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Cirurgia GeralQueimados

Quem vai, e o que se faz em quem fica

Critérios de encaminhamento a centro de queimados e cuidado da ferida

A régua nacional de transferência para unidade de tratamento de queimados, o que se prepara antes de o transporte sair, e o cuidado da ferida de quem permanece

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2012. 20 p. (Série F. Comunicação e Educação em Saúde). Elaboração: Câmara Técnica de Queimaduras do Conselho Federal de Medicina

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria de Consolidação GM/MS nº 3, de 28 de setembro de 2017 — Anexo VIII: Redes Estaduais de Assistência a Queimados (origem: Portaria GM/MS nº 1.273, de 21 de novembro de 2000)

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. Protocolos AT25 (queimadura térmica — calor), APed 37 (queimaduras térmicas na criança) e AC37 (manejo da dor)

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024

Porto Alegre. Prefeitura Municipal. Secretaria Municipal de Saúde. Protocolo de Enfermagem na Atenção Primária à Saúde: Prevenção e Tratamento de Feridas. Porto Alegre, 2024. 108 p.

01

Responda antes de ler

Homem de 58 anos, previamente hígido, chega ao pronto-socorro de um hospital geral com queimadura por chama ocorrida há uma hora. A contagem dá 14% de superfície de segundo grau, distribuída no tronco anterior e na coxa direita, sem acometimento de face, mãos, pés, períneo ou grandes articulações. Não há lesão inalatória nem lesão circunferencial. Pela régua nacional de encaminhamento a unidade de tratamento de queimados, qual é a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Sábado, 22h10, pronto-socorro de um hospital geral de cento e dez leitos, numa cidade de setenta e dois mil habitantes. Não há centro de queimados aqui, nem no município vizinho: o mais próximo fica na capital regional, a duzentos e quarenta quilômetros por uma estrada de pista simples. Você é o interno do plantão da cirurgia. Há quarenta minutos chegaram dois pacientes do mesmo acidente — um churrasco de rua, um galão de álcool líquido jogado sobre a brasa que não pegava.

Lupércio Guarapari tem 44 anos, é pedreiro, 78 quilos, e estava de frente para o fogo. Tem queimadura em todo o tronco anterior, no membro superior direito inteiro e nas duas mãos. Está acordado, orientado, agitado de dor, com a voz normal e sem fuligem na boca. A colega do plantão já contou a área pela regra dos nove e conferiu os segmentos parciais com a palma: 27% de segundo e terceiro graus. O acesso está passado, o Ringer com lactato correndo, a sonda vesical instalada, e a hora da queimadura anotada na folha: 21h20.

Casimira Oratórios tem 31 anos e estava ao lado dele. Tentou apagar o fogo com um pano molhado e derrubou sobre o próprio antebraço esquerdo a panela de água que fervia na trempe. Tem uma área avermelhada, úmida, brilhante, muito dolorosa, do punho até quase o cotovelo, com duas bolhas grandes e tensas e uma terceira já rompida, cuja base é rósea e sangra quando encostam nela. A área toda, medida com a palma dela, dá 3%. Está andando pelo corredor com o braço no alto.

O cirurgião de plantão, Heleodoro Lagoinha, olha os dois, diz duas frases e sai para uma laparotomia que já estava marcada para agora. A primeira frase é sobre o Lupércio: liga para a regulação, ele vai. A segunda é sobre a Casimira: essa é sua, faz o curativo e me mostra antes de mandar embora.

As duas frases parecem simples e não são. A do Lupércio esconde uma pergunta de norma: quem decide que ele vai, com que régua, e o que precisa estar pronto antes de a ambulância sair. A da Casimira esconde uma pergunta de técnica: o que se faz naquelas três bolhas, com o que se cobre o braço, de quanto em quanto tempo se troca, e o que ela ouve na porta sobre quando voltar. Nenhuma das duas perguntas se responde com o cálculo da área, que já está feito, nem com a conta do volume, que já está correndo.

Este capítulo é sobre essas duas perguntas, e sobre a terceira que aparece quando as duas primeiras se cruzam: o que não se faz na ferida de quem vai. Porque o curativo que você faz com esmero no Lupércio às 22h30 é o curativo que a cirurgiã da unidade de tratamento de queimados vai ter de desmontar às 4h da manhã, com o paciente já cansado e já com a dor de volta, para poder olhar a profundidade que decide a cirurgia dele. Existe um cuidado que ajuda e existe um cuidado que atrapalha, e a diferença entre os dois não é o capricho: é saber quem vai olhar aquilo depois de você.

Sofrônia Varzedo, a enfermeira do plantão, chega com o carrinho de curativo e faz a pergunta que organiza a noite: dos dois, qual eu preparo primeiro? A resposta certa é: o que vai, mas não do jeito que você está pensando. Preparar quem vai é sobretudo não fazer coisas — e o que se faz nele, no lugar do curativo caprichado, é papel, telefone e analgesia.

03

Quem adoece disso

O primeiro dado deste capítulo não é sobre queimadura: é sobre geografia. A rede para onde o queimado grave é transferido foi criada pela Portaria GM/MS nº 1.273, de 21 de novembro de 2000, hoje consolidada como o Anexo VIII da Portaria de Consolidação GM/MS nº 3, de 2017. Essa norma faz duas coisas. Divide os hospitais em duas categorias — Hospital Geral, que é qualquer hospital cadastrado no Sistema Único de Saúde com condições de realizar o primeiro atendimento, e Centro de Referência em Assistência a Queimados, que é o serviço cadastrado como tal, com nível maior de complexidade — e fixa, num anexo próprio, o número máximo de Centros de Referência que cada unidade da federação pode ter.

O teto nacional somado é 68 centros, distribuídos por 27 unidades da federação. A conta do anexo fecha: São Paulo 14, Minas Gerais 7, Rio de Janeiro 5, Bahia 5, Rio Grande do Sul 4, Paraná 4, Pernambuco 3, Ceará 3, e mais Pará, Santa Catarina, Goiás e Maranhão com 2 cada, o que dá 53; as outras quinze unidades da federação têm teto de 1 centro cada, e 53 mais 15 são os 68 que o próprio anexo declara como total. É um teto, não um piso: a norma diz quantos podem existir, não quantos existem. Quinze estados brasileiros têm autorização para um único Centro de Referência em todo o território, e é essa aritmética — não a gravidade do paciente — que explica por que a ambulância do Lupércio vai rodar duzentos e quarenta quilômetros.

O hospital onde você está de plantão tem nome dentro dessa norma: é um Hospital Geral da Rede Estadual de Assistência a Queimados. A norma não trata isso como um estado de espera nem como uma falha. O parágrafo 1º do artigo 3º diz que não há limitação quantitativa para os Hospitais Gerais, que qualquer hospital cadastrado no Sistema Único de Saúde que reúna condições de realizar o primeiro atendimento pode participar da rede, e acrescenta a condição que interessa aqui: desde que adequadamente organizados de forma a garantir, quando necessária, a referência dos pacientes aos Centros de Referência. Ser Hospital Geral da rede é ter obrigação de atender e obrigação de referenciar; não é ter permissão de segurar.

O que a norma não faz é dizer quem precisa ser referenciado. O Anexo VIII inteiro — dez artigos e quatro anexos internos — trata de quem pode ser centro, quantos centros cabem por estado, como se pede o cadastramento, com que frequência a autoridade sanitária vistoria e qual relatório anual o centro precisa enviar sob pena de descadastramento. Sobre o paciente, ele tem um artigo só, o 4º, e o que esse artigo diz é que, uma vez definida a rede estadual, as secretarias estabelecerão também os fluxos e mecanismos de referência e contrarreferência. Ou seja: a régua clínica de quem vai foi delegada, por norma federal, a cada secretaria estadual de saúde.

Esse é o achado central deste capítulo, e ele muda o modo de estudar o assunto. A norma federal que cria a rede de queimados não contém nenhum critério clínico de encaminhamento. Quem vai e quem fica não está na portaria. Está numa cartilha — a Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, publicada em 2012 pela Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde e elaborada pela Câmara Técnica de Queimaduras do Conselho Federal de Medicina —, cujo item 12 se chama, com todas as letras, Critérios de transferência de pacientes para unidades de tratamento de queimaduras. Uma cartilha de vinte páginas não tem a força de uma portaria; ela é, ainda assim, a única lista nacional que existe.

Que essa lista de 2012 continua sendo a régua em uso não é suposição. O Protocolo Catarinense de Acolhimento com Classificação de Risco, na sua 2ª edição atualizada, publicada em 2025, abre a seção de queimadura citando a cartilha nominalmente, reproduz o parágrafo de definição na íntegra entre aspas com a página, reproduz a figura da regra dos nove indicando como fonte a página 9 da cartilha e repete a mesma lista de áreas nobres. Um protocolo estadual de 2025 usando um documento de 2012 como fonte primária é o teste mais forte de vigência que se pode pedir: não é a ausência de um substituto, é a presença de um documento novo que trata este como a régua.

A segunda coisa que a epidemiologia deste capítulo tem a dizer é sobre o tamanho relativo dos dois problemas. Pela própria régua da cartilha, os critérios de transferência começam em 20% de superfície corporal queimada de segundo grau no adulto e em 10% na criança — o que significa que a esmagadora maioria dos queimados que entram por uma porta de pronto-socorro brasileira não é candidata a transferência nenhuma. Eles são a Casimira: 3%, um antebraço, três bolhas. A pergunta de quem vai é a mais dramática e a menos frequente. A pergunta de como se cuida da ferida de quem fica é a mais frequente e a que menos aparece em aula.

E é a que produz sequela evitável. Uma queimadura de segundo grau superficial bem cuidada reepiteliza em até três semanas sem cicatriz relevante; a mesma queimadura infectada, ou dessecada, ou traumatizada a cada troca de curativo, aprofunda — e a profundidade que aparece no décimo dia não é a profundidade que o agente térmico produziu no primeiro, é a que o cuidado deixou acontecer. Aprofundamento de lesão está escrito, na cartilha de 2012, na lista de sinais de infecção da área queimada. É o único item daquela lista que é ao mesmo tempo sinal e desfecho.

04

Por que acontece o que acontece

A ferida queimada tem uma propriedade que a ferida cortante não tem: ela não está pronta quando você a vê. O calor não desenha uma fronteira nítida entre tecido morto e tecido vivo. Desenha um gradiente — no miolo da lesão, onde o pico térmico durou mais, o tecido está coagulado e não volta; em volta, um anel de tecido que está vivo mas com a microcirculação estrangulada, perfundido no limite; e, mais para fora, uma faixa apenas hiperemiada, que se recupera sozinha. O que decide o tamanho final da lesão é o destino do anel do meio. Ele pode reperfundir e virar tecido íntegro, ou pode fechar de vez e converter-se em necrose. Nas primeiras quarenta e oito a setenta e duas horas, essa conversão está em disputa.

Quase tudo o que este capítulo pede — irrigar cedo, não deixar dessecar, não apertar o curativo, não deixar a pressão do edema subir sob uma escara rígida, manter o paciente aquecido e com volume adequado — existe por causa desse anel. Não são cuidados de conforto, são cuidados de perfusão. E é por isso que o cuidado da ferida não é um assunto separado da reposição volêmica: hipotensão, hipotermia e curativo compressivo agem no mesmo lugar, que é a microcirculação do tecido que ainda poderia viver. O cálculo do volume e o alvo de diurese são do capítulo A conta que a urina corrige, desta apostila; o que este capítulo assume é apenas a consequência local desse cálculo.

O segundo mecanismo é o edema, e a diferença aqui é de escala. A queimadura libera mediadores que aumentam a permeabilidade capilar não só na área lesada como sistemicamente, e o volume que se infunde para manter a perfusão vai, em boa parte, para o interstício. Num membro ou num tórax com queimadura de espessura total circunferencial, isso acontece dentro de um invólucro que perdeu a elasticidade: a escara de terceiro grau é rígida, tem textura coriácea, não estica. O edema continua se acumulando debaixo dela, a pressão do compartimento sobe, e o primeiro tecido a sofrer é o mesmo anel de perfusão limítrofe — depois vêm o nervo, o músculo e o pulso. No tórax, o mecanismo é o mesmo com outro desfecho: a escara circunferencial impede a expansão da caixa torácica e a ventilação cai por restrição mecânica, não por doença pulmonar.

É esse mecanismo que a escarotomia resolve, e entender o mecanismo já explica a técnica: o objetivo não é retirar tecido, é abrir o invólucro. A incisão atravessa a escara em toda a sua espessura até que as bordas se afastem sozinhas e o tecido subjacente ceda — e o sinal de que funcionou é o próprio afastamento das bordas, seguido da volta do pulso e da curva de oximetria distal, ou da queda da pressão de via aérea. É um procedimento de descompressão, e a decisão dele é de tempo, não de estética.

