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Clínica MédicaToxicologia

Acidentes por animais peçonhentos

O tratamento existe, é gratuito e chega tarde porque ninguém classificou a gravidade. Quem decide o número de ampolas é o quadro clínico — não o tamanho do bicho, não o peso do paciente. A criança recebe a mesma dose do adulto.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas dos acidentes ofídicos. 1. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 50 p. ISBN 978-85-334-2930-7.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria SECTICS/MS nº 59, de 1º de agosto de 2025, que aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas dos Acidentes Escorpiônicos, e seu Anexo.

Fundação Nacional de Saúde (Brasil). Manual de diagnóstico e tratamento de acidentes por animais peçonhentos. 2. ed. rev. Brasília: FUNASA/Ministério da Saúde, outubro de 2001. 120 p. ISBN 85-7346-014-8.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde. 6. ed. rev. Volume 3. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Capítulos Acidente ofídico (p. 1125-1130), Escorpionismo (p. 1131-1135), Araneísmo (p. 1137-1141) e Acidentes por animais peçonhentos — informações complementares, vigilância epidemiológica e medidas de prevenção e controle (p. 1153-1160).

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Morbimortalidade causada por animais peçonhentos no Brasil, 2010-2024. Boletim Epidemiológico, número especial, 22 dez. 2025. 61 p. ISSN 2358-9450.

01

Responda antes de ler

Menina de 4 anos, 16 kg, previamente hígida, picada por escorpião amarelo na mão há 40 minutos. Chega com dor local intensa que a impede de deixar tocar a mão, sudorese profusa, dois episódios de vômito, agitação, FC 168 bpm, FR 40 irpm, PA 104/70 mmHg, SpO2 97% em ar ambiente, sem edema pulmonar e sem sinais de choque. A unidade dispõe de soro antiescorpiônico. Qual é a prescrição correta do tratamento específico?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, quatro da tarde, hospital municipal de dezoito leitos no interior. O clínico da escala está de folga e volta amanhã; o diretor técnico atende pelo telefone, de outra cidade. Você é o médico da unidade até as sete da manhã. Na geladeira de imunobiológicos, contadas hoje de manhã: onze ampolas de soro antibotrópico, quatro de soro antiescorpiônico, nenhuma de soro anticrotálico, nenhuma de antielapídico, nenhuma de antiaracnídico. O hospital de referência regional que tem os outros fica a cento e dez quilômetros, uma hora e quarenta de ambulância pela estrada boa, mais que isso se chover.

Chega o primeiro: seu Damião, 46 anos, 74 quilos, trabalhador rural, picado no tornozelo direito há três horas enquanto amontoava lenha atrás do galpão. Não viu a cobra inteira, viu o rabo sumindo, diz que era “uma jararaca, dessas mesmo”. O pé e a perna estão duros e roxos até logo abaixo do joelho, dói muito, e a gengiva sangrou quando ele cuspiu no caminho. O cunhado amarrou um pano no meio da coxa “pra segurar o veneno” e o pano está lá desde a hora do acidente, apertado. Pressão 128 por 80, frequência cardíaca 96, lúcido, urinando.

Cinco minutos depois entra a segunda: Sabrina, 4 anos, 16 quilos, no colo do pai, gritando. Ela pôs a mão dentro do tênis embaixo da cama há quarenta minutos e um escorpião amarelo estava lá; o pai matou o bicho com o chinelo e trouxe dentro de um pote. A mão está sem marca visível, mas ela não deixa ninguém encostar. Vomitou duas vezes no carro, está encharcada de suor, com a camiseta grudada no corpo, frequência cardíaca 168, respirando rápido, agitada. O pai pergunta se pode dar dipirona em casa e ir embora, porque o carro é emprestado.

A terceira é dona Nilza, 62 anos, hipertensa, com uma lesão no braço esquerdo que começou há três dias como “uma picada de mosquito” e hoje está do tamanho da palma da mão, com o meio arroxeado, as bordas pálidas e uma bolha. Dói em queimação. Ela veio porque a filha achou feio. Está afebril, sem queixa sistêmica. Ninguém viu nenhum bicho.

E, enquanto você examina dona Nilza, o telefone toca: é a técnica de enfermagem da unidade básica de um povoado a noventa quilômetros. Um rapaz de 19 anos foi picado por uma cobra há uma hora, o pé quase não dói e quase não inchou, mas ele está com as pálpebras caindo e a visão embaçada, e ela quer saber se manda pra você ou se dá alguma coisa lá.

Quatro decisões, e nenhuma delas depende de identificar o animal com precisão zoológica. O que decide o desfecho é uma classificação clínica feita à beira do leito, que responde três perguntas nesta ordem: qual síndrome de envenenamento é esta, qual a gravidade agora, e quantas ampolas de qual soro isso significa. O número de ampolas não sai do tamanho do bicho nem do peso do paciente — sai da gravidade. Sabrina, com 16 quilos, vai receber exatamente a mesma dose que o pai dela receberia, porque o veneno inoculado nela é o mesmo que teria sido inoculado nele.

As outras três coisas que este plantão exige são igualmente pouco glamourosas e igualmente decisivas: tirar o torniquete do seu Damião agora, descobrir por telefone onde estão as ampolas que faltam e quem as transporta, e notificar. Nada disso é burocracia. É o que separa um envenenamento tratado de um envenenamento que chega tarde.

03

Quem adoece disso

Isto não é raridade de prova. Entre 2010 e 2024 o Brasil notificou 3.350.787 acidentes por animais peçonhentos no Sinan, média de 223.386 por ano — mais de seiscentos por dia. A taxa média padronizada de incidência foi de 108,81 por 100 mil habitantes, e cresceu 146,8% no período. Um interno que passa por pronto-socorro de município pequeno em qualquer região do país vai atender vários; a pergunta não é se, é quando.

A distribuição por animal reorganiza a expectativa de quem só estudou ofidismo. Escorpião responde por 55,8% dos casos (1.868.191 acidentes), aranha por 14,4% (480.882) e serpente por 13,6% (456.735). Ou seja: o acidente mais provável na sua porta é o escorpiônico, e é justamente o que menos aparece nos livros de emergência. A curva de incidência do escorpionismo é a que mais sobe — passou de 34,22 por 100 mil habitantes no quinquênio 2010-2014 para 85,34 em 2020-2024 —, empurrada pela adaptação do Tityus serrulatus ao ambiente urbano e pela reprodução por partenogênese, que dispensa macho.

A mortalidade inverte a ordem. Foram 4.223 óbitos em quinze anos, média de 282 por ano, e a serpente responde por 42,8% deles (1.765 mortes) apesar de causar 13,6% dos casos; o escorpião, que causa mais da metade dos acidentes, responde por 13,8% dos óbitos (581), e a aranha por 4,7% (198). Traduzindo para a fila de espera: o acidente ofídico é o que mais mata por caso atendido, e o escorpiônico é o que mais mata em números absolutos entre crianças pequenas.

As duas pontas da vida concentram o risco. A taxa média de mortalidade padronizada foi de 0,46 por 100 mil habitantes acima dos 60 anos — e 1.891 óbitos, 44,8% do total, ocorreram nessa faixa. Mas a faixa de 0 a 4 anos chama atenção com 0,14 por 100 mil, quase o dobro da faixa de 5 a 14 anos, e o boletim registra que crianças de 0 a 9 anos tiveram risco de óbito quase seis vezes maior que pessoas de 40 a 49 anos. É o escorpionismo grave que produz esse número. Na prática da triagem: uma criança de menos de sete anos picada por escorpião não espera, e um idoso picado por serpente não espera.

O terceiro eixo é geográfico, e é o que interessa a quem trabalha no interior. As maiores taxas médias de mortalidade estão em municípios classificados como remotos — aqueles a mais de uma hora de um município de mais de 100 mil habitantes — e em municípios com índice de privação muito alto e até 20 mil habitantes. O próprio boletim do Ministério da Saúde nomeia a causa provável: maior tempo entre o acidente e o atendimento. Entre indígenas, a taxa de mortalidade foi de 1,43 por 100 mil habitantes contra 0,10 entre brancos, e a explicação oferecida combina distância dos serviços e tratamento inicial por métodos tradicionais que atrasa o antiveneno.

Nada disso é fatalidade de recurso: o Brasil tem 2.223 pontos estratégicos de antivenenos distribuídos por 1.997 municípios, e o soro é gratuito. O gargalo é de tempo e de decisão — quem classifica, quem aciona, quanto demora o transporte. É por isso que este capítulo gasta um bloco inteiro em como descobrir onde está a ampola que falta.

Um detalhe de vigilância que muda a leitura dos números: acidente por animal peçonhento só entrou na lista nacional de notificação compulsória em agosto de 2010, pela Portaria GM/MS nº 2.472, depois ratificada na Portaria GM/MS nº 5.201, de 15 de agosto de 2024. Séries anteriores a 2010 são incomparáveis, e parte do aumento observado é melhora de registro. Isso não desfaz a tendência — ela persiste dentro do período em que a notificação já era obrigatória —, mas explica por que o salto de 2011 é tão abrupto.

04

Por que acontece o que acontece

Peçonha é uma mistura de enzimas e toxinas injetada de uma vez, numa quantidade que depende do animal e não do paciente. Essa frase, sozinha, decide a dose: o antiveneno é um neutralizador estequiométrico, feito para se ligar a uma massa de veneno circulante, e a massa injetada num homem de 90 quilos é a mesma que seria injetada numa criança de 16. Por isso o número de frascos-ampolas sai da gravidade clínica, que estima quanto veneno foi inoculado, e nunca do peso. O protocolo nacional dos acidentes ofídicos diz isso com todas as letras: a dose recomendada deve ser a mesma para adultos e crianças, porque o objetivo é neutralizar a maior quantidade possível de veneno circulante, independentemente do peso ou da idade do paciente. O protocolo do escorpionismo repete a regra por outro caminho, ao mandar usar três frascos-ampolas no caso moderado e seis no grave, independentemente da faixa etária.

O corolário incômodo é que a criança recebe, proporcionalmente, um volume enorme de líquido. Doze frascos-ampolas de soro antibotrópico são 120 mL de soro puro; diluídos a 1:5 viram 720 mL. Num adulto de 70 quilos isso é 10,3 mL/kg; numa criança de 15 quilos é 48 mL/kg, o equivalente a duas expansões volêmicas de 20 mL/kg. Esse é o motivo pelo qual a diluição na criança é a menor da faixa permitida e a ausculta pulmonar entra na prescrição — o problema pediátrico não é a dose de anticorpo, é o volume de veículo. As contas por tipo de acidente estão no bloco de fluxos e tabelas.

O outro fato que atravessa o capítulo: o antiveneno neutraliza veneno circulante, não desfaz o que o veneno já fez. O protocolo de 2026 registra que a soroterapia pode ter eficácia limitada na neutralização dos efeitos locais, e o do escorpionismo registra que, nos casos graves, o soro nem sempre reverte completamente o edema agudo de pulmão e o choque cardiogênico. Daí a divisão de trabalho de todo atendimento: o soro trata o veneno, o suporte trata o paciente, e os dois começam juntos.

Adulto e criança com a mesma dose indicada de antiveneno e destaque para individualização do volume de infusão.
Para o mesmo tipo de acidente e a mesma classificação clínica, a dose de antiveneno não é reduzida apenas por ser criança. A gravidade e o produto definem a quantidade de frascos. Volume, diluição e tolerância à infusão exigem avaliação individual; o desenho não pressupõe igual massa de veneno em acidentes diferentes. Ilustração didática original.

Botrópico e laquético: por que o membro incha em segmentos e por que o sangue não coagula

O veneno botrópico age por três frentes simultâneas. A ação proteolítica ou inflamatória aguda reúne proteases, hialuronidases e fosfolipases, mediadores inflamatórios e substâncias vasoativas: é ela que produz a dor imediata, o edema endurado que sobe pelo membro, as bolhas, a necrose e, no extremo, a síndrome compartimental. A ação coagulante ativa a cascata a partir do fator X e da protrombina e converte fibrinogênio em fibrina diretamente, consumindo os fatores até a incoagulabilidade — um quadro que se parece com coagulação intravascular disseminada e que pode vir com plaquetopenia. A ação hemorrágica é das hemorraginas, que lesam a membrana basal dos capilares.

Duas consequências práticas nascem disso. A primeira: o edema não é um detalhe estético, é o próprio termômetro da quantidade de veneno depositada, e por isso a gravidade botrópica se mede contando quantos segmentos do membro estão comprometidos. A segunda: o sangramento da vítima botrópica é de duas naturezas somadas — vaso lesado e sangue que não coagula —, o que explica por que transfundir hemocomponente sem administrar o soro não resolve. Repor fator de coagulação num paciente cujo veneno circulante continua consumindo fator é encher um balde furado; a hemostasia só volta depois que o veneno é neutralizado. A reposição de volume e de hemocomponentes segue as regras do capítulo de choque hemorrágico, mas aqui ela entra depois do soro, não em vez dele.

A insuficiência renal aguda do acidente botrópico é multifatorial: ação direta do veneno sobre o rim, isquemia renal por microtrombos, desidratação, hipotensão e choque. É por isso que hidratação adequada e correção precoce da hipotensão fazem parte do tratamento desde a primeira hora, e é por isso que anti-inflamatório não esteroide está vetado na analgesia — nefrotoxicidade somada a rim já sob agressão. O manejo estabelecido da injúria renal instalada é o do capítulo próprio; o que muda aqui é a prevenção, que é antiveneno cedo mais perfusão preservada.

O veneno laquético repete os três mecanismos botrópicos e acrescenta um quarto: uma ação de estimulação vagal. Clinicamente, o quadro local é indistinguível do botrópico, e o que separa os dois é a síndrome vagal — bradicardia, hipotensão, cólica abdominal, diarreia, escurecimento da visão. Como as surucucus são serpentes de grande porte e injetam volume maior de peçonha, não existe classificação leve: todo acidente laquético é moderado ou grave, com dez ou vinte frascos-ampolas.

Crotálico: a fácies que cai e a urina que escurece

O veneno crotálico tem três ações e cada uma produz um achado que se procura de propósito. A neurotóxica vem da crotoxina, que bloqueia a liberação pré-sináptica de acetilcolina na junção neuromuscular: daí a ptose palpebral, a oftalmoplegia, a visão turva ou dupla, a flacidez da face, a disfagia. Como o bloqueio é pré-sináptico, ele não é revertido por anticolinesterásico — diferença que importa quando se compara com o acidente elapídico. A miotóxica destrói fibra muscular esquelética e libera mioglobina, que sai pela urina e a escurece; é a rabdomiólise que se dosa pela creatinoquinase. A coagulante converte fibrinogênio em fibrina e pode levar à incoagulabilidade, em geral sem plaquetopenia e com sangramentos discretos.

A soma dessas ações desenha a principal causa de morte do acidente crotálico: injúria renal aguda por necrose tubular, em geral instalada nas primeiras 48 horas, empurrada pela mioglobinúria. Esse mecanismo é o que justifica três coisas na prescrição — hidratação com alvo de diurese, dosagem seriada de ureia, creatinina e creatinoquinase, e um tempo de monitoramento que se estende de 24 até 48 ou 72 horas, porque a complicação aparece depois que o paciente já parece estável. É também o que faz a picada aparentemente inocente ser perigosa: no acidente crotálico o local quase não dói e quase não incha, e um interno que se guie pelo aspecto do pé subestima o caso.

Elapídico: a paralisia que sobe e por que existe um antídoto farmacológico

As neurotoxinas elapídicas são de baixo peso molecular, difundem-se rápido e por isso o quadro pode começar em menos de uma hora. Atuam de duas maneiras. As pós-sinápticas competem com a acetilcolina pelo receptor colinérgico, como o curare — e um bloqueio competitivo pode ser antagonizado aumentando a acetilcolina na fenda, que é exatamente o que faz um anticolinesterásico como a neostigmina. As pré-sinápticas impedem a liberação de acetilcolina e não respondem a esse recurso.

Essa distinção é a razão de existir, no acidente elapídico e em nenhum outro deste capítulo, um teste terapêutico farmacológico: neostigmina intravenosa, precedida de atropina para antagonizar os efeitos muscarínicos, com resposta esperada em cerca de dez minutos. O ganho não é curar — é comprar ventilação enquanto o paciente é transferido para um serviço com suporte ventilatório e enquanto o soro chega. A complicação que mata é a paralisia da musculatura respiratória, e por isso a régua do acidente elapídico é ventilatória: quem começa a ter disfagia, sialorreia e respiração superficial precisa de via aérea antes de precisar de qualquer outra coisa.

Escorpião e aranha: tempestade autonômica, necrose e hemólise

A peçonha do Tityus atua sobre canais de sódio dependentes de voltagem, prolonga o potencial de ação e despolariza terminações nervosas pós-ganglionares dos sistemas simpático e parassimpático e da medula adrenal. O resultado é uma descarga maciça e simultânea de catecolaminas e acetilcolina — e é por isso que o quadro grave é bifronte e confuso: pode haver taquicardia ou bradicardia, hipertensão ou hipotensão, midríase ou miose, sudorese profusa e sialorreia no mesmo paciente. A hiperglicemia, a leucocitose e a hipopotassemia da fase aguda são consequência dessa descarga adrenérgica; a hiperamilasemia e as secreções, da colinérgica.

