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Superfície queimada e profundidade
Cálculo de superfície corporal queimada e classificação de profundidade
Uma conta feita errada muda todo o resto. As armadilhas são conhecidas: o eritema que não entra, a régua do adulto usada na criança, o olhômetro na queimadura salpicada.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2012. 20 p. (Série F. Comunicação e Educação em Saúde). Elaboração: Câmara Técnica de Queimaduras do Conselho Federal de Medicina
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ABA — critérios de consulta/transferência e classificação de profundidade [Acessar fonte](https://www.ameriburn.org/burn-care-team/resources/guidelines-for-burn-patient-referral)
Responda antes de ler
Menino de 9 anos é trazido com queimadura de segundo grau acometendo toda a cabeça e todo o pescoço, sem outras áreas atingidas. Você tem à mão o cartão da regra dos nove com a coluna única de 'criança e bebê', a regra dos nove corrigida pela idade e a tabela de Lund-Browder. Qual estimativa de área é a mais adequada, e por quê?
O paciente que você vai ver
Domingo, 21h40, pronto-socorro de um hospital geral de 120 leitos no interior. Um carro particular para na porta e três pessoas descem carregando um homem enrolado num lençol de cama. Ele anda, fala e grita. Tem 34 anos, é pedreiro, pesa uns 80 quilos. Estava no churrasco em casa; a brasa não pegava; ele jogou álcool líquido direto da garrafa sobre o carvão e o fogo subiu pela coluna de vapor até a garrafa e até ele. Foi há quarenta minutos. Os vizinhos cortaram a camisa, jogaram água de balde e trouxeram no carro.
Debaixo do lençol: a face e o pescoço estão vermelhos, quentes, muito doloridos, sem nenhuma bolha. O tórax e o abdome anteriores inteiros têm bolhas confluentes, algumas já rotas, com o fundo róseo e úmido. O membro superior direito está queimado do ombro à mão, em toda a circunferência, com bolhas na maior parte e duas placas esbranquiçadas e secas no dorso do antebraço. O antebraço esquerdo tem bolhas só na face anterior, numa faixa do tamanho de duas palmas da mão dele. As sobrancelhas e os cílios estão íntegros. A voz é a voz dele, sem rouquidão nem estridor. Ele fala frases inteiras e pede água. Foi ao ar livre.
A enfermeira já está com o acesso na mão e pergunta a única coisa que precisa saber para começar: quanto por cento. O plantonista está na sala de sutura, a duas portas. O centro de tratamento de queimados de referência fica a 180 quilômetros, e a regulação vai perguntar exatamente a mesma coisa.
O número que sair da sua boca nos próximos três minutos vai para o telefone da regulação, para a prescrição de volume, para o pedido de sonda, para o prontuário e para a passagem de plantão. Ele vai ser repetido por todo mundo nas próximas 24 horas, e quase ninguém vai refazer a conta.
Quem adoece disso
Entre 2008 e 2017, o SUS internou 170.554 pessoas por queimadura — taxa acumulada de 8,94 internações por 10 mil habitantes no decênio, mortalidade hospitalar de 3,56% e permanência média de 7,99 dias, ao custo médio de R$ 3.583,65 por internação. São cerca de 17 mil internações por ano no país inteiro. Traduzindo para o seu plantão: o hospital geral médio recebe queimado com frequência baixa o bastante para ninguém da equipe ter prática, e alta o bastante para acontecer com você. Ninguém no plantão vai lembrar a régua de cor; quem tiver a tabela impressa na parede acerta.
A maior parte nem interna. No viva Inquérito de 2017, que entrevistou vítimas de causas externas em serviços sentinela de urgência das capitais, houve 789 atendimentos por queimadura entre 48.532 entrevistas: 71,8% receberam alta da própria emergência, 16,3% internaram e 9,1% foram transferidos. Ou seja: em cerca de sete de cada dez atendimentos, o produto final do que você faz é uma classificação e uma orientação de retorno — e é por isso que a conta e o grau não são burocracia de prontuário, e sim a conduta.
O agente muda quem queima. Ainda no viva, substâncias quentes (água e outros líquidos) responderam por 52% das queimaduras, chegando a 65,1% entre mulheres; chama respondeu por 16,3%, chegando a 21,5% entre homens. O local foi a residência em 67,7% do total e em 92% da faixa de 0 a 15 anos. O pico etário foi entre 20 e 39 anos (40,7%). Na prática: adulto jovem do sexo masculino com chama, quase sempre com álcool líquido envolvido; mulher e criança com líquido quente, dentro de casa, na cozinha.
E quem mais queima é exatamente quem tem a régua diferente. Só na Região Sul, entre 2016 e 2020, foram 8.256 internações por queimadura de 0 a 14 anos; 4.748 delas — 57,5% — na faixa de 1 a 4 anos, a faixa em que a cabeça pesa quase o dobro do que pesa no adulto e as pernas pesam bem menos. A letalidade foi baixa, 0,76%, o que quer dizer que quase toda essa criança sobrevive para carregar o resultado do que foi feito na primeira hora.
Quando o caso é grande, o destino é escasso e distante. A rede federal de queimados tem dois níveis: os Hospitais Gerais, que fazem o primeiro atendimento e são todos os hospitais do SUS com condições para isso — sem limite de quantidade —, e os Centros de Referência em Assistência a Queimados, com teto de 68 unidades para o país inteiro, distribuídas por estado (14 em São Paulo, 7 em Minas Gerais, 5 no Rio de Janeiro, 5 na Bahia, 4 no Rio Grande do Sul, 4 no Paraná) e com 8 a 20 leitos cada. A distância entre o seu pronto-socorro e o centro mais próximo se mede em horas, e o que atravessa o telefone da regulação nesse intervalo é um número: o seu.
Por que acontece o que acontece
A pele faz duas coisas que a conta da queimadura mede: segura água dentro e segura calor dentro. As duas se perdem juntas, e as duas se perdem em proporção à área — não à gravidade da dor, não ao susto do paciente, não ao tamanho do curativo. Por isso a variável que governa tudo é um percentual de superfície, e não a impressão de quem olha.
O calor não produz uma lesão só; produz três faixas concêntricas, e é isso que explica por que o mesmo paciente parece ter uma queimadura na segunda-feira e outra na quarta. No centro, onde a temperatura foi maior e o tempo de contato mais longo, a proteína coagulou e o tecido está morto — é a zona de coagulação, e ela não volta. Em volta dela há uma faixa de tecido vivo mas mal perfundido, com o fluxo estrangulado pelo edema e pela trombose de microvasos: é a zona de estase, e ela é a que está em disputa. Mais externamente há apenas vasodilatação, com barreira preservada: é a zona de hiperemia, o eritema, e ela se resolve sozinha.
A zona de estase é o mecanismo por trás de duas frases do capítulo. Primeira: a queimadura aprofunda. Se a perfusão piorar — hipovolemia, hipotensão, vasoconstrição por frio, infecção —, o tecido que estava em estase morre, e o que era segundo grau superficial vira segundo grau profundo ou terceiro grau. Por isso não se afirma o grau na primeira avaliação e se reavalia o paciente em 48 a 72 horas. Segunda: reposição, aquecimento e analgesia não são conforto, são perfusão da zona de estase. Repor volume de menos não é apenas 'apertar um pouco'; é converter tecido recuperável em tecido morto.
O eritema fica de fora da conta por razão fisiológica, não por convenção. Na zona de hiperemia a epiderme está íntegra: não há bolha porque não há descolamento, não há exsudação porque a barreira está lá, e a lesão descama em 4 a 6 dias sem deixar nada. Quem soma eritema à superfície queimada está somando área que não perde plasma a uma conta cuja finalidade é estimar plasma perdido. O protocolo do SAMU escreve isso na própria fórmula, com todas as letras: o multiplicador é a porcentagem de superfície corporal queimada de segundo e terceiro graus. E os dois formulários oficiais de anotação — a regra dos nove e a adaptação de Lund-Browder da diretriz da AMB/CFM — têm coluna para 2º grau e coluna para 3º grau, e nenhuma coluna para 1º grau.
A perda de plasma acontece porque o calor e os mediadores liberados na queimadura tornam o capilar permeável — e não só o capilar da área queimada. Acima de uma extensão crítica, a permeabilidade vira sistêmica: o líquido sai do intravascular para o interstício do corpo inteiro, o paciente edemacia por toda parte, e o volume circulante cai sem que uma gota de sangue apareça. É a diferença que confunde o interno acostumado ao trauma: no choque hemorrágico se perde sangue e a hemoglobina cai; no choque do queimado se perde plasma e o hematócrito sobe, por hemoconcentração. Um hematócrito alto no queimado não é boa notícia — é a medida da desidratação. O manejo do choque hemorrágico tem capítulo próprio; o que interessa aqui é que a conta de área é o que dimensiona a perda.
O terceiro efeito da área é térmico, e ele é imediato. A pele queimada perde a barreira de evaporação e perde o controle vasomotor, e o paciente esfria depressa — mais depressa quanto maior a área, e mais ainda se estiver molhado, despido numa sala de emergência com ar-condicionado, recebendo cristaloide em temperatura ambiente. A hipotermia piora a coagulação e piora a perfusão da zona de estase, ou seja, aprofunda a queimadura. É por isso que a sequência correta termina em cobrir e aquecer, e que a irrigação para resfriar tem um limite: o que resfria a lesão também resfria o doente.
Por último, a proporção do corpo humano muda com a idade, e é isso — não uma escolha de escola — que obriga a mudar de régua. Na tabela de Lund-Browder, a cabeça vale 19% no lactente e 7% no adulto; cada coxa vale 5,5% no lactente e 9,5% no adulto. A criança pequena é uma cabeça grande sobre pernas curtas. Usar a régua do adulto nela não erra sempre para o mesmo lado: erra para menos quando a queimadura pega a cabeça, e erra para mais quando pega as pernas.

Como se apresenta de verdade
O queimado do livro é uma silhueta hachurada com percentuais impressos ao lado. O queimado que entra pela porta é um corpo sujo, molhado, coberto por um lençol que grudou, com dor que não deixa examinar e com uma família falando junto. O espectro abaixo é a distância entre os dois.
Profundidade: o que dói e o que enche, não o que é vermelho
A cor engana em três direções. Pele muito pigmentada esconde eritema e esconde palidez; fuligem faz parecer terceiro grau o que é segundo; área ainda molhada brilha e parece mais superficial do que é. Os dois sinais que resistem a isso são a dor e o enchimento capilar da própria lesão.
Primeiro grau atinge só a epiderme: eritema, sem bolha, dor viva, descamação em 4 a 6 dias. Não forma bolha porque não houve descolamento da epiderme — e é por isso que ele não entra na conta.
Segundo grau atinge epiderme e parte da derme, e a marca é a bolha. A divisão em dois muda prognóstico e destino. No superficial, o fundo da bolha é róseo, úmido e muito doloroso, e o enchimento capilar volta rápido quando você comprime: a rede vascular dérmica está viva. No profundo, o fundo é branco, seco, a sensibilidade está reduzida e o enchimento é lento ou ausente. O segundo grau restaura entre 7 e 21 dias, e o profundo costuma precisar de enxertia, como o terceiro.
Terceiro grau é espessura total: placa esbranquiçada ou enegrecida, textura de couro, seca, sem enchimento capilar — e indolor, porque as terminações nervosas foram destruídas junto com a derme. Não reepiteliza. A indolência é sinal, não alívio: a área que não dói dentro de um paciente que grita é a área mais grave que ele tem.
