PediatriaPrática Clínica Pediátrica

Cuidado da criança hospitalizada: admissão, prescrição, evolução e alta

Organizar o dia na enfermaria, conferir doses e líquidos e preparar a continuidade fora do hospital.

Fontes deste capítulo

[Ministério da Saúde e Anvisa. Protocolo de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos. 2013](https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2020/01/protoc_identificacaoPaciente.pdf)

[RCH. Intravenous fluids. Atualização de janeiro de 2026](https://www.rch.org.au/clinicalguide/guideline_index/Intravenous_fluids/)

[RCH. Acute pain management. Atualização de outubro de 2024](https://www.rch.org.au/clinicalguide/guideline_index/Analgesia_and_sedation/)

[RCH. Acceptable ranges for physiological variables](https://www.rch.org.au/clinicalguide/guideline_index/Acceptable_ranges_for_physiological_variables/)

[Brasil. Estatuto da Criança e do Adolescente](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm)

01

Responda antes de ler

Uma criança de 16 kg tem estimativa basal de 1.300 mL/dia pelo método diário de Holliday–Segar. Já recebe líquidos por boca e medicamentos venosos. Qual interpretação é adequada?

02

O paciente que você vai ver

Miguel, 4 anos, 16 kg, está na enfermaria após internação por desidratação associada a lesões orais dolorosas de uma infecção viral. A desidratação já foi corrigida. Está no sexto dia de doença, é imunocompetente, não apresenta sinais de complicação e começou a aceitar pequenos volumes após analgesia. Mantém acesso venoso com líquido de manutenção. A mãe pergunta se poderá ir para casa naquele dia.

Na passagem do plantão, o interno recebe a informação de que Miguel está bem e precisa manter a conduta. Ao olhar os registros, percebe que a dor não foi reavaliada após a última dose, a ingestão oral não foi quantificada e o volume venoso do dia anterior foi copiado. O prontuário lista medicações que a mãe diz não usar mais. Nenhum desses problemas exige um diagnóstico raro; todos podem modificar o cuidado de hoje.

O objetivo da visita será confirmar estabilidade, identificar por que a internação ainda é necessária, revisar cada intervenção e estabelecer condições concretas de alta. A evolução não deve apenas narrar o que aconteceu. Precisa explicar o que a equipe acredita que está acontecendo e qual decisão decorre disso.

03

Quem adoece disso

Uma criança pode precisar de internação por suporte respiratório, incapacidade de manter hidratação ou alimentação, tratamento que requer monitorização, investigação urgente, controle de dor ou proteção. O diagnóstico etiológico e o motivo de permanecer no hospital são perguntas relacionadas, mas diferentes. Uma infecção ainda em resolução pode ser cuidada em casa quando o suporte hospitalar deixou de ser necessário; outra criança pode manter necessidade de internação apesar de melhora de um exame laboratorial.

Peso, maturação, concentração das apresentações e dependência de cuidadores tornam a prescrição pediátrica especialmente sensível a erros de unidade, cálculo e comunicação. Transferências entre pronto atendimento, enfermaria e domicílio são momentos em que informações e responsabilidades podem se perder. A qualidade do cuidado depende de revisão diária e de comunicação entre medicina, enfermagem, farmácia, nutrição, fisioterapia e família.

Este capítulo acompanha a criança clinicamente estável na enfermaria geral e seu reconhecimento de deterioração. Recém-nascidos, pacientes com choque, cetoacidose, queimaduras extensas, distúrbios eletrolíticos graves e doenças que exigem esquemas específicos não recebem uma prescrição genérica de manutenção. Nessas situações, aplicam-se os capítulos e protocolos correspondentes, com o nível de monitorização adequado.

04

Por que acontece o que acontece

O organismo da criança hospitalizada pode manejar água de forma diferente da criança saudável. Dor, náusea, estresse e algumas doenças estimulam retenção de água mediada por hormônio antidiurético. Por isso, uma estimativa de necessidade basal não deve virar um volume fixo a ser repetido diariamente. Solução, quantidade, entradas por outras vias e capacidade de excreção precisam ser avaliadas em conjunto.

Líquido venoso é tratamento com indicação e efeitos adversos. Um volume excessivo pode produzir ganho de peso, edema e piora respiratória; água livre em excesso pode contribuir para hiponatremia. Uma restrição indevida pode manter hipovolemia ou comprometer perfusão. O raciocínio distingue ressuscitação, correção de déficit, manutenção e reposição de perdas em curso, evitando somar intervenções sem reconhecer a finalidade de cada uma.

Medicamentos também exigem essa distinção de unidades. Miligramas por quilograma por dose não significam miligramas por quilograma por dia. Depois de calcular a quantidade de princípio ativo, a concentração transforma essa massa em volume. Alterar a apresentação sem refazer a conta pode multiplicar a dose, mesmo que o número de mililitros permaneça igual. A conferência dimensional ajuda a reconhecer o erro antes da administração.

Entradas e saídas de líquidos são acompanhadas ao redor de uma criança hospitalizada.
O balanço considera entradas por diferentes vias, diurese, perdas digestivas, peso e resposta clínica. Os ícones não indicam que todas as vias são necessárias para toda criança. Um balanço isolado não determina a conduta; considerar também perdas não mensuradas e evolução clínica.

A via de administração modifica absorção, conforto, risco e necessidade de dispositivos. Se o trato gastrointestinal funciona e a criança consegue receber a quantidade necessária, a via enteral frequentemente permite retirar intervenções invasivas. Uma dose oral de pequeno volume pode ser tolerada antes que a criança consiga beber todo o necessário; por isso, tolerar um medicamento não prova, sozinho, suficiência de hidratação oral.

