenção e a decisão de rastrear quem não tem queixa são do capítulo O nível não está no exame, na Medicina Preventiva e Saúde Coletiva, e do capítulo Prevenção quaternária e multimorbidade, na Medicina de Família e Comunidade. As faixas etárias e os intervalos de cada programa estão nos capítulos de rastreamento do colo do útero e da mama, na Ginecologia. Este capítulo fica com a consequência na consulta: o que muda no pedido quando o paciente tem um sinal. Saulina não tem sinal, e o que ela precisa é conferir o rastreamento que já faz e ter a conversa sobre os exames de sangue que não mostram câncer.
2. Antes da fila, a urgência
Alguns pacientes com suspeita de câncer não podem entrar em fila nenhuma. O protocolo de Hematologia do TelessaúdeRS lista quando a suspeita de neoplasia hematológica vai para a urgência, de preferência com suporte de hematologista. Os critérios são citopenia ou leucocitose, ou blastos no sangue periférico, em quem tem manifestação suspeita; duas ou três linhagens baixas com hemoglobina abaixo de 7 g/dL, neutrófilos abaixo de 500 por mm³ ou plaquetas abaixo de 50.000 por mm³; citopenia grave com linfonodo e baço aumentados sem infecção aguda que explique; neutropenia com febre; leucócitos acima de 100.000 por mm³, exceto na leucemia linfocítica crônica; leucocitose com sintomas de leucostase, respiratórios, neurológicos ou priapismo; e plaquetas abaixo de 20.000 por mm³.
O mesmo protocolo manda para a urgência a suspeita de lise tumoral, com náusea, vômito, diarreia, letargia, câimbras ou arritmia, e os sintomas compressivos, como falta de ar, síndrome da veia cava superior ou síndrome de Horner, em quem tem massas linfonodais grandes.
Fora da hematologia, três urgências têm dono no nível e não se resolvem na unidade. A primeira é a compressão medular em quem tem ou pode ter câncer, com fraqueza nas pernas, nível de sensibilidade ou perda de controle esfincteriano, do capítulo A lombalgia que era outra coisa. A segunda é o sangramento volumoso, digestivo ou não, dos capítulos de hemorragia digestiva e dos capítulos de urgência de cada órgão. A terceira é a obstrução, intestinal ou de via aérea. Nesses pacientes o encaminhamento é o transporte, e a carta de encaminhamento vai junto, com a hipótese escrita.
3. O exame físico que decide a rota
O sinal de alarme raramente está sozinho, e o exame físico completo é o que acha o segundo sinal, aquele que dá endereço ao primeiro. Pese e registre. Percorra todas as cadeias de linfonodos, inclusive epitrocleares e inguinais, e meça o que achar. Palpe o abdome à procura de fígado, baço e massa. Examine as mamas, na mulher e no homem, porque o livro do INCA lista a massa unilateral no homem acima de 50 anos entre os sinais de câncer de mama. Olhe a pele inteira e a boca por dentro, com luz. Nos homens, examine a genitália quando houver linfonodo inguinal, e o testículo quando houver massa ou dor no escroto.
O toque retal entra quando há sangramento retal, mudança do hábito intestinal, sintoma urinário que leva à suspeita de próstata ou massa pélvica. A NICE manda encaminhar por suspeita a próstata que parece maligna ao toque, e o que se faz com o toque alterado é do capítulo de câncer de próstata, na Urologia. O exame ginecológico segue os capítulos da Ginecologia.
Registre o que foi examinado pelo nome, inclusive o que estava normal. Linfonodos axilares e inguinais não palpáveis é uma informação; exame físico sem alterações não é, porque não diz se a axila foi examinada. Na próxima consulta, e na carta de encaminhamento, esse registro é o que permite dizer que um linfonodo apareceu, e não que ninguém o procurou antes.
4. O primeiro exame, sinal por sinal
Para a perda de peso inexplicada, o primeiro exame é dirigido pelo acompanhante, e o painel inicial serve para achá-lo. Hemograma com plaquetas mostra anemia e plaquetose; a NICE considera radiografia de tórax urgente para a plaquetose a partir dos 40 anos e endoscopia digestiva alta, sem urgência, para a plaquetose com perda de peso, náusea, vômito, refluxo, dispepsia ou dor no andar superior do abdome a partir dos 55. A glicemia importa porque diabetes de início recente com perda de peso aos 60 anos ou mais leva a diretriz a considerar tomografia de abdome, ou ultrassom se não houver tomografia, para o pâncreas. Cálcio, creatinina e exame de urina completam a triagem, e a hematúria vai para o capítulo Vermelha, e não doeu. A radiografia de tórax entra para o tabagista ou ex-tabagista a partir dos 40 anos e, a partir da mesma idade, para quem nunca fumou mas tem tosse, cansaço, falta de ar ou dor torácica junto com a perda de peso.
O mesmo painel precisa enxergar as causas que emagrecem sem ser câncer, e aqui a escolha é desta apostila, pelo raciocínio clínico, sem régua numérica que a fixe: função tireoidiana, teste rápido para HIV e, havendo tosse, febre vespertina ou contato, a investigação de tuberculose pelas regras do capítulo Tuberculose: a pergunta que ninguém faz, na Infectologia. A anemia ferropriva que aparecer no hemograma segue para o capítulo Anemia ferropriva.
Na linfonodomegalia localizada, dirigir a investigação pela história, território de drenagem, idade, exposições e exame geral. Hemograma e testes para infecções, como HIV e sífilis, podem ser pertinentes; sorologias e imagem adicionais dependem da suspeita. O painel amplo do protocolo de regulação é uma referência local, não um conjunto obrigatório em todo linfonodo pequeno. Monoteste tem maior utilidade em síndrome compatível com mononucleose; teste para tuberculose latente não confirma nem exclui sozinho tuberculose ganglionar. Observação exige prazo definido e reavaliação antes se houver progressão.
Para a linfonodomegalia generalizada no adulto, a NICE considera hemograma muito urgente, em até 48 horas, pela possibilidade de leucemia. O teste rápido para HIV entra na mesma coleta, e o resultado decide o capítulo que conduz: alteração hematológica leva à Oncologia Hematologia pelo protocolo gaúcho, e a infecção pelo HIV leva ao capítulo de HIV.
Para a dor óssea persistente a partir dos 60 anos, sobretudo lombar, ou para a fratura sem explicação, a NICE, na redação emendada em 2025, pede hemograma, cálcio, velocidade de hemossedimentação ou viscosidade plasmática, eletroforese de proteínas séricas e dosagem de cadeias leves livres no soro. Onde a dosagem sérica não existir, a pesquisa de proteína de Bence Jones na urina a substitui. A lista inglesa não tem creatinina, e esta apostila a acrescenta, porque a perda de função renal é um dos critérios do protocolo brasileiro para suspeitar de gamopatia monoclonal. Cálcio alto ou leucopenia com a dor, ou eletroforese, cadeias leves ou hemossedimentação sugestivas, levam ao encaminhamento por suspeita de mieloma.
Para a massa de partes moles que cresce, o primeiro exame é o ultrassom, que na NICE é urgente e de acesso direto e no SUS passa pela regulação com a hipótese escrita. Para a hemoptise e para a tosse ou a rouquidão que passam de duas a três semanas, o primeiro exame é a radiografia de tórax, e a barreira para pedi-la é baixa de propósito: a NICE declarou, na seção de contexto que manteve até a edição de janeiro de 2026, que o limiar de 3% não se aplica aos exames que a atenção primária pede rotineiramente, como a radiografia de tórax e os exames de sangue.