Duas notas práticas. Procure a dor com toque leve e limpo, nunca com agulha ou pinça, e compare o que dói com o que não dói no mesmo paciente. E descreva em vez de rotular: 'placa branca, seca, sem enchimento, insensível, no dorso do antebraço, do tamanho de uma palma' vale mais no prontuário do que 'terceiro grau', porque quem receber o paciente amanhã vai poder comparar.
A queimadura muda de cara em 48 horas — e não foi você que errou
O grau não se afirma na primeira avaliação. A lesão que você classificou como segundo grau superficial na admissão pode estar branca e insensível em 48 a 72 horas: a zona de estase perdeu a disputa e o tecido aprofundou. Infecção e instabilidade hemodinâmica são os dois motores clássicos disso, mas hipotermia e reposição insuficiente entram na mesma lista.
Isso tem duas consequências operacionais. Primeira: escreva no prontuário 'segundo grau superficial na avaliação inicial, a reavaliar em 48 a 72 horas' — não 'segundo grau superficial', ponto final. Segunda: quando o cirurgião reclassificar para mais profundo no terceiro dia, o interno que admitiu não errou o exame; o paciente evoluiu. Trate isso como fato biológico e não como falha, porque a alternativa é o hábito ruim de classificar por excesso na admissão para 'não errar', e classificar por excesso na admissão infla a área e infla a reposição.
A área tende a ser mais estável que a profundidade nas primeiras horas, mas não é imutável: a demarcação de bordas fica mais clara depois que o edema se estabelece, e queimadura salpicada quase sempre aparece maior quando reexaminada com o paciente limpo e com boa luz. Por isso a conta da admissão é uma estimativa que se confirma, e a reavaliação recalcula a área junto com o grau.
As formas que não parecem uma queimadura grave — e são
Queimadura elétrica é a armadilha clássica de área: entrada e saída podem somar meio por cento de superfície, e o percurso da corrente entre elas destrói músculo em profundidade, com risco de rabdomiólise, arritmia e síndrome compartimental. A régua de área não mede esse dano — por isso a cartilha do Ministério da Saúde e a diretriz da AMB/CFM classificam a queimadura elétrica como grave e como indicação de centro de queimados independentemente do percentual.
Queimadura química é progressiva: continua queimando enquanto o agente estiver na pele, e a área anotada na chegada pode ser menor do que a real vinte minutos depois. Também tem indicação de centro especializado em qualquer idade e extensão.
Queimadura circunferencial de tórax ou de membro é mecânica, não percentual: a escara não distende, o edema aumenta por baixo dela, e o resultado é restrição da expansão torácica ou isquemia distal — com área total modesta.
Queimadura de área nobre rompe a lógica do percentual pelo desfecho funcional. Olhos, orelhas, face, pescoço, mãos, pés, região inguinal, genitália e grandes articulações (ombro, axila, cotovelo, punho, coxofemoral, joelho, tornozelo) entram nesta lista porque dois por cento na mão custam mais função do que quinze por cento no dorso.
O que a queimadura muda no paciente que já é grave por outro motivo
No politraumatizado, a ordem não muda por causa do fogo: trata-se primeiro o trauma e os efeitos sistêmicos, e depois a queimadura — o protocolo do SAMU diz isso literalmente, e a razão é temporal, porque pneumotórax hipertensivo e hemorragia matam em minutos e a queimadura em horas. O que a queimadura acrescenta à avaliação primária, que tem capítulo próprio, é uma via aérea que pode fechar por edema, perda de calor acelerada, e a obrigação de expor o corpo inteiro para contar a área — exposição que agrava a hipotermia.
Nos extremos de idade, os dois erros de conta custam caro por motivos opostos: errar para mais joga volume num coração que não o acomoda; errar para menos hipoperfunde um rim sem reserva. A cartilha do Ministério da Saúde reconhece isso ao classificar como grave qualquer queimadura acima de 65 anos ou abaixo de 3 anos, independentemente da extensão, e ao mandar iniciar o cálculo de hidratação com multiplicador menor no idoso, no nefropata e no cardiopata. E a criança abaixo de 3 anos é exatamente a faixa em que a régua do adulto erra mais.
Na gestante o cálculo de área é o mesmo, mas o abdome gravídico distorce a proporção do tronco anterior, e a hipovolemia materna reduz a perfusão uterina antes de alterar a pressão da mãe. A decisão aqui é não subestimar a área do tronco por causa do formato; a conduta obstétrica tem capítulo próprio.
A criança queimada e a pergunta que se faz sempre
Pesquisar maus-tratos em toda criança queimada está escrito na diretriz da AMB/CFM como parte dos cuidados iniciais, ao lado de pesquisar alergias e de investigar trauma associado. Não é uma acusação; é um item de rotina, como perguntar a última menstruação numa mulher em idade fértil.
A régua de suspeita é a mesma do exame físico de qualquer lesão provocada. Queimadura 'em meia' ou 'em luva' — bordas nítidas, circunferenciais, terminando numa linha reta no tornozelo ou no punho, com poupança das dobras de flexão — é o desenho de um pé ou de uma mão mergulhados em líquido quente e mantidos ali; escaldadura acidental respinga, faz bordas irregulares e satélites. Queimadura em nádegas e genitália, a forma de um objeto impressa na pele (cinto, fio, garfo, ponta de cigarro) e lesões em locais pouco sujeitos a trauma acidental compõem o mesmo quadro. Somam-se a incompatibilidade entre a história contada e a lesão vista, a mudança da versão entre um adulto e outro, o atraso desproporcional na procura de atendimento e a presença de lesões em estágios diferentes de evolução.
O que fazer com a suspeita — notificação compulsória, quem aciona, o que se escreve no prontuário, como se conversa com a família — pertence ao capítulo de violência e maus-tratos na infância. O que pertence a este é: descrever a lesão com desenho, medida e localização exatas antes de qualquer curativo, porque a partir do primeiro curativo o padrão desaparece, e o padrão é o dado.

Como fechar o diagnóstico
Neste capítulo o exame que fecha o diagnóstico não vem do laboratório: é a conta. Ela é feita com o paciente despido, com boa luz, com uma tabela na mão, e leva menos tempo do que preencher o pedido de hemograma. Tudo o que vem depois — volume, sonda, destino, prognóstico — é derivado dela.
A ordem importa. Primeiro se para a queimadura, depois se despe, depois se conta, depois se classifica a profundidade. Contar antes de despir subestima; contar por cima de roupa, curativo ou fuligem subestima mais ainda.
Antes de contar: parar a queimadura e despir
A queimadura não termina quando o fogo apaga: tecido embebido em líquido quente, resina, piche ou agente químico continua entregando calor, e queimadura química é progressiva por definição. Por isso, antes de contar, para-se a queimadura, retira-se roupa não aderida e retiram-se anéis, aliança, brincos, pulseiras, relógio e cinto — em uma hora o edema não deixa mais. O que estiver colado à pele fica: puxar arranca epiderme viva.
Depois disso, tira-se tudo. Contar área com o paciente parcialmente vestido é a fonte mais banal de erro para menos, e a que aparece no prontuário como 'aproximadamente 15%' quando eram 29%. O dorso é a região mais esquecida: vire o paciente, em bloco se houver suspeita de trauma. Fuligem, curativo improvisado e água de balde escondem lesão e enganam a profundidade.
E cubra o que já foi contado. A exposição necessária para a conta é a mesma que produz hipotermia, e no queimado a hipotermia aprofunda a lesão. Contou um segmento, cobriu o segmento.
As três réguas, e qual usar em quem
Existem três instrumentos disponíveis no Brasil, e eles não são intercambiáveis. A regra dos nove divide o corpo em múltiplos de nove e serve para produzir um número em segundos; a própria diretriz da AMB/CFM imprime a tabela com a legenda de que ela deve ser usada apenas no pronto atendimento. A tabela de Lund-Browder tem uma coluna de percentuais para cada faixa etária e é a única que acompanha a proporção do corpo com a idade. A regra da palma usa a superfície palmar do paciente, incluindo os dedos, como equivalente a 1% da superfície corporal.
No adulto, a regra dos nove é: cabeça e pescoço 9%, cada membro superior 9%, tronco anterior 18%, tronco posterior 18%, cada membro inferior 18%, genitais 1%. Fecha 100.
Na criança, a mesma tabela dos protocolos do SAMU traz uma coluna única de 'criança e bebê': cabeça e pescoço 18%, cada membro superior 9%, tronco anterior 18%, tronco posterior 18%, cada membro inferior 13,5%, genitais 1%. Também fecha 100. O problema não é a aritmética, é a idade: uma coluna só para tudo entre o recém-nascido e o pré-adolescente atribui 18% de cabeça a uma criança de 9 anos, que já tem cabeça de tamanho quase adulto.
A diretriz da AMB/CFM resolve isso de outro jeito, com uma regra dos nove corrigida pela idade, válida até os 9 anos: cabeça e pescoço valem 18% menos a idade em anos; cada coxa e cada conjunto perna-com-pé valem 7% mais um quarto da idade em anos; os membros superiores e o tronco ficam iguais aos do adulto. Também fecha 100 em qualquer idade da faixa. Essa é a régua de bolso pediátrica, e ela cabe numa linha do prontuário.
A tabela de Lund-Browder é a mais exata porque não estima: ela lista dezenove segmentos e dá o valor de cada um em cinco faixas etárias (até 1 ano, 1 a 4, 5 a 9, 10 a 16 e adulto). A cabeça vai de 19% no lactente a 7% no adulto; cada coxa vai de 5,5% a 9,5%; cada perna de 5% a 7%; pescoço, tronco, nádegas, genitália, braços, antebraços, mãos e pés têm valor fixo em todas as idades. As cinco colunas fecham exatamente 100%.
A decisão deste capítulo, escrita para ser seguida: no adulto, conte pela regra dos nove e confira com a palma nos segmentos parcialmente queimados. Na criança abaixo de 10 anos, use Lund-Browder; se a tabela não estiver disponível na sala, use a regra corrigida pela idade da diretriz da AMB/CFM, e não a coluna única de 'criança e bebê'. A razão é aritmética e está demonstrada no bloco de tabelas: nos dois extremos da faixa pediátrica, a coluna única erra em até nove pontos percentuais, e nove pontos num paciente de 15 quilos são quase um litro de diferença no primeiro dia.
A régua da palma resolve a queimadura salpicada, a irregular e a que pega parte de um segmento. Conte quantas palmas do paciente cabem na lesão e some — cada uma vale 1%. Duas advertências: a palma inclui os dedos unidos, não é só a região tênar-hipotênar; e a mão é sempre a do paciente. Sobre um adulto de 1,97 m² de superfície corporal, 1% são cerca de 197 cm². Sobre uma criança de 2 anos com 0,54 m², 1% são cerca de 54 cm². A sua mão de adulto apoiada nessa criança cobre quase 3,7% dela: quem conta 'quatro palmas minhas' num pré-escolar anota 4% e queimou 15%.
A conta, feita no paciente da porta
Volte ao homem de 34 anos e 80 quilos. Ele tem quatro regiões acometidas e uma delas não conta.
Face e pescoço: eritema difuso, sem bolha, muito doloroso. É primeiro grau. Anota-se na descrição e fica fora da soma.
Tronco anterior: bolhas confluentes em toda a parede anterior. Pela regra dos nove, tronco anterior inteiro vale 18%.
Membro superior direito: queimado do ombro à mão, em toda a circunferência. Membro superior inteiro vale 9%.
Antebraço esquerdo: bolhas na face anterior, numa faixa do tamanho de duas palmas da mão dele. Duas palmas valem 2%.
