PediatriaPuericultura e Desenvolvimento

O marco que ela tinha e perdeu

Marcos do desenvolvimento neuropsicomotor e sinais de alerta por faixa etária

O que se observa em cada faixa etária com a caderneta na mão, qual sinal muda a consulta em cada idade, e por que a criança que ainda não faz o marco preocupa menos do que a que já fazia e parou.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Caderneta da criança: menino: passaporte da cidadania. 7ª edição. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 112 p. Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional; reprodução parcial ou total permitida desde que citada a fonte

Brasil. Ministério da Saúde. Caderneta da criança: menino: passaporte da cidadania. 3ª edição. Brasília: Ministério da Saúde, 2021

Brasil. Presidência da República. Lei nº 13.438, de 26 de abril de 2017. Altera a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), para tornar obrigatória a adoção pelo Sistema Único de Saúde (SUS) de protocolo que estabeleça padrões para a avaliação de riscos para o desenvolvimento psíquico das crianças. Diário Oficial da União, 27 de abril de 2017

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento (gestão 2022-2024). Triagem precoce para autismo: Modified Checklist for Autism in Toddlers – M-CHAT-R/F. Manual de Orientação nº 150, 25 de abril de 2024

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Neurologia (gestão 2019-2021). Sinais de alerta na avaliação neurológica da criança e do adolescente. Manual de Orientação nº 1, abril de 2020

01

Responda antes de ler

Lactente de 7 meses, nascido a termo, sem intercorrências, comparece à consulta. Todos os quatro marcos da faixa de 6 a 9 meses estão presentes. Ao revisar os antecedentes, você registra que a mãe está em tratamento de depressão pós-parto e que o pré-natal foi iniciado no terceiro trimestre. Perímetro cefálico e exame físico sem alterações. Como o instrumento classifica esta criança?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, oito e vinte da manhã, unidade básica de um bairro que cresceu em volta de uma antiga fábrica de cerâmica. A manhã é de puericultura, com dezenove fichas na mesa, quase todas de crianças com menos de dois anos. A médica da equipe, a doutora Heloísa Valadão, dividiu a manhã no corredor: ela fica com as consultas de primeiro mês e com as duas crianças que voltaram de internação, você fica com o resto, e chama quando precisar. Você é o interno de pediatria e está no segundo dia aqui.

A terceira ficha da manhã é de Teodora Cotrim, dezesseis meses, e a mãe entra com a caderneta já aberta na mão — não na página que ela quer mostrar, mas em qualquer página, do jeito de quem carrega o documento sem saber onde está a informação. Divanira tem vinte e dois anos, trabalha meio período numa lanchonete e trouxe a filha no colo porque a criança não quis andar do ponto de ônibus até aqui. Ela senta, ajeita Teodora no colo e diz a frase pela qual você vai conduzir a próxima meia hora: ela falava, doutor.

Você pergunta o que ela falava. Divanira responde depressa, como quem já ensaiou: falava água, falava mamã, chamava o irmão de dedé. Fazia tchau quando o pai saía para o trabalho. E aí parou. Você pergunta quando parou e ela não sabe dizer o mês — diz que foi depois do Natal, que primeiro ficou mais quieta, que a família achou que era manha, que a avó disse que menino demora mais e que ela é menina mas que às vezes acontece. Faz uns dois meses que Teodora não fala nenhuma dessas palavras. Não é que fale menos: não fala.

A criança que está no colo, enquanto isso, parece bem. Está corada, bem nutrida, veste roupa limpa, tem duas fileiras de dentes e olha para a parede atrás de você com uma atenção que a princípio você confunde com timidez. Ela senta sozinha, transfere um chaveiro de uma mão para a outra, faz pinça no zíper da bolsa da mãe, anda com apoio quando a mãe a coloca em pé segurando pelo dedo. Você anota mentalmente: são todos marcos da faixa dos nove aos doze meses, e todos estão presentes. O peso está na curva. O comprimento está na curva. A vacina está em dia.

Aqui está a armadilha desta consulta, e é por isso que ela abre este capítulo. Se você pegar a caderneta, abrir na página dos marcos, localizar a coluna dos dezesseis meses e conferir os quatro marcos daquela faixa, vai encontrar dois ausentes — fala três palavras e constrói torre de dois cubos — e vai classificar a criança como alerta para o desenvolvimento, com retorno em trinta dias. Se você for uma faixa atrás, como o instrumento manda, vai encontrar diz uma palavra ausente também, e a classificação sobe para provável atraso, com acionamento da equipe multiprofissional. Os dois caminhos usam o instrumento corretamente. Nenhum dos dois registra o que Divanira te contou na primeira frase, que é a informação mais grave da consulta inteira: a criança tinha a palavra e perdeu.

O instrumento da caderneta classifica ausência. Ele pergunta se o marco está presente, se está ausente ou se não foi verificado, e a partir daí decide entre elogiar, marcar retorno em trinta dias ou acionar a rede. Ele não tem campo para regressão. Uma criança de dezesseis meses que nunca falou uma palavra e uma criança de dezesseis meses que falava quatro e emudeceu produzem exatamente o mesmo preenchimento e exatamente a mesma classificação — e não são o mesmo problema, não têm a mesma lista de diagnósticos por trás e não deveriam sair da unidade com a mesma conduta. O documento da Sociedade Brasileira de Pediatria que trata de sinais de alerta neurológicos põe a perda de habilidade adquirida entre os poucos sinais que valem para todas as idades, ao lado da forte preocupação dos pais. A caderneta, que é o papel que você tem na mão, não a menciona em lugar nenhum.

Este capítulo é sobre as duas coisas ao mesmo tempo. Sobre usar bem o instrumento que existe — porque ele é bom, é gratuito, está no colo de toda mãe que entra na sua sala e resolve a maioria das consultas — e sobre saber exatamente onde ele não vai te ajudar, para não confundir o silêncio do formulário com a ausência de problema. Você vai aprender o que se observa em cada faixa etária, qual sinal muda a conduta em cada idade, a diferença entre o atraso que se acompanha e o atraso que se encaminha hoje, e por que a frase ela falava e parou é a única que, sozinha, tira uma criança da fila de espera.

03

Quem adoece disso

Comece pelo denominador que você tem de fato. A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança lembra que, desde a Portaria GM/MS nº 1.058, de 4 de julho de 2005, toda criança nascida em maternidade brasileira, pública ou privada, deve receber a caderneta. Ela acompanha a criança até os 9 anos; a partir dos 10, a caderneta entregue é a do adolescente. Isso significa que o instrumento de vigilância do desenvolvimento deste país não é um teste que se pede, não é um encaminhamento e não depende de equipamento: é um caderno que a família já carrega, com dezessete faixas etárias e sessenta e oito marcos impressos, gratuito e universal. Nenhum outro rastreio da pediatria brasileira tem essa cobertura potencial. Isso é o teto. O piso é outra conversa, e é a conversa que você vai ter no corredor.

O primeiro número que muda a sua consulta não é de prevalência, é de calendário. A caderneta prevê consulta na primeira semana e depois no 1º, 2º, 4º, 6º, 9º, 12º, 18º, 24º e 36º mês de vida — nove consultas registradas em quadro próprio depois da primeira semana, sete delas dentro dos primeiros dezoito meses. Repare no espaçamento: entre o 24º e o 36º mês há um ano inteiro sem consulta prevista, e depois do 36º mês a caderneta simplesmente diz, com estas palavras, que para prosseguir o acompanhamento se continue usando a folha de registro de medidas e as folhas de anotações. Ou seja: dos 3 aos 9 anos a criança tem caderneta e tem gráficos, mas não tem consulta marcada. Como a tabela de marcos vai até os 72 meses, existe uma faixa inteira do instrumento — a dos 42 aos 72 meses, doze marcos — cuja aplicação não tem consulta agendada onde acontecer.

O segundo número é jurídico e aperta ainda mais. A Lei nº 13.438, de 26 de abril de 2017, acrescentou ao art. 14 do Estatuto da Criança e do Adolescente um § 5º que torna obrigatória a aplicação, a todas as crianças, nos seus primeiros dezoito meses de vida, de protocolo ou instrumento construído para facilitar a detecção, em consulta pediátrica de acompanhamento, de risco para o desenvolvimento psíquico. A obrigação está de pé desde outubro de 2017 e não foi revogada — o texto consolidado do Estatuto, que já traz alteração de 2025 em artigo vizinho, mantém o parágrafo intacto. A lei, portanto, não pede que se rastreie quando houver suspeita: pede que se rastreie sempre, e antes dos dezoito meses.

O terceiro número é o que a pediatria sabe sobre quantos vão dar positivo. O manual de orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre sinais de alerta neurológicos registra que 1% a 3% das crianças têm atraso global do desenvolvimento e cerca de 1% recebe diagnóstico de transtorno do espectro autista. O manual de orientação sobre triagem precoce para autismo, de abril de 2024, usa o dado norte-americano de prevalência de 1 para 36 crianças de até 8 anos e diz, com todas as letras, que no Brasil não temos dados exatos de prevalência de transtorno do espectro autista — as perguntas sobre autismo entraram pela primeira vez no censo demográfico e o mapeamento foi adiado. Guarde isso: o país que tornou o rastreio obrigatório por lei em 2017 ainda não sabe quantas crianças o rastreio deveria encontrar.

Faça a conta que fecha os três números e você entende por que esta consulta é difícil. Numa manhã de dezenove crianças, a prevalência de atraso global prevê entre zero e uma criança com atraso verdadeiro. Ou seja: na esmagadora maioria das consultas de puericultura o instrumento vai dar adequado, e vai dar adequado com razão. O erro que essa base baixa induz não é o falso-positivo — é o hábito. Vinte consultas seguidas em que tudo está presente treinam a mão a marcar presente antes de olhar, e é exatamente na vigésima primeira que entra a Teodora. A vigilância do desenvolvimento é uma das poucas tarefas da medicina em que a repetição do resultado normal é o principal fator de risco para errar o anormal.

Há ainda um número que não é de doença e sim de logística, e que decide quem chega ao especialista. Quando o instrumento classifica provável atraso, a conduta impressa manda acionar as equipes multiprofissionais e a rede de atenção especializada. Quando classifica alerta, manda marcar retorno em trinta dias. Na prática das unidades, esses dois destinos têm filas muito diferentes, e a classificação que você marcar na caderneta é o documento que vai justificar a prioridade. Uma criança que sai da sua consulta como alerta e volta em trinta dias como provável atraso perdeu um mês de fila; uma criança que sai com a informação da regressão registrada por escrito na caderneta, ainda que o instrumento não tenha campo para isso, chega ao neuropediatra com uma história que muda a ordem de atendimento. O que você escreve pesa tanto quanto o que você classifica.

04

Por que acontece o que acontece

Marco e sinal de alerta não são a mesma coisa, e o manual de orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria abre exatamente com essa distinção porque ela é a fonte da maior parte dos erros de conduta. Marco é a habilidade que a maioria das crianças adquire dentro de uma faixa etária esperada. Sinal de alerta é a ausência dessa habilidade numa idade posterior à da aquisição — o alerta nasce depois do marco, e não junto com ele. O documento dá o exemplo do sorriso social, que surge até os dois meses, mas cuja ausência só vira sinal de alerta entre os quatro e os seis meses. Entre o marco e o alerta existe uma faixa de tolerância, e é nessa faixa que mora a criança que se acompanha em vez de se encaminhar.

A caderneta faz uma escolha diferente e é fundamental que você a enxergue, porque ela é a razão de o mesmo menino ser normal para uma régua e atrasado para a outra. A caderneta não separa marco de sinal de alerta: ela transforma a ausência do marco na própria faixa em alerta e a ausência do marco na faixa anterior em provável atraso. Não há tolerância declarada. O intervalo entre a idade esperada e a idade preocupante, que o texto da sociedade de pediatria descreve como uma faixa de meses, na caderneta tem a largura exata de uma faixa etária — que pode ser um mês, aos 0 e 1 mês de vida, ou seis meses, dos 66 aos 72. A régua federal é mais apertada onde a criança é pequena e mais frouxa onde ela é grande, e isso não está escrito em lugar nenhum: sai do desenho da tabela.

Sete cenas de habilidades motoras, do lactente deitado à criança equilibrada em um pé.
Exemplos de progressão motora, sem escala etária: sustentar a cabeça, sentar, ficar em pé, andar, chutar e equilibrar-se. A sequência não substitui a avaliação dos diferentes domínios. Perda de habilidade já adquirida é sinal de alerta e deve ser investigada.

Por que a ordem importa mais do que a data

O desenvolvimento motor e o de linguagem seguem uma sequência bastante fixa, e é a sequência, não o calendário, que carrega a informação clínica. A criança senta antes de ficar em pé e fica em pé antes de andar; duplica sílabas antes de dizer palavra e diz palavra antes de juntar duas. O manual da sociedade de pediatria observa, no entanto, que o ritmo varia muito entre crianças e que engatinhar é adquirido em idades amplamente variáveis — há crianças de desenvolvimento normal que nunca engatinham. Repare que engatinhar não está entre os sessenta e oito marcos da caderneta, e essa ausência é deliberada: um marco que muitas crianças normais pulam não serve como critério.

