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Bronquiolite viral aguda

O capítulo em que o tratamento é NÃO tratar: oxigênio, hidratação e vigilância mudam desfecho; broncodilatador, corticoide, antibiótico e fisioterapia não. O difícil é sustentar essa decisão diante da mãe, da equipe e de você mesmo.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente; Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Estratégia de imunização contra o vírus sincicial respiratório para crianças prematuras e com comorbidades: anticorpo monoclonal. 1ª edição revisada. Brasília: Ministério da Saúde, 2026.

Brasil. Ministério da Saúde; Organização Pan-Americana da Saúde. Manual AIDPI Criança. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

Kfouri RA, Sadeck LSR (coord.). Diretrizes para o manejo da infecção causada pelo vírus sincicial respiratório (VSR) — 2017. Departamentos Científicos de Cardiologia, Imunizações, Infectologia, Neonatologia e Pneumologia. São Paulo: Sociedade Brasileira de Pediatria, 2017.

Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Relatório de Recomendação nº 974: nirsevimabe para prevenção de infecção do trato respiratório inferior associada ao vírus sincicial respiratório. Brasília: Conitec, fevereiro de 2025.

Piva JP, Bueno F, Garcia PCR, Lago P. Ventilação mecânica na bronquiolite viral aguda: qual seria o consenso? Sociedade Brasileira de Pediatria. Documento do acervo da SBP.

01

Responda antes de ler

Lactente de 2 meses, ex-prematuro de 30 semanas, no segundo dia de coriza e tosse. Na consulta está alerta, corado, frequência respiratória de 52, sem tiragem, saturação de 95%, mamando razoavelmente. A mãe relata que, de manhã, ele "ficou uns segundos sem respirar e roxinho em volta da boca, mas voltou sozinho e ficou bem o resto do dia". O que você faz agora?

02

O paciente que você vai ver

É uma noite de maio e o pronto-socorro está com fila até a calçada. A enfermeira chama o próximo: Théo, 3 meses, 6 quilos, no colo da mãe. Ela senta e começa antes de você perguntar. "Doutor, faz três dias que ele está com o narizinho escorrendo, hoje começou esse chiado no peito e agora ele está mamando pouco. Minha sogra falou que é bronquite, que precisa de bombinha."

Você despe o tórax. Théo está acordado e olha para você, tem coriza clara escorrendo e uma tosse que vem em acessos. A frequência respiratória, contada com ele quieto durante um minuto inteiro, é 62. Há tiragem subcostal discreta: o rebordo afunda um pouco a cada inspiração, mas o gradil sobe. Não há batimento de asa do nariz, não há gemido. O oxímetro no pé marca 94%. À ausculta, sibilos e estertores finos difusos dos dois lados, um pouco mais à direita. Temperatura axilar de 37,8 °C. A mãe conta que ele mamou umas quatro vezes hoje, quando normalmente mama sete ou oito, e que molhou menos fraldas do que o habitual — mas molhou.

Enquanto você escreve, três coisas acontecem ao mesmo tempo. A mãe pergunta se não vai fazer "uma inalação para abrir o peito". A técnica de enfermagem já está com o kit de nebulização na mão e a sobrancelha levantada, porque na fila há mais quinze crianças e a inalação "adianta o atendimento". E dentro de você aparece a coisa mais perigosa da noite: a vontade de fazer alguma coisa. Prescrever alivia a sua ansiedade tanto quanto a dela.

Théo tem bronquiolite viral aguda. E a conduta correta, aqui, é lavagem nasal com soro, alimentação fracionada, orientação sobre os sinais de piora e retorno marcado. Mais nada. Sem inalação, sem corticoide, sem antibiótico, sem radiografia, sem fisioterapia. É a conduta mais bem sustentada por evidência de todo este material e, ao mesmo tempo, a mais difícil de executar, porque ela se parece com não fazer nada.

Note o que está em jogo. Em quase todo capítulo de medicina, saber a doença é saber o que prescrever. Aqui é o contrário: saber a doença é saber o que não prescrever, e depois sustentar essa decisão contra três pressões que empurram na direção oposta — a da mãe, que veio buscar remédio; a da equipe, que precisa esvaziar a sala; e a sua, que aprendeu que médico bom é médico que age. Não tratar é um ato clínico ativo, e exige mais conhecimento do que tratar, não menos.

Guarde o Théo. Ele volta na conduta hora a hora e volta de novo no fim, quando as coisas não correm bem.

03

Quem adoece disso

Doença respiratória é o que mais enche leito pediátrico no Brasil, e dentro dela o vírus sincicial respiratório domina o primeiro ano de vida. Na vigilância nacional de síndrome respiratória aguda grave, o VSR foi identificado em 23.067 casos em 2023, 27.037 em 2024 e 42.752 em 2025 até a semana epidemiológica 44. A concentração etária é o dado que importa: 85,4%, 84,8% e 82,5% desses casos, respectivamente, ocorreram em menores de 2 anos. Nenhum outro agente respiratório concentra tanta doença grave numa faixa tão estreita. Quando entra um lactente com desconforto respiratório na estação, a hipótese mais provável não é pneumonia bacteriana: é esta.

Dentro dos menores de 2 anos o peso se concentra de novo. Os lactentes com menos de 6 meses responderam por cerca de 61% a 62% dos casos graves por VSR nesse grupo nos três anos, e é neles que a gravidade se acumula: em torno de 36% a 38% precisaram de terapia intensiva, contra cerca de 19% a 22% na faixa de 1 a 2 anos. A idade não é aqui um detalhe demográfico — é o principal fator de risco isolado, e é ela que deve mudar o seu limiar para internar. O bebê de 2 meses com o mesmo exame físico do de 18 meses não é o mesmo paciente.

A letalidade, ao contrário do que a aflição da sala sugere, é baixa e vem caindo: entre os casos de síndrome respiratória aguda grave por VSR em menores de 6 meses, a proporção de óbitos foi de 1,2% em 2023, 1,0% em 2024 e 0,8% em 2025. Esse número tem duas leituras clínicas simultâneas, e você precisa das duas ao mesmo tempo. A primeira: a imensa maioria dessas crianças sobrevive, inclusive as que assustam, o que autoriza mandar para casa quem preenche critério, sem culpa, e autoriza não escalar terapêutica sem indicação. A segunda: são mortes de lactentes muito pequenos, e quase todas passam por um atendimento antes. A diferença entre o desfecho bom e o ruim raramente está numa droga; está em quem reconheceu a gravidade, quem internou a tempo e quem explicou à família o que observar em casa.

Vale separar duas proporções que costumam ser confundidas na cabeça do interno. Entre todos os lactentes que têm bronquiolite, estima-se que apenas 1% a 3% precisem de internação, e entre os internados 5% a 15% chegam a terapia intensiva. Mas nos grupos de risco — lactentes abaixo de 6 meses, prematuros, portadores de doença pulmonar crônica da prematuridade e cardiopatas — a necessidade de internação sobe para 10% a 15%. É a mesma doença com dois destinos muito diferentes, e o que separa um do outro é sobretudo idade e comorbidade, não a intensidade do chiado que você ouve no estetoscópio.

A sazonalidade brasileira é o dado que quase ninguém ensina e que muda a probabilidade pré-teste já na porta. O Brasil não tem uma estação do VSR: tem várias, porque tem latitude demais. No Norte o vírus circula de fevereiro a junho, acompanhando o período de chuva intensa, com pico em abril; no Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, de março a julho; no Sul, de abril a agosto, e no Rio Grande do Sul o período se estende de maio a setembro. Quem estudou por material do hemisfério norte carrega na cabeça um inverno que não é o nosso; e quem se formou em Porto Alegre e foi trabalhar em Belém erra a estação por dois meses se não corrigir o mapa. Na vigilância nacional os casos começam a subir de forma consistente por volta das semanas epidemiológicas 8 e 9 — ainda em fevereiro, portanto — e em 2025 o pico nacional caiu na semana 21, com 2.692 casos notificados numa única semana.

Duas consequências práticas saem daí. A primeira é diagnóstica: dentro da janela da sua região, lactente com pródromo de vias aéreas superiores seguido de taquipneia e sibilância é bronquiolite até prova em contrário, e a prova em contrário quase nunca é um exame. Fora da janela, a mesma criança merece que você pense mais devagar em outras causas de sibilância. A segunda é logística: a sua emergência vai lotar em meses previsíveis, e serviço que se organiza para isso — leito, oxigênio, oxímetro, fluxo de reavaliação — trata melhor do que serviço que é pego de surpresa todo ano no mesmo mês.

A prevenção mudou de patamar em 2026, e isso passou a fazer parte da anamnese. Até então a imunoprofilaxia disponível no SUS era o palivizumabe, anticorpo monoclonal de aplicação mensal durante a estação, restrito a prematuros com idade gestacional de até 28 semanas e 6 dias no primeiro ano de vida e a crianças de até 2 anos com doença pulmonar crônica da prematuridade ou cardiopatia congênita com repercussão hemodinâmica. Em fevereiro de 2025 a Conitec recomendou por unanimidade a incorporação do nirsevimabe, anticorpo de meia-vida longa em dose única por temporada, e o Ministério da Saúde começou a ofertá-lo em fevereiro de 2026, pela estratégia de imunização daquele ano: para os prematuros com até 36 semanas e 6 dias e menos de 6 meses, o ano todo, e, na sazonalidade de fevereiro a agosto, para as crianças com menos de 24 meses com comorbidades — a cardiopatia congênita só com repercussão hemodinâmica. A diferença prática é grande: de cinco injeções mensais para uma dose, e de um grupo pequeno de prematuros extremos para todos os prematuros com menos de 6 meses. Em ensaio com prematuros nascidos entre 29 e 34 semanas e 6 dias, o nirsevimabe reduziu em 78% as hospitalizações associadas ao VSR frente ao placebo.

O que isso muda na sua consulta é concreto. Perguntar "seu bebê nasceu prematuro? recebeu a injeção contra o vírus sincicial na maternidade?" passou a integrar a avaliação de risco, do mesmo modo que perguntar sobre vacina. Uma criança elegível que não recebeu é uma criança com risco maior de forma grave, e vale registrar isso no prontuário. Mas uma criança que recebeu não está imune: a imunoprofilaxia reduz hospitalização, não impede infecção, e nenhum lactente protegido merece exame menos cuidadoso por causa disso.

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Por que acontece o que acontece

A bronquiolite é uma doença de tubo estreito entupido, e praticamente tudo o que você vê no lactente — e tudo o que funciona ou deixa de funcionar no tratamento — sai dessa frase. Vale seguir a cadeia inteira uma vez, devagar, porque depois disso a lista de condutas para de precisar ser decorada.

O vírus chega pela mucosa do olho, da boca ou do nariz, replica-se na nasofaringe por quatro a cinco dias e desce. Nas vias aéreas inferiores ele infecta o epitélio respiratório dos bronquíolos, e a lesão que produz é de três tipos somados: edema da mucosa, necrose e descamação das células ciliadas, e aumento da produção de muco. O material descamado e o muco espesso formam rolhas dentro de um tubo que já está com a parede inchada. Não há, nesse conjunto, contração de musculatura lisa como evento dominante — a obstrução é mecânica e entulhada, não espástica.

Guarde esse parágrafo, porque ele é o motivo pelo qual o broncodilatador não funciona. Beta-2 agonista relaxa músculo liso brônquico. Numa via aérea obstruída por edema, restos celulares e muco, não há alvo para a droga agir: o músculo pode até relaxar, e o tubo continua entupido do mesmo jeito. É a diferença entre destravar uma porta e desentupir um cano. O próprio manual nacional de atenção integrada às doenças prevalentes na infância, ao listar as causas de sibilância, registra sobre a bronquiolite que os broncodilatadores têm pouca ação nesses casos — e essa frase não é uma opinião, é uma consequência da anatomia patológica.

