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Clínica MédicaOncologia

A febre que não espera

Síndrome da veia cava superior e neutropenia febril

O adulto em quimioterapia que chega com febre: reconhecer a neutropenia febril, dar o antibiótico na primeira hora, separar o baixo do alto risco e reavaliar em 48 a 72 horas — e para onde vai a síndrome da veia cava superior

Fontes deste capítulo

Grupo Hospitalar Conceição. Protocolo de Neutropenia febril do Grupo Hospitalar Conceição. Comissão do Serviço de Hematologia do Hospital Nossa Senhora da Conceição e da Gerência de Ensino e Pesquisa. Porto Alegre: GHC; 2019. Disponível em: escolaghc.ghc.com.br/natsghc/Neutropeniafebril.pdf

Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares; Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Protocolo: Profilaxia anti-infecciosa e manejo de neutropenia febril e infecções em onco-hematologia e transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas no paciente adulto. PRT.HC-UFTM-UHHO.001, versão 1. Uberaba: HC-UFTM/Ebserh; emissão em 11 abr. 2025.

Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares; Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Protocolo clínico PRT.CPAM.063: Manejo da neutropenia febril no paciente oncológico pediátrico. Versão 2. Uberaba: HC-UFTM/Ebserh; emissão em 18 jul. 2024.

Taplitz RA, Kennedy EB, Bow EJ, Crews J, Gleason C, Hawley DK, et al. Outpatient management of fever and neutropenia in adults treated for malignancy: American Society of Clinical Oncology and Infectious Diseases Society of America clinical practice guideline update. J Clin Oncol. 2018;36(14):1443-53. doi:10.1200/JCO.2017.77.6211.

Freifeld AG, Bow EJ, Sepkowitz KA, et al. Clinical practice guideline for the use of antimicrobial agents in neutropenic patients with cancer: 2010 update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2011;52(4):e56-93.

01

Responda antes de ler

Numa unidade básica de saúde, às 15h, uma mulher de 67 anos em quimioterapia para câncer de pulmão, com a última aplicação há nove dias, conta que teve 37,8 °C ontem, tomou paracetamol às 11h e está com diarreia e fraqueza. Agora tem 37,2 °C, pressão de 104 por 62 mmHg e frequência cardíaca de 108. O laboratório da unidade só colhe pela manhã. O que fazer?

02

O paciente que você vai ver

Segunda-feira, 21h52, pronto-socorro de um hospital regional de duzentos e dez leitos. A ficha que a técnica de enfermagem deixa na bancada tem pulseira verde e uma queixa de três palavras: mal-estar e calafrio. Generosa Tourinho tem 52 anos, é costureira, pesa 66 quilos e chegou de ônibus com a filha às 21h40. Na triagem, a temperatura axilar foi de 37,4 °C, a pressão de 112 por 70 mmHg, a frequência cardíaca de 104 batimentos por minuto, a respiratória de 18 incursões e a saturação de 97%. Ela está na cadeira do corredor, de casaco fechado até o pescoço, e diz para quem pergunta que já está melhor do que estava em casa.

No colo, uma sacola de pano. Dentro dela, entre o documento e a receita do antiemético, há um cartão plastificado do ambulatório de oncologia com três datas de aplicação escritas à caneta e uma frase impressa em letra grande: em caso de febre, procure imediatamente o pronto-socorro e mostre este cartão. A última data é de dez dias atrás. Generosa trata um câncer de mama operado há quatro meses e está no terceiro ciclo de quimioterapia. Logo abaixo da clavícula direita há uma cicatriz de três centímetros e, sob ela, um relevo arredondado do tamanho de uma moeda: o cateter totalmente implantável por onde a quimioterapia entra.

A história que a ficha não conta começa às sete da noite. O calafrio veio enquanto ela terminava a barra de uma calça, e o termômetro de casa marcou 38,1 °C na axila. Às 19h15 ela tomou um comprimido de dipirona de um grama, porque é o que se toma em casa quando dá febre. Tentou o telefone do ambulatório, que fecha às seis. Esperou a filha chegar do serviço, e as duas saíram às nove. O 37,4 °C da triagem, portanto, não é a temperatura da doença: é a temperatura da doença duas horas e meia depois de um antitérmico.

A classificação de risco fez o que foi desenhada para fazer com o que tinha à frente. Pressão normal, fala fluente, anda sozinha, dor nenhuma — verde. A tela do corredor mostra vinte e três nomes e uma espera estimada de três horas para a cor dela. A escala não errou. O que ficou de fora foi a informação que muda a cor: a data da última quimioterapia e a febre relatada em casa, que nenhum aparelho da triagem mede.

Você olha o relógio da parede. A febre começou às 19h; são 21h55. Os protocolos brasileiros que tratam deste paciente escrevem a mesma meta com palavras diferentes — sessenta minutos entre o início dos sintomas, ou a chegada, e a primeira dose de antibiótico, com mortalidade que cresce depois disso. Quase três horas já correram em casa e no ônibus, e nada disso volta. O que ainda está na mão da equipe é o tempo contado a partir da porta, e dezenove minutos dele já passaram na cadeira do corredor.

Generosa percebe que alguém a olha de outro jeito e se antecipa: “Doutor, será que dá para tomar um remédio na veia e ir embora? Amanhã cedo eu ligo para a clínica.” A filha entra às seis no supermercado. O pedido é razoável para quem se sente bem, e é exatamente aí que mora a armadilha deste capítulo: o paciente em quimioterapia que se sente bem é o que mais facilmente morre esperando.

Ninguém ainda colheu o hemograma, examinou a pele sobre o cateter, olhou a boca ou perguntou pela urina. Nos próximos quarenta minutos você vai ter de decidir quatro coisas: se ela é uma neutropênica febril até que o hemograma diga o contrário, o que colher antes do antibiótico sem atrasá-lo, que antibiótico entra e o que não entra, e onde ela dorme esta noite. O capítulo é sobre essas quatro decisões e sobre os três dias que vêm depois delas. A outra metade do título, a síndrome da veia cava superior, tem dono em outra apostila e é reconhecida, com o endereço certo, no fim da apresentação.

03

Quem adoece disso

A neutropenia febril é descrita pelo protocolo do Grupo Hospitalar Conceição, de Porto Alegre, como um dos efeitos adversos mais graves da quimioterapia, e as infecções bacterianas como a principal causa de adoecimento e morte desses pacientes. O mesmo documento registra duas coisas que parecem se contradizer e não se contradizem. A primeira: a maioria dos episódios de febre durante a neutropenia, se não todos, é causada por infecção. A segunda: a infecção só é documentada numa minoria dos episódios. O paciente quase sempre está infectado e quase nunca mostra onde. É por isso que o tratamento começa antes do diagnóstico e não depois dele.

O número que justifica o relógio vem do mesmo protocolo: a mortalidade do neutropênico com bacteremia por germe Gram-negativo pode chegar a 40% quando o antibiótico não é iniciado prontamente. Não é uma estatística de UTI nem de paciente que chegou em choque; é o desfecho possível de quem chega andando e espera. A meta de sessenta minutos até a primeira dose, repetida pelos protocolos brasileiros e pela diretriz conjunta americana de manejo ambulatorial, é a tradução operacional desse número.

Os germes do seu hospital não são os de Porto Alegre, e o protocolo do Grupo Hospitalar Conceição diz isso ao descrever os próprios. Na hemato-oncologia do Hospital Nossa Senhora da Conceição, em 2014, os patógenos bacterianos mais frequentes foram Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae, ao lado de Staphylococcus aureus e Staphylococcus epidermidis. O documento observa que as infecções por Gram-positivos vinham diminuindo, possivelmente pela melhora na inserção e na manutenção dos cateteres, enquanto os Gram-negativos isolados aumentavam. A consequência prática é que o esquema empírico é uma escolha local, desenhada pela comissão de controle de infecção sobre o mapa microbiológico da instituição, e o interno segue o protocolo do serviço onde está — este capítulo ensina a lógica que esses protocolos compartilham.

Nem todo esquema de quimioterapia expõe o paciente ao mesmo risco. A atualização de 2026 da diretriz da Sociedade Americana de Oncologia Clínica sobre fatores estimuladores de colônia usa um corte que ajuda a enxergar o tamanho do problema: quando o risco de neutropenia febril de um esquema é de cerca de 20% ou mais, a profilaxia primária com o fator está indicada, salvo alternativa igualmente eficaz que dispense. Há, portanto, esquemas em que um em cada cinco pacientes, ou mais, passa por pelo menos um episódio. No outro extremo do espectro estão o transplante de células-tronco e a quimioterapia das leucemias agudas, que o protocolo adulto do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro classifica sempre como alto risco.

O grupo é heterogêneo, e medir essa heterogeneidade foi o que permitiu tratar parte dos pacientes fora do hospital. A revisão brasileira de Bellesso e colaboradores, publicada em 2010 na Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, resume o índice da Associação Multinacional de Cuidados de Suporte em Câncer: pontuação de 21 ou mais identifica o baixo risco com valor preditivo positivo de 91%, especificidade de 68% e sensibilidade de 71% para ausência de complicação grave. Leia o 91% pelo avesso: de cada cem pacientes classificados como de baixo risco, cerca de nove ainda complicam. Baixo risco não é risco nenhum, e todo o desenho do seguimento, das 24 horas iniciais à reavaliação de 48 a 72 horas, existe para pegar esses nove.

A demora tem endereço, e os fluxos escritos pelos protocolos mostram onde ela se instala. Em casa, o antitérmico derruba a febre e adia a decisão de sair. Na porta, a classificação de risco lê sinais vitais normais como baixa prioridade — por isso o protocolo do Grupo Hospitalar Conceição fixa metas próprias de quinze minutos para a emissão do boletim e para a comunicação do hemograma. No atendimento, a espera pela radiografia ou pelo resultado do exame vira pretexto para adiar a dose; o mesmo protocolo manda pedir a radiografia de tórax sem que ela retarde a coleta e o antibiótico. Na enfermaria, a dipirona de horário apaga o pico antes que alguém o registre, e o documento orienta evitar antitérmico no neutropênico enquanto o antibiótico não começou. Cada um desses pontos é um erro de processo, não de conhecimento, e cada um tem um marco da conduta que o corrige.

Não há protocolo clínico nem diretriz do Ministério da Saúde dedicados à neutropenia febril do adulto; a única publicação do Ministério que traz um fluxo sobre o tema é a coletânea Protocolos da Unidade de Emergência, a experiência do Hospital São Rafael reeditada na série Normas e Manuais Técnicos em 2002, anterior a todas as réguas discutidas aqui. A régua brasileira escrita e atual vem de protocolos institucionais de hospitais públicos federais: o do Grupo Hospitalar Conceição, de 2019, que cobre todo paciente com câncer em quimioterapia atendido na emergência e nas unidades de internação; o do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, da rede Ebserh, emitido em abril de 2025, escrito para o adulto com neoplasia hematológica e para o transplante autólogo; e o pediátrico da mesma instituição, versão 2 de julho de 2024. Para o que esses documentos não cobrem, entram a diretriz da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas de 2010, a atualização conjunta de 2018 sobre manejo ambulatorial e a diretriz de fatores estimuladores de 2026. O critério declara, decisão por decisão, qual régua este capítulo segue e por quê.

O elenco do SUS também desenha a conduta. Pela Rename 2024, nenhum dos antibióticos venosos da primeira hora — cefepima, piperacilina com tazobactam, meropeném e vancomicina — consta da relação nacional: a disponibilidade deles depende da padronização de cada hospital. O esquema oral do paciente de baixo risco, ao contrário, está no Componente Básico, com amoxicilina com clavulanato em comprimido de 500 mg + 125 mg e ciprofloxacino em comprimidos de 250 e 500 mg. O filgrastim, em solução injetável de 300 mcg, está no Componente Especializado. Os antifúngicos de uso hospitalar — fluconazol injetável, anidulafungina, voriconazol e as anfotericinas — estão no Componente Estratégico, o que bate com a orientação do protocolo adulto da Ebserh de solicitá-los pelo Programa de Micoses Sistêmicas do Ministério da Saúde.

04

Por que acontece o que acontece

A quimioterapia citotóxica foi desenhada para matar célula que se divide depressa, e poucas células do corpo se dividem tão depressa quanto as precursoras dos granulócitos na medula óssea. Alguns dias depois da aplicação, a produção cai, os neutrófilos maduros que já circulavam terminam a vida curta que têm, e a contagem desce até um ponto mais baixo antes de a medula se recuperar. Dois eixos decidem o perigo desse vale. A profundidade: o protocolo do Grupo Hospitalar Conceição registra que o risco de infecção aumenta de forma importante abaixo de 500 neutrófilos por microlitro e chama de profunda a neutropenia abaixo de 100. A duração: o risco é maior quando a neutropenia passa de sete dias. Um paciente com 300 neutrófilos por três dias e outro com 80 por duas semanas estão na mesma definição e em mundos diferentes.

A mesma quimioterapia que esvazia a medula lesa o epitélio que se renova rápido, da boca ao ânus. A mucosite é a barreira aberta, e é por ela que a flora do próprio paciente entra no sangue. O protocolo do Grupo Hospitalar Conceição liga a mucosite oral grave a infecções por Gram-positivos e por Candida, e a gengivite necrosante e a celulite perianal a germes anaeróbios; os Gram-negativos intestinais, Escherichia coli e Klebsiella à frente, são os que mais cresceram na hemocultura daquele serviço. O extremo dessa lesão no intestino é a enterocolite neutropênica: mucosite gastrointestinal grave com dor abdominal de início agudo, situação em que o protocolo adulto da Ebserh manda tomografia de abdome e um esquema com cobertura para anaeróbios.