A consequência prática é que a ausência isolada de um marco motor grosso dentro da faixa diz pouco, enquanto a quebra da ordem diz muito. Uma criança que anda sem apoio mas não senta sem apoio não é uma criança adiantada no primeiro item e atrasada no segundo: é uma criança cujo exame precisa ser refeito, porque a combinação não existe no desenvolvimento típico e quase sempre significa que um dos dois itens foi mal pesquisado. Antes de classificar, releia a coluna Como pesquisar da caderneta e refaça o marco discordante. A tabela descreve a técnica de cada um dos sessenta e oito itens com esse propósito.

É também por causa da sequência que a caderneta manda voltar uma faixa quando algo falta. Não é rigor burocrático: é o modo de descobrir se a criança está lenta ou se ela parou. Uma criança de dezesseis meses que não fala três palavras mas diz uma palavra e mostra o que quer está avançando devagar dentro da sequência. Uma criança de dezesseis meses que não fala três palavras e também não diz nenhuma palavra parou em algum ponto anterior, e é essa segunda que o instrumento manda encaminhar.

O que a estagnação e a regressão significam

O mesmo manual da sociedade de pediatria traz uma frase que vale reler devagar: ao contrário do crescimento, o desenvolvimento está sujeito a períodos de estagnação e regressão, e esses períodos refletem pontos de vulnerabilidade — o pediatra Berry Brazelton os chamava de touchpoints e os considerava preparação para novos avanços. Isso quer dizer que nem toda pausa é doença. Uma criança que está aprendendo a andar costuma falar menos durante algumas semanas; uma criança com irmão recém-nascido pode regredir no controle de esfíncter; adoecimento, mudança de casa, entrada na creche e sono ruim mexem no repertório.

Mas há uma diferença de forma entre a pausa e a perda, e ela é clínica, não estatística. A pausa é o repertório que para de crescer e depois volta a crescer, geralmente em uma área só e por poucas semanas. A perda é o repertório que encolhe: a habilidade que a família via todo dia deixa de aparecer e não volta. O documento da sociedade de pediatria põe a perda de habilidades adquiridas previamente no quadro de sinais de alerta cuja relevância não depende da idade — a lista tem oito itens e inclui também a forte preocupação dos pais, a ausência de resposta a estímulos sonoros ou visuais, o contato visual nulo ou escasso, a interação precária, a alteração persistente do humor, a diferença acentuada entre os lados do corpo e a hipotonia ou hipertonia significativa com prejuízo motor.

A razão de a perda ser tratada assim é o que ela pode significar. Doença que consome habilidade já construída não é a mesma família de causas que atraso na construção — é território de neurologia pediátrica, e este capítulo cede o diagnóstico e o tratamento inteiros à neurologia pediátrica do serviço de referência, assunto que não tem capítulo neste nível. O que não se cede é o reconhecimento: quem tem a caderneta na mão e ouve a mãe dizer que a criança falava e parou é o interno da unidade básica, não o neuropediatra, e a decisão de encaminhar hoje em vez de rever em trinta dias é tomada ali, com a informação que a mãe deu de graça na primeira frase.

Por que a caderneta não pergunta se a criança perdeu

Vale entender o desenho para não brigar com ele. O instrumento da caderneta é uma tabela de presença: para cada marco há três respostas possíveis — presente, ausente e não verificado — e a classificação sai da contagem de ausências, cruzada com o perímetro cefálico, as alterações fenotípicas e a lista de dez fatores de risco. É um instrumento de corte transversal, pensado para funcionar mesmo quando a criança nunca foi vista antes, mesmo quando quem preenche é outro profissional e mesmo quando a família não sabe a história. Essa robustez tem preço: o instrumento não compara a criança com ela mesma.

A comparação com ela mesma existe na caderneta, mas em outro lugar — nos quadros de registro de consulta, onde a classificação de cada visita é anotada, e nas colunas preenchidas em consultas anteriores. Uma caderneta bem preenchida guarda o histórico: se aos doze meses alguém marcou presente em diz uma palavra e aos dezesseis meses o mesmo item aparece ausente, a regressão está registrada, ainda que o instrumento não a nomeie. O problema é que essa leitura depende de a consulta anterior ter sido preenchida, e depende de você folhear em vez de olhar só a coluna de hoje.

Por isso a orientação prática deste capítulo é dupla e não custa tempo. Primeiro: antes de preencher a coluna de hoje, olhe as colunas de antes. Segundo: pergunte à família, em toda consulta, se a criança deixou de fazer alguma coisa que já fazia. A caderneta manda perguntar aos cuidadores o que eles acham do desenvolvimento da criança e valorizar essa informação, o que é quase isso — mas a pergunta genérica costuma receber a resposta genérica. A pergunta específica sobre perda recebe resposta específica, e foi ela que Divanira respondeu antes mesmo de você perguntar.

05

Como se apresenta de verdade

A tabela de marcos da caderneta divide os primeiros seis anos em dezessete faixas, cada uma com quatro marcos — menos as três últimas, que fecham a conta em sessenta e oito itens. Os quatro marcos de cada faixa não são quatro coisas quaisquer: são um marco de cada domínio, um motor grosso, um motor fino, um de linguagem e um social ou de autocuidado. É por isso que a caderneta manda localizar as quatro linhas coloridas da mesma cor: a cor é o domínio distribuído, e olhar só uma linha é olhar um quarto da criança.

O que segue não é a tabela recopiada — ela está na página 81 a 85 da caderneta que a família tem no colo, e o trabalho de decorá-la é desperdício. O que segue é o que muda de fato entre as faixas: o que você observa com os olhos, o que precisa da mão, o que só a família sabe, e qual é o achado que naquela idade específica muda a consulta. Em cada faixa, a pergunta a responder é sempre a mesma: esta criança está devagar, ou esta criança parou?

Do nascimento aos 6 meses: quatro faixas curtas e um exame de berço

As faixas aqui são as mais estreitas de toda a tabela: de 0 a 1 mês, de 1 a 2, de 2 a 4 e de 4 a 6 meses. Duas delas têm um mês de largura. Isso significa que, nesta idade, a tolerância entre estar dentro e estar fora é curtíssima — a mesma ausência que aos cinco anos daria dois meses de folga aqui dá trinta dias.

Nos primeiros trinta dias você observa quatro coisas e três delas não pedem que você toque na criança. Deitada de costas, o bebê mantém braços e pernas flexionados e a cabeça lateralizada — postura, não força. Com o seu rosto a trinta centímetros do dela, olha para você de forma evidente. Com uma palma batida atrás da cabeça, a cerca de trinta centímetros de cada orelha, reage com movimento dos olhos ou mudança da expressão facial — e repare que a resposta esperada é essa, não o sobressalto do corpo inteiro. De bruços, eleva a cabeça e desencosta o queixo da superfície sem virar para um dos lados.

De 1 a 2 meses entra o sorriso social — sorria e converse com a criança, sem cócegas e sem tocar a face, e observe se ela responde com um sorriso. É o único marco desta faixa que a família sempre percebeu antes de você e é aquele cuja ausência, mais tarde, vira sinal de alerta pesado. Nesta mesma faixa a criança abre as mãos espontaneamente em alguns momentos, emite algum som que não seja choro e movimenta ativamente os quatro membros. A mão fechada o tempo todo depois dos dois meses é o achado que mais frequentemente escapa numa consulta apressada, e é ele que costuma ser a primeira pista motora assimétrica.

De 2 a 4 meses o bebê responde ativamente ao contato social, segura um objeto colocado no dorso da mão ou nos dedos por alguns segundos, ri alto e, de bruços numa superfície firme, levanta a cabeça apoiando-se nos antebraços. De 4 a 6 meses ele busca ativamente o objeto que você põe ao alcance, leva à boca o que segura, vira a cabeça em direção a um som suave feito perto de cada orelha e muda de posição rolando de barriga para cima para de bruços. A partir daqui a criança começa a colaborar com o exame, e a consulta fica mais fácil.

O sinal que muda a consulta nesta idade é sensorial, e não motor. Não responder ao som e não seguir o rosto estão entre os sinais de alerta de todas as idades da sociedade de pediatria, e são justamente os dois em que o exame de consultório é mais falível: uma criança com sono, com fome ou num ambiente barulhento falha nos dois. Antes de marcar ausente em reage ao som ou observa um rosto, refaça em condição melhor. Depois de refazer, se continuar ausente, esse é o achado a levar para a preceptora ainda nesta consulta — sem esperar os trinta dias.

Dos 6 aos 18 meses: onde a marcha e a primeira palavra se decidem

As faixas passam a ter três meses: de 6 a 9, de 9 a 12, de 12 a 15 e de 15 a 18. É o trecho mais movimentado da tabela e o que produz mais consultas difíceis, porque é aqui que a família compara a criança com a vizinha e é aqui que estão os dois marcos que o país inteiro conhece pelo nome: andar e falar.

De 6 a 9 meses: brinca de esconde-achou e procura você quando você desaparece atrás do pano; transfere objeto de uma mão para a outra; duplica sílabas — papá, dadá, mamã, e vale o relato da mãe se não acontecer na sala; senta-se sem apoio numa superfície firme, com um objeto na mão, sem precisar das mãos para se equilibrar. Esse último detalhe importa: sentar apoiando as mãos no chão não é o marco.

De 9 a 12 meses: imita gestos conhecidos como bater palmas ou dar tchau; faz pinça, com qualquer parte do polegar associada ao indicador, para pegar um objeto pequeno; produz jargão, aquela conversação incompreensível que a criança tem consigo mesma; anda com apoio, alguns passos. Repare que a caderneta aceita pinça com qualquer parte do polegar — não exige a pinça fina polegar-indicador do livro-texto. Exigir mais do que o instrumento pede é uma das formas de fabricar atraso onde não há.

De 12 a 15 meses: mostra o que quer sem ser pelo choro, apontando, estendendo a mão ou com palavra e som; coloca ao menos um bloco dentro da caneca depois de demonstração; diz pelo menos uma palavra que não seja nome de familiar nem de animal de estimação; anda sem apoio, com bom equilíbrio. E aqui está o ponto mais consequente desta faixa etária inteira: pela régua da caderneta, andar sem apoio é marco a ser cumprido até os 15 meses. A criança de 15 meses e um dia que ainda não anda está sem um marco da faixa anterior, e a classificação impressa para isso é provável atraso, com acionamento da equipe multiprofissional e da rede especializada.

Guarde essa data, porque ela vai voltar no bloco de divergências. A régua da sociedade de pediatria é outra: o manual de orientação sobre sinais de alerta cita o Teste de Triagem do Desenvolvimento de Denver II, que prevê deambulação independente até os 15 meses, e diz que a ausência de deambulação independente se torna sinal de alerta por volta dos dois anos de idade. Os dois documentos concordam sobre quando o marco é esperado e discordam por nove meses sobre quando a ausência preocupa. Esta apostila adota a régua da caderneta — aos 15 meses e um dia, provável atraso —, porque as duas tratam da mesma criança e a caderneta de 2024, com a mesma regra desde 2021, é mais nova que o manual de abril de 2020; os dois anos ficam registrados como a régua da sociedade.

De 15 a 18 meses: usa colher ou garfo derramando pouco; constrói torre de dois cubos; fala três palavras que não sejam nome de familiar nem de animal; anda para trás dois passos ao abrir uma porta ou gaveta. Nesta faixa entra também a idade em que o rastreio de risco para transtorno do espectro autista se torna aplicável, porque o instrumento da caderneta vale de 16 a 30 meses. Uma consulta de 18 meses bem feita, portanto, tem duas tarefas e não uma: os quatro marcos da faixa e os vinte itens do rastreio.

Dos 18 meses aos 3 anos e meio: a criança que já tem opinião

As faixas alargam para seis meses: de 18 a 24, de 24 a 30, de 30 a 36 e de 36 a 42. A avaliação muda de natureza — deixa de ser observação de berço e passa a depender de a criança querer colaborar. Boa parte dos marcos desta etapa é verificada por relato dos cuidadores, e a caderneta autoriza isso explicitamente item a item.

De 18 a 24 meses: tira alguma peça de roupa que exija esforço, como sapato ou casaco; constrói torre de três cubos; aponta duas figuras de um grupo de cinco; chuta a bola sem se apoiar em objetos. De 24 a 30: veste-se com supervisão; torre de seis cubos; combina duas palavras numa frase com significado de ação — quer água, quer papar, chuta bola; pula com os dois pés, atingindo o chão ao mesmo tempo, não necessariamente no mesmo lugar.

De 30 a 36 meses: brinca com outras crianças da mesma idade, e este é dos cuidadores; imita o desenho de uma linha de pelo menos cinco centímetros depois de demonstração; reconhece duas ações apontando a figura certa quando você pergunta quem mia, quem late; arremessa a bola acima do braço. De 36 a 42: veste camiseta ou casaco sem botão nem zíper sozinho; move o polegar para cima com a mão fechada, o sinal de tudo bem; compreende dois adjetivos, respondendo coerentemente ao que faz quando está com fome, com frio, cansado; equilibra-se em cada pé por um segundo, com três tentativas.

O sinal que muda a consulta nesta etapa é de linguagem e de reciprocidade, não de motricidade. A criança que anda, corre e sobe mas não combina duas palavras aos 30 meses, não brinca com outras crianças aos 36 e não aponta para mostrar coisa nenhuma está falhando exatamente nos itens que o instrumento de rastreio para transtorno do espectro autista pergunta — e ela ainda está dentro da janela de 16 a 30 meses ou acabou de sair dela. Este capítulo rastreia e encaminha; quem diagnostica e trata é a equipe especializada da rede, e o diagnóstico do transtorno do espectro autista não tem capítulo neste nível. Mas a decisão de aplicar o rastreio antes de a janela fechar é sua e é hoje.