Dor e medo interagem. A criança pode chorar, recusar comida, ficar imóvel ou tornar-se muito quieta. Frequência cardíaca isolada não mede toda a experiência de dor, e ausência de choro não a exclui. Avaliação apropriada ao desenvolvimento, relato da criança quando possível, observação e informação do cuidador devem orientar tratamento e reavaliação. Analgesia eficaz pode permitir alimentação, sono e mobilização, além de reduzir sofrimento.

A internação interfere na rotina e no desenvolvimento. Ruído, interrupções noturnas, imobilidade e separação de figuras de vínculo podem provocar sofrimento e alterar comportamento. Preservar sono, brincar, mobilizar quando possível, explicar procedimentos e envolver o cuidador têm finalidade terapêutica. A família não substitui vigilância profissional, mas participa da identificação de mudanças e da preparação para o cuidado em casa.

05

Como se apresenta de verdade

Admissão: por que esta criança precisa do hospital?

Comece pela estabilidade atual e pela indicação de internação. Revise o atendimento anterior, mas examine a criança que chegou: uma melhora transitória pode ter se perdido durante o transporte e uma informação de horas atrás pode estar desatualizada. Confirme sinais vitais, suporte em uso, estado neurológico, perfusão, hidratação, dor e capacidade de alimentar-se. Identifique o que não pode esperar a visita da manhã.

A história de admissão organiza doença atual, estado habitual, comorbidades, alergias e tratamentos, além de condições de cuidado. Alergia exige descrição da reação e do momento, quando possível; um efeito adverso gastrointestinal não deve ser automaticamente registrado como anafilaxia. Entretanto, a falta de detalhes não autoriza expor a criança a um medicamento potencialmente envolvido sem esclarecer o risco.

Registre peso atual e, quando relevante, peso habitual recente, altura ou comprimento e estado nutricional. Edema, desidratação e obesidade podem modificar a escolha do peso utilizado em determinadas prescrições. Não adote uma fórmula única para todos os medicamentos: confira a recomendação específica e documente a base do cálculo. Uma estimativa de peso em emergência deve ser identificada como estimativa e substituída por medida quando possível.

Defina os problemas ativos e o suporte necessário para cada um. Pneumonia pode ser o diagnóstico, mas hipoxemia e incapacidade de ingerir líquidos podem ser os motivos imediatos da internação. Essa separação ajuda a estabelecer metas de alta desde o primeiro dia. Em Miguel, o problema atual é recuperar ingestão suficiente com dor controlada, após correção da desidratação.

A criança que melhora e ainda precisa de uma decisão

Melhora não é uma impressão global que dispensa descrição. Compare necessidade de oxigênio, esforço respiratório, perfusão, temperatura, dor, atividade, ingestão e diurese com o estado anterior. Pergunte à família e à enfermagem como foi a noite e o que mudou. Às vezes a informação decisiva é a criança ter voltado a brincar ou ter dormido após analgesia; outras vezes é a manutenção de vômitos que não aparece no resumo do plantão.

Uma criança em melhora deve ter suas intervenções revistas. Ainda precisa de acesso venoso? De infusão contínua? De coleta diária? De restrição alimentar? De monitorização contínua? A resposta depende da doença e da evolução. Manter um dispositivo por precaução sem finalidade definida pode prolongar exposição a dor, infecção, imobilidade e erros de administração.

Em Miguel, a melhora da perfusão após reidratação não basta para alta se ele ainda não consegue manter ingestão. Por outro lado, a persistência de lesões na boca não exige permanecer no hospital se dor e hidratação puderem ser manejadas com segurança em casa. O plano de hoje precisa testar essa possibilidade com observação e registro.

Deterioração: reconhecer tendência e pedir ajuda cedo

Compare a criança com seu estado anterior. Aumento do esforço respiratório, nova necessidade de oxigênio, queda de responsividade, piora de perfusão, taquicardia persistente, redução de diurese, dor desproporcional ou preocupação intensa do cuidador exigem reavaliação. Um conjunto de números ainda dentro de uma faixa pode estar caminhando na direção errada. A interpretação deve considerar tendência, contexto e exame.

Escores pediátricos de alerta precoce, quando utilizados e validados pelo serviço, ajudam a padronizar vigilância e acionamento. Eles não substituem o julgamento da equipe, e a preocupação clínica pode justificar escalonamento mesmo com escore baixo. Não copie tabelas de diferentes hospitais como se seus limites e fluxos fossem intercambiáveis. Use o instrumento institucional com a resposta prevista para cada nível.

Ao reconhecer deterioração, aproxime-se do paciente, chame ajuda e inicie avaliação estruturada de vias aéreas, respiração, circulação, estado neurológico e exposição, com suporte apropriado. Informe o supervisor e acione resposta rápida ou transferência conforme necessidade. A prioridade é assistência e transferência efetiva de responsabilidade, seguida de registro. Esperar a evolução escrita ficar pronta antes de pedir ajuda inverte essa ordem.

Dor, desconforto e capacidade funcional

Pergunte sobre dor e escolha um instrumento apropriado ao desenvolvimento e à capacidade de comunicação. Quando a criança consegue relatar, seu relato tem papel central; em crianças pequenas ou não verbais, use observação estruturada e informações do cuidador. Registre instrumento e momento para que a comparação seguinte tenha significado. Não converta automaticamente o choro em dor máxima nem a quietude em ausência de dor.

Associe medidas não farmacológicas ao tratamento indicado: presença do cuidador, posição confortável, explicação, distração, redução de estímulos e manejo da causa. Procedimentos dolorosos devem ter planejamento de analgesia e suporte, em vez de depender apenas de contenção. Sedação, quando necessária, exige profissionais, monitorização e condições específicas; não é uma extensão improvisada de uma receita analgésica.