A segunda porta é o cateter. Um tubo que atravessa a pele e termina numa veia central leva consigo a flora cutânea — Staphylococcus aureus e estafilococos coagulase-negativos — para dentro da corrente sanguínea. O mesmo protocolo gaúcho atribui a queda das infecções por Gram-positivos, no seu serviço, ao cuidado com a inserção e a manutenção dos cateteres, o que é a melhor demonstração de que essa porta se fecha com processo. Quando a hemocultura colhida pelo cateter positiva mais de duas horas antes da colhida na veia periférica, a diferença sugere que a bactéria mora no dispositivo, e é por isso que as amostras são pareadas e identificadas pela via de coleta.

Agora o ponto que torna este paciente perigoso para quem o examina. Quase tudo o que o exame físico procura como sinal de infecção é obra do neutrófilo: o pus do abscesso, a consolidação que a radiografia mostra, os leucócitos na urina, o endurecimento vermelho da celulite, o exsudato na garganta. Sem neutrófilos, a pneumonia pode ainda não ter imagem, a infecção urinária pode vir quase sem piúria, a pele infectada pode estar só rosada. A febre, que não depende de o neutrófilo chegar ao tecido, costuma sobrar como o único sinal — e o antitérmico tomado em casa apaga até ele. Por isso os protocolos tratam como neutropênico febril quem está neutropênico e tem sinal de infecção sem febre, e o pediátrico da Ebserh escreve com todas as letras que apatia e hipotensão no neutropênico afebril valem como alto risco.

Sem a primeira linha de defesa, a bacteremia que começou na mucosa não encontra quem a contenha no tecido, e a progressão até o choque se mede em horas. O antibiótico é a única barreira disponível até a medula voltar, e a mortalidade de até 40% nas bacteremias por Gram-negativos tratadas tarde é a expressão numérica dessa ausência. Colher hemoculturas antes da dose preserva a chance de saber o germe; atrasar a dose para colhê-las troca essa chance pela vida do paciente, e o protocolo adulto da Ebserh resolve a disputa a favor da dose: se a coleta vai atrasar, o antibiótico começa.

O tempo muda o cardápio de germes. Nas primeiras horas, o problema é bacteriano. Com a neutropenia que se prolonga, entram os fungos: o protocolo do Grupo Hospitalar Conceição os associa à neutropenia prolongada, ao corticoide e aos cateteres de demora, e o pediátrico da Ebserh separa a Candida, favorecida por mucosite, jejum prolongado, nutrição parenteral, antibiótico de amplo espectro, cateter central e cirurgia gastrointestinal recente, dos fungos filamentosos, que aparecem na neutropenia profunda em torno de catorze dias, no transplante e no corticoide por mais de três semanas. Os vírus, citomegalovírus e herpes simples, acompanham o dano à imunidade celular das quimioterapias de leucemias e linfomas. Esse calendário explica por que a pergunta sobre fungo não é feita na porta, e sim quando a febre persiste depois de alguns dias de antibiótico adequado.

O índice de risco que separa quem pode sair do hospital não mede neutrófilos. Ele mede reserva: o peso dos sintomas, a pressão sistólica, a doença pulmonar obstrutiva crônica, a desidratação, a idade, se a febre começou fora do hospital e se o tumor é sólido ou hematológico sem infecção fúngica prévia. Por isso ele prevê complicação melhor do que a contagem sozinha — duas pessoas com 200 neutrófilos têm destinos diferentes se uma está hipotensa e desidratada. E por isso mesmo ele tem limites, que a revisão de Bellesso aponta: a fronteira entre sintomas leves, moderados e graves é julgamento de quem examina, e poucos estudos testaram o índice em pacientes exclusivamente onco-hematológicos.

Resta o fator estimulador de colônia. Ele acelera a produção de granulócitos a partir dos precursores da medula e, dado antes, encurta e suaviza o vale — é por isso que a diretriz americana de 2026 o indica como profilaxia primária nos esquemas de risco alto. No paciente que já está febril, o raciocínio muda: o episódio é decidido nas primeiras horas pelo antibiótico, e a diretriz de 2010 da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas e a atualização de 2026 concordam que o fator não entra de rotina como tratamento; a de 2026 o deixa como opção para o paciente com alto risco de complicação infecciosa. O antibiótico segura; quem encerra o episódio é o neutrófilo que volta. É por isso que os protocolos brasileiros usam a recuperação da contagem como o marco principal para encerrar o antibiótico — e divergem sobre o que fazer quando ela demora.

Corte da mucosa intestinal com falhas no epitélio, bactérias no interstício e em um vaso subjacente com muitas hemácias e apenas um neutrófilo.
A lesão da barreira mucosa pode permitir translocação de microrganismos, e a neutropenia reduz a capacidade de contê-los. O esquema mostra um mecanismo possível de infecção durante o tratamento oncológico; não define o agente nem implica que toda mucosite cause bacteremia. A escassez de neutrófilos também pode tornar os sinais inflamatórios menos evidentes.
05

Como se apresenta de verdade

A neutropenia febril se apresenta em três lugares, e em cada um deles alguém diferente decide o destino da primeira hora: o telefone, quando o paciente liga para a unidade básica ou para o ambulatório; a porta do pronto-socorro, onde a classificação de risco lê sinais vitais; e o leito da enfermaria, onde o paciente já internado para quimioterapia faz o pico às três da manhã.

Nos três lugares a pergunta é a mesma, e ela não é sobre a temperatura. É sobre quem está no período de risco, e essa informação não aparece no monitor: ela está no cartão da quimioterapia, na cicatriz do cateter e na boca do paciente, se alguém perguntar.

Percurso de aprendizagem

Pergunte por quimioterapia, data do ciclo, febre em casa, cateter e profilaxias. Temperatura normal depois de antitérmico não encerra a avaliação; gravidade clínica vem antes do resultado do hemograma.

Aprenda a coletar culturas sem atrasar antibiótico, escolher cobertura inicial com a equipe e reavaliar diariamente foco, resistência e necessidade de dispositivo. Escores ajudam na seleção do cuidado, mas não substituem estabilidade e condições de retorno.

Use os casos para explicar decisões e consequências. As doses e os horários da narrativa são exemplos contextualizados; confirme sua adequação ao paciente e ao protocolo assistencial. Consulte as divergências e regras de acesso quando elas mudarem uma decisão concreta.

Quem está no risco: a pergunta que a triagem não faz

O protocolo do Grupo Hospitalar Conceição define a população em risco com uma frase que cabe na ficha de triagem: quimioterapia ou radioterapia nas últimas seis semanas, ou doença hematológica com possibilidade de neutropenia, como aplasia, mielodisplasia ou neutropenia congênita. Quem está nessa população e chega com febre, com relato de febre ou com sinal de infecção entra num fluxo próprio, com metas de tempo próprias, antes de qualquer outra consideração.

Três perguntas localizam o paciente no calendário: quando foi a última aplicação, que tratamento é (e para que doença), e se há cateter. A data importa porque a contagem desce nos dias seguintes à aplicação e o paciente pode chegar antes do vale; o tipo importa porque há esquemas muito mais mielotóxicos que outros e porque a neoplasia hematológica muda a régua; o cateter importa porque é porta de entrada e muda o que se colhe. O protocolo pediátrico da Ebserh inclui justamente essas informações — data e tipo do último ciclo e presença de cateter — na anamnese obrigatória da admissão, e não há razão para o adulto receber menos.

O paciente de quimioterapia costuma carregar a resposta: cartão do ambulatório, receita do antiemético, papel com o nome do esquema. Peça. O acompanhante sabe a data da última aplicação quando o paciente, febril, não lembra. E o cateter totalmente implantável às vezes só aparece quando você afasta a gola da blusa: a pele sobre ele sem calor e sem vermelhidão não afasta infecção, mas a presença dele já decide que as hemoculturas serão pareadas.

O telefone é o primeiro lugar em que a neutropenia febril se perde. O paciente liga para a unidade básica às quatro da tarde, diz que está com 37,8 °C e que se sente bem, e a resposta fácil é tomar dipirona e observar. Nenhum dos documentos usados neste capítulo sustenta essa resposta. Os protocolos contam o relógio a partir da febre, e o do Grupo Hospitalar Conceição trata o relato de febre nas últimas 24 horas como sinal de infecção independentemente da aferição. Quem atende o telefone da atenção primária orienta ir ao pronto-socorro agora, levando o cartão da quimioterapia, e aciona transporte se o paciente estiver prostrado, confuso ou com falta de ar — antitérmico em casa só adia a decisão e apaga o sinal que a equipe da porta precisaria ver.

O que é febre neste paciente

Não existe um número único, e o aluno precisa conhecer os quatro que vai encontrar. A diretriz de 2010 da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas define febre por temperatura oral: uma medida de 38,3 °C ou mais, ou 38,0 °C ou mais mantidos por uma hora. A rotina brasileira mede a temperatura na axila, e a revisão de Bellesso registra que não há consenso sobre o equivalente axilar — os estudos usaram de 37,5 °C a 38 °C, e muitos serviços adotam 37,8 °C.

Os dois protocolos brasileiros de adulto fizeram escolhas diferentes. O do Grupo Hospitalar Conceição, de 2019, adota 37,5 °C axilar em medida única, com três razões escritas: o termômetro axilar marca menos que o oral, o antitérmico dado quando a temperatura beira os 38 °C esconde febres, e o atraso mata, de modo que o protocolo prefere errar para o lado sensível; o mesmo documento adota neutrófilos abaixo de 1.000. O da Ebserh no Triângulo Mineiro, de 2025, escrito para a onco-hematologia, define a neutropenia febril pós-quimioterapia como temperatura axilar acima de 37,8 °C, ou entre 37,5 °C e 37,8 °C por mais de uma hora.

Esta apostila segue o critério do documento escrito para o paciente que está à frente: no adulto com tumor sólido, e em quem tem doença hematológica mas ainda não fez quimioterapia, vale o 37,5 °C em medida única do Grupo Hospitalar Conceição; no adulto onco-hematológico depois da quimioterapia, vale a definição do protocolo da Ebserh. A divergência completa, com as datas e o porquê, está no bloco de divergências.

Duas regras valem em qualquer das réguas e pesam mais do que o decimal. A primeira: o antitérmico tomado nas horas anteriores invalida a temperatura da porta, e a febre relatada em casa conta — o 37,4 °C de Generosa, duas horas e meia depois da dipirona, não a tira do fluxo. A segunda: a ausência de febre não protege. O protocolo adulto da Ebserh manda tratar como neutropênico febril quem está neutropênico e tem sinal suspeito de infecção sem febre, e o do Grupo Hospitalar Conceição aciona o fluxo, mesmo afebril, diante de dois de três achados: frequência respiratória de 22 ou mais, pressão sistólica de 100 mmHg ou menos, e escala de coma de Glasgow de 13 ou menos. Na leitura desta apostila, hipotermia, calafrio, prostração e hipotensão no paciente em quimioterapia valem como febre para efeito de conduta.

O que é neutropenia, e o que é queda esperada

A contagem que decide é a absoluta de neutrófilos, e a leitura dela no laudo, com as armadilhas da contagem automatizada, é do capítulo Hemograma: como ler de verdade, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito. Aqui interessa o que o número faz com a conduta.

O protocolo do Grupo Hospitalar Conceição usa neutrófilos abaixo de 1.000 por microlitro como corte operacional, e distingue dentro dele a neutropenia severa, abaixo de 500 ou prevista para chegar lá em até 48 horas, e a profunda, abaixo de 100. A diretriz americana de 2010 e o protocolo pediátrico da Ebserh usam o corte de 500, com a mesma cláusula de queda esperada; o pediátrico escreve a faixa entre 500 e 1.000 com expectativa de redução em 48 horas. O protocolo adulto da Ebserh não põe número de neutrófilos na definição, mas usa a neutropenia profunda abaixo de 100 com previsão de mais de sete dias para definir alto risco e a recuperação acima de 500 para encerrar o tratamento.

A cláusula de queda esperada é a que exige conversa com a oncologia. Um paciente no quinto dia de um esquema muito mielotóxico, com 1.300 neutrófilos e febre, está numa contagem que não preenche o corte, mas numa curva que vai preenchê-lo antes de a hemocultura crescer. Quem sabe desenhar essa curva é a equipe que prescreveu o ciclo; na dúvida e fora do horário dela, trate como neutropênico.

Antes do resultado, a regra é da revisão de Bellesso: a neutropenia febril deve ser sempre suspeitada no paciente em quimioterapia com febre ou com sinais e sintomas de infecção, e ele deve ser considerado neutropênico até que o hemograma confirme ou descarte. Na prática, o hemograma é pedido na triagem, com meta de minutos e não de horas, e a primeira dose não fica refém dele quando a demora ameaça o prazo.

