Clínica Médica › Oncologia
Quando o fígado deixa passar
Tumores neuroendócrinos
O adulto com tumor neuroendócrino: o laudo do apêndice e da endoscopia, o rubor com diarreia que só aparece quando o fígado já não filtra, a hipoglicemia e a úlcera que não fecham, o que pedir e o que não pedir, a crise carcinoide no procedimento e o caminho no SUS
Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). Diretrizes de tratamentos oncológicos. Tumores neuroendócrinos bem diferenciados: gastrointestinal. Comitê de Tumores Gastrointestinais Baixo, com colaboração do Grupo Brasileiro de Tumores Gastrointestinais. São Paulo: SBOC; publicado em 17/05/2025. Disponível em: sboc.org.br/wp-content/uploads/2026/01/Tumores-neuroendocrinos-bem-diferenciados-gastrointestinal.pdf
Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Relatório de Recomendação nº 876: acetato de lanreotida e acetato de octreotida de liberação prolongada para o tratamento de pacientes com sintomas associados a tumores endócrinos gastroenteropancreáticos funcionais. Brasília: Ministério da Saúde; fevereiro de 2024. Decisão: Portaria SECTICS/MS nº 5, de 5 de março de 2024 (Diário Oficial da União nº 46, seção 1, p. 54, 07/03/2024).
Riechelmann RP, Weschenfelder RF, Costa FP, Andrade AC, Osvaldt AB, Quidute ARP, et al. Guidelines for the management of neuroendocrine tumours by the Brazilian gastrointestinal tumour group. ecancermedicalscience. 2017;11:716. doi:10.3332/ecancer.2017.716.
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Hofland J, Falconi M, Christ E, Castaño JP, Faggiano A, Lamarca A, et al. European Neuroendocrine Tumor Society 2023 guidance paper for functioning pancreatic neuroendocrine tumour syndromes. J Neuroendocrinol. 2023;35(8):e13318. doi:10.1111/jne.13318.
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Responda antes de ler
O anatomopatológico de uma lesão hepática descreve neoplasia neuroendócrina com índice Ki-67 de 35% e mais de 20 mitoses por 2 mm². O laudo não informa se a neoplasia é bem ou pouco diferenciada. Qual é a leitura correta para decidir o próximo passo?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, 14h10, ambulatório de egressos da cirurgia geral de um hospital de ensino do interior. Luzinete Simões, 34 anos, costureira, operada por videolaparoscopia de uma apendicite aguda há 26 dias, entra antes da hora marcada com um envelope aberto e dobrado duas vezes. A recuperação foi boa: sem febre, sem dor, as três incisões secas. Não é a cicatriz que a trouxe. É a segunda folha do anatomopatológico, que chegou pelo correio na sexta-feira e que ela leu sozinha, na cozinha, com o celular na outra mão.
O laudo diz duas coisas. A primeira é a que todo mundo esperava: apendicite aguda supurada. A segunda está num parágrafo à parte, com a expressão achado incidental: na ponta do apêndice, um tumor neuroendócrino bem diferenciado, grau 1, de 0,7 cm, com índice Ki-67 de 1% e menos de duas mitoses por 2 mm², margem cirúrgica livre, sem invasão do mesoapêndice e sem invasão angiolinfática. Luzinete sublinhou de caneta a palavra tumor e escreveu na margem, com letra apertada, a palavra carcinoide, que achou na internet junto com metástase no fígado e síndrome.
Ela tem quatro perguntas e faz as quatro de uma vez: se é câncer, se vai precisar operar de novo, se vai fazer quimioterapia e se a filha de nove anos pode ter a mesma coisa. E você tem uma tentação, que é a de qualquer pessoa que acaba de ler a palavra tumor num papel: pedir tudo. Uma cromogranina A, uma tomografia de abdome, talvez um PET, um encaminhamento com urgência para a oncologia. Pedir tudo parece proteção. Neste capítulo, quase sempre, é o contrário.
O laudo de Luzinete já contém a decisão. Tamanho, grau, margem, mesoapêndice e invasão angiolinfática são exatamente os cinco dados que a régua brasileira mais nova, a diretriz de 2025 da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, usa para decidir se o apêndice basta ou se há uma segunda operação a discutir, e se há ou não seguimento. Para ela, a apendicectomia foi o tratamento completo e não há exame de controle a marcar. Para outra paciente, com um tumor de 2,5 cm que invade o mesoapêndice, o mesmo envelope pede o contrário: uma conversa com a cirurgia sobre hemicolectomia direita. O erro de quem pede tudo e o erro de quem arquiva tudo nascem do mesmo lugar, que é não ler o laudo.
E o envelope é só uma das portas. A mesma família de tumores entra no hospital por outras quatro: pelo rubor com diarreia de quem já tem o fígado tomado, pela hipoglicemia de jejum do não diabético, pela úlcera que não cicatriza e pela diarreia que melhora com omeprazol, e pela massa volumosa, de crescimento rápido, que tem nome parecido e é outra doença. Há ainda uma porta de saída que ninguém deveria abrir sem preparo: a sala de procedimento, onde uma biópsia, uma anestesia ou uma embolização podem precipitar a crise carcinoide, que derruba a pressão em minutos.
Na saída do ambulatório, o preceptor entrega a você a lista de internações de amanhã. A primeira é Constâncio Alvarenga, 63 anos, que há dois anos tem episódios de vermelhidão no rosto e diarreia que o acorda de madrugada, e cuja ultrassonografia mostrou o fígado cheio de nódulos. A biópsia hepática percutânea está marcada para as 8h da manhã seguinte à internação. “Leia o prontuário dele hoje”, diz o preceptor, “porque o que você prescrever amanhã à noite decide como vai ser a biópsia.”
Este capítulo é sobre essas decisões: quando pensar em tumor neuroendócrino, o que pedir e o que não pedir, como ler o grau no laudo, em quem prevenir a crise carcinoide e como tratá-la se ela vier, e por qual porta o paciente chega ao tratamento no Sistema Único de Saúde. Não é uma enciclopédia dos tumores neuroendócrinos: tudo o que é decisão do oncologista, do cirurgião de pâncreas ou do cardiologista aparece só até o ponto em que o interno precisa reconhecer e encaminhar.
A fronteira com os vizinhos fica declarada aqui. Este capítulo assume, porque nenhum outro do nível é dono: o tumor neuroendócrino achado na peça do apêndice, na endoscopia e na colonoscopia; a síndrome carcinoide e a crise carcinoide; o reconhecimento e o rastreio da cardiopatia carcinoide, cuja troca valvar não tem capítulo no nível; os marcadores e o que os falsifica; o insulinoma e o gastrinoma como tumores — suspeita, localização, neoplasia endócrina múltipla tipo 1 e encaminhamento; o carcinoma neuroendócrino de alto grau fora do pulmão; e o caminho no SUS. Cede a amostra crítica e a prova bioquímica do hiperinsulinismo ao capítulo Hipoglicemia no não-diabético e manejo da hipoglicemia grave, e o Cushing por ACTH ectópico ao capítulo Síndrome de Cushing e hiperaldosteronismo (HAS secundária), ambos da Endocrinologia; a úlcera péptica comum ao capítulo Doença ulcerosa péptica e Helicobacter pylori e a diarreia crônica sem rubor ao capítulo Síndrome do intestino irritável e diarreia crônica, da Gastroenterologia; a massa pulmonar e o carcinoma de pequenas células do pulmão ao capítulo Câncer de pulmão (não-pequenas células, estadiamento, ressecabilidade) e a massa do mediastino ao capítulo Massas de mediastino (diagnóstico diferencial por compartimento), da Cirurgia Torácica; o adenocarcinoma gástrico ao capítulo Câncer gástrico (Lauren, linfadenectomia, gastrectomia) e o adenocarcinoma de pâncreas ao capítulo Câncer de pâncreas e tumores periampulares (Whipple), da Cirurgia do Aparelho Digestivo; a apendicite e o envio da peça ao capítulo Apendicite aguda (diagnóstico clínico, Alvarado, conduta); e os sinais de alarme gerais ao capítulo Sinais de alarme e diagnóstico precoce de neoplasias na APS, que abre esta apostila.
Quem adoece disso
O Brasil não tem número próprio para esta doença. O relatório de 2024 da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, escrito justamente para decidir se o SUS pagaria o tratamento da síndrome carcinoide, registra que não encontrou documento oficial sobre a epidemiologia desses tumores no país, e trabalha com números norte-americanos e europeus. Isso vale para o capítulo inteiro: toda frequência que aparece aqui vem de fora, e o interno deve lê-la como ordem de grandeza, não como retrato do hospital onde está.
A ordem de grandeza que importa é a do tumor, não a da síndrome. O mesmo relatório cita, para os Estados Unidos em 2012, uma incidência de 3,56 por 100.000 pessoas por ano de tumores neuroendócrinos do trato gastrointestinal. Algumas páginas depois, o documento chama o tumor gastroenteropancreático de doença ultrarrara, com incidência de 0,25 por milhão por ano — um número 142 vezes menor, que é a estimativa do subgrupo funcionante com síndrome carcinoide, não do tumor. A contradição está registrada nas notas do critério, e a lição para a enfermaria é simples: o tumor é raro o bastante para ser esquecido e comum o bastante para aparecer num laudo de apendicectomia de uma terça-feira qualquer.
A maioria desses tumores não produz síndrome nenhuma. A diretriz europeia de 2022 sobre síndrome carcinoide estima que, hoje, entre 19% e 35% dos pacientes com tumor neuroendócrino tenham a síndrome, depois de décadas em que as séries variavam de 3% a 74% conforme a região e a forma de acompanhar. O restante chega de outra maneira: pelo acaso de uma peça cirúrgica ou de uma endoscopia, por uma massa que comprime, ou por metástases descobertas numa imagem pedida por outro motivo. Que o laudo seja a porta mais provável para o interno é leitura desta apostila, e não número de fonte: é a porta que não depende de o tumor funcionar.
Quando a síndrome existe, ela tem um retrato razoavelmente constante. O relatório da Conitec descreve rubor súbito de face, pescoço e colo em 94% dos casos, diarreia secretória em 78%, dor abdominal em 50% e sibilos em 15%, e situa o diagnóstico com mais frequência entre a quarta e a sexta década de vida. A diretriz europeia acrescenta o dado que organiza o raciocínio clínico do capítulo: em 87% a 100% dos pacientes com síndrome carcinoide há metástase hepática. A mediana de sobrevida de quem tem a síndrome é de 4,7 anos, contra 7,1 anos de quem tem o tumor sem ela, e o volume de doença é o que mais pesa nessa diferença.
A complicação que muda o prognóstico é o coração. A mesma diretriz estima a cardiopatia carcinoide em 20% a 50% dos pacientes com a síndrome, com sobrevida em três anos de 31% entre os que a têm e de 69% entre os que não a têm. E ela é silenciosa por mais tempo do que se imagina: entre 11% e 27% dos pacientes com lesão moderada a grave da valva tricúspide têm poucos sintomas ou nenhum, o que explica por que a diretriz manda rastrear com exame e não com anamnese.
O achado da endoscopia é, na grande maioria das vezes, o tumor de comportamento mais benigno da família. O manual de laudos da Sociedade Brasileira de Patologia, de 2019, distribui os tumores neuroendócrinos gástricos em três tipos: o tipo 1, ligado à gastrite atrófica autoimune, responde por 80% a 90% dos casos, dá metástase em 1% a 3% e tem sobrevida em cinco anos próxima de 100%; o tipo 2, ligado ao gastrinoma, fica entre 5% e 7%; e o tipo 3, esporádico e com gastrina normal, soma 10% a 15%, dá metástase em cerca de metade dos casos e tem sobrevida em cinco anos abaixo de 50%. Separar o tipo 1 do tipo 3 é, portanto, separar uma vigilância endoscópica de uma gastrectomia.
Os tumores pancreáticos funcionantes carregam dois números que mudam a anamnese. A diretriz europeia de 2023 sobre essas síndromes estima que cerca de 17% dos tumores neuroendócrinos pancreáticos sejam hereditários, e que na neoplasia endócrina múltipla tipo 1 o tumor pancreático apareça em até 80% dos portadores, com insulinoma em 10%. E o insulinoma é o diagnóstico que mais demora: entre os primeiros sintomas e a prova bioquímica passam pelo menos dois anos, muitas vezes cinco, e mais da metade dos pacientes ganhou peso nesse intervalo, um detalhe que a diretriz aponta como útil na história e que passa despercebido por quem associa tumor a emagrecimento.
No SUS, os números disponíveis são de gasto e de estimativa, não de registro. O modelo do relatório de 2024 estimou pouco mais de 500 pacientes com tumor funcionante candidatos a tratamento em 2025, enquanto notas técnicas anteriores, citadas no próprio relatório, estimavam entre 1.499 e 3.434. E há um dado que diz muito sobre a prática: em metade das autorizações de procedimento de alta complexidade emitidas para a quimioterapia do tumor neuroendócrino avançado, o medicamento registrado era a lanreotida ou a octreotida de liberação prolongada — o tratamento que o hospital oncológico já vinha dando por conta própria antes da incorporação.
Por que acontece o que acontece
Espalhadas pelo tubo digestivo, pelo pâncreas e pelo pulmão há células que guardam aminas e peptídeos em grânulos e os liberam na corrente sanguínea. O tumor que nasce delas conserva essa maquinaria, e é por isso que o patologista prova a natureza neuroendócrina com imuno-histoquímica para cromogranina A e sinaptofisina, as proteínas dos grânulos. Conservar a maquinaria, porém, não é o mesmo que usá-la: a diretriz europeia de 2023 define o tumor funcionante como a soma de uma síndrome clínica com a dosagem inapropriadamente alta do hormônio, e registra que um laudo com marcação positiva para um hormônio, sem síndrome, descreve um tumor não funcionante. Imuno-histoquímica positiva para serotonina não é síndrome carcinoide.