O dano que mata tem endereço no coração e no pulmão. A explicação clássica atribui a disfunção miocárdica à lesão pelas catecolaminas e seus metabólitos, com vasoconstrição da microcirculação e espasmo coronariano; evidência mais recente aponta uma reação neuroimune sistêmica, com interleucina-1 beta e prostaglandina, responsável tanto pelo comprometimento cardíaco quanto pelo edema pulmonar agudo. O que interessa no plantão é que os dois caminhos produzem o mesmo desfecho — miocardite com queda da fração de ejeção, edema agudo de pulmão e choque cardiogênico — e que esse desfecho aparece em horas, sobretudo em criança. Daí o eletrocardiograma na admissão da criança, a troponina e a fração MB da creatinoquinase, a radiografia de tórax e o ecocardiograma; e daí a cautela com volume, porque o choque do escorpionismo grave é cardiogênico, e enchê-lo de soro fisiológico piora o edema pulmonar.

A criança é mais grave pela relação entre a quantidade de veneno inoculada e a massa corporal — o mesmo veneno num corpo menor —, e o protocolo nacional acrescenta que a eliminação do veneno parece mais lenta na população pediátrica, com a ressalva de que essa observação vem de estudo pré-clínico. Repare na assimetria: a menor massa corporal aumenta a gravidade, e por isso a criança sobe de classificação com mais facilidade; mas quando a classificação é a mesma, a dose é a mesma, porque o veneno a neutralizar é o mesmo.

Entre as aranhas, três mecanismos distintos produzem três doenças distintas. A Loxosceles injeta esfingomielinase D, que lesa membranas de endotélio e hemácias e ativa complemento, coagulação e plaquetas: o resultado local é vasculite com obstrução de pequenos vasos, hemorragia focal e necrose de instalação lenta — a placa marmórea, que se organiza em 24 a 72 horas e vira escara em uma a duas semanas. O resultado sistêmico, em minoria de casos e em geral nas primeiras 72 horas, é hemólise intravascular, que pode levar a injúria renal aguda, a principal causa de óbito do loxoscelismo. A Phoneutria age em canais de sódio como o escorpião, e produz dor imediata desproporcional e, na criança, a mesma tempestade autonômica — por isso os dois quadros são indistinguíveis à beira do leito e por isso existe um soro que cobre os dois. A Latrodectus injeta alfa-latrotoxina, que provoca liberação de neurotransmissores na junção neuromuscular: o quadro é de dor irradiada, contraturas, rigidez abdominal que imita abdome agudo e a fácies latrodectísmica, com trismo dos masseteres.

Falta o mecanismo do próprio tratamento, que é a causa das reações. Os antivenenos brasileiros são concentrados de imunoglobulina equina, hoje na forma da fração F(ab')2 purificada. Introduzir proteína heteróloga em quantidade grande pode formar agregados e imunocomplexos que ativam complemento e geram anafilotoxinas, com liberação direta de histamina por mastócitos e basófilos: essa é a hipótese para a reação precoce, que ocorre durante a infusão ou nas duas horas seguintes e é proporcional à quantidade de soro, à concentração de proteína e à velocidade de infusão. Dias depois, a formação de imunocomplexos entre antiveneno e veneno, com consumo de complemento, produz a doença do soro, entre o quinto e o vigésimo quarto dia. Entender isso resolve duas condutas: diluir e infundir devagar reduz reação, e o que se prepara antes de abrir a ampola é o material de anafilaxia.

05

Como se apresenta de verdade

A cena real quase nunca traz o animal. O paciente viu um vulto, ou pisou e sentiu, ou acordou com dor. Levar a serpente morta é útil quando acontece, e a definição de caso da vigilância admite explicitamente o contrário: considera-se confirmado o paciente com evidências clínicas compatíveis com envenenamento, independentemente de o animal causador ter sido identificado ou não. Portanto a pergunta clínica não é qual bicho foi, é qual síndrome de envenenamento está na frente. Cinco síndromes cobrem quase tudo, e cada uma tem um marcador que se procura ativamente.

Uma sexta possibilidade precisa ficar explícita desde já: nem toda picada envenena. A picada seca — mordida ou ferroada sem inoculação de peçonha suficiente — existe e é reconhecida nos dois protocolos nacionais. É por isso que o antiveneno não se dá por causa da mordida; dá-se por causa do envenenamento. E é também por isso que existe a regra de observação mínima de seis horas para todo acidentado cujas manifestações não sejam evidentes na admissão: uma pequena quantidade de peçonha pode determinar aparecimento tardio dos sintomas.

Braço e perna com três segmentos anatômicos destacados e ponto distal de inoculação.
Mapear a extensão do edema ajuda a acompanhar o acidente botrópico. A figura distingue mão/punho, antebraço/cotovelo e braço; pé/tornozelo, perna/joelho e coxa. A avaliação inclui também hemorragia, perfusão e função renal. A extensão local isolada não substitui a classificação clínica completa. Ilustração didática original.

Síndrome vasculotóxica e hemorrágica: botrópico e laquético

É o que se vê quando o local dói e incha. Dor imediata de intensidade variável, edema endurado que progride ao longo do membro nas primeiras horas, equimose, sangramento pelos pontos da picada, bolhas de conteúdo seroso ou sero-hemorrágico. As marcas das presas nem sempre são visíveis — procurar dois furinhos e não achar não afasta nada. Nos dias seguintes podem aparecer abscesso, celulite e necrose.

O sistêmico é hemorrágico e à distância: gengivorragia, epistaxe, hematúria, hematêmese, hemoptise, sangramento em ferimentos antigos que já estavam fechados. A hipotensão pode vir do sequestro de líquido no membro edemaciado, de sangramento, ou de ambos. Nas gestantes há risco de hemorragia uterina e de descolamento prematuro de placenta.

A gravidade se mede contando segmentos. O membro superior tem três: mão e punho; antebraço e cotovelo; braço. O inferior tem três: pé e tornozelo; perna e joelho; coxa. Dor e edema em até um segmento é leve; em dois, moderado; em três, grave — e é grave também, independentemente do quanto inchou, quem tem hemorragia grave, hipotensão ou choque, ou injúria renal aguda. Quando a picada é no tórax ou na cabeça, mede-se a circunferência no local em vez de contar segmentos.

Repare no que essa régua deixa de fora: o tempo de coagulação. O protocolo nacional de 2026 é explícito ao dizer que, embora algumas referências considerem o tempo de coagulação como parâmetro de classificação, ele não deve ser usado como base para orientar o tratamento. Sangue incoagulável num paciente com edema de um segmento não faz dele um caso grave; ele continua leve, recebe a dose de leve, e o tempo de coagulação vira parâmetro de acompanhamento, não de classificação.

O acidente laquético é o mesmo quadro local acrescido de síndrome vagal: hipotensão, bradicardia, cólica abdominal, diarreia, tonturas, escurecimento da visão. Quando a picada acontece em área de mata onde os dois gêneros coexistem — Amazônia, Mata Atlântica —, essas manifestações vagais são o único diferenciador clínico disponível. Não existe acidente laquético leve: a classificação vai direto de moderado a grave.

Síndrome neuroparalítica com rabdomiólise: crotálico

Aqui o local engana por ser pobre. Dor e edema discretos ou ausentes, parestesia local ou regional, às vezes eritema. Quem examina o pé e conclui que foi pouca coisa perdeu o caso.

O que se procura é a face. Ptose palpebral uni ou bilateral, flacidez da musculatura facial, oftalmoplegia, visão turva ou dupla, alteração do diâmetro pupilar — o conjunto que a literatura brasileira chama de fácies miastênica ou fácies neurotóxica. Podem se somar alteração de olfato e paladar, disfagia por paralisia do véu palatino e diminuição do reflexo de vômito. Em seguida vêm mialgia generalizada precoce e urina escura, avermelhada ou de cor de chá preto, que é mioglobinúria.

A classificação de gravidade é sistêmica e não olha o membro. Leve: alterações neuroparalíticas discretas, sem mialgia, sem escurecimento da urina, sem oligúria. Moderado: alterações neuroparalíticas evidentes, com mialgia e escurecimento da urina discretos. Grave: alterações neuroparalíticas evidentes, mialgia e mioglobinúria intensas, e oligúria. Três perguntas de anamnese e um olhar para as pálpebras cobrem a classificação inteira: consegue abrir bem os olhos? o corpo dói? de que cor está a urina?

Uma variação regional muda a leitura: nos acidentes por Crotalus durissus ruruima, subespécie de distribuição em Roraima, o quadro pode ter mais edema, dor local, sangramento e incoagulabilidade — manifestações que lembram o acidente botrópico — além de miólise, injúria renal e comprometimento respiratório. Quem atende naquela região não deve descartar acidente crotálico só porque o local doeu.

Síndrome neuroparalítica pura: elapídico

O local é quase mudo: dor e parestesia discretas, com tendência a progressão proximal, sem lesão evidente. O sistêmico é uma miastenia aguda que sobe: ptose palpebral, oftalmoplegia, fácies miastênica, fraqueza muscular progressiva, dificuldade para manter a posição ereta, disfagia, sialorreia. Quando chega à musculatura respiratória, o paciente entra em insuficiência respiratória aguda e apneia — a causa de óbito deste tipo de acidente.

Historicamente todos os casos eram tratados como potencialmente graves, com dez ampolas para todo mundo. O protocolo de 2026 incorpora uma classificação que o Ministério da Saúde vinha sugerindo e muda a conduta: leve é o quadro só com manifestações locais, parestesia e dor, com ou sem irradiação, e não recebe soro — recebe observação clínica de pelo menos 24 horas, com soro se evoluir com miastenia. Moderado é a miastenia aguda instalada, com ptose palpebral e redução objetiva de força, sem sinais de paralisia: cinco frascos-ampolas. Grave é fraqueza intensa e paralisia evidentes, com dificuldade para levantar e deambular, disfagia, salivação, respiração superficial até paralisia respiratória: dez frascos-ampolas.

Duas coisas justificam o rigor da observação. Os sintomas podem aparecer precocemente, em menos de uma hora, ou tardiamente — e o exame que separa o leve do moderado é a força muscular medida de verdade, com o paciente pedido para levantar as pálpebras, sustentar os braços, engolir água e sentar sem apoio, repetido de hora em hora.

Síndrome autonômica: escorpionismo, e o motivo de a criança ser outro paciente

A dor local imediata é praticamente constante, de intensidade variável, podendo irradiar para a raiz do membro, com parestesia, eritema discreto e sudorese no local. É esperado que a picada não deixe marca visível e que o edema seja incomum — um dado que ajuda a separar do foneutrismo, em que a reação local é mais evidente, com edema e dor de controle mais difícil.

As manifestações sistêmicas surgem em minutos até duas ou três horas: sudorese profusa, náuseas, vômitos, sialorreia, agitação alternada com sonolência, tremores, taquicardia ou bradicardia, hipertensão ou hipotensão, taquidispneia, priapismo, convulsões, insuficiência cardíaca, edema agudo de pulmão e choque. O protocolo brasileiro classifica assim: leve é dor, eritema, parestesia e sudorese, com náusea, vômito, agitação e taquicardia discretas relacionadas à dor; moderado é o quadro local associado a manifestações sistêmicas de pequena intensidade — sudorese, náuseas, alguns episódios de vômito, alteração da frequência cardíaca, elevação da pressão arterial, agitação; grave é a lista da tempestade: inúmeros episódios de vômito, sudorese profusa, sialorreia intensa, prostração alternada com agitação, taquidispneia, convulsão, insuficiência cardíaca, edema agudo de pulmão, choque.

A distância entre leve e moderado é pequena e o caminho entre eles é curto. Os casos leves são a esmagadora maioria — cerca de 88% dos registros —, mas o quadro é dinâmico e pode evoluir em poucas horas, e crianças de até dez anos, principalmente as menores de sete, são o grupo em que essa evolução acontece. É por isso que o tempo de observação foi escrito por classificação, e não por hábito: quem não tem clínica de envenenamento fica quatro horas; quem tem caso leve fica de seis a doze horas; quem recebeu soro fica no mínimo 24 horas.

Nos acidentes por espécies amazônicas, sobretudo Tityus obscurus, o quadro tem sotaque próprio: sensação de choque elétrico, mioclonias, movimentos sacádicos, disartria, ataxia de marcha, desequilíbrio postural. Essas manifestações neuromusculares podem persistir mesmo depois do soro, que é produzido a partir do veneno de Tityus serrulatus, e o tratamento sintomático com benzodiazepínico entra para controlá-las.

No idoso, o tratamento não difere do adulto mais jovem, mas comorbidades — hipertensão, diabetes, cardiopatia, nefropatia — somam-se à idade como fator de risco. E vale registrar uma diferença entre documentos oficiais que muda conduta na porta: a bula do soro antiescorpiônico afirma que acidentes com crianças abaixo de dez anos e pessoas idosas são sempre considerados moderados ou graves, enquanto o protocolo de 2025 classifica pela manifestação clínica e trata a idade como determinante de vigilância, não de classificação automática. Essa divergência está discutida no bloco próprio.

Araneísmo: três doenças diferentes com o mesmo nome

O foneutrismo é o mais frequente e o mais barulhento. Dor imediata, muitas vezes intensa, irradiando até a raiz do membro, com edema, eritema, parestesia e sudorese local; podem se ver dois pontos de inoculação. A imensa maioria é leve. Cerca de 7,5% são moderados, com taquicardia, hipertensão, sudorese discreta, agitação, visão turva e vômitos ocasionais; menos de 1% são graves e praticamente restritos a crianças, com sudorese profusa, sialorreia, vômitos frequentes, diarreia, priapismo, hipertonia, hipotensão, choque e edema agudo de pulmão. O quadro grave é indistinguível do escorpionismo grave — e essa indistinguibilidade é reconhecida no protocolo nacional, que autoriza tratar com o soro antiaracnídico quando não se consegue diferenciar.

O loxoscelismo é o oposto: a picada quase sempre não é percebida, e o paciente chega dias depois por causa da lesão. A forma cutânea, que é 87% a 98% dos casos, se instala lenta e progressivamente: dor em queimação, edema endurado, eritema e, entre 24 e 72 horas, a lesão característica — áreas hemorrágicas focais mescladas a áreas pálidas de isquemia, a placa marmórea, com necrose central. A escara se forma em sete a doze dias e, ao se destacar em três a quatro semanas, deixa úlcera de cicatrização difícil. A forma cutâneo-visceral, ou hemolítica, aparece em 1% a 13% dos casos, em geral nas primeiras 24 horas, com anemia, icterícia e hemoglobinúria, podendo vir com coagulação intravascular disseminada; é ela que evolui para injúria renal aguda, a principal causa de óbito.

A classificação do loxoscelismo tem uma peculiaridade que o interno precisa entender antes de aplicar: o caso leve exige que a aranha tenha sido identificada, porque sem identificação uma lesão incaracterística não pode ser assumida como benigna. Leve é lesão incaracterística, sem alteração clínica ou laboratorial, com a aranha identificada — e o paciente é acompanhado por pelo menos 72 horas, porque mudanças na lesão ou surgimento de manifestação sistêmica obrigam a reclassificar. Moderado é lesão sugestiva ou característica, com ou sem identificação do agente, com ou sem manifestações sistêmicas inespecíficas como exantema e febre, e sem hemólise. Grave é lesão característica com manifestações clínicas ou laboratoriais de hemólise intravascular.

O latrodectismo é raro no Brasil, concentrado no Nordeste, e se apresenta com dor local de pequena intensidade que evolui para queimação, pápula eritematosa e sudorese localizada. O sistêmico é motor: dor irradiada para membros inferiores, contraturas musculares intermitentes, tremores, rigidez abdominal que pode simular abdome agudo, e a fácies latrodectísmica, com contratura facial e trismo dos masseteres. Podem ocorrer opressão precordial, taquicardia e hipertensão seguidas de bradicardia, retenção urinária e priapismo. No Brasil não há registro de óbito por latrodectismo.

Quando o bicho não foi visto: tratar a síndrome

Este é o cenário mais comum, e ele tem resposta. Membro que dói e incha progressivamente, com sangramento ou distúrbio de coagulação, é síndrome botrópica: usa-se soro antibotrópico pentavalente. Se houver manifestação vagal associada, ou se o acidente aconteceu em área de coexistência com Lachesis, usa-se o soro antibotrópico e antilaquético, que cobre os dois. Membro pobre de sinais com fácies miastênica, mialgia e urina escura é síndrome crotálica: soro anticrotálico, ou o antibotrópico e anticrotálico na falta dele. Fácies miastênica sem mialgia e sem urina escura, com paralisia ascendente, é síndrome elapídica: soro antielapídico. Dor local desproporcional com descarga autonômica é síndrome escorpiônica ou foneutrismo: soro antiescorpiônico, e antiaracnídico se aquele faltar ou se a dúvida entre escorpião e armadeira persistir. Lesão necrótica de instalação lenta, com ou sem hemólise, é loxoscelismo: soro antiloxoscélico, ou antiaracnídico na falta dele.