5. O que não descarta câncer
Marcador tumoral não é exame de investigação de sintoma inespecífico. Nenhuma recomendação da NICE sobre suspeita de câncer usa CEA ou CA 19-9. Os dois marcadores que a diretriz manda dosar na atenção primária são o PSA, lido junto com sintomas urinários, disfunção erétil ou hematúria visível, e o CA125, ligado a sintomas de câncer de ovário, cada um com seus cortes. O livro do INCA discute o PSA no capítulo da próstata e não cita CEA, CA 19-9 nem CA125. Esta apostila não pede CEA, CA 19-9 ou painel de marcadores para investigar perda de peso, cansaço ou dor. O valor normal não afasta câncer inicial, o valor alto não diz onde procurar, e os dois atrasam o exame que diria.
Pesquisa de sangue oculto negativa não encerra a investigação de quem sangra, emagrece ou tem anemia ferropriva, e o capítulo Anemia ferropriva diz o mesmo para os dois exames endoscópicos. Radiografia de tórax normal não encerra a investigação de quem continua com hemoptise, rouquidão ou tosse. A NICE põe os dois falsos-negativos na mesma frase da rede de segurança.
Perda ponderal persistente requer acompanhamento mesmo com painel inicial normal. Rever ingestão, condições sociais, medicamentos, saúde bucal, humor, doenças infecciosas, endócrinas e digestivas; direcionar novos exames pelas pistas e pela trajetória. A NICE utiliza idade e magnitude da perda para algumas rotas de referência, mas estar abaixo desses cortes não demonstra benignidade nem impede encaminhamento se a preocupação clínica persistir. Definir retorno em semanas, não em seis meses, e ampliar a avaliação se o peso continuar caindo.
6. O pedido que aciona o prazo
O parágrafo terceiro do artigo 2º da Lei nº 12.732, incluído pela Lei nº 13.896, de 2019, determina que, quando a principal hipótese diagnóstica for a de neoplasia maligna, os exames necessários à elucidação sejam feitos em até 30 dias, mediante solicitação fundamentada do médico responsável. A frase tem três condições, e as três estão no papel: a hipótese, a fundamentação e o médico. O texto não restringe o pedido ao especialista, e o médico da unidade que investiga é o médico responsável naquele momento. A leitura, a datação e a auditoria dessa lei, e o prazo de 60 dias para o primeiro tratamento contado do laudo, são do capítulo Quando ele conta, já está estreito, na Cirurgia do Aparelho Digestivo.
Principal hipótese diagnóstica é a expressão que trava o interno, e esta apostila a lê assim: é a hipótese que governa a investigação, aquela que precisa ser confirmada ou afastada primeiro porque o atraso muda o prognóstico, e não necessariamente a mais provável em números. No limiar de 3% da NICE, a maioria dos pacientes com sinal de alarme não tem câncer, e ainda assim é o câncer que dirige os exames. A leitura tem um limite ético: a hipótese precisa ser a que você de fato sustenta, com os dados que a sustentam escritos ao lado. Escrever neoplasia no pedido de quem não tem sinal, para furar a fila, é falsear o documento que a lei manda fundamentar.
O conteúdo mínimo do pedido segue o padrão que os protocolos do TelessaúdeRS chamam de conteúdo descritivo mínimo, e a NICE resume em uma regra: pôr no encaminhamento toda a informação pertinente, dizendo se ele é urgente. Escreva o sinal em números, como peso anterior e atual com as datas ou tamanho e tempo do linfonodo; os sintomas acompanhantes, inclusive os sintomas B; os achados do exame físico; os exames já feitos, com data e resultado; os fatores de risco, como carga tabágica e câncer prévio; e a hipótese principal. Registre a base legal do prazo, a data do pedido, o telefone do paciente e o nome de quem acompanha o caso na unidade.
A NICE pede que o encaminhamento saia em até um dia útil depois de tomada a decisão, e não há razão clínica para o pedido brasileiro demorar mais do que isso. Como o encaminhamento se transforma em caso compartilhado, com data de verificação e contrarreferência, está no capítulo O paciente que some no caminho, na Medicina Preventiva e Saúde Coletiva. Este capítulo fica com o que é próprio da suspeita de câncer: a hipótese escrita, a fundamentação que aciona o prazo e a contagem dos 30 dias.
Investigar sinais de câncer sem perder a gravidade atual
Objetivo no internato: compreender a apresentação, justificar as hipóteses e propor cuidado e reavaliação sob supervisão. Diferencie rastreamento de investigação de sintomas. Perda de peso, massa, linfonodo, sangramento e dor persistente precisam de história, exame e hipótese orientadora, incluindo causas não neoplásicas. Quatro decisões governam o capítulo, e cada uma vem de uma régua diferente. Se o paciente é de rastreamento ou de diagnóstico precoce, decide o livro do INCA de 2021. Qual é o primeiro exame e para onde vai cada sinal que não pertence a órgão, decidem o protocolo de Hematologia do TelessaúdeRS de 2023, para o linfonodo e a suspeita de neoplasia hematológica, e a diretriz inglesa da NICE, onde nenhuma das fontes brasileiras fixa número. Em que prazo e com que texto, decide a Lei nº 12.732, com o parágrafo incluído em 2019. E como se lê a perda de peso, decide a porcentagem, calculada com as datas. A última coluna da tabela de sinais diz de onde vem cada linha.
- 1Há sinal ou sintoma? Sem sinal, a conversa é de rastreamento, pelas regras dos capítulos donos de cada programa. Com sinal, é diagnóstico precoce, e nada do programa de rastreamento, nem idade, nem intervalo, nem exame, se aplica ao pedido.
- 2Dê nome e número ao sinal: porcentagem de perda de peso com as duas datas, centímetros e semanas do linfonodo, duração da tosse, idade, carga tabágica, câncer prévio.
- 3Procure critério de urgência antes de qualquer fila: citopenia grave, blastos, neutropenia com febre, leucostase, lise tumoral, compressão por massa, compressão medular, sangramento volumoso, obstrução. Havendo, o encaminhamento é o transporte, com a carta.
- 4Faça o exame físico completo, com todas as cadeias de linfonodos, abdome, mamas, pele e boca, e registre pelo nome o que examinou.
- 5O sinal já tem órgão? Aplique a regra do capítulo dono do órgão e escreva a hipótese no pedido.
- 6O sinal não tem órgão? Peça, na mesma consulta, o primeiro exame da tabela de sinais transversais.
- 7Linfonodo supraclavicular ou com característica de malignidade vai para biópsia sem espera. Com sintoma B, alteração no hemograma ou baço aumentado, para a Oncologia Hematologia. Sem nada disso, investigação básica e nova medida em quatro semanas.
- 8Escreva o pedido com o sinal em números, os achados, os exames, os fatores de risco e a hipótese principal, registre a base legal do prazo de 30 dias e envie em até um dia útil.
- 9Marque a verificação: quem pediu lê o resultado, confere se houve agendamento e anota no prontuário a data em que se completam os 30 dias.
- 10Combine com o paciente o que o traz de volta antes da data e a quem ele recorre se o agendamento não chegar.
- 11Painel normal com sinal que persiste não encerra nada: acima dos cortes, investigação especializada com a hipótese escrita; abaixo, reavaliação com data marcada.