A reavaliação deve ocorrer após tempo compatível com o início de ação do tratamento e antes de assumir que ele falhou. Verifique se a dose foi realmente administrada, se houve vômito e se a via era adequada. Dor persistente também pode indicar complicação ou diagnóstico diferente. Aumentar sucessivamente medicamentos sem reexaminar pode mascarar a evolução de um problema tratável.

Criança com condição crônica, dispositivos ou necessidades especiais

Reúna o plano habitual e os profissionais de referência. Identifique medicamentos que não podem ser interrompidos sem avaliação, como insulina ou anticonvulsivantes em situações pertinentes. Confira via, formulação e horário real de uso. A internação pode exigir ajustes, mas eles devem ser intencionais e documentados; a omissão por não aparecer na primeira receita é uma falha de conciliação.

Avalie dispositivos por indicação, funcionamento e sinais de complicação. Traqueostomia, gastrostomia, acesso central e outros recursos têm rotinas próprias, que exigem equipe habilitada e materiais disponíveis. Pergunte ao cuidador sobre o padrão habitual e as dificuldades recentes. Não interprete toda alteração como característica da doença de base, nem peça que o familiar assuma sozinho um cuidado para o qual o hospital tem responsabilidade.

Mobilidade, comunicação, alimentação e prevenção de lesão por pressão devem ser individualizadas. Crianças com deficiência podem necessitar de equipamentos e posições específicas. Planeje a alta com antecedência se depender de oxigênio, dieta especial, medicação de difícil acesso ou treinamento de cuidadores. A necessidade de organizar a rede não deve surgir apenas quando a doença aguda já estiver resolvida.

06

Como fechar o diagnóstico

Ler o prontuário e examinar com uma pergunta

Antes da visita, reúna eventos do período, sinais vitais e suas tendências, balanço, peso quando indicado, medicações administradas, resultados e pendências. Diferencie prescrição de administração: uma dose assinada pode não ter sido recebida por vômito, recusa, falta do produto ou problema no acesso. Consulte a enfermagem sobre esses eventos, pois eles podem explicar ausência de resposta.

No leito, confirme a história do período com criança e cuidador, avalie função e faça exame dirigido aos problemas ativos e a possíveis complicações. Não é necessário repetir uma narrativa completa de admissão todos os dias, mas é necessário atualizar o que sustenta as decisões. Um achado novo precisa de interpretação; um achado antigo copiado precisa continuar verdadeiro.

Para Miguel, as perguntas são: a dor está controlada, qual volume ele consegue ingerir, a perfusão e a diurese permanecem adequadas, e há algum sinal de complicação? A resposta orientará redução do suporte e observação de tolerância. Solicitar exames para rotina sem uma pergunta pode atrasar alta e produzir coleta desnecessária.

Conciliação medicamentosa e prescrição completa

Antes de prescrever e administrar, confirme a identidade por identificadores apropriados, como nome completo e data de nascimento; o número do leito não identifica a pessoa com segurança. Compare medicamentos de casa, os administrados no pronto atendimento e os que constam na prescrição atual. Pergunte sobre produtos sem receita, gotas, vitaminas, fitoterápicos e medicamentos de outros familiares. Para cada item, decida manter, ajustar, suspender ou substituir e registre o motivo. Na alta, essa comparação será feita novamente para evitar que um tratamento temporário se torne permanente ou que um tratamento essencial desapareça.

A linha de prescrição precisa permitir que outra pessoa administre sem adivinhar. Inclua medicamento, forma e concentração, dose em massa ou unidade apropriada, volume correspondente quando líquido, via, frequência, duração ou data de revisão e condições de uso. Se for sob demanda, indique o motivo, o intervalo mínimo e o máximo permitido. Expressões como fazer se necessário, sem esses elementos, transferem uma decisão incompleta à equipe.

Em medicação intravenosa, concentração final, diluente, volume, velocidade e compatibilidade exigem referência específica. Não transforme uma orientação de dose em instrução de preparo sem conferir a apresentação e o protocolo da farmácia. Medicamentos de alta vigilância precisam das barreiras institucionais, incluindo dupla checagem quando prevista. O [protocolo do Ministério da Saúde e da Anvisa](https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2020/01/protoc_identificacaoPaciente.pdf) destaca conferência de cálculos, peso e informações completas na prescrição.

Peso em quilogramas, unidades explícitas e atenção ao separador decimal reduzem ambiguidades. Evite zero desnecessário depois da vírgula, que pode aumentar uma dose se a vírgula não for vista, e use zero antes de valores menores que um. Abreviações pouco claras e conversão automática de gotas entre frascos devem ser evitadas. Uma dúvida de preparo deve ser resolvida antes da administração com o prescritor e a farmácia.

Cálculo de dose: da recomendação ao volume

A primeira pergunta é se a recomendação está escrita por dose ou por dia. Para uma recomendação de 15 mg/kg por dose em uma criança de 16 kg, a conta é 15 × 16 = 240 mg por dose. Se o medicamento será administrado a cada seis horas, podem ocorrer quatro doses em 24 horas; o total será 960 mg no dia, equivalente a 60 mg/kg/dia. O intervalo e o limite diário precisam ser conferidos junto com a dose individual.