O mecanismo que organiza o capítulo é o do filtro. O sangue que drena o intestino vai pela veia porta ao fígado, e o fígado inativa a serotonina e as outras substâncias vasoativas antes que elas cheguem à circulação sistêmica. Enquanto o tumor intestinal está no intestino, ele pode produzir quanto quiser e o paciente não sente nada. A síndrome aparece quando há tumor fora da drenagem portal: metástases no fígado, que devolvem o que produzem direto às veias hepáticas, ou tumores cuja drenagem já é sistêmica desde o início — ovário, testículo, raramente pulmão, ou uma grande massa retroperitoneal. É por isso que a diretriz europeia de 2022 encontra metástase hepática em 87% a 100% dos pacientes com síndrome carcinoide, e é por isso que rubor com diarreia em quem tem tumor de intestino significa fígado tomado até prova em contrário.
O mesmo caminho explica por que o coração que adoece é o direito. O que sai das veias hepáticas chega ao átrio e ao ventrículo direitos antes de passar pelo pulmão, que também degrada serotonina. No lado direito, a exposição crônica deposita placas fibrosas nas valvas tricúspide e pulmonar, que ficam espessadas, retraídas e incapazes de fechar ou de abrir: primeiro a insuficiência tricúspide, depois a sobrecarga de volume do ventrículo direito e, por fim, a insuficiência cardíaca direita. O lado esquerdo é poupado, a menos que haja um atalho — um forame oval patente —, um tumor pulmonar funcionante, que drena direto para o coração esquerdo, ou níveis tão altos que vencem a capacidade de degradação do pulmão. Daí o teste com microbolhas no ecocardiograma: ele procura o forame que deixaria a doença passar para a esquerda.
A crise carcinoide envolve liberação súbita de substâncias vasoativas, por vezes durante manipulação tumoral, anestesia, embolização ou terapia com radionuclídeo. Pode causar rubor, broncoespasmo, diarreia e instabilidade circulatória. A octreotida reduz secreção hormonal por receptores de somatostatina e é usada no resgate conforme protocolo, mas não é garantia de reversão nem substitui ressuscitação. Choque exige suporte imediato e vasopressor quando necessário, enquanto se avaliam anafilaxia, sangramento e outras causas; evitar que a preocupação com catecolaminas atrase tratamento vital.
Os análogos da somatostatina funcionam porque a maioria dos tumores bem diferenciados expressa esses receptores, e a captação na imagem com análogo marcado é a prova visível disso. Eles reduzem a secreção — a diretriz europeia fala em melhora dos sintomas em até 70% e queda do 5-HIAA em cerca de 46% — e freiam o crescimento, como mostraram os dois ensaios contra placebo que a diretriz brasileira de 2025 cita. Mas a somatostatina também inibe o glucagon, que é o hormônio que defende a glicemia. No insulinoma, cuja expressão de receptores pode ser pobre, o análogo pode suprimir mais o glucagon do que a insulina e agravar a hipoglicemia: a diretriz europeia de 2023 e o consenso brasileiro de 2017 mandam começar por octreotida de curta ação, com glicemia monitorizada, antes de qualquer forma de depósito.
Os marcadores enganam pelo mesmo motivo que existem. A cromogranina A é produzida por qualquer célula neuroendócrina, inclusive pelas células semelhantes às enterocromafins do estômago, as células ECL, que se multiplicam sob estímulo da gastrina; tudo o que eleva a gastrina — inibidor de bomba de prótons, gastrite atrófica, Helicobacter pylori — eleva a cromogranina, e a disfunção renal ou hepática também a eleva, como registra o consenso brasileiro. O 5-HIAA é o metabólito urinário da serotonina: sobe com a serotonina que vem da comida e com os medicamentos que mexem nela, e cai quando o rim não excreta. Nenhum dos dois faz diagnóstico sozinho, e os dois são mais perigosos quando pedidos sem pergunta clínica.
A gastrina também conta a história do tumor gástrico. Na gastrite atrófica autoimune, as células parietais são destruídas, o estômago deixa de produzir ácido, e as células do antro, sem o freio do ácido, secretam gastrina sem parar; a gastrina faz as células ECL proliferarem até formarem pequenos tumores múltiplos e indolentes — o tipo 1. No gastrinoma, a gastrina vem de um tumor e o ácido está alto: é o tipo 2, com úlceras. No tipo 3 não há hipergastrinemia, não há estímulo trófico, e o tumor que cresce assim é autônomo e agressivo. O mesmo raciocínio explica a armadilha do gastrinoma: o inibidor de bomba de prótons tira o freio do ácido e eleva a gastrina de quem não tem tumor, e suspendê-lo em quem tem gastrinoma devolve de uma vez o ácido que o remédio segurava, com risco de sangramento e perfuração que a diretriz europeia de 2023 registra.
Por fim, diferenciação e grau são dois eixos, e confundi-los é confundir duas doenças. Diferenciação é o que a célula parece: o tumor neuroendócrino bem diferenciado conserva a arquitetura em ninhos e os receptores de somatostatina e mede o tempo em anos. Grau é quanto a célula divide, pelo índice Ki-67 e pela contagem de mitoses: pela classificação de 2019 que o manual da Sociedade Brasileira de Patologia transcreve, G1 abaixo de 3%, G2 de 3% a 20% e G3 acima de 20%. O carcinoma neuroendócrino pouco diferenciado, de pequenas ou de grandes células, é de alto grau por definição, tem mediana de sobrevida menor que um ano quando metastático, segundo o consenso brasileiro, e se trata com platina e etoposido, como o carcinoma de pequenas células do pulmão. Um tumor bem diferenciado G3 não é um carcinoma, e o tratamento do carcinoma é a quimioterapia com platina, não o análogo que serve ao tumor bem diferenciado.

Como se apresenta de verdade
O tumor neuroendócrino se apresenta de seis maneiras, e cada uma chega a uma porta diferente do hospital: o laudo chega ao ambulatório de egressos e à endoscopia; o rubor com diarreia chega à atenção primária e ao ginecologista, confundido com menopausa; o coração direito chega à cardiologia como insuficiência cardíaca sem causa; a hipoglicemia chega ao pronto-socorro e à neurologia; a úlcera que não fecha chega à gastroenterologia; e o carcinoma de alto grau chega como uma massa ainda sem nome.
O que as seis têm em comum é que o primeiro médico raramente pensa no tumor. Em cada seção, o que se pede ao interno é a mesma coisa: reconhecer a porta, fazer as duas ou três perguntas que mudam a probabilidade e saber o que ainda não é dele decidir.
Percurso de aprendizagem
O núcleo do internato é reconhecer diarreia secretora, rubor, broncoespasmo e cardiopatia direita e considerar diagnósticos alternativos. Aprenda também quando úlcera recorrente e diarreia levantam suspeita de gastrinoma.
Entenda o que diferencia tumor bem diferenciado, grau e carcinoma e por que marcadores isolados podem enganar. Crise durante procedimento exige suporte imediato. Estadiamento molecular, cirurgia e seleção de terapias oncológicas são aprofundamento para discussão especializada.
Use os casos para explicar decisões e consequências. As doses e os horários da narrativa são exemplos contextualizados; confirme sua adequação ao paciente e ao protocolo assistencial. Consulte as divergências e regras de acesso quando elas mudarem uma decisão concreta.
O envelope: o tumor achado na peça e na endoscopia
O capítulo Apendicite aguda (diagnóstico clínico, Alvarado, conduta), da apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica, manda encaminhar toda peça de apendicectomia ao exame anatomopatológico, e diz por quê: é o laudo que identifica o tumor de apêndice. Quando ele vem, o paciente já está curado da apendicite e, se o tumor for pequeno e tiver saído inteiro, também do tumor — mas ninguém sabe disso antes de ler cinco dados. O manual de laudos da Sociedade Brasileira de Patologia exige que o laudo traga o grau com a contagem de mitoses e o índice Ki-67, a extensão, as margens, a invasão vascular e perineural e os linfonodos, quando houver; e a diretriz de 2025 da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica usa exatamente tamanho, grau, margem, invasão do mesoapêndice acima de 3 mm e invasão angiolinfática para decidir se a apendicectomia bastou.
Há dois nomes no laudo do apêndice que não pertencem ao envelope tranquilizador. O primeiro é o carcinoide de células caliciformes, que o manual da patologia manda estadiar pelo esquema de carcinoma: apesar do nome antigo, ele não segue a régua deste capítulo, e a decisão sobre ele é da cirurgia oncológica. O segundo é a neoplasia mista, em que o componente neuroendócrino e o não neuroendócrino representam, cada um, pelo menos 30% do tumor. Nos dois casos, o interno não tranquiliza ninguém antes de o cirurgião ler o laudo.
No estômago, pequenos tumores bem diferenciados no corpo/fundo sobre gastrite atrófica sugerem tipo 1, em geral indolente, mas ainda sujeito a estratificação e seguimento. Gastrina, uso de inibidor de bomba, histologia da mucosa e contexto clínico ajudam a separar tipos 1, 2 e 3. Gastrina normal isolada não transforma uma lesão em tipo 3 nem decide cirurgia; tumor esporádico requer avaliação de tamanho, grau, profundidade e disseminação.
No reto, o achado é um nódulo submucoso pequeno, retirado numa colonoscopia de rastreamento como se fosse um pólipo comum. A diretriz de 2025 da SBOC separa três situações: abaixo de 1 cm, a ressecção local é o tratamento e não há seguimento; entre 1 e 2 cm, a indicação de ressecção convencional depende do comprometimento da camada muscular e dos linfonodos, e o seguimento se faz com retoscopia e ressonância de pelve ou ultrassonografia endorretal 6 a 12 meses depois; acima de 2 cm, a cirurgia é a convencional. O capítulo Pólipos colorretais e síndromes de polipose, da apostila de Coloproctologia, não trata deste tumor, que por isso fica aqui.
O tumor do intestino delgado entra de outro jeito: o consenso brasileiro de 2017 lista obstrução, fibrose mesentérica e isquemia intestinal entre as complicações do primário, manda considerar a ressecção mesmo no paciente metastático assintomático por esse risco, e manda ressecar o primário do intestino médio com os linfonodos mesentéricos justamente para prevenir a fibrose. A diretriz de 2025, por sua vez, manda dosar o 5-HIAA urinário de todo tumor de intestino delgado ou de primário desconhecido, mesmo sem sintoma nenhum, porque, nas palavras da própria diretriz, cerca de 15% podem ser assintomáticos.
Rubor com diarreia: a síndrome carcinoide
O rubor da síndrome carcinoide é seco. A diretriz europeia de 2022 descreve um calor com vermelhidão que atinge rosto, pescoço e parte superior do tronco, sem sudorese, e o separa de quatro padrões: o difuso e breve, de um a cinco minutos, das fases iniciais; o violáceo e mais longo, com telangiectasias no rosto, da doença intestinal antiga — e o paciente muitas vezes já não o percebe, porque se acostumou; o prolongado, de horas a dias, com lacrimejamento, aumento das glândulas salivares, hipotensão e edema facial, dos tumores de pulmão; e o vermelho vivo, em placas, do tumor gástrico tipo 1 avançado, mediado por histamina. Perguntar se o rubor vem com suor é a pergunta que mais separa.
É justamente o suor que desfaz o diagnóstico mais comum no lugar dele. O rubor da menopausa e do hipogonadismo é úmido, começa como uma onda de calor no centro do rosto e do tronco e termina em sudorese profusa; o da ansiedade vem com palpitação, falta de ar e tremor; o da mastocitose vem com urticária, prurido e episódios desencadeados por opioides e anestesia; o do carcinoma medular de tireoide vem com telangiectasias e sudorese. A mulher de 52 anos com rubor, sem suor, e com diarreia que a acorda de madrugada não está na menopausa até que alguém pergunte pelo intestino.
A diarreia da síndrome é secretória: persiste em jejum, acontece à noite, vem com cólica e urgência e, segundo o relatório da Conitec, pode chegar a 30 evacuações por dia, com perda de potássio e de água capaz de pôr a vida em risco. A diretriz europeia lembra que VIPoma, gastrinoma, carcinoma medular de tireoide e mastocitose também dão diarreia secretória, e que quem separa é o laboratório. O broncoespasmo aparece em cerca de 15% dos pacientes, junto com os episódios de rubor, e é o sibilo que o pneumologista não explica.
Duas perguntas completam a anamnese. A primeira é pelo fígado: rubor com diarreia em quem tem tumor de intestino significa, pelo mecanismo do filtro, metástase hepática até prova em contrário, e o exame do abdome e a ultrassonografia costumam mostrar o que a anamnese sugeriu. A segunda é pela nutrição: a serotonina é feita a partir do triptofano, o mesmo aminoácido de onde vem a niacina, e a diretriz europeia lista a pelagra — dermatite nas áreas expostas ao sol, diarreia e demência — entre as complicações específicas da síndrome, ao lado da desnutrição e das deficiências de vitaminas.
A diarreia crônica sem rubor, sem metástase e sem outro sinal desta doença continua sendo a do capítulo Síndrome do intestino irritável e diarreia crônica, da apostila de Gastroenterologia, que é dono da investigação geral. O que este capítulo acrescenta é a combinação: rubor seco, diarreia secretória noturna, sibilo e fígado aumentado não pedem uma lista de exames de diarreia — pedem o 5-HIAA urinário colhido do jeito certo e uma imagem do fígado.
O coração direito: a valvopatia que a síndrome esconde
A cardiopatia carcinoide se apresenta como insuficiência cardíaca direita: cansaço, falta de ar aos esforços, turgência jugular, sopro, fígado aumentado, edema de membros inferiores e ascite. O problema é que quase tudo isso se confunde com a própria doença: o fígado grande pode ser das metástases, a ascite pode ser do tumor, o cansaço pode ser da diarreia. O consenso brasileiro de 2017 registra que a valva tricúspide é acometida em 97% dos casos, e a diretriz europeia de 2022 avisa que o exame clínico é notoriamente pouco confiável para rastrear, porque até um quarto dos pacientes com lesão tricúspide moderada a grave tem poucos sintomas.