O exame que procura o que a neutropenia apaga

O exame físico é completo, mas tem um roteiro, porque o foco que existe costuma ser pequeno. O protocolo pediátrico da Ebserh lista os lugares em que a busca não pode faltar — pele e fâneros, períneo, orofaringe, gengivas e ouvidos —, e a lista serve igualmente ao adulto. Some a ela o sítio do cateter, o trajeto do túnel e a loja do cateter implantável, o pulmão e o abdome.

Na boca, procure mucosite, úlcera, placa esbranquiçada e gengiva necrótica: a mucosite oral grave abre porta para Gram-positivos e Candida, e a gengivite necrosante para anaeróbios. Na pele, olhe dobras, unhas, locais de punção recente e qualquer lesão nova, por menor que seja. No cateter, palpe a loja e o trajeto, procure calor, dor, secreção e hiperemia no orifício de saída. No abdome, dor de início recente em quem tem mucosite gastrointestinal grave é a pista da enterocolite neutropênica e muda o esquema e o exame de imagem.

O períneo e a região perianal são inspecionados, não tocados. A celulite perianal é foco de anaeróbios e se vê; o toque retal não entra no exame do paciente com suspeita de neutropenia, orientação escrita pelo instituto que gere o Hospital de Base do Distrito Federal na página em que descreve o atendimento. Pela mesma lógica — mucosa lesada, plaquetas baixas e bactéria à espera de uma fissura —, esta apostila estende a proibição a tudo o que entra pelo reto: supositório, enema e termômetro retal. Essa extensão é leitura desta apostila, não frase de protocolo.

Os sinais vitais completam o exame e já estratificam. Pressão sistólica, frequência respiratória, perfusão periférica, nível de consciência e hidratação entram na conta do índice de risco e nos critérios de gravidade. Hipotensão, taquipneia ou confusão mandam o paciente para a sala de emergência e colocam o atendimento sob o pacote de sepse, cujo manejo completo é do capítulo Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais, da apostila de Medicina Intensiva e Emergências — este capítulo acrescenta a ele só o que é próprio do neutropênico.

A criança com câncer e febre: a primeira hora que ninguém assumia

Nenhum capítulo do nível assume a neutropenia febril da criança. O capítulo de leucemia linfoblástica aguda, da apostila de Oncologia Pediátrica, remete o reconhecimento e os cortes ao capítulo de hemograma; o de febre sem sinais localizatórios, da apostila de Emergências Pediátricas, manda a criança imunossuprimida sair daquela régua e seguir o fluxo de neutropenia febril do serviço. Este capítulo assume a primeira hora da criança e a primeira prescrição, pelo protocolo pediátrico da Ebserh de 2024, e deixa a estratificação fina, o antifúngico e a duração com a oncologia pediátrica que a acompanha.

O protocolo pediátrico define neutropenia como menos de 500 neutrófilos, ou entre 500 e 1.000 com queda esperada em 48 horas, e febre como dois picos axilares de 37,8 °C ou mais em 24 horas, um pico de 38 °C mantido por uma hora, ou dois episódios entre 37,5 °C e 37,8 °C num intervalo de 12 horas. Escrita assim, a definição deixa de fora a criança com um pico único de 39 °C, e o defeito está registrado no critério. Esta apostila lê o segundo item como 38 °C ou mais mantidos por uma hora e trata como febre o pico único acima disso — leitura desta apostila, não do protocolo.

O índice de risco do adulto não serve para a criança. O protocolo pediátrico classifica pelo quadro: alto risco é a neutropenia profunda com previsão prolongada ou qualquer instabilidade, mucosite, sintoma gastrointestinal, alteração neurológica aguda, infecção de cateter, infiltrado ou hipoxemia, e insuficiência hepática ou renal — e esse paciente é obrigatoriamente internado com antibiótico venoso. O baixo risco, estável e com neutropenia prevista curta, pode passar para via oral depois de 24 a 48 horas, ainda no hospital.

A primeira prescrição é cefepima em monoterapia, 50 mg/kg por dose de 8 em 8 horas, sem passar de 2 g por dose. A vancomicina entra por indicação — infecção de cateter documentada, pele e partes moles, instabilidade, pneumonia na radiografia, Gram-positivo na hemocultura —, e o protocolo pediátrico faz questão de dizer que mucosite grave não é indicação, porque a cefepima cobre os estreptococos do grupo viridans. É uma diferença real em relação ao adulto do Grupo Hospitalar Conceição, que usa piperacilina com tazobactam e acrescenta vancomicina na mucosite severa de quem fez profilaxia com ciprofloxacino: os dois documentos escrevem para pacientes e antibióticos-base diferentes, e cada um vale para o seu.

A outra metade do título, e as emergências que moram ao lado

A síndrome da veia cava superior é a outra metade do título deste capítulo e tem dono declarado no nível: o capítulo Câncer de pulmão (não-pequenas células, estadiamento, ressecabilidade), da apostila de Cirurgia Torácica, assumiu-a por escrito, e o capítulo Massas de mediastino, da mesma apostila, remete a ele. O que o interno precisa trazer daqui é o reconhecimento: edema de face, pescoço e membros superiores, veias colaterais dilatadas no tórax e piora ao deitar num paciente com massa torácica ou câncer conhecido. A investigação e a conduta estão lá, e este capítulo não as reescreve.

As outras emergências oncológicas também têm endereço. A síndrome de lise tumoral, com critérios e manejo de plantão, é do capítulo Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo, da apostila de Medicina Intensiva e Emergências. A hipercalcemia da malignidade é do mesmo capítulo de câncer de pulmão que assumiu a veia cava. A compressão medular é do capítulo Compressão medular não traumática: metástase, abscesso epidural e cauda equina, da apostila de Neurocirurgia. A dor oncológica e a decisão de cuidado de fim de vida são do capítulo Cuidados paliativos e manejo da dor oncológica, da apostila de Geriatria.

Em sentido inverso, este capítulo é o dono da neutropenia febril do adulto em quimioterapia — do reconhecimento à reavaliação de 72 horas e ao encerramento do antibiótico — e os capítulos que a encontram no caminho remetem para cá: Febre no paciente internado e no pós-operatório, que continua dono da febre do internado em geral e da infecção de corrente sanguínea associada a cateter; Febre sem foco no adulto; Hemograma: como ler de verdade; e Leucemias agudas e crônicas: reconhecimento e triagem. O descalonamento e a duração do antibiótico da enfermaria em geral seguem com o capítulo Antibioticoterapia na enfermaria: escolha, descalonamento e duração, e a técnica e as complicações do acesso central com o capítulo Acesso venoso central: indicação, sítios e o que dá errado.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da neutropenia febril tem uma particularidade que a separa de quase todo o resto da clínica: ela corre ao lado do tratamento, e não antes dele. O diagnóstico que autoriza o antibiótico é feito com a história, a temperatura e uma contagem de neutrófilos; tudo o que se pede depois serve para achar o germe, medir a disfunção e decidir o que muda em 48 a 72 horas.

Por isso a pergunta que organiza cada pedido é de tempo. O que cabe antes da primeira dose sem atrasá-la é colhido antes. O que não cabe é colhido depois, e o protocolo adulto da Ebserh escreve a regra de desempate sem rodeio: se a coleta das amostras para microbiologia vai atrasar, ou já atrasou, o antibiótico começa imediatamente.

Hemograma: o exame que muda o fluxo na porta

O hemograma com plaquetas é o único exame que decide, na porta, se o paciente segue o fluxo da neutropenia febril ou volta para a fila comum. O protocolo do Grupo Hospitalar Conceição trata esse exame como parte da triagem: a enfermeira que identifica o paciente da população em risco pede o hemograma para todos eles, com meta de quinze minutos entre a abertura do boletim e a triagem, e o laboratório liga para o médico da sala com o resultado, com meta de quinze minutos entre a coleta e o telefonema.

Com o resultado na mão, o fluxo bifurca. Sem neutropenia, o paciente volta à classificação de risco comum e é atendido pela queixa. Com neutropenia, entra no pacote de sepse do protocolo: exames de disfunção orgânica, culturas e antibiótico de amplo espectro, com meta de trinta minutos entre o resultado do hemograma e a coleta das culturas. As plaquetas não decidem o fluxo, mas pesam em tudo o que envolve agulha e mucosa — punção, sonda, exame do períneo — e entram na conversa com a hematologia quando estão muito baixas.

Se o laboratório do seu serviço não tem a meta de quinze minutos, a regra não muda de lado. O paciente em quimioterapia com febre é neutropênico até prova em contrário, e a primeira dose não espera por um resultado que vai chegar depois do prazo.

Hemoculturas: pareadas, antes da dose, sem atrasar a dose

Com cateter venoso central, o protocolo do Grupo Hospitalar Conceição manda colher hemoculturas pareadas: uma amostra de sangue periférico e uma de cada via do cateter, com 8 a 10 mL por frasco no adulto, respeitando o conjunto e a orientação do laboratório, com o horário e a via anotados na requisição. Sem cateter, duas amostras periféricas de punções em sítios diferentes, também com 8 a 10 mL por frasco no adulto, respeitando o conjunto e a orientação do laboratório. A meta de coleta é de trinta minutos a partir da febre ou do sinal de infecção. O protocolo adulto da Ebserh pede hemoculturas para bactérias e fungos e inclui o sangue colhido do cateter profundo, seja ele semi-implantável ou totalmente implantável.

A anotação da via não é burocracia. Quando a amostra do cateter positiva mais de 120 minutos antes da periférica, o protocolo gaúcho lê a diferença como sugestiva de infecção relacionada ao cateter; sem saber de onde veio cada frasco, essa informação se perde. O diagnóstico completo da infecção de corrente sanguínea associada ao cateter, a leitura de ponta e a decisão de retirar o dispositivo são do capítulo Febre no paciente internado e no pós-operatório, da apostila de Síndromes do Paciente Internado. Do neutropênico, este capítulo guarda uma lista a mais, do Grupo Hospitalar Conceição: além do tratamento de 14 dias, a retirada do cateter é considerada quando crescem Staphylococcus aureus, Pseudomonas aeruginosa, Candida ou outros fungos, ou micobactéria não tuberculosa, e é sugerida na infecção do cateter implantável, no êmbolo séptico, na endocardite, na instabilidade hemodinâmica e na bacteremia que persiste depois de 72 horas de antibiótico adequado.

Na criança, o volume muda: o protocolo pediátrico da Ebserh pede de 1 a 3 mL por amostra, com mínimo de 1 e máximo de 5 mL, mantendo a lógica de uma amostra periférica e uma de cada via quando há cateter central.

Urina, secreções e o lote de disfunção

A urina entra sempre, com exame de rotina e urocultura, porque a infecção urinária do neutropênico pode vir quase sem piúria e sem queixa. Culturas de secreções, de abscessos, de lesões de pele e de fezes entram quando há o que colher; o protocolo pediátrico acrescenta a pesquisa de Clostridioides difficile e a coprocultura no paciente com diarreia, e o aspirado ou a biópsia da lesão de pele suspeita.

O lote de disfunção orgânica do protocolo do Grupo Hospitalar Conceição, pedido junto com as culturas, reúne proteína C reativa, bilirrubinas, gasometria, tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada, fibrinogênio, ureia e creatinina. A gasometria com lactato separa o paciente em choque, e a partir daí o volume, as metas e os vasopressores seguem o capítulo Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais.

Creatinina, eletrólitos e exames de disfunção ajudam a reconhecer gravidade e planejar dose. Em infusão prolongada de betalactâmico, confirmar ataque e manutenção conforme protocolo farmacocinético. Insuficiência renal grave ou diálise não podem ser ignoradas por uma regra geral de 48 horas. PCR auxilia a evolução, sem decidir sozinha início ou suspensão do tratamento.

Imagem: a radiografia não segura a dose, e a tomografia tem hora

A radiografia de tórax é pedida na entrada, e o protocolo do Grupo Hospitalar Conceição acrescenta a ressalva que importa: ela não deve retardar a coleta dos exames nem o início do antibiótico. O protocolo adulto da Ebserh a inclui para todo paciente admitido por neutropenia febril; o pediátrico a pede na presença de sintomas respiratórios. Uma radiografia normal no neutropênico não afasta pneumonia, pelo mesmo motivo que a piúria pode faltar na infecção urinária.

A tomografia tem hora, e ela raramente é a primeira. A de tórax e seios paranasais é pedida, pelo protocolo adulto da Ebserh, sempre que se suspeita de infecção fúngica ou se considera antifúngico empírico, e no paciente com febre persistente ou recorrente independentemente de haver sintoma respiratório. A de abdome é pedida quando a mucosite gastrointestinal grave vem com dor abdominal de início agudo e se suspeita de enterocolite neutropênica; o pediátrico aceita ultrassonografia ou tomografia conforme a gravidade dos sintomas gastrointestinais. Sintoma neurológico pede tomografia de crânio e líquor, pelo pediátrico.

A regra que atravessa as três é a mesma: o exame de imagem responde à pergunta clínica que o paciente trouxe ou que a evolução criou. Ninguém leva o neutropênico febril estável para a tomografia antes da primeira dose, e ninguém deixa de pedir a tomografia de tórax no quarto dia de febre sem foco em quem tem neutropenia prolongada.

Galactomanana e a pergunta do fungo

A pesquisa de fungo pertence à evolução, não à porta, e a régua muda com o paciente. No adulto onco-hematológico, o protocolo da Ebserh recomenda dosagem seriada de galactomanana no soro, duas a três vezes por semana, e tomografia de tórax e seios paranasais para quem mantém febre ou volta a tê-la — é a chamada terapia preemptiva, em que o antifúngico entra porque a sorologia ou a tomografia sugerem infecção, mesmo sem outro sinal clínico.

