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Cirurgia GeralQueimados

A via aérea fecha enquanto você repõe

Lesão inalatória e manejo de via aérea no queimado

Distinguir edema de via aérea, lesão pulmonar e intoxicação por fumaça; oferecer suporte, reconhecer deterioração e preparar intubação ou escarotomia quando indicadas pela equipe.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2012. 20 p. (Série F. Comunicação e Educação em Saúde). CDU 616-001.17. Elaboração: Câmara Técnica de Queimaduras do Conselho Federal de Medicina

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. CDD 616.0252; CDU 616-083. Protocolos ATox 5 (Inalação de fumaça), ATox 6 (Intoxicação por monóxido de carbono) e ATox 7 (Intoxicação aguda por cianeto), elaboração janeiro/2016; protocolo AT25 (Queimadura térmica — calor), elaboração agosto/2014 e revisão abril/2015; protocolo AP9 (Sequência rápida de intubação)

São Paulo (Cidade). Secretaria Municipal da Saúde. Coordenadoria de Vigilância em Saúde. Divisão de Vigilância Epidemiológica. Núcleo de Prevenção e Controle das Intoxicações. Manual de Toxicologia Clínica: orientações para assistência e vigilância das intoxicações agudas. Hernandez EMM, Rodrigues RMR, Torres TM (organizadores). São Paulo: Secretaria Municipal da Saúde, 2017. 465 p. CDU 615.9

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Disponibilização do cloridrato de hidroxocobalamina para o tratamento de intoxicações por cianeto no âmbito da assistência farmacêutica. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. ISBN 978-65-5993-143-9. CDU 614:39:615.9

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024

01

Responda antes de ler

Você avalia quatro vítimas de um mesmo incêndio residencial. Todas estão acordadas e conversando. Qual achado, isoladamente, é sinal de obstrução da via aérea superior já presente e exige avaliação imediata para sua proteção?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, 3h20 da madrugada. Hospital municipal de sessenta leitos, cidade de quarenta mil habitantes, duzentos e trinta quilômetros do centro de tratamento de queimados. Você é o interno da escala noturna e está sozinho com uma enfermeira e um técnico. O plantonista clínico foi chamado e mora a doze minutos. O rádio dos bombeiros avisou seis minutos antes: incêndio em residência, um homem retirado do quarto, consciente.

Temístocles Marimbondo tem 47 anos, é marceneiro e pesa, pelo que a filha informa, cerca de 78 quilos. O fogo começou por volta das 2h30 na sala, num sofá, e ele foi encontrado no quarto com a porta fechada. Os bombeiros levaram algo entre doze e quinze minutos para chegar até ele. Isso significa que ele respirou fumaça de espuma de poliuretano e de colchão dentro de um cômodo fechado por perto de cinquenta minutos até este momento, e é esse dado — o ambiente, não a queimadura — que organiza tudo o que vem a seguir.

Ele chega sentado na maca, acordado, e responde ao nome. Diz onde está, mas erra o dia da semana e repete duas vezes a mesma pergunta sobre a filha. A Escala de Coma de Glasgow dá 13: abre os olhos espontaneamente, obedece a comandos, e a confusão desconta na resposta verbal. A voz está rouca, de um jeito que ele mesmo nota. Tosse e cospe numa cuba uma secreção acinzentada com pontos pretos. As sobrancelhas estão chamuscadas e há fuligem seca ao redor das narinas.

O monitor mostra saturação de 98% em ar ambiente. Frequência cardíaca de 126, pressão de 104 por 62, frequência respiratória de 26. A pele do tronco anterior e das duas axilas está seca, dura e esbranquiçada, e a lesão dá a volta completa pelo dorso — uma faixa que circunda o tórax inteiro, sem dor à palpação. Rosto e pescoço avermelhados, sem bolha. A conta de superfície e a classificação de profundidade são do capítulo Superfície queimada e profundidade, desta mesma apostila, e por ela ele fica em torno de 25% de segundo e terceiro graus.

A saturação de 98% pode tranquilizar indevidamente: o oxímetro convencional não distingue adequadamente carboxi-hemoglobina e não exclui intoxicação por monóxido. O número tem limitações específicas, não ausência completa de significado. História, exame, oxigênio imediato e cooximetria quando disponível orientam a avaliação.

Nas próximas três horas, quatro coisas vão acontecer com ele, e nenhuma delas está acontecendo agora: a laringe vai estreitar, o tórax queimado em anel vai deixar de expandir, o gás carbônico vai subir e o lactato vai apontar para um segundo veneno que este hospital não tem como dosar nem como tratar. Nada disso é imprevisível. Tudo isso é decidido nos primeiros trinta minutos, com inspeção, relógio e telefone.

03

Quem adoece disso

A lesão inalatória é o achado que mais muda o destino do queimado, e o Brasil tem mais régua para ela do que costuma parecer. A cartilha federal de 2012 a coloca duas vezes: entre as condições que classificam a queimadura como grave, sozinha e independentemente de área, e entre os critérios de transferência para unidade de tratamento de queimaduras, também sozinha. Ou seja: um paciente com 4% de superfície queimada e fuligem no escarro é grande queimado e vai para centro especializado pela lesão que não se mede em porcentagem. A lista completa de transferência é do capítulo Superfície queimada e profundidade, desta apostila, que a traz conferida.

O que quase ninguém sabe é que existe um protocolo nacional dedicado. Os Protocolos de Intervenção para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência trazem três cartões seguidos, elaborados em janeiro de 2016, que separam exatamente os três problemas deste capítulo: inalação de fumaça, intoxicação por monóxido de carbono e intoxicação aguda por cianeto. Os três se chamam entre si. É a organização mais correta que qualquer documento brasileiro deu ao assunto, e ela mora num lugar onde o médico do pronto-socorro raramente procura, porque tem a palavra pré-hospitalar na capa.

O antídoto do cianeto tem, por sua vez, uma trilha normativa completa e pouco conhecida. A hidroxocobalamina de 5 gramas injetável foi recomendada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias e incorporada ao Sistema Único de Saúde pela Portaria nº 9 da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, de 28 de janeiro de 2016; o protocolo de uso já existia antes, aprovado pela Portaria nº 1.115 da Secretaria de Atenção à Saúde, de 19 de outubro de 2015, que é a régua que o cartão do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência cita nominalmente. Ela consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, no componente Estratégico.

E aqui entra o dado que muda a conduta e que o próprio Ministério da Saúde publicou. O manual federal de disponibilização do antídoto, de 2022, registra que não havia, à época, registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária de fornecedores do kit de 5 gramas, e descreve o caminho de importação em caráter excepcional que seria necessário. O mesmo manual anota, em nota de rodapé, que o programa de emergências ao qual o protocolo de 2015 mandava distribuir o antídoto foi descontinuado, e remapeia o destino para os hospitais habilitados como portas de entrada de urgência. Existe protocolo, existe portaria, existe elenco — e a caixa pode não existir no seu hospital nem no seu estado.

Some a isso a distribuição real do resto. Nenhum agente de sequência rápida de intubação consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024: busca exata sobre o texto normalizado não devolve cetamina, não devolve suxametônio — que é a denominação comum brasileira da succinilcolina —, não devolve rocurônio e não devolve fentanila. Midazolam consta apenas como solução oral de 2 mg/mL. O oxigênio, que é o medicamento mais usado deste capítulo, também não consta. Isso não quer dizer que o hospital não tenha: quer dizer que a via de acesso a essas drogas é a padronização local, e que descobrir qual é a sua é tarefa de plantão calmo, não de plantão de incêndio.

O perfil epidemiológico do queimado brasileiro está no capítulo Superfície queimada e profundidade e no capítulo Via aérea no trauma, da apostila de Trauma, e não se repete aqui. O que interessa a este capítulo desse perfil é uma frase só: o que produz lesão inalatória é o espaço fechado com fumaça, e o espaço fechado com fumaça é a casa e a oficina, não a fogueira ao ar livre.

04

Por que acontece o que acontece

Chamar tudo de lesão inalatória é a origem de metade dos erros deste capítulo. São três agressões distintas, com três relógios distintos, três exames distintos e três condutas distintas, e a única coisa que elas têm em comum é a porta de entrada. A primeira é térmica e fica acima da glote. A segunda é química e fica abaixo dela. A terceira não fica na via aérea nenhuma: circula no sangue e envenena a célula. Um mesmo paciente pode ter as três, uma, ou nenhuma, e a presença de uma não prevê a das outras.

A primeira é térmica e para na laringe. O ar quente tem capacidade térmica baixa e as vias aéreas superiores são um trocador de calor eficiente: a mucosa da orofaringe e da supraglote absorve quase toda a energia antes que ela alcance as cordas vocais. Por isso a queimadura térmica propriamente dita quase nunca desce. A exceção clássica é o vapor de água, que carrega ordens de grandeza mais energia por volume que o ar seco e alcança a árvore brônquica. A consequência prática é útil: diante de fogo e fumaça, o que se teme acima da glote é obstrução; o que se teme abaixo dela é química, não calor.

O edema dessa mucosa não é imediato e é aí que mora o engano. A lesão térmica dispara uma resposta inflamatória local que leva de minutos a horas para se instalar, e o estreitamento resultante não produz sintoma proporcional. Estreitar um conduto cobra caro: a resistência sobe com a quarta potência da redução do raio, e num regime turbulento como o da laringe o preço é ainda mais alto. Traduzido para a beira do leito, isso significa que a via aérea passa quase toda a sua trajetória de estreitamento sem avisar e depois avisa tudo de uma vez. O capítulo Via aérea no trauma, da apostila de Trauma, desenvolve essa curva e é dele a regra de decidir pela trajetória e não pelo estridor.

O que este capítulo acrescenta a essa curva é o motivo pelo qual ela é mais íngreme no queimado do que em qualquer outro paciente, e é a trava do capítulo. O grande queimado tem extravasamento capilar generalizado nas primeiras horas, e o tratamento correto dele — a reposição volêmica calculada, que é assunto do capítulo A conta que a urina corrige, desta mesma apostila — entrega vários litros de cristaloide num paciente cujo endotélio está permeável. Esse volume não fica no vaso: vai para o interstício, e o interstício da língua, da supraglote e da prega ariepiglótica responde como o das pálpebras e o do escroto. Isto é, o edema de via aérea do queimado tem duas origens somadas, a lesão local e o volume sistêmico, e a segunda é obrigatória e crescente. Quem decide não intubar às três da manhã está decidindo sobre uma laringe que às seis terá recebido mais quatro litros. A quantidade infundida e a progressão do edema variam; esse exemplo não prevê quatro litros obrigatórios nem torna toda exposição indicação de intubação. O exame seriado e o risco de perder acesso à via aérea fundamentam a decisão.

A segunda agressão é química e demora. A fumaça carrega partículas de fuligem com aldeídos, ácidos orgânicos e outros produtos de combustão incompleta adsorvidos na superfície; elas se depositam ao longo da árvore brônquica e liberam ali seu conteúdo. O resultado é descamação do epitélio ciliado, perda do transporte mucociliar, broncoespasmo, exsudato rico em fibrina e formação de rolhas que obstruem brônquios inteiros. Nada disso está pronto na porta. A traqueobronquite química se manifesta ao longo de horas, o quadro de obstrução por rolha aparece tipicamente entre o primeiro e o terceiro dia, e o edema alveolar com hipoxemia refratária é o estágio final. É a razão pela qual um paciente que chegou falando pode precisar de ventilador no dia seguinte sem que nada tenha sido feito de errado.

A terceira não é lesão de via aérea: é envenenamento. O monóxido de carbono é produto da combustão incompleta de qualquer coisa que tenha carbono, é inodoro e incolor, e liga-se à hemoglobina com afinidade muito superior à do oxigênio — a régua nacional do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência diz cerca de duzentas vezes, o manual brasileiro de toxicologia clínica diz trezentas. Faz três coisas ao mesmo tempo: ocupa o sítio que o oxigênio ocuparia, desloca a curva de dissociação para a esquerda, de modo que o pouco oxigênio que ainda viaja é entregue com mais dificuldade ao tecido, e liga-se à citocromo-oxidase e à mioglobina, esta última com afinidade cerca de sessenta vezes maior que a do oxigênio, o que explica a isquemia miocárdica e a arritmia num coração sem doença coronariana.

A oximetria convencional não distingue adequadamente carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina e pode fornecer leitura falsamente tranquilizadora. Isso não significa que a SpO₂ aumente sempre que cresce a intoxicação. A PaO₂ reflete oxigênio dissolvido e pode ser normal no envenenamento por CO; lesões respiratórias associadas podem alterá-la. Avaliar exposição e manifestações, solicitar co-oximetria e iniciar oxigênio e suporte sem aguardar confirmação. O deslocamento da curva de dissociação para a esquerda prejudica a liberação de oxigênio, mas não é o mecanismo que engana o aparelho.

O cianeto fecha a lista e é o mais rápido dos três. Ele é liberado na queima de materiais que contêm carbono e nitrogênio — lã, seda, borracha sintética, poliuretano e polímeros em geral, ou seja, o estofado, o colchão e o isolamento de uma casa comum. Não ocupa a hemoglobina: bloqueia a citocromo-oxidase dentro da mitocôndria, de modo que a célula deixa de usar um oxigênio que está chegando normalmente. Por isso é chamado de asfixiante químico e por isso o sangue venoso pode voltar vermelho: o oxigênio não foi consumido. O metabolismo desvia para a via anaeróbia e a assinatura é a acidose metabólica com lactato alto num paciente que não está em choque hemorrágico. A inalação produz sintoma em segundos e pode matar por parada respiratória em minutos — o relógio dele é mais curto que o de todos os outros problemas deste capítulo somados.

