Cirurgia Geral › Queimados
A conta que a urina corrige
Reposição volêmica no grande queimado (fórmula de Parkland)
Escolher uma estimativa inicial apropriada à idade e ao protocolo, contar desde a lesão, descontar o que já foi administrado e titular pela perfusão e pelo balanço. A fórmula inicia a ressuscitação; a resposta do paciente a modifica.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2012. 20 p. (Série F. Comunicação e Educação em Saúde). CDU 616-001.17. Elaboração: Câmara Técnica de Queimaduras do Conselho Federal de Medicina
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Responda antes de ler
Homem de 90 kg sofre queimadura por chama às 14h00 e chega ao pronto-socorro às 17h00. A superfície de 2º e 3º graus, contada com a tabela, é de 30%. Não recebeu fluidos antes da chegada. Para este exercício, você vai iniciar Ringer com lactato pela fórmula de Parkland. Qual a vazão para o restante da primeira janela?
O paciente que você vai ver
Quarta-feira, 22h15. Sessenta leitos, um hospital municipal só, quarenta mil habitantes, e duzentos e dez quilômetros até o centro de tratamento de queimados mais próximo. Você é o interno da escala noturna e está sozinho com a enfermeira Azarias Maragogi quando o carro para na porta. Descem dois homens amparando um terceiro, que anda, fala e está enrolado num lençol.
Dilermando Guanambi tem 38 anos, é pintor de obra e pesa 82 quilos — o peso está na carteira do trabalho e a esposa confirma que é o de sempre. O que aconteceu, os colegas contam de trás para frente: ele estava limpando uma peça com solvente num galpão de porta aberta quando alguém ligou a esmerilhadeira do outro lado. O fogo subiu pelo tronco e pelos braços. Apagaram com um cobertor, tiraram a camisa dele e o levaram para a casa da irmã, onde passaram pasta de dente e um creme de cozinha nas queimaduras. A esposa chegou do trabalho às vinte e duas horas, viu o estado dele e trouxe.
Você pergunta a hora do acidente e ninguém sabe responder direito. Um dos colegas diz que "foi logo depois do lanche". A esposa liga para a irmã, que olha o celular e diz que a primeira ligação para a família saiu às 19h47, poucos minutos depois. Você anota no prontuário: queimadura às 19h40. São 22h15. Faz duas horas e trinta e cinco minutos que este paciente está queimado, e nada de soro entrou nele nesse intervalo.
O exame confirma o que a história promete. Tronco anterior e ambos os braços com bolhas grandes de fundo róseo, muito dolorosas; a face anterior da coxa direita com uma placa esbranquiçada, seca, que não dói quando você toca. Nada na face, nada nas vibrissas, sem rouquidão, sem fuligem na boca — o galpão tinha a porta aberta e ninguém ficou preso lá dentro. A conta de superfície e a classificação de profundidade são o assunto do capítulo Superfície queimada e profundidade, desta mesma apostila, e é ele que você aplica agora, com a tabela na mão: 34% de superfície corporal queimada de segundo e terceiro graus. Trinta e quatro por cento é o número que entra na sua fórmula, e este capítulo começa exatamente onde aquele termina.
Pressão arterial 118 por 74, frequência cardíaca 118, frequência respiratória 22, saturação 97% em ar ambiente, temperatura axilar 35,4 graus. Ele está lúcido, com dor que descreve como a pior da vida, e pede água o tempo todo. A taquicardia não é medo: é o começo do choque do queimado, e ela apareceu enquanto ele estava sentado na sala da irmã esperando alguém decidir trazê-lo.
Neste ponto o plantão inteiro tende a fazer a mesma coisa: pegar a calculadora, multiplicar quatro por oitenta e dois por trinta e quatro, dividir a metade por oito e prescrever essa vazão. O resultado dessa sequência é um paciente subrreposto em um terço nas próximas cinco horas, porque duas horas e trinta e cinco minutos da primeira janela já foram embora antes de ele chegar. O relógio da fórmula começa na queimadura, não na porta. Este capítulo é sobre a conta, sobre o relógio dela e sobre o que a corrige depois — que não é a planilha, é a urina.
Quem adoece disso
A reposição do queimado é o raro caso em que a intervenção que salva o paciente é também a que mais o machuca, e a literatura da área tem nome para o segundo lado: fluid creep, a deriva do volume para cima. O fenômeno foi descrito há mais de duas décadas e é a razão declarada pela qual a diretriz de reposição da American Burn Association, de 2023, dedica metade das suas perguntas a reduzir volume, e não a garanti-lo. A frase que abre a justificativa da diretriz é a que o interno precisa levar para o plantão: a reposição é necessária e salva vidas, e a própria intervenção causa dano.
O tamanho da base de evidência surpreende quem imagina que uma conta feita há sessenta anos já foi resolvida. Aquela diretriz partiu de 5.978 títulos e terminou com 24 estudos que preenchiam os critérios de inclusão para as nove perguntas. E a mortalidade — o desfecho que todo mundo quer ver — não entrou formalmente como desfecho das perguntas, porque os autores julgaram que a literatura não tem estudos de tamanho e qualidade suficientes para sustentar recomendação sobre sobrevida. Traduzindo: o multiplicador que você vai usar hoje à noite não tem, em 2026, ensaio prospectivo forte comparando 2 com 4 mililitros. A própria diretriz escreve isso.
Do lado brasileiro, o dado epidemiológico que muda o seu plantão não é uma taxa, é uma discordância. Os três documentos em uso no país dão três multiplicadores diferentes para o mesmo paciente. A cartilha federal de 2012 diz 2 a 4 mL por quilo por ponto percentual; o protocolo estadual de Minas Gerais, de 2011, diz 3 ou 4; o protocolo nacional do SAMU 192, na 2ª edição de 2016, diz 4, sem faixa. Em Dilermando, de 82 quilos e 34%, isso são 5.576, 8.364 ou 11.152 mililitros nas primeiras 24 horas. O menor é exatamente metade do maior. Não se trata de nuance acadêmica: é o dobro de volume no mesmo paciente, dependendo de qual papel está pregado na parede do seu pronto-socorro.
A discordância tem data e direção. A American Burn Association mudou a taxa inicial de 4 para 2 mL por quilo por ponto percentual em 2011, e a diretriz de 2023 confirma essa escolha. A cartilha brasileira de 2012 já abria a faixa para 2 a 4 — chegou junto. O protocolo do SAMU, cujo capítulo de queimadura foi revisado em 2015 e cujo protocolo pediátrico foi elaborado em 2016, manteve o 4 fixo, depois da virada internacional. Os dois convivem no mesmo Sistema Único de Saúde, e nenhum revogou o outro.
Há uma última assimetria que decide quem vive: o erro para menos e o erro para mais não se manifestam no mesmo prazo. Repor de menos aparece em horas — oligúria, taquicardia, aprofundamento da queimadura, injúria renal. Repor demais aparece em dias — edema pulmonar, síndrome compartimental de abdome e de membro, mais tempo de ventilação, infecção. Como o segundo demora, ele é sistematicamente atribuído à gravidade da queimadura e não à prescrição, o que é justamente o que permite que a deriva continue. Quem mede o volume acumulado do seu paciente ao fim de 24 horas está fazendo a única auditoria que existe nessa história.
Por que acontece o que acontece
A fórmula de Parkland não é uma dose: é uma estimativa de perda. O que ela tenta prever é quanto plasma vai sair do intravascular nas primeiras 24 horas de um paciente cuja permeabilidade capilar ficou sistêmica, e ela faz isso com duas variáveis apenas — a massa do paciente e a fração da superfície dele que foi queimada. Nenhuma das duas mede a única coisa que realmente importa, que é o quanto de líquido está de fato saindo naquele paciente. Por isso a fórmula é ponto de partida e não prescrição, e por isso todo documento que a publica manda, na frase seguinte, ajustá-la pela resposta.
O número quatro tem origem experimental e é mais antigo que a maioria dos protocolos que o repetem: veio dos trabalhos de Baxter e Shires, em Parkland, nos anos 1960, com cristaloide isotônico. A diretriz americana de 2023, aliás, chama de fórmula de Baxter o que os documentos brasileiros chamam de Parkland, e reserva o nome fórmula de Brooke modificada para a versão de 2 mL por quilo por ponto percentual. Vale saber, porque isso explica uma imprecisão que a cartilha brasileira de 2012 comete: ela dá a faixa "2 a 4" sob o rótulo de fórmula de Parkland, quando o extremo inferior dessa faixa é, na nomenclatura internacional, uma fórmula diferente, com outro nome e outra origem.
O fracionamento em metade nas primeiras oito horas obedece à curva do vazamento, não a uma conveniência de plantão. A permeabilidade capilar é máxima logo depois da queimadura e vai se fechando ao longo do primeiro dia; a maior parte do edema se forma nas primeiras horas. Repor metade do volume estimado no primeiro terço do tempo é tentar acompanhar essa curva. É também a razão pela qual o relógio conta do momento da queimadura: o vazamento começou lá, não na porta do hospital, e o intervalo perdido no transporte é intervalo em que a curva correu sem contrapartida.
Daí sai a regra que só um dos documentos consultados escreve por extenso, e que é o eixo prático deste capítulo. O protocolo de Minas Gerais manda descontar o tempo de atraso das oito horas iniciais e infundir o volume calculado nas horas restantes. O protocolo do SAMU diz a mesma coisa em uma linha, ao definir que o minuto zero é o momento da queimadura e não o da chegada do socorrista. A consequência aritmética é agressiva: quanto mais tarde o paciente chega, maior a vazão que ele precisa receber, porque o volume da primeira metade não muda e a janela para infundi-lo encolheu.
O outro lado do mecanismo é o que transforma a solução em problema. Todo mililitro que você infunde numa circulação com barreira rompida também vaza, e o líquido que vaza vai para um interstício que não tem para onde se expandir em três lugares do corpo: dentro da cavidade abdominal, dentro dos compartimentos musculares de um membro com escara circunferencial, e dentro da órbita. Nos três, a pressão sobe até fechar a perfusão do que está dentro. É uma retroalimentação, e é o mecanismo que explica por que "repor mais" não é o lado seguro do erro: o volume extra piora o edema, o edema fecha a perfusão, a perfusão ruim é lida como hipovolemia e recebe mais volume. A diretriz americana nomeia dois marcadores dessa espiral — o índice de Ivy, de 250 mL por quilo em 24 horas, e a chamada ressuscitação em fuga, de 6 mL por quilo por ponto percentual em 24 horas.

A carga de cloreto importa quando se administram litros. No volume inicial estimado de 5.576 mL para Dilermando, um Ringer com 109 mEq/L de cloreto entregaria cerca de 608 mEq, contra 859 mEq de NaCl 0,9% a 154 mEq/L: diferença de aproximadamente 251 mEq. A composição deve ser conferida no produto usado. O volume é ajustado à resposta, e a comparação explica a preferência por solução balanceada, sem tornar um cálculo inicial o volume obrigatório do dia.
Por fim, o lactato do Ringer não é o lactato que você mede na gasometria. O lactato da solução é um precursor de bicarbonato: o fígado o converte, e por isso a bula indica a solução para prevenção e tratamento da acidose metabólica. O lactato sérico elevado do queimado é outro animal — é marcador de hipoperfusão. Confundir os dois leva a duas condutas erradas em direções opostas: trocar o Ringer por fisiológico "porque o lactato está alto", e ignorar um lactato que sobe "porque é da solução". A leitura da gasometria e o significado do lactato pertencem ao capítulo Gasometria arterial, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito; o que este capítulo assume é apenas a distinção entre o ânion do frasco e o metabólito do paciente.