O terceiro mecanismo é a perda de barreira, e ele explica por que a régua da ferida comum não serve. Uma ferida operatória tem bordas aproximadas, um leito fechado e uma área de contato pequena; o corpo a defende com uma inflamação localizada, e por isso rubor, calor, dor e drenagem purulenta funcionam como sinal de infecção. A queimadura de segundo e terceiro graus é o oposto: é uma superfície aberta, extensa, colonizada desde o primeiro dia, permanentemente inflamada por causa do próprio dano térmico e exsudando plasma. Ela é rubra, quente, dolorosa e drena — sem estar infectada. Procurar infecção nela pelos sinais da ferida cirúrgica é procurar um sinal que já está presente em todo mundo.

Por isso a cartilha de 2012 não descreve infecção da área queimada como um estado, e sim como uma mudança: mudança da coloração da lesão, mudança do odor, aprofundamento das lesões, descolamento precoce da escara seca com transformação em escara úmida, coloração hemorrágica sob a escara, edema das bordas ou do segmento, celulite ao redor, pontos avermelhados no interior da lesão e aumento ou modificação da queixa dolorosa. Todos os nove itens são comparativos. Nenhum deles se lê numa fotografia isolada — todos exigem que alguém tenha olhado ontem e escrito o que viu. O prontuário do queimado não é burocracia: é o único denominador de comparação que a régua de infecção tem.

O quarto mecanismo é a dor, e ela tem duas origens que se comportam de modo diferente. A dor de repouso vem da inflamação da área queimada e é razoavelmente constante ao longo do dia. A dor do procedimento vem da manipulação de terminações nervosas expostas e desnudadas, e é um pico curto, intenso e absolutamente previsível: acontece quando a gaze aderida é levantada, quando o leito é lavado, quando se roça a base de uma bolha rota. Analgesia calibrada para o repouso não cobre esse pico — a dose de horário está no vale exatamente quando o pico chega. A consequência prática é que a analgesia do curativo se prescreve pelo relógio do curativo, não pelo relógio da enfermaria.

O quinto e último mecanismo é térmico, e é o mais esquecido justamente porque parece contraintuitivo num paciente que se queimou. A pele é o órgão que conserva calor; uma superfície queimada extensa e exposta perde calor por evaporação numa velocidade que o paciente não compensa, e a irrigação prolongada com soro em temperatura ambiente acelera essa perda. Hipotermia piora a coagulação, piora a perfusão do anel limítrofe e é uma das razões pelas quais o protocolo pré-hospitalar do SAMU manda prevenir a hipotermia, preferencialmente com manta metálica, na mesma lista em que manda irrigar. Resfriar a queimadura e resfriar o paciente são coisas diferentes, e a segunda é dano.

05

Como se apresenta de verdade

O que segue são as seis feridas que aparecem numa porta de pronto-socorro brasileira e que exigem decisões diferentes. Elas não são graus de gravidade em fila: são apresentações distintas, e duas delas podem estar no mesmo paciente. A classificação de profundidade propriamente dita — o que é primeiro, segundo superficial, segundo profundo e terceiro grau, e como se reconhece cada um — é do capítulo Superfície queimada e profundidade, desta apostila, que é dono dela e a descreve linha a linha. Aqui a profundidade entra só como entrada da régua: é ela que decide se a ferida fecha sozinha, se precisa de enxerto e se o paciente atravessa a lista do item 12.

A ferida que reepiteliza sozinha, e a que não

Casimira tem o exemplo puro. O antebraço está avermelhado vivo, úmido, brilhante, e empalidece quando você comprime com o dedo e volta a corar quando solta. Dói muito. A bolha rota tem base rósea e sangra ao toque. Essa combinação — base rósea, úmida, dolorosa, que empalidece à digitopressão — é a queimadura de segundo grau superficial, e o que ela promete é reepitelização a partir dos folículos pilosos e das glândulas que sobreviveram na derme profunda, em torno de duas semanas, sem cicatriz que se note. Esse paciente não precisa de cirurgia e não precisa de centro de queimados; precisa de um curativo que não deixe o leito secar, não grude e não seja trocado com violência.

A queimadura de segundo grau profunda é a que confunde, e é a que muda destino. A base da bolha é branca ou nacarada, seca em vez de úmida, e não empalidece quando se comprime — a microcirculação dérmica que faria o empalidecimento já não existe. Ela ainda dói, e é aqui que a cartilha de 2012 tropeça na própria descrição: o texto do item 3 diz que na queimadura de segundo grau profunda a base da bolha é branca, seca, indolor e menos dolorosa. As duas coisas não podem ser verdade ao mesmo tempo, e a primeira delas colide com a definição de terceiro grau que o mesmo documento dá três linhas abaixo, que é justamente ser indolor. O que se sustenta clinicamente é a segunda leitura: a queimadura de segundo grau profunda dói menos que a superficial e mais que nada. Perder essa distinção não é detalhe de vocabulário — o segundo grau profundo é uma das indicações de enxertia que a própria cartilha registra.

A terceira apresentação da mesma família é a de espessura total: placa esbranquiçada ou enegrecida, textura de couro, indolor ao toque e à picada, que não empalidece porque não há circulação nenhuma. Ela não reepiteliza. E ela tem uma particularidade na régua de encaminhamento que vale decorar: enquanto o segundo grau só entra na lista de transferência acima de um percentual de área, o terceiro grau entra em qualquer extensão. Uma placa de terceiro grau de dois por dois centímetros no dorso da mão atravessa o critério; oitenta centímetros quadrados de eritema não atravessam.

Imagem simulada de queimadura localizada no antebraço, com duas bolhas íntegras e uma área já sem teto, de base rósea e úmida.
A figura compara bolhas íntegras com uma área já exposta após perda do teto epidérmico. A base rósea e úmida é compatível com queimadura de espessura parcial superficial, mas a profundidade exige avaliação e reavaliação clínicas. O aspecto, sozinho, não define a conduta sobre todas as bolhas.

A ferida que aperta

A queimadura circunferencial de espessura total num membro ou no tórax é uma apresentação de tempo, não de área. Ela pode ter cinco por cento de superfície corporal e ser uma emergência dentro de duas horas, enquanto trinta por cento espalhados pelo dorso não têm essa urgência.

No membro, o que se procura é a sequência da isquemia: dor desproporcional e crescente, dor à extensão passiva dos dedos, parestesia, enchimento capilar lento, esfriamento distal, curva de oximetria de pulso que some, e por fim ausência de pulso — que é sinal tardio e não deve ser esperado. A cartilha de 2012 antecipa isso já na sala de emergência: o item 2 manda avaliar se há queimaduras circulares no tórax e nos membros superiores e inferiores e verificar a perfusão distal e o aspecto circulatório com oximetria de pulso, antes ainda de qualquer curativo.

No tórax, a apresentação é ventilatória. O paciente com escara circunferencial torácica respira rápido e superficial, tem dificuldade crescente de expandir, e sob ventilação mecânica a pressão de pico sobe sem que o pulmão tenha adoecido. O protocolo do SAMU 192 registra a mesma prioridade em uma linha: as queimaduras circunferenciais devem ser tratadas como emergência, especialmente nos transportes prolongados, e, em pescoço e tórax, prevê escarotomia se necessário. É a única situação em que um documento nacional prevê o procedimento antes de o paciente chegar a um hospital. A escarotomia de tórax e de pescoço, no que ela tem de decisão de urgência ventilatória, é do capítulo Lesão inalatória e manejo de via aérea no queimado, desta apostila, que a assume por essa via; este capítulo fica com a escarotomia de membro, que é decisão de perfusão, e com a técnica do procedimento nos dois territórios.

A queimadura química

A queimadura química não termina com a remoção da vítima do local, e essa é a única frase que precisa estar clara antes de qualquer outra: a lesão é progressiva enquanto o agente estiver em contato. É por isso que o tempo de irrigação aqui não se parece com o resfriamento da queimadura térmica. A cartilha de 2012 pede diluir a substância em água corrente por no mínimo trinta minutos, e irrigar exaustivamente os olhos no caso de queimadura ocular.

A apresentação é enganosa por dois motivos. O primeiro é que a profundidade se estabelece devagar: uma queimadura por base forte pode parecer superficial na primeira hora e ser de espessura total no dia seguinte, porque a liquefação continua. O segundo é que o agente pode estar em pó — cal, cimento, soda em escamas —, e nesse caso a água aplicada antes da remoção mecânica do excesso ativa a substância e piora a lesão. A cartilha ordena a sequência com clareza: remover previamente o excesso com escova ou panos, e só então diluir em água corrente.

Há uma apresentação química que é sistêmica e não local, e que a cartilha destaca sozinha: o ácido fluorídrico. O íon fluoreto sequestra cálcio e magnésio, de modo que uma queimadura de área pequena — a palma de uma mão, num trabalhador de limpeza de fachada ou de vidraçaria — pode produzir hipocalcemia grave, arritmia e morte, com uma lesão cutânea que parece desproporcionalmente pequena para o que está acontecendo. Uma dor intensa e desproporcional à aparência da lesão, horas depois do contato, é a apresentação clássica. A conduta específica está adiante, e tem um problema de suprimento que também está adiante.

A queimadura elétrica

Alferes Jacarandá, 27 anos, eletricista, chegou numa segunda-feira com duas lesões pequenas: uma na palma da mão direita, de cerca de dois centímetros, endurecida e esbranquiçada, e outra no calcanhar esquerdo, do mesmo tamanho. Somadas, não chegam a 1% de superfície corporal. Ele atravessa a régua de transferência inteira por causa da palavra elétrica, e não por causa da área.

O motivo é que o que se vê é ponto de entrada e ponto de saída, e o que importa é o trajeto entre eles. A corrente atravessa músculo, vaso e nervo, e o dano profundo pode ser enorme sob uma pele quase intacta. A cartilha manda identificar se a fonte era de alta tensão, se a corrente era alternada ou contínua e se houve passagem com entrada e saída; avaliar traumas associados, porque a contração tetânica arremessa e a queda de altura é regra; avaliar se houve perda de consciência ou parada cardiorrespiratória no momento do acidente; fazer monitorização cardíaca contínua por vinte e quatro a quarenta e oito horas com dosagem de enzimas; e — a frase mais direta do documento — procurar sempre internar o paciente vítima desse tipo de trauma.

A apresentação que fecha o quadro é a urina. Mioglobina liberada pela rabdomiólise escurece a urina até a cor de chá forte ou de refrigerante escuro, e é ela que dá ao trauma elétrico um alvo de diurese próprio: a cartilha pede manter a diurese em torno de 1,5 mL por quilo por hora ou até o clareamento da urina, contra 0,5 a 1 mL por quilo por hora do queimado térmico. O manejo desse volume é do capítulo A conta que a urina corrige; o que este capítulo assume é a leitura da cor como sinal de que existe lesão profunda que nenhuma inspeção de pele mostrou.

A ferida que mudou desde ontem

A infecção da queimadura não se apresenta: ela se compara. Os nove sinais que a cartilha lista no item 11 são todos verbos de mudança, e o que se procura na visita de hoje é a diferença em relação ao registro de ontem. Mudança da coloração da lesão. Edema das bordas da ferida ou do segmento corpóreo afetado. Aprofundamento das lesões. Mudança do odor, com cheiro fétido. Descolamento precoce da escara seca e sua transformação em escara úmida. Coloração hemorrágica sob a escara. Celulite ao redor da lesão. Vasculite no interior da lesão, que a cartilha descreve como pontos avermelhados. E aumento ou modificação da queixa dolorosa.

Três desses merecem tradução para o que se faz à beira do leito. Escara que estava seca e amanheceu úmida, ou que começou a se descolar antes do tempo, é o achado mais específico e o mais fácil de perder, porque a enfermagem pode interpretá-lo como evolução favorável do desbridamento. Ponto avermelhado dentro da lesão, num leito que ontem era homogêneo, é lesão vascular local e não hiperemia. E dor que muda de qualidade — que deixa de ser a dor previsível do curativo e passa a ser dor contínua, latejante, que acorda o paciente — vale mais do que qualquer número de temperatura, porque febre em queimado extenso é achado inespecífico desde o primeiro dia.

É por isso que a régua da ferida cirúrgica não transpõe. O capítulo Infecção de sítio cirúrgico e deiscência de ferida, da apostila de Pré e Pós-operatório, é dono da descrição da ferida operatória e da decisão de abrir uma incisão infectada, e a régua dele funciona porque a ferida operatória é fechada e a inflamação em volta dela é anormal. Na queimadura, rubor, calor, dor e exsudato são o estado basal. O que aquele capítulo ensina e que transpõe integralmente é outra coisa: a disciplina de descrever a ferida por escrito, todo dia, com as mesmas palavras, para que a comparação seja possível. O que não transpõe são os sinais.

A ferida cujo desenho não bate com a história

Imaculada Ipueira tem 3 anos e chegou com a mãe, Lourdinha Paracatu, com queimadura nos dois pés e no terço distal das duas pernas, de limite superior nítido e horizontal, sem respingos ao redor e sem lesão nas mãos. A história é de que ela subiu sozinha na banheira. Um limite nítido, simétrico, em bota, sem lesão satélite e sem queimadura nas mãos é o desenho de imersão forçada, e não o de uma criança que entra sozinha e recua ao sentir dor.