Soma: 18 + 9 + 2 = 29% de superfície corporal queimada de segundo e terceiro graus. Esse é o número que vai para o telefone, para a prescrição e para o prontuário — e ele vem acompanhado da descrição, não sozinho: '29% de SCQ de 2º e 3º graus, mais eritema de face e pescoço não computado'.
Neste caso, a soma correta é 29%: tórax e abdome anteriores completos (18%), membro superior direito inteiro (9%) e área equivalente a duas mãos palmares com dedos (aproximadamente 2%) no antebraço esquerdo. Eritema superficial da face e do pescoço não entra. Tórax anterior isolado vale 9%; não confundir com tronco anterior. Fórmulas de reposição fornecem estimativas iniciais que exigem titulação pela resposta e diurese.
A conta também decide, sozinha, três coisas na porta: se este paciente é grande queimado (é: segundo grau acima de 20% em maior de 12 anos), se ele leva sonda vesical (leva: acima de 20% em adulto) e se ele vai ser transferido (vai). Nenhuma dessas três decisões espera exame.
O que entra e o que não entra na soma
Entra: segundo grau superficial, segundo grau profundo e terceiro grau. Não entra: primeiro grau. A regra está escrita por extenso na fórmula do protocolo do SAMU — porcentagem de SCQ de 2º e 3º grau — e está desenhada nos dois formulários oficiais de anotação, que têm coluna para segundo grau, coluna para terceiro grau e nenhuma para primeiro.
O motivo de essa ser a armadilha número um é psicológico: o eritema é o que mais chama a atenção e o que mais dói. Um paciente com a face vermelha e berrando parece pior do que um paciente com uma placa branca e calada no antebraço, e é o contrário. Contar eritema é a forma mais comum de inflar a área, e área inflada é volume inflado — edema pulmonar, edema de partes moles sob escara circunferencial, síndrome compartimental, mais dias de ventilação.
Duas zonas cinzentas honestas. A primeira: bolha rota, com o fundo exposto, é segundo grau e conta — o fato de a bolha ter estourado no caminho não faz a lesão desaparecer. A segunda: área que está apenas hiperemiada agora mas tem o fundo mais pálido no centro e enchimento capilar lento é provável segundo grau em evolução; na dúvida entre eritema e segundo grau superficial, descreva e reavalie, e não some por precaução. A precaução aqui não é neutra: ela empurra volume para dentro de um paciente que já vai edemaciar.
Anote como conta única e por segmento. 'SCQ 29%' sem discriminar de onde saiu é um número que ninguém consegue conferir. Escrever 'tronco anterior 18, MSD 9, antebraço E 2 = 29' permite que o cirurgião do centro de queimados refaça a conta em dez segundos, e permite que a reavaliação de 48 horas compare segmento a segmento.
O que pedir de exame, o que não pedir, e o que custa pedir
Nenhum exame define a área. A conta é clínica e vem primeiro; os exames que valem a pena servem para outra coisa — dar linha de base para acompanhar a resposta e procurar o que a queimadura esconde.
No paciente com indicação de reposição calculada: hemograma com hematócrito (a linha de base contra a qual se lê a hemoconcentração dos dias seguintes), sódio, potássio, ureia, creatinina e glicemia — a cartilha do Ministério da Saúde pede atenção à glicemia em crianças e diabéticos. Gasometria com lactato entra quando há sinal de má perfusão, não como rotina.
Se houve fogo em ambiente fechado, some carboxi-hemoglobina — e guarde a armadilha do oxímetro: o monóxido de carbono tem afinidade cerca de 200 vezes maior que o oxigênio pela hemoglobina, e o aparelho não distingue carboxi de oxi-hemoglobina. Saturação de 98% em quem saiu de um incêndio não exclui intoxicação; na suspeita, oxigênio na maior concentração disponível, independentemente da leitura.
Na queimadura elétrica: monitorização cardíaca contínua por 24 a 48 horas, eletrocardiograma, CPK e CK-MB, e atenção à cor da urina, porque hemoglobinúria e mioglobinúria mudam a meta de diurese. Beta-hCG em mulher em idade fértil, como em qualquer emergência.
Do outro lado, quatro pedidos que custam mais do que rendem. Cultura de superfície da ferida na admissão responde uma pergunta que ninguém fez — toda queimadura coloniza, e a superfície inteira estará contaminada em cerca de 48 horas — e o resultado, lido dias depois por outra equipe, vira antibiótico. Antibiótico sistêmico profilático está explicitamente desaconselhado na diretriz da AMB/CFM, com grau de recomendação B, e restrito na cartilha do Ministério da Saúde às queimaduras com sinais de infecção: o custo é seleção de flora resistente num paciente que ficará semanas internado, sem barreira cutânea e com vários acessos. Corticoide de rotina, por qualquer via, também está desaconselhado. E enzimas cardíacas em queimadura puramente térmica, sem componente elétrico, só ocupam leito monitorizado.
Radiografia de tórax não é rotina de admissão sem suspeita de inalação e sem trauma associado; vira rotina diária depois, no paciente de terapia intensiva. E vale dizer com todas as letras: nenhum exame precisa chegar antes da conta de área. Segurar a conta esperando exame é o atraso mais caro deste capítulo, porque tudo o que vem depois está atrasado junto.
O que não é queimadura, e parece
O diferencial mora aqui porque o mesmo dado que confirma um exclui o outro. Descolamento epidérmico extenso com sinal de Nikolsky, acometimento de mucosas (oral, ocular, genital), febre e uso recente de medicamento apontam para síndrome de Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica — que se parecem com segundo grau extenso, não têm agente térmico na história e, pela diretriz da AMB/CFM, também devem ser encaminhadas a centro de tratamento de queimados. A pergunta que separa é banal e quase nunca é feita: houve calor?
Erisipela e celulite bolhosa dão bolha sobre pele vermelha e quente, mas com borda inflamatória progressiva, febre e evolução de dias, não de minutos. Dermatite de contato aguda dá eritema e vesículas com o desenho do agente, com prurido e sem dor de queimadura. Queimadura por frio produz lesão de aspecto semelhante e conta como queimadura para efeito de área.
E há o diferencial que não é de doença, e sim de história: escaldadura acidental respinga, faz bordas irregulares, satélites e profundidade desigual; imersão faz bordas nítidas, nível horizontal, profundidade uniforme e poupa as dobras de flexão. As duas produzem o mesmo percentual, e não é a área que as separa.
Os sinais que obrigam a pensar em via aérea
A conta de área não enxerga a lesão que mata mais rápido. Fogo em ambiente fechado, queimadura de face, rouquidão, estridor, escarro carbonáceo, dispneia, queimadura das vibrissas e insuficiência respiratória são os sinais que a cartilha do Ministério da Saúde lista como suspeita de lesão inalatória; os protocolos do SAMU acrescentam olhar deliberadamente para cílios, sobrancelhas e pelos do nariz.
O que muda a decisão é o relógio. O edema de via aérea no queimado é progressivo e se instala nas horas seguintes, junto com a reposição; a janela em que a intubação é fácil vai se fechando enquanto o paciente ainda conversa. Uma voz que muda, uma rouquidão nova ou um estridor que aparece não são sinais para observar mais um pouco — são a decisão. Quem decide tarde intuba uma laringe edemaciada, e a diferença entre uma via aérea eletiva e uma via aérea de resgate no queimado costuma ser de minutos.
A escolha da técnica, o preparo e a sequência são do capítulo Via aérea no trauma, na apostila de Trauma; o reconhecimento do gatilho dentro do incêndio e o manejo ventilatório do pulmão inalado são do capítulo A via aérea fecha enquanto você repõe, nesta apostila. O que este capítulo pede do interno é reconhecer o gatilho, chamar quem intuba imediatamente, elevar a cabeceira e ofertar oxigênio em alta concentração enquanto essa pessoa vem — e não deixar que a conta de área consuma o tempo dessa decisão. Se houver escolha entre contar percentuais e chamar quem intuba, chame primeiro.
O que existe no SUS
A régua é papel. A tabela de Lund-Browder, a regra dos nove e a régua da palma custam uma impressão, e plastificadas na parede da sala de emergência resolvem a maior parte dos erros descritos aqui.
O resto do arsenal deste capítulo existe na rede: dipirona e morfina em qualquer carro de emergência; vacina dupla adulto, imunoglobulina humana antitetânica e soro antitetânico pelo Programa Nacional de Imunizações; sulfadiazina de prata a 1% como tópico padronizado.
O que é escasso é o destino — 68 centros de referência no teto nacional, com 8 a 20 leitos cada — e o transporte, que no paciente grave exige ambulância com suporte avançado e médico acompanhante. Por isso a transferência se solicita depois da estabilização e das medidas iniciais, com leito reservado, e o intervalo entre a sua conta e a saída da ambulância se mede em horas.
A norma federal organiza a rede e atribui aos estados a definição dos fluxos de referência e contrarreferência. Na prática: os critérios clínicos você lê na cartilha do Ministério da Saúde e na diretriz da AMB/CFM, mas o telefone, o formulário e a fila são estaduais. Descobrir qual é o seu centro de referência e como se aciona a regulação é tarefa de primeiro dia de plantão, não de primeira transferência.
As réguas, os cortes e os primeiros trinta minutos
A medida de área e profundidade orienta o cuidado, mas não precede ameaças à vida. O interno deve conseguir descrever a lesão, justificar a estimativa e reconhecer quando ela precisa ser refeita.
- 1Interrompa a exposição e faça avaliação primária em paralelo. Via aérea, ventilação, choque e trauma associado têm prioridade; acione ajuda cedo quando houver gravidade.
- 2Retire adornos e roupas soltas. Em queimadura térmica recente, resfrie com água corrente por até 20 minutos no total, idealmente nas primeiras três horas, pausando se houver hipotermia ou instabilidade. Não usar gelo.
- 3Exponha por segmentos com analgesia e prevenção de perda de calor. Inclua dorso e regiões ocultas; cubra novamente após avaliar.
- 4Conte apenas queimaduras dérmicas e de espessura total. Eritema exclusivamente epidérmico não entra na SCQ utilizada para ressuscitação.
- 5Use Lund-Browder ajustado à idade na criança. No método palmar, declare a unidade: superfície palmar inteira da mão do paciente, incluindo dedos, aproxima 1%; palma sem dedos é menor e não é a mesma referência.
- 6Avalie profundidade por conjunto de cor, umidade, branqueamento/enchimento capilar e sensibilidade. A classificação é inicial e pode mudar; nenhum sinal isolado é suficiente.
- 7Relacione área a idade, localização, mecanismo, inalação, comorbidades e capacidade de cuidado. Critério de consulta ao centro de queimados não é o mesmo que limiar para fórmula de fluidos.
- 8Registre mapa, método, hora, terapias e plano. Reavalie em 48–72 horas ou antes se houver deterioração; organize retorno e prevenção de sequelas.
1º grau — espessura superficial
Só a epiderme. Eritema sem bolha, dor viva, enchimento capilar rápido, descamação em 4 a 6 dias. Não entra na soma da superfície queimada: a barreira está íntegra e não há perda de plasma.
2º grau superficial — espessura parcial superficial
Epiderme e parte superficial da derme. Bolha com fundo róseo e úmido, muito dolorosa, enchimento capilar rápido. Restaura entre 7 e 21 dias. Entra na soma.
2º grau profundo — espessura parcial profunda
Epiderme e derme profunda. Fundo da bolha branco e seco, dor reduzida, enchimento capilar lento ou ausente. Costuma precisar de enxertia, como o terceiro grau. Entra na soma.