Como se apresenta de verdade
O grande queimado não chega de um jeito só, e a fórmula não erra do mesmo jeito nas diferentes formas de chegada. As seis situações abaixo são as que mudam o número, a vazão ou o alvo — e em quatro delas o erro clássico é aplicar a conta padrão sem perguntar mais nada.
O paciente que chegou tarde, que é a maioria
Fora das capitais, o queimado raramente chega em vinte minutos. Ele apaga o fogo, vai para casa, alguém passa alguma coisa na ferida, a família discute, e só então o carro sai. O intervalo entre a queimadura e a primeira gota de soro é a variável mais subestimada da reposição, e é a única que o interno consegue medir com precisão sem nenhum equipamento — basta perguntar.
Reconstruir a hora exata é trabalho de detetive e vale o esforço. As âncoras que funcionam são as que deixam registro: a hora da primeira ligação no celular de quem chamou, o horário do turno de trabalho, o programa que estava na televisão, a hora em que o vizinho ouviu o barulho. "Faz mais ou menos umas duas horas" não serve, porque o erro dessa estimativa é de horas e não de minutos, e é justamente ele que vai para o denominador da vazão.
Atraso reduz a janela disponível, mas não transforma o volume teórico em dívida obrigatória. Calcule desde a lesão, desconte o que já entrou e avalie a condição atual. No adulto do caso, a estratégia inicial de 2 mL/kg/% estima 5.576 mL/24 h; sem volume prévio e início às 22h20, a parcela de 2.788 mL até 03h40 corresponderia a 523 mL/h. A titulação pode mudar esse plano desde a primeira avaliação.
Há um limite superior que ninguém escreve, e por isso ele é julgamento clínico e não regra: um paciente que chega com sete das oito horas já passadas não deve receber a metade inteira em sessenta minutos. Nesse extremo, a conduta razoável é infundir em ritmo alto sob reavaliação de curto intervalo e deixar a diurese e a perfusão decidirem quando frear, em vez de perseguir o número da planilha. Nenhum dos documentos brasileiros consultados fixa esse teto.
A taquicardia é o sinal; a hipotensão é o atraso
O queimado extenso chega taquicárdico e normotenso, e permanece assim por horas. A pressão arterial é sustentada por vasoconstrição intensa enquanto o volume circulante já caiu bastante, e ela cede tarde. Esperar hipotensão para começar a repor é chegar atrasado duas vezes: uma no relógio da fórmula e outra na fisiologia.
O corolário incomoda quem vem do trauma: a pressão arterial não serve como alvo de titulação aqui. O manejo hemodinâmico do choque por perda de sangue, com suas metas próprias e sua discussão de hipotensão permissiva, é do capítulo Choque hemorrágico no trauma, da apostila de Trauma. O choque do queimado sem sangramento associado não tem, no acervo deste nível, outro dono além deste capítulo, e por isso ele assume: aqui o alvo de titulação é a diurese horária, e a pressão arterial entra como sinal de alarme quando cai, nunca como parâmetro de ajuste fino.
Uma consequência prática: taquicardia isolada, no queimado bem reposto, também pode ser dor, ansiedade, hipotermia ou abstinência. Antes de subir a vazão por causa de uma frequência de 120, confira a diurese da última hora e a temperatura. Subir volume para tratar dor é o começo clássico da deriva.
A criança é outra conta, e o idoso é outra ainda
Na criança a fórmula continua valendo, mas ela deixa de ser suficiente. A criança tem necessidade hídrica basal proporcionalmente muito maior que a do adulto, e essa necessidade não desaparece porque ela se queimou. O volume de Parkland repõe a perda da queimadura; a manutenção repõe o gasto do dia, e as duas se somam. Num adulto a manutenção é desprezível diante do volume da reposição e não se prescreve à parte; numa criança de 16 quilos ela é de 1.300 mililitros em 24 horas, contra 1.152 de Parkland numa queimadura de 18% — praticamente o mesmo tamanho.
Nenhum dos documentos brasileiros consultados menciona somar manutenção à fórmula no queimado pediátrico. O protocolo pediátrico do SAMU 192 e a cartilha do Ministério da Saúde tratam apenas do volume de reposição. A aritmética da manutenção — a regra de 100, 50 e 20 mililitros por quilo e a solução que a veicula — é do capítulo Diarreia e desidratação na criança, da apostila de Gastroenterologia Pediátrica, que a traz conferida contra o protocolo nacional. A soma das duas, essa sim, não tem dono em lugar nenhum deste nível, e é o que este capítulo assume e declara: no queimado pediátrico, manutenção e reposição correm juntas, e prescrever só Parkland deixa faltar cerca de metade do que a criança precisa.
O segundo detalhe pediátrico é o açúcar. A criança pequena tem reserva de glicogênio curta e faz hipoglicemia sob estresse; o Ringer com lactato não tem glicose. Tanto a cartilha do Ministério quanto o protocolo pediátrico do SAMU mandam medir glicemia capilar, e a manutenção pediátrica é justamente a solução glicosada — mais uma razão para ela não ser opcional.
No outro extremo, a cartilha federal de 2012 manda iniciar com 2 a 3 mL por quilo por ponto percentual no idoso, no portador de insuficiência renal e no de insuficiência cardíaca congestiva, e observar a diurese com critério mais rigoroso. É a única modulação por comorbidade escrita em documento brasileiro, e ela é o reconhecimento explícito de que, nesses pacientes, o excesso chega mais rápido que a falta.
A queimadura elétrica e a urina cor de refrigerante
Na queimadura elétrica e na queimadura profunda extensa, a superfície visível subestima o dano. A corrente atravessa músculo, e o músculo destruído libera mioglobina, que precipita no túbulo renal. O sinal é a cor: urina escura, avermelhada ou acastanhada, com fita reagente positiva para sangue e sedimento sem hemácias.
O que muda é o alvo. A cartilha do Ministério da Saúde de 2012 manda, no trauma elétrico, manter a diurese em torno de 1,5 mililitro por quilo por hora ou até o clareamento da urina — três vezes o piso de 0,5 usado no queimado térmico. Em Dilermando, se ele tivesse levado choque, isso seria 123 mililitros por hora em vez de 41. O mesmo documento manda avaliar a mioglobinúria e estimular o aumento da diurese com maior infusão de líquidos, e faz monitorização cardíaca contínua por 24 a 48 horas com dosagem de enzimas musculares.
Duas fronteiras aqui. A rabdomiólise instalada, a injúria renal que ela produz e a decisão de diálise são do capítulo Injúria renal aguda, da apostila de Nefrologia, que ensina o estadiamento e o manejo; a lesão de isquemia e reperfusão do músculo e a fasciotomia são do capítulo Oclusão arterial aguda de membro, da apostila de Cirurgia Vascular. Nenhum dos dois trata do queimado, e nenhum dos dois fixa o alvo de diurese durante a reposição — essa parte é deste capítulo, e ele a assume.
O reconhecimento da lesão elétrica em si, a lista de quem interna e o que a corrente faz com o coração são do capítulo Emergências ambientais no adulto, da apostila de Medicina de Emergência, que é dono do choque elétrico.
Quando o queimado também é traumatizado
Explosão, queda de altura, colisão, desabamento: nessas cenas o paciente tem duas causas de choque, e as duas pedem volume por razões diferentes. A distinção que resolve o impasse na beira do leito é temporal. O choque do queimado não existe nos primeiros minutos — o vazamento leva tempo para produzir hipovolemia. Hipotensão nos primeiros trinta minutos depois do acidente, num queimado, é hemorragia até prova em contrário, e não deficiência de Parkland.
Na hemorragia associada, priorize controle do sangramento e ressuscitação hemostática. A equipe integra a necessidade da queimadura ao mesmo paciente e ao balanço total: não executar duas reposições fixas em paralelo sem considerar o que já foi infundido. Registre separadamente origem e finalidade das entradas, mas some todas para vigiar sobrecarga.
A avaliação inicial em si — a sequência do exame primário, o que se procura e em que ordem — é do capítulo Atendimento inicial ao politraumatizado, da apostila de Trauma.
O que não é grande queimado, e mesmo assim recebe soro demais
A reposição calculada tem gatilho, e ele não é "queimadura". Tanto o protocolo do SAMU 192 quanto a cartilha federal fixam a conversa de volume acima de 20% de superfície queimada no adulto e 10% na criança; a diretriz americana declara escopo a partir de 20% no adulto. Abaixo disso, o paciente que bebe e não vomita se hidrata pela boca, e a via venosa serve para analgesia, não para volume.
Prescrever Parkland a um adulto com 12% de superfície queimada é um erro silencioso e comum: ninguém morre disso, mas o paciente passa o dia recebendo litros que não precisava, edemacia, e quem olha atribui o edema à queimadura. Quando a área está entre 15 e 20% no adulto, a decisão é clínica e depende de quem está na frente — a criança pequena, o idoso, quem vomita, quem tem queimadura de mão e não consegue segurar o copo, e quem vai enfrentar horas de transporte inclinam para a via venosa.
O oposto também acontece: a queimadura salpicada de tronco e membros, contada de olho, sai subestimada e não aciona o gatilho. É por isso que a conta de superfície é feita com a tabela na mão, segmento a segmento, e não pela impressão — e essa conta é do capítulo Superfície queimada e profundidade, desta apostila, que a este capítulo entrega apenas o número final.
Como fechar o diagnóstico
Nas primeiras horas do grande queimado, o exame que mais decide não sai do laboratório nem da sala de imagem: sai da bolsa coletora de urina, lido de hora em hora e convertido em taxa. Tudo o mais nesta seção existe para explicar o que aquela bolsa está dizendo, ou para descobrir por que ela está mentindo.
As quatro medidas que precedem a primeira bolsa
Antes de pendurar soro, quatro números precisam estar no papel, e nenhum deles depende de equipamento sofisticado. O primeiro é a hora da queimadura, reconstruída com âncora e escrita como hora exata, não como intervalo. O segundo é o peso, aferido se houver balança e, se não houver, o peso habitual informado pelo paciente ou pela família, também escrito como tal — peso estimado de olho por quem examina é a fonte de erro mais evitável de toda a conta.
O terceiro é a superfície corporal queimada de segundo e terceiro graus, contada segmento a segmento com a tabela apropriada à idade. O eritema não entra: somar primeiro grau infla o volume de um paciente que não perde plasma por ali. O quarto é a hora em que a infusão efetivamente começou, que é diferente da hora da prescrição e é a que permite auditar o que foi feito.
Esses quatro números viram uma linha só no prontuário, e é a linha que a regulação vai pedir pelo telefone: peso, hora da queimadura, superfície de segundo e terceiro graus, hora de início da reposição, volume prescrito para as primeiras oito horas e vazão. Quem tem essa linha pronta ganha vaga mais rápido, porque do outro lado da linha alguém está decidindo com base nela.
A sonda vesical: quando entra e o que ela realmente mede
A cartilha do Ministério da Saúde de 2012 fixa a indicação com dois cortes: sonda vesical de demora para controle de diurese acima de 20% de superfície queimada no adulto e acima de 10% na criança. Não é uma sonda de conforto nem de balanço genérico: ela é o instrumento de medida do único parâmetro que titula a reposição.
O que a sonda mede tem que ser lido como taxa, não como volume. Diurese se escreve em mililitros por quilo por hora, e a conversão precisa aparecer no prontuário: em Dilermando, de 82 quilos, o piso de 0,5 mL por quilo por hora é 41 mililitros na hora — um volume que parece pequeno na bolsa e que é exatamente o alvo. A aritmética da taxa de diurese, e o cuidado com a bexiga que não esvazia e finge oligúria, são do capítulo Oligúria e balanço hídrico, da apostila de Síndromes do Paciente Internado.