O protocolo pediátrico do SAMU 192 escreve os padrões que levantam a suspeita — queimaduras com pontas de cigarro, marcas de ferro de passar roupa ou de contato com outras superfícies quentes, e queimadura por líquido escaldante por imersão, com limites bem definidos — e dá uma instrução de conduta que não depende de gravidade nenhuma: remover sempre a criança para um hospital quando houver essa possibilidade, ainda que a queimadura seja de primeiro grau e de pequena superfície corpórea, anotar detalhadamente na ficha, registrar que há suspeita, informar o médico que recebe e deixar cópia da ficha no hospital.

O que este capítulo faz com esse achado é uma coisa só, e é a coisa certa: registrar a lesão por escrito e por desenho, com medida e localização exatas, antes de a primeira gaze encostar, porque o desenho da lesão some assim que a cobertura entra, e é o desenho que responde a pergunta. Tudo o que vem depois — a notificação compulsória, quem se aciona, como se conversa com a família, o que o Estatuto da Criança e do Adolescente obriga — pertence ao capítulo Violência e maus-tratos infantis: identificação e notificação compulsória, da apostila de Emergências Pediátricas, e este capítulo cede a ele esse assunto pelo nome. A régua de transferência também alcança essa criança por conta própria: maus-tratos e situações sociais adversas estão escritos, com essas palavras, na lista do item 12.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar aqui não é pedir exame. É reunir, antes de decidir, os cinco dados que a régua consome e os quatro que quem recebe vai pedir no telefone — e escrever tudo isso enquanto ainda é possível olhar a ferida. A investigação do queimado tem uma janela que se fecha: depois do primeiro curativo, boa parte do que se poderia registrar não está mais visível, e o que não foi escrito passa a depender da memória de quem estava de plantão.

Os cinco dados que a régua consome

A lista de critérios de transferência da cartilha de 2012 é lida com cinco entradas, e só com cinco. Superfície corporal queimada de segundo e terceiro graus, em percentual. Profundidade, separando segundo grau superficial, segundo grau profundo e terceiro grau. Localização, procurando nominalmente face, olhos, períneo, mãos, pés e grandes articulações. Mecanismo, separando térmica, elétrica e química. E idade. Nenhuma delas é laboratorial, todas são de exame e de história, e as duas primeiras já estão prontas se alguém as fez direito.

O cálculo da área e a classificação da profundidade não se refazem aqui: são do capítulo Superfície queimada e profundidade, desta apostila, que é dono deles e que traz a regra dos nove, a palma como 1% e a tabela por idade. O que este capítulo acrescenta é uma advertência sobre qual número entra na régua. A área que alimenta a fórmula de reposição é a de segundo e terceiro graus, e a área que alimenta a lista de transferência também: o eritema simples de primeiro grau não conta em nenhuma das duas. Somar a face avermelhada de um paciente que ficou perto do fogo infla os dois números ao mesmo tempo, e o segundo erro manda para a estrada alguém que não precisava ir.

A idade é a entrada que mais confunde, porque a própria cartilha usa dois cortes diferentes em dois lugares. No item 7, que classifica a queimadura como grave, o corte é idade menor do que 3 anos ou maior do que 65 anos. No item 12, que é a lista de transferência, o corte é queimadura de segundo grau maior do que 10% da superfície corporal queimada em crianças ou maiores de 50 anos. São 65 numa página e 50 na outra, e a diferença abrange uma faixa inteira de pacientes: um homem de 58 anos com 14% de segundo grau não é queimado grave pelo item 7 e é candidato a transferência pelo item 12. A leitura segura é a do item 12, porque é ele que se chama critérios de transferência; a nota de auditoria adiante mostra a conta.

O que se escreve antes do primeiro curativo

Existe um único momento em que a ferida está do jeito que o agente térmico a deixou, e ele acaba quando a primeira gaze encosta. O registro feito nesse momento serve a três coisas distintas: à comparação que vai diagnosticar infecção nos próximos dias, à avaliação de quem recebe o paciente do outro lado da estrada, e — quando o desenho da lesão não bate com a história — à proteção da pessoa.

O registro tem cinco campos e cabe em oito linhas. Localização por segmento, nomeando lado. Medida em centímetros, ou percentual do segmento quando a lesão o cobre. Profundidade por área, dizendo qual parte é superficial e qual é profunda, com o achado que sustentou o julgamento — base rósea e úmida que empalidece, base branca e seca que não empalidece, placa coriácea indolor. Presença, número e estado das bolhas, dizendo íntegras ou rotas. E o desenho do contorno: limites nítidos ou irregulares, presença ou ausência de respingos satélites, simetria.

As três últimas informações completam o quadro e não estão na ferida. A hora exata da queimadura, que é o minuto zero de tudo o que vem depois e não é a hora da chegada. O peso, aferido e não estimado quando houver balança, porque é o multiplicador do volume e da analgesia. E o que já foi feito antes de você — quanto tempo de irrigação, com o quê, se alguém aplicou alguma substância caseira sobre a lesão, e quais adornos foram retirados e quando.

Sobre substância caseira vale uma linha de conduta, porque é frequente: pasta de dente, borra de café, clara de ovo, óleo, açúcar. Nada disso se raspa com força. Remove-se durante a limpeza normal, com soro em jato e a pressão que o tecido tolera, e o que não sai sem trauma fica registrado como presente em vez de ser arrancado. Retirar à força um resíduo aderido custa o mesmo anel de tecido que se está tentando salvar.

Os exames que mudam conduta, e os que não mudam

Na queimadura térmica pura, nenhum exame decide a transferência. A régua do item 12 é inteiramente clínica, e segurar o telefonema esperando hemograma é atrasar a estrada por um dado que não entra na conta.

Na queimadura elétrica, três exames mudam conduta e a cartilha os nomeia. Eletrocardiograma e monitorização cardíaca contínua por vinte e quatro a quarenta e oito horas, porque a arritmia pode aparecer horas depois com o paciente aparentemente bem. Dosagem de creatinofosfoquinase e de sua fração MB, que é o marcador de dano muscular pelo trajeto da corrente. E a inspeção seriada da urina, que é o exame mais barato e o mais informativo: urina escura significa mioglobinúria e significa que o volume prescrito é maior, com alvo de diurese próprio.

Na queimadura por ácido fluorídrico, o exame que decide é o cálcio iônico, e a cartilha manda acompanhar laboratorialmente a reposição do cálcio. Aqui há uma armadilha de leitura de exame: o cálcio total pode estar aparentemente aceitável enquanto o ionizado despenca, de modo que o pedido precisa ser explicitamente do ionizado. O eletrocardiograma entra junto, procurando o alargamento do intervalo que a hipocalcemia produz.

Nas demais queimaduras químicas, o exame que muda conduta é a identificação do agente — nome comercial, composição, concentração, volume e tempo de contato —, e ela se obtém no telefone com quem trouxe o paciente ou com a empresa, não no laboratório. A cartilha manda, na dúvida, entrar em contato com o centro toxicológico mais próximo, e essa é a linha do documento com maior retorno por minuto gasto.

O telefonema: o que a unidade de tratamento de queimados vai perguntar

A transferência não se pede por formulário. A cartilha diz que a transferência deve ser solicitada à unidade de tratamento de queimados de referência, e acrescenta uma frase que os internos costumam ler como cortesia e não é: as unidades de referência sempre têm profissionais habilitados para dar orientações sobre o tratamento completo das vítimas de queimaduras. Isto é, o telefonema tem duas finalidades — conseguir a vaga e receber orientação sobre o que fazer enquanto ela não sai. A segunda finalidade continua valendo mesmo quando a primeira falha.

Tenha na mão, antes de discar: idade e peso; hora da queimadura; agente e circunstância, dizendo se foi ambiente fechado; percentual de segundo e terceiro graus e como foi contado; profundidade por segmento; localização das áreas nobres; presença de lesão circunferencial e o estado da perfusão distal; via aérea e voz; volume já infundido, em que solução, desde que horas, e a diurese até agora; analgesia administrada, dose e hora; estado vacinal antitetânico; comorbidades e medicamentos de uso; e o que já foi aplicado sobre a ferida.

Anote do outro lado três coisas: o nome de quem atendeu, a orientação recebida — inclusive se ela contrariar o que você faria — e o horário do contato. Um paciente pode ter vaga, ambulância e relatório impecáveis e chegar a um serviço onde ninguém sabe que ele existe; a disciplina de garantir que exista uma pessoa com nome esperando do outro lado é o assunto do capítulo Redes de Atenção à Saúde: referência, contrarreferência e coordenação do cuidado, da apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva, que é dono da transição de cuidado e a ensina como ato de comunicação. Este capítulo cede a ele essa disciplina e assume o que é clínico: o que precisa estar feito no paciente e na ferida antes de a ambulância sair.

O que se investiga em quem fica

O paciente que não vai para o centro de queimados também tem uma investigação, e ela é quase toda social e funcional. A queimadura de Casimira é pequena, mas ela mora sozinha, é destra e a lesão está no antebraço esquerdo — dá para trocar o curativo com uma mão só? Existe unidade básica perto de casa que faça curativo, e em que dias? Ela tem transporte para vir se piorar às onze da noite de um domingo? Quem, em casa, vai olhar aquele braço amanhã?

Duas perguntas clínicas se somam a essas. A primeira é o cartão de vacina: a queimadura é ferimento de risco para tétano, e o que se faz com o cartão — quantas doses, quando foi a última, quando entra imunoglobulina ou soro — é do capítulo Tétano: profilaxia em ferimentos, esquema vacinal e imunoglobulina, da apostila de Infectologia, que é dono do quadro e o traz por extenso. Este capítulo cede a ele a decisão e guarda apenas a obrigação de perguntar, porque a cartilha de 2012 manda administrar toxoide tetânico como medida geral imediata sem condicionar o gesto ao estado vacinal, e essa é uma das divergências entre documentos nacionais tratadas adiante.

A segunda é a comorbidade que muda a ferida: diabetes, insuficiência arterial periférica, uso de corticoide, imunossupressão, desnutrição. Nenhuma delas está na lista do item 12 sob esse nome, mas doenças associadas está — e é a essa expressão que essas condições pertencem. Um paciente com 8% de segundo grau na perna e insuficiência arterial estabelecida não tem a mesma ferida que Casimira tem, e a decisão de encaminhá-lo apesar do percentual é defensável dentro da própria lista, sem importar critério de fora.

07

A régua nacional, o que ela não cobre, e o que se faz na ferida

Consulta ao centro, transferência e internação local são decisões relacionadas, mas distintas. Elas dependem da lesão e da capacidade real de cuidar, trocar curativos e reavaliar.

  1. 1Trate ameaças à vida e estime área/profundidade, incluindo mecanismos especiais e trauma associado. Consulte cedo o centro nos casos relevantes.
  2. 2A referência ABA recomenda consulta imediata e consideração de transferência para espessura total, espessura parcial ≥10%, lesões profundas em áreas funcionais, suspeita de inalação e outras condições de risco. Crianças podem se beneficiar de consulta mesmo com áreas pequenas.
  3. 3Critérios nacionais/regionais organizam a rede; sua diferença não autoriza negar avaliação por ficar abaixo de um corte de área. Dor não controlada, dúvida de profundidade, comorbidades e suporte social também importam.
  4. 4Se vai transferir, combine cobertura e transporte com o receptor. Informe hora, peso, área, fluidos reais, diurese, via aérea, analgesia e evolução; mantenha cuidado enquanto espera.
  5. 5Para quem fica, antecipe analgesia conforme fármaco e via, limpe suavemente e escolha cobertura pela profundidade, exsudato, local e prazo de revisão. Não há obrigação universal de sulfadiazina ou de quatro camadas.
  6. 6Bolhas e tecido solto são manejados conforme localização, tamanho, contaminação e plano do serviço, por equipe treinada. Evite manipulação traumática durante transferência imediata.
  7. 7Antibiótico sistêmico não é profilaxia rotineira; infecção clínica ou deterioração exige reavaliação e tratamento. Curativo antimicrobiano não substitui controle de infecção profunda.
  8. 8Garanta retorno, material e ajuda para trocas. Inclua mobilidade, prevenção de contraturas, nutrição e proteção da pele após cicatrização; nova profundidade ou evolução ruim pode exigir encaminhamento especializado.

