PediatriaPrática Clínica Pediátrica

Atenção integral à saúde do adolescente

Consulta, confidencialidade, saúde física e mental, prevenção e autonomia no cuidado.

Fontes deste capítulo

[Ministério da Saúde. Proteger e cuidar da saúde de adolescentes na atenção básica. 2017](https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-do-adolescente/saude-sexual-e-reprodutiva/ferramentas/saude_adolecentes.pdf/view)

[CFM. Código de Ética Médica](https://portal.cfm.org.br/images/PDF/cem2019.pdf)

[Brasil. Estatuto da Criança e do Adolescente](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm)

[NIMH. Youth Outpatient Brief Suicide Safety Assessment Worksheet](https://www.nimh.nih.gov/research/research-conducted-at-nimh/asq-toolkit-materials/youth-outpatient/youth-outpatient-brief-suicide-safety-assessment-worksheet)

[OMS. Emergency contraception](https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/emergency-contraception)

01

Responda antes de ler

Uma adolescente com discernimento pede que detalhes de sua vida sexual não sejam compartilhados. A avaliação não identifica ameaça atual, coerção ou outra necessidade de divulgação para proteção. Como conduzir?

02

O paciente que você vai ver

Marina, 15 anos, chega à unidade básica com a mãe por dor de cabeça recorrente e cansaço. A mãe diz que a filha passa muito tempo no celular e deixou de querer ir à escola. Marina fala pouco. O interno confirma que não há início explosivo da cefaleia, alteração de consciência, déficit neurológico, febre persistente ou outro sinal imediato de gravidade. Em seguida, explica que parte da consulta será com as duas e parte será individual, como rotina do atendimento nessa idade.

Na conversa reservada, Marina conta que tem dormido pouco, sofre comentários ofensivos sobre o corpo na escola e passou a pular refeições. Diz também que começou a ter relações sexuais e está com medo porque houve rompimento do preservativo cerca de 36 horas antes. Pede que a mãe não seja informada de tudo. A equipe agora precisa acolher sofrimento, avaliar segurança, examinar a queixa clínica e resolver uma necessidade de cuidado que depende do tempo.

O desafio não é descobrir um segredo. É criar condições para que a adolescente participe do cuidado sem perder proteção. A consulta deverá distinguir o que precisa ser feito hoje, o que pode ser acompanhado e quais informações precisam ser compartilhadas, com quem e por qual motivo. O vínculo com a família pode ajudar muito, desde que não elimine a voz da adolescente.

03

Quem adoece disso

Adolescência envolve mudanças corporais, cognitivas, afetivas e sociais que não acontecem no mesmo ritmo para todas as pessoas. A definição clínica de adolescência utilizada pela OMS e pelo Ministério da Saúde abrange 10 a 19 anos; os recortes legais e de organização dos serviços podem ser diferentes. A idade cronológica orienta parte do cuidado, mas não resume maturidade, capacidade de decisão ou necessidades de proteção.

Muitos adolescentes chegam ao serviço por uma queixa aguda, pedido de atestado ou preocupação da família. Esses encontros podem revelar problemas de sono, alimentação, saúde mental, violência, uso de substâncias ou saúde sexual. Outros vivem com doenças crônicas desde a infância e precisam aprender gradualmente a manejar medicamentos, reconhecer sinais de piora e participar de consultas. Uma consulta integral não exige resolver todos os temas em um dia; exige identificar prioridades e construir continuidade.

Barreiras como medo de julgamento, falta de privacidade, horário incompatível com a escola e exigência de acompanhante podem afastar quem precisa de ajuda. Acolhimento e confidencialidade têm efeito clínico: influenciam o que será relatado, a possibilidade de retorno e a adesão ao plano. A [orientação do Ministério da Saúde](https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-do-adolescente/saude-sexual-e-reprodutiva/ferramentas/saude_adolecentes.pdf/view) sustenta a participação do adolescente e a consulta com espaço individual.

04

Por que acontece o que acontece

A puberdade modifica velocidade de crescimento, composição corporal e função reprodutiva. O estágio de maturação ajuda a interpretar uma queixa, mas não deve ser usado para presumir atividade sexual, capacidade emocional ou consentimento para um exame. A avaliação corporal tem finalidade clínica e precisa ser explicada, com privacidade, assentimento e consentimento conforme a situação.

Sono insuficiente pode prejudicar atenção, regulação emocional, tolerância à dor e desempenho escolar. O horário de dormir resulta da combinação de ritmo biológico, ambiente, rotinas, preocupações e demandas sociais. A pergunta usa muito celular é estreita demais: interessa a hora em que adormece, o horário de acordar, despertares, sonolência, cafeína, trabalho, cuidado de familiares e conteúdo que provoca sofrimento. O plano precisa atuar sobre o mecanismo predominante.

Restrição alimentar, compulsão, purgação e exercício compulsivo podem coexistir com qualquer aparência corporal. Peso ou índice de massa corporal isolados não excluem doença alimentar nem instabilidade clínica. Importam velocidade da mudança, ingestão recente, comportamentos compensatórios, repercussão cardiovascular, eletrólitos quando indicados e sofrimento com o corpo. Comentários elogiosos sobre emagrecimento podem reforçar um comportamento prejudicial quando sua causa ainda não foi investigada.