A anotação é horária, com volume e aspecto, e o aspecto vale tanto quanto o volume. Urina que clareia ao longo das horas na queimadura elétrica é resposta; urina que escurece é mioglobina que continua chegando. Urina concentrada e escassa em paciente taquicárdico é reposição insuficiente. Urina abundante e clara com paciente edemaciado é o primeiro sinal, tardio e bem-vindo, de que a vazão pode cair.
Quando não houver sonda disponível ou a área for menor que os cortes, mede-se a micção espontânea com jarra graduada e hora anotada. Vale menos, mas vale muito mais que nada.
O hematócrito como termômetro da reposição
Os exames que se colhem na admissão do queimado e os que não valem a pena são do capítulo Superfície queimada e profundidade, desta apostila, que traz a lista conferida. O que interessa aqui é um deles, lido de um jeito específico: o hematócrito, não como valor isolado, mas como trajetória.
No queimado se perde plasma, não sangue. O resultado é hemoconcentração: o hematócrito da admissão sobe, e quanto mais extensa a queimadura, mais ele sobe. Um hematócrito de 55% num queimado de 34% não é policitemia nem boa notícia — é a medida indireta de quanto plasma já saiu. Por isso ele funciona como segunda opinião sobre a diurese: hematócrito que cai ao longo das horas, com diurese no alvo, é reposição funcionando; hematócrito que teima em ficar alto enquanto a diurese cai aponta volume que não está chegando, e manda revisar o multiplicador antes de qualquer outra hipótese.
A leitura tem duas armadilhas. A primeira é o paciente que também sangra: ali o hematócrito cai por hemorragia e não por reidratação, e a diurese não acompanha. A segunda é o hematócrito que despenca no segundo dia em paciente edemaciado — parte dessa queda é diluição, e o mesmo raciocínio de correção pelo balanço acumulado que o capítulo Oligúria e balanço hídrico ensina para a creatinina vale aqui como advertência: em paciente que acumula líquido, valor que cai nem sempre é problema que melhora.
Acesso: onde puncionar, e por que duas veias
A regra dos documentos brasileiros é a mesma e é permissiva: acesso periférico calibroso, preferencialmente em área não queimada e, se não houver área não queimada, através da pele queimada mesmo. O protocolo pediátrico do SAMU 192 escreve isso com todas as letras e acrescenta a punção intraóssea como alternativa. A cartilha do Ministério manda usar o acesso central só na impossibilidade do periférico. A ordem de preferência existe por risco de infecção, e ela cede diante da necessidade — no queimado extenso, veia periférica em pele queimada é melhor que nenhuma veia.
A via precisa comportar a infusão com controle mensurável. Para o início indicativo de 523 mL/h deste caso, confira calibre, bomba e conexões; diferencie velocidade prescrita de volume realmente administrado. Não use a variação da diurese para corrigir no papel uma infusão que não está chegando à veia.
A técnica da punção, a escolha do cateter e o acesso central são do capítulo correspondente da apostila de Procedimentos e Vias de Acesso.
Uma anotação que evita confusão de turno: identifique qual acesso está correndo a reposição calculada e qual está reservado para analgesia e outras drogas. Volume que entrou por uma via e não foi somado na folha é a maneira mais comum de a auditoria de 24 horas ficar errada para menos.
As duas pressões que o próprio soro cria
Volume grande produz duas pressões que fecham perfusão, e as duas se medem à beira do leito com material que qualquer hospital tem. A primeira é a pressão intra-abdominal, medida por via intravesical pela mesma sonda que já está lá para a diurese. A diretriz americana de 2023 recomenda monitorização seletiva da pressão intra-abdominal e da intraocular durante a reposição do queimado, e define a síndrome compartimental abdominal como pressão acima de 20 mmHg com disfunção orgânica nova.
A técnica de medida, as faixas de pressão intra-abdominal, o que muda em cada uma e a decisão de descomprimir são do capítulo Cirurgia de controle de danos e tríade letal, da apostila de Trauma, que é dono do assunto e o ensina com o material discriminado. O que este capítulo assume, porque aquele trata do abdome operado e não do queimado, é o gatilho: no grande queimado sem trauma abdominal, a indicação de medir nasce do volume infundido e do abdome que fica tenso enquanto se repõe, e não de uma laparotomia prévia.
A segunda pressão é a intraocular, e ela quase nunca é lembrada. A diretriz americana registra o volume acumulado de 200 mililitros por quilo em 24 horas como um dos gatilhos descritos para vigiar pressão intraocular, ao lado da queimadura periorbital profunda e da proptose; em Dilermando isso seriam 16.400 mililitros. A síndrome compartimental orbitária cega, e a descompressão é uma cantotomia lateral — decisão de quem tem a habilidade, não do interno sozinho, mas o reconhecimento é de quem está ao lado do paciente.
A terceira é o membro, e essa é a única das três em que o gatilho é puramente clínico: dor desproporcional, parestesia, extremidade fria e enchimento capilar lento sob escara circunferencial, com o pulso desaparecendo por último. A perfusão que piora enquanto a reposição corre bem não é falta de volume.
O que não se prescreve nas primeiras 24 horas
A cartilha de 2012 desaconselhava coloide, diurético e vasoativo na fase inicial. Essa frase não deve ser ensinada como proibição universal atual. Diurético não corrige hipovolemia; albumina pode ser considerada em ressuscitação selecionada pela equipe de queimados; e choque refratário exige diagnóstico e suporte individualizado, podendo incluir vasoativo. São decisões distintas, não três drogas com o mesmo mecanismo.
O diurético merece ênfase porque a tentação é grande e o dano é direto. Diante de um queimado oligúrico, prescrever furosemida transforma o único instrumento de medida que você tem num instrumento quebrado: a urina passa a refletir a dose de diurético, e não a perfusão renal. A exceção clássica que se ouve no corredor — "mas ele está inchado" — confunde edema intersticial com hipervolemia intravascular, que são coisas opostas neste paciente.
Verifique acesso hospitalar a albumina e demais recursos com a farmácia. Uma busca em lista de medicamentos não comprova o estoque nem torna a discussão terapêutica puramente teórica. A decisão de albumina é clínica e especializada, não automática pela disponibilidade.
Por fim, um item que os documentos consultados prescrevem e que o elenco nacional não sustenta: a cartilha manda administrar bloqueador de receptor H2 para profilaxia da úlcera de estresse, e o protocolo mineiro de 2011 nomeia a ranitidina. Nenhum bloqueador H2 consta da Rename 2024 — nem ranitidina, nem cimetidina, nem famotidina. O que consta é omeprazol em cápsula de 10 e 20 miligramas, apresentação oral, que não serve ao paciente em jejum e com sonda gástrica de drenagem. A profilaxia de úlcera de estresse do paciente internado é do capítulo correspondente da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado.
O multiplicador, o relógio, o frasco e os tetos
Para adultos com SCQ ≥20%, a ABA 2024 recomenda iniciar a estimativa com 2 mL/kg/% nas primeiras 24 horas para reduzir excesso de fluido. Parkland clássico (4 mL/kg/%) permanece explicado como referência histórica e de protocolos específicos, não como dose universal. Crianças requerem estratégia própria e manutenção.
- 1Trate ameaças à vida e procure outras causas de choque precoce, especialmente hemorragia e intoxicação. Acione a equipe de queimados em paralelo ao suporte.
- 2Registre hora da lesão, início real da infusão, peso e SCQ de espessura parcial/total. Confirme todos os volumes já administrados, inclusive no transporte.
- 3No adulto deste caso, a estimativa inicial é 2 × 82 × 34 = 5.576 mL/24 h. Se o protocolo usa metade nas primeiras oito horas, a parcela é 2.788 mL. A janela começa às 19h40 e termina às 03h40.
- 4Às 22h20 restam 5 h 20 min. Sem fluido prévio, a conta indicativa é 2.788/5,333 = cerca de 523 mL/h. Esse valor precisa ser confirmado pela condição atual; atraso não autoriza infundir um déficit teórico em bolus.
- 5Inicie cristaloide balanceado aquecido, monitorização e balanço. Use diurese horária, perfusão, consciência, pressão e trajetória de exames; no adulto, cerca de 0,5 mL/kg/h é referência usual, sem perseguir diurese alta com volume.
- 6Antes de aumentar por oligúria, confira sonda e drenagem, volemia, perfusão, sangramento, função renal e compartimentos. Ajuste em passos pelo protocolo; taquicardia pode refletir dor e estresse.
- 7Não resetar a bomba automaticamente às oito horas. Reavalie a resposta e o volume acumulado; a divisão teórica em 8/16 horas não substitui titulação contínua.
- 8Na criança pequena, some manutenção apropriada, geralmente com glicose e solução isotônica, à reposição prescrita pelo protocolo pediátrico; contabilize todas as entradas e acompanhe glicemia. Não extrapolar o fator adulto sem avaliação.
- 9Necessidades crescentes, edema desproporcional ou choque persistente exigem equipe especializada. Albumina pode ser considerada em cenários selecionados; vasoativo não é proibido por um relógio de 24 horas, mas requer definição do mecanismo do choque.