05

Como se apresenta de verdade

Nenhum dos quadros abaixo se anuncia por um número. Todos se anunciam por circunstância e por inspeção, e é por isso que o interno que entra na sala com os olhos abertos vale mais, na primeira meia hora, do que o aparelho que está ligado no dedo do paciente.

O que levanta a suspeita, e o que dela antecipa e o que já é tarde

A suspeita nasce do ambiente, não do paciente. Fogo em espaço fechado, explosão, tempo de confinamento, vítima encontrada inconsciente no local e incêndio com muita fumaça são o gatilho, e valem mesmo com o paciente falando frases inteiras. O protocolo nacional de inalação de fumaça define seus critérios de inclusão exatamente assim: exposição a fumaça em espaço fechado, exposição a fumaça de incêndio, ou qualquer pessoa com sinais de queimadura na face, tosse ou fuligem em secreção oral ou nasal. Repare que os dois primeiros não exigem achado nenhum no corpo da vítima.

Depois do ambiente vêm os achados de inspeção, e eles se dividem em dois grupos que o interno precisa saber separar. O primeiro grupo antecipa: são os sinais que dizem que a via aérea foi agredida e vai piorar, enquanto ela ainda está aberta. Vibrissas nasais e sobrancelhas chamuscadas, fuligem ao redor das narinas e na boca, escarro carbonáceo, queimadura de face e de pescoço, rouquidão nova, dificuldade de engolir a própria saliva, sialorreia. Nenhum deles dói, nenhum deles aparece em exame, e todos eles estão disponíveis em qualquer sala com uma lanterna e uma cuba.

O segundo grupo é tardio, e o preço de esperar por ele é a diferença entre uma intubação eletiva e uma cricotireoidostomia. Estridor audível significa obstrução já avançada, não obstrução inicial — a laringe precisa estar bastante estreita para produzir ruído. Afonia é pior que rouquidão. Tiragem, uso de musculatura acessória, respiração paradoxal e rebaixamento do nível de consciência por hipercapnia são o fim da linha. Dessaturação no oxímetro, no queimado de incêndio, não é sinal tardio: é sinal que pode nunca aparecer, pelo motivo óptico descrito no bloco anterior.

Há um sinal intermediário que vale ser dito em separado porque é o mais útil e o mais desperdiçado: a mudança da voz ao longo do tempo. Não a voz rouca, que é achado isolado, mas a voz que era assim às 3h20 e está diferente às 3h50. Isso só existe se alguém tiver escrito a primeira. O capítulo Via aérea no trauma, da apostila de Trauma, é o dono dessa regra e a desenvolve; aqui basta a consequência: registre a voz por escrito e com hora na primeira avaliação de todo paciente que veio de incêndio, mesmo o que vai para casa.

O paciente que conversa e vai fechar

É a apresentação mais perigosa e a mais comum. Homem adulto, retirado de incêndio, andando, orientado, saturando bem, queixando-se de dor em outro lugar. Ele não tem nenhum critério de insuficiência respiratória e tem todos os critérios de trajetória. A decisão sobre a via aérea dele — se intuba, quando, com que equipe, com que material, com que drogas, e o que fazer se falhar — é do capítulo Via aérea no trauma, da apostila de Trauma, que é o dono da técnica, da sequência rápida e do plano de falha, e que trata a queimadura de via aérea entre os seus casos centrais. O assunto é dele, e aqui não se repete.

O que este capítulo assume, e que aquele não trata, é o que muda nessa decisão por causa da queimadura em si, e são três coisas. A primeira é o volume: o paciente que vai receber reposição calculada por fórmula tem, no relógio, uma laringe que piora por dois motivos somados, e a janela é mais curta do que a de um trauma de face com o mesmo aspecto. A segunda é a distância: uma transferência de duzentos quilômetros feita sem via aérea definitiva é uma hora e meia de ambulância em que ninguém vai poder intubar o paciente deitado, com edema crescente, num veículo em movimento. A terceira é o calibre, e ela é tratada na conduta.

Some as três e chega-se à regra que este capítulo assume e declara: no queimado de ambiente fechado com sinais de agressão de via aérea, a pergunta não é se ele está bem agora, e sim se ele estará igual daqui a duas horas e onde ele estará quando não estiver. Se a resposta a qualquer das duas for incerta, a via aérea se resolve antes do transporte, no serviço que tem sala, luz e ajuda — mesmo que esse serviço seja pequeno e mesmo que quem intuba seja o plantonista clínico chamado de casa.

O rebaixado depois do incêndio: três causas, não uma

Confusão, agitação, sonolência ou coma numa vítima de incêndio têm quatro explicações que competem, e a ordem em que você as considera muda o tratamento nos primeiros dez minutos. Monóxido de carbono, cianeto, hipóxia por obstrução ou por lesão pulmonar, e trauma cranioencefálico ou intoxicação prévia — porque muitas vítimas de incêndio domiciliar estavam dormindo, alcoolizadas ou já rebaixadas antes do fogo, e é por isso que não acordaram.

O monóxido é o mais provável e o mais silencioso. A manifestação mais comum da intoxicação leve a moderada é cefaleia, seguida de tontura, náusea, vômito, fraqueza, confusão e letargia — uma lista que se sobrepõe inteira à de uma virose, e por isso o diagnóstico depende da história de exposição e não do exame. A coloração de pele e mucosa descrita como cor de framboesa ou rosa carminado consta dos critérios de inclusão do protocolo nacional, e é um achado tardio e pouco confiável: não conte com ele. O reconhecimento, o alvo de oxigênio, a câmara hiperbárica e o seguimento neurocognitivo são do capítulo O antídoto é a menor parte, da apostila de Toxicologia, que é o dono da intoxicação por monóxido de carbono; este capítulo fica com o reconhecimento dentro do incêndio e com o que ele faz junto da queimadura.

O cianeto é o menos lembrado e o que tem o relógio mais curto, e não tem dono em nenhum outro capítulo deste nível — o capítulo de Toxicologia o cita como coexposição e como contraindicação ao carvão ativado, mas não ensina a reconhecê-lo nem a tratá-lo. Este capítulo assume o assunto e o declara. O que aponta para ele: incêndio em estrutura com material sintético, rebaixamento desproporcional ao que a via aérea explica, hipotensão, bradicardia, convulsão, parada, e — o dado laboratorial que mais ajuda — acidose metabólica com lactato elevado sem hemorragia que a justifique. O protocolo nacional dedicado transforma isso em critérios objetivos, que estão na tabela do bloco de critério.

A quarta explicação não se esquece: hipóxia. Um paciente que obstruiu a via aérea ou que tem lesão pulmonar grave rebaixa por falta de oxigênio, e nesse caso a resposta não é antídoto nenhum, é via aérea e ventilação. Na prática as quatro se tratam em paralelo nos primeiros minutos, porque as três primeiras respondem à mesma primeira medida — oxigênio na maior concentração disponível — e porque só a via aérea tem relógio de minutos.

O tórax que não expande: a queimadura circunferencial

Esta é a apresentação em que o ventilador não resolve e o antídoto não resolve, e é a que este capítulo assume por não ter dono no nível. A queimadura de terceiro grau produz uma escara coriácea, seca e sem elasticidade. Quando ela circunda um segmento — tórax, pescoço, um membro, um dedo —, ela vira um anel rígido em volta de um conteúdo que está inchando. No membro, o anel produz isquemia distal e é síndrome compartimental por fora. No tórax, o anel produz uma coisa diferente e mais rápida: restrição mecânica da caixa.

O quadro é característico e engana quem procura causa pulmonar. O paciente aumenta a frequência respiratória, o volume corrente cai, o gás carbônico sobe, e no paciente já intubado a pressão de pico do ventilador sobe progressivamente sem que a ausculta mostre assimetria e sem que a radiografia mostre pneumotórax. É o tórax que endureceu por fora. Aspirar não muda, aumentar a fração inspirada de oxigênio não muda, e trocar o modo do ventilador não muda, porque o problema não é do pulmão nem do tubo: é da parede.

O agravante é o mesmo de sempre neste capítulo — o tempo. O anel não estava apertado na chegada; ele aperta à medida que o edema da reposição volêmica preenche o que está por baixo dele. Ou seja, a queimadura circunferencial de tórax que você examinou e considerou tranquila às 3h30 é a mesma que às 6h impede a ventilação. A conduta está no bloco de conduta; o que a apresentação exige é que a palavra circunferencial entre no seu exame inicial e volte nele de hora em hora.

Esquema transversal do tórax com revestimento externo pouco distensível e setas indicando restrição à expansão, acompanhado de pontos de reavaliação ventilatória.
A escara torácica pode restringir a expansão da parede. O esquema explica o mecanismo, sem representar fotografia de lesão ou medir movimento respiratório. A ventilação deve ser reavaliada dinamicamente, considerando edema, esforço, volumes e pressões, além de lesão inalatória e outras causas de insuficiência respiratória.

O que aparece depois: da sexta hora ao terceiro dia

A lesão química das vias inferiores tem curso próprio e não respeita a impressão da porta. Nas primeiras horas, o achado é broncoespasmo: sibilos difusos, tempo expiratório prolongado, tosse. Ele responde a broncodilatador inalatório, e o salbutamol em solução para inalação de 5 mg/mL consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 no componente Básico — é uma das poucas drogas deste capítulo que a farmácia da rede tem.

Entre o primeiro e o terceiro dia, o problema muda de nome. O epitélio descamado, a fibrina e o muco espesso formam rolhas que obstruem brônquios segmentares ou lobares. O quadro é de dessaturação súbita num paciente estável, com pressão de pico subindo no ventilador e atelectasia lobar na radiografia — e a resposta é aspiração vigorosa, umidificação e, quando existe o recurso, broncoscopia terapêutica, que é também o exame que gradua a lesão. Em paciente não intubado, a dessaturação aguda no leito de enfermaria tem roteiro próprio no capítulo Dessaturação aguda na enfermaria, da apostila de Síndromes do Paciente Internado.

Do segundo ao quinto dia entram a hipoxemia refratária com infiltrado difuso e a pneumonia associada à ventilação, para a qual a lesão inalatória é fator de risco reconhecido. Nada disso é decisão de interno, e boa parte disso acontece já no centro de referência. O que o interno precisa levar deste parágrafo é uma frase para dizer à família e uma para escrever no relatório de transferência: a pior fase pulmonar deste paciente não é hoje.

Quem inalou fumaça e não tem lesão inalatória

A maior parte das pessoas retiradas de um incêndio não tem lesão de via aérea, e intubar todo mundo que cheira a fumaça é um erro com preço próprio: dias de ventilação, sedação, pneumonia e um leito de terapia intensiva ocupado num país que tem poucos. O paciente de baixo risco existe e tem características reconhecíveis: exposição breve, ambiente ventilado ou aberto, ausência de queimadura de face e de pescoço, vibrissas íntegras, ausência de fuligem em boca e narinas, voz absolutamente normal, sem tosse produtiva escura, sem qualquer alteração de nível de consciência em momento algum, e sem sintoma sistêmico.

Esse paciente não vai para casa direto, e o motivo é o monóxido, não a via aérea. O manual brasileiro de toxicologia clínica é explícito: paciente assintomático e não gestante pode ser observado em casa desde que a fonte de exposição tenha sido eliminada e ele esteja em ambiente livre do gás; paciente com sintoma leve a moderado permanece em unidade de saúde até o desaparecimento dos sintomas. Cefaleia e náusea depois de um incêndio, portanto, não são sintomas de susto: são o quadro típico da intoxicação leve e mandam o paciente ficar.

E há uma orientação de alta que quase nunca é dada e que muda o seguimento. Efeitos neurocognitivos tardios do monóxido — dificuldade de concentração, esquecimento, mudança de comportamento, e quadros mais graves — podem aparecer entre dois e quarenta dias depois da exposição. O paciente e a família precisam ouvir isso na alta, com essas palavras, porque quem não ouviu atribui o sintoma ao trauma do incêndio e não volta.

06

Como fechar o diagnóstico

Neste capítulo, o exame que mais decide não custa nada e o aparelho mais usado é o que mais engana. Vale ordenar a investigação por essa assimetria: primeiro o que se olha, depois o que se pede, e, diante de cada exame, a dupla pergunta do que ele resolve e do que ele deixa em aberto.

O exame que decide a via aérea não é exame

Nenhum exame complementar decide a via aérea do queimado de ambiente fechado, e esperar por um é a forma mais frequente de perder a janela. A cartilha federal de 2012 lista, entre os gatilhos de intubação orotraqueal, a pressão parcial de oxigênio abaixo de 60 e a pressão parcial de gás carbônico acima de 55 na gasometria — e lista, ao lado deles e no mesmo nível, o edema importante de face e orofaringe e a Escala de Coma de Glasgow abaixo de 8. Os dois primeiros descrevem falência já instalada; os dois últimos são de inspeção e chegam antes.

A lista de exposição/suspeita não deve ser confundida com lista de intubação obrigatória. Qualquer sinal relevante justifica avaliação e vigilância; edema progressivo, alteração de voz em evolução, esforço, falência respiratória ou perda de proteção de via aérea exigem decisão clínica imediata por equipe habilitada, sem esperar exames para confirmar obstrução evidente.