Dos 3 anos e meio aos 6 anos: a faixa que ninguém aplica

As últimas cinco faixas — de 42 a 48, 48 a 54, 54 a 60, 60 a 66 e 66 a 72 meses — somam vinte marcos e são as menos usadas da caderneta, por um motivo estrutural que já apareceu: depois da consulta do 36º mês não há consulta prevista. A criança de quatro anos só chega à sua sala se adoecer, se a escola mandar ou se a família estranhar alguma coisa — e nas três situações a puericultura entra de carona numa consulta que veio por outro motivo.

De 42 a 48 meses: emparelha objetos da mesma cor; copia um círculo mostrado; fala clara e compreensível, avaliada pela articulação e pela sequência das ideias; pula em um pé só duas ou mais vezes. De 48 a 54: veste-se sem ajuda; copia uma cruz, duas linhas que se cruzam perto do ponto médio; compreende quatro preposições, cumprindo os comandos de pôr o bloco em cima, embaixo, na frente e atrás; equilibra-se em cada pé por três segundos.

De 54 a 60 meses: escova os dentes sem ajuda, incluindo a pasta e os dentes posteriores; aponta a linha mais comprida entre duas paralelas, acertando três em três tentativas com o papel mudando de posição, ou cinco em seis; define cinco palavras entre sete, valendo definição por uso, forma, material ou categoria; equilibra-se em um pé por cinco segundos. De 60 a 66: brinca de faz de conta com outras crianças; desenha uma pessoa com seis partes, contando cada par como uma parte só; faz analogia, completando duas de três frases; anda ponta-calcanhar quatro ou mais passos em linha reta. De 66 a 72: aceita e segue regras em jogos de mesa; copia um quadrado; define sete palavras; equilibra-se em cada pé por sete segundos.

Duas observações que importam mais do que a lista. A primeira é que quase todos os itens desta etapa dependem de material — lápis, papel, cubos, bola, figuras — e a unidade que não tem esse material não aplica o instrumento, marca não verificado e a consulta vira conversa. Vale checar o que existe na sua sala antes da manhã começar. A segunda é que a tabela acaba nos 72 meses, embora a caderneta acompanhe a criança até os 9 anos: a página seguinte, para os 6 aos 10 anos, é só um campo de anotações com a orientação de avaliar como está o aprendizado na escola, a socialização, a fala e o comportamento. De 6 a 9 anos, portanto, a caderneta não tem marcos, não tem instrumento e não tem classificação. Este capítulo assume essa faixa apenas para dizer que ela está descoberta, porque nenhum outro capítulo do nível a cobre.

A apresentação que a tabela não sabe registrar: a criança que perdeu

Volte à Teodora. O quadro clínico da regressão tem uma forma reconhecível e ela quase nunca chega dita como regressão: chega como manha, como preguiça, como ciúme do irmão, como a criança ficou mais quieta depois que entrou na creche. Quem nomeia a perda é a família, e ela nomeia sem saber que está nomeando — a frase costuma vir na abertura da consulta, antes da anamnese, exatamente como veio aqui.

Três perguntas separam a perda da pausa e cabem em um minuto. Primeira: o que exatamente ela fazia e não faz mais? Peça o exemplo concreto, a palavra, o gesto, o nome de quem ela chamava. Resposta vaga — ela era mais esperta — é diferente de resposta concreta — ela falava água e não fala mais. Segunda: quando você percebeu que tinha parado? Perda em dias a semanas pesa mais do que perda que a família só percebe olhando fotos de seis meses atrás. Terceira: perdeu numa área só ou em mais de uma? Perder a palavra e continuar social é diferente de perder a palavra, parar de apontar e deixar de responder ao nome.

Aos achados do relato somam-se os do exame que você já vai fazer de qualquer jeito. Assimetria de força, de tônus ou de movimento entre os lados do corpo; hipotonia ou hipertonia com prejuízo motor; perímetro cefálico que cruzou linhas no gráfico entre uma consulta e outra; contato visual que sumiu. Nenhum desses itens está na tabela de marcos e todos estão no quadro de sinais de alerta de todas as idades da sociedade de pediatria.

E há a mãe. A forte preocupação dos pais é o primeiro item daquele quadro, e a caderneta reforça a mesma ideia com outras palavras ao pedir que se pergunte sempre aos cuidadores o que eles acham do desenvolvimento da criança e que se valorize essa informação. Na prática de consultório isso quer dizer o seguinte: quando o instrumento der adequado e a mãe continuar preocupada, o resultado da consulta não é adequado — é adequado com preocupação materna, que é uma coisa diferente e que se escreve por extenso na caderneta.

Três crianças em que a tabela precisa ser lida de outro jeito

A primeira é a que nasceu prematura. A caderneta manda corrigir a idade antes de localizar a faixa etária, descontando da idade cronológica o tempo que faltou para completar quarenta semanas, e manda corrigir até os 2 anos de idade cronológica, ou até os 3 anos se a idade gestacional foi menor que 28 semanas. Aplicar a tabela pela idade do documento de identidade num prematuro de 30 semanas transforma um bebê normal de sete meses corrigidos numa criança de nove meses com marcos ausentes. Nenhum outro engano desta consulta é tão simples de cometer nem tão barato de evitar: a idade corrigida se calcula antes de abrir a página dos marcos, não depois.

A segunda é a criança que já tem diagnóstico ou deficiência conhecida — síndrome de Down, paralisia cerebral, surdez em reabilitação. A tabela de marcos continua útil como registro de progresso, mas a classificação em três faixas deixa de decidir alguma coisa: ela vai dar provável atraso em toda consulta, e acionar a rede especializada é o que já está acontecendo. O trabalho da puericultura nessas crianças é outro e não muda: crescimento, vacina, saúde bucal, alimentação, prevenção de acidentes, apoio à família e os agravos associados que a caderneta lista para a síndrome de Down. Diagnóstico e reabilitação são de neurologia pediátrica e dos serviços de referência — na paralisia cerebral, o que cabe ao interno está em Paralisia cerebral e encefalopatia crônica não progressiva, na apostila de Neurologia Pediátrica.

A terceira é a criança que a família traz sem queixa nenhuma, que é a maioria. Aqui o risco não é errar o diagnóstico: é não fazer a avaliação. Consulta de puericultura sem queixa costuma virar pesagem, receita de vitamina, carimbo na caderneta e porta. A obrigação legal de aplicar instrumento de detecção de risco para o desenvolvimento psíquico nos primeiros dezoito meses de vida vale exatamente para essas crianças, e a recomendação da sociedade de pediatria de rastrear todas, independentemente de haver suspeita, existe pela mesma razão. A criança sem queixa é o público-alvo do rastreio, não a exceção dele.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigação, aqui, quase não é exame complementar. A pergunta que organiza este bloco não é o que pedir e sim em que ordem fazer as coisas dentro dos poucos minutos da consulta, porque o instrumento tem uma sequência e pular etapa muda a classificação. O material necessário cabe numa caixa de sapato: cubos pequenos, uma caneca, uma bolinha de papel, um chocalho ou sino, uma bola, lápis, papel sem pauta, fichas com figuras e a fita métrica.

Duas coisas precisam estar decididas antes de você abrir a página 81: qual é a idade a usar e o que a família tem a dizer. Depois disso, a tabela é mecânica.

A sequência que o instrumento manda seguir

A caderneta descreve o procedimento em sete passos e vale segui-los na ordem. Localize a faixa etária da criança nas colunas de idade em meses, corrigindo a idade se ela nasceu prematura. Localize as quatro linhas coloridas da mesma cor correspondentes àquela faixa. Verifique a presença de cada marco usando a técnica descrita na coluna ao lado. Preencha com P para marco presente, A para ausente e NV para não verificado. Ao final da faixa, a criança deve ter atingido todos os marcos previstos.

Se algum marco da faixa dela faltar, o instrumento manda voltar uma faixa e verificar se a criança cumpre os marcos da faixa anterior. Só depois disso se consulta a tabela de classificação e conduta e se adota a conduta correspondente. Esse passo de voltar uma faixa é o que separa alerta de provável atraso e é o mais pulado de todos, porque exige refazer o exame com outros quatro itens numa criança que já está cansada. Pular esse passo não deixa a classificação em branco: deixa a criança classificada como alerta quando ela poderia ser provável atraso, e a diferença entre os dois é entre voltar em trinta dias e ser encaminhada hoje.

Por fim, a caderneta manda registrar a classificação no quadro de desenvolvimento do registro daquela consulta — não só na tabela de marcos. É esse registro por consulta que constrói a comparação da criança com ela mesma ao longo do tempo, e é ele que permite ver regressão numa caderneta bem preenchida. Uma classificação anotada só na tabela de marcos vira um P solto numa célula colorida que ninguém encontra na consulta seguinte.

Sobre o NV, uma advertência. Não verificado não é um resultado neutro: é uma célula vazia que, na consulta seguinte, ninguém sabe se era presente ou ausente. Use-o quando de fato não deu — criança dormindo, sem o material, chorando sem parar — e, quando usar, escreva no campo de observações o motivo e a intenção de refazer. Marcar NV nos quatro itens é o modo educado de não avaliar o desenvolvimento.

A idade que se usa: corrigida, e até quando

A regra impressa é curta. Calcule quarenta semanas menos a idade gestacional de nascimento em semanas: esse é o tempo que faltou para o termo. Desconte esse tempo da idade cronológica. O exemplo do próprio documento usa um bebê de 28 semanas: quarenta menos vinte e oito dá doze semanas, que o texto trata como três meses, de modo que uma criança de seis meses cronológicos tem três meses de idade corrigida.

Duas observações sobre esse exemplo. A primeira é aritmética: doze semanas são 2,8 meses, não 3,0 — o documento arredonda, e o arredondamento sempre favorece a criança, porque atribui a ela uma idade corrigida menor e portanto uma faixa mais fácil. Numa criança limítrofe, arredondar para baixo pode ser a diferença entre classificar alerta e classificar adequado, e vale saber que se está arredondando. A segunda é de duração: corrige-se até os 2 anos de idade cronológica, e até os 3 anos se a idade gestacional de nascimento foi menor que 28 semanas.

Há ainda uma alternativa que a caderneta oferece e que muita gente não vê. Existem curvas internacionais específicas para crianças nascidas pré-termo, cobrindo de 27 a 64 semanas pós-concepcionais; usando essas curvas até 64 semanas, a caderneta diz que o acompanhamento passa depois para as curvas da Organização Mundial da Saúde sem necessidade de corrigir a idade. A frase impressa é clara: se não for usar o gráfico pré-termo, aí sim é preciso calcular a idade corrigida para acompanhar a criança nas curvas da OMS. As duas estradas existem e a maioria das unidades usa a segunda.

Detalhe operacional que vale conferir na sua unidade: a idade a corrigir é a de todos os usos, não só a do gráfico de crescimento. Corrige-se para localizar a faixa de marcos, e não se corrige para vacinar. A vacina segue a idade cronológica, e o calendário vacinal é assunto do capítulo de infectologia pediátrica, para onde este cede a matéria inteira.

Perímetro cefálico, alterações fenotípicas e a lista dos dez

Antes de olhar os marcos, a caderneta manda rever três dados do exame. O primeiro é o perímetro cefálico: menor que -2 escores Z ou maior que +2 escores Z entra sozinho como critério de provável atraso, sem depender de nenhum marco ausente. O segundo são as alterações fenotípicas mais frequentes, e a lista é nominal: fenda palpebral oblíqua, olhos afastados, implantação baixa de orelhas, lábio leporino, fenda palatina, pescoço curto ou largo, prega palmar única e quinto dedo da mão curto e recurvado. Três ou mais dessas alterações também levam sozinhas a provável atraso. O terceiro é o comportamento da criança durante a consulta.

Sobre o perímetro cefálico há um cuidado técnico que a sociedade de pediatria detalha e a caderneta não: a fita métrica não extensível deve passar pela maior circunferência da cabeça, entre dois centímetros acima da sobrancelha e a maior proeminência occipital, tomando-se três medidas e escolhendo a maior, preferencialmente depois das primeiras 24 horas de vida. Sem isso, a variação entre examinadores come o valor clínico do número. E vale a advertência impressa pela própria caderneta ao ensinar a ler as curvas: as alterações do desenvolvimento infantil são mais sensíveis e precoces do que o crescimento da cabeça — o perímetro cefálico normal não absolve a criança.

Este capítulo cita o perímetro cefálico como sinal de alerta neurológico e declara o corte que o instrumento usa, e cede o resto — as curvas da Organização Mundial da Saúde, a técnica de plotagem, peso, estatura, índice de massa corporal e a leitura da linha de crescimento ao longo do tempo — ao capítulo de crescimento desta mesma apostila, que ainda está por escrever. Fica registrado aqui apenas o que este capítulo usa: o corte de -2 a +2 escores Z e a advertência da própria caderneta de que qualquer traçado que se desvie rápido, que fique horizontal ou que cruze outra linha deve ser investigado.