As réguas que disputam o mesmo paciente
| Documento e data | Multiplicador | Fracionamento e relógio | Alvo de diurese | Volume em Dilermando (82 kg, 34%) |
|---|---|---|---|---|
| Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, Ministério da Saúde, 2012 | 2 a 4 mL por quilo por ponto percentual de 2º e 3º graus; 2 a 3 no idoso e no portador de insuficiência renal ou cardíaca | 50% nas primeiras 8 horas e 50% nas 16 seguintes; horas contadas a partir da hora da queimadura | 0,5 a 1 mL/kg/h; cerca de 1,5 mL/kg/h no trauma elétrico, ou até a urina clarear | 5.576 a 11.152 mL nas primeiras 24 horas |
| Protocolo SAMU 192, AT25 — adulto, 2ª edição de 2016 (elaborado em 2014, revisto em 2015) | 4 mL de Ringer lactato por quilo por ponto percentual de 2º e 3º graus, sem faixa | Metade nas primeiras 8 horas e metade nas 16 restantes; minuto zero é o momento da queimadura, não o da chegada do socorrista | Não fixa alvo | 11.152 mL nas primeiras 24 horas |
| Protocolo SAMU 192, APed 37 — criança, 2ª edição de 2016 (elaborado em 2016) | 4 mL de Ringer lactato por quilo por ponto percentual de 2º e 3º graus | O texto calcula o volume para 24 horas e manda infundi-lo nas primeiras 8 — ver a primeira nota de auditoria | Não fixa alvo | Ver a primeira nota de auditoria |
| Protocolos Clínicos, Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, janeiro de 2011 | Peso × superfície queimada × 3 ou 4 | Metade nas primeiras 8 horas e o restante nas 16 seguintes; manda descontar o atraso das 8 horas iniciais e infundir nas horas restantes | 0,5 a 1 mL/kg/h, nomeada como principal parâmetro de hidratação | 8.364 a 11.152 mL nas primeiras 24 horas |
| Diretriz da American Burn Association sobre reposição no choque do queimado, 2023 | 2 mL por quilo por ponto percentual como taxa inicial, em adulto com 20% ou mais | Não prescreve fracionamento fixo: a fórmula dá a vazão inicial e o resto é titulação | 0,5 mL/kg/h | 5.576 mL nas primeiras 24 horas |
Conta atual do adulto — estimativa ABA 2024, com início real às 22h20
| Janela | Volume | Vazão | Frascos de Ringer lactato de 1.000 mL | O que se confere ao fim da janela |
|---|---|---|---|---|
| Lesão às 19h40; início às 22h20 | Sem volume prévio neste exemplo | 5 h 20 min até 03h40 | Conferir na prática | Não inferir estabilidade pelo atraso nem compensar cegamente. |
| Primeira janela teórica | 2.788 mL | 523 mL/h como início indicativo | 2,788 frascos de 1 L | Titular por perfusão, diurese e balanço. |
| Segunda janela teórica | 2.788 mL | 174,25 mL/h como referência | 2,788 frascos de 1 L | Não resetar automaticamente a vazão já titulada. |
| Estimativa de 24 horas | 5.576 mL = 68 mL/kg | Ajustável | 5,576 frascos de 1 L | O volume real pode diferir com justificativa clínica. |
| Se houvesse fluido prévio | Descontar da parcela aplicável e somar ao balanço | Recalcular com hora e resposta | Registrar tudo | Medicações e manutenção também contam como entradas. |
Comparação histórica de Parkland clássico (4 mL/kg/%) e apresentações — não é a prescrição atual de Dilermando
| O que se prescreve | Apresentação real | A conta | O que sai da farmácia |
|---|---|---|---|
| Ringer com lactato, primeira metade | Frascos plásticos de 500 mL e de 1.000 mL (bula Fresenius Kabi, registro M.S. 1.0041.0103); Rename 2024, componente Básico | 4 × 82 × 34 = 11.152 mL em 24 horas; metade = 5.576 mL | 5,6 frascos de 1.000 mL só na primeira janela, e 11,2 no dia — separe doze antes de começar |
| Comparação histórica: cerca de 1.046 mL/h | Equipo de 20 gotas/mL apenas como cálculo comparativo; usar controle adequado da infusão | 5.576 mL ÷ 5 h 20 min desde o início às 22h20 até 03h40 | Cerca de 349 gotas/min: não é prescrição atual e não deve ser contado a olho. O plano adotado começa com 2 mL/kg/%, ajustado à resposta. |
| Soro fisiológico 0,9% como alternativa | Cloreto de sódio 9 mg/mL (Rename 2024, componente Básico) | 154 mEq/L de cloreto, contra 109 mEq/L do Ringer | Os mesmos 11.152 mL entregariam 1.717 mEq de cloreto em vez de 1.220 — quase 500 a mais, num paciente que recebe o dia inteiro |
| Morfina, na diluição e na dose da cartilha de 2012 | Sulfato de morfina 10 mg/mL, ampola de 1 mL (Rename 2024, componente Especializado) | 1 mL (10 mg) diluído em 9 mL de fisiológico dá 10 mL a 1 mg/mL; dose de 0,5 a 1 mg para cada 10 kg | 4,1 a 8,2 mg, ou seja, 4,1 a 8,2 mL da diluição, tirados de uma única ampola |
| Dipirona, na dose da cartilha de 2012 | Dipirona 500 mg/mL solução injetável (Rename 2024, componente Básico) | 500 mg a 1 g no adulto | 1 a 2 mL, meia a uma ampola de 2 mL |
| Albumina humana, em indicação selecionada pela equipe de queimados | Conferir acesso hospitalar e apresentação | Não há dose universal neste quadro | Não confundir com hidroxietilamido nem com reposição de rotina para todo paciente. |
Os números que dizem que a reposição virou o problema
| Marcador | Definição | Em Dilermando (82 kg, 34%) | O que ele obriga a fazer |
|---|---|---|---|
| Estimativa inicial atual do adulto | 2 mL/kg/% em 24 h, ABA 2024 | 5.576 mL = 68 mL/kg | Titulação desde o início; marcadores de volume alto não autorizam esperar por complicação. |
| Ressuscitação em fuga | 6 mL por quilo por ponto percentual em 24 horas (diretriz da American Burn Association, 2023) | 16.728 mL | Refazer a conta de área, revisar a titulação e procurar o que consome volume: sangramento, compartimento, sepse |
| Gatilho descrito de vigilância ocular | 200 mL por quilo acumulados em 24 horas (mesma diretriz), ao lado de queimadura periorbital profunda e proptose | 16.400 mL | Examinar as órbitas e considerar medida de pressão intraocular |
| Índice de Ivy | 250 mL por quilo em 24 horas (mesma diretriz) | 20.500 mL | Vigilância ativa de compartimento abdominal e de membro; a partir daqui a reposição é, ela própria, uma causa de disfunção |
Aprofundamento documental — leitura complementar. O protocolo pediátrico do SAMU 192 manda infundir em 8 horas o volume que ele calculou para 24. O APed 37, elaborado em abril de 2016, escreve: sugere-se a fórmula de Parkland para o cálculo para as primeiras 24 horas — 4 mL de Ringer lactato × peso × %SCQ de 2º e 3º graus, a ser infundido nas primeiras 8 horas. O protocolo adulto do mesmo documento, o AT25, escreve o contrário na mesma linha de raciocínio: metade nas primeiras 8 horas e a segunda metade nas 16 restantes, dividindo por 8 para achar a vazão. A conta, numa criança de 16 quilos com 18% de superfície: 4 × 16 × 18 = 1.152 mL em 24 horas, dos quais 576 mL nas primeiras 8, isto é, 72 mL por hora. Lido ao pé da letra, o texto pediátrico manda 1.152 mL em 8 horas, ou 144 mL por hora — exatamente o dobro, e 72 mL por quilo em oito horas numa criança. É a leitura literal; a leitura caridosa supõe uma omissão da palavra 'metade'. As duas leituras cabem no texto, e é essa ambiguidade que é o defeito, porque quem lê o cartão sob pressão de tempo lê o que está escrito.
Aprofundamento documental — leitura complementar. A cartilha federal chama de Parkland uma faixa cujo piso é outra fórmula. Ela escreve 'Fórmula de Parkland = 2 a 4 ml x % SCQ x peso (kg)'. Na nomenclatura da própria literatura de queimados, e explicitamente na diretriz da American Burn Association de 2023, 4 mL por quilo por ponto percentual é a fórmula de Baxter, que é o que se chama de Parkland, e 2 mL por quilo por ponto percentual é a fórmula de Brooke modificada — outra origem, outro nome. Dar as duas sob um rótulo só apaga a diferença justamente onde ela decide o dobro do volume. Na mesma linha há um segundo problema, menor: a fórmula aparece escrita em duas notações, '2 a 4 ml x % SCQ x peso' e '2 a 4 ml/kg/%SCQ', e só a segunda é dimensionalmente coerente.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Três documentos brasileiros em uso, três multiplicadores, e o menor é metade do maior. A cartilha do Ministério da Saúde de 2012 diz 2 a 4; o protocolo estadual de Minas Gerais de 2011 diz 3 ou 4; o protocolo nacional do SAMU 192, na 2ª edição de 2016, diz 4 fixo. Em Dilermando: 5.576 mL, 8.364 mL ou 11.152 mL nas primeiras 24 horas. Nenhum revoga o outro e nenhum é mais recente o bastante para se impor: o mais novo dos três, o do SAMU, é o que fixa o maior multiplicador, depois de a American Burn Association ter baixado a taxa inicial de 4 para 2 em 2011. Não existe documento federal posterior a 2016 que arbitre entre eles.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Dois documentos oficiais prescrevem uma classe farmacológica que o elenco nacional não tem. A cartilha de 2012 manda administrar bloqueador de receptor H2 para profilaxia da úlcera de estresse; o protocolo mineiro de 2011 nomeia a droga, ranitidina, ao lado do omeprazol. Busca exata sobre o texto normalizado da Rename 2024: ranitidina, cimetidina e famotidina não constam — nenhum bloqueador H2 consta. O que consta é omeprazol 10 mg e 20 mg em cápsula, componente Básico, apresentação exclusivamente oral, que não serve ao paciente em jejum. Pantoprazol injetável também não consta. A recomendação, como escrita, não é executável pela farmácia da rede básica.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que fechou: a composição do Ringer com lactato. A bula declara, por 100 mL, cloreto de sódio 0,6 g, cloreto de potássio 0,030 g, cloreto de cálcio di-hidratado 0,020 g e lactato de sódio 0,310 g, e declara à parte o conteúdo eletrolítico. Recalculando pelas massas molares: sódio 102,7 mEq/L do cloreto mais 27,7 do lactato dá 130,3 contra os 130,0 declarados; potássio 4,02 contra 4,0; cálcio 2,72 contra 2,7; lactato 27,7 contra 28,0; cloreto 109,4 contra 108,7, uma diferença de 0,7 mEq/L, ou 0,6%; osmolaridade calculada 272,8 contra 273,20 declarados, 0,1% de diferença. Tudo dentro do arredondamento. A Rename 2024 descreve a mesma solução com uma casa a menos no lactato, 3 mg/mL contra os 3,1 mg/mL da bula, o que é arredondamento e não divergência.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que fechou: a diluição de morfina da cartilha. O documento manda diluir 1 mL, ou 10 mg, em 9 mL de fisiológico, 'considerando-se que cada 1 mL é igual a 1 mg'. O volume final é 10 mL e a concentração é de fato 1 mg/mL — a conta está certa, e está certa porque o mililitro da droga foi contado no total. A dose que ele indica, 0,5 a 1 mg para cada 10 kg, é a mesma para adulto e criança e equivale a 0,05 a 0,1 mg por quilo nos dois: 4,1 a 8,2 mg em Dilermando e 0,8 a 1,6 mg numa criança de 16 quilos. Coerente nas duas pontas. Vale registrar, porém, que o sulfato de morfina injetável figura na Rename 2024 no componente Especializado, e não no Básico — a farmácia da unidade básica não é a via de acesso a ele.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Nenhum documento brasileiro consultado manda somar manutenção à fórmula no queimado pediátrico, nem distingue o alvo de diurese da criança do alvo do adulto. A cartilha de 2012 dá um único alvo, 0,5 a 1 mL por quilo por hora, sem faixa etária; o protocolo pediátrico do SAMU 192 não fixa alvo nenhum. A recomendação corrente de 1 mL por quilo por hora na criança pequena e a soma da manutenção ao volume de reposição são de origem estrangeira, e este capítulo as declara como tais em vez de atribuí-las a documento nacional. Em números, no queimado de 16 quilos com 18%: Parkland sozinho entrega 72 mL por hora nas primeiras 8 horas; a manutenção de Holliday e Segar acrescenta 54 mL por hora. Quem prescreve só a fórmula entrega três quartos do que essa criança precisa.
A conduta, hora a hora
Duas coisas ficam de fora desta linha do tempo de propósito, e por terem dono. A decisão de intubar o queimado, os sinais que a antecipam e a sequência rápida são do capítulo Via aérea no trauma, da apostila de Trauma; a lesão inalatória estabelecida e o seu manejo são do capítulo A via aérea fecha enquanto você repõe, desta mesma apostila, que trata os três problemas da fumaça, a intoxicação por monóxido de carbono e por cianeto e a queimadura circunferencial de tórax. O cuidado da ferida, a escarotomia como técnica e os critérios formais de transferência são do capítulo previsto Critérios de encaminhamento a centro de queimados e cuidado da ferida, também ainda não escrito, e do capítulo Superfície queimada e profundidade, desta apostila, que já traz as listas nacionais conferidas.
Minuto 0 a 5 — tudo o que não espera pela conta
Nada do que vem aqui depende da conta, e por isso nada aqui espera por ela. O paciente entra, alguém pergunta a hora da queimadura enquanto outro alguém punciona, e a analgesia sai junto com o primeiro exame. Dor de queimadura é taquicardia que você vai interpretar errado daqui a uma hora, e é paciente que não deixa contar a superfície direito.