Rastreamento ou diagnóstico precoce: o que muda no pedido
| Na consulta | Quando é rastreamento | Quando é diagnóstico precoce |
|---|---|---|
| Quem recebe o exame | Pessoa sem sinal nem sintoma, dentro da população-alvo do programa | Pessoa com sinal ou sintoma suspeito, em qualquer idade adulta |
| Que exame se pede | O teste do programa, escolhido para prevalência baixa | O exame que confirma ou afasta a doença no órgão suspeito, ou o primeiro exame do sinal transversal |
| O que o resultado negativo quer dizer | Segue o intervalo do programa | Não encerra a investigação se o sinal persiste; radiografia de tórax e sangue oculto têm falso-negativo conhecido |
| Idade e intervalo | Valem os do programa | Não se aplicam: o sinal decide |
| Fila e prazo | Rotina | Pedido fundamentado, com a hipótese escrita; exames de elucidação em até 30 dias pela Lei nº 12.732 |
| Potencial de dano | Alto, porque o teste vai a toda a população-alvo, com sobrediagnóstico e sobretratamento | Baixo, porque o teste fica restrito a quem tem sinal |
| Dono do detalhe no nível | Capítulos de rastreamento de cada programa e O nível não está no exame | Capítulo dono do órgão; sem órgão, este capítulo |
Sinais que não pertencem a órgão: primeiro passo, destino e régua
| Sinal | Primeiro passo na unidade | Encaminhar quando, e para onde | De onde vem a régua |
|---|---|---|---|
| Perda de peso inexplicada | Peso com data e porcentagem; exame físico completo; hemograma com plaquetas, glicemia, cálcio, creatinina, urina, função tireoidiana e teste rápido para HIV; radiografia de tórax no fumante ou ex-fumante a partir de 40 anos ou, a partir da mesma idade, com sintoma respiratório | Com endereço, pela regra do órgão. Sem endereço, a partir de 60 anos e acima de 5% em seis meses: investigação especializada com a hipótese escrita. Abaixo dos cortes: reavaliação com data | Sinal: INCA 2021 e TelessaúdeRS. Cortes e exame por acompanhante: NICE 2026. Causas não oncológicas do painel e destino sem endereço: esta apostila |
| Anemia ferropriva em homem adulto ou mulher na pós-menopausa | Confirmar a ferropenia e procurar a causa, sem repor ferro às cegas | Endoscopia digestiva alta e colonoscopia, pelas regras do capítulo Anemia ferropriva | Capítulo Anemia ferropriva, na Hematologia e Hemoterapia |
| Sangramento visível fora de lugar | Nomear o sítio, estimar o volume e afastar instabilidade | Urina: Vermelha, e não doeu. Pós-menopausa: Sangramento depois da menopausa. Reto: Câncer colorretal. Escarro: radiografia de tórax e Cirurgia Torácica | INCA 2021, sinais de alerta; capítulos donos de cada órgão |
| Linfonodo fora do pescoço, sem característica de malignidade, sem sintoma B | Medida, consistência, mobilidade, tempo e território de drenagem; hemograma, radiografia de tórax, testes rápidos para hepatite B, hepatite C, HIV e sífilis, monoteste | Persistência inexplicada, crescimento ou outros sinais de risco justificam referência; o corte de 2 cm após quatro semanas é referência de um fluxo, não exclusão absoluta de investigação abaixo dele. | TelessaúdeRS, Hematologia 2023 |
| Linfonodo supraclavicular, ou endurecido, indolor, aderido ou fusionado | Registrar as características e pedir radiografia de tórax | Biópsia, sem esperar. O do pescoço segue o capítulo O número e o caroço | TelessaúdeRS, Hematologia 2023; Cirurgia de Cabeça e Pescoço |
| Linfonodo com sintoma B, alteração no hemograma ou baço aumentado sem infecção aguda | Hemograma com plaquetas e teste rápido para HIV | Oncologia Hematologia; urgência se houver critério do protocolo | TelessaúdeRS, Hematologia 2023 |
| Linfonodomegalia generalizada no adulto | Hemograma muito urgente, em até 48 horas, e teste rápido para HIV | Pelo resultado: urgência, Oncologia Hematologia ou capítulo de HIV | NICE, recomendação de 2015 mantida em 2026; TelessaúdeRS 2023 |
| Dor óssea persistente a partir dos 60 anos, ou fratura sem explicação | Hemograma, cálcio, creatinina, hemossedimentação e eletroforese de proteínas séricas; cadeias leves livres no soro, ou Bence Jones na urina, onde houver | Exame sugestivo de mieloma, ou anemia, cálcio alto, perda de função renal ou fratura patológica: Oncologia Hematologia. Fraqueza nas pernas ou perda de controle esfincteriano: urgência | NICE, emendada em 2025; TelessaúdeRS 2023; a creatinina é acréscimo desta apostila |
| Massa de partes moles que cresce | Duas medidas com data e ultrassom | Ultrassom sugestivo de sarcoma, ou incerto com preocupação clínica persistente: encaminhamento por suspeita de câncer | NICE, recomendação de 2015 mantida em 2026 |
| Tosse ou rouquidão por mais de 2 a 3 semanas, ou hemoptise | Radiografia de tórax | Imagem suspeita: capítulos de nódulo pulmonar e de câncer de pulmão | INCA 2021, lista declarada de origem inglesa |
| Lesão de boca sem cicatrizar em 15 dias; ferida de pele sem cicatrizar em 4 semanas | Inspeção com luz e registro com data | Capítulo Ninguém olha a boca e capítulos de Dermatologia | INCA 2021 |
Prazos e limiares: o que cada número conta, e desde quando
| Número | O que conta | A partir de quando | Fonte | O que muda na conduta |
|---|---|---|---|---|
| 30 dias | Exames necessários à elucidação, quando a principal hipótese diagnóstica é neoplasia maligna | A lei não diz de que dia se conta; esta apostila anota a data da solicitação fundamentada | Lei nº 12.732, art. 2º, § 3º, incluído pela Lei nº 13.896/2019 | Sem hipótese e fundamentação escritas, o pedido não aciona o prazo |
| 60 dias | Primeiro tratamento: cirurgia, início de radioterapia ou de quimioterapia | Dia em que o diagnóstico é firmado em laudo patológico | Lei nº 12.732, art. 2º, caput e § 1º | Corre depois do laudo, fora deste capítulo: Quando ele conta, já está estreito |
| 1 dia útil | Entre a decisão de encaminhar e o envio do encaminhamento | Decisão de encaminhar | NICE, recomendação 1.16.8 | Encaminhamento decidido sai no mesmo turno ou no seguinte |
| 48 horas | Muito urgente | Pedido | NICE, definições | Hemograma da linfonodomegalia generalizada |
| Antes de 2 semanas | Urgente | Pedido | NICE, definições | Radiografia de tórax do fumante com perda de peso; ultrassom da massa que cresce |
| 28 dias | Diagnóstico ou exclusão de câncer depois do encaminhamento por suspeita | Encaminhamento | NICE, definição alinhada ao padrão do NHS England | Comparação apenas; no SUS, a régua de prazo é a lei |
| 2 cm e 4 semanas | Linfonodo persistente sem causa definida | Primeira consulta, com a investigação da unidade feita | TelessaúdeRS, Hematologia 2023 | Biópsia |
| Acima de 5% em 6 meses, a partir de 60 anos | Perda de peso inexplicada | Peso anterior documentado | NICE, recomendação 1.13.2 de 2026 | Investigação urgente ou encaminhamento |
| 15 dias | Lesão de boca que não cicatriza | Surgimento da lesão | INCA 2021 | Investigar |
| 4 semanas | Ferida de pele que não cicatriza | Surgimento da ferida | INCA 2021 | Investigar |
| 2 a 3 semanas | Tosse ou rouquidão persistentes | Início do sintoma | INCA 2021 | Radiografia de tórax |
| Mais de um ciclo menstrual | Nódulo de mama que persiste depois dos 30 anos | Percepção do nódulo | INCA 2021 | Investigar pelo capítulo Nódulo mamário |
Quanto é 5% do peso: a conta que decide, com os pacientes do capítulo
| Peso anterior | 5% corresponde a | 10% corresponde a | Quem está nesta linha |
|---|---|---|---|
| 60 kg | 3,00 kg | 6,0 kg | — |
| 62 kg | 3,10 kg | 6,2 kg | Etelvina, do caso resolvido: 62 para 60 kg; perdeu 2 kg, 3,23%, abaixo de 5% |
| 68 kg | 3,40 kg | 6,8 kg | A paciente do atendimento: 68 para 62 kg; perdeu 6 kg, 8,82%, acima de 5% |
| 70 kg | 3,50 kg | 7,0 kg | Exemplo da nota de auditoria: 70 para 67 kg; perdeu 3 kg, 4,29%, abaixo de 5% |
| 80 kg | 4,00 kg | 8,0 kg | Exemplo da nota de auditoria: 80 para 77 kg; perdeu 3 kg, 3,75%, abaixo de 5% |
| 81 kg | 4,05 kg | 8,1 kg | Rufino, da cena e da conduta: 81 para 74 kg; perdeu 7 kg, 8,64%, acima de 5% |
| 90 kg | 4,50 kg | 9,0 kg | — |
Na edição de abril de 2026, a NICE reescreveu a recomendação 1.13.2: a investigação urgente ou o encaminhamento pela perda de peso inexplicada, sem órgão definido, passou a valer para quem tem 60 anos ou mais e perdeu mais de 5% do peso em seis meses, e a justificativa do comitê diz que a regra não se aplica dos 18 aos 59 anos. A linha correspondente da tabela de sintomas inespecíficos, no mesmo documento, continua sem idade e sem limiar e remete à mesma recomendação. A conta: um homem de 52 anos que pesava 80 kg e perdeu 3 kg em cinco meses, 3,75%, recebe pela tabela a oferta de investigação urgente ou encaminhamento, e pelo texto não entra na recomendação, porque tem menos de 60 anos e os 5% dele seriam 4 kg. Uma mulher de 64 anos que foi de 70 para 67 kg em seis meses, 4,29%, recebe pela tabela a mesma oferta e pelo texto também fica de fora, porque 5% de 70 kg são 3,5 kg. Vale o texto da recomendação, que é o que a revisão de 2026 examinou. Para o paciente brasileiro abaixo dos cortes, a conduta está no bloco de divergências.