3º grau — espessura total
Epiderme, derme e estruturas profundas. Placa esbranquiçada ou enegrecida, seca, textura de couro, sem enchimento capilar e indolor. Não reepiteliza. Entra na soma — e, em qualquer extensão, é critério de centro de queimados.
| Grau | Camada atingida | Aspecto | Dor | Enchimento capilar | Evolução | Entra na conta? |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1º grau | só a epiderme | eritema, sem bolha | dor viva | rápido | descama em 4 a 6 dias | não |
| 2º grau superficial | epiderme e derme superficial | bolha de fundo róseo e úmido | muito dolorosa | rápido | restaura em 7 a 21 dias | sim |
| 2º grau profundo | epiderme e derme profunda | bolha de fundo branco e seco | dor reduzida | lento ou ausente | costuma exigir enxertia | sim |
| 3º grau | epiderme, derme e estruturas profundas | placa branca ou enegrecida, textura de couro | indolor | ausente | não reepiteliza; exige enxertia | sim |
As réguas de área, lado a lado
| Segmento | Regra dos nove — adulto | Regra dos nove — coluna 'criança e bebê' (SAMU) | Regra dos nove corrigida pela idade (AMB/CFM, até 9 anos) | Lund-Browder — 1 a 4 anos | Lund-Browder — adulto |
|---|---|---|---|---|---|
| Cabeça e pescoço | 9% | 18% | 18% menos a idade em anos | 19% | 9% |
| Cada membro superior | 9% | 9% | 9% | 9,5% | 9,5% |
| Tronco anterior | 18% | 18% | 18% | 13% | 13% |
| Tronco posterior | 18% | 18% | 18% | 13% | 13% |
| Nádegas (as duas) | incluídas no tronco posterior | incluídas no tronco posterior | incluídas no tronco posterior | 5% | 5% |
| Genitália | 1% | 1% | sem linha na coluna infantil | 1% | 1% |
| Cada membro inferior | 18% | 13,5% | 2 × (7% mais ¼ da idade) | 15% | 20% |
| Soma | 100% | 100% | 100% | 100% | 100% |
A mesma queimadura, três idades — o que cada régua responde
| Lesão | Régua usada | Adulto | Criança de 2 anos | Criança de 9 anos |
|---|---|---|---|---|
| Cabeça e pescoço inteiros | regra dos nove do adulto | 9% | 9% — régua errada | 9% — régua errada |
| Cabeça e pescoço inteiros | coluna 'criança e bebê' (SAMU) | — | 18% | 18% |
| Cabeça e pescoço inteiros | corrigida pela idade (AMB/CFM) | — | 16% | 9% |
| Cabeça e pescoço inteiros | Lund-Browder | 9% | 19% | 15% |
| Os dois membros inferiores inteiros | regra dos nove do adulto | 36% | 36% — régua errada | 36% — régua errada |
| Os dois membros inferiores inteiros | coluna 'criança e bebê' (SAMU) | — | 27% | 27% |
| Os dois membros inferiores inteiros | corrigida pela idade (AMB/CFM) | — | 30% | 37% |
| Os dois membros inferiores inteiros | Lund-Browder | 40% | 30% | 34% |
Pequeno, médio e grande queimado (Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2008)
| Classificação | Até 12 anos | Acima de 12 anos | Independe da extensão |
|---|---|---|---|
| Pequeno queimado | 2º grau até 5% da SCQ | 2º grau até 10% da SCQ | 1º grau em qualquer extensão e qualquer idade |
| Médio queimado | 2º grau de 5 a 15%; 3º grau até 5% fora de face, mão, períneo e pé | 2º grau de 10 a 20%; 3º grau até 10% fora de face, mão, períneo e pé | qualquer 2º grau em mão, pé, face, pescoço, axila ou grande articulação |
| Grande queimado | 2º grau acima de 15%; 3º grau acima de 5% | 2º grau acima de 20%; 3º grau acima de 10% | 2º ou 3º grau em períneo; 3º grau em mão, pé, face, pescoço ou axila; queimadura por corrente elétrica |
| Grande queimado por agravante | qualquer extensão somada a um agravante | qualquer extensão somada a um agravante | lesão inalatória, politrauma, fratura, trauma craniano, choque, insuficiência renal, cardíaca ou hepática, diabetes, distúrbio de coagulação, embolia pulmonar, infarto, infecção grave que exija antibiótico venoso, síndrome compartimental ou doença consuptiva |
Quem vai para o centro de tratamento de queimados — as duas listas nacionais
| Critério | Cartilha do Ministério da Saúde (2012) | Projeto Diretrizes AMB/CFM (2008) |
|---|---|---|
| 2º grau no adulto | acima de 20% da SCQ | acima de 10% da SCQ, em qualquer idade |
| 2º grau na criança | acima de 10% da SCQ | acima de 10% da SCQ, em qualquer idade |
| Idade | acima de 10% também para maiores de 50 anos | entra pela via dos problemas médicos preexistentes |
| 3º grau | qualquer extensão | qualquer idade |
| Localização | face, olhos, períneo, mãos, pés e grandes articulações | face, mão, pé, genitália, períneo, pescoço e grandes articulações |
| Agente | queimadura elétrica e queimadura química | elétrica, inclusive por raio, e química, em qualquer idade |
| Via aérea e lesões circulares | lesão inalatória; lesão circunferencial de tórax ou de membros | lesão por inalação em qualquer idade |
| Contexto | doenças associadas, tentativa de autoextermínio, politrauma, maus-tratos ou situação social adversa | problema médico preexistente que complique o cuidado; trauma concomitante; criança em hospital sem equipe ou equipamento; necrólise epidérmica tóxica |
Profilaxia antitetânica: a queimadura é ferimento de ALTO risco (Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed. revisada, 2024)
| História vacinal | Vacina | IGHAT ou SAT | Observação |
|---|---|---|---|
| Incerta ou menos de três doses | sim — vacinar e aprazar as doses restantes para completar o esquema básico | sim | vacina e imunização passiva em grupos musculares diferentes |
| Três ou mais doses, última há menos de 5 anos | não | não | só limpeza do ferimento e remoção de tecido desvitalizado |
| Três ou mais doses, última entre 5 e 10 anos | sim — um reforço | não | imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso: indicar também IGHAT ou SAT |
| Três ou mais doses, última há 10 anos ou mais | sim — um reforço | não | mesma ressalva do imunodeprimido, do desnutrido grave e do idoso |
| Três ou mais doses, última há 10 anos ou mais, em situação especial | sim — um reforço | sim | quando houver dúvida de que os cuidados posteriores com o ferimento serão adequados |
| Produtos e doses | dT (dupla adulto) a partir dos 7 anos; esquema de três doses com 60 dias de intervalo, mínimo de 30; reforço a cada dez anos | IGHAT 250 UI por via intramuscular (dose profilática); SAT 5.000 UI por via intramuscular, em duas massas musculares | a IGHAT tem meia-vida maior e é a escolha no imunodeprimido |
Aprofundamento documental — leitura complementar. O formulário de Lund-Browder impresso na diretriz da AMB/CFM tem um defeito de diagramação que atrapalha quem o usa como está: ele lista mão direita e pé direito, mas não tem linha para mão esquerda nem para pé esquerdo, e repete duas vezes as linhas de coxa esquerda e perna esquerda. Além disso, as colunas de idade vêm em branco, sem os percentuais. Usado assim, ele é uma folha de anotação sem a tabela que faz o Lund-Browder ser Lund-Browder. A tabela com os valores por faixa etária está na primeira tabela deste bloco e é ela que deve ser impressa junto.
Aprofundamento documental — leitura complementar. A coluna infantil da regra dos nove da mesma diretriz não tem linha de genitália — e é por isso que ela fecha exatamente 100% sem esse 1%. Consequência prática: numa criança com queimadura perineal, essa régua não tem onde registrar a lesão, e o percentual sai por baixo. Use Lund-Browder, que tem a linha em todas as idades.
Aprofundamento documental — leitura complementar. A coluna única de 'criança e bebê' dos protocolos pré-hospitalares atribui 18% de cabeça e pescoço a qualquer criança. Numa criança de 9 anos, cuja cabeça já vale entre 9 e 15%, isso infla a conta em até nove pontos percentuais — mais de um litro a mais no primeiro dia num paciente de 29 quilos. É uma estimativa de rua, feita para caber num cartão de bolso; no hospital, use a tabela por faixa etária.
Aprofundamento documental — leitura complementar. As classes de gravidade descrevem tendência, não gaveta, e os cortes de área nunca decidem sozinhos. Um adulto com 12% de segundo grau é 'médio queimado' pela diretriz da AMB/CFM e, ao mesmo tempo, tem critério de encaminhamento a centro especializado pela lista de triagem da mesma diretriz — gravidade e destino respondem a perguntas diferentes. E uma queimadura elétrica de 1% é grande queimado por definição, assim como 5% em face e mão vai para centro especializado.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a do homem de 34 anos e 80 quilos, 29% de segundo e terceiro graus, queimadura por chama ao ar livre há quarenta minutos, sem sinal de lesão inalatória. As doses valem para o adulto; a coluna pediátrica aparece onde muda. O que este capítulo entrega é a conta e o que se faz com ela nas primeiras horas — a reposição volêmica calculada, a via aérea avançada e o cuidado da ferida têm capítulo próprio e aparecem aqui apenas no ponto em que a conta os aciona.
Minuto 0 a 1 — a porta, e a via aérea antes da pele
Interromper a exposição e identificar ameaças à vida são medidas coordenadas desde o primeiro minuto. Primeiro parar a queimadura e ganhar tempo contra o edema — este paciente chegou com um lençol de casa colado a parte do tórax; o que sair sem tração sai, o que estiver aderido fica para o banho, com analgesia. Alguém pergunta e anota a hora exata do acidente, porque todo cálculo de reposição conta a partir dela e não da chegada, e ele já perdeu quarenta minutos na estrada. Em seguida, quinze segundos de via aérea: voz normal, sem rouquidão, sem estridor, sem escarro carbonáceo, vibrissas e sobrancelhas íntegras, acidente ao ar livre. A resposta é tranquilizadora e não encerra o assunto — encerra a decisão de agora, e a pergunta volta a cada reavaliação. Se qualquer sinal estivesse presente, a ordem se inverteria: chamar quem intuba primeiro, contar percentuais depois.
Prescrição- Afastar o agente; retirar roupas não aderidas; deixar no lugar o que estiver colado à pele.
- Retirar anéis, aliança, brincos, pulseiras, relógio e cinto — em uma hora o edema não deixa mais, e um anel esquecido vira torniquete.
- Registrar a hora exata da queimadura no prontuário, em destaque.
- Perguntar e ouvir a voz; olhar deliberadamente cílios, sobrancelhas, vibrissas e orofaringe.
- Se houver suspeita de lesão inalatória: cabeceira a 30°, oxigênio na maior concentração disponível (máscara não reinalante, 10 a 15 L/min) e chamada imediata de quem faz via aérea avançada, sem esperar exame.
- Fogo em ambiente fechado: manter oxigênio a 100% e lembrar que o oxímetro não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina — saturação normal não exclui intoxicação por monóxido de carbono.
Minuto 2 a 8 — resfriar, despir e contar
Aqui nasce o número. Resfriamento com água corrente na temperatura da torneira ou soro fisiológico, cerca de 20 minutos, por segmentos, secando e cobrindo o que já foi resfriado. Depois o paciente é despido por inteiro, virado para o dorso ser visto, e contado segmento a segmento com a régua da idade: tronco anterior 18, membro superior direito 9, antebraço esquerdo 2 — 29% de segundo e terceiro graus. Face e pescoço em eritema, fora da soma.
