Pediatria › Pneumologia Pediátrica
Pneumonia na criança
Pneumonia adquirida na comunidade na criança: etiologia por idade e classificação de gravidade (AIDPI)
Reconhecer a gravidade à beira do leito, decidir quem interna, prescrever com dose por peso e saber em quantas horas reavaliar.
Brasil. Ministério da Saúde; Organização Pan-Americana da Saúde; Fundo das Nações Unidas para a Infância. Manual de Quadros de Procedimentos — AIDPI Criança: 2 meses a 5 anos. Brasília: Ministério da Saúde, 2017.
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Responda antes de ler
Menino de 4 anos, 16 kg, no terceiro dia de amoxicilina prescrita corretamente por pneumonia. Retorna mantendo febre alta, mais prostrado, com dor no hemitórax direito e recusando deitar em decúbito dorsal. Saturação de 90%. À percussão, macicez em base direita, com murmúrio vesicular abolido nessa região. Qual a primeira providência depois de indicar oxigênio e internação?
O paciente que você vai ver
A mãe entra com a criança no colo e não espera a pergunta. "Doutor, ela está cansadinha." Lorena tem 1 ano e 8 meses, 12 quilos, e está com febre há três dias. Começou como um resfriado — coriza, tosse, aquele choro de quem não dorme direito. Ontem a febre subiu de novo e hoje a mãe reparou em uma coisa que não sabe nomear: a barriguinha está subindo e descendo depressa demais, mesmo quando a menina está quieta.
Ela está no colo, acordada, olhando para você. Chora quando você encosta o estetoscópio e para de chorar quando volta para o ombro da mãe. Aceitou meio copo de suco na sala de espera. A temperatura axilar é 38,7 °C. Você conta a frequência respiratória enquanto ela está calma, com o relógio na mão, durante um minuto inteiro: 48 incursões. O oxímetro no pé marca 96%. Não há tiragem — o gradil costal sobe inteiro, sem afundar embaixo das costelas. Não há gemido, não há batimento de asa do nariz. À ausculta, estertores finos na base direita.
Essa criança tem pneumonia e vai para casa. As duas afirmações estão na mesma frase de propósito, porque é aí que mora o desconforto do internato: o diagnóstico assusta mais do que o quadro. Lorena preenche a classificação de pneumonia — respiração rápida para a idade, sem nenhum sinal de gravidade — e o lugar de tratamento dela é a casa dela, com antibiótico via oral, orientação para a mãe e retorno marcado.
Mas ela vai para casa com um contrato. O contrato é o que este capítulo ensina a escrever: a dose calculada pelo peso e escrita em mililitros, os sinais que trazem a criança de volta antes do dia marcado, a data do retorno, e uma frase que a mãe consiga repetir para o pai à noite. Se qualquer uma dessas quatro coisas faltar, a alta vira aposta.
Duas salas adiante há outra criança. Também está no colo, também está com febre, também tem 48 incursões por minuto — mas tem 5 meses, pesa 6,5 quilos, afunda embaixo das costelas a cada inspiração e emite um som curto no fim de cada expiração. A saturação é 90%. Ela não vai para casa. Nada no exame de sangue vai mudar isso, porque o que decide já está visível a um metro de distância.
Entre essas duas crianças cabe o capítulo inteiro. O que separa uma da outra não é a bactéria, não é a radiografia e não é a proteína C-reativa: é a contagem da frequência respiratória, o olhar para o gradil costal e o número no oxímetro. Reconhecer, decidir, prescrever pelo peso e marcar a reavaliação. O resto é consequência.
Quem adoece disso
No Brasil, doença respiratória é a primeira causa de internação da criança pequena. Em 2017 foram 1.117.779 internações hospitalares em menores de cinco anos, e as doenças respiratórias responderam por 351.763 delas — 31,5% do total, à frente das complicações perinatais (23,5%) e das doenças infecciosas e parasitárias (14,7%). Isso significa que, no plantão de qualquer pronto-socorro pediátrico do país, tosse com febre é a queixa que mais enche leito. Não é hipótese de exceção: é o que entra pela porta.
A mortalidade é menor do que costuma se imaginar, e continua real. Dados do sistema de informação do SUS apontaram a pneumonia como causa de 886 óbitos infantis no Brasil em 2016. O número tem duas leituras práticas. A primeira: a imensa maioria das crianças com pneumonia sobrevive, inclusive as que ficam graves — o que autoriza tratar em casa quem preenche critério para isso, sem culpa. A segunda: quase todos esses óbitos passam por uma consulta antes, e a diferença entre a criança que melhora e a que morre costuma estar em quem reconheceu a gravidade cedo e em quem voltou a tempo.
A vacina mudou o cenário — mas não o encerrou. A pneumocócica conjugada 10-valente entrou na rotina do calendário nacional em 2010 e hoje é aplicada aos 2 e aos 4 meses, com reforço aos 12 meses. Um estudo ecológico em 26 municípios da regional de Alfenas, em Minas Gerais, comparou os períodos de 2007 a 2009 e de 2011 a 2013 e encontrou razão de prevalência de internação por pneumonia adquirida na comunidade de 0,81 (IC95% 0,74-0,89) em menores de um ano — cerca de 19% menos internações depois da vacina. Na prática do plantão, isso quer dizer que a criança com esquema vacinal completo tem probabilidade menor de doença pneumocócica invasiva, e que checar a caderneta faz parte da avaliação de gravidade, não da burocracia.
O que a vacina fez foi trocar os sorotipos, não abolir o pneumococo. Entre as crianças menores de cinco anos com doença pneumocócica invasiva no Brasil em 2022, o sorotipo 19A respondeu por 52% dos casos, o sorotipo 3 por 10,5% e o 6C por 4,6% — nenhum dos três está na formulação 10-valente, e as cepas de 19A circulantes pertencem a um clone associado a altas taxas de resistência à penicilina. Isso não muda a primeira escolha ambulatorial, que segue sendo amoxicilina; muda o que você pensa quando a criança vacinada não melhora em 72 horas.
Some-se a isso o efeito do período pandêmico. Com a queda da circulação viral entre 2020 e 2021 houve redução substancial das internações pediátricas por doença respiratória no Brasil, seguida de aumento das taxas de incidência e de hospitalização quando as medidas não farmacológicas terminaram. Anualmente o SUS registra mais de 600 mil internações por pneumonia e influenza somadas. A consequência clínica é sazonal e concreta: nos meses de circulação de vírus sincicial respiratório e influenza o pronto-socorro pediátrico enche, a chance de o quadro ser viral sobe, e a disciplina de não prescrever antibiótico para todo mundo passa a valer dinheiro, leito e resistência bacteriana.
Por que acontece o que acontece
A criança pequena descompensa rápido por razões mecânicas, não por fragilidade genérica. Entender essas razões é o que transforma a lista de sinais de gravidade em algo que você reconhece de longe, em vez de decorar.
A primeira razão é o calibre da via aérea. A resistência ao fluxo aéreo cresce muito mais depressa do que a redução do raio do tubo: um edema de mucosa que num adulto quase não muda nada, num lactente estreita proporcionalmente muito mais a luz e multiplica o trabalho necessário para mover o mesmo volume de ar. Por isso a mesma infecção que num escolar produz tosse, num lactente produz esforço visível.
A segunda é a caixa torácica. As costelas da criança pequena são mais horizontalizadas e a parede torácica é muito mais complacente que a do adulto — cartilaginosa, macia, pouco ossificada. Quando o pulmão fica rígido pela consolidação e o diafragma puxa com força, a parede cede para dentro em vez de expandir. É exatamente isso que você vê como tiragem subcostal: não é um sinal misterioso, é a parede torácica sendo vencida pela pressão negativa que o esforço gera. Um adulto com a mesma pneumonia teria a mesma pressão negativa e não afundaria, porque a caixa dele é rígida. A tiragem é, portanto, um marcador de esforço desproporcional — e é por isso que ela pesa tanto na classificação.
A terceira é a dependência do diafragma. A criança pequena respira quase só com o diafragma, e a musculatura intercostal contribui pouco. Quando o diafragma fatiga, não há reserva para assumir o trabalho. Fadiga respiratória em lactente não se anuncia com queda gradual do desempenho: ela aparece como bradipneia, respiração irregular e apneia, que são sinais de exaustão e não de melhora. Uma frequência respiratória que estava em 70 e "melhorou" para 35 numa criança que ficou mais sonolenta não é resposta ao tratamento — é uma criança acabando.
A quarta é o volume de reserva. A capacidade residual funcional da criança é pequena em relação ao consumo de oxigênio, que é proporcionalmente muito maior que o do adulto. O resultado prático: o reservatório é pequeno e a torneira aberta. Uma criança dessatura em segundos numa apneia, enquanto um adulto leva minutos. É por isso que a oximetria de pulso é o exame mais útil da avaliação inicial e é por isso que ela cai antes de qualquer coisa aparecer em exame de sangue.
A quinta explica a gemência. Ao fechar parcialmente a glote no fim da expiração, a criança segura pressão dentro do pulmão e evita que os alvéolos colabem — é uma pressão expiratória final positiva feita à mão, um recurso de quem está tentando manter o pulmão aberto. O som curto no fim da expiração, portanto, não é choro nem desconforto emocional: é trabalho respiratório em nível alto. Da mesma família é o batimento de asa do nariz, que reduz a resistência da porção mais estreita da via aérea superior e ganha alguns pontos percentuais de trabalho. Ambos são sinais tardios em relação à taquipneia e precoces em relação à cianose.
A sexta explica a recusa alimentar, que costuma ser subestimada porque parece um dado de conforto. Mamar e deglutir exigem coordenação com a respiração e impõem pausas. Uma criança que respira a 70 por minuto não consegue pagar essas pausas: escolhe respirar. Quando a mãe diz que a criança "largou o peito" ou "não quis a mamadeira", ela está descrevendo trabalho respiratório alto, e não falta de apetite. É por isso que a incapacidade de aceitar líquidos entra nos critérios de internação com o mesmo peso que a hipoxemia.
Por fim, o espaço pleural. A pneumonia é uma resposta inflamatória do parênquima; quando essa inflamação alcança a pleura visceral, aumenta a permeabilidade e o líquido acumula na cavidade. No começo o derrame é estéril e de fluxo livre; à medida que a doença progride, resíduos proteicos e fibrina formam septações, e é aí que o antibiótico sozinho deixa de resolver. Esse é o motivo de a febre que persiste depois de 48 a 72 horas de antibiótico correto ser lida como derrame até prova em contrário — a lesão deixou de ser só do pulmão e passou a ser um espaço fechado com pus dentro, onde a droga não chega em concentração suficiente.
Cada um desses mecanismos aponta para uma ação do capítulo. O calibre e a complacência explicam por que se conta a frequência respiratória e por que se olha o gradil costal. A reserva pequena explica por que se mede a saturação. A fadiga explica por que uma frequência caindo com sonolência é emergência. A gemência e o batimento de asa explicam por que existe primeira dose antes de transferir. A recusa de líquidos explica um critério de internação. O espaço pleural explica a reavaliação de 48 a 72 horas.

Como se apresenta de verdade
Pneumonia é uma hipótese clínica construída com história e exame: início dos sintomas, febre, tosse, frequência respiratória, esforço, oxigenação e estado geral. A apresentação varia com a idade e nem sempre reúne o conjunto clássico. Exames são escolhidos quando podem esclarecer gravidade, complicação ou diagnóstico alternativo; não substituem essa avaliação.
Quem causa, por faixa de idade
Vírus dominam, e dominam muito mais do que a prática de prescrição costuma refletir. São responsáveis por cerca de 90% das pneumonias até um ano de idade e por cerca de metade nos escolares, com o vírus sincicial respiratório à frente, seguido de influenza, parainfluenza, adenovírus, rinovírus, metapneumovírus e bocavírus. Estima-se ainda que em torno de 30% dos casos haja coinfecção viral e bacteriana — o que explica por que separar "viral" de "bacteriana" com uma linha limpa é uma ambição que a beira do leito não sustenta.
Entre as bactérias, o pneumococo continua sendo o principal agente em menores de cinco anos, hospitalizados ou não, e é por causa dele que a amoxicilina é a primeira escolha. Staphylococcus aureus aparece sobretudo no lactente jovem, associado a infecção de pele, gravidade clínica e piora rápida e progressiva — quase sempre com empiema e pneumatoceles, isto é, quase sempre como pneumonia complicada. Haemophilus influenzae e Moraxella catarrhalis completam o grupo.
As atípicas mudam de peso com a idade. Mycoplasma pneumoniae é o agente atípico mais importante, produz quadro em geral menos grave, ocorre o ano inteiro com ciclos epidêmicos e atinge principalmente maiores de cinco anos, embora esteja descrito em todas as idades. Responde por algo entre 10% e 40% das pneumonias adquiridas na comunidade na infância e por 15% a 18% das internações por essa causa. No recém-nascido e no lactente de até três meses, o par a lembrar é outro: Chlamydia trachomatis e Ureaplasma urealyticum, adquiridos no canal de parto — e a pista clínica clássica é a conjuntivite associada, num bebê que tosse muito e pode estar sem febre.
