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Clínica MédicaToxicologia

O antídoto é a menor parte

Intoxicações exógenas agudas e antídotos (organofosforados, benzodiazepínicos, paracetamol, opioides, monóxido de carbono)

Descontaminação com a janela real, os cinco agentes que o interno vai encontrar e a rede que atende de madrugada

Fontes deste capítulo

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde, volume 3, 6ª edição revisada. Brasília, DF, 2024. Capítulo Intoxicação Exógena, CID-10 T65.9, p. 1181-1193.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Altera o Anexo 1 do Anexo V à Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017 — Lista Nacional de Notificação Compulsória. Diário Oficial da União, 14 maio 2026, edição 89, seção 1, p. 1120.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília, DF, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3. Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, com reprodução permitida mediante citação da fonte.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Diretrizes brasileiras para o diagnóstico e tratamento de intoxicações agudas por agrotóxicos, volume 1. Brasília, DF, 2020. 125 p. ISBN 978-85-334-2834-8. Consolida o capítulo 1, aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 43, de 16 de outubro de 2018, e o capítulo 2, aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 79, de 14 de dezembro de 2018. Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Sem Derivações 4.0 Internacional.

SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal da Saúde. Coordenação de Vigilância em Saúde. Manual de Toxicologia Clínica: orientações para assistência e vigilância das intoxicações agudas. 1ª edição. São Paulo, 2017. 465 p. CDU 615.9.

01

Responda antes de ler

Após atender três moradores da mesma casa com intoxicação por monóxido de carbono proveniente de aquecedor a gás, e sabendo que uma quarta pessoa permanece no domicílio, quais são as providências de vigilância corretas segundo o Guia de Vigilância em Saúde?

02

O paciente que você vai ver

Sábado de junho, sete e quarenta da manhã, unidade de pronto atendimento de um bairro que fica a quarenta minutos do hospital regional. A noite foi a mais fria do ano. Você é o interno da manhã e a técnica de enfermagem da classificação de risco te chama antes de você tirar a mochila do ombro, com três fichas na mão e uma frase que não é queixa: são da mesma casa.

As três fichas dizem quase a mesma coisa. Silvaneide Barroqueiro, 38 anos, auxiliar de costura: dor de cabeça e enjoo desde a madrugada. Kleberson, 14 anos, filho: dor de cabeça, tontura e um vômito. Dona Placidina, 71 anos, avó: dor de cabeça, fraqueza e uma confusão que a filha descreve como "ela não estava achando as palavras". Nenhum dos três tem febre. Nenhum dos três tem diarreia. Ninguém comeu nada diferente.

Você examina os três em pé, no corredor, porque é onde eles estão. As pressões são normais. As frequências cardíacas estão entre 88 e 104. As pupilas são iguais e reagem. A pele está seca e morna. O abdome não dói. E o oxímetro de dedo, que a técnica passa de um para o outro, marca 98%, 97% e 98%.

É esse número que precisa te incomodar. Ele está certo e é inútil. O oxímetro de pulso mede a razão entre duas formas de hemoglobina e trata como oxigenada tudo o que não estiver na forma reduzida; se a hemoglobina estiver ocupada por monóxido de carbono, o aparelho lê o dedo, encontra um pigmento vermelho vivo no lugar do outro e devolve um número tranquilizador. Não é defeito do aparelho: é o que ele foi construído para fazer. O manual brasileiro que este capítulo usa avisa isso em uma linha, dentro do tratamento, e a linha é fácil de atravessar sem ler.

A quarta moradora não veio. É a irmã da Silvaneide, 41 anos, que trabalhou até tarde, chegou às cinco da manhã, tomou banho e foi dormir. Ficou em casa. Enquanto você conversa com a família, é ela quem está com o pior prognóstico do plantão, e ninguém ainda falou o nome dela.

Este capítulo começa exatamente aqui, e não um passo antes. A leitura da síndrome tóxica no paciente que chega rebaixado, sem história e sem acompanhante — pupila, pele, secreção, temperatura, ruído hidroaéreo — é do capítulo "Intoxicação exógena", em Síndromes do Paciente na Emergência, e é lá que ela é ensinada inteira. O que fica aqui é o passo seguinte, que é outro problema: o agente tem nome. Ou porque a caixa veio junto com o paciente, ou porque a família contou, ou porque a cena entregou, ou porque a toxíndrome já foi montada e agora precisa virar conduta. É quando o agente tem nome que aparecem as três perguntas que o interno erra: dá para descontaminar, existe antídoto, e o meu serviço tem esse antídoto.

As respostas são desconfortáveis e são o assunto do capítulo. Quase nada se descontamina, e o que se descontamina tem uma janela curta e específica. Quase nada tem antídoto, e dos cinco agentes que dão nome a este capítulo — organofosforados, benzodiazepínicos, paracetamol, opioides e monóxido de carbono — dois têm antídoto que muda desfecho, um tem antídoto que costuma criar problema, um é tratado com um gás que não está em lista nenhuma de medicamento, e um tem um antídoto disponível no país que a diretriz federal recomenda não usar. E a terceira resposta, a de disponibilidade, quase nunca é procurada no plantão calmo, que é o único momento em que dá para procurá-la.

Existe uma quarta pergunta, que é a que resolve as três anteriores mais depressa, e o interno demora anos para aprender a fazer: para quem se liga. O Brasil tem uma rede pública de centros de informação toxicológica que atende 24 horas por dia, sete dias por semana, por um número gratuito, e que existe por norma desde 2005. O Guia de Vigilância em Saúde manda usá-la. A diretriz federal de intoxicação por agrotóxicos manda usá-la, com essas palavras, dentro do texto de uma recomendação. E ela segue sendo o recurso mais subutilizado do pronto-socorro brasileiro.

O que o capítulo cede está declarado, para você saber onde procurar quando o caso não for este. Parada cardiorrespiratória e via aérea avançada têm capítulos próprios nesta coleção — "Parada cardiorrespiratória na enfermaria" e "Manejo de via aérea no trauma" —, e o roteiro dos primeiros minutos do paciente grave está em "Os primeiros 5 minutos". Choque com suspeita infecciosa é de "Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora". Coma e rebaixamento não tóxicos são de "Alteração do nível de consciência", e a confusão do idoso internado é de "Delirium no paciente internado". A injúria renal que vier depois é de "Injúria renal aguda". Acidente por animal peçonhento é do capítulo irmão desta mesma apostila, e queimadura química entra por "Superfície queimada e profundidade".

E há um corte que precisa ser dito com todas as letras, porque é o mais fácil de atravessar sem perceber. Boa parte das intoxicações que você vai atender é autoprovocada. Este capítulo trata o corpo: descontamina, dá antídoto, observa, notifica o agravo e organiza a alta clínica. A avaliação de risco de suicídio, a decisão sobre internação psiquiátrica, o manejo da conversa e o cuidado continuado são de "Risco de suicídio na emergência", em Psiquiatria — e a notificação da violência autoprovocada, que é uma segunda ficha com prazo próprio, também vive melhor lá. O que não se negocia aqui é o gatilho: paciente estabilizado e lúcido não recebe alta antes de a saúde mental ter conversado com ele.

03

Quem adoece disso

Intoxicação exógena é agravo de notificação compulsória no Brasil, e o nome exato importa mais do que parece. Na Lista Nacional de Notificação Compulsória, o item 40 se chama "Intoxicação Exógena (por substâncias químicas, incluindo agrotóxicos, gases tóxicos e metais pesados)". A expressão "gases tóxicos" é o que põe o monóxido de carbono dentro do mesmo agravo do inseticida e do comprimido — e é por isso que a família da cena, que ninguém chamaria de intoxicada no sentido corriqueiro, gera ficha.

A lista vigente é o Anexo 1 do Anexo V da Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 2017, e ela foi inteiramente substituída pela Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026, publicada no Diário Oficial da União do dia seguinte. Essa portaria de 2026 incluiu a caxumba e a febre do oropouche, removeu a covid-19 como item próprio, mudou nomenclaturas e alterou periodicidades de notificação. A intoxicação exógena atravessou a mudança sem alteração: continua no mesmo lugar, com uma única marcação na tabela, na coluna de notificação semanal — contra as três marcações das doenças que exigem aviso imediato ao município, ao estado e ao Ministério da Saúde.

Semanal não quer dizer "quando der". A regra escrita no Guia de Vigilância em Saúde é a de processar a ficha logo que o caso chega ao conhecimento do serviço, ainda como suspeito, e a de nunca segurar as informações iniciais à espera do fim da investigação. Quem registra é sempre o município do atendimento, e não o da residência nem o da exposição — detalhe que resolve a dúvida do plantão de cidade-polo que recebe gente de seis municípios. E o caso tem prazo de fechamento: no máximo 180 dias a partir da data de notificação, com relatório de síntese da investigação.

Quando a circunstância é tentativa de suicídio, a mesma ocorrência gera duas fichas: a de investigação de intoxicação exógena e a de notificação individual de violência interpessoal e autoprovocada, esta em até 24 horas para a secretaria municipal de saúde. O prazo curto é da segunda ficha, não da primeira, e essa é a confusão mais comum. A diretriz federal de intoxicações por agrotóxicos vai além e prevê, além de notificar, encaminhar a pessoa à Rede de Atenção Psicossocial — o que este capítulo entrega ao capítulo de risco de suicídio, mas o encaminhamento em si é obrigação do serviço que atendeu.

A investigação fecha o caso em uma de cinco categorias, e vale conhecê-las porque elas explicam por que os números brasileiros de intoxicação são o que são: intoxicação confirmada, só exposição, reação adversa, outro diagnóstico e síndrome de abstinência. "Só exposição" é o indivíduo que teve contato e não desenvolveu sinal, sintoma nem alteração laboratorial — ele entra na estatística de notificação e não na de intoxicação. Quem lê taxa de intoxicação sem separar as categorias está somando duas populações diferentes.