Prescrição- Água corrente limpa por cerca de 20 minutos no total, idealmente até três horas após lesão térmica, protegendo o restante do corpo. Interromper/pausar se hipotermia ou instabilidade. Nunca gelo; em lesão química seguir descontaminação específica.
- Nada de café, babosa, manteiga, margarina, óleo de cozinha, pasta de dente, pomada ou creme sem prescrição sobre a lesão.
- Não romper nem perfurar bolhas na sala de emergência sem assepsia adequada.
- Despir por completo, inclusive o dorso; contar por segmento; cobrir com compressa seca, estéril e não aderente o que já foi contado.
- Anotar a conta discriminada, não só o total: 'tronco anterior 18 + MSD 9 + antebraço E 2 = 29% de SCQ de 2º e 3º graus'.
Minuto 10 a 15 — acesso e analgesia de verdade
Dor de queimadura não responde a analgésico simples isolado, e paciente com dor não deixa examinar, não deixa contar direito e não deixa cobrir. A analgesia entra antes da manipulação da ferida, endovenosa e titulada. A técnica de punção periférica tem capítulo próprio; o que muda aqui é o sítio — prefere-se área não queimada e, na falta dela, punciona-se em área queimada mesmo.
Prescrição- Acesso venoso periférico calibroso, preferencialmente em área não queimada; na impossibilidade, puncionar em área queimada.
- Adulto — dipirona 500 mg a 1 g por via endovenosa (cartilha do Ministério da Saúde, 2012; o protocolo de manejo da dor do SAMU usa 1 g).
- Adulto, dor intensa — morfina: diluir 1 mL (10 mg) em 9 mL de soro fisiológico 0,9%, resultando 1 mg/mL, e administrar 0,5 a 1 mg para cada 10 kg de peso, por via endovenosa lenta. Neste paciente de 80 kg: 4 a 8 mg. Reavaliar e repetir conforme a escala numérica de dor.
- Criança — dipirona 15 a 25 mg/kg por via endovenosa; morfina na mesma diluição, 0,5 a 1 mg para cada 10 kg de peso, endovenosa lenta.
- Dor moderada, quando o opioide forte não for necessário — tramadol 100 mg por via endovenosa lenta (protocolo AC37 do SAMU).
- Administrar opioide IV lentamente e em frações, com monitorização respiratória e hemodinâmica. Reavaliar antes de repetir; dose total calculada não precisa ser aplicada como bolus único.
Minuto 15 a 20 — a decisão que a conta libera
Com 29% em maior de 12 anos, este paciente é grande queimado, tem indicação de sonda vesical, tem critério de transferência pelas duas listas nacionais e tem indicação de reposição calculada. Nada disso precisou de exame: quatro decisões saem de um número.
Prescrição- Sonda vesical de demora para controle de diurese: acima de 20% de SCQ em adultos e acima de 10% em crianças (cartilha do Ministério da Saúde, 2012).
- Iniciar a reposição volêmica calculada, cujo multiplicador é a SCQ de 2º e 3º graus e cujo detalhamento — fórmula, fracionamento e ajuste pela diurese — está no capítulo de reposição volêmica no grande queimado.
- Coletar hemograma com hematócrito, sódio, potássio, ureia, creatinina e glicemia como linha de base; carboxi-hemoglobina se houve fogo em ambiente fechado; beta-HCG em mulher em idade fértil.
- Não prescrever antibiótico sistêmico profilático (recomendação explícita da diretriz da AMB/CFM) nem corticoide de rotina.
- Não colher cultura de superfície da ferida na admissão.
Minuto 20 a 30 — profilaxia, cobertura e o telefonema
A queimadura está nominalmente na lista de ferimentos de alto risco de tétano do Guia de Vigilância em Saúde, e a conduta depende só da história vacinal — que se pergunta agora, enquanto o paciente ainda conversa. Em seguida cobre-se, aquece-se e liga-se para a regulação com tudo na mão: o telefonema com a conta pronta dura dois minutos; sem ela, dura vinte e termina com a mesma pergunta.
Prescrição- Perguntar a história vacinal e aplicar o esquema da tabela: vacina dT quando indicada; imunoglobulina humana antitetânica 250 UI por via intramuscular, em grupo muscular diferente do da vacina, quando a história for incerta ou tiver menos de três doses; soro antitetânico 5.000 UI por via intramuscular, em duas massas musculares, na indisponibilidade da imunoglobulina.
- Cobrir todas as áreas com compressa seca, estéril e não aderente; curativo por exposição em face e períneo.
- Aquecer ativamente: manta térmica ou metálica, ambiente aquecido, cristaloide aquecido. A hipotermia aprofunda a queimadura.
- Posicionar: cabeceira elevada; membros superiores elevados e abduzidos se houver lesão em pilares axilares; mãos elevadas nas primeiras 24 a 48 horas para conter o edema.
- Ligar para a regulação com: idade, peso, hora exata da queimadura, agente, conta discriminada por segmento, profundidade por segmento, presença ou ausência dos sinais de lesão inalatória, lesões associadas, sinais vitais, diurese e o que já foi feito.
Hora 1 a hora 6 — o que se faz enquanto a ambulância não vem
Este é o intervalo que ninguém ensina e todo interno de hospital geral vive: a vaga saiu, a ambulância com suporte avançado está a três horas, e o paciente continua sendo seu. O trabalho aqui não é esperar — é reavaliar em ciclos e impedir que a queimadura piore antes da viagem.
Prescrição- Reavaliar via aérea, respiração, perfusão, dor, temperatura e diurese em ciclos curtos, com hora anotada.
- Reexaminar as extremidades com queimadura circunferencial: pulso, perfusão, sensibilidade e oximetria distal. Restrição da expansão torácica sob escara circunferencial e perfusão que piora no membro podem exigir escarotomia — decisão a discutir com o centro de referência no mesmo telefonema.
- Manter o paciente aquecido e coberto entre as reavaliações; descobrir só o segmento que está sendo reexaminado.
- Manter jejum e evitar sedação sem indicação: o paciente vai viajar e precisa de via aérea protegida por ele mesmo ou por quem intuba.
- Refazer a conta uma vez, com o paciente limpo e com boa luz, antes de a ambulância chegar — é a última oportunidade de corrigir um número que vai viajar com ele.
Hora 6 — a transferência e o papel que vai junto
O contato e a regulação do paciente grave começam em paralelo à estabilização e às medidas iniciais; o transporte é organizado com suporte adequado, com leito reservado, em ambulância com suporte avançado e médico acompanhante. O que chega junto com o paciente determina se o centro recomeça do zero ou continua de onde você parou.
Prescrição- Relatório escrito com: hora da queimadura, agente e mecanismo, conta de área discriminada por segmento, profundidade por segmento, peso aferido, volume total infundido com horários, diurese horária, analgésicos administrados com dose e hora, profilaxia antitetânica aplicada, exames colhidos e resultados disponíveis.
- Reavaliação da via aérea imediatamente antes de embarcar — o edema progride durante a reposição, e a ambulância é o pior lugar para descobrir isso.
- Manter aquecimento durante o transporte e informar volume infundido ao médico do destino.
- Documentar em quem se falou, a que horas, e qual foi a orientação recebida.
48 a 72 horas — a reclassificação
Se o paciente ficou no seu serviço, é aqui que a queimadura mostra o que ela é. A área tende a se confirmar; a profundidade muda. O que era segundo grau superficial pode estar branco e insensível — e isso não significa que a avaliação inicial estava errada, e sim que a zona de estase perdeu.
Prescrição- Reexaminar cada segmento com o paciente limpo, refazendo a conta de área e a classificação de profundidade, e registrar as duas ao lado das da admissão.
- Procurar sinais de infecção da área queimada: mudança de coloração, edema das bordas, aprofundamento da lesão, odor fétido, descolamento precoce da escara seca com transformação em escara úmida, coloração hemorrágica sob a escara, celulite ao redor, e aumento ou modificação da dor.
- Suspeita de infecção depende de evolução local e sistêmica. Não exigir temperatura >39 °C nem a lista completa de sinais para avaliar sepse ou iniciar tratamento indicado. Febre isolada em grande queimado também não prova infecção.
- Reavaliar a indicação de transferência: uma lesão que aprofundou pode ter cruzado o corte de 3º grau, que é critério em qualquer extensão.
A alta do pequeno queimado — o desfecho mais frequente
Sete em cada dez atendimentos por queimadura terminam em alta da própria emergência. Esse paciente sai com dor que vai durar dias, com uma lesão que ainda pode aprofundar e com uma família que não sabe o que observar. A alta é uma conduta, e ela tem conteúdo.
Prescrição- Analgésico oral prescrito por horário fixo nas primeiras 72 horas, não 'se dor' — a dor da queimadura é contínua.
- Retorno marcado em 48 a 72 horas para reavaliação de profundidade e de área, com data e local escritos.
- Profilaxia antitetânica conferida e registrada antes da alta, com aprazamento das doses faltantes quando o esquema estiver incompleto.
- Orientação escrita do que traz de volta antes do retorno: febre, dor que aumenta em vez de diminuir, odor, secreção, vermelhidão que se espalha, área que fica dormente, dedo ou membro que incha, esfria ou formiga.
- O tipo de cobertura, a técnica de troca e o seguimento da ferida seguem o capítulo de cuidado da ferida e encaminhamento a centro de queimados.
Como saber se está funcionando
No queimado, a reavaliação não é um gesto de zelo: é o próprio método. A área e a profundidade da admissão são estimativas feitas num paciente sujo, molhado, com dor e com edema ainda por vir. Tudo o que foi decidido a partir delas — volume, sonda, destino — é revisável, e revisar cedo custa menos do que descobrir tarde.
Duas armadilhas de leitura. A primeira: no queimado, hematócrito alto é má notícia, porque mede hemoconcentração, e não sangue de sobra. A segunda: um paciente que 'melhorou da dor' na área que antes doía muito pode ter aprofundado, e não melhorado.
Esperado: Que o total se confirme dentro de poucos pontos percentuais, com as bordas mais nítidas depois que o edema se estabelece.
Se não melhora: Se a segunda conta diferir da primeira em mais de cinco pontos, refaça segmento a segmento com a tabela na mão, e corrija a prescrição e o telefonema. Um número errado que já circulou por três equipes continua errado até alguém recalcular; seja essa pessoa.
Esperado: Que o segundo grau superficial permaneça róseo, úmido e doloroso, com enchimento capilar rápido, e comece a reepitelizar dentro de 7 a 21 dias.
Se não melhora: Área que ficou branca, seca e insensível aprofundou. Procure a causa — hipoperfusão, hipotermia, reposição insuficiente ou infecção — porque a lesão é o sintoma. Reclassifique, refaça a conta de 3º grau e reavalie a indicação de transferência, que é qualquer extensão de terceiro grau.
Esperado: Voz igual à da admissão, sem rouquidão, sem estridor, sem esforço novo.
Se não melhora: Voz que muda, rouquidão nova, estridor, agitação crescente ou edema de face em progressão são via aérea que está fechando. Chame quem intuba imediatamente — não observe mais um ciclo, não peça gasometria antes. O manejo está no capítulo de lesão inalatória; a decisão de acionar é sua e é agora.
Esperado: Diurese que se mantém no alvo definido no capítulo de reposição volêmica, e urina que clareia ao longo das horas.