A tabela completa por faixa etária está no bloco de fluxos. O que importa carregar na cabeça é o formato: quanto menor a criança, mais o agente vem do canal de parto e do ambiente doméstico; entre 4 meses e 5 anos, o pneumococo manda; depois dos 5 anos, pneumococo e Mycoplasma dividem a cena.
Viral, bacteriana e atípica — o que muda à beira do leito
A pergunta "é viral ou bacteriana?" é legítima e não tem resposta segura no primeiro atendimento. Nenhum marcador inflamatório separa as duas com confiança e a radiografia não define etiologia. O que existe são padrões que deslocam a probabilidade, e é com eles que se trabalha.
O quadro que puxa para viral: criança pequena, pródromo de dois a três dias de febre baixa e coriza, sibilância presente, quadro difuso, curso arrastado e leve, vários irmãos com o mesmo resfriado. O que puxa para bacteriana: febre alta de início mais abrupto, criança prostrada e com aparência tóxica, dor torácica ou abdominal localizada, ausculta focal, evolução rápida. O que puxa para atípica: escolar ou adolescente, tosse seca e persistente que incomoda mais do que o estado geral sugere, evolução de duas semanas, ausculta pobre para o tanto de sintoma.
Sibilos mudam o diagnóstico diferencial, mas não indicam broncodilatador automaticamente. Um primeiro episódio típico de bronquiolite segue suporte e avaliação de gravidade; crises recorrentes ou provável asma seguem o percurso de obstrução reversível, com tratamento e reavaliação. Essa distinção evita tanto antibiótico por taquipneia isolada quanto salbutamol rotineiro no lactente com bronquiolite.
A exceção que não admite espera: sibilância grave ou sinal geral de perigo. Nessas duas situações não se faz o desvio pelo broncodilatador para depois reclassificar — trata-se e refere-se.
Como a gravidade se manifesta
A gravidade da pneumonia na criança é avaliada por critérios clínicos, e os sinais aparecem numa ordem que vale conhecer porque ela dá tempo de agir. Em ordem crescente de gravidade: tiragem subcostal, dificuldade para ingerir líquidos, sinais de dificuldade respiratória mais grave — movimentos involuntários da cabeça, gemência e batimento de asa do nariz — e, por último, cianose central.
Essa ordem tem uma consequência prática direta. A criança cianótica é fácil de reconhecer e já está tarde; a criança com tiragem é reconhecida por quem levantou a camiseta e olhou. Descobrir tiragem exige despir o tórax — com a criança calma, no colo da mãe se for preciso — e observar o rebordo costal por alguns ciclos. Não se enxerga tiragem por cima da roupa, e não se enxerga tiragem numa criança que está chorando com força, porque o choro produz retração que não significa doença.
A letargia é o sinal que mais se perde e o que mais assusta quando se aprende a ler. Uma criança gravemente doente não é a que chora: é a que não chora, a que não se interessa pelo que acontece na sala, a que não estranha o examinador. Junto com ela vêm os demais sinais gerais de perigo, que valem para qualquer criança doente e não só para a que tosse: não conseguir beber nem mamar no peito, vomitar tudo o que ingere, ter apresentado convulsão ou movimentos anormais nas últimas 72 horas, estar letárgica ou inconsciente, ter tempo de enchimento capilar maior que 2 segundos, ou apresentar batimento de asa do nariz e gemência.
Um dado de acurácia ajuda a calibrar a confiança nos sinais. Em revisão sistemática de crianças menores de cinco anos, os achados mais associados a pneumonia foram a hipoxemia moderada — saturação de oxigênio igual ou menor que 96% — e o aumento do esforço respiratório, com gemência, batimento de asa do nariz e retrações. Saturação acima de 96% reduziu a probabilidade de pneumonia. E, contra a intuição, a taquipneia isolada acima de 40 incursões por minuto não se mostrou fortemente associada ao diagnóstico. Isso não desautoriza contar a frequência respiratória, que segue sendo o gatilho de classificação do protocolo nacional; ensina que a frequência sozinha é sensível e pouco específica, e que o esforço e a saturação carregam mais informação sobre gravidade.
O lactente menor de dois meses é outro paciente
Abaixo de dois meses, tudo muda: os agentes, os cortes, o limiar de internação e a droga. O corte de frequência respiratória é 60 incursões por minuto, e a criança dessa idade com tosse ou dificuldade para respirar e frequência nesse patamar — com ou sem tiragem subcostal — é considerada portadora de pneumonia grave e internada.
Os sinais de doença muito grave nessa faixa incluem, além da frequência elevada e da tiragem, febre alta ou hipotermia, recusa do seio materno por mais de três mamadas, sibilância, estridor em repouso e alteração do sensório — letargia, sonolência anormal ou irritabilidade excessiva. A hipotermia num bebê pequeno tem o mesmo peso da febre alta, e essa é uma das inversões mais fáceis de errar para quem vem da medicina do adulto.
No tratamento, o aminoglicosídeo entra: gentamicina associada à penicilina cristalina ou à ampicilina. E há uma troca específica a memorizar — quando se opta por cefalosporina nessa idade, a escolha é cefotaxima, não ceftriaxona, porque a ceftriaxona desloca a bilirrubina da albumina sérica e aumenta o risco de kernicterus no lactente pequeno.
Há ainda o quadro de Chlamydia trachomatis, que costuma aparecer entre a segunda e a décima segunda semana de vida: tosse em acessos, taquipneia, ausência de febre e conjuntivite prévia ou concomitante. Nesse cenário a eritromicina é o antibiótico de escolha.
As apresentações que não parecem pneumonia
Há dois cenários em que a pneumonia se esconde e vale a pena procurá-la ativamente. O primeiro é a síndrome infecciosa sem foco: criança com febre, prostração e sinais inespecíficos de toxemia, cujo exame físico inicial não revela a causa. Nesse caso a pneumonia precisa ser investigada mesmo sem taquipneia e sem tiragem, e a radiografia de tórax entra como parte da busca do foco — infiltrados são descritos em 5% a 19% das crianças com febre sem taquipneia nem hipoxemia, quadro conhecido como pneumonia oculta.
O segundo é a febre prolongada com tosse. Mesmo sem taquipneia e sem angústia respiratória, criança com febre que se arrasta e tosse merece radiografia. E tosse por mais de 14 dias, no protocolo nacional, é gatilho de investigação por si só — em país com a carga de tuberculose que o Brasil tem, criança que mora com adulto tossidor crônico ou vem de área endêmica precisa ser avaliada para tuberculose, pelo escore de Tuberculose na infância: diagnóstico pelo escore, prova tuberculínica e tratamento, na apostila de Infectologia Pediátrica.
Do outro lado do espectro, a pneumonia redonda merece menção porque assusta quem a vê pela primeira vez: consolidação arredondada e bem delimitada no raio X de criança pequena, que imita massa e é, quase sempre, pneumonia bacteriana comum. É uma das poucas situações em que a radiografia de controle depois do tratamento está indicada.
Por último, o cenário de piora rápida com infecção de pele associada, no lactente: pense em Staphylococcus aureus e em complicação precoce. É um dos poucos quadros em que a evolução para empiema e pneumatocele acontece em horas, e não em dias.
Fatores que pioram o prognóstico
A mesma pneumonia não corre igual em toda criança. Os fatores de risco para evolução desfavorável são desnutrição, comorbidades, idade baixa no momento da doença, baixas condições socioeconômicas — escolaridade baixa dos pais, renda familiar na linha da pobreza, condições sanitárias e de higiene precárias —, baixa cobertura vacinal, desmame precoce e poluentes intradomiciliares.
Esses fatores não entram na classificação de gravidade, mas entram na decisão. Uma criança classificada como pneumonia, com critério para tratamento domiciliar, pode ainda assim ser internada quando a família não tem como voltar em dois dias, quando a criança está desnutrida ou quando há dúvida real sobre a adesão ao antibiótico. Doenças de base — cardiopatia, pneumopatia crônica, síndromes genéticas, distúrbios neurológicos — pesam como critério formal de internação.
A leitura inversa também vale e é frequentemente esquecida no plantão: casa próxima, cuidador atento, criança vacinada, aceitando líquidos, com telefone e transporte — esse conjunto sustenta uma alta que, em outra família, seria imprudente. Decidir internação em pediatria é decidir sobre a criança e sobre o sistema que vai cuidar dela nas próximas 48 horas.
Como fechar o diagnóstico
O interno raramente erra pneumonia por não conhecer a doença. Erra por pedir exame que não muda conduta, por acreditar em exame que não responde à pergunta feita, e por não fazer os dois procedimentos que decidem tudo — contar a frequência respiratória e medir a saturação.
A ordem abaixo é a ordem real do atendimento: primeiro o que se faz com as mãos e o oxímetro, depois o que se pede, e por último o que se recusa a pedir.
1. Contar a frequência respiratória — o exame que classifica
A frequência respiratória é o gatilho de classificação do protocolo nacional e é a medida mais mal executada da pediatria. Não se conta "de olho", não se conta em 15 segundos multiplicando por quatro numa criança que respira irregularmente, e não se conta com a criança chorando. Conta-se durante um minuto inteiro, com a criança tranquila, de preferência no colo de quem a trouxe, olhando o abdome ou o tórax subir.
Se a criança está chorando, a conduta é esperar. Acalmar leva dois minutos e evita uma classificação errada em qualquer das direções: choro superestima a frequência e produz retração que imita tiragem; sono profundo pode subestimar. Registrar no prontuário o número contado e o fato de a criança estar calma no momento é um cuidado pequeno com peso grande na reavaliação de 48 horas, quando alguém vai comparar aquele número com o novo.
Os três cortes por idade estão no bloco de fluxos e não se negociam: são eles que separam a criança que recebe antibiótico da que recebe orientação. Uma criança com tosse e febre e frequência abaixo do corte, sem tiragem e sem sinal de perigo, não tem pneumonia pela classificação nacional — tem tosse ou resfriado, e o tratamento é sintomático com retorno em cinco dias se não melhorar.
2. A oximetria de pulso — o exame mais útil que você tem
Se houvesse um único exame disponível na sala, seria o oxímetro. Ele é o critério objetivo de gravidade, é o que define necessidade de oxigênio, é um dos critérios de internação e é o único parâmetro fisiológico que se altera antes de a criança parecer grave.
O corte brasileiro é claro: saturação abaixo de 92% em ar ambiente indica internação e oxigenoterapia, por cânula nasal, dispositivo de alto fluxo ou máscara facial. Esse mesmo número, num paciente com derrame parapneumônico, indica pior prognóstico. Acima de 96% a probabilidade de pneumonia cai.
Duas cautelas de execução. A primeira: leitura ruim é comum em criança agitada, com extremidade fria ou com esmalte — antes de aceitar um valor baixo isolado, confirme a curva pletismográfica e a correlação com o pulso. A segunda, mais importante: saturação normal não exclui pneumonia nem exclui gravidade. A criança com tiragem franca e saturação de 95% continua sendo uma criança com tiragem franca, e a tiragem manda internar independentemente do número no visor.
3. Radiografia de tórax — por que não é rotina e quando entra
Radiografia de tórax não está indicada para avaliar a criança em tratamento ambulatorial. A recomendação é explícita nos documentos brasileiros e tem quatro razões concretas: a concordância entre sinais clínicos e alterações radiográficas é baixa, o exame não define etiologia nem separa bacteriana de viral, expõe a criança à radiação e tem custo para o sistema — e, principalmente, o resultado não muda o antibiótico que você já ia prescrever.
A radiografia entra quando existe uma pergunta que ela responde: dúvida diagnóstica real; pneumonia com hipoxemia ou desconforto respiratório e outros sinais de gravidade; falha de resposta em 48 a 72 horas ou piora progressiva, para procurar complicação — empiema, pneumotórax, escavação; paciente que vai internar, em duas incidências, póstero-anterior e perfil; e a criança abaixo de cinco anos com febre e leucocitose sem causa aparente, ou com febre prolongada e tosse, mesmo sem taquipneia.
Duas frases que precisam ser ditas juntas porque uma sem a outra vira erro. Radiografia normal não exclui pneumonia — no começo do quadro a imagem pode não ter aparecido ainda, e a decisão continua sendo clínica. E radiografia alterada não confirma etiologia bacteriana — o padrão de imagem não separa os agentes de maneira confiável, por mais que a lobar bem delimitada empurre a probabilidade para o pneumococo.
Sobre a radiografia de controle: ela não deve ser feita na criança que melhorou clinicamente. Está indicada 4 a 6 semanas depois nas pneumonias recorrentes sempre no mesmo lobo, na suspeita de malformação ou de aspiração de corpo estranho, e deve ser considerada na pneumonia redonda, no colapso pulmonar e nos sintomas persistentes. A incidência em perfil não é rotina.