Duas regras fecham o raciocínio. A primeira: na dúvida entre botrópico e laquético, ou entre botrópico e crotálico, escolhe-se o soro combinado que cobre as duas hipóteses, e não se espera identificação. A segunda: as serpentes sem importância médica — cobra-verde, cobra-cipó, boipeva, cobra-d'água, muçurana — causam dor, edema, equimose e, às vezes, náusea e cefaleia, mas caracteristicamente não alteram a coagulação. Nesses acidentes não há indicação de soro, e o tempo de coagulação é justamente o exame que ajuda a diferenciá-los do acidente botrópico. Isso não autoriza dispensar ninguém no primeiro exame: a observação mínima de seis horas continua valendo.

Fica um obstáculo que se resolve com bom senso: a vítima alcoolizada. As manifestações da ingestão alcoólica podem se parecer com as de um acidente elapídico ou crotálico — fala arrastada, marcha instável, sonolência — e o protocolo nacional sugere infundir soro glicosado para permitir a regressão dos efeitos do álcool e reavaliar o quadro neurológico com honestidade. Ninguém classifica gravidade neurológica em paciente embriagado sem ter feito essa reavaliação.

06

Como fechar o diagnóstico

A inversão que custa mais tempo neste capítulo é esta: o diagnóstico do envenenamento é clínico-epidemiológico, e nenhum exame de rotina confirma qual peçonha está circulando. Existem métodos imunoenzimáticos capazes de detectar antígeno de veneno botrópico e crotálico no sangue, mas o protocolo nacional registra que a aplicação clínica ainda é limitada e que eles não estão disponíveis no Sistema Único de Saúde. Quem espera exame para decidir soro está esperando um exame que não existe.

A sequência correta é: identificar a síndrome pelo quadro, classificar a gravidade pelo exame físico, prescrever o soro, colher os exames que vão acompanhar a resposta e as complicações, reavaliar com horário marcado e reclassificar. O laboratório entra depois da decisão terapêutica, e serve para outra coisa — medir coagulopatia, rabdomiólise, função renal e dano miocárdico ao longo do tempo.

Tubos de sangue e comparação entre conteúdo que permanece líquido e coágulo que mantém sua forma na inclinação.
A observação da formação de coágulo pode auxiliar a avaliação de coagulopatia, desde que a técnica seja padronizada. Material do tubo, temperatura, manipulação e momento da leitura interferem no resultado. O esquema mostra o princípio físico; não substitui o protocolo do serviço nem define isoladamente a dose de antiveneno. Ilustração didática original.

O tempo de coagulação: como se faz, o que ele diz e onde ele não manda

É o exame mais útil e mais barato do ofidismo, e faz-se com duas seringas e dois tubos de vidro. Colhe-se sangue com seringa plástica, sem espuma e sem dificuldade, e distribui-se 1 mL em cada um de dois tubos de vidro secos e limpos, de 13 por 100 mm. Os tubos vão a banho-maria a 37 °C. A partir do quinto minuto, e a cada minuto, retira-se sempre o mesmo tubo e inclina-se até a horizontal; se o sangue escorrer pela parede, o tubo volta ao banho. O valor do tempo de coagulação é o minuto em que o sangue deixa de escorrer pela parede interna do tubo inclinado, e o segundo tubo, que ficou em repouso, confirma o resultado.

A interpretação é de três faixas: até 9 minutos, normal; de 10 a 30 minutos, prolongado; acima de 30 minutos, incoagulável. O movimento precisa ser suave, porque agitar o tubo encurta falsamente o tempo. Onde não há banho-maria, o manual admite as próprias mãos como fonte de calor.

Duas advertências fecham o uso. A primeira: tempo de coagulação alterado confirma que há veneno com atividade coagulante circulando — botrópico, laquético ou crotálico — e ajuda a separar do acidente por serpente sem importância médica, que caracteristicamente não altera a coagulação. A segunda, e é a que muda prescrição: o tempo de coagulação não classifica gravidade nem define a dose. Um paciente com edema de um segmento e sangue incoagulável é um caso leve, e leve recebe a dose de leve. O papel do tempo de coagulação vem depois, no acompanhamento: se permanecer alterado 24 horas após o término da soroterapia no acidente botrópico, indicam-se dois frascos-ampolas adicionais.

Que exame pedir em cada síndrome, e o que cada um responde

No acidente botrópico e no laquético: tempo de coagulação, hemograma completo com atenção à contagem de plaquetas, ureia, creatinina e urina tipo I. O coagulograma com tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada entra quando disponível. Ureia e creatinina não são rotina cega — são a busca ativa da injúria renal aguda, que é a complicação sistêmica que mata neste tipo de acidente, e por isso se dosam na admissão e se repetem no acompanhamento. Proteína C reativa e desidrogenase láctica podem ajudar a distinguir infecção secundária e lesão tecidual quando a evolução local piora.

No acidente crotálico: tempo de coagulação, hemograma, creatinoquinase total, ureia, creatinina e urina tipo I, com atenção à coloração ou à pesquisa direta de mioglobina. A creatinoquinase mede a rabdomiólise, sobe cedo e é o exame que quantifica o que a mialgia e a urina escura sugerem; a desidrogenase láctica sobe mais devagar e ajuda no diagnóstico tardio. Eletrólitos, fósforo, potássio, cálcio e ácido úrico entram quando há rabdomiólise estabelecida.

No acidente elapídico: creatinoquinase quando há manifestação miotóxica. O resto do acompanhamento é clínico e ventilatório — medir força, medir deglutição, medir respiração.

No escorpionismo com manifestação sistêmica: eletrocardiograma na admissão, obrigatoriamente na criança, pela rapidez da evolução; radiografia de tórax procurando aumento de área cardíaca e edema pulmonar, que pode ser unilateral; ecocardiograma para hipocinesia de septo e de parede e regurgitação mitral; creatinoquinase e sua fração MB e troponina para dano miocárdico; glicemia capilar, potássio, sódio e amilase, que traduzem a descarga autonômica; ureia e creatinina. O peptídeo natriurético tipo B pode ajudar na detecção de insuficiência cardíaca, com a ressalva de que na tabela de procedimentos do SUS ele está disponível para adultos. Onde houver, a ultrassonografia pulmonar e a ecocardiografia à beira do leito antecipam disfunção ventricular e edema pulmonar antes da radiografia.

No araneísmo: no loxoscelismo, hemograma procurando anemia aguda e plaquetopenia, bilirrubinas com atenção à fração indireta, reticulócitos, haptoglobina quando disponível, ureia, creatinina e urina, porque o que se está procurando é hemólise intravascular e injúria renal. No foneutrismo grave, o mesmo pacote do escorpionismo. No latrodectismo, as alterações são inespecíficas e o eletrocardiograma vale pelo que ele descarta.

O que não pedir, e o que custa pedir

Não pedir exame nenhum antes de prescrever o soro no paciente classificado como moderado ou grave. O antiveneno é tempo-dependente, e o intervalo entre a picada e a primeira dose é o determinante prognóstico que o serviço controla. Colher é bom; esperar o resultado para decidir não é.

Não pedir identificação zoológica como pré-requisito. Levar o animal ajuda a vigilância e às vezes ajuda a escolher entre dois soros, mas a definição de caso e a indicação de soroterapia não dependem dela. Um paciente com síndrome botrópica clara e edema de dois segmentos recebe seis frascos-ampolas hoje, com ou sem cobra dentro do saco.

Não pedir dosagem de fibrinogênio como primeira escolha para monitorar coagulopatia. O protocolo de 2026 é explícito: embora estudos sugiram queda de fibrinogênio nos acidentes botrópico e crotálico, a correlação clínica com sangramento não está bem estabelecida, e por isso ele não é recomendado como exame de primeira linha. Pedi-lo de rotina consome tempo de laboratório e produz um número que ninguém sabe usar.

Não pedir tomografia para investigar o membro edemaciado. A decisão sobre síndrome compartimental é clínica — edema endurecido em todo o membro, dor intensa e persistente, alteração de perfusão — e o exame que mudaria conduta é a avaliação de uma equipe cirúrgica, não uma imagem. Transportar paciente instável para setor de imagem é troca ruim.

Não repetir plaquetas de seis em seis horas num paciente estável. Plaquetopenia acompanha o acidente botrópico e não é, por si, critério de gravidade nem indicação de transfusão. Transfundir plaqueta por número, sem sangramento e sem ter dado o soro, é expor a hemocomponente sem tratar a causa.

E não pedir teste de sensibilidade cutânea antes do soro. Este não é um exame inútil, é um exame prejudicial: os dois protocolos nacionais e o Guia de Vigilância em Saúde registram que ele tem baixo valor preditivo para reação de hipersensibilidade e que atrasa o início do tratamento específico. A Organização Mundial da Saúde considera o valor preditivo discutível e imprevisível. A conduta correta é não testar e estar preparado para tratar a reação.

O diferencial que precisa caber na mesma consulta

Antes de tudo, o diferencial dentro do próprio grupo. Botrópico e laquético se separam pela síndrome vagal. Crotálico e elapídico se separam pela mialgia e pela urina escura, ausentes no elapídico. Escorpionismo e foneutrismo se separam mal, e por isso existe um soro que cobre os dois — quando a dúvida persiste, usa-se o antiaracnídico e segue-se em frente.

Depois, o diferencial com o que não é peçonha. Lesão necrótica de membro em paciente que não viu bicho nenhum não é automaticamente loxoscelismo: entram no diferencial celulite, ectima, antraz cutâneo, herpes-zóster hemorrágico, vasculite, pioderma gangrenoso, úlcera vascular infectada e picada de outros artrópodes. A pista temporal ajuda — a lesão loxoscélica se organiza em 24 a 72 horas e tem placa marmórea com áreas pálidas e hemorrágicas mescladas — mas o interno não deve fechar diagnóstico por eliminação preguiçosa, sobretudo porque o soro tem janela e o antibiótico, quando a hipótese é infecciosa, também tem hora.

Um quadro autonômico exuberante em criança sem picada testemunhada abre um leque perigoso: além de escorpionismo e foneutrismo, considere intoxicação exógena, sobretudo por inseticidas colinérgicos, cuja síndrome muscarínica se parece com a descarga colinérgica do escorpião. A diferença prática está no contexto de exposição, no odor, na miose fixa e na resposta à atropina; o manejo por antídoto é assunto do capítulo de intoxicações exógenas agudas, e é para lá que essa hipótese vai. O que não se faz é tratar um pelo outro sem ter perguntado onde a criança estava e o que havia ao alcance dela.

A dor abdominal intensa com rigidez do latrodectismo simula abdome agudo, e já levou paciente a laparotomia branca. A pista é a ausência de descompressão dolorosa proporcional, a presença de contraturas em outros grupos musculares, a fácies latrodectísmica e o antecedente de dor local em queimação com pápula e sudorese localizada.

Por fim, o diferencial que o próprio tratamento cria. Paciente que piora durante a infusão do soro pode estar piorando do envenenamento ou fazendo reação precoce ao antiveneno. Prurido, urticária, rubor facial, tosse, náusea e cólica apontam reação; agravamento de sangramento, de paralisia ou de disfunção miocárdica aponta envenenamento. Quando a dúvida não se resolve, interrompe-se temporariamente a infusão, trata-se a reação, e a soroterapia é retomada assim que o quadro remite — inclusive após eventos graves.

O que existe no SUS, e onde está o soro que falta

Quase tudo o que este capítulo exige existe na rede pública. Os antivenenos integram o Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica e são fornecidos gratuitamente pelo Ministério da Saúde, produzidos por laboratórios oficiais conveniados — Instituto Butantan, Fundação Ezequiel Dias e Instituto Vital Brazil — e distribuídos às secretarias estaduais de saúde, que definem os pontos de atendimento. Tempo de coagulação, hemograma, ureia, creatinina, urina tipo I, creatinoquinase e sua fração MB, troponina, potássio, amilase, glicemia capilar, eletrocardiograma, radiografia de tórax, ecocardiograma transtorácico e tomografia de crânio estão todos na tabela de procedimentos do SUS.

O que falta, com frequência, é o soro certo naquela geladeira naquela noite. A distribuição é regionalizada por decisão explícita: leva-se em conta a presença de animais de importância em saúde e o registro de acidentes, o tempo de deslocamento até o ponto de referência mais próximo, a estrutura do serviço para administrar antiveneno e manejar reação adversa, e a existência de rede de frio compatível. O país tem 2.223 pontos estratégicos de antivenenos em 1.997 municípios, o que significa que a maioria dos municípios brasileiros não tem soro — e que o mapa dessa distribuição é uma informação clínica, não administrativa.

Descobrir o ponto mais próximo tem três caminhos, e o interno deve conhecer os três antes de precisar deles. O primeiro: o Ministério da Saúde publica, por unidade da Federação, a lista dos Pontos Estratégicos de Soro Antiveneno — os hospitais de referência para atendimento de acidentes por animais peçonhentos — com cidade, nome da unidade, endereço, telefone e código no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde. Vale imprimir a lista do seu estado e deixá-la colada na parede da sala de emergência, porque ela é inútil se depender de internet no meio da madrugada.

O segundo: o Centro de Informação e Assistência Toxicológica que atende a sua região. Não existe uma linha nacional única — a lista oficial é por estado, e vários centros compartilham o número 0800 722 6001 enquanto outros têm 0800 próprio. O Guia de Vigilância em Saúde recomenda expressamente que a prescrição do soro seja respaldada por profissionais de referência, em geral dos centros toxicológicos, como segunda opinião clínica, e o fluxograma do protocolo do escorpionismo lista o que se pede a eles: apoio na identificação da espécie, na classificação de gravidade, no diagnóstico diferencial, na definição da conduta, na indicação de soro, na avaliação da necessidade de transferência e no prognóstico. Ligar não é sinal de fraqueza; é parte do protocolo.

O terceiro: a vigilância epidemiológica municipal e estadual, que é quem movimenta ampola entre pontos, e o transporte sanitário. Duas exigências práticas viajam junto com o soro — conservação entre 2 °C e 8 °C sem congelar, o que obriga caixa térmica com gelo reciclável e termômetro, e a regra de que, uma vez aberto o frasco-ampola, o soro deve ser usado imediatamente.

Há uma regra que resolve a angústia do serviço com estoque insuficiente, e ela está escrita no manual nacional: se o número disponível de ampolas for inferior ao recomendado, a soroterapia deve ser iniciada enquanto se providencia o tratamento complementar. Ou seja — as onze ampolas que existem na geladeira começam a correr agora, e as que faltam são acionadas em paralelo. Guardar o que se tem esperando completar a dose é o pior dos dois mundos.

E há a decisão de transferir. Recomenda-se que as vítimas sejam encaminhadas, sempre que possível, a hospitais de referência para acidentes por animais peçonhentos. Mas transferência não é sinônimo de esperar: o paciente parte com o soro que já recebeu, com acesso venoso, com a ficha de notificação iniciada e com o telefone do centro toxicológico anotado, e o serviço que recebe precisa saber, antes de a ambulância sair, quantas ampolas de qual soro já foram administradas.

07

Classificar, dosar, infundir, reavaliar: as réguas que decidem o número de ampolas

Organize o atendimento por síndrome, gravidade e evolução. A identificação segura do animal pode ajudar, mas não deve atrasar suporte nem exigir captura. O número de frascos de antiveneno segue o tipo de acidente e a classificação clínica; peso e idade influenciam a vulnerabilidade e o suporte, sem reduzir automaticamente a dose neutralizante indicada. Cada tipo de acidente tem um marcador próprio de gravidade, e a gravidade é o único parâmetro que define quantos frascos-ampolas serão administrados. Nem o tamanho do animal, nem o peso do paciente, nem o tempo de coagulação entram nessa conta. E a classificação não é feita uma vez: o paciente pode subir de gravidade ao longo das horas, e a conduta nesse caso é complementar a dose até o número da nova gravidade, não recomeçar.