As seis entradas da régua de transferência (cartilha do Ministério da Saúde, 2012, item 12)

EntradaO que aciona a transferênciaO que não aciona sozinho
ÁreaSegundo grau acima de 20% da superfície corporal queimada no adulto; acima de 10% na criança e em pessoa com mais de 50 anosEritema de primeiro grau, qualquer que seja a extensão — ele não entra na contagem
ProfundidadeTerceiro grau em qualquer extensão, sem percentual mínimoSegundo grau superficial abaixo do percentual da linha acima, sem nenhuma outra entrada positiva
LocalizaçãoFace, olhos, períneo, mãos, pés e grandes articulaçõesTronco e dorso isolados, que não constam da lista por localização
MecanismoQueimadura elétrica e queimadura química, ambas sem exigência de áreaEscaldadura e chama sem outra entrada positiva
Lesão associadaLesão inalatória; lesão circunferencial de tórax ou de membrosRouquidão isolada sem os demais achados — a decisão é do capítulo de lesão inalatória
Condição do pacienteDoenças associadas, tentativa de autoextermínio, politrauma, maus-tratos e situações sociais adversasIdade avançada isolada, sem área, sem profundidade e sem condição associada

O cuidado da ferida de quem fica, por profundidade

ProfundidadeO que se espera delaLimpeza e coberturaTroca e seguimento
Primeiro grau (eritema)Descama em 4 a 6 dias pela cartilha de 2012, sem cicatriz e sem bolhaNão é ferida aberta: limpeza com água e sabão neutro e hidratação da pele; não pede curativo oclusivoSem troca. Analgesia simples e orientação de retorno se surgir bolha
Segundo grau superficialReepiteliza entre 7 e 21 dias pela cartilha; cicatriz é raraLimpeza suave com água/soro e cobertura apropriada à profundidade e ao exsudato. Não usar clorexidina degermante 2% nem sulfadiazina/quatro camadas como rotina universal em leito aberto.Primeira reavaliação em 24 a 48 horas e depois a cada 24 a 48 horas, com o leito reavaliado a cada troca
Segundo grau profundoCicatriza acima de 21 dias com retração; a cartilha registra a enxertia como indicada também para o segundo grau profundoMesma limpeza e mesma cobertura, com o cuidado adicional de não deixar o leito secarReavaliação em 48 horas por cirurgião: é a profundidade que muda de plano se não epitelizar
Terceiro grauNão reepiteliza; necessita de enxertia de pele pela cartilha de 2012Não se resolve com curativo: é ferida cirúrgica desde o primeiro diaTransfere-se em qualquer extensão. O curativo é ponte, não tratamento

Conversão mg ↔ mL ↔ ampola do que este capítulo prescreve, num adulto de 70 kg

Fármaco e apresentação realDose da fonteVolume correspondenteComponente na Rename 2024
Dipirona 500 mg/mL solução injetável (ampola de 2 mL = 1.000 mg)500 mg a 1 g por via endovenosa no adulto1 mL a 2 mL, ou seja, meia ampola a uma ampola inteiraBásico
Sulfato de morfina 10 mg/mL solução injetável (ampola de 1 mL = 10 mg)Diluir 1 mL (10 mg) em 9 mL de soro fisiológico: 10 mL a 1 mg/mL. Administrar 0,5 a 1 mg por 10 kg3,5 a 7 mg em 70 kg, ou seja, 3,5 a 7 mL da diluição — equivalente a 0,05 a 0,1 mg/kgEspecializado, não Básico
Sulfadiazina de prata 10 mg/g (1%) cremeUso selecionado conforme profundidade e plano do serviço. Não é cobertura obrigatória de toda queimadura superficial; ponderar necessidade de inspeção e frequência de troca.Cada 100 g de creme contêm 1 g de sulfadiazina de prata; um pote de 400 g contém 4 gBásico
Digliconato de clorexidina 2% a 4% solução tópicaDisponibilidade da apresentação não autoriza aplicação de degermante concentrado em toda ferida. Escolher solução de limpeza compatível com leito, produto e protocolo.1.000 mL a 2% contêm 20 g de digliconato; retirar com água ou soro em abundância após a limpezaBásico
Heparina sódica 5.000 UI/0,25 mL solução injetávelA cartilha manda administrar heparina subcutânea para profilaxia de tromboembolismo e não escreve dose nem intervalo5.000 UI equivalem a 0,25 mL; duas doses ao dia são 0,5 mL e três doses são 0,75 mLBásico
Gluconato de cálcio 10% solução injetável (ampola de 10 mL)Uso endovenoso lento na queimadura por ácido fluorídrico com repercussão sistêmica; gel a 2,5% sobre a lesão; infiltração de 0,5 mL por cm² de lesãoAmpola de 10 mL a 10% = 1.000 mg do sal = 93 mg de cálcio elementar = 4,64 mEq. A infiltração é prescrita sem concentração declaradaNão consta da Rename 2024

Antes de o transporte sair: o que se faz e o que não se faz

FrenteO que se fazO que não se faz, e por quê
FeridaLimpeza suave, remoção do que sai sem trauma, cobertura com compressas secas, estéreis e não aderentes, como manda o protocolo AT25 do SAMU 192Não se aplica creme opaco antes de combinar com quem recebe: sulfadiazina de prata cobre o leito e a próxima pessoa que precisa julgar a profundidade terá de removê-la, com dor, para enxergar
BolhasRegistra-se número, tamanho e estado, e cobre-seNão se rompe nem se perfura bolha no atendimento pré-hospitalar, por instrução expressa do protocolo AT25; e não se desbrida na sala de emergência sem assepsia adequada
AdornosRetiram-se anéis, aliança, brincos, pulseiras, relógio, carteira e cinto, e a retirada é registrada com horaNão se deixa nada anelar num segmento que vai edemaciar durante o transporte, e não se arranca o que estiver aderido à pele
PerfusãoReavalia-se perfusão distal, temperatura, enchimento capilar e curva de oximetria em todo segmento circunferencial, e o resultado vai por escrito com a horaNão se espera o pulso desaparecer para chamar: ausência de pulso é sinal tardio
TemperaturaCobre-se o paciente e previne-se a hipotermia, preferencialmente com manta metálicaNão se prolonga irrigação com soro em temperatura ambiente sobre superfície extensa — resfriar a ferida e resfriar o paciente são coisas diferentes
AnalgesiaAdministra-se antes de embarcar e registra-se dose e hora, porque a maca vibra por duzentos quilômetrosNão se transfere paciente com dor não tratada para o médico do destino resolver
PapelEnvia-se relatório com todas as informações colhidas, as anotações de condutas e os exames realizados, como manda o item 12 da cartilhaNão se manda paciente sem hora da queimadura, sem volume infundido e sem a diurese: é o que o destino não tem como recuperar
Escolta e vagaA transferência é solicitada após a estabilização hemodinâmica e as medidas iniciais, com leito reservado; paciente grave viaja acompanhado de médico, em ambulância com unidade de terapia intensiva móvel e possibilidade de assistência ventilatóriaNão se embarca paciente grave sem vaga confirmada e sem médico, nem se usa transporte aéreo sem cautela em quem tem trauma, pneumotórax ou alteração pulmonar, pelo risco de expansão de gases

Alta que permite continuar o cuidado

NecessidadeCombinação concreta
DorEsquema compreendido, resgate quando indicado e planejamento da troca.
CurativoProduto, modo de proteção, quem troca e em que data.
FunçãoExercícios/posicionamento orientados, com fisioterapia/terapia ocupacional quando indicada.
ReavaliaçãoData, local e sinais que antecipam o retorno.
Após cicatrizarHidratação, proteção solar e vigilância de cicatriz/contratura conforme orientação.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que fechou. O Anexo 1 do Anexo VIII fixa o quantitativo máximo de Centros de Referência por unidade da federação e declara total de 68. Somando os valores publicados — São Paulo 14, Minas Gerais 7, Rio de Janeiro 5, Bahia 5, Rio Grande do Sul 4, Paraná 4, Pernambuco 3, Ceará 3, e Pará, Santa Catarina, Goiás e Maranhão com 2 cada — chega-se a 53, e as quinze unidades da federação restantes têm 1 cada, o que soma 68. As 27 unidades da federação estão todas presentes, sem repetição e sem omissão. O total declarado bate com a soma das parcelas.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Duas idades para a mesma pessoa, dentro da mesma cartilha. O item 7, que define queimadura grave, usa idade menor do que 3 anos ou maior do que 65 anos. O item 12, que define transferência, usa acima de 10% da superfície corporal queimada em crianças ou maiores de 50 anos. A faixa entre 50 e 65 anos pertence às duas classes ao mesmo tempo e a nenhuma: um homem de 58 anos com 14% de segundo grau não é queimado grave pelo item 7 e é candidato a transferência pelo item 12. O documento não diz qual prevalece, e a diferença entre os dois cortes é de 15 anos.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A linha da profundidade que se contradiz. O item 3 da cartilha descreve a base da bolha do segundo grau profundo como branca, seca, indolor e menos dolorosa. Indolor e menos dolorosa não podem ser a mesma coisa, e indolor colide com a definição de terceiro grau dada três linhas abaixo no mesmo item, que é ser indolor. O erro tem consequência de destino: terceiro grau transfere em qualquer extensão e o segundo grau profundo só transfere por percentual, de modo que confundi-los pela dor manda um paciente para a estrada e segura o outro. A leitura que se sustenta é menos dolorosa.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A mesma instrução escrita duas vezes, com conteúdos diferentes. O item 12 traz, entre os seus marcadores, a frase de que a transferência deve ser solicitada à unidade de tratamento de queimados de referência, após a estabilização hemodinâmica e as medidas iniciais, com leito de unidade de terapia intensiva reservado para queimados. Quatro marcadores adiante, a mesma frase reaparece, agora sem a exigência do leito reservado. A segunda redação é menos exigente que a primeira, no mesmo item da mesma página, e uma leitura apressada do documento pode legitimamente concluir que o leito reservado é opcional.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A diluição pediátrica de morfina que não fecha. Para o adulto, a cartilha manda diluir morfina 1 mL, ou 10 mg, em 9 mL de soro fisiológico, e afirma que cada 1 mL passa a valer 1 mg — o que está certo: 10 mg em volume final de 10 mL dão 1 mg/mL. Duas linhas abaixo, para crianças, o texto diz 10 mg diluída em 9 mL de soro fisiológico, considerando que cada 1 mL é igual a 1 mg. Lido literalmente, 10 mg em 9 mL dão 1,11 mg/mL, e não 1 mg/mL: um erro de 11% para mais, na linha pediátrica, dentro de uma frase que declara a concentração. A leitura correta é a mesma do adulto, 1 mL da ampola mais 9 mL de diluente.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Dose pediátrica sem teto de adulto. A cartilha prescreve dipirona endovenosa de 15 a 25 mg/kg para crianças e, duas linhas acima, de 500 mg a 1 g para adultos. Em nenhum dos dois lugares aparece a ressalva de que a dose infantil não deve ultrapassar a do adulto. Fazendo a conta, 25 mg/kg alcança 1.000 mg exatamente aos 40 kg: de 40 kg em diante a fórmula pediátrica ultrapassa o teto declarado no próprio documento, e num adolescente de 60 kg ela pede 1.500 mg, 50% acima do máximo escrito para o adulto na mesma página.

Aprofundamento documental — leitura complementar. O antídoto que a régua nacional prescreve e a lista nacional não fornece. A conduta da queimadura por ácido fluorídrico, na cartilha, depende inteiramente de gluconato de cálcio, em três formas: endovenoso lento, gel a 2,5% aplicado sobre a lesão por 20 minutos e infiltração subcutânea. Gluconato de cálcio, porém, está fora da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024: a busca exata sobre o texto normalizado da lista não o encontra em componente algum de financiamento. O único antídoto específico que o documento nacional de emergência nomeia está fora da lista nacional de medicamentos essenciais, o que transforma a conduta escrita em decisão de compra local.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A dose que o documento dá por volume sem dar por concentração. Ainda no ácido fluorídrico, a cartilha manda infiltrar o subcutâneo com gluconato de cálcio diluído em soro fisiológico, na média de 0,5 mL por centímetro quadrado de lesão, e nunca declara a concentração dessa diluição. A conta mostra o tamanho do buraco: a 10%, 0,5 mL por cm² são 50 mg do sal por cm²; a 5%, são 25 mg; a 2,5%, são 12,5 mg. Numa lesão de 20 cm² isso é 1.000 mg, 500 mg ou 250 mg — uma variação de quatro vezes entre as leituras possíveis da mesma frase. Prescrição por volume sem concentração não é prescrição.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Uma classe inteira prescrita e ausente da lista. O item 8 manda administrar bloqueador do receptor H2 para profilaxia da úlcera de estresse, sem limiar de gravidade e sem alternativa. Famotidina, cimetidina e ranitidina estão todas fora da Rename 2024, conferidas uma a uma sobre o texto normalizado: nenhum bloqueador H2 sobreviveu na lista. O que consta é omeprazol em cápsula de 10 mg e de 20 mg, no Componente Básico. Quem decide essa profilaxia — se entra, por qual critério e com qual fármaco — é o capítulo Profilaxias da prescrição: TEV, lesão de estresse e broncoaspiração, da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, que fixa queimadura acima de 35% da superfície corporal como critério isolado. A cartilha de 2012 não tem limiar e a régua do vizinho tem: a diferença entre um paciente de 8% que recebe a profilaxia por leitura literal da cartilha e o mesmo paciente que não recebe pela régua do vizinho é real e está exposta aqui sem lado vencedor.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A analgesia certa está no componente errado para quem precisa dela. Morfina 10 mg/mL solução injetável consta da Rename 2024, mas no Componente Especializado, e não no Básico — enquanto dipirona injetável, sulfadiazina de prata, clorexidina, lidocaína gel e heparina estão todos no Básico. Codeína injetável também é do Especializado, e tramadol não consta em nenhum componente. Para o hospital geral que faz o primeiro atendimento e segura o paciente até a vaga sair, isso significa que o degrau entre o analgésico simples e o opioide não é abastecido pela mesma via, e que a existência de morfina no carro de emergência depende da farmácia hospitalar e não do componente básico do município.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Um trecho corrompido no texto oficial da norma. O parágrafo 3º do artigo 5º do Anexo VIII condiciona o cadastramento de um Centro de Referência Intermediário a estar instalado em hospital classificado no Sistema de Referência Hospitalar em Atendimento de Urgências e Emergências como — e aqui o texto publicado no portal de legislação do Ministério da Saúde diz literalmente — de tipo 1, II ou RI. Nas demais passagens do mesmo arquivo consolidado a expressão aparece corretamente como tipo I, II e III, em onze ocorrências. Trata-se de defeito de transcrição do texto oficial, com algarismo arábico no lugar do romano e RI no lugar de III, exatamente na frase que fixa a elegibilidade de um centro de queimados intermediário.