4. Hemograma, proteína C-reativa e procalcitonina — o que eles não resolvem
Este é o ponto em que o interno mais gasta tempo e mais se ilude. Hemograma com contagem diferencial, velocidade de hemossedimentação, proteína C-reativa e procalcitonina não diferenciam com segurança pneumonia viral de bacteriana. Leucocitose ocorre com frequência na bacteriana, mas a intensidade não separa os grupos, e a criança com pneumonia viral grave pode ter os mesmos números.
O que esses exames fazem bem é outra coisa: acompanhar. Medidas seriadas ajudam a monitorar a resposta ao tratamento, especialmente nos casos complicados, e a queda dos marcadores ao longo dos dias funciona como confirmação objetiva do que a clínica já mostrou. Isso vale para o paciente internado; na criança que vai para casa, nenhum deles tem lugar.
Sobre a procalcitonina, os números conhecidos: valores abaixo de 0,25 ng/mL associam-se a baixa probabilidade de pneumonia bacteriana ou a doença de menor gravidade, e abaixo de 0,1 ng/mL o valor preditivo negativo é alto. Um estudo brasileiro em crianças hospitalizadas mostrou valor preditivo negativo de 93% (IC95% 90-99%) para infecção pneumocócica com procalcitonina abaixo desse patamar, inclusive em crianças com alteração radiológica. Ainda assim, o exame não deve ser pedido de rotina e não está amplamente disponível na rede — e a ausência dele não muda a conduta descrita neste capítulo.
O hemograma tem, sim, indicações específicas na criança que interna: avaliar anemia, que pode orientar outras intervenções, e plaquetopenia, que pode sugerir síndrome hemolítico-urêmica como complicação de pneumonia pneumocócica. É por essa porta que ele entra — não como árbitro de antibiótico.
5. Microbiologia — o que colher e de quem
Investigação microbiológica não é rotina na pneumonia de tratamento ambulatorial. Na criança que interna, a hemocultura deve ser colhida, com técnica adequada, apesar de ser positiva em menos de 10% dos casos — o rendimento é baixo, mas quando cresce alguma coisa a informação muda o esquema inteiro.
A pesquisa viral em secreção de nasofaringe, incluindo painéis moleculares multiplex, é pouco invasiva, tem bom rendimento e cumpre um papel que os marcadores inflamatórios não cumprem: identificar o vírus e reduzir o uso de antimicrobiano. Quando disponível à beira do leito, é um dos primeiros exames a considerar, porque pode evitar tanto o antibiótico quanto a imagem.
O líquido pleural, quando há volume significativo, deve ser aspirado e enviado para citologia, bioquímica e microbiologia — Gram, cultura com antibiograma e reação em cadeia da polimerase. Em líquido pleural, o teste molecular é mais sensível e mais específico do que no sangue, e a pesquisa de antígeno pneumocócico tem alto valor preditivo positivo para empiema pneumocócico.
Duas recusas explícitas. Antígeno urinário para pneumococo não deve ser realizado em criança: é sensível, mas não distingue colonização de doença, e a criança pequena é colonizada com frequência. Sorologia para Mycoplasma e Chlamydia tem pouca utilidade prática porque exige títulos pareados e fecha o diagnóstico retrospectivamente — a decisão de acrescentar macrolídeo é clínica, não sorológica.
6. Quando pensar em derrame — e o exame que responde
A suspeita de derrame parapneumônico se levanta em dois momentos: quando a resposta ao antibiótico é lenta e quando há deterioração clínica durante o tratamento. Fora isso, ele pode ser a apresentação inicial, e aí o que chama atenção é o estado geral mais comprometido do que a pneumonia sugeriria.
O quadro clínico tem sinais específicos que se colhem no exame físico e não custam nada: taquipneia — presente em mais de 90% das crianças com derrame —, dor torácica ou abdominal do lado acometido, febre alta com calafrios, a criança repousando sobre o lado afetado para imobilizar o hemitórax, escoliose antálgica para o mesmo lado. À percussão, macicez. À palpação, expansibilidade reduzida e frêmito tóraco-vocal abolido. À ausculta, murmúrio vesicular francamente diminuído do lado envolvido; atrito pleural quando o derrame é pequeno.
O exame que responde é a ultrassonografia de tórax, e essa é uma escolha que vale memorizar. É a modalidade mais sensível para avaliar o espaço pleural na criança, estima o volume do derrame — que é o dado que decide a conduta —, mostra loculações e fibrina melhor do que a tomografia, guia a punção e a drenagem, não expõe a radiação, é portátil, barata e dispensa sedação. A radiografia de tórax não diferencia derrame de empiema e só mostra desvio de mediastino quando o volume é grande.
A tomografia de tórax com contraste tem lugar definido: é o exame padrão para diagnosticar pneumonia necrosante e avaliar alterações do parênquima invisíveis na radiografia, e distingue abscesso — cavidade com parede que realça — de necrose cavitária. Não é exame de triagem de derrame.
Sobre o líquido: é empiema quando há pus franco, organismos ao Gram ou leucócitos aumentados; bioquimicamente, pH abaixo de 7,20, proteína acima de 30 g/L, glicose abaixo de 2,2 mmol/L e desidrogenase lática frequentemente acima de 1000 U/L. pH abaixo de 7,0 indica alto risco de septação.
7. O diferencial mora aqui, não em bloco separado
O exame que confirma um diagnóstico é o mesmo que exclui outro, e por isso o diferencial não vive num quadro à parte. Na criança com tosse, febre e taquipneia, as hipóteses concorrentes são poucas e cada uma tem um teste próprio.
Bronquiolite viral aguda: lactente com pródromo de vias aéreas superiores, aumento do esforço e estertores ou sibilos; o diagnóstico é clínico, sem exigir pesquisa viral ou resposta a broncodilatador. Asma: episódios recorrentes, história de variabilidade e resposta compatível ao tratamento da obstrução, interpretados conforme a idade. Corpo estranho: início súbito, engasgo ou assimetria; a radiografia pode ser normal e a ausência de resposta ao broncodilatador não é um teste isolado que confirme o diagnóstico.
Tuberculose: tosse arrastada, contato com adulto bacilífero, área endêmica, gânglios que podem obstruir via aérea e produzir sibilância na criança pequena. É diagnóstico a lembrar sobretudo diante de pneumonia que não responde. Insuficiência cardíaca em lactente, refluxo gastroesofágico e broncodisplasia entram como causas de sibilância abaixo de um ano. Pneumonia aspirativa entra quando há distúrbio de deglutição, malformação ou refluxo.
A regra prática que amarra tudo: se a criança chia, trate o chiado e reavalie; se a criança tem tosse arrastada de semanas, pense em tuberculose e corpo estranho antes de repetir antibiótico; se a criança tem início súbito, pense em corpo estranho mesmo com radiografia normal.
8. O que existe no SUS
Exame que não se consegue não é conduta, e esse é um bom lugar para dizer o que está de fato disponível. Oxímetro de pulso e relógio existem em unidade básica e são justamente os dois instrumentos que decidem — a estratégia nacional foi desenhada para classificar a criança com sinais clínicos, sem depender de laboratório ou imagem.
Radiografia de tórax é acessível em pronto-socorro e em boa parte das unidades de referência, mas não é imediata em unidade básica; isso reforça, e não enfraquece, a decisão clínica. Ultrassonografia de tórax é operador-dependente e está mais disponível em hospital do que em rede básica. Tomografia é recurso de hospital de referência. Painel viral multiplex tem disponibilidade desigual, e procalcitonina raramente está no cardápio da rede pública.
Do lado do tratamento, a amoxicilina em suspensão está na relação de medicamentos da rede básica e é barata; a penicilina procaína está disponível na unidade básica e é a alternativa quando a criança com pneumonia não aceita o antibiótico oral ou não melhora. Nada do que este capítulo prescreve depende de recurso escasso.
Classificar, decidir o destino e prescrever pelo peso
Comece pelos sinais de perigo, respiração e capacidade de alimentar. A classificação AIDPI apresentada aplica-se à faixa e ao cenário indicados na tabela; o lactente menor de dois meses e a criança maior exigem leitura própria. Oximetria e exame complementam a avaliação. Sibilância pede distinguir bronquiolite típica e obstrução reversível, sem atrasar suporte à criança grave. Depois de decidir o tratamento, confira peso, dose por dia ou por tomada e concentração.
- 1Acalme a criança no colo de quem a trouxe e conte a frequência respiratória durante um minuto inteiro, com o tórax despido.
- 2Procure sinal geral de perigo: não consegue beber ou mamar, vomita tudo, convulsão nas últimas 72 horas, letargia ou inconsciência, enchimento capilar acima de 2 segundos, batimento de asa do nariz ou gemência.
- 3Olhe o rebordo costal por alguns ciclos procurando tiragem subcostal, e escute se há estridor em repouso.
- 4Se houver sibilância, avalie idade, episódios prévios e apresentação. Na suspeita de asma ou obstrução reversível, trate conforme o percurso correspondente e reavalie. Na bronquiolite típica, broncodilatador não é rotina. A criança grave recebe suporte e avaliação imediatos.
- 5Meça a saturação de oxigênio em ar ambiente. Abaixo de 92% a criança interna e recebe oxigênio, qualquer que seja o resto.
- 6Classifique nas três faixas do protocolo nacional e execute a conduta da faixa, sem misturar condutas de faixas diferentes.
- 7Pese a criança, calcule a dose em miligramas por dia, divida pelas tomadas e converta em mililitros da apresentação que a família vai comprar ou receber.
- 8Marque o retorno e ensine à mãe, com as palavras dela, os sinais que trazem a criança de volta antes da data marcada.
Não é pneumonia — tosse ou resfriado
Frequência respiratória abaixo do corte da idade, sem tiragem, sem estridor em repouso e sem sinal geral de perigo. Não recebe antibiótico. Medidas caseiras para a tosse, sinais de retorno imediato ensinados à mãe e seguimento em cinco dias caso não melhore. Tosse há mais de 14 dias muda a rota: investigar.
Pneumonia
Respiração rápida para a idade, sem tiragem, sem estridor em repouso e sem sinal geral de perigo. Tratamento em casa: antibiótico oral por sete dias, medidas caseiras para a tosse, sinais de retorno imediato e retorno marcado em dois dias. É a criança do começo deste capítulo.
Pneumonia grave ou doença muito grave
Qualquer sinal geral de perigo, ou tiragem subcostal, ou estridor em repouso. Primeira dose do antibiótico ainda na unidade, medidas para evitar hipoglicemia, oxigênio se disponível e referência urgente ao hospital. A criança não vai para casa nem com a melhor família do mundo.
Critério de terapia intensiva
Insuficiência respiratória ou sepse. Incapacidade de manter saturação acima de 92% com fração inspirada de oxigênio acima de 0,6, taquipneia e taquicardia crescentes com desconforto grave, fadiga respiratória, apneia ou respiração irregular. Aqui a frequência que cai é piora, não melhora.