Pertencimento e relações influenciam exposição ao risco e proteção. Uma amizade, vínculo escolar, atividade significativa ou adulto confiável pode facilitar a busca de ajuda; bullying, discriminação, violência e isolamento podem aumentar o sofrimento. Esses elementos não permitem prever individualmente um desfecho, mas ajudam a construir um plano de segurança e de continuidade. Não se deve transformar identidade de gênero, orientação sexual ou origem social em diagnóstico.

Autonomia se desenvolve por oportunidades de compreender, escolher e praticar. Na doença crônica, transferir todas as tarefas de uma vez pode produzir falhas de tratamento; manter o adolescente permanentemente excluído das decisões também dificulta a transição. A equipe combina responsabilidades progressivas e verifica habilidades concretas: nomear o medicamento, demonstrar seu uso, solicitar reposição e saber como procurar ajuda.

Adolescente participa de uma consulta com momento compartilhado e momento individual.
Momento compartilhado e momento individual na mesma consulta. Privacidade e participação familiar podem coexistir; combinar confidencialidade e seus limites com o adolescente e a família.

A confidencialidade favorece uma história confiável, mas tem limites relacionados à proteção e aos deveres legais. O [Código de Ética Médica, artigo 74](https://portal.cfm.org.br/images/PDF/cem2019.pdf), protege o sigilo de crianças e adolescentes com discernimento, inclusive diante de familiares, e prevê exceção quando a não revelação puder causar dano. A decisão deve considerar a situação concreta e compartilhar apenas o necessário para o cuidado e a proteção.

05

Como se apresenta de verdade

Queixas somáticas e perda de função

Cefaleia, dor abdominal, cansaço, tontura e alterações de sono precisam de anamnese e exame próprios. A presença de estresse não elimina doença orgânica, e um exame sem alterações relevantes não significa que o sofrimento é inventado. Caracterize duração, padrão, gatilhos, intensidade, sintomas associados, uso de analgésicos e repercussão nas atividades. A pergunta o que você deixou de fazer por causa disso frequentemente informa mais que uma nota isolada de dor.

Procure sinais que mudam prioridade: início abrupto e intenso de dor, déficit neurológico, alteração de consciência, síncope relacionada ao esforço, dor torácica com achados preocupantes, perda ponderal importante, sangramento, febre persistente ou exame anormal. Esses achados levam ao fluxo clínico correspondente. Na ausência deles, a consulta pode explorar mecanismos, função e acompanhamento sem uma bateria automática de exames.

Em Marina, a cefaleia será investigada com esse rigor, mesmo que bullying e privação de sono pareçam relevantes. Ao mesmo tempo, o relato de falha contraceptiva recente não será deixado para outra consulta. Cuidado integral inclui manter mais de um problema ativo sem confundir suas explicações ou seus prazos.

Puberdade, menstruação e imagem corporal

Pergunte como a pessoa percebe as mudanças corporais e se alguma delas causa desconforto ou limitação. História de crescimento, início dos caracteres puberais e progressão ajudam a identificar desenvolvimento precoce, tardio ou interrompido. A avaliação endócrina detalhada segue o capítulo específico. Exame puberal não é uma prova de maturidade sexual e não deve ser repetido sem finalidade clínica por sucessivos examinadores.

Quando pertinente, caracterize menarca, padrão menstrual, dor, duração e repercussão do sangramento. Sangramento intenso pode produzir anemia e exigir investigação de distúrbio hemorrágico; irregularidade não deve ser atribuída automaticamente à idade quando há possibilidade de gravidez, restrição alimentar, doença sistêmica ou outras pistas. Amenorreia e atividade sexual requerem abordagem respeitosa da possibilidade de gestação, sem suposições baseadas na presença da mãe.

Perguntas sobre alimentação devem incluir acesso a refeições, restrição voluntária, medo de ganhar peso, episódios de perda de controle, vômitos provocados, laxantes e exercício usado para compensar ingestão. A aparência não define a gravidade. Bradicardia relevante, hipotensão, síncope, desidratação, distúrbios eletrolíticos ou incapacidade de manter ingestão podem exigir avaliação hospitalar, mesmo em uma pessoa com peso aparentemente habitual.

Sofrimento mental, automutilação e risco de suicídio

Humor deprimido pode aparecer como tristeza, irritabilidade, isolamento ou perda de interesse. Investigue duração, funcionamento, sono, energia, culpa, concentração, alimentação e uso de substâncias. Perguntar diretamente sobre autoagressão e suicídio faz parte da avaliação; perguntas vagas como você não faria nenhuma bobagem, faria? dificultam uma resposta verdadeira. Automutilação e tentativa de suicídio precisam ser diferenciadas, sem minimizar nenhuma das duas.

Uma triagem positiva exige avaliação clínica subsequente. Explore ideias atuais, intenção, planejamento, acesso a meios, atos preparatórios, tentativas anteriores, intoxicação, sintomas psicóticos, impulsividade, capacidade de pedir ajuda e apoio disponível. Não reduza risco a um escore ou à ausência de plano. Ideação atual com preocupação de segurança demanda avaliação urgente, e a pessoa não deve ficar sozinha enquanto o cuidado é organizado. O [NIMH](https://www.nimh.nih.gov/research/research-conducted-at-nimh/asq-toolkit-materials/youth-outpatient/youth-outpatient-brief-suicide-safety-assessment-worksheet) oferece um roteiro clínico de avaliação após triagem positiva.