Vale registrar, para quem for ler a cartilha no original, um descuido de redação: os dois gatilhos gasométricos aparecem sem unidade — apenas 60 e 55, sem mmHg. Não há ambiguidade real, porque nenhuma outra unidade produziria esses números nessa medida, mas é o tipo de omissão que não deveria existir num documento de bolso.

A oximetria de pulso: o aparelho que três documentos tratam de três jeitos

O oxímetro de pulso é inútil e perigoso no queimado de incêndio nas primeiras horas, e a literatura oficial brasileira sabe disso em um lugar e esquece em dois. O cartão nacional de intoxicação por monóxido de carbono explica o mecanismo com precisão: o gás tem afinidade muitas vezes maior pela hemoglobina que o oxigênio, ocorre hipóxia celular com oximetria periférica inalterada, e o aparelho não diferencia a oxi-hemoglobina da carboxi-hemoglobina. Ele conclui com a frase certa, que é a de ofertar oxigênio na máxima concentração disponível independentemente da leitura da oximetria.

O cartão de queimadura térmica do mesmo compêndio, elaborado um ano e meio antes, manda monitorizar a oximetria de pulso como quarto item da conduta e não traz uma linha sobre monóxido de carbono. E é por esse cartão que a vítima de incêndio com queimadura é atendida — o próprio cartão de inalação de fumaça remete a ele quando há queimadura associada. Quem trabalha por protocolo, portanto, pode legitimamente atender o queimado de incêndio inteiro sem nunca cruzar o aviso.

A cartilha federal de 2012 é o caso mais direto: ela usa a dessaturação abaixo de 90 na oximetria como um dos gatilhos de intubação e, na mesma página, manda suspeitar de intoxicação por monóxido de carbono e manter oxigenação por três horas. O aparelho que ela elege como gatilho é o aparelho que mente exatamente no paciente cuja intoxicação ela manda suspeitar. A conta e o detalhe estão nas notas do bloco de critério.

A tradução disso para o leito cabe numa frase, e a frase é difícil de cumprir: no paciente vindo de incêndio, um número alto no oxímetro não é dado tranquilizador, é ausência de dado. Ele só volta a valer depois que a carboxi-hemoglobina caiu — isto é, depois de horas de oxigênio. Um número baixo, esse sim, continua valendo, e é grave.

Cooximetria, gasometria e lactato: o que cada um responde

A cooximetria é o exame que responde a pergunta do monóxido, e é medida em amostra de sangue, não no dedo. As duas referências que ela exige para ser interpretada precisam ser lidas juntas: não fumantes ficam em geral abaixo de 2%, e fumantes crônicos, entre 6% e 10%. Um valor isolado, sem saber se o paciente fuma, não se interpreta. A maioria dos hospitais brasileiros de pequeno porte não faz cooximetria, e a consequência prática é que o tratamento se inicia e se mantém pela história, não pelo número.

A gasometria arterial é útil por outro motivo. Ela não confirma monóxido, pela razão explicada no bloco de mecanismo, mas mostra a consequência: acidose metabólica. E mostra a retenção de gás carbônico, que no queimado com tórax circunferencial é o sinal de que a parede está vencendo. A leitura passo a passo do distúrbio acidobásico é do capítulo Gasometria arterial, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, que é o dono dela; este capítulo usa dois resultados dele e não repete o método.

O lactato merece parágrafo próprio porque é a pista mais barata de cianeto disponível no Brasil — os níveis de cianeto, informa o manual brasileiro de toxicologia clínica, não estão disponíveis no país. Numa vítima de incêndio com rebaixamento e acidose metabólica com lactato elevado, sem hemorragia e sem choque que expliquem, o cianeto entra na lista com peso. O mesmo manual manda monitorar carboxi-hemoglobina em vítimas de incêndio como parte da avaliação laboratorial geral do intoxicado por cianeto — os dois venenos andam juntos e se investigam juntos.

Uma armadilha diagnóstica que o manual brasileiro nomeia e que vale decorar: gás cianeto deve ser considerado quando o paciente está em coma após incêndio em residência e quando há falência do tratamento com oxigênio em alto fluxo. Isto é, o paciente que não melhora com oxigênio é justamente o que aponta para o veneno que não é resolvido por oxigênio.

Radiografia, broncoscopia e o exame que não muda a conduta de hoje

A radiografia de tórax na admissão do paciente com lesão inalatória é quase sempre normal, e isso não tranquiliza ninguém: a lesão química ainda não produziu edema alveolar suficiente para aparecer. O valor dela é outro e é real — ela é a radiografia de base contra a qual as próximas, do segundo e do terceiro dia, vão significar alguma coisa, e ela exclui pneumotórax e outras causas mecânicas no paciente que não expande. Peça, registre que estava normal, e não use o resultado normal como argumento contra intubar.

A broncoscopia é o exame que confirma e gradua a lesão inalatória, permitindo ver fuligem, eritema, edema, ulceração e necrose da mucosa traqueobrônquica, e serve também como terapêutica para remover rolhas. Ela não é exame de pronto-socorro de hospital pequeno e não decide nada na primeira hora. O que ela decide neste capítulo é retroativo e vale conhecer: se o paciente vai ser intubado e depois broncoscopado, o calibre do tubo importa, e é por isso que ele entra no bloco de conduta.

E há o exame que não se pede. Rastreio toxicológico urinário amplo não detecta monóxido de carbono, não detecta cianeto e não muda nada aqui — o papel dele, quando existe, é documental. Do mesmo modo, não existe exame de sangue que decida se esta laringe vai fechar nas próximas duas horas. Esse é o ponto em que a medicina deste capítulo é feita de olhar, escrever a hora e voltar.

O que se mede de hora em hora e por que a lista é curta

A investigação do queimado com suspeita de lesão inalatória é menos uma lista de exames do que uma rotina de repetição. Três coisas se remedem obrigatoriamente e com hora anotada: a via aérea, pela voz e pelo esforço; o tórax, pela expansão e, no ventilado, pela pressão de pico; e o nível de consciência. Nenhuma das três exige aparelho, todas as três mudam a conduta, e é isso que as separa de tudo o mais que se poderia medir.

A diurese horária e os alvos de reposição são do capítulo A conta que a urina corrige, desta mesma apostila, e não se repetem aqui — mas eles entram nesta lista por um motivo que é deste capítulo: a mesma reposição que a diurese governa é a que está piorando a laringe e apertando o anel torácico. Quem acompanha a urina do queimado está, sem perceber, acompanhando o relógio da via aérea dele.

O que não entra na rotina, apesar de parecer que deveria, é a repetição da oximetria como medida de melhora nas primeiras horas do paciente de incêndio. Repetir um número que não significa o que parece significar não é vigilância: é a produção de uma falsa impressão de estabilidade, com registro em prontuário, que depois será usada para justificar não ter agido.

07

Os três problemas, o anel do tórax e as contas que não fecham

Fumaça pode produzir problemas simultâneos. Oximetria convencional não exclui intoxicação por CO, mas segue útil como parte da monitorização; o conjunto clínico decide a urgência.

  1. 1Inicie oxigênio em alta concentração na suspeita de intoxicação por fumaça e avalie ABCDE. Acione supervisor, equipe de via aérea e centro de queimados em paralelo, sem esperar completar exames.
  2. 2Registre exposição, voz, edema, esforço respiratório e consciência. Pelos chamuscados isolados indicam avaliação, não intubação obrigatória. Progressão, obstrução, falência respiratória ou incapacidade de proteger a via aérea favorecem intubação precoce.
  3. 3Quando indicada, via aérea é manejada por equipe habilitada, com plano de dificuldade/resgate, confirmação por capnografia e fixação adequada. Reavalie tubo durante edema e transporte.
  4. 4Colha COHb por cooximetria quando disponível; registre oxigênio e tempo desde exposição. Valor baixo após tratamento não exclui intoxicação inicial importante. Avalie lactato, gasometria, ECG e outros exames conforme gravidade.
  5. 5Suspeita de cianeto depende de exposição compatível, alteração neurológica/hemodinâmica e acidose/lactato, não de qualquer elevação isolada. Discuta antídoto rapidamente com toxicologia e equipe responsável, sem esperar confirmação laboratorial em quadro grave.
  6. 6No ventilado com piora, verifique tubo, secreções, broncoespasmo, pneumotórax e complacência. Escara torácica restritiva pode exigir escarotomia; diagnóstico não se faz apenas pela pressão de pico.
  7. 7Titule fluidos pela perfusão e balanço, vigiando edema. Reavalie pulmão, via aérea, tórax e extremidades; exames iniciais normais não encerram observação.
  8. 8Antes de alta por intoxicação leve, confirmar melhora, avaliação apropriada e ambiente seguro. Oriente sintomas neurológicos tardios e retorno; gestação ou lesão cardíaca/neurológica exige discussão especializada.

As réguas brasileiras da fumaça: o que cada uma fixa e o que cada uma não diz

Documento e dataO que ele fixa neste capítuloO que ele não diz
Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, Ministério da Saúde, 2012Lista de suspeita de lesão inalatória; cinco gatilhos de intubação; oxigênio a 100% e três horas de oxigenação na suspeita de monóxido; cabeceira a 30 graus; escarotomia de tórax com a linha de incisão; lesão inalatória como critério de gravidade e de transferênciaNão menciona cianeto em nenhuma linha; não fixa calibre de tubo; não trata da lesão química das vias inferiores; não dá alvo de carboxi-hemoglobina
Protocolo AT25, Queimadura térmica (calor), Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, elaboração agosto de 2014 e revisão abril de 2015Manda monitorizar oximetria de pulso, manter permeabilidade da via aérea com atenção ao aspecto da face, e administrar oxigênio em alto fluxo; lista queimadura de vias aéreas e inalação de fumaça entre as lesões associadas a procurarNão menciona monóxido de carbono nem cianeto; não avisa que a oximetria engana, embora seja o cartão pelo qual o queimado de incêndio é atendido
Protocolo ATox 5, Inalação de fumaça, elaboração janeiro de 2016Critérios de inclusão pelo ambiente; via aérea definitiva precoce diante de sinais evidentes de queimadura de vias aéreas; aviso explícito de que a oximetria pode indicar valores maiores que o real; encaminhamento cruzado para os protocolos do monóxido e do cianetoTitula o oxigênio por uma saturação alvo, que é o número que ele mesmo acabou de declarar pouco confiável
Protocolo ATox 6, Intoxicação por monóxido de carbono, elaboração janeiro de 2016Oxigênio na máxima concentração disponível, de preferência máscara não reinalante a 15 L/min, independentemente da leitura da oximetria; intubação com oxigênio a 100% diante de sinais de queimadura de vias aéreas, instabilidade, alteração neurológica ou insuficiência respiratóriaNão fixa duração de oxigenoterapia nem alvo de carboxi-hemoglobina; traz uma remissão quebrada ao protocolo do cianeto
Protocolo ATox 7, Intoxicação aguda por cianeto, elaboração janeiro de 2016, que declara seguir a Portaria nº 1.115 da Secretaria de Atenção à Saúde, de 19 de outubro de 2015Critérios objetivos de inclusão por material queimado somado a rebaixamento, instabilidade ou parada; reconstituição e doses de hidroxocobalamina; regra de múltiplas vítimas; prazo de armazenamento do reconstituídoAltera três números da portaria que declara seguir: estreita a inclusão em um ponto de Glasgow, transforma o piso de ausência de toxicidade em teto e perde o sinal de desigualdade da pressão sistólica; e omite o teto de 10 g e a regra do lactato, que a portaria traz
Manual de Toxicologia Clínica, Covisa e Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, 2017Mecanismo dos dois venenos; alvo de oxigenoterapia no monóxido por sintoma e por carboxi-hemoglobina; indicações de câmara hiperbárica; critérios de liberação, observação e internação; efeitos neurocognitivos tardios; ausência de dosagem de cianeto no BrasilTraz dois conjuntos incompatíveis de meia-vida do monóxido em páginas vizinhas do mesmo capítulo
Portaria nº 1.115 da Secretaria de Atenção à Saúde, de 19 de outubro de 2015, e seu AnexoÉ a norma federal do antídoto e a fonte do cartão ATox 7: critérios de inclusão, classes de gravidade, reconstituição, doses pré-hospitalar e hospitalar, regra de múltiplas vítimas, teto de 10 g, regra do lactato elevado e obrigatoriedade do oxigênio a 100%Deixa a Escala de Coma de Glasgow 9 sem classe de gravidade; escreve a bradicardia sem sinal de desigualdade; e grafa o nome do antídoto sem o erre na ementa, no artigo 1º e no título do Anexo

Os três problemas da fumaça, lado a lado

ProblemaQuando apertaO que revelaO que enganaO que se faz agora
Lesão térmica da via aérea superiorDe minutos a poucas horas, e piora enquanto a reposição correRouquidão nova, disfagia para a própria saliva, sialorreia, edema de língua e de face, fuligem em boca e narinas, vibrissas chamuscadasSaturação normal e ausência de estridor; o estridor já é obstrução avançadaDecidir a via aérea pela trajetória, antes do estridor; técnica e sequência no capítulo Via aérea no trauma, da apostila de Trauma
Lesão química das vias inferiores e do parênquimaDa sexta hora ao terceiro dia, e a pior fase é depois da transferênciaSibilos e tosse nas primeiras horas; rolha com atelectasia e dessaturação súbita entre o primeiro e o terceiro dia; hipoxemia refratária depoisRadiografia de tórax normal na admissão, que é a regra e não exclui nadaBroncodilatador inalatório, umidificação e aspiração; broncoscopia quando houver; avisar a família e escrever no relatório que a pior fase pulmonar não é hoje
Intoxicação por monóxido de carbonoJá está instalada na chegada e melhora com oxigênio ao longo de horasCefaleia, náusea, tontura, confusão e letargia; acidose metabólica; cooximetria quando o serviço fazO oxímetro de pulso, que soma a carboxi-hemoglobina ao numerador e devolve número altoOxigênio na máxima concentração disponível desde a suspeita, sem titular pelo oxímetro; tratamento e câmara hiperbárica no capítulo O antídoto é a menor parte, da apostila de Toxicologia
Intoxicação por cianetoSegundos a minutos; é o relógio mais curto de todo o capítuloMaterial sintético queimando somado a rebaixamento, hipotensão, bradicardia, convulsão ou parada; lactato alto sem hemorragia que expliqueA ausência de dosagem de cianeto no Brasil, que faz o diagnóstico parecer impossível quando ele é clínicoHidroxocobalamina pelos critérios do protocolo nacional, se existir no serviço; se não existir, oxigênio a 100%, suporte e a ligação que localiza a caixa