Dois campos da ficha carregam quase toda a utilidade do sistema, e os dois são justamente os que ficam em branco no plantão cheio. O campo 50 pede o agente tóxico com nome comercial ou popular e princípio ativo — sem os dois, a notificação diz que houve intoxicação e não diz por quê, o que a torna inútil para vigilância. O campo 56 pergunta se a exposição foi decorrente do trabalho, e é ele que aciona a emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho para o segurado do INSS. O próprio Guia estabelece a régua de qualidade: completitude acima de 95% é excelente e abaixo de 85% é ruim; inconsistência e duplicidade acima de 5% são inaceitáveis.

Há ainda um gesto que a cena deste capítulo exige e que o interno raramente conhece. O fluxograma do Guia pergunta duas coisas diante de um evento por exposição a substância química: existe possibilidade de novos casos, e a substância tem potencial de contaminar mais pessoas. Se a resposta for sim, o evento é considerado de impacto para a saúde pública e o município preenche, além da ficha de investigação individual, a ficha de surto. Três pessoas da mesma casa com a mesma queixa na mesma madrugada respondem sim às duas perguntas — e a quarta moradora, que ficou dormindo, é a prova viva de que a resposta é sim.

O outro lado do sistema é assistencial e tem outro dono. A Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica é coordenada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, foi criada em 2005 pela Resolução da Diretoria Colegiada nº 19, e reúne 36 centros instalados em hospitais universitários, secretarias estaduais e municipais de saúde e fundações. O Disque-Intoxicação, no 0800 722 6001, transfere a ligação para o centro mais próximo da região de onde ela partiu, e os centros atendem chamada de longa distância 24 horas por dia, sete dias por semana, o ano inteiro. Em alguns casos o atendimento pode ser presencial.

A cobertura é desigual e vale saber disso antes de precisar. Os 36 centros estão em 19 estados mais o Distrito Federal — vinte das vinte e sete unidades federativas —, o que deixa sete sem centro próprio. A própria Anvisa nomeia quatro delas como estados em processo de abertura: Amapá, Acre, Maranhão e Tocantins. Ficam de fora dessa lista, e igualmente sem centro na relação publicada, Alagoas, Rondônia e Roraima. Quem liga de uma dessas unidades é atendido por um centro de outro estado, o que funciona — mas significa que a orientação vem de quem não conhece a rede local, os estoques locais nem o hospital de referência mais próximo, e é o interno quem precisa levar essa informação para dentro da ligação.

Três sistemas com nomes parecidos convivem, e confundi-los custa tempo no plantão. O Sinan é vigilância: recebe a notificação, não devolve conduta. A Renaciat é assistência: devolve conduta, não recebe notificação. E os centros também não são o laboratório — a análise toxicológica, quando existe, é de um laboratório de referência com prazo próprio, que não atende à urgência. Ligar para o centro não substitui notificar, e notificar não substitui ligar.

04

Por que acontece o que acontece

Os cinco agentes deste capítulo não têm parentesco químico nenhum. O que os aproxima é o serviço que os recebe e a pergunta que fazem: existe um alvo molecular conhecido e uma molécula capaz de disputar esse alvo? Quando existe, há antídoto, e a conduta ganha um atalho. Quando não existe, o tratamento é suporte, tempo e vigilância — que é o caso da maioria das intoxicações, inclusive de várias que parecem dramáticas.

O monóxido de carbono é o exemplo mais completo, porque ele ocupa três alvos ao mesmo tempo e nenhum deles é bloqueável por um fármaco. Ele se liga à hemoglobina com afinidade cerca de 300 vezes superior à do oxigênio, formando carboxiemoglobina, o que reduz a entrega de oxigênio aos tecidos; liga-se à mioglobina do músculo cardíaco com afinidade 60 vezes maior que a do oxigênio, o que explica arritmia e piora isquêmica; e liga-se à citocromo-oxidase, produzindo estresse oxidativo e dano mitocondrial, com ativação de aminoácidos excitatórios e morte neuronal. Some a isso vasodilatação e depressão miocárdica, e você tem a hipotensão. A eliminação é pulmonar, e a meia-vida declarada é de 252 minutos — pouco mais de quatro horas respirando ar ambiente.

Daí sai a única terapia que funciona e a razão de o oxímetro atrapalhar. O tratamento é deslocar o monóxido do sítio da hemoglobina por competição de massa, oferecendo oxigênio em concentração alta o bastante para vencer a diferença de afinidade — o antídoto é o próprio gás. E, como o aparelho de dedo enxerga a carboxiemoglobina como se fosse hemoglobina oxigenada, a saturação medida sobe, não desce. Um paciente pode ter carboxiemoglobina significativa com oximetria normal, e o manual de toxicologia clínica que este capítulo usa registra isso dentro do item de suporte, em uma frase.

O paracetamol é o oposto: não tem alvo receptor, tem gargalo metabólico. Em dose terapêutica, quase todo o fármaco sai por conjugação com ácido glicurônico e por sulfatação, e apenas 5% a 15% seguem pelo citocromo P450 — sobretudo a CYP2E1 — gerando o metabólito reativo NAPQI, que a glutationa neutraliza. Na superdose, glicuronização e sulfatação saturam, a fração que corre pelo P450 aumenta e a glutationa se esgota; quando cerca de 70% dela desaparece, o NAPQI passa a se ligar covalentemente às proteínas do hepatócito e a célula morre. O antídoto, a N-acetilcisteína, não bloqueia nada: aumenta a sulfatação, é precursora de glutationa, funciona como substituta dela e melhora a função de múltiplos órgãos durante a lesão. É reposição de substrato — e por isso vale mais quanto mais cedo.

O opioide tem alvo limpo e antídoto limpo, e mesmo assim engana. Ele deprime o centro respiratório por ação em receptores µ, e a naloxona compete pelos mesmos sítios. O problema é aritmético: o antagonista termina antes do agonista em boa parte dos opioides — os de liberação prolongada, os de meia-vida longa e os que vêm em adesivo transdérmico, cujo reservatório na pele continua entregando fármaco depois de o antagonista ter ido embora. Reverter não é curar; é comprar tempo. E há um efeito que o antídoto não impede: o edema pulmonar não cardiogênico, que aparece com frequência justamente depois da reanimação e da naloxona.

O benzodiazepínico é o agente cuja segurança relativa vem do mecanismo. Ele não abre o canal de cloro: modula alostericamente o receptor GABA-A, aumentando a resposta ao GABA que já está lá. Como depende do neurotransmissor endógeno, o efeito tem teto — e é por isso que benzodiazepínico isolado, em adulto sem doença respiratória e sem coingestão, raramente mata. O mesmo mecanismo explica o risco do antagonista: quem usa benzodiazepínico cronicamente tem o sistema GABAérgico adaptado, e retirar a modulação de uma vez remove um freio que estava sustentando o limiar convulsivo. Se houver coingestão de um agente pró-convulsivante, o flumazenil retira o único anticonvulsivante que o paciente tinha a bordo.

Os inibidores de colinesterase — organofosforados e carbamatos — acumulam acetilcolina nas sinapses colinérgicas central, somática e autonômica, com estímulo excessivo de receptores muscarínicos e nicotínicos. A diferença entre os dois grupos é a estabilidade da ligação, e ela decide o tempo do caso. No carbamato a inibição é reversível e a enzima se reativa espontaneamente, em geral em menos de 24 horas. No organofosforado a ligação é quimicamente mais estável, a recuperação pode levar dias a semanas e pode ser irreversível, dependendo então da síntese de moléculas novas de acetilcolinesterase. É esse relógio, e não a gravidade inicial, que explica por que dois pacientes com o mesmo quadro na porta têm internações de duração tão diferente.

Fecha o raciocínio a farmacocinética da absorção, porque é ela que governa a janela da descontaminação — e não a vontade de fazer alguma coisa. O paracetamol atinge pico plasmático em 30 a 45 minutos, e de 1 a 2 horas nas apresentações de liberação prolongada, nas quais a absorção pode persistir por 12 horas ou mais. Os carbamatos atingem pico em cerca de 30 a 40 minutos e são bem absorvidos por ingestão, inalação, pele e mucosas; o aldicarbe em forma líquida é especialmente lipofílico e tem toxicidade dérmica muito maior que a dos outros carbamatos. Quando o pico é assim, a sonda gástrica quase sempre chega depois da festa, e a pele — não o estômago — é a superfície que ainda vale limpar.

05

Como se apresenta de verdade

O que segue é o que cada um dos cinco agentes faz, na ordem em que o interno os encontra: primeiro o que engana, depois o que espera, depois o que mata rápido.

O relógio de cada agente é diferente, e é ele que organiza o plantão

A pergunta que decide o destino do paciente intoxicado não é "quão grave ele está" — é "quando o dano aparece". Os cinco agentes deste capítulo têm relógios que não se parecem, e tratar todos com a mesma pressa é errar nas duas direções: correr atrás de quem não precisa e liberar quem ainda vai piorar.

O opioide e o inibidor de colinesterase matam cedo, por via respiratória, e o paciente que chega mal é o paciente que está mal. O monóxido de carbono também age rápido, mas o dano que ele deixa pode aparecer semanas depois, em forma de déficit cognitivo. O benzodiazepínico costuma dar um quadro estável que precisa de vigilância e pouca coisa mais. E o paracetamol é o único dos cinco que não dá nenhum sintoma na única janela em que o tratamento tem eficácia plena — o paciente está bem, conversando, pedindo alta, e é justamente esse o momento de tratá-lo.

Essa assimetria produz o erro mais caro do capítulo. Quem prioriza pelo aspecto do paciente atende o agitado antes do calmo, e o calmo é o que tomou paracetamol. O critério de prioridade da intoxicação não é o aspecto: é o agente, a dose e o horário.