Prescrição- Dois acessos venosos periféricos calibrosos, preferencialmente em área não queimada e, na falta dela, através da pele queimada; punção intraóssea se não houver veia (protocolo SAMU 192, AT25 e APed 37; cartilha do Ministério da Saúde, 2012)
- Colher na mesma punção: hemograma com hematócrito, sódio, potássio, ureia, creatinina, glicemia e gasometria; enzimas musculares se houve corrente elétrica ou queimadura profunda extensa
- Dipirona 500 mg a 1 g intravenosa, ou seja, 1 a 2 mL da solução injetável de 500 mg/mL (cartilha do Ministério da Saúde, 2012; Rename 2024, componente Básico)
- Morfina diluída — 1 mL, ou 10 mg, em 9 mL de fisiológico, resultando em 1 mg/mL; administrar 0,5 a 1 mg para cada 10 kg, que em Dilermando são 4,1 a 8,2 mg (cartilha do Ministério da Saúde, 2012)
- Anotar a hora exata da queimadura no prontuário, com a âncora que a sustenta, e sublinhá-la: é o marco zero de tudo o que vem depois
- Retirar anéis, aliança, relógio, pulseiras e cinto antes que o edema apareça
Minuto 5 a 10 — os dois números que multiplicam
A fórmula tem duas entradas e as duas se medem, não se estimam. O peso vem da balança e, na falta dela, do peso habitual informado, escrito como tal. A superfície de segundo e terceiro graus vem da tabela apropriada à idade, contada segmento a segmento, com o eritema fora — e essa conta é do capítulo Superfície queimada e profundidade, desta apostila, que este capítulo usa e não repete. Em Dilermando: 82 quilos e 34%.
Prescrição- Peso aferido; na ausência de balança, peso habitual informado pelo paciente ou pela família, registrado como peso informado
- Superfície corporal queimada de 2º e 3º graus contada com a tabela, segmento a segmento, e registrada discriminada por segmento
- Adulto com 34% de SCQ: estimativa inicial ABA 2024, 2 × 82 × 34 = 5.576 mL nas primeiras 24 horas, sujeita a titulação.
- Parcela teórica das primeiras oito horas: 2.788 mL. Descontar ressuscitação já administrada e integrar todas as entradas ao balanço.
- A primeira janela termina às 03h40. Na chegada às 22h15 restam 5 h 25 min; no início efetivo às 22h20 restam 5 h 20 min. Registrar o horário usado na conta.
- Sem fluido prévio, 2.788 mL/5 h 20 min = cerca de 523 mL/h no início real. Confirmar perfusão e titular; não fazer compensação cega de atraso nem bolus apenas para completar a fórmula.
Minuto 10 — a primeira bolsa, e o que a vazão exige da estrutura
A velocidade inicial precisa ser entregue e medida com segurança. Neste exemplo ela é cerca de 523 mL/h, a ser revista pela resposta, não uma ordem de completar 2.788 mL a qualquer custo. Use dispositivo e acesso adequados à vazão, documentando o volume real. Contar frascos vazios confere o balanço, mas não substitui vigilância da infusão.
Prescrição- Ringer com lactato aquecido, velocidade inicial indicativa de 523 mL/h neste exemplo, confirmada pelo médico responsável e titulada segundo perfusão/diurese. Conferir capacidade da bomba e dos acessos.
- Organizar disponibilidade de solução e equipamentos conforme a estimativa de 5.576 mL/24 h e a evolução, com revisão contínua; não abrir ou programar doze litros por uma fórmula antiga.
- Anotar a hora real do início da infusão, que é diferente da hora da prescrição
- Identificar qual acesso corre a reposição calculada e qual fica para analgesia e demais drogas — volume que entra por fora e não é somado quebra a auditoria do dia
- Na falta de solução balanceada, discutir NaCl 0,9% e acompanhar cloreto/acidose. O excesso de cloreto é proporcional ao volume real, que deve ser somado, não assumido como o total de Parkland clássico.
Minuto 10 a 20 — o instrumento de medida, o cobertor, e o que não se faz
A sonda vesical aqui não é conforto de enfermagem: é o instrumento que vai titular todo o resto do dia. E a mesma hora que instala o instrumento é a hora de decidir o que não vai ser feito, porque três prescrições comuns estragam a medida ou o paciente.
Prescrição- Sonda vesical de demora com bolsa graduada, indicada acima de 20% de SCQ no adulto e 10% na criança (cartilha do Ministério da Saúde, 2012), com anotação horária de volume e aspecto
- Converter o alvo para este paciente e escrevê-lo na prescrição: 0,5 a 1 mL/kg/h em 82 kg são 41 a 82 mL por hora
- Cobrir com material seco e aquecer: manta, sala aquecida, e consciência de que litros de cristaloide em temperatura ambiente esfriam o paciente
- Não usar diurético para produzir artificialmente a diurese-alvo. Albumina pode ser considerada pela equipe de queimados em pacientes selecionados para reduzir volumes; vasoativo depende do mecanismo do choque e da ressuscitação, sem proibição universal durante 24 horas. Hidroxietilamido não é substituto rotineiro.
- Não prescrever antibiótico sistêmico profilático; a cobertura da ferida e a profilaxia antitetânica seguem o capítulo Superfície queimada e profundidade, desta apostila
Hora 1 a hora 3 — as três primeiras titulações, que são as que ensinam
A partir daqui a planilha para de mandar. De hora em hora se olha a bolsa, se converte em mililitro por quilo por hora e se ajusta. O ajuste é proporcional e modesto: cerca de um terço para cima ou para baixo, e nunca uma mudança que dobre a vazão de uma vez, porque a resposta renal leva uma hora ou duas para aparecer e quem corrige em excesso passa o resto da noite oscilando.
Prescrição- Diurese baixa: confirmar drenagem e avaliar perfusão, volemia, dor, sangramento, rim e pressão de compartimentos antes de aumentar a vazão. O ajuste segue protocolo e reavaliação próxima, não apenas frequência cardíaca.
- Diurese adequada e perfusão satisfatória: evitar aumento para cumprir planilha ou alcançar o topo da faixa. Investigar outras causas de taquicardia.
- Diurese acima de 82 mL por hora de forma sustentada: reduzir a vazão em cerca de um terço — diurese excessiva é o primeiro sinal de que a fórmula superestimou este paciente
- Registrar cada ajuste com hora, valor anterior e valor novo, e o motivo em três palavras
- Reavaliar dor antes e depois de cada dose, e não tratar dor com volume
Hora 3 a hora 8 — o intervalo em que a ambulância não vem
A vaga saiu, o transporte demora, e o paciente continua sendo seu. É o intervalo em que a reposição já entregou vários litros e o corpo começa a mostrar onde os pôs. O trabalho aqui é de vigilância, e ele tem alvos concretos: abdome, membros, respiração e temperatura. A lista de quem vai para centro de tratamento de queimados e o conteúdo do telefonema estão no capítulo Superfície queimada e profundidade, desta apostila; o que este acrescenta é que o número que atravessa o telefone agora inclui volume infundido, vazão atual e diurese horária.
Prescrição- Reavaliar de hora em hora: diurese, frequência cardíaca, pressão arterial, temperatura, dor, abdome e perfusão distal, com hora anotada
- Palpar o abdome a cada ciclo; abdome que fica tenso enquanto a reposição corre é indicação de medir pressão intra-abdominal por via intravesical, pela sonda que já está no lugar
- Reexaminar membro com queimadura circunferencial: dor desproporcional, parestesia, extremidade fria, enchimento capilar lento e oximetria distal ilegível — o pulso é o último a sumir
- Somar o volume acumulado e compará-lo com os tetos: 16.728 mL é ressuscitação em fuga neste paciente, e 20.500 mL é o índice de Ivy
- Manter aquecimento ativo e reavaliar a temperatura antes de qualquer transporte
Hora 8 do relógio da queimadura — a virada e a auditoria
Às 03h40 completam-se oito horas desde a queimadura. Compare volume real, diurese e perfusão. A velocidade para as próximas horas parte da resposta atual, não de uma troca automática entre duas bombas pré-programadas.
Prescrição- Referência matemática para a segunda metade: 2.788/16 = 174,25 mL/h. Não substituir automaticamente uma vazão titulada por esse número; o médico responsável redefine o plano pela avaliação atual.
- Somar todo o volume efetivamente recebido e comparar com a estimativa inicial, documentando motivos dos ajustes. A diferença não representa por si só déficit ou excesso clínico.
- Somar a diurese das 8 horas e convertê-la em mL/kg/h médio: o alvo de 0,5 corresponde a cerca de 328 mL no período
- Repetir hematócrito, sódio, potássio e creatinina, e ler o hematócrito pela trajetória e não pelo valor
- Registrar o peso, se houver balança-maca: é o dado mais confiável do balanço acumulado
Hora 8 a hora 24 — quando o vazamento fecha e a conta muda de sinal
A permeabilidade e a necessidade hídrica mudam ao longo de horas e dias, sem fechamento súbito da barreira às oito ou vinte e quatro horas. A redistribuição pode permitir reduzir infusão; a decisão exige perfusão e balanço, não apenas passagem do tempo.
Prescrição- Reavaliar de duas em duas horas depois do primeiro terço da segunda janela, com os mesmos ajustes de cerca de um terço
- Procurar ativamente o sinal de que se repôs demais: necessidade nova de oxigênio, estertores, abdome tenso, pálpebras que não abrem, ganho de peso desproporcional
- Não perseguir o número residual da planilha: se a diurese está no alvo com vazão menor, a vazão menor é a certa
- Manter a folha de balanço com entradas e saídas somadas por turno, e escrever o acumulado em mililitros por quilo
- Reavaliar a profundidade da queimadura entre 48 e 72 horas, conforme o capítulo Superfície queimada e profundidade, desta apostila — área que aprofundou é, entre outras causas, marcador de perfusão insuficiente no primeiro dia
Como saber se está funcionando
Reavaliar aqui não é repetir o exame: é comparar o que entrou com o que saiu, de hora em hora, e mudar a prescrição por causa dessa comparação. Sete parâmetros bastam, e o primeiro deles vale mais que os outros seis somados.
Uma regra atravessa todos: nenhum parâmetro isolado muda a vazão. A diurese decide, e os demais dizem em que direção interpretá-la.
Esperado: Entre 0,5 e 1 mL por quilo por hora — em Dilermando, entre 41 e 82 mL na hora — de forma sustentada, e não em um pico isolado.
Se não melhora: Abaixo do piso com paciente taquicárdico, suba a vazão em cerca de um terço e reconfira, nesta ordem: se a sonda está pérvia, se a conta de superfície está certa, se a hora da queimadura usada no denominador está certa, e se há sangramento não reconhecido. Acima do teto de forma sustentada, desça a vazão em cerca de um terço — este paciente está recebendo mais do que precisa, e a fórmula superestimou. Diurese que some depois de horas no alvo, com abdome tenso, é compartimento até prova em contrário, e não hipovolemia.
Esperado: Diferença pequena e conhecida entre o previsto e o entregue, com a causa de qualquer diferença grande escrita.
Se não melhora: Entregou muito menos: quase sempre é vazão que a via não sustenta, bolsa que acabou sem ninguém trocar, ou infusão interrompida para exame e transporte. Entregou muito mais: some o que entrou por fora da reposição — diluição de drogas, expansão feita por outra equipe — antes de concluir que houve deriva. Compare o acumulado em mililitros por quilo com os tetos: acima de 6 mL por quilo por ponto percentual em 24 horas, a reposição já é, ela própria, um diagnóstico a investigar.
Esperado: Queda gradual da frequência ao longo das horas, com pressão arterial mantida.
Se não melhora: Taquicardia que persiste com diurese no alvo não é hipovolemia: procure dor, hipotermia, ansiedade e abstinência antes de subir a vazão. Hipotensão nova é evento, não tendência — no queimado ela chega tarde, e nas primeiras horas depois do acidente hipotensão é hemorragia até prova em contrário, conforme o capítulo Choque hemorrágico no trauma, da apostila de Trauma. Subir volume para tratar frequência cardíaca é a porta de entrada mais comum da deriva.