Escala de Coma de Glasgow no cianeto: a norma federal e o cartão que a transcreve

Escala de Coma de GlasgowPortaria nº 1.115/2015 (a norma)Protocolo ATox 7 (o cartão de 2016)Consequência prática
3 a 8Incluído; intoxicação graveIncluído; intoxicação grave5 g por via intravenosa em 15 minutos, com segunda dose se persistir
9Incluído, e sem classe de gravidade: grave exige menos de 9 e intermediária começa em 10Incluído, e sem classe, pelo mesmo motivoDefeito de origem, presente na norma e herdado pelo cartão: o rebaixado profundo típico da vítima de incêndio fica com dose indefinida
10 a 12Incluído; intoxicação intermediáriaIncluído; intoxicação intermediária5 g por via intravenosa em 15 minutos
13Incluído: a inclusão é Glasgow abaixo de 14Excluído: a inclusão foi reescrita como Glasgow abaixo de 13, embora a tabela de doses mantenha a classe intermediária de 10 a 13Divergência entre a norma e o cartão em um ponto inteiro de escala, e contradição interna do cartão: o paciente tem dose atribuída e não tem inclusão
14Ausência de toxicidade significativa, definida como pelo menos 14 pontosSem classe: o cartão exige acima de 14 para ausência de toxicidade e abaixo de 13 para inclusãoÓrfão criado na transcrição: na norma, 13 e 14 são complementares e cobrem toda a escala
15Ausência de toxicidade significativaAusência de toxicidade pelo cianetoNenhuma dose

Hidroxocobalamina em Temístocles, 78 quilos: da caixa à bomba

PassoO que diz o documentoA contaO que se pendura
ApresentaçãoFrasco de 5 g, pó para solução injetável, componente Estratégico da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 20245 g equivalem a 5.000 mgUm frasco por dose de adulto
ReconstituiçãoReconstituir o frasco de 5 g com 200 mL de cloreto de sódio a 0,9%, com rotação delicada; alternativas são Ringer com lactato e glicose a 5%5.000 mg divididos por 200 mL resultam em 25 mg/mL, exatamente o que o documento declara200 mL de solução a 25 mg/mL
Primeira dose no adulto5 g por via intravenosa em 15 minutos5.000 mg divididos por 25 mg/mL resultam em 200 mL; 200 mL em 15 minutos equivalem a 800 mL/hBolsa inteira, bomba a 800 mL/h ou equipo aberto e cronometrado
Segunda doseOutros 5 g se o paciente permanece grave, em 15 minutos a 2 horas; o manual federal de 2022 e o manual brasileiro de toxicologia fixam o teto total em 10 gMais 200 mL, totalizando 400 mL e 10 gSegundo frasco reconstituído do mesmo jeito
Criança70 mg/kg por via intravenosa em 15 minutosNuma criança de 20 kg, 1.400 mg, ou 56 mL; a regra alcança os 5.000 mg do adulto em 71,4 kg e passa dele acima dissoVolume calculado a 25 mg/mL, com atenção ao teto do adulto, que o protocolo nacional não escreve
Múltiplas vítimas com intoxicação intermediária2,5 g por via intravenosa, completando até 5 g na chegada ao hospitalMetade da bolsa, 100 mL, por vítimaUm frasco atende duas vítimas intermediárias na cena
Depois de reconstituídoArmazenar por no máximo 6 horas em temperatura ambienteSeis horas contadas da reconstituição, não da abertura da caixaAnotar no rótulo a hora em que foi reconstituído

Aprofundamento documental — leitura complementar. A auditoria do protocolo do cianeto foi refeita depois de obter a norma no original, e o achado mudou de endereço. O cartão ATox 7 do SAMU 192 declara seguir os critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde conforme a Portaria nº 1.115/2015 — e altera três dos números dela. Na norma, os critérios de inclusão são alteração do nível de consciência com Escala de Coma de Glasgow abaixo de 14, ou alteração de sinais vitais; no cartão, a inclusão virou Glasgow abaixo de 13. Na norma, a ausência de toxicidade significativa é definida como Glasgow de pelo menos 14 pontos; no cartão, virou Glasgow acima de 14. As duas alterações produzem efeitos diferentes. A primeira estreita em um ponto inteiro de escala o grupo que recebe um antídoto de 5 gramas, e cria contradição interna no próprio cartão, porque a tabela de doses dele mantém a classe intermediária de 10 a 13: o paciente com Glasgow 13 tem dose atribuída e não tem inclusão. A segunda cria um órfão em 14, que na norma não existe — ali, abaixo de 14 e pelo menos 14 são complementares e cobrem a escala inteira. Sobra um defeito que é de origem e não de transcrição: em ambos os documentos, o Glasgow 9 não pertence a classe nenhuma, porque a intoxicação grave exige menos de 9 e a intermediária começa em 10.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Os dois documentos perdem o sinal de desigualdade, e cada um perde num sinal vital diferente. A Portaria nº 1.115/2015 define instabilidade hemodinâmica grave como frequência cardíaca de 40 batimentos por minuto ou tensão sistólica abaixo de 90 mmHg — a bradicardia sai sem o menor que, de modo que, ao pé da letra, só entraria o paciente cuja frequência fosse exatamente 40. O cartão ATox 7 corrige a bradicardia, escrevendo abaixo de 40 batimentos por minuto, e perde o sinal na outra ponta: escreve pressão arterial sistólica de 90 mmHg nos critérios de inclusão. Que se trata de erro de digitação nos dois casos prova-se pelos próprios documentos: a norma escreve a sistólica com o sinal correto, e o cartão escreve o critério de sistólica com o sinal correto nas outras três ocorrências, no cartão de inalação de fumaça, no cartão do monóxido e na sua própria tabela de doses.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A linha pediátrica corre sem teto amarrado ao valor do adulto, e isso vem da norma, não do cartão. A Portaria nº 1.115/2015 escreve as doses como 5 g para o adulto e 70 mg/kg para crianças, nos usos pré-hospitalar e hospitalar, sem a ressalva de não exceder a dose do adulto — e o cartão ATox 7 reproduz. A conta mostra onde isso morde: a regra pediátrica atinge 5.000 mg em 71,4 kg. Um adolescente de 78 quilos dosado pela linha pediátrica receberia 5.460 mg, ou 218,4 mL, contra os 200 mL do adulto, e um de 90 quilos receberia 6.300 mg. Não é dose perigosa em si, porque o teto total admitido pela norma é de 10 g, mas é uma regra que atravessa o valor do adulto sem avisar, e nenhum dos dois documentos define onde termina a criança.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Duas regras da norma federal não chegaram ao cartão, e as duas mudam conduta no hospital. A primeira é o teto: a Portaria nº 1.115/2015 escreve que a segunda dose deve ser administrada sem exceder a dose máxima de 10 g, incluindo a eventual dose pré-hospitalar — o cartão ATox 7 descreve as duas doses de 5 g e não escreve o teto nem menciona a soma com o pré-hospitalar. A segunda é o gatilho laboratorial: a norma determina, no uso hospitalar, que os pacientes com nível elevado de lactato recebam 5 g independentemente de terem ou não recebido a dose pré-hospitalar, e que uma segunda dose seja administrada se o lactato permanecer elevado. O lactato é o exame mais disponível deste capítulo, e o único critério objetivo que a norma oferece a quem não tem dosagem de cianeto — que, informa o manual brasileiro de toxicologia clínica, não está disponível no país. Quem trabalha só pelo cartão não recebe essa regra.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A grafia do nome do antídoto está errada na própria norma que o institui, e o erro se propaga. A Portaria nº 1.115/2015 escreve hidoxocobalamina, sem o erre, na ementa, no artigo 1º e no título do Anexo, e escreve hidroxocobalamina corretamente no corpo do texto. A lista de referências do manual federal de 2022 reproduz a grafia errada ao citar o título da portaria — isto é, não é erro do manual, é fidelidade à fonte. A denominação comum brasileira, que é a que consta do elenco nacional, é hidroxocobalamina, e é por ela que se procura na farmácia e no sistema; procurar pela grafia da ementa devolve zero. Vale registrar, na mesma linha, que o artigo 1º da portaria saiu sem o seu objeto: ele escreve que fica aprovado, na forma do Anexo, 'da hidoxocobalamina na intoxicação aguda por cianeto', tendo-se perdido no caminho a expressão 'o Protocolo de uso' que a ementa traz.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Ainda no mesmo compêndio, uma remissão quebrada que chegou impressa: no cartão de intoxicação por monóxido de carbono, o item que manda verificar o protocolo do cianeto diante de Glasgow abaixo de 13 escreve, entre parênteses, Protocolo xxx — um marcador de revisão não substituído. Nas outras três ocorrências do mesmo encaminhamento, no mesmo par de páginas, está escrito Protocolo ATox 7. É defeito de publicação e não de conteúdo, mas quem lê o cartão sob pressão fica sem o número do cartão seguinte, que é o do antídoto.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Dois cartões nacionais elaborados no mesmo mês mandam titular o oxigênio de maneiras opostas no mesmo paciente. O cartão de inalação de fumaça avisa, no item 5, que a leitura da oximetria pode indicar valores maiores do que o real na intoxicação por monóxido, e manda, no item 6 imediatamente seguinte, administrar oxigênio em alto fluxo para manter saturação maior ou igual a 94% — isto é, titula por um número que acabou de declarar pouco confiável, o que permite reduzir a oferta justamente em quem precisa de 100%. O cartão do monóxido, elaborado no mesmo janeiro de 2016, escreve o contrário, e escreve certo: máxima concentração disponível, de preferência máscara não reinalante a 15 L/min, independentemente da leitura da oximetria. As duas frases governam o mesmo paciente e discordam.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Entre o cartão de queimadura e o cartão de inalação de fumaça, o problema não é divergência: é sequência de datas que ninguém retroalimentou. O cartão de queimadura térmica foi elaborado em agosto de 2014 e revisado em abril de 2015, e manda monitorizar a oximetria de pulso sem qualquer ressalva sobre monóxido, que ele não menciona nenhuma vez. Os três cartões de intoxicação, que trazem a ressalva, são de janeiro de 2016 — posteriores. E o cartão de inalação de fumaça remete de volta ao cartão de queimadura quando há queimadura associada, que é o caso da maioria das vítimas de incêndio residencial. O aviso existe e está a algumas páginas de distância do cartão pelo qual esse paciente é atendido.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A cartilha federal de 2012 usa a oximetria como gatilho de intubação e, na mesma página, manda suspeitar do que faz a oximetria mentir. Entre os cinco gatilhos que ela lista está a dessaturação abaixo de 90 na oximetria; três itens acima, na mesma alínea de respiração, está a instrução de administrar oxigênio a 100% e, na suspeita de intoxicação por monóxido de carbono, manter a oxigenação por três horas. As duas frases convivem sem que o documento note que a primeira não funciona no paciente descrito pela segunda. Um paciente com carboxi-hemoglobina de 30% pode ter oximetria de 98% — é o caso de Temístocles — e nunca cruzará esse gatilho.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A duração de três horas da cartilha e o alvo do manual brasileiro de toxicologia não são a mesma régua, e a conta mostra onde elas se separam. O manual estabelece como alvo o paciente assintomático com carboxi-hemoglobina abaixo de 5%. Usando a meia-vida que o próprio manual atribui ao oxigênio a 100%, no seu limite superior de 75 minutos, três horas equivalem a 2,4 meias-vidas, ou seja, uma queda por um fator de 5,28. Para chegar a 5% ao final das três horas, a carboxi-hemoglobina inicial não pode passar de 26,4%. Acima disso, a duração fixa não alcança o alvo: partindo de 30%, sobram 5,7%; partindo de 40%, sobram 7,6%. E 25% é exatamente o corte que o mesmo manual usa para indicar câmara hiperbárica — ou seja, as duas réguas se separam justamente na faixa em que começa a terceira recomendação.