Por isso o rastreio é por exame complementar, e é do interno lembrar de pedi-lo. A diretriz europeia manda dosar o NT-proBNP em todo paciente com 5-HIAA elevado, com ou sem sintomas, no diagnóstico da síndrome e no seguimento: acima de 260 pg/mL, o paciente vai ao ecocardiograma; abaixo disso, a chance de cardiopatia é muito baixa, com valor preditivo negativo de 97%. O consenso brasileiro vai direto ao ecocardiograma em quem tem 5-HIAA elevado, feito por profissional familiarizado com a doença e com teste de microbolhas para o forame oval. A tomografia de abdome e tórax pedida por outro motivo também pode avisar: a diretriz europeia recomenda que uma razão aumentada entre as larguras dos ventrículos direito e esquerdo seja relatada como possível sinal de cardiopatia carcinoide, depois de afastada a embolia pulmonar.
O tratamento definitivo da cardiopatia avançada é a troca valvar, por bioprótese, em centro com experiência, decidida por uma equipe que junta oncologia, cardiologia, cirurgia cardíaca e anestesia. Não há capítulo de valvopatia tricúspide neste nível — o de valvopatias da apostila de Cardiologia trata da estenose aórtica e da insuficiência mitral —, e o que cabe ao interno está aqui: reconhecer a insuficiência cardíaca direita no paciente com síndrome, pedir o NT-proBNP e o ecocardiograma, e lembrar que, para a diretriz europeia, a cardiopatia concomitante basta para indicar octreotida em infusão contínua em qualquer procedimento invasivo.
Hipoglicemia de jejum no não diabético: o insulinoma
O insulinoma se apresenta pela tríade de Whipple: sintomas compatíveis com hipoglicemia, glicose baixa documentada no momento dos sintomas e alívio com a ingestão de carboidrato. A diretriz europeia de 2023 exige que a glicose documentada esteja abaixo de 45 mg/dL, medida em tubo com inibidor de glicólise e processada sem demora, porque o glicosímetro de ponta de dedo não é confiável na faixa baixa. Os sintomas autonômicos — suor, fraqueza, taquicardia, fome — somem com o tempo, pela perda da percepção da hipoglicemia, e ficam os neuroglicopênicos: irritabilidade, confusão, déficit neurológico transitório, convulsão e coma.
É por isso que o insulinoma passa anos no consultório errado. A diretriz europeia recomenda afastar o hiperinsulinismo endógeno em todo sintoma neurológico sem diagnóstico claro, e registra que entre os primeiros sintomas e o diagnóstico passam pelo menos dois anos, muitas vezes cinco. A pessoa que tem crises de comportamento estranho de manhã, antes do café, que melhora depois de comer e que engordou nos últimos anos costuma receber outros diagnósticos antes de alguém medir a glicose na hora da crise. A mesma diretriz lembra que cerca de 5% dos insulinomas dão hipoglicemia só depois das refeições, e não em jejum.
A prova bioquímica do hiperinsulinismo — a amostra crítica com insulina, peptídeo C, pró-insulina e beta-hidroxibutirato colhidos na hipoglicemia, o rastreamento de sulfonilureia e o jejum supervisionado — pertence ao capítulo Hipoglicemia no não-diabético e manejo da hipoglicemia grave, da apostila de Endocrinologia, que é dono dela e diz com razão que o insulinoma não se procura por imagem antes da bioquímica. O que vem depois da prova é deste capítulo: o insulinoma como tumor.
Provado o hiperinsulinismo endógeno, o insulinoma costuma ser único e pequeno, a grande maioria é benigna, segundo o consenso brasileiro, e a cirurgia é o tratamento-padrão. A diretriz europeia de 2023 localiza com tomografia multifásica com fase arterial, em que o insulinoma aparece como nódulo pequeno que realça cedo, e com ecoendoscopia, que enxerga lesões de 2 a 5 mm e mede a distância até o ducto pancreático principal — a informação que decide se o cirurgião pode enuclear o tumor. A imagem com receptor de GLP-1, onde existir, e o cateterismo com cálcio ficam para quem tem bioquímica positiva e imagem negativa, em centro especializado. Não se faz vigilância de insulinoma: com sintomas, o tratamento é retirar.
Duas perguntas de anamnese mudam o caminho. A primeira é pela família e pelo cálcio: a diretriz europeia estima o insulinoma em 10% dos portadores de neoplasia endócrina múltipla tipo 1, que junta hiperparatireoidismo primário, tumor de hipófise e tumor neuroendócrino pancreático, e manda suspeitar dela em quem adoece antes dos 30 anos. A segunda é pela gravidade das crises: enquanto espera a cirurgia, o consenso brasileiro manda internar quem tem hipoglicemia grave, com refeições a cada três horas, glicose em infusão contínua e glicemia monitorizada. O diazóxido, primeira linha da diretriz europeia para a doença avançada, não consta da Rename 2024.
A úlcera que não fecha e a diarreia que melhora com omeprazol: o gastrinoma
O gastrinoma produz a síndrome de Zollinger-Ellison, e ela quase nunca chega com o nome. A diretriz europeia de 2023 manda suspeitar diante de úlcera péptica sem Helicobacter pylori, sem anti-inflamatório, sem doença de Crohn e sem câncer; de úlceras múltiplas, recorrentes, refratárias ou em lugares atípicos; de refluxo grave; e de diarreia que melhora com inibidor de bomba de prótons. A diarreia que melhora com omeprazol é uma pista que só aparece se alguém perguntar por ela.
A mesma diretriz registra por que a síndrome ficou mais difícil de ver: o inibidor de bomba de prótons é prescrito cedo, para quase todo mundo, e apaga os sintomas antes que as úlceras se multipliquem. E ele cria a segunda armadilha, a do laboratório. O diagnóstico clássico exige gastrina de jejum acima de dez vezes o limite superior com pH gástrico igual ou menor que 2, sem uso do remédio. Mas gastrite atrófica, inibidor de bomba de prótons, insuficiência renal e Helicobacter pylori também elevam a gastrina — e quem chega ao especialista já em uso do remédio, como a diretriz registra, tem gastrina na mesma faixa de quem tem o tumor.
A tentação é suspender o omeprazol para colher de novo. A diretriz europeia de 2023 é explícita: em quem tem gastrinoma, suspender o inibidor de bomba de prótons pode provocar rebote de ácido, com úlcera, sangramento e perfuração, e a suspensão temporária só se faz por protocolo publicado de centro especializado. Por isso a própria diretriz propõe um caminho alternativo, sem suspender: com sintomas sugestivos e gastrina elevada, sem outra causa para a hipergastrinemia, procura-se o tumor por ecoendoscopia, tomografia ou ressonância e imagem com análogo da somatostatina. O consenso brasileiro de 2017 trata com inibidor de bomba de prótons em dose alta, com ou sem bloqueador H2; a Rename 2024 tem omeprazol de 20 mg e não tem bloqueador H2.
A úlcera péptica comum, a erradicação do Helicobacter pylori e a úlcera que não cicatriza pelas causas habituais continuam sendo do capítulo Doença ulcerosa péptica e Helicobacter pylori, da apostila de Gastroenterologia. O que fica aqui é o reconhecimento: úlcera sem causa, múltipla ou refratária, com diarreia que responde ao omeprazol, ou em quem tem hiperparatireoidismo ou história familiar de tumores endócrinos, que sugerem neoplasia endócrina múltipla tipo 1, é suspeita de gastrinoma, e a suspeita vai ao gastroenterologista sem que ninguém mexa no omeprazol.
O que tem o mesmo sobrenome e é outra doença: o carcinoma de alto grau e as síndromes raras
O carcinoma neuroendócrino pouco diferenciado, de pequenas ou de grandes células, fora do pulmão, chega sem síndrome hormonal característica — no estômago, na descrição do manual da patologia, como lesão ulcerada volumosa que sangra —, e o laudo diz carcinoma, não tumor. O consenso brasileiro de 2017 registra mediana de sobrevida menor que um ano na doença metastática e trata com cisplatina ou carboplatina associada a etoposido ou irinotecano; na doença localizada e ressecável, cirurgia oncológica; na localmente avançada, quimioterapia com radioterapia. O carcinoma de pequenas células do pulmão, o mais conhecido da família, é do capítulo Câncer de pulmão (não-pequenas células, estadiamento, ressecabilidade), da apostila de Cirurgia Torácica.
A confusão perigosa é com o tumor bem diferenciado G3. O índice Ki-67 acima de 20% não transforma um tumor bem diferenciado em carcinoma: o consenso brasileiro registra que há tumores G3 com histologia bem diferenciada, índice proliferativo menor e prognóstico melhor que o dos carcinomas. Diferenciação é o que decide a família, e o grau decide dentro dela — por isso o mesmo consenso manda o laudo informar a diferenciação independentemente do índice, e o laudo que diz apenas G3 volta ao patologista com uma pergunta.
Os tumores pancreáticos funcionantes raros aparecem no pronto-socorro pelo distúrbio que causam. O VIPoma dá diarreia aquosa volumosa, que o consenso brasileiro descreve como coleriforme, com hipocalemia, acidose e choque hipovolêmico; o glucagonoma dá eritema necrolítico migratório, diabetes, emagrecimento, anemia, depressão e trombose venosa profunda. A diretriz europeia de 2023 lista ainda o tumor produtor de ACTH, que causa Cushing ectópico, e o produtor de peptídeo relacionado ao paratormônio, que causa hipercalcemia. O interno não precisa decorar a lista: precisa lembrar que diarreia com hipocalemia grave sem causa, ou uma lesão de pele que ninguém explica num diabético que emagrece, podem ser um tumor de pâncreas. A investigação do Cushing por ACTH ectópico é do capítulo Síndrome de Cushing e hiperaldosteronismo (HAS secundária), da apostila de Endocrinologia.
Como fechar o diagnóstico
A investigação do tumor neuroendócrino tem uma regra que a separa da maior parte da medicina interna: quase nenhum exame de sangue ou de urina faz diagnóstico, e quase todos podem enganar. O diagnóstico é do tecido. Os marcadores servem para medir uma síndrome que a clínica já sugeriu, para acompanhar quem já tem o diagnóstico e para rastrear a complicação cardíaca — e cada um tem uma lista própria do que o falsifica.
Por isso esta seção é organizada pela pergunta, não pelo exame. Para cada pedido, o interno precisa saber em quem pedir, como colher e o que, na mesma folha, pode estar mentindo. E precisa saber, com a mesma clareza, o que não pedir: o exame desnecessário neste capítulo não é só desperdício — é o que transforma uma paciente curada numa paciente em investigação.
O laudo é o exame: o que ler e o que devolver ao patologista
O consenso brasileiro de 2017 põe o anatomopatológico como padrão-ouro do diagnóstico e pede imuno-histoquímica em todo caso suspeito, com um painel mínimo de citoqueratina de baixo peso molecular, sinaptofisina e cromogranina A, para confirmar a natureza neuroendócrina e reduzir o erro diagnóstico. O laudo que o interno recebe já passou por essa etapa; o que falta é lê-lo na ordem certa.
A primeira leitura é a diferenciação: bem diferenciado é tumor, pouco diferenciado é carcinoma, e as duas famílias têm tratamentos diferentes. A segunda é o grau, pela classificação de 2019 que o manual da Sociedade Brasileira de Patologia transcreve: G1 com menos de 2 mitoses por 2 mm² e Ki-67 abaixo de 3%; G2 com 2 a 20 mitoses e Ki-67 de 3% a 20%; G3 acima de 20 nos dois. Quando a contagem de mitoses e o Ki-67 apontam graus diferentes, vale o maior. Dois documentos brasileiros escrevem essa fronteira de outro jeito — um deixa sem grau o Ki-67 entre 2% e 3%, outro põe o Ki-67 de 3% em dois graus —, e o capítulo registra os dois nas notas do critério: o laudo que segue o manual da patologia está certo.
A terceira leitura é o que decide a conduta no apêndice, no reto e no estômago: tamanho, margem, invasão do mesoapêndice e sua profundidade, invasão angiolinfática e perineural, linfonodos. O manual da patologia lista esses itens como obrigatórios, e o laudo que não os traz não permite decidir. No estômago, os outros achados — gastrite atrófica, hiperplasia neuroendócrina, ausência de células parietais — dizem se o tumor nasceu num estômago sem ácido.
Três laudos voltam ao patologista com uma pergunta, e fazer essa pergunta é trabalho do interno: o que diz G3 sem dizer se o tumor é bem ou pouco diferenciado; o do apêndice acima de 1 cm que não descreve o mesoapêndice nem a invasão angiolinfática; e o que não traz o Ki-67. Nenhum dos três se resolve pedindo exame de sangue.
5-HIAA urinário de 24 horas: em quem pedir e como colher
O 5-HIAA é o marcador da síndrome carcinoide, e a régua brasileira mais nova, a diretriz de 2025 da SBOC, manda dosá-lo em todo tumor de intestino delgado ou de primário desconhecido, mesmo sem sintomas, e pedir ecocardiograma se ele vier acima do limite superior. O consenso brasileiro de 2017 era mais restrito no assintomático e a diretriz europeia de 2022 amplia para os tumores de pulmão e de ovário; a escolha entre eles para o tumor localizado sem sintoma está nas divergências do capítulo. Em todo paciente com rubor e diarreia sugestivos, os três documentos concordam: pede-se.
A coleta é onde o exame mais erra. O consenso brasileiro manda dieta pobre em serotonina por 48 horas antes e durante a coleta, e suspender, se possível, os medicamentos serotoninérgicos, como os antidepressivos; lista como causas de falso-positivo a doença celíaca, a estase intestinal, a fibrose cística, os inibidores seletivos de recaptação de serotonina e o tramadol; e lembra que a insuficiência renal baixa o valor. A diretriz europeia acrescenta o paracetamol e dá a lista de alimentos a evitar: banana, abacaxi, tomate, ameixa, berinjela, abacate, kiwi, frutas em geral e nozes. E prefere duas coletas de 24 horas, pela variabilidade.
Duas situações pedem cuidado a mais. No paciente que já usa análogo da somatostatina, o consenso brasileiro manda colher imediatamente antes da próxima dose, porque logo depois da injeção o valor vem artificialmente baixo. E no paciente que não pode suspender o antidepressivo, o resultado positivo precisa ser lido com a lista de interferentes na mão — a decisão de suspender é do médico que o prescreveu, não do pedido de exame.