| Situação | Droga e dose | Intervalo | Duração | Fonte |
|---|---|---|---|---|
| Pneumonia, tratamento em casa (2 meses a 5 anos) | Amoxicilina 50 mg/kg/dia, via oral (máximo 4 g/dia) | 8/8 h ou 12/12 h | 7 dias | AIDPI Criança 2017; SBP 2018 e 2021 |
| Pneumonia em maior de 5 anos | Amoxicilina 50 mg/kg/dia, via oral | 8/8 h ou 12/12 h | 7 dias | SBP 2018 |
| Segunda linha oral (AIDPI) | Amoxicilina + clavulanato 50 mg/kg/dia de amoxicilina, via oral | 8/8 h ou 12/12 h na formulação BD | 7 dias | AIDPI Criança 2017 |
| Não aceita o antibiótico oral ou não melhorou, ainda na unidade básica | Penicilina procaína 50.000 UI/kg/dose, intramuscular (dose máxima 400.000 UI) | 1×/dia | Até a reavaliação ou a referência | AIDPI Criança 2017 |
| Suspeita de pneumonia atípica (escolar, tosse arrastada) | Azitromicina 10 mg/kg/dia, via oral, dose única diária | 1×/dia | 5 dias | SBP 2018 e 2021 |
| Alternativa atípica — claritromicina | Claritromicina 15 mg/kg/dia, via oral (máximo 1 g/dia) | 12/12 h | 7 a 10 dias | SBP 2021 |
| Alternativa atípica — eritromicina; escolha no lactente com suspeita de Chlamydia trachomatis | Eritromicina 40 mg/kg/dia, via oral (máximo 2 g/dia) | 6/6 h | 7 a 10 dias | SBP 2021 |
| Alergia à penicilina não mediada por IgE | Cefuroxima ou ceftriaxona em doses habituais | Conforme a droga | 7 dias | SBP 2021 |
| Alergia à penicilina mediada por IgE | Clindamicina ou macrolídeo | Conforme a droga | 7 dias | SBP 2021 |
| Pneumonia grave internada, aceitando via oral | Amoxicilina 50 mg/kg/dia, via oral | 8/8 h ou 12/12 h | 7 dias | SBP 2021 |
| Pneumonia grave que não aceita via oral, com sepse ou complicada | Ampicilina 50 mg/kg/dose, intravenosa | 6/6 h | Reavaliar diariamente; trocar para oral quando aceitar | SBP 2018 e 2021 |
| Alternativa intravenosa de primeira linha | Penicilina cristalina 150.000 UI/kg/dia, intravenosa | 6/6 h | Reavaliar diariamente | SBP 2018 e 2021 |
| Menor de 2 meses | Gentamicina 7,5 mg/kg/dia associada à penicilina cristalina ou à ampicilina; se optar por cefalosporina, cefotaxima (não ceftriaxona) | Gentamicina 12/12 h | Conforme evolução hospitalar | SBP 2018 e 2021 |
Respiração rápida: os três cortes por idade
| Idade | Corte de frequência respiratória | Observação de execução |
|---|---|---|
| Menor de 2 meses | 60 ou mais por minuto | Com ou sem tiragem já é pneumonia grave: interna. Fora do quadro do AIDPI Criança, que começa aos 2 meses |
| 2 meses a menor de 12 meses | 50 ou mais por minuto | Contar 1 minuto inteiro, criança tranquila, tórax despido |
| 1 ano a menor de 5 anos | 40 ou mais por minuto | Choro superestima a frequência e produz retração que imita tiragem |
Classificação do AIDPI Criança (2 meses a 5 anos) e a conduta de cada faixa
| Classificação | Basta um destes sinais | Conduta |
|---|---|---|
| Pneumonia grave ou doença muito grave | Qualquer sinal geral de perigo; tiragem subcostal; estridor em repouso | Primeira dose de antibiótico recomendado; tratar para evitar hipoglicemia; oxigênio se disponível; referir urgentemente ao hospital |
| Pneumonia | Respiração rápida para a idade | Antibiótico recomendado por 7 dias; aliviar a tosse com medidas caseiras; ensinar quando retornar imediatamente; marcar retorno em 2 dias |
| Não é pneumonia | Nenhum dos sinais acima | Aliviar a tosse com medidas caseiras; ensinar quando retornar imediatamente; seguimento em 5 dias caso não melhore; tosse há mais de 14 dias, investigar |
Etiologia por faixa etária
| Faixa | Agentes principais | O que isso muda |
|---|---|---|
| Recém-nascido até 3 dias | Estreptococo do grupo B, bacilos Gram-negativos, Listeria monocytogenes | Agentes do canal de parto; conduta neonatal, fora do escopo ambulatorial |
| Recém-nascido de 3 a 28 dias | Staphylococcus aureus, Staphylococcus epidermidis, Gram-negativos | Internação e esquema parenteral |
| 1 a 3 meses | Vírus, Chlamydia trachomatis, Ureaplasma urealyticum, pneumococo, Staphylococcus aureus | Conjuntivite, tosse em acessos e ausência de febre sugerem C. trachomatis; eritromicina é a escolha |
| 4 meses a 5 anos | Vírus (sincicial respiratório à frente), pneumococo, Staphylococcus aureus, Haemophilus influenzae, Moraxella catarrhalis, Mycoplasma pneumoniae, Chlamydia pneumoniae | Vírus explicam cerca de 90% até 1 ano; entre as bactérias o pneumococo manda, e por isso a amoxicilina é a primeira escolha |
| Acima de 5 anos | Pneumococo, Staphylococcus aureus, Mycoplasma pneumoniae, Chlamydia pneumoniae | Vírus caem para cerca de metade; atípicas ganham peso, mas macrolídeo só com suspeita clínica |
Critérios de internação
| Critério | Valor ou definição |
|---|---|
| Hipoxemia | Saturação de oxigênio abaixo de 92% em ar ambiente |
| Hidratação e alimentação | Desidratação, ou incapacidade de manter hidratação ou alimentação por via oral |
| Desconforto respiratório moderado a grave | Frequência respiratória acima de 70 por minuto em menores de 12 meses; acima de 50 por minuto nos maiores |
| Sinais de dificuldade para respirar | Gemência, batimento de asas nasais, retrações ou apneia |
| Aparência | Aparência tóxica |
| Doenças subjacentes | Doença cardiopulmonar, síndromes genéticas, distúrbios neurológicos |
| Complicações | Derrame ou empiema pleural, pneumonia necrosante, abscesso |
| Classificação nacional | Tiragem subcostal, estridor em repouso ou qualquer sinal geral de perigo (AIDPI: referir urgentemente) |
| Idade | Menor de 2 meses com frequência respiratória de 60 ou mais, com ou sem tiragem |
Critérios de terapia intensiva
| Critério | Definição |
|---|---|
| Falha de oxigenação | Incapacidade de manter saturação acima de 92% com fração inspirada de oxigênio acima de 0,6 |
| Esforço crescente | Aumento da taquipneia e da taquicardia com dificuldade respiratória grave |
| Fadiga | Fadiga respiratória |
| Padrão respiratório | Apneias ou respiração irregular |
| Causa geral | Insuficiência respiratória ou sepse — as duas causas principais de admissão em terapia intensiva por pneumonia |
Amoxicilina 50 mg/kg/dia: miligramas e mililitros por peso (suspensão de 250 mg/5 mL)
| Peso | Total por dia | Cada 8 h | Cada 12 h |
|---|---|---|---|
| 6 kg | 300 mg | 100 mg = 2,0 mL | 150 mg = 3,0 mL |
| 6,5 kg | 325 mg | 110 mg = 2,2 mL | 162,5 mg = 3,2 mL |
| 8 kg | 400 mg | 133 mg = 2,7 mL | 200 mg = 4,0 mL |
| 10 kg | 500 mg | 167 mg = 3,3 mL | 250 mg = 5,0 mL |
| 12 kg | 600 mg | 200 mg = 4,0 mL | 300 mg = 6,0 mL |
| 14 kg | 700 mg | 233 mg = 4,7 mL | 350 mg = 7,0 mL |
| 16 kg | 800 mg | 267 mg = 5,3 mL | 400 mg = 8,0 mL |
| 20 kg | 1.000 mg | 333 mg = 6,7 mL | 500 mg = 10,0 mL |
| 24 kg | 1.200 mg | 400 mg = 8,0 mL | 600 mg = 12,0 mL |
Antibiótico intravenoso: pneumonia grave e pneumonia complicada
| Droga | Dose | Intervalo | Teto | Quando |
|---|---|---|---|---|
| Ampicilina | 50 mg/kg/dose (150-200 mg/kg/dia na forma complicada) | 6/6 h | 12 g/dia | Primeira linha da pneumonia grave que não aceita via oral |
| Penicilina cristalina | 150.000 UI/kg/dia na pneumonia grave; 200.000 a 250.000 UI/kg/dia na complicada | 6/6 h (ou 4/4 h na complicada) | 24 milhões UI/dia | Alternativa de primeira linha; boa escolha na criança com derrame e bom estado geral |
| Ceftriaxona | 50 a 100 mg/kg/dia | 12/12 h | 4 g/dia | Pneumonia complicada grave; contraindicada no lactente menor de 2 meses |
| Cefotaxima | 150 mg/kg/dia | 8/8 h ou 6/6 h | 8 g/dia | Cefalosporina de escolha abaixo de 2 meses |
| Oxacilina | 200 mg/kg/dia | 6/6 h | 12 g/dia | Cobertura de Staphylococcus aureus sensível à meticilina |
| Vancomicina | 40 a 60 mg/kg/dia | 6/6 h ou 8/8 h | 4 g/dia | Primeira linha adicional onde há alta prevalência de S. aureus resistente à meticilina na comunidade |
| Clindamicina ou linezolida | Linezolida abaixo de 12 anos: 30 mg/kg/dia | 8/8 h | 600 mg/dose | Alternativa à vancomicina; opção na falha por pneumococo ou S. aureus resistente |
| Azitromicina intravenosa | 10 mg/kg/dia nos dias 1 e 2, depois 5 mg/kg/dia | 1×/dia | 500 mg/dia | Suspeita de atípica; entra no esquema triplo da forma muito grave |
| Gentamicina | 7,5 mg/kg/dia | 12/12 h | — | Associada ao betalactâmico no menor de 2 meses |
Analgésico e antitérmico por peso, para febre igual ou acima de 38,0 °C
| Droga e apresentação | Dose | Intervalo | Observação |
|---|---|---|---|
| Paracetamol 200 mg/mL | 1 gota por quilo por dose | 6/6 h, se necessário | 12 kg = 12 gotas por dose |
| Dipirona 500 mg/mL | 1 gota para cada 2 kg por dose | 6/6 h, se necessário | 12 kg = 6 gotas por dose |
| Ibuprofeno 50 mg/mL | 2 gotas por quilo por dose | 8/8 h, se necessário | Só acima de 6 meses e com dengue excluída; máximo 200 mg por dose; 12 kg = 24 gotas |
A mesma queixa, percursos diferentes
| Apresentação | O que diferencia | Decisão inicial |
|---|---|---|
| Lactente menor de dois meses | Idade, alimentação, temperatura, apneia e estado geral | Avaliação urgente conforme protocolo neonatal/lactente jovem |
| Tosse e respiração rápida na faixa AIDPI | Contagem válida, sinais de perigo e exame | Classificar no instrumento correspondente e complementar pelo quadro |
| Primeiro episódio típico de bronquiolite | Pródromo viral, idade e achados difusos | Suporte e reavaliação; broncodilatador não rotineiro |
| Sibilância recorrente/provável asma | História, desencadeantes e resposta | Percurso de asma, sem ignorar possível infecção associada |
| Hipoxemia ou deterioração | Esforço, consciência, perfusão e alimentação | Suporte imediato e definição do nível de cuidado |
A coluna de volume do quadro de antibiótico do AIDPI corresponde a 25 mg/kg por tomada — isto é, aos 50 mg/kg/dia divididos em duas tomadas. Usar o mesmo volume três vezes ao dia entrega 75 mg/kg/dia. Calcular em miligramas por dia e só depois converter em mililitros evita esse tipo de deslize.
O corte de frequência respiratória que classifica a criança como pneumonia (40 ou 50, conforme a idade) é diferente do corte que indica internação por desconforto (50 ou 70). São réguas com funções distintas: a primeira decide se há pneumonia, a segunda decide o local de tratamento.
A dose de ampicilina aparece por dose, e não por dia: 50 mg/kg a cada 6 horas equivalem a 200 mg/kg/dia. Ler essa linha como dose diária subdivide o tratamento em um quarto do que foi prescrito.
Antibiótico oral é seguro e eficaz mesmo na pneumonia grave. A via intravenosa está reservada a quem não aceita líquidos ou o antibiótico por boca, a quem tem sinais de septicemia e a quem tem pneumonia complicada — internar não obriga a puncionar veia.
Toda criança com pneumonia grave ou doença muito grave recebe a primeira dose do antibiótico antes de ser transferida, junto com medidas para evitar hipoglicemia e oxigênio se disponível. Transferir sem a primeira dose é perder as horas de transporte.
A sibilância pede distinguir o lactente com bronquiolite típica da criança com provável asma ou obstrução reversível. Broncodilatador é usado quando indicado para esse contexto, com reavaliação. Gravidade exige suporte e encaminhamento sem esperar completar uma prova terapêutica.
Na criança com pneumonia que não aceita o antibiótico oral, ou que não melhorou, a penicilina procaína intramuscular é a alternativa prevista na unidade básica, com teto de 400.000 UI por dose.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo separa três crianças que costumam ser confundidas: a que vai para casa, a que fica no hospital e a que precisa sair de onde está. Cada marco traz o que se faz, por que se faz e a prescrição escrita como ela sai no papel, com a dose calculada para o peso do exemplo.
Os pesos usados são os das duas crianças da primeira página — Lorena, com 12 kg, e o lactente de 5 meses, com 6,5 kg. Trocar o peso troca todos os números: a conta é sempre miligramas por quilo por dia, dividida pelas tomadas, convertida na apresentação disponível.
Minuto 0 — antes de escrever qualquer coisa
Avalie rapidamente estado mental, respiração e perfusão. Na criança estável, conte a frequência respiratória por um minuto, preferencialmente calma, observe tiragem e obtenha oximetria confiável. Choro pode distorcer a contagem e pede repetição; não impede reconhecer gravidade nem justifica adiar suporte. Ausculta, temperatura e peso completam a avaliação conforme a urgência.
Prescrição- Frequência respiratória contada em 1 minuto, com a criança tranquila e o tórax despido — registrar o número e a condição da criança no prontuário (AIDPI Criança 2017)
- Saturação de oxigênio em ar ambiente; abaixo de 92% indica oxigenoterapia e internação (SBP 2018 e 2021)
- Peso aferido na balança, não estimado — toda a prescrição depende dele
- Sibilância: identificar bronquiolite típica versus provável obstrução reversível. Se broncodilatador estiver indicado, aplicar o protocolo da faixa etária e reavaliar; não atrasar o manejo da criança grave.