O protocolo do Grupo Hospitalar Conceição usa os mesmos exames para escolher o antifúngico: com febre persistente apesar do antibiótico, neutropenia de sete dias ou mais e piora clínica, galactomanana negativa e tomografias de tórax e seios da face sem imagem de infecção fúngica invasiva — ou levedura na hemocultura —, entra uma equinocandina; aspergilose provável ou comprovada pede voriconazol. Na criança, o protocolo pediátrico da Ebserh não recomenda galactomanana de rotina.

Nada disso é decisão do interno de plantão, e o capítulo não a transforma em prescrição. O que é do interno é lembrar a pergunta no dia certo: febre que persiste a partir do quarto dia de antibiótico adequado num paciente com neutropenia prolongada é hora de falar com a hematologia sobre tomografia e galactomanana, e não de trocar o antibiótico mais uma vez.

O que não se faz em nome da investigação

Não se atrasa a primeira dose por nenhum exame: nem pela radiografia, nem pela tomografia, nem pelo resultado do hemograma quando ele vai chegar depois do prazo, nem pela segunda amostra de hemocultura que a veia difícil não deu. Colha o que couber e prescreva a dose; a amostra que faltou é colhida em seguida, sabendo que ela perdeu parte do valor.

Evitar toque retal e procedimentos retais desnecessários durante neutropenia importante. Não esperar a febre reaparecer após antitérmico para reconhecer o episódio. Tratar desconforto conforme indicação, sem atrasar coleta rápida e antibiótico; o relato de febre continua válido.

Não se manda a ponta de um cateter retirado para cultura sem hemocultura pareada, e não se trata cultura de ponta como diagnóstico — a leitura correta dessa cultura está no capítulo de febre no paciente internado. E não se espera o laudo da cultura para reavaliar: a reavaliação de 48 a 72 horas acontece com o que estiver pronto, porque a hemocultura negativa naquele momento também é informação.

07

Reconhecer e tratar prontamente neutropenia febril

Objetivo no internato: compreender a apresentação, justificar as hipóteses e propor cuidado e reavaliação sob supervisão. Pergunte por quimioterapia, data do ciclo, febre em casa, cateter e profilaxias. Temperatura normal depois de antitérmico não encerra a avaliação; gravidade clínica vem antes do resultado do hemograma. Reconhecer o episódio, iniciar cuidado na primeira hora, estratificar risco clínico e organizar reavaliação são as decisões centrais. O antibiótico inicial cobre Pseudomonas conforme protocolo, alergias, exposições e resistência local; vancomicina exige indicação. Baixo risco depende de condições reais de observação e retorno. A duração distingue infecção documentada de febre sem foco e é revista pela evolução, em vez de um prazo único por tipo de tumor.

  1. 1Quimioterapia ou radioterapia nas últimas seis semanas, ou doença hematológica com possibilidade de neutropenia, com febre, relato de febre nas últimas 24 horas ou sinal de infecção: o paciente sai da fila comum.
  2. 2Hemograma com plaquetas pedido na triagem e exame dirigido — boca, pele, cateter, períneo à inspeção, pulmão, abdome. Se o resultado vai passar do prazo, trate como neutropênico.
  3. 3Hipotensão, alteração de perfusão, dispneia, hipoxemia ou confusão exigem avaliação imediata de sepse e suporte. Não depender de qSOFA positivo para reconhecer gravidade; vancomicina é considerada conforme instabilidade e risco de foco Gram-positivo.
  4. 4Hemoculturas pareadas (periférica e cada via do cateter) e urina, sem atrasar a dose. Primeira dose do betalactâmico antipseudomonas em até 60 minutos.
  5. 5Vancomicina só com critério: instabilidade, suspeita de infecção do cateter, pele e partes moles, pneumonia, Gram-positivo na hemocultura, colonização por MRSA, mucosite grave em quem usava quinolona profilática.
  6. 6Alto risco clínico — neutropenia profunda com previsão de mais de sete dias, disfunção orgânica, hipotensão, pneumonia, dor abdominal recente, alteração neurológica, leucemia aguda, transplante — ou índice abaixo de 21: interna com antibiótico venoso.
  7. 7Baixo risco pelo índice requer confirmação clínica e logística. Internação inicial é uma opção; alta selecionada pressupõe programa estruturado, dose inicial, observação suficiente, tolerância oral e retorno rápido.
  8. 8De 48 a 72 horas: febre isolada em paciente estável não troca esquema; instabilidade escalona para meropeném com vancomicina; cultura positiva dirige o esquema; vancomicina sem Gram-positivo e com estabilidade sai em 3 a 5 dias.
  9. 9Febre persistente com neutropenia prolongada exige investigação de fungo invasivo com hematologia/infectologia, incluindo imagem e biomarcadores conforme contexto. Coletar prontamente, mas não atrasar antifúngico necessário em deterioração enquanto se espera confirmação.
  10. 10Reavaliar diariamente foco, culturas, estabilidade e evolução. Infecção documentada segue agente/sítio e controle. Sem foco, protocolos atuais podem permitir suspensão após recuperação clínica e período afebril, mesmo sem recuperação completa dos neutrófilos; a AGIHO descreve 3–5 dias de defervescência. Não aplicar mínimo universal de 7–14 dias.
  11. 11Criança: cefepima 50 mg/kg por dose de 8 em 8 horas, até 2 g; sem o índice do adulto; alto risco interna obrigatoriamente; oncologia pediátrica desde a primeira hora.

Quem é neutropênico febril, conforme o documento e o paciente

Documento e para quem escreveFebreNeutropeniaSem febre, trata como neutropênico febril quando
Grupo Hospitalar Conceição, 2019 — adulto com câncer em quimioterapia ou radioterapia nas últimas seis semanas, ou doença hematológica com possibilidade de neutropenia37,5 °C ou mais na axila, em medida única; o relato de febre nas últimas 24 horas conta como sinal de infecçãoMenos de 1.000/µL; severa abaixo de 500 ou com queda esperada em 48 horas; profunda abaixo de 100Há dois de três achados: frequência respiratória de 22 ou mais, pressão sistólica de 100 mmHg ou menos, Glasgow de 13 ou menos; ou sinal clínico de infecção
Ebserh, Hospital de Clínicas da UFTM, 2025 — adulto onco-hematológico e transplante autólogo, depois da quimioterapiaAcima de 37,8 °C na axila, ou entre 37,5 °C e 37,8 °C por mais de uma horaSem número na definição; neutropenia profunda abaixo de 100 com previsão de mais de sete dias define alto riscoHá sinais suspeitos, sugestivos ou compatíveis com infecção
Ebserh, Hospital de Clínicas da UFTM, 2024 — criança e adolescente com câncerDois picos de 37,8 °C ou mais em 24 horas; pico de 38 °C mantido por uma hora; ou dois episódios entre 37,5 °C e 37,8 °C em 12 horas (defeito nas notas)Menos de 500/mm³, ou entre 500 e 1.000 com queda esperada em 48 horas; profunda abaixo de 100Há apatia e hipotensão, que já classificam como alto risco
Sociedade Americana de Doenças Infecciosas, 2010 — referência internacional, termômetro oral38,3 °C ou mais em medida oral única, ou 38,0 °C ou mais mantidos por uma horaMenos de 500/mm³, ou queda esperada para menos de 500 nas 48 horas seguintesNão consta das recomendações lidas

O índice de risco da Associação Multinacional de Cuidados de Suporte em Câncer, pergunta por pergunta

O que o índice perguntaPontos quando a resposta protegeComo perguntar à beira do leito
Quanto o episódio pesa em sintomas5 se nenhum ou leve; 3 se moderado; 0 se grave ou moribundoO paciente anda, come e conversa como antes da febre? A fronteira entre leve, moderado e grave é julgamento de quem examina; na dúvida, esta apostila usa a faixa pior
Pressão sistólica acima de 90 mmHg5Pressão medida, e não estimada; hipotensão já é critério clínico de alto risco, qualquer que seja a soma
Ausência de doença pulmonar obstrutiva crônica4O protocolo do Grupo Hospitalar Conceição conta como doença bronquite crônica ativa, enfisema, volume expiratório forçado baixo ou uso de oxigênio domiciliar, corticoide ou broncodilatador
Tumor sólido, ou neoplasia hematológica sem infecção fúngica prévia4Pergunte pelo diagnóstico e por internações anteriores com antifúngico
Ausência de desidratação3Mucosas, diurese, ingestão das últimas 24 horas e necessidade de hidratação venosa
O episódio começou fora do hospital3O paciente estava em casa quando a neutropenia e a febre começaram? Quem já estava internado não ganha estes pontos
Idade abaixo de 60 anos2Pela data de nascimento, sem arredondar
Leitura do totalMáximo de 26; baixo risco com 21 ou maisUm protocolo brasileiro escreve acima de 21 e outro inverte o sentido do corte: ver as notas antes de aplicar

O que entra na primeira hora do adulto, e quando acrescentar

SituaçãoO que se prescreveRégua
Neutropênico febril estável, sem critério de acréscimo, tumor sólidoPiperacilina-tazobactam EV é opção antipseudomonas; dose inicial e manutenção, infusão e ajustes renais seguem protocolo e avaliação clínica. Não ignorar automaticamente insuficiência renal por 48 horas.Grupo Hospitalar Conceição, 2019
Neutropênico febril estável, onco-hematológico depois da quimioterapiaMonoterapia com ação antipseudomonas: cefepima 2 g IV de 8 em 8 horas ou piperacilina + tazobactam 4,5 g IV de 6 em 6 horas, conforme a padronização do serviçoEbserh adulto, 2025
Instabilidade hemodinâmica, sepse ou choqueAcrescentar vancomicina e seguir o pacote de sepseGrupo Hospitalar Conceição, 2019; Ebserh adulto, 2025
Suspeita de infecção do cateter — secreção ou hiperemia no orifício, bacteremia depois de infusão pelo cateter —, pele e partes moles, Gram-positivo na hemocultura, colonização por MRSAAcrescentar vancomicina até a identificação do germeGrupo Hospitalar Conceição, 2019; Ebserh adulto, 2025
PneumoniaAcrescentar vancomicina (na Ebserh, com evidência radiológica)Grupo Hospitalar Conceição, 2019 (fluxo da emergência); Ebserh adulto, 2025
Mucosite grave em quem usava ciprofloxacino profilático; na Ebserh, mucosite grau III ou IV ou profilaxia atual com quinolonaAcrescentar vancomicina; na criança, mucosite grave não indica vancomicinaGrupo Hospitalar Conceição, 2019; Ebserh adulto, 2025; Ebserh pediátrico, 2024
Mucosite gastrointestinal grave com dor abdominal de início agudoTomografia de abdome e esquema com cobertura para anaeróbios: piperacilina + tazobactam, ou cefepima com metronidazol 500 mg IV de 8 em 8 horas, ou imipenémEbserh adulto, 2025
Piora clínica em uso do esquema inicialTrocar para meropeném 2 g IV de 8 em 8 horas em 3 horas, com vancomicinaGrupo Hospitalar Conceição, 2019
Colonização ou infecção prévia por germe multirresistenteEsquema definido caso a caso com a comissão de controle de infecção; alta recente, reiniciar o último esquema usadoGrupo Hospitalar Conceição, 2019; Ebserh adulto, 2025