O plano de segurança é concreto: reconhecer sinais de piora, combinar estratégias de enfrentamento e pessoas de apoio, facilitar acesso ao serviço e reduzir acesso a meios de autoagressão. Uma promessa de não se machucar não substitui avaliação nem proteção. Quando a família é fonte de ameaça, envolver automaticamente o suposto agressor pode aumentar o risco; a equipe aciona a rede protetiva apropriada e identifica um adulto seguro.

Sexualidade, relações e prevenção

Use perguntas que não presumam parceiros, práticas, gênero ou desejo de gravidez. Pergunte se existe relação afetiva ou sexual, se a pessoa consegue recusar o que não quer e se já foi pressionada, ameaçada ou machucada. Para avaliar risco de infecção e gestação, esclareça práticas, proteção, datas e exposições de forma objetiva. Nome social e pronomes devem ser respeitados; a investigação clínica se baseia nas necessidades e na anatomia pertinente, sem transformar a consulta em interrogatório sobre identidade.

Preservativos ajudam a prevenir infecções e gravidez, e outro método contraceptivo pode ser associado conforme escolha e elegibilidade. Métodos de longa duração são opções para adolescentes quando adequados, disponíveis e escolhidos de forma informada; a idade, sozinha, não os exclui. Evite impor um método por conveniência do serviço ou exigir exame pélvico sem indicação para liberar aconselhamento e métodos que não o requerem.

Exposição recente exige atenção ao relógio. Falha contraceptiva pode indicar contracepção de emergência. Exposição com risco de HIV pode indicar profilaxia pós-exposição, cujo início deve ocorrer o mais cedo possível e no máximo em 72 horas, com tratamento por 28 dias quando indicado, conforme o [Ministério da Saúde](https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/prevencao-combinada/pep-profilaxia-pos-exposicao-ao-hiv). Avaliação e encaminhamento devem ocorrer no mesmo dia; não se espera resultado tardio ou consulta eletiva para decidir.

Suspeita de violência sexual exige cuidado clínico, proteção e procedimentos de notificação e comunicação aplicáveis, sem condicionar atendimento a boletim de ocorrência. A escuta inicial acolhe e registra o necessário, evitando repetição de perguntas sugestivas e investigação informal pela equipe. A legislação brasileira confere proteção específica a menores de 14 anos; aparente concordância não afasta essa proteção. O caso precisa ser conduzido com supervisão e a rede adequada, sem expor a pessoa a quem possa ameaçá-la.

Substâncias, segurança e ambiente digital

Pergunte sobre álcool, tabaco, cigarros eletrônicos, cannabis, estimulantes, medicamentos emprestados e outras substâncias em linguagem neutra. Explore frequência, quantidade, contexto, perda de controle, intoxicações e efeitos sobre escola, relações e saúde. O motivo de uso pode incluir ansiedade, sono, concentração, imagem corporal ou pertencimento; reconhecer esse motivo ajuda a construir alternativas, sem normalizar danos.

Uma abordagem breve pode começar pela relação entre uso e uma meta do adolescente: dormir melhor, jogar futebol, melhorar a respiração ou gastar menos dinheiro. Pergunte o que ele percebe como benefício e como problema e combine uma mudança possível. Sinais de dependência, intoxicação, abstinência, risco de violência ou comorbidade mental exigem avaliação mais intensiva e articulação com a rede. Um sermão, uma ameaça de contar à família ou uma lista abstrata de doenças pode encerrar o vínculo antes de produzir cuidado.

Investigue segurança no transporte, condução sob efeito de substâncias, uso de capacete, armas, brigas e situações de exploração. No ambiente digital, interessa o efeito concreto: privação de sono, assédio, exposição de imagens, chantagem, comparação corporal e afastamento de atividades. Não é preciso conhecer cada aplicativo para perguntar se algo online está causando medo ou sofrimento. Quando há ameaça atual, o plano prioriza proteção e apoio, preservando registros relevantes pelos canais adequados.

Doença crônica e transição para o cuidado adulto

Pergunte ao adolescente o que ele sabe sobre seu diagnóstico e tratamento. Quem lembra os horários? Quem compra ou retira medicamentos? Ele sabe o que fazer se faltar uma dose ou se aparecer um sinal de piora? A entrevista individual pode revelar vergonha de usar um inalador na escola, efeitos adversos, dificuldade de acesso ou cansaço de uma rotina longa. Descrever tudo como falta de adesão perde a oportunidade de entender o obstáculo.

A transição é um processo planejado. Inclui conhecimento da doença, habilidades de autocuidado, participação em decisões, cuidado reprodutivo quando pertinente e contato com a equipe que dará continuidade. A data de transferência depende da organização do serviço e da condição clínica, mas deve vir acompanhada de resumo, lista conciliada de medicamentos, plano de contingência e confirmação de acesso. Trocar de ambulatório sem essas ligações pode interromper um cuidado que funcionava.

O cuidador continua participando conforme a necessidade e a concordância possível, com responsabilidades explícitas. A progressão pode começar com uma tarefa simples supervisionada e ser ampliada depois. Deficiência ou dificuldades cognitivas exigem apoios proporcionais, sem presumir incapacidade global. A avaliação pergunta o que a pessoa consegue compreender e decidir com o suporte disponível.

06

Como fechar o diagnóstico

Abrir espaço individual sem transformar a família em adversária

Explique no início que a consulta inclui momentos com a família e a sós. Uma formulação rotineira evita que a saída do acompanhante pareça punição ou suspeita. Antes de perguntas sensíveis, esclareça o sigilo e seus limites com exemplos simples: o conteúdo será protegido, mas situações de risco relevante podem exigir ajuda de outras pessoas. Não prometa segredo absoluto e não anuncie uma regra de contar tudo aos pais.