Monóxido de carbono: o quadro que passa por virose

A manifestação mais comum da intoxicação leve a moderada por monóxido de carbono é cefaleia. Depois dela vêm tontura, náusea, vômito, fraqueza, confusão e letargia — uma lista que se sobrepõe inteira à da síndrome gripal, à da virose gastrointestinal e à da intoxicação alimentar. Não há sinal patognomônico. Não há toxíndrome: pupila, pele, secreção e ruído hidroaéreo não apontam para lado nenhum, e é por isso que o roteiro de leitura de síndrome tóxica, que resolve tantos casos, não resolve este.

Na intoxicação grave o quadro deixa de ser ambíguo: síncope, convulsão, alteração do estado neurológico, ataxia, arritmia cardíaca, isquemia miocárdica, acidose metabólica, coma e óbito. Entre um extremo e outro há uma zona larga em que o paciente parece apenas indisposto, e a diferença entre um desfecho e outro costuma ser quanto tempo mais ele passou no ambiente.

O que substitui o sinal clínico é o contexto, e o manual brasileiro diz isso de forma quase operacional: o diagnóstico deve ser considerado em pacientes com náusea, vômito ou dor de cabeça, especialmente quando ocorrem em grupos familiares ou no início do tempo frio. Duas informações de anamnese valem mais que qualquer exame nesta hipótese: quem mais na casa está com a mesma queixa, e o que queima dentro de casa. Aquecedor de água a gás, aquecedor de ambiente, fogão, forno, churrasqueira acesa em área fechada, gerador ligado em garagem, incêndio doméstico e escapamento de veículo em ambiente confinado são as fontes que os documentos listam.

Duas populações merecem tratamento diferente. A gestante, porque o feto é mais vulnerável que a mãe: a carboxiemoglobina fetal costuma ser mais alta, elevando-se mais lentamente e chegando a até 10% acima da materna, e é eliminada com meia-vida cerca de cinco vezes maior — o que obriga a tratar por períodos mais longos do que os sintomas maternos sugeririam, com monitorização fetal. E o paciente com doença cardiovascular ou pulmonar prévia, cuja tolerância à redução da entrega de oxigênio é menor.

Por fim, o efeito que a alta não vê. Efeitos neurocognitivos tardios podem se desenvolver entre 2 e 40 dias após a exposição, e a lista inclui demência, síndromes amnésicas, psicose, parkinsonismo, coreia, apraxia, neuropatias, dificuldade de concentração e alterações de personalidade. Isso muda o que se diz à família na porta: não basta dizer que passou.

Paracetamol: as quatro fases, e a única em que dá para curar

A intoxicação por paracetamol tem uma cronologia que vale decorar, porque ela é a razão de o tratamento parecer desproporcional ao paciente que está na sua frente. Na fase 1, até 24 horas, o paciente está assintomático ou tem sintomas gastrointestinais banais: anorexia, náusea, vômito. Na fase 2, de 24 a 72 horas, ele continua sem se queixar, mas já há alteração de função hepática — transaminases, tempo de protrombina, razão normalizada internacional. Na fase 3, de 72 a 96 horas, instala-se a necrose hepática: icterícia, vômitos, distúrbio de coagulação, injúria renal aguda, miocardiopatia, encefalopatia, confusão, coma e óbito. Na fase 4, de 4 dias a 2 semanas, quem sobrevive recupera o fígado, com fibrose residual.

Junte isso ao ganho terapêutico: a acetilcisteína tem eficácia máxima quando iniciada dentro das primeiras 8 horas. As duas curvas não se cruzam — a janela em que o antídoto funciona melhor é exatamente a janela em que o paciente não tem nada. Nenhum outro agente deste capítulo pede tanto que a conduta contrarie a impressão clínica.

As doses tóxicas que o manual brasileiro registra são 7,5 g a 10 g no adulto, 200 mg/kg em criança com menos de 6 anos e 150 mg/kg acima dos 6 anos. Vale fazer a conta antes de precisar dela: 7,5 g correspondem a exatamente 150 mg/kg em uma pessoa de 50 quilos, que é onde as duas réguas se encontram; num adulto de 100 quilos, os mesmos 7,5 g equivalem a 75 mg/kg, metade do limiar pediátrico. A régua fixa do adulto é a mais conservadora acima de 50 quilos, o que é bom, mas convém saber que ela não é ajustada por peso.

O que faz o paracetamol se esconder é a apresentação. Ele existe em comprimidos de 500, 650 e 750 mg, em solução oral de 200 mg/mL, em suspensões de 100 e de 32 mg/mL e em sachê de 500 mg; existe em apresentação de ação prolongada, na qual o nomograma perde validade; e existe em associação — o manual lembra dos comprimidos com 500 mg de paracetamol combinados a 7,5 mg ou a 30 mg de fosfato de codeína. Somar a gota do antitérmico infantil ao comprimido do adulto e ao antigripal da avó é a rotina de qualquer casa, e é assim que uma dose tóxica se monta sem intenção.

Opioide: a frequência respiratória é o sinal vital que decide

Na intoxicação opioide, o número que governa tudo é a frequência respiratória. O manual brasileiro define a indicação do antídoto por ela — reversão da depressão respiratória com frequência abaixo de 12 incursões por minuto —, e não pelo nível de consciência. Isso não é detalhe de redação: é o que impede o interno de tratar até acordar o paciente, que é o caminho mais curto para uma síndrome de abstinência dentro da sala.

O quadro completo é o esperado: rebaixamento progressivo até coma profundo, bradipneia até apneia, miose. A contração da pupila é descrita como sinal importante na distinção clínica da overdose, mas ela não é obrigatória e não é o alvo do tratamento. E há uma complicação que a naloxona não previne e que aparece com frequência depois da reanimação: o edema pulmonar não cardiogênico. Quem reverte a respiração e vê a saturação piorar em vez de melhorar não está diante de dose insuficiente de antídoto.

No Brasil, o opioide que o interno mais encontra não é o da rua. É o da receita e o da prescrição hospitalar: codeína, tramadol, morfina, metadona, oxicodona e os adesivos transdérmicos. Isso tem duas consequências práticas. A primeira é que a análise qualitativa de urina, quando existe, é útil para codeína e morfina e não detecta tramadol nem fentanil — um rastreio negativo não exclui opioide. A segunda é que o nível sérico de opioide não é usado, porque não se correlaciona bem com o quadro clínico.

E há uma armadilha específica das associações, que o manual explicita: nos casos em que a história não é confiável, pede-se nível sérico de paracetamol e de salicilatos justamente pela grande frequência de formulações combinadas. O paciente que chega em coma opioide por ter tomado um punhado de comprimidos de analgésico com codeína está, ao mesmo tempo, na primeira fase de uma intoxicação por paracetamol que ninguém procurou.

Benzodiazepínico: o que ele não faz sozinho

O benzodiazepínico ingerido isoladamente por um adulto sem doença respiratória produz, quase sempre, sonolência, ataxia, disartria, hipotonia e um sono do qual o paciente desperta ao estímulo. É um quadro que assusta a família e que se trata com posição, oxigênio se necessário, monitorização e tempo. A mortalidade do agente puro é baixa, e o mecanismo explica por quê: a modulação do receptor GABA-A depende do neurotransmissor endógeno e tem teto.

O que muda o prognóstico é a companhia. Álcool, opioide, barbitúrico, antidepressivo tricíclico, antipsicótico — qualquer depressor somado ao benzodiazepínico retira o teto do quadro, porque a depressão respiratória passa a vir do outro agente. Toda ingestão intencional é coingestão até prova em contrário, e é essa suposição, e não o nome do comprimido na caixa, que define o nível de vigilância.

É contra esse pano de fundo que o flumazenil precisa ser entendido, e o próprio manual que traz a dose traz o alerta na mesma linha: o uso em coma de causa desconhecida ou em que se suspeite de múltiplos toxicantes exige cautela, pelo risco de convulsões, arritmias e síndrome de abstinência. O antídoto existe, está disponível no país e tem indicação estreita. Reverter uma sedação iatrogênica de procedimento em paciente sem uso crônico é uma coisa; usar o antagonista como teste diagnóstico em quem chega rebaixado sem história é outra, e a segunda é o erro clássico deste capítulo.

Um detalhe farmacológico ajuda a não se enganar com a resposta. O flumazenil começa a agir em 1 a 2 minutos, tem efeito máximo em 5 a 10 minutos e duração de ação de 15 a 140 minutos — mais curta que a de vários benzodiazepínicos. Um paciente que acorda e volta a dormir não é um paciente que piorou: é um paciente cujo antagonista terminou antes do agonista, exatamente como acontece com a naloxona.

Inibidor de colinesterase: carbamato ou organofosforado, e a fraqueza que vem depois

A síndrome colinérgica aguda é reconhecível e é ensinada em detalhe no capítulo de intoxicação exógena desta coleção: miose, sialorreia, lacrimejamento, broncorreia, sudorese, bradicardia, cólica, diarreia, incontinência, fasciculação. O que interessa aqui é o que vem depois de você reconhecê-la, e a primeira decisão é de classe.

Carbamato e organofosforado dão o mesmo quadro na porta e evoluções diferentes. No carbamato a inibição enzimática é reversível e a recuperação costuma vir em menos de 24 horas; nos organofosforados a inibição é mais estável e a recuperação leva dias a semanas. No Brasil, o carbamato tem um nome próprio que precisa estar no seu vocabulário: o "chumbinho", produto clandestino usado como raticida, granulado e acinzentado, composto em geral por aldicarbe — inseticida agrícola cujo registro e comercialização foram cancelados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento em outubro de 2012 — e que também pode conter carbofurano ou organofosforados. As circunstâncias de exposição mais frequentes registradas são tentativa de suicídio e acidente com crianças.