Para ler o resultado, confira a unidade antes do número. A diretriz europeia considera compatível com síndrome carcinoide uma excreção acima de 50 µmol em 24 horas, com normal de 2 a 9 mg ou de 10,4 a 46,8 µmol por 24 horas, e registra que acima de 300 µmol o risco de desenvolver ou agravar a cardiopatia dobra ou triplica. Como 1 mg de 5-HIAA corresponde a cerca de 5,2 µmol, os 50 µmol equivalem a pouco menos de 10 mg por 24 horas e os 300 µmol a cerca de 57 mg; a conta está na tabela de conversões do critério.
Cromogranina A: o exame que mais engana
A cromogranina A é o exame que primeiro vem à cabeça e o menos útil na mão de quem ainda não tem diagnóstico. O consenso brasileiro de 2017 a aceita como marcador geral, com limitações que dependem do método e da situação clínica, e lista o que a eleva sem tumor: hipergastrinemia secundária, gastrite atrófica, infecção por Helicobacter pylori, uso de inibidor de bomba de prótons, disfunção hepática ou renal e outras neoplasias. Recomenda usá-la como dado prognóstico e de monitorização, nunca sozinha para decidir conduta, e não recomenda a dosagem isolada no seguimento.
A diretriz europeia de 2022 acrescenta que a cromogranina não separa o paciente que tem síndrome carcinoide do que não tem. Juntando as duas, a regra para o interno é curta: cromogranina A não rastreia tumor neuroendócrino, não confirma síndrome carcinoide e não se pede em quem usa omeprazol sem uma pergunta que o omeprazol não vá responder por ela.
O dano é concreto. A paciente dispéptica, em uso crônico de inibidor de bomba de prótons, que faz uma cromogranina num check-up e recebe um valor três vezes acima do normal, entra numa sequência de tomografias, endoscopias e encaminhamentos que termina onde começou: no omeprazol. Na paciente do envelope, a cromogranina não tem pergunta nenhuma a responder — o tumor saiu inteiro com o apêndice.
Gastrina: no pólipo gástrico e na úlcera que não fecha
A gastrina participa da classificação do tumor gástrico, em conjunto com mucosa de fundo, história, medicamentos e avaliação da secreção ácida quando pertinente. Gastrite atrófica e hipergastrinemia favorecem tipo 1; gastrinoma é contexto do tipo 2; tipo 3 é esporádico. Uma medida discordante pede rever coleta e classificação. Vigilância, ressecção endoscópica ou cirurgia dependem de tipo, tamanho, grau, profundidade e estadiamento discutidos com a equipe, sem decisão automática por um único corte.
Na suspeita de gastrinoma, a gastrina é o exame que mais engana. A diretriz europeia de 2023 exige, para o diagnóstico clássico, gastrina de jejum acima de dez vezes o limite superior com pH gástrico igual ou menor que 2, sem uso de inibidor de bomba de prótons, e lista o que a eleva sem tumor: gastrite atrófica, o próprio inibidor de bomba de prótons, insuficiência renal e Helicobacter pylori. O pH é a metade do critério que o ambulatório esquece: gastrina alta com estômago sem ácido é gastrite atrófica ou remédio, não tumor.
O consenso brasileiro de 2017 ainda indicava teste provocativo com secretina ou cálcio quando a gastrina fica entre 200 e 1.000 pg/mL; a diretriz europeia de 2023 registra que o teste da secretina e a medida do débito ácido basal desapareceram da prática, e propõe, em quem tem sintomas e gastrina elevada sem outra causa, procurar o tumor por ecoendoscopia, tomografia ou ressonância e imagem com análogo da somatostatina. Nos dois caminhos, o que não se faz é suspender o omeprazol do paciente com úlcera para repetir a gastrina: essa decisão é de centro especializado, por protocolo.
Imagem e coração: o pedido que cabe ao interno e o que cabe ao especialista
A diretriz de 2025 da SBOC estadia os tumores gastrointestinais com tomografia de tórax e abdome e PET/CT com gálio-68, com uma exceção que poupa exame: o tumor gástrico tipo 1 menor que 2 cm não precisa de estadiamento. A diretriz europeia de 2022 descreve a tomografia com contraste e fase arterial precoce como o padrão mínimo, a ressonância de fígado com difusão e contraste hepatoespecífico como a melhor para contar e medir metástases, e a imagem com receptor de somatostatina, de preferência por PET, como a de escolha para o estadiamento inicial de corpo inteiro. A tomografia com fase arterial é um pedido que o interno pode fazer, desde que bem feito; a imagem funcional é pedido e decisão do especialista.
No tumor pancreático funcionante, a diretriz europeia de 2023 mantém a mesma lógica e acrescenta dois recursos: a ecoendoscopia, que enxerga lesões de poucos milímetros e mede a distância até o ducto pancreático, e, para o insulinoma com bioquímica positiva e imagem negativa, a imagem com receptor de GLP-1 ou o cateterismo com cálcio em centro especializado.
O coração se investiga por exame, não por ausculta. Em todo paciente com 5-HIAA elevado, a diretriz europeia pede NT-proBNP e manda ao ecocardiograma quem passa de 260 pg/mL; o consenso brasileiro pede ecocardiograma direto, com teste de microbolhas. O ecocardiograma de base importa também porque a diretriz brasileira de 2025 registra que a cardiopatia carcinoide contraindica as terapias dirigidas ao fígado, e a diretriz europeia manda avaliar o coração antes de qualquer terapia sistêmica ou locorregional além do análogo.
O que não se pede também está escrito. O consenso brasileiro não recomenda imagem funcional no seguimento de quem não tem doença na imagem convencional, nem cromogranina isolada no seguimento. A diretriz de 2025 dispensa o seguimento do tumor de apêndice menor que 2 cm e do tumor de reto menor que 1 cm. Pedir uma tomografia anual para a paciente do envelope não a protege de nada: expõe-na à radiação e ao achado incidental seguinte.
Antes da biópsia, da cirurgia e da embolização: a pergunta que ninguém faz
Há uma investigação que não aparece em nenhum pedido de exame e é a mais importante do capítulo: antes de qualquer procedimento num paciente com tumor neuroendócrino conhecido ou suspeito, alguém precisa perguntar se ele tem síndrome carcinoide. Rubor, diarreia, sibilo, 5-HIAA alto, sopro ou insuficiência cardíaca direita — qualquer um desses dados muda o preparo.
A diretriz de 2025 da SBOC determina que o paciente com tumor funcionante receba análogo da somatostatina e esteja com a síndrome controlada antes de qualquer procedimento de intervenção, para prevenir a crise carcinoide. A diretriz europeia de 2022 lista entre os desencadeantes da crise a biópsia do tumor, a manipulação cirúrgica, os simpaticomiméticos, a anestesia e a embolização hepática, e recomenda octreotida profilática antes e durante o procedimento invasivo.
Na prática da enfermaria, isso significa que a biópsia hepática de um paciente com rubor e diarreia não é uma biópsia de rotina, e que a pergunta precisa ser feita por quem interna, na véspera — não pelo radiologista intervencionista na maca. O que prescrever, quando começar e o que fazer se a crise vier estão na conduta e no critério.
Reconhecer síndromes funcionantes e seus riscos
Objetivo no internato: compreender a apresentação, justificar as hipóteses e propor cuidado e reavaliação sob supervisão. O núcleo do internato é reconhecer diarreia secretora, rubor, broncoespasmo e cardiopatia direita e considerar diagnósticos alternativos. Aprenda também quando úlcera recorrente e diarreia levantam suspeita de gastrinoma. Cada decisão do capítulo tem uma régua declarada, e em nenhuma delas a régua é um protocolo do Ministério da Saúde: não há protocolo clínico nem diretriz terapêutica federal para tumor neuroendócrino. Na Rename 2024, o único documento norteador da octreotida e da lanreotida é o protocolo da acromegalia, e o relatório da Conitec de 2024 descreve o tratamento oncológico do tumor pela autorização de procedimento de alta complexidade, com esquema definido pelo hospital. O grau se lê pela classificação da OMS de 2019, na transcrição do manual de laudos da Sociedade Brasileira de Patologia, porque dois documentos brasileiros escrevem errado a fronteira do G1. A segunda operação e o seguimento do achado na peça seguem a diretriz de 2025 da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, a régua brasileira mais nova. A coleta e a leitura dos marcadores seguem o consenso brasileiro de 2017, completado pela diretriz europeia de 2022 onde ele não fala. A prevenção e o tratamento da crise carcinoide não têm dose em documento brasileiro nenhum: a SBOC de 2025 exige análogo e síndrome controlada antes de qualquer procedimento, o consenso de 2017 dá o tempo sem dose, e a única régua com dose e tempo é a diretriz europeia de 2022 — os dois vasopressores que ela prefere não constam da Rename 2024. O insulinoma e o gastrinoma como tumores seguem a diretriz europeia de 2023, com a prova bioquímica cedida ao capítulo de hipoglicemia no não-diabético. O acesso ao tratamento segue a Portaria SECTICS/MS nº 5, de 5 de março de 2024.
- 1Laudo com tumor neuroendócrino: leia primeiro a diferenciação, depois o grau pela contagem de mitoses por 2 mm² e pelo Ki-67 (G1 abaixo de 3%, G2 de 3% a 20%, G3 acima de 20%; na discordância, vale o maior), e só então tamanho, margem, mesoapêndice, invasão angiolinfática e linfonodos.
- 2Pouco diferenciado, carcinoma de pequenas ou grandes células, neoplasia mista ou carcinoide de células caliciformes: não é a régua do achado — oncologia e cirurgia oncológica. Laudo com G3 sem diferenciação volta ao patologista.
- 3Bem diferenciado no apêndice, no reto ou no estômago: aplique a linha do sítio na tabela da SBOC de 2025 para decidir segunda operação e seguimento, e diga ao paciente o que ela decidiu, inclusive quando decidiu que não há nada a fazer.
- 4Tumor de intestino delgado ou de primário desconhecido, com ou sem sintomas: 5-HIAA urinário de 24 horas, com 48 horas de dieta antes e durante e revisão dos medicamentos; se vier acima do limite superior, ecocardiograma.
- 5Rubor seco, diarreia secretória que acorda à noite, sibilo ou fígado com nódulos: suspeita de síndrome carcinoide — 5-HIAA colhido do jeito certo e imagem do fígado; cromogranina A não confirma nem afasta.
- 65-HIAA elevado: NT-proBNP e ecocardiograma de base; acima de 260 pg/mL, ecocardiograma sempre; ecocardiograma com teste de microbolhas e feito por quem conhece a doença.
- 7Biópsia, cirurgia, embolização ou anestesia planejada em quem tem síndrome carcinoide ou tumor funcionante: avisar a equipe; análogo com síndrome controlada ou octreotida de curta ação começando 12 horas antes e mantida até a estabilidade clínica; infusão contínua na cirurgia maior, no procedimento locorregional e em quem tem cardiopatia; solução de 0,1 mg/mL separada na sala.
- 8Crise durante procedimento: parar o estímulo, acionar equipe, apoiar via aérea e circulação, administrar octreotida de resgate conforme protocolo e vasopressor quando necessário. Investigar causas alternativas de choque sem atrasar suporte.
- 9Hipoglicemia de jejum com tríade de Whipple: amostra crítica e prova bioquímica no capítulo de hipoglicemia; provado o hiperinsulinismo endógeno, localizar com tomografia com fase arterial e ecoendoscopia, perguntar por neoplasia endócrina múltipla tipo 1, internar quem tem crise grave e não iniciar análogo de depósito sem teste com octreotida de curta ação.
- 10Úlcera sem Helicobacter pylori e sem anti-inflamatório, múltipla, recorrente, refratária ou atípica, ou diarreia que melhora com omeprazol: suspeita de gastrinoma — não suspender o inibidor de bomba de prótons para dosar gastrina; encaminhar à gastroenterologia com a suspeita escrita.
- 11Doença avançada confirmada: encaminhamento ao hospital habilitado em oncologia; no SUS, o análogo entra pela autorização de procedimento de alta complexidade do hospital — a lanreotida foi incorporada em 2024 para os sintomas da síndrome carcinoide, e a octreotida de liberação prolongada, não incorporada, ainda pode estar no esquema do hospital.