Avalie compreensão e capacidade de participar da decisão específica. Isso envolve explicar o problema, as opções, os benefícios e riscos e verificar o entendimento, a voluntariedade e a possibilidade de expressar uma escolha. Capacidade não é sinônimo de concordar com a equipe. Quando houver limitação, ofereça apoios e envolva responsáveis conforme a necessidade e as normas aplicáveis, preservando participação máxima possível.

Se for necessário compartilhar informação para proteção, explique à pessoa, sempre que isso puder ser feito com segurança, o que será comunicado, a quem e por quê. Registre a razão e limite o conteúdo ao necessário. Uma adolescente pode aceitar compartilhar sofrimento e necessidade de acompanhamento sem divulgar todos os detalhes da vida sexual. O plano distingue assuntos em vez de tratar a confidencialidade como um pacote indivisível.

Marina compreende a proposta e aceita conversar individualmente. A equipe informa que vai ouvi-la e avaliar segurança antes de decidir sobre compartilhamento. A presença da mãe não é requisito para que a história sexual seja acolhida nem justificativa para dispensar a avaliação de risco.

Uma entrevista psicossocial que acompanha a conversa

Explore casa, escola ou trabalho, alimentação, atividades e amizades, substâncias, sexualidade, humor e segurança. Esse conjunto pode ser lembrado por um roteiro como HEEADSSS, mas não precisa ser aplicado como sequência mecânica de perguntas. Comece por assuntos menos ameaçadores, use respostas para aprofundar e reserve tempo para a prioridade identificada. Se a consulta não comportar tudo, combine a continuidade sem deixar risco atual pendente.

Em casa, pergunte com quem mora, quem ajuda e onde se sente seguro. Na escola, investigue frequência, desempenho, relações e bullying. Nas atividades, procure interesses, capacidades e pessoas importantes. A entrevista não deve procurar apenas riscos: os recursos existentes podem sustentar uma mudança real. Uma professora de confiança ou uma atividade em grupo pode ser mais acessível que uma orientação genérica para melhorar a autoestima.

Nas áreas sensíveis, contextualize: faço essas perguntas a todos porque elas mudam o cuidado. Evite julgamento, expressões de surpresa e perguntas que já contêm a resposta desejada. Dê tempo para silêncio e permita que a pessoa não responda imediatamente, desde que isso não impeça ações necessárias diante de risco. Quando o relato é inconsistente, esclareça datas e significados, sem acusar de mentira.

Documente fatos relevantes e linguagem clínica respeitosa. Não registre rótulos morais, especulações sobre caráter ou detalhes íntimos sem finalidade. A forma de registro e de comunicação de resultados precisa considerar quem tem acesso e quais canais são seguros. Combine número de contato, horário e conteúdo possível de mensagens; uma informação sensível não deve ser enviada automaticamente a um telefone compartilhado.

Temas da consulta aparecem ao redor da adolescente, incluindo seus recursos e preocupações.
A entrevista considera saúde física, casa, escola, alimentação, relações, apoio e acesso ao cuidado. As cenas ilustram temas e recursos de proteção; não constituem um escore ou questionário validado.

Exame físico e hipóteses orgânicas

Confirme sinais vitais e antropometria, interprete trajetória de crescimento e examine conforme a queixa. Avalie pele, mucosas, tireoide quando pertinente, aparelhos cardiovascular e respiratório, abdome, sistema neurológico e musculoesquelético de acordo com os achados. Cansaço pode envolver anemia, privação de sono, doença crônica, gravidez, efeitos de substâncias ou sofrimento mental. A investigação psicossocial complementa essa avaliação; não a substitui.

Explique antes de cada etapa sensível, ofereça cobertura e acompanhante profissional conforme indicação, preferência e protocolo. A recusa de uma etapa pede esclarecimento do motivo, da necessidade e das alternativas. Um exame íntimo não deve ser feito como demonstração de autoridade ou requisito genérico da consulta. Quando é indispensável diante de urgência ou suspeita clínica específica, organize consentimento, assentimento, suporte e supervisão adequados.

Em uma pessoa com restrição alimentar, avalie ritmo e magnitude da perda de peso, hidratação, circulação, frequência cardíaca, pressão e sintomas posturais. Exames como eletrólitos, função renal, glicemia e eletrocardiograma são indicados pelos riscos identificados, especialmente diante de purgação, síncope ou instabilidade. O diagnóstico de transtorno alimentar não depende de um único resultado e pode exigir equipe experiente. Evite recomendar ganho ou perda de peso antes de compreender a situação.

Marina será examinada para cefaleia e cansaço, incluindo avaliação neurológica dirigida e sinais relacionados à alimentação. O relato de pular refeições não permite diagnosticar um transtorno alimentar, mas justifica perguntas sobre restrição, compensação e imagem corporal. Um exame adequado decide se é seguro seguir ambulatorialmente ou se existe necessidade de cuidado imediato.

Testes e rastreamentos com finalidade definida

Escolha exames a partir da história, do exame e de recomendações específicas por risco e idade. Um teste de gravidez pode ser necessário diante de atraso menstrual ou exposição compatível, mas um resultado negativo muito próximo da relação não exclui gestação decorrente daquele episódio. A data do teste e a necessidade de repetição devem ser explicadas. Não use um teste precoce negativo como autorização para encerrar o seguimento após falha contraceptiva.