Esperado: Valor alto na admissão por hemoconcentração, caindo progressivamente à medida que o plasma é reposto.
Se não melhora: Hematócrito que se mantém alto com diurese abaixo do alvo confirma reposição insuficiente por outro caminho, e é a segunda opinião mais barata que existe. Hematócrito que cai depressa demais, com diurese caindo junto, levanta sangramento. Queda no segundo dia em paciente edemaciado é em parte diluição — a mesma advertência que o capítulo Oligúria e balanço hídrico, da apostila de Síndromes do Paciente Internado, faz para a creatinina.
Esperado: Normotermia mantida ao longo de toda a reposição, inclusive durante o transporte.
Se não melhora: Reponha o aquecimento ativo e lembre-se da causa que ninguém procura: onze litros de cristaloide em temperatura ambiente, correndo por 24 horas, são um resfriador contínuo. A hipotermia piora a coagulação, piora a perfusão do tecido em disputa e aprofunda a queimadura que você acabou de classificar — ou seja, desfaz o que a reposição está tentando fazer. Aqueça o paciente e, quando houver como, aqueça a solução.
Esperado: Abdome que permanece depressível ao longo do dia, mesmo com o paciente edemaciando por toda parte.
Se não melhora: Abdome tenso com oligúria, ventilação que fica difícil e pressão intra-abdominal acima de 20 mmHg com disfunção nova é síndrome compartimental abdominal, e mais volume piora. A medida se faz pela sonda que já está lá; a técnica, as faixas e a decisão de descomprimir são do capítulo Cirurgia de controle de danos e tríade letal, da apostila de Trauma. O que muda aqui é a origem: no queimado sem trauma abdominal, quem produziu essa pressão foi a sua prescrição.
Esperado: Extremidade quente com enchimento capilar rápido e sensibilidade preservada; paciente mantendo saturação em ar ambiente ou com a mesma oferta de oxigênio da admissão.
Se não melhora: Membro com escara circunferencial que perde perfusão enquanto a reposição corre bem não está com falta de volume: a escara não estica e o edema que você está criando comprime por dentro. A resposta é abrir o anel, não abrir a vazão, e a escarotomia de tórax e de pescoço é do capítulo A via aérea fecha enquanto você repõe, desta apostila, e a do membro segue com o capítulo previsto sobre cuidado da ferida — o que é deste capítulo é reconhecer que a causa foi o volume. Necessidade nova de oxigênio, estertores e pálpebras que não abrem são a mesma história em outros três lugares do corpo.
Onde o erro machuca
O dano: Contar da chegada desloca a janela e pode atrasar a reposição. O erro oposto é correr um déficit teórico a qualquer custo. Registre início real, fluido prévio e resposta; a velocidade inicial de cerca de 523 mL/h deste exemplo é uma estimativa supervisionada, não um volume obrigatório.
Como pegar a tempo: Anote a hora da queimadura antes de anotar qualquer outra coisa, com âncora verificável — a hora da primeira ligação no celular de quem chamou serve, "faz umas duas horas" não serve. Escreva na prescrição a hora em que a primeira janela termina, e não a duração dela: "até 03h40", não "por 8 horas". Os dois documentos nacionais dizem isso; o do SAMU 192 escreve que o minuto zero é o momento da queimadura e não o da chegada do socorrista, e o protocolo mineiro manda descontar o atraso das 8 horas iniciais e infundir o volume nas horas restantes.
O dano: O peso entra na fórmula multiplicando, e um erro de 15 quilos num adulto de porte médio move o volume de 24 horas em mais de dois litros. Estimativa visual de peso em paciente deitado, coberto, edemaciando e vestido com lençol é notoriamente ruim, e erra mais para cima em quem tem edema — ou seja, erra para cima justamente no paciente em quem o excesso é mais perigoso. E o erro se propaga: o mesmo peso errado vai para o alvo de diurese, para a dose de morfina e para a leitura do acumulado em mililitros por quilo.
Como pegar a tempo: Peso aferido sempre que houver balança-maca, inclusive porque ele será a referência do balanço nos dias seguintes. Na falta dela, peso habitual informado pelo paciente ou pela família, registrado com essa ressalva no prontuário — o paciente lúcido sabe quanto pesa, e o dado dele é melhor que a sua impressão. Registre o peso uma vez, em local visível da prescrição, e derive dali o alvo de diurese em mililitros por hora, já convertido.
O dano: Uma prescrição de 523 mL/h não garante que o volume chegue à veia. Via, bomba, conexões e perdas precisam ser conferidas; caso contrário a oligúria pode levar a aumentos apenas no papel.
Como pegar a tempo: Conferir acesso e equipamento, hora de início, velocidade e volume efetivamente infundido. Somar todas as entradas e comparar com perfusão e diurese. Não pressionar bolsas sem monitorização apenas para alcançar a planilha.
O dano: É a porta de entrada da deriva de volume, e ela se abre com a melhor das intenções. O queimado extenso fica taquicárdico por dor, por hipotermia, por ansiedade e por catecolaminas, muito além do tempo em que ainda está hipovolêmico. Quem titula pela frequência cardíaca sobe a vazão a cada ciclo, o acumulado passa dos tetos sem que ninguém perceba, e o resultado chega em dias: edema pulmonar, abdome tenso, membro que perde pulso sob escara, mais tempo de ventilação. A diretriz americana de 2023 organiza metade das suas perguntas em torno de reduzir esse volume, e não de garanti-lo.
Como pegar a tempo: Nenhum parâmetro isolado muda a vazão; quem decide é a diurese horária convertida em mililitro por quilo por hora. Diante de taquicardia com diurese no alvo, procure e trate dor, hipotermia e ansiedade — e não mexa na vazão. Registre a decisão de não mexer, com o valor da diurese ao lado, para que o plantão seguinte não desfaça.
O dano: Quebra o único instrumento de medida do capítulo. A oligúria do queimado nas primeiras horas é hipovolemia, e a furosemida produz urina retirando água de um paciente que já está com o intravascular vazio: piora a perfusão renal que se queria melhorar e, pior, torna a diurese ilegível como sinal de titulação a partir dali. Quem vem depois não sabe mais se aqueles 90 mL da hora são reposição funcionando ou droga fazendo efeito. O argumento de corredor — "mas ele está inchado" — confunde edema intersticial, que é o esperado, com hipervolemia intravascular, que é o contrário do que este paciente tem.
Como pegar a tempo: Diante de oligúria, investigar drenagem, perfusão, volemia, sangramento, rim e compartimentos. Não usar diurético para fabricar o alvo; discutir albumina e vasoativo quando indicados pelo quadro e pela equipe especializada, sem proibição temporal rígida.
O dano: É o erro simétrico do primeiro, e ele nasce de tratar a fórmula como prescrição. O paciente urinando 90 mL por hora com vazão de 700 não precisa que se corra atrás dos 5.576 mililitros do papel; a fórmula superestimou esse indivíduo, o que é esperado, porque ela só tem duas variáveis e nenhuma delas mede vazamento. Perseguir o número residual é entregar litros que vão inteiros para o interstício, e é assim que se chega ao índice de Ivy em pacientes que estavam indo bem.
Como pegar a tempo: Trate o volume calculado como estimativa inicial, e a diurese como a prescrição real. Se a diurese está no alvo com vazão menor, a vazão menor é a certa — anote a diferença acumulada e o motivo, e passe adiante. Todos os documentos consultados dizem alguma versão disso: o americano diz que a fórmula guia apenas a taxa inicial de infusão; os brasileiros mandam aumentar ou diminuir a velocidade a fim de manter a diurese.
O que dizer ao paciente e à família
Flaviana Penedo é esposa de Dilermando e foi quem o trouxe. Ela chegou depois do acidente, não viu o fogo, e vai passar as próximas horas ao lado de um homem que fala com ela e a quem você está pendurando litro atrás de litro de soro. As perguntas dela são todas boas, e três delas você vai ouvir em todo grande queimado.
“"Ele perdeu muita água, não sangue. Uma queimadura grande faz o corpo inteiro vazar líquido do sangue para dentro dos tecidos, e é por isso que ele está com sede e com o coração acelerado mesmo sem sangrar. O soro que estou colocando repõe essa água. A quantidade é grande porque a queimadura é grande — é uma conta feita com o peso dele e com a área queimada, e vai ser ajustada a noite toda conforme ele responder."”
Não diga: "É bastante soro, mas é normal." Não explica nada e deixa a família sem referência quando a bolsa terminar depressa e alguém pedir outra. Também evite dizer que "o soro vai tirar a queimadura": ele não trata a pele, sustenta o resto do corpo enquanto a pele se resolve.
“"Vou passar uma sonda na bexiga dele. Não é porque ele não consegue urinar — é porque a urina é o meu instrumento de medida. De hora em hora eu vou olhar quanto ele produziu e decidir se aumento ou diminuo o soro por causa disso. Sem essa medida eu estaria dando soro no escuro."”
Não diga: "É rotina em queimado." Transforma um procedimento invasivo em burocracia e desperdiça a única chance de fazer a família entender por que a enfermagem vai entrar no quarto de hora em hora a noite toda.
“"Ele vai inchar, e o inchaço vai aumentar até amanhã. Isso não é reação ao soro nem sinal de que alguma coisa deu errado — é o mesmo vazamento que me obriga a repor. O rosto, as mãos e as pálpebras vão ficar diferentes do que a senhora está vendo agora, e depois vai desinchar. Se eu não repuser, ele incha menos e os órgãos sofrem mais."”
Não diga: Não avisar. A família que não foi avisada vê o inchaço às seis da manhã, conclui que houve excesso de soro e passa a desconfiar de tudo o que vier depois — inclusive do transporte.
“"A senhora está me perguntando se pode ser soro demais, e essa é a pergunta certa. Pode. Soro de menos deixa o rim e a pele sofrerem; soro demais incha o pulmão e a barriga e cria problema novo. Não existe um número que esteja certo para todo mundo, e é por isso que eu não vou seguir a conta até o fim: eu vou seguir o que o corpo dele mostrar de hora em hora."”
Não diga: Responder "não, está tudo calculado". É falso e é uma promessa que a noite pode desmentir. A honestidade aqui é o que compra a confiança para os ajustes que virão.
“"A senhora me perguntou sobre a pasta de dente. Não foi ela que causou o estado dele — o que determina isso é o tempo de fogo e a área queimada. O que a pasta faz é sujar a ferida e dificultar a avaliação, e por isso eu vou limpar. E o que a senhora fez de mais importante hoje foi trazer ele: a demora foi o que mais pesou, e a senhora encurtou essa demora."”
Não diga: "Nunca passe nada na queimadura." É verdadeiro e é uma repreensão, dita a uma pessoa que já se sente culpada, sem nenhum ganho para o paciente. A orientação preventiva cabe na alta, não agora.
“"Preciso de duas informações da senhora, e as duas mudam o tratamento. A hora exata em que ele se queimou, que a senhora já me ajudou a descobrir, e o peso habitual dele. Não é curiosidade: o soro é calculado com essas duas coisas."”
Não diga: Perguntar peso e hora no meio de uma lista de vinte perguntas administrativas. Isolar as duas e dizer para que servem faz a família procurar de verdade, e foi assim que a hora de 19h40 apareceu neste caso.
“Para a regulação: “Adulto, 82 kg, chama às 19h40, SCQ de 34% discriminada por segmento. Infusão iniciada às 22h20 com estimativa de 2 mL/kg/% e titulação pela resposta. Informo agora a vazão vigente, volume real acumulado, diurese da última hora, perfusão e analgesia recebida. Solicito continuidade no centro de queimados.””