O grau no laudo, pela classificação de 2019 (manual de laudos da Sociedade Brasileira de Patologia)
| O que o laudo diz | Mitoses por 2 mm² | Índice Ki-67 | O que muda para quem lê |
|---|---|---|---|
| Tumor neuroendócrino bem diferenciado, G1 | Menos de 2 | Abaixo de 3% | Família dos tumores. No apêndice abaixo de 2 cm sem característica desfavorável, a apendicectomia bastou (SBOC 2025). |
| Tumor neuroendócrino bem diferenciado, G2 | De 2 a 20 | De 3% a 20% | Ainda tumor. No apêndice acima de 1 cm, o grau 2 é característica desfavorável e abre a discussão de hemicolectomia direita (SBOC 2025). |
| Tumor neuroendócrino bem diferenciado, G3 | Acima de 20 | Acima de 20% | Ainda bem diferenciado, com prognóstico melhor que o do carcinoma (consenso brasileiro de 2017). Não é carcinoma. |
| Carcinoma neuroendócrino de pequenas ou de grandes células | Alto grau por definição | Alto grau por definição | Outra doença: na metastática, platina com etoposido ou irinotecano (consenso de 2017); o de pulmão é do capítulo de câncer de pulmão. |
| Mitoses e Ki-67 apontando graus diferentes | Não se aplica | Não se aplica | Vale o grau maior (manual da SBP e consenso de 2017). |
| Carcinoide de células caliciformes ou neoplasia mista (cada componente com pelo menos 30%) | Não se aplica | Não se aplica | Estadiado como carcinoma; não segue a régua do achado; decisão da cirurgia oncológica. |
O achado na peça e na endoscopia: segunda operação e seguimento pela diretriz de 2025 da SBOC
| Sítio e achado | O que a diretriz manda fazer | Seguimento | Quem conduz |
|---|---|---|---|
| Apêndice abaixo de 2 cm, sem característica desfavorável | A apendicectomia é o tratamento | Não requer | A cirurgia geral dá a alta e explica o laudo |
| Apêndice acima de 1 cm com margem positiva ou inconclusiva, invasão do mesoapêndice acima de 3 mm, grau 2 ou invasão angiolinfática; ou apêndice acima de 2 cm | Hemicolectomia direita | Tomografia ou ressonância 3 a 12 meses após a ressecção e depois a cada 6 a 12 meses até 10 anos | Cirurgia com a oncologia |
| Apêndice de exatamente 2,0 cm sem característica desfavorável | Tumor de exatamente 2 cm exige revisão de grau, margem, invasão e localização com a equipe especializada. Não decidir extensão de cirurgia apenas pela fronteira editorial entre menor e maior que 2 cm. | Pela mesma leitura, não requer | Cirurgia, que confirma a leitura |
| Reto abaixo de 1 cm | Ressecção local | Não requer | Endoscopia ou coloproctologia |
| Reto de 1 a 2 cm | Ressecção convencional conforme o comprometimento da camada muscular e dos linfonodos | Retoscopia e ressonância de pelve ou ultrassonografia endorretal 6 a 12 meses após o tratamento; depois, quando indicado | Coloproctologia |
| Reto acima de 2 cm | Ressecção cirúrgica convencional | Tomografia ou ressonância 3 a 12 meses após e depois a cada 6 a 12 meses até 10 anos | Coloproctologia com a oncologia |
| Estômago com hipergastrinemia (tipos 1 e 2), abaixo de 2 cm | Lesões gástricas de tipo 1 de baixo risco podem ter ressecção endoscópica ou vigilância conforme tamanho e características; tipo 2 exige avaliação do gastrinoma e não é automaticamente o mesmo percurso. | Endoscopia semestral por 3 anos e depois anual | Gastroenterologia e endoscopia |
| Estômago acima de 2 cm ou com margem comprometida | Discussão especializada de ressecção, extensão e necessidade de estadiamento; margem comprometida não indica automaticamente gastrectomia. | Tomografia ou ressonância 3 a 12 meses após e depois a cada 6 a 12 meses até 10 anos | Cirurgia do aparelho digestivo |
| Estômago tipo 3, com gastrina normal | Abaixo de 1 cm, ressecção endoscópica; acima de 1 cm, gastrectomia com linfadenectomia | Tomografia ou ressonância 3 a 12 meses após e depois a cada 6 a 12 meses até 10 anos | Cirurgia do aparelho digestivo com a oncologia |
| Intestino delgado | Enterectomia com linfadenectomia regional; 5-HIAA urinário mesmo sem sintomas e ecocardiograma se vier alto | Tomografia ou ressonância 3 a 12 meses após e depois a cada 6 a 12 meses até 10 anos | Cirurgia com a oncologia |
Marcadores: em quem pedir, o que falsifica e como ler
| Exame | Em quem pedir | O que falsifica | Como ler |
|---|---|---|---|
| 5-HIAA urinário de 24 horas | Toda suspeita de síndrome carcinoide; todo tumor de intestino delgado ou de primário desconhecido, mesmo sem sintomas (SBOC 2025) | Dieta e medicamentos podem interferir, conforme método e orientação laboratorial; análogos também mudam a produção hormonal. Registrar condições da coleta, sem suspender tratamento necessário nem excluir todas as frutas indefinidamente. | Acima de 50 µmol em 24 horas é compatível com a síndrome; acima de 300 µmol, risco de cardiopatia duas a três vezes maior; preferir duas coletas; conferir a unidade (mg ou µmol) |
| Cromogranina A | Quem já tem o diagnóstico, como dado prognóstico e de monitorização | Inibidor de bomba de prótons, gastrite atrófica, Helicobacter pylori, hipergastrinemia de qualquer causa, disfunção renal ou hepática, outras neoplasias | Nunca decide conduta sozinha; não rastreia o tumor; não separa quem tem síndrome carcinoide; não se usa isolada no seguimento |
| Gastrina de jejum | Tumor gástrico, para classificar o tipo; suspeita de gastrinoma | Inibidor de bomba de prótons, gastrite atrófica, insuficiência renal, Helicobacter pylori | Tipos 1 e 2: alta; tipo 3: normal. Gastrinoma clássico: acima de 10 vezes o limite superior com pH gástrico até 2, sem inibidor de bomba de prótons — que só se suspende em centro especializado |
| NT-proBNP | Todo paciente com 5-HIAA elevado, com ou sem sintomas, no diagnóstico e no seguimento | Não é marcador do tumor: mede a sobrecarga do coração | Acima de 260 pg/mL, ecocardiograma; abaixo de 260 pg/mL, valor preditivo negativo de 97% para cardiopatia carcinoide |
| Insulina, peptídeo C e pró-insulina na hipoglicemia | Tríade de Whipple com glicose abaixo de 45 mg/dL documentada em tubo com inibidor de glicólise | Sulfonilureia e meglitinida produzem o mesmo perfil do insulinoma | Contra a glicose do mesmo momento, nunca contra o valor de referência do laboratório; a interpretação é do capítulo de hipoglicemia no não-diabético |
Conversões e contas do capítulo (adulto de 70 kg; nenhuma dose deste capítulo depende do peso)
| Item e régua | Dose ou valor | Conversão | Conta para o plantão |
|---|---|---|---|
| Octreotida de curta ação, profilaxia subcutânea (ENETS 2022); solução injetável de 0,1 mg/mL na Rename 2024 | 100 a 500 µg a cada 6 a 8 horas | 0,1 mg/mL = 100 µg/mL; 100 µg = 1 mL; 500 µg = 5 mL | A cada 8 horas: 300 a 1.500 µg por dia, 3 a 15 mL. A cada 6 horas: 400 a 2.000 µg por dia, 4 a 20 mL |
| Octreotida venosa em infusão contínua, início (ENETS 2022) | 50 µg por hora, 12 horas antes do procedimento | 50 µg/h = 0,5 mL/h da solução de 0,1 mg/mL | 12 horas de véspera: 600 µg, 6 mL. A Rename dá a concentração; o número de ampolas depende do volume da ampola que o hospital compra |
| Octreotida venosa em infusão contínua, se necessário (ENETS 2022) | 100 a 200 µg por hora, até a estabilidade clínica | 100 µg/h = 1 mL/h; 200 µg/h = 2 mL/h | 24 horas a 100 µg/h: 2.400 µg, 24 mL. 24 horas a 200 µg/h: 4.800 µg, 48 mL |
| Octreotida de liberação prolongada (ENETS 2022; Rename 2024: 10, 20 e 30 mg) | 30 mg intramuscular a cada 4 semanas | 30 mg = 30.000 µg; 10 mg = 10.000 µg | Uma apresentação de 10 mg tem de 20 a 100 vezes a dose subcutânea de 500 a 100 µg: é depósito intramuscular, não é a forma da infusão |
| Lanreotida (ENETS 2022; Rename 2024: 60, 90 e 120 mg) | 120 mg subcutânea a cada 4 semanas | Uma apresentação de 120 mg por aplicação | 13 aplicações em 52 semanas |
| 5-HIAA urinário (ENETS 2022) | Compatível acima de 50 µmol/24 h; normal de 2 a 9 mg/24 h | Massa molar 191,18 g/mol: 1 mg = 5,23 µmol | 50 µmol = 9,56 mg; 300 µmol = 57,4 mg; 2 a 9 mg = 10,5 a 47,1 µmol |
| NT-proBNP (ENETS 2022) | Corte de rastreio de 260 pg/mL | 1 pg/mL ≈ 0,118 pmol/L | 260 pg/mL ≈ 31 pmol/L |
| Glicose da tríade de Whipple (ENETS 2023) | Abaixo de 45 mg/dL | mmol/L = mg/dL ÷ 18 | 45 mg/dL = 2,5 mmol/L; o texto do consenso de 2017 usa 55 mg/dL = 3,1 mmol/L |
A fronteira do G1 está escrita errada em dois documentos brasileiros, em sentidos opostos. O consenso do Grupo Brasileiro de Tumores Gastrointestinais, de 2017, define G1 com Ki-67 até 2% e G2 com Ki-67 de 3% a 20%: um Ki-67 de 2,5% não pertence a grau nenhum. O Relatório de Recomendação nº 876 da Conitec, de 2024, define G1 com Ki-67 até 3% e G2 com 3% a 20%: um Ki-67 de exatamente 3% pertence aos dois. Pela classificação de 2019, transcrita pelo manual de laudos da Sociedade Brasileira de Patologia, G1 é abaixo de 3% e 3% é G2. No mesmo parágrafo, o consenso de 2017 escreve que um campo de grande aumento tem 2 mm² e, na lista do laudo, pede o índice mitótico em 10 campos ou 2 mm²: se 10 campos somam 2 mm², cada um tem cerca de 0,2 mm², e quem contasse um único campo para ter as mitoses por 2 mm² olharia um décimo da área. A diferença muda conduta no apêndice acima de 1 cm, onde grau 2 é característica desfavorável: leia o grau pelo laudo que segue a patologia.
O Relatório nº 876 da Conitec chama o tumor neuroendócrino gastroenteropancreático de doença ultrarrara, com incidência de 0,25 por milhão por ano, na seção de avaliação econômica; na seção 4.1, o mesmo relatório dá 3,56 por 100.000 pessoas por ano para os tumores neuroendócrinos do trato gastrointestinal nos Estados Unidos em 2012, e atribui os 0,25 por milhão ao subgrupo funcionante. Conta: 3,56 por 100.000 são 35,6 por milhão, 142 vezes o número chamado de incidência do tumor. Para quem lê o relatório para decidir se pensa na doença, a frase certa é a da seção 4.1: o tumor não é ultrarraro; a síndrome carcinoide é que é rara.
Fronteiras como exatamente 1 ou 2 cm devem ser discutidas com a equipe especializada, considerando sítio, grau, invasão, margem e possibilidade de ressecção. Estadiamento T não determina sozinho a extensão da cirurgia. No apêndice, não preencher uma lacuna entre “menor” e “maior” que 2 cm com apendicectomia automática; no estômago, o tipo biológico e a profundidade também importam.
Na Tabela 3 do consenso de 2017, a linha do insulinoma indica a dosagem quando a glicemia é menor ou igual a um valor que está em branco no documento e a insulina é maior ou igual a 6 µU/L. O texto corrido da mesma seção considera anormal a insulina de 3 µU/mL ou mais com glicose até 55 mg/dL. Conta: 6 µU/L são 0,006 µU/mL — o dobro do valor numa unidade mil vezes menor; lida ao pé da letra, a tabela chama de inapropriada qualquer insulina mensurável e fabricaria insulinoma em quem tem hipoglicemia por outra causa. A interpretação da amostra crítica é do capítulo Hipoglicemia no não-diabético e manejo da hipoglicemia grave: não a tire dessa tabela.
A Rename 2024 dá formas farmacêuticas trocadas para a octreotida. Na lista do Componente Especializado, na página 53, a apresentação de 10 mg aparece como solução injetável e a de 0,1 mg/mL como pó para suspensão injetável; no anexo do componente, na página 164, a de 0,1 mg/mL é solução injetável e a de 10 mg é pó para suspensão injetável, como as de 20 e 30 mg. A página 164 é a coerente: a de 0,1 mg/mL é a de curta ação, usada por via subcutânea e na infusão venosa, e as de 10, 20 e 30 mg são o depósito de liberação prolongada, que a diretriz europeia aplica por via intramuscular. Conta do risco: pela página 53, uma solução de 10 mg teria 10.000 µg, de 20 a 100 vezes a dose subcutânea de 500 a 100 µg da profilaxia. Na véspera do procedimento e na crise, a apresentação que se pede é a de 0,1 mg/mL.
A conduta, hora a hora
Constâncio Alvarenga, 63 anos, 74 kg, motorista aposentado, é internado para uma biópsia hepática percutânea e tem síndrome carcinoide até prova em contrário: rubor seco há dois anos, diarreia que o acorda de madrugada e o fígado cheio de nódulos. A régua dele é dupla. A diretriz de 2025 da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica exige que o paciente com tumor funcionante esteja com a síndrome controlada antes de qualquer procedimento de intervenção, e a diretriz europeia de 2022 é a única fonte do capítulo que diz como fazer isso sem análogo de depósito: octreotida de curta ação começando 12 horas antes, mantida até a estabilidade clínica, em infusão contínua quando o procedimento é maior ou quando há cardiopatia.
A linha do tempo é a de um hospital geral com radiologia intervencionista e sem serviço de oncologia próprio. A crise é o marco do meio: tudo o que vem antes existe para que ela seja curta, e tudo o que vem depois, para que Constâncio chegue ao tratamento com o diagnóstico, o coração e o encaminhamento resolvidos.
Quarta-feira, 15h40: a admissão que muda a biópsia
Rubor recorrente, diarreia secretora e doença hepática nodular levantam síndrome carcinoide. Edema e sopro que aumenta na inspiração exigem avaliação de cardiopatia direita antes de um procedimento eletivo. Comunicar a suspeita à radiologia, anestesia e equipe de referência; discutir se a biópsia pode aguardar controle dos sintomas e avaliação cardíaca. Há protocolos com octreotida perioperatória, mas a profilaxia não garante prevenção de crise, e sua evidência e seus esquemas variam. O procedimento deve ocorrer com monitorização e equipe preparada para ressuscitação.
Prescrição- Comunicar hoje à radiologia intervencionista e a quem fará a sedação a suspeita de síndrome carcinoide e o plano de profilaxia
- Se a equipe indicar infusão de octreotida para o procedimento, 50 µg/h é um esquema inicial descrito na ENETS 2022. Prescrever dose em µg/h, diluente, concentração FINAL e velocidade em mL/h conferidas com a farmácia. A concentração da ampola de 0,1 mg/mL não deve ser presumida como a concentração final da bomba.
- Aumentar a infusão para 100 a 200 µg por hora se houver rubor, sibilo ou oscilação da pressão
- NT-proBNP, potássio, função renal, hemograma com plaquetas e coagulograma para a biópsia
Quarta-feira, 19h30: o plano da crise escrito antes da crise
Deixar acordado o plano de crise com a equipe do procedimento: reconhecer choque e broncoespasmo, interromper o estímulo, fornecer suporte respiratório e circulatório e administrar octreotida conforme o protocolo. Vasopressor necessário não pode esperar por uma bomba, exame ou medicamento indisponível; iniciar o suporte enquanto se organiza o tratamento específico. Manter no diagnóstico diferencial anafilaxia, hemorragia e outras causas de choque. Planejar o 5-HIAA com o laboratório, registrando dieta e medicamentos que podem interferir, sem retirar tratamento necessário só para obter uma medida basal.