O segundo elo é o calibre. A resistência ao fluxo aéreo é inversamente proporcional à quarta potência do raio: reduzir o raio pela metade multiplica a resistência por dezesseis. Um bronquíolo de lactente tem uma fração do calibre do de um escolar, de modo que um edema de mucosa de menos de meio milímetro — que num adulto não muda nada e num escolar produz tosse — no bebê de 3 meses estreita proporcionalmente muito mais a luz e multiplica o trabalho necessário para mover o mesmo volume de ar. Por isso a mesma infecção que na mãe é um resfriado, no filho de 3 meses é um lactente cansado.

O terceiro elo explica a forma do tórax e o som que você ausculta. A obstrução funciona como válvula: na inspiração a via aérea é tracionada e abre um pouco; na expiração ela se estreita ainda mais, e o ar entra melhor do que sai. O resultado é aprisionamento aéreo e hiperinsuflação — o tórax fica cheio, mais globoso, o diafragma se retifica e o fígado é empurrado para baixo, palpável a dois ou três centímetros do rebordo sem que haja hepatomegalia verdadeira. Diafragma retificado é diafragma em desvantagem mecânica: ele encurta menos e gera menos volume por contração, o que aumenta o trabalho e aproxima a fadiga. A expiração fica prolongada, e o sibilo é exatamente o som do ar passando pelo tubo estreitado. Os estertores finos, por sua vez, são o estalido de pequenas vias aéreas colapsadas se reabrindo.

Nesse ponto entra o achado mais mal interpretado do exame: o tórax que silencia. Como o sibilo depende de fluxo, a criança que está piorando de verdade pode parar de sibilar — não porque desobstruiu, mas porque não há mais ar suficiente atravessando. Ausculta que "melhorou" numa criança que está mais taquipneica, mais retraída e mais prostrada é sinal de piora, e nunca de resposta ao tratamento. O escore clínico usado nas emergências brasileiras reconhece isso de forma explícita: dá a pontuação máxima ao tórax silencioso.

O quarto elo é a razão pela qual o oxigênio funciona quando as drogas não funcionam. A obstrução não é homogênea: alguns bronquíolos ficam parcialmente ocluídos e outros totalmente, e o território distal a estes últimos colapsa, formando microatelectasias. Onde há alvéolo perfundido e mal ventilado, o sangue passa sem oxigenar direito — é distúrbio de ventilação-perfusão, com pouco shunt verdadeiro. Distúrbio de ventilação-perfusão é justamente o tipo de hipoxemia que responde bem a um aumento modesto da fração inspirada de oxigênio. Daí a assimetria terapêutica que organiza este capítulo inteiro: oxigênio corrige o problema fisiológico dominante; broncodilatador, corticoide e antibiótico não têm onde agir.

O quinto elo é alimentar, e é o que mais decide internação na prática. O lactente pequeno respira preferencialmente pelo nariz e coordena sugar, deglutir e respirar numa sequência que tolera pouca margem. Nariz entupido de secreção mais frequência respiratória acima de 60 quebram essa coordenação: o bebê pega o peito, mama alguns segundos, larga para respirar, cansa e desiste. Ele não está sem fome — está sem fôlego para comer. Duas condutas nascem direto daí, e são as duas que de fato ajudam: lavar o nariz com soro fisiológico antes das mamadas, porque desobstruir a via aérea de cima devolve a coordenação; e observar uma mamada inteira antes de decidir o destino da criança, porque a mamada é o teste de esforço do lactente e nenhum exame do pronto-socorro substitui esse dado.

Apneia pode ocorrer em lactentes jovens e prematuros mesmo com exame pouco impressionante entre os episódios; não decorre apenas de fadiga. Um relato de pausa com alteração de cor ou responsividade exige avaliação imediata e monitorização apropriada. Idade e prematuridade aumentam o risco, mas a indicação de internação integra história e condição clínica.

Por fim, dois elos que explicam o que acontece depois. O epitélio ciliado destruído leva semanas para se regenerar, e enquanto isso a depuração do muco é ineficiente: é por isso que a tosse persiste muito além da melhora do desconforto, e é por isso que a mãe volta no décimo dia dizendo que "não sarou". E, nos casos graves, a hipoxemia e a hiperinsuflação estimulam a secreção inapropriada de hormônio antidiurético, que retém água livre — razão pela qual a hidratação venosa na bronquiolite usa solução isotônica e volume contido, e não soro hipotônico em volume generoso, que é a receita para hiponatremia.

Corte transversal de bronquíolo em três estados: normal; com edema, descamação e rolha de muco; e com constrição da musculatura lisa e luz limpa.
Da esquerda para a direita: bronquíolo normal; obstrução com edema, descamação epitelial e muco; estreitamento por contração muscular. Na bronquiolite, edema e secreções têm papel predominante. Relaxar a musculatura não remove a rolha de muco nem corrige, por si só, esses componentes da obstrução.
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Como se apresenta de verdade

A bronquiolite típica é reconhecida clinicamente em lactentes, com pródromo de vias aéreas superiores seguido de tosse, aumento do trabalho respiratório e achados como crepitações ou sibilância. Sibilância não precisa estar presente em todos os casos, e outros vírus além do VSR podem causar o quadro. Idade muito baixa, apneia ou apresentação atípica ampliam a avaliação.

A evolução costuma atingir maior intensidade nos primeiros dias, frequentemente entre o terceiro e o quinto. Essa cronologia ajuda a planejar observação e retorno, mas não torna segura uma piora clínica. Esforço crescente, baixa ingestão, hipoxemia ou apneia devem ser avaliados quando aparecem, independentemente do dia da doença.

A curva de dias, que é o dado mais útil de todo o capítulo

Começa como um resfriado: coriza hialina, espirros, tosse, febre baixa ou ausente, e a criança ainda mamando bem. Esse pródromo dura em torno de 48 a 72 horas. Então a doença desce, e é aí que aparecem a taquipneia, a tiragem, o sibilo e a queda da aceitação alimentar. A intensidade máxima do quadro fica entre o terceiro e o quinto dia de doença — esse é o vale da curva, e todo o resto do capítulo se organiza em torno dele.

A duração média da doença é de sete a dez dias. A tosse, porém, é o sintoma que fica: pode persistir por mais de duas semanas depois que o desconforto passou, porque o epitélio ciliado ainda está se refazendo. Tosse residual em criança que mama bem, respira sem esforço e está ativa não é bronquiolite não tratada nem pneumonia sobreposta: é cicatrização.

Duas consequências clínicas nascem dessa curva e valem mais do que qualquer número deste capítulo. A primeira: a criança que você vê no primeiro ou no segundo dia de sintomas de vias aéreas inferiores ainda vai piorar, mesmo com a conduta certa. Se você der alta sem avisar disso, a mãe vai voltar às três da manhã convencida de que você errou — e, pior, pode não voltar, achando que a piora é normal e a piora, dessa vez, ser real. A segunda: a criança que já está no quinto ou sexto dia, estável, tende a melhorar, e isso pesa a favor de observar em vez de internar quando o caso é limítrofe.

É por isso que a frase mais importante do atendimento não é uma prescrição. É esta: "ele ainda vai piorar um pouco antes de melhorar, e a piora esperada é até o quinto dia". Dita antes da alta, ela transforma um retorno de emergência às três da manhã numa reavaliação tranquila às nove.

O que você encontra no exame, e o que cada achado significa

O tripé é taquipneia, esforço respiratório e ausculta difusa. A frequência respiratória se conta com a criança tranquila, no colo de quem a trouxe, durante um minuto inteiro, com o tórax despido — criança chorando tem frequência alta e retração de parede que imita tiragem, e classificar no choro erra nas duas direções. O esforço se procura no rebordo costal (tiragem subcostal), nos espaços intercostais, na fúrcula e nas asas do nariz, nesta ordem crescente de gravidade; gemido expiratório é sinal tardio e grave.

A ausculta na bronquiolite é difusa e bilateral: sibilos, estertores finos, roncos, ou os três misturados, mudando de lugar de uma ausculta para outra. Achado focal persistente que não muda com a tosse desloca a suspeita para consolidação ou corpo estranho. Expiração prolongada e tórax globoso são hiperinsuflação. E, como já dito, o tórax que silencia numa criança que piora é o achado mais grave da ausculta.

Três dados que o interno costuma esquecer de coletar e que pesam mais que a ausculta: quantas mamadas ou mamadeiras a criança aceitou nas últimas 12 horas comparado ao habitual; há quantas horas ela não molha fralda; e se houve pausa respiratória, engasgo ou cianose em casa. Os dois primeiros medem hidratação e reserva; o terceiro é critério isolado de internação.

A febre costuma ser baixa ou ausente. Febre alta e sustentada, sobretudo depois do quinto dia ou reaparecendo após melhora, não faz parte do roteiro e obriga a procurar outra coisa — coinfecção bacteriana, otite média, infecção urinária no lactente pequeno.

Quem tem risco de ficar grave

A gravidade da bronquiolite é decidida muito mais por quem é a criança do que por quanto ela chia. Os fatores que aparecem consistentemente nas fontes brasileiras são a idade abaixo de 3 meses, a prematuridade — sobretudo abaixo de 32 semanas —, a doença pulmonar crônica da prematuridade, a cardiopatia congênita com repercussão hemodinâmica, a imunodeficiência inata ou adquirida e a doença neuromuscular. A esses se somam o baixo peso ao nascer, o tabagismo domiciliar e a frequência a creche.

Há ainda um fator de risco que não é biológico e que decide internação com a mesma força: a condição social. Dificuldade de acesso ao serviço de saúde, moradia distante, ausência de transporte à noite e insegurança da família em reconhecer sinais de piora entram, em todas as listas brasileiras de critério de internação, ao lado dos sinais clínicos. Não é caridade: uma criança de risco intermediário que mora a duas horas do hospital e cuja mãe não tem com quem deixar os outros filhos tem, de fato, um prognóstico pior se for para casa. Registre no prontuário o motivo social quando ele for o motivo — isso é medicina, não constrangimento.

Reconhecer o lactente de risco muda três coisas de uma vez: o limiar para internar cai, a vigilância no hospital é mais estreita, e a apneia entra na lista do que você espera e monitoriza, em vez de esperar que apareça para reagir.

Quando o quadro sugere outra coisa

O primeiro divisor é o número do episódio. Primeiro episódio de sibilância em lactente, com pródromo viral e dentro da estação: bronquiolite. Segundo, terceiro, quarto episódio, sobretudo acima de 1 ano, com história pessoal ou familiar de atopia e boa resposta prévia a broncodilatador: já não é bronquiolite, é sibilância recorrente, e a lógica terapêutica passa a ser outra. Esse divisor é o que autoriza ou desautoriza a prova terapêutica com beta-2, discutida adiante.

Início abrupto, em criança previamente bem, sem pródromo de coriza, com sibilância assimétrica ou murmúrio diminuído de um lado só, e sem qualquer resposta ao que se faça: pense em aspiração de corpo estranho, e pergunte diretamente se a criança estava comendo ou brincando com peças pequenas. A história de engasgo pode ter sido presenciada e não valorizada pela família.

Sopro cardíaco, hepatomegalia verdadeira, sudorese durante as mamadas, ganho de peso ruim desde o nascimento e taquicardia desproporcional apontam para insuficiência cardíaca por cardiopatia congênita, que também dá taquipneia e sibilância no lactente. Nesse cenário o excesso de volume venoso piora a criança, o que torna a decisão de hidratar muito mais delicada.

Tosse em acessos paroxísticos, com guincho, cianose ou vômito ao fim do acesso, criança bem entre os acessos e ausculta pobre: pense em coqueluche, sobretudo no lactente com esquema vacinal incompleto — a conduta está em Coqueluche: diagnóstico, tratamento e profilaxia de contatos, na apostila de Infectologia Pediátrica. E paradas de qualquer parte deste roteiro em imunossuprimido merecem investigação mais ampla, porque nele a apresentação viral pode ser atípica e arrastada.