  1. 1Chegou um acidentado: lave o ferimento com água e sabão, remova torniquete, anéis, pulseiras e roupa apertada, e mantenha o membro elevado e estendido. Registre a hora do acidente, não a hora da chegada.
  2. 2Identifique a síndrome pelo quadro: membro que incha e sangra é botrópica ou laquética; membro pobre com fácies miastênica, mialgia e urina escura é crotálica; paralisia ascendente sem mialgia é elapídica; dor local desproporcional com descarga autonômica é escorpiônica ou foneutrismo; lesão necrótica de instalação lenta é loxoscélica.
  3. 3Classifique a gravidade pelo marcador daquela síndrome: segmentos do membro no botrópico; manifestações vagais no laquético; intensidade neuroparalítica, mialgia e urina no crotálico; força muscular e deglutição no elapídico; manifestações sistêmicas no escorpiônico e no foneutrismo; lesão e hemólise no loxoscélico.
  4. 4Sem manifestação evidente na admissão: não é alta. Observação mínima de seis horas no acidente ofídico e de quatro horas no escorpionismo sem clínica de envenenamento, com reavaliação seriada.
  5. 5Moderado ou grave: prescreva o soro agora, em número de frascos-ampolas, sem esperar exame e sem esperar identificação do animal.
  6. 6Antes de abrir a ampola: acesso venoso pérvio em membro não acometido, adrenalina 1:1000 na bandeja, soro fisiológico ou Ringer lactato pendurado, material de via aérea separado por peso e idade, monitorização.
  7. 7Dilua em soro fisiológico ou glicosado a 5%, na proporção de 1:2 a 1:5, e infunda por via intravenosa entre 8 e 12 mL por minuto, atento à sobrecarga de volume na criança.
  8. 8Administre a quantidade recomendada de uma só vez: a dose não se fraciona ao longo do dia.
  9. 9Reação durante a infusão: interrompa, trate a reação e retome assim que remitir — inclusive depois de evento grave.
  10. 10Notifique o caso no Sinan com a ficha de investigação de acidentes por animais peçonhentos, mesmo que o paciente não tenha recebido soro.
  11. 11Confirme o antiveneno indicado para o tipo e a gravidade do acidente. Se houver poucas ampolas do produto correto, acione imediatamente o CIATox e a referência para orientar o início e completar a dose indicada. Se não houver soro compatível, organize acesso ou transferência com suporte e monitorização; não administre qualquer soro disponível. Substituições só cabem quando forem compatíveis com o veneno e previstas em protocolo, sob orientação especializada.
  12. 12Reavalie com horário escrito: quem recebeu soro fica no mínimo 24 horas em observação, e no acidente crotálico o monitoramento se estende de 48 a 72 horas pela injúria renal aguda.
  13. 13Piorou depois do soro: reclassifique e complemente a dose até o número da nova gravidade. No botrópico, tempo de coagulação ainda alterado 24 horas após o término da soroterapia indica dois frascos-ampolas adicionais.
  14. 14Antes da alta: cheque profilaxia antitetânica conforme o tipo de ferimento e a situação vacinal, oriente o retorno por sinal de infecção secundária e avise sobre a doença do soro, que aparece entre o quinto e o vigésimo quarto dia.

Botrópico leve — dor e edema em até um segmento

Sangramento discreto ou ausente. Coagulopatia pode estar presente ou ausente e não muda a classificação. Três frascos-ampolas de soro antibotrópico pentavalente.

Botrópico moderado — dor e edema em dois segmentos

Sangramento discreto ou ausente. Seis frascos-ampolas. O dobro da dose do caso leve, pela estimativa de dobro de veneno depositado.

Botrópico grave — dor e edema em três segmentos

Ou hemorragia grave, hipotensão, choque ou injúria renal aguda, com qualquer extensão de edema. Doze frascos-ampolas, e leito com suporte.

AcidenteSoroLeveModeradoGrave
BotrópicoAntibotrópico pentavalente (SABR); na falta, SABL ou SABC3 frascos-ampolas6 frascos-ampolas12 frascos-ampolas
LaquéticoAntibotrópico pentavalente e antilaquético (SABL)não existe classificação leve10 frascos-ampolas20 frascos-ampolas
CrotálicoAnticrotálico (SAC); na falta, SABC5 frascos-ampolas10 frascos-ampolas20 frascos-ampolas
ElapídicoAntielapídico bivalente (SAELA)sem soro; observação clínica de pelo menos 24 h, com soro se evoluir com miastenia5 frascos-ampolas10 frascos-ampolas
EscorpiônicoAntiescorpiônico (SAEsc); na falta ou na dúvida com foneutrismo, SAAsem soro; sintomático e observação de 6 a 12 h3 frascos-ampolas6 frascos-ampolas (teto: não se ultrapassam 6)
FonêutricoAntiaracnídico Loxosceles, Phoneutria e Tityus (SAAr)sem soro; sintomático e observação até 6 h2 a 4 frascos-ampolas5 a 10 frascos-ampolas
LoxoscélicoAntiloxoscélico trivalente (SALox); na falta, SAArsem soro; acompanhamento por pelo menos 72 h5 frascos-ampolas, com prednisona associada10 frascos-ampolas, com prednisona associada
LatrodécticoAntilatrodético (SALatr), soro importado e de disponibilidade restritasem soro; sintomáticosintomático; 1 frasco-ampola por via intramuscular no esquema do manual de 2001sintomático; 1 a 2 frascos-ampolas por via intramuscular no esquema do manual de 2001

Volume, diluição e tempo: o que realmente entra na veia

PrescriçãoSoro puroDiluído 1:2Diluído 1:5Tempo a 8-12 mL/min
Botrópico leve — 3 frascos de 10 mL30 mL90 mL180 mLde 7,5 min (1:2 a 12 mL/min) a 22,5 min (1:5 a 8 mL/min)
Botrópico moderado — 6 frascos de 10 mL60 mL180 mL360 mLde 15 min a 45 min
Botrópico grave — 12 frascos de 10 mL120 mL360 mL720 mLde 30 min a 90 min
Crotálico ou laquético grave — 20 frascos de 10 mL200 mL600 mL1.200 mLde 50 min a 150 min
Elapídico grave — 10 frascos de 10 mL100 mL300 mL600 mLde 25 min a 75 min
Escorpiônico moderado — 3 frascos de 5 mL15 mL45 mL90 mLde 3,8 min a 11,2 min
Escorpiônico grave — 6 frascos de 5 mL30 mL90 mL180 mLde 7,5 min a 22,5 min
Loxoscélico grave — 10 frascos de 5 mL50 mL150 mL300 mLde 12,5 min a 37,5 min

O mesmo número de ampolas, o volume que muda: soro em mL por quilo

PrescriçãoDiluiçãoVolume totalAdulto de 70 kgCriança de 15 kgLactente de 10 kg
Botrópico grave — 120 mL de sorosem diluir120 mL1,7 mL/kg8,0 mL/kg12,0 mL/kg
Botrópico grave — 120 mL de soro1:2360 mL5,1 mL/kg24,0 mL/kg36,0 mL/kg
Botrópico grave — 120 mL de soro1:5720 mL10,3 mL/kg48,0 mL/kg72,0 mL/kg
Crotálico grave — 200 mL de soro1:2600 mL8,6 mL/kg40,0 mL/kg60,0 mL/kg
Crotálico grave — 200 mL de soro1:51.200 mL17,1 mL/kg80,0 mL/kg120,0 mL/kg
Escorpiônico grave — 30 mL de soro1:290 mL1,3 mL/kg6,0 mL/kg9,0 mL/kg
Referência de comparaçãoexpansão volêmica pediátrica de 20 mL/kg300 mL200 mL

Quanto tempo o paciente fica

SituaçãoTempo mínimoO que se vigia nesse período
Acidente ofídico sem manifestação evidente na admissão6 horas em região de predomínio botrópico; mais, se houver sintomasaparecimento tardio de edema, sangramento, alteração de coagulação e fácies miastênica
Escorpionismo sem clínica de envenenamento4 horassurgimento de qualquer manifestação sistêmica
Escorpionismo leve6 a 12 horasevolução para manifestação sistêmica que indique soro
Qualquer acidente ofídico em que se administrou soro24 horasnormalização do tempo de coagulação, sangramento, reação ao soro, função renal
Acidente crotálicode 24 a 48 ou 72 horasinjúria renal aguda por rabdomiólise, que se instala nas primeiras 48 horas
Acidente elapídico leve24 horassurgimento de miastenia, que indica soroterapia
Escorpionismo que recebeu soro24 horasdisfunção miocárdica, edema pulmonar e persistência de manifestações
Loxoscelismo leveacompanhamento por pelo menos 72 horasmudança de característica da lesão e surgimento de hemólise
Latrodectismo24 horascontraturas, dor abdominal, alterações cardiovasculares
Foneutrismo em lactente, pré-escolar e idoso6 horasmanifestação sistêmica de instalação tardia

O que se prepara antes de abrir a ampola

ItemPor quê
Acesso venoso periférico calibroso, em membro não acometido pela picadao membro picado tem edema progressivo e risco de extravasamento; e a via intramuscular é evitada pelo risco de hematoma na coagulopatia
Adrenalina aquosa 1:1000, seringa e agulha separadasé a droga de escolha da reação anafilática ao soro; corticoide e anti-histamínico são coadjuvantes e nunca substituem
Frasco de soro fisiológico a 0,9% ou Ringer lactato conectadoexpansão volêmica imediata se houver hipotensão na reação precoce
Laringoscópio com lâminas e tubos traqueais adequados ao peso e à idadea reação grave pode cursar com edema de glote e obstrução de via aérea
Broncodilatador inalatório e material de oxigenoterapiabroncoespasmo é apresentação frequente da reação precoce
Monitor de sinais vitais e oxímetroa reação ocorre durante a infusão e nas duas horas seguintes
Balança e relógioo peso não muda a dose do soro, mas define as doses de adrenalina, analgésico e volume; o relógio define a velocidade de infusão e o horário da reavaliação
Ficha de investigação de acidentes por animais peçonhentos do Sinana notificação é compulsória e independe de o paciente ter recebido soro

O que não se faz, e o dano de cada um

CondutaDano
Torniquete ou garrote no membro picadoconcentra a peçonha proteolítica e a isquemia no segmento distal; associa-se a necrose, síndrome compartimental e amputação
Incisão, perfuração ou sucção no local da picadapiora a hemorragia num paciente com coagulopatia e abre porta para infecção secundária
Cauterizar, queimar ou aplicar fezes, álcool, querosene, fumo, ervas ou urinainfecção secundária e destruição tecidual somadas ao veneno
Curativo oclusivo fechando o localfavorece infecção e esconde a progressão do edema, que é o próprio parâmetro de gravidade
Bloqueio anestésico ou injeção de medicamento no local da picada, no acidente ofídicocontraindicado pelo quadro inflamatório intenso; a analgesia é sistêmica
Oferecer bebida alcoólica ao acidentadonão tem efeito sobre a peçonha, causa problema gastrointestinal e atrapalha a avaliação neurológica
Esperar identificar o animal para indicar o soroatrasa o tratamento tempo-dependente; a definição de caso não exige identificação
Teste de sensibilidade cutânea antes do sorobaixo valor preditivo e atraso do tratamento específico; pode, por si, desencadear reação
Anti-inflamatório não esteroide para a dornefrotoxicidade em paciente sob risco de injúria renal aguda; a analgesia é dipirona ou paracetamol, com opioide fraco na dor intensa
Antibiótico profilático de rotinanão há recomendação para uso profilático; o antibiótico se destina à infecção secundária estabelecida
Fracionar a dose do soro ao longo do diaa quantidade recomendada é administrada de uma só vez, sob vigilância
Transfundir hemocomponente antes de administrar o soroo veneno circulante continua consumindo fator de coagulação; sem neutralizá-lo, a reposição não sustenta hemostasia

Sobre as doses do acidente botrópico: os números adotados aqui — três, seis e doze frascos-ampolas, com gravidade contada em segmentos do membro — são os do protocolo clínico e diretrizes terapêuticas dos acidentes ofídicos, de 2026. Os documentos anteriores, ainda vigentes e impressos na bula do frasco, trazem intervalos e uma classificação descrita por adjetivos. O confronto das duas leituras, com as fontes de cada uma, está no bloco de divergências.

Sobre o acidente elapídico: o esquema clássico administra dez ampolas a todo caso; o protocolo de 2026 classifica em leve, moderado e grave e reserva o soro aos dois últimos. A discussão sobre em que serviço cada régua é segura está no bloco de divergências.

Sobre a linha do latrodectismo: o Guia de Vigilância em Saúde de 2024 descreve para o latrodectismo apenas tratamento sintomático e de suporte, com benzodiazepínico, gluconato de cálcio, clorpromazina, analgesia e observação mínima de 24 horas, e não traz o soro antilatrodético no quadro de ampolas do araneísmo. O manual de 2001 prevê uma a duas ampolas por via intramuscular nos casos graves e registra que esse soro é importado. Como a disponibilidade é restrita e não há registro de óbito por latrodectismo no Brasil, a conduta prática é sintomática, e o soro entra por decisão compartilhada com o centro toxicológico.

Sobre a velocidade de infusão do escorpionismo: o protocolo de 2025 diz que a infusão deve ser realizada em 10 a 15 minutos ou em bolus, com velocidade de 8 a 12 mL por minuto. Os dois parâmetros só coincidem em diluições altas: três frascos-ampolas diluídos a 1:2 são 45 mL, que a 8 mL por minuto correm em 5,6 minutos, menos que os 10 minutos anunciados; seis frascos-ampolas diluídos a 1:5 são 180 mL, que a 12 mL por minuto correm exatamente em 15 minutos. Diante da divergência interna, este capítulo prescreve pela velocidade, que é o parâmetro ligado ao risco de reação, e usa o tempo como referência de conferência.

Sobre o volume no paciente pediátrico: a dose de anticorpo é a mesma, mas o veículo não é indiferente. Doze frascos-ampolas de soro antibotrópico diluídos a 1:5 são 720 mL, o que numa criança de 15 quilos equivale a 48 mL/kg, ou 2,4 vezes uma expansão volêmica de 20 mL/kg. Em criança, a regra prática é usar a menor diluição da faixa permitida, contabilizar esse volume no balanço hídrico do dia e auscultar as bases pulmonares ao fim da infusão.

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A conduta, hora a hora

Toda dose abaixo vem de um destes documentos: o protocolo clínico e diretrizes terapêuticas dos acidentes ofídicos do Ministério da Saúde, de 2026; o protocolo clínico e diretrizes terapêuticas dos acidentes escorpiônicos, aprovado pela Portaria sectics/MS nº 59, de 1º de agosto de 2025; o Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada, de 2024; o manual de diagnóstico e tratamento de acidentes por animais peçonhentos da FUNASA, 2ª edição revisada, de 2001; e as bulas profissionais dos soros da Fundação Ezequiel Dias. A fonte de cada bloco de prescrição está dita no texto do marco.

Duas regras atravessam a linha do tempo inteira. A primeira: soro se prescreve em número de frascos-ampolas, e esse número sai da gravidade clínica — nunca do peso, nunca do tamanho do animal, nunca do tempo de coagulação. A segunda: reavaliação se prescreve com horário escrito, porque em envenenamento a piora acontece enquanto ninguém está olhando.

  1. Minuto 0 — desfazer o que foi feito antes de fazer o que precisa

    A primeira conduta hospitalar costuma ser desfazer o primeiro socorro errado. Torniquete concentra a peçonha proteolítica no segmento distal e some ao veneno a isquemia — o manual nacional lista o uso indevido de torniquete entre as causas de necrose, e o Guia de Vigilância em Saúde adverte que amarrar o membro pode levar à amputação. Retire, e retire agora, com acesso venoso já garantido do outro lado, porque a liberação de um garrote antigo devolve à circulação o que estava represado. Anéis, pulseiras e roupa apertada saem pelo mesmo motivo que o garrote: o edema vai progredir.

    Prescrição
    • Remover torniquete, garrote, anéis, pulseiras e roupas apertadas do membro acometido.
    • Lavar o local da picada com água e sabão e, em seguida, com cloreto de sódio a 0,9%.
    • Manter o membro acometido elevado e estendido.
    • Puncionar acesso venoso periférico calibroso em membro NÃO acometido pela picada.
    • Registrar no prontuário a hora do acidente, o local anatômico da picada, a descrição do animal se houver, e o que foi feito antes da chegada.
    • Pesar o paciente — o peso não muda a dose do soro, mas define analgesia, adrenalina e volume.
    • Não fazer incisão, perfuração, sucção, cauterização, curativo oclusivo ou bloqueio anestésico no local da picada.
    • Não oferecer bebida alcoólica.
  2. Minuto 10 — classificar, e a classificação já é a prescrição

    A classificação é feita à beira do leito, com fita métrica, esfigmomanômetro e as próprias mãos. No acidente botrópico, contam-se os segmentos do membro com dor e edema. No crotálico, olham-se as pálpebras, pergunta-se pela dor muscular e pede-se para ver a urina. No elapídico, mede-se força e deglutição. No escorpionismo e no foneutrismo, procuram-se as manifestações sistêmicas. No loxoscelismo, descreve-se a lesão e procura-se hemólise. O número que sai dessa classificação é o número de frascos-ampolas.