A conduta, hora a hora
A conduta deste capítulo se mede em dias, e o defeito típico dela não é pedir o exame errado. É pedir o certo sem hipótese, sem data de verificação e sem ninguém responsável pelo resultado. A linha do tempo abaixo é a de Rufino Teixeira, da cena, e mostra o que cabe à unidade entre a primeira suspeita e o laudo: nomear o sinal, achar o acompanhante, pedir o primeiro exame, escrever o pedido que aciona o prazo e segurar a espera.
Nenhum marco prescreve fármaco. O que se prescreve aqui são perguntas, exames, textos e datas. Tratar o câncer, se ele se confirmar, é dos serviços especializados e dos capítulos donos do órgão, e o prazo do tratamento corre a partir do laudo.
Terça-feira, 4 de agosto, 8h05: a consulta que era de receita
A receita da pressão se resolve em dois minutos, e o resto da consulta é da perda de peso. As três perguntas vêm primeiro: foi sem querer, quanto e em quanto tempo, e continua. Rufino não fez dieta, perdeu 7 kg em 175 dias e sente a calça mais larga a cada semana. A conta vai para o prontuário, com as duas datas. Depois, os acompanhantes, um a um, porque perda de peso sozinha não dá endereço: ele tosse seco há oito semanas, coisa que atribuía ao tempo seco, e se cansa na subida. Não tem sangue no escarro, não sente dor para engolir, o intestino e a urina estão como sempre, não tem febre nem suor à noite, e não sente dor nos ossos.
Prescrição- Registrar o peso de hoje e o anterior, com as datas e a balança: 74 kg em 04/08/2026; 81 kg em 10/02/2026, na consulta de hipertensão
- Calcular e registrar a porcentagem: 7 kg sobre 81 kg, 8,6% em cerca de cinco meses e meio
- Perguntar e registrar, um a um: tosse, falta de ar, dor torácica, sangue no escarro, rouquidão, disfagia, dor ao comer, mudança do intestino, sangue nas fezes ou na urina, dor óssea, febre e suor noturno
- Perguntar pelo que emagrece sem ser câncer: sede e urina em excesso, tremor, palpitação, tristeza e perda de interesse, exposição de risco ao HIV, contato com tuberculose
- Registrar a carga tabágica: um maço por dia durante 35 anos, 35 maços-ano, sem fumar há oito anos
Mesma consulta, 8h20: o exame que procura o segundo sinal
O exame físico é completo, e não dirigido à tosse. Nenhum linfonodo nas cadeias do pescoço, nas fossas supraclaviculares, nas axilas, nos epitrocleares ou nas virilhas. Fígado e baço não palpáveis, abdome sem massa, pele e boca sem lesões, sem baqueteamento digital. Ausculta pulmonar com murmúrio discretamente diminuído à direita, sem ruído adventício. Nenhum critério de urgência: respira bem em repouso, não tem inchaço no rosto nem no pescoço, não sangra e tem força normal nas pernas. Tudo isso vai para o prontuário pelo nome, porque é o registro que vai dizer, em três semanas, se algo mudou.
Prescrição- Registrar pelo nome as cadeias examinadas e sem linfonodos: cervicais, supraclaviculares, axilares, epitrocleares e inguinais
- Registrar abdome sem visceromegalia e sem massa, pele e boca examinadas sem lesão, murmúrio diminuído à direita
- Registrar a ausência de critério de urgência: sem dispneia de repouso, sem edema de face e pescoço, sem sangramento, sem déficit motor
Mesma consulta, 8h30: o primeiro exame e o painel
A radiografia de tórax é o primeiro exame, e por três razões que convergem: ex-tabagista com mais de 40 anos e perda de peso, tosse que passa de três semanas e murmúrio assimétrico. O painel de sangue procura o acompanhante que o exame físico não mostrou e as causas que emagrecem sem ser câncer. A tosse de oito semanas também abre a investigação de tuberculose, e ela segue as regras do capítulo Tuberculose: a pergunta que ninguém faz. Nenhum marcador tumoral entra no pedido.
Prescrição- Radiografia de tórax em incidências posteroanterior e perfil, com a indicação escrita: perda de 8,6% do peso em cinco meses e meio e tosse há oito semanas em ex-tabagista de 35 maços-ano
- Hemograma com plaquetas, glicemia de jejum, creatinina, cálcio, hormônio tireoestimulante e exame de urina
- Teste rápido para HIV, oferecido e explicado, feito na unidade no mesmo dia
- Investigação de tuberculose pela tosse prolongada, conforme o capítulo de tuberculose
- Retorno para leitura dos resultados marcado para terça-feira, 11 de agosto, com a data escrita no cartão
Mesma consulta, 8h40: dizer o que se procura
Rufino pergunta por que tanto exame para quem veio buscar receita. A resposta diz a verdade sem transformá-la em sentença: o peso que ele perdeu precisa de explicação, entre as explicações possíveis há doenças sérias, inclusive câncer de pulmão, porque ele fumou por muitos anos, e na maior parte das vezes os exames acham outra coisa. Esconder a hipótese produz o paciente que não volta para buscar o resultado, e anunciá-la como certeza produz o paciente que não dorme até ele sair. A orientação de retorno antecipado sai escrita.
Prescrição- Nomear a hipótese em palavras do paciente, sem certeza e sem omissão
- Orientar retorno antes da data se aparecer sangue no escarro, falta de ar, febre, dor no peito ou inchaço no rosto ou no pescoço
- Confirmar o telefone de contato e anotar no prontuário
Quinta-feira, 6 de agosto: o laudo chega antes do retorno
A radiografia foi feita na quarta, e o laudo chega à unidade na quinta: opacidade hilar direita de contornos irregulares, com cerca de 4 cm. A regra da rede de segurança diz que quem pediu lê e age, e agir aqui é não esperar a terça. O interno lê o laudo no dia em que ele chega, mostra à preceptora e telefona para Rufino, que aceita vir na manhã seguinte. Os exames de sangue chegam no mesmo dia: plaquetas de 486.000 por mm³, hemoglobina de 12,6 g/dL, e glicemia, creatinina, cálcio, função tireoidiana e urina dentro dos valores de referência. O teste rápido para HIV foi não reagente.