Primeira hora — a criança que vai para casa (Lorena, 12 kg)
Classificação de pneumonia: respiração rápida, sem tiragem, sem estridor, sem sinal geral de perigo, saturação de 96%. O tratamento é amoxicilina por sete dias, e a prescrição precisa dizer quantos mililitros, quantas vezes ao dia e por quantos dias — não "tomar conforme orientação". Escreva também a data do retorno e os sinais de volta imediata, e peça à mãe que repita os sinais com as palavras dela antes de sair da sala. Se ela repetir errado, o problema é da explicação, não dela.
Prescrição- Amoxicilina suspensão 250 mg/5 mL — 4 mL por via oral de 8 em 8 horas, durante 7 dias (50 mg/kg/dia = 600 mg/dia para 12 kg; AIDPI Criança 2017; SBP 2018 e 2021)
- Alternativa com a mesma dose diária: 6 mL por via oral de 12 em 12 horas, durante 7 dias — a equivalência entre os dois esquemas está demonstrada em ensaio clínico brasileiro (SBP 2021)
- Paracetamol 200 mg/mL — 12 gotas por via oral de 6 em 6 horas, se temperatura igual ou acima de 38,0 °C ou dor (AIDPI Criança 2017)
- Líquidos oferecidos com frequência e em pequenos volumes; manter a alimentação habitual e o aleitamento (AIDPI Criança 2017; SBP 2021)
- Retorno marcado em 2 dias para reavaliação, com data escrita na receita (AIDPI Criança 2017)
- Retorno imediato, antes da data marcada, se: não conseguir beber ou mamar, piora do estado geral, febre que aparece ou piora, respiração mais rápida ou dificuldade para respirar (AIDPI Criança 2017)
Primeira hora — a criança grave numa unidade sem leito
Tiragem subcostal, estridor em repouso ou qualquer sinal geral de perigo classificam como pneumonia grave ou doença muito grave, e a conduta é referir urgentemente. Referir não significa apenas chamar a ambulância: significa fazer quatro coisas antes de a criança sair, porque o transporte leva tempo e é nesse tempo que a criança piora. A primeira dose do antibiótico é a mais importante delas.
Prescrição- Primeira dose do antibiótico recomendado antes da transferência, sem esperar vaga (AIDPI Criança 2017)
- Por via intramuscular, pelo quadro de tratamento prévio à referência urgente: penicilina procaína 50.000 UI/kg/dose, com teto de 400.000 UI por dose — para 12 kg, 400.000 UI —, ou ceftriaxona pela faixa de peso do mesmo quadro; a ressalva do antibiótico oral recusado é da pneumonia sem gravidade (AIDPI Criança 2017; a escolha entre as duas está em Estratégia AIDPI: avaliação e classificação de risco da criança de 2 meses a 5 anos, na apostila de Emergências Pediátricas)
- Oxigênio, se disponível, mantendo a saturação acima de 92% (AIDPI Criança 2017; SBP 2018)
- Prevenir hipoglicemia: se a criança consegue mamar, amamentar; se consegue engolir mas não mama, oferecer leite materno extraído (AIDPI Criança 2017)
- Manter vias aéreas pérvias e acompanhar a criança durante o transporte, com contato prévio com o serviço que vai recebê-la
Primeira hora — a criança que fica internada (lactente de 5 meses, 6,5 kg)
Na criança com saturação de 90%, gemência e esforço importante, trate hipoxemia e avalie suporte imediatamente, com antibioticoterapia e investigação pertinente em paralelo. A via do antibiótico depende de gravidade, perfusão, tolerância digestiva e complicações. O tratamento oral pode ser adequado em pacientes selecionados que toleram a via e estão estáveis; não é uma regra para toda pneumonia grave.
Prescrição- Oxigênio por dispositivo apropriado ao suporte necessário, titulado ao alvo adotado pela equipe. Monitorar resposta; a avaliação em ar ambiente é feita quando for seguro reduzir ou suspender o suporte, não enquanto ele está sendo administrado.
- Amoxicilina suspensão 250 mg/5 mL — 2,2 mL por via oral de 8 em 8 horas (50 mg/kg/dia = 325 mg/dia para 6,5 kg), enquanto aceitar a via oral (SBP 2021)
- Monitorização contínua da saturação e registro da frequência respiratória a cada 4 horas, com a criança tranquila
- Hemocultura colhida com técnica adequada antes da primeira dose intravenosa, quando essa via for indicada (SBP 2021 e 2024)
- Radiografia de tórax em duas incidências, póstero-anterior e perfil, por se tratar de paciente hospitalizado (SBP 2018)
- Pesquisa viral em secreção de nasofaringe, se disponível — pode reduzir imagem e antimicrobiano desnecessários (SBP 2021)
Quando a criança não aceita a via oral
É o gatilho mais claro para trocar de via, e vale tanto para o líquido quanto para o antibiótico. A criança que não mama e não bebe está sinalizando trabalho respiratório alto — e é justamente por isso que a incapacidade de manter hidratação por boca é critério de internação. A troca de via aqui não é escalonamento de espectro: é a mesma família de droga por outro caminho.
Prescrição- Ampicilina 325 mg por via intravenosa de 6 em 6 horas (50 mg/kg/dose para 6,5 kg; SBP 2018 e 2021)
- Alternativa: penicilina cristalina 975.000 UI/dia divididas de 6 em 6 horas, isto é, cerca de 244.000 UI por dose para 6,5 kg (SBP 2018 e 2021)
- No menor de 2 meses, associar gentamicina 7,5 mg/kg/dia de 12 em 12 horas ao betalactâmico; se optar por cefalosporina, usar cefotaxima e não ceftriaxona, pelo risco de kernicterus (SBP 2018 e 2021)
- Manter oferta de leite materno em pequenos volumes enquanto houver aceitação, e suporte hídrico pela via disponível quando não houver
- Retomar a via oral assim que a criança voltar a aceitar líquidos — a via intravenosa não é meta do tratamento
6 a 12 horas — o que se observa, e o que ainda não se muda
Neste intervalo não se espera resposta ao antibiótico: espera-se resposta ao oxigênio e à hidratação. Saturação que sobe com oxigênio suplementar, criança que volta a aceitar líquidos e frequência respiratória que cai um pouco são sinais de que o suporte está adequado. Febre persistente nas primeiras 12 horas não é falha terapêutica e não justifica trocar antibiótico — trocar aqui é o erro mais comum do plantão da noite.
Prescrição- Reavaliação clínica com contagem de frequência respiratória, inspeção do gradil costal e saturação, registradas em prontuário
- Ajuste do oxigênio pelo alvo de saturação, e não pelo fluxo prescrito na admissão
- Antitérmico conforme a necessidade, sem uso profilático de horário fixo
- Manter o mesmo antibiótico — a janela de resposta é de 48 a 72 horas (SBP 2018 e 2021)
24 horas — a primeira leitura de tendência
Compare com o número de ontem, não com uma impressão. A frequência respiratória caiu? A tiragem diminuiu? A criança voltou a brincar, a estranhar o examinador, a pedir água? O pico febril de hoje foi mais baixo que o de ontem? Essa é a leitura que separa evolução esperada de estagnação — e é possível justamente porque o número da admissão foi anotado.
Prescrição- Frequência respiratória, saturação, temperatura e aceitação alimentar registradas em série, para comparação com a admissão
- Suspensão do oxigênio quando a saturação se mantiver acima de 92% em ar ambiente por período consistente
- Reavaliação do exame torácico procurando macicez, frêmito abolido e murmúrio diminuído — a chave do derrame (SBP 2018 e 2024)
- Manter o esquema; sem indicação de repetir radiografia na criança que está melhorando (SBP 2018)
48 a 72 horas — o momento em que a decisão se revê
Este é o prazo definido: a criança que não mostra sinais de melhora após 48 a 72 horas de tratamento caracteriza falha terapêutica. O erro aqui não é trocar de antibiótico — é trocar de antibiótico sem revisar as cinco causas possíveis, porque quatro delas não se resolvem com droga nova. Antes de escrever um nome novo na prescrição, faça as cinco perguntas: há derrame, empiema, necrose ou abscesso? o agente é outro — vírus, atípica, primeira manifestação de tuberculose? o tratamento está sendo cumprido na dose, no intervalo e pelo tempo prescritos? há doença de base — imunossupressão, fibrose cística, asma, desnutrição, bronquiectasia? o diagnóstico está errado — corpo estranho, malformação, hérnia diafragmática?
Prescrição- Radiografia de tórax para procurar complicação: empiema, pneumotórax, escavação (SBP 2018)
- Ultrassonografia de tórax se houver suspeita de derrame — estima o volume, mostra loculação e guia a drenagem (SBP 2024)
- Conferir com a mãe o frasco, o volume por tomada e quantas doses foram efetivamente dadas — o não cumprimento é uma das cinco causas de falha (SBP 2021)
- Suspeita de Mycoplasma pneumoniae ou Chlamydia pneumoniae: acrescentar macrolídeo à amoxicilina ou substituí-la pelo macrolídeo (SBP 2021)
- Suspeita de pneumococo ou Staphylococcus aureus resistente: substituir por clindamicina ou linezolida (SBP 2021)
- Se houver melhora após a troca, manter o novo esquema até completar 7 dias; se a criança estiver pior ou inalterada, avaliar internação (SBP 2021)
Quando aparece derrame
A febre que persiste com toxemia, dor no hemitérax, macicez e murmúrio abolido muda o problema de lugar: deixa de ser parênquima e passa a ser espaço fechado. O antibiótico sozinho resolve derrames pequenos, sem desvio de mediastino e sem insuficiência respiratória; acima disso, entra a abordagem cirúrgica. O tempo de antimicrobiano parenteral na forma complicada é longo — pelo menos duas a três semanas — e na pneumonia necrosante e no abscesso chega a três a quatro semanas.
Prescrição- Ultrassonografia de tórax como exame de escolha para estimar volume e identificar loculações (SBP 2024)
- Toracocentese diagnóstica com envio para citologia, bioquímica, Gram, cultura com antibiograma e reação em cadeia da polimerase (SBP 2024)
- Criança internada com derrame e bom estado geral: penicilina cristalina ou ampicilina, associadas à abordagem cirúrgica adequada (SBP 2024)
- Pneumonia complicada grave: ceftriaxona 50 a 100 mg/kg/dia de 12 em 12 horas, ou cefotaxima 150 mg/kg/dia (SBP 2024)
- Forma muito grave, com choque, ventilação assistida e terapia intensiva: vancomicina associada a ceftriaxona ou cefotaxima, mais azitromicina; acrescentar oseltamivir na sazonalidade de influenza (SBP 2024)
- Retirada do dreno quando o débito for mínimo — 40 a 60 mL em 24 horas, ou menos de 1 a 1,5 mL/kg/dia (SBP 2024)
Alta hospitalar
Alta é decisão clínica e tem três perguntas: a criança mantém saturação acima de 92% em ar ambiente sem oxigênio suplementar? aceita líquidos e alimentação por boca em volume suficiente? o esforço respiratório cedeu e a febre está em queda? Se as três respostas forem sim, a criança sai — com o restante do tempo de antibiótico prescrito por escrito e com o mesmo contrato da criança ambulatorial: sinais de retorno e data marcada. Não se pede radiografia de controle em quem melhorou.
Prescrição- Completar 7 dias de amoxicilina por via oral, contando desde o início do tratamento (SBP 2021)
- Sem radiografia de controle na criança com boa resposta clínica (SBP 2018)
- Radiografia de controle em 4 a 6 semanas apenas se houver pneumonia recorrente no mesmo lobo, suspeita de malformação ou de aspiração de corpo estranho; considerar na pneumonia redonda, no colapso e nos sintomas persistentes (SBP 2018)
- Ensinar de novo os sinais de retorno imediato, mesmo para quem ficou internado
- Consulta de reavaliação agendada, e não "procure se piorar"
Depois da alta — o que evita a próxima
A prevenção não é adorno de fim de consulta: os fatores de risco para evolução desfavorável são majoritariamente sociais e modificáveis, e a consulta de pneumonia é uma das poucas em que a família está mobilizada para ouvir. Aleitamento materno exclusivo nos primeiros meses, fim do tabagismo passivo dentro de casa, higiene das mãos e caderneta em dia são as quatro orientações com maior retorno.