    Prescrição
    • Classificar e escrever no prontuário a gravidade e a hora em que foi classificada.
    • O número de frascos-ampolas de cada tipo de acidente e gravidade está na tabela do bloco de fluxos e tabelas, e é repetido no marco de cada acidente adiante.
    • A dose é a mesma para adulto e criança em todos os acidentes, porque o objetivo é neutralizar o veneno circulante e não tratar uma massa corporal.
    • Na dúvida entre botrópico e laquético, prescrever o soro antibotrópico e antilaquético; na dúvida entre botrópico e crotálico, o antibotrópico e anticrotálico; na dúvida entre escorpião e armadeira, o antiaracnídico.
    • Não esperar identificação do animal nem resultado de exame para prescrever.
  3. Minuto 15 — a bandeja de anafilaxia antes da primeira ampola

    O soro é hospitalar por um motivo: ele reage. A reação precoce ocorre durante a infusão ou nas duas horas seguintes, é proporcional à quantidade de soro, à concentração de proteína e à velocidade de infusão, e vai de prurido a choque com obstrução de via aérea. Preparar antes não é excesso de zelo, é o que permite tratar em segundos. O teste de sensibilidade cutânea não entra: os dois protocolos nacionais e o Guia de Vigilância em Saúde registram que ele tem baixo valor preditivo e atrasa o tratamento específico, e a Organização Mundial da Saúde considera seu valor preditivo discutível e imprevisível.

    Prescrição
    • Montar ao lado do leito, antes de abrir qualquer frasco, a bandeja detalhada na tabela do bloco de fluxos e tabelas: adrenalina 1:1000, cristaloide conectado, material de via aérea por peso e idade, broncodilatador, oxigênio e monitorização.
    • Não realizar teste de sensibilidade cutânea nem ocular.
    • Não administrar pré-medicação de rotina: o protocolo dos acidentes ofídicos de 2026 não preconiza pré-soroterapia, e o protocolo do escorpionismo de 2025 não recomenda corticoide nem anti-histamínico profiláticos.
    • Manter o paciente monitorado durante a infusão e nas duas horas seguintes.
  4. Minuto 20 — como o soro corre

    A via é intravenosa. A diluição reduz a frequência de reações e é feita em soro fisiológico a 0,9% ou solução glicosada a 5%, na proporção de 1:2 a 1:5 nos acidentes ofídicos e de 1:1 a 1:5 no escorpionismo. A velocidade é de 8 a 12 mL por minuto, com atenção à sobrecarga de volume. E a quantidade recomendada de frascos-ampolas não se fraciona: administra-se de uma só vez, sob vigilância. Faça a conta antes de pendurar — doze frascos-ampolas de soro antibotrópico são 120 mL de soro, que a 1:2 viram 360 mL e correm em 30 a 45 minutos.

    Prescrição
    • Diluir em cloreto de sódio a 0,9% ou solução glicosada a 5%, na proporção de 1:2 a 1:5 (1:1 a 1:5 no escorpionismo).
    • Infundir por via intravenosa, entre 8 e 12 mL por minuto.
    • No escorpionismo, a infusão pode ser feita em 10 a 15 minutos; quando se usar soro antiaracnídico, a infusão é mais lenta, de 20 a 60 minutos.
    • Na criança, usar a menor diluição da faixa permitida, somar o volume ao balanço hídrico do dia e auscultar as bases pulmonares ao fim da infusão.
    • No escorpionismo, se não houver acesso venoso, a via intraóssea é alternativa aceita pelo protocolo de 2025.
    • Não fracionar a dose recomendada ao longo do dia.
    • Conservar o soro entre 2 °C e 8 °C, sem congelar; após a abertura do frasco-ampola, usar imediatamente.
  5. Acidente botrópico e laquético — a prescrição completa da primeira hora

    Além do soro, quatro coisas mudam desfecho: hidratação com alvo de diurese, analgesia sem anti-inflamatório, vigilância do membro e profilaxia antitetânica. A analgesia é sistêmica — o bloqueio anestésico no local da picada é contraindicado pelo quadro inflamatório intenso, e a via intramuscular é evitada pelo risco de hematoma na coagulopatia.

    Prescrição
    • Soro antibotrópico pentavalente por via intravenosa, 3, 6 ou 12 frascos-ampolas conforme leve, moderado ou grave. No acidente laquético, soro antibotrópico e antilaquético, 10 ou 20 frascos-ampolas.
    • Hidratação venosa com cloreto de sódio a 0,9%, titulada para manter fluxo urinário de 30 a 40 mL por hora no adulto e de 1 a 2 mL/kg/hora na criança.
    • Dipirona 500 mg a 1 g por via intravenosa a cada 6 horas no adulto; na criança, 10 a 25 mg/kg por dose a cada 6 horas. Ou paracetamol 500 mg a 1 g por via oral a cada 6 horas, sem exceder 4 g em 24 horas.
    • Dor intensa: acrescentar opioide fraco por via intravenosa. Não usar anti-inflamatório não esteroide, pelo risco de injúria renal aguda.
    • Marcar a borda do edema com caneta e anotar a hora, e medir a circunferência do membro em ponto fixo a cada reavaliação.
    • Profilaxia antitetânica conforme o tipo de ferimento e a situação vacinal, no esquema do calendário do Ministério da Saúde — a régua é a mesma de qualquer ferida contaminada e está no capítulo de ferimentos.
    • Não prescrever antibiótico profilático. Antibiótico apenas na infecção secundária estabelecida, direcionado ao sítio; a literatura menciona clindamicina, ceftriaxona, metronidazol e amoxicilina com clavulanato.
    • Avaliação cirúrgica se houver edema endurecido em todo o membro com dor intensa e persistente e alteração de perfusão: a fasciotomia é o tratamento descrito da síndrome compartimental, e a indicação é individualizada por equipe multiprofissional.
    • Não aspirar nem desbridar bolhas de rotina: o protocolo de 2026 não preconiza essas práticas por ausência de evidência robusta.
  6. Acidente crotálico — o soro, e a corrida contra a necrose tubular

    No acidente crotálico, antiveneno precoce e correção da hipoperfusão são essenciais, mas hidratação não garante recuperação renal. Mioglobinúria, lesão tubular e outros fatores podem coexistir. Registre diurese, balanço, creatinina, potássio e sinais de congestão; reavalie a necessidade de volume a cada etapa. Persistência de oligúria após correção da volemia exige investigação e discussão com nefrologia/CIATox, não uma sequência automática de volume, furosemida, manitol e bicarbonato. O PCDT de 2026 orienta individualizar a injúria renal e seguir suas diretrizes gerais.

    Prescrição
    • Soro anticrotálico por via intravenosa, 5, 10 ou 20 frascos-ampolas conforme leve, moderado ou grave. Na falta, soro antibotrópico e anticrotálico.
    • Hidratação venosa com alvo de fluxo urinário de 1 a 2 mL/kg/hora na criança e de 30 a 40 mL por hora no adulto.
    • Não usar furosemida para prevenir ou reverter a injúria renal apenas por oligúria. Considerar diurético quando houver sobrecarga volêmica, com dose e resposta avaliadas pela equipe e sem atrasar terapia de substituição renal se indicada (KDIGO 2012, recomendações 3.4.1 e 3.4.2; PCDT de acidentes ofídicos 2026, seção 6.3).
    • Manitol não integra uma prescrição automática de proteção renal. Não iniciar diurese osmótica para perseguir uma meta de débito urinário sem avaliação especializada, especialmente em oligúria persistente ou sobrecarga. A decisão exige indicação específica, monitorização e discussão com CIATox/nefrologia.
    • O PCDT 2026 menciona alcalinização entre intervenções possíveis, dentro de tratamento individualizado. Não usar bicarbonato automaticamente em todo acidente crotálico apenas para atingir pH urinário acima de 6,5. Definir eventual indicação com a equipe, considerando equilíbrio ácido-base, sódio, potássio, cálcio, volemia e função renal.
    • Dosar creatinoquinase total, ureia, creatinina, eletrólitos e urina tipo I na admissão e repetir no acompanhamento.
    • Monitorar por 24 horas no mínimo, estendendo a 48 ou 72 horas pela possibilidade de injúria renal aguda.
    • Diante de necrose tubular hipercatabólica, encaminhar precocemente para terapia de substituição renal.
  7. Acidente elapídico — o soro, a ventilação e o teste da neostigmina

    Aqui a prioridade é a via aérea, e o antiveneno vem junto. Nos envenenamentos por neurotoxina de ação pós-sináptica, o anticolinesterásico reverte rapidamente o quadro neuroparalítico, e essa reversão serve para atravessar o intervalo até o suporte ventilatório ou até a chegada do soro. A atropina é administrada sempre antes da neostigmina, para antagonizar os efeitos muscarínicos da acetilcolina.

    Prescrição
    • Soro antielapídico bivalente por via intravenosa: 5 frascos-ampolas no caso moderado, 10 no grave. Caso leve não recebe soro e fica em observação de pelo menos 24 horas, recebendo soroterapia se evoluir com miastenia.
    • Garantir ventilação adequada: oxigênio, bolsa-válvula-máscara e, nos casos graves, intubação orotraqueal com ventilação mecânica.
    • Atropina antes do anticolinesterásico: 0,05 mg/kg por via intravenosa na criança; 0,5 mg por via intravenosa no adulto.
    • Teste da neostigmina: 0,05 mg/kg por via intravenosa na criança, ou uma ampola de 0,5 mg no adulto; a resposta é rápida, com melhora evidente do quadro neurotóxico nos primeiros 10 minutos.
    • Havendo resposta, manutenção com neostigmina 0,05 a 0,1 mg/kg por via intravenosa a cada 4 horas, ou em intervalos menores, sempre precedida de atropina.
    • Reavaliar força muscular, deglutição e padrão respiratório de hora em hora, e reclassificar a gravidade a cada reavaliação.
    • Dosar creatinoquinase quando houver manifestação miotóxica.
  8. Escorpionismo — a dor primeiro, e a criança que não espera

    No caso leve, que é a esmagadora maioria, o tratamento é analgesia e observação; e a analgesia bem feita é o que decide se aquele paciente vai ou não parecer moderado. A escala de dor é obrigatória e orienta o degrau. Nos casos moderado e grave, o soro é imediato e independe da idade. A dor local costuma melhorar rapidamente depois do antiveneno; a sintomatologia cardiovascular, não.

    Prescrição
    • Registrar a intensidade da dor em escala verbal numérica, escala de faces ou escala visual analógica, na admissão e a cada reavaliação.
    • Dor leve: dipirona por via oral. Dor moderada: dipirona por via intravenosa. No manual nacional, a dose de referência é de 10 mg/kg por dose a cada 6 horas.
    • Dor intensa: associar infiltração local de lidocaína a 2% sem vasoconstritor — 1 a 2 mL na criança e 3 a 4 mL no adulto —, repetível até três vezes, em intervalos de 40 a 60 minutos.
    • Recidiva da dor após as infiltrações: associar opioide fraco.
    • Compressa morna sobre a área afetada como medida auxiliar.
    • Caso moderado: soro antiescorpiônico 3 frascos-ampolas por via intravenosa, independentemente da idade. Caso grave: 6 frascos-ampolas, e não se ultrapassam 6.
    • Na falta do soro antiescorpiônico, ou na impossibilidade de diferenciar de foneutrismo, usar soro antiaracnídico nas mesmas quantidades, com infusão mais lenta, de 20 a 60 minutos.
    • Vômitos profusos que não cessam após a soroterapia: antiemético, preferencialmente metoclopramida; na criança e no adolescente, em que o uso da metoclopramida é restrito, outro antiemético disponível, com atenção à possibilidade de reação adversa cardiológica.
    • Manifestações neuromusculares das espécies amazônicas, como mioclonias: benzodiazepínico, com diazepam.
    • Não usar dexametasona para tratar a inflamação da picada: o protocolo de 2025 registra que o uso permanece sob investigação e não é recomendado.
    • Desidratação: cloreto de sódio a 0,9% de forma cautelosa, sobretudo na criança, evitando sobrecarga hídrica e evolução para choque cardiogênico.
    • Hipertensão arterial: em geral transitória e sem necessidade de tratamento medicamentoso; persistindo após o soro, considerar alfabloqueador, vasodilatador ou bloqueador de canal de cálcio.
    • Observação: 4 horas sem clínica de envenenamento; 6 a 12 horas no caso leve; no mínimo 24 horas em quem recebeu soro.
  9. Escorpionismo grave — quando o choque é cardiogênico

    Este é o ponto em que o reflexo de expandir volume machuca. O choque do escorpionismo grave é de disfunção miocárdica, e o edema agudo de pulmão é parte do quadro; encher de cristaloide um coração que está batendo mal piora o pulmão. A conduta é inotrópico, e a preferência do protocolo de 2025 é a dobutamina. A ressuscitação genérica do paciente grave está no capítulo dos primeiros cinco minutos; o que muda aqui é o alvo.

    Prescrição
    • Soro antiescorpiônico 6 frascos-ampolas por via intravenosa, o mais precocemente possível.
    • Eletrocardiograma na admissão, obrigatoriamente na criança; radiografia de tórax; troponina e fração MB da creatinoquinase; ecocardiograma quando disponível.
    • Edema agudo de pulmão ou insuficiência cardíaca congestiva: furosemida por via intravenosa e oxigenoterapia.
    • Choque com disfunção miocárdica: dobutamina em infusão contínua, 2,5 a 20 microgramas por quilo por minuto, titulada pela resposta; milrinona como alternativa quando disponível.
    • Choque misto, distributivo e cardiogênico: acrescentar noradrenalina, com cautela na criança.
    • Ventilação mecânica associada quando houver insuficiência respiratória ou choque refratário.
    • Internação em unidade de terapia intensiva com monitorização contínua; onde não houver, monitorização no melhor recurso disponível — a indisponibilidade de leito intensivo não pode atrasar o atendimento nem o soro.
  10. Foneutrismo — quase sempre é só dor, e a dor tem técnica

    Cerca de 91% dos acidentes por armadeira são leves e se resolvem com analgesia. O que muda desfecho é tratar a dor de verdade e observar a criança pequena, o pré-escolar e o idoso pelo menos por seis horas. A soroterapia é formalmente indicada nos casos com manifestações sistêmicas em crianças e em todos os casos graves.

    Prescrição
    • Infiltração anestésica local ou troncular com lidocaína a 2% sem vasoconstritor: 3 a 4 mL no adulto, 1 a 2 mL na criança; repetir, se a dor recorrer, em intervalos de 60 a 90 minutos.
    • Necessitando mais de duas infiltrações, e na ausência de sinais de depressão do sistema nervoso central: meperidina 50 a 100 mg por via intramuscular no adulto, ou 1 mg/kg por via intramuscular na criança.
    • Analgésico sistêmico do tipo dipirona como alternativa ou complemento; imersão do local em água morna ou compressa quente ajuda no controle da dor.
    • Evitar anti-histamínicos, principalmente a prometazina, em crianças e idosos: sonolência, agitação, alteração pupilar e taquicardia podem ser confundidas com envenenamento sistêmico.
    • Caso moderado: soro antiaracnídico 2 a 4 frascos-ampolas por via intravenosa. Caso grave: 5 a 10 frascos-ampolas, com internação em unidade de cuidados intensivos.
    • Lactente, pré-escolar e idoso: manter em observação por pelo menos seis horas mesmo no caso leve.
  11. Loxoscelismo — a janela do soro e a ferida que vem depois

    O loxoscelismo é o acidente que mais chega tarde, porque a picada não dói na hora e a lesão só se organiza dias depois. Isso importa porque a eficácia da soroterapia é reduzida após 36 horas da inoculação, segundo dados experimentais registrados no manual nacional. Quando o paciente chega com necrose já delimitada, o tratamento deixa de ser antiveneno e passa a ser cuidado de ferida — mas a busca por hemólise continua obrigatória, porque é ela que mata.

    Prescrição
    • Caso moderado: soro antiloxoscélico trivalente 5 frascos-ampolas por via intravenosa; na falta, soro antiaracnídico.
    • Caso grave, com hemólise: 10 frascos-ampolas.
    • Prednisona associada: 40 mg por dia no adulto e 1 mg/kg por dia na criança, durante cinco dias.
    • Analgesia com dipirona, 7 a 10 mg/kg por dose; compressas frias auxiliam no alívio da dor local.
    • Cuidado da ferida: lavar a úlcera cinco a seis vezes ao dia com sabão neutro; compressas de permanganato de potássio a 1:40.000 — um comprimido dissolvido em quatro litros de água — ou água boricada a 10%, aplicadas por cinco a dez minutos, duas vezes ao dia.
    • Remover a escara somente após a área de necrose estar delimitada, o que em geral ocorre cerca de uma semana após o acidente.
    • Antibiótico sistêmico com cobertura para patógenos de pele apenas se houver infecção secundária.
    • Hemólise com anemia intensa: transfusão de concentrado de hemácias; injúria renal aguda manejada conforme o capítulo próprio.
    • Caso leve: acompanhamento por pelo menos 72 horas, com reclassificação se a lesão mudar de característica ou surgir manifestação sistêmica.
  12. Latrodectismo — sintomático, e a dor que imita abdome agudo

    No Brasil o latrodectismo é raro, concentrado no Nordeste, e não há registro de óbito. O tratamento é sintomático e de suporte, e o soro antilatrodético é importado e de disponibilidade restrita. O erro que se comete aqui é cirúrgico: a rigidez abdominal com dor intensa já levou paciente a laparotomia branca.