Prescrição- Ler o laudo no dia da chegada e registrar data, conteúdo e quem leu
- Antecipar a consulta por telefone para sexta-feira, 7 de agosto, e registrar a ligação
- Registrar os resultados de sangue com data, destacando a plaquetose
Sexta-feira, 7 de agosto: o pedido que aciona o prazo
Com a imagem suspeita, a hipótese principal passa a ser neoplasia maligna de pulmão, e ela vai escrita, com os dados que a sustentam. O que se pede depois da radiografia, tomografia, broncoscopia ou biópsia, e em que ordem, é dos capítulos O achado que ninguém foi procurar e A mesma sombra, no mesmo lugar, na Cirurgia Torácica, e da grade que a regulação do município oferece. O papel da unidade é que o pedido saia hoje, fundamentado, com cópia no prontuário e com as datas que vão ser cobradas. A conversa com Rufino segue o bloco de conversa: há uma alteração na radiografia, ela precisa de exames que a unidade não faz, e a lei dá prazo para eles.
Prescrição- Encaminhamento e pedido de exame de imagem pela regulação, com o texto: Hipótese diagnóstica principal: neoplasia maligna de pulmão. Homem de 64 anos, ex-tabagista de 35 maços-ano, perda de 7 kg (81 kg em 10/02/2026; 74 kg em 04/08/2026; 8,6%), tosse seca há 8 semanas. Radiografia de tórax de 05/08/2026: opacidade hilar direita de contornos irregulares, cerca de 4 cm. Plaquetas 486.000/mm³; demais exames sem alteração; HIV não reagente. Solicitação fundamentada nos termos do art. 2º, § 3º, da Lei nº 12.732/2012
- Anexar cópia dos laudos com datas e registrar no prontuário a cópia do pedido
- Registrar a data do pedido, 07/08/2026, e o 30º dia, domingo, 06/09/2026, com a última verificação útil na sexta-feira, 04/09/2026
- Registrar o telefone do paciente e os nomes do interno e da preceptora como responsáveis na unidade
- Enviar no mesmo dia, dentro do prazo de um dia útil que a NICE recomenda para o encaminhamento decidido
Sexta-feira, 21 de agosto, 14º dia: conferir a fila antes que ela confira o paciente
Na metade do prazo, a unidade verifica. Se o sistema de regulação mostra data de consulta e de exame antes do 30º dia, a tarefa é confirmar com o paciente que ele sabe onde, quando e como chegar. Se não mostra, a unidade contata a central com a hipótese e a base legal na mão e registra quem atendeu, a que horas e o que respondeu. Rufino recebe ligação nos dois casos: a verificação pergunta pelos sinais que o trariam antes e confirma que ele não recebeu aviso por outro canal. A investigação de tuberculose, que corria em paralelo, segue o capítulo dono.
Prescrição- Consultar a situação do pedido na regulação e registrar data, hora e o que consta
- Sem agendamento, contatar a central com a hipótese e o art. 2º, § 3º, da Lei nº 12.732, e registrar nome do atendente, hora e resposta
- Telefonar ao paciente: sangue no escarro, falta de ar, febre, dor, inchaço no rosto ou no pescoço, perda de peso que continua; confirmar endereço e telefone
- Se ele vier à unidade, pesar na mesma balança e registrar
Sexta-feira, 4 de setembro, última verificação útil antes do 30º dia, e o que vem depois
Se os exames de elucidação não estiverem feitos até o 30º dia, o descumprimento vai para o prontuário e para a gestão municipal por escrito, porque a lei sujeita os gestores responsáveis a penalidades administrativas, e o paciente é informado do direito que tem. Quando o laudo patológico sair, a data dele passa a contar os 60 dias do primeiro tratamento, e esse relógio já é do serviço especializado e do capítulo Quando ele conta, já está estreito. A comunicação do diagnóstico segue o capítulo Comunicação de más notícias. A unidade não sai do caso: ela recebe a contrarreferência, acompanha sintomas, dor, peso e família, e continua sendo o lugar para onde Rufino liga quando não sabe a quem ligar.
Prescrição- Sem os exames feitos até o 30º dia: registrar o descumprimento e comunicar por escrito à gestão municipal, com cópia do pedido fundamentado
- Informar ao paciente o direito previsto no art. 2º, § 3º, da Lei nº 12.732 e os canais de ouvidoria do município
- Com o laudo patológico em mãos, registrar a data dele, que é o marco dos 60 dias do primeiro tratamento
- Manter o acompanhamento na unidade, com a contrarreferência registrada e a data do próximo contato
Como saber se está funcionando
Aqui, reavaliar não significa conferir melhora. É conferir, com data, quatro coisas: que o sinal foi medido de novo, que cada exame pedido foi lido por quem pediu, que o pedido fundamentado andou dentro do prazo e que o paciente sabe o que o traz de volta antes da data. A NICE chama isso de rede de segurança e lhe dá duas partes: revisar e agir sobre os resultados, e acompanhar ativamente quem tem sintoma associado a risco de câncer mesmo sem critério de encaminhamento.
A reavaliação pode ser planejada, com prazo combinado, ou iniciada pelo paciente quando surge sintoma novo, quando a preocupação continua ou quando o sintoma volta, persiste ou piora. As duas formas precisam estar escritas, e a segunda só funciona se o paciente souber, em palavras dele, o que conta como piora.
Esperado: Peso estável, ou perda explicada por um diagnóstico já feito
Se não melhora: Perda que continua sem diagnóstico antecipa o passo seguinte: abaixo dos cortes, o painel se completa e a reavaliação encurta; acima deles, com painel normal e sem endereço, vai para investigação especializada com a hipótese escrita
Esperado: Lido e registrado por quem pediu, ou com a responsabilidade passada pelo nome a outro profissional
Se não melhora: Resultado que não chegou na data prevista é procurado no laboratório ou no serviço de imagem; resultado alterado antecipa a consulta por telefone
Esperado: Data marcada antes do 30º dia, conhecida pelo paciente, com local e horário
Se não melhora: Contato com a central de regulação com a hipótese e a base legal, registrado com nome, hora e resposta; no 30º dia sem exame, registro do descumprimento e comunicação escrita à gestão municipal
Esperado: Regressão, ou causa definida pelos exames ou pelo território de drenagem
Se não melhora: Persistência inexplicada pode justificar referência mesmo abaixo de 2 cm. Crescimento, fixação, endurecimento, novas cadeias, sintomas sistêmicos ou alterações hematológicas antecipam avaliação; não reiniciar quatro semanas a cada nova medida.
Esperado: Ausentes: sem citopenia grave, sem febre com neutropenia, sem sinais de compressão, sem sangramento volumoso, sem fraqueza nas pernas
Se não melhora: Qualquer um presente tira o paciente da fila no mesmo dia e o leva à urgência, com a carta de encaminhamento e a hipótese escrita
Esperado: Sintoma que regrediu, sem sinal novo
Se não melhora: Sintoma que volta, persiste ou piora reabre a investigação com o exame do sinal; tosse além de três semanas pede radiografia de tórax mesmo com radiografia anterior normal
Esperado: Conclusão, plano e próximo contato registrados na unidade; data do laudo patológico anotada quando houver
Se não melhora: Sem retorno de informação, a unidade busca ativamente o paciente e o serviço, pelas regras do capítulo O paciente que some no caminho
Onde o erro machuca
O dano: O teste do programa foi escolhido para pessoas sem sintoma e para prevalência baixa. No sintomático, a pesquisa de sangue oculto negativa ou a radiografia normal passam a sensação de investigação feita enquanto a doença segue crescendo, e o pedido entra na fila da rotina.
Como pegar a tempo: Antes de pedir, pergunte se o paciente tem sinal. Tendo, peça o exame que confirma ou afasta a doença no órgão suspeito, ou o primeiro exame do sinal transversal, e trate o negativo como resultado a reavaliar enquanto o sinal persistir.
O dano: Cansaço vira estresse, sangramento vira hemorroida, anemia vira falta de ferro na dieta. Cada rótulo encerra a consulta do dia, e três rótulos plausíveis somam meses. A reposição de ferro que sobe a hemoglobina é o caso típico: o número melhora e a causa continua sangrando.