Aprofundamento documental — leitura complementar. O documento novo que não nomeia o tópico da lista nacional. O Protocolo de Enfermagem na Atenção Primária à Saúde de Porto Alegre, de 2024, tem capítulo próprio de queimaduras e um quadro de coberturas com periodicidade de troca, e recomenda para o segundo grau superficial e profundo hidrofibra com prata, gel com polihexanida, tela parafinada e espuma com prata. Busca sobre o texto normalizado, insensível a espaço e a hífen, devolve zero ocorrência de sulfadiazina em 108 páginas, contra 28 ocorrências de prata em outras formulações. As quatro coberturas recomendadas são produtos para saúde e não medicamentos, de modo que a Rename não as enumera e a ausência delas na lista não prova indisponibilidade; a ausência da sulfadiazina de prata no documento de 2024 é de outra natureza, porque ela é medicamento, consta do Componente Básico e é o tópico que a cartilha nacional prescreve.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A borda que não pertence a nenhuma classe. Os cortes de área da cartilha são escritos com maior do que: maior do que 20% no adulto para queimadura grave e para transferência, maior do que 10% na criança, e área corporal superior a 20% no adulto para indicar sonda vesical. O valor exato de 20,0% fica fora de todos eles pela letra do texto. O documento é internamente coerente nessa escolha — os três limiares usam a mesma desigualdade estrita —, mas quem conta 20% redondo na régua dos nove precisa saber que está exatamente sobre a linha, e que a decisão nesse ponto não vem do percentual e sim das outras cinco entradas.

08

A conduta, hora a hora

O que segue é a noite inteira, pelo relógio, com os dois pacientes correndo em paralelo. A ordem importa: quase todo erro deste capítulo é de sequência, não de escolha. Analgesia depois do curativo, curativo antes do telefonema, transferência antes da perfusão reavaliada — nenhum desses erros é de conhecimento, todos são de ordem.

  1. 22h10 — dois pacientes, uma régua, dois minutos

    Lupércio tem 27% de segundo e terceiro graus, num adulto de 44 anos, com as duas mãos acometidas. Duas entradas da régua já estão positivas antes de qualquer exame: área acima de 20% no adulto, e localização em mãos. Casimira tem 3% de segundo grau superficial no antebraço esquerdo, tem 31 anos, mecanismo de escaldadura, nenhuma área nobre, nenhuma lesão circunferencial, nenhuma doença associada e nenhuma situação social adversa: as seis entradas dão negativo. A decisão está tomada — um vai, a outra fica — e ela levou o tempo de percorrer seis linhas. O que ocupa o resto da noite não é decidir, é preparar. E as duas preparações começam pelo mesmo gesto, que é a analgesia, e não pela gaze.

    Prescrição
    • Lupércio: manter Ringer com lactato conforme a prescrição já iniciada, com o minuto zero em 21h20
    • Lupércio: dipirona 1 g (2 mL da solução de 500 mg/mL) por via endovenosa agora
    • Casimira: dipirona 1 g por via endovenosa agora; antebraço elevado, coberto com compressa estéril umedecida em soro fisiológico morno; curativo programado para 22h50
  2. 22h20 — o telefonema, e o que ele traz de volta

    A ligação é para a unidade de tratamento de queimados de referência, não para a central de leitos genérica, e ela é feita antes do curativo definitivo. Camilina Corumbaú, a cirurgiã de plantão do centro, ouve os dados e faz três perguntas que você precisa poder responder sem procurar: qual a hora da queimadura, quanto já correu de volume e como está a diurese. Depois ela dá uma orientação que muda o que você faria — pede para não passar sulfadiazina de prata antes da chegada, cobrir com compressa seca estéril e não aderente, e enfaixar as mãos com os dedos separados um a um. Anota-se o nome dela, a orientação e o horário. A vaga sai para as 2h da manhã, com transporte previsto para 2h40.

    Prescrição
    • Registrar em prontuário: contato com a unidade de tratamento de queimados às 22h20, nome do médico receptor, vaga confirmada e orientações recebidas
    • Solicitar transporte com médico acompanhante e suporte ventilatório, conforme o item 12 da cartilha de 2012 para paciente grave
  3. 22h50 — a ferida de quem fica começa pela dor, não pela gaze

    A dipirona de Casimira entrou às 22h10 e o curativo foi marcado para 22h50: quarenta minutos de intervalo, deliberados. O curativo é o procedimento mais doloroso que essa paciente vai ter, e a analgesia precisa estar no pico quando a gaze encostar, não começando a agir. A doutrina do resgate programado para pico previsível — cobrir o pico pelo relógio do procedimento, e não conforme necessidade — é do capítulo Analgesia na prática: escada, opioide, rodízio e efeitos adversos, da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, que é dono da escada analgésica e do rodízio de opioide. O que este capítulo assume é a aplicação dela à queimadura, onde o pico é diário, previsível ao minuto e repetido por semanas. Duas medidas não farmacológicas reduzem esse pico mais do que qualquer dose adicional: soro morno em vez de frio, e cobertura sempre umedecida antes de ser removida.

    Prescrição
    • Programar analgesia antes da troca conforme início de ação do fármaco e da via; reavaliar o efeito antes de manipular. Um intervalo fixo de 30–40 minutos não serve para todos os medicamentos nem substitui resgate titulado.
    • Umedecer abundantemente a cobertura com soro fisiológico morno antes de removê-la; jamais tracionar gaze aderida a seco
    • Se a dor não ceder com analgésico simples: sulfato de morfina na diluição de 1 mg/mL, 0,05 a 0,1 mg/kg por via endovenosa 15 minutos antes do procedimento
  4. 22h50 a 23h10 — o curativo, camada por camada

    A limpeza é a etapa que mais decide e a que menos se ensina. A cartilha manda limpar a ferida com água e clorexidina degermante a 2% e, na falta desta, água e sabão neutro — e o degermante é retirado depois com água ou soro em abundância, porque não é para ficar no leito. O soro de irrigação é morno, em torno da temperatura corporal: soro frio retarda a cicatrização, e o protocolo de enfermagem de Porto Alegre de 2024 chega a instruir que se teste a temperatura no próprio antebraço quando não houver termômetro. Tecido desvitalizado solto, crosta e sujidade saem na limpeza; o que estiver aderido e vivo permanece. A cartilha antiga descreve sulfadiazina de prata a 1% e um curativo em quatro camadas; essa é uma opção histórica e não a prescrição obrigatória atual de Casimira. A descrição permite reconhecer o material quando utilizado pelo serviço: atadura de morim ou tecido sintético de rayon contendo o princípio ativo, gaze absorvente ou gaze de queimado, algodão hidrófilo e atadura de crepe. Face e períneo são a exceção declarada pela própria cartilha: nesses dois lugares o curativo é exposto, e não oclusivo. As três bolhas de Casimira seguem a decisão explicada nas divergências — a rota é desbridada, e as duas íntegras entram na discussão que este capítulo não resolve por ela.

    Prescrição
    • Limpeza suave com água limpa ou soro fisiológico, removendo sujidade e tecido claramente solto sem traumatizar tecido viável. Antisséptico e concentração, se indicados, seguem protocolo; não usar clorexidina degermante a 2% como obrigação sobre toda queimadura aberta.
    • Na lesão superficial de Casimira, escolher cobertura não aderente que mantenha ambiente adequado e permita revisão. Sulfadiazina de prata não é padrão obrigatório para todo segundo grau; avaliar indicação, contraindicações e alternativas conforme profundidade e protocolo.
    • Cobertura primária não aderente, secundária absorvente conforme exsudato e fixação sem constrição. Número de camadas e produto dependem da ferida; preservar mobilidade e examinar perfusão distal.
    • Antebraço elevado acima do nível do coração enquanto em repouso
    • Troca conforme produto, exsudato e necessidade de inspeção, com revisão inicial programada. Não remover diariamente toda cobertura de longa permanência sem indicação; suspeita de infecção pode exigir revisão mais precoce.
    • Não prescrever antibiótico sistêmico profilático: o item 8 da cartilha restringe o antibiótico sistêmico às queimaduras potencialmente colonizadas e com sinais de infecção local ou sistêmica, e o protocolo de Porto Alegre de 2024 declara contraindicado o antibiótico profilático em queimadura recente
  5. 23h15 — o que corre em Lupércio enquanto a vaga não sai

    Enquanto o paciente está aqui, ele é seu. Quatro frentes correm juntas e nenhuma delas é o curativo. A primeira é analgesia titulada, porque o transporte vai durar horas e a maca vibra. A segunda é temperatura: cobrir com manta, fechar a porta da sala, interromper a irrigação prolongada — um queimado extenso e exposto perde calor depressa, e hipotermia estraga a coagulação e a perfusão do tecido que ainda pode viver. A terceira é a perfusão dos segmentos circunferenciais, reavaliada de hora em hora e registrada com horário. A quarta é a retirada dos adornos, feita cedo e escrita: anel em dedo queimado às 23h ainda sai; às 3h, dentro da ambulância, já não sai.

    Prescrição
    • Sulfato de morfina: diluir 1 ampola (1 mL, 10 mg) em 9 mL de soro fisiológico 0,9%, obtendo 10 mL a 1 mg/mL
    • Administrar 4 mg (4 mL da diluição) por via endovenosa lenta agora, e repetir 2 mg a cada 10 minutos até controle da dor, com vigilância de nível de consciência e frequência respiratória
    • Manta térmica; elevar a temperatura da sala; interromper irrigação prolongada
    • Reavaliar perfusão do membro superior direito e das mãos a cada 60 minutos: enchimento capilar, temperatura, sensibilidade e curva de oximetria, com registro por escrito
    • Retirar e registrar, com hora, anéis, aliança, relógio, pulseira e cinto que não estejam aderidos à pele
  6. 23h40 — a ferida de quem vai: o curativo que não atrapalha

    Aqui está a parte que o interno faz por zelo e que custa caro ao paciente. Um curativo opaco com sulfadiazina, quando escolhido para uma indicação específica, é justamente o que atrapalha quem recebe. O creme é branco e opaco: aplicado sobre um leito ainda não avaliado por quem vai operar, ele esconde a cor da base, que é o dado que separa segundo grau superficial, segundo grau profundo e terceiro grau — e essa separação decide enxertia. Removê-lo às 4h da manhã, com o paciente cansado e a analgesia no vale, é um procedimento doloroso feito para desfazer outro procedimento doloroso. Cobre-se com compressa seca, estéril e não aderente, exatamente como o protocolo AT25 do SAMU 192 manda cobrir no pré-hospitalar, e deixa-se a decisão do tópico para quem vai acompanhar a ferida. Se o serviço de destino pedir o contrário, faz-se o que ele pediu e registra-se de quem veio a orientação.