Se não melhora: Diurese caindo com paciente taquicárdico é reposição insuficiente — e a primeira coisa a conferir é se a conta de área que gerou o volume está certa. Hematócrito que sobe confirma o mesmo por outro caminho: é hemoconcentração, intravascular vazio. Urina escura, avermelhada ou acastanhada levanta hemoglobinúria ou mioglobinúria, que muda a meta e obriga a procurar componente elétrico ou esmagamento na história. E a inversão que vale guardar: hemoglobina que CAI no queimado logo após o acidente sugere sangramento de outra causa — procure o trauma associado.
Esperado: Normotermia. O paciente queimado deve chegar ao destino aquecido.
Se não melhora: Hipotermia piora a coagulação e a perfusão da zona de estase, e aprofunda a queimadura que você acabou de classificar. Interrompa a irrigação, seque, cubra, aqueça o ambiente, aqueça os cristaloides e descubra apenas o segmento que estiver sendo examinado.
Esperado: Pulso presente, extremidade quente, enchimento capilar rápido, sensibilidade preservada, oximetria distal legível.
Se não melhora: Dor desproporcional, parestesia e perda de pulso são a sequência clássica, e o pulso é o sinal tardio. Perfusão que piora sob escara circunferencial é indicação de escarotomia — comunique o centro de referência no mesmo telefonema e não espere a ambulância para reavaliar. Em tórax, a manifestação é restrição da expansão, não isquemia.
Esperado: Queda para a faixa leve, com o paciente permitindo exame e curativo.
Se não melhora: Dor que não cede com dose adequada de opioide pede reavaliação da causa antes de mais dose: síndrome compartimental, isquemia sob escara circunferencial e infecção doem de forma desproporcional. Dor que aumenta em vez de diminuir ao longo dos dias é sinal de infecção da área queimada.
Onde o erro machuca
O dano: Incluir eritema superficial na SCQ superestima a área usada para estimar reposição e pode favorecer excesso de fluidos, edema e complicações respiratórias ou compartimentais. No caso, face e pescoço superficiais ficam fora da soma; 9% corresponde à cabeça e pescoço completos no adulto, não apenas à face e ao pescoço anterior. A estimativa inicial de volume deve ser ajustada pela resposta, evitando administrar uma conta como obrigação fixa.
Como pegar a tempo: Some apenas o que tem bolha ou está branco. A pergunta operacional é uma só: há descolamento de epiderme? Se não há bolha, não entra. E se ajuda, olhe o formulário: as colunas de anotação oficiais são 'segundo grau' e 'terceiro grau'; não existe coluna de primeiro grau porque ele não é para ser somado.
O dano: O erro não tem direção fixa, e é isso que o torna traiçoeiro. Numa criança de 2 anos com a cabeça e o pescoço queimados, a régua do adulto anota 9% onde há 16 a 19% — subestimação de metade. Nos dois membros inferiores da mesma criança, ela anota 36% onde há 27 a 30% — superestimação. Um erro afoga, o outro desidrata, e os dois vêm da mesma folha errada.
Como pegar a tempo: Régua pela idade, sempre. Abaixo de 10 anos, Lund-Browder. Na falta da tabela impressa, a regra corrigida da diretriz da AMB/CFM cabe numa linha: cabeça e pescoço valem 18 menos a idade; cada coxa e cada perna-com-pé valem 7 mais um quarto da idade. Deixe a tabela plastificada na parede da sala de emergência e no bolso do jaleco.
O dano: A régua da palma vale 1% da superfície do paciente, não da sua. Sobre um adulto, 1% são cerca de 197 cm²; sobre uma criança de 2 anos, cerca de 54 cm². A sua mão apoiada nessa criança cobre quase 3,7% dela. Quem conta quatro palmas próprias num pré-escolar anota 4% e queimou 15%: uma criança de 12 quilos sai da sala classificada como pequeno queimado, sem sonda, sem transferência e com um terço do volume de que precisa.
Como pegar a tempo: Pegue a mão do paciente, com os dedos unidos, e use aquela mão como unidade. Em criança pequena, essa é a régua auxiliar; a principal continua sendo a tabela por idade.
O dano: Subestimação silenciosa, e a mais difícil de detectar depois, porque o número parece plausível e ninguém tem motivo para refazê-lo. É assim que 29% viram 'aproximadamente 15%', o paciente recebe metade do volume e chega hipoperfundido ao centro de referência, convertendo zona de estase em necrose no caminho.
Como pegar a tempo: Despir por inteiro e virar o paciente faz parte da conta. Conte um segmento, cubra o segmento, passe ao próximo: a exposição fica sequencial e o paciente não esfria.
O dano: Dois danos opostos. Quem afirma o grau na admissão e não reavalia perde o aprofundamento — a lesão que virou terceiro grau em 48 horas passa a ter critério de transferência que ninguém aciona. E quem, para 'não errar', classifica tudo como profundo na porta, infla a conta e infla o volume.
Como pegar a tempo: Escreva 'avaliação inicial, a reavaliar em 48 a 72 horas' e marque a reavaliação. Descreva o que viu — cor, umidade, dor, enchimento capilar, tamanho — em vez de apenas rotular. Descrição permite comparação; rótulo não.
O dano: Uma queimadura elétrica de 1% com entrada e saída destrói músculo em profundidade e traz risco de arritmia, rabdomiólise e síndrome compartimental. Uma queimadura circunferencial de tórax com 8% restringe a ventilação. Cinco por cento em face e mãos custa função e via aérea. Em todos esses casos o percentual é tranquilizador e o paciente não é.
Como pegar a tempo: Depois de fechar a conta, percorra a lista curta que independe da área: agente elétrico ou químico, lesão circunferencial, área nobre, sinal de inalação, criança abaixo de 3 anos, idoso acima de 65, comorbidade descompensada, suspeita de violência. Qualquer 'sim' promove o caso independentemente do número.
O dano: O gelo produz vasoconstrição intensa na zona de estase, que é justamente o tecido em disputa, e o frio excessivo queima por si só; em área extensa, ainda soma hipotermia. Substâncias caseiras contaminam, aderem, escondem a lesão e impedem a avaliação de profundidade — e a avaliação de profundidade é o que decide o destino do paciente.
Como pegar a tempo: Água corrente limpa na temperatura da torneira, por cerca de 20 minutos, e nada mais sobre a lesão até que ela tenha sido contada e classificada. Diga isso à família em voz alta: parte dessas substâncias chega aplicada de casa e vai ser reaplicada depois da alta se ninguém desmentir.
O dano: Romper a flictena sem assepsia adequada abre uma barreira biológica e multiplica o risco de infecção bacteriana secundária; feito na sala de emergência, ainda dói muito e atrapalha a classificação de profundidade, que depende do aspecto do fundo da bolha. O antibiótico sistêmico profilático não previne a infecção do queimado e seleciona flora resistente num paciente que ficará semanas internado, sem barreira cutânea e com vários acessos.
Como pegar a tempo: Não romper bolha no atendimento pré-hospitalar nem na sala de emergência sem assepsia — a decisão sobre desbridar pertence ao serviço que vai cuidar da ferida. E antibiótico sistêmico entra por suspeita de infecção estabelecida, não por calendário: a diretriz da AMB/CFM desaconselha o uso profilático com grau de recomendação B.
O dano: Todo o resto atrasa junto: o volume começa tarde, a sonda entra tarde, o telefonema à regulação sai tarde e a ambulância parte tarde. Como o cálculo de reposição conta a partir da hora da queimadura, e não da chegada, o tempo perdido não é recuperável — vira déficit acumulado num paciente que já saiu de casa com quarenta minutos de atraso.
Como pegar a tempo: A conta é clínica, leva minutos e é sua. Faça, escreva discriminada, e leve o número para a conversa com quem vier depois. Se algo tiver de esperar, que seja o exame, nunca a conta.
O que dizer ao paciente e à família
No queimado há três conversas simultâneas: com o paciente, que está lúcido e com dor; com a família, que trouxe ele no carro e se sente culpada; e com a regulação, que decide o destino a partir do que você diz. As três precisam do mesmo número, ditas de formas diferentes.
A família pergunta 'quantos por cento?' e quer traduzir o número em prognóstico
“"A gente mede a queimadura em porcentagem do corpo, e a dele deu 29%. Esse número serve para calcular o soro que ele vai receber e para decidir para onde ele vai — não é uma nota de gravidade, e não dá para transformar em chance de sobreviver. O que eu posso dizer com segurança agora é o que estou fazendo e por quê."”
Não diga: "É 29%, mas isso não quer dizer nada." Diz que o número é irrelevante depois de a equipe inteira ter passado dez minutos obtendo-o — e a família percebe. Também evite converter o percentual em estatística de sobrevida de cabeça: essa conversa pertence a quem vai acompanhar o caso, com dados do paciente inteiro.
Antecipar que a queimadura pode piorar de aspecto
“"Uma coisa que eu preciso avisar desde já: queimadura muda nos primeiros dois ou três dias. Uma parte que hoje está com bolha e vermelha pode ficar mais branca e mais funda depois. Quando isso acontecer, não é que alguém errou o exame de hoje — é assim que a lesão evolui, e é por isso que a gente reavalia com hora marcada."”
Não diga: "Está tudo superficial, vai cicatrizar rápido." Prometer profundidade na admissão é a promessa mais fácil de quebrar deste capítulo, e quebrá-la no terceiro dia custa a confiança de que você vai precisar para as decisões difíceis que vêm depois.
O paciente estranha que a parte que mais dói não é a mais grave
“"O senhor está sentindo mais o rosto e o peito, e faz sentido: ali a queimadura é mais rasa e os nervos estão vivos, por isso dói tanto. Essa parte do antebraço que o senhor quase não sente é a mais funda — é justamente porque ela é funda que ela não dói. Não é sinal de melhora; é o contrário, e é dela que eu vou cuidar primeiro."”
Não diga: Deixar sem explicação. O paciente que descobre sozinho que a área calada era a pior perde a confiança na avaliação inteira, e a família começa a monitorar dor como se fosse termômetro de gravidade.
Perguntar como aconteceu, numa criança, sem transformar em interrogatório
“"Me conta como foi, do começo: onde ela estava, o que estava por perto, quem viu. Eu preciso saber a temperatura da água e quanto tempo até tirar, porque isso muda o tratamento." Depois, à parte, com o outro acompanhante: "E o senhor, chegou depois ou estava junto? Como foi para o senhor?"”
Não diga: "Como é que uma criança dessa idade se queima assim?" A pergunta acusatória fecha a história e destrói a única fonte de informação que você tem. Colha a versão de cada adulto separadamente, escreva no prontuário com as palavras deles, entre aspas, e desenhe a lesão antes de qualquer curativo. O que fazer com a suspeita está no capítulo de violência e maus-tratos na infância.
Passar o caso à regulação
“"Homem, 34 anos, 80 quilos. Queimadura por chama, álcool líquido, ao ar livre, às 21 horas — há uma hora e vinte. Superfície queimada de segundo e terceiro graus: 29%, sendo tronco anterior 18, membro superior direito 9 circunferencial e antebraço esquerdo 2. Eritema de face e pescoço não computado. Sem rouquidão, sem estridor, sem escarro carbonáceo, vibrissas íntegras. Dois acessos periféricos, reposição iniciada às 22h10, sondado, diurese em curso, analgesia com morfina, antitetânica feita. Peço vaga em centro de queimados."”