A avaliação de infecções sexualmente transmissíveis considera práticas, locais de exposição, sintomas, tempo desde a exposição, vacinação e recomendações do protocolo. Testagem de HIV e sífilis, avaliação para outras infecções e profilaxias não são a mesma intervenção. A janela de cada exame e o calendário de repetição precisam constar do plano. Em exposição recente, a decisão sobre profilaxia não deve esperar a soroconversão.

Questionários validados de humor, ansiedade ou uso de substâncias podem apoiar identificação e acompanhamento. Verifique idade, idioma, objetivo e validação do instrumento. Um resultado positivo sinaliza necessidade de avaliação; um resultado negativo não encerra uma história clínica preocupante. As respostas devem ser obtidas com privacidade suficiente e revisadas durante a consulta, sobretudo quando incluem autoagressão.

A atualização vacinal exige conferir registro e calendário vigente. Revise proteção contra HPV, hepatite B, tétano e difteria, meningococo e outras vacinas conforme idade, histórico e condição clínica. Não reinicie séries apenas porque houve atraso sem verificar a recomendação aplicável. Rastreio de câncer do colo do útero segue diretriz nacional por idade e risco; início da atividade sexual, por si só, não é indicação de rastreamento de rotina em adolescentes da população geral. HIV e outras situações de imunossupressão têm recomendações específicas. Sintomas cervicais ou genitais são investigados clinicamente, o que é diferente de rastrear uma pessoa assintomática, conforme a [orientação do INCA](https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/tipos/colo-do-utero/versao-para-profissionais-de-saude).

Distinguir urgência, necessidade de apoio próximo e acompanhamento programado

A pergunta de destino vem antes da conclusão da consulta. Instabilidade clínica, risco atual de suicídio, intoxicação relevante, violência em curso ou impossibilidade de manter segurança exigem avaliação e proteção imediatas. Exposição sexual com janela de profilaxia exige ação no mesmo dia mesmo em uma pessoa aparentemente bem. O fato de a consulta ser ambulatorial não torna todas as decisões eletivas.

Quando não há indicação de urgência, ainda pode ser necessário retorno breve, contato ativo e cuidado compartilhado. Sofrimento com perda funcional, restrição alimentar progressiva, repetidas faltas à escola ou falha importante de tratamento crônico merecem acompanhamento próximo. O plano deve dizer quem fará a próxima avaliação e o que acontecerá se houver piora antes dela.

Encaminhe com pergunta clínica, avaliação de segurança já realizada, achados e intervenções do dia. Mantenha cuidado pela atenção primária enquanto a rede se organiza. CAPSi, serviços de saúde mental, atenção especializada e rede de proteção têm funções diferentes e disponibilidade variável; escolher um destino exige conhecer o fluxo local. Um pedido genérico de psicologia não resolve uma urgência de proteção nem substitui seguimento médico de perda ponderal.

07

Prioridades na consulta integral

O plano é individualizado pela necessidade clínica, pela segurança e pelo tempo disponível para intervir.

  1. 1Ouvir a queixa e verificar sinais imediatos de gravidade.
  2. 2Explicar confidencialidade e criar espaço de conversa individual.
  3. 3Integrar avaliação clínica, psicossocial e de proteção.
  4. 4Resolver urgências e intervenções que dependem do tempo.
  5. 5Pactuar tarefas, compartilhamento necessário e continuidade.

Confidencialidade

Proteger informações, avaliar discernimento e explicar limites antes da entrevista sensível.

Proteção

Avaliar risco concreto e envolver pessoas e serviços necessários sem expor o adolescente a uma ameaça.

Participação

A pessoa compreende a proposta, expressa preferências e assume tarefas compatíveis com sua capacidade e apoio.

O que muda a prioridade

SituaçãoPróxima ação
Instabilidade ou comprometimento neurológicoAvaliação e suporte imediato no fluxo clínico correspondente.
Risco atual de autoagressão ou incapacidade de manter segurançaNão deixar sozinho; avaliação urgente e plano de proteção.
Exposição sexual recenteAvaliar hoje contracepção de emergência, PEP e outras medidas indicadas.
Violência ou ameaça no ambiente de retornoAcionar proteção e definir destino seguro com a equipe.
Sofrimento com perda funcional sem urgência atualPlano compartilhado, retorno breve e acompanhamento ativo.

Pergunta clínica e informação necessária

ProblemaInformação que evita uma conclusão precipitada
CansaçoSono, alimentação, sangramento, gestação possível, substâncias, humor e exame.
Mudança de pesoVelocidade da mudança, intenção, restrição, compensação e sinais de instabilidade.
Uso de substânciasPadrão, contexto, efeitos, perda de controle e prontidão para mudança.
Falha de tratamento crônicoTécnica, acesso, efeitos, rotina, entendimento e responsabilidades.

A consulta integral não transforma um instrumento de triagem em diagnóstico. Decisões sobre urgência, consentimento e compartilhamento de informações exigem avaliação clínica e registro da situação concreta.

08

A conduta, hora a hora

  1. Abertura: vínculo, privacidade e agenda

    Apresente o papel do interno e do supervisor. Converse com adolescente e acompanhante, obtenha a queixa e explique o momento individual como rotina. Em situação estável, combine as prioridades e o tempo disponível. Se houver urgência, organize assistência sem deixar que a discussão sobre acompanhamento atrase o cuidado necessário.