Aprofundamento documental — leitura complementar. O manual brasileiro de toxicologia clínica traz, em páginas vizinhas do mesmo capítulo, dois conjuntos incompatíveis de meia-vida do monóxido de carbono. Na farmacocinética, a meia-vida é dada como 252 minutos; na seção de medidas de eliminação, ela é dada como 4 a 6 horas em ar ambiente, 6 a 75 minutos com oxigênio a 100% e 20 minutos com câmara hiperbárica. Os 252 minutos equivalem a 4,2 horas, o que bate com o piso da segunda faixa e não com o teto. O problema sério é o piso de 6 minutos: se ele valesse, uma máscara comum seria mais de três vezes mais rápida que a câmara hiperbárica de 20 minutos que a mesma página recomenda, o que inverte a razão de existir da câmara. Com meia-vida de 6 minutos, uma carboxi-hemoglobina de 30% cairia para 0,94% em meia hora e o tratamento acabaria antes de o paciente sair da ambulância. É quase certamente um dígito perdido de 60 a 75 minutos, que é a faixa coerente com o resto do texto.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Dois documentos brasileiros dão janelas opostas para a mesma contraindicação da succinilcolina no queimado. O protocolo nacional de sequência rápida de intubação lista, entre as situações de risco de hipercalemia a evitar, queimadura grave há mais de 24 horas — isto é, ela seria segura no primeiro dia. As Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica de 2013 escrevem o contrário: contraindicado em queimaduras até 72 horas — isto é, ela seria proibida justamente no primeiro dia. Não são graus diferentes de cautela: são janelas invertidas. A escolha do bloqueador neuromuscular é do capítulo Via aérea no trauma, da apostila de Trauma, que segue o protocolo nacional; o que este capítulo registra é que os dois documentos existem e discordam, e a divergência está desenvolvida no bloco próprio.

Aprofundamento documental — leitura complementar. A cartilha federal separa em seis páginas o achado e a manobra que o resolve, e a separação custa tempo no paciente que não tem. A avaliação das queimaduras circulares de tórax e de membros está no item 2, alínea c, dentro do atendimento de sala de emergência, logo depois de vias aéreas e respiração — o lugar certo. Mas a escarotomia, que é a manobra que devolve a expansão da caixa torácica, aparece só no item 8, sob o título de medidas gerais imediatas e tratamento da ferida, entre a sulfadiazina de prata e o curativo de quatro camadas. Quem lê o documento na ordem encontra a instrução de procurar o anel antes de encontrar a instrução do que fazer com ele, e encontra a segunda catalogada como cuidado de ferida, que é a categoria de coisas que podem esperar.

Aprofundamento documental — leitura complementar. O manual federal de 2022 sobre a disponibilização do antídoto contradiz-se sobre a temperatura, e a contradição incide sobre o lugar onde o protocolo manda guardá-lo. Ele escreve que, depois de reconstituído, o medicamento deve ser armazenado por no máximo seis horas em temperatura ambiente, definida ali como 15 °C a 30 °C, não podendo exceder 40 °C; e escreve, páginas adiante, que conforme orientações do fabricante o produto não deve ser acondicionado acima de 25 °C, desaconselhando o armazenamento no interior de veículos de urgência. São três tetos no mesmo documento — 25, 30 e 40 °C — e o mais restritivo deles desaconselha exatamente a ambulância que o protocolo de 2015, citado pelo mesmo manual, lista como primeiro destino de distribuição. Num verão brasileiro, o interior de uma unidade de suporte avançado passa de 30 °C sem esforço.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que fechou: a reconstituição da hidroxocobalamina. O documento manda reconstituir o frasco de 5 g com 200 mL de cloreto de sódio a 0,9% e declara que cada mililitro da solução reconstituída contém 25 mg. Recalculando: 5.000 mg divididos por 200 mL dão 25,0 mg/mL, exato, sem arredondamento. A dose de adulto de 5 g corresponde, portanto, à bolsa inteira de 200 mL, e infundi-la em 15 minutos equivale a 800 mL por hora. A conta está certa nas duas pontas e a instrução é executável como escrita.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que fechou: o antídoto está mesmo no elenco nacional. Busca exata sobre o texto normalizado da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 devolve cloridrato de hidroxocobalamina, 5 g, pó para solução injetável, componente Estratégico, código anatômico-terapêutico-químico V03AB33. Confere com a apresentação que a Portaria nº 1.115/2015 descreve e com a que o manual federal de 2022 diz distribuir.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que não fecha por ausência, e por isso mesmo precisa ser dita: nenhum dos documentos brasileiros consultados fixa calibre de tubo orotraqueal para o queimado, e nenhum deles trata da lesão química das vias inferiores, do broncoespasmo, das rolhas ou da estratégia ventilatória do pulmão inalado. As Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica de 2013, que seriam o endereço natural, mencionam o queimado duas vezes — uma na contraindicação da succinilcolina e outra na necessidade proteica — e não têm seção sobre lesão inalatória. As recomendações de calibre maior e de não encurtar o tubo, que este capítulo sustenta no bloco de conduta, vêm de fora e de raciocínio fisiológico, e ficam aqui identificadas assim, sem serem penduradas em régua brasileira que não as sustenta.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a de Temístocles Marimbondo, 47 anos, 78 quilos, retirado de um quarto de porta fechada num incêndio residencial iniciado às 2h30, chegando às 3h20 acordado, confuso, rouco, com fuligem em narinas e escarro, saturando 98% em ar ambiente e com queimadura circunferencial de tórax. Três coisas ficam de fora dela porque têm dono, e o dono é nomeado onde a decisão aparece. A técnica de intubação, a escolha das drogas, a sequência rápida e o plano de falha da via aérea são do capítulo Via aérea no trauma, da apostila de Trauma. O cálculo da superfície queimada e a lista de transferência para centro de tratamento de queimaduras são do capítulo Superfície queimada e profundidade, desta mesma apostila. O volume, o multiplicador, o fracionamento e o alvo de diurese são do capítulo A conta que a urina corrige, também desta apostila, e este capítulo se limita a lembrar que aquele volume é o que está fechando esta via aérea. Duas outras, ao contrário, ficam aqui porque nenhum capítulo do nível as ensina: o reconhecimento e o manejo inicial da intoxicação por cianeto no incendiado, e a escarotomia de tórax e de pescoço no que ela tem de decisão de urgência.

  1. 3h20 a 3h22 — o que não espera por nada

    Oxigênio na maior concentração disponível, agora, com máscara não reinalante a 15 litros por minuto, e sem titular pela oximetria. Essa é a única medida que trata simultaneamente os três problemas da fumaça: melhora a oferta na obstrução, acelera a saída do monóxido por competição de massa e sustenta o pouco metabolismo aeróbio que o cianeto ainda permite. Junto e no mesmo gesto: cabeceira elevada a 30 graus, monitor, glicemia capilar e a hora da queimadura anotada no papel antes de qualquer outra coisa. O suporte imediato não espera a conta de superfície nem resultados. O interno aciona o médico responsável e a equipe de emergência simultaneamente e atua dentro da supervisão disponível; não assume procedimentos avançados sozinho.

    Prescrição
    • Oxigênio em máscara não reinalante a 15 L/min, mantido independentemente da leitura da oximetria de pulso (protocolo ATox 6 do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência; cartilha de queimaduras do Ministério da Saúde, que prescreve oxigênio a 100% em máscara umidificada)
    • Cabeceira elevada a 30 graus (cartilha de queimaduras do Ministério da Saúde)
    • Glicemia capilar imediata, porque hipoglicemia imita e agrava qualquer rebaixamento
    • Hora exata da queimadura registrada no prontuário antes de qualquer prescrição
  2. 3h22 a 3h26 — a inspeção que decide, e a frase que muda a sala

    Com lanterna, quatro olhares de poucos segundos: narinas e vibrissas, boca aberta e língua, orofaringe, e a cuba onde ele cuspiu. Depois, uma frase inteira dita por ele, escrita entre aspas no prontuário com a hora. Temístocles tem vibrissas chamuscadas, fuligem, rouquidão nova e escarro carbonáceo: são quatro dos sete itens da lista de suspeita de lesão inalatória da cartilha federal, e o conjunto, especialmente a rouquidão nova e a trajetória clínica, exige avaliação imediata de via aérea. Um sinal isolado de exposição, como vibrissas chamuscadas, não torna a intubação obrigatória. A decisão sai daqui e se anuncia em voz alta: este paciente vai ser intubado agora, não daqui a uma hora, e não porque está mal, mas porque vai ficar. Chame quem intuba pelo nome e diga o motivo em uma frase. A técnica, o material e as drogas são do capítulo Via aérea no trauma, da apostila de Trauma.

    Prescrição
    • Registro escrito e com hora da voz, do esforço e do achado de orofaringe, como exame de base
    • Acionamento nominal de quem vai intubar, com o motivo dito em uma frase
    • Nada de aguardar gasometria, radiografia ou cooximetria para esta decisão (cartilha de queimaduras do Ministério da Saúde, que lista o edema de face e orofaringe como gatilho clínico independente)
  3. 3h26 a 3h40 — o que é diferente no tubo do queimado

    Enquanto o material se abre, três decisões pertencem a este capítulo porque decorrem da queimadura e não da técnica. A primeira é o calibre: escolha o maior tubo que passar com segurança, por duas razões que se somam: a oportunidade de passar um tubo largo não se repete depois que o edema avança, e um lúmen estreito impede a broncoscopia de aspiração e de graduação que este paciente costuma precisar entre o primeiro e o terceiro dia. A segunda é o comprimento: não corte o tubo. É prática comum encurtá-lo para reduzir espaço morto, e no queimado ela é perigosa, porque o edema de face e de lábio empurra o tubo para fora ao longo das horas e um tubo já encurtado deixa de ter margem para reposicionamento. A terceira é a fixação: cadarço em pele queimada não segura, e a extubação acidental num paciente com essa laringe é um evento de altíssima letalidade — fixe com o que existir, reconfira de hora em hora e anote a marca do tubo em centímetros na altura da arcada.

    Prescrição
    • Tubo de maior calibre que passe com segurança, pelo edema progressivo e pela broncoscopia posterior (recomendação de origem estrangeira e de raciocínio fisiológico; nenhum documento brasileiro consultado fixa calibre no queimado)
    • Tubo não encurtado, pela margem de reposicionamento que o edema de face vai exigir
    • Marca do tubo em centímetros anotada no prontuário e reconferida de hora em hora
    • Fixação reavaliada em toda mobilização, com atenção especial à transposição de maca
  4. 3h40 a 4h10 — o volume começa, e com ele o relógio da laringe e do anel

    Iniciada a reposição volêmica pela fórmula, contada da hora da queimadura — que é assunto e conta do capítulo A conta que a urina corrige, desta mesma apostila —, o que este capítulo acrescenta é uma linha de vigilância nova. A partir deste minuto, dois compartimentos vão receber parte desse volume e piorar: o interstício da via aérea superior e o espaço sob a escara circunferencial do tórax. Isso não é motivo para reduzir a reposição, que trata o choque e cuja falta mata mais rápido; é motivo para vigiar as duas consequências com hora marcada. Escreva na prescrição, com essas palavras, que a expansão torácica e a pressão de pico devem ser reavaliadas de hora em hora enquanto a reposição correr.

    Prescrição
    • Reposição volêmica conforme o capítulo A conta que a urina corrige, desta apostila, contada da hora da queimadura
    • Reavaliação horária escrita da expansão torácica e, no ventilado, da pressão de pico do ventilador, enquanto a reposição correr
    • Reavaliação horária da fixação e da marca do tubo, pelo edema de face progressivo
  5. 4h10 a 4h25 — o tórax que parou de expandir

    A pressão de pico sobe de 26 para 38 cmH2O ao longo de quarenta minutos, o volume corrente cai, a ausculta é simétrica, não há desvio de traqueia e a radiografia não mostra pneumotórax. O tubo está pérvio e a aspiração não muda nada. Isso é o anel. A escarotomia de tórax é a manobra que devolve a expansão da caixa, e a cartilha federal de 2012 a descreve: incisão na linha axilar anterior unida a uma linha abaixo dos últimos arcos costais, dos dois lados, com hemostasia e plano de analgesia/anestesia adequado. A escara pode ser insensível, mas bordas e tecidos adjacentes podem doer, e o paciente ventilado também necessita analgesia. Quem executa é o cirurgião de plantão, e a decisão de chamá-lo com essa indicação nomeada é do interno. Se não houver cirurgião e o paciente não ventilar, esta é a conversa que se tem com a regulação e com o centro de referência por telefone, agora, e não depois de duas horas de ajuste de ventilador.

    Prescrição
    • Cirurgião de plantão acionado com a indicação nomeada: queimadura circunferencial de tórax restringindo a ventilação
    • Escarotomia de tórax em linha axilar anterior bilateral unida à linha subcostal, com hemostasia (cartilha de queimaduras do Ministério da Saúde)
    • Reavaliação de perfusão distal e do aspecto circulatório em todo segmento com queimadura circunferencial de membro, de hora em hora (cartilha de queimaduras do Ministério da Saúde)
  6. 4h25 a 4h40 — o segundo veneno, e o que fazer quando o antídoto não está lá

    A gasometria volta com acidose metabólica e lactato de 8,4 mmol/L num paciente que não sangrou, não está hipotenso por hemorragia e recebe volume desde as 3h40. Somado ao material queimado — espuma de poliuretano e colchão, que é a lista exata do protocolo nacional — e ao Glasgow de 13 na chegada, isso põe o cianeto na mesa. E aqui a régua que você tem na mão decide diferente da régua que a criou: pela Portaria nº 1.115/2015, que inclui o Glasgow abaixo de 14, Temístocles com 13 está dentro; pelo cartão do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, que reescreveu a inclusão como abaixo de 13, ele está fora — embora a tabela de doses do mesmo cartão lhe atribua a classe intermediária. A divergência está auditada no bloco de critério, e o que decide na prática é o outro critério da norma, que o cartão não traz: lactato precisa ser interpretado com exposição e sinais de toxicidade; a redação antiga não significa dar hidroxocobalamina para qualquer elevação isolada, que também pode resultar de choque e outras causas. O antídoto é a hidroxocobalamina, e a dose e a diluição estão na tabela. Se ela não existe no serviço — e no Brasil ela frequentemente não existe —, o que resta não é nada: é oxigênio a 100% mantido, suporte hemodinâmico, correção da acidose conforme o quadro, e a ligação que localiza a caixa no estado. Faça essa ligação enquanto o paciente ainda está estável, não depois.