O diferencial que mais gera dúvida na porta é com a pneumonia, e ele merece só três linhas aqui porque tem capítulo próprio nesta apostila. A regra prática: bronquiolite é difusa, bilateral e com sibilância, febre baixa, num lactente em plena estação viral; pneumonia bacteriana tende a ser focal, com febre alta sustentada, prostração desproporcional e ausculta assimétrica, e é ela que responde a antibiótico. Consolidação e bronquiolite podem coexistir, e é justamente por isso que a radiografia mal indicada faz estrago — o assunto do bloco seguinte.

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Como fechar o diagnóstico

Este é o bloco em que a bronquiolite se separa de quase todo o resto da medicina. Não existe exame que confirme, não existe exame que exclua, e o padrão-ouro é a história somada ao exame físico. O diagnóstico se fecha na porta, com as mãos e um oxímetro.

Por isso a pergunta útil aqui não é "qual exame eu peço", e sim "qual exame eu vou ter de resistir a pedir, e o que acontece com a criança se eu pedir". Cada exame desnecessário nesta doença tem um custo específico e previsível — quase sempre uma prescrição errada logo em seguida.

1. O que se faz primeiro, e não é exame

Três procedimentos decidem tudo, nesta ordem. Primeiro, acalmar a criança no colo de quem a trouxe e contar a frequência respiratória durante um minuto inteiro, com o tórax despido, olhando o abdome subir — e, no mesmo minuto, procurar tiragem no rebordo costal, nos intercostos e na fúrcula. Segundo, medir a saturação de oxigênio em ar ambiente, com a criança tranquila e com curva pletismográfica confiável. Terceiro, observar uma mamada inteira.

A observação da mamada é o exame que quase ninguém faz e é o que mais informa. Você vê se o bebê pega o peito ou a mamadeira, quantos segundos sustenta a sucção, se larga para respirar, se fica cianótico em volta da boca, se sua, se desiste. Uma criança que mama por dez minutos sem largar tem reserva; uma que mama vinte segundos e solta ofegante não tem — e essa segunda vai desidratar em casa, independentemente do quanto a saturação dela pareceu boa no dedinho por trinta segundos.

Vale um cuidado com o oxímetro, porque ele engana em duas direções. Leitura isolada de uma criança agitada, com o sensor mal posicionado, produz número baixo falso e interna quem não precisava. E monitorização contínua em criança estável produz o efeito contrário do esperado: registra quedas transitórias fisiológicas, sobretudo no sono, que prolongam internação sem que a criança esteja pior. O uso recomendado na fase aguda do internado é intermitente, com a leitura contextualizada pelo exame — saturação se interpreta junto com esforço respiratório e aceitação alimentar, nunca sozinha.

2. Radiografia de tórax: por que não, e o que acontece quando se pede

Radiografia não é exame de rotina na bronquiolite, e o motivo não é economia — é dano. A bronquiolite produz, na imagem, hiperinsuflação, espessamento peribrônquico e atelectasias subsegmentares. Atelectasia por rolha de muco tem, no filme, a mesma cara de uma consolidação. O laudo volta com "infiltrado", "opacidade" ou "consolidação em base", e a sequência seguinte é quase automática: alguém prescreve antibiótico para uma criança que tem uma doença viral. A partir daí ela ganha o risco de reação adversa, de diarreia associada a antimicrobiano e de seleção de resistência, sem nenhum ganho.

O segundo dano é o tempo. Numa emergência lotada, pedir radiografia significa mover um lactente hipoxêmico até o setor de imagem, esperar, expor a criança e a família a mais uma sala cheia de vírus, e adiar em uma hora o que resolve — oxigênio e observação da mamada.

A radiografia tem lugar, e o lugar é estreito: dúvida diagnóstica real, quadro grave ou que não segue a curva esperada, suspeita de complicação (pneumotórax, atelectasia lobar extensa, derrame), assimetria persistente ao exame ou suspeita de corpo estranho. Nesses casos ela responde a uma pergunta específica que você formulou antes de pedir. Radiografia pedida sem pergunta é radiografia que vai gerar uma resposta que você não sabe interpretar em contexto.

3. Teste viral: quando muda alguma coisa

Identificar o vírus não muda o tratamento de uma criança com bronquiolite, porque o tratamento é o mesmo para VSR, rinovírus, metapneumovírus ou influenza — exceto quando há indicação de antiviral específico para influenza. Como cerca de três em cada dez lactentes com bronquiolite por VSR têm outro vírus junto, e como o material genético de alguns vírus persiste nas vias aéreas por semanas depois da doença, um painel positivo raramente responde à pergunta que você tinha.

As situações em que o teste muda algo são específicas: paciente imunocomprometido, forma grave da doença, necessidade de decidir isolamento ou coorte hospitalar em enfermaria com outros lactentes de risco, investigação de surto e vigilância epidemiológica. No SUS, a confirmação laboratorial é feita por RT-PCR na rede de laboratórios de saúde pública, com fluxo desenhado para vigilância de síndrome respiratória aguda grave — ou seja, para a saúde coletiva, e não para decidir o que fazer com o lactente que está na sua frente.

Há um uso do teste que vale a pena e é pouco lembrado: na enfermaria, saber quem tem VSR permite coortar os pacientes e proteger o prematuro do leito ao lado. O vírus sobrevive cerca de uma hora nas mãos e até um dia em superfícies duras e não porosas — o seu estetoscópio incluído. Nesse cenário, o resultado muda conduta: a de higiene, não a de prescrição.

4. Hemograma, proteína C-reativa e gasometria

Hemograma e proteína C-reativa não separam bronquiolite de pneumonia bacteriana com confiabilidade suficiente para decidir antibiótico no lactente, e pedidos de rotina produzem um efeito perverso conhecido: um valor levemente alterado numa criança com quadro viral típico costuma virar justificativa para tratar bactéria que não existe. Se você não vai mudar a conduta com o resultado, não peça.

Gasometria não é exame de triagem em bronquiolite. Ela entra na criança grave, com esforço mantido apesar do suporte, rebaixamento do sensório ou suspeita de retenção de gás carbônico — nesse cenário ela ajuda a decidir escalonamento ventilatório. Na criança leve ou moderada, ela dói, consome tempo e não decide nada.

A investigação de infecção bacteriana concomitante tem uma exceção etária que não se negocia: o lactente febril abaixo de 3 meses. Nele, a presença de bronquiolite reduz mas não elimina a chance de infecção bacteriana grave, e a infecção do trato urinário é a mais frequente. Febre nessa faixa merece avaliação própria, com urina colhida por técnica estéril — e isso não é contradição com o resto do bloco, é justamente aplicar o princípio de só pedir o exame que responde a uma pergunta com consequência.

5. O diferencial mora aqui dentro

Separar bronquiolite de pneumonia bacteriana é clínico: a primeira é difusa, bilateral, com sibilância e febre baixa num lactente em plena estação viral; a segunda tende a ser focal, com febre alta sustentada e prostração desproporcional, e é ela que responde a antibiótico. O exame que a maioria pede para resolver essa dúvida — a radiografia — é justamente o que a embaralha, porque atelectasia viral e consolidação bacteriana se parecem no filme. A investigação da pneumonia da criança, com os cortes de frequência respiratória por idade e as doses por peso, tem capítulo próprio nesta apostila.

Separar bronquiolite de sibilância recorrente é histórico: conta o número de episódios, a idade, a atopia pessoal e familiar e a resposta prévia a broncodilatador. Não há exame que resolva, e essa distinção é o que mais muda conduta neste capítulo, porque é ela que decide se cabe ou não tentar beta-2.

Separar bronquiolite de corpo estranho é cronológico: início abrupto, sem pródromo, achado assimétrico. Aqui, sim, a imagem entra — e entra com uma pergunta clara.

Separar bronquiolite de insuficiência cardíaca é semiológico: sopro, hepatomegalia verdadeira, sudorese às mamadas, ganho de peso ruim. Essa distinção muda a hidratação, porque volume que ajuda o desidratado afunda o cardiopata.

6. O que existe no SUS, e o que isso significa

A boa notícia deste capítulo é que a conduta que funciona é barata e está disponível em quase todo lugar: soro fisiológico para lavagem nasal, oxigênio, uma sonda nasogástrica, um oxímetro e alguém para reavaliar. O item que mais falta na atenção primária brasileira é justamente o oxímetro de pulso, e a ausência dele muda o atendimento: sem saturação, a decisão de referir passa a se apoiar inteiramente em frequência respiratória, esforço, estado geral e aceitação alimentar — o que é possível, mas exige exame mais cuidadoso, não menos.

O que é caro nesta doença é o que não funciona. Nebulização, corticoide, antibiótico e sessões de fisioterapia consomem tempo de equipe, leito de observação e dinheiro público em escala, e o retorno é nenhum. Numa emergência que atende trezentos lactentes por semana na estação, deixar de nebulizar todo mundo libera equipe para reavaliar quem está piorando — e é essa reavaliação, não a droga, que salva.

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Classificar, decidir o destino e saber o que se faz

Tudo o que decide o destino do lactente com chiado cabe em cinco perguntas, nesta ordem: houve apneia? qual a saturação em ar ambiente? há esforço respiratório e de que grau? ele está mamando quanto do habitual? quem é essa criança (idade, prematuridade, comorbidade, acesso ao serviço)? Os quadros abaixo são a régua de execução — os números moram aqui e não se repetem no texto corrido.

  1. 1Acalme a criança no colo de quem a trouxe, dispa o tórax e conte a frequência respiratória durante um minuto inteiro.
  2. 2Pergunte diretamente se houve pausa respiratória, engasgo ou arroxeamento em casa. Apneia presenciada interna, mesmo com a criança bem agora.
  3. 3Meça a saturação em ar ambiente com a criança tranquila e curva confiável; repita se o valor não bater com o exame.
  4. 4Procure esforço em ordem crescente: tiragem subcostal, intercostal, fúrcula, batimento de asa do nariz, gemido. Ausculte procurando entrada de ar, não sibilo — tórax silencioso é gravidade, não melhora.
  5. 5Faça lavagem nasal com soro fisiológico e reavalie: parte do desconforto do lactente é nariz entupido, e a reavaliação depois da desobstrução é outra criança.
  6. 6Observe uma mamada inteira e quantifique: quanto ela aceitou em relação ao habitual nas últimas 12 horas, e há quanto tempo não molha fralda.
  7. 7Classifique em leve, moderada ou grave e decida o destino pela tabela — sem esperar resultado de exame nenhum, porque não há exame a esperar.
  8. 8Se for para casa: explique a curva de dias, ensine os sinais de retorno imediato, marque reavaliação e registre no prontuário o que foi orientado.
  9. 9Se ficar: prescreva oxigênio com alvo definido, hidratação pela via mais simples que funcionar, e escreva de quanto em quanto tempo a criança será reavaliada e por quem.

Leve

Sem hipoxemia, esforço ausente ou discreto, alimentação preservada. Vai para casa com orientação, lavagem nasal e retorno marcado.

Moderada

Hipoxemia, tiragem subcostal e intercostal, aceita pouco alimento, pausas breves em lactente jovem. Interna.

Grave

Tiragem universal, gemido, batimento de asa do nariz, apneia, alteração do sensório ou tórax silencioso. Terapia intensiva.