No exemplo de Miguel, paracetamol oral pode ser utilizado a 15 mg/kg por dose a cada seis horas para dor, com limite adotado de 60 mg/kg/dia, respeitando também o máximo absoluto aplicável e condições clínicas que exijam ajuste. Para uma solução de 32 mg/mL, 240 ÷ 32 = 7,5 mL por dose. A via oral é preferida quando tolerada. A [diretriz de analgesia do RCH](https://www.rch.org.au/clinicalguide/guideline_index/Analgesia_and_sedation/) sustenta a dose por administração e a necessidade de considerar concentração, resposta e limite diário; este exemplo usa o esquema de quatro doses, sem aplicar esquemas de maior dose para dor intensa.

Conversão de dose em massa para volume de solução oral em um exemplo pediátrico.
Exemplo de cálculo de paracetamol oral: 16 kg × 15 mg/kg por dose = 240 mg por dose; com concentração de 32 mg/mL, o volume é 7,5 mL por dose. A seringa é um esquema com zero junto à ponta. Conferir indicação, intervalo, limite diário e apresentação; não é uma prescrição completa.

Se a farmácia fornecer outra concentração, o volume muda. Com 200 mg/mL, a mesma massa de 240 mg corresponderia a 1,2 mL. Administrar os mesmos 7,5 mL entregaria 1.500 mg, mais de seis vezes a dose calculada para esse exemplo. Essa conta não autoriza intercâmbio informal: a apresentação precisa ser confirmada, a receita atualizada e o dispositivo de medida adequado fornecido.

Agora considere um exercício de unidades, sem indicar um medicamento específico: uma recomendação de 60 mg/kg/dia dividida em três administrações para 16 kg produz 960 mg por dia e 320 mg em cada administração. Não são 960 mg três vezes ao dia. O nome do fármaco, a indicação, o máximo e a função orgânica ainda seriam necessários para validar qualquer prescrição real. Aprender a conta não substitui escolher corretamente o tratamento.

Antes de assinar, faça a verificação inversa: volume por dose multiplicado pela concentração deve recuperar a massa pretendida; massa por dose multiplicada pelo número máximo de administrações deve respeitar o limite diário. Confira produtos combinados e doses dadas fora da prescrição para evitar duplicidade de princípio ativo. Na alta, peça que o cuidador demonstre a medida com a seringa oral que realmente utilizará.

Líquidos: estimativa basal, volume prescrito e monitorização

Primeiro defina a finalidade. A criança tem choque, déficit ainda não corrigido, necessidade basal sem via enteral suficiente ou perdas em curso? Cada condição exige raciocínio próprio. A fórmula de manutenção não é uma prescrição de ressuscitação nem um cálculo de reposição de desidratação. Crianças com doença renal, cardíaca ou hepática, distúrbios importantes de sódio e outras condições específicas exigem adaptação e, frequentemente, orientação especializada.

Para a estimativa diária pelo método de Holliday–Segar, utilizam-se 100 mL/kg para os primeiros 10 kg, 50 mL/kg para os próximos 10 kg e 20 mL/kg para o peso acima de 20 kg. Em Miguel, com 16 kg, a estimativa é 1.000 + 300 = 1.300 mL em 24 horas. Dividir por 24 produz cerca de 54,2 mL/h. A regra horária 4–2–1 é uma aproximação: no mesmo peso, resulta em 52 mL/h. Não são conversões matematicamente idênticas; escolha um método e mantenha coerência.

A estimativa não determina automaticamente o volume venoso. Some líquidos por boca, sonda, medicamentos, diluentes e outras infusões. Considere perdas, peso, sódio, função renal, perfusão e possibilidade de retenção de água. Muitas crianças agudamente doentes precisam de volume menor que a estimativa basal; isso deve ser individualizado. Se, após avaliação, a equipe escolher dois terços da estimativa diária para Miguel, o total será aproximadamente 867 mL/dia, ou 36,1 mL/h antes de descontar outras entradas. A escolha dessa fração é uma decisão clínica do exemplo, não uma regra para toda criança internada.

Quando a via venosa é necessária para manutenção, soluções isotônicas são utilizadas em muitas situações para reduzir risco de hiponatremia; a necessidade de glicose e potássio é avaliada conforme idade, ingestão e exames. Potássio não deve ser adicionado sem verificar função renal, potassemia, diurese e condições de preparo. Prefira soluções padronizadas e prontas quando disponíveis. Neonatos e condições especiais seguem protocolos próprios. As recomendações e as fórmulas são discutidas na [diretriz de líquidos intravenosos do RCH](https://www.rch.org.au/clinicalguide/guideline_index/Intravenous_fluids/).

Monitore peso, balanço, sinais clínicos e eletrólitos conforme risco. Balanço positivo isolado não prova sobrecarga: pode refletir correção de um déficit; balanço aparentemente equilibrado não exclui perdas não registradas. A redução da diurese pode decorrer de baixa ingestão, hipoperfusão, lesão renal ou erro de registro. Antes de aumentar a infusão, examine a criança e confira o contexto. Em Miguel, a melhora da ingestão deve levar à revisão do volume venoso, não à soma permanente das duas vias.

Exames e resultados: o que muda uma decisão hoje?

Cada coleta precisa de pergunta e de consequência possível. Hemograma, marcadores inflamatórios e eletrólitos não devem ser repetidos apenas porque o paciente permanece internado. Em uma criança com líquido venoso, alteração renal, perdas importantes ou evolução desfavorável, eletrólitos e glicemia podem ser necessários para ajustar o tratamento; o intervalo depende da estabilidade e do risco. Uma criança estável em melhora, sem indicação específica, pode não precisar de novo exame antes da alta.

Resultados devem ser interpretados pela probabilidade clínica e pelo momento da doença. Um marcador inflamatório ainda elevado pode acompanhar uma recuperação clínica; um valor em queda não garante segurança diante de nova hipoxemia. Não se espera normalização laboratorial universal para liberar uma criança cuja doença permite acompanhamento ambulatorial. Por outro lado, um resultado crítico não pode ficar para a visita seguinte só porque o paciente parecia bem horas antes.