    Prescrição
    • Gasometria arterial com lactato, repetida conforme a evolução (leitura no capítulo Gasometria arterial, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito)
    • Hidroxocobalamina 5 g reconstituída em 200 mL de cloreto de sódio a 0,9%, infundida por via intravenosa em 15 minutos, se disponível e preenchidos os critérios, sem exceder o total de 10 g incluindo eventual dose pré-hospitalar (Portaria nº 1.115 da Secretaria de Atenção à Saúde, de 19 de outubro de 2015, e protocolo ATox 7 do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência)
    • Oxigênio a 100% mantido independentemente da carboxi-hemoglobina ser dosável ou não
    • Contato com a regulação estadual perguntando explicitamente onde está o kit de hidroxocobalamina mais próximo
  7. 4h40 a 6h — o pulmão que ainda não apareceu

    Com a via aérea garantida e o tórax aberto, sobra o problema que ainda não deu as caras. Sibilos difusos aparecem por volta da quinta hora e respondem a broncodilatador inalatório; salbutamol em solução para inalação consta do componente Básico do elenco nacional e é uma das poucas drogas deste capítulo que a farmácia da rede tem. Umidificação do circuito e aspiração programada não são detalhe de enfermagem: são o que impede a formação da rolha que vai obstruir um lobo no segundo dia. Nebulização de heparina e de acetilcisteína é protocolo consagrado em centros de queimados e não tem respaldo em documento brasileiro; vale registrar que a heparina sódica consta do elenco nacional no componente Básico e a acetilcisteína não consta de forma alguma — se o seu serviço usa o protocolo, metade dele depende de compra local.

    Prescrição
    • Salbutamol solução para inalação, 5 mg/mL, conforme padronização local, diante de broncoespasmo (consta do componente Básico da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024)
    • Umidificação do circuito e aspiração programada, com registro do aspecto da secreção
    • Radiografia de tórax de base registrada como normal, para comparação nos dias seguintes
    • Cabeceira mantida elevada e reavaliação da necessidade de sedação em infusão contínua
  8. 6h em diante — o transporte e o papel que vai junto

    Temístocles vai para o centro de tratamento de queimados a duzentos e trinta quilômetros, em ambulância com médico a bordo, como manda a cartilha federal para paciente grave. O que este capítulo exige do relatório não é o resumo do caso: é o conjunto de dados que ninguém vai conseguir reconstruir depois. Hora da queimadura. Material que queimava e se o ambiente era fechado. Tempo estimado de confinamento. Glasgow na chegada, com os três componentes. Se houve ou não oxigênio desde a cena e desde que hora. Se houve ou não hidroxocobalamina, e se não houve, por quê. Marca do tubo em centímetros e o calibre. Hora da escarotomia e por que ela foi feita. Lactato inicial e o de agora. Nada disso está no laudo de nenhum exame, e tudo isso muda a conduta de quem recebe.

    Prescrição
    • Transporte com médico a bordo, em ambulância com possibilidade de assistência ventilatória (cartilha de queimaduras do Ministério da Saúde)
    • Material de reintubação e aspiração junto do paciente, e conferência da fixação do tubo na transposição da maca
    • Relatório escrito com hora da queimadura, material queimado, tempo de confinamento, Glasgow inicial, oxigênio desde quando, antídoto sim ou não e por quê, calibre e marca do tubo, hora e motivo da escarotomia, lactato inicial e atual
    • Vaga confirmada e leito de terapia intensiva reservado antes da saída, com estabilização e medidas iniciais feitas (cartilha de queimaduras do Ministério da Saúde)
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Como saber se está funcionando

A reavaliação deste capítulo não consiste em refazer o exame: consiste em confrontá-lo com o registro anterior. Um capítulo inteiro depende de uma frase que alguém teve o cuidado de anotar com hora às 3h22, e nenhum dos parâmetros abaixo funciona sem esse registro de base.

Os intervalos são curtos de propósito nas primeiras seis horas, que é a janela em que a reposição volêmica está entregando o volume que piora a laringe e aperta o anel torácico. Depois disso, o relógio muda de dono: o problema passa a ser o pulmão, e ele tem dias, não horas.

Voz e esforço respiratório, no paciente não intubadoA cada 15 minutos nas duas primeiras horas; imediatamente a qualquer queixa nova de garganta ou de engolir

Esperado: A mesma voz da frase registrada na admissão, sem rouquidão nova, sem dificuldade com a própria saliva, sem estridor

Se não melhora: Voz que mudou desde o registro de base é indicação de via aérea definitiva agora, e não motivo para nova reavaliação em quinze minutos. Estridor audível é obstrução avançada: nesse ponto a intubação deixou de ser eletiva e o plano de falha precisa estar aberto sobre a mesa. Técnica e plano de falha no capítulo Via aérea no trauma, da apostila de Trauma.

Expansão torácica e pressão de pico do ventiladorDe hora em hora enquanto a reposição volêmica correr, em todo paciente com queimadura circunferencial de tórax ou de pescoço

Esperado: Expansão simétrica e visível; pressão de pico estável em relação à do início da ventilação

Se não melhora: Pressão de pico subindo com ausculta simétrica, sem desvio de traqueia e sem pneumotórax na radiografia, num tórax com escara circunferencial, é o anel apertando por causa do edema que você está criando. Não é ajuste de ventilador, não é aspiração e não é fração inspirada de oxigênio: é escarotomia, e o cirurgião se chama com a indicação nomeada.

Nível de consciência pela Escala de Coma de Glasgow, com os três componentes anotados em separadoA cada 30 minutos nas primeiras três horas, e sempre que a equipe achar o paciente diferente

Esperado: Estabilidade ou melhora progressiva conforme o oxigênio corre

Se não melhora: Piora ou ausência de melhora com oxigênio em alta concentração muda a hipótese, e muda em duas direções. Aponta para cianeto, porque o manual brasileiro de toxicologia nomeia a falência do tratamento com oxigênio em alto fluxo como sinal de alerta para ele; e aponta para hipóxia por via aérea ou por pulmão, que é problema mecânico. Reavalie a via aérea antes de concluir qualquer coisa sobre veneno.

Lactato e equilíbrio acidobásicoNa chegada, repetindo em intervalos de duas a quatro horas ao longo do primeiro dia, e antes disso se houver piora clínica

Esperado: Queda progressiva à medida que a reposição corre e o oxigênio é ofertado

Se não melhora: Lactato que não cai, ou que sobe, com volume adequado e oxigênio em alta concentração, num paciente que não sangrou, é o achado que mais aponta para cianeto no Brasil, onde a dosagem do tóxico não está disponível. A leitura do distúrbio é do capítulo Gasometria arterial, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito; a decisão sobre o antídoto está no bloco de conduta.

Marca do tubo em centímetros e fixaçãoDe hora em hora e em toda mobilização, incluindo a transposição de maca

Esperado: A mesma marca anotada logo depois da intubação, com fixação firme

Se não melhora: Marca que mudou significa tubo migrando, e no queimado ela muda porque o edema de face e de lábio empurra e porque o cadarço não adere à pele queimada. Reposicionar e refixar imediatamente, e nunca deixar essa reconferência para o momento do embarque na ambulância, que é justamente quando a extubação acidental acontece.

Aspecto e volume da secreção aspiradaA cada aspiração, com registro do aspecto

Esperado: Redução progressiva da fuligem visível ao longo do primeiro dia

Se não melhora: Secreção que fica mais espessa, com fragmentos ou placas escuras, precede a rolha que obstrui um brônquio inteiro. A resposta é umidificação, aspiração mais frequente e, quando o recurso existe, broncoscopia terapêutica. Dessaturação súbita num paciente que estava estável, com um lobo colapsado na radiografia, é esse quadro até prova em contrário.

Perfusão distal em segmento com queimadura circunferencial de membroDe hora em hora enquanto a reposição correr

Esperado: Extremidade quente, com enchimento capilar preservado e sem dor desproporcional

Se não melhora: Extremidade que esfria e perde pulso sob uma escara em anel, num paciente cuja reposição está correndo bem, não é sinal de volume insuficiente: o couro não cede e a compressão vem de dentro para fora. O que se abre é o anel, não a torneira. É o mesmo mecanismo do tórax em outro lugar do corpo, e o capítulo A conta que a urina corrige, desta apostila, chega à mesma conclusão pelo lado do volume.

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Onde o erro machuca

Tranquilizar-se com a saturação do oxímetro no paciente vindo de incêndio

O dano: SpO₂ normal pode atrasar reconhecimento e tratamento da intoxicação por CO. O oxímetro convencional não quantifica carboxi-hemoglobina nem permite inferir gravidade por um aumento progressivo do número. Confiar apenas nele também pode atrasar proteção da via aérea em lesão inalatória.

Como pegar a tempo: Trate a oximetria como ausente nas primeiras horas do paciente de incêndio. Oxigênio na máxima concentração desde a suspeita, sem titular. Um número baixo continua valendo e é grave; um número alto não vale nada.

Esperar o estridor, a gasometria ou a piora para decidir a via aérea

O dano: O estreitamento da laringe não produz sintoma proporcional, e o estridor aparece quando a obstrução já é avançada. Somado a isso, o queimado tem uma segunda fonte de edema que os outros pacientes não têm — o volume da reposição — e por isso a curva dele é mais íngreme. A intubação que teria sido eletiva às 3h30 vira, às 5h, uma laringoscopia numa via aérea distorcida, com plano de falha em andamento.

Como pegar a tempo: Decida pela trajetória e pelos achados de inspeção, que estão disponíveis na primeira olhada. A regra e a técnica são do capítulo Via aérea no trauma, da apostila de Trauma; o que a queimadura acrescenta é o encurtamento da janela pelo volume e pela distância até o centro de referência.

Tratar a lesão inalatória como uma coisa só

O dano: Quem trata como uma coisa só acerta uma e erra duas. Intuba corretamente e não oferece oxigênio na concentração máxima porque a saturação está boa, deixando o monóxido correndo; ou trata o monóxido e não vigia o pulmão, e o paciente faz rolha no segundo dia; ou faz as duas e nunca considera cianeto, que é o único dos três com relógio de minutos e que não responde a oxigênio.

Como pegar a tempo: Faça a pergunta em três partes toda vez: a via aérea de cima vai fechar, o pulmão de baixo vai piorar, e há veneno no sangue? Cada uma tem sinal próprio, exame próprio e conduta própria, e a tabela dos três problemas do bloco de critério existe para ser lida na sala.

Atribuir o rebaixamento do incendiado à hipóxia e parar por aí

O dano: Confusão numa vítima de incêndio tem quatro explicações que competem, e três delas têm tratamento específico. Parar na primeira faz perder o monóxido, que é o mais provável, e faz perder o cianeto, que é o mais rápido. Também faz perder a hipótese mais banal e mais frequente no incêndio residencial noturno: o paciente que já estava rebaixado antes do fogo, por álcool ou por outra causa, e por isso não acordou.

Como pegar a tempo: Diante de rebaixamento pós-incêndio, considere as quatro em paralelo e trate as três primeiras com a mesma primeira medida, que é oxigênio na máxima concentração. Anote os três componentes do Glasgow em separado, porque é o conjunto de Glasgow, pressão e frequência que aciona ou não o protocolo do cianeto.

Ajustar o ventilador do paciente que não expande por causa da escara

O dano: A pressão de pico que sobe num queimado com tórax circunferencial não é problema de pulmão nem de tubo: é a parede que endureceu por fora e o edema que a reposição colocou por baixo dela. Cada ciclo de ajuste de modo, de aumento de fração inspirada de oxigênio e de aspiração custa dez a quinze minutos, e o anel continua apertando durante todos eles. A cartilha federal agrava o risco ao catalogar a escarotomia sob tratamento da ferida, seis páginas depois da avaliação que encontra o anel.

Como pegar a tempo: Diante de pressão de pico subindo com ausculta simétrica e sem pneumotórax, olhe o tórax antes de olhar o ventilador. Se houver escara circunferencial, chame o cirurgião com a indicação nomeada, e não como pedido genérico de avaliação.

Descobrir na hora do incêndio que não há hidroxocobalamina

O dano: O antídoto tem protocolo federal desde 2015, incorporação desde 2016 e lugar no elenco nacional no componente Estratégico — e o próprio manual do Ministério da Saúde de 2022 registra que não havia fornecedor com registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária, além de anotar que o programa hospitalar para o qual o protocolo mandava distribuir foi descontinuado. Descobrir isso às quatro da manhã, com o paciente em acidose, custa a única hora em que a informação teria servido para alguma coisa.

Como pegar a tempo: Descubra três coisas num plantão calmo e anote onde a equipe vê: se o seu hospital tem o kit, qual é o hospital mais próximo que tem, e qual é o telefone da regulação que localiza o estoque estadual. É a mesma providência que se toma para soro antiofídico, e pelo mesmo motivo.

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O que dizer ao paciente e à família

Irene Araripina tem 24 anos, é filha de Temístocles e foi quem chamou os bombeiros. Ela está na sala de espera desde as 3h25, não se queimou, e é dela que virão os dados que nenhum exame fornece: a hora do fogo, o cômodo, a porta fechada e o que estava queimando. As falas abaixo resolvem, na ordem, o problema mais frequente destas conversas — explicar por que se faz uma coisa grande num paciente que estava conversando.