Da dose ao frasco: adulto de 70 kg e criança de 20 kg

Fármaco, esquema e réguaDose no exemploApresentação de referênciaQuanto é, por dosePreparo e limites
Piperacilina + tazobactam 4,5 g IV de 8/8 h em 4 h (Grupo Hospitalar Conceição)4,5 g por dose; 13,5 g por diaFrasco-ampola de 4 g + 500 mg (bula Blau); não consta da Rename 20241 frasco; 3 por diaReconstituir em 20 mL e diluir em 100 mL para a infusão estendida
Piperacilina + tazobactam 4,5 g IV de 6/6 h (Ebserh adulto)4,5 g por dose; 18 g por diaFrasco-ampola de 4 g + 500 mg1 frasco; 4 por diaO protocolo não fixa o tempo de infusão
Cefepima 2 g IV de 8/8 h (Ebserh adulto)2 g por dose; 6 g por diaFrascos-ampola de 1 g e de 2 g (bula Fresenius); não consta da Rename 20241 frasco de 2 g, ou 2 de 1 gÉ a dose dos estudos de registro no neutropênico febril, segundo a bula
Meropeném 2 g IV de 8/8 h em 3 h, na piora clínica (Grupo Hospitalar Conceição)2 g por dose; 6 g por diaFrasco-ampola de 1 g (bula BioChimico); não consta da Rename 20242 frascos; 6 por diaCada 1 g reconstituído em 20 mL e infundido em 100 mL de soro fisiológico
Meropeném 1 g IV de 8/8 h (Ebserh adulto)1 g por dose; 3 g por diaFrasco-ampola de 1 g1 frasco; 3 por diaMesmo preparo
Vancomicina, ataque de 25 mg/kg e 15 mg/kg de 12/12 h (Grupo Hospitalar Conceição, texto do tratamento)Ataque de 1.750 mg; manutenção de 1.050 mgFrasco-ampola de 500 mg (bula Blau); não consta da Rename 2024Ataque: 3,5 frascos; manutenção: 2,1 frascosConcentração máxima de 5 mg/mL e velocidade máxima de 10 mg/min: o ataque pede pelo menos 350 mL e 175 minutos; a manutenção, 210 mL e 105 minutos
Vancomicina, ataque de 30 mg/kg e 15 a 20 mg/kg de 12/12 h, até 2 g por dose (Ebserh adulto)Ataque de 2.100 mg, limitado a 2.000 mg; manutenção de 1.050 a 1.400 mgFrasco-ampola de 500 mgAtaque: 4 frascos; manutenção: 2,1 a 2,8 frascosO teto de 2 g por dose passa a limitar o ataque a partir de 66,7 kg; 2.000 mg pedem pelo menos 400 mL e 200 minutos
Amoxicilina + clavulanato com ciprofloxacino por via oral, no adulto de baixo risco (diretrizes americanas de 2010 e 2018)Dose não fixada nos documentos que recomendam o esquemaComprimidos de 500 mg + 125 mg e de 250 mg e 500 mg (Rename 2024, Componente Básico)Segue a padronização do serviçoNão usar a quinolona se ela já era a profilaxia antes da febre
Criança de 20 kg: cefepima 50 mg/kg por dose IV de 8/8 h, até 2 g (Ebserh pediátrico)1.000 mg por doseFrasco-ampola de 1 g1 frascoO teto de 2 g é alcançado com 40 kg
Criança de 20 kg: vancomicina 10 mg/kg por dose IV de 6/6 h, até 500 mg, com critério (Ebserh pediátrico)200 mg por doseFrasco-ampola de 500 mg0,4 frascoO teto de 500 mg é alcançado com 50 kg
Criança de 20 kg: meropeném 40 mg/kg por dose IV de 8/8 h, até 2 g, se cefalosporina nos últimos 30 dias com instabilidade (Ebserh pediátrico)800 mg por doseFrasco-ampola de 1 g reconstituído em 20 mL (50 mg/mL)16 mLO mesmo documento manda imipeném no uso empírico sem dar a dose: ver notas
Criança de 20 kg: amicacina 15 mg/kg por dia IV, até 1,5 g, se Gram-negativo na hemocultura (Ebserh pediátrico)300 mg por diaSolução injetável de 250 mg/mL (Rename 2024, Componente Estratégico)1,2 mL, uma vez ao diaO teto de 1,5 g é alcançado com 100 kg
Criança de 20 kg, baixo risco, depois de 24 a 48 h de antibiótico venoso: ciprofloxacino 10 a 20 mg/kg por dose de 12/12 h, até 750 mg, e amoxicilina + clavulanato 50 a 90 mg/kg por dia de 8/8 h, até 1 g por dose (Ebserh pediátrico)Ciprofloxacino de 200 a 400 mg; amoxicilina de 333 a 600 mg por doseCiprofloxacino em comprimido de 250 mg ou 500 mg; amoxicilina + clavulanato em suspensão de 50 mg/mL + 12,5 mg/mL (Rename 2024, Componente Básico)Ciprofloxacino: 1 comprimido de 250 mg (12,5 mg/kg); amoxicilina: de 6,7 a 12 mLA passagem para via oral é só do baixo risco e ainda no hospital

O protocolo adulto da Ebserh do Triângulo Mineiro, emitido em abril de 2025, escreve que pontuação menor que 21 é baixo risco e pontuação entre 22 e 26 é alto risco. O sentido está invertido: a tabela cita como fonte o estudo original do índice, e a revisão brasileira de Bellesso confirma que o baixo risco é 21 ou mais. A conta mostra o tamanho do dano. Das 192 combinações possíveis dos sete itens, 178 somam menos de 21 e seriam chamadas de baixo risco pelo texto — inclusive o paciente com sintomas graves e hipotenso, que soma no máximo 16 —; 8 somam de 22 a 26 e seriam chamadas de alto risco, justamente os perfis mais protegidos; e 6 somam exatamente 21 e não pertencem a classe nenhuma. No parágrafo anterior o mesmo documento lista hipotensão como critério de alto risco, e o paciente hipotenso soma no máximo 21. Use o índice no sentido original: 21 ou mais é baixo risco.

O protocolo do Grupo Hospitalar Conceição, de 2019, escreve pontuação acima de 21 como baixo risco, e o corte validado é 21 ou mais. Das 192 combinações do índice, 14 alcançam 21 ou mais, e 6 delas somam exatamente 21: lido ao pé da letra, o protocolo tira do baixo risco 6 desses 14 perfis — 43% deles. Neste capítulo o efeito na porta é pequeno, porque esta apostila adota a internação inicial de todos; o erro volta a pesar na decisão de passar para via oral e dar alta, que usa o mesmo índice.

O mesmo protocolo dá três primeiras doses diferentes de vancomicina. No texto do tratamento, ataque de 25 mg/kg seguido de 15 mg/kg de 12 em 12 horas; na prescrição sugerida para o andar, 1 g de 12 em 12 horas, sem ataque; no fluxo da enfermagem, 500 mg retirados do dispensário como primeira dose. Num adulto de 70 kg, o ataque do texto é de 1.750 mg, e a dose do dispensário é 3,5 vezes menor — 29% do ataque. A manutenção do texto, 1.050 mg, bate com o 1 g da prescrição; a discrepância está na primeira dose, justamente a que importa no paciente instável. Esta apostila segue o texto do tratamento, com o ataque calculado pelo peso.

O protocolo do Grupo Hospitalar Conceição define neutropenia severa como menos de 500 neutrófilos por microlitro e profunda como menos de 100, mas indica profilaxia com ciprofloxacino para quem tem previsão de neutropenia severa, escrita com o parêntese de menos de 100, por mais de sete dias. Pela definição, o corte da profilaxia seria 500; pelo parêntese, 100 — cinco vezes de diferença na contagem que decide quem recebe quinolona. Esta apostila lê o número, que coincide com a neutropenia profunda do próprio documento. A profilaxia é decisão de quem prescreve o ciclo; ao interno importa saber se o paciente a usava, porque isso tira a quinolona do esquema oral e entra na indicação de vancomicina.

Na reavaliação de 3 e 6 horas do fluxo da emergência, o mesmo protocolo lista como critério de melhora a melhora da diurese com o parêntese de menos de 0,5 mL/kg/h por pelo menos 2 horas apesar da ressuscitação com fluidos. O número é o da oligúria, não o da melhora: um adulto de 70 kg urinando 30 mL por hora, abaixo dos 35 mL/h que 0,5 mL/kg/h representam, estaria melhorando pela letra do texto. A leitura correta é o inverso, diurese de pelo menos 0,5 mL/kg/h, e a reavaliação do choque segue o capítulo de sepse.

O protocolo pediátrico da Ebserh, de 2024, define febre no neutropênico por três critérios: dois picos axilares de 37,8 °C ou mais em 24 horas; um pico igual a 38 °C mantido por uma hora; dois episódios entre 37,5 °C e 37,8 °C em 12 horas. Aplicados como escritos, nenhum deles alcança a criança com um único pico de 39 °C, nem a que mantém 38,6 °C por uma hora, porque o segundo critério pede exatamente 38. É a criança mais febril que fica fora da definição. Esta apostila lê o segundo critério como 38 °C ou mais mantidos por uma hora e trata como febre o pico único acima desse valor.

No escore de Ammann, o protocolo pediátrico dá 5 pontos para hemoglobina de 9,0 g/L ou mais. A unidade está trocada por um fator 10: 9 g/L são 0,9 g/dL, valor incompatível com a vida, e lida assim toda criança pontua. O escore soma quimioterapia mais intensa que a de manutenção da leucemia linfoide aguda (4), hemoglobina (5), leucócitos abaixo de 300 (3) e plaquetas abaixo de 50.000 (3), com alto risco a partir de 9. Das 16 combinações, 6 são de alto risco com a hemoglobina lida em 9 g/dL e 10 com ela lida em g/L: a criança em quimioterapia intensiva, anêmica, sem leucopenia nem plaquetopenia passa de 4 pontos a 9, e de baixo a alto risco. A leitura possível é 9 g/dL.

No escore de Rondinelli, o mesmo protocolo escreve as faixas como baixo risco de 2,5 a 5,5 inclusive, moderado de 5,5 a 9,0 e alto a partir de 9,0. Com os pesos do próprio documento — 1 para idade até 5 anos, 2 para cateter central, 4,5 para foco infeccioso encontrado, 1 para febre acima de 38,5 °C, 1 para hemoglobina até 7 e 2,5 para ausência de sinais de infecção de via aérea superior —, das 64 combinações 7 somam exatamente 5,5 e caem em duas classes, 4 somam exatamente 9,0 e também caem em duas, e 8 somam 0, 1 ou 2 e não caem em nenhuma. Esta apostila classifica o valor de fronteira pela faixa de maior risco e trata como baixo risco a soma abaixo de 2,5.

O protocolo pediátrico manda substituir a cefepima por meropeném, 40 mg/kg por dose, na criança que usou cefalosporina nos últimos 30 dias e está instável, e logo abaixo diz que o meropeném só é indicado com cultura mostrando sensibilidade exclusiva, devendo o uso empírico ser feito com imipeném com cilastatina, cuja dose o documento não informa. A situação da primeira frase é empírica por definição, porque não há cultura na primeira hora. Quem segue o texto fica, diante da criança instável, entre uma dose que o próprio documento restringe e um fármaco sem dose. Esta apostila adota, no plantão, a dose escrita de meropeném, e deixa a padronização definitiva com a comissão de controle de infecção e a oncologia pediátrica.

08

A conduta, hora a hora

Febre relatada após quimioterapia é sinal de urgência, mesmo com temperatura normal depois de antitérmico. Definições de pesquisa e limiares de triagem variam conforme local de medida e protocolo: a definição clássica associa febre a neutrófilos abaixo de 500/µL ou queda prevista para esse nível. Protocolos podem adotar gatilhos mais sensíveis, como 37,5 °C axilar e contagem abaixo de 1.000, para não atrasar avaliação. Esses gatilhos não devem ser confundidos com uma definição universal. O tratamento empírico depende do risco, resistências, alergias e função renal, não apenas de o tumor ser sólido ou hematológico.

O relógio que a equipe controla começou às 21h40, quando ela passou pela porta. Cada marco abaixo tem o horário, o que se decide e o que vai para a prescrição — e o que decide o desfecho da noite é a soma dos minutos que cada marco não desperdiça.

  1. Segunda-feira, 21h56: o corredor

    Você pega o cartão da quimioterapia da sacola e faz as três perguntas que localizam Generosa no calendário: a última aplicação foi há dez dias, o tratamento é quimioterapia depois da cirurgia de um câncer de mama, e há um cateter totalmente implantável sob a clavícula direita. A filha confirma a febre de 38,1 °C em casa e a dipirona às 19h15. Ela está na população em risco do protocolo e tem relato de febre nas últimas 24 horas: sai da fila verde. Você fala com a enfermeira da classificação e com o plantonista, ela vai para uma sala com maca, e o hemograma é colhido às 22h02, com o pedido de que o resultado seja telefonado. Um acesso venoso periférico é puncionado na mesma picada. O alívio sintomático não deve atrasar a avaliação nem o antibiótico.

    Prescrição
    • Hemograma completo com plaquetas, com prioridade e comunicação do resultado por telefone ao médico da sala
    • Acesso venoso periférico calibroso
    • Sinais vitais completos agora e a cada hora, com temperatura axilar registrada
    • Registrar a temperatura e o uso prévio de antitérmico. Oferecer alívio sintomático quando indicado sem atrasar avaliação, culturas e antimicrobiano; queda da febre não autoriza reduzir a prioridade.
  2. 22h05: o exame dirigido

    Temperatura axilar de 37,3 °C, frequência cardíaca de 102, pressão de 110 por 70 mmHg, frequência respiratória de 18, saturação de 97%, enchimento capilar normal, orientada. Nenhum dos três achados de gravidade do protocolo está presente. Na boca, duas pequenas úlceras na mucosa jugal, sem placa e sem gengiva necrótica; ela come e bebe. A pele sobre o cateter implantável está fria, sem vermelhidão e sem dor à palpação da loja. Pulmões limpos, abdome indolor, sem lesão de pele nas dobras ou nas unhas. O períneo e a região perianal são inspecionados, sem lesão; não há toque retal. Ela nega ardor ao urinar, tosse e diarreia. Nada indica vancomicina: estável, sem suspeita de infecção do cateter, sem pele e partes moles, sem pneumonia clínica, sem mucosite grave e sem profilaxia com quinolona.