    Prescrição
    • Limpeza suave com soro fisiológico morno; remover apenas o que sai sem trauma; não escovar
    • Cobrir com compressas secas, estéreis e não aderentes; mãos enfaixadas com os dedos separados individualmente e em posição funcional
    • Não romper nem perfurar bolhas; registrar número, tamanho e estado de cada uma
    • Não aplicar sulfadiazina de prata nem qualquer creme opaco antes da avaliação do serviço de destino, salvo orientação em contrário do médico receptor, registrada com nome e hora
  7. 00h10 — a escarotomia: quando é agora e quando não é

    Lupércio tem queimadura no membro superior direito inteiro, mas não circunferencial: há uma faixa de pele poupada na face medial do braço. A reavaliação de meia-noite mostra enchimento capilar de dois segundos nos dedos, sensibilidade preservada e curva de oximetria estável. Não há indicação. A conduta é continuar reavaliando de hora em hora e escrever cada reavaliação, porque quem recebe precisa saber que foi olhado e quando. Se fosse circunferencial e a perfusão estivesse caindo, a decisão seria de agora e não de lá: escara rígida não espera duzentos e quarenta quilômetros, e o protocolo do SAMU 192 registra a escarotomia como conduta possível até no transporte prolongado. A incisão atravessa a escara em toda a espessura, longitudinal, nas faces medial e lateral do membro; no tórax, ao longo das linhas axilares anteriores, unidas por uma incisão transversal abaixo dos últimos arcos costais, que é o desenho descrito na cartilha — e a indicação torácica, quando o gatilho é a restrição ventilatória, é do capítulo Lesão inalatória e manejo de via aérea no queimado, desta apostila. O sinal de sucesso é o afastamento espontâneo das bordas, seguido do retorno do pulso ou da queda da pressão de via aérea. A cartilha registra que habitualmente não é necessária anestesia local, mas exige hemostasia — e essa frase merece a ressalva que está nas divergências.

    Prescrição
    • Manter reavaliação horária da perfusão distal, com registro por escrito e horário
    • Se houver perda progressiva de perfusão em segmento circunferencial: acionar o cirurgião de plantão imediatamente e comunicar a unidade de tratamento de queimados
    • Material separado à beira do leito antes da necessidade: bisturi, material de hemostasia, compressas e analgesia adicional disponível
  8. 00h40 e 02h40 — a alta de uma, o embarque do outro

    Casimira vai para casa com o braço enfaixado, uma receita, uma data de retorno em 48 horas na unidade básica e uma lista de sinais de alarme dita em voz alta e escrita no papel. Lupércio embarca às 2h40 com relatório completo, morfina administrada às 2h20 e registrada, manta térmica, e a informação que mais interessa ao destino escrita no alto da folha: hora da queimadura 21h20, peso 78 kg, 27% de segundo e terceiro graus, volume infundido até o embarque e diurese acumulada. As duas altas são o mesmo ato feito para públicos diferentes — uma pessoa que vai cuidar de si mesma em casa e um serviço que vai continuar o cuidado a duzentos e quarenta quilômetros. Nos dois casos o que viaja junto é a informação, e nos dois casos ela é a parte que mais se perde.

    Prescrição
    • Casimira, receita de alta: dipirona 500 mg a 1 g por via oral a cada 6 horas se dor, e uma dose 40 minutos antes de cada troca de curativo
    • Casimira, retorno: unidade básica em 48 horas para troca; pronto-socorro imediatamente se febre, dor crescente, odor, secreção purulenta, vermelhidão que avança sobre a pele sã ou perda de mobilidade dos dedos
    • Lupércio, relatório de transferência: identificação, hora da queimadura, mecanismo e circunstância, peso aferido, percentual de segundo e terceiro graus e método de contagem, profundidade por segmento, áreas nobres acometidas, estado das bolhas, adornos retirados com hora, volume infundido e diurese, analgesia com dose e hora, profilaxia antitetânica, comorbidades, medicamentos de uso e nome do médico receptor contactado
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Como saber se está funcionando

A reavaliação do queimado tem uma característica que a distingue: quase nenhum dos parâmetros vale sozinho. Todos são comparativos, e o que se compara é o registro de ontem. Um leito rosado hoje não diz nada se ninguém escreveu como estava ontem; uma dor de intensidade 7 não diz nada se ninguém sabe se ontem era 4 ou 9. O primeiro parâmetro deste bloco, portanto, é o que os sustenta: a existência de uma descrição escrita anterior, feita com as mesmas palavras.

Perfusão distal em segmento circunferencialDe hora em hora nas primeiras 24 a 48 horas, e a cada reavaliação enquanto houver escara circunferencial

Esperado: Enchimento capilar até 3 segundos, extremidade morna, sensibilidade preservada, curva de oximetria presente e estável

Se não melhora: Perda progressiva de qualquer um desses itens é indicação de escarotomia e a decisão é do momento, não do destino. Ausência de pulso é sinal tardio e não deve ser esperada como gatilho

Padrão da dorAntes e depois de cada troca de curativo, e uma vez por plantão fora do procedimento

Esperado: Dor de repouso controlada com o esquema de horário; pico apenas durante a troca, respondendo ao resgate programado

Se não melhora: Dor que muda de qualidade — contínua, latejante, que acorda o paciente, desproporcional ao aspecto — é sinal de infecção da área queimada, de isquemia sob escara ou de síndrome compartimental, e pede reavaliação da causa antes de mais dose

Aspecto do leito, comparado ao registro anteriorA cada troca de curativo, com descrição escrita

Esperado: Leito que clareia, exsudato que diminui, ilhas de epitelização que aparecem a partir do sétimo ao décimo dia no segundo grau superficial

Se não melhora: Mudança de coloração, aprofundamento da lesão, escara que estava seca e amanheceu úmida, descolamento precoce da escara ou coloração hemorrágica sob ela são os sinais de infecção listados na cartilha de 2012 e mudam a conduta

Odor e exsudatoA cada abertura do curativo, antes de irrigar

Esperado: Exsudato seroso ou serossanguinolento, em volume decrescente; sem odor

Se não melhora: Odor fétido é um dos nove sinais da cartilha e vale mais quando é mudança. Exsudato que vira purulento — denso, amarelo, esverdeado ou acastanhado — indica infecção ativa e antecipa a troca para 24 em 24 horas

Borda e pele perilesionalA cada troca

Esperado: Pele em volta íntegra, sem maceração, sem eritema que avança

Se não melhora: Celulite ao redor da lesão é sinal de infecção pela cartilha; maceração da borda é erro de cobertura, geralmente por curativo que extravasa ou que absorve pouco, e se corrige com recorte no tamanho exato da ferida e creme barreira na perilesão

Estado geral e temperaturaDiariamente no internado, e por relato no ambulatorial

Esperado: Paciente que come, dorme e se movimenta; temperatura sem picos novos

Se não melhora: Febre isolada em queimado extenso é inespecífica desde o primeiro dia e não fecha diagnóstico sozinha. Febre nova acompanhada de qualquer mudança do leito, do odor ou da dor é outra coisa, e essa combinação muda conduta

Função e posição do segmentoA cada troca, e sempre que houver lesão em mão, pé ou grande articulação

Esperado: Mão enfaixada com os dedos separados e em posição funcional; membro elevado; amplitude de movimento mantida dentro do tolerado

Se não melhora: Perda de mobilidade, dedos que aderem entre si sob a atadura ou articulação que perde amplitude são sequela em formação, e são motivo de encaminhamento mesmo quando o leito da ferida está bem

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Onde o erro machuca

Fazer o curativo caprichado em quem vai ser transferido

O dano: Sulfadiazina de prata é branca e opaca. Aplicada antes de o serviço de destino ver o leito, ela esconde a cor da base, que é o dado que separa segundo grau superficial, profundo e terceiro grau — a separação que decide enxertia. Quem recebe terá de removê-la para enxergar, num paciente já cansado, e o custo é uma sessão inteira de dor a mais

Como pegar a tempo: Antes do curativo definitivo, telefone. Cubra com compressa seca, estéril e não aderente, como o protocolo AT25 do SAMU manda cobrir no pré-hospitalar, e combine o tópico com quem vai receber, registrando o nome de quem orientou

Somar o eritema de primeiro grau na área que decide a transferência

O dano: O mesmo número alimenta a fórmula de reposição e a régua do item 12. Inflá-lo hidrata em excesso e manda para a estrada, num transporte de horas, alguém que estava seguro no hospital de origem — e ocupa um leito de centro de referência que é contado às dezenas em todo o estado

Como pegar a tempo: Conte apenas segundo e terceiro graus. Eritema que empalidece e não tem bolha não entra em nenhuma das duas contas, por mais extenso que seja

Prescrever a analgesia depois de montar o curativo, ou conforme necessidade

O dano: A dose começa a agir quando o procedimento já acabou. O paciente aprende que a troca dói, passa a resistir a cada troca seguinte, e o curativo passa a ser feito depressa e mal — o que aprofunda a lesão e realimenta o ciclo

Como pegar a tempo: Prescreva por horário, 30 a 40 minutos antes da troca marcada, e trate a troca como um procedimento agendado. Umedeça a cobertura antes de removê-la e nunca trate gaze aderida com tração

Iniciar antibiótico sistêmico profilático porque a queimadura é grande

O dano: Não previne a infecção da área queimada, seleciona flora resistente exatamente no paciente que vai passar semanas internado e vai precisar de antimicrobiano de verdade, e ainda mascara a mudança clínica que serve de sinal

Como pegar a tempo: Siga o item 8 da cartilha, que restringe o antibiótico sistêmico às queimaduras com sinais de infecção local ou sistêmica, e o protocolo de Porto Alegre de 2024, que declara contraindicado o profilático em queimadura recente. O que previne infecção aqui é limpeza, cobertura adequada e troca no prazo

Esperar a ausência de pulso para agir na escara circunferencial

O dano: O pulso some por último. Quando ele desaparece, o nervo e o músculo já sofreram, e a descompressão passa a ser tarde para a função mesmo quando salva o membro

Como pegar a tempo: Use a sequência precoce: dor desproporcional e crescente, dor à extensão passiva, parestesia, enchimento capilar lento, esfriamento, perda da curva de oximetria. Reavalie de hora em hora, escreva cada reavaliação e acione o cirurgião na primeira perda progressiva

Dar alta sem escrever os sinais de alarme e sem saber quem vai trocar o curativo

O dano: O paciente volta em uma semana com a ferida aprofundada e ninguém consegue dizer o que mudou, porque não há registro anterior nem houve troca. A sequela que aparece no décimo dia foi produzida entre o segundo e o oitavo, em casa

Como pegar a tempo: Escreva na receita os sinais que obrigam a voltar antes da data marcada, diga-os em voz alta, e resolva na alta a logística: onde é a troca, em que dias, quem faz, como a pessoa chega, e o que fazer se o curativo molhar ou soltar num domingo

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O que dizer ao paciente e à família

Há duas conversas neste capítulo e elas têm públicos opostos. Uma é com quem vai embora daqui a duas horas para um hospital a duzentos e quarenta quilômetros, e a família que fica. A outra é com quem vai embora daqui a vinte minutos para casa e vai cuidar da própria ferida por três semanas. A primeira precisa de honestidade sobre o que ainda não se sabe; a segunda, de instruções que sobrevivam ao esquecimento da porta para fora.

O senhor vai ser transferido para um hospital que tem uma equipe que cuida só de queimadura. Não é porque o senhor piorou agora: é porque a área queimada passou de vinte por cento e porque as duas mãos estão envolvidas, e essas duas coisas já são motivo, pela regra que a gente usa, mesmo com o senhor conversando comigo do jeito que está.

Não diga: Evite dizer que é só por precaução ou que é rotina. A transferência é uma decisão clínica com critério escrito, e dizê-la como formalidade tira do paciente a chance de entender por que vai passar a noite numa estrada

A vaga saiu para as duas da manhã e a ambulância sai às duas e quarenta. Até lá o senhor fica comigo, e o que eu vou fazer é controlar a dor, manter o soro correndo e olhar a circulação do braço de hora em hora. O curativo bonito eu não vou fazer agora, de propósito: a médica de lá pediu para deixar a ferida do jeito que ela consegue enxergar.

Não diga: Evite deixar o paciente achar que não fazer o curativo é descaso, ou que a espera é vazia. Nomear o que está sendo feito na hora em que ninguém está mexendo nele é o que transforma espera em cuidado

Não sei ainda quanto dessa queimadura é da profundidade que fecha sozinha e quanto é da que vai precisar de cirurgia de pele. Isso não se sabe no primeiro dia, e quem vai responder é a equipe de lá, olhando por alguns dias. O que eu posso dizer é o que a gente vê hoje, e é isso que vai escrito no relatório que vai com o senhor.

Não diga: Evite prometer profundidade e evite prometer prazo de internação. A profundidade prometida na admissão é a promessa mais fácil de quebrar, e quebrá-la no terceiro dia custa a confiança de que a equipe de lá vai precisar

A senhora vai com ele? Então anote esses três dados no celular antes de sair daqui, porque na chegada vão perguntar e ninguém vai ter a folha na mão: a hora do acidente foi nove e vinte da noite, ele pesa setenta e oito quilos, e a última dose de morfina foi às duas e vinte.

Não diga: Evite entregar apenas o envelope de papel e supor que ele chega. Dar à família dois ou três dados de memória é uma redundância barata e é ela que salva a informação quando o envelope se perde na transferência de maca

O seu braço tem queimadura de segundo grau superficial, que é a que cicatriza sozinha em duas a três semanas, sem precisar de cirurgia e em geral sem marca que fique. Para isso acontecer, três coisas: não deixar secar, não deixar molhar de água suja, e não arrancar o curativo seco.