Não diga: "Tenho um queimado grave aqui, bem extenso, o que eu faço?" Sem número, sem hora da queimadura e sem peso, a regulação não consegue nem estimar volume nem priorizar a vaga, e devolve exatamente as perguntas que você deveria ter respondido antes de discar.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Coluna única de 'criança e bebê' na regra dos nove
Uma tabela só, com cabeça e pescoço valendo 18%, cada membro inferior 13,5%, membros superiores, tronco e genitais iguais aos do adulto. Fecha 100%, cabe num cartão de bolso e é reproduzida igual no suporte básico e no suporte avançado, para ser usada por equipe de rua sob pressão de tempo.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, 2ª ed., 2016 — protocolos BT18 e AT25
Regra dos nove corrigida pela idade, até 9 anos
Cabeça e pescoço valem 18% menos a idade em anos; cada coxa e cada conjunto perna-com-pé valem 7% mais um quarto da idade. Também fecha 100% em qualquer idade da faixa, e acompanha a mudança de proporção do corpo — aos 9 anos, devolve 9% de cabeça, e não 18%.
Projeto Diretrizes AMB/CFM, Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Queimaduras: Diagnóstico e Tratamento Inicial, 9 de abril de 2008
Tabela de Lund-Browder por faixa etária
Dezenove segmentos, com valor próprio em cinco faixas de idade. Não estima nada: cada segmento tem seu percentual em cada faixa, e as colunas fecham 100%. É descrita como o método mais apurado, e a regra dos nove é descrita como imprópria para crianças, sobretudo abaixo de 4 anos, pela possibilidade de erros grosseiros.
Pinho FM. Guideline para o cuidado de enfermagem ao paciente queimado adulto. UFSC, 2014, reproduzindo a tabela de Lund-Browder
As três posições concordam no problema — a criança não é um adulto pequeno — e divergem no quanto de precisão vale o tempo gasto. Na rua, com minutos e sem mesa, a coluna única é defensável, porque a decisão que ela sustenta é 'grande ou pequeno' e o transporte já está em curso. No hospital, onde a conta vira prescrição de volume e critério de transferência, o tempo existe e a precisão importa: use Lund-Browder. Entre as duas regras dos nove pediátricas, prefira a corrigida pela idade — ela erra menos exatamente onde a coluna única erra mais, na criança acima de 5 anos, e cabe numa linha do prontuário. A frase para guardar: abaixo de 10 anos, tabela por faixa etária; se não houver tabela, 18 menos a idade.
Segundo grau acima de 20% no adulto e acima de 10% na criança
A lista nacional de critérios de transferência para unidade de tratamento de queimaduras usa 20% de segundo grau no adulto, 10% na criança e também 10% para maiores de 50 anos, somados a terceiro grau em qualquer extensão, áreas nobres, queimadura elétrica e química, lesão inalatória e lesões circunferenciais.
Brasil. Ministério da Saúde. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012 — item 12
Segundo grau acima de 10% em qualquer idade
A lista de triagem para centro especializado usa 10% de espessura parcial em qualquer idade, e acrescenta terceiro grau em qualquer idade, áreas nobres e grandes articulações, agentes elétrico e químico, lesão por inalação, comorbidade que possa complicar o cuidado, trauma concomitante, criança em hospital sem equipe ou equipamento adequados, e necrólise epidérmica tóxica.
Projeto Diretrizes AMB/CFM, Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Queimaduras: Diagnóstico e Tratamento Inicial, 2008
A divergência é de dez pontos e vale para uma faixa estreita: o adulto com segundo grau entre 10 e 20%. Fora dela, as duas listas dizem o mesmo. Decida pela reversibilidade do erro. Errar transferindo custa um telefonema e, no pior caso, uma recusa educada — e não custa nada ao paciente. Errar não transferindo custa uma queimadura de 15% que aprofunda num hospital sem equipe de queimados, cicatriza mal e volta em três semanas para enxertia tardia. Pesa ainda que o corte de 20% coincide com os cortes de sonda vesical e de reposição calculada, ou seja, foi desenhado para separar quem precisa de terapia intensiva, e não quem se beneficia de equipe especializada. Na faixa dos 10 aos 20% no adulto, ligue para o centro de referência e decida com eles, com o número na mão: distância, área nobre, idade e rede de apoio entram na conversa.
Não romper no atendimento inicial
A instrução aparece como observação explícita nos dois protocolos pré-hospitalares — não romper nem perfurar bolhas — e é reforçada pela orientação de não romper bolhas e vesículas sem assepsia, porque isso multiplica o risco de infecção bacteriana secundária. A bolha íntegra é curativo biológico, mantém o leito úmido e dói menos.
Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, BT18 e AT25, 2016; e Núcleo de Telessaúde Sergipe, BVS Atenção Primária em Saúde, 2016
Remover a flictena no serviço que assume a ferida
No guideline construído em unidade de queimados, a remoção das flictenas com escarificação da área queimada de segundo grau faz parte do cuidado local, e a orientação para o paciente que será removido é justamente não fazer curativo tópico no local do primeiro atendimento, deixando para a unidade final, onde as flictenas serão rompidas em ambiente adequado.
Pinho FM. Guideline para o cuidado de enfermagem ao paciente queimado adulto, UFSC, 2014
As duas posições não conflitam quando se lê o lugar de cada uma: a primeira fala do atendimento inicial e do transporte, a segunda do serviço que trata a ferida até o fim. O que decide é quem assume a ferida a seguir. Se o paciente vai ser transferido ou reavaliado por outro serviço, não rompa — você abriria uma barreira que outra pessoa terá de cuidar, e destruiria o aspecto do fundo da bolha, que é o dado de profundidade. Se a ferida é sua até o fim, a decisão é do serviço, com assepsia, analgesia e cobertura prontas. Há uma exceção nas duas leituras: bolha já rota e suja, ou em área de flexão que impede o exame da perfusão distal. O que não se faz em nenhuma delas é estourar bolha com gaze na triagem. A cobertura e a técnica do desbridamento seguem no capítulo de cuidado da ferida.
Resfriar por 20 minutos; a hipotermia é preocupação superestimada
Água corrente limpa sobre a queimadura o mais rápido possível e por 20 minutos, com resfriamento tardio de até 30 minutos ainda eficaz em limitar o dano. A revisão sustenta que o resfriamento pré-hospitalar não contribuiu para hipotermia nos estudos analisados.
Bourke P, Bison AvF. A importância do resfriamento da queimadura no atendimento pré-hospitalar. Revista Brasileira de Queimaduras, v. 14, n. 1, 2015
Resfriar e, na mesma sequência, prevenir a hipotermia ativamente
Irrigar com soro fisiológico em abundância para resfriar a área e, imediatamente depois, cobrir com compressas secas e prevenir a hipotermia, preferencialmente com manta metálica. A prevenção de hipotermia é passo numerado da conduta, no mesmo nível do resfriamento.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, BT18 e AT25, 2ª ed., 2016
A divergência é sobre o denominador: a revisão fala de queimaduras em geral, a maioria pequena; o protocolo escreve para quem também atende o grande queimado, em que a área sem barreira é enorme e o paciente esfria em minutos. Decida pela extensão. Em queimadura pequena, resfrie os 20 minutos completos — é o gesto de maior retorno do atendimento inicial e não vai derrubar a temperatura de ninguém. Em queimadura extensa, resfrie por segmentos, seque e cubra cada um antes de passar ao próximo, e aqueça o ambiente, o paciente e os cristaloides desde o começo. Em qualquer extensão, a temperatura do paciente é parâmetro medido, não presumido: se está caindo, o resfriamento acabou.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao homem de 34 anos, 80 quilos, pedreiro. Álcool líquido jogado sobre a brasa há quarenta minutos, ao ar livre. Chegou de carro particular, andando, enrolado num lençol de casa, gritando de dor. Face e pescoço vermelhos sem bolha; tórax e abdome anteriores com bolhas confluentes de fundo róseo; membro superior direito queimado do ombro à mão, circunferencial, com duas placas brancas e secas no dorso do antebraço; antebraço esquerdo com bolhas na face anterior. Fala frases inteiras, voz normal. O centro de queimados de referência está a 180 quilômetros.
o que penso antes de encostar nele
Chama com álcool líquido é o mecanismo mais comum do adulto jovem brasileiro, e ele traz duas perguntas antes da conta: houve ambiente fechado (não houve — foi no quintal) e há trauma associado (chegou andando, sem queda relatada). Isso me libera para tratar a queimadura como o problema principal, o que não seria verdade se ele tivesse caído ou explodido um botijão. E já anoto a informação mais perecível da história: o acidente foi às 21 horas, e são 21h40 — quarenta minutos de relógio já correram no cálculo que ainda nem comecei.
os primeiros sessenta segundos
Peço o nome dele e escuto a resposta, que é o teste de via aérea mais barato que existe. Voz igual à de sempre, sem rouquidão, sem estridor, sem tosse com escarro carbonáceo. Olho deliberadamente cílios, sobrancelhas e vibrissas: íntegros. Ao ar livre, sem exposição a fumaça em ambiente confinado. Registro isso por escrito, porque é o meu ponto de comparação para as próximas horas — se em duas horas a voz mudar, eu vou saber que mudou. Enquanto isso, tiro a aliança e o relógio dele: em uma hora o edema não deixa mais.
o que conto, e o que deixo de fora
Irrigo por segmentos e despo por inteiro, virando para ver o dorso — que está poupado. Conto com a regra dos nove, que é a régua do adulto: tronco anterior inteiro, 18. Membro superior direito inteiro e circunferencial, 9. Antebraço esquerdo, uma faixa do tamanho de duas palmas da mão dele, 2. Soma 29%. A face e o pescoço estão vermelhos e são o que mais dói nele — e ficam fora, porque não há bolha, não há descolamento de epiderme e não há plasma saindo dali. Escrevo a conta discriminada no prontuário, não só o total, para que quem vier depois possa conferir em dez segundos.
a profundidade, e a parte que me preocupa é a que não dói
O tórax e o abdome anteriores têm bolha de fundo róseo e úmido, e ele reclama muito quando encosto: segundo grau superficial. As duas placas do dorso do antebraço direito estão brancas, secas, sem enchimento capilar, e ele não sente meu toque ali: terceiro grau, do tamanho aproximado de uma palma e meia. Anoto como avaliação inicial, a reavaliar em 48 a 72 horas — e aviso a ele e à esposa que parte do que hoje está com bolha pode ficar mais branca depois, e que isso não vai ser erro de exame.
o que o número me obriga a fazer
Vinte e nove por cento em maior de 12 anos: grande queimado pela diretriz da AMB/CFM, acima do corte de 20% da cartilha do Ministério da Saúde para sonda vesical, acima do corte de transferência das duas listas nacionais, e com terceiro grau presente — que é critério de encaminhamento em qualquer extensão, sozinho. Quatro decisões saíram de uma conta que levou seis minutos. Reposição calculada iniciada com a hora da queimadura como minuto zero, e não a hora da chegada; o cálculo e o ajuste seguem o capítulo de reposição volêmica no grande queimado.
a analgesia, antes de tudo o que dói
Acesso periférico calibroso em área não queimada — sobrou pele boa na fossa antecubital esquerda. Dipirona 1 grama endovenosa e morfina diluída (1 mL com 10 mg em 9 mL de soro fisiológico, 1 mg/mL), 4 a 8 mg para os 80 quilos dele, lenta, titulada pela escala numérica. Só depois disso eu volto a mexer nas lesões para cobrir. Paciente com dor não deixa contar, não deixa cobrir e não deixa reavaliar — a analgesia é condição de exame, não conforto.
o que peço, e o que deliberadamente não peço
Hemograma com hematócrito, sódio, potássio, ureia, creatinina e glicemia: linha de base. Não peço carboxi-hemoglobina, porque foi ao ar livre. Não peço radiografia de tórax, porque não há suspeita de inalação nem trauma. Não peço cultura da ferida. Não prescrevo antibiótico sistêmico profilático — a diretriz da AMB/CFM desaconselha com grau de recomendação B, e este paciente vai passar semanas internado com a pele aberta. Pergunto a história vacinal: última dose há mais de dez anos, então reforço com dupla adulto, sem imunoglobulina.
o telefonema, e o que reavalio antes de ele embarcar
Ligo com tudo pronto: 34 anos, 80 quilos, chama por álcool às 21h, 29% de segundo e terceiro graus discriminados por segmento, sendo cerca de 1,5% de terceiro grau no antebraço direito, sem sinal de lesão inalatória, sondado, reposição iniciada às 22h10, analgesia feita, antitetânica feita. Enquanto a ambulância não chega, reavalio em ciclos com hora anotada: voz, perfusão distal do membro superior direito — que é circunferencial e vai edemaciar junto com o soro que estou infundindo —, temperatura, diurese e dor. Antes de embarcar, refaço a conta com ele limpo e reexamino a voz. É a última chance de corrigir um número que vai viajar 180 quilômetros sem ninguém recalcular.