Prescrição- Conferir e atualizar a caderneta de vacinação — pneumocócica pelo esquema da idade no Calendário Nacional de Vacinação, que trocou a 10-valente pela 20-valente em junho de 2026 (o esquema e a transição estão em Calendário Nacional de Vacinação da criança (PNI) e esquemas por idade, na apostila de Infectologia Pediátrica)
- Vacina contra influenza conforme a campanha anual, dentro das faixas contempladas
- Aleitamento materno exclusivo nos primeiros meses de vida (SBP 2021)
- Eliminação do tabagismo dentro de casa e orientação de higiene das mãos (SBP 2021)
- Tosse que persiste por mais de 14 dias após o episódio: retornar para investigação (AIDPI Criança 2017)
Como saber se está funcionando
O retorno ambulatorial em dois dias permite conferir segurança e resposta. Em geral, espera-se melhora clínica nas primeiras 48 a 72 horas do antibiótico adequado, mas piora exige avaliação antecipada. Não oriente a família a esperar essa janela diante de respiração difícil, incapacidade de ingerir, prostração ou outro sinal de perigo.
Ausência de melhora após 48 a 72 horas pede revisão de diagnóstico, adesão, dose, absorção, complicações e agente provável. O prazo não transforma todo sintoma residual em falha nem obriga troca automática do antibiótico. Compare com a avaliação inicial e decida os próximos passos com a equipe.
Esperado: Queda em relação ao número da admissão, com a criança tranquila. "Respirando mais lentamente" é a pergunta literal da consulta de retorno do protocolo nacional.
Se não melhora: Frequência inalterada, sem febre e com a criança aceitando alimentação: manter ou trocar para outro antibiótico recomendado e remarcar retorno em 2 dias, ou referir. Frequência que cai acompanhada de sonolência ou respiração irregular não é melhora: é fadiga, e indica terapia intensiva.
Esperado: Ausência. Numa criança que foi para casa sem tiragem, ela não deve aparecer.
Se não melhora: Aparecimento de tiragem subcostal, estridor em repouso ou qualquer sinal geral de perigo na consulta de retorno significa que a criança piorou: referir urgentemente ao hospital depois de dar uma dose do antibiótico recomendado e os tratamentos urgentes.
Esperado: Manutenção acima de 92% em ar ambiente, ou possibilidade de reduzir progressivamente o oxigênio suplementar mantendo esse alvo.
Se não melhora: Necessidade crescente de oxigênio, ou incapacidade de manter acima de 92% com fração inspirada acima de 0,6, indica terapia intensiva. Queda nova de saturação em criança que vinha estável levanta derrame, pneumotórax e piora da consolidação.
Esperado: Picos mais baixos e mais espaçados a partir do segundo dia; muitas crianças ficam afebris entre 48 e 72 horas.
Se não melhora: Febre que persiste além de 48 a 72 horas com antibiótico correto caracteriza falha terapêutica e obriga a revisar as cinco causas — complicação, agente diferente, não cumprimento do tratamento, doença de base e diagnóstico errado — antes de trocar a droga. Febre que persiste com toxemia e hipoxemia levanta pneumonia necrosante e abscesso.
Esperado: Retomada da mamada ou da alimentação habitual, com volumes progressivamente maiores.
Se não melhora: Criança que deixou de aceitar líquidos passa a ter critério de internação, mesmo com saturação normal — a recusa é marcador de trabalho respiratório alto. Se já está internada, é indicação de trocar a via do antibiótico e do aporte hídrico.
Esperado: Criança que volta a estranhar o examinador, a chorar quando contrariada, a se interessar pelo ambiente.
Se não melhora: Letargia, sonolência anormal ou irritabilidade excessiva são sinais gerais de perigo e mandam referir urgentemente, independentemente dos demais parâmetros.
Esperado: Estertores que se reduzem, murmúrio que se recupera, percussão sem macicez nova.
Se não melhora: Macicez nova, frêmito tóraco-vocal abolido e murmúrio francamente diminuído de um lado, com dor no mesmo hemitórax e criança em posição antálgica, indicam derrame parapneumônico: ultrassonografia de tórax.
Esperado: Queda progressiva acompanhando a melhora clínica — o valor está na tendência, não no valor único.
Se não melhora: Marcadores que sobem ou não caem, numa criança que também não melhora clinicamente, reforçam a busca por complicação. Marcadores altos numa criança que está evidentemente melhor não justificam prolongar antibiótico nem repetir imagem.
Esperado: Queda progressiva do volume drenado, com melhora clínica paralela.
Se não melhora: Perda persistente de gás pelo dreno por mais de 24 horas sugere fístula bronco-pleural. A retirada do dreno se faz quando o débito é mínimo: 40 a 60 mL em 24 horas, ou menos de 1 a 1,5 mL/kg/dia.
Esperado: Redução gradual; tosse pode persistir depois da cura da infecção e não indica falha.
Se não melhora: Tosse que passa de 14 dias é gatilho de investigação no protocolo nacional. Pneumonia que recorre sempre no mesmo lobo pede radiografia de controle em 4 a 6 semanas e levanta malformação e corpo estranho.
Onde o erro machuca
O dano: Sem contar e registrar a frequência respiratória, perde-se um dado relevante para classificação e acompanhamento. O número precisa ser combinado com idade, esforço, oxigenação e contexto; não é o único dado que decide antibiótico.
Como pegar a tempo: Trate a contagem como sinal vital obrigatório em toda criança com tosse ou dificuldade para respirar: um minuto inteiro, criança tranquila, tórax despido, número anotado no prontuário. Se a criança está chorando, espere — dois minutos de espera valem mais que qualquer exame que você vá pedir depois.
O dano: O choro eleva a frequência e produz retração de parede que imita tiragem. O resultado é antibiótico e internação em criança que não precisava — ou, no sentido inverso, uma contagem apressada em 15 segundos numa criança de respiração irregular, que subestima o número e libera quem deveria ficar.
Como pegar a tempo: Acalme primeiro, no colo de quem trouxe. Conte um minuto inteiro olhando o abdome. Registre no prontuário que a criança estava calma. Esse registro é o que vai permitir comparar na reavaliação de 48 horas.
O dano: A imagem pode ainda não ter aparecido no começo do quadro, e a concordância entre sinais clínicos e alterações radiográficas é baixa. A criança sai com "raio X limpo", sem antibiótico e sem retorno marcado, com a família tranquilizada por um exame que não respondia à pergunta.
Como pegar a tempo: O diagnóstico de pneumonia na criança é clínico. Radiografia normal não exclui; radiografia alterada não define etiologia. Peça imagem quando houver pergunta que ela responda — dúvida diagnóstica real, gravidade, falha em 48 a 72 horas, paciente que vai internar — e decida pela clínica em todos os outros casos.
O dano: Nenhum desses marcadores separa pneumonia viral de bacteriana com segurança. O dano é duplo: leucocitose numa bronquiolite gera antibiótico desnecessário, e marcadores baixos numa criança com tiragem geram atraso na conduta certa. Some-se o custo, a punção na criança e a demora na sala de espera.
Como pegar a tempo: Na criança que vai para casa, esses exames não têm lugar. Na criança que interna, eles servem para acompanhar, não para decidir — o valor está na série, não no número isolado. A decisão de antibiótico se toma com a frequência respiratória, o gradil costal e o oxímetro.
O dano: É o erro de maior consequência silenciosa deste capítulo. Cinco mililitros de 8 em 8 horas entregam 750 mg/dia: dose adequada para uma criança de 15 kg e quase o dobro do necessário para uma de 8 kg. No sentido inverso, copiar o volume de uma tabela de esquema de 12 em 12 horas e mandar dar de 8 em 8 entrega 75 mg/kg/dia em vez de 50. Subdose seleciona resistência e produz falha terapêutica que será atribuída ao germe.
Como pegar a tempo: Faça sempre a mesma conta, na mesma ordem: 50 mg × peso = miligramas por dia; divida pelo número de tomadas; converta em mililitros pela concentração do frasco que a família vai ter na mão. Escreva na receita a dose em mililitros, o intervalo e o número de dias. Confira o intervalo a que qualquer tabela de volume se refere antes de copiar dela.
O dano: A oximetria pode revelar hipoxemia antes da cianose e deve ser interpretada com sinal confiável e exame clínico. Seu resultado não mede sozinho toda a gravidade: fadiga, apneia, dificuldade para alimentar e alteração de consciência também mudam o destino.
Como pegar a tempo: Meça em toda criança com tosse ou dificuldade para respirar, em ar ambiente, com curva confiável. E lembre da recíproca: saturação normal não desautoriza a tiragem. Criança com tiragem franca e saturação de 95% continua sendo criança que interna.
O dano: Abaixo de dois meses os cortes mudam (60 por minuto), a hipotermia pesa tanto quanto a febre, a recusa do seio por mais de três mamadas é sinal de doença muito grave, e o quadro evolui em horas. Tratar esse bebê com a régua da criança de dois anos atrasa a internação de quem tem a menor reserva de todas.
Como pegar a tempo: Use a régua da idade. No menor de dois meses, frequência de 60 ou mais — com ou sem tiragem — já é pneumonia grave e interna. Procure hipotermia, recusa alimentar, sonolência anormal e irritabilidade excessiva com o mesmo peso que daria à febre alta.
O dano: Sibilância pode acompanhar asma, bronquiolite, infecção viral e pneumonia. Interpretá-la sem idade e história pode gerar tanto antibiótico desnecessário quanto atraso no cuidado de uma infecção relevante.
Como pegar a tempo: Diferencie o primeiro episódio típico de bronquiolite da criança com crises recorrentes ou provável asma. A resposta ao broncodilatador ajuda quando a intervenção está indicada; não use uma prova terapêutica como etapa obrigatória em todo lactente que chia.
O dano: "Se piorar, volte" transfere para a mãe uma decisão técnica que ela não tem como tomar. Sem saber o que é piorar, a família volta tarde — e o retorno em dois dias existe justamente porque a criança com pneumonia pode piorar dentro desse intervalo.
Como pegar a tempo: Escreva a data do retorno na receita e ensine os quatro sinais de volta imediata em palavras que a mãe use. Peça que ela repita antes de sair da sala. Se ela repetir errado, a explicação é que falhou — reformule e peça de novo.
O dano: Trocar cedo demais rotula como "resistência" o que é apenas tempo insuficiente, e queima uma droga barata e eficaz. Trocar depois de 72 horas sem investigar deixa passar as quatro causas que não se resolvem com droga nova — derrame, doença de base, tratamento não cumprido e diagnóstico errado.
Como pegar a tempo: Respeite a janela de 48 a 72 horas para julgar a resposta. Ao chegar nela sem melhora, percorra as cinco causas de falha antes de escrever qualquer nome novo — e comece pela mais frequente e mais fácil de checar: pergunte à mãe quantas doses foram efetivamente dadas e peça para ver o frasco.
O dano: O antibiótico oral é seguro e eficaz mesmo na pneumonia grave. Puncionar sem indicação submete a criança a dor e a risco de infecção de cateter, encarece a internação e não acelera nada. A recíproca também custa caro: manter a via oral em criança que já não aceita líquidos atrasa o tratamento e a hidratação.
Como pegar a tempo: A via intravenosa tem três gatilhos: não aceitar líquidos ou o antibiótico por boca, sinais de septicemia e pneumonia complicada. Fora deles, mantenha a boca. E retorne à via oral assim que a criança voltar a aceitar.
O dano: Situação vacinal é dado clínico: a criança sem esquema pneumocócico completo tem risco maior de doença invasiva, e a criança completamente vacinada que não melhora aponta com mais força para sorotipo não vacinal, atípica ou complicação. A caderneta também abre a única janela de prevenção que a consulta oferece.
Como pegar a tempo: Peça a caderneta em toda consulta de criança com pneumonia, confira as doses da pneumocócica e da influenza, e aproveite a alta para atualizar o que estiver atrasado.
O que dizer ao paciente e à família
A mãe que sai do consultório com a criança no colo é quem vai tomar as próximas decisões: dar ou não o remédio no horário, esperar ou voltar às três da manhã, acreditar ou não que uma criança com pneumonia possa ser tratada em casa. Tudo o que este capítulo ensina depende dessa conversa funcionar.
Duas regras práticas. A primeira: não use palavra técnica sem traduzi-la para o corpo. "Tiragem" não existe fora do hospital; "a barriguinha afundando embaixo das costelinhas" existe em qualquer casa do Brasil. A segunda: peça que ela repita. Não como teste, e sim como conferência da sua explicação — se a mãe repete errado, quem falhou foi quem explicou.
E há uma conversa específica que o interno costuma evitar: a de não prescrever antibiótico. Ela é mais difícil do que prescrever, porque a família chegou esperando remédio e vai embora com orientação. Feita bem, ela protege a criança de efeito adverso e a comunidade de resistência; feita mal, a família compra o antibiótico na farmácia da esquina no dia seguinte.
Explicar o diagnóstico de pneumonia para a mãe que vai levar a criança para casa
“"A Lorena está com pneumonia. Eu sei que essa palavra assusta, e eu preciso te dizer duas coisas ao mesmo tempo: é pneumonia, e ela pode ser tratada em casa. Ela está bem acordada, está bebendo, o oxigênio dela está bom, e o peito dela está trabalhando sem esforço. Crianças assim melhoram com o remédio de boca. O que eu vou te pedir é que você fique de olho em algumas coisas, e que volte aqui daqui a dois dias mesmo que ela melhore."”