Como pegar a tempo: Quando o mesmo sintoma volta, releia as consultas anteriores antes de examinar. Sinal repetido sem exame que o explique ganha nome de sinal, número e investigação na consulta de hoje.
O dano: Valor normal não afasta câncer inicial, valor alto não diz onde procurar, e os dois consomem a consulta e a espera do exame que diria. Nenhuma recomendação da NICE sobre suspeita de câncer usa CEA ou CA 19-9.
Como pegar a tempo: Investigue pelo sinal e pelo acompanhante. Marcador entra só onde o capítulo dono do órgão o manda dosar, como o PSA na próstata e o CA125 no ovário, com as regras de cada um.
O dano: Sem a hipótese principal e sem os dados que a fundamentam, a regulação classifica o pedido como rotina e o parágrafo da lei que dá 30 dias aos exames de elucidação não tem em que se apoiar.
Como pegar a tempo: Escreva a hipótese principal, o sinal em números com as datas, os achados, os exames com resultado, os fatores de risco e a base legal. Anote no prontuário a data do pedido e o 30º dia.
O dano: O laudo alterado chega à unidade e espera o retorno marcado para daqui a um mês, ou não espera ninguém. O paciente que ouviu retornar se necessário decide sozinho o que é necessário, e costuma decidir tarde.
Como pegar a tempo: Quem pede lê, ou passa a tarefa pelo nome. Toda investigação sai da consulta com data de verificação, com os sinais que antecipam a volta e com o telefone do paciente conferido.
O dano: Quem não sabe por que foi encaminhado falta ao exame e não reclama da demora. Quem ouviu que tem câncer antes do laudo passa semanas com um diagnóstico que pode não ser o dele, e desconfia da equipe quando o laudo vem diferente.
Como pegar a tempo: Diga que há uma hipótese a confirmar ou descartar, que a maioria das pessoas encaminhadas assim não tem câncer, para onde ele vai, quanto deve esperar e a quem recorrer se a data não chegar.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa da suspeita é diferente da conversa do diagnóstico. Ainda não há notícia a dar: há uma incerteza a sustentar por semanas, e o paciente precisa de três coisas para atravessá-la. Saber o que se procura, saber quanto tempo vai durar e saber a quem recorrer se nada acontecer. A NICE lista o que a informação ao paciente encaminhado deve cobrir: para onde ele vai, quanto vai esperar, o que acontece nos exames, em quanto tempo sai o resultado, se pode levar acompanhante e quem procurar se a confirmação do agendamento não chegar. E pede que se diga que a maioria das pessoas encaminhadas por suspeita não terá câncer.
A conversa do diagnóstico confirmado, com as palavras de cada passo, é do capítulo Comunicação de más notícias. Aqui ficam as falas de antes do laudo: nomear a suspeita sem esconder e sem condenar, explicar o prazo e a espera, ensinar os sinais que antecipam a volta e responder a quem pede o exame que não serve.
Explicando a Rufino por que a consulta da receita virou pedido de exame
“"Seu Rufino, o senhor perdeu 7 quilos sem tentar, e isso não é coisa da idade. Quando alguém emagrece assim, eu preciso descobrir o motivo. Pode ser tireoide, pode ser açúcar no sangue, pode ser uma infecção. Como o senhor fumou por muitos anos, eu também preciso olhar o pulmão, porque uma das causas possíveis é um tumor. Na maioria das pessoas que eu investigo, não é. Mas eu não vou adivinhar: vou pedir os exames hoje."”
Não diga: Pedir os exames sem dizer por quê, ou chamar a investigação de check-up
Rufino pergunta, depois da radiografia, se é câncer
“"A radiografia mostrou uma mancha perto do meio do pulmão direito. Uma mancha assim pode ser câncer e pode ser outra coisa, e a radiografia não consegue separar uma da outra. Por isso o senhor vai fazer exames que a unidade não faz. Hoje ninguém consegue dizer o que é, nem eu, e prefiro lhe dizer isso a inventar uma resposta. Uma coisa é certa: o senhor tem direito a fazer esses exames em até 30 dias, e eu vou acompanhar essa data."”
Não diga: Dizer que não é nada para acalmar, ou dizer que é câncer antes do laudo
Dizendo para onde ele vai, quanto espera e quem acompanha
“"O pedido saiu hoje, sexta, 7 de agosto, pela central de marcação. Quem avisa a data é a central, por telefone, ou a agente comunitária leva o papel na sua casa. O prazo da lei termina no começo de setembro. No dia 21 eu vou olhar se a data já saiu e ligo para o senhor. Se até lá ninguém tiver avisado nada, o senhor não precisa esperar: venha aqui ou ligue para a unidade e peça para falar comigo ou com a doutora."”
Não diga: Dizer que agora é com o especialista, como se a unidade saísse do caso
O que antecipa a volta de Rufino
“"Enquanto espera, se o senhor tossir sangue, sentir falta de ar, tiver febre, dor forte no peito ou inchaço no rosto ou no pescoço, não espere o dia marcado. Venha direto aqui, ou vá ao pronto-socorro se for à noite ou no fim de semana. Vou escrever isso no seu cartão, embaixo da data."”
Não diga: Qualquer coisa, volta, que deixa o paciente decidir sozinho o que é qualquer coisa
Saulina pede os exames de sangue que mostram câncer
“"Eu entendo o medo, dona Saulina. Perder a vizinha assim assusta. Mas não existe exame de sangue que descubra câncer escondido em quem não sente nada. Esses marcadores podem vir normais em quem tem a doença e alterados em quem não tem, e aí a senhora entraria numa fila de exame atrás de exame por causa de um número. O que protege a senhora é o que já faz, o preventivo e a mamografia em dia, e prestar atenção a alguns sinais do corpo. Vou lhe dizer quais são."”
Não diga: Pedir o painel de marcadores para encerrar a conversa, ou tratar o medo dela como exagero
Ensinando os sinais a Saulina sem transformar o corpo dela em suspeita
“"Procure a unidade se perder peso sem estar tentando, se aparecer um caroço na mama, na axila ou em outro lugar que não some em algumas semanas, se tiver sangramento depois que a menstruação parar de vez, sangue nas fezes ou na urina, uma ferida que não fecha ou uma tosse que passa de três semanas. Não é para a senhora se examinar todo dia com medo. É para não deixar passar."”
Não diga: Uma lista longa, dita com gravidade, que transforma cada dor em suspeita de câncer
Cândido quer só renovar a pomada
“"Seu Cândido, a pomada pode aliviar a hemorroida, mas o que o senhor me contou não é só isso. São três meses de sangue, e o seu intestino mudou o jeito de funcionar. Na sua idade, isso pede um exame que olhe o intestino por dentro. Vou pedir hoje, com o motivo escrito, para o pedido não entrar na fila comum, e vou lhe explicar como é o preparo."”
Não diga: Renovar a pomada sem examinar, ou dizer que pode ser câncer e mandar embora sem pedido
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Biópsia do linfonodo persistente com 2 cm ou mais depois de quatro semanas, salvo outro critério — TelessaúdeRS, Hematologia adulto, 2023, e Cirurgia Geral adulto, 2020
O protocolo de regulação do Rio Grande do Sul manda para biópsia, sem espera, o linfonodo supraclavicular e o que tem características de malignidade, indolor, aderido, endurecido ou fusionado. Para os demais, pede investigação básica na unidade, com hemograma, radiografia de tórax, testes rápidos para hepatites, HIV e sífilis e monoteste, e reserva a biópsia ao linfonodo de 2 cm ou mais que persiste depois de quatro semanas sem causa definida. Sintomas B, alteração no hemograma ou baço aumentado sem infecção aguda levam à Oncologia Hematologia. O protocolo de Cirurgia Geral de 2020 repete os três critérios de biópsia.