A gravidade na admissão tem régua brasileira e recomendação forte a favor de usá-la: a Escala de Peradeniya, aplicada na chegada do paciente com suspeita de exposição a organofosforados, categoriza a intoxicação em leve, moderada e grave. Para prognóstico do paciente adulto já admitido em terapia intensiva, a mesma diretriz recomenda, também com recomendação forte, o escore APACHE II. São duas ferramentas em dois momentos diferentes, e trocá-las de lugar é desperdiçar as duas.

O que a porta não mostra é a síndrome intermediária, e é ela que faz o paciente que melhorou voltar a piorar. A diretriz federal registra que, num estudo com 176 pacientes, dos quais 31 desenvolveram a síndrome, a maioria apresentou fraqueza muscular no pescoço como manifestação inicial. É um sinal barato: pedir ao paciente deitado que levante a cabeça do travesseiro e sustente. Um paciente colinérgico que não sustenta a cabeça é um paciente cuja musculatura respiratória está no mesmo caminho, e essa é a informação que decide vaga de terapia intensiva antes de a saturação cair.

Some a isso a via dérmica, que é a via esquecida. Os inibidores de colinesterase são bem absorvidos pela pele e pelas mucosas, e o aldicarbe líquido tem toxicidade dérmica muito maior que a dos outros carbamatos. O paciente com roupa impregnada continua se intoxicando dentro da sala de emergência — e contaminando quem o atende.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da intoxicação com agente conhecido tem uma característica que a separa de quase todo o resto da medicina de emergência: a maioria dos exames não decide nada, e os dois ou três que decidem têm regra de coleta própria. Vale saber quais são, e vale saber o que fazer quando eles não existem no seu serviço — que é a situação mais comum no Brasil.

Carboxiemoglobina: o exame que existe e o aparelho que mente

O exame específico da intoxicação por monóxido de carbono é a dosagem de carboxiemoglobina, medida por cooxímetro em amostra de sangue — não pelo oxímetro de dedo. Ele responde à pergunta certa e tem duas referências que precisam ser lidas juntas: não fumantes têm em geral menos de 2%, e fumantes crônicos ficam entre 6% e 10%. O valor isolado, portanto, não é interpretável sem saber se o paciente fuma.

Fora do valor específico, o que se pede é o que sustenta a decisão de gravidade: hemograma, eletrólitos, lactato, glicose, função hepática e renal, eletrocardiograma, enzimas cardíacas e gasometria. O eletrocardiograma e as enzimas não são luxo — a mioglobina cardíaca é o segundo alvo do gás, e isquemia miocárdica está entre as manifestações graves listadas.

A gasometria arterial merece um aviso porque ela também engana, e por um motivo parecido com o do oxímetro. A pressão parcial de oxigênio dissolvido no plasma pode estar normal, porque o monóxido não interfere na dissolução do oxigênio: ele interfere no transporte. Saturação calculada a partir da pressão parcial, sem cooximetria, herda o mesmo erro. O que aparece na gasometria de um caso grave é a consequência — acidose metabólica com lactato elevado.

Uma referência ambiental ajuda a dimensionar a exposição quando alguém consegue medir o ambiente: uma concentração de 100 ppm de monóxido no ar costuma corresponder a carboxiemoglobina de 16%, já suficiente para produzir sintomas. É o tipo de número que serve para conversar com o bombeiro, a defesa civil ou a vigilância sanitária que vai à casa.

E há o caso em que nada disso está disponível, que é a regra na unidade de pronto atendimento. Sem cooximetria, o diagnóstico é clínico-epidemiológico e o tratamento não espera: oxigênio a 100% em máscara não reinalante começa na suspeita, é barato, é seguro e não precisa de confirmação para ser iniciado. Nenhum exame deste capítulo justifica adiar oxigênio.

Paracetamol sérico: quatro horas, o nomograma, e o hospital que não dosa

O nível sérico de paracetamol é o exame toxicológico com a regra de coleta mais estrita deste capítulo. Colhe-se pelo menos 4 horas após a ingestão, porque antes disso o valor não reflete a absorção completa e não deve ser usado para prever toxicidade nem necessidade de antídoto. Entre 4 e 16 horas são os níveis mais preditivos de hepatotoxicidade. O resultado se lança no nomograma de Rumack-Matthew, que correlaciona a concentração plasmática com o tempo decorrido e vale para ingestão aguda única entre 4 e 24 horas.

Fora dessas condições o nomograma não se interpreta, e a lista de "fora" é longa: antes de 4 horas, depois de 24 horas, ingestão crônica ou repetida, e apresentação de liberação prolongada — nesta última porque o pico chega mais tarde e a absorção se estende. Ingestão em horário desconhecido cai no mesmo balde, e é a situação mais frequente na prática.

O exame também tem logística. O manual de referência registra prazo de resultado contado em horas para a dosagem de paracetamol, com a amostra em soro e volume mínimo — o que significa que, mesmo onde existe, ele não é um exame de beira de leito. Onde não existe, e é a maioria dos serviços brasileiros, a decisão passa a ser inteiramente clínica, e a regra que o próprio manual oferece é a que resolve: administra-se acetilcisteína a qualquer paciente com risco de lesão hepática, o que inclui explicitamente história de ingestão de dose tóxica com concentração não disponível ou tempo de ingestão desconhecido.

Traduzindo para o plantão: a ausência do exame não é motivo para não tratar — é motivo para tratar. E o inverso também vale, para o paciente que chega tarde: acima de 24 horas da ingestão, com nível mensurável ou com evidência bioquímica de hepatotoxicidade, ainda se trata, mantendo a última fase do protocolo pelos dias que forem necessários até a função hepática melhorar.

O que se pede junto, e que existe em qualquer serviço, é o que acompanha o dano: transaminases, tempo de protrombina e razão normalizada internacional, bilirrubinas total e frações, função renal, hemograma, glicemia e eletrólitos. É esse conjunto, e não o nível sérico, que diz se a fase 2 começou.

Colinesterases: o que elas respondem e o que não respondem

Na exposição a inibidores de colinesterase, os biomarcadores são a acetilcolinesterase eritrocitária e a butirilcolinesterase plasmática, e a diretriz federal recomenda usá-los — com recomendação condicional a favor — para os casos de intoxicação e de exposição. É uma recomendação de confirmação e de seguimento, não de decisão inicial.

A distinção prática é simples de guardar. A butirilcolinesterase plasmática cai mais rápido e se recupera mais rápido; a eritrocitária acompanha melhor a inibição da enzima sináptica e demora mais a normalizar. Nenhuma das duas volta a tempo de decidir se você atropiniza este paciente agora. Quem espera colinesterase para começar atropina em paciente com ausculta cheia de secreção está trocando um dado que chega em horas por uma decisão que se toma em minutos.

Há também exames que a diretriz recomenda solicitar por outro motivo: creatinofosfoquinase e amilase séricas entram na avaliação de admissão do suspeito de exposição a organofosforados. Eles não confirmam a intoxicação; descrevem complicações que mudam o cuidado — lesão muscular e pancreatite.

E há o exame que não se pede. Rastreio toxicológico urinário amplo não decide conduta em nenhum dos cinco agentes deste capítulo: não detecta organofosforado, não detecta monóxido, não quantifica paracetamol de forma utilizável, e deixa de fora tramadol e fentanil entre os opioides. O papel dele é documental.

Escalas: Peradeniya na porta, APACHE II na unidade

A diretriz federal de intoxicações por agrotóxicos faz duas recomendações fortes de estratificação, e vale conhecer as duas porque elas mostram como uma diretriz brasileira constrói a régua. Na admissão do paciente com suspeita de exposição a organofosforados, usa-se a Escala de Peradeniya para categorizar a gravidade. Para estimativa de prognóstico do adulto já admitido em terapia intensiva, determina-se o escore APACHE II.

As evidências que sustentam a primeira vêm de um estudo com 50 pacientes intoxicados por organofosforados, 66% do sexo masculino e a maioria com menos de 39 anos, classificados na admissão como leves em 50%, moderados em 44% e graves em 6%. Nos graves houve incidência significativamente maior de insuficiência respiratória, tempo maior de internação em terapia intensiva e maior percentual de óbito, com gradação nos demais grupos. As três proporções somam exatamente 100% e correspondem a 25, 22 e 3 pacientes — números inteiros que fecham com a amostra declarada. É o tipo de conferência que costuma passar em branco e que, quando falha, invalida o parágrafo inteiro.

A segunda recomendação vem de uma análise multivariada em que bicarbonato sérico e APACHE II foram os fatores importantes para o prognóstico, num grupo de 57 homens (62%) e 35 mulheres (38%), com 81 sobreviventes (88%) e 11 não sobreviventes (12%). Também fecha: 57 mais 35 dá 92, e 81 mais 11 dá 92.

Nem tudo na mesma diretriz fecha, e o que não fecha está registrado nas notas de auditoria do bloco seguinte. O ponto aqui é outro: escala de admissão e escore de prognóstico respondem perguntas diferentes, em momentos diferentes, e o interno que aplica APACHE II na porta ou Peradeniya no terceiro dia está usando as duas ferramentas para nada.

O que se pede em todos, e o que não se pede em ninguém

Existe um conjunto pequeno que vale para os cinco agentes e que quase não custa. Glicemia capilar, porque hipoglicemia acompanha ou imita qualquer rebaixamento e reverte por completo. Eletrocardiograma de doze derivações, porque responde em minutos sobre alargamento de complexo, prolongamento de intervalo e sinais de distúrbio eletrolítico, e porque é o exame que flagra a coingestão de um agente cardiotóxico que ninguém mencionou. Gasometria com lactato, porque acidose metabólica muda o patamar de gravidade em monóxido, em colinérgico e em coingestão. Função renal e hepática, eletrólitos e hemograma, como linha de base do que vai ser reavaliado.