"Antes de eu explicar o que a gente vai fazer, preciso de três informações que só a senhora tem, e elas mudam o tratamento. Que horas o fogo começou? Ele ficou dentro do quarto com a porta fechada quanto tempo, mais ou menos? E o que estava queimando na sala — sofá, colchão, espuma, plástico?"

Não diga: Começar pela explicação e deixar as perguntas para depois. Nos primeiros minutos, quem trouxe o paciente ainda lembra dos detalhes e ainda está no local mentalmente; meia hora depois, o susto já reorganizou a memória e o horário vira aproximação.

"Seu pai está falando com a gente e isso é bom, mas não é o que me tranquiliza. O que aconteceu é que ele respirou fumaça quente dentro de um lugar fechado, e a fumaça queimou a garganta dele por dentro. Uma garganta queimada incha devagar, ao longo de uma ou duas horas. Enquanto ela incha, ele continua falando — até a hora em que não passa mais ar."

Não diga: "Ele inalou fumaça e pode ter lesão inalatória." A frase é verdadeira e não transmite nada: o que a família precisa entender é que o problema piora com o tempo, não que ele tem um nome.

"Por isso vamos colocar um tubo na respiração dele agora, enquanto ele está bem. Fazendo agora, é um procedimento controlado, com ele dormindo. Se a gente esperar ele piorar, o tubo passa a ser muito mais difícil de colocar, e pode não dar certo. Não estou fazendo porque ele está mal; estou fazendo porque ele está bem e não vai continuar assim."

Não diga: Dizer que é "por precaução". A palavra sugere que é opcional e que se poderia esperar mais um pouco, e a família volta em vinte minutos pedindo para adiar.

"Tem uma segunda coisa, que é diferente da garganta. A fumaça de incêndio tem gases que passam para o sangue e atrapalham o oxigênio de chegar no corpo, mesmo com o pulmão funcionando. Por isso ele está confuso. O aparelhinho do dedo mostra um número bom e esse número engana nesse tipo de intoxicação — a gente não trata pelo aparelho, trata pelo que aconteceu. O tratamento é oxigênio puro, por horas."

Não diga: Mostrar o monitor para a família como sinal de que está tudo bem. É o gesto mais natural do mundo e, neste paciente, é uma informação falsa dada com autoridade.

"A queimadura do peito dele dá a volta completa, e a pele queimada fica dura, como couro. Conforme a gente coloca soro — que ele precisa receber, senão os rins param —, o corpo incha por dentro dessa casca dura. Se o peito parar de expandir, a gente precisa fazer um corte na pele queimada dos dois lados para o peito voltar a abrir. É um corte na parte que já está morta, e ele não dói como a senhora está imaginando."

Não diga: Não mencionar a escarotomia antes de ela ser necessária. Se a primeira vez que a família ouvir falar em cortar o tórax for às cinco da manhã, com pressa, o consentimento vira negociação no pior momento possível.

"A senhora não fez nada errado e não demorou. Ele estava no quarto com a porta fechada, e a porta fechada é o que segurou o fogo longe dele. O que entrou foi a fumaça, e contra fumaça a porta não protege. Quem tirou ele de lá foram os bombeiros, e a senhora foi quem chamou."

Não diga: Deixar a culpa sem endereço. Em incêndio residencial, quem chamou o socorro quase sempre acha que demorou, e a frase que não é dita vira a frase que a pessoa repete por anos.

"Ele vai para o hospital de referência de queimados, que fica a duas horas daqui, e vai com médico dentro da ambulância. Preciso ser honesto sobre uma coisa: a parte pulmonar costuma piorar no segundo e no terceiro dia, e não hoje. Se lá disserem que ele piorou depois de amanhã, isso não vai significar que alguma coisa deu errado — é o curso esperado dessa lesão."

Não diga: Prometer estabilidade porque o paciente está estável agora. A piora tardia é a regra na lesão inalatória, e a família que não foi avisada a interpreta como erro de quem atendeu antes.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Como se encerra a oxigenoterapia na intoxicação por monóxido de carbono: por relógio fixo ou por alvo clínico e laboratorial

Três horas fixas, contadas da suspeita

O documento federal específico do queimado manda administrar oxigênio a 100% em máscara umidificada e, na suspeita de intoxicação por monóxido de carbono, manter a oxigenação por três horas. É uma regra de duração, executável em qualquer serviço, que não depende de exame nenhum — o que é uma virtude num país onde a maioria dos hospitais não faz cooximetria.

Brasil. Ministério da Saúde. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012, item 2, alínea b, do tratamento na sala de emergência

Até assintomático e com carboxi-hemoglobina abaixo de 5%

O manual estabelece um alvo duplo, clínico e laboratorial: oxigênio a 100% por máscara não reinalante até que o paciente esteja assintomático e com carboxi-hemoglobina abaixo de 5%. É uma regra de desfecho, que trata pouco quem melhora rápido e muito quem não melhora, e que depende de um exame indisponível na maior parte da rede.

Manual de Toxicologia Clínica, Covisa e Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, 2017, capítulo de intoxicação por gases tóxicos, item de antídoto do monóxido de carbono

Como decidir

A diferença não é acadêmica e a conta mostra onde ela morde. Usando a meia-vida que o próprio manual atribui ao oxigênio a 100% no seu limite superior, de 75 minutos, três horas correspondem a 2,4 meias-vidas, um fator de queda de 5,28. Para terminar abaixo de 5%, a carboxi-hemoglobina inicial teria de ser no máximo 26,4%. Acima disso a duração fixa não alcança o alvo — e 25% é exatamente o corte de câmara hiperbárica do mesmo manual. Decida pelo que você consegue medir. Se há cooximetria, o alvo governa e a duração é consequência. Se não há, e é o caso da maioria, use a duração fixa como piso e não como teto: três horas é o mínimo, e sintoma persistente, confusão, dor torácica ou acidose estendem o tratamento independentemente do relógio. Em gestante, nenhuma das duas basta: o manual é explícito em tratar por períodos maiores.

A janela em que a succinilcolina é perigosa no queimado: nas primeiras 24 horas ou depois delas

Segura no primeiro dia, evitar depois de 24 horas

O protocolo nacional lista, entre as situações em que se deve evitar a succinilcolina por risco de hipercalemia, a queimadura grave há mais de 24 horas, ao lado da miopatia espástica, da neuropatia crônica, do esmagamento muscular há mais de três dias e da nefropatia dialítica descompensada. Lido diretamente, o primeiro dia está liberado.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, protocolo AP9, Sequência rápida de intubação

Contraindicada nas primeiras 72 horas

A diretriz de sociedade lista a succinilcolina com a dose de 1 a 1,2 mg/kg para indução e escreve, entre as contraindicações, queimaduras até 72 horas, ao lado de história de hipertermia maligna, doença neuromuscular, distrofia muscular, hiperpotassemia e rabdomiólise. Lido diretamente, o primeiro dia está proibido.

Associação de Medicina Intensiva Brasileira e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013, seção de relaxantes musculares

Como decidir

As duas posições não são graus diferentes de cautela: são janelas invertidas, e por isso não se resolvem escolhendo a mais conservadora sem entender o mecanismo. O risco de hipercalemia vem da multiplicação de receptores colinérgicos fora da placa motora, que leva tempo para se instalar — e essa leitura fisiológica favorece a régua do protocolo pré-hospitalar. A escolha do bloqueador neuromuscular pertence ao capítulo Via aérea no trauma, da apostila de Trauma, que segue o protocolo nacional; o que este capítulo faz é registrar que existe um documento brasileiro de sociedade dizendo o contrário, para que quem for questionado saiba de onde vem a outra frase. Na prática do plantão, o que decide é a existência de alternativa: onde há rocurônio, a discussão perde urgência; onde só há succinilcolina, ela é o caminho e a hora da queimadura, anotada em prontuário, é o que documenta a decisão.

Como titular o oxigênio no paciente que inalou fumaça: por saturação alvo ou por máxima concentração disponível

Alto fluxo para manter saturação maior ou igual a 94%

O cartão de inalação de fumaça avisa, no item imediatamente anterior, que a leitura da oximetria pode indicar valores maiores do que o real na intoxicação por monóxido de carbono — e em seguida manda administrar oxigênio em alto fluxo para manter saturação de oxigênio maior ou igual a 94%. É a régua da titulação por número.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, protocolo ATox 5, Inalação de fumaça, elaboração janeiro de 2016

Máxima concentração disponível, independentemente da oximetria

O cartão do monóxido, elaborado no mesmo mês e no mesmo compêndio, manda ofertar oxigênio na máxima concentração disponível, de preferência com máscara não reinalante a 15 litros por minuto, independentemente da leitura da oximetria de pulso, e repete a mesma ressalva na indicação de intubação. É a régua do desligamento do número.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, protocolo ATox 6, Intoxicação por monóxido de carbono, elaboração janeiro de 2016

Como decidir

A divergência é interna ao mesmo documento e ao mesmo mês, e o paciente é literalmente o mesmo — o cartão de inalação de fumaça manda consultar o cartão do monóxido quando há sintomas gerais. O que resolve é lembrar para que serve cada régua. Titular por saturação existe para não hiperoxigenar quem não precisa, o que é uma preocupação legítima em muitos contextos e é irrelevante nas primeiras horas de quem saiu de um incêndio, porque ali a fração inspirada alta é o próprio tratamento do monóxido. Decida pelo custo de errar: dar oxigênio a mais por três horas a quem não tinha monóxido não produz dano mensurável; dar a menos a quem tinha, guiado por um número falsamente alto, prolonga a intoxicação e o risco neurocognitivo tardio. E registre no prontuário que a oferta não foi titulada pela oximetria, com o motivo — senão a decisão parece descuido para quem lê depois.

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O raciocínio, em voz alta

Volte a Temístocles Marimbondo, 47 anos, 78 quilos, marceneiro. Incêndio residencial iniciado por volta das 2h30 num sofá da sala; encontrado às 3h no quarto, com a porta fechada, por bombeiros que levaram de doze a quinze minutos para alcançá-lo. Chegou às 3h20 sentado, acordado, orientado em espaço e desorientado no tempo, repetindo perguntas. Escala de Coma de Glasgow 13. Voz rouca, escarro acinzentado com pontos pretos, vibrissas e sobrancelhas chamuscadas, fuligem em narinas. Saturação 98% em ar ambiente, frequência cardíaca 126, pressão 104 por 62, frequência respiratória 26. Queimadura de segundo e terceiro graus em torno de 25% de superfície, com faixa circunferencial completa em tórax. Hospital municipal de sessenta leitos, sem cooximetria, sem broncoscópio, sem hidroxocobalamina, a duzentos e trinta quilômetros do centro de tratamento de queimados. Você é o interno e está com uma enfermeira e um técnico; o plantonista clínico chega em doze minutos.

  1. a primeira decisão sai do ambiente, não do paciente

    Antes de examinar qualquer coisa, pergunto três dados à filha e anoto: fogo às 2h30, quarto com porta fechada, e o que queimava era um sofá de espuma. Isso já fecha duas coisas. A primeira é que ele preenche os critérios de inclusão do protocolo nacional de inalação de fumaça só pelo ambiente, mesmo se estivesse perfeito. A segunda é que o material queimado — poliuretano — é exatamente o que o protocolo do cianeto lista, e por isso o cianeto entra na minha lista desde já, não depois. A hora da queimadura vai para o alto da folha, porque é o minuto zero de todos os relógios deste paciente, inclusive o do capítulo A conta que a urina corrige, desta apostila.

  2. a saturação de 98% é o dado que eu descarto primeiro

    Num paciente retirado de cômodo fechado em chamas, o oxímetro não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina e devolve número alto justamente quando o transporte está comprometido. Noventa e oito por cento aqui não é dado tranquilizador: é ausência de dado. Coloco máscara não reinalante a 15 litros por minuto imediatamente e registro na prescrição que a oferta não será titulada pela oximetria, com o motivo escrito. Cabeceira a 30 graus, monitor, glicemia capilar. Nada disso esperou o plantonista, e nada disso dependeu de conta.

  3. a inspeção de trinta segundos que decide a via aérea

    Com a lanterna: vibrissas chamuscadas, fuligem seca nas narinas, fuligem na cuba, sobrancelhas queimadas. Peço que ele diga o nome da filha e o nome da rua, escrevo a frase entre aspas com a hora, 3h24, e anoto que está rouco e sem estridor. São quatro achados da lista de suspeita de lesão inalatória da cartilha federal, e um bastaria. Não peço gasometria para decidir isto e não espero estridor, porque estridor é obstrução avançada. Anuncio em voz alta que ele vai ser intubado agora, e ligo para o plantonista dizendo a frase inteira: queimado de ambiente fechado, rouco, com fuligem, preciso de você para intubar. A técnica e as drogas são do capítulo Via aérea no trauma, da apostila de Trauma, e o plantonista é quem executa.

  4. duas escolhas do tubo que são da queimadura e não da técnica

    Peço o maior tubo que passar com segurança, e não o de rotina. A janela de passar largo se fecha com o avanço do edema, e um lúmen apertado impede a broncoscopia que este paciente provavelmente vai precisar entre o primeiro e o terceiro dia. E peço que não se corte o tubo, porque o edema de face e de lábio vai empurrá-lo para fora ao longo das horas e a margem de reposicionamento é o que evita a extubação acidental. Anoto a marca em centímetros na arcada logo depois da confirmação. Anoto no prontuário que as duas escolhas se apoiam em fisiologia e em prática de centros de queimados, e não em régua nacional: nenhuma das que consultei fixa calibre.