Classificar a gravidade à beira do leito

GravidadeSaturação em ar ambienteEsforço e auscultaAlimentaçãoDestino
Leve≥ 92%Desconforto ausente ou leve; sibilos difusos com boa entrada de arMama o habitual ou quaseCasa, com orientação e retorno
Moderada< 92%Tiragem subcostal e intercostal, expiração prolongada, entrada de ar diminuída; pausas breves no lactente jovemAceita pouco, larga o peito para respirarInternação
Grave< 90%Tiragem universal, gemido, batimento de asa do nariz, tórax silencioso, apneia, sensório alterado ou hipotonia; frequência respiratória acima de 70 ou abaixo de 30; frequência cardíaca acima de 180 ou abaixo de 80Abaixo de 50% do volume habitual nas últimas 12 horasTerapia intensiva

Critérios de internação

DomínioO que interna
RespiratórioApneia presenciada, ainda que isolada; frequência respiratória acima de 60 com esforço; gemido, batimento de asa do nariz ou cianose central; saturação persistentemente abaixo de 92% em ar ambiente
HidrataçãoRecusa alimentar, ingestão abaixo de 50% a 75% do habitual, ausência de diurese por 12 horas ou sinais de desidratação
IdadeMenor de 3 meses — a apneia nessa faixa não guarda relação com a gravidade aparente do exame
ComorbidadePrematuridade, sobretudo abaixo de 32 semanas; doença pulmonar crônica da prematuridade; cardiopatia congênita com repercussão hemodinâmica; imunodeficiência; doença neuromuscular
Estado geralPiora do estado geral: hipoativo, prostrado, acorda apenas com estímulo prolongado
ContextoDificuldade de acesso ao serviço se piorar; família insegura para reconhecer sinais de alerta; condição social desfavorável

O que muda desfecho e o que não muda

IntervençãoPosiçãoSustentação
OxigênioFazCorrige a hipoxemia por distúrbio de ventilação-perfusão. É a única medida realmente efetiva na bronquiolite
HidrataçãoFazPor via oral fracionada, por sonda ou venosa. Ensaio multicêntrico com 759 lactentes internados não achou diferença entre sonda e veia em tempo de internação, necessidade de UTI, ventilação invasiva ou eventos adversos — e a sonda é mais acessível
Lavagem nasal com soro fisiológicoFazMelhora a saturação e devolve a coordenação de sugar, deglutir e respirar; indicada antes das mamadas
Aspiração nasal superficialFaz, quando necessáriaMelhora o esforço e facilita a alimentação; a aspiração profunda ou repetida associou-se a maior tempo de internação em estudos observacionais
Broncodilatador inalatórioNão faz de rotinaRevisão Cochrane com 30 estudos e 1.192 lactentes: sem melhora de saturação, de tempo de resolução dos sintomas ou de tempo de internação, e sem redução da taxa de admissão hospitalar
Adrenalina nebulizadaNão fazSem benefício em internados; doses contínuas associaram-se a maior tempo de internação que doses intermitentes ou placebo
CorticoideNão fazOito estudos ambulatoriais com 1.824 pacientes sem redução de internação no dia 1 e no dia 7; nove estudos com 772 internados sem redução do tempo de internação
AntibióticoNão fazUso rotineiro não reduz dias de sintomas, tempo de internação, necessidade de oxigênio nem taxa de internação; azitromicina não diferiu de placebo
Fisioterapia respiratóriaNão faz de rotinaRevisão Cochrane com 12 estudos e 1.249 participantes sem benefício em tempo de internação, saturação ou parâmetros respiratórios. Exceção: comorbidade que impeça a depuração de secreção, como amiotrofia espinhal
Salina hipertônica a 3%Em disputaReanálise de 18 estudos com 2.063 lactentes, depois de excluída a heterogeneidade, não confirmou redução do tempo de internação. Ver o bloco de divergências
Cânula nasal de alto fluxoEscalonamento, não rotinaEvidência observacional de melhora de parâmetros respiratórios; não foi superior ao CPAP, tem custo alto e permite deterioração silenciosa se a criança não for monitorizada
Antiviral (ribavirina)Não fazDificuldade de uso, custo alto e risco para quem administra

Critérios de alta hospitalar

CritérioAlvo
OxigenaçãoOxigenação estável em ar ambiente, no alvo e pelo período previstos no protocolo e no risco individual, incluindo sono; o caso deste capítulo usa 92% e observação conservadora de 24 horas.
Estabilidade clínicaSem apneia, sem esforço respiratório importante, frequência respiratória em queda em relação à admissão
AlimentaçãoIngesta oral acima de 75% do volume habitual, sustentada
Momento na curvaPico da doença já ultrapassado — ou, se ainda não, família explicitamente orientada de que a piora pode vir
Família e acessoCuidadores seguros para reconhecer sinais de piora e assistência pediátrica acessível se necessário

Suporte ativo: decidir e reavaliar

DomínioAvaliaçãoResposta ou escalonamento
RespiraçãoEsforço, entrada de ar, apneia e oxigenaçãoSuporte e monitorização proporcionais; ajuda imediata se deterioração
AlimentaçãoMamada observada, volume relativo, fadiga e diureseFracionar ou escolher via assistida quando necessário
RiscoIdade, prematuridade, comorbidades e evoluçãoIndividualizar observação e limiar de internação
AltaEstabilidade, sono, ingestão e capacidade de retornoPlano compreendido, sinais de alerta e revisão apropriada

A saturação não decide sozinha. O mesmo 91% significa coisas diferentes num lactente de 2 meses com tiragem e recusa alimentar e num de 20 meses que acabou de chorar, mama bem e brinca no colo. Interprete sempre o número junto com esforço, aceitação alimentar e idade.

Escores clínicos como o de Wood-Downes modificado por Ferrés — que pontuam sibilância, tiragem, entrada de ar, cianose, frequência respiratória e frequência cardíaca — servem para padronizar a reavaliação dentro do serviço e comparar a criança com ela mesma ao longo das horas. Eles são úteis exatamente por isso, e não porque um valor de corte substitua a decisão clínica.

Nenhum item das colunas "não faz" significa que a droga é proibida em qualquer circunstância. Significa que ela não muda o desfecho da bronquiolite e não entra na prescrição padrão — e que prescrevê-la é uma decisão que precisa de justificativa individual escrita no prontuário, não o contrário.

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A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo acompanha o Théo, o lactente de 3 meses e 6 kg da primeira página, e um segundo bebê que aparece no meio do caminho: a criança que interna e piora. Cada marco traz o que se faz, por que se faz e a prescrição escrita como ela sai no papel, com a conta feita para o peso do exemplo. Trocar o peso troca os volumes; a regra de cálculo é sempre a mesma e está escrita junto.

O percurso didático mantém o alvo de 92% das referências brasileiras utilizadas no caso, que deve estar escrito e ser interpretado com qualidade do sinal, persistência da queda e exame. Ele não é um limiar universal: a NICE NG9 utiliza 90% a partir de seis semanas e 92% em menores de seis semanas ou crianças com condições subjacentes, distinguindo avaliação hospitalar de encaminhamento. A prescrição de líquidos também é individual: via digestiva quando viável, solução venosa apropriada quando necessária, com balanço e monitorização.

A prescrição positiva inclui alimentação e hidratação seguras, oxigênio quando indicado, conforto, higiene nasal quando útil, observação e critérios de escalonamento. Evitar broncodilatador, corticoide ou antibiótico de rotina é uma decisão dentro desse cuidado. Se surgir outra hipótese, o tratamento é revisto conforme os achados.

  1. Minuto 0 — antes de escrever qualquer coisa

    Três gestos antes de qualquer caneta, com a criança no colo de quem a trouxe. Acalmar, porque lactente chorando não pode ser avaliado: o choro sobe a frequência respiratória e produz retração que imita tiragem. Despir o tórax e contar a frequência respiratória por um minuto inteiro, olhando o abdome subir, enquanto se procura tiragem no rebordo, nos intercostos e na fúrcula. E medir a saturação em ar ambiente, com a criança quieta. Só depois disso vale auscultar, medir temperatura e pesar. Antes de classificar, faça a lavagem nasal e reavalie: boa parte do desconforto do lactente é nariz entupido, e a criança depois da lavagem costuma ser outra.

    Prescrição
    • Frequência respiratória: contar 60 segundos, criança tranquila, tórax despido
    • Oximetria de pulso em ar ambiente, com curva confiável — repetir se destoar do exame
    • Lavagem nasal: soro fisiológico 0,9%, 1 a 2 mL em cada narina; reavaliar depois
    • Perguntar diretamente: houve pausa respiratória, engasgo ou arroxeamento em casa?
    • Observar uma mamada inteira e registrar quanto aceitou frente ao habitual
  2. Primeira hora — o lactente que vai para casa

    Théo tem 62 incursões por minuto, tiragem subcostal discreta, saturação de 94%, mama menos que o habitual mas mama, e molha fralda. É bronquiolite leve a moderada sem hipoxemia, num lactente de 3 meses — a idade obriga a olhar duas vezes. Depois da lavagem nasal ele mama por sete minutos seguidos, sem largar o peito, e a frequência cai para 54. Essa mamada é o que autoriza a alta. A prescrição inteira cabe em cinco linhas, e nenhuma delas é um medicamento. O que faz esse atendimento ser bom não é o papel: é o que a mãe leva na cabeça, e por isso a orientação sobre a curva de dias e os sinais de retorno faz parte da prescrição, escrita, e não do adeus na porta.

    Prescrição
    • Lavagem nasal: soro fisiológico 0,9%, 1 a 2 mL em cada narina, antes de cada mamada e sempre que o nariz obstruir
    • Aleitamento materno em livre demanda, em mamadas mais curtas e mais frequentes
    • Manter a criança longe de fumaça de cigarro; higiene de mãos de quem cuida
    • Retorno IMEDIATO se: respiração mais rápida ou mais difícil, afundamento embaixo das costelas, gemido, arroxeamento dos lábios, pausa na respiração, sonolência excessiva, recusa de mais da metade das mamadas ou ausência de urina por 6 a 12 horas
    • Reavaliação agendada em 24 a 48 horas, ou antes se houver qualquer sinal acima
    • NÃO prescrito, e por quê: broncodilatador, corticoide e antibiótico não alteram o curso da bronquiolite
  3. Primeira hora — o lactente que interna

    Apneia presenciada, hipoxemia persistente, esforço importante ou incapacidade de manter ingestão suficiente podem indicar internação. Prematuridade, idade baixa e comorbidades aumentam o risco e reduzem o limiar de observação, mas não são todos critérios automáticos isolados. No hospital, defina suporte respiratório, via de alimentação e intensidade de monitorização conforme a criança.

    Prescrição
    • Oxigênio por cateter nasal: iniciar com 1 L/min e titular ao MENOR fluxo que mantenha saturação ≥ 92%
    • Decúbito elevado a 30-45°, em posição supina; no colo dos pais sempre que possível
    • Lavagem nasal com soro fisiológico 0,9% antes das mamadas; aspiração apenas superficial e apenas se necessária
    • Sinais vitais e avaliação do esforço respiratório a cada 3 horas, com oximetria intermitente na mesma checagem
    • Precaução de contato e gotícula; higiene das mãos imediatamente antes e depois; desinfecção do estetoscópio entre pacientes
    • Peso diário e registro do volume aceito em cada mamada
  4. Primeiras horas — escolher a via de hidratação

    A hidratação é a segunda das duas coisas que mudam desfecho, e a escolha da via segue uma escada simples: use a mais simples que funcionar. Boca fracionada primeiro; se a criança não sustenta a sucção mas não está grave, sonda gástrica com o mesmo leite; veia só quando a via digestiva não serve — desconforto intenso, risco de aspiração, vômitos ou rebaixamento. Ensaio multicêntrico com lactentes internados não encontrou diferença entre sonda e veia nos desfechos que importam, e a sonda é mais acessível e menos invasiva. Se for veia, a solução é isotônica: soro hipotônico em criança com estímulo de hormônio antidiurético é receita de hiponatremia.

    Prescrição
    • 1ª escolha — via oral fracionada: mesmo leite, em tomadas menores e mais frequentes, sempre após lavagem nasal
    • 2ª escolha — sonda naso ou orogástrica: mesmo leite, mesmo volume diário, fracionado
    • 3ª escolha — hidratação venosa com solução ISOTÔNICA (soro fisiológico 0,9% ou Ringer lactato)
    • Cálculo do volume de manutenção (Holliday-Segar): 100 mL/kg/dia até 10 kg; + 50 mL/kg/dia de 10 a 20 kg; + 20 mL/kg/dia acima de 20 kg
    • Théo, 6 kg → 6 x 100 = 600 mL/24 h = 25 mL/h
    • Se desconforto respiratório importante ou terapia intensiva: reduzir para cerca de dois terços → 400 mL/24 h ≈ 17 mL/h
    • Sódio sérico em 24 h se a hidratação venosa for mantida; balanço hídrico e peso diários
  5. Primeiras 24 horas — vigiar, não acrescentar

    Compare esforço, ingestão, diurese, estado mental e necessidade de oxigênio ao longo do dia. O pico habitual da doença informa o planejamento, mas não explica sozinho uma deterioração. Se houver piora, reavalie gravidade, adequação do suporte e diagnósticos associados antes de decidir manter ou escalar o cuidado.