    Prescrição
    • Colher pelo menos dois conjuntos de hemoculturas conforme rotina microbiológica, incluindo periferia e cateter quando houver acesso por equipe habilitada. Em adultos, o volume usual é 8–10 mL por frasco, e não o volume total de toda a investigação. Identificar sítio e horário; não atrasar antimicrobiano por dificuldade de coleta.
    • Urina tipo 1 e urocultura
    • Proteína C reativa, ureia, creatinina, bilirrubinas, tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada, fibrinogênio e gasometria com lactato
    • Radiografia de tórax, sem retardar o antibiótico
  3. 22h18: a veia, o cateter e o telefone do laboratório

    O protocolo pede a segunda amostra pelo cateter, pareada com a periférica. A enfermeira do pronto-socorro não é treinada para puncionar a câmara do cateter implantável, e a enfermeira da oncologia do andar diz que chega em vinte e cinco minutos. Esperar por ela empurraria a dose para depois das 22h45 e estouraria o prazo. A decisão é a da regra de desempate do protocolo adulto da Ebserh: se a coleta vai atrasar, o antibiótico começa. Você colhe a segunda amostra periférica, em outro sítio, às 22h20 — o par de duas periféricas é válido — e deixa pedida a amostra pelo cateter para quando a enfermeira chegar, identificada como colhida depois da primeira dose, sabendo que ela perdeu parte do valor para comparar o tempo de positividade. Às 22h24 o laboratório telefona: leucócitos de 900 por microlitro, neutrófilos de 310, hemoglobina de 10,1 g/dL, plaquetas de 88.000. É neutropenia febril, e severa pela definição do mesmo protocolo gaúcho.

    Prescrição
    • Segunda amostra de hemocultura periférica, de outro sítio de punção, às 22h20
    • Amostra de hemocultura pelo cateter implantável, pela enfermeira treinada, identificada como colhida após a primeira dose
    • Registrar no prontuário o resultado do hemograma e o horário do telefonema
  4. 22h31: a primeira dose

    O antimicrobiano antipseudomonas começa às 22h31, 51 minutos após a chegada. Piperacilina-tazobactam é uma opção adequada neste contexto, confirmada pelo protocolo local. Se houver infusão prolongada, conferir dose inicial de ataque e forma de administração para alcançar exposição rapidamente. A dose de manutenção depende da função renal, da gravidade e do protocolo farmacocinético; não existe regra universal de ignorar insuficiência renal por 48 horas. A radiografia sem consolidação não exclui pneumonia em neutropenia.

    Prescrição
    • Piperacilina-tazobactam EV segundo protocolo institucional; 4,5 g em esquema de infusão prolongada é exemplo para função renal apropriada. Confirmar dose inicial, intervalo e ajustes com a equipe/farmácia, especialmente em insuficiência renal importante ou diálise.
    • Registro no prontuário dos horários da febre relatada, da chegada, das coletas e do início do antibiótico
    • Antitérmico/analgesia conforme necessidade e contraindicações, com temperatura e avaliação clínica registradas. O controle sintomático não substitui nem deve atrasar o antibiótico.
  5. 23h05: o índice e o leito

    Com a primeira dose correndo, é hora de estratificar. Os sintomas: ela anda, conversa e jantou, mas teve calafrio e está prostrada; entre leve e moderado, fica a faixa pior, 3 pontos. Pressão sistólica acima de 90, 5. Sem doença pulmonar obstrutiva crônica, 4. Tumor sólido, 4. Sem desidratação, 3. O episódio começou em casa, 3. Idade abaixo de 60 anos, 2. Soma de 24: baixo risco pelo índice, e nenhum critério clínico de alto risco — sem hipotensão, sem pneumonia, sem dor abdominal, sem alteração neurológica, sem disfunção orgânica, com neutropenia que, num tumor sólido, se espera curta. A equipe opta por internação inicial no caso. Em serviços com percurso estruturado, pacientes cuidadosamente selecionados de baixo risco podem ser tratados ambulatorialmente após dose inicial e observação; a ASCO/IDSA recomenda pelo menos quatro horas antes da alta, somadas à avaliação clínica e logística. O fator estimulador de colônia não entra, porque as diretrizes não o recomendam de rotina no episódio já instalado e ela não tem os fatores de alto risco que justificariam oferecê-lo.

    Prescrição
    • Internação na enfermaria clínica, com o leito identificado como de paciente neutropênica
    • Cuidados de paciente neutropênico conforme a rotina do serviço
    • Nada por via retal: sem supositório, sem enema, sem termômetro retal
    • Sem fator estimulador de colônia; discutir com a oncologia pela manhã
  6. Terça-feira, 7h40: o recado para quem prescreveu o ciclo

    A noite teve um pico de 38,0 °C às 2h, com o antibiótico já correndo, e a temperatura ficou abaixo de 37,5 °C a partir das 4h. Às 7h40, dez minutos depois de o ambulatório de oncologia abrir, você telefona. O recado cabe em quatro frases: neutropenia febril no décimo dia do terceiro ciclo, com 310 neutrófilos; culturas colhidas e piperacilina com tazobactam desde as 22h31; índice de risco de 24, sem critério clínico de alto risco; internada pelo protocolo. E você faz as três perguntas que só essa equipe responde: quanto tempo se espera de neutropenia com este esquema, se havia profilaxia planejada — antibiótica ou com fator estimulador — e o que o episódio muda no próximo ciclo. A oncologista informa que não havia profilaxia, que a recuperação costuma vir em poucos dias com esse esquema e que a decisão sobre o próximo ciclo é dela, na consulta de sexta-feira.

    Prescrição
    • Hemograma diário
    • Temperatura axilar de 4 em 4 horas, registrada antes de qualquer antitérmico
    • Acompanhamento da leitura das hemoculturas em 24, 48 e 72 horas com o laboratório
    • Contato com a oncologia registrado no prontuário, com o nome de quem recebeu a informação e o que foi combinado
  7. Quarta-feira, 22h30: 48 horas, o que muda e o que não muda

    Após melhora clínica, culturas sem crescimento e recuperação dos neutrófilos, a equipe reavalia necessidade de internação, via e duração do antibiótico. Para tratamento ambulatorial, confirmar estabilidade sustentada, previsão de neutropenia curta, absorção oral, apoio, comunicação, transporte e acesso rápido ao hospital; MASCC sozinho não concede alta. Fluoroquinolona com amoxicilina-clavulanato é opção em pacientes selecionados sem profilaxia prévia com quinolona, conforme resistência e contraindicações. Em episódio sem foco, não impor 7–14 dias a todos: protocolos contemporâneos admitem suspensão mais precoce após recuperação clínica e período afebril, inclusive em situações sem recuperação completa da contagem, sob equipe experiente. Infecção documentada segue agente, sítio e controle do foco.

    Prescrição
    • Última dose venosa de piperacilina + tazobactam às 22h30 de quarta-feira
    • A equipe define se ainda há indicação de antimicrobiano e registra data de revisão/suspensão. Se optar por continuação oral, confirmar doses, função renal, interações e tolerância; não prescrever automaticamente sete dias apenas pela neutropenia inicial.
    • Hemograma de controle no ambulatório de oncologia na sexta-feira
    • Carta de alta para a equipe que conduz a quimioterapia, com datas, contagens, culturas, esquema e duração prevista
  8. Quinta-feira, 9h: a alta que ensina a voltar

    A alta de quem teve neutropenia febril é, antes de tudo, uma aula sobre quando voltar. A diretriz americana de 2018 lista o que manda reavaliar e considerar internação de novo: febre que persiste ou volta, sinal novo de infecção, incapacidade de tomar o remédio por boca e germe resistente na cultura. Você transforma a lista em frases que Generosa consegue repetir, escreve-as no verso do cartão da quimioterapia e combina quem vai conferir o laudo final das hemoculturas, que só fecha em cinco dias. A última pergunta é da filha: e se a febre voltar de madrugada? A resposta é a mesma de segunda-feira, com uma diferença — agora as duas sabem que o antitérmico não vem antes do pronto-socorro.

    Prescrição
    • Retorno imediato ao pronto-socorro se temperatura axilar de 37,5 °C ou mais, calafrio, tontura, confusão, falta de ar, vômito que impeça tomar o comprimido, diarreia, dor nova ou vermelhidão sobre o cateter
    • Procurar atendimento imediato pelos sinais combinados, informar a temperatura medida e os antitérmicos usados; não aguardar para ver se o remédio faz efeito nem deixar de ir porque a febre baixou.
    • Laudo final das hemoculturas conferido pela equipe que deu a alta, com o telefone da paciente registrado para contato
    • Consulta no ambulatório de oncologia na sexta-feira, com o cartão da quimioterapia atualizado com o episódio
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Como saber se está funcionando

A neutropenia febril tem uma consulta marcada: o protocolo do Grupo Hospitalar Conceição manda reavaliar o esquema depois de 2 a 4 dias, e a diretriz americana de 2018 manda reavaliar e considerar internação quem não ficou sem febre em 2 a 3 dias. Mas o paciente instável não espera a consulta. No fluxo de sepse do mesmo protocolo gaúcho, a reavaliação é às 3 e às 6 horas, com lactato, diurese e pressão, e o manejo do choque segue o capítulo Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais.

A regra que mais evita erro nesta fase é sobre a febre que continua. O protocolo adulto da Ebserh lembra que a febre do neutropênico demora em média cinco dias para ceder e que a troca de antimicrobiano só por febre persistente não está indicada antes de 72 a 96 horas, se o espectro é adequado, o estado geral se mantém e as culturas não mostram germe resistente ao esquema. O pediátrico dá a mesma média de cinco dias para as neoplasias hematológicas e de dois dias para os tumores sólidos, e diz com todas as letras que não se amplia espectro apenas porque a febre persiste.

TemperaturaDe 4 em 4 horas, sempre registrada antes de qualquer antitérmico; curva lida a cada 24 horas

Esperado: Queda da febre em cerca de dois dias no tumor sólido e em até cinco dias na neoplasia hematológica, com o paciente estável

Se não melhora: No paciente estável, febre sozinha não troca esquema antes de 72 a 96 horas: repita as hemoculturas, procure foco de novo — boca, pele, cateter, períneo, pulmão, abdome — e pense em causa não infecciosa. Com neutropenia que se prolonga, a febre persistente abre a pergunta do fungo, com tomografia de tórax e seios da face e conversa com a hematologia

Pressão, perfusão e diureseA cada hora nas primeiras horas; às 3 e às 6 horas no paciente que entrou pelo fluxo de sepse; depois, a cada turno

Esperado: Pressão sistólica acima de 90 mmHg sem vasopressor, lactato abaixo de 2,1 mmol/L, como escreve o protocolo gaúcho, e diurese de pelo menos 0,5 mL/kg/h

Se não melhora: Instabilidade é piora clínica, e piora clínica escalona o esquema: pelo protocolo do Grupo Hospitalar Conceição, meropeném 2 g IV de 8 em 8 horas em 3 horas com vancomicina. O volume, os vasopressores e a vaga de terapia intensiva seguem o capítulo de sepse

Hemoculturas e uroculturaLeitura com o laboratório em 24, 48 e 72 horas, e o laudo final quando fechar

Esperado: Sem crescimento na maioria dos episódios, que é o que o protocolo gaúcho descreve: a infecção quase sempre existe e raramente é documentada

Se não melhora: Germe identificado ajusta o esquema pelo antibiograma, mantido até a recuperação dos neutrófilos. Gram-positivo em crescimento pede vancomicina até a identificação; levedura na hemocultura pede equinocandina e a lista de retirada do cateter. Bacteremia que persiste depois de 72 horas de antibiótico adequado sugere a retirada do cateter, e a infecção de corrente sanguínea associada a ele segue o capítulo de febre no paciente internado

Contagem de neutrófilosHemograma diário

Esperado: Subida em poucos dias no tumor sólido; no onco-hematológico, a recuperação que o protocolo da Ebserh usa para encerrar é acima de 500 por microlitro por três dias

Se não melhora: Neutropenia que passa de sete dias muda o paciente de categoria: é alto risco, abre a vigilância de fungo e pede conversa diária com a equipe que conduz a quimioterapia. O fator estimulador de colônia pode ser oferecido ao paciente febril de alto risco de complicação, pela diretriz americana de 2026, e é decisão dessa equipe

Vancomicina, quando foi iniciadaNa leitura das culturas de 48 a 72 horas; nível sérico no paciente instável ou com perda de função renal

Esperado: Sem Gram-positivo nas culturas e com o paciente estável, a vancomicina sai em 3 a 5 dias, pelo protocolo do Grupo Hospitalar Conceição

Se não melhora: Gram-positivo documentado mantém a vancomicina e ajusta pela identificação. A diretriz americana de 2010 permite retirá-la já em 2 dias sem evidência de Gram-positivo; esta apostila segue a janela do protocolo brasileiro, que é mais novo e escreve para o paciente do SUS, e registra a diferença para quem trabalha num serviço que adota a americana

Mucosa, abdome e cateterExame dirigido diário, e sempre que surgir dor ou queixa nova

Esperado: Mucosite estável ou melhor, abdome indolor, pele sobre o cateter sem calor, vermelhidão ou secreção

Se não melhora: Dor abdominal de início agudo com mucosite gastrointestinal grave é suspeita de enterocolite neutropênica: tomografia de abdome e esquema com cobertura para anaeróbios, pelo protocolo adulto da Ebserh. Sinal local no cateter, êmbolo séptico ou instabilidade sem outro foco colocam a retirada do cateter na mesa

Condições para via oral e alta, no baixo riscoDepois das primeiras 24 horas de antibiótico venoso, e de novo a cada dia

Esperado: Sem febre, estável, tolerando comprimido, culturas sem crescimento, com cuidador, telefone, transporte e retorno combinados com a oncologia

Se não melhora: Faltando qualquer uma dessas condições, o antibiótico continua venoso e o paciente continua internado. Depois da alta, febre que persiste ou volta, sinal novo de infecção, vômito que impede o comprimido ou germe resistente na cultura mandam reavaliar e considerar internação de novo, pela diretriz americana de 2018

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Onde o erro machuca

Deixar o paciente em quimioterapia na fila comum porque os sinais vitais da triagem estão normais

O dano: A classificação de risco lê o monitor, não o calendário. O paciente que chega andando espera horas, e é o Gram-negativo de quem espera que mata até 40% quando o antibiótico atrasa.