Não diga: "Tenho um queimado grande aqui, já comecei o soro." Sem peso, sem hora da queimadura, sem vazão e sem diurese, a regulação não consegue nem priorizar nem orientar, e a equipe de transporte não sabe o que continuar.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Quatro, sem faixa
O protocolo nacional do serviço que atende a maior parte dos grandes queimados do país fixa 4 mL de Ringer lactato por quilo por ponto percentual de 2º e 3º graus, sem faixa e sem modulação, e é o mais recente dos documentos brasileiros. A justificativa implícita é operacional: número único, sem decisão a tomar, para equipe de rua sob pressão de tempo, com o fracionamento e a vazão já dados. O documento reconhece no mesmo quadro que o excesso de fluido promove danos graves, mas não reduz por isso o multiplicador inicial.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, 2ª ed., 2016 — protocolos AT25 e APed 37
Dois, como taxa inicial
A recomendação é iniciar a reposição com 2 mL por quilo por ponto percentual em adulto com 20% ou mais de superfície, com a finalidade explícita de reduzir volume total. A mudança de 4 para 2 foi adotada pela entidade em 2011, com base em observação retrospectiva do fenômeno de deriva de volume. A própria diretriz registra que falta dado prospectivo forte comparando as duas taxas iniciais, e que os dois estudos incluídos não mostraram diferença de mortalidade.
American Burn Association Clinical Practice Guidelines on Burn Shock Resuscitation. J Burn Care Res. 2024;45(3):565-589 (painel construído entre março de 2022 e março de 2023)
A faixa, com redução por comorbidade
A régua federal dá 2 a 4 mL por quilo por ponto percentual para crianças e adultos, e manda iniciar com 2 a 3 no idoso e no portador de insuficiência renal ou de insuficiência cardíaca congestiva, com observação mais criteriosa da diurese. É a única das três que modula por características do paciente, e a que deixa a escolha do multiplicador para quem está na frente.
Brasil. Ministério da Saúde. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012
A escolha do multiplicador só se torna irreversível quando ninguém titula depois dela, e é por aí que o impasse se desfaz na beira do leito. Comece pelo multiplicador do documento que o seu serviço adota, escreva qual foi na prescrição, e ajuste pela diurese a partir da primeira hora, que é o que os três documentos mandam fazer. Se a decisão for sua, o peso da comorbidade é o que mais informa: no idoso, no cardiopata e no nefropata, o extremo inferior da faixa federal tem apoio explícito de documento nacional e o excesso chega mais rápido; no adulto jovem previamente hígido com queimadura muito extensa e chegada tardia, começar baixo custa horas de hipoperfusão que se pagam em profundidade de queimadura. O que não é defensável em nenhuma das posições é fixar a vazão e não reavaliar.
Não usar coloide nas 24 horas iniciais
A régua federal escreve, entre as instruções de hidratação, que na fase de hidratação — as 24 horas iniciais — se evite o uso de coloide, de diurético e de drogas vasoativas. O raciocínio clássico que sustenta a posição é o da barreira rota: a molécula grande extravasa junto com a água enquanto a permeabilidade está máxima, e leva o líquido para o interstício em vez de retê-lo no vaso.
Brasil. Ministério da Saúde. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras, 2012, item 5
Considerar albumina humana, sobretudo nas queimaduras maiores
A recomendação é que o clínico considere o uso de solução de albumina humana, especialmente em queimaduras extensas, para reduzir o volume total de reposição e melhorar a diurese. A própria diretriz separa dois cenários — a albumina planejada e a albumina de resgate — e declara incerteza sobre iniciar antes ou depois das 12 horas, recomendando que o início dentro das primeiras 12 horas seja preferencialmente considerado em contexto de pesquisa, dada a preocupação com edema pulmonar.
American Burn Association Clinical Practice Guidelines on Burn Shock Resuscitation. J Burn Care Res. 2024;45(3):565-589
No pronto-socorro de hospital geral brasileiro a decisão costuma ser tomada pela farmácia antes de chegar ao médico: albumina humana não consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, e o hidroxietilamido também não. Onde não há frasco, a divergência é teórica e a conduta segue a régua nacional. Onde há albumina — hospital de referência, unidade de terapia intensiva com estoque próprio —, a pergunta que decide é qual problema está na frente: paciente cujo volume acumulado está disparando acima do previsto, com diurese que não responde, é o cenário de resgate em que a diretriz americana tem a evidência menos frágil; paciente que está respondendo dentro do previsto não tem por que receber. Em qualquer das duas posições, a decisão de iniciar coloide num grande queimado nas primeiras horas não é do interno sozinho: registre o raciocínio e discuta com o plantão sênior ou com o centro de queimados no mesmo telefonema da vaga.
Descontar o atraso e infundir nas horas restantes
O protocolo escreve a regra por extenso: na impossibilidade de atendimento imediato, o atraso na hidratação inicial deve ser compensado com aumento da velocidade de infusão do volume calculado para as primeiras 8 horas, descontando o tempo de atraso e infundindo o volume nas horas restantes. O protocolo nacional do SAMU 192 diz o mesmo em uma linha ao definir que o minuto zero é o momento da queimadura. Nenhum dos dois fixa teto de vazão.
Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais. Protocolos Clínicos: Abordagem ao Paciente Politraumatizado, janeiro de 2011
A fórmula só dá a taxa inicial; quem governa é a titulação
A diretriz trata as fórmulas de reposição como instrumentos destinados apenas a guiar a taxa inicial de infusão, e organiza a conduta em torno da titulação horária pela diurese, com atenção declarada aos marcadores de volume excessivo. Nessa lógica, o volume perdido no atraso não é uma dívida a ser quitada por aritmética: é mais uma razão para reavaliar cedo e com frequência, dentro dos mesmos tetos de segurança que valem para qualquer paciente.
American Burn Association Clinical Practice Guidelines on Burn Shock Resuscitation. J Burn Care Res. 2024;45(3):565-589
As duas posições concordam em atrasos moderados e divergem no extremo. Com uma a três horas perdidas, recalcular a vazão pelas horas restantes é o que os documentos brasileiros mandam e é o que este capítulo prescreve — foi o que Dilermando recebeu. Com sete das oito horas já passadas, aplicar a regra ao pé da letra significaria infundir mais de cinco litros em sessenta minutos, e nenhum dos documentos autoriza isso explicitamente nem proíbe. O que decide pelo paciente à frente é o intervalo entre reavaliações: quanto maior o atraso e maior a vazão, mais curto o intervalo — de hora em hora vira de trinta em trinta minutos, com diurese, ausculta, abdome e saturação a cada checagem, e a vazão desce assim que a diurese entra no alvo. Escreva no prontuário que a vazão foi calculada pelo relógio da queimadura e sob reavaliação encurtada; isso é o que permite ao plantão seguinte entender por que o número era tão alto.
O raciocínio, em voz alta
Volte a Dilermando Guanambi, 38 anos, 82 quilos, pintor de obra. Chama por solvente em galpão de porta aberta às 19h40; chegou às 22h15 trazido pela esposa, depois de duas horas e meia na casa da irmã. Trinta e quatro por cento de superfície de segundo e terceiro graus em tronco anterior, ambos os braços e coxa direita. Sem sinais de lesão inalatória. Pressão 118 por 74, frequência 118, temperatura 35,4. Hospital municipal de sessenta leitos, a duzentos e dez quilômetros do centro de tratamento de queimados. Você está sozinho com uma enfermeira.
a primeira pergunta não é a fórmula, é o relógio
Antes de multiplicar qualquer coisa, preciso saber quando isto começou, porque é desse instante que as oito horas correm — e não da hora em que ele entrou pela porta. Ninguém sabia dizer, e a resposta apareceu no celular: a primeira ligação para a família saiu às 19h47. Anoto 19h40 e sublinho. São 22h15, e duas horas e trinta e cinco minutos da primeira janela já foram embora sem nenhuma gota de soro. Esse dado, que custou dois minutos de conversa, é o que vai mudar a minha vazão em um terço.
os dois números que multiplicam, e de onde eles vêm
A fórmula tem duas entradas. O peso: 82 quilos, que está na carteira de trabalho e a esposa confirma — não é estimativa minha. A superfície: 34% de segundo e terceiro graus, contada segmento a segmento com a tabela, sem somar o eritema, seguindo o capítulo Superfície queimada e profundidade desta apostila. Escrevo os dois em letra grande no alto da prescrição, porque tudo o que vem depois deriva deles, inclusive o alvo de diurese e a dose de morfina.
a conta, e a subtração que quase ninguém faz
Adoto para este adulto a estimativa inicial ABA de 2 × 82 × 34 = 5.576 mL/24 h. A metade teórica, 2.788 mL, corresponde à janela até 03h40. Como a infusão começa às 22h20 e não houve volume anterior, restam 5 h 20 min: cerca de 523 mL/h como início indicativo, confirmado pela perfusão e sujeito a ajustes. Não faço bolus para pagar o atraso e não conto oito horas a partir da chegada.
a vazão exige coisas da estrutura, não só do papel
Mil e vinte e nove mililitros por hora, num equipo de macrogotas, são 343 gotas por minuto. Ninguém conta isso, e um acesso fino não sustenta. Então: dois cateteres curtos e calibrosos — sobrou pele boa na fossa antecubital esquerda e no dorso do pé direito —, a reposição dividida entre os dois com bolsa pressurizada, e conferência por frascos vazios, que é a mais honesta que existe: aproximadamente um frasco de 1.000 mililitros por hora. Peço à enfermeira que separe doze frascos agora, porque são 5,6 só até as 03h40.
o que sai junto, e o que não sai
Faço analgesia IV titulada, com registro de dose e monitorização. Instalo sonda para balanço estrito e escrevo a referência de diurese do adulto, cerca de 0,5 mL/kg/h, isto é, 41 mL/h. Aqueço paciente, ambiente e fluido. Não uso diurético para atingir o número, nem antibiótico profilático. Albumina ou vasoativo dependeriam da evolução e da decisão especializada.
meia-noite, primeira titulação
Às 00h05, a diurese da última hora é 30 mL, abaixo da referência. Confiro sonda, perfusão, conta de área, volume recebido, dor, sangramento e sinais de compartimento. Se a avaliação sustentar insuficiência da reposição, a equipe ajusta a vazão conforme protocolo; um aumento de aproximadamente um terço levaria de 523 a cerca de 700 mL/h. Registro a decisão e reavalio, sem tratar toda taquicardia com líquido.
duas da manhã: a pergunta muda de direção
Na hora seguinte, diurese de 88 mL, frequência de 96, hematócrito de 47 e extremidades quentes sugerem resposta, com possibilidade de excesso se a mesma vazão persistir. Reavalio o conjunto e, se a equipe indicar redução de cerca de um terço, passo dos 700 mL/h atuais para aproximadamente 470 mL/h, com nova avaliação horária. Não reduzir apenas por uma medida isolada nem voltar ao volume total da fórmula como obrigação. Palpo abdome, examino respiração e reavalio perfusão, sensibilidade e dor do braço quase circunferencial; pulso presente não exclui comprometimento inicial.
03h40: a janela vira, e a conta se audita
Às 03h40 somo o volume realmente registrado, incluindo medicamentos e eventuais ajustes, e avalio a trajetória da diurese. Não invento um acumulado a partir das duas velocidades nem considero toda diferença da fórmula um erro. A referência matemática de 174 mL/h para a segunda metade só informa a discussão: a prescrição segue a perfusão e a necessidade atual. Envio ao destino hora da lesão, área, peso, entradas, diurese horária e vazão vigente.