Do lado do que não se pede: exame de imagem de crânio não é rotina de intoxicação com agente conhecido e história compatível, e pedi-lo por reflexo atrasa o antídoto. Radiografia de tórax entra por indicação clínica — broncoaspiração, edema pulmonar, secreção colinérgica —, não por protocolo. E dosagem de nível sérico de opioide não se faz, porque não se correlaciona com o quadro.

Há um par de exames que se pede pela estatística das ingestões, não pela suspeita: paracetamol e salicilato séricos em toda ingestão intencional de comprimidos, quando disponíveis, pela frequência das formulações combinadas. É a única "pescaria" laboratorial defensável deste capítulo, e ela existe porque o paracetamol é o agente que não avisa.

A ligação para o centro de informação toxicológica é um exame

O Guia de Vigilância em Saúde diz, dentro do texto assistencial, que informações adicionais sobre intoxicações podem ser obtidas no centro de informação e assistência toxicológica da sua região, e dá o número gratuito do Disque-Intoxicação: 0800 722 6001. A diretriz federal de intoxicações por agrotóxicos vai além e coloca a instrução dentro de uma nota de rodapé operacional, mandando entrar em contato com o centro da região para obtenção de mais informações. Não é sugestão de rodapé de livro: é uma orientação de documento normativo em vigor.

A ligação rende na proporção do que você leva para ela. Vale ter na mão, antes de discar: o agente pelo nome comercial ou popular e pelo princípio ativo, com a concentração impressa no rótulo; a apresentação e a quantidade estimada, em comprimidos, mililitros ou gramas; o horário da exposição e a via; peso e idade do paciente; gestação; comorbidades e medicamentos de uso; sinais vitais e o exame de agora; o que já foi feito; e o que o seu serviço tem — se há vaga de terapia intensiva, se há ventilador, se a farmácia tem o antídoto e quantas ampolas.

O que se pede de volta é igualmente concreto: se a dose ingerida é potencialmente tóxica para aquele peso, se cabe alguma descontaminação e em que janela, qual antídoto e em que dose, por quanto tempo observar, quais os critérios de alta e para onde transferir se for o caso. Registre no prontuário o horário da ligação, o centro que atendeu e a orientação recebida — isso protege o paciente e protege você.

Uma limitação que o capítulo assume, porque tem consequência prática: o 0800 transfere a chamada para o centro mais próximo da região de onde ela partiu, e sete unidades federativas não têm centro próprio. Quem liga de Alagoas, Rondônia, Roraima, Acre, Amapá, Maranhão ou Tocantins é atendido por um centro de fora — que sabe toxicologia e não sabe a geografia do seu estado. Nesses casos, a informação sobre estoque local, hospital de referência e tempo de transporte precisa ser levada por você para dentro da ligação, e não esperada dela.

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O que decide, com a conta na mão

A abordagem sindrômica e o suporte vêm desde o primeiro contato, em paralelo à identificação da exposição e à descontaminação indicada. Use a consulta por agente para responder o que muda no mecanismo, no exame e na intervenção. Nenhum antídoto substitui ventilação, perfusão e reavaliação; em algumas intoxicações, administrá-lo cedo faz parte desse suporte. As três tabelas abaixo respondem, nesta ordem, às três perguntas do capítulo: dá para descontaminar, existe antídoto e o serviço tem esse antídoto. As notas ao final trazem a aritmética recalculada sobre as normas e os manuais citados, incluindo as conferências que passaram sem problema.

  1. 1Segurança primeiro: ambiente arejado, equipe com luvas e proteção, roupa contaminada retirada e cortada se preciso.
  2. 2Suporte antes de agente: via aérea, ventilação, oxigênio, acesso, monitorização, glicemia capilar, temperatura e eletrocardiograma.
  3. 3Nomear o agente com nome comercial ou popular e princípio ativo, a concentração do rótulo, a quantidade estimada, o horário e a via.
  4. 4Perguntar quem mais foi exposto — na casa, no trabalho, na mesma refeição — e se a fonte continua ligada.
  5. 5Decidir descontaminação pelo relógio, não pela vontade: pele e olho sempre que houve contato; estômago quase nunca.
  6. 6Ligar para o centro de informação e assistência toxicológica quando houver dúvida de dose, de agente ou de antídoto, e registrar a orientação no prontuário.
  7. 7Dar o antídoto que muda desfecho e não dar o que cria problema: oxigênio no monóxido, atropina no colinérgico, naloxona no opioide, acetilcisteína no paracetamol; flumazenil só em indicação estreita.
  8. 8Confirmar com a farmácia a existência e a quantidade do antídoto antes de começar a titular — a conta de ampolas é grande.
  9. 9Observar pelo relógio do agente, não pelo aspecto do paciente: o assintomático de paracetamol e o exposto a inibidor de colinesterase lipossolúvel são os que voltam.
  10. 10Notificar na ficha de investigação de intoxicação exógena, preenchendo agente e circunstância; abrir ficha de surto se houver risco de novos casos.
  11. 11Emitir a Comunicação de Acidente de Trabalho quando a exposição for ocupacional e o paciente for segurado.
  12. 12Não dar alta clínica antes de a fonte estar eliminada, e não dar alta em circunstância autoprovocada antes da avaliação de saúde mental.

O que se faz antes de saber o nome do agente

Tirar o paciente da fonte e a fonte do paciente; proteger a equipe; oxigênio; glicemia capilar; eletrocardiograma; acesso venoso; temperatura. Nenhuma dessas medidas depende de diagnóstico, e nenhuma delas fica melhor se você esperar. O nome do agente muda o que vem depois — não muda isso.

Descontaminação: o que ainda se faz, e até quando

MedidaJanela declaradaQuando considerarNão fazer quandoOnde está escrito
Retirada da fonte e do paciente do ambienteimediata, antes de tudotoda exposição inalatória; oxigênio umidificado suplementar em seguidanunca se dispensa; equipe entra protegidaManual de Toxicologia Clínica, 2017
Descontaminação cutânea (roupa, calçado, cabelo, pele)imediata e concomitante à reanimaçãotodo contato com inseticida, agrotóxico ou produto químico; água abundante e sabão neutro, de preferência no chuveironão se posterga por instabilidade — faz-se junto com o suporteDiretrizes de intoxicações por agrotóxicos; Manual de Toxicologia Clínica
Descontaminação ocularimediatauma a duas gotas de colírio anestésico e lavagem com soro fisiológico ou água filtrada, do canto medial para fora, pálpebras abertas, por pelo menos 5 minutos; avaliação oftalmológicanão substitui avaliação especializadaManual de Toxicologia Clínica, 2017
Êmese provocadanão há janela: saiu do arsenalnão se provoca vômito; se o vômito for espontâneo, não se inibesempreDiretrizes de intoxicações por agrotóxicos
Lavagem gástricaUso excepcional; a janela depende do agente e da avaliação toxicológica. Não fazer lavagem de rotina.ingestão de dose potencialmente letal, testemunhada, em paciente consciente que consente ou já intubado; sonda calibrosa, decúbito lateral esquerdo, alíquotas de 250 mLcáustico, solvente, risco de perfuração ou sangramento, rebaixamento sem via aérea protegida, horário desconhecidoDiretrizes de intoxicações por agrotóxicos (recomendação forte contra uso rotineiro)
Carvão ativado em dose únicaCarvão: maior benefício precoce; uso após 1 hora depende de agente, formulação, risco e absorção em curso, com CIATox.grande quantidade de agente muito tóxico e adsorvível; adulto 50 g em 250 mL, criança 1 g/kg em suspensão de 4 a 8 mL por gramaácido, álcali, álcool, cianeto, metais como lítio e ferro; cáustico; obstrução intestinal; via aérea desprotegida; antídoto por via oralDiretrizes de intoxicações por agrotóxicos (recomendação condicional contra uso rotineiro)
Carvão ativado em doses múltiplasmedida de eliminação, não de descontaminaçãoagentes de ação prolongada ou com circulação êntero-hepática — fenobarbital, carbamazepina, dapsonarisco de constipação e impactação; broncoaspiração no torporosoManual de Toxicologia Clínica, 2017
Catártico associado ao carvãonão há janela: recomendação forte contranão se usa como medida de eliminaçãosempre, na intoxicação por agrotóxico e por inibidor de colinesteraseDiretrizes de intoxicações por agrotóxicos
Irrigação intestinal com polietilenoglicolraramente indicadapacotes de droga ingeridos e quantidades tóxicas de substâncias não adsorvidas pelo carvão, como ferro e lítio; adulto 1.500 a 2.000 mL/h por sonda enteralíleo paralítico, perfuração, hemorragia digestiva, instabilidade hemodinâmicaManual de Toxicologia Clínica, 2017
Alcalinização urináriamedida de eliminaçãoácidos fracos lipossolúveis — fenobarbital, salicilato; alvo de pH urinário acima de 7,5 com pH sérico entre 7,55 e 7,6insuficiência renal, edema pulmonar ou cerebral, cardiopatiaManual de Toxicologia Clínica, 2017
Hemodiálise / hemoperfusãomedida de eliminação, decidida com o nefrologistaagente de baixo peso molecular, pequeno volume de distribuição e baixa ligação proteica — fenobarbital, teofilina, lítio, salicilato, álcoois tóxicos; nos organofosforados lipossolúveis e nas doses muito altas, recomendação condicional a favornão é conduta de porta; depende de disponibilidade e de indicaçãoManual de Toxicologia Clínica; Diretrizes de intoxicações por agrotóxicos