Como pegar a tempo: Pergunte na porta pela última quimioterapia ou radioterapia e por doença hematológica. Na população em risco, febre relatada ou sinal de infecção tiram o paciente da fila e disparam o hemograma com meta de minutos.

Orientar antitérmico e observação, por telefone ou na porta, antes de o paciente ser avaliado

O dano: O antitérmico apaga o único sinal que a neutropenia deixou, adia a ida ao serviço e faz uma temperatura de triagem abaixo do corte parecer tranquilizadora.

Como pegar a tempo: Orientar atendimento imediato e relato da temperatura e dos medicamentos usados. Antitérmico não serve como teste de melhora nem deve atrasar antibiótico; alívio sintomático pode ocorrer em paralelo à avaliação.

Esperar o hemograma, a radiografia ou a amostra do cateter para dar a primeira dose

O dano: Cada exame esperado empurra a dose para fora dos 60 minutos, e nenhum desses resultados muda o antibiótico da primeira hora.

Como pegar a tempo: Colha o que couber sem atraso. Se a coleta ou o resultado vão passar do prazo, a dose começa e a amostra que faltou é colhida depois, identificada como tal.

Acrescentar vancomicina a todo neutropênico febril, ou trocar o esquema no segundo dia só porque a febre continua

O dano: Espectro sem indicação seleciona resistência sem melhorar o desfecho, e a troca precoce confunde a leitura da resposta — a febre do neutropênico leva dias para ceder mesmo com o antibiótico certo.

Como pegar a tempo: Vancomicina só com critério escrito. Febre isolada em paciente estável não troca esquema antes de 72 a 96 horas; instabilidade, sim, escalona.

Aplicar o índice de risco como está escrito no protocolo, sem conferir o sentido do corte

O dano: Pelo texto do protocolo adulto da Ebserh, o paciente hipotenso e com sintomas graves sai como baixo risco; pelo do Grupo Hospitalar Conceição, quase metade dos perfis de baixo risco vira alto.

Como pegar a tempo: Some os pontos e leia 21 ou mais como baixo risco. Hipotensão, pneumonia, dor abdominal recente, alteração neurológica, leucemia aguda e transplante são alto risco qualquer que seja a soma.

Dar alta ao baixo risco sem logística, sem retorno combinado e sem avisar a oncologia

O dano: Cerca de nove em cada cem pacientes classificados como baixo risco ainda complicam, e quem vai para casa sem saber quando voltar volta tarde. A equipe do ciclo decide o próximo tratamento sem saber do episódio.

Como pegar a tempo: Alta só depois das primeiras 24 horas, sem febre, tolerando comprimido, com cuidador, telefone e transporte. Sinais de retorno por escrito, carta e telefonema para quem prescreveu o ciclo, e alguém nomeado para conferir o laudo final das culturas.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa mais difícil da neutropenia febril é com quem se sente bem. É preciso convencer Generosa a ficar sem assustá-la a ponto de ela ter medo do próximo ciclo, e a honestidade que resolve os dois lados é a mesma: dizer o que pode acontecer, em uma frase, e gastar o resto da conversa no que vai ser feito.

As outras duas conversas são curtas e têm formato. O telefonema para a oncologia é uma passagem de caso em quatro frases, com números. A orientação de alta é uma lista de sinais de retorno dita em palavras da família, conferida com a pessoa que vai estar em casa de madrugada.

No corredor, explicando a Generosa por que ela vai passar na frente

“Dona Generosa, a senhora está bem de pressão e conversando, e isso é bom. Mas a quimioterapia de dez dias atrás pode ter derrubado as células que defendem o corpo, e com elas baixas uma febre pode virar uma infecção grave em poucas horas. Por isso eu vou colher um exame de sangue agora e começar o antibiótico dentro da primeira hora, antes mesmo de a gente saber de onde a febre vem.”

Não diga: Dizer que é só precaução ou que a fila é assim mesmo; ou, no outro extremo, falar em risco de morte antes de dizer o que vai ser feito

Respondendo ao pedido de tomar um remédio na veia e ir embora

“Eu entendo, e a senhora tem razão de querer ir para casa. Só que o remédio que trata isso é na veia, de oito em oito horas, e o protocolo que a gente segue pede pelo menos um dia internada, mesmo para quem está bem como a senhora. Se tudo correr como a gente espera, em dois ou três dias a senhora sai tomando comprimido.”

Não diga: Negociar alta da porta, ou prometer que amanhã cedo ela já vai para casa

Explicando por que o remédio para febre espera o antibiótico

“Enquanto o antibiótico não entra, eu prefiro não dar remédio para febre. A febre é o jeito que o seu corpo tem de avisar a gente, e agora a gente precisa enxergar esse aviso. Depois que o antibiótico começar, se a febre incomodar, a enfermagem dá.”

Não diga: Usar a queda da febre como argumento para adiar atendimento ou antibiótico. Acolher o desconforto e explicar que o tratamento sintomático não elimina o risco.

Explicando a coleta e a espera que não vai acontecer

“A enfermeira que sabe puncionar o seu cateter chega daqui a pouco. Eu não vou esperar por ela para começar o antibiótico: colho agora mais uma amostra no braço, e ela colhe a do cateter quando chegar. Assim a gente não perde tempo e ainda tenta descobrir se a infecção veio de lá.”

Não diga: Deixar a paciente sem antibiótico à espera da punção do cateter, ou puncionar a câmara sem treino

Na manhã seguinte, o telefonema para a oncologia

“Bom dia, aqui é o interno da clínica médica. A senhora Generosa Tourinho, no terceiro ciclo, entrou ontem às 21h40 com neutropenia febril no décimo dia: 310 neutrófilos, culturas colhidas e piperacilina com tazobactam desde as 22h31, índice de risco de 24, sem critério clínico de alto risco, internada pelo protocolo. Preciso saber quanto tempo se espera de neutropenia com o esquema dela, se havia profilaxia planejada e como vocês querem conduzir o próximo ciclo.”

Não diga: Contar a internação inteira sem os números, ou decidir sozinho sobre fator estimulador e adiamento do ciclo

Na alta, com a filha, sobre quando voltar

“Se ela tiver 37,5 ou mais no termômetro de vocês, calafrio, tontura, ficar confusa, com falta de ar, vomitar o comprimido ou tiver diarreia, vocês vêm direto para cá, a qualquer hora, trazendo este cartão, e sem dar remédio para febre antes. Não é para ligar no dia seguinte: é para vir na hora.”

Não diga: Entregar a lista impressa sem conferir se a família entendeu, ou dizer que qualquer coisa pode voltar

Quando Generosa pergunta se vai perder a quimioterapia

“Esse episódio não quer dizer que o tratamento falhou nem que a senhora fez alguma coisa errada. Quem decide se o próximo ciclo muda de data ou de dose, ou se vai precisar de um remédio para proteger as defesas, é a sua oncologista, e ela já sabe de tudo o que aconteceu. Na sexta a senhora conversa com ela.”

Não diga: Opinar sobre adiamento, redução de dose ou fator estimulador, que são decisões de quem conduz o ciclo

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual temperatura axilar define febre no adulto neutropênico?

37,5 °C axilar em medida única, com neutrófilos abaixo de 1.000 — Grupo Hospitalar Conceição, 2019

O protocolo escreve para todo adulto com câncer em quimioterapia ou radioterapia nas últimas seis semanas e para quem tem doença hematológica com possibilidade de neutropenia, na emergência e nas unidades de internação. Escolhe de propósito o corte mais baixo, e explica por quê: a temperatura axilar, que é a medida brasileira, fica abaixo da oral; medicar o paciente quando a temperatura se aproxima de 38 °C faz a febre passar despercebida; e, diante da mortalidade e do perfil dos pacientes do serviço, o protocolo prefere a régua que dispara mais cedo. Conta que a escolha se apoia numa diretriz japonesa que testou os 37,5 °C axilares num ensaio randomizado multicêntrico com pacientes hematológicos, e acrescenta o relato de febre nas últimas 24 horas como sinal de infecção.

Grupo Hospitalar Conceição. Protocolo de Neutropenia febril. Porto Alegre: GHC; 2019.

Acima de 37,8 °C axilar, ou entre 37,5 °C e 37,8 °C por mais de uma hora — Ebserh, Hospital de Clínicas da UFTM, 2025

O protocolo escreve para o adulto onco-hematológico e para o transplante autólogo, no hospital e no ambulatório, e define a neutropenia febril pós-quimioterapia pela temperatura axilar acima de 37,8 °C, ou entre 37,5 °C e 37,8 °C mantida por mais de uma hora. Compensa a menor sensibilidade com uma cláusula: o neutropênico sem febre, mas com sinais suspeitos, sugestivos ou compatíveis com infecção, é tratado como neutropênico febril. O valor de 37,8 °C é o que a revisão brasileira de Bellesso registra como o mais usado pelos serviços, na ausência de consenso sobre o equivalente axilar do critério oral.

Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Protocolo PRT.HC-UFTM-UHHO.001, versão 1, emitido em 11/04/2025.

Uma medida oral de 38,3 °C, ou 38,0 °C sustentados por uma hora — Sociedade Americana de Doenças Infecciosas, 2010

A diretriz americana define febre pela temperatura oral e neutropenia como menos de 500 neutrófilos, ou previsão de cair abaixo disso em até 48 horas. O protocolo do Grupo Hospitalar Conceição registra que a temperatura oral é a regra das diretrizes americanas e europeias, e é dessa referência que os protocolos brasileiros partem para escrever os seus cortes axilares.

Freifeld AG et al. Clinical practice guideline for the use of antimicrobial agents in neutropenic patients with cancer: 2010 update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2011;52(4):e56-e93.

Como decidir

A régua decide no primeiro degrau, o do escopo, e a resposta depende do paciente. No adulto com tumor sólido, e no paciente com doença hematológica que ainda não fez quimioterapia, só o protocolo do Grupo Hospitalar Conceição escreve para ele: vale o 37,5 °C axilar em medida única, e é esse o corte que os capítulos de febre no paciente internado, de febre sem foco e de hemograma usam. No adulto onco-hematológico depois da quimioterapia, os dois protocolos brasileiros escrevem para ele, e o da Ebserh é o escrito especificamente para esse paciente — e também o mais novo, de 2025 contra 2019: esta apostila adota a definição dele, com a cláusula que manda tratar o neutropênico com sinal de infecção mesmo sem febre. O critério oral americano não se aplica ao termômetro axilar da rotina brasileira e fica como referência de leitura. Na prática da madrugada, duas regras valem para todos e pesam mais do que o decimal: febre relatada em casa conta, e temperatura medida depois de antitérmico não tranquiliza ninguém. No onco-hematológico com um único 37,6 °C e nenhum outro sinal, meça de novo dentro da hora; qualquer sinal a mais, trate.

Adulto de baixo risco: alta depois de algumas horas de observação, ou internação de pelo menos 24 horas?

Primeira dose em até 1 hora, observação de 4 horas ou mais e alta com antibiótico oral quando há critérios — ASCO e Sociedade Americana de Doenças Infecciosas, 2018

A diretriz conjunta de manejo ambulatorial manda escolher o candidato por julgamento clínico com critério clínico ou ferramenta validada, como o índice da Associação Multinacional de Cuidados de Suporte em Câncer ou as regras de Talcott, dar a primeira dose do antibiótico empírico em até uma hora da triagem e observar por pelo menos quatro horas antes da alta. Exige logística — residência a até uma hora ou 48 km, cuidador 24 horas, telefone e transporte 24 horas — e reavaliação frequente por pelo menos três dias. O esquema oral é fluoroquinolona com amoxicilina e clavulanato, salvo se a quinolona já era a profilaxia; quem não fica sem febre em 2 a 3 dias é reavaliado e considerado para internação.

Taplitz RA et al. Outpatient management of fever and neutropenia in adults treated for malignancy: American Society of Clinical Oncology and Infectious Diseases Society of America clinical practice guideline update. J Clin Oncol. 2018;36(14):1443-1453.

Internação de todos por pelo menos 24 horas, com passagem para via oral depois, se houver bom suporte social — Grupo Hospitalar Conceição, 2019

O protocolo descreve o índice de risco e reconhece o baixo risco como candidato a antibiótico oral, mas escolhe manter no hospital, por no mínimo 24 horas, todo paciente com neutropenia e febre; depois da avaliação da equipe assistente, o antibiótico passa para via oral nos pacientes com bom suporte social. A revisão brasileira de Bellesso, de 2010, registra que a maior parte dos estudos de tratamento oral internou os pacientes e os reavaliou entre 24 e 72 horas para alta precoce, e adverte que isso não demonstra a mesma segurança para a alta no momento do diagnóstico.

Grupo Hospitalar Conceição. Protocolo de Neutropenia febril. Porto Alegre: GHC; 2019. Bellesso M et al. Triagem para o tratamento ambulatorial da neutropenia febril. Rev Bras Hematol Hemoter. 2010;32(5):402-408.