A lista de dez fatores de risco é a terceira perna do instrumento e entra na classificação por uma porta discreta: quando todos os marcos estão presentes mas existe um ou mais fatores de risco, a classificação não é adequado — é alerta. Os dez são: riscos ambientais como violência doméstica, depressão materna, drogas ou alcoolismo entre os moradores da casa e suspeita de abuso sexual; infecções na gestação, agrupadas como STORCH mais Zika; pré-natal não realizado ou incompleto; problemas na gestação, no parto ou no nascimento; prematuridade abaixo de 37 semanas; peso de nascimento abaixo de 2.500 gramas; icterícia grave; hospitalização no período neonatal; doenças graves como meningite, traumatismo craniano e convulsões; e parentesco entre os pais.

Repare no efeito prático dessa regra: um prematuro de 34 semanas com todos os marcos presentes é alerta para o desenvolvimento pela letra do instrumento, e alerta manda marcar retorno em trinta dias. Como prematuridade é condição permanente, a leitura literal cria retorno mensal indefinido para toda criança nascida antes das 37 semanas. Poucas unidades fazem isso, e a caderneta não diz até quando o fator de risco conta. Esta apostila mantém a classificação e escalona a data: no prematuro, segue o calendário do manual de seguimento do recém-nascido de alto risco da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 2024 — retorno mensal até os 6 meses de idade corrigida e cada vez mais espaçado depois —; o motivo, e o que vale para os outros fatores, está no bloco de divergências.

O rastreio de risco para transtorno do espectro autista

A caderneta traz o instrumento M-CHAT-R, com vinte perguntas de sim ou não dirigidas aos cuidadores, e informa que ele se aplica a crianças de 16 a 30 meses. Ela também instrui, na abertura da página, a explicar aos cuidadores que existe a possibilidade de resultado falso-positivo e que resultado positivo não confirma diagnóstico. Essa frase não é gentileza: é parte do procedimento, porque a família que entende o que é um rastreio comparece à etapa seguinte, e a que sai achando que recebeu um diagnóstico, não.

A pontuação é simples de descrever e fácil de errar. Para todos os itens, a resposta não indica risco; a exceção são os itens 2, 5 e 12, nos quais é o sim que indica risco. Atribui-se 1 a cada resposta que indica risco e soma-se. De 0 a 2 é baixo risco: se a criança tinha menos de 24 meses na primeira avaliação, reaplica-se depois do aniversário de dois anos. De 3 a 7 é risco médio: aplica-se a Entrevista de Seguimento, que é a segunda etapa do instrumento, e o teste é considerado positivo se a criança falhar em quaisquer dois itens dessa entrevista. De 8 a 20 é risco elevado: encaminhamento imediato para avaliação diagnóstica e intervenção precoce, acionando as equipes multiprofissionais ou a rede especializada.

A caderneta acrescenta uma regra que anula a aritmética quando é preciso: em caso de suspeita por parte da família ou do profissional, a criança deve ser encaminhada mesmo que o resultado seja de baixo risco. É a mesma lógica da preocupação materna e vale repetir para si mesmo antes de arquivar um resultado tranquilo.

Onde a caderneta se cala, a sociedade de pediatria fala. O manual de orientação de abril de 2024 diz que a Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Brasileira de Pediatria indicam que a triagem seja realizada nas consultas de 18 e de 24 meses, e que ela está recomendada para todas as crianças, independentemente de haver suspeita. A caderneta traz o instrumento e a faixa de idade, mas não marca em que consulta aplicá-lo — as páginas de registro do 18º e do 24º mês não têm campo dedicado ao resultado do rastreio. Quem quiser deixar isso registrado escreve no campo de observações.

Uma última nota de procedimento, e ela é sobre a pergunta em si. A instrução impressa na 7ª edição pede que a família pense em como a criança geralmente se comporta na maior parte do tempo. A 3ª edição, de 2021, dizia mais: pedia que, se o cuidador tivesse visto o comportamento poucas vezes, ou seja, se não fosse comportamento frequente, respondesse não. Essa frase desapareceu, e ela é o que impede a família de responder sim porque a criança fez aquilo uma vez, no Natal. Se você aplicar o instrumento, vale dizer a frase em voz alta mesmo que ela não esteja mais impressa.

O que só a família sabe, e como perguntar

Dos sessenta e oito marcos, dezesseis podem ser dados por relato dos cuidadores. A caderneta autoriza item a item, dentro da coluna Como pesquisar, com pelo menos seis redações diferentes — considere a informação do acompanhante, considerar informação do acompanhante, pergunte aos cuidadores, pergunte ao acompanhante se faz em casa, pergunte à mãe se o faz em casa, pergunte se ela o faz em casa. A instrução geral da página anterior diz que só se deve considerar a informação dos cuidadores nos itens que estão assinalados. Não há item assinalado: não há asterisco, marca, símbolo ou coluna que distinga esses dezesseis dos outros cinquenta e dois. A permissão está diluída no texto corrido de cada linha, e é preciso ler a descrição inteira para saber se aquele item aceita relato.

A consequência prática é assimétrica e vale conhecer. Quem não lê a coluna toda tende a aceitar relato em tudo, e aí a avaliação vira entrevista — a mãe diz que a criança faz e o quadro fecha bonito. Quem lê pela metade tende a exigir demonstração em tudo, e aí marca ausente em itens como brinca com outras crianças, que nenhuma criança vai demonstrar sozinha numa sala de consultório. Os dois erros produzem classificação errada em direções opostas.

Independentemente do item, a caderneta manda fazer uma pergunta em toda consulta: o que os cuidadores acham do desenvolvimento da criança. E manda valorizar a resposta. Some a isso a pergunta que este capítulo defende e que o documento federal não faz — se a criança deixou de fazer alguma coisa que já fazia — e você tem, em duas perguntas, a parte da avaliação que nenhum exame substitui.

Vale dizer o que fazer quando o relato e o exame discordam. A criança que a mãe jura que fala cinco palavras e que não emite som nenhum na sala pode estar com medo, pode estar doente naquele dia, ou pode ter uma família que está respondendo o que acha que você quer ouvir. Nenhuma das três se resolve insistindo. Registre a discordância por escrito, marque o item conforme a regra daquele item, e traga a criança de volta — que é exatamente para isso que serve o retorno em 30 dias da classificação de alerta.

Quando o exame complementar entra — e quando não entra

Na vigilância do desenvolvimento em atenção primária, exame complementar não faz parte da avaliação de rotina. Nenhuma das três classificações do instrumento manda pedir exame: mandam elogiar e manter o acompanhamento, marcar retorno em trinta dias, ou acionar a equipe multiprofissional e a rede especializada. A investigação etiológica — neuroimagem, estudo genético, avaliação metabólica — é indicação de quem vai conduzir o caso, na neurologia pediátrica do serviço de referência; na suspeita de paralisia cerebral, o que se pede e quando está em Paralisia cerebral e encefalopatia crônica não progressiva, na apostila de Neurologia Pediátrica.

Há duas exceções que são suas e estão dentro do escopo da unidade básica. A primeira é a audição: a criança que não responde ao som, que só atende quando está olhando para quem fala, que fala pouco ou não fala, ou que ouve rádio e televisão sempre em volume alto — a lista está na própria caderneta, dirigida à família — precisa ser reavaliada quanto à audição, e a triagem auditiva neonatal já feita não encerra o assunto, porque perda auditiva pode ser adquirida ou de manifestação tardia. A segunda é a visão, com a lista análoga: dificuldade de prestar atenção em objetos ou pessoas, desinteresse pelos brinquedos, aproximar demais os objetos dos olhos, dificuldade para se movimentar, apertar ou esfregar os olhos.

As triagens neonatais propriamente ditas — pezinho, orelhinha, olhinho, coraçãozinho e linguinha — com suas janelas de coleta, seus retestes e seus fluxos de resultado alterado são matéria do capítulo anterior desta apostila, e este capítulo as cede inteiras. O que fica aqui é o uso que a vigilância do desenvolvimento faz delas: conferir, na página de registro das triagens, se foram realizadas e qual foi o resultado, porque uma triagem auditiva alterada e sem seguimento explica atraso de linguagem sem precisar de mais nada.

Por fim, o exame que mais rende nesta consulta não custa nada e é a própria caderneta preenchida. Folhear as consultas anteriores, ver as classificações registradas, olhar a linha do perímetro cefálico e as colunas de marcos de seis meses atrás produz mais informação clínica do que qualquer exame que se possa pedir na unidade — e é a única forma de enxergar uma perda.

07

Classificar, e o que cada classificação obriga a fazer

O instrumento da caderneta tem três classificações e não admite empate: toda criança avaliada sai da consulta como desenvolvimento adequado, alerta para o desenvolvimento ou provável atraso no desenvolvimento, e cada uma traz uma conduta impressa. O que decide não é a impressão do examinador — é a combinação de marcos ausentes, perímetro cefálico, alterações fenotípicas e fatores de risco. As tabelas abaixo reúnem a régua que você aplica e, na sequência, as contas que não fecham nos documentos oficiais.

  1. 1Antes de abrir a tabela — Calcule a idade corrigida se a criança nasceu antes de 37 semanas. Corrige-se até os 2 anos de idade cronológica, ou até os 3 anos se a idade gestacional foi menor que 28 semanas.
  2. 2Folheie para trás — Leia as classificações registradas nas consultas anteriores e as colunas de marcos já preenchidas. É a única forma de enxergar perda de habilidade com o instrumento que existe.
  3. 3Pergunte duas coisas — O que os cuidadores acham do desenvolvimento da criança, e se a criança deixou de fazer alguma coisa que já fazia. A primeira pergunta está na caderneta; a segunda não está, e é a que muda a conduta.
  4. 4Reveja o exame — Perímetro cefálico em escore Z, alterações fenotípicas da lista de oito, comportamento durante a consulta, e a presença de qualquer um dos dez fatores de risco.
  5. 5Aplique os quatro marcos da faixa — Um de cada domínio, com a técnica descrita na coluna ao lado. Preencha P, A ou NV.
  6. 6Se faltar algum, volte uma faixa — Aplique os quatro marcos da faixa anterior. Este passo é o que separa retorno em 30 dias de encaminhamento hoje, e é o mais pulado.
  7. 7Classifique e registre — Anote a classificação no quadro de desenvolvimento do registro daquela consulta, não só na tabela de marcos.
  8. 8Oriente a estimulação e os sinais de alerta — Em qualquer das três classificações a caderneta manda orientar a família sobre estimulação adequada à faixa e sobre os sinais que justificam voltar antes da data marcada.
  9. 9INSTRUMENTO TRANQUILIZADOR COM PREOCUPAÇÃO PERSISTENTE. Investigar o exemplo concreto e examinar a criança. Planejar avaliação dirigida e retorno conforme o risco; perda de habilidade, crise, alteração de consciência ou déficit focal mudam a prioridade e não aguardam a consulta de rotina.
ClassificaçãoO que a produzConduta impressaO que isso significa na prática
Desenvolvimento adequadoTodos os reflexos, posturas e habilidades presentes para a sua faixa etária, e nenhum fator de riscoElogiar a mãe ou cuidador; orientar para que continue estimulando; retornar conforme a rotina do serviço; informar sobre os sinais de alerta para retornar antesA consulta não acaba no elogio: a família precisa sair sabendo o que a faria voltar antes da próxima data
Alerta para o desenvolvimentoAusência de 1 ou mais marcos da sua faixa etária (de 1 mês a 6 anos); ou todos os marcos presentes mas 1 ou mais fatores de riscoOrientar a mãe ou cuidador sobre a estimulação da criança; marcar consulta de retorno em 30 dias; informar sobre os sinais de alerta para retornar antes de 30 diasÉ a classificação mais comum fora do adequado. O retorno é parte da conduta, não sugestão: sem data marcada, a classificação não vale. A data impressa, 30 dias, vale quando falta marco e quando o risco continua agindo; quando o alerta vem só de fator de risco que ficou no passado, esta apostila a escalona pela idade, pelo motivo do bloco de divergências
Provável atraso no desenvolvimentoPerímetro cefálico menor que -2 ou maior que +2 escores Z; ou 3 ou mais alterações fenotípicas; ou ausência de 1 ou mais marcos da faixa etária anterior (na faixa de 0 a 1 mês, ausência de 1 ou mais marcos da própria faixa já basta)Acionar as equipes multiprofissionais e/ou a rede de atenção especializada para avaliação do desenvolvimentoÉ encaminhamento, e é hoje. Qualquer um dos três critérios sozinho já classifica: a criança com perímetro cefálico fora do corte e todos os marcos presentes é provável atraso do mesmo jeito

As dezessete faixas e os sessenta e oito marcos da caderneta (7ª edição, 2024)