Os cinco agentes e o que o país tem para eles

AgenteO que muda desfechoConsta na Rename 2024?Componente e apresentaçãoPegadinha
Monóxido de carbonooxigênio a 100% em máscara não reinalante; câmara hiperbárica em casos selecionadosnão — busca exata por "oxigênio" no documento inteiro devolve zerogás medicinal; não é item de nenhum dos quatro anexos da listao antídoto é infraestrutura do serviço, não item de farmácia; e o oxímetro de pulso não mede o problema
Organofosforado e carbamatoatropina em doses incrementais até atropinização, mais suporte ventilatóriosim — sulfato de atropina 0,25 mg/mL solução injetávelComponente Básicoa escalada consome caixa inteira: 100 ampolas de 1 mL somam 25 mg
Organofosforado (antídoto complementar)oximas — a diretriz federal recomenda condicionalmente contrasim — metilsulfato de pralidoxima 200 mg solução injetávelComponente Básicoa diretriz nomeia o sal como mesilato e a Rename lista o metilsulfato; ter na lista não é ter indicação
Opioidenaloxona escalonada, com meta de ventilaçãosim — cloridrato de naloxona 0,4 mg/mL solução injetávelComponente Básicoa duração do antídoto é menor que a de vários opioides; reversão não é critério de alta
Benzodiazepínicosuporte; flumazenil só em indicação estreitasim — flumazenil 0,1 mg/mL solução injetávelComponente Básicoé o antídoto mais disponível e o de indicação mais rara; usado às cegas, convulsiona
ParacetamolN-acetilcisteína, protocolo intravenoso de 21 horas ou oral de 17 dosesnão — busca exata por "acetilcisteína" no documento inteiro devolve zerodepende de padronização local do hospitalo único dos cinco cujo antídoto muda mortalidade e não está no elenco nacional
Coingestão frequente (referência)glicose hipertônica, tiamina, bicarbonato de sódio, biperideno, hidroxocobalaminasim, todosBásico, exceto hidroxocobalamina 5 g (Estratégico)a tiamina consta só como comprimido de 300 mg, e o protocolo de urgência pede a via injetável

Da miligrama à ampola: adulto de 70 kg, apresentações reais de bula

Fármaco e apresentaçãoDose do protocoloMassaVolume / unidadesConferência
Sulfato de atropina 0,25 mg/mL, ampola de 1 mL, caixa com 100 ampolasataque de 0,6 a 3 mg0,6 mg / 3 mg2 a 12 ampolas (2 a 12 mL)0,6 ÷ 0,25 = 2,4 ampolas; 3 ÷ 0,25 = 12 ampolas
Sulfato de atropina — escalada dobrando a cada 5 minutos1, 2, 4, 8 e 16 mg31 mg acumulados4, 8, 16, 32 e 64 ampolas — 124 ampolas no totala caixa fechada de 100 ampolas contém 25 mg: a escalada até o quinto degrau esgota a caixa e ainda faltam 6 mg
Sulfato de atropina — manutenção10% a 20% da dose de atropinização, por hora3,1 a 6,2 mg/h se a atropinização exigiu 31 mg12 a 25 ampolas por hora, em salina 0,9%0,10 × 31 = 3,1 mg; 3,1 ÷ 0,25 = 12,4 ampolas
Cloridrato de naloxona 0,4 mg/mL, ampola de 1 mLTitulação IV do manual: 0,04 mg, 0,4 mg e 2 mg, com reavaliação e suporte ventilatório10 mg é ponto de reavaliação, não teto diagnóstico absoluto; esquema posterior com equipe/CIAToxSolução original 0,4 mg/mL: 0,4 mg = 1 mL e 2 mg = 5 mL. Para 0,04 mg, preparar diluição e administrar 1 mL de 0,04 mg/mL.0,4 mg em volume final de 10 mL fornece 0,04 mg/mL: a primeira dose é 1 mL da diluição. Conferir rótulo e volume.
Flumazenil 0,1 mg/mL, ampola de 5 mL (0,5 mg por ampola)0,3 mg inicial, teto de 3 mg; infusão de 0,2 a 1 mg/haté 3 mg3 mL por dose; 30 mL no teto (6 ampolas); 2 a 10 mL por hora na infusão3 ÷ 0,5 = 6 ampolas; a infusão de 1 mg/h consome 2 ampolas por hora
N-acetilcisteína 300 mg/3 mL, protocolo intravenoso de 21 horas150 mg/kg em 60 min; 50 mg/kg em 4 h; 100 mg/kg em 16 h10,5 g + 3,5 g + 7 g = 21 g35 + 12 + 24 = 71 ampolas abertas; administrar exatamente 210 mL de fármaco, descartando 3 mL de sobras entre as etapasa dose de ataque tem 105 mL de fármaco para 200 mL de diluente prescritos: o volume real infundido em 60 minutos é de cerca de 305 mL
N-acetilcisteína — protocolo oral de 17 doses140 mg/kg de ataque; 70 mg/kg a cada 4 h9,8 g + 17 × 4,9 g = 93,1 genvelopes de 100, 200 ou 600 mg140 + 17 × 70 = 1.330 mg/kg em cerca de 72 h, contra 300 mg/kg em 21 h pela via intravenosa
Carvão vegetal ativado, pó para suspensão oraladulto 50 g em 250 mL; criança 1 g/kg50 gsuspensão de 1 g para cada 5 mL50 g em 250 mL é 1:5, dentro da faixa de 4 a 8 mL por grama que o mesmo manual recomenda
Oxigênio a 100%, máscara não reinalante10 a 15 L/min até assintomáticonão se mede em miligramasmeia-vida do monóxido cai de 252 minutos em ar ambiente para cerca de uma hora252 min = 4,2 h, dentro da faixa de 4 a 6 h que o mesmo capítulo declara

A periodicidade de notificação foi conferida na norma vigente e se sustenta. Na Lista Nacional de Notificação Compulsória com a redação dada pela Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026, o item 40 — intoxicação exógena — traz uma única marcação, na coluna semanal, enquanto botulismo, cólera e febre amarela trazem três, uma para cada esfera de governo. O artigo 5º da mesma portaria lista as periodicidades que mudaram, e são apenas difteria e tétano. A notificação semanal da intoxicação exógena segue valendo.

A mesma portaria de 2026 tem um erro de remissão no artigo que executa a substituição. A ementa, o inciso I do artigo 1º e o cabeçalho do próprio anexo dizem que o que se altera é o Anexo 1 do Anexo V da Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 2017. O artigo 8º, que é o dispositivo que manda o anexo vigorar na nova forma, diz Anexo 1 do Anexo X. São anexos diferentes da mesma portaria de consolidação, e o dispositivo que opera a mudança aponta para o errado. O conteúdo publicado é inequívoco, mas quem citar o artigo 8º literalmente vai citar o anexo trocado.

O Manual de Toxicologia Clínica de 2017 fundamenta a notificação na Portaria MS/GM nº 204, de 17 de fevereiro de 2016 — e repete essa citação ao final de cada capítulo de agente. A matéria foi consolidada em 2017 e a lista já recebeu nova redação em 2020, 2023, 2025 e 2026. A própria diretriz federal de agrotóxicos, de 2020, já cita a Portaria 204/2016 apenas como origem do anexo consolidado, e não como norma autônoma. A obrigação de notificar continua existindo e o agravo continua na lista; o que envelheceu é a citação.

As três afirmações sobre a meia-vida do monóxido de carbono, no mesmo capítulo do manual paulista, não são compatíveis entre si. A seção de farmacocinética declara meia-vida de 252 minutos; a seção de medidas de eliminação declara 4 a 6 horas — e 252 minutos são 4,2 horas, de modo que essas duas fecham. A terceira não fecha: o mesmo parágrafo diz que a meia-vida cai para "6 a 75 minutos" com oxigênio a 100% e para 20 minutos com câmara hiperbárica. Se o limite inferior de 6 minutos fosse real, o oxigênio normobárico seria mais rápido que a câmara hiperbárica indicada, no mesmo parágrafo, para os casos graves. O número consagrado é da ordem de uma hora, e a leitura mais provável é a perda de um zero em "60 a 75 minutos".

O valor basal mais alto de carboxiemoglobina no fumante não é um piso permanente: após afastar a exposição, o monóxido é eliminado, mais rapidamente com oxigênio. Portanto, não há incompatibilidade lógica entre tabagismo e queda abaixo de 5%. A decisão clínica considera sintomas, exame neurológico e cardíaco, tempo desde a exposição e tratamento recebido; não se dá alta nem se dispensa avaliação especializada apenas por atingir um número.

As diretrizes federais de intoxicação por agrotóxicos trazem, no capítulo aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 79, de 14 de dezembro de 2018, um ensaio clínico cujo denominador muda entre dois parágrafos consecutivos. O grupo que recebeu atropina em bolus é declarado com 81 pacientes; três linhas abaixo, a mortalidade desse grupo aparece como 18/80. Os outros três desfechos do mesmo grupo confirmam que o denominador é 81: 28,4% de toxicidade por atropina corresponde a 23 pacientes exatos em 81, 13,6% de síndrome intermediária corresponde a 11, e 24,7% de necessidade de suporte respiratório corresponde a 20 — nenhum desses percentuais dá número inteiro sobre 80. Com 81, a mortalidade seria 22,2% em vez de 22,5%: a conclusão do estudo não muda, mas um dos quatro desfechos foi calculado sobre uma amostra diferente da dos outros três. O erro atravessou a consolidação: está igual na edição do Ministério da Saúde de 2020.

O sal da pralidoxima diverge entre dois documentos federais em uso. A diretriz de agrotóxicos afirma que a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais apresenta o mesilato de pralidoxima como a forma disponibilizada pelo SUS; a Rename 2024 lista metilsulfato de pralidoxima 200 mg solução injetável, no Componente Básico, código V03AB04. Mesilato e metilsulfato são sais distintos. Quem procurar no elenco vigente pelo nome que a diretriz usa não encontra o item.

A janela da descontaminação gastrintestinal é declarada de dois jeitos dentro do mesmo manual paulista. O texto corrido diz que os benefícios maiores estão nas ingestões recentes, isto é, até 1 a 2 horas da exposição; o fluxograma de atendimento inicial, quatro páginas adiante, pergunta "ingestão até 1h?" para indicar lavagem gástrica com carvão ativado. A diferença de uma hora é grande num procedimento cuja principal complicação é broncoaspiração, e o fluxograma é o que o plantão consulta.