    Prescrição
    • Reavaliação estruturada a cada 3 horas: frequência respiratória, grau de tiragem, entrada de ar, saturação, aceitação alimentar, diurese, nível de consciência
    • Titular o oxigênio para baixo assim que a saturação sustentar o alvo — oxigênio a mais prolonga internação
    • Testar a reintrodução da via oral a cada turno se a criança estiver em sonda ou veia
    • Sem antibiótico, sem corticoide, sem broncodilatador de rotina, sem fisioterapia respiratória de rotina
  6. 48 a 72 horas — o pico, e quando escalar

    É aqui que a doença mostra a que veio, entre o terceiro e o quinto dia. A criança que estava em oxigênio de baixo fluxo pode precisar de mais: aumento da necessidade de oxigênio para manter o alvo, esforço que não cede, apneia, sinais de exaustão ou rebaixamento do sensório indicam escalonamento. A sequência habitual é cânula nasal de alto fluxo, depois pressão positiva contínua ou ventilação não invasiva, depois intubação — mas a decisão é clínica e nenhuma dessas etapas é obrigatória antes da seguinte se a criança estiver em falência franca. No lactente abaixo de 3 meses com disfunção respiratória moderada a intensa, a pressão positiva contínua por prongas nasais, com pressões entre 5 e 12 cmH2O, é a sugestão da fonte brasileira de terapia intensiva pediátrica, sobretudo quando a apneia domina o quadro.

    Prescrição
    • Gatilhos para escalar: necessidade crescente de oxigênio para manter o alvo; frequência respiratória em ascensão com esforço mantido; apneia; sensório alterado ou hipotonia; sinais de exaustão
    • Cânula nasal de alto fluxo com gás aquecido e umidificado — reavaliar objetivamente em 1 a 2 horas
    • CPAP nasal 5 a 12 cmH2O no lactente abaixo de 3 meses com disfunção moderada a intensa ou apneia de repetição
    • Ventilação não invasiva: tentar por 1 a 2 horas e julgar. Insucesso = agitação ou rebaixamento, fração inspirada de oxigênio acima de 40-45%, piora do padrão respiratório ou ausência de resposta em até 2 horas
    • Gasometria arterial e sódio APENAS neste cenário: criança grave, com esforço mantido sob suporte ou suspeita de retenção de gás carbônico
    • Intubação se insucesso da ventilação não invasiva ou insuficiência respiratória franca, independentemente da oferta de oxigênio
  7. Dia 4 em diante — desescalar e dar alta

    A alta combina estabilidade clínica, ausência de apneia relevante, alimentação suficiente, oxigenação adequada em ar ambiente e condições familiares de cuidado e retorno. O período de observação após suspensão do oxigênio depende do protocolo e do risco; deve incluir avaliação durante sono e alimentação. O percurso mais conservador deste caso não estabelece 24 horas como regra universal para toda bronquiolite.

    Prescrição
    • Após retirar oxigênio, observar estabilidade em ar ambiente conforme protocolo, idade e risco, incluindo sono. Neste percurso conserva-se a observação de 24 horas do caso hospitalizado; outras diretrizes admitem períodos menores em crianças selecionadas.
    • Retirar sonda e confirmar aceitação oral acima de 75% do volume habitual antes de liberar
    • Orientação escrita à família: curva de dias, sinais de retorno imediato, lavagem nasal, ambiente livre de fumaça
    • Reavaliação ambulatorial em 24 a 48 horas após a alta, sobretudo em lactente abaixo de 3 meses
    • Sem prescrição de alta com broncodilatador, corticoide, antibiótico, xarope para tosse ou mucolítico
  8. Em qualquer momento — a prescrição do que NÃO se faz

    Este marco não tem horário porque vale o tempo todo, e é o mais importante deste capítulo. Escrever no prontuário o que foi deliberadamente não prescrito, e por quê, transforma uma omissão aparente numa decisão clínica documentada — e é isso que impede que o plantonista das três da manhã, olhando um lactente que chia, comece do zero e prescreva tudo. Duas ressalvas honestas: a prova terapêutica com beta-2 e a nebulização com salina hipertônica são discutidas no bloco de divergências, porque as fontes brasileiras não fecham questão sobre elas; e nenhuma dessas drogas é proibida, elas apenas não fazem parte da prescrição padrão.

    Prescrição
    • Broncodilatador inalatório: não altera saturação, tempo de sintomas, tempo de internação nem taxa de admissão na bronquiolite
    • Corticoide oral, inalatório ou venoso: sem redução de internação ou de tempo de internação
    • Antibiótico: não muda dias de sintomas, tempo de internação nem necessidade de oxigênio — reservado a foco bacteriano identificado
    • Fisioterapia respiratória de rotina: sem benefício em tempo de internação, saturação ou parâmetros respiratórios; exceção é comorbidade que impeça a depuração de secreção
    • Radiografia de tórax de rotina: gera diagnóstico de consolidação onde há atelectasia e antibiótico onde há vírus
    • Painel viral de rotina, mucolítico, xarope de tosse, descongestionante nasal e antiviral: sem indicação
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Como saber se está funcionando

Bronquiolite exige cuidado ativo: manter oxigenação e alimentação, aliviar obstrução nasal quando interfere na mamada e reconhecer fadiga ou apneia. A reavaliação documentada mostra se o suporte está suficiente e se pode ser reduzido. Esforço, ingestão e comportamento devem acompanhar os números.

A frequência de avaliação depende de gravidade e risco. O intervalo programado para a criança estável não se aplica a deterioração ou escalonamento de suporte. Para quem vai para casa, combine retorno próximo quando necessário e acesso imediato se houver sinais de alerta. Tosse residual pode persistir; piora respiratória nunca deve ser normalizada apenas pela curva de dias.

Frequência respiratória e grau de tiragemA cada 3 horas no internado; na reavaliação de 24 a 48 horas em quem foi para casa

Esperado: Queda progressiva em relação ao número da admissão, com a criança tranquila, e regressão da tiragem de fúrcula para intercostal, e desta para subcostal. Depois do pico, a curva desce.

Se não melhora: Antes do pico, frequência estável com criança ativa e mamando é evolução esperada — reavalie de novo, não acrescente droga. Depois do quinto dia, frequência que não cai ou que sobe obriga a reexaminar o tórax procurando assimetria, a repensar o diagnóstico (corpo estranho, cardiopatia, coqueluche) e a considerar complicação. Aumento do esforço com queda da entrada de ar é escalonamento, não observação.

Saturação de oxigênioMedida intermitente junto com os sinais vitais na fase aguda; contínua apenas na criança grave ou sob suporte

Esperado: Sustentar 92% ou mais com fluxo de oxigênio cada vez menor, até ar ambiente. A retirada do oxigênio é uma meta ativa a cada turno, não um acontecimento.

Se não melhora: Necessidade crescente de oxigênio para manter o mesmo alvo é o sinal objetivo mais confiável de piora e um gatilho de escalonamento. Se o número não bate com a criança — saturação baixa em bebê confortável, rosado e mamando —, refaça a medida antes de mudar a conduta: sensor mal posicionado e criança agitada produzem número falso.

Aceitação alimentar e diureseA cada mamada no internado; perguntado explicitamente e quantificado na reavaliação ambulatorial

Esperado: Retorno progressivo ao volume habitual — de aceitar pouco para aceitar mais de três quartos do que mamava antes de adoecer — e fraldas molhando na frequência de sempre.

Se não melhora: Ingesta abaixo de 50% a 75% do habitual ou ausência de diurese por 6 a 12 horas muda o destino: quem estava em casa interna, quem estava mamando ganha sonda, quem está em sonda e vomita ganha veia. Desidratação em bronquiolite é falha de vigilância, não fatalidade da doença.

ApneiaMonitorização contínua em todo lactente abaixo de 3 meses internado e em prematuro, durante toda a fase aguda

Esperado: Ausência de novas pausas. Em quem já apresentou, espaçamento e desaparecimento ao longo das primeiras 48 a 72 horas.

Se não melhora: Apneia de repetição é indicação de terapia intensiva e de suporte pressórico, independentemente de quão bem a criança pareça entre os episódios — nessa faixa etária a apneia não guarda relação com o grau de disfunção respiratória aparente nem com a gasometria.

Nível de consciência e sinais de exaustãoEm toda reavaliação, e é o parâmetro que interrompe qualquer outro raciocínio

Esperado: Criança alerta, que interage, chora com o exame e se acalma no colo. Irritabilidade que cede ao colo é diferente de irritabilidade que não cede.

Se não melhora: Sonolência que não é do horário, hipotonia, criança que só acorda com estímulo prolongado, respiração paradoxal (o abdome sobe enquanto o tórax afunda), queda da frequência respiratória com esforço mantido e tórax que silencia são sinais de exaustão. Nenhum deles é para observar mais uma hora: são para chamar ajuda, escalar suporte e preparar via aérea.

Posição na curva de diasEm toda decisão de alta e em toda conversa com a família

Esperado: Que a criança e a família saibam em que dia de doença estão. Quem está no segundo dia ainda vai piorar; quem está no sexto e estável tende a melhorar.

Se não melhora: Quadro que não começa a ceder depois do sétimo dia, ou que piora depois de ter melhorado, sai do roteiro da bronquiolite e exige reavaliação diagnóstica — coinfecção bacteriana, otite, atelectasia extensa, ou o diagnóstico estava errado desde o começo.

FebreEm toda reavaliação, com atenção especial ao padrão e ao dia em que aparece

Esperado: Febre baixa nos primeiros dias, cedendo junto com o quadro. Ausência de febre também é normal.

Se não melhora: Febre alta e sustentada, ou febre nova depois do quinto dia e depois de melhora, procura outro foco: otite média, pneumonia bacteriana sobreposta, infecção urinária no lactente pequeno. Nesse cenário o exame dirigido passa a ter indicação — e é diferente de pedir exame de rotina no primeiro dia.

Sódio sérico, na criança em hidratação venosaQuando houver indicação de hidratação venosa, avaliar exames iniciais pertinentes e monitorar conforme evolução, composição dos líquidos e risco; alteração neurológica exige revisão imediata.

Esperado: Sódio estável dentro da faixa normal, com balanço hídrico próximo do neutro e peso sem ganho abrupto.

Se não melhora: Queda do sódio com ganho de peso e edema aponta retenção de água livre por secreção inapropriada de hormônio antidiurético: revise a solução (tem de ser isotônica) e reduza o volume. Convulsão em lactente com bronquiolite em soro é hiponatremia até prova em contrário.

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Onde o erro machuca

Prescrever antibiótico "por precaução" — pela febre, pelo laudo da radiografia ou pela pressão da família

O dano: A criança ganha os efeitos adversos (diarreia, alergia, custo) sem nenhum benefício, porque a doença é viral; a família aprende que chiado se trata com antibiótico e vai exigir o mesmo erro na próxima; e, no plano coletivo, cada curso desnecessário seleciona resistência. O gatilho clássico é a radiografia mal indicada: atelectasia viral laudada como consolidação vira sete dias de amoxicilina para uma doença que não é bacteriana.

Como pegar a tempo: Antibiótico em bronquiolite exige um foco bacteriano identificado e nomeado no prontuário — otite média aguda, pneumonia bacteriana com quadro clínico compatível, infecção urinária no lactente febril pequeno. "Pode ser que tenha algo" não é foco. Se você não consegue escrever qual é a infecção bacteriana que está tratando, não há infecção bacteriana para tratar.