    Prescrição
    • Antissepsia local; gelo no início e compressa de água morna depois.
    • Diazepam por via intravenosa: 5 a 10 mg no adulto e 1 a 2 mg por dose na criança, a cada 4 horas se necessário.
    • Gluconato de cálcio a 10% por via intravenosa lenta: 10 a 20 mL no adulto e 1 mg/kg na criança, a cada 4 horas se necessário.
    • Clorpromazina: 25 a 50 mg no adulto e 0,55 mg/kg por dose na criança, a cada 8 horas se necessário — o Guia de Vigilância em Saúde de 2024 registra a via intravenosa e o manual de 2001 registra a via intramuscular para esta droga.
    • Analgésicos conforme necessário; garantir suporte cardiorrespiratório.
    • Observação mínima de 24 horas, com o paciente hospitalizado.
    • Soro antilatrodético, quando disponível e no caso grave: 1 a 2 frascos-ampolas por via intramuscular, esquema do manual de 2001. Decidir com o centro toxicológico da região.
  13. Quando o soro reage — durante a infusão e nas duas horas seguintes

    A maior parte das reações precoces é leve: prurido, urticária, rubor facial, exantema, tosse, náusea, cólica abdominal. A conduta é interromper temporariamente, tratar e retomar. A reação grave — choque anafilático e obstrução respiratória — é rara e tem droga de escolha: adrenalina. Corticoide e anti-histamínico exercem papel secundário e são usados associados à adrenalina, nunca em substituição a ela. O manejo completo da anafilaxia está no capítulo próprio; a dose abaixo é a que se administra sem sair do leito.

    Prescrição
    • Interromper temporariamente a infusão do soro assim que a reação for detectada.
    • Reação anafilática: adrenalina aquosa 1:1000 por via intramuscular, 0,01 mL/kg, com 0,3 a 0,5 mL no adulto, repetível a cada 5 a 10 minutos conforme a necessidade.
    • Hipotensão: expansão volêmica com soro fisiológico ou Ringer lactato, iniciando rapidamente 20 mL/kg.
    • Broncoespasmo: broncodilatador beta-2 agonista inalatório; a aminofilina por via parenteral consta do manual de 2001 na dose de 3 a 5 mg/kg por dose, a cada seis horas, infundida em 5 a 15 minutos.
    • Edema de glote: intubação orotraqueal; não sendo possível, via aérea cirúrgica de emergência.
    • Coadjuvantes, associados e nunca em substituição à adrenalina: hidrocortisona 10 mg/kg por via intravenosa (o manual de 2001 registra 30 mg/kg no tratamento do choque, com máximo de 1.000 a 2.000 mg) e anti-histamínico H1, com prometazina 0,5 mg/kg por via intravenosa ou intramuscular, máximo de 25 mg.
    • Retomar a soroterapia assim que o quadro remitir, inclusive após evento grave, diluindo mais e infundindo mais lentamente.
    • Recorrência de reação pirogênica: descartar a solução preparada e preparar uma nova para continuar o tratamento.
    • Notificar evento adverso grave ou inusitado imediatamente ao nível hierárquico superior, dentro das primeiras 24 horas, por telefone ou e-mail ao coordenador municipal do Programa Nacional de Imunizações.
  14. Hora 24 — reclassificar, e complementar em vez de recomeçar

    Envenenamento é doença que se move. O paciente que chegou leve pode estar moderado seis horas depois, e a conduta certa não é repetir a dose inteira nem ignorar a mudança: é complementar até o número da nova gravidade. Foi por isso que a classificação foi escrita no prontuário com a hora.

    Prescrição
    • Reclassificar a gravidade a cada reavaliação, com exame físico completo.
    • Piora das manifestações sistêmicas após a soroterapia: reclassificar e complementar a quantidade de frascos-ampolas conforme a nova gravidade.
    • Acidente botrópico com tempo de coagulação ainda alterado 24 horas após o término da soroterapia: administrar 2 frascos-ampolas adicionais.
    • Repetir ureia, creatinina e urina tipo I; no acidente crotálico, também creatinoquinase.
    • Reavaliar o membro: circunferência, perfusão, sinais flogísticos, aparecimento de bolhas, sinais de infecção secundária e de síndrome compartimental.
    • No escorpionismo, manter observação por 24 horas após o soro; persistindo as manifestações, reclassificar e ajustar o tratamento.
  15. Antes da alta — o que o paciente leva escrito

    Duas coisas acontecem depois da alta e ninguém avisa: a infecção secundária da ferida, que aparece em dias, e a doença do soro, que aparece entre o quinto e o vigésimo quarto dia com febre, urticária, dor articular e ínguas. Paciente que não foi avisado interpreta os dois como recaída do envenenamento ou como reação a outra coisa — e não volta.

    Prescrição
    • Conferir e completar a profilaxia antitetânica conforme o tipo de ferimento e a situação vacinal.
    • Orientar retorno imediato por dor que aumenta, vermelhidão que se espalha, secreção purulenta, febre ou piora da função do membro.
    • Avisar sobre a doença do soro, entre o quinto e o vigésimo quarto dia, com febre, urticária, dor articular, aumento de gânglios e, raramente, comprometimento renal; tratamento conforme a intensidade, com prednisona 1 mg/kg por dia, máximo de 60 mg, por cinco a sete dias.
    • Marcar retorno para reavaliação da lesão e dos exames de função renal quando houve coagulopatia, rabdomiólise ou hemólise.
    • Fechar a notificação no Sinan, com a ficha de investigação preenchida em todos os campos, inclusive tipo e quantidade de antiveneno administrado e evolução.
    • Orientação de prevenção domiciliar e ocupacional, que é o outro lado deste capítulo e está detalhada em Acidentes na infância: prevenção, afogamento, queimadura e intoxicação exógena, na apostila de Emergências Pediátricas, quando se trata de criança.
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Como saber se está funcionando

Envenenamento tem duas curvas independentes: a do veneno, que o soro derruba, e a do dano já feito, que segue por conta própria. Por isso a reavaliação não pergunta apenas se o paciente melhorou — pergunta se o veneno foi neutralizado e se as complicações apareceram. Cada síndrome tem um parâmetro que responde a primeira pergunta e um que responde a segunda.

E reavaliar é reclassificar. Piorou depois do soro significa que a gravidade era outra ou passou a ser outra, e a resposta é complementar a quantidade de frascos-ampolas até o número da nova gravidade — não repetir a dose inteira, não esperar mais uma hora para ver.

Tempo de coagulação (botrópico, laquético e crotálico)Na admissão e 24 horas após o término da soroterapia

Esperado: Normalização, com valor até 9 minutos

Se não melhora: Tempo de coagulação ainda alterado 24 horas após o término da soroterapia no acidente botrópico indica 2 frascos-ampolas adicionais. Antes disso, não use o tempo de coagulação para decidir dose — ele não classifica gravidade, e um resultado incoagulável num paciente com edema de um segmento não transforma um caso leve em grave.

Extensão do edema e circunferência do membroA cada reavaliação, medindo em ponto fixo marcado com caneta e com a hora anotada

Esperado: Estabilização da borda do edema após a soroterapia, com regressão lenta ao longo de dias

Se não melhora: Progressão para um novo segmento é reclassificação de gravidade e complementação da dose. Progressão rápida com endurecimento de todo o membro, dor intensa e persistente e alteração de perfusão levanta síndrome compartimental — e essa decisão é cirúrgica, avaliada por equipe multiprofissional, não uma terceira dose de soro.

Diurese e cor da urinaHorária durante a expansão e depois a cada turno; no acidente crotálico, com inspeção visual da urina

Esperado: Fluxo urinário de 30 a 40 mL por hora no adulto e de 1 a 2 mL/kg/hora na criança, com clareamento progressivo da urina no acidente crotálico

Se não melhora: Persistência de oligúria após correção da volemia exige reavaliar perfusão, balanço, função renal, eletrólitos e obstrução, com CIATox/nefrologia. Não iniciar furosemida ou manitol automaticamente para forçar diurese. Diurético pode ser indicado na sobrecarga; terapia de substituição renal depende das complicações e não deve ser atrasada por tentativas repetidas de produzir urina. Urina escura requer distinguir mioglobinúria, hemoglobinúria e hematúria e acompanhar sua evolução.

Ureia e creatininaNa admissão e repetidas no acompanhamento, sobretudo nos acidentes crotálico, botrópico e laquético e no loxoscelismo com hemólise

Esperado: Estabilidade dos valores de admissão

Se não melhora: Elevação progressiva com oligúria caracteriza a complicação que mais mata no acidente crotálico. Antes de escalar diurético, cheque perfusão, pressão e volume administrado. Quando houver necrose tubular hipercatabólica, o encaminhamento para terapia de substituição renal é precoce, e não se espera um valor mágico de creatinina para acioná-lo.

Creatinoquinase total (acidente crotálico)Na admissão e seriada nas primeiras 48 horas

Esperado: Pico precoce, dentro das primeiras 24 horas, seguido de queda

Se não melhora: Creatinoquinase que continua subindo depois de 24 horas indica miólise em curso e obriga a revisar hidratação, alcalinização urinária e a própria classificação de gravidade. A desidrogenase láctica sobe mais devagar e ajuda quando o paciente chega tarde, com a creatinoquinase já em queda.

Força muscular, deglutição e padrão respiratório (elapídico e crotálico)De hora em hora nas primeiras 24 horas

Esperado: Estabilização e depois melhora progressiva da ptose, da força e da deglutição

Se não melhora: Progressão da fraqueza com disfagia, sialorreia e respiração superficial é indicação de via aérea definitiva, e vem antes de qualquer outra decisão. No acidente elapídico, o teste da neostigmina, precedido de atropina, pode reverter rapidamente o quadro e comprar tempo até o suporte ventilatório ou até a chegada do soro. Piora após a soroterapia é reclassificação e complementação de dose.

Sinais vitais, eletrocardiograma e marcadores de dano miocárdico (escorpionismo e foneutrismo)Eletrocardiograma na admissão, obrigatoriamente na criança; sinais vitais continuamente nas primeiras horas; troponina e fração MB da creatinoquinase conforme evolução

Esperado: Normalização da frequência cardíaca e da pressão, com desaparecimento das manifestações sistêmicas em horas

Se não melhora: Sinais de disfunção miocárdica e edema pulmonar podem não regredir com o soro — o próprio protocolo de 2025 registra isso. A conduta é inotrópico, com dobutamina de preferência, oxigenoterapia e furosemida no edema agudo, e não mais soro nem mais volume. Alterações eletrocardiográficas costumam desaparecer em cerca de três dias, mas podem persistir por sete ou mais.

Ausculta pulmonar e saturação de oxigênio durante e após a infusãoAo fim de cada frasco na criança e ao término da infusão em todos

Esperado: Murmúrio vesicular preservado, sem crepitação nova, saturação estável

Se não melhora: Crepitação nova ou queda de saturação em quem acabou de receber um volume grande de soro diluído é congestão até prova em contrário — e o volume infundido numa criança pequena chega a dezenas de mililitros por quilo, como mostra a tabela de mL por quilo. Reduza a diluição, reavalie o balanço hídrico do dia e considere diurético, sem interromper a dose de anticorpo, que é o que trata o envenenamento.

Escala de dor (escorpionismo e foneutrismo)Na admissão e a cada reavaliação, com escala verbal numérica, de faces ou visual analógica

Esperado: Queda da pontuação após analgesia e, no escorpionismo, melhora rápida da dor após o soro

Se não melhora: Dor que não cede à dipirona é indicação de infiltração de lidocaína a 2% sem vasoconstritor, repetível até três vezes em intervalos de 40 a 60 minutos, e depois de opioide fraco. Dor mal controlada produz taquicardia, agitação e vômito, e faz um caso leve parecer moderado — tratar a dor antes de classificar evita soro desnecessário. O contrário também vale: manifestação sistêmica que persiste depois da dor controlada é manifestação de verdade.

Lesão cutânea e sinais de hemólise (loxoscelismo)Diariamente por pelo menos 72 horas, e depois nas trocas de curativo

Esperado: Delimitação da área de necrose em cerca de uma semana, sem anemia nem icterícia

Se não melhora: Anemia aguda, icterícia, hemoglobinúria, plaquetopenia ou coagulograma alterado transformam um caso moderado em grave e dobram a dose de soro, de 5 para 10 frascos-ampolas. Lesão que muda de característica ou surgimento de manifestação sistêmica em paciente classificado como leve obriga a reclassificar. A remoção da escara espera a delimitação; desbridar cedo aumenta a perda tecidual.

Reação ao antivenenoDurante toda a infusão e nas duas horas seguintes; depois, entre o quinto e o vigésimo quarto dia

Esperado: Ausência de prurido, urticária, rubor, tosse, náusea, cólica, taquicardia ou hipotensão

Se não melhora: Reação precoce: interromper a infusão, tratar, e retomar assim que remitir — inclusive depois de evento grave, diluindo mais e correndo mais devagar. Reação pirogênica recorrente: descartar a solução e preparar outra. Reação tardia, com febre, urticária, artralgia e adenomegalia: é doença do soro, e trata-se conforme a intensidade, com prednisona 1 mg/kg por dia, máximo de 60 mg, por cinco a sete dias. Evento adverso grave ou inusitado é notificado nas primeiras 24 horas ao nível hierárquico superior.

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Onde o erro machuca

Manter, ou aceitar, o torniquete que a família colocou

O dano: O garrote concentra a peçonha proteolítica e a isquemia no segmento distal. O manual nacional lista o uso indevido de torniquete entre as causas de necrose no acidente botrópico, e o Guia de Vigilância em Saúde adverte que amarrar o membro pode ocasionar necrose e síndrome compartimental, podendo levar à amputação. O dano não é do veneno, é do primeiro socorro.

Como pegar a tempo: Retire assim que o paciente chegar, com acesso venoso já garantido em outro membro. Retire também anéis, pulseiras e roupa apertada, porque o edema vai progredir. E explique à família em voz alta, sem culpa: o que segura o veneno é o soro, e amarrar prende o veneno no lugar onde ele destrói tecido.

Esperar identificar o animal para indicar o soro

O dano: É a demora mais comum e a mais evitável. A definição nacional confirma o envenenamento pelas evidências clínicas independentemente de o animal ter sido identificado, e a soroterapia é tempo-dependente — o boletim nacional aponta o maior tempo entre acidente e atendimento como o fator por trás da mortalidade dos municípios remotos.

Como pegar a tempo: Trate a síndrome, pela correspondência descrita no bloco sobre como se apresenta: membro que incha e sangra, fácies miastênica com urina escura, paralisia ascendente sem mialgia, dor desproporcional com descarga autonômica, lesão necrótica de instalação lenta. Para cada uma há um soro, e para as duplas ambíguas há um soro combinado.

Reduzir o número de ampolas porque o paciente é criança

O dano: É o erro que mais custa neste capítulo, e ele é intuitivo: quem prescreve em miligramas por quilo a vida inteira acha absurdo dar doze frascos-ampolas a uma criança de 16 quilos. Mas o soro não trata o paciente, neutraliza o veneno — e o escorpião que picou a criança injetou a mesma quantidade que injetaria no pai. Metade da dose é metade da neutralização, com veneno remanescente livre para produzir edema pulmonar e choque num corpo que tolera menos.

Como pegar a tempo: Diga em voz alta, ao prescrever: a dose é da gravidade, não do peso. Os dois protocolos nacionais escrevem a regra explicitamente — o de acidentes ofídicos diz que a dose deve ser a mesma para adultos e crianças independentemente do peso ou da idade, e o do escorpionismo manda usar três frascos-ampolas no caso moderado e seis no grave independentemente da faixa etária. O que se ajusta na criança é a diluição, o volume e a vigilância pulmonar, nunca o número de ampolas.

Guardar as ampolas que existem porque não dá para completar a dose

O dano: O raciocínio parece prudente e é o contrário disso: o paciente fica sem nenhuma neutralização enquanto o soro dorme na geladeira. O manual nacional é explícito ao dizer que, se o número disponível de ampolas for inferior ao recomendado, a soroterapia deve ser iniciada enquanto se providencia o tratamento complementar.

Como pegar a tempo: Comece com o que existe e acione em paralelo o ponto estratégico de soro antiveneno mais próximo, a vigilância municipal e o centro toxicológico da região. Tenha a lista dos pontos do seu estado impressa na parede da emergência, com endereço e telefone, porque ela não serve de nada se depender de internet de madrugada.

Classificar a gravidade pelo tempo de coagulação

O dano: Sangue incoagulável assusta e faz o interno subir a dose de um caso leve, ou internar quem poderia ser observado, enquanto ignora o paciente cujo edema já tomou dois segmentos e cujo tempo de coagulação está normal. O protocolo de 2026 diz com todas as letras que o tempo de coagulação não deve ser utilizado como base para orientar o tratamento.

Como pegar a tempo: Classifique pelo que a síndrome manda: segmentos no botrópico, manifestações vagais no laquético, quadro neuroparalítico com mialgia e urina no crotálico, força e deglutição no elapídico, manifestações sistêmicas no escorpionismo. O tempo de coagulação entra depois, para acompanhar — e a única dose que ele decide é a complementação de dois frascos-ampolas quando permanece alterado 24 horas após o término da soroterapia no acidente botrópico.