A dose pediátrica de carvão ativado não traz teto, e por isso cruza a dose fixa do adulto. O manual prescreve 1 g/kg para criança e 50 g para adulto: a partir de 50 quilos, a régua pediátrica passa a pedir mais carvão que a régua adulta — um adolescente de 70 quilos receberia 70 g pela primeira e 50 g pela segunda. É a mesma família de erro que aparece em bulas sem a ressalva de "não exceder a dose do adulto".

As duas réguas de dose tóxica de paracetamol do manual se encontram exatamente onde deveriam, e vale registrar a conferência que passou: 7,5 g, o limiar do adulto, correspondem a 150 mg/kg — o limiar da criança acima de 6 anos — em uma pessoa de 50 quilos. Acima disso, o limiar fixo do adulto é o mais conservador dos dois: num adulto de 100 quilos, os mesmos 7,5 g equivalem a 75 mg/kg.

A composição do carvão com catártico foi recalculada e fecha: 100 mL de sulfato de magnésio a 10% contêm 10 g de sal, e 50 g de carvão em 250 mL de suspensão dão 1 g para cada 5 mL, dentro da faixa de 4 a 8 mL por grama que o mesmo manual recomenda. O problema dessa preparação não é aritmético: é que a diretriz federal recomenda fortemente contra o uso de catárticos como medida de eliminação nas intoxicações por agrotóxicos e por inibidores de colinesterase.

A busca no texto integral da Rename 2024 — 252 páginas, feita sobre o texto normalizado, sem depender de leitura visual — devolve zero ocorrência para acetilcisteína, zero para oxigênio, zero para azul de metileno e zero para fitomenadiona. Devolve, por outro lado, sulfato de atropina 0,25 mg/mL, cloridrato de naloxona 0,4 mg/mL, flumazenil 0,1 mg/mL, metilsulfato de pralidoxima 200 mg, carvão vegetal ativado em pó, glicose a 50%, bicarbonato de sódio a 8,4%, biperideno em comprimido e em solução injetável de 5 mg/mL e cloridrato de tiamina 300 mg comprimido, todos no Componente Básico, além da hidroxocobalamina 5 g no Estratégico e do mesilato de desferroxamina e da penicilamina no Especializado. A leitura que interessa ao plantão: dos cinco agentes deste capítulo, o antídoto que mais muda mortalidade é justamente o que não está no elenco nacional.

Dois antídotos que aparecem na Rename estão lá amarrados a outra indicação. A desferroxamina, antídoto da intoxicação aguda por ferro, e a penicilamina figuram no Componente Especializado com documento norteador de protocolos de sobrecarga crônica de ferro, de distúrbio mineral ósseo na doença renal crônica e de doença de Wilson. Constar da lista por uma indicação crônica não garante disponibilidade para uma emergência aguda, e essa distinção é a diferença entre ter o medicamento e ter acesso a ele.

A cobertura da rede toxicológica foi recontada a partir da própria relação publicada pela Anvisa e o número divulgado se sustenta, com uma sutileza. A página informa 36 centros em 19 estados; a relação de endereços cobre 20 unidades federativas, o que bate exatamente com 19 estados mais o Distrito Federal. Restam sete unidades federativas sem centro próprio. A página nomeia quatro delas como estados em processo de abertura — Amapá, Acre, Maranhão e Tocantins — e não menciona as outras três, Alagoas, Rondônia e Roraima, que igualmente não aparecem na relação.

A edição de 2020 das diretrizes de agrotóxicos traz atribuição institucional divergente entre a capa e a ficha catalográfica. A capa credita a obra ao Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis e à Coordenação Geral de Vigilância de Arboviroses; a ficha catalográfica e o expediente creditam ao Departamento de Saúde Ambiental, do Trabalhador e Vigilância das Emergências em Saúde Pública, com a Coordenação-Geral de Vigilância em Saúde Ambiental. A ficha da mesma obra ainda registra a classificação decimal universal 616-002.5, que é a classe da tuberculose — esta última observação é leitura desta redação sobre o código, não uma correção publicada.

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A conduta, hora a hora

A ordem abaixo é deliberadamente contrária à que se aprende para prova. Na prova, o agente vem primeiro e o antídoto é a resposta. No plantão, o antídoto é o sexto item de uma lista em que os cinco primeiros salvam mais gente.

  1. Minuto 0 — antes de qualquer hipótese

    Tirar o paciente da fonte, a fonte do paciente e a equipe do caminho. Na exposição inalatória, isso significa ambiente arejado e longe do local; na exposição a inseticida ou agrotóxico, significa retirar roupa, calçado e adornos, cortando as peças se preciso, e lavar pele e cabelo com água abundante e sabão neutro, de preferência no chuveiro. A descontaminação cutânea é feita ao mesmo tempo que a reanimação, não depois dela: enquanto houver produto na pele, o paciente continua se intoxicando e a equipe começa a se intoxicar. Luvas e proteção não são cortesia — o vômito e a roupa são fonte. Na exposição ocular, uma a duas gotas de colírio anestésico e lavagem contínua com soro fisiológico ou água filtrada, do canto medial para fora, com as pálpebras abertas, por pelo menos cinco minutos, e depois avaliação oftalmológica.

    Prescrição
    • Retirar vestes e calçados contaminados, cortando-os se necessário, e acondicioná-los separadamente.
    • Lavar pele e cabelo com água corrente abundante e sabão neutro (Diretrizes brasileiras para intoxicações agudas por agrotóxicos, 2020).
    • Lavagem ocular com soro fisiológico 0,9% por no mínimo 5 minutos após colírio anestésico, do canto medial para o externo.
    • Equipe com luvas e proteção durante toda a descontaminação.
  2. Minuto 0 — junto com a descontaminação

    Suporte antes de agente. Via aérea pérvia, aspiração de secreção, oxigênio suplementar, ventilação com bolsa-válvula-máscara se a frequência respiratória cair, monitorização, acesso venoso calibroso, glicemia capilar e temperatura medida. Eletrocardiograma de doze derivações em todo paciente intoxicado, porque ele volta em três minutos e responde por coingestão que ninguém mencionou. Nada disso depende de saber o nome do agente, e nada disso melhora se você esperar o nome. Um detalhe contraintuitivo que a diretriz federal registra e que economiza tempo em sala cheia: a administração de oxigênio não é condição prévia para o uso de atropina — um ensaio clínico não encontrou evidência que sustente dar oxigênio antes.

    Prescrição
    • Oxigênio suplementar, ajustado ao alvo de saturação, com aspiração de secreções.
    • Acesso venoso calibroso e coleta das amostras no mesmo momento da punção.
    • Glicemia capilar e temperatura axilar medidas e anotadas com horário.
    • Eletrocardiograma de 12 derivações.
  3. Suspeita de monóxido de carbono — imediato e sem confirmação

    Na suspeita de intoxicação por monóxido de carbono, iniciar oxigênio a 100% por máscara não reinalante de alto fluxo e reavaliar estado neurológico, respiração e coração. A carboxiemoglobina depende do tempo fora da fonte e do oxigênio já recebido; tabagismo pode elevar o valor inicial, mas não impede sua queda após afastar a exposição. Um resultado isolado não mede bem a gravidade nem determina sozinho a duração do tratamento. Mantenha oxigênio até resolução clínica, com avaliação seriada e interpretação da cooximetria quando disponível. Perda de consciência, comprometimento neurológico ou cardíaco, acidose importante e carboxiemoglobina muito elevada justificam discussão precoce de oxigenoterapia hiperbárica; condições clínicas podem indicá-la mesmo com valor menor. A gestação exige avaliação especializada precoce e abordagem mais intensiva, sem esperar sofrimento fetal para pedir orientação. Antes da alta, elimine a fonte e planeje retorno, inclusive para sintomas neurológicos tardios (CDC, orientação clínica consultada em 14/09/2026).

    Prescrição
    • Oxigênio a 100% sob máscara não reinalante, 10 a 15 L/min, até o paciente ficar assintomático (Manual de Toxicologia Clínica, 2017).
    • Manter oxigenoterapia por período prolongado na gestante, com monitorização fetal.
    • Acionar o centro de referência para avaliar câmara hiperbárica se houver coma, déficit neurológico, isquemia, acidose persistente, sofrimento fetal ou carboxiemoglobina acima de 25%.
    • Não liberar nenhum contactante antes de confirmar que a fonte foi eliminada.
  4. Descontaminação — decidir pelo agente, pelo risco e pela via aérea

    Lavagem gástrica e carvão ativado são intervenções diferentes e não formam um pacote de rotina. Primeiro estabilize e proteja a via aérea. Lavagem tem indicação excepcional, a discutir com toxicologia, por risco de aspiração e benefício incerto. Carvão pode ser considerado em ingestão potencialmente tóxica de agente adsorvível quando há benefício plausível e via aérea intacta ou protegida; estar acordado por instantes não basta para tornar segura sua administração. O benefício tende a ser maior quando administrado cedo, mas 60 minutos não é um veto universal para todo agente e formulação. Apresentações com absorção retardada, grande ingestão e outras situações selecionadas exigem avaliação individual com CIATox. Horário desconhecido aumenta a incerteza, não prova sozinho ausência de benefício. No paciente sonolento, com comprimidos e tempo desconhecidos, não se indica sonda, lavagem ou carvão automaticamente: monitore, investigue e discuta os riscos. Não provoque vômito nem associe catártico por rotina. O ensaio brasileiro citado sobre inibidores de colinesterase não deve ser generalizado para toda intoxicação medicamentosa.