Manter broncodilatador porque "pareceu melhorar" na primeira inalação

O dano: A melhora percebida é o curso flutuante da doença somado ao efeito do soro e da aspiração que vieram junto — e a criança fica presa a nebulizações de 4 em 4 horas que não mudam desfecho, atrasam mamadas, irritam o lactente, taquicardizam e ocupam a equipe. O tempo de equipe gasto nebulizando é tempo não gasto reavaliando, que é o que de fato salva.

Como pegar a tempo: Não iniciar de rotina. Se uma prova terapêutica for feita no cenário em que ela é defensável (ver divergências), defina antes o parâmetro objetivo e o prazo: reavaliação estruturada em 30 a 60 minutos com escore ou exame documentado. Sem melhora objetiva, suspende — e escreve no prontuário que foi testado e suspenso, para o próximo plantão não recomeçar o ciclo.

Corticoide para "desinflamar o peito"

O dano: Sem efeito na taxa de internação nem no tempo de internação na bronquiolite — e no lactente pequeno o uso é ainda mais criterioso. A criança ganha hiperglicemia, irritabilidade e, no uso repetido, os efeitos cumulativos, por uma inflamação que o corticoide não alcança: o problema é entulho de muco e epitélio necrosado, não broncoespasmo eosinofílico.

Como pegar a tempo: Reservar corticoide para o quadro em que ele tem alvo: sibilância recorrente com perfil de asma do lactente maior. Na primeira crise de chiado do lactente jovem em plena estação viral, corticoide não entra. Se a dúvida entre bronquiolite e asma do lactente é real, ela se resolve pela história (número de episódios, atopia), não pela prescrição de segurança.

Pedir radiografia de tórax de rotina

O dano: O dano não é a radiação isolada — é a cascata. A bronquiolite produz atelectasias que no filme parecem consolidação; o laudo vira antibiótico; o transporte até a sala de raio-X descompensa o lactente hipoxêmico e adia a conduta que funciona. Exame que não responde pergunta gera resposta que ninguém sabe interpretar.

Como pegar a tempo: Formule a pergunta antes de pedir o exame. "Suspeito de pneumotórax", "assimetria persistente, quero excluir corpo estranho", "piora depois de melhora, procuro complicação" são perguntas. "Vamos ver como está o pulmão" não é. Sem pergunta, sem radiografia.

Dar alta no segundo dia de sintomas sem avisar da curva — ou justamente no pico

O dano: A criança que hoje está "boa" no segundo dia de doença ainda vai piorar até o terceiro a quinto dia: é a história natural. A família que não foi avisada volta apavorada de madrugada (e perde a confiança), ou — pior — não volta, porque "o médico disse que era leve", e a criança se apresenta tarde, já exausta. A alta dada no pico, por sua vez, devolve para casa uma criança que ainda vai passar a noite mais difícil da doença.

Como pegar a tempo: Explique que a intensidade pode aumentar nos primeiros dias, mas que respiração mais difícil, pausas, coloração arroxeada, ingestão muito reduzida e queda de diurese exigem avaliação. Não use a expressão piora esperada para tranquilizar diante de deterioração. Combine quando e onde retornar.

Decidir o destino sem observar uma mamada

O dano: A saturação de momento e a ausculta enganam nos dois sentidos; a mamada é o teste de esforço do lactente. Quem manda para casa um bebê que larga o peito ofegante aos vinte segundos mandou para casa uma desidratação em curso com hospital marcado para amanhã — só que mais grave.

Como pegar a tempo: Antes de qualquer alta de lactente com desconforto respiratório, observe uma mamada inteira (ou uma oferta de mamadeira) e registre: tempo de sucção sustentada, pausas, sudorese, cianose perioral, quanto aceitou. Dois minutos de observação valem mais que qualquer exame disponível no plantão.

Alvo de saturação alto demais, oximetria contínua em criança estável e oxigênio que ninguém desmama

O dano: Cada ponto percentual de alvo acima do necessário compra dias de internação sem benefício: a criança fica presa ao cateter "porque satura 93%", o monitor contínuo registra dessaturações fisiológicas do sono que reamarram o oxigênio, e o leito que seria de outro lactente fica ocupado. Internação prolongada também é dano — de infecção hospitalar a desmame do aleitamento.

Como pegar a tempo: Documente alvo e critérios de retirada do oxigênio. Interprete dessaturação com duração, qualidade do sinal, idade, apneia e exame; reduza suporte quando seguro e observe inclusive durante sono. O período para alta é definido pelo protocolo e pelo risco, não por reinício automático do relógio a cada oscilação.

Aspirar demais — sonda funda, várias vezes ao dia, "para limpar"

O dano: A aspiração profunda e repetida irrita e edemacia a mucosa que já está inflamada, piora a obstrução nasal de rebote e associou-se a maior tempo de internação em estudos observacionais. O gesto que parecia cuidado vira mais um dia de hospital.

Como pegar a tempo: Lavagem nasal com soro antes das mamadas é a rotina; aspiração é superficial, suave e apenas quando a secreção visível está atrapalhando — tipicamente antes de mamar. Aspiração de vias aéreas não é horário de prescrição, é resposta a uma necessidade observada.

Desvalorizar o relato de pausa respiratória porque a criança "está bem agora"

O dano: No lactente abaixo de 3 meses a apneia decorre de fadiga e não guarda relação com o aspecto da criança entre os episódios nem com a gasometria. O bebê que fez pausa em casa e foi liberado porque o exame estava bom pode fazer a próxima pausa no berço, sem monitor e sem ninguém olhando.

Como pegar a tempo: Pergunte ativamente por pausa, engasgo e mudança de cor em toda consulta de lactente com quadro respiratório — a mãe pode não contar espontaneamente porque "foi rapidinho". Relato crível de apneia em menor de 3 meses interna e monitoriza, com o exame que estiver.

Hidratar com soro hipotônico, ou com volume de manutenção cheio, a criança grave

O dano: A bronquiolite grave cursa com secreção inapropriada de hormônio antidiurético: o rim retém água livre. Soro hipotônico nesse terreno derruba o sódio — e a apresentação da hiponatremia aguda no lactente é convulsão. Volume generoso, mesmo isotônico, congestiona um pulmão que já trabalha no limite.

Como pegar a tempo: Usar via venosa quando a via digestiva não é segura ou suficiente, com composição e volume individualizados. Se precisar de hidratação intravenosa, avaliar eletrólitos e glicemia inicialmente e repetir conforme evolução; acompanhar peso, balanço e diurese. Restrição de volume não é um percentual automático para toda criança. Recuperar a via digestiva assim que possível.

Fisioterapia respiratória de rotina no internado

O dano: Sem benefício demonstrado em tempo de internação, saturação ou parâmetros respiratórios na bronquiolite não complicada — e cada sessão custa manipulação de um lactente hipoxêmico que chora, gasta reserva e dessatura durante o procedimento. Prescrever "fisioterapia de horário" vira rotina invisível que ninguém questiona.

Como pegar a tempo: Não prescrever de rotina. A exceção tem nome: comorbidade que comprometa a depuração de secreção — doença neuromuscular, por exemplo. Aí a fisioterapia tem alvo e indicação individual, escrita.

Tratar o número do oxímetro em vez da criança

O dano: Nos dois sentidos. O falso-baixo (sensor frouxo, pé frio, criança se debatendo) interna e liga oxigênio em quem não precisa. E a confiança cega no falso-normal solta quem está exaurindo: a criança em fadiga pode sustentar saturação aceitável até muito perto da falência — o tórax silencioso, a bradipneia e a hipotonia chegam antes do número cair.

Como pegar a tempo: Toda leitura discordante do exame se repete com sensor bem posicionado e curva limpa antes de mudar conduta. E a avaliação de gravidade nunca é o número sozinho: é número + esforço + entrada de ar + sensório + mamada. O oxímetro participa da decisão; não decide.

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O que dizer ao paciente e à família

Se este capítulo tem um procedimento técnico central, é este bloco. A conduta da bronquiolite morre ou sobrevive na conversa: uma mãe que sai da consulta ouvindo "não vão fazer nada pelo meu filho" compra o antibiótico na farmácia da esquina, procura outro pronto-socorro no mesmo dia até alguém nebulizar, ou — o desfecho mais perigoso — não volta quando a piora de verdade chegar, porque perdeu a confiança em quem a atendeu.

Três regras antes das frases. Primeira: nomeie a doença e nomeie o plano. "É virose, vai passar" soa como descaso; "é bronquiolite, e o tratamento dela é este" soa como o que é — uma conduta. A palavra "tratamento" precisa aparecer aplicada ao que você vai fazer: lavar o nariz, fracionar as mamadas, vigiar os sinais, reavaliar. O plano de observação é o tratamento, e a família só acredita nisso se você disser com essas palavras.

Segunda: substitua toda palavra técnica pelo corpo. "Tiragem" não existe fora do hospital; "a pele afundando embaixo das costelinhas" existe em qualquer casa. "Taquipneia" é "respirando rápido demais, mais rápido do que agora". "Apneia" é "pausa na respiração, uns segundos sem respirar". "Saturação" nem entra na conversa — entra "a cor dos lábios".

Terceira: peça que ela repita o plano e os sinais de volta. Não como prova — como conferência da sua explicação. Se ela repete errado, quem falhou foi quem explicou. E entregue por escrito: às três da manhã, com a criança chiando, ninguém lembra do que ouviu; lê-se o papel.

Anunciar o diagnóstico e o plano — a conversa que define todas as outras

O Théo está com bronquiolite. É uma infecção por vírus que dá nos bebês pequenos e ataca os canais mais fininhos do pulmão — por isso o chiado e o cansaço para mamar. Eu sei que a senhora veio esperando um remédio, então quero explicar uma coisa importante: para esse vírus, remédio nenhum encurta a doença — nem antibiótico, nem corticoide, nem bombinha. O que existe de tratamento, e funciona, é o que vamos fazer: lavar bem o narizinho com soro antes de cada mamada, oferecer o peito mais vezes em mamadas menores, e vigiar os sinais que eu vou te ensinar agora e deixar escritos. E tem uma coisa que eu preciso que a senhora saiba desde já: ele ainda vai piorar um pouco antes de melhorar. O pior dia costuma ser entre o terceiro e o quinto — piorar um pouco nesses dias é esperado, não é sinal de que o tratamento falhou.

Não diga: "É só uma virose, não precisa de remédio, pode ir para casa." A frase é tecnicamente verdadeira e destrói a consulta: a mãe ouve descaso, procura outro serviço e outro prescritor.

Quando a mãe insiste: "mas o senhor não vai passar nada, doutor?"

Vou passar, sim — vou te entregar por escrito o tratamento dele: o soro no nariz antes das mamadas, o jeito de dar de mamar, os sinais de voltar correndo e a consulta de reavaliação marcada. O que eu não vou dar é remédio que não funciona para essa doença. Não é economia e não é descuido: bombinha, corticoide e antibiótico já foram muito estudados na bronquiolite, e não encurtam a doença nem evitam internação — só dão efeito colateral num bebê desse tamanho. Se o Théo tivesse outra doença, em que esses remédios ajudassem, eu prescreveria hoje. Prescrever o que não funciona só ia atrapalhar a gente de ver o que importa, que é como ele respira e como ele mama.

Não diga: Ceder "um xaropinho para não sair de mãos vazias". A prescrição-placebo ensina que chiado se trata com remédio, medicaliza as próximas viroses da vida dessa criança e mina a sua própria orientação.

Ensinar os sinais de retorno imediato — a parte que salva vidas

Agora a parte mais importante da consulta. Piora esperada é ele ficar mais cansadinho, mais chiado, com o nariz mais entupido — isso trata com soro e mamada e a gente vê na reavaliação. Piora de voltar na hora, de dia ou de madrugada, são estes cinco sinais: a pele afundando embaixo das costelinhas quando ele puxa o ar; ele gemendo para respirar; os lábios ou a pontinha da língua arroxeados; ele parando de respirar por alguns segundos, mesmo que "volte sozinho"; e ele recusando mamar — menos da metade do normal — ou ficando seis horas ou mais sem fazer xixi. Qualquer um desses, um só, a senhora não espera a consulta: volta na emergência na hora. Me repete quais são, para eu ter certeza de que expliquei direito?