Como decidir

O local do cuidado depende de estabilidade, comorbidades, duração prevista da neutropenia e condições reais de observação e retorno. A idade de um documento não torna obrigatória internação de 24 horas para todos. Em programa estruturado, paciente cuidadosamente selecionado pode receber alta após dose inicial e pelo menos quatro horas de observação segundo ASCO/IDSA; fora dessas condições, manter atendimento hospitalar.

Quando parar o antibiótico no neutropênico sem infecção documentada que melhorou?

Até a contagem de neutrófilos se recuperar, com piso de 7 a 14 dias, tenha ou não aparecido o agente — Grupo Hospitalar Conceição, 2019

O protocolo aplica a mesma regra à infecção documentada e ao episódio sem agente que respondeu ao tratamento, com desaparecimento da febre e melhora clínica: o antimicrobiano segue até as contagens de neutrófilos se recuperarem, com piso de 7 a 14 dias. Na candidemia, o mínimo é de 14 dias depois de uma hemocultura negativa, e também só com neutrófilos recuperados.

Grupo Hospitalar Conceição. Protocolo de Neutropenia febril. Porto Alegre: GHC; 2019.

Neutrófilos acima de 500 por três dias; ou suspensão em 5 a 7 dias se a neutropenia se prolonga com o paciente estável e sem febre — Ebserh, Hospital de Clínicas da UFTM, 2025

O protocolo guia a duração pela documentação da infecção e pela recuperação dos neutrófilos. Sem infecção documentada — estável, imagem normal, culturas sem crescimento — e com neutrófilos acima de 500 por três dias, o antibiótico pode ser suspenso. No paciente estável e sem febre, com neutropenia que vai se prolongar e sem infecção documentada, a suspensão pode vir depois de 5 a 7 dias. Não se suspende com instabilidade hemodinâmica, mucosite ou outro fator de risco para infecção além da neutropenia. Infecção documentada segue o tempo do protocolo institucional daquele tipo de infecção.

Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Protocolo PRT.HC-UFTM-UHHO.001, versão 1, emitido em 11/04/2025.

Como decidir

Separar febre sem foco de infecção documentada. Bacteremia e outros focos seguem agente, sítio, controle e resposta. No episódio empírico sem foco, protocolos atuais podem permitir suspensão após recuperação clínica e período afebril sem esperar todos os neutrófilos se normalizarem; a AGIHO 2024 descreve 3–5 dias de defervescência. Não impor 7–14 dias para todo tumor sólido, nem suspender automaticamente só porque uma cultura veio negativa.

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O raciocínio, em voz alta

Sábado, 3h15, o mesmo pronto-socorro. Tobias Muquem, 61 anos, 78 kg, pedreiro aposentado, trata um linfoma não Hodgkin e está no 11º dia do segundo ciclo de quimioterapia. Chega de ambulância com a esposa: febre de 38,6 °C axilar há três horas, calafrios e sonolência. Pressão de 86 por 50 mmHg, saturação de 94% em ar ambiente, pulso de 118 e respiração de 24 por minuto, Glasgow 14, extremidades frias. Tem um cateter venoso central semi-implantável de duplo lúmen no tórax esquerdo, e em volta do orifício de saída há um centímetro de vermelhidão com secreção serosa. A boca tem mucosite leve e as mucosas estão secas; pulmões e abdome sem achados. Não usava profilaxia com quinolona.

  1. o que muda de sala

    Doença onco-hematológica depois da quimioterapia: a régua de definição é a do protocolo adulto da Ebserh, e 38,6 °C passa de qualquer corte. Mas não é a temperatura que decide a sala. Ele está hipotenso, com frequência respiratória de 24 — dois dos três achados de gravidade do Grupo Hospitalar Conceição, somados a extremidades frias e sonolência. Vai direto para a sala de emergência, sob o pacote de sepse, e o hemograma é colhido sem que ninguém espere por ele: febre e hipotensão no 11º dia de quimioterapia se tratam como neutropenia febril até prova em contrário.

  2. as culturas que cabem em dez minutos

    A técnica de enfermagem já está ao lado dele com o material, e as culturas cabem antes da dose sem atrasá-la: conjuntos de hemoculturas periféricas e do cateter conforme protocolo, com 8 a 10 mL por frasco no adulto e volumes comparáveis entre sítios, com horário e via na requisição; urina, lactato e o lote de disfunção. Se uma das vias não devolvesse sangue, a dose não esperaria. O volume, a meta de pressão e o vasopressor seguem o capítulo de sepse.

  3. o esquema, e por que a vancomicina entra aqui

    Pelo protocolo adulto da Ebserh, a monoterapia antipseudomonas do serviço é cefepima 2 g IV de 8 em 8 horas, e a primeira dose corre às 3h58, 43 minutos depois da chegada. A vancomicina entra por dois critérios independentes, escritos nos dois protocolos brasileiros: instabilidade hemodinâmica e suspeita de infecção do cateter, com vermelhidão e secreção no orifício. O ataque do protocolo da Ebserh é de 30 mg/kg, o que daria 2.340 mg; o teto de 2 g por dose limita a 2.000 mg, que pedem pelo menos 400 mL e 200 minutos de infusão. A manutenção fica em 15 a 20 mg/kg de 12 em 12 horas, de 1.170 a 1.560 mg, com clearance acima de 50 mL/min, e o nível sérico é monitorado porque ele está instável.

  4. o hemograma chega, e o índice não precisa ser feito

    Às 4h10: neutrófilos de 90 por microlitro e plaquetas de 45.000. Neutropenia profunda, doença hematológica, hipotensão — Tobias é de alto risco por critério clínico, e o índice de risco não tem decisão a tomar. Se fosse somado, daria 11: sintomas graves, hipotensão e desidratação zeram 13 dos pontos possíveis, e a idade tira mais 2. Ele vai para a terapia intensiva. Às 4h30 você telefona para a hematologia de sobreaviso, passa o caso em quatro frases e registra a conversa sobre o fator estimulador de colônia, que a diretriz americana de 2026 permite oferecer a este paciente de alto risco e que é decisão da hematologia.

  5. 48 horas depois: febre, mas estável

    O vasopressor saiu com 20 horas, a pressão está estável sem ele, o lactato normalizou e a diurese é boa. A temperatura ainda chega a 38,2 °C. As três amostras cresceram bacilo Gram-negativo, identificado como Escherichia coli sensível à cefepima, e as das duas vias positivaram mais de duas horas antes da periférica. Febre sozinha, com o paciente estável e o germe sensível ao esquema, não é motivo para trocar antibiótico antes de 72 a 96 horas, pelo protocolo da Ebserh: a cefepima segue. Não cresceu Gram-positivo, e com o paciente estável a vancomicina sai no terceiro dia, dentro da janela do protocolo do Grupo Hospitalar Conceição.

  6. o cateter

    Choque com suspeita de infecção do cateter exige discussão precoce de controle do foco e retirada tão logo seja segura e logisticamente possível, garantindo acesso alternativo. Não se deve esperar rotineiramente até o terceiro dia ou pelo tempo diferencial de positividade para iniciar essa decisão. Coletas pareadas e culturas de controle ajudam, mas não atrasam controle de foco necessário. A confirmação posterior de E. coli e positividade antecipada nas vias do cateter reforça a hipótese; o novo acesso é planejado com a equipe.

  7. a febre cede, a contagem volta, e quem decide o resto

    No quarto dia Tobias está sem febre, e as hemoculturas de controle não crescem. No sexto dia os neutrófilos chegam a 640 e, no oitavo, a 1.300. Como a infecção foi documentada — bacteremia por Escherichia coli com o dispositivo retirado —, a duração não segue a regra do episódio sem foco: segue o tempo do sítio e do germe, que o capítulo Antibioticoterapia na enfermaria: escolha, descalonamento e duração ensina a contar. A carta de alta vai para a hematologia com as datas, as contagens, as culturas e o cateter retirado; o próximo ciclo, a dose e a profilaxia são decisões dela.

Tobias entrou pela porta da sepse, não pela da febre: hipotensão e taquipneia no 11º dia de quimioterapia mandaram para a sala de emergência antes do hemograma. Culturas pareadas de cada via do cateter e da periferia couberam antes da primeira dose, que correu em 43 minutos. A régua do onco-hematológico, a da Ebserh, deu a cefepima; a instabilidade e o sinal no orifício do cateter trouxeram a vancomicina, com o ataque limitado pelo teto de 2 g. O índice de risco não tinha o que decidir num paciente de alto risco clínico. Em 48 horas a febre persistia com o paciente estável e o germe sensível, e o esquema não mudou; a vancomicina saiu no terceiro dia, sem Gram-positivo; o cateter saiu pelos critérios do neutropênico e da infecção de corrente sanguínea. A duração passou a ser a da bacteremia documentada, e o fator estimulador, o próximo ciclo e o novo acesso ficaram com quem conduz o tratamento.

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Faça você

Quinta-feira, 15h10, unidade básica de saúde de um bairro a vinte minutos de ônibus do hospital regional. Terezinha Tocantins, 67 anos, 58 kg, faxineira aposentada, veio para a consulta marcada de pressão. Na sala, conta sem dar importância que ontem à noite mediu 37,8 °C, que tomou paracetamol às 11h de hoje e que está com diarreia desde cedo, quatro vezes, e muito fraca. Trata um câncer de pulmão com quimioterapia e a última aplicação foi há nove dias. Na unidade: temperatura axilar de 37,2 °C, pressão de 104 por 62 mmHg, frequência cardíaca de 108, frequência respiratória de 20, saturação de 95%, orientada. A agenda da tarde tem mais quinze nomes, e o laboratório da unidade colhe só pela manhã.

  1. o que já sei

    Sei que ela está na população em risco: quimioterapia há nove dias. Sei que a febre relatada nas últimas 24 horas conta, independentemente do termômetro da unidade, e que os 37,2 °C de agora foram medidos quatro horas depois de um paracetamol, portanto não tranquilizam. Sei que a diarreia no neutropênico pode ser o começo de uma infecção abdominal e que a fraqueza com frequência cardíaca de 108 pode ser o começo da desidratação ou da sepse. E sei que não tenho como ter um hemograma na unidade antes de amanhã.

  2. o que ainda pergunto e examino, em cinco minutos

    Complete: que perguntas localizam Terezinha no calendário e no risco, o que precisa ser olhado na boca, na pele, no abdome e no períneo, e quais sinais vitais e achados, se presentes, mudam o meio de transporte até o hospital.

  3. o que faço agora

    Complete: para onde ela vai, em quanto tempo e como; o que escrevo no encaminhamento para que a equipe da porta não a classifique pelos sinais vitais; e com quem falo antes de ela sair.

  4. o que não faço

    Explique por que a avaliação não pode esperar o hemograma de amanhã, por que uma prescrição oral sem estratificação não resolve o risco e por que a melhora da temperatura não autoriza aguardar em casa.

Ver como fecharíamos

Quimioterapia recente, febre relatada e diarreia com fraqueza exigem avaliação imediata. Perguntar pelo ciclo, profilaxias e cateter; examinar boca, pele, abdome e períneo sem toque retal e avaliar hidratação, diurese, perfusão e estado mental. Organizar transporte seguro e comunicação ao pronto-socorro, preferindo transporte assistido se houver instabilidade, incapacidade funcional ou preocupação com deterioração. Não usar apenas três cortes de sinais vitais para decidir segurança do deslocamento. O encaminhamento informa quimioterapia há nove dias, temperatura em casa, paracetamol e sintomas atuais, com suspeita de neutropenia febril. No hospital, hemograma e culturas são obtidos prontamente e o antibiótico empírico, quando indicado, começa em até uma hora da apresentação/triagem, sem esperar exames demorados. Não adiar até amanhã, não usar antitérmico como teste de tranquilidade e não iniciar tratamento oral domiciliar sem avaliação e condições de seguimento.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Quimioterapia recente, febre relatada e sintomas atuais exigem avaliação imediata de possível neutropenia febril. O atendimento não espera o hemograma de amanhã. A meta hospitalar é iniciar terapia empírica em até uma hora da triagem/apresentação, e em instabilidade o mais prontamente possível; não contar uma hora a partir de uma febre já ocorrida em casa como se fosse um prazo ainda executável. Organizar transporte seguro e comunicação ao hospital.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Descreva o atendimento inicial de febre após quimioterapia, incluindo culturas, antibiótico e critérios de gravidade.

Em 30 dias

Compare febre persistente com estabilidade, nova dor abdominal e choque com cateter suspeito. Justifique quando manter, ampliar ou reduzir cobertura e quando o controle do foco muda a evolução.

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Agora atenda

Um homem de 58 anos em quimioterapia para câncer de intestino chega ao pronto-socorro às 23h com calafrio e febre medida em casa, dizendo que está só cansado. Atenda: localize-o no calendário da quimioterapia e tire-o da fila, examine procurando o que a neutropenia apaga sem fazer toque retal, colha o que couber sem atrasar a primeira dose, prescreva o antibiótico da primeira hora e decida a vancomicina pelos critérios, some o índice de risco com o corte correto, decida onde ele passa a noite e combine o que acontece em 48 a 72 horas e quem avisa a oncologia.

Síndrome da veia cava superior e neutropenia febril – A febre que não espera — Internato | OsceLabs