    Prescrição
    • Registrar a queixa do adolescente e a preocupação do acompanhante separadamente quando forem diferentes.
    • Explicar sigilo e seus limites em linguagem compreensível.
    • Garantir ambiente privado para temas sensíveis.
  2. Ainda hoje: avaliar segurança e resolver exposições recentes

    Em Marina, a equipe faz avaliação clínica e pergunta diretamente sobre autoagressão, coerção e segurança em casa e na escola. A falha do preservativo há 36 horas exige oferta de contracepção de emergência e avaliação de risco de infecções. A escolha deve considerar preferências, tempo, elegibilidade e acesso, sem julgamento. Uma opção oral é levonorgestrel 1,5 mg por via oral em dose única, o mais cedo possível e dentro de 120 horas da exposição; sua efetividade diminui com o tempo. Se houver vômito em até duas horas, a dose deve ser repetida. O DIU de cobre, quando elegível e disponível, é uma opção de emergência em até cinco dias e pode permanecer como contraceptivo. Essas informações seguem a [OMS](https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/emergency-contraception). A decisão não deve ser adiada aguardando um teste incapaz de detectar gestação daquela relação recente. Contracepção de emergência não protege relações futuras nem previne infecções. Organize método contínuo conforme escolha e elegibilidade, preservativos e teste de gravidez no momento adequado se não houver sangramento esperado ou persistir suspeita. Havendo indicação de PEP, encaminhe ou inicie pelo fluxo habilitado no mesmo dia, com esquema definido pelo protocolo vigente e por idade, peso, função renal e interações. O cuidado da exposição inclui também hepatite B e outras medidas conforme o caso.

    Prescrição
    • Avaliar tempo, tipo de exposição, possibilidade de gravidez, coerção e risco de infecções.
    • Se a opção escolhida for levonorgestrel: 1,5 mg, via oral, dose única; administrar o mais cedo possível dentro da janela indicada.
    • Definir testagem e seguimento; encaminhar imediatamente quando houver indicação de profilaxia ou atendimento especializado.
  3. Se houver risco de autoagressão: proteger antes de programar retorno

    Um relato de ideação atual, intenção, plano, acesso a meios ou incapacidade de manter segurança exige avaliação urgente proporcional ao risco. Mantenha acompanhamento contínuo até a transferência de responsabilidade. Envolva o supervisor e os profissionais habilitados, trate intoxicação ou lesões quando presentes e identifique um adulto seguro. Não entregue apenas um encaminhamento para que a pessoa procure atendimento sozinha. Se a avaliação indicar cuidado ambulatorial, construa um plano de segurança documentado e acompanhamento próximo. Defina contatos, acesso à urgência, redução de acesso a meios e participação da rede. A decisão considera o conjunto, inclusive a confiabilidade e disponibilidade do apoio. A ausência de um plano suicida específico não é, sozinha, critério de alta segura.

    Prescrição
    • Registrar avaliação de segurança, profissionais envolvidos e destino.
    • Garantir transferência efetiva do cuidado quando a avaliação urgente for necessária.
    • Compartilhar apenas as informações necessárias à proteção e explicar o motivo sempre que seguro.
  4. Após definir estabilidade: tratar a queixa e construir metas

    Para a cefaleia de Marina, formule a hipótese com base na história e no exame, avalie uso de analgésicos e organize manejo pelo capítulo correspondente. Sono, alimentação regular e redução de fatores que pioram a dor entram como componentes concretos, sem assumir que explicam tudo. Dê orientações sobre evolução esperada e sinais que exigem nova avaliação. Para a restrição alimentar, evite prescrições estéticas ou metas de emagrecimento. Avalie necessidade de cuidado nutricional e de saúde mental, acompanhe trajetória e sinais clínicos e envolva apoio seguro. Para bullying, discuta com Marina quem pode ajudar na escola e o que poderá ser compartilhado. Uma medida protetiva precisa considerar se a exposição de detalhes pode gerar retaliação.

    Prescrição
    • Definir uma ou duas metas iniciais escolhidas com a adolescente.
    • Tratar e investigar a queixa somática conforme seus achados.
    • Organizar apoio para alimentação, saúde mental e escola de acordo com a necessidade identificada.
  5. Antes da saída: pactuar participação familiar e comunicação

    Pergunte a Marina que apoio da mãe seria útil e quais temas ela aceita abordar juntas. Se não houver necessidade de divulgação adicional para proteção, o cuidado pode compartilhar informações sobre cefaleia, rotina e acompanhamento sem revelar detalhes íntimos. Quando houver necessidade de proteção, explique a decisão e não prometa um controle sobre o compartilhamento que a equipe não possa garantir. Confirme canal seguro para contato, forma de acesso a resultados e possibilidade de retorno. Pergunte o que impediria comparecer. A família pode ajudar com transporte e rotina; a escola pode apoiar frequência e proteção; a equipe mantém a coordenação. O retorno deve ser marcado conforme a prioridade dos problemas e não simplesmente pelo intervalo habitual de uma consulta preventiva.

    Prescrição
    • Combinar o que será compartilhado e registrar razões para qualquer comunicação protetiva necessária.
    • Entregar plano compreensível para medicação, resultados e retorno.
    • Confirmar contato seguro e fluxo de ajuda diante de piora.
  6. Nos próximos encontros: prevenção e autonomia progressiva

    Complete temas preventivos que não couberam na primeira consulta, atualize vacinação e revise saúde bucal, sono, atividade, alimentação e relações. Reavalie se a intervenção escolhida ajudou a função e se surgiram efeitos adversos ou novas barreiras. Na doença crônica, escolha uma tarefa de autocuidado para treinar e combine a supervisão do cuidador, ampliando a autonomia conforme desempenho. A consulta integral é construída em série. O objetivo não é obter todos os detalhes íntimos nem aplicar todos os instrumentos possíveis. É produzir um cuidado em que a pessoa possa retornar, aprender e pedir ajuda antes que um problema se agrave.