Não diga: Evite a expressão queimadura leve. Ela autoriza a pessoa a tratar como arranhão exatamente a ferida que aprofunda quando é malcuidada — e o aprofundamento é o desfecho que este cuidado existe para impedir

Tome o remédio da dor quarenta minutos antes de ir trocar o curativo, não depois. E se a gaze estiver grudada, molhe com soro até soltar sozinha; não puxe. Se puxar, tira junto a pele nova que estava se formando, e aí a ferida volta ao começo.

Não diga: Evite dizer apenas tome se doer. A dor da troca é previsível ao minuto, e o esquema conforme necessidade garante que a dose esteja no vale exatamente quando o pico chega

A senhora volta na quinta para trocar. Mas volta antes, e no pronto-socorro mesmo, se acontecer qualquer uma destas cinco: febre, dor que aumenta em vez de diminuir, cheiro ruim, secreção amarela ou esverdeada, ou vermelhidão que avança para fora da queimadura. Vou escrever essas cinco no papel para a senhora não depender de lembrar.

Não diga: Evite a orientação genérica de procurar atendimento se piorar. Piorar não é um sinal — a pessoa em casa não tem a régua para saber o que conta. Cinco itens nomeados e escritos são uma régua que ela tem

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Flictena: romper ou manter íntegra

Manter íntegra — o teto da bolha é curativo biológico

A bolha íntegra é uma cobertura estéril, aderida, que mantém o leito úmido, reduz a dor e não custa nada. Rompê-la converte uma ferida fechada em ferida aberta e colonizável, num ambiente que raramente tem assepsia adequada. É a posição que dois documentos nacionais sustentam por escrito: o protocolo AT25 do SAMU 192, na sua observação final, proíbe expressamente romper ou perfurar bolhas no atendimento pré-hospitalar; e o Protocolo de Enfermagem de Porto Alegre, de 2024, manda manter íntegras as bolhas menores que uma moeda de um real e que não estejam sobre articulação.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, 2ª ed., 2016, protocolo AT25 (elaboração agosto de 2014, revisão abril de 2015); e Porto Alegre, Secretaria Municipal de Saúde, Protocolo de Enfermagem na Atenção Primária à Saúde: Prevenção e Tratamento de Feridas, 2024, seção Cuidados com as bolhas (flictenas)

Retirar o teto — sem ver a base não se classifica a profundidade

O líquido da bolha é inflamatório e a bolha grande se rompe sozinha em algumas horas, de forma suja e no lugar errado. Mais decisivo: a classificação de profundidade que decide enxertia e transferência é feita pela base da bolha — rósea, úmida e dolorosa no segundo grau superficial, branca, seca e menos dolorosa no profundo —, e essa base não é visível sob um teto íntegro. O mesmo protocolo de Porto Alegre de 2024 sustenta esta posição para as bolhas grandes, oferecendo duas opções — aspirar mantendo a epiderme como cobertura biológica, ou desbridar totalmente — e mandando desbridar por completo toda bolha já rompida.

Brasil. Ministério da Saúde. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012, item 3, que define a profundidade pelo aspecto da base da bolha; e Porto Alegre, Protocolo de Enfermagem na Atenção Primária à Saúde: Prevenção e Tratamento de Feridas, 2024, seção Cuidados com as bolhas (flictenas)

Como decidir

Decida pelo paciente à sua frente, com três perguntas. Primeira: este paciente vai ser transferido? Se vai, não rompa — quem recebe decide, e a bolha íntegra chega mais limpa e menos dolorosa do que um leito aberto de três horas de estrada. Segunda: o tamanho e o lugar. Bolha pequena, fora de articulação e íntegra pode ficar; bolha grande, tensa, sobre articulação ou sobre superfície de apoio vai romper sozinha e é melhor tratada de forma controlada, com aspiração asséptica mantendo o teto ou com desbridamento se o teto já estiver desvitalizado. Terceira: você precisa da base para decidir agora? Se a profundidade daquela área muda o destino do paciente e não há outra forma de vê-la, a base tem de ser vista. Em qualquer das escolhas, o gesto é asséptico, é feito depois da analgesia e é registrado com número, tamanho e localização das bolhas.

O que se põe sobre a ferida de quem vai ser transferido

Sulfadiazina de prata e curativo oclusivo, porque a transferência é depois das medidas iniciais

A cartilha de 2012 traz num mesmo documento duas instruções que se encaixam: o item 8 lista, entre as medidas gerais imediatas e o tratamento da ferida, a limpeza, a sulfadiazina de prata a 1% como antimicrobiano tópico e o curativo oclusivo em quatro camadas; e o item 12 manda solicitar a transferência após a estabilização hemodinâmica e as medidas iniciais. Lidos juntos, a leitura literal é que o curativo do item 8 faz parte das medidas iniciais que precedem a transferência, e que o paciente deve viajar já protegido contra colonização — uma ferida extensa e aberta durante horas de estrada é uma porta.

Brasil. Ministério da Saúde. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012, itens 8 e 12

Compressa seca, estéril e não aderente, e o tópico fica para o destino

O protocolo AT25 do SAMU 192 descreve exatamente o que se faz sobre a queimadura antes de o paciente chegar ao hospital: irrigar com soro fisiológico em abundância para resfriar e, em seguida, cobrir com compressas secas, estéreis e não aderentes. Não menciona tópico nenhum. A razão prática se soma à normativa: o creme opaco impede o serviço de destino de avaliar a profundidade, e essa avaliação é o que decide enxertia. Não existe, na cartilha, nenhuma frase dizendo que as medidas iniciais do item 12 incluam o tópico do item 8 — o documento simplesmente não resolve a questão.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, 2ª ed., 2016, protocolo AT25, item 11 da conduta

Como decidir

Quem decide isto não é o documento, é o telefone, e por isso a ordem correta é telefonar antes de fazer o curativo definitivo. Pergunte ao médico que vai receber o que ele quer encontrar, registre o nome dele e a orientação, e faça o que ele pediu. Se não for possível falar com o destino, três variáveis resolvem: tempo previsto até a avaliação lá, extensão exposta e condições do transporte. Chegada prevista em poucas horas, com transporte fechado e paciente coberto, sustenta a compressa seca não aderente. Espera longa, indefinida, ou transporte em condições ruins, pesa para o curativo com tópico — e nesse caso escreva no relatório, em destaque, o que foi aplicado, a que horas e sobre quais segmentos, para que quem recebe saiba o que vai encontrar sob a gaze.

Escarotomia com ou sem anestesia local

Habitualmente sem anestesia local, com hemostasia — cartilha do Ministério da Saúde, 2012

O item 8 da cartilha, logo depois de descrever as linhas de incisão para tórax e para membros, afirma que habitualmente não é necessária anestesia local para tais procedimentos, porém há necessidade de se proceder à hemostasia. A base fisiológica é conhecida: a escara de espessura total é insensível porque as terminações nervosas dérmicas foram destruídas, e a incisão que percorre a escara não é sentida. Não anestesiar poupa tempo num procedimento cuja indicação é de minutos e evita a distorção do tecido pelo volume infiltrado, num campo onde a anatomia já está alterada.

Brasil. Ministério da Saúde. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012, item 8, medidas gerais imediatas e tratamento da ferida

A incisão eficaz atravessa a borda, e a borda dói — leitura deste capítulo, declarada como tal

Esta posição é uma dedução deste capítulo e não uma citação: nenhum dos documentos nacionais consultados a escreve. O argumento é que a escarotomia só descomprime quando a incisão vai de tecido íntegro a tecido íntegro, atravessando toda a espessura da escara e as suas duas extremidades; a parte central é insensível, mas as bordas e o plano subcutâneo alcançado no fim do trajeto não são, e é justamente ali que a lâmina precisa chegar para o compartimento abrir. Somando-se a isso a analgesia sistêmica já em curso, a infiltração das extremidades e a sedoanalgesia são medidas de conforto que não atrasam o procedimento.

Leitura deste capítulo a partir do mecanismo descrito, sem documento brasileiro que a sustente por escrito. Registrada aqui como dedução, e não como recomendação de fonte

Como decidir

A pergunta que decide não é se dói, é se o atraso custa mais do que a dor. Num membro com perfusão em queda ou num tórax que não expande, o procedimento é de minutos e não se adia por preparo anestésico — mas nada impede que a analgesia sistêmica seja titulada enquanto o material é montado, e ela já deveria estar correndo. Fora da urgência imediata, com o paciente monitorizado e a indicação clara mas não iminente, infiltrar as extremidades da incisão e sedar é razoável e não contraria a cartilha, que diz habitualmente não ser necessária e não diz ser proibida. O que não muda em nenhum cenário é a hemostasia, que o documento exige por escrito, e o registro do horário da incisão e da resposta obtida.

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O raciocínio, em voz alta

Segunda-feira, 10h20, mesmo hospital geral. Alferes Jacarandá, 27 anos, eletricista, 71 quilos, chega andando, trazido pelo encarregado da obra. Estava trocando um disjuntor num quadro de 220 volts quando levou o choque; foi arremessado para trás e caiu sentado de uma altura de cerca de um metro. Não perdeu a consciência. Tem duas lesões: uma na palma da mão direita, arredondada, de dois centímetros, esbranquiçada e endurecida, indolor ao toque; e outra no calcanhar esquerdo, do mesmo tamanho e do mesmo aspecto. Somadas, não chegam a 1% da superfície corporal. Está lúcido, com pressão 128 por 78, frequência 92, saturação 98% em ar ambiente. Queixa-se de dor no antebraço direito, difusa, forte, que ele não sabe localizar, e de dor lombar. Diz que está atrasado para outro serviço e pergunta se pode assinar alguma coisa e ir embora.

  1. a régua não é lida pela área, é lida por entrada

    A tentação é aplicar o percentual: menos de 1%, nenhuma área nobre pelo tamanho, paciente conversando. Nada disso é o critério aqui. A régua do item 12 tem seis entradas e basta uma positiva. A entrada positiva de Alferes é mecanismo: queimadura elétrica está escrita na lista, sem qualquer exigência de área. Ele atravessa o critério pela palavra elétrica, e atravessaria com uma lesão de meio centímetro. A segunda entrada positiva é localização: a mão é área nobre, e a lesão está na palma.

  2. o que se vê é o ponto de entrada e o de saída; o que importa é o meio

    Mão direita e calcanhar esquerdo desenham um trajeto que atravessa o tronco. A corrente percorreu músculo, vaso e nervo ao longo desse caminho, e o dano ali pode ser enorme sob pele intacta. A dor difusa do antebraço direito, que o paciente não sabe localizar, é o achado que sustenta a suspeita de lesão muscular profunda no segmento — e é também o primeiro sinal da sequência de compartimento, que aqui não vem de escara mas de edema muscular. A dor lombar, num paciente que caiu sentado, é trauma associado e não é do escopo deste capítulo: a avaliação do politraumatizado é do capítulo Atendimento inicial ao politraumatizado, da apostila de Trauma, que é dono da sequência.

  3. os três exames que a cartilha nomeia, e o quarto que é de graça

    Faço ECG e monitorização inicial, com duração guiada por sintomas, alterações elétricas, gravidade e protocolo. Neste caso, dor muscular intensa e suspeita de lesão profunda justificam internação/vigilância, mesmo sendo baixa tensão. Peço CK, função renal e eletrólitos; CK-MB não é exame universal para quantificar dano muscular esquelético. Urina escura pode sugerir pigmentúria, mas não confirma mioglobina sem contexto e exame. Reposição e alvo urinário são definidos pela equipe e reavaliados com balanço, perfusão e risco de sobrecarga. Examino repetidamente o antebraço, incluindo dor à mobilização passiva e sensibilidade; pulso presente não exclui síndrome compartimental.

  4. a frase mais direta do documento

    A recomendação antiga de internar todo choque elétrico não deve ser aplicada como regra sem avaliação. Alferes, porém, tem lesões profundas e dor preocupante após trauma: explico a indicação de internação e o risco de deterioração. Avalio compreensão, capacidade e motivos para querer sair; se mantiver recusa, envolvo supervisor e documento orientação e alternativas, sem tratar uma pessoa capaz como impedida de decidir apenas por não poder assinar um papel.

  5. o que se faz na ferida dele, que é quase nada

    Duas lesões de dois centímetros, de espessura total, indolores. Limpeza suave, compressa seca estéril não aderente, mão enfaixada em posição funcional. Nenhum tópico opaco antes de combinar com o destino, pelo mesmo motivo de sempre: quem vai operar precisa ver. O que ocupa a hora seguinte não é o curativo — é o eletrocardiograma, o acesso venoso, a analgesia, a coleta e o telefonema.

  6. o telefonema, e o que ele muda

    A ligação é para a unidade de tratamento de queimados de referência. Do outro lado, dois pedidos previsíveis: o resultado da creatinofosfoquinase e a descrição do antebraço com horário, porque é o antebraço que pode precisar de fasciotomia antes da chegada. A cartilha antecipa exatamente essa situação numa frase do item 9: na passagem de corrente pela região do punho, avaliar o antebraço, o braço e os membros inferiores e verificar a necessidade de escarotomia com fasciotomia nesses segmentos.