Fazer teste de sensibilidade, ou pré-medicar de rotina, antes do soro

O dano: Os dois atrasam o tratamento e nenhum protege. O teste cutâneo tem baixo valor preditivo e pode, por si, desencadear reação. Quanto à pré-medicação, a síntese de evidências do protocolo de 2026 não encontrou benefício na prevenção de reação anafilática em acidentes botrópicos, e um ensaio clínico controlado citado no manual nacional já havia mostrado que prometazina intramuscular 15 minutos antes não reduziu a frequência de reações precoces.

Como pegar a tempo: Não teste e não pré-medique de rotina. Em vez disso, prepare a bandeja de anafilaxia, dilua o soro, corra devagar e fique ao lado do leito. Segurança aqui é vigilância mais adrenalina disponível, não profilaxia farmacológica.

Dar alta ao caso leve sem cumprir o tempo de observação

O dano: A inoculação de pequena quantidade de peçonha pode determinar aparecimento tardio dos sintomas — é por isso que existe a regra de observação mínima de seis horas em todo acidente ofídico cujas manifestações não sejam evidentes na admissão. No escorpionismo o quadro é dinâmico e pode evoluir em poucas horas, sobretudo em criança de menos de sete anos, e por isso o caso leve fica de seis a doze horas. O paciente liberado cedo volta pior, ou não volta.

Como pegar a tempo: Escreva a hora da alta prevista no prontuário no momento da admissão e reavalie no intervalo. E quando a distância for o problema — paciente que mora a duas horas, sem transporte à noite —, o tempo de observação é o argumento para segurar, não para liberar mais cedo.

Expandir volume no escorpionismo grave como se fosse choque hipovolêmico

O dano: O choque do escorpionismo grave é cardiogênico, com disfunção miocárdica e edema agudo de pulmão como parte do quadro. Cristaloide em bolus nesse cenário piora o pulmão. O protocolo de 2025 orienta cautela com o soro fisiológico, sobretudo em criança, justamente para evitar sobrecarga hídrica e evolução para choque cardiogênico.

Como pegar a tempo: Antes de expandir, olhe três coisas: ausculta pulmonar, radiografia de tórax e eletrocardiograma. Havendo disfunção miocárdica, o caminho é inotrópico — dobutamina de preferência —, oxigenoterapia e furosemida no edema agudo. A ressuscitação genérica do paciente grave está no capítulo dos primeiros cinco minutos; o que muda aqui é o mecanismo do choque.

Transfundir hemocomponente antes de administrar o antiveneno

O dano: No acidente botrópico o veneno consome fator de coagulação continuamente; repor plasma, crioprecipitado ou plaqueta antes de neutralizar o veneno é encher um recipiente furado, com exposição a hemoderivado e sem hemostasia sustentada. Pior: dá a impressão de que algo está sendo feito enquanto a única medida que interrompe o consumo continua na geladeira.

Como pegar a tempo: Soro primeiro, sempre. A reposição volêmica e de hemocomponentes segue a régua do capítulo de choque hemorrágico e entra depois, ou em paralelo no paciente instável — nunca em vez do antiveneno. E plaquetopenia isolada, sem sangramento, não indica transfusão.

Não reclassificar, e por isso não complementar a dose

O dano: O paciente que chegou com edema de um segmento e recebeu três frascos-ampolas pode estar com dois segmentos seis horas depois. Sem reclassificação ele fica subdosado, com veneno livre continuando a agir. É a versão silenciosa do erro de dose: a prescrição estava certa às oito da noite e está errada às duas da manhã.

Como pegar a tempo: Escreva no prontuário a classificação com a hora, e a hora da próxima reavaliação. Diante de piora, complemente a quantidade de frascos-ampolas até o número da nova gravidade — essa é a conduta recomendada pelos especialistas no protocolo de 2026 —, em vez de repetir a dose inteira ou esperar mais uma hora.

Não notificar, e não avisar sobre a doença do soro

O dano: Acidente por animal peçonhento é agravo de notificação compulsória desde 2010, independentemente de o paciente ter recebido soro, e é a notificação que orienta produção, planejamento, aquisição e distribuição de antivenenos — município que não notifica é município que não recebe soro na próxima remessa. Do lado do paciente, quem sai sem saber da doença do soro interpreta a febre e a urticária do décimo dia como outra coisa e não retorna.

Como pegar a tempo: Preencha a ficha de investigação do Sinan em todos os campos, inclusive tipo e quantidade de antiveneno administrado, e feche o caso com a evolução. E, na alta, diga a data: entre o quinto e o vigésimo quarto dia pode aparecer febre, coceira, dor nas juntas e ínguas, e isso tem tratamento.

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O que dizer ao paciente e à família

Três conversas aparecem em todo atendimento por peçonhento, e todas são contra a intuição da família: por que a criança recebe a mesma dose do adulto, por que o remédio que vai salvar pode causar reação, e por que não é preciso saber qual foi o bicho. Ganhar as três é o que faz o tratamento acontecer no tempo certo.

O pai que acha exagero a criança receber a mesma dose do adulto

“Eu entendo o susto, e a conta aqui é diferente da conta dos remédios que o senhor conhece. Esse soro não é um remédio que o corpo dela absorve pelo peso: ele é feito para grudar no veneno e desmanchar o veneno. O escorpião que picou a sua filha soltou a mesma quantidade de veneno que soltaria no senhor — o bicho não sabe o tamanho de quem picou. Então a quantidade de soro tem que dar conta daquele tanto de veneno, e não do tamanho dela. Se eu der metade, sobra veneno solto, e é o veneno solto que faz mal ao coração e ao pulmão. O que eu ajusto por causa do peso dela é a quantidade de líquido em que eu dilúo o soro, e é por isso que eu vou escutar o pulmão dela no fim.”

Não diga: “É protocolo.” Fecha a conversa e não convence ninguém — e o pai que não entendeu é o pai que interrompe a infusão no meio ou assina alta a pedido.

Pedir consentimento sabendo que o soro pode dar reação

“Vou explicar o que eu vou fazer e o que pode acontecer. Esse soro é feito a partir do sangue de cavalos que produzem defesa contra o veneno, e por isso, em algumas pessoas, o corpo reage a ele: dá coceira, vermelhidão, tosse, às vezes falta de ar. Isso é mais comum durante a aplicação e nas duas horas seguintes, e é por isso que eu vou ficar aqui do lado, com a adrenalina preparada e o material de respiração aberto. Se der reação, eu paro, trato, e depois continuo o soro — porque o veneno é o problema maior. Não existe teste de pele que preveja isso; ele não funciona e só atrasa. O senhor tem alguma alergia conhecida, já tomou soro alguma vez?”

Não diga: Prometer que não vai acontecer nada, e também descrever a anafilaxia em detalhes assustadores para se proteger. A primeira quebra a confiança se algo acontecer; a segunda faz o paciente recusar o único tratamento que existe.

A família que quer voltar em casa para procurar a cobra

“Não precisa. Eu já sei o suficiente para tratar: pelo que está acontecendo no pé e no sangue dele, é um envenenamento do tipo que a jararaca causa, e o soro que eu tenho aqui cobre esse tipo. Se alguém encontrar o animal depois, sem risco nenhum, ajuda a vigilância a saber o que tem na região. Mas ninguém vai voltar lá no escuro para procurar, e ninguém vai levar o bicho vivo. O que decide o tratamento dele é o que eu estou vendo agora, e isso eu já vi.”

Não diga: “Sem a cobra fica difícil.” É falso, e produz exatamente a demora que mata — além de mandar um familiar de volta para o lugar onde alguém acabou de ser picado.

Explicar por que vai transferir, sem dar a impressão de abandono

“Eu já comecei o tratamento aqui: ele recebeu o soro que a gente tem e está com soro na veia. O que falta é o tipo específico de soro para esse envenenamento, que fica no hospital de referência, e a gente já acionou. Ele vai daqui com a medicação feita, com o acesso pronto, com um papel dizendo exatamente quantos frascos ele recebeu e a que horas, e o hospital de lá já está sabendo. Transferir não é desistir dele; é levar ele até onde está o que falta.”

Não diga: “Aqui não tem o que fazer.” Além de falso — há muito o que fazer, e boa parte já foi feita —, é a frase que faz a família tentar por conta própria uma corrida de carro para a capital, sem acesso venoso e sem monitorização.

Orientar a alta de quem recebeu soro

“Duas coisas podem aparecer depois que o senhor sair, e as duas têm solução se o senhor voltar. A primeira é infecção na ferida: se a dor aumentar, a vermelhidão espalhar, sair pus ou der febre, é para voltar. A segunda é uma reação atrasada ao soro, que aparece entre uma e três semanas depois: febre, coceira pelo corpo, dor nas juntas e ínguas. Isso não é o veneno voltando e não é culpa de nada que o senhor fez — é o corpo respondendo ao soro, e tem remédio. Está escrito aqui no papel, com a data em que o senhor tomou.”

Não diga: Entregar a alta sem falar da doença do soro. O paciente que sente febre no décimo dia sem ter sido avisado procura outro serviço, é tratado como infecção e recebe antibiótico que não precisava.

A mãe da criança picada que pergunta se vai ficar sequela

“A resposta honesta é que depende do que a gente conseguir evitar nas próximas horas, e é isso que estamos fazendo. Na maior parte dos casos, quando o soro entra cedo, a pessoa fica bem e sem sequela. O que pode deixar marca é a ferida no local, quando ela infecciona ou perde pele, e é por isso que eu não vou cortar, não vou espremer e não vou amarrar nada. Eu vou medir a perna dela de hora em hora e anotar. Se alguma coisa mudar, eu mudo o tratamento na hora, e eu venho te contar o que encontrei.”

Não diga: “Vai ficar tudo bem” e o oposto, listar amputação e insuficiência renal. Prometer o desfecho tira a credibilidade se algo aparecer; listar catástrofes faz a família decidir por medo, e às vezes decidir sair.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quantas ampolas no acidente botrópico: número fixo ou intervalo?

Número fixo, com gravidade contada em segmentos: 3, 6 e 12

O protocolo clínico e diretrizes terapêuticas dos acidentes ofídicos fixa três frascos-ampolas no caso leve, seis no moderado e doze no grave, e redefine a gravidade por um critério contável: dor e edema em até um segmento do membro é leve, em dois é moderado, em três é grave. O documento registra que a revisão de escopo conduzida para mapear as doses não encontrou consenso claro na literatura e identificou variações metodológicas importantes, e que por isso foram mantidas as orientações de uso racional do Ministério da Saúde. A vantagem prática é eliminar a hesitação: dois profissionais que contam os mesmos segmentos prescrevem o mesmo número.

Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas dos acidentes ofídicos, 1ª ed., 2026 — classificação clínica quanto à gravidade e quadro de tratamento específico do acidente botrópico.

Intervalo, com gravidade descrita por intensidade: 2 a 4, 4 a 8 e 12

O Guia de Vigilância em Saúde de 2024, o manual nacional de 2001 e as bulas profissionais dos soros mantêm intervalos: de duas a quatro ampolas no caso leve, de quatro a oito no moderado e doze no grave, com a gravidade descrita por adjetivos — manifestações locais ausentes ou discretas, evidentes, ou intensas. O intervalo permite ao médico graduar dentro da faixa conforme o tempo decorrido, a extensão real do quadro e o porte do animal. Esses documentos seguem publicados e vigentes, e são o que está impresso na caixa do soro que chega à unidade.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed. rev., v. 3, 2024 — quadro de número de ampolas por tipo e gravidade; FUNASA, Manual de diagnóstico e tratamento de acidentes por animais peçonhentos, 2ª ed., 2001 — Quadro I; Fundação Ezequiel Dias, bula do profissional de saúde do soro antibotrópico (pentavalente).

Como decidir

Decida pelo documento mais recente e mais específico, que é o protocolo clínico: ele é posterior, foi escrito para orientar a decisão terapêutica e fixa números que não dependem de julgamento subjetivo. Na prática, a diferença é pequena e assimétrica — três ampolas está dentro da faixa de 2 a 4, seis está dentro da faixa de 4 a 8, e o caso grave recebe doze nos dois esquemas. O que muda de verdade é a classificação: contar segmentos é reprodutível, e “edema evidente” não é. Se o serviço já opera com a régua antiga e a mudança gerar conflito com a enfermagem ou com a farmácia hospitalar, escolha o número mais alto dentro da faixa antiga, que coincide com o do protocolo novo, e leve a padronização para discussão fora do plantão. E registre no prontuário quantos segmentos você contou — é isso que sustenta a dose diante de qualquer auditoria.

Acidente elapídico: soro para todos, ou classificação com caso leve sem soro?

Dez ampolas em todo caso, porque todo acidente por coral é potencialmente grave

O manual nacional de 2001 e o Guia de Vigilância em Saúde de 2024 tratam o acidente elapídico como categoria única: considerar todos os casos como potencialmente graves pelo risco de insuficiência respiratória, com dez ampolas de soro antielapídico por via intravenosa. O argumento é o mecanismo — as neurotoxinas elapídicas são de baixo peso molecular, difundem-se rapidamente, e a paralisia respiratória pode se instalar depois de um intervalo assintomático. Em serviço sem suporte ventilatório, errar para menos custa a vida.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed. rev., v. 3, 2024 — quadro de antivenenos, linha do acidente elapídico; FUNASA, Manual de 2001 — Quadro IV.

Classificar em leve, moderado e grave, e reservar o soro para os dois últimos

O protocolo de 2026 incorpora uma classificação sugerida pelo Ministério da Saúde: leve é o quadro apenas com manifestações locais, parestesia e dor com ou sem irradiação, e não recebe soro — recebe observação clínica de pelo menos 24 horas, com soroterapia caso evolua com miastenia; moderado, com ptose palpebral e redução objetiva de força sem paralisia, recebe cinco ampolas; grave, com fraqueza intensa, disfagia, salivação e respiração superficial, recebe dez. O protocolo acrescenta que, nos casos leves e moderados, especialistas aconselham acompanhamento clínico ainda mais rigoroso que o habitual, para reclassificação diante de piora. O argumento é de uso racional de um soro escasso e de exposição desnecessária de metade dos pacientes a proteína heteróloga.

Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas dos acidentes ofídicos, 1ª ed., 2026 — classificação clínica e quadro de tratamento específico do acidente elapídico.

Como decidir

Decida pela sua capacidade de vigiar, e não pela sua preferência conceitual. A classificação nova só é segura onde alguém consegue reavaliar força muscular, deglutição e padrão respiratório de hora em hora durante 24 horas, e onde há como ventilar se o quadro virar. Num hospital com plantonista presente, monitorização e material de via aérea, seguir o protocolo novo é adequado e poupa soro. Num serviço sem plantonista à noite, ou quando o paciente vai ser transportado por duas horas de estrada, a margem some — e aí a conduta prudente é conversar com o centro toxicológico antes de deixar um acidente elapídico sem soro, e considerar tratar como moderado. Escreva no prontuário a força medida, e não a impressão: “levanta as pálpebras completamente, engole água sem engasgo, senta sem apoio” vale mais do que “sem sinais de gravidade”.

Pré-medicar com anti-histamínico e corticoide antes do soro?

Não pré-medicar

O protocolo dos acidentes ofídicos afirma que o uso de pré-soroterapia com anti-histamínicos ou corticoides ainda é questionável na prática clínica, que a síntese de evidências conduzida com essa finalidade demonstrou ausência de benefício na prevenção de reações anafiláticas em acidentes botrópicos, que os dados para acidentes laquéticos e crotálicos foram limitados e que para elapídicos inexistem evidências — e conclui que o protocolo não preconiza pré-soroterapia. O protocolo do escorpionismo, na mesma linha, registra que o uso profilático de corticosteroides e anti-histamínicos não é recomendado.

Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas dos acidentes ofídicos, 1ª ed., 2026; e Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas dos acidentes escorpiônicos, aprovado pela Portaria SECTICS/MS nº 59, de 1º de agosto de 2025.

Pré-medicar o paciente com antecedente alérgico ou uso prévio de soro heterólogo

As bulas profissionais dos soros orientam solicitar informação sobre uso anterior de soro de origem equina e sobre problemas alérgicos e, diante de resposta positiva, administrar anti-histamínicos e corticosteroides na dose recomendada 15 minutos antes da aplicação do soro. O manual nacional de 2001 descreve uma rotina opcional de pré-medicação com antagonista H1 e H2 e hidrocortisona, e ao mesmo tempo registra o ensaio clínico controlado que mostrou que a prometazina intramuscular 15 minutos antes não reduziu a frequência de reações precoces à soroterapia antibotrópica.

Fundação Ezequiel Dias, bula do profissional de saúde do soro antibotrópico (pentavalente) — prevenção das reações precoces; FUNASA, Manual de 2001 — capítulo de soroterapia, prevenção das reações precoces.