Faça você
Outro paciente, outra régua. Menina de 2 anos, 12 quilos, 87 centímetros. Há cinquenta minutos puxou pelo cabo uma panela de água fervente que estava na beirada do fogão; a mãe estava na cozinha, viu, e trouxe no colo de moto-táxi. Chegou chorando alto, alerta, agarrada à mãe, sem estridor e sem rouquidão. A mãe passou pasta de dente nas lesões antes de sair de casa. Ao exame, depois de removida a pasta com água corrente: bolhas confluentes de fundo róseo e úmido na metade superior do tronco anterior, na face anterior do braço e do antebraço direitos, e numa faixa na face anterior da coxa direita. As bordas são irregulares, com lesões-satélite espalhadas e profundidade que diminui de cima para baixo. Face, pescoço, dorso, nádegas, períneo, mãos e pés poupados. Sem lesão em outros estágios de evolução. Você está sozinho no pronto-socorro de um hospital geral. Faça a conta, classifique, e diga o que muda.
por que a régua do adulto não serve aqui
Nesta idade a cabeça vale quase o dobro do que vale no adulto e cada perna vale bem menos. A regra dos nove do adulto atribui 18% a cada membro inferior; nesta criança, o membro inferior vale entre 13,5 e 15%. Usar a folha errada não erra sempre para o mesmo lado — aqui, como a queimadura pega tronco e membro e poupa a cabeça, ela vai errar para mais.
o que entra na conta
Bolha com fundo róseo e úmido é segundo grau superficial e entra. Não há eritema isolado a descontar neste caso, mas há pasta de dente cobrindo tudo na chegada: contar antes de remover teria escondido borda e profundidade. A pasta não é curativo — é obstáculo à avaliação, e sai com água corrente antes da conta.
os quatro segmentos, pela tabela por faixa etária
Pela tabela de Lund-Browder na coluna de 1 a 4 anos, o tronco anterior inteiro vale 13%, o braço 4%, o antebraço 3% e a coxa 6,5%. A lesão pega metade de cada um desses quatro segmentos.
a régua auxiliar, e de quem é a mão
A palma da menina, com os dedos unidos, vale 1% da superfície dela. A sua palma de adulto, apoiada nela, vale quase 3,7%. Se você conferir a conta com a própria mão, vai subestimar a área em quase quatro vezes por palma contada.
a pergunta que se faz em toda criança queimada
Padrão de respingo com bordas irregulares, lesões-satélite e gradiente de profundidade descendente é o desenho de líquido derramado de cima. Padrão de imersão seria outro: borda nítida, nível horizontal, profundidade uniforme e poupança das dobras de flexão. Compare o desenho com a história contada, e registre os dois antes de qualquer curativo.
Continuidade do caso e prática do internato
Refaça a estimativa da criança com a tabela etária e explique quais decisões dependem da área e quais dependem de outros sinais de gravidade.
Questão integrativa 1
Por que o eritema superficial não entra na conta de ressuscitação?
Questão integrativa 2
A mão do examinador serve como unidade para a criança?
Questão integrativa 3
É preciso terminar a conta antes de chamar ajuda para rouquidão progressiva?
Questão integrativa 4
A área branca pouco dolorosa é necessariamente leve?
Questão integrativa 5
A ferida parece mais profunda no terceiro dia. Isso prova erro inicial?
Questão integrativa 6
Uma pequena queimadura profunda na mão pode precisar de centro especializado?
Ver como fecharíamos
A conta é 13,25%, e ela se faz somando metade de cada segmento pela coluna de 1 a 4 anos da tabela de Lund-Browder: tronco anterior 13 dividido por 2 é 6,5; braço direito 4 dividido por 2 é 2; antebraço direito 3 dividido por 2 é 1,5; coxa direita 6,5 dividido por 2 é 3,25. Soma 13,25% de segundo grau — e, como confirmação grosseira, cerca de treze superfícies palmares inteiras da mão dela, incluindo os dedos, como aproximação. Agora o custo de usar a régua errada. Pela regra dos nove do adulto, os mesmos quatro segmentos dariam 9 (metade do tronco anterior de 18) mais 4,5 (metade do membro superior de 9) mais 4,5 (metade da coxa, dentro do membro inferior de 18) — 18%. Pela coluna única de 'criança e bebê' dos protocolos pré-hospitalares, 16,9%. Pela regra dos nove corrigida pela idade da diretriz da AMB/CFM, 17,25%. A dispersão entre o método mais preciso e o mais grosseiro é de quase cinco pontos percentuais numa criança de 12 quilos. Esses cinco pontos não são acadêmicos, e mudam duas coisas concretas. A primeira é volume: neste exemplo comparativo de Parkland pediátrico, o multiplicador adotado é 4 mL por quilo por ponto percentual de superfície de segundo e terceiro graus; a fórmula e a manutenção devem seguir o protocolo pediátrico acordado com o centro, o que dá 636 mL com a conta certa e 864 mL com a régua do adulto — 228 mL a mais, quase 19 mL por quilo de excesso num paciente de 12 quilos, jogados num interstício que já está edemaciando. A segunda é a classe: pela diretriz da AMB/CFM, em menores de 12 anos o segundo grau entre 5 e 15% é médio queimado e acima de 15% é grande queimado. Com 13,25% ela é média; com 18% ela seria promovida a grande queimado por um erro de folha. O que a conta certa obriga a fazer continua sendo bastante. Treze por cento em criança está acima do corte de 10% da cartilha do Ministério da Saúde tanto para sonda vesical de demora quanto para transferência a unidade de tratamento de queimaduras — ou seja, ela é sondada e é transferida, e as duas listas nacionais concordam nisso. Analgesia endovenosa antes de qualquer manipulação: dipirona 15 a 25 mg/kg, o que nos 12 quilos dela dá 180 a 300 mg, e morfina na diluição de 1 mg/mL, 0,5 a 1 mg para cada 10 kg, ou seja, 0,6 a 1,2 mg, lenta. Profilaxia antitetânica conforme a caderneta, lembrando que a queimadura é ferimento de alto risco; abaixo de 7 anos a vacina indicada é a do esquema infantil, não a dupla adulto. Aquecimento ativo, porque criança pequena esfria mais rápido que adulto e a hipotermia aprofunda a queimadura. E reavaliação de profundidade e área em 48 a 72 horas, com a mesma tabela. Duas coisas que não se faz: aplicar qualquer substância caseira sobre a lesão — pasta de dente, manteiga, café e babosa contaminam, aderem e escondem o que você precisa ver — e romper as bolhas na sala de emergência, ainda mais numa criança que vai ser transferida e cuja ferida será assumida por outro serviço. Sobre a suspeita de violência: aqui o desenho é compatível com a história. Respingo faz borda irregular, satélite e gradiente de profundidade; a mãe presenciou, trouxe em cinquenta minutos, a versão é única e não há lesões em estágios diferentes. Isso não dispensa a pergunta — que se faz em toda criança queimada, como se pergunta alergia —, não exclui violência por si só; avalie desenvolvimento, contexto, outras lesões e consistência da história sem concluir apenas pelo desenho. O desenho e as medidas ficam registrados no prontuário antes do curativo, porque a partir do primeiro curativo o padrão desaparece. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Porque a estimativa usa área com lesão dérmica ou de espessura total, relacionada a perdas e resposta inflamatória relevantes. Contar eritema superestima a necessidade prevista. 2. Não. Use a mão do próprio paciente e declare se inclui dedos. Na criança, a tabela ajustada à idade é preferível para áreas maiores. 3. Não. A ameaça à via aérea tem prioridade, com avaliação por profissional habilitado e reavaliação contínua. 4. Não. Perda de sensibilidade pode refletir lesão profunda. Interprete com perfusão, umidade, aspecto e mecanismo; pouca dor não tranquiliza. 5. Não necessariamente. Há evolução da lesão e da perfusão na zona de estase. A comparação documentada permite reconhecer aprofundamento e rever tratamento. 6. Sim. Localização e função importam independentemente do percentual. Critérios de consulta/transferência são distintos dos da ressuscitação calculada.
A proporção do corpo muda com a idade, e a cabeça é o segmento que mais muda: vale 19% no lactente e 7% no adulto pela tabela de Lund-Browder. Aos 9 anos, cabeça (13%) mais pescoço (2%) dão 15%. A coluna única de 'criança e bebê' atribui 18% de cabeça e pescoço a qualquer criança, o que é razoável no lactente e no pré-escolar mas superestima em até nove pontos percentuais nesta idade — e nove pontos numa criança de cerca de 29 kg significam mais de um litro a mais no primeiro dia. A regra dos nove corrigida pela idade devolveria 18 menos 9, ou seja, 9%, e subestimaria. A régua do adulto não serve porque a criança não é um adulto pequeno, e a faixa de 10 a 16 anos não é a dele. A decisão prática: abaixo de 10 anos, tabela por faixa etária; se não houver tabela impressa, a regra corrigida pela idade, nunca a coluna única.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar nada, escreva os percentuais da regra dos nove do adulto e confira se fecham 100. Depois escreva, para uma criança de 2 anos e para uma de 9 anos, quanto vale a cabeça com o pescoço pelas três réguas pediátricas (coluna única, corrigida pela idade e Lund-Browder) — e explique em uma frase por que a coluna única erra mais aos 9 anos. Por fim, responda de memória: o que entra na soma da superfície queimada, o que fica de fora, e por quê.
Em 30 dias
Pegue o paciente de 29% deste capítulo e mude um dado por vez, dizendo o que quebra. E se ele tivesse 62 anos? E se o acidente tivesse sido dentro de um cômodo fechado? E se a face tivesse bolha em vez de só eritema? E se, em vez de 34 anos e 80 quilos, fosse uma criança de 4 anos e 16 quilos com exatamente as mesmas regiões acometidas — quanto daria pela tabela por faixa etária, e ele seria médio ou grande queimado? Refaça a conta em cada cenário e diga qual decisão muda: volume, sonda, transferência ou nenhuma.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 47 anos trazida ao pronto-socorro de hospital geral há vinte minutos, depois de o botijão vazar e o fogo alcançá-la na cozinha. Está acordada, agitada, com fuligem no rosto, rouquidão discreta que ela atribui ao susto, e queimaduras no tronco, nos dois membros superiores e na coxa direita. Não sabe dizer o peso. Alguém já perguntou quantos por cento. Conte a área, classifique a profundidade, decida o destino — e diga em voz alta o que você faz com a rouquidão.