Defina quem verá resultados pendentes, inclusive após a alta. Uma cultura colhida antes da melhora pode exigir mudança posterior de tratamento. O sumário precisa registrar a pendência, o responsável e a forma de contato. A frase família orientada a buscar exames não transfere adequadamente uma responsabilidade clínica que pode mudar o cuidado.

Alta: capacidade clínica, tratamento viável e continuidade

A alta começa a ser planejada na admissão e é confirmada pela evolução. Pergunte se a criança está estável, se o motivo de internação foi resolvido ou pode ser manejado fora do hospital, se consegue receber alimentação e medicação necessárias e se a família dispõe de condições e apoio. A ausência de febre pode fazer parte da avaliação de uma doença, mas não é um critério universal isolado de alta.

Teste o plano que será utilizado em casa quando isso for necessário e seguro. Uma criança que precisa de medicação oral deve demonstrar tolerância; um cuidador que administrará um medicamento líquido precisa saber medi-lo. Oxigênio domiciliar, alimentação por dispositivo e medicamentos de difícil acesso exigem organização prévia. A decisão considera também transporte, distância, possibilidade de retorno e apoio da rede, sem transformar vulnerabilidade social em culpa familiar.

No sumário, informe motivo da internação, diagnósticos e incertezas relevantes, evolução, procedimentos, medicamentos de saída, tratamentos suspensos, resultados pendentes e plano de seguimento. Dê sinais de alarme específicos e diga onde procurar atendimento. Uma alta clinicamente apropriada ainda pode falhar se ninguém souber quem acompanhará uma cultura positiva no dia seguinte.

07

A visita transforma dados em decisões

Para cada problema ativo, registrar estado atual, interpretação, ação e critério de revisão.

  1. 1Confirmar estabilidade e ouvir criança, cuidador e enfermagem.
  2. 2Revisar evolução, administração real, balanço e pendências.
  3. 3Examinar com foco nos problemas e nas possíveis complicações.
  4. 4Manter, ajustar ou retirar cada intervenção com uma razão.
  5. 5Definir contingências, passagem do cuidado e condições de alta.

Motivo de permanecer

Qual necessidade ainda exige o hospital hoje? A resposta orienta as metas do dia.

Tratamento revisado

Cada medicamento, líquido, dispositivo e exame precisa de indicação atual e prazo de reavaliação.

Alta preparada

A criança está estável, o plano é executável e a continuidade tem responsável.

Dose, dia e volume

PerguntaCálculo no exemplo de 16 kg
15 mg/kg por dose15 × 16 = 240 mg por dose.
Quatro doses em 24 horas240 × 4 = 960 mg/dia = 60 mg/kg/dia.
Solução de 32 mg/mL240 ÷ 32 = 7,5 mL por dose.
Outra concentraçãoRefazer a conversão; o volume anterior não é mantido automaticamente.

Quatro finalidades de líquidos

FinalidadePergunta antes de prescrever
RessuscitaçãoHá comprometimento circulatório que exige intervenção imediata?
Correção de déficitQual déficit persiste e como deve ser corrigido nesta condição?
ManutençãoQual necessidade basal não está sendo atendida por outras vias?
Perdas em cursoQuais perdas adicionais foram medidas ou estimadas e precisam de reposição?

Conteúdo mínimo de uma passagem útil

ElementoExemplo para Miguel
SituaçãoCriança de 4 anos, 16 kg, estável após correção de desidratação.
Problema atualDor oral e ingestão ainda insuficiente para suspender suporte.
Ação do períodoReavaliar analgesia e registrar tolerância à oferta oral.
ContingênciaReexaminar se houver prostração, piora de perfusão ou nova recusa persistente.
Pendência e responsávelEquipe do plantão verificará ingestão e decidirá ajuste de infusão conforme plano.

Os cálculos ilustram conferência de unidades em um paciente e uma apresentação definidos. Prescrição real exige indicação, limites, contraindicações e validação clínica. A estimativa de manutenção não substitui avaliação de volume nem se aplica indistintamente a condições especiais.

08

A conduta, hora a hora

  1. Na admissão: estabilizar, conciliar e estabelecer metas

    Confirme o estado atual, a indicação de internação e o suporte em uso. Revise alergias e medicamentos, registre peso e organize os problemas. Explique à família o que motivou a internação, o que será observado e quais mudanças poderão permitir alta. Identifique quem acompanhará a criança e como a equipe será acionada diante de uma mudança. As prescrições iniciais incluem alimentação, hidratação quando necessária, medicamentos indicados, monitorização e cuidados específicos. Não copie o conjunto de outra criança. O [Estatuto da Criança e do Adolescente, artigo 12](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm), prevê condições para permanência de um dos pais ou responsável durante a internação; essa presença integra o cuidado, preservando responsabilidades da equipe.

    Prescrição
    • Registrar peso em kg, alergias e problemas ativos.
    • Conciliar medicamentos prévios e decisões de manutenção, ajuste ou suspensão.
    • Definir frequência de observações conforme gravidade e protocolo institucional.
  2. No primeiro período: conforto, alimentação e tratamento dirigido

    Trate a causa conforme o capítulo clínico correspondente e planeje suporte. Em Miguel, analgesia, oferta de líquidos toleráveis e observação da ingestão são centrais. Não há indicação de antibiótico apenas por haver internação ou lesões orais de uma infecção viral não complicada. A etiologia e a fase da doença determinam se há tratamento específico adicional; a rotina da enfermaria não cria essa indicação. Para dor contínua, pode ser útil programar analgesia por período curto e reavaliar a necessidade, em vez de esperar sofrimento intenso a cada dose. No exemplo, a criança tolera pequeno volume de medicação oral e não tem condição que exija ajuste da dose proposta. O esquema será reavaliado em 24 horas e antes disso se a dor persistir ou surgirem efeitos adversos. Dor intensa ou refratária exige reexame e escalonamento apropriado, sem limitar o cuidado a essa receita ilustrativa.