Não diga: Evite "é só uma pneumoniazinha" e evite "pneumonia é grave, qualquer coisa corre para o hospital". A primeira faz a família não voltar; a segunda faz voltar por qualquer coisa e não voltar pelo que importa.
Ensinar os sinais de retorno imediato — a parte mais importante da consulta
“"Presta atenção nesses quatro sinais. Primeiro: se ela parar de beber ou não quiser mais mamar. Segundo: se ela ficar mole, quietinha demais, sem querer brincar nem chorar. Terceiro: se a febre voltar mais forte ou não ceder com o remédio. E quarto: se ela começar a respirar mais rápido, ou se a barriguinha começar a afundar embaixo das costelinhas quando ela puxa o ar — assim, ó, deixa eu te mostrar no corpinho dela. Se qualquer um desses quatro acontecer, você não espera o dia da consulta. Você traz na hora, de dia ou de madrugada."”
Não diga: Evite "observe sinais de desconforto respiratório", "tiragem", "cianose" e "piora do padrão respiratório". Nenhuma dessas palavras vai ser reconhecida em casa às duas da manhã.
Explicar a dose sem margem para erro
“"Esse frasco aqui. Você vai encher a seringa até essa marca — quatro mililitros — e dar de oito em oito horas. Uma forma fácil: sete da manhã, três da tarde e onze da noite. São sete dias, sem parar antes, mesmo que ela pareça curada no terceiro dia. Se sobrar remédio no frasco no fim dos sete dias, tudo bem, você joga fora. Você pode me repetir quantos mililitros e de quantas em quantas horas?"”
Não diga: Evite "tomar conforme orientação" e evite entregar a receita sem mostrar o volume na seringa. Evite também deixar o horário em aberto: "de 8 em 8 horas" sem âncora vira "quando lembrar".
Explicar por que não vai antibiótico quando o quadro é viral
“"Eu examinei ela com calma e eu não achei pneumonia. O que ela tem é uma virose respiratória — e vírus não melhora com antibiótico. Não é que eu esteja economizando o remédio: é que ele não age nesse tipo de infecção, e ainda pode dar diarreia, alergia e deixar as bactérias dela mais resistentes para uma próxima vez, quando ela realmente precisar. O que ajuda agora é líquido, remédio para a febre e tempo. Mas eu não vou te deixar sem plano: se em cinco dias ela não estiver melhor, ou se aparecer qualquer um dos sinais que eu vou te ensinar, você volta."”
Não diga: Evite "não precisa de nada" e evite "é só virose". A família ouve "o médico não achou nada" e procura outro serviço no dia seguinte. Sempre dê um plano com prazo e sinais.
Comunicar a necessidade de internação a uma família que não esperava
“"Eu preciso internar o seu filho. Ele está fazendo muita força para respirar e o oxigênio no sangue dele está mais baixo do que deveria — isso eu não consigo tratar em casa. A internação é para dar oxigênio e ficar observando ele de perto nas próximas horas. A maioria das crianças nessa situação melhora bem e vai para casa em poucos dias. Eu vou começar o remédio agora, antes mesmo de subir para o leito. Você tem alguma pergunta antes de eu chamar a equipe?"”
Não diga: Evite prometer prazo de alta e evite minimizar ("é só por precaução"). Se depois piorar, a família perde a confiança justamente quando mais vai precisar dela.
Explicar que ainda não se sabe se é vírus ou bactéria
“"Você me perguntou se é vírus ou bactéria, e essa é uma boa pergunta. A verdade é que, nessa idade, muitas vezes não dá para separar com certeza no primeiro dia — nem o exame de sangue nem o raio X respondem isso direito. O que eu faço é tratar pelo mais provável e reavaliar com prazo curto. Se em dois a três dias ele estiver melhorando, é sinal de que acertamos. Se não estiver, a gente muda de rota, e eu quero ver ele de novo antes disso se algum sinal aparecer."”
Não diga: Evite fingir certeza que não existe, e evite o extremo oposto — "não temos como saber" — sem dizer o que se faz diante da incerteza. Incerteza com plano e prazo tranquiliza; incerteza sozinha assusta.
Conversar com a família na falha terapêutica de 72 horas
“"Passaram três dias e ela não melhorou como a gente esperava. Isso acontece, e tem cinco motivos possíveis — pode ter juntado líquido em volta do pulmão, pode ser outro tipo de micróbio, pode ser que o remédio não tenha entrado direitinho, pode ser alguma outra doença por trás, ou pode ser que o diagnóstico precise ser revisto. Antes de trocar o remédio eu quero checar cada um desses. Vou pedir um exame de imagem e preciso que você me ajude numa parte: me conta quantas doses ela realmente tomou, e se puder, me mostra o frasco."”
Não diga: Evite culpar a família pela adesão ("você deu certinho?" em tom de acusação) e evite trocar o antibiótico apenas para mostrar ação. Falha terapêutica é hora de investigar, e a família precisa entender isso para não achar que o serviço está "chutando remédios".
Orientar a prevenção sem soar como sermão
“"Uma coisa que ajuda muito a não repetir isso: manter a vacina em dia — a do pneumococo e a da gripe. Deixa eu ver a caderneta com você. E se alguém fuma dentro de casa, mesmo na janela, isso aumenta bastante a chance de infecção no peito dela. Eu sei que não é fácil, mas se der para fumar do lado de fora, já faz diferença."”
Não diga: Evite listar culpas ("isso aconteceu porque você desmamou cedo"). O objetivo é mudar o que ainda dá para mudar, não estabelecer causa.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Tiragem subcostal classifica como pneumonia grave e indica referência hospitalar — protocolo nacional brasileiro
No quadro de avaliar e classificar do AIDPI Criança, a tiragem subcostal é um dos três sinais que classificam a criança como pneumonia grave ou doença muito grave, ao lado do estridor em repouso e de qualquer sinal geral de perigo. A conduta prescrita é dar a primeira dose do antibiótico, tratar para evitar hipoglicemia, oferecer oxigênio se disponível e referir urgentemente ao hospital.
Brasil. Ministério da Saúde; OPAS; UNICEF. Manual de Quadros de Procedimentos — AIDPI Criança: 2 meses a 5 anos, 2017. Posição mantida pela Sociedade Brasileira de Pediatria em 2021, que classifica frequência respiratória aumentada com tiragem subcostal como pneumonia grave, com encaminhamento para internação.
Tiragem subcostal pode ser tratada em casa com amoxicilina oral — revisão da Organização Mundial da Saúde de 2014
A revisão da classificação de 2014 fundiu as categorias "pneumonia" (respiração rápida) e "pneumonia grave" (tiragem subcostal) numa só, tratada em domicílio com amoxicilina oral, e reservou o termo pneumonia grave para quem tem sinal geral de perigo. O argumento é de equivalência: amoxicilina oral mostrou-se equivalente à penicilina ou ampicilina injetável nos casos com tiragem, e o reagrupamento reduz referências e hospitalizações em sistemas com acesso limitado.
World Health Organization. Revised WHO classification and treatment of childhood pneumonia at health facilities, 2014.
No percurso nacional de atenção primária apresentado, tiragem subcostal confirmada leva a avaliação hospitalar. Observe o esforço enquanto inicia o cuidado; choro pode dificultar a leitura, mas não exclui gravidade nem justifica atrasar suporte. Sibilância exige diagnóstico diferencial, com broncodilatador quando indicado e sem uso rotineiro na bronquiolite. Saturação, esforço, ingestão, idade e acesso ao hospital orientam a segurança do encaminhamento. As diferenças entre protocolos precisam ser lidas com a população e a estrutura do serviço. Se houver indicação de antibiótico antes da transferência, escolha a via apropriada ao estado da criança.
Sete dias — protocolo nacional e diretrizes brasileiras
O quadro de tratamento do AIDPI prescreve o antibiótico recomendado durante sete dias na criança classificada como pneumonia, e o documento da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2021 registra que as diretrizes nacionais sugerem tratamento de sete dias, tanto no ambulatório quanto na criança internada que aceita a via oral.
AIDPI Criança 2017; SBP, Documento Científico nº 6, 2021.
Cinco dias — evidência de equivalência citada pela própria Sociedade Brasileira de Pediatria
Ensaio clínico com crianças menores de cinco anos com pneumonia não complicada, descartados os quadros virais de confusão, mostrou igual eficácia entre cinco e dez dias de amoxicilina oral. O documento de 2021 registra que esquemas mais curtos podem ser considerados em crianças sem gravidade, por terem melhor adesão e menos efeitos adversos.
SBP, Documento Científico nº 6, 2021, citando ensaios clínicos de curso curto.
Cinco dias, ou três em área de baixa prevalência de HIV — Organização Mundial da Saúde
A revisão de 2014 recomenda amoxicilina oral por cinco dias para pneumonia com respiração rápida e com tiragem, e reduz para três dias em áreas de baixa prevalência de HIV. A lógica é de saúde pública: cursos curtos aumentam adesão, reduzem custo e diminuem pressão de seleção.
World Health Organization. Revised WHO classification and treatment of childhood pneumonia at health facilities, 2014.
Para a criança à sua frente, a pergunta prática é: quem vai garantir que o tratamento seja cumprido? Sete dias é o que está escrito no protocolo que rege a rede brasileira, é o que a receita da unidade básica vai dizer e é o que o farmacêutico vai dispensar — seguir essa régua evita ruído entre serviços e é a escolha de menor atrito. A discussão de encurtar ganha corpo em duas situações concretas: criança sem gravidade cuja família tem histórico de abandonar o esquema no terceiro dia, em que cinco dias completos valem mais que sete dias pela metade; e criança com efeito adverso relevante ao antibiótico. Em criança grave, internada, com complicação ou com doença de base, encurtar não se discute — e na pneumonia complicada o tempo é de semanas, não de dias. Qualquer que seja a duração escolhida, ela precisa aparecer por escrito na receita, com o número de dias.
50 mg/kg/dia — protocolo nacional e Sociedade Brasileira de Pediatria
A dose recomendada é de 50 mg/kg/dia, em intervalos de 8 em 8 ou de 12 em 12 horas, com máximo de 4 g/dia. O documento de 2021 registra que essa escolha se baseia em estudos clínicos com método adequado realizados no Brasil, e que os dois intervalos mostraram equivalência de resposta clínica em ensaio brasileiro.
AIDPI Criança 2017; SBP, Documentos Científicos nº 3 (2018) e nº 6 (2021).
80 a 90 mg/kg/dia — Organização Mundial da Saúde
A revisão de 2014 recomenda pelo menos 40 mg/kg por tomada, duas vezes ao dia, o que equivale a 80 mg/kg/dia, e registra que a dose alta de 80 a 90 mg/kg/dia em duas tomadas mostrou-se eficaz inclusive nas crianças com tiragem subcostal. A justificativa é farmacodinâmica: doses mais altas mantêm concentração acima da concentração inibitória mínima por mais tempo, cobrindo pneumococos com sensibilidade reduzida à penicilina.
World Health Organization. Revised WHO classification and treatment of childhood pneumonia at health facilities, 2014.
Comece pelos 50 mg/kg/dia: é a dose validada em estudos brasileiros, é a que está no protocolo da rede e é suficiente para o perfil de sensibilidade do pneumococo circulante no país, onde a resistência plena à penicilina é minoritária. O que legitimamente puxa a discussão para cima é o cenário de sorotipos não vacinais: entre crianças menores de cinco anos com doença pneumocócica invasiva no Brasil em 2022, o sorotipo 19A respondeu por 52% dos casos e pertence a clone associado a altas taxas de resistência. Traduzindo para a beira do leito: a dose habitual segue sendo a primeira escolha, e a criança que não melhora em 48 a 72 horas com dose correta, tempo correto e adesão comprovada é a criança em que a hipótese de pneumococo com sensibilidade reduzida entra na lista — junto com derrame, atípica, tuberculose e diagnóstico errado. Antes de subir a dose, confira se a que foi prescrita chegou a ser dada.
Pneumonia grave é tratada com ampicilina ou penicilina cristalina parenteral — recomendação registrada pela Sociedade Brasileira de Pediatria em 2018
O documento de 2018 reproduz as recomendações aplicáveis à realidade brasileira: pneumonia sem tiragem subcostal é tratada com amoxicilina oral, e pneumonia grave é tratada com ampicilina parenteral 50 mg/kg/dose de 6 em 6 horas, ou penicilina cristalina 150.000 UI/kg/dia a cada 6 horas, com gentamicina associada nos menores de dois meses.
SBP, Documento Científico nº 3, 2018.
Antibiótico oral é seguro e eficaz mesmo na pneumonia grave — documento da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2021
O documento de 2021 afirma que os antibióticos orais são seguros e eficazes mesmo para pneumonia grave, mantém a amoxicilina 50 mg/kg/dia de 8 em 8 ou de 12 em 12 horas por sete dias como primeira opção, e reserva a via intravenosa para a criança incapaz de aceitar fluidos ou antibióticos orais, com sinais de septicemia ou com pneumonia complicada.