Faixa etáriaOs quatro marcos da faixa
0 a 1 mêsPostura: pernas e braços fletidos, cabeça lateralizada · Observa um rosto · Reage ao som · Eleva a cabeça
1 a 2 mesesSorri quando estimulada · Abre as mãos · Emite sons · Movimenta os membros
2 a 4 mesesResponde ativamente ao contato social · Segura objetos · Emite sons, ri alto · Levanta a cabeça e apoia-se nos antebraços, de bruços
4 a 6 mesesBusca ativa de objetos · Leva objetos à boca · Localiza o som · Muda de posição (rola)
6 a 9 mesesBrinca de esconde-achou · Transfere objetos de uma mão para outra · Duplica sílabas · Senta-se sem apoio
9 a 12 mesesImita gestos · Faz pinça · Produz jargão · Anda com apoio
12 a 15 mesesMostra o que quer · Coloca blocos na caneca · Diz uma palavra · Anda sem apoio
15 a 18 mesesUsa colher ou garfo · Constrói torre de 2 cubos · Fala 3 palavras · Anda para trás
18 a 24 mesesTira roupa · Constrói torre de 3 cubos · Aponta 2 figuras · Chuta bola
24 a 30 mesesVeste-se com supervisão · Constrói torre de 6 cubos · Frases com 2 palavras · Pula com ambos os pés
30 a 36 mesesBrinca com outras crianças · Imita o desenho de uma linha · Reconhece 2 ações · Arremessa bola
36 a 42 mesesVeste uma camiseta · Move o polegar com a mão fechada · Compreende 2 adjetivos · Equilibra-se em cada pé 1 segundo
42 a 48 mesesEmparelha cores · Copia círculos · Fala clara e compreensível · Pula em um pé só
48 a 54 mesesVeste-se sem ajuda · Copia cruz · Compreende 4 preposições · Equilibra-se em cada pé 3 segundos
54 a 60 mesesEscova dentes sem ajuda · Aponta a linha mais comprida · Define 5 palavras · Equilibra-se em um pé 5 segundos
60 a 66 mesesBrinca de fazer de conta com outras crianças · Desenha pessoa com 6 partes · Faz analogia · Marcha ponta-calcanhar
66 a 72 mesesAceita e segue regras nos jogos de mesa · Copia um quadrado · Define 7 palavras · Equilibra-se em cada pé por 7 segundos

Rastreio de risco para transtorno do espectro autista: o que a caderneta imprime

Pontuação totalFaixa de riscoEncaminhamento impresso
0 a 2Baixo riscoSe a criança tem menos de 24 meses na primeira avaliação, reaplicar depois do aniversário de 2 anos
3 a 7Risco médioAplicar a Entrevista de Seguimento, segunda etapa do instrumento. Teste positivo se a criança falhar em quaisquer 2 itens dessa entrevista
8 a 20Risco elevadoEncaminhamento imediato para avaliação diagnóstica e intervenção precoce, acionando as equipes multiprofissionais e/ou a rede de atenção especializada
Qualquer umaSuspeita da família ou do profissionalA criança deve ser encaminhada para avaliação mesmo que o resultado seja de baixo risco — regra impressa que se sobrepõe à pontuação

As duas réguas brasileiras sobre a mesma criança — onde discordam, esta apostila segue a caderneta; o que só a sociedade escreve, soma-se

QuestãoCaderneta da Criança, Ministério da Saúde (7ª ed., 2024)Sociedade Brasileira de Pediatria
Idade esperada da marcha independenteMarco da faixa de 12 a 15 mesesO manual de sinais de alerta cita o Denver II, que prevê deambulação independente até 15 meses
Idade em que a ausência de marcha vira preocupaçãoAos 15 meses e um dia é marco da faixa anterior ausente: provável atraso, acionar a redeA ausência de deambulação independente se torna sinal de alerta por volta dos dois anos de idade
Idade em que a ausência de sorriso social preocupaMarco da faixa de 1 a 2 meses; ausente aos 2 meses é alerta, aos 2 a 4 meses é provável atrasoO marco surge até 2 meses, mas o sinal de alerta da sua ausência se torna relevante entre 4 e 6 meses
Quadro de sinais de alerta independentes de idadeNão existe. A lista de sinais de alerta da caderneta é dirigida à família, tem 15 itens e não inclui perda de habilidade adquiridaExiste, com 8 itens, e o segundo deles é perda de habilidades adquiridas previamente
Quadro de sinais de alerta por idade, para o profissionalNão existe fora da tabela de marcosNão existe no documento; ele remete o leitor a um guia de acesso livre do estado de Queensland, na Austrália
Quando aplicar o rastreio de risco para transtorno do espectro autistaDiz a faixa (16 a 30 meses) e não diz em que consulta; as páginas de registro do 18º e do 24º mês não têm campo para o resultadoNas consultas de 18 e de 24 meses, para todas as crianças, com ou sem suspeita
Até quando medir o perímetro cefálicoO único gráfico de perímetro cefálico da caderneta vai de 0 a 2 anosA medida e o registro em gráfico devem ser feitos do nascimento até os 36 meses, e em toda consulta na criança com doença neurológica

Aplicar o instrumento e decidir além da pontuação

ExemploComo registrarPróximo passo
Prematuro com habilidades compatíveis com a idade corrigidaIdades cronológica/corrigida, técnica e fatores de riscoSeguimento do risco neonatal; não rotular atraso pela comparação com o termo
Criança de 16 meses que perdeu palavrasExemplo de palavra, quando dizia, quando parou, outros domíniosAvaliação prioritária e intervenção, mesmo antes do diagnóstico etiológico
M-CHAT-R/F baixo, mas família relata perda de interaçãoEscore e descrição independente da preocupaçãoAvaliação dirigida; baixo risco de rastreio não anula suspeita clínica
Item não demonstrado em criança cansada, sem outros alertasNão verificado quando apropriado, sem inventar presença ou ausênciaCompletar avaliação em condições adequadas e combinar retorno
Regressão aguda com fraqueza, convulsão ou consciência alteradaSinais atuais e cronologiaAvaliação urgente e suporte; não aguardar instrumento ambulatorial

Ao utilizar a Caderneta, localize o instrumento pelo título e confira a edição. A paginação e algumas remissões mudam; uma referência de página errada não deve impedir a aplicação do formulário correto.

Vigilância do desenvolvimento ocorre desde as primeiras consultas. A obrigação de acompanhar desenvolvimento não se resume ao instrumento de autismo, cuja faixa de validação deve ser respeitada.

Relacione normas e calendário à finalidade clínica: observar desenvolvimento, reconhecer preocupações, intervir e acompanhar. Não espere uma consulta de idade específica para agir diante de regressão.

O instrumento pede um dado que a caderneta não fornece depois dos 2 anos. A classificação de provável atraso aceita, sozinho, perímetro cefálico menor que -2 ou maior que +2 escores Z, e o próprio instrumento declara valer de 1 mês a 6 anos. O único gráfico de perímetro cefálico da caderneta cobre de 0 a 2 anos. Entre os 24 e os 72 meses — 48 dos 71 meses de vigência do instrumento, ou 68% da sua faixa — o critério continua exigido e não há, dentro do documento, curva com que calcular o escore Z. Conferência que deu certo: o sumário lista um único gráfico de perímetro cefálico, e a leitura página a página confirma que não há outro.

Use a referência apropriada de perímetro cefálico e descreva a trajetória; percentis arredondados e desvios-padrão não são intercambiáveis com precisão ilimitada. Um corte isolado não substitui o exame.

Não diagnostique alteração craniana por uma soma de velocidades mensais médias. Confira medida, idade, curva, crescimento anterior e exame; médias populacionais não descrevem uma criança individual.

A caderneta manda considerar relato dos cuidadores só nos itens assinalados, e não assinala nenhum. A instrução da página 78 é literal: só considere a informação dos cuidadores nos itens que estão assinalados. Na tabela de marcos das páginas 81 a 85 não há asterisco, marca, símbolo, cor distinta ou coluna que assinale item algum. A permissão de relato aparece diluída na coluna Como pesquisar, em seis redações diferentes, e alcança 16 dos 68 marcos. Quem não ler a descrição inteira de cada linha não tem como saber quais são.

O M-CHAT perdeu uma frase entre edições, e ela era a que controla o falso negativo. A instrução de preenchimento da 3ª edição pedia que, se o cuidador tivesse visto o comportamento poucas vezes — ou seja, se não fosse comportamento frequente — respondesse não. A 7ª edição pede apenas que se pense em como a criança geralmente se comporta na maior parte do tempo. A frase suprimida é a que impede a família de marcar sim porque viu o comportamento uma vez. A 3ª edição também trazia a atribuição da tradução do instrumento ao pé da página, que a 7ª não repete.

Os nomes e a paginação podem variar entre edições. Registre instrumento, versão, data, idade utilizada e resultado para permitir continuidade por outro profissional.

As faixas se sobrepõem nos meses de fronteira, e o instrumento não diz qual vale. As cinco tabelas de marcos compartilham as idades de fronteira: 6 meses fecha a primeira tabela e abre a segunda, 18 fecha a segunda e abre a terceira, 42 fecha a terceira e abre a quarta, 60 fecha a quarta e abre a quinta. Dentro de cada tabela acontece o mesmo entre faixas coloridas vizinhas. Uma criança de exatos 18 meses está simultaneamente na faixa de 15 a 18 e na de 18 a 24 meses. Se lhe falta um marco da faixa de 15 a 18, isso é ausência na sua faixa (alerta, retorno em 30 dias) ou ausência na faixa anterior (provável atraso, acionar a rede)? O documento não responde, e as duas leituras levam a destinos opostos: voltar em um mês, ou ser encaminhada hoje. Esta apostila adota a leitura pela faixa que começa, e o motivo está no bloco de divergências. Conferência que deu certo: os 68 marcos e as 17 faixas são idênticos na 3ª e na 7ª edição, item por item e coluna por coluna, de modo que essa ambiguidade tem pelo menos três anos.

Tabela de conversão do capítulo. Este capítulo não prescreve fármaco nenhum, e por isso a tabela de conversão que lhe cabe é a das idades. Idade corrigida = idade cronológica − (40 semanas − idade gestacional ao nascer), recalculada com 4,345 semanas por mês: prematuro de 28 semanas com 6 meses cronológicos tem 3,2 meses corrigidos; de 30 semanas com 9 meses tem 6,7; de 32 semanas com 12 meses tem 10,2; de 34 semanas com 18 meses tem 16,6; de 35 semanas com 24 meses tem 22,8. O exemplo impresso na caderneta trata 12 semanas como 3 meses, quando são 2,76 — o arredondamento é para baixo e sempre a favor da criança, porque a joga numa faixa mais fácil. Prazos que o capítulo maneja: retorno em 30 dias na classificação de alerta, e, no alerta que vem só de fator de risco que ficou no passado, o calendário do manual de seguimento do recém-nascido de alto risco — mensal até 6 meses de idade corrigida, a cada 2 meses dos 6 aos 12 (o manual admite 2 ou 3), a cada 3 dos 13 aos 24, semestral dos 2 aos 4 anos e anual depois; rastreio de risco para autismo válido de 16 a 30 meses; obrigação legal de protocolo nos primeiros 18 meses; correção de idade até 24 meses, ou 36 se a idade gestacional foi menor que 28 semanas; curvas de pré-termo até 64 semanas pós-concepcionais; consultas previstas na primeira semana e nos meses 1, 2, 4, 6, 9, 12, 18, 24 e 36.

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A conduta, hora a hora

O equivalente da prescrição, nesta consulta, é a linha do tempo: quem faz o quê, em que ordem, e o que fica escrito. Abaixo está a consulta da Teodora conduzida do começo ao fim, com as falas entre aspas, para servir de molde à sua. A criança tem 16 meses, nasceu a termo, pesa e mede na curva, tem vacina em dia e chegou por consulta de rotina.

O instrumento organiza o exame e a decisão, mas não encerra o raciocínio. Nesta criança com regressão, o registro da habilidade perdida e o encaminhamento fundamentado são centrais. Audição, visão e exames dirigidos podem ser necessários conforme história e exame; não se pede uma bateria indiferenciada, nem se adia avaliação por ainda faltar um diagnóstico etiológico. Intervenção inicial, apoio à família e investigação podem começar em paralelo.

  1. Minuto 0 — antes de tocar na criança

    A frase de abertura de Divanira — ela falava, doutor — é o achado mais importante da consulta e chegou antes de qualquer pergunta. Não a deixe passar para a anamnese padrão. Pare, peça o exemplo concreto e escreva.

    Prescrição
    • "O que exatamente ela falava? Me dá um exemplo, uma palavra que ela dizia."
    • "Quando foi que a senhora percebeu que tinha parado? Foi de uma semana para a outra ou foi devagar?"
    • "Além de falar, tem alguma outra coisa que ela fazia antes e não faz mais?"
    • Anotar as respostas com as palavras da mãe, entre aspas, no campo de observações da consulta.
  2. Minuto 3 — a idade e o histórico

    Confirme a idade a usar e folheie para trás. A Teodora nasceu a termo, então a idade cronológica vale. Nas colunas de consultas anteriores está a informação que fecha o caso.

    Prescrição
    • Conferir idade gestacional de nascimento na página de registro do parto: 39 semanas — sem correção de idade.
    • Folhear a tabela de marcos: na consulta do 12º mês, diz uma palavra está marcado com P.
    • Folhear os quadros de registro de consulta: classificação do 12º mês, desenvolvimento adequado.
    • Registrar por escrito o confronto: marco registrado como presente aos 12 meses e ausente aos 16.
  3. Minuto 6 — o exame que precede a tabela

    Antes dos marcos, os três dados que o instrumento manda rever e que podem, sozinhos, classificar a criança.

    Prescrição
    • Medir o perímetro cefálico com fita não extensível, três medidas, registrar a maior, e plotar no gráfico de 0 a 2 anos.
    • Procurar as oito alterações fenotípicas da lista da caderneta.
    • Percorrer os dez fatores de risco com a mãe, incluindo os ambientais — violência doméstica, depressão materna, uso de álcool ou drogas na casa.
    • Observar o comportamento: contato visual, resposta ao nome, se aponta, se compartilha.
  4. Minuto 12 — os quatro marcos da faixa dos 15 aos 18 meses

    Aplique com a técnica da coluna Como pesquisar, sem exigir mais nem menos do que ela pede. Ofereça colher, dois cubos, e observe a criança pela sala.