TelessaúdeRS-UFRGS/SES-RS. Protocolos de encaminhamento para Hematologia adulto, versão digital 2023, Protocolo 10 e Quadro 10; Protocolos de encaminhamento para Cirurgia Geral adulto, 2020, Protocolo 6
Considerar encaminhamento por suspeita de linfoma para toda linfonodomegalia inexplicada do adulto, sem tamanho nem tempo mínimo — NICE, recomendações de 2015 mantidas na edição de abril de 2026
A diretriz inglesa manda considerar encaminhamento pela via de suspeita de câncer, com diagnóstico ou exclusão em 28 dias, para o adulto com linfonodomegalia inexplicada, levando em conta febre, suor noturno, falta de ar, prurido e perda de peso, e, no linfoma de Hodgkin, a dor no linfonodo depois de ingerir álcool. Inexplicado, na definição dela, é o que não chegou a diagnóstico depois da avaliação inicial na atenção primária, incluindo os exames. Acrescenta radiografia de tórax urgente para o linfonodo supraclavicular ou cervical persistente a partir dos 40 anos e hemograma muito urgente para a linfonodomegalia generalizada.
NICE. Suspected cancer: recognition and referral (NG12), recomendações 1.10.1, 1.10.6 e 1.10.8, tabela de linfonodomegalia e definições; edição de 15/04/2026
O corte de tamanho e tempo do protocolo organiza um fluxo, mas não substitui a avaliação de risco. Um linfonodo pequeno e com causa reacional provável pode ser acompanhado com retorno definido; persistência inexplicada ou progressão pede ampliar a investigação. A duração relatada conta, mesmo sem medida anterior, e não é preciso esperar 2 cm para encaminhar um caso preocupante.
Sinal de alerta sem número e sem idade — INCA, Detecção precoce do câncer, 2021; TelessaúdeRS, Hematologia adulto, 2023
O livro do INCA inclui a perda de peso sem explicação entre os sinais de alerta do câncer colorretal, a perda de peso entre os do câncer do colo do útero e a astenia com perda de peso sem causa aparente entre os do câncer de pulmão, sem fixar quanto nem em que idade. O protocolo de Hematologia do TelessaúdeRS conta o emagrecimento não intencional entre os sintomas B que mudam o destino do paciente com linfonodo e entre as manifestações suspeitas de neoplasia hematológica, também sem número.
INCA. Detecção precoce do câncer. Rio de Janeiro: INCA, 2021, Unidade II, sinais e sintomas de alerta; TelessaúdeRS-UFRGS/SES-RS, Hematologia adulto, versão digital 2023, Protocolos 10 e 11
Investigação urgente ou encaminhamento só a partir de 60 anos e com perda acima de 5% em seis meses — NICE, recomendação 1.13.2, abril de 2026
Na revisão de 2026, a NICE encontrou valor preditivo positivo de 3% ou mais para a perda de peso inexplicada apenas em pessoas com 60 anos ou mais que perderam mais de 5% do peso em seis meses, e passou a recomendar só para elas a avaliação dirigida, a investigação urgente, o encaminhamento por suspeita ou a via de sintomas inespecíficos. O comitê declara que a regra não se aplica dos 18 aos 59 anos, reconhece que a evidência vem de um único estudo, bem conduzido e diretamente aplicável ao Reino Unido, e remete essa faixa à rede de segurança. As linhas por acompanhante da tabela, como a radiografia de tórax do fumante a partir dos 40 anos, continuam valendo abaixo dos 60.
NICE. Suspected cancer: recognition and referral (NG12), recomendação 1.13.2 e seção de justificativa sobre perda de peso inexplicada; edição de 15/04/2026
O conflito real está no adulto com menos de 60 anos, ou com perda abaixo de 5%, que emagrece sem acompanhante que dê endereço: para as fontes brasileiras é um sinal a investigar, para a regra inglesa ele fica fora da recomendação e entra só na rede de segurança. Pelo degrau do escopo, para a decisão de investigar vence o documento brasileiro: a regra inglesa foi calibrada numa população do Reino Unido e regula o acesso a vias de encaminhamento que o SUS não tem. Esta apostila adota as duas, cada uma na sua decisão. Todo adulto com perda de peso sem explicação é investigado na unidade, em qualquer idade, com exame físico completo, painel inicial e o exame que o acompanhante indicar, e as linhas por idade da tabela inglesa ajudam a escolher esse exame. O corte de 60 anos e 5% em seis meses entra depois, quando o painel vem normal e nenhum sinal dá endereço: acima dele, investigação especializada com a hipótese escrita; abaixo dele, reavaliação com data, nova pesagem na mesma balança e os sinais que antecipam a volta escritos. Se a perda continuar, a pesagem seguinte pode pôr o paciente acima do corte, e a conta se refaz.
O raciocínio, em voz alta
Quarta-feira, 17 de junho, 10h20, a mesma unidade básica. Etelvina Consolim, 69 anos, costureira aposentada, vem pela terceira vez em dois meses por dor nas costas e nas costelas do lado direito. Na primeira consulta recebeu analgésico e orientação de postura; na segunda, pediram uma radiografia de coluna lombar que ela ainda não fez, porque a fila da imagem estava parada. A dor agora a acorda de madrugada e não melhora quando se deita. Pesava 62 kg em fevereiro e pesa 60 kg hoje, sente-se cansada e tem bebido mais água. Nega febre, trauma e câncer prévio, nega fraqueza ou dormência nas pernas e nega perda de urina ou de fezes. Ao exame, palidez discreta, dor à percussão de arcos costais à direita e da coluna lombar, força e reflexos preservados nos quatro membros, sensibilidade sem nível, sem linfonodos palpáveis em nenhuma cadeia, sem fígado ou baço palpáveis, mamas sem nódulos. Traz um hemograma de março, feito em outro serviço: hemoglobina de 10,9 g/dL, com volume corpuscular normal. A creatinina do mesmo dia era 0,9 mg/dL.
o que muda a dor de categoria
Começo pela assinatura da dor. Ela acorda a paciente e não melhora deitada, e isso a separa da lombalgia mecânica que justificou o analgésico e a orientação de postura. Depois somo o resto: 69 anos, dor óssea que já dura dois meses, anemia normocítica que ninguém explicou, cansaço e sede. A perda de peso de 3,2% fica abaixo do corte inglês e não decide nada sozinha. Nenhum desses achados isolado é câncer. Juntos, numa mulher acima dos 60 com dor óssea persistente, formam o quadro em que a NICE abre a investigação de mieloma na atenção primária, e a anemia já é um dos achados que o protocolo do TelessaúdeRS usa para suspeitar de gamopatia monoclonal.
a urgência que afasto antes de pedir qualquer coisa
Antes do painel, pergunto e examino o que tiraria Etelvina da fila hoje. Fraqueza nas pernas, dormência em faixa, perda de controle de urina ou fezes: nada disso, e o exame neurológico está normal. Se houvesse, ela iria para a urgência pelas regras do capítulo A lombalgia que era outra coisa. A sede pode ser cálcio alto, e por isso pergunto por confusão, vômitos e sonolência, que me fariam mandá-la ao pronto-socorro sem esperar resultado. Ela não tem nenhum dos três.
o painel, com uma linha a mais que a régua inglesa
Peço hemograma, cálcio, creatinina, velocidade de hemossedimentação e eletroforese de proteínas séricas. O laboratório do município não dosa cadeias leves livres no soro, e por isso entra a pesquisa de proteína de Bence Jones na urina, que é a substituição que a própria NICE prevê. A creatinina não está na lista inglesa e está nesta, porque perda de função renal é critério do protocolo brasileiro. Nenhum marcador tumoral. A radiografia de coluna que ficou parada volta à requisição com a indicação reescrita, dor óssea noturna persistente e anemia em mulher de 69 anos, para não esperar na fila da lombalgia comum.