Faça você
Outra queimadura, outra conta. Aldemira Tucano tem 4 anos e pesa 16 quilos. Ao meio-dia e vinte de um sábado, na cozinha de casa, puxou pelo cabo a panela de água fervente do macarrão. A mãe apagou com pano molhado e a levou de moto ao pronto-socorro do município, chegando às 13h05. Ela chora, está reativa, hidratada, com bolhas de fundo róseo em tronco anterior, todo o membro superior direito e face anterior da coxa direita. A conta de superfície, feita com a tabela apropriada à idade e sem contar o eritema, deu 18% de segundo grau. Sem acometimento de face, sem rouquidão, sem história de ambiente fechado. Pressão 96 por 60, frequência 148, temperatura 36,2, glicemia capilar 74. O serviço tem Ringer com lactato, soro glicosado a 5%, soro fisiológico e uma bomba de infusão. O centro de queimados fica a cento e oitenta quilômetros.
o gatilho: ela entra na conversa de volume?
Qual é o corte de superfície que aciona reposição venosa calculada na criança, e em que documento ele está? Compare com o corte do adulto e diga em quanto Aldemira o ultrapassa.
o relógio e a subtração
A que horas termina a primeira janela de Aldemira, e quantas horas restam a partir da chegada? Diga por que a resposta não é 'oito horas a contar de agora'.
a conta de Parkland, e o que ela não cobre
Calcule o volume das 24 horas, a primeira metade e a vazão pelas horas restantes. Depois responda a pergunta que separa a criança do adulto: falta alguma coisa nessa prescrição, e por quê?
a manutenção, e de onde vem a régua
Calcule o volume de manutenção de uma criança de 16 quilos em 24 horas e a vazão por hora. Some à vazão de reposição e diga qual das duas é maior. Diga também qual documento brasileiro manda somar as duas — e o que isso significa para a sua prescrição.
a armadilha do cartão
O protocolo pediátrico do SAMU 192, na 2ª edição de 2016, escreve que o volume calculado para 24 horas deve ser infundido nas primeiras 8. Calcule o que isso daria em Aldemira, em mililitros por hora e em mililitros por quilo nas oito horas, e compare com a metade correta. Diga o que você faz diante de um cartão de protocolo que diz isso.
o alvo, a sonda e o açúcar
Qual alvo de diurese você escreve na prescrição de Aldemira, em mililitros por hora, e de onde vem esse número? Ela tem indicação de sonda vesical? E qual cuidado metabólico o Ringer com lactato não cobre nessa idade?
Continuidade do caso e prática do internato
Audite o caso de Dilermando pelas entradas realmente registradas e justifique cada ajuste. Na criança, separe o raciocínio da reposição do cálculo da manutenção.
Questão integrativa 1
Quanto estima 2 mL/kg/% para 82 kg e 34%?
Questão integrativa 2
Sem fluido prévio, quanto representa metade desse volume nas 5 h 20 min restantes?
Questão integrativa 3
O que conferir antes de aumentar fluido por diurese baixa?
Questão integrativa 4
Por que uma criança pequena precisa de um plano diferente?
Questão integrativa 5
Às oito horas deve-se trocar automaticamente a velocidade para 174 mL/h?
Questão integrativa 6
O paciente recebe volumes crescentes e o abdome fica tenso. Qual a mudança de raciocínio?
Ver como fecharíamos
O gatilho pediátrico é 10% de superfície queimada, metade do corte do adulto: a cartilha do Ministério da Saúde de 2012 indica sonda vesical de demora acima de 20% no adulto e 10% na criança, e o protocolo pediátrico do SAMU 192 abre a conversa de reposição venosa nas queimaduras em mais de 20% — os dois cortes convivem, e a régua federal mais protetora é a que se aplica. Com 18%, Aldemira ultrapassa o corte da cartilha com folga. O relógio: a queimadura foi às 12h20, então a primeira janela termina às 20h20, não às 21h05; da chegada às 13h05 restam 7 horas e 15 minutos, e são 45 minutos que já se foram. A conta de Parkland: 4 × 16 × 18 = 1.152 mililitros em 24 horas, metade dos quais — 576 mililitros — pertencem à primeira janela; divididos por 7,25 horas dão 79 mililitros por hora, contra os 72 que sairiam de uma divisão ingênua por 8. Falta uma coisa nessa prescrição, e é a diferença fundamental entre a criança e o adulto: a manutenção. O volume de Parkland repõe a perda da queimadura, mas não repõe o gasto basal do dia, que numa criança é proporcionalmente enorme. Pela regra de Holliday e Segar, 16 quilos dão 100 mililitros por quilo nos primeiros 10 quilos mais 50 por quilo nos 6 seguintes, isto é, 1.000 mais 300, ou 1.300 mililitros em 24 horas — cerca de 54 mililitros por hora. Somando: 79 mais 54 dão 133 mililitros por hora na primeira janela. Repare que a manutenção, 1.300 mililitros, é maior que o volume inteiro de Parkland, 1.152 — numa criança pequena com queimadura moderada, o que a fórmula manda repor é menor do que ela gastaria num dia normal. Nenhum documento brasileiro consultado manda somar as duas: a cartilha e o protocolo pediátrico do SAMU tratam só do volume de reposição, e a aritmética da manutenção pertence ao capítulo Diarreia e desidratação na criança, da apostila de Gastroenterologia Pediátrica. Quem prescreve só Parkland em Aldemira entrega três quartos do que ela precisa. A armadilha do cartão: lido ao pé da letra, o protocolo APed 37 manda infundir os 1.152 mililitros nas primeiras 8 horas, isto é, 144 mililitros por hora, ou 72 mililitros por quilo em oito horas — exatamente o dobro dos 72 mililitros por hora e dos 36 mililitros por quilo que a metade correta dá, e o dobro do que o protocolo adulto do mesmo documento prescreve. Diante disso a conduta é a do capítulo: seguir o fracionamento em metade e metade, que é o que a cartilha federal, o protocolo mineiro e o próprio protocolo adulto do SAMU dizem, registrar no prontuário qual régua foi usada, e comunicar a inconsistência a quem mantém o protocolo no serviço. O alvo de diurese: em criança pequena a referência usada é 1 mililitro por quilo por hora, ou 16 mililitros por hora em Aldemira. Vale dizer de onde vem esse número, porque não vem de documento brasileiro: a cartilha de 2012 dá um alvo único de 0,5 a 1 mL por quilo por hora, sem distinção de idade, e o protocolo pediátrico do SAMU não fixa alvo — a distinção pediátrica é de origem estrangeira. Sonda vesical: sim, pela indicação acima de 10% da cartilha; e a bolsa graduada é indispensável, porque 16 mililitros por hora não se estimam a olho numa fralda. Por fim, o açúcar: o Ringer com lactato não tem glicose, a criança pequena tem reserva de glicogênio curta e faz hipoglicemia sob estresse — a glicemia de 74 já é um aviso. A cartilha manda observar a glicemia nas crianças e o protocolo pediátrico do SAMU manda medir e tratar hipoglicemia; a solução de manutenção, que é glicosada, resolve os dois problemas de uma vez, e é mais uma razão para ela não ser opcional. Uma última anotação de segurança que não é sobre volume: água fervente em criança pequena exige a pergunta sobre o mecanismo e a compatibilidade da lesão com a história, e essa pergunta é do capítulo Superfície queimada e profundidade, desta apostila, que a trata. Aplicação atual: o cálculo pediátrico de 4 mL/kg/% acima é um exemplo de Parkland clássico, não uma extensão da recomendação adulta de 2 mL/kg/%. Confirme a fórmula do centro pediátrico; manutenção e reposição devem ser prescritas de modo integrado, com solução de manutenção isotônica contendo glicose quando indicada. As regras diárias de Holliday-Segar e a aproximação horária 4-2-1 não são numericamente idênticas: declarar qual foi usada evita falsa precisão. Não correr déficit teórico sem reavaliar a criança. Questões integrativas — respostas comentadas 1. 5.576 mL em 24 horas. É um ponto de partida para este adulto, não um volume obrigatório a ser completado. 2. 2.788/5,333 ≈523 mL/h. Conferir hora real e condição atual antes de iniciar, e titular; a conta não autoriza bolus de compensação. 3. Drenagem e posição da sonda, perfusão, volemia, volume real recebido, sangramento, função renal e compartimentos. A diurese é importante, mas não explica sozinha sua própria queda. 4. Há necessidades basais proporcionais maiores e menor reserva de glicose. O protocolo pediátrico combina reposição e manutenção apropriada, com balanço e glicemia, em vez de copiar a fórmula adulta. 5. Não. Esse é o resultado teórico da segunda metade. A velocidade vigente precisa ser revista pela perfusão e pela resposta, sem reiniciar uma fórmula a cada janela. 6. Investigar sobrecarga, hipertensão intra-abdominal e outras causas de choque/oligúria com a equipe. Continuar aumentando fluido por automatismo pode agravar o problema.
Na fórmula clássica de Parkland: 4 × 90 × 30 = 10.800 mL em 24 horas. Metade, 5.400 mL, corresponde às primeiras oito horas contadas da queimadura. Como não houve reposição prévia e restam cinco horas, a vazão matemática é 1.080 mL/h. Esta é uma estimativa didática, não ordem de reposição rígida: a ressuscitação deve ser titulada por perfusão, diurese e evolução, evitando sobrecarga. A diretriz ABA de 2024 recomenda iniciar com estimativa de 2 mL/kg/% em adultos com queimaduras extensas para reduzir volume; isso não muda o cálculo solicitado explicitamente pela fórmula clássica de Parkland.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar nada, escreva a fórmula, o fracionamento e o instante em que o relógio começa, e depois faça a conta de um homem de 70 quilos com 25% de superfície de segundo e terceiro graus que chegou 3 horas depois da queimadura: volume de 24 horas, primeira metade, horas restantes, vazão. Em seguida escreva o alvo de diurese dele em mililitros por hora, e não em mililitros por quilo por hora — a conversão é o que se erra no plantão. Por último, escreva as três coisas que você confere antes de subir a vazão de um queimado oligúrico, e as três que você nunca prescreve nas primeiras 24 horas.
Em 30 dias
Reescreva Dilermando cinco vezes, trocando um único dado em cada versão e dizendo qual conta deixa de valer. Primeira: queimadura às 15h, chegada às 22h15, com sete das oito horas já passadas. Segunda: 74 anos, com insuficiência cardíaca em uso de diurético. Terceira: choque de alta tensão, com urina cor de refrigerante. Quarta: 16 quilos e 4 anos de idade. Quinta: cinco da manhã, dez litros já infundidos, abdome tenso e diurese que sumiu — mais volume ou menos? Para cada resposta, diga qual documento a sustenta e, quando nenhum sustentar, diga isso também: metade das perguntas acima não tem resposta escrita em documento brasileiro, e saber quais são é parte do que este capítulo entrega.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 61 anos, 68 quilos, hipertenso e com insuficiência cardíaca em uso de furosemida, trazido ao pronto-socorro de hospital geral depois de o fogo alcançá-lo enquanto queimava mato no quintal. A queimadura foi há três horas e vinte minutos, segundo o vizinho que o encontrou. Tem 28% de superfície de segundo e terceiro graus em tronco, braço esquerdo e ambas as coxas, sem acometimento de face. Está lúcido, com dor intensa, pressão 104 por 68, frequência 116, saturação 95% em ar ambiente, temperatura 35,1. Chegou sem acesso venoso. O centro de tratamento de queimados mais próximo fica a quatro horas de ambulância e ainda não há vaga. Calcule, prescreva, diga o que você vai medir de hora em hora e o que faz se a diurese não responder.