Não diga: "Qualquer coisa, volta." O "qualquer coisa" não filtra nada: a família volta pela febre baixa e não volta pela pausa respiratória, porque ninguém disse que pausa era grave.

Explicar por que não vai fazer radiografia nem "exame para ver o que é"

A senhora pode estranhar eu não pedir raio-X nem exame de sangue. É porque essa doença a gente diagnostica olhando: o jeito que ele respira, o chiado, a idade, a época do ano. O raio-X aqui mais atrapalha do que ajuda — o vírus entope pedacinhos do pulmão e isso aparece na chapa parecendo pneumonia sem ser, e aí o bebê acaba tomando antibiótico de que não precisa. Se ele piorar de um jeito que fuja do esperado, aí sim o exame passa a ajudar, e a gente pede na hora.

Não diga: "Não precisa de exame." Sem o porquê, vira desleixo aos olhos de quem já foi a três serviços. Com o porquê — o exame confunde e gera remédio errado — vira zelo.

Avisar da internação sem transformá-la em catástrofe

O Théo vai precisar ficar internado. Não é porque apareceu doença nova — é a mesma bronquiolite, só que ele está precisando de uma ajuda que em casa não tem: um oxigênio para folgar a respiração enquanto o corpo vence o vírus, e às vezes uma sondinha, um tubinho fininho pelo nariz até o estômago, para o leite chegar sem ele gastar força mamando. Isso é muito comum nessa doença, a maioria fica poucos dias e sai bem. A senhora fica com ele o tempo todo, e o peito continua — o seu leite é parte do tratamento.

Não diga: "Ele está grave." Se está, a conversa é outra e honesta; se não está, a palavra fabrica um trauma e uma desconfiança que atrapalham tudo — inclusive as próximas decisões.

No hospital, quando a família pergunta por que não estão fazendo inalação e o vizinho de leito faz

Justo a senhora perguntar. Cada criança aqui tem uma doença diferente com nome parecido — chiado tem muitas causas. O menino do lado tem crise de asma, e para asma a bombinha funciona, porque o problema dele é o músculo do canal apertado, e a bombinha relaxa esse músculo. No Théo o problema é outro: os canais estão entupidos de secreção por dentro, e não existe bombinha que desentupa — já testaram muito, não encurta a doença. O que desentope é o tempo, com o oxigênio ajudando enquanto isso. Se a gente fizesse a inalação, ele ia chorar, gastar energia e não ia melhorar nada.

Não diga: "Cada médico tem sua conduta." A frase relativiza o que tem evidência firme e deixa a família achando que o filho dela é que teve azar no plantonista.

A alta hospitalar — e a tosse que vai continuar

Ele venceu a pior parte e vai para casa. Duas coisas para a senhora já esperar, para não se assustar. A tosse vai continuar — duas semanas, às vezes até mais — e isso não é doença voltando: é o pulmão trocando o forro que o vírus machucou. Tosse com bebê mamando bem, brincando e respirando tranquilo é tosse de cicatrização, e xarope não ajuda nem deve ser dado. E o nariz ainda vai entupir: o soro continua antes das mamadas. Voltar antes da consulta só se voltarem aqueles sinais da lista — que continuam valendo e vão por escrito de novo.

Não diga: Prometer que "agora acabou". A tosse residual vai existir; prometida a cura completa, cada acesso de tosse vira uma volta à emergência ou — pior — a sensação de que a alta foi errada.

Quando a criança é elegível e não recebeu imunoprofilaxia — sem culpar ninguém

Uma coisa para o futuro, e quero que a senhora ouça sem culpa nenhuma, porque isso é novo e quase ninguém ficou sabendo: bebês que nasceram prematuros, como o Théo, têm direito pelo SUS a uma injeção que protege contra esse vírus — uma dose só, de anticorpo pronto. Não é vacina, é o anticorpo já montado. Para ele, nesta doença, agora já não muda — mas se a senhora tiver outro bebê, ou conhecer alguém com bebê prematuro, essa injeção na maternidade evita internação por bronquiolite. Vou anotar isso no papel da alta também.

Não diga: "Se ele tivesse tomado o anticorpo não estaria aqui." É inverificável no caso individual e só fabrica culpa numa mãe que não foi informada.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual o alvo de saturação: 90%, 92% ou mais?

Limiar de 90% — corpo norte-americano, registrado pela diretriz brasileira

A diretriz da Academia Americana de Pediatria adota o início de oxigênio quando a saturação cai abaixo de 90% na criança sem acidose, aceitando saturações de 90% a 92% sem suplementação quando não há esforço importante nem idade abaixo de 3 meses. O argumento é duplo: nessa faixa da curva da hemoglobina o conteúdo arterial de oxigênio ainda é adequado, e alvos mais altos comprovadamente prolongam internação sem ganho clínico.

AAP, Clinical Practice Guideline: Bronchiolitis, 2014, conforme registrado nas Diretrizes para o manejo da infecção causada pelo VSR — SBP, 2017 (Quadro 2).

NICE atual e percurso hospitalar adotado no caso

A NICE diferencia finalidade e risco: mantém 92% na avaliação para encaminhamento e utiliza, no hospital, 90% a partir de seis semanas em crianças sem condições subjacentes, e 92% abaixo de seis semanas ou com essas condições. O protocolo hospitalar brasileiro usado neste caso conserva 92% e observação mais longa. Não são limites intercambiáveis sem considerar população, finalidade e estabilidade.

NICE NG9, recomendações atualizadas de oxigênio e alta; Protocolo IMIP de bronquiolite, 2024, usado no percurso hospitalar do caso.

Limiar intermediário e condicional — o quadro da própria diretriz brasileira

O quadro de recomendações da diretriz brasileira do VSR marca o oxigênio como "considerar": não recomendado com saturação acima de 90% sem acidose, e indicado na faixa de 90% a 92% quando há esforço respiratório ou idade abaixo de 3 meses. Ou seja, a posição nacional não é um número seco — é um número condicionado ao exame, mais conservador no lactente jovem.

Diretrizes para o manejo da infecção causada pelo VSR — SBP, 2017, Quadro 2 (recomendações de tratamento por intervenção).

Como decidir

Escreva o alvo e o protocolo utilizado, considerando idade, comorbidades e qualidade da medida. Neste caso hospitalizado conserva-se o alvo de 92% e a observação de 24 horas em ar ambiente. Isso não torna esses dois números universais. Protocolos que admitem 90% em crianças selecionadas exigem igualmente estabilidade, alimentação, avaliação durante sono e possibilidade de retorno. Não mude o alvo apenas para antecipar a alta; retire oxigênio quando a criança sustenta com segurança o alvo definido.

Salina hipertônica a 3% nebulizada: usar ou abandonar?

Considerar no internado — leitura registrada na diretriz brasileira

A revisão de 2015, com 24 ensaios e 3.209 pacientes, encontrou redução de 0,45 dia de internação e, em sete estudos ambulatoriais, queda de 20% no risco de admissão frente à salina a 0,9%. O racional fisiopatológico é coerente com a doença: a solução hipertônica puxa água para a superfície da via aérea, hidrata o muco e melhora a depuração de um problema que é, literalmente, entulho. O quadro da diretriz brasileira marca "considerar", sobretudo no internado por mais de 3 dias, citando a recomendação do consenso italiano; e o protocolo hospitalar do IMIP a incorpora nas etapas de UTI, 2 a 4 mL a cada 6 a 8 horas.

Diretrizes SBP/VSR 2017 (Quadro 2, item salina hipertônica); Protocolo IMIP 2024 (fluxograma de UTI).

Sem efeito confirmado — a reanálise que corrigiu a heterogeneidade

As metanálises favoráveis misturavam estudos muito diferentes entre si. A reavaliação de 2016, excluídos os estudos responsáveis pela heterogeneidade, analisou 18 ensaios com 2.063 lactentes e não confirmou redução do tempo de internação. A própria diretriz brasileira, depois de apresentar os dados favoráveis, conclui que o papel da salina hipertônica no tratamento da bronquiolite ainda precisa ser definido — e nebulizar de 6 em 6 horas um lactente que chora no procedimento não é intervenção gratuita.

Reanálise de 2016 descrita nas Diretrizes SBP/VSR 2017, seção de solução salina hipertônica.

Como decidir

É a divergência de menor consequência do capítulo: o efeito, se existe, é pequeno (fração de dia de internação), e o risco também. Três perguntas resolvem. A criança está internada com evolução arrastada, já em suporte, num serviço cujo protocolo prevê a salina? Usar dentro do protocolo é defensável. A criança está no ambulatório ou vai de alta? Não há o que considerar — o desfecho que a salina talvez mude é tempo de internação. O procedimento agita a criança a ponto de custar mais do que o ganho plausível? Suspenda sem culpa. O que não é defensável é a salina virar veículo de broncodilatador "para aproveitar a nebulização" — aí não é salina que se está prescrevendo.

Prova terapêutica com broncodilatador: existe espaço ou é porta de entrada para o erro?

Sem broncodilatador, nem como teste — corpos internacionais registrados pela diretriz brasileira

Os guidelines dos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá não recomendam broncodilatador na bronquiolite, incluindo a dose de teste: a revisão com 30 estudos e 1.192 lactentes não mostrou efeito em saturação, tempo de sintomas, tempo de internação ou taxa de admissão, e a resposta percebida à prova é indistinguível da flutuação natural da doença — vira falso-positivo que perpetua a droga.

Recomendações da AAP 2014, NICE e sociedade canadense, conforme registradas nas Diretrizes SBP/VSR 2017.

Teste admitido em cenários selecionados — as fontes brasileiras

A diretriz brasileira do VSR registra que o uso conforme resposta clínica pode eventualmente ser considerado, mantido somente se houver evidência de melhora imediata. O manual nacional de atenção integrada, que classifica a criança com sibilância antes de rotular a causa, trata a crise moderada com beta-2 inalatório em até três ciclos e reavaliação — desenho pensado para não perder a asma do lactente que se apresenta como primeiro chiado. E o protocolo do IMIP admite o teste terapêutico na UTI, restrito aos maiores de 1 ano. O fio comum das três fontes: o teste serve à dúvida diagnóstica com sibilância recorrente/asma, nunca à bronquiolite típica.

Diretrizes SBP/VSR 2017 (seção broncodilatadores); Manual AIDPI Criança — MS/OPAS, 2016 (quadro de sibilância e seção 2.4); Protocolo IMIP 2024 (etapas 3 e 4, maiores de 1 ano).

Como decidir

Decida pela probabilidade pré-teste de asma, não pela vontade de fazer algo. No lactente jovem, primeiro episódio, pródromo viral, estação do VSR: não teste — a probabilidade de doença responsiva a beta-2 é baixa demais para o teste informar qualquer coisa, e o custo real é o falso-positivo que deixa a criança nebulizando por dias. No maior de 12 meses, ou com episódios prévios, ou com atopia pessoal/familiar forte, a dúvida bronquiolite × asma do lactente é legítima e o teste tem valor — desde que com regra escrita antes: parâmetro objetivo (escore, frequência respiratória, entrada de ar), reavaliação em 30 a 60 minutos, e suspensão documentada se não houver melhora inequívoca. A frase do prontuário que resolve a divergência é: "prova terapêutica realizada por [motivo]; reavaliação às [hora]; sem resposta objetiva — suspensa". Se você não está disposto a escrever a segunda metade, não comece a primeira.

Cânula nasal de alto fluxo: escalar cedo ou reservar para quem falha no baixo fluxo?