  5. começo o volume sabendo que ele é parte do problema

    Dois acessos periféricos calibrosos e a reposição iniciada às 3h40, contada de 2h30 e não de 3h20, pela conta do capítulo A conta que a urina corrige, desta apostila. Aqui eu escrevo, junto, a linha que é deste capítulo: reavaliar expansão torácica e pressão de pico de hora em hora enquanto a reposição correr. O volume que trata o choque dele é o mesmo que está inchando a laringe e enchendo o espaço debaixo da escara do tórax. Não reduzo a vazão por causa disso — a falta mata mais rápido que o excesso nesta janela —, mas passo a vigiar as duas consequências com hora marcada.

  6. às 4h20 a pressão de pico sobe e eu olho o tórax, não o ventilador

    Pico de 26 para 38 cmH2O em quarenta minutos, volume corrente caindo, ausculta simétrica, sem desvio de traqueia, radiografia sem pneumotórax, tubo pérvio e aspiração sem efeito. Isso é o anel. Não mexo no modo do ventilador e não subo a fração inspirada como resposta: chamo o cirurgião de plantão com a indicação nomeada — queimadura circunferencial de tórax restringindo a ventilação — porque pedido genérico de avaliação cirúrgica às quatro da manhã entra na fila. A escarotomia é feita em linha axilar anterior bilateral unida à linha subcostal, como a cartilha federal descreve, com hemostasia. O pico cai para 28 e o volume corrente volta.

  7. o lactato de 8,4 aponta para o veneno que este hospital não tem como tratar

    Gasometria com acidose metabólica e lactato 8,4 mmol/L num paciente que não sangrou e está recebendo volume há quarenta minutos. Somado ao poliuretano queimando e ao Glasgow 13 da chegada, isso é cianeto até prova em contrário — e a prova não existe, porque a dosagem não está disponível no Brasil, como o manual brasileiro de toxicologia registra. Reparo que as duas réguas discordam sobre ele: a portaria federal inclui quem tem Glasgow abaixo de 14, e o cartão do serviço de urgência reescreveu isso como abaixo de 13. Pela primeira ele entra; pela segunda, não. E a portaria traz o critério que resolve o meu caso e que o cartão não traz: lactato elevado indica a dose no hospital. Não há hidroxocobalamina neste hospital. Então faço o que resta e faço agora: mantenho oxigênio a 100%, sustento a hemodinâmica, e ligo para a regulação perguntando onde está o kit mais próximo — enquanto ele ainda está estável, e não depois.

  8. o relatório leva o que nenhum exame registra

    Ligo com tudo pronto: homem de 47 anos, 78 quilos, incêndio residencial em ambiente fechado às 2h30, cerca de trinta minutos de confinamento, chegada às 3h20 com Glasgow 13, rouquidão, fuligem em narinas e escarro carbonáceo, saturação de 98% em ar ambiente que não foi usada para decidir. Oxigênio a 100% desde 3h21. Intubado às 3h38 com tubo 8,0, não encurtado, marca 23 cm na arcada. Reposição iniciada às 3h40 contando de 2h30. Escarotomia torácica bilateral às 4h30 por restrição ventilatória, com pico caindo de 38 para 28. Lactato 8,4 às 4h25, sem hidroxocobalamina disponível no serviço. Vinte e cinco por cento de segundo e terceiro graus discriminados por segmento. Peço vaga em centro de tratamento de queimados com leito de terapia intensiva, e ambulância com médico a bordo.

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Faça você

Outro incêndio, outro paciente, e desta vez a pergunta é a inversa. Gilmarina Santaninha tem 33 anos, é diarista, pesa 61 quilos e não tem doença conhecida. Às 19h40 uma panela de óleo pegou fogo na cozinha do apartamento onde ela trabalha; ela tentou apagar com um pano, a chama subiu pelo armário e ela saiu do apartamento em menos de dois minutos, pela porta, com a janela da cozinha aberta. Chegou ao pronto-socorro às 20h30 por conta própria, andando, aflita. Não tem queimadura nenhuma na pele: nem na face, nem nas mãos. Vibrissas íntegras, sobrancelhas íntegras, sem fuligem em narinas ou boca, voz absolutamente normal, sem tosse. Escala de Coma de Glasgow 15. Saturação 97% em ar ambiente, frequência cardíaca 96, pressão 122 por 78. Ela refere dor de cabeça que começou no caminho e enjoo, e diz que quer ir embora porque precisa buscar o filho na casa da vizinha.

  1. o gatilho: este ambiente aciona o protocolo de inalação de fumaça?

    Compare a cena de Gilmarina com os critérios de inclusão do protocolo nacional. Ambiente fechado ou ventilado? Tempo de exposição? Fumaça de incêndio ou de um foco pequeno? E, o mais importante: algum dos critérios de inclusão dispensa achado no corpo da vítima?

  2. a via aérea dela precisa de alguma coisa?

    Percorra a lista de suspeita de lesão inalatória da cartilha federal item por item nela — queimadura de face, rouquidão, estridor, escarro carbonáceo, dispneia, vibrissas queimadas, insuficiência respiratória. Quantos itens ela tem? E o que a ausência de todos eles autoriza e o que não autoriza?

  3. a cefaleia e o enjoo são o quê, exatamente?

    Cefaleia é a manifestação mais comum de qual das três agressões deste capítulo, na sua forma leve a moderada? Que outros sintomas costumam acompanhá-la? E por que essa lista é a mais difícil de reconhecer de todo o capítulo?

  4. o número do oxímetro muda alguma coisa aqui?

    A saturação dela é 97%. Você acabou de aprender que esse número não vale no paciente de incêndio. Isso significa que o número é irrelevante em Gilmarina também? Qual pergunta ele responde e qual ele não responde nesta paciente específica?

  5. ela vai para casa ou fica?

    O manual brasileiro de toxicologia clínica traz critérios explícitos de liberação, de observação e de internação para esta situação. Em qual dos três ela cai, e qual é a condição adicional que o documento exige para liberar alguém, além do estado do paciente?

  6. o que ela precisa ouvir antes de sair, e por quanto tempo

    Há uma orientação de alta neste capítulo que quase nunca é dada e que muda o seguimento por semanas. Qual é, qual é a janela de tempo dela, e por que a família precisa ouvi-la com essas palavras e não com um genérico retorne se piorar?

  7. Continuidade do caso e prática do internato

    Diferencie o caso de via aérea ameaçada do caso de suspeita de CO sem indicação atual de intubação e apresente os critérios de reavaliação.

  8. Questão integrativa 1

    SpO2 de 99% após incêndio exclui CO?

  9. Questão integrativa 2

    Pelos nasais chamuscados isolados obrigam intubação?

  10. Questão integrativa 3

    COHb baixa depois de duas horas de oxigênio elimina intoxicação anterior?

  11. Questão integrativa 4

    Lactato discretamente elevado basta para diagnosticar cianeto?

  12. Questão integrativa 5

    Pressão de pico aumentou no ventilador. A única hipótese é escara torácica?

  13. Questão integrativa 6

    Que orientação não pode faltar após melhora de intoxicação por CO?

Ver como fecharíamos

Ela aciona o protocolo, não apresenta sinais atuais de lesão de via aérea ameaçadora e tem suspeita clínica de intoxicação por monóxido de carbono e não vai para casa agora. Pelos critérios do protocolo nacional de inalação de fumaça, a exposição a fumaça proveniente de incêndio já basta — os dois primeiros critérios de inclusão não exigem achado nenhum no corpo, e o terceiro, que exige, ela não preenche. Da lista de suspeita de lesão inalatória da cartilha federal ela tem zero de sete itens, e num incêndio breve, em cozinha com janela aberta, sem queimadura de pele, a via aérea dela não precisa de nada além de reavaliação e do registro escrito da voz — a ausência dos sete autoriza não intubar, e não autoriza mandar embora. Cefaleia é a manifestação mais comum da intoxicação leve a moderada por monóxido de carbono, acompanhada de tontura, náusea, vômito, fraqueza, confusão e letargia; é a lista mais difícil do capítulo porque se sobrepõe inteira à de uma virose e porque não há toxíndrome que a denuncie. A saturação de 97% não vale como prova de que o transporte de oxigênio está bom, pelo motivo óptico de sempre, e tampouco permite excluir hipoxemia relevante ou obstrução evolutiva. Na presença de COHb, a leitura convencional pode ser falsamente elevada; a avaliação respiratória e a cooximetria, quando disponível, respondem às perguntas apropriadas. Pelos critérios do manual brasileiro de toxicologia, ela é caso de observação — paciente com sintomas leves a moderados permanece em unidade de saúde até o desaparecimento dos sintomas —, e a condição adicional para liberar alguém não é sobre o paciente e sim sobre o lugar: a fonte de exposição precisa estar eliminada e a pessoa precisa ir para ambiente livre do gás. Recebe oxigênio em máscara não reinalante enquanto os sintomas durarem. E a orientação de alta que quase nunca se dá é a dos efeitos neurocognitivos tardios: dificuldade de concentração, esquecimento e mudança de comportamento podem aparecer entre dois e quarenta dias depois, e quem não ouviu isso atribui o sintoma ao susto do incêndio e não volta. Completar avaliação neurológica, considerar teste de gestação e investigar coração conforme gravidade. Na alta, combinar revisão clínica/neurológica, usualmente em cerca de duas semanas após intoxicação por CO, e retorno imediato se surgirem alterações cognitivas, fraqueza, síncope ou dor torácica. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. O oxímetro convencional não distingue adequadamente oxi-hemoglobina de carboxi-hemoglobina e pode superestimar a oxigenação. Trate a suspeita e obtenha cooximetria quando disponível. 2. Não. Exigem avaliação de exposição e vigilância. A decisão considera evolução, edema, ventilação, consciência e segurança do transporte, com equipe habilitada. 3. Não. Tempo e oxigênio reduzem o valor. Gravidade e decisões se apoiam também em exposição, sintomas neurológicos e cardíacos e evolução. 4. Não. Há várias causas. Exposição compatível e toxicidade clínica orientam suspeita e discussão do antídoto; em quadro grave não se espera confirmação laboratorial tardia. 5. Não. Avalie tubo, secreção, broncoespasmo, pneumotórax e complacência, além da restrição torácica. A escarotomia depende da indicação clínica integrada. 6. Ambiente livre da fonte e informação sobre efeitos neurológicos tardios, com retorno e acompanhamento. Melhora imediata não elimina toda possibilidade de complicação posterior.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Estridor indica fluxo turbulento através de via aérea superior estreitada e é sinal de alarme para obstrução, podendo ser tardio na evolução do edema por queimadura. Não se deve esperar sua instalação para avaliar proteção da via aérea. Pelos chamuscados, fuligem e alteração da voz aumentam a suspeita de lesão inalatória, mas não comprovam isoladamente sua extensão nem garantem que a intubação será fácil. Considerar evolução, esforço respiratório, edema orofaríngeo e condições de transferência, com equipe experiente. Estar acordado e conversando não exclui deterioração rápida.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar nada, escreva as três agressões da fumaça numa coluna cada, e preencha quatro linhas: quando aperta, o que revela, o que engana e o que se faz agora. Depois escreva, de memória, os sete itens da lista de suspeita de lesão inalatória da cartilha federal e marque quais antecipam e quais já são tardios. Por fim, responda em uma frase por que o oxímetro de pulso devolve número alto na intoxicação por monóxido de carbono — se a frase não mencionar absorção de luz, ela ainda não está pronta.

Em 30 dias

Reescreva Temístocles várias vezes, trocando um único dado a cada versão e reparando em que ponto o raciocínio deixa de servir. E se a saturação dele fosse 88% em vez de 98% — o que muda na pressa e o que não muda no raciocínio? E se ele tivesse Glasgow 9 em vez de 13, o que acontece com a classificação do protocolo do cianeto? E se a queimadura circunferencial fosse no antebraço em vez do tórax — que sinal você vigia e de quanto em quanto tempo? E se o incêndio tivesse sido ao ar livre, num terreno, com a mesma queimadura de 25% — quantos dos oito marcos da conduta continuam de pé? E, a mais difícil: e se ele tivesse chegado às 3h20 sem rouquidão nenhuma, com tudo o mais igual, e você decidisse não intubar — o que você escreveria no prontuário para que a decisão fosse defensável às 6h, e de quanto em quanto tempo você teria de reavaliá-lo para que ela continuasse sendo?

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Agora atenda

Agora atenda: mulher de 52 anos, 64 quilos, retirada por vizinhos de um quarto em chamas numa casa de dois cômodos, há cerca de quarenta minutos, com a porta e a janela fechadas. Chega acordada e agitada, chamando pelo marido, com fuligem em torno da boca, sobrancelhas chamuscadas e queimadura avermelhada em face e pescoço, sem bolha. Fala frases curtas, com a voz mais grave do que a filha diz ser o normal dela. Saturação de 99% em ar ambiente. Você é o interno do plantão de um hospital de porte médio, com laringoscópio, tubos, aspirador e cirurgião de sobreaviso, sem cooximetria e sem hidroxocobalamina. Decida o que fazer com a via aérea, diga em voz alta o que pede à equipe, explique à filha por que a espera não é opção, e diga qual dos três problemas da fumaça você ainda não descartou nesta paciente.

Lesão inalatória e manejo de via aérea no queimado – A via aérea fecha enquanto você repõe — Internato | OsceLabs