Como decidir

Decida pelo que reduz risco de verdade, que é preparo e velocidade, não profilaxia. Não pré-medique de rotina: nenhum estudo sustenta benefício, e a pré-medicação consome minutos exatamente onde o tempo é o determinante prognóstico. Invista esses minutos no que tem efeito comprovado — diluir o soro, correr entre 8 e 12 mL por minuto, deixar adrenalina preparada, monitorizar e ficar ao lado do leito durante a infusão e nas duas horas seguintes. Se o serviço tem norma interna de pré-medicação e o paciente tem antecedente de reação a soro equino, não transforme isso em conflito à beira do leito: a pré-medicação não contraindica nem substitui nada, e o que não se pode aceitar é atrasar a primeira ampola por causa dela.

Criança pequena e idoso picados por escorpião: classificam-se automaticamente como moderado ou grave?

Sim — idade é classificação

A bula profissional do soro antiescorpiônico traz, em destaque, a orientação de que acidentes com crianças abaixo de dez anos e pessoas idosas são sempre considerados moderados ou graves. A justificativa é epidemiológica e mecanicista: a mesma quantidade de veneno num corpo menor, a evolução rápida e a letalidade quatro vezes maior em crianças de até dez anos comparadas a adultos. Na prática, essa leitura indica soro para toda criança pequena picada por Tityus.

Fundação Ezequiel Dias, bula do profissional de saúde do soro antiescorpiônico — posologia e modo de usar.

Não — idade é vigilância, e a classificação continua clínica

O protocolo dos acidentes escorpiônicos classifica pela manifestação clínica e reserva o soro aos casos moderados e graves, tratando a idade como determinante de gravidade e de tempo de observação: crianças de até dez anos, sobretudo menores de sete, são mais vulneráveis, o quadro é dinâmico e pode evoluir em poucas horas, e por isso o caso leve fica de seis a doze horas em observação. O documento também registra que o soro não é isento de risco e que o uso racional deve ser priorizado, considerando a gravidade e os riscos associados ao tratamento.

Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas dos acidentes escorpiônicos, aprovado pela Portaria SECTICS/MS nº 59, de 1º de agosto de 2025 — classificação, determinantes de gravidade, tempo de observação e esquemas de administração.

Como decidir

Decida pela sua capacidade de reavaliar e pela distância que o paciente teria de percorrer se piorasse. Se a criança pode ficar seis a doze horas em observação, com sinais vitais monitorados, eletrocardiograma feito e alguém olhando de hora em hora, classifique pela clínica e não dê soro a caso leve — é o que o protocolo manda e é o que evita expor a proteína heteróloga uma criança que não precisa. Se a observação não existe de fato — unidade sem monitor, sem plantonista à noite, família que mora a duas horas e não tem como voltar —, a margem de erro do “leve” desaparece, e a conduta prudente é segurar a criança e discutir com o centro toxicológico da região antes de liberar. Uma coisa não muda em nenhuma das duas leituras: quando se indica o soro, a quantidade é a mesma da do adulto.

Sem acesso venoso, o soro pode ir por outra via?

Somente via intravenosa, com intraóssea como alternativa no escorpionismo

Os protocolos vigentes prescrevem via intravenosa para os cinco soros ofídicos e para o antiescorpiônico, e o protocolo do escorpionismo admite explicitamente a via intraóssea na indisponibilidade de acesso venoso. Nenhum dos dois oferece a via subcutânea como alternativa. A racionalidade é farmacocinética: o objetivo é neutralizar veneno circulante o mais rápido possível, e via de absorção lenta desperdiça a janela terapêutica.

Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas dos acidentes ofídicos, 1ª ed., 2026 — esquemas de administração; e Protocolo dos acidentes escorpiônicos, 2025 — esquemas de administração.

Via subcutânea quando a intravenosa é impossível

As bulas profissionais dos soros da Fundação Ezequiel Dias declaram, no cabeçalho da apresentação, uso intravenoso ou subcutâneo, e o texto da posologia diz que a via recomendada é a intravenosa e que, na impossibilidade de utilizar esta via, o soro pode ser administrado por via subcutânea. A leitura tem apelo em situação de campo: unidade sem material de punção, criança em choque com acesso difícil, transporte prolongado.

Fundação Ezequiel Dias, bulas do profissional de saúde do soro antibotrópico (pentavalente) e do soro antiescorpiônico — apresentação e posologia.

Como decidir

Decida pela via que efetivamente vai neutralizar veneno naquele paciente. A intravenosa é a regra e não se abre mão dela por conveniência. Se o acesso periférico falhou, o próximo passo não é a subcutânea: é a intraóssea, que é rápida, funciona em criança em choque e está expressamente prevista no protocolo do escorpionismo — e é preferível pelo mesmo motivo que a intravenosa, porque entrega o anticorpo na circulação. Reserve a subcutânea para o cenário em que nem intravenoso nem intraósseo são possíveis e o transporte vai demorar, registre a justificativa no prontuário e acione o centro toxicológico. E lembre que a via intramuscular tem contraindicação específica no acidente ofídico, pelo risco de hematoma na coagulopatia.

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O raciocínio, em voz alta

Sabrina, 4 anos, 16 quilos, previamente hígida. Colocou a mão dentro do tênis há 40 minutos e foi picada por um escorpião amarelo, que o pai matou e trouxe num pote. Chega gritando, sem marca visível na mão, com sudorese profusa, dois episódios de vômito no trajeto, frequência cardíaca 168, frequência respiratória 40, agitada, pressão arterial 104 por 70, temperatura 36,8 °C, saturação 97% em ar ambiente. Na geladeira da unidade há quatro ampolas de soro antiescorpiônico e nenhuma de antiaracnídico.

  1. o que penso agora, antes de qualquer exame

    Três dados já classificam. Primeiro: dor local intensa — ela não deixa ninguém encostar — associada a manifestações sistêmicas. Segundo: as manifestações são sudorese, vômitos repetidos, taquicardia e agitação, que compõem exatamente a descrição do caso moderado no protocolo brasileiro. Terceiro: ela tem quatro anos, e crianças de até dez anos, sobretudo menores de sete, são o grupo em que o quadro evolui rápido. Isto é escorpionismo moderado, e escorpionismo moderado recebe soro. A decisão está tomada sem que nada tenha sido colhido.

  2. o que me obriga a fazer duas coisas ao mesmo tempo

    A dor mal controlada produz taquicardia, agitação e vômito por si só — e eu preciso saber quanto do quadro dela é veneno e quanto é dor. Então a analgesia entra agora, junto com o soro, e não depois: dipirona por via intravenosa e, se não ceder, infiltração de lidocaína a 2% sem vasoconstritor, 1 a 2 mL numa criança, repetível até três vezes em intervalos de 40 a 60 minutos. Ao mesmo tempo, peço eletrocardiograma — que na criança é de admissão, pela rapidez com que o quadro pode virar — e monitorizo. O que eu não faço é esperar o eletrocardiograma para prescrever o soro.

  3. a conta que eu quase erro

    O reflexo de quem prescreve por peso a vida inteira é dividir. Dezesseis quilos, criança pequena, uma ampola parece razoável. Está errado, e o protocolo nacional diz por quê: a quantidade de soro tem de neutralizar o veneno inoculado, que é o mesmo que o escorpião injetaria num adulto, e por isso a dose independe da faixa etária. Caso moderado são três frascos-ampolas de soro antiescorpiônico, e o teto absoluto — mesmo no caso grave — são seis. Ela recebe três. Se fosse o pai dela, também três.

  4. como o soro corre, e o que fica pronto antes

    Três frascos-ampolas de 5 mL são 15 mL de soro. Diluo em soro fisiológico na proporção de 1:2, o que dá 45 mL no total, e infundo por via intravenosa entre 8 e 12 mL por minuto — o que corre em cerca de 4 a 6 minutos. Antes de abrir o primeiro frasco deixo na bandeja: adrenalina aquosa 1:1000 com seringa própria, soro fisiológico conectado, laringoscópio com lâmina e tubo de tamanho compatível com 16 quilos, e broncodilatador inalatório. Não faço teste de sensibilidade cutânea — ele tem baixo valor preditivo e atrasaria o tratamento — e não pré-medico, porque nenhum protocolo vigente preconiza pré-soroterapia.

  5. o que muda na primeira hora

    Trinta minutos depois do soro e da analgesia: frequência cardíaca 132, sem novos vômitos, sudorese diminuindo, a criança aceita que eu toque a mão dela. O eletrocardiograma mostra taquicardia sinusal e nada mais. A ausculta pulmonar está limpa — e eu ausculto de propósito, porque acabei de infundir 45 mL numa criança de 16 quilos, o que é pouco neste caso mas seria muito se ela tivesse recebido um esquema de acidente ofídico. Glicemia capilar 148, potássio 3,4: são a assinatura da descarga adrenérgica, e o protocolo registra que esses distúrbios tendem a se normalizar em até 24 horas depois do soro específico. Não corrijo o potássio às cegas.

  6. o que fica agendado, e por quanto tempo

    Ela recebeu soro, então fica no mínimo 24 horas em observação — essa é a regra do protocolo, e vale mesmo com a criança rindo às onze da noite. Reavaliação com horário escrito, monitorização de sinais vitais, e uma pergunta a cada checagem: apareceu alguma manifestação nova? Se aparecer, reclassifico e complemento a dose até o número da nova gravidade, sem ultrapassar seis frascos-ampolas. E preencho a ficha de investigação do Sinan, registrando o tipo e a quantidade de antiveneno administrado, porque é essa notificação que orienta quantas ampolas a minha geladeira vai receber no mês que vem.

  7. a conversa que eu deixei para o fim, mas que devia ter sido no começo

    O pai me pergunta se três frascos não é muito “pra uma criança desse tamanho”. Essa é a pergunta certa e merece a resposta inteira: o soro não trata o tamanho dela, desmancha o veneno; o escorpião soltou a mesma quantidade que soltaria em mim; se eu der metade, sobra veneno solto. O que eu ajustei por causa do tamanho dela foi o líquido em que eu diluí, e é por isso que eu escutei o pulmão no fim. Ele entende, e para de pedir alta.

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Faça você

Seu Damião, 46 anos, 74 quilos, trabalhador rural, picado no tornozelo direito há três horas enquanto amontoava lenha. Não viu o animal inteiro. Chega com um pano apertado amarrado no meio da coxa, colocado pelo cunhado logo após o acidente. O pé e a perna estão endurecidos, dolorosos e com equimose até logo abaixo do joelho; a coxa está preservada. Sangrou a gengiva no caminho. Pressão arterial 128 por 80, frequência cardíaca 96, lúcido, urinando, sem hipotensão, sem sinais de choque. Na geladeira da unidade há onze ampolas de soro antibotrópico pentavalente, e nenhuma de qualquer outro soro. O hospital de referência regional fica a 110 quilômetros.

  1. o que a cena diz antes de qualquer exame

    A síndrome é vasculotóxica e hemorrágica: membro que dói, incha, fica equimótico e progride, mais sangramento de mucosa à distância. Isso é acidente botrópico até prova em contrário. A ausência de manifestação vagal — sem bradicardia, sem hipotensão, sem cólica e sem diarreia — afasta clinicamente o laquético. A ausência de fácies miastênica, mialgia e urina escura afasta o crotálico.

  2. a primeira conduta, que é desfazer

    O pano na coxa sai agora, com acesso venoso puncionado antes, no membro superior. Junto saem anéis e qualquer coisa apertada. O membro fica elevado e estendido, o local é lavado com água e sabão e depois com soro fisiológico, e a hora do acidente vai para o prontuário — três horas, não a hora da chegada.

  3. a classificação, que se faz com a mão e com uma caneta

    O membro inferior tem três segmentos: pé e tornozelo; perna e joelho; coxa. Nele, dor e edema tomam o pé, o tornozelo, a perna e chegam até logo abaixo do joelho — e param aí. A coxa está livre. Não há hemorragia grave, não há hipotensão, não há choque, não há oligúria. Você marca a borda do edema com caneta e anota a hora ao lado.

  4. o que se colhe, e o que não se espera

    Tempo de coagulação, hemograma com plaquetas, ureia, creatinina e urina tipo I. O tempo de coagulação volta incoagulável, acima de 30 minutos.

  5. a pergunta que fica

    Qual é a classificação de gravidade, quantos frascos-ampolas de qual soro ele recebe, em que diluição e em quanto tempo isso corre — e o que muda, se muda alguma coisa, pelo fato de o sangue estar incoagulável e de existirem apenas onze ampolas na geladeira?

Ver como fecharíamos

A classificação é acidente botrópico MODERADO: dor e edema em dois segmentos — pé com tornozelo, e perna com joelho — com sangramento discreto e sem complicação sistêmica. Pela régua do protocolo de 2026, moderado são seis frascos-ampolas de soro antibotrópico pentavalente por via intravenosa. O sangue incoagulável não muda nada disso. O protocolo é explícito ao dizer que o tempo de coagulação não deve ser utilizado como base para orientar o tratamento; ele confirma que há veneno com atividade coagulante circulando e entra depois, no acompanhamento. A única dose que ele decide vem 24 horas após o término da soroterapia: se permanecer alterado, administram-se dois frascos-ampolas adicionais. As onze ampolas também não mudam a decisão, e por um motivo confortável: seis é menos que onze. A prescrição sai completa, e sobram cinco. Se a classificação fosse grave, seriam doze e faltaria uma — e a regra nesse caso seria começar com as onze enquanto se aciona em paralelo o ponto estratégico de soro antiveneno mais próximo e a vigilância municipal, porque iniciar a soroterapia com o que existe é o que o manual nacional determina. A conta do que corre: seis frascos-ampolas de 10 mL são 60 mL de soro. Diluídos a 1:2 em soro fisiológico dão 180 mL; a 8 a 12 mL por minuto, isso corre entre 15 e 22,5 minutos. A quantidade é administrada de uma só vez, sem fracionar, com a bandeja de anafilaxia montada ao lado do leito e o paciente monitorado durante a infusão e nas duas horas seguintes. Nada de teste de sensibilidade e nada de pré-medicação. Junto com o soro: hidratação venosa com alvo de 30 a 40 mL de urina por hora; dipirona por via intravenosa para a dor, sem anti-inflamatório não esteroide, pelo risco renal; membro elevado, borda do edema marcada e circunferência medida a cada reavaliação; profilaxia antitetânica conforme o ferimento e a situação vacinal; nenhum antibiótico profilático. Observação mínima de 24 horas, por ter recebido soro. E a notificação no Sinan, com o número de ampolas registrado. Duas coisas continuam abertas e precisam de horário no prontuário: a reavaliação do edema, porque progressão para a coxa reclassifica o caso para grave e obriga a complementar a dose até doze frascos-ampolas; e a busca de síndrome compartimental, que é decisão cirúrgica e não se resolve com mais uma ampola.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A sudorese profusa é manifestação de escorpionismo grave no protocolo do Ministério da Saúde. A ausência de choque ou edema pulmonar não reduz automaticamente o quadro a moderado. O tratamento específico é soro antiescorpiônico imediato, seis frascos-ampolas por via intravenosa, com monitorização contínua e suporte conforme a evolução. A dose é definida pela gravidade e é a mesma para crianças e adultos; não se reduz proporcionalmente ao peso. Isso não significa que todo escorpião sempre inocule a mesma quantidade de veneno. Ajustar a administração às condições clínicas e ao risco de sobrecarga, seguindo protocolo e bula. Idade pequena aumenta a preocupação, mas não classifica isoladamente todos os acidentes como graves.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare dor e edema locais, síndrome neuroparalítica, manifestações vagais e hemólise ou coagulopatia. Explique que famílias de acidentes esses padrões sugerem e quais sinais exigem atendimento prioritário. Consulte a tabela vigente para conferir soroterapia, incluindo o que muda quando há apenas manifestação local. Diga o que evitar no local da picada e como localizar o serviço de referência e o CIATox. O objetivo é reconhecer, estabilizar e encaminhar sem depender de identificação zoológica completa.

Em 30 dias

Simule piora de um paciente em observação e reclassifique a gravidade usando os achados novos. Depois descreva a preparação da soroterapia e a resposta da equipe a uma reação aguda: interromper a infusão, reconhecer e tratar anafilaxia quando presente, estabilizar e reavaliar a necessidade de retomada monitorizada com apoio especializado. Consulte dose, diluição e velocidade no protocolo específico, evitando aplicar uma regra única a todo soro e a toda idade. Termine com os parâmetros de acompanhamento e as orientações de retorno.

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Agora atenda

Você é o interno de plantão num hospital municipal de dezoito leitos, sem clínico na unidade, com onze ampolas de soro antibotrópico e quatro de antiescorpiônico na geladeira e o hospital de referência a 110 quilômetros. Entra um trabalhador rural picado há três horas, com o membro amarrado pela família, edema subindo pela perna e gengivorragia. Classifique a gravidade contando segmentos, prescreva o soro em número de frascos-ampolas com diluição e velocidade, diga o que fica preparado antes de abrir a primeira ampola, e explique à família por que o torniquete vai sair e por que não é preciso encontrar a cobra.

Acidentes por animais peçonhentos — Internato | OsceLabs