o que chegou, e como leio
Na quarta-feira seguinte, 24 de junho, os resultados estão na unidade: hemoglobina de 10,6 g/dL, normocítica; cálcio de 11,4 mg/dL, acima do limite de referência do laboratório; creatinina de 1,5 mg/dL, contra 0,9 em março; hemossedimentação de 96 mm na primeira hora; eletroforese com pico monoclonal na região gama; proteína de Bence Jones presente na urina. A radiografia mostra redução da altura do corpo vertebral de L2, sem trauma que a explique. Leio o conjunto duas vezes, uma por régua. Anemia, cálcio acima da referência, creatinina que subiu desde março, fratura sem trauma e banda monoclonal compõem o quadro que o protocolo do TelessaúdeRS chama de sugestivo de gamopatia monoclonal, com destino na Oncologia Hematologia. E a eletroforese sugestiva, o cálcio alto e a hemossedimentação elevada com dor óssea persistente são exatamente as combinações que a NICE manda encaminhar por suspeita de mieloma.
o pedido que aciona o prazo
A combinação de pico monoclonal, anemia, hipercalcemia, piora renal e fratura sem trauma exige discussão rápida com hematologia. Reavaliar no mesmo dia o estado de hidratação, diurese, intensidade da dor, mobilidade e sinais neurológicos; repetir ou confirmar cálcio com albumina ou cálcio ionizado conforme contexto. Organizar investigação especializada e imagem apropriada. Prazo legal é limite de acesso, não tempo clinicamente seguro de espera: deterioração renal, hipercalcemia sintomática ou suspeita compressiva podem exigir internação. Evitar AINE diante da alteração renal e oferecer analgesia adequada.
o que digo a ela
Digo que os exames mostraram alterações no sangue e no osso que podem vir de uma doença da medula chamada mieloma, que é um tipo de câncer do sangue, que isso ainda não é diagnóstico e que quem confirma ou afasta é o hematologista, com exames que a unidade não faz. Digo que a lei dá 30 dias para esses exames e que eu vou acompanhar a data. E deixo escrito no cartão o que a traz de volta antes, no mesmo dia: confusão, sonolência, vômitos, urina que diminui, fraqueza ou dormência nas pernas, perda de controle de urina ou fezes, dor nova e forte depois de um esforço pequeno.
a verificação que marco antes de ela sair
Definir contato clínico e controle de creatinina, cálcio e eletrólitos em curto intervalo conforme a avaliação inicial — neste caso, não esperar automaticamente 14 dias com rim em piora e hipercalcemia. A equipe confirma rapidamente o acesso à hematologia e antecipa atendimento se houver oligúria, desidratação, vômitos, confusão, fraqueza, déficit neurológico ou piora da dor. Acompanhar o andamento do encaminhamento sem fazer da fila o único parâmetro de seguimento.
Etelvina precisa de investigação rápida de provável doença plasmocitária e avaliação imediata das complicações ósseas, renais e do cálcio. A carta reúne os achados relevantes e a unidade mantém analgesia, orientação e controle clínico/laboratorial em intervalo curto, articulado com hematologia. O prazo administrativo não autoriza aguardar duas semanas se houver lesão orgânica em progressão. O diagnóstico definitivo e o tratamento dependem da integração entre proteína monoclonal, avaliação medular e imagem; a unidade acompanha sintomas, função e acesso durante todo o percurso.
Faça você
Segunda-feira, 13 de julho, 14h, a mesma unidade. Adelino Pimentel, 46 anos, carteiro, percebeu há três semanas um caroço na virilha direita enquanto tomava banho. Não dói, não mudou de tamanho que ele tenha notado, e ele veio porque a esposa insistiu. Nega febre, suor noturno e perda de peso, e pesa os mesmos 78 kg da consulta de março. Nega ferida nos pés e nas pernas, lesão genital, corrimento, dor ou sangramento anal, e tem parceira única há 15 anos. Não usa medicamento contínuo e não recebeu vacina nos últimos dois meses. Ao exame, linfonodo inguinal direito de 1,8 cm, elástico, móvel, indolor, sem sinais inflamatórios na pele; nenhum outro linfonodo nas cadeias cervicais, supraclaviculares, axilares, epitrocleares e inguinal esquerda; baço e fígado não palpáveis; pele dos membros inferiores, genitália e região perianal examinadas, sem lesões. Um hemograma de maio, pedido para uma consulta de rotina, estava normal.
o que já sei
O linfonodo é localizado, móvel e elástico, sem sintomas sistêmicos ou achados suspeitos no território de drenagem. Isso favorece avaliação ambulatorial com seguimento, mas não prova benignidade. Considerar toda a duração relatada e a idade do paciente; tamanho abaixo de 2 cm e ausência de dor não decidem isoladamente contra investigação.
o que pedir hoje, e o que não pedir
Complete: quais exames saem desta consulta pelo protocolo de 2023, quais podem ser feitos antes de ele ir embora, se a prova tuberculínica entra e por quê, e o que fica fora do pedido.
quando reavaliar, e o que antecipa a data
Complete: em que dia se faz a nova medida, contando a partir de quê, o que precisa estar pronto até lá, o que cada resultado possível da medida decide e quais achados trazem Adelino de volta antes.
o que dizer e o que registrar
Complete: como explicar a espera sem minimizar nem assustar, e o que precisa ficar no prontuário para que a medida de agosto possa ser comparada com a de hoje.
Ver como fecharíamos
Adelino precisa de revisão da história, exame das cadeias e do território de drenagem e comparação com a evolução relatada. Repetir hemograma se clinicamente indicado, pois o anterior é anterior ao achado; oferecer testes para HIV e outras infecções conforme exposições e contexto. Não pedir automaticamente um pacote de sorologias ou monoteste sem síndrome compatível. PPD/IGRA não são testes isolados para excluir tuberculose ganglionar. Como o achado persiste há três semanas sem explicação, planejar retorno em curto intervalo, por exemplo uma a duas semanas, para nova medida e leitura dos resultados; não reiniciar do zero um prazo de quatro semanas só porque esta é a primeira medida da unidade. Crescimento, endurecimento, fixação, novas cadeias, alterações hematológicas ou sintomas sistêmicos antecipam investigação e referência. Persistência inexplicada também pode justificar avaliação especializada mesmo abaixo de 2 cm; não prolongar observação indefinidamente por um corte de tamanho. Marcadores tumorais não esclarecem esse quadro e antibiótico ou corticoide empíricos não são tratamento de linfonodo sem causa. Explicar que muitas causas são benignas, que ainda falta definir a dele e que haverá reavaliação com data e sinais de retorno antecipado.
A paciente não tem sinal nem sintoma, e a conversa é de rastreamento, não de diagnóstico precoce. Não existe exame de sangue que descubra câncer em quem não sente nada: marcador pode vir normal em quem tem a doença e alterado em quem não tem, e o resultado falso abre uma sequência de exames sem indicação. O capítulo não usa marcador para investigar sintoma inespecífico, e muito menos para rastrear. O que protege a paciente é o rastreamento que já está em dia, conferido pelas regras dos capítulos donos de cada programa, e o conhecimento dos sinais que a devem trazer à unidade, ensinados sem transformar o corpo dela em suspeita. A morte da amiga não é história familiar e não muda o risco dela.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Escolha os primeiros passos para perda de peso com tosse, massa em crescimento e dor óssea com anemia. Explique por que marcadores tumorais em pacote pouco ajudam.
Em 30 dias
Reavalie um linfonodo persistente e uma pessoa com suspeita de mieloma, cálcio alto e creatinina em aumento. Diga quando observar, ampliar a investigação, encaminhar rapidamente ou internar.
Agora atenda
Uma mulher de 62 anos procura a unidade básica porque as roupas ficaram largas: pesava 68 kg em março e hoje pesa 62 kg, sem ter feito dieta. Atenda: transforme a queixa em sinal com a porcentagem e as datas, procure o acompanhante perguntando e examinando por inteiro, afaste o que não pode esperar fila, peça o exame que o acompanhante indicar e o painel das causas que emagrecem sem ser câncer, e saia da consulta com a hipótese escrita, a data de verificação e o que a traz de volta antes dela, sem pedir marcador tumoral.