Prescrição- Preparar dieta para 5-HIAA conforme a lista e o método do laboratório, limitada ao período necessário. Não prolongar exclusão de todas as frutas numa pessoa com perda de peso e diarreia; nutricionista ajuda a manter aporte adequado.
- Definir momento do 5-HIAA com a equipe e o laboratório, registrando uso de análogo e outros interferentes. Não suspender octreotida necessária ao controle da síndrome para viabilizar a coleta.
- Plano de crise: interromper procedimento, acionar equipe, avaliar via aérea e circulação, administrar octreotida conforme protocolo e ressuscitar em paralelo. Choque persistente exige vasopressor prontamente; considerar anafilaxia e sangramento no diagnóstico diferencial.
- Separar e identificar no posto a solução de octreotida de 0,1 mg/mL que desce com o paciente
Quinta-feira, 7h20: antes de descer
Corrigir o potássio de 3,3 e reavaliar volume e função cardíaca. O NT-proBNP de 610 reforça a necessidade de ecocardiograma; sintomas e exame já justificam essa avaliação. Num procedimento eletivo, a equipe decide se aguarda a avaliação e o controle da síndrome. Cardiopatia carcinoide modifica o risco e o planejamento de terapias hepáticas, sem ser proibição absoluta de toda intervenção. Antes de transportar, conferir acesso, monitorização, concentração da bomba, medicamentos e plano de resgate com anestesia.
Prescrição- Manter octreotida 50 µg por hora durante o transporte e o procedimento
- Reposição de potássio conforme o resultado, com novo controle após a biópsia
- Acesso venoso periférico calibroso, puncionado antes de descer
- Ecocardiograma transtorácico com teste de microbolhas, por NT-proBNP de 610 pg/mL
Quinta-feira, 8h25: a crise na maca
Hipotensão profunda, hipoxemia, rubor e broncoespasmo durante a manipulação tumoral sugerem crise carcinoide, mas também exigem considerar anafilaxia e sangramento. Interromper o procedimento e iniciar suporte de via aérea, oxigenação e circulação imediatamente. A equipe administra octreotida EV conforme o protocolo e ajusta a infusão enquanto repõe volume em alíquotas monitoradas e inicia vasopressor quando necessário. Não atrasar ressuscitação aguardando resposta à octreotida ou corticoide. Se a avaliação sustentar anafilaxia, a adrenalina intramuscular permanece tratamento inicial e não deve ser retida pelo rótulo de síndrome carcinoide; adrenalina EV em bolus é outra intervenção, de alto risco e restrita a contexto especializado.
Prescrição- Interromper o procedimento e acionar o time de resposta rápida
- Octreotida EV de resgate e ajuste da infusão segundo protocolo da anestesia/equipe experiente. Conferir concentração final e dose em microgramas; 200 µg/h é exemplo de faixa perioperatória, não teto universal para toda crise.
- Cristaloide em bolus, com reavaliação da pressão e da ausculta pulmonar a cada alíquota
- Corticoide pode integrar o protocolo especializado, mas não substitui suporte hemodinâmico nem deve atrasar vasopressor. Escolher medicamento e dose pela indicação clínica, não pelas apresentações de um catálogo.
- Oxigênio suplementar e monitorização contínua
- Vasopressor prontamente se choque persistir, escolhido pela equipe conforme mecanismo e disponibilidade, enquanto se mantém ou providencia octreotida. Não aguardar falha sequencial de todas as medidas para tratar hipotensão grave.
Quinta-feira, 9h10: a pressão volta
Em trinta minutos o rubor clareia, o sibilo some e a pressão sobe para 104 por 62 mmHg; a norepinefrina, iniciada em dose baixa às 8h40, é desligada às 9h35. Constâncio vai para a unidade semi-intensiva com a octreotida a 200 µg por hora. Os dois fragmentos seguem para o anatomopatológico com o pedido escrito de imuno-histoquímica e índice Ki-67 — sem isso, o laudo não diz se o tumor é bem ou pouco diferenciado nem qual é o grau. O evento vai para a lista de problemas com a frase que o próximo médico precisa ler antes de qualquer sedação: síndrome carcinoide com crise durante biópsia hepática.
Prescrição- Manter octreotida em infusão até a estabilidade clínica e reduzir progressivamente antes de suspender
- Pressão, frequência cardíaca e saturação a cada 15 minutos na primeira hora e depois de hora em hora; diurese e balanço hídrico
- Anatomopatológico com imuno-histoquímica para cromogranina A e sinaptofisina e índice Ki-67
- Registrar crise durante a biópsia, manifestações, intervenções e resposta. Antes de novo procedimento, comunicar síndrome carcinoide e necessidade de planejamento individual com anestesia/equipe de referência.
Sexta-feira, 10h: o coração e o intestino
O ecocardiograma confirma acometimento tricúspide compatível com cardiopatia carcinoide. Controlar diarreia, hidratação, eletrólitos e sintomas cardíacos, com plano de transição da infusão para tratamento de manutenção. A coleta de 5-HIAA deve ser interpretada com informações sobre análogos, dieta e interferentes do método. Não inferir que uma suspensão na manhã anterior garante eliminação de todos os efeitos, nem interromper um medicamento necessário apenas para melhorar o exame. A sertralina é revista com seu prescritor, sem retirada abrupta; cromogranina A isolada, sob omeprazol e sem pergunta clínica útil, não deve guiar decisões.
Prescrição- Programar 5-HIAA urinário conforme orientação laboratorial e estabilidade clínica; avaliar necessidade de coletas repetidas. Registrar tratamento e condições da coleta para comparação futura.
- Evitar paracetamol até o fim das coletas; sertralina conforme a decisão do médico que a prescreveu
- Tomografia de tórax e abdome com contraste e fase arterial precoce, à procura do primário e para contar as lesões hepáticas
- Encaminhamento à cardiologia com o ecocardiograma
Segunda-feira, 16h: o laudo e o encaminhamento
O anatomopatológico descreve metástase de tumor neuroendócrino bem diferenciado, grau 2, com índice Ki-67 de 6%, positivo para cromogranina A e sinaptofisina. A tomografia mostra uma lesão de 2 cm no íleo terminal, uma massa mesentérica retraída e catorze lesões hepáticas. A primeira coleta de 5-HIAA voltou com 312 µmol em 24 horas — 59,6 mg —, acima dos 300 µmol que a diretriz europeia associa a risco duas a três vezes maior de cardiopatia, coerente com o ecocardiograma. É tumor bem diferenciado de intestino médio, metastático para o fígado, com síndrome carcinoide e cardiopatia. Nada disso é para decidir na enfermaria: quem escolhe entre análogo, cirurgia do primário e terapias do fígado é o hospital habilitado em oncologia. O que é da enfermaria é chegar lá com tudo. No SUS, o tratamento oncológico é pago ao hospital pela autorização de procedimento de alta complexidade, com esquema definido pelo próprio hospital; a lanreotida foi incorporada em 2024 para os sintomas da síndrome carcinoide, e a octreotida de liberação prolongada, não incorporada, ainda pode fazer parte do esquema do hospital pelo procedimento de quimioterapia do tumor neuroendócrino avançado.
Prescrição- Encaminhamento ao hospital habilitado em oncologia com anatomopatológico, imuno-histoquímica, tomografia, 5-HIAA, NT-proBNP, ecocardiograma e o relato da crise com o esquema de octreotida usado
- Consulta com data marcada pela regulação antes da alta, e não a orientação de procurar o serviço
- Avaliação nutricional, hidratação e eletrólitos; procurar sinais de deficiências, inclusive pelagra, e discutir reposição de niacina quando indicada. Não condicionar suporte nutricional a uma dosagem rotineira de niacina, pouco disponível e de utilidade limitada.
- Potássio sérico de controle antes da alta
Terça-feira, 11h: a alta
Antes da alta, confirmar controle da síndrome, hidratação, potássio, tolerância alimentar e plano de tratamento até a consulta especializada. A manutenção com análogo deve ser discutida com a equipe de referência; não deixar uma pessoa com crise recente e sintomas ativos nove dias sem plano terapêutico. Explicar sintomas de retorno imediato e fornecer relato da crise para futuros procedimentos. Restrições para coleta de exame terminam no momento orientado pelo laboratório; no cotidiano, ajustar alimentação pelos desencadeantes individuais e pelo estado nutricional.
Prescrição- Resumo de alta com o alerta de síndrome carcinoide, a crise na biópsia e o esquema de octreotida que funcionou
- Data, local e nome dos serviços de oncologia e de cardiologia escritos no resumo
- Retorno imediato ao pronto-socorro se houver rubor que não passa, desmaio, falta de ar, chiado ou diarreia com fraqueza
- Manter omeprazol; sertralina conforme o prescritor; sem paracetamol até a entrega da segunda coleta
Como saber se está funcionando
A reavaliação do paciente com síndrome carcinoide tem dois relógios. O primeiro é o das horas depois do procedimento, em que a pergunta é se a crise voltou ou se a hipotensão tem outra causa. O segundo é o dos meses de tratamento com análogo, em que a diretriz europeia de 2022 fixa os objetivos: controle máximo dos sintomas, idealmente com 5-HIAA normal, controle da carga tumoral, prevenção do aparecimento e da progressão da cardiopatia e melhora do estado nutricional e da qualidade de vida.
O último parâmetro é de outro paciente, o do achado na peça, e está aqui porque o erro mais comum com ele é de reavaliação: marcar exame que a régua dispensa, ou esquecer o que ela exige.
Esperado: Pressão estável sem vasopressor, rubor e sibilo ausentes, e redução progressiva da infusão até a suspensão com o paciente clinicamente estável, como manda a diretriz europeia
Se não melhora: Nova queda de pressão com rubor é crise até prova em contrário: a infusão volta ao patamar anterior e o médico é chamado. Queda de pressão sem rubor, depois de biópsia hepática, pede que se procure sangramento antes de atribuir tudo ao tumor — o paciente com síndrome carcinoide também sangra
Esperado: Redução da diarreia com o análogo — a diretriz europeia registra melhora dos sintomas em até 70%; a octreotida de liberação prolongada chega ao platô em cerca de 14 dias, e nos sintomas moderados a graves associa-se octreotida de curta ação por até duas semanas
Se não melhora: Examine o local das injeções, porque a fibrose prejudica a absorção, como lembra o consenso brasileiro; piora duas a três semanas depois de cada aplicação sugere taquifilaxia, que a diretriz europeia trata encurtando o intervalo; e procure as diarreias que não são da síndrome: esteatorreia por insuficiência pancreática causada pelo próprio análogo, supercrescimento bacteriano, má absorção de sais biliares depois de hemicolectomia direita e isquemia mesentérica
Esperado: Glicemia estável. A diretriz europeia lista hiperglicemia entre os efeitos do análogo e avisa que o diabético pode precisar intensificar o tratamento
Se não melhora: Hiperglicemia no diabético: ajuste do antidiabético com quem o acompanha. Hipoglicemia que piora durante o teste com octreotida no insulinoma é o efeito paradoxal descrito pela diretriz europeia de 2023 e pelo consenso brasileiro: suspende-se o análogo e volta-se à dieta fracionada e à glicose
Esperado: Queda com o tratamento, idealmente até o normal, que é o objetivo declarado pela diretriz europeia
Se não melhora: Antes de chamar de falha, refaça a coleta com dieta e com a lista de medicamentos revista. Confirmado o valor alto, a pergunta é da oncologia: taquifilaxia, progressão ou síndrome refratária. No seguimento de quem já tem valor alto conhecido, a diretriz europeia aceita a razão entre 5-HIAA e creatinina numa amostra isolada
Esperado: NT-proBNP abaixo de 260 pg/mL, sem edema, sem turgência jugular, sem ascite nova e sem dispneia progressiva
Se não melhora: NT-proBNP que sobe ou sinais de insuficiência direita levam ao ecocardiograma e à cardiologia. Na cardiopatia grave, a diretriz europeia manda trocar a valva antes da cirurgia citorredutora e das intervenções locorregionais no fígado
Esperado: Peso estável, fezes sem gordura, sem cólica biliar, sem dermatite nas áreas expostas ao sol
Se não melhora: A diretriz europeia registra colelitíase e insuficiência pancreática exócrina em 5% a 15% dos pacientes em uso prolongado de análogo; fezes claras, oleosas e difíceis de dar descarga sugerem esteatorreia, confirmada por elastase fecal baixa ou por teste com enzimas pancreáticas. Dermatite fotossensível com diarreia e confusão é pelagra: dosar niacina e repor — a nicotinamida da diretriz europeia não consta da Rename 2024
Esperado: Sem lesão nova. No paciente sem doença na imagem convencional, sem imagem funcional e sem cromogranina isolada no seguimento, como recomenda o consenso brasileiro
Se não melhora: Lesão nova ou suspeita de recidiva: a diretriz de 2025 indica considerar o PET/CT com gálio-68 nesse momento, e não antes; o paciente volta ao hospital habilitado em oncologia
Onde o erro machuca
O dano: Os dois lados do mesmo erro. Na paciente com tumor G1 de 0,7 cm e margem livre, pedir tomografia, PET, cromogranina e oncologia com urgência transforma uma pessoa curada em paciente em investigação, com radiação, ansiedade e o próximo achado incidental. No paciente com tumor de 2,5 cm que invade o mesoapêndice, arquivar o laudo porque a apendicite já passou deixa sem discussão a hemicolectomia direita que a régua brasileira indica.
Como pegar a tempo: Leia diferenciação, grau, tamanho, margem, invasão do mesoapêndice e invasão angiolinfática e aplique a linha do apêndice da diretriz de 2025 da SBOC. Diga ao paciente o que a régua decidiu, inclusive quando decidiu que não há mais nada a fazer. Laudo sem esses dados volta ao patologista, não vira pedido de exame.
O dano: O inibidor de bomba de prótons, a gastrite atrófica, o Helicobacter pylori e a disfunção renal elevam a cromogranina sem tumor nenhum. O valor alto dispara tomografias, endoscopias e encaminhamentos que terminam no próprio omeprazol, e ainda assim não diz se a síndrome existe, porque a cromogranina não separa quem a tem de quem não a tem.