    Prescrição
    • Usa colher ou garfo: relato dos cuidadores aceito neste item — Divanira diz que sim, derrama pouco. Presente.
    • Constrói torre de 2 cubos: a criança pega os cubos e bate um no outro, não empilha. Ausente.
    • Fala 3 palavras: não. Ausente.
    • Anda para trás: a criança anda com apoio e ainda não sem apoio; não dá dois passos para trás. Ausente.
  5. Minuto 18 — voltar uma faixa, que é o passo que decide

    A faixa anterior ajuda a classificar o instrumento, mas a regressão já identificada também orienta a ação. Não é necessário esperar completar todas as tarefas para reconhecer um sinal de alerta. Registre o que foi observado, relatado ou não verificado e integre idade, trajetória, exame e preocupação familiar.

    Prescrição
    • Mostra o que quer: estende a mão para a bolsa da mãe. Presente.
    • Coloca blocos na caneca: coloca um bloco depois de demonstração. Presente.
    • Diz uma palavra: ausente — e estava presente aos 12 meses.
    • Anda sem apoio: ausente.
    • Classificação: provável atraso no desenvolvimento, por ausência de marcos da faixa etária anterior.
  6. Minuto 22 — o rastreio que a idade já permite

    Aos 16 meses, Teodora está na faixa de uso do M-CHAT-R/F. Aplicá-lo pode acrescentar informação, mas a regressão já justifica avaliação e intervenção: o encaminhamento não depende de um escore alto. Utilize a versão completa e as instruções oficiais, incluindo a entrevista de seguimento quando indicada; o resultado é de rastreio, não um diagnóstico de autismo.

    Prescrição
    • Explicar antes de aplicar: é rastreio, não diagnóstico, e pode dar falso-positivo.
    • Dizer em voz alta a instrução que saiu da 7ª edição: se viu o comportamento poucas vezes e não é frequente, responda não.
    • Aplicar os 20 itens, lembrando que nos itens 2, 5 e 12 é o SIM que indica risco.
    • Somar e classificar em baixo, médio ou elevado risco, e anotar a pontuação por extenso no campo de observações.
    • No M-CHAT-R/F, pontuação intermediária exige entrevista de seguimento dos itens pertinentes; alto risco segue para avaliação/intervenção sem essa etapa. Suspeita clínica relevante pode justificar encaminhamento mesmo com baixo escore.
  7. Após integrar história e exame — encaminhar e manter acompanhamento

    Provável atraso tem conduta impressa e ela não é rever em 30 dias. Aciona-se hoje. Some a isso a informação da regressão, que não cabe no formulário e por isso precisa estar escrita.

    Prescrição
    • Acionar a equipe multiprofissional da unidade e a rede de atenção especializada para avaliação do desenvolvimento.
    • Escrever no encaminhamento, na primeira linha, a perda: marco de linguagem registrado como presente aos 12 meses e ausente aos 16, referido pela mãe há cerca de 2 meses.
    • Registrar a classificação e a regressão na consulta efetivamente realizada aos 16 meses, com data e idade exatas; não registrar como se a avaliação tivesse ocorrido aos 18 meses.
    • Iniciar a estimulação hoje, sem esperar o especialista, com as orientações das páginas 37 a 52 da própria caderneta.
    • Chamar a preceptora para ver a criança nesta mesma consulta, e registrar que ela viu.
  8. Minuto 33 — o que a família leva embora

    A consulta só termina quando a família sabe o que foi encontrado, o que vai acontecer e o que a faz voltar antes. Nada disso é diagnóstico, e é importante que não soe como um.

    Prescrição
    • Explicar em português: encontramos coisas que ela já fazia e não faz mais, isso precisa de avaliação com outros profissionais, e a avaliação começa agora.
    • Combinar retorno próximo na unidade, com data, sem depender da consulta especializada. No alerta estável pode ser em 30 dias; regressão ou sinais neurológicos exigem prioridade e intervalo individualizado, com retorno imediato se houver piora.
    • Listar os sinais que justificam voltar antes: perder mais alguma coisa que já fazia, parar de responder ao nome, convulsão, fraqueza de um lado do corpo.
    • Devolver a caderneta com as páginas preenchidas mostradas à mãe, uma a uma, e pedir que traga em toda consulta.
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar, aqui, não é ver se o tratamento funcionou — não há tratamento a avaliar. É ver se a criança se moveu dentro da sequência. A pergunta da consulta de retorno é sempre a mesma e é comparativa: o repertório dela cresceu, ficou parado ou encolheu desde a última vez?

O retorno em 30 dias da classificação de alerta existe justamente porque uma consulta única não distingue lento de parado. Trinta dias é curto o bastante para que a família ainda lembre e longo o bastante para que uma criança em desenvolvimento típico mostre alguma aquisição nova. Marcar o retorno é parte da conduta impressa, e o retorno que não é agendado na hora não acontece.

Na consulta de retorno, a caderneta manda refazer a classificação e seguir de novo as orientações do instrumento — não basta perguntar se melhorou. Refazer significa aplicar os quatro marcos outra vez, com a faixa etária recalculada para a idade de hoje, que pode já ser outra.

Marcos ausentes na consulta anteriorEm 30 dias, na classificação de alerta

Esperado: Pelo menos um dos marcos antes ausentes agora presente, ou a criança já dentro de uma faixa nova com todos os marcos dela presentes

Se não melhora: Se os mesmos marcos continuam ausentes e a criança avançou de faixa, eles passaram a ser marcos da faixa anterior: a classificação sobe para provável atraso e a conduta muda de retorno para acionamento da rede

Repertório perdidoEm toda consulta, sempre

Esperado: Nada a mais deixou de ser feito; idealmente, a habilidade perdida voltou

Se não melhora: Perda nova, ou perda que se estende a outra área, é encaminhamento imediato, independentemente da classificação que a tabela produzir. Registrar por escrito o que se perdeu e quando

Preocupação dos cuidadoresEm toda consulta, com a pergunta feita em voz alta

Esperado: A família percebe progresso e a preocupação diminui

Se não melhora: Preocupação persistente com instrumento normal não é resultado normal. A forte preocupação dos pais é o primeiro sinal de alerta independente de idade do quadro da sociedade de pediatria; registre-a e encaminhe se ela se mantiver

Perímetro cefálicoEm toda consulta até os 2 anos, enquanto a caderneta oferece gráfico

Esperado: Traçado paralelo à linha de referência, sem cruzar linhas

Se não melhora: Traçado que cruza linha para cima ou para baixo, ou que fica horizontal, deve ser investigado — e vale lembrar a advertência da própria caderneta de que a alteração do desenvolvimento é mais sensível e mais precoce que a do crescimento da cabeça

Rastreio de risco para autismoAos 18 e aos 24 meses, pela recomendação da sociedade de pediatria; a caderneta só delimita a faixa de 16 a 30 meses

Esperado: Pontuação de 0 a 2, com reaplicação depois dos 2 anos se a primeira foi antes dos 24 meses

Se não melhora: Pontuação de 3 a 7 exige a Entrevista de Seguimento na mesma consulta ou na seguinte; de 8 a 20, encaminhamento imediato sem a entrevista. Suspeita da família ou do profissional encaminha mesmo com pontuação baixa

Audição e visãoSempre que houver atraso de linguagem ou de interação

Esperado: Criança que acorda com barulho, atende sem estar olhando, e que fixa e segue objetos

Se não melhora: Reavaliar audição e visão antes de atribuir o atraso ao desenvolvimento global. Triagem neonatal normal não encerra a questão: perda auditiva pode ser adquirida ou de manifestação tardia

Data marcada e comparecimentoEntre uma consulta e outra

Esperado: Retorno agendado, anotado na caderneta e cumprido

Se não melhora: Falta ao retorno numa criança classificada como alerta ou provável atraso é busca ativa pela equipe, não é alta. É uma das poucas situações da puericultura em que a ausência do paciente é, por si, um achado

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Onde o erro machuca

Preencher a coluna de hoje sem folhear as colunas de ontem.

O dano: É o erro que produz o caso da Teodora em cada unidade do país. O instrumento não pergunta se a criança perdeu habilidade, e a única forma de descobrir uma perda com a caderneta na mão é comparar a coluna de hoje com as anteriores. Quem preenche só a coluna de hoje transforma uma criança em regressão numa criança com atraso, que é outro problema, com outra lista de causas e outra urgência. A perda de habilidade adquirida está entre os oito sinais de alerta independentes de idade do manual da sociedade de pediatria, e é uma das poucas coisas capazes de tirar uma criança da fila de espera — se estiver escrita.

Como pegar a tempo: Vire as páginas antes de escrever. São dez segundos: os quadros de registro das consultas anteriores e as colunas já preenchidas da tabela de marcos. E faça, em toda consulta, a pergunta que a caderneta não faz: a senhora percebeu se ela deixou de fazer alguma coisa que já fazia? Depois escreva a resposta com as palavras da família, entre aspas, no campo de observações — porque o formulário não tem onde guardar isso e o encaminhamento vai precisar dela.

Pular o passo de voltar uma faixa quando falta um marco.

O dano: É o passo que separa retorno em 30 dias de encaminhamento hoje, e é o mais pulado porque exige refazer o exame com outros quatro itens numa criança que já está cansada de você. Quem pula não fica sem classificação: fica com a classificação errada para baixo. A criança sai como alerta, com retorno marcado, quando o instrumento a classificaria como provável atraso e mandaria acionar a rede. Um mês perdido de fila numa criança que precisava entrar hoje.

Como pegar a tempo: Trate a ausência de qualquer marco como gatilho automático: faltou um, aplica-se a faixa anterior inteira antes de classificar. Se a criança não colabora mais, marque NV nos itens da faixa anterior, escreva que não foi possível verificar e agende o retorno para completar — mas não classifique como alerta fingindo que a faixa anterior estava presente.

Usar a idade cronológica no prematuro.

O dano: Transforma bebê normal em bebê atrasado por conta de aritmética. Um prematuro de 30 semanas com 9 meses cronológicos tem 6,7 meses corrigidos: se você o avaliar na faixa de 9 a 12 meses, vai encontrar imita gestos, faz pinça, jargão e marcha com apoio ausentes, e classificar provável atraso numa criança que está exatamente onde deveria. O dano não é só o encaminhamento desnecessário — é a família saindo da consulta achando que o filho tem problema neurológico.

Como pegar a tempo: Calcule a idade corrigida antes de abrir a página dos marcos, nunca depois. Quarenta semanas menos a idade gestacional de nascimento, descontado da idade cronológica. Corrige-se até os 2 anos de idade cronológica, ou até os 3 anos se a idade gestacional foi menor que 28 semanas. E anote a idade corrigida ao lado da cronológica no registro da consulta, para que o próximo profissional não repita a conta nem a esqueça.

Exigir mais do que a coluna Como pesquisar pede, ou aceitar relato onde ela não permite.

O dano: Os dois lados do mesmo erro produzem classificações opostas e igualmente falsas. Exigir pinça fina polegar-indicador quando a caderneta aceita qualquer parte do polegar associada ao indicador fabrica atraso. Exigir que a criança demonstre na sala que brinca com outras crianças, item que a caderneta manda perguntar aos cuidadores, fabrica atraso também. No outro extremo, aceitar relato materno em fala 3 palavras — item que a caderneta manda observar durante o atendimento, com o relato apenas considerado — transforma a avaliação numa entrevista em que tudo fecha bonito.

Como pegar a tempo: Leia a descrição inteira do item antes de marcar, não só o nome do marco. Dezesseis dos sessenta e oito marcos aceitam relato dos cuidadores, e nenhum deles está assinalado por símbolo algum: a permissão está no texto corrido da coluna. Se a descrição diz observe, observe. Se diz pergunte aos cuidadores, pergunte.

Tratar instrumento normal como consulta encerrada quando a mãe continua preocupada.

O dano: A forte preocupação dos pais é o primeiro item do quadro de sinais de alerta independentes de idade da sociedade de pediatria, e a própria caderneta manda perguntar aos cuidadores o que eles acham do desenvolvimento da criança e valorizar essa informação. O instrumento tem sensibilidade limitada por construção — são quatro itens por faixa. Encerrar a consulta no adequado quando a mãe insiste é trocar a observação de quem convive com a criança todos os dias pela de quem a viu por doze minutos.

Como pegar a tempo: Quando a preocupação persiste apesar do rastreio tranquilizador, peça exemplos, verifique contexto, audição, visão e exame neurológico e discuta com o preceptor. Defina reavaliação próxima e encaminhamento conforme a suspeita; regressão ou outro sinal de alerta não aguardam 30 dias por rotina. Baixo risco no M-CHAT-R/F também não impede avaliação quando vigilância clínica ou familiar levanta suspeita.

Deixar o rastreio de risco para autismo para a próxima consulta.

O dano: A janela do instrumento vai de 16 a 30 meses e as consultas previstas dentro dela são duas: a do 18º e a do 24º mês. Adiar uma delas pode significar perder metade das oportunidades agendadas. E há a obrigação legal: o § 5º do art. 14 do Estatuto da Criança e do Adolescente manda aplicar protocolo de detecção de risco para o desenvolvimento psíquico a todas as crianças nos seus primeiros dezoito meses de vida — a consulta do 18º mês é o último encontro agendado dentro do prazo da lei.