    Prescrição
    • Exemplo para Miguel, 16 kg: paracetamol solução oral 32 mg/mL, 240 mg (7,5 mL), via oral, a cada 6 horas por 24 horas, com reavaliação.
    • Limite do esquema: 4 doses em 24 horas, total de 960 mg/dia (60 mg/kg/dia); não associar outros produtos com paracetamol.
    • Reavaliar dor e capacidade de ingerir líquidos após o início de ação esperado.
    • Oferecer alimentação e líquidos compatíveis com tolerância e doença; registrar a ingestão.
  3. Ao revisar a hidratação: prescrever o volume que ainda é necessário

    Miguel já teve o déficit corrigido. A equipe verifica perfusão, diurese, eletrólitos disponíveis e todas as entradas. A estimativa basal é apenas ponto de partida; o volume venoso deve cobrir o que ainda falta, respeitando a condição clínica. Se a ingestão oral se torna suficiente, reduza e suspenda a infusão conforme tolerância e observação, em vez de completar automaticamente um dia de soro. Se a via enteral ainda não atende à necessidade, avalie as alternativas, incluindo oferta fracionada e via por sonda quando indicada e viável. A escolha da via deve considerar segurança, tolerância e recursos, com explicação à família. Se mantiver solução venosa, defina composição, velocidade, monitorização e horário de revisão. Qualquer sinal de sobrecarga, alteração de sódio ou perfusão inadequada exige reavaliação clínica e do esquema. Um exemplo completo de manutenção venosa, apenas se a avaliação de Miguel justificar a fração de dois terços e a ingestão enteral ainda for desprezível, é solução padronizada de cloreto de sódio a 0,9% com glicose a 5%, por via intravenosa em bomba, a 36 mL/h, totalizando 864 mL em 24 horas após arredondamento. A solução deve ser fornecida pronta ou preparada pelo fluxo validado da instituição; não se improvisa a mistura à beira do leito. A inclusão de potássio depende da avaliação já descrita. Reavalie a necessidade e todas as entradas no mesmo período, inclusive após a oferta oral, e reduza ou suspenda quando possível. Eletrólitos e glicemia devem ser avaliados no início e acompanhados conforme risco; se a infusão continua, a revisão laboratorial em cerca de 24 horas é uma referência em criança estável, com controle mais precoce, por exemplo em 4–6 horas, diante de maior gravidade ou valores alterados.

    Prescrição
    • Distinguir necessidade de manutenção de déficit e perdas ainda presentes.
    • Somar entradas oral, enteral e venosa, incluindo diluentes e medicamentos.
    • Registrar volume e composição escolhidos, motivo e momento de revisão.
    • Reavaliar para retirada do acesso quando não houver outra indicação.
  4. Na visita diária: evoluir por problemas e retirar o que perdeu indicação

    Uma evolução útil pode ser organizada em dados subjetivos, dados objetivos, avaliação e plano, ou em outro formato institucional equivalente. A estrutura importa menos que a ligação entre informação e decisão. Para cada problema, descreva a tendência e a ação. Evite uma lista de exames seguida de manter conduta sem justificar a necessidade atual de cada intervenção. No exemplo: dor oral melhor após analgesia; ingestão em recuperação, ainda em observação; perfusão e diurese adequadas; sem sinais de complicação. O plano inclui verificar ingestão ao longo do período, ajustar líquidos, reavaliar analgesia e confirmar critérios de alta. Se a hipótese mudar, registre por quê. As decisões discutidas com o supervisor precisam aparecer de forma clara para toda a equipe.

    Prescrição
    • Atualizar problemas ativos, hipótese e resposta ao tratamento.
    • Revisar indicação de cada medicamento, exame, dispositivo e monitorização.
    • Definir metas do dia e contingências para o plantão seguinte.
  5. Se houver deterioração: agir e transferir responsabilidade

    Interrompa atividades administrativas e reavalie no leito. Chame o supervisor e a resposta apropriada, inicie suporte e prepare informações essenciais: idade, peso, problema, mudança observada, sinais vitais, tratamento em curso e resposta às medidas. O acionamento deve ser claro, com pedido concreto de avaliação imediata quando necessário. Depois da intervenção, confirme quem permanece responsável pela criança, onde ocorrerá o próximo cuidado e quais observações devem continuar. Registre horários, achados, profissionais acionados, intervenções e resposta. Uma transferência só se completa quando a equipe receptora recebe e assume o cuidado.

    Prescrição
    • Acionar ajuda diante de deterioração ou preocupação clínica relevante.
    • Aplicar abordagem estruturada e suporte conforme a condição.
    • Confirmar passagem do cuidado e documentar a evolução após a assistência inicial.
  6. No planejamento da alta: testar o cuidado que será feito em casa

    Observe se Miguel mantém ingestão suficiente com analgesia viável por via oral, sem suporte venoso e sem sinais de desidratação recorrente. A duração dessa observação é individualizada pela evolução e pelo contexto. Não há necessidade de esperar todas as lesões desaparecerem se o plano ambulatorial é adequado. A decisão será confirmada pelo profissional responsável. Faça conciliação de saída. Especifique o que continua, o que termina e como usar medicamentos sob demanda. Entregue apresentação e dose coerentes com o produto disponível, com intervalo e limite. O cuidador deve demonstrar a medida e explicar sinais de piora. Organize retorno e responsabilidade por pendências; se houver barreira de acesso, resolva-a antes de considerar o plano executável.