SBP, Documento Científico nº 6, 2021.
A pergunta que resolve não é "quão grave está?", e sim "a boca está funcionando?". Se a criança bebe, mama e engole o antibiótico, e não há sinais de septicemia nem complicação, a via oral entrega a mesma coisa sem punção, sem risco de cateter e sem custo adicional — e permite alta mais cedo. A via intravenosa passa a ser obrigatória em três situações objetivas: recusa ou impossibilidade de via oral, septicemia e pneumonia complicada. Repare que gravidade e via são eixos diferentes, e é a confusão entre eles que gera punção por reflexo. Uma prática que resolve bem no plantão: prescreva a via oral e reavalie a aceitação em quatro horas; se a criança vomitar as doses ou recusar líquidos, a decisão está tomada por ela. E quando a via intravenosa foi necessária, volte para a oral assim que a aceitação retornar — o tempo total de tratamento não muda por causa da via.
Abaixo de 92% em ar ambiente — Sociedade Brasileira de Pediatria
A saturação abaixo de 92% em ar ambiente é apontada como critério objetivo de pneumonia grave, entra na lista de critérios de internação e é o gatilho para oxigenoterapia por cânula nasal, alto fluxo ou máscara facial. O mesmo valor, no derrame parapneumônico, marca pior prognóstico. Na terapia intensiva o limiar reaparece como incapacidade de manter saturação acima de 92% com fração inspirada de oxigênio acima de 0,6.
SBP, Documentos Científicos nº 3 (2018) e nº 6 (2021).
Igual ou abaixo de 90% como marcador de gravidade — quadro de sibilância do protocolo nacional
No quadro de avaliar e classificar a sibilância do AIDPI Criança, a saturação igual ou menor que 90% em ar ambiente aparece entre os sinais de sibilância grave ou doença muito grave; a faixa de 91% a 95% classifica como sibilância moderada e valores iguais ou acima de 95% como leve. É a mesma medida usada com corte diferente e para outra decisão — classificar crise obstrutiva, não indicar oxigênio na pneumonia.
Brasil. Ministério da Saúde; OPAS; UNICEF. Manual de Quadros de Procedimentos — AIDPI Criança: 2 meses a 5 anos, 2017.
Os dois números respondem a perguntas diferentes, e a confusão entre eles produz decisão errada nas duas direções. Para decidir internação e iniciar oxigênio na criança com pneumonia, o valor é 92% em ar ambiente — é o corte dos documentos brasileiros de pneumonia e é o que este capítulo usa em toda a linha do tempo. O corte de 90% aparece dentro da classificação de crise de sibilância, onde separa a criança que precisa ser referida da que pode ser tratada e reavaliada no serviço. Na criança concreta, faça a leitura na ordem certa: se ela chia, classifique a crise, trate e reavalie; depois, com a criança já broncodilatada, meça de novo e use o corte de 92% para decidir sobre a pneumonia. E lembre que o número nunca decide sozinho — saturação de 95% em criança com tiragem franca não a manda para casa.
O raciocínio, em voz alta
Lorena, 1 ano e 8 meses, 12 kg, trazida pela mãe a uma unidade de pronto atendimento. Febre há três dias, começou com coriza e tosse. Hoje a mãe reparou que "a barriguinha está subindo e descendo depressa", mesmo com a menina quieta. Está no colo, acordada, chorando quando examinada e acalmando no ombro da mãe. Aceitou meio copo de suco na sala de espera.
o que penso agora
Tosse com febre há três dias numa criança de 20 meses é o quadro mais comum do pronto-socorro pediátrico brasileiro, e a maioria é viral. A frase da mãe, porém, descreve taquipneia — e taquipneia é o gatilho de classificação. Antes de qualquer hipótese, preciso de três dados que ela não tem como me dar: frequência respiratória contada, presença de tiragem e saturação.
primeiro gesto
Peço à mãe que a mantenha no colo e espero a menina parar de chorar. Levanto a blusinha. Só então conto: 48 incursões em um minuto, com a criança tranquila. Anoto o número e anoto que ela estava calma.
como isso muda o que penso
Para a faixa de 1 ano a menor de 5 anos, o corte é 40. Com 48, ela tem respiração rápida — e respiração rápida, no protocolo nacional, classifica como pneumonia. A pergunta deixou de ser "tem pneumonia?" e passou a ser "é pneumonia grave?".
o que procuro em seguida
Os sinais que separam pneumonia de pneumonia grave: sinal geral de perigo, tiragem subcostal e estridor em repouso. Ela bebe, não vomita tudo, não teve convulsão, está acordada e interessada, enchimento capilar de 2 segundos, sem batimento de asa do nariz e sem gemência. Observo o rebordo costal por vários ciclos: sobe inteiro, não afunda. Não há estridor.
o exame que decide
Oxímetro no pé: 96% em ar ambiente. Esse número faz duas coisas. Tira a hipoxemia da mesa como critério de internação, e me lembra que saturação acima de 96% reduz a probabilidade de pneumonia — o que não a exclui, porque a taquipneia sustentada e a ausculta focal continuam de pé.
o que ausculto
Estertores finos na base direita, sem sibilos. Integro esse achado à febre, taquipneia e esforço para seguir a avaliação de pneumonia. Se houvesse chiado, eu investigaria bronquiolite, asma e outras causas; não indicaria beta-2 apenas pela presença de sibilância.
o que eu não peço
Não peço radiografia: ela não está indicada na criança em tratamento ambulatorial, não vai mudar o antibiótico e não define etiologia. Não peço hemograma nem proteína C-reativa: eles não separam viral de bacteriana e não decidem nada aqui. Não peço hemocultura, que não é rotina fora da internação.
a decisão
Classificação: pneumonia. Destino: casa. Ela preenche a faixa amarela do protocolo — respiração rápida, sem nenhum sinal de gravidade — e o tratamento previsto é antibiótico oral por sete dias, com retorno marcado em dois dias.
a conta
Peso na balança: 12 kg. Amoxicilina 50 mg/kg/dia = 600 mg/dia. Dividido em três tomadas, 200 mg por dose. A suspensão de 250 mg/5 mL tem 50 mg por mililitro, logo 4 mL por dose, de 8 em 8 horas, por 7 dias. Escrevo a dose em mililitros na receita, com os três horários sugeridos e o número de dias.
o contrato
Paracetamol 200 mg/mL, 12 gotas de 6 em 6 horas se febre ou dor. Líquidos com frequência e em pequenos volumes. Data do retorno escrita na receita: dois dias. E os quatro sinais de volta imediata ensinados com as palavras da mãe — parar de beber, ficar mole demais, febre que volta mais forte, respiração mais rápida ou a barriguinha afundando embaixo das costelinhas. Peço que ela repita. Ela repete os quatro.
o retorno
Dois dias depois: frequência respiratória de 34, afebril há 24 horas, comendo, brincando na sala de espera. Comparo com o 48 anotado na primeira consulta — caiu. Oriento completar os sete dias mesmo com a criança bem, e não peço radiografia de controle, porque ela melhorou clinicamente.
o que teria mudado tudo
Se, na primeira consulta, o rebordo costal tivesse afundado, ou a saturação fosse 90%, ou ela tivesse recusado o suco, Lorena não teria ido para casa — e teria recebido a primeira dose do antibiótico antes de sair da unidade. O que muda o destino não é o diagnóstico: é o conjunto de três dados colhidos com a criança calma e o tórax despido.
Faça você
Miguel, 3 anos, 14 kg, volta ao pronto atendimento no terceiro dia de tratamento. Foi atendido há 72 horas com febre e tosse, classificado como pneumonia — frequência respiratória de 44, sem tiragem, saturação de 95% — e saiu com amoxicilina por sete dias e retorno marcado. Hoje a mãe conta que ele "não melhorou nada": mantém febre alta com calafrios, está mais prostrado, deitou de lado no colo durante toda a espera e reclama de dor na barriga do lado direito. Ao exame, está quieto demais para a idade, frequência respiratória de 52, saturação de 91% em ar ambiente, sem tiragem franca. À percussão do hemitórax direito, macicez em base; frêmito tóraco-vocal abolido nessa região e murmúrio vesicular francamente diminuído.
achado
Três dias de antibiótico adequado sem melhora — febre persistente, prostração, saturação que caiu de 95% para 91% e um exame torácico que mudou: macicez, frêmito abolido e murmúrio diminuído na base direita, com dor referida no mesmo lado e postura antálgica.
o que isso significa
Ausência de melhora após 48 a 72 horas caracteriza falha terapêutica, e a combinação de macicez com frêmito abolido, murmúrio diminuído e decúbito sobre o lado acometido aponta para a complicação mais frequente da pneumonia adquirida na comunidade na criança. A saturação abaixo de 92% já resolve a questão do destino, independentemente do resto.
as cinco perguntas
Antes de escrever qualquer droga nova: há complicação local? o agente é outro — vírus, atípica, primeira manifestação de tuberculose? o tratamento foi cumprido na dose, no intervalo e pelo tempo? há doença de base? o diagnóstico está errado? A mãe mostra o frasco, quase cheio: ela vinha dando 5 mL uma vez ao dia, "porque ele cuspia".
conduta
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Internar. A saturação de 91% em ar ambiente é critério isolado de internação e de oxigenoterapia — oxigênio por cânula nasal com alvo acima de 92%. Em seguida, o exame que responde à suspeita: ultrassonografia de tórax, que é a modalidade mais sensível para o espaço pleural na criança, estima o volume do derrame, mostra loculações e guia a drenagem; a radiografia de tórax entra em duas incidências por se tratar de paciente que interna e por procurar complicação na falha terapêutica. Colher hemocultura antes da primeira dose intravenosa. Sobre o antibiótico, o achado decisivo é o frasco: 5 mL uma vez ao dia entregaram 250 mg/dia, quando 14 kg exigem 700 mg/dia — ele recebeu cerca de um terço da dose, e a causa da falha é o não cumprimento do tratamento, não resistência bacteriana. Isso não significa "repetir a mesma receita em casa": a criança agora tem hipoxemia e provável derrame, e o tratamento correto é hospitalar. Iniciar penicilina cristalina 2.100.000 UI/dia divididas de 6 em 6 horas (150.000 UI/kg/dia para 14 kg), ou ampicilina 700 mg por via intravenosa de 6 em 6 horas (50 mg/kg/dose), associadas à abordagem do espaço pleural conforme o volume e o estado clínico — derrames pequenos, sem desvio de mediastino e sem insuficiência respiratória respondem só ao antibiótico; acima disso, toracocentese diagnóstica com envio para citologia, bioquímica, Gram, cultura e reação em cadeia da polimerase, e drenagem quando indicada. Vale registrar o que este caso ensina fora da técnica: a falha terapêutica mais comum não é do micro-organismo, e a pergunta que a descobre é "me mostra o frasco".
Ausência de melhora após 48 a 72 horas caracteriza falha terapêutica, e o erro não é trocar o antibiótico — é trocá-lo sem percorrer as cinco causas, quatro das quais não se resolvem com droga nova: complicação local (derrame, empiema, necrose, abscesso), agente diferente do esperado, não cumprimento do tratamento, doença de base e diagnóstico errado. O exame físico aqui aponta diretamente para a mais frequente delas: macicez, murmúrio abolido, dor no hemitórax e postura antálgica desenham derrame parapneumônico. A ultrassonografia de tórax é a modalidade mais sensível para o espaço pleural na criança, estima o volume — que é o dado que decide a conduta — e mostra loculações melhor que a tomografia. Conferir a adesão é barato e resolve uma fração relevante das falhas. A tomografia entra para pneumonia necrosante e abscesso, não como primeira imagem do derrame. Marcadores inflamatórios acompanham, não decidem.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Classifique três crianças com tosse por idade, frequência respiratória, esforço, oxigenação e alimentação. Diga qual população a tabela AIDPI cobre. Compare pneumonia, bronquiolite e asma com sibilância. Para um caso ambulatorial, justifique o antibiótico, confira concentração e cálculo e explique a data de retorno e os sinais que não podem esperar.
Em 30 dias
Reconstrua a evolução de uma criança que melhorou e de outra que piorou antes das 48 horas. Na primeira, decida seguimento e necessidade de exames. Na segunda, reconheça gravidade, inicie suporte e apresente a hipótese à equipe. Diferencie sintomas residuais, ausência de resposta e complicação antes de mudar o antibiótico.
Agora atenda
Mãe traz ao pronto atendimento uma menina de 11 meses, 8 kg, com febre há dois dias e tosse. Diz que a filha "está cansada" e mamou pouco desde ontem. Conte a frequência respiratória, procure tiragem, meça a saturação, classifique, decida o destino e prescreva com a dose calculada para o peso — incluindo o que a mãe precisa ouvir antes de sair da sala.