    Prescrição
    • Revisar vacinação pelo calendário vigente e indicações especiais.
    • Acompanhar execução de encaminhamentos e resultados pendentes.
    • Reavaliar funcionamento, segurança e metas pactuadas.
09

Como saber se está funcionando

O retorno deve verificar tanto sintomas quanto função: frequência escolar, atividades, sono, alimentação, relações e capacidade de usar o plano. Pergunte o que mudou desde o encontro e revise a segurança quando houver sofrimento mental ou ameaça. Melhora de uma queixa não encerra automaticamente as demais.

Após uma exposição sexual, o acompanhamento segue as janelas dos testes e as medidas realizadas. Após início de um tratamento, revise efeitos, uso e acesso. Quando houver encaminhamento, confirme que ele ocorreu; se não ocorreu, reavalie a urgência e construa uma alternativa. A falta ao retorno merece contato por canal previamente combinado quando houver preocupação clínica, sem divulgar informação sensível a terceiros.

Adolescente identifica pessoas e serviços de apoio para um plano de cuidado.
Plano de apoio construído com o adolescente: reconhecer piora, identificar ações possíveis, pessoas acessíveis e locais de atendimento. Os campos precisam ser preenchidos com contatos e caminhos reais; a figura não é uma escala de risco.
Segurança e apoioNa avaliação inicial e em todo contato se houver preocupação.

Esperado: Plano viável e acesso a pessoas e serviços seguros.

Se não melhora: Reavaliar urgentemente se houver risco atual, piora ou perda do apoio necessário.

Cefaleia e funcionamentoNo prazo individualizado, antecipado diante de sinais de alarme.

Esperado: Redução de repercussão e hipótese coerente com a evolução.

Se não melhora: Reabrir diagnóstico, revisar uso de medicamentos e ampliar investigação conforme achados.

Alimentação e estado clínicoRetorno próximo quando houver restrição ou perda de peso.

Esperado: Ingestão e estabilidade compatíveis com cuidado ambulatorial.

Se não melhora: Procurar instabilidade e necessidade de equipe especializada ou hospitalização.

Exposição sexual e prevençãoConforme profilaxia e janela dos exames definidos no atendimento.

Esperado: Medidas realizadas, adesão e testagem acompanhadas.

Se não melhora: Resolver barreiras e reavaliar sintomas, gestação possível e novas exposições.

Autonomia no cuidado crônicoEm consultas sucessivas e antes da transferência de serviço.

Esperado: Tarefas demonstradas com apoio proporcional.

Se não melhora: Reorganizar responsabilidades e treinamento, sem atribuir falha apenas à motivação.

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Onde o erro machuca

Prometer segredo absoluto ou anunciar que tudo será contado aos pais.

O dano: A primeira promessa pode ser impossível diante de risco; a segunda pode impedir relato essencial.

Como pegar a tempo: Explicar confidencialidade e limites antes de perguntas sensíveis.

Atribuir sintomas físicos ao emocional sem avaliação clínica.

O dano: Doença orgânica e sinais de gravidade podem ser negligenciados.

Como pegar a tempo: Investigar queixa, função e exame enquanto explora contexto e sofrimento.

Considerar peso habitual suficiente para excluir transtorno alimentar.

O dano: Restrição, purgação e instabilidade podem ocorrer sem baixo peso aparente.

Como pegar a tempo: Avaliar trajetória, comportamentos e sinais clínicos.

Dar alta de uma situação de risco com base em promessa ou escore.

O dano: A proteção pode ser insuficiente e a transferência de cuidado falhar.

Como pegar a tempo: Realizar avaliação clínica, verificar apoio e organizar destino seguro.

Adiar profilaxias até uma consulta eletiva.

O dano: A janela para uma intervenção eficaz pode se fechar.

Como pegar a tempo: Perguntar data e hora da exposição e resolver a indicação no mesmo dia.

Compartilhar detalhes íntimos com familiar ou escola sem finalidade definida.

O dano: A confiança pode ser rompida e a exposição pode aumentar ameaça ou discriminação.

Como pegar a tempo: Avaliar necessidade, consentimento e proteção e limitar a comunicação ao necessário.

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O que dizer ao paciente e à família

Explicar o momento individual

Em consultas dessa idade, converso um tempo com vocês e um tempo a sós com o adolescente. Depois combinamos juntos o plano e o apoio necessário.

Não diga: Pedir a saída do acompanhante como punição ou sinal de suspeita.

Explicar o sigilo

Vou proteger o que você me contar. Se aparecer uma situação em que você ou outra pessoa corre risco importante, talvez eu precise chamar ajuda. Sempre que for seguro, vou conversar com você sobre o que precisamos compartilhar.

Não diga: Prometer nunca contar nada, mesmo quando houver necessidade de proteção.

Perguntar sobre autoagressão

Quando o sofrimento fica muito forte, algumas pessoas pensam em se machucar ou em morrer. Isso tem acontecido com você? Está acontecendo agora?

Não diga: Usar perguntas que induzam negação ou tratar o assunto como falta de força de vontade.