    Prescrição
    • Confirmar estabilidade, tolerância ao plano domiciliar e resolução da necessidade hospitalar.
    • Conferir receita, apresentação disponível e demonstração do cuidador.
    • Entregar sumário, sinais de alarme, retorno e responsável por resultados pendentes.
  7. Após a alta: concluir pendências e assegurar seguimento

    O cuidado não termina quando o leito é liberado. Resultados que podem mudar conduta devem ser revisados e comunicados pelo responsável definido. O serviço de seguimento precisa receber informação suficiente e acessível. Quando houver necessidade de contato ativo, utilize o canal combinado com a família e respeite confidencialidade. Uma reinternação ou retorno precoce pode revelar evolução da doença, barreira de acesso, instrução incompleta ou erro de medicação. A análise deve buscar a causa e corrigir o processo, sem atribuir automaticamente o problema a falta de cuidado familiar. Essa revisão também ensina a melhorar a próxima alta.

    Prescrição
    • Revisar e encaminhar resultados pendentes conforme o plano.
    • Confirmar comunicação de mudanças relevantes ao cuidador e à equipe de seguimento.
    • Reavaliar prontamente se houver retorno com piora.
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Como saber se está funcionando

Reavaliar é comparar o esperado com o observado e decidir o que fazer com a diferença. A equipe precisa definir o parâmetro antes de esperar resposta. Um medicamento para dor pode melhorar conforto e ingestão; uma infusão pode corrigir necessidade hídrica, mas também produzir sobrecarga. A observação deve procurar benefício e dano.

O intervalo depende do risco e da intervenção. Uma criança instável precisa de observação contínua ou muito frequente em ambiente apropriado. Uma criança estável pode seguir o protocolo da enfermaria, com reavaliação adicional após medicação, mudança de suporte ou preocupação da família. Um horário programado não impede avaliação antecipada.

Cuidador demonstra uso de seringa oral na preparação para alta.
Na preparação para a alta, o cuidador demonstra o uso da seringa oral sem agulha e explica o plano. A cena não fornece dose ou graduação para copiar: conferir rótulo, prescrição, dispositivo, retorno e sinais de alarme individualizados.
Dor e funçãoApós o início de ação esperado e antes de manter ou intensificar o esquema.

Esperado: Conforto, sono e ingestão melhoram sem efeitos adversos relevantes.

Se não melhora: Conferir administração, reexaminar a causa e ajustar tratamento com supervisão.

Ingestão e hidrataçãoAo longo de cada período e após reduzir suporte.

Esperado: Ingestão suficiente, perfusão e diurese compatíveis com estabilidade.

Se não melhora: Reexaminar, quantificar perdas e rever via e volume necessários.

Peso e balançoConforme risco e uso de líquidos, frequentemente diariamente durante infusão.

Esperado: Tendência coerente com objetivo, sem sinais de sobrecarga ou déficit.

Se não melhora: Conferir registros e avaliar clinicamente antes de alterar o volume.

Eletrólitos e função renalNa indicação inicial e em intervalos definidos pela estabilidade e pelo tratamento.

Esperado: Valores compatíveis com o plano e ausência de tendência preocupante.

Se não melhora: Rever solução, volume, medicamentos e necessidade de cuidado especializado.

Suporte e dispositivosEm cada visita e após melhora clínica.

Esperado: Retirada progressiva quando a indicação termina.

Se não melhora: Explicitar por que ainda são necessários e definir novo momento de revisão.

Prontidão para altaDesde a admissão e na visita em que se considera liberação.

Esperado: Plano domiciliar tolerado, compreendido e acessível.

Se não melhora: Resolver a necessidade clínica ou a barreira que impede cuidado seguro fora do hospital.

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Onde o erro machuca

Copiar a prescrição de ontem sem rever as indicações.

O dano: Líquidos, dispositivos ou medicamentos podem continuar após perderem necessidade.

Como pegar a tempo: Revisar cada intervenção em relação ao estado atual e às metas do dia.

Confundir mg/kg/dia com mg/kg por dose.

O dano: A quantidade diária pode ser multiplicada indevidamente.

Como pegar a tempo: Identificar a unidade da recomendação, dividir quando indicado e conferir o total diário.

Manter os mesmos mililitros quando muda a concentração.

O dano: A massa administrada pode aumentar várias vezes.

Como pegar a tempo: Refazer a conversão, atualizar a receita e demonstrar o novo volume.

Usar manutenção como prescrição universal de líquidos.

O dano: Déficit, retenção de água, perdas e condições especiais podem ser manejados incorretamente.

Como pegar a tempo: Definir finalidade, somar entradas e monitorar resposta clínica e laboratorial.

Esperar a visita programada diante de deterioração.

O dano: A criança pode perder tempo de suporte e transferência.

Como pegar a tempo: Reavaliar no leito e acionar ajuda pelo estado clínico e pela tendência.

Dar alta sem responsável por resultados e sem verificar a receita.

O dano: Uma mudança necessária pode não chegar à família e erros podem continuar no domicílio.

Como pegar a tempo: Conciliar, ensinar, confirmar acesso e atribuir pendências a um responsável.

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O que dizer ao paciente e à família

Explicar a internação

Hoje o Miguel ainda precisa que a gente acompanhe quanto consegue beber e se a dor está controlada. Vamos testar o plano que vocês poderão fazer em casa e rever a necessidade do soro.

Não diga: Dizer apenas que ficará em observação, sem explicar o que será observado.