Uso precoce na moderada — posição registrada a partir do corpo britânico e adotada em protocolos assistenciais

A diretriz brasileira registra que, entre os corpos internacionais, o consenso do Reino Unido recomenda a cânula de alto fluxo, e os estudos observacionais mostram melhora de parâmetros respiratórios e menores taxas de intubação. Protocolos assistenciais brasileiros a posicionam como modalidade de oxigenoterapia disponível já na criança moderada, pelo racional fisiológico: lavagem de espaço morto, gás aquecido e umidificado, algum suporte de pressão — conforto que poupa trabalho respiratório num paciente cuja ameaça é a fadiga.

Diretrizes SBP/VSR 2017 (Quadro 2, item cânula nasal de alto fluxo); Protocolo IMIP 2024 (quadro de modalidades de oxigenoterapia).

Reservar ao escalonamento — a leitura cética da mesma diretriz

A mesma diretriz brasileira pondera: a evidência é observacional, o ensaio randomizado disponível não mostrou superioridade sobre comparador em escore, tempo de internação ou admissão em UTI, a técnica não foi superior ao CPAP, tem custo alto e — o alerta clínico central — permite deterioração rápida se o paciente não estiver monitorizado, porque o conforto aparente mascara a piora. Nessa leitura, o alto fluxo é ferramenta de resgate para quem não sustenta o alvo em baixo fluxo, em ambiente com monitorização, e não etapa automática.

Diretrizes SBP/VSR 2017, seção cânula nasal de alto fluxo.

Como decidir

A pergunta decisiva não é "o alto fluxo ajuda?" — é "onde esta criança vai estar e quem vai olhar para ela na próxima hora?". Alto fluxo precoce em unidade com monitorização e equipe treinada é defensável e conforta; alto fluxo iniciado na enfermaria comum, sem oximetria contínua nem reavaliação estruturada, é o cenário do desastre descrito pela própria diretriz — a criança "confortável" que exauriu sem ninguém ver. Regra prática: baixo fluxo é o padrão de quem só precisa de oxigênio; alto fluxo entra quando o baixo fluxo não sustenta o alvo ou o esforço não cede, sempre com reavaliação objetiva em 1 a 2 horas e critério de falha escrito (necessidade de fração inspirada crescente, esforço mantido, apneia, sensório). Se instituiu e em 2 horas não há resposta objetiva, o próximo passo é pressão positiva em ambiente intensivo — não é aumentar o fluxo e esperar mais 6 horas.

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O raciocínio, em voz alta

Alice, 2 meses, 4,8 kg, nascida de 31 semanas, trazida à emergência em julho, em Curitiba. Coriza há três dias, hoje "cansada e chiando". A mãe conta, de passagem, que de manhã a bebê "ficou uns segundos sem respirar e meio roxinha, mas voltou sozinha e ficou bem". Ao exame: alerta, frequência respiratória de 58, tiragem subcostal, sibilos e estertores finos difusos, saturação 93% em ar ambiente, temperatura 37,5 °C. Mamou pouco desde ontem; a última fralda molhada foi há 4 horas.

  1. o que penso agora

    Lactente de 2 meses, ex-prematura de 31 semanas, pródromo de vias aéreas superiores seguido de desconforto e sibilância difusa, em plena estação do VSR no Sul: bronquiolite viral aguda, primeira hipótese com folga. Mas dois dados desta história pesam mais que todo o exame: a idade somada à prematuridade, e o relato da pausa com cianose. Antes de qualquer conduta, preciso qualificar esse relato.

  2. o que pergunto

    Peço à mãe que descreva a pausa: quanto tempo, o que a bebê estava fazendo, precisou de estímulo? Ela conta que foram "uns dez segundos", no berço, e que ficou roxa em volta da boca; sacudiu de leve e a respiração voltou. Pergunto também sobre o nascimento: 31 semanas, ficou 3 semanas na UTI neonatal, sem oxigênio em casa. Não recebeu imunoprofilaxia contra o VSR — não sabia que existia.

  3. como isso muda o que penso

    O relato é de apneia com cianose em lactente jovem ex-prematura. A aparência atual não exclui recorrência nem neutraliza esse sinal de alerta. A criança precisa de internação e monitorização; o exame e a evolução definirão enfermaria monitorizada ou terapia intensiva. Avaliar outras causas permanece necessário se a história ou os achados não forem típicos.

  4. o que faço na primeira hora

    Lavagem nasal e reavaliação: a frequência cai para 52, a tiragem persiste. Observo a mamada: sustenta a sucção por menos de um minuto, larga ofegante, aceita talvez um terço do habitual. Saturação oscilando entre 92% e 94% acordada. Sem gemido, sem batimento de asa, entrada de ar razoável, alerta. Classifico como moderada — mas moderada num corpo de 2 meses ex-prematuro com apneia relatada, o que na prática é outra categoria de vigilância.

  5. o que prescrevo — e o que deliberadamente não prescrevo

    Internação com monitorização cardiorrespiratória contínua e oximetria — pela apneia, não pela saturação. Decúbito elevado, lavagem nasal antes das mamadas, aspiração superficial só se necessária. Alimentação: pelo esforço à mamada e aceitação de um terço, sonda gástrica com leite materno ordenhado, fracionado — a veia fica reservada. Oxigênio ainda não: está sustentando 92% ou mais; deixo o alvo escrito (iniciar se persistentemente abaixo de 92%). Precaução de contato e gotícula. E escrevo no prontuário: sem broncodilatador, sem corticoide, sem antibiótico, sem radiografia — bronquiolite típica, sem foco bacteriano, imagem sem pergunta a responder.

  6. o que aviso à equipe e à mãe

    À enfermagem: reavaliação com escore a cada 3 horas, e chamar imediatamente se nova pausa, queda sustentada da saturação, gemido ou piora do esforço — e anotar cada episódio de apneia com duração e contexto. À mãe, as três frases que organizam a internação: o tratamento é oxigênio se precisar, leite pela sondinha enquanto ela se cansa mamando, e vigilância; ela ainda pode piorar até o quinto dia, e é exatamente para isso que está internada; e o monitor está aí porque bebês tão novinhos podem fazer pausas na respiração, e aqui qualquer pausa é vista na hora.

  7. 48 horas depois — a prova da curva

    No terceiro dia Alice apresenta piora: frequência de 64, tiragem mais profunda e saturação de 89–90% sustentada. A cronologia é compatível com bronquiolite, mas não dispensa resposta clínica. Inicia-se oxigênio por cateter a 0,5–1 L/min, titulado ao alvo de 92% deste percurso. Duas novas apneias com dessaturação motivam avaliação imediata e discussão com terapia intensiva; o suporte é escolhido conforme apneias, ventilação, fadiga e resposta. No caso, a equipe indica CPAP nasal a 6 cmH2O sob monitorização. No sexto dia está em ar ambiente, sem pausas há 48 horas e mamando mais de três quartos do habitual. A alta ocorre no sétimo dia após confirmar estabilidade, sono, alimentação, orientação e retorno. A prevenção futura e a elegibilidade da própria criança às estratégias disponíveis são conferidas na caderneta e no serviço responsável.

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Faça você

Davi, 8 meses, 8,5 kg, nascido a termo, sem comorbidades. Atendido ontem em UPA de Goiânia, em abril: coriza há dois dias, chiado desde ontem, primeira vez. Ontem: frequência respiratória 48, sem tiragem, saturação 96%, mamando bem. Saiu com orientação de lavagem nasal, sinais de alerta e reavaliação marcada. Hoje, terceiro dia de doença, a mãe volta antes da hora: "ele piorou, está respirando mais rápido e mamou mal a noite toda". Ao exame: alerta, choroso, se acalma no colo; frequência respiratória 56, tiragem subcostal discreta, sibilos difusos, saturação 94% em ar ambiente. Aceitou cerca de 60% das mamadas nas últimas 12 horas; fralda molhada há 2 horas. A mãe pergunta, aflita, se "agora vai precisar de antibiótico, porque piorou mesmo tomando o soro".

  1. onde ele está na curva, e o que isso significa

    Terceiro dia de doença: exatamente o pico esperado da bronquiolite, que piora até o terceiro a quinto dia antes de melhorar. A piora que a mãe descreve — mais taquipneia, mamada pior — é a evolução natural da doença, não falha da conduta de ontem nem sinal de infecção bacteriana sobreposta: não há febre alta sustentada, não há prostração, não há achado focal.

  2. o que examino antes de decidir

    Repito a sequência completa: frequência respiratória num minuto inteiro com ele calmo (56, com tiragem subcostal apenas), saturação com curva confiável (94%), e — o dado que decide — observo uma mamada depois da lavagem nasal: sustenta a sucção, aceita razoavelmente, larga cansado mas volta. Diurese preservada. Sem apneia relatada, sem gemido, sem batimento de asa. Classificação: leve a moderada sem hipoxemia, num lactente de 8 meses, a termo, sem comorbidade, com mãe atenta que voltou quando avisada.

  3. sua vez: o destino, a prescrição e a resposta sobre o antibiótico

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

Após nova avaliação, é possível considerar cuidado domiciliar se a criança mantiver oxigenação, esforço leve, hidratação e mamada suficientes e se a família reconhecer os sinais e tiver acesso rápido ao serviço. A ingestão de 60% do habitual merece observação e reavaliação próxima; sozinha, a saturação de 94% não autoriza alta. Se a alimentação não se sustentar ou houver piora, o destino muda. O plano inclui mamadas fracionadas, higiene nasal quando necessária e retorno combinado em 24 horas, antecipado se houver respiração mais difícil, apneia, cianose, prostração ou redução importante da ingestão e diurese. À mãe: "Os sintomas podem se intensificar nesses primeiros dias, mas precisamos avaliar cada piora. Hoje vamos conferir se ele respira e mama com segurança; não basta dizer que é o dia esperado da doença." Antibiótico não é tratamento da bronquiolite típica. Se surgirem sinais que apontem para infecção bacteriana ou outra complicação, a hipótese e a conduta serão revistas. A revisão do dia seguinte avalia resposta e segurança do plano, sem prometer que a curva já terá melhorado.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Apneia relatada com cianose em lactente pequeno e ex-prematuro é motivo de avaliação hospitalar e monitorização, mesmo com exame tranquilizador entre episódios. Na bronquiolite, apneia pode envolver imaturidade do controle respiratório, mecanismos reflexos e obstrução; não decorre apenas de fadiga. Exames normais não garantem ausência de recorrência. Não há indicação de gasometria e radiografia rotineiras apenas para decidir alta, nem de substituir vigilância hospitalar por oxímetro domiciliar. A doença frequentemente atinge maior intensidade entre o terceiro e o quinto dia, mas piora não é inevitável em todos. Cafeína não é tratamento rotineiro da apneia associada à bronquiolite.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique como edema, secreção e lesão epitelial comprometem pequenas vias aéreas. Apresente o plano positivo de suporte e as medidas que não têm indicação rotineira. Justifique internação e alta por idade, apneia, esforço, ingestão, oxigenação e acesso ao cuidado. Diga qual protocolo define o alvo de saturação do seu caso e por que um valor isolado não decide.

Em 30 dias

Compare um lactente que mantém mamadas, outro com ingestão progressivamente menor e um terceiro com pausa respiratória. Para cada um, justifique suporte, monitorização e destino. Oriente a família sem transformar piora nos primeiros dias em motivo para esperar em casa. Na criança internada, explique quando escalar e quando reduzir suporte e quais condições precisam estar presentes antes da alta.

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Agora atenda

Madrugada de junho numa UPA do interior de Minas. Mãe chega com lactente de 4 meses, 6,5 kg, nascido de 35 semanas: coriza há três dias, chiado e "cansaço" desde ontem, mamou metade do habitual hoje e ela acha que "ele fez uma paradinha na respiração no carro, mas foi rápido". Conte a frequência respiratória do jeito certo, meça a saturação, observe a mamada, decida o destino — e sustente, diante de uma mãe que veio buscar inalação e antibiótico, uma prescrição em que o que salva é o que você não vai dar.

Bronquiolite viral aguda — Internato | OsceLabs