Como pegar a tempo: Aplique na consulta em que a criança entra na janela, e não na seguinte. São vinte perguntas de sim ou não, dirigidas ao cuidador, com o formulário já impresso na caderneta. Explique antes que é rastreio e que pode dar falso-positivo, e diga em voz alta a instrução que a 7ª edição deixou de imprimir: se viu o comportamento poucas vezes e não é frequente, responda não. Anote a pontuação por extenso no campo de observações, porque as páginas de registro do 18º e do 24º mês não têm campo para o resultado.

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O que dizer ao paciente e à família

Quase tudo o que a família vai lembrar desta consulta cabe em três frases, e nenhuma delas é a classificação. A mãe que sai daqui não vai repetir para o marido que a filha ficou como provável atraso no desenvolvimento: vai repetir a palavra que você usou, e você escolhe qual é.

Há duas regras que valem para todas as falas que vêm a seguir. A primeira é não dar diagnóstico que você não tem — este capítulo rastreia e encaminha, e nomear a doença é do especialista. A segunda é não devolver a família para casa sem tarefa: estimulação começa hoje, com o que está impresso nas páginas 37 a 52 da própria caderneta, independentemente de quando o especialista atender.

Abrir a consulta de rotina, quando não há queixa nenhuma

"Antes de pesar e medir, queria te perguntar duas coisas sobre o desenvolvimento dele. A primeira: o que a senhora acha do jeito que ele está se desenvolvendo, comparado com o que a senhora esperava? E a segunda, que é a que quase ninguém pergunta: tem alguma coisa que ele fazia antes e não faz mais? Pode ser qualquer coisa — uma palavra, um gesto, brincar de um jeito."

Não diga: Perguntar só está tudo bem com o desenvolvimento. A pergunta genérica recebe resposta genérica, e a família que está preocupada sem saber nomear o que a preocupa responde que sim.

Explicar por que você está mexendo tanto na criança numa consulta sem queixa

"Vou fazer umas brincadeiras com ela agora. Não é teste de doença, é o jeito de conferir se ela está aprendendo as coisas na idade em que a maioria aprende. Está tudo aqui nesta página da caderneta que a senhora carrega — são quatro coisas para cada idade. Se ela não fizer alguma, não quer dizer que tem problema; quer dizer que a gente vai olhar de novo."

Não diga: Fazer os marcos em silêncio, sem explicar. A mãe que vê o médico oferecer cubos e anotar sem dizer nada sai achando que foi examinada uma coisa grave que não lhe contaram.

Devolver um resultado adequado sem encerrar a vigilância

"Ela fez as quatro coisas da idade dela, e isso é boa notícia. A senhora está estimulando bem. Agora, duas coisas: a próxima consulta é a de tantos meses, e antes disso, se ela deixar de fazer alguma coisa que já faz hoje — parar de falar uma palavra que já falava, parar de atender pelo nome — a senhora não espera a data, vem antes."

Não diga: Encerrar no está tudo bem. A caderneta manda, na própria conduta do desenvolvimento adequado, informar a família sobre os sinais de alerta para retornar antes — e é a família que vai perceber primeiro.

Devolver um resultado de alerta com retorno em 30 dias

"Ele fez três das quatro coisas da idade. Está faltando uma, e nessa idade uma criança pode simplesmente estar levando mais tempo — isso acontece e é comum. O que a gente não faz é ficar na dúvida por muito tempo. Então: eu vou te mostrar aqui na caderneta o que fazer com ele em casa nesse mês, e a gente marca para daqui a trinta dias, com data, para eu olhar de novo. Se nesse meio-tempo ele perder alguma coisa que já faz, a senhora vem antes."

Não diga: Dizer que está quase e que na próxima vai estar bom. Alerta com retorno vago vira alta silenciosa: a consulta de trinta dias precisa sair da sala com data marcada.

Contar que a criança será encaminhada, sem dar diagnóstico

“Vou encaminhá-la com a informação do que ela fazia e deixou de fazer. Enquanto isso, já organizamos o apoio ao desenvolvimento e um retorno próximo aqui, sem depender da fila. Se a perda de habilidades aumentar, ela ficar diferente, tiver convulsão ou dificuldade para andar ou se alimentar, vocês procuram atendimento imediatamente.”

Não diga: Falar em autismo, paralisia cerebral, epilepsia ou síndrome. Nenhum desses nomes é seu para dar nesta consulta, e um deles dito por engano fica na família para sempre.

Aplicar o rastreio de risco para autismo, antes da primeira pergunta

"Vou te fazer vinte perguntas de sim ou não sobre coisas do dia a dia dele. Isso é um rastreio, não é diagnóstico: serve para achar as crianças que precisam de uma segunda olhada. Ele pega mais crianças do que precisa de propósito, então dar alterado não significa que ele tem alguma coisa. Responda pensando no que ele faz na maior parte do tempo — se a senhora viu ele fazer uma ou duas vezes só, e não é o costume dele, responde não."

Não diga: Aplicar sem explicar e devolver o número. Família que recebe pontuação sem contexto ou entra em pânico ou desiste da etapa seguinte, e as duas coisas custam a criança.

Responder a mãe que se culpa

"A senhora está me perguntando se foi por alguma coisa que a senhora fez. Não foi, e essa pergunta aparece em toda família. O que a senhora faz daqui para a frente muda muita coisa: trazer ela nas consultas, conversar com ela, brincar do jeito que eu vou te mostrar, e voltar quando alguma coisa mudar. Isso não é pouco — é a parte que mais depende de alguém, e esse alguém é a senhora."

Não diga: Responder só com não foi culpa sua e mudar de assunto. A caderneta reconhece que a suspeita de alteração gera medo, dúvida e dificuldade de aceitar, e diz que esses sentimentos são normais; dizer isso em voz alta faz parte da conduta.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A partir de que idade a criança que não anda sozinha precisa ser encaminhada

Caderneta da Criança, Ministério da Saúde, 7ª edição, 2024 (e idêntica desde a 3ª edição, 2021)

Anda sem apoio é marco da faixa de 12 a 15 meses. Pela regra impressa, ao final da faixa etária a criança deve ter atingido todos os marcos previstos; e a ausência de um ou mais marcos da faixa anterior classifica provável atraso, cuja conduta é acionar as equipes multiprofissionais e a rede de atenção especializada. Na prática, a criança de 15 meses e um dia que não anda sozinha é encaminhada.

Caderneta da criança: menino, 7ª ed., 2024, tabela de marcos de 6 meses a 1 ano e meio (pág. 82) e Instrumento de Avaliação do Desenvolvimento Integral da Criança (pág. 80)

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Neurologia, Manual de Orientação nº 1, abril de 2020

O documento separa marco de sinal de alerta e diz que o sinal de alerta surge numa idade posterior à da aquisição do marco. Cita o Denver II, segundo o qual a deambulação independente ocorre até os 15 meses, e afirma em seguida que a ausência de deambulação independente se torna sinal de alerta por volta de dois anos de idade. Pela mesma lógica aplicada ao sorriso social, existe uma faixa de tolerância entre a idade esperada do marco e a idade em que a ausência preocupa.

Sinais de alerta na avaliação neurológica da criança e do adolescente, Manual de Orientação nº 1, abril de 2020, seção introdutória sobre marcos e sinais de alerta

Como decidir

Os dois documentos concordam sobre quando a criança costuma andar e discordam por cerca de nove meses sobre quando a ausência vira problema. Esta apostila adota a régua da caderneta: aos 15 meses e um dia, a criança que não anda sozinha tem marco da faixa anterior ausente, e isso é provável atraso — acionar a equipe multiprofissional e a rede. Decide a data: as duas réguas tratam da mesma criança, e a da caderneta, impressa igual desde 2021, é mais nova que o manual de abril de 2020; a natureza aponta para o mesmo lado. A tolerância até os dois anos fica registrada como a do manual da Sociedade Brasileira de Pediatria. Para o paciente à sua frente, três coisas completam a decisão. Primeira: veja se a marcha está isolada ou acompanhada. Criança de 16 meses que não anda sozinha mas anda com apoio, faz pinça, diz palavra e imita gestos está em situação diferente daquela que não anda e também não fala — a segunda tem marcos ausentes em mais de um domínio, e aí as duas réguas concordam. Segunda: examine o tônus e a simetria. Hipotonia, hipertonia com prejuízo motor e diferença entre os lados do corpo estão nos sinais de alerta independentes de idade e mudam a conduta sozinhos, em qualquer das duas réguas. Terceira: lembre que o custo dos dois erros é assimétrico. Encaminhar cedo demais gasta uma vaga; encaminhar tarde demais gasta janela de intervenção. É esse o motivo de não esperar os dois anos: mesmo na criança que anda com apoio e vai bem no resto, a conduta é classificar como provável atraso, registrar por escrito o que foi encontrado e acionar a rede, sem esperar trinta dias por uma aquisição nova, que é a tolerância da outra régua.

Se prematuridade e os outros fatores de risco continuam classificando a criança como alerta para sempre

Retorno em 30 dias, sem prazo — leitura literal do Instrumento de Avaliação do Desenvolvimento Integral da Criança (caderneta de 2024, pág. 80)

A classificação de alerta para o desenvolvimento é produzida por duas situações alternativas, e a segunda é: todos os reflexos, posturas e habilidades para a sua faixa etária estão presentes, mas existe um ou mais fatores de risco. A lista de dez fatores inclui prematuridade abaixo de 37 semanas, peso de nascimento abaixo de 2.500 gramas, parentesco entre os pais e hospitalização neonatal — todas condições permanentes. O instrumento não estabelece prazo de validade para o fator de risco. Lido assim, todo prematuro tem retorno em 30 dias enquanto durar a caderneta.

Caderneta da criança: menino, 7ª ed., 2024, Instrumento de Avaliação do Desenvolvimento Integral da Criança (pág. 80) e lista de fatores de risco da Vigilância do Desenvolvimento Infantil (pág. 78)

Vigilância escalonada pela idade — manual de seguimento do recém-nascido de alto risco da Sociedade Brasileira de Pediatria (2024), no prematuro; escolha desta apostila, nos demais fatores

O fator de risco modula a vigilância — motivo para olhar mais de perto e com mais frequência que a rotina, com a frequência caindo à medida que a criança cresce — e não gera consulta mensal perpétua. Para a criança que nasceu prematura, de baixo peso ou passou pela unidade neonatal, é o que escreve o manual de seguimento da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2024: revisões mensais até 6 meses de idade corrigida, bimestrais ou trimestrais dos 6 aos 12 meses de idade corrigida, trimestrais dos 13 aos 24 meses, semestrais dos 2 aos 4 anos de idade cronológica e anuais dos 4 anos até a puberdade, antecipadas quando aparece atraso. Para os demais fatores da lista, nenhum documento consultado escalona a vigilância, e estender a eles a mesma lógica é escolha desta apostila.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Neonatologia. Manual de seguimento do recém-nascido de alto risco, 2ª edição, 2024, periodicidade das consultas, para a prematuridade, o baixo peso e a internação neonatal; para os demais fatores da lista, escolha desta apostila, declarada como escolha e não como citação

Como decidir

Esta apostila adota a vigilância escalonada: o fator de risco continua classificando, mas não marca retorno de mês em mês para sempre. Na classificação vale a letra — fator de risco da lista com todos os marcos presentes é alerta, em qualquer idade da caderneta —, e ele se registra sempre, com o motivo entre parênteses, porque é o registro que justifica prioridade quando a criança precisar de vaga. O que muda é a data do retorno quando o alerta vem só do fator de risco. Na prematuridade, no baixo peso ao nascer e na internação neonatal, decide o escopo: a caderneta é escrita para toda criança, e o manual de seguimento do recém-nascido de alto risco da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 2024, para a que nasceu prematura, de baixo peso ou passou pela unidade neonatal — e ele marca revisões mensais até os 6 meses de idade corrigida, bimestrais ou trimestrais dos 6 aos 12, trimestrais dos 13 aos 24 meses, semestrais dos 2 aos 4 anos de idade cronológica e anuais dos 4 anos até a puberdade. Até os 6 meses de idade corrigida, portanto, os dois documentos coincidem no retorno mensal; dali em diante, a criança com todos os marcos presentes segue o calendário do manual, e, onde ele admite dois ou três meses, esta apostila fica com dois. Para os outros fatores da lista, que nenhum documento deste bloco escalona, a escolha é desta apostila, pelo mesmo raciocínio: o que ficou no passado da criança — pré-natal incompleto, infecção ou problema na gestação e no parto, icterícia grave, doença grave que já terminou — e o parentesco entre os pais seguem o mesmo calendário; o que continua agindo — violência doméstica, depressão materna, álcool ou drogas entre os moradores, suspeita de abuso, doença que ainda não terminou — mantém o retorno em 30 dias enquanto durar. A leitura literal fica registrada: pela letra da caderneta de 2024, todo alerta tem retorno em 30 dias, também o que vem só do fator de risco, sem prazo de validade. Marco ausente não entra nesta conta: ausência na própria faixa é retorno em 30 dias, e ausência na faixa anterior é rede acionada hoje, com fator de risco ou sem ele. E escreva no registro qual calendário está em uso, para que a consulta seguinte não o troque.