Preocupação do cuidador

O que está diferente do jeito habitual dele? Vou reexaminar e comparar com as últimas observações.

Não diga: Desconsiderar a preocupação porque um número isolado está dentro da faixa.

Retirada de suporte

Ele começou a beber melhor. Vamos reduzir o líquido pela veia e observar se continua bem hidratado com o que recebe pela boca.

Não diga: Apresentar a retirada como economia de material ou prometer alta antes de verificar tolerância.

Demonstração da receita

Este frasco tem uma concentração específica. Mostre, por favor, quanto você colocará nesta seringa e em que intervalo, para eu conferir se expliquei bem.

Não diga: Usar colher de cozinha como medida ou supor que todos os frascos têm a mesma concentração.

Alta e retorno

Se ele ficar muito abatido, não conseguir beber, urinar muito menos ou tiver dificuldade para respirar, procure o serviço indicado antes do retorno marcado. Vamos deixar também quem acompanhará qualquer resultado pendente.

Não diga: Orientar voltar se piorar sem dizer como reconhecer a piora ou onde buscar ajuda.

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O raciocínio, em voz alta

Miguel, 4 anos e 16 kg, teve desidratação corrigida e mantém dor oral em melhora. Tolera pequeno volume de medicação, começou a beber e continua com infusão copiada do dia anterior. A família pergunta sobre alta.

  1. 1. Identificar o motivo atual de internação

    A equipe confirma estabilidade e ausência de complicação. O motivo de permanecer é garantir ingestão suficiente com controle de dor, e não esperar desaparecimento de todas as lesões.

  2. 2. Conferir prescrição e resposta

    A dose oral de paracetamol do exemplo é calculada pelo peso e convertida para a concentração disponível. A administração e a resposta são verificadas. Outros produtos com o mesmo princípio ativo são excluídos da rotina para evitar duplicidade.

  3. 3. Rever líquidos

    A estimativa basal é calculada, mas a prescrição considera a condição atual e a ingestão. Como o déficit já foi corrigido, ele não é somado novamente. A equipe reduz suporte à medida que a oferta enteral atende à necessidade, acompanhando sinais clínicos e diurese.

  4. 4. Observar o plano domiciliar

    Miguel consegue beber e receber analgesia oral, permanece ativo e não apresenta sinais de desidratação recorrente. O período de observação e a decisão final consideram evolução e condições de retorno, sem um tempo universal arbitrário.

  5. 5. Concluir a alta

    O cuidador demonstra a medida com a seringa oral, recebe instruções de intervalo e limite e sabe quando procurar atendimento. A equipe concilia medicamentos, entrega sumário, define retorno e confirma se há resultados pendentes. O profissional responsável valida a alta.

A decisão resulta da resolução da necessidade hospitalar e da viabilidade do cuidado em casa. Revisar a prescrição e testar o plano domiciliar foram intervenções clínicas, tão relevantes quanto reconhecer o diagnóstico inicial.

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Faça você

Helena, 7 anos, internada por pneumonia, está mais sonolenta e precisou aumentar o suporte de oxigênio durante a madrugada. A infusão de manutenção não foi revista desde a admissão, e o peso aumentou. O balanço tem registros incompletos. Na passagem, foi dito para repetir exames na visita da manhã.

  1. Prioridade

    Qual mudança exige reavaliação imediata e que ajuda você acionaria antes de preparar a evolução?

  2. Hipóteses e dados

    Como investigar progressão da doença, complicação, efeito de medicamentos e possível sobrecarga sem assumir uma causa apenas pelo ganho de peso?

  3. Prescrição

    Quais entradas, perdas, soluções, medicamentos e parâmetros você revisaria? Por que não basta aumentar ou suspender líquidos apenas pelo balanço registrado?

  4. Passagem do cuidado

    Formule uma comunicação breve com situação, mudança, suporte atual e pedido concreto à equipe responsável.

Ver como fecharíamos

Sonolência nova e aumento da necessidade de oxigênio exigem avaliação imediata, suporte e acionamento do supervisor ou resposta rápida conforme gravidade. A equipe reexamina respiração, circulação e estado neurológico, confere medicações e busca progressão ou complicação da pneumonia, além de sobrecarga e outras causas. Peso, balanço e exames são integrados ao estado clínico; registros incompletos não sustentam uma decisão isolada de volume. A comunicação deve explicitar a deterioração, a necessidade de avaliação urgente e o suporte em curso, com transferência efetiva de responsabilidade e registro após a assistência inicial.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A fórmula estima necessidade basal em um contexto definido; não determina sozinha a infusão. Outras entradas, perdas, capacidade de excreção e doença modificam a prescrição. A regra horária é uma aproximação e não uma conversão exata do cálculo diário.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Refaça, sem consultar o texto, a dose e o volume do exemplo de paracetamol para 16 kg e solução de 32 mg/mL. Depois calcule a estimativa diária de manutenção e explique por que ela ainda não é uma prescrição de líquido venoso.

Em 30 dias

Escolha um paciente da enfermaria e apresente três problemas ativos com dados, interpretação e ação. Identifique uma intervenção que já poderia ser retirada e escreva uma passagem de plantão com contingência e responsável. Por fim, redija os critérios de alta e a forma de verificar se o cuidador consegue executar o plano.

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Agora atenda

Simule a visita de uma criança de 4 anos, 16 kg, com desidratação corrigida e ingestão em recuperação. Confira administração de medicamentos, calcule uma dose oral, revise todas as entradas de líquidos, escreva uma evolução por problemas e ensine o plano de alta ao cuidador.

Cuidado da criança hospitalizada: admissão, prescrição, evolução e alta — Internato | OsceLabs