Como pegar a tempo: Antes de pedir, escreva a pergunta que ela responderia. O consenso brasileiro a reserva para quem já tem diagnóstico, como dado prognóstico e de monitorização, e nunca como base única de conduta. A síndrome se mede pelo 5-HIAA; o tumor se prova pelo tecido.
O dano: A biópsia, a manipulação cirúrgica, a anestesia e a embolização hepática estão entre os desencadeantes da crise carcinoide: rubor intenso, broncoespasmo, diarreia profusa e choque distributivo na maca, com um paciente que ninguém sabia que era de risco.
Como pegar a tempo: Pergunte pela síndrome antes de todo procedimento. Pela diretriz de 2025 da SBOC, o tumor funcionante vai ao procedimento com análogo e síndrome controlada; pela diretriz europeia de 2022, octreotida de curta ação desde 12 horas antes, mantida até a estabilidade, em infusão contínua na cirurgia maior, na intervenção locorregional e na cardiopatia. A solução de 0,1 mg/mL desce com o paciente.
O dano: Atribuir todo choque durante procedimento à crise carcinoide e esperar octreotida antes de ressuscitar pode atrasar suporte vital. Bolus EV de adrenalina não é a mesma conduta que adrenalina IM para anafilaxia. Usar vasopressor quando necessário, em paralelo ao tratamento específico e à investigação de outras causas.
Como pegar a tempo: Interromper o procedimento e iniciar suporte respiratório e circulatório. Administrar octreotida conforme protocolo e tratar choque em paralelo; vasopressor necessário não espera disponibilidade ou resposta à octreotida. Considerar anafilaxia e sangramento, sem reter adrenalina IM se houver anafilaxia.
O dano: O falso-positivo leva a ecocardiograma, encaminhamento e ansiedade num paciente sem síndrome. O falso-negativo — coleta logo depois do análogo ou insuficiência renal — tira da investigação o paciente que tem síndrome e deixa a cardiopatia carcinoide sem rastreio.
Como pegar a tempo: Dieta pobre em serotonina por 48 horas antes e durante a coleta, lista de alimentos entregue por escrito, revisão de inibidores seletivos de recaptação de serotonina, tramadol e paracetamol com quem os prescreveu, duas coletas de 24 horas, coleta imediatamente antes da próxima dose em quem usa análogo, creatinina junto, e a unidade conferida antes do número.
O dano: Se o paciente tiver gastrinoma, a suspensão devolve de uma vez o ácido que o remédio segurava, com risco de úlcera, sangramento e perfuração que a diretriz europeia de 2023 registra. Se não tiver, a gastrina colhida em uso do remédio já vinha alta pelo próprio remédio e não diz nada.
Como pegar a tempo: Mantenha o inibidor de bomba de prótons e encaminhe à gastroenterologia com a suspeita escrita: úlcera sem Helicobacter pylori e sem anti-inflamatório, múltipla, recorrente ou refratária, ou diarreia que melhora com omeprazol. A suspensão temporária, quando necessária, se faz por protocolo de centro especializado, e a diretriz propõe procurar o tumor por imagem sem suspender.
O que dizer ao paciente e à família
As conversas deste capítulo são de dois tipos opostos. Com a paciente do envelope, o trabalho é convencer alguém que leu a palavra tumor de que a cirurgia que ela já fez foi o tratamento inteiro — e que não fazer mais nada é uma decisão, não um descuido. Com o paciente da síndrome carcinoide e com a família, o trabalho é o contrário: fazê-los carregar, para todo médico que encontrarem, um risco que nenhum outro médico vai adivinhar.
Nas duas, o erro é o mesmo: falar do tumor em abstrato. O que acalma a primeira paciente é o laudo lido com ela, dado por dado; o que protege o segundo é uma frase escrita que ele possa mostrar. E há uma terceira conversa, curta e decisiva, com quem tem úlcera refratária: a de não mexer no omeprazol.
No ambulatório de egressos, respondendo a Luzinete se o que ela tem é câncer
““Luzinete, a palavra tumor assusta, e eu vou ler o seu laudo com você, linha por linha. Na ponta do apêndice que foi tirado por causa da apendicite apareceu um tumor pequeno, de sete milímetros, de um tipo que se chama neuroendócrino. Ele leva o nome de tumor porque é da família das doenças que podem crescer e se espalhar. Mas o laudo diz quatro coisas que decidem o seu caso: ele é pequeno, é do grau mais baixo, saiu inteiro, com margem livre, e não invadiu a gordura em volta do apêndice. Com essas quatro, a cirurgia que você já fez foi o tratamento completo.””
Não diga: Dizer que não é nada, que é benigno ou que foi sorte; ou, no outro extremo, falar em metástase e em síndrome antes de mostrar o que o laudo diz
Quando Luzinete pergunta se vai precisar de outra cirurgia, de quimioterapia ou de exames de controle
““Não. A diretriz brasileira que a gente usa para esse tumor diz que, no apêndice, abaixo de dois centímetros e sem os sinais que eu te mostrei, não há outra cirurgia, não há quimioterapia e não há exame de controle a fazer. Eu sei que parece estranho sair daqui sem pedido de exame depois de ler a palavra tumor. Mas tomografia sem motivo não te protege: expõe você à radiação e a achar coisas sem importância que depois precisam ser investigadas. Se aparecer qualquer sintoma novo, você volta, e a gente olha como olharia qualquer pessoa.””
Não diga: Pedir tomografia ou exame de sangue para a paciente ficar tranquila, marcar retornos que a régua dispensa, ou encaminhar à oncologia com urgência para transferir a responsabilidade da conversa
Luzinete pergunta se a filha de nove anos pode ter a mesma coisa
““É uma pergunta importante. Existem tumores dessa família que aparecem em famílias: a síndrome hereditária mais conhecida junta tumores de paratireoide, que mexem com o cálcio, de hipófise e de pâncreas. Por isso eu vou te fazer algumas perguntas sobre os seus pais, irmãos e tios — problema de cálcio, cirurgia de paratireoide, tumor de hipófise ou de pâncreas. Se nada disso aparecer, nada no seu laudo pede exame na sua filha.””
Não diga: Responder que a doença não é hereditária sem fazer as perguntas; ou pedir exames para a criança a partir de um tumor de apêndice sem história familiar
Na véspera da biópsia, explicando a Constâncio e à filha, Estefânia Malta, por que o soro começa às oito da noite
““Seu Constâncio, a vermelhidão e a diarreia do senhor muito provavelmente vêm de substâncias que esses nódulos do fígado soltam no sangue. Quando a agulha da biópsia mexer neles, eles podem soltar tudo de uma vez: a pressão pode cair, pode faltar o ar e o rosto fica muito vermelho. Para isso não acontecer — ou, se acontecer, durar pouco —, vamos começar hoje às oito da noite um remédio na veia, a octreotida, que segura essa liberação. Ele corre a noite inteira e durante a biópsia, e a equipe da sala já sabe de tudo.””
Não diga: Esconder o risco para não assustar; ou descrever a biópsia como tão perigosa que o paciente desista de um exame de que precisa
Estefânia pergunta por que o pai não pode comer as frutas de sempre e por que falaram da sertralina
“Este exame mede uma substância relacionada ao que o tumor produz. Alguns alimentos e remédios alteram a medida, e o laboratório vai entregar a lista e o período exatos para o preparo. Não pare a sertralina nem o tratamento da síndrome por conta própria. Vamos escolher um momento seguro e anotar o que estava usando para interpretar o resultado.”
Não diga: Entregar o frasco de urina sem explicar a dieta e os dois dias antes; ou mandar suspender a sertralina sem falar com quem a prescreveu
Depois da crise, contando a Constâncio e a Estefânia o que aconteceu na biópsia
““Seu Constâncio, na biópsia aconteceu o que a gente tinha avisado ontem: o tumor soltou as substâncias de uma vez, a pressão caiu e o senhor teve falta de ar. O remédio que já estava correndo, e o que a gente aumentou, fizeram a pressão voltar em meia hora, e a biópsia conseguiu os pedaços de que precisávamos. Isso muda uma coisa para sempre: antes de qualquer cirurgia, biópsia, anestesia ou sedação — até no dentista —, o médico precisa saber disso antes de começar. Vai estar escrito no resumo de alta, e eu quero que a Estefânia guarde uma cópia com ela.””
Não diga: Chamar o episódio de reação à anestesia ou de susto; ou deixar de dizer que ele pode se repetir em qualquer procedimento se ninguém souber
No ambulatório, explicando a Tancredo Bracarense, com úlcera refratária, por que ele não deve parar o omeprazol antes da consulta com o especialista
““Seu Tancredo, a sua úlcera não está se comportando como as úlceras comuns: a bactéria do estômago não apareceu, o senhor não toma anti-inflamatório, e ela voltou mesmo com o remédio. Isso me faz pensar numa causa rara, que é um tumor pequeno produzindo um hormônio que manda o estômago fazer ácido demais. O especialista vai querer medir esse hormônio, e o omeprazol mexe no exame. Só que parar o omeprazol sem um plano pode fazer a úlcera sangrar ou furar. Então o senhor não para o remédio: se for preciso parar, quem decide é o gastroenterologista, com acompanhamento.””
Não diga: Suspender o omeprazol por uma semana para colher o exame; ou falar em câncer antes de haver qualquer exame
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Pelo menos 2 horas antes e infusão contínua por 48 horas depois, sem dose — Grupo Brasileiro de Tumores Gastrointestinais, 2017
O consenso brasileiro escreve a recomendação dentro da seção de cardiopatia carcinoide, ao lado da orientação para a troca valvar: octreotida venosa intraoperatória, começando pelo menos duas horas antes da cirurgia, com infusão contínua por 48 horas depois, para prevenir a crise. Não dá dose. Na mesma seção, manda evitar na indução anestésica do paciente com cardiopatia os opioides, os bloqueadores neuromusculares, a adrenalina, a noradrenalina, a dopamina e o isoproterenol.
Riechelmann RP et al. Guidelines for the management of neuroendocrine tumours by the Brazilian gastrointestinal tumour group. ecancermedicalscience. 2017;11:716.
12 horas antes, até a estabilidade clínica, com dose e via — European Neuroendocrine Tumor Society, 2022
A diretriz europeia recomenda octreotida de curta ação antes e durante todo procedimento invasivo, reduzida depois, e infusão contínua quando a cirurgia é maior, quando a intervenção é locorregional ou quando há cardiopatia. Propõe 100 a 500 µg por via subcutânea a cada 6 a 8 horas, ou infusão venosa começando em 50 µg por hora e subindo para 100 a 200 µg por hora se necessário, iniciada 12 horas antes e antes da anestesia, mantida durante o procedimento e no pós-operatório até a estabilidade clínica. Para a cirurgia do paciente com cardiopatia, repete o início 12 horas antes e a manutenção até a estabilidade hemodinâmica, e registra que a crise não é totalmente evitável.
Grozinsky-Glasberg S et al. European Neuroendocrine Tumor Society (ENETS) 2022 Guidance Paper for Carcinoid Syndrome and Carcinoid Heart Disease. J Neuroendocrinol. 2022;34(7):e13146.
Análogo e síndrome controlada antes de qualquer procedimento, sem tempo nem dose de octreotida — Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, 2025
A diretriz brasileira mais nova determina que o paciente com tumor funcionante receba análogo da somatostatina e esteja com a síndrome carcinoide controlada antes de qualquer procedimento de intervenção, com o objetivo declarado de tratar os sintomas e prevenir a crise carcinoide. Não fala em octreotida de curta ação, nem em horário de início, nem em dose.
Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica. Diretrizes de tratamentos oncológicos: Tumores neuroendócrinos bem diferenciados: gastrointestinal. Publicado em 17/05/2025.
Os esquemas perioperatórios de octreotida variam e a evidência de prevenção é limitada. A equipe considera síndrome ativa, cardiopatia, tipo de procedimento e capacidade de resgate. O esquema de 50 µg/h com início 12 horas antes é exemplo ENETS 2022, não garantia de proteção nem regra para qualquer punção. Controle dos sintomas e planejamento precedem procedimento eletivo; ressuscitação não deve esperar octreotida se ocorrer choque.
A cada 12 meses se recidivante e a cada 24 meses se não — Grupo Brasileiro de Tumores Gastrointestinais, 2017
Para o tumor gástrico tipo 1, o consenso de 2017 recomenda avaliação endoscópica a cada 12 meses no paciente com recidiva e a cada 24 meses no paciente sem recidiva, registra que não houve consenso sobre a duração do seguimento e deixa a decisão ao julgamento clínico de cada caso. Para o tipo 2, remete às recomendações da neoplasia endócrina múltipla; para o tipo 3, tomografia a cada 3 a 4 meses nos dois primeiros anos.
Riechelmann RP et al. Guidelines for the management of neuroendocrine tumours by the Brazilian gastrointestinal tumour group. ecancermedicalscience. 2017;11:716.
Semestral por 3 anos e depois anual — Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, 2025
A diretriz de 2025 manda avaliar com endoscopia digestiva alta semestral, por três anos, e depois anual, o paciente com carcinoide gástrico e hipergastrinemia — o que inclui os tipos 1 e 2 —, depois de indicar a ressecção endoscópica para as lesões menores que 2 cm com hipergastrinemia e dispensar o estadiamento do tipo 1 menor que 2 cm.
Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica. Diretrizes de tratamentos oncológicos: Tumores neuroendócrinos bem diferenciados: gastrointestinal. Publicado em 17/05/2025.
As duas regras não governam momentos diferentes do mesmo paciente: as duas valem para os anos seguintes à ressecção, e um paciente não pode fazer endoscopia semestral e bienal ao mesmo tempo. O escopo empata — as duas escrevem para o tumor gástrico com hipergastrinemia depois do tratamento endoscópico —, e decide o segundo degrau, a data: 2025 contra 2017, com a mesma coordenação e colaboração do mesmo grupo brasileiro. Esta apostila adota a diretriz de 2025: endoscopia a cada seis meses nos três primeiros anos e depois anual, com a data do próximo exame escrita na alta. A régua de 12 e 24 meses fica registrada, porque está em encaminhamentos e laudos antigos.