A qual faixa pertence a criança que está exatamente num mês de fronteira

Leitura pela faixa que começa (a mais nova das duas)

As idades de fronteira aparecem nas duas faixas: 6, 18, 42 e 60 meses fecham uma tabela e abrem a seguinte, e o mesmo acontece entre as faixas coloridas dentro de cada tabela. Quem lê a criança de 18 meses como pertencente à faixa de 18 a 24 meses trata os marcos de 15 a 18 como faixa anterior: a ausência de fala 3 palavras aos 18 meses classifica provável atraso e manda acionar a rede hoje.

Caderneta da criança: menino, 7ª ed., 2024, tabelas de marcos das pág. 82 e 83, colunas de idade em meses

Leitura pela faixa que termina (a mais velha das duas)

Quem lê a criança de 18 meses como ainda dentro da faixa de 15 a 18 meses — apoiando-se na regra impressa de que ao final da faixa etária a criança deve ter atingido todos os marcos previstos, isto é, de que o último mês ainda é prazo — trata a ausência de fala 3 palavras como ausência na sua própria faixa: classifica alerta e marca retorno em 30 dias.

Caderneta da criança: menino, 7ª ed., 2024, instrução de Avaliação dos Marcos de Desenvolvimento (pág. 79)

Como decidir

O documento não resolve a sobreposição, e as duas leituras separam encaminhar hoje de rever daqui a um mês. Esta apostila adota a leitura pela faixa que começa: a criança que completou a idade de fronteira já está na faixa nova, e o que lhe falta da faixa que terminou é marco da faixa anterior — provável atraso, acionar a rede. Nenhum degrau de desempate decide, porque as duas leituras saem da mesma caderneta, na mesma edição; a escolha é desta apostila, pelo mesmo motivo que a faz não esperar a tolerância da sociedade na marcha: o custo dos dois erros é assimétrico, e encaminhar tarde demais gasta janela de intervenção. A leitura pela faixa que termina, que trata o último mês como prazo e dá alerta com retorno em 30 dias, fica registrada. Na prática, aplique as duas faixas — são oito marcos em vez de quatro, e custa poucos minutos. Aos 18 meses, a criança que cumpre os quatro marcos de 15 a 18 e falha em algum de 18 a 24 tem ausência na própria faixa: alerta, com retorno. A que falha em algum de 15 a 18 tem marco da faixa anterior ausente: provável atraso, e a rede é acionada hoje. E escreva qual faixa você usou, porque a consulta seguinte vai precisar comparar com a mesma régua — a comparação da criança com ela mesma só funciona se a régua não mudar no meio.

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O raciocínio, em voz alta

Leocádio Sobradinho tem 9 meses de idade cronológica e nasceu com 30 semanas, pesando 1.280 gramas. Ficou 26 dias internado em unidade neonatal, teve icterícia tratada com fototerapia e recebeu alta mamando. Chega à consulta do 9º mês no colo do pai, Ariclenes, que trouxe a caderneta e um envelope com o relatório de alta. A queixa é uma frase do pai: na creche disseram que ele está atrasado, porque não senta sozinho como os outros da turma.

  1. Primeiro: a idade

    Antes de qualquer coisa, corrija. Quarenta semanas menos trinta são dez semanas que faltaram, ou cerca de 2,3 meses. Nove meses cronológicos menos 2,3 dão 6,7 meses de idade corrigida. A faixa a usar não é a de 9 a 12 meses e sim a de 6 a 9. Corrige-se até os 2 anos de idade cronológica, e ele tem 9 meses: está dentro do prazo de correção.

  2. Segundo: os marcos da faixa de 6 a 9 meses

    Brinca de esconde-achou: procura o pai atrás do pano, presente. Transfere objetos de uma mão para a outra: presente. Duplica sílabas: o pai diz que ele fala dadá em casa, e neste item o relato do acompanhante é aceito pela própria descrição — presente. Senta-se sem apoio: colocado numa superfície firme com um brinquedo na mão, ele senta e se equilibra por alguns segundos sem apoiar as mãos. Presente. Quatro de quatro.

  3. Terceiro: os três dados que precedem a tabela

    Perímetro cefálico plotado no gráfico: traçado paralelo à linha de referência, dentro de -2 e +2 escores Z. Nenhuma das oito alterações fenotípicas. Comportamento adequado — olha, sorri, responde ao nome. Nenhum dos três classifica sozinho.

  4. Quarto: os fatores de risco, que aqui existem

    Da lista de dez, Leocádio tem quatro: prematuridade abaixo de 37 semanas, peso de nascimento abaixo de 2.500 gramas, hospitalização no período neonatal e icterícia grave. Pela letra do instrumento, todos os marcos presentes com um ou mais fatores de risco classifica alerta para o desenvolvimento, não adequado.

  5. Quinto: a classificação e a conduta

    Alerta para o desenvolvimento. Da conduta impressa, orientar a estimulação adequada à faixa e informar a família sobre os sinais de alerta para voltar antes. A data do retorno não é a dos 30 dias impressos, porque o alerta vem só dos fatores de risco: no prematuro com todos os marcos presentes, esta apostila segue o calendário do manual de seguimento do recém-nascido de alto risco, e aos 6,7 meses de idade corrigida ele pede revisão a cada dois ou três meses — marco em dois. Não é encaminhamento — nenhum critério de provável atraso está presente.

  6. Sexto: o que se diz ao pai

    Que a comparação da creche é com crianças da mesma data de nascimento, e que Leocádio, por ter nascido dez semanas antes, está sendo comparado com crianças mais velhas que ele em desenvolvimento. Que pela idade corrigida ele fez as quatro coisas esperadas. Que ele volta em dois meses, antes do que a rotina marcaria, não porque está atrasado, mas porque nasceu prematuro e o acompanhamento é mais de perto. E que se ele deixar de fazer alguma coisa que já faz, o pai volta antes.

  7. Sétimo: o que fica escrito

    Idade cronológica e idade corrigida lado a lado no registro da consulta — para que o próximo profissional não repita a conta nem a esqueça. Os quatro marcos com P. A classificação de alerta no quadro de desenvolvimento do registro do 9º mês, com o motivo entre parênteses: fatores de risco, marcos presentes. E a data do retorno, com o calendário que a definiu.

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Faça você

Serafina Nogueiral tem 24 meses exatos, nasceu a termo, cresce bem e vem à consulta do 24º mês trazida pela avó, que é quem cuida dela enquanto a mãe trabalha. A avó não tem queixa nenhuma: diz que a menina é esperta, come de tudo e é muito quieta, do jeito que a mãe dela era. Você aplica a faixa de 24 a 30 meses e encontra: veste-se com supervisão, presente pelo relato da avó; constrói torre de 6 cubos, presente; pula com os dois pés, presente; frases com 2 palavras, ausente — a avó diz que ela fala palavras soltas, nunca duas juntas. Você volta uma faixa, para 18 a 24 meses: tira roupa, presente; torre de 3 cubos, presente; aponta 2 figuras de um grupo de 5, ausente — a menina olha para a folha e não aponta; chuta bola, presente. O perímetro cefálico está dentro do corte, não há alterações fenotípicas e não há fatores de risco na lista de dez. Durante a consulta inteira, Serafina não olhou para você nenhuma vez e não atendeu quando você a chamou pelo nome.

  1. Classifique

    Qual das três classificações do instrumento se aplica, e por qual dos critérios exatamente? Cuidado com o mês de fronteira: aos 24 meses exatos, Serafina está simultaneamente na faixa que termina e na que começa.

  2. Decida a conduta impressa

    O que a caderneta manda fazer com essa classificação, com essas palavras? E há alguma coisa a fazer nesta consulta que não vem da classificação e sim da idade dela?

  3. Diga o que você escreveria

    Que informações desta consulta não têm campo no formulário e precisam ir para o campo de observações para que a próxima consulta e o encaminhamento tenham sentido?

Ver como fecharíamos

A classificação é provável atraso no desenvolvimento, e o critério é ausência de um ou mais marcos da faixa etária anterior: aponta 2 figuras é marco da faixa de 18 a 24 meses e está ausente. Repare que a ausência de frases com 2 palavras, sozinha, daria apenas alerta — foi o passo de voltar uma faixa que mudou o destino da menina, e é exatamente o passo que a pressa faz pular. Sobre o mês de fronteira: aos 24 meses exatos as duas leituras existem, e esta apostila adota a da faixa que começa — por isso a faixa de 24 a 30 meses é a de Serafina, e a de 18 a 24, a anterior. Pela outra leitura, apontar figuras seria marco da própria faixa, e a classificação dependeria de voltar mais uma faixa, até a de 15 a 18 meses; é essa diferença que o bloco de divergências decide. A conduta impressa para provável atraso é acionar as equipes multiprofissionais e/ou a rede de atenção especializada para avaliação do desenvolvimento. Não é retorno em 30 dias, é encaminhamento — embora seja boa prática manter também um retorno na unidade, porque a fila da rede especializada não é sua e a criança não pode ficar sem quem a acompanhe enquanto espera. E sim: há uma tarefa que vem da idade e não da classificação. Aos 24 meses Serafina está dentro da janela de 16 a 30 meses do rastreio de risco para transtorno do espectro autista, e a recomendação da sociedade de pediatria é aplicá-lo justamente nas consultas de 18 e de 24 meses. Vários itens do instrumento perguntam exatamente o que você já observou — se a criança aponta para mostrar algo, se responde quando chamada pelo nome, se olha nos olhos. Aplicar hoje é obrigatório pelo bom senso e é a última consulta agendada da janela. O que precisa ir para o campo de observações é tudo aquilo que a tabela de marcos não guarda. Primeiro, os dois achados de comportamento: não sustentou contato visual em nenhum momento da consulta e não atendeu ao próprio nome. Nenhum dos dois é marco da caderneta, e os dois estão no quadro de sinais de alerta independentes de idade da sociedade de pediatria — contato visual nulo ou escasso e ausência de resposta a estímulos. Segundo, a pontuação do rastreio por extenso, porque as páginas de registro do 18º e do 24º mês não têm campo para ela. Terceiro, a frase da avó de que a menina é muito quieta, com as palavras dela: quieta é a palavra que famílias usam para descrever pouca reciprocidade social, e ela é dado clínico, não conversa de corredor. E quarto, a pergunta que você ainda não fez e que deveria fazer antes de a avó sair: Serafina deixou de fazer alguma coisa que já fazia? A avó não é quem passa o dia com a criança desde sempre; vale a mesma pergunta para a mãe, por telefone ou no retorno. Uma última observação sobre o que não fazer. Não escreva suspeita de autismo no encaminhamento, mesmo que o rastreio dê risco elevado. O instrumento é de rastreio, a própria caderneta manda explicar à família que resultado positivo não confirma diagnóstico, e o diagnóstico pertence à equipe especializada que vai avaliar. O que se escreve é o que se viu: marcos ausentes com nomes e idades, comportamento observado, pontuação do rastreio, e a preocupação da família se ela existir.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O instrumento produz a classificação de alerta por duas situações alternativas, e a segunda é exatamente esta: todos os reflexos, posturas e habilidades presentes para a faixa etária, mas com um ou mais fatores de risco. A lista tem dez itens e inclui riscos ambientais como a depressão materna e o pré-natal não realizado ou incompleto — duas condições presentes aqui. A conduta do alerta é orientar a estimulação, marcar retorno em 30 dias e informar a família sobre os sinais que justificam voltar antes. Chamar de adequado ignora metade da regra, e a diferença não é semântica: adequado não gera retorno em 30 dias. Não há na tabela nenhuma equivalência entre número de fatores de risco e número de alterações fenotípicas — as alterações fenotípicas classificam provável atraso quando são três ou mais, e essa é outra linha do instrumento. Também não existe a categoria de não classificável: a classificação é feita na consulta, pelo profissional que avalia. O documento não estabelece por quanto tempo um fator de risco permanente continua contando; esta apostila mantém a classificação e escalona a data do retorno pela idade quando o fator ficou no passado, mas depressão materna em tratamento é risco que continua agindo, e aqui os 30 dias valem enquanto ela durar.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Aplique a Caderneta em dois casos supervisionados: um prematuro com habilidades esperadas para idade corrigida e uma criança com perda de habilidade. Mostre como obtém exemplos da família, observa tarefas e diferencia presente, ausente e não verificado. Depois explique o próximo passo diante de rastreio baixo com preocupação persistente. Consulte o instrumento para corrigir sua aplicação, sem tentar decorar todos os marcos.

Em 30 dias

Acompanhe uma criança cuja avaliação gerou preocupação. Verifique se a família recebeu apoio, se o encaminhamento aconteceu e se houve ganho, estabilidade ou perda em cada domínio relevante. Compare sua descrição com a do preceptor e registre uma habilidade observável como objetivo de acompanhamento. Explique à família o que justifica retorno antecipado e quem manterá o seguimento enquanto a avaliação especializada ocorre.

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Agora atenda

Você é o interno da manhã de puericultura. Entra uma criança de dezesseis meses com a mãe, que abre a consulta dizendo que a filha falava e parou. A caderneta está no colo dela, com as consultas anteriores preenchidas. Conduza: decida qual faixa aplicar, aplique os marcos, decida se volta uma faixa, classifique, e diga à mãe o que foi encontrado sem dar nome a doença nenhuma. Repare no que a tabela não tem onde registrar — e escreva isso em algum lugar antes de encerrar.

Marcos do desenvolvimento neuropsicomotor e sinais de alerta por… – O marco que ela tinha e perdeu — Internato | OsceLabs