  7. o que se escreve, e por que aqui isso é mais do que rotina

    Acidente de trabalho tem consequência administrativa e previdenciária além da clínica, e o registro feito hoje é o documento de amanhã. O que este capítulo faz é o registro clínico: mecanismo, tensão, tipo de corrente, entrada e saída, altura da queda, perda de consciência, horário, achados por segmento com medida, e cada reavaliação de perfusão com hora. O que se faz com o acidente enquanto acidente de trabalho — comunicação, notificação, nexo — pertence ao capítulo de acidente de trabalho e nexo causal, e este capítulo cede a ele esse assunto.

  8. o desfecho

    Alferes é transferido às 15h40 com creatinofosfoquinase de 4.100 U/L, urina em cor de chá, monitorização sem arritmia, e uma descrição do antebraço direito escrita quatro vezes ao longo de cinco horas, cada uma com horário — o que permitiu à equipe do centro ver que a dor era crescente e não estável, e levá-lo direto ao centro cirúrgico para fasciotomia. As duas feridas de dois centímetros continuavam com dois centímetros.

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Faça você

Seis dias depois da noite do churrasco. Casimira Oratórios volta ao pronto-socorro num domingo às 21h, sozinha, com o curativo do antebraço esquerdo trocado pela última vez na quinta-feira na unidade básica. Diz que na sexta e no sábado estava melhorando e que hoje piorou. A dor, que vinha diminuindo e só incomodava na hora da troca, virou uma dor contínua que a acordou de madrugada. Não tem febre aferida em casa; aqui a temperatura é 37,8. Ao abrir o curativo, você encontra: o leito, que no registro de quinta estava descrito como rosado, úmido e com ilhas de epitélio nas bordas, agora está acinzentado no terço médio; há odor; a gaze está com secreção amarelada mais espessa que a da quinta; e a pele em volta tem um halo avermelhado de cerca de dois centímetros que avança sobre a pele sã. Os dedos movem normalmente. Complete a conduta.

  1. o dado que torna tudo isso legível

    Nenhum dos achados de hoje significa qualquer coisa isoladamente — leito úmido, secreção e dor são o estado basal de uma queimadura. O que os torna legíveis é a descrição escrita na quinta-feira, com as mesmas palavras. Sem ela, esta consulta seria uma fotografia sem antes.

  2. quantos dos nove sinais estão presentes, e quais

    Percorra a lista do item 11 da cartilha e conte, nomeando: mudança da coloração da lesão, mudança do odor, aumento ou modificação da queixa dolorosa, celulite ao redor da lesão. Diga também quais dos nove estão ausentes, porque a ausência conta: não há aprofundamento evidente, não há escara para descolar nem para sangrar sob ela, e não há edema do segmento.

  3. por que a régua da ferida cirúrgica não decide isto

    Diga por que rubor, calor, dor e drenagem não fecham diagnóstico aqui, e o que substitui esses quatro sinais na ferida queimada. Diga também qual é o peso da temperatura de 37,8 numa queimadura de 3% em paciente ambulatorial, e por que ele é diferente do peso da mesma temperatura num queimado extenso internado.

  4. a decisão de antibiótico, com a frase do documento na mão

    O item 8 da cartilha restringe o antibiótico sistêmico profilático às queimaduras potencialmente colonizadas e com sinais de infecção local ou sistêmica, e manda evitar nos demais casos. Decida se esta paciente está dentro ou fora dessa restrição, e escreva a justificativa em uma frase que caiba no prontuário. Depois diga o que muda no curativo, independentemente da decisão sobre o antibiótico.

  5. o que muda no curativo e no intervalo de troca

    Escreva a nova prescrição de curativo: limpeza, cobertura e periodicidade. Justifique o intervalo com o que os documentos dizem sobre ferida com sinal de infecção, e diga o que você quer que esteja registrado na próxima troca para poder comparar.

  6. fica ou vai

    Percorra de novo as seis entradas da régua de transferência com os dados de hoje, e diga se alguma virou positiva no sexto dia. Depois responda a pergunta que a régua não faz e que é sua: esta paciente vai para casa outra vez, fica em observação, interna nesta enfermaria, ou é encaminhada ao ambulatório de cirurgia — e o que decide não é o percentual.

  7. a conversa da porta

    Escreva as três frases que Casimira leva embora, ou que ela ouve antes de subir para a enfermaria. Uma sobre o que mudou desde quinta, uma sobre o que vai ser feito diferente, e uma sobre o que a faz voltar antes da próxima data.

  8. Continuidade do caso e prática do internato

    Planeje a transferência de Lupércio e a continuidade de Casimira com o mesmo rigor: cada um precisa sair com informações e cuidado executáveis.

  9. Questão integrativa 1

    Um adulto com 12% de espessura parcial precisa de consulta ao centro mesmo abaixo do corte antigo de 20%?

  10. Questão integrativa 2

    Toda queimadura de segundo grau recebe sulfadiazina?

  11. Questão integrativa 3

    Por que o horário do analgésico não pode ser copiado entre vias oral e IV?

  12. Questão integrativa 4

    Uma bolha precisa sempre ser rompida na emergência?

  13. Questão integrativa 5

    Casimira tem só 3%, mas a ferida piorou e não há troca garantida. Isso muda a alta?

  14. Questão integrativa 6

    O curativo está bom, mas a mão começa a perder movimento. O que falta no plano?

Ver como fecharíamos

Quatro dos nove sinais do item 11 estão presentes e nomeados: mudança da coloração da lesão (rosado na quinta, acinzentado no terço médio hoje), mudança do odor, aumento e modificação da queixa dolorosa (de dor de procedimento para dor contínua noturna) e celulite ao redor da lesão (halo avançando sobre a pele sã). Estão ausentes o aprofundamento evidente, o descolamento precoce de escara, a escara úmida, a coloração hemorrágica sob a escara e o edema do segmento. Rubor, calor, dor e drenagem não decidem porque são o estado basal de toda queimadura de segundo grau: a régua aqui é comparativa, e o que sustenta o diagnóstico é a diferença em relação ao registro de quinta-feira, não o achado de hoje. A temperatura de 37,8 pesa mais nesta paciente do que pesaria num queimado extenso internado, justamente porque ela não tem inflamação sistêmica de área grande para explicá-la — em queimado extenso, febre isolada é inespecífica desde o primeiro dia. Sobre o antibiótico: esta paciente está dentro da restrição do item 8, porque tem sinais de infecção local — a celulite que avança sobre a pele sã não é a inflamação da queimadura, é infecção de partes moles da pele íntegra em volta. Antibiótico sistêmico está indicado como tratamento e não como profilaxia, e a frase de prontuário é essa: celulite perilesional em expansão, com mudança de coloração, odor e padrão de dor em relação ao registro de 4 dias antes. A escolha do antimicrobiano segue o capítulo de antibioticoterapia empírica, e não este. No curativo, três mudanças: limpeza mais cuidadosa a cada troca, com remoção do tecido desvitalizado acinzentado; cobertura escolhida novamente pela profundidade, exsudato e necessidade de inspeção, com antimicrobiano tópico apenas quando indicado pelo plano do serviço; sulfadiazina não é obrigatória; e encurtamento do intervalo, passando das 24 a 48 horas para troca diária enquanto houver sinal de infecção — o protocolo de Porto Alegre de 2024 registra a mesma regra ao dizer que lesões com sinais flogísticos têm o prazo de troca diminuído em comparação com as lesões sem sinais de infecção. Na próxima troca devem estar registrados: extensão do halo em centímetros medida a partir da borda, cor do leito por terços, aspecto e volume do exsudato e escala de dor em repouso. Sobre destino: nenhuma das seis entradas da régua de transferência virou positiva — a área continua 3%, a profundidade continua de segundo grau, não há área nobre, o mecanismo continua escaldadura, a idade é 31 e não há lesão associada. O percentual isolado não impõe transferência, mas também não a exclui: infecção, possível aprofundamento e dificuldade de seguimento justificam discutir avaliação especializada. O que decide o destino dela não é o percentual e sim três coisas que a régua não pergunta: se a celulite exige antimicrobiano endovenoso, se existe quem troque o curativo diariamente perto de casa, e se ela mora sozinha e é destra com a lesão no braço esquerdo. Com celulite em expansão, num domingo à noite, morando sozinha e com o próximo curativo disponível só na terça, a decisão defensável é observação com a primeira dose aqui e reavaliação em 24 horas, com encaminhamento ao ambulatório de cirurgia e troca diária garantida antes da alta. As três frases da porta: o que mudou desde quinta, dito pelo nome — a cor do fundo, o cheiro e o tipo de dor; o que vai ser feito diferente — antibiótico, troca todo dia e não de dois em dois, e revisão amanhã; e o que a faz voltar antes — vermelhidão que continue subindo pelo braço, febre acima de 38, ou dor que não ceda com o remédio. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Sim, o critério ABA de consulta imediata/consideração de transferência inclui ≥10%. A rede e o quadro determinam o destino; limiar de fluido não é sinônimo de limiar de referência. 2. Não. A escolha depende de profundidade, exsudato, localização, segurança e produto disponível. Não há uma única cobertura obrigatória para todas as lesões. 3. O início e o pico de ação diferem. Planeje conforme a via e confirme alívio antes de manipular, com monitorização e resgate apropriados. 4. Não. Avalie tamanho, articulação, contaminação e o plano do centro; quando indicada, a manipulação é feita com técnica e analgesia por equipe capacitada. 5. Sim. Evolução, infecção, função e suporte importam independentemente da área. Organize observação ou cuidado efetivo antes de liberar. 6. Avaliação funcional, posicionamento e reabilitação. Cicatrizar a pele não é o único objetivo; prevenir contratura e recuperar atividade fazem parte do cuidado.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O item 12 da Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, do Ministério da Saúde, de 2012, escreve dois limiares de área para o segundo grau: acima de 20% da superfície corporal queimada no adulto, e acima de 10% em crianças ou em maiores de 50 anos. Este paciente tem 58 anos, de modo que o limiar aplicável é o de 10%, e 14% o ultrapassa — a resposta correta é a que reconhece a queda do limiar aos 50 anos. A alternativa que aplica os 20% ignora a segunda linha da lista. A que fixa o corte etário em 65 anos confunde duas passagens diferentes do mesmo documento: 65 anos é o corte do item 7, que classifica a queimadura como grave, enquanto o item 12, que é o dos critérios de transferência, usa 50 anos — uma inconsistência real da cartilha, e é justamente na faixa entre 50 e 65 que ela produz decisões opostas. E a idade acima de 50 anos não é critério isolado: ela funciona rebaixando o limiar de área, não dispensando-o, de modo que o mesmo homem com 4% de segundo grau no tronco não seria encaminhado por esse motivo.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare o preparo para transferência e o cuidado de quem permanece: analgesia, limpeza, cobertura, reavaliação e seguimento. Explique por que a cobertura depende do leito e do plano, sem colocar sulfadiazina obrigatoriamente em um dos lados.

Em 30 dias

Pegue a Casimira do capítulo — 3%, segundo grau superficial, antebraço — e mude um único dado por vez, dizendo em voz alta o que quebra e por qual entrada da régua. Troque o antebraço pela mão. Troque a idade de 31 para 54. Troque a escaldadura por respingo de soda cáustica. Troque o segundo grau superficial por uma placa de terceiro grau de três centímetros. Acrescente diabetes de longa data com insuficiência arterial. Acrescente que ela mora sozinha a quarenta quilômetros da unidade básica mais próxima, sem transporte. Em cada versão diga: qual entrada ficou positiva, se ela vai ou fica, e — se ficar — o que muda no curativo e no intervalo de troca. Depois faça o exercício inverso com o Lupércio: retire as mãos da queimadura e baixe a área para 18%, e diga o que sobra da decisão.

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Agora atenda

Agora atenda: mulher de 54 anos, 62 quilos, diabética de longa data em uso de metformina, trazida ao pronto-socorro de um hospital geral do interior às 23h40 por queimadura ocorrida às 22h50, quando o óleo de uma panela alcançou o antebraço direito, o dorso da mão direita e a coxa direita ao escorregar do fogão. Tem 9% de superfície de segundo grau, sendo cerca de um terço com base branca, seca e que não empalidece à digitopressão, e o restante com base rósea e úmida. Há três bolhas grandes e tensas no antebraço e uma bolha rota no dorso da mão. Está lúcida, com dor intensa, pressão 138 por 84, frequência 104, saturação 97% em ar ambiente, temperatura 36,2. Não sabe informar quando tomou a última dose de vacina antitetânica. Mora sozinha, é destra, e o centro de tratamento de queimados mais próximo fica a três horas de ambulância. Diga se ela vai ou fica e por qual entrada da régua; diga o que faz com as quatro bolhas e por quê; prescreva a analgesia com o horário em relação ao curativo; escreva o curativo camada por camada; e diga o que ela leva escrito na mão quando sair — ou o que vai no relatório, se ela for.