Falha do preservativo

Podemos cuidar disso hoje. Vou perguntar quando aconteceu e quais foram as circunstâncias para escolher as medidas adequadas, sem julgamento.

Não diga: Fazer sermão, ameaçar divulgar a relação ou condicionar acolhimento à presença de um responsável.

Imagem corporal

Quero entender como você está comendo, como se sente com seu corpo e se isso está afetando sua saúde. O número na balança não conta toda a história.

Não diga: Elogiar emagrecimento antes de compreender sua causa.

Participação familiar

Que parte desse plano você acha que sua mãe pode ajudar a realizar? Vamos combinar como conversar sobre isso.

Não diga: Pressupor que apoio familiar exige divulgar todos os detalhes da entrevista.

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O raciocínio, em voz alta

Marina, 15 anos, veio por cefaleia e cansaço. A entrevista individual revela privação de sono, bullying, restrição de refeições e falha de preservativo há 36 horas. Ela pede confidencialidade.

  1. 1. Manter avaliação clínica

    A equipe caracteriza a cefaleia, examina e procura sinais de alarme e repercussão da restrição alimentar. Não conclui que a dor é emocional apenas porque existe sofrimento social.

  2. 2. Avaliar segurança

    Pergunta diretamente sobre autoagressão, ideação suicida, coerção sexual, violência e segurança no ambiente de retorno. O destino depende dessa avaliação. Na simulação, não há achados que indiquem urgência por instabilidade ou ameaça atual, mas há necessidade de apoio e retorno próximo.

  3. 3. Resolver a intervenção que depende do tempo

    A falha contraceptiva é tratada no mesmo dia, com escolha informada de contracepção de emergência, avaliação de risco de infecções e decisão sobre PEP quando indicada. A equipe explica que um teste imediatamente após a relação não exclui uma gestação decorrente dela e programa seguimento.

  4. 4. Construir um plano viável

    Marina escolhe metas iniciais para alimentação e sono e participa da escolha de apoio na escola. A equipe organiza avaliação adicional para sofrimento e comportamento alimentar conforme os achados, mantendo acompanhamento clínico.

  5. 5. Compartilhar com finalidade

    A adolescente concorda em conversar com a mãe sobre cefaleia, dificuldades escolares e necessidade de acompanhamento. A equipe preserva detalhes que não precisam ser divulgados, confirma contato seguro e combina retorno. Se surgisse risco que exigisse proteção adicional, a estratégia de compartilhamento seria reavaliada e explicada.

A consulta integra clínica, prevenção e proteção. A confidencialidade é aplicada à situação concreta, a exposição recente recebe resposta em tempo útil e as demais necessidades permanecem acompanhadas. A família participa como apoio possível, sem substituir a adolescente na decisão.

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Faça você

Bruno, 16 anos, vive com diabetes desde a infância. A mãe diz que ele está irresponsável e tem omitido doses. Na entrevista individual, ele conta que evita aplicar insulina na escola e teme engordar. Teve vômitos e dor abdominal desde a manhã e parece desidratado.

  1. Primeira decisão

    O que precisa ser avaliado imediatamente e por que a discussão sobre adesão não pode ser a prioridade inicial?

  2. Depois da estabilização

    Como investigar acesso, técnica, rotina, imagem corporal e responsabilidades sem encerrar a história com um julgamento?

  3. Autonomia e família

    Que tarefas podem ser treinadas e quais apoios precisam permanecer? Como compartilhar o necessário para proteção e tratamento?

  4. Continuidade

    Descreva como a equipe de origem e o serviço especializado confirmarão seguimento, acesso a insulina e um plano para intercorrências.

Ver como fecharíamos

Vômitos, dor abdominal e desidratação em pessoa com diabetes e omissão de insulina exigem avaliação urgente para descompensação, incluindo glicemia e investigação de cetose ou acidose pelo protocolo aplicável. Primeiro se organiza assistência e transferência segura. Após estabilização, a equipe explora vergonha, imagem corporal, possível comportamento alimentar e barreiras reais, revê técnica e fornece apoio para o tratamento na escola. A participação familiar é ajustada à segurança e às capacidades demonstradas. A continuidade inclui acesso aos insumos, plano de intercorrências e retorno confirmado, sem delegar ao adolescente tarefas para as quais ainda não recebeu apoio.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A confidencialidade depende da situação concreta e da capacidade de discernimento, e não de uma regra de divulgação universal. A equipe pode negociar apoio familiar sem expor todos os detalhes. O registro clínico necessário permanece, com cuidado nos acessos e canais de comunicação.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Ensaie a abertura de uma consulta com adolescente e acompanhante. Explique sigilo e limites sem jargão. Depois descreva como distinguiria uma demanda de acompanhamento de uma situação que precisa de ação no mesmo dia.

Em 30 dias

Reconstrua o caso de Marina e escreva um plano em quatro partes: queixa clínica, segurança, exposição recente e continuidade. Em seguida, escolha uma doença crônica e proponha uma tarefa de autocuidado que o adolescente possa demonstrar com apoio, explicando como avaliará a prontidão para ampliar a responsabilidade.

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Agora atenda

Simule o atendimento de uma adolescente de 15 anos com cefaleia e faltas à escola. Explique o espaço individual, explore saúde física e contexto, pergunte sobre segurança e conduza uma necessidade de prevenção revelada durante a entrevista. Conclua com plano compartilhado e comunicação familiar proporcional à situação.

Atenção integral à saúde do adolescente — Internato | OsceLabs