Só no tumor de intestino médio com metástase hepática — Grupo Brasileiro de Tumores Gastrointestinais, 2017
O consenso de 2017 não recomenda rastreio hormonal sem indicação clínica, com uma exceção: o 5-HIAA urinário no paciente assintomático com tumor de intestino médio metastático para o fígado, para acompanhar a cardiopatia carcinoide. Manda dosá-lo em todo paciente com síndrome carcinoide e em todo tumor de intestino médio com metástase hepática, mesmo sem sintomas.
Riechelmann RP et al. Guidelines for the management of neuroendocrine tumours by the Brazilian gastrointestinal tumour group. ecancermedicalscience. 2017;11:716.
Todo tumor de intestino delgado ou de primário desconhecido, mesmo sem sintomas — Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, 2025
Entre os exames de estadiamento, a diretriz de 2025 inclui o 5-HIAA em urina de 24 horas para todo tumor de intestino delgado ou de primário desconhecido, mesmo sem sintomas, porque cerca de 15% podem ser assintomáticos, e manda fazer ecocardiograma para avaliar cardiopatia carcinoide se o valor vier acima do limite superior da normalidade.
Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica. Diretrizes de tratamentos oncológicos: Tumores neuroendócrinos bem diferenciados: gastrointestinal. Publicado em 17/05/2025.
Doença intestinal avançada, pulmão e ovário em qualquer estádio, primário desconhecido com metástase hepática e toda suspeita de síndrome — European Neuroendocrine Tumor Society, 2022
A diretriz europeia manda medir serotonina ou 5-HIAA na apresentação de todo paciente com tumor intestinal avançado, com tumor de pulmão ou de ovário em qualquer estádio, com tumor de primário desconhecido e metástase hepática, e de todo paciente com suspeita de síndrome carcinoide, independentemente dos sintomas, porque uma parte relevante dos que têm o valor elevado é assintomática.
Grozinsky-Glasberg S et al. European Neuroendocrine Tumor Society (ENETS) 2022 Guidance Paper for Carcinoid Syndrome and Carcinoid Heart Disease. J Neuroendocrinol. 2022;34(7):e13146.
Para o paciente com síndrome, com metástase hepática ou com tumor avançado, os três documentos pedem o exame, e não há o que decidir. O conflito é o tumor de intestino delgado localizado e sem sintomas: o consenso de 2017 e a diretriz europeia não o incluem, e a SBOC de 2025 inclui. O escopo empata entre os documentos brasileiros, que escrevem para o mesmo paciente, e decide a data: esta apostila adota a diretriz de 2025 — 5-HIAA em todo tumor de intestino delgado ou de primário desconhecido, mesmo localizado e assintomático, com ecocardiograma se vier alto. Para os tumores de pulmão e de ovário, a diretriz gastrointestinal da SBOC não escreve, e vale, pelo escopo, a diretriz europeia: dosar em qualquer estádio.
O raciocínio, em voz alta
Terça-feira, 10h, ambulatório de gastroenterologia de um hospital de ensino. Bertholdo Guanabara, 67 anos, 81 kg, marceneiro aposentado, traz a endoscopia pedida pela unidade básica por anemia e formigamento nos pés. O laudo endoscópico descreve mucosa do corpo e do fundo gástrico pálida e adelgaçada, com vasos visíveis, e cinco lesões polipoides no corpo, de 3 a 8 mm; as cinco foram biopsiadas, e a de 3 mm saiu inteira na pinça. O anatomopatológico: tumor neuroendócrino bem diferenciado, G1, com Ki-67 de 1% e menos de 2 mitoses por 2 mm², nos fragmentos das lesões; na mucosa ao redor, gastrite atrófica, ausência de células parietais e hiperplasia neuroendócrina. O hemograma de dois meses atrás mostra hemoglobina de 10,9 g/dL com volume corpuscular médio de 108 fL, e a vitamina B12 veio baixa. Ele toma omeprazol 20 mg há quatro anos, “para o estômago”. Antes da consulta, a residente da unidade básica telefonou dizendo que já tinha pedido cromogranina A e tomografia de abdome, “para estadiar o tumor”.
o que o laudo já decidiu
Tumor bem diferenciado e G1 é a família dos tumores, não a do carcinoma. O resto do laudo classifica: lesões múltiplas e pequenas sobre mucosa atrófica, sem células parietais e com hiperplasia neuroendócrina, são as pistas histológicas do tipo 1, o tumor que nasce da gastrite atrófica autoimune. O manual de laudos da Sociedade Brasileira de Patologia atribui ao tipo 1 de 80% a 90% dos tumores gástricos, com metástase em 1% a 3% e sobrevida em cinco anos próxima de 100%. A anemia macrocítica com vitamina B12 baixa conta a mesma história por outro caminho: o estômago sem células parietais também deixou de produzir o fator de que a B12 precisa para ser absorvida.
a gastrina, e por que ela não precisa separar nada sozinha
Múltiplas lesões pequenas, bem diferenciadas, em mucosa com gastrite atrófica e hiperplasia neuroendócrina favorecem tumor gástrico tipo 1. Gastrina e avaliação da acidez, interpretadas com uso de IBP e método de coleta, ajudam a caracterizar o contexto. Uma gastrina normal inesperada exige revisão do conjunto e do exame; não reclassifica automaticamente como tipo 3 nem apaga a histologia.
o que se cancela
A cromogranina A não responde a nenhuma pergunta de Bertholdo e ainda vem com dois falsificadores garantidos, a gastrite atrófica e o omeprazol, que o consenso brasileiro de 2017 lista entre as causas de elevação sem tumor. A tomografia de abdome para estadiar também sai: a diretriz de 2025 dispensa o estadiamento do tumor gástrico tipo 1 menor que 2 cm. Você liga para a residente e explica os dois cancelamentos, com as duas fontes — a próxima paciente dela vai agradecer.
o que se faz com as lesões
Gastroenterologia/endoscopia especializada decide ressecção ou vigilância conforme tamanho, grau, profundidade, margens e multiplicidade. Em lesões pequenas de tipo 1, diferentes diretrizes admitem estratégias distintas; não indicar gastrectomia automaticamente por margem microscópica comprometida nem prometer que todo caso se encerra com a pinça de biópsia. Achados de invasão, alto grau ou suspeita metastática justificam discussão multidisciplinar. O capítulo mantém o esquema da diretriz brasileira citada como referência de seguimento, sujeito ao risco individual.
o seguimento, pela régua adotada
Pela diretriz de 2025, que esta apostila adota nas divergências do capítulo, o paciente com tumor gástrico e hipergastrinemia faz endoscopia a cada seis meses por três anos e depois anualmente. O consenso de 2017 falava em 12 meses para quem recidiva e 24 meses para quem não recidiva, e é essa régua antiga que Bertholdo pode ouvir de outro serviço. A data da primeira endoscopia de controle sai escrita no resumo da consulta, junto com o nome do exame e o motivo.
o que o tumor não é, e o que continua pendente
O tumor não é a doença mais urgente de Bertholdo: o formigamento nos pés com vitamina B12 baixa é dano neurológico que pode não voltar, e o tratamento da carência — dose, via e duração — é do capítulo Anemias macrocíticas: carência de vitamina B12 e de folato, doença crônica e hemólise, da apostila de Hematologia e Hemoterapia; a cianocobalamina injetável de 500 mcg/mL consta do Componente Básico da Rename 2024. E o omeprazol de quatro anos, num estômago que não faz ácido, tem a indicação revista pela gastroenterologia com a régua do capítulo Doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), que trata do uso prolongado e da retirada.
o que dizer a ele
Bertholdo ouve que as bolinhas do estômago são um tumor de crescimento muito lento, que nasce justamente do estômago cansado que causou a anemia, que elas vão ser retiradas pela própria endoscopia, sem cirurgia e sem quimioterapia, e que o compromisso dele é com as endoscopias de controle — a primeira com data marcada — e com o tratamento da vitamina B12, que começa antes de tudo isso.
O conjunto favorece tumor neuroendócrino gástrico tipo 1 associado a gastrite atrófica e deficiência de B12. Tratar prontamente a deficiência, especialmente com manifestações neurológicas, e organizar gastroenterologia/endoscopia para escolha entre ressecção e vigilância conforme risco. Gastrina deve ser lida com IBP e contexto histológico; um resultado isolado não reclassifica automaticamente o tumor. Cromogranina A inespecífica e estadiamento em pacote têm pouca utilidade nas lesões de baixo risco, mas características invasivas mudam a avaliação. Definir plano endoscópico e rever necessidade do omeprazol, sem prometer uma conduta única para todos os tumores gástricos.
Faça você
Quinta-feira, 15h30, ambulatório de clínica médica. Tancredo Bracarense, 44 anos, 70 kg, eletricista, chega encaminhado pela unidade básica com a frase “úlcera que não sara”. Em 14 meses fez duas endoscopias: úlceras duodenais múltiplas na primeira; na segunda, uma úlcera na segunda porção do duodeno e esofagite erosiva. A pesquisa de Helicobacter pylori foi negativa nas duas, e ele não usa anti-inflamatório. Toma omeprazol 20 mg duas vezes ao dia há um ano; quando para por conta própria, a queimação e uma diarreia aquosa voltam em três dias. O médico da unidade pediu gastrina, que veio 3,2 vezes acima do limite superior, colhida em uso do omeprazol. A mãe dele teve cálculo renal de repetição e operou “uma glândula do pescoço”. O cálcio sérico de dois meses atrás foi 11,1 mg/dL.
o que já sei
Sei que esta úlcera preenche quase todos os motivos que a diretriz europeia de 2023 lista para suspeitar de gastrinoma: sem Helicobacter pylori, sem anti-inflamatório, múltipla, recorrente, numa localização além do bulbo, com refluxo erosivo e com uma diarreia que some com o omeprazol e volta sem ele. Sei também que a mãe e o cálcio não são detalhe de anamnese: são a outra metade do caso.
o que a gastrina e o cálcio dizem, e o que ainda não dizem
Complete: por que a gastrina de 3,2 vezes o limite não confirma nem afasta o gastrinoma, que dois dados o critério clássico exige e em que condição, e qual síndrome hereditária o cálcio alto com a história da mãe põe na mesa.
o que não faço
Complete: por que não suspendo o omeprazol para repetir a gastrina, por que não peço cromogranina A e por que a imagem funcional não é pedido meu.
o que faço hoje
Complete: o que digo a Tancredo sobre o remédio, para quem encaminho e com que frase escrita, que exames acrescento para a síndrome hereditária e quem decide o caminho do diagnóstico.
Ver como fecharíamos
A gastrina de 3,2 vezes o limite foi colhida em uso de inibidor de bomba de prótons, que eleva a gastrina de quem não tem tumor, e não chega às dez vezes do critério clássico da diretriz europeia de 2023, que exige ainda pH gástrico igual ou menor que 2, sem o remédio: ela não confirma nem afasta nada. O cálcio de 11,1 mg/dL com a mãe que teve cálculos e operou uma glândula do pescoço sugere hiperparatireoidismo e, com a úlcera, neoplasia endócrina múltipla tipo 1, em que a mesma diretriz situa a grande maioria dos gastrinomas no duodeno. Não suspendo o omeprazol: se houver gastrinoma, o rebote de ácido pode fazer a úlcera sangrar ou perfurar, e a suspensão temporária só se faz por protocolo de centro especializado. Não peço cromogranina A, que o omeprazol também eleva, nem imagem funcional, que é decisão do especialista. Hoje, mantenho o omeprazol na dose que controla os sintomas e digo a Tancredo, com todas as letras, que ele não deve suspendê-lo. Encaminho à gastroenterologia de referência com a suspeita escrita de gastrinoma e de neoplasia endócrina múltipla tipo 1, anexando as duas endoscopias, as pesquisas de Helicobacter pylori, a gastrina com a observação de que foi colhida em uso do remédio e o cálcio. Repito o cálcio, peço paratormônio e pergunto pela família: tumores de hipófise ou de pâncreas, cálculos renais, cirurgias de paratireoide. O caminho do diagnóstico — suspensão controlada do remédio ou o caminho alternativo da diretriz europeia, com ecoendoscopia, tomografia ou ressonância e imagem com análogo da somatostatina — é do gastroenterologista, e a suspeita de síndrome hereditária leva também ao aconselhamento genético. A úlcera, enquanto isso, segue tratada pela régua do capítulo Doença ulcerosa péptica e Helicobacter pylori.
Ki-67 acima de 20% e mais de 20 mitoses por 2 mm² definem alto grau, não a família. Pela classificação de 2019, transcrita pelo manual de laudos da Sociedade Brasileira de Patologia, há o tumor bem diferenciado G3 e o carcinoma neuroendócrino pouco diferenciado; o consenso brasileiro de 2017 registra tumores G3 bem diferenciados com prognóstico melhor que o dos carcinomas e manda o laudo informar a diferenciação independentemente do índice. O carcinoma se trata com platina e etoposido ou irinotecano, e por isso a pergunta volta ao patologista antes de qualquer tratamento.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Explique a relação entre drenagem portal, metástases hepáticas e síndrome carcinoide. Diferencie grau de diferenciação no laudo.
Em 30 dias
Planeje o atendimento de choque durante biópsia e o diagnóstico diferencial com anafilaxia e sangramento. Depois explique por que não suspender IBP por conta própria para investigar possível gastrinoma.
Agora atenda
Um homem de 61 anos, com episódios de vermelhidão no rosto e diarreia que o acorda à noite há um ano e meio, é internado para uma biópsia de nódulos no fígado marcada para a manhã seguinte. Atenda: complete a anamnese do rubor e da diarreia separando-os do hipogonadismo, da ansiedade e da mastocitose, examine procurando o fígado e o coração direito, decida se ele tem síndrome carcinoide até prova em contrário, prescreva a profilaxia da crise com dose, via e horário, deixe para a enfermagem o plano da crise sabendo o que a farmácia padroniza, planeje a coleta do 5-HIAA sem os interferentes, peça o rastreio da cardiopatia e diga ao paciente e à família o que eles precisam carregar para qualquer procedimento futuro.