    Prescrição
    • Quando o carvão estiver indicado: 50 g em suspensão de 250 mL, dose única por via oral somente com via aérea intacta e cooperação, ou por sonda se a via aérea estiver protegida e houver indicação. Confirmar preparo, agente e contraindicações com CIATox; sonolência com despertar ao chamado não garante reflexos protetores (dose do Manual de Toxicologia Clínica, 2017).
    • Em criança, carvão ativado 1 g/kg, em suspensão de 4 a 8 mL por grama, sem exceder a dose do adulto.
    • Não administrar carvão em ingestão de ácido, álcali, álcool, cianeto, lítio ou ferro, nem em obstrução intestinal ou via aérea desprotegida.
    • Não usar catártico como medida de eliminação (Diretrizes brasileiras para intoxicações agudas por agrotóxicos, 2020).
  5. Síndrome colinérgica — assim que reconhecida

    Atropina em doses incrementais até a atropinização, com recomendação forte a favor: ataque de 0,6 a 3 mg por via intravenosa, dobrando a dose a cada 5 minutos. Os alvos são ausculta pulmonar limpa, frequência cardíaca acima de 80 bpm e pressão sistólica acima de 80 mmHg; axila seca serve como sinal auxiliar, porque a sudorese é dos primeiros sintomas a reverter. A pupila não serve de alvo: a reversão da miose é tardia e pode refletir exposição ocular direta. Alcançada a atropinização, mantém-se infusão contínua de 10% a 20% da dose total requerida, por hora, em salina 0,9%; se os sintomas colinérgicos retornarem, volta-se ao bolus e aumenta-se a infusão em 20% por hora. Vale mandar buscar a caixa antes de começar: a escalada de 1, 2, 4, 8 e 16 mg consome 4, 8, 16, 32 e 64 ampolas de 0,25 mg — 124 ampolas, quando a caixa fechada de 100 ampolas contém 25 mg. Sobre a oxima, o capítulo mostra as duas posições brasileiras no bloco de divergências; o que não muda em nenhuma delas é que ela nunca substitui nem atrasa a atropina, e que nos carbamatos a diretriz federal a contraindica.

    Prescrição
    • Sulfato de atropina 0,25 mg/mL, ataque de 0,6 a 3 mg IV rapidamente, dobrando a dose a cada 5 minutos até atropinização (Diretrizes brasileiras para intoxicações agudas por agrotóxicos, 2020).
    • Em criança, sulfato de atropina 0,01 a 0,06 mg/kg/dose IV, repetida a cada 5 a 15 minutos até atropinização.
    • Manutenção com 10% a 20% da dose total de atropinização por hora, em infusão contínua de cloreto de sódio 0,9%.
    • Solicitar à farmácia a caixa completa de atropina ao nomear a síndrome, antes de iniciar a escalada.
    • Registrar a cada 5 minutos ausculta, pressão, frequência cardíaca, pupila, secura axilar, ruídos peristálticos, temperatura e a dose acumulada.
  6. Depressão respiratória por opioide — frequência abaixo de 12

    Abra a via aérea e assista a ventilação desde o primeiro momento, enquanto a equipe administra naloxona. A meta é recuperar ventilação suficiente e proteção da via aérea. Em depressão respiratória com pulso, sob monitorização e ventilação assistida, a titulação intravenosa pode começar com 0,04 mg, seguida de 0,4 mg e 2 mg conforme resposta a cada 2 a 3 minutos. Apneia ou deterioração não permite perder tempo com uma titulação lenta: manter suporte e usar o esquema de emergência do serviço. Para medir 0,04 mg, uma ampola de 0,4 mg em 1 mL acrescida de 9 mL de diluente produz volume final de 10 mL e concentração de 0,04 mg/mL; administrar 1 mL dessa diluição. Não confundir com 0,1 mL da solução original. Ausência de resposta após dose acumulada elevada exige rever administração, diagnóstico, substâncias associadas e ventilação. Dez miligramas é um ponto de reavaliação do manual, não prova de ausência de opioide ou de dano cerebral irreversível; doses adicionais e infusão dependem do contexto e da toxicologia. Procure e retire adesivos transdérmicos, sem esquecer absorção residual. Se houver recorrência, mantenha observação e discuta novas doses ou infusão. Convulsões exigem seu próprio tratamento e não são resolvidas pela naloxona.

    Prescrição
    • Naloxona intravenosa titulada à ventilação, com assistência ventilatória em paralelo: no esquema de titulação do manual, 0,04 mg, 0,4 mg e 2 mg, reavaliando a cada 2 a 3 minutos. Ao atingir 10 mg sem resposta, revisar hipótese e administração com a equipe/CIATox; não usar esse total como teto absoluto ou teste de lesão cerebral. Na apneia, seguir prontamente o protocolo de emergência, sem atrasar ventilação (manual citado; AHA 2025, intoxicação por opioides).
    • Para a dose de 0,04 mg: adicionar 9 mL de cloreto de sódio 0,9% a uma ampola de naloxona 0,4 mg/1 mL. Volume final 10 mL, concentração 0,04 mg/mL: administrar 1 mL, com rótulo e conferência da diluição.
    • Procurar e retirar adesivo transdérmico de opioide, lavando a pele do local.
    • Convulsão associada a tramadol: benzodiazepínico por via intravenosa, conforme protocolo da unidade.
    • Manter monitorização prolongada após a reversão — a duração do antídoto é menor que a de vários opioides.
  7. Paracetamol — idealmente nas primeiras 8 horas

    N-acetilcisteína para todo paciente com risco de lesão hepática, o que inclui nível acima da linha de possível toxicidade no nomograma, história de ingestão de dose tóxica com nível indisponível, e horário de ingestão desconhecido. O protocolo intravenoso de 21 horas é 150 mg/kg em 200 mL de glicose a 5% em 60 minutos, 50 mg/kg em 500 mL em 4 horas e 100 mg/kg em 1.000 mL em 16 horas; o oral é 140 mg/kg de ataque e 70 mg/kg a cada 4 horas, em 17 doses. Escolha a via pelo paciente: quem vomita, está rebaixado ou tem via aérea insegura não completa 17 doses orais em três dias. Num adulto de 70 quilos, o protocolo intravenoso soma 21 g, 210 mL da solução de 300 mg em 3 mL; preparando cada etapa separadamente e descartando sobras de ampolas abertas, são necessárias 71 ampolas — e a dose de ataque tem 105 mL de fármaco para 200 mL de diluente prescritos, o que significa cerca de 305 mL correndo em 60 minutos. Acima de 24 horas da ingestão, com nível mensurável ou hepatotoxicidade bioquímica, ainda se trata, mantendo a última fase pelos dias necessários. Os volumes de diluente descritos são do exemplo adulto e precisam de ajuste em crianças ou restrição hídrica. Conferir dose, volume final e velocidade de cada bolsa com a farmácia; não arredondar a dose para usar a ampola inteira.

    Prescrição
    • N-acetilcisteína 150 mg/kg em 200 mL de glicose 5% IV em 60 minutos (Manual de Toxicologia Clínica, 2017).
    • N-acetilcisteína 50 mg/kg em 500 mL de glicose 5% IV em 4 horas.
    • N-acetilcisteína 100 mg/kg em 1.000 mL de glicose 5% IV em 16 horas.
    • Alternativa oral: 140 mg/kg de ataque e 70 mg/kg a cada 4 horas, em 17 doses, se o paciente estiver acordado, orientado e sem vômito.
    • Confirmar com a farmácia a apresentação padronizada e a quantidade disponível antes de iniciar — o antídoto não consta da Rename 2024.
  8. Antes da alta — e a alta tem pré-requisitos

    Três coisas acontecem antes de qualquer alta, e nenhuma é burocracia. A primeira é a fonte: paciente com intoxicação ambiental não volta para casa antes de a fonte estar eliminada e o ambiente livre, e os demais moradores precisam ser procurados e avaliados. A segunda é a notificação — ficha de investigação de intoxicação exógena no Sinan, com o agente preenchido em nome comercial ou popular e princípio ativo, registrada pelo município que atendeu, sem esperar o fim da investigação, e com encerramento em até 180 dias; se houver risco de novos casos ou potencial de contaminar mais pessoas, abre-se também a ficha de surto; se a exposição for ocupacional, marca-se o campo específico e emite-se a Comunicação de Acidente de Trabalho para o segurado do INSS. A terceira é a avaliação de saúde mental quando a circunstância é autoprovocada, com o paciente lúcido — e aí este capítulo entrega o caso ao de risco de suicídio, incluindo a notificação de violência autoprovocada em até 24 horas e o encaminhamento à Rede de Atenção Psicossocial.

    Prescrição
    • Ficha de Investigação de Intoxicação Exógena no Sinan, com o campo do agente tóxico preenchido em nome comercial ou popular e princípio ativo (Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed. rev., 2024).
    • Ficha de surto quando houver possibilidade de novos casos ou potencial de contaminação de mais pessoas.
    • Comunicação de Acidente de Trabalho quando a exposição for decorrente do trabalho e o paciente for segurado do INSS.
    • Encaminhamento à Rede de Atenção Psicossocial e avaliação de saúde mental antes da alta em circunstância autoprovocada.
    • Orientação escrita de retorno com sinais de alarme e, no monóxido de carbono, aviso sobre sintomas neurocognitivos tardios.
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Como saber se está funcionando

Reavaliar aqui não é repetir sinais vitais: é comparar o mesmo exame com ele mesmo, com horário anotado, dentro da janela em que aquela intervenção deveria ter respondido. Cada agente tem a sua janela. Passada a janela sem resposta, insistir na mesma dose deixa de ser tratamento e vira teimosia: a essa altura, o que precisa ser revisto é a hipótese, e o que precisa ser procurado é a coingestão.

Frequência respiratória, na intoxicação opioidea cada 2 a 3 minutos durante a titulação; depois, contínua por período prolongado

Esperado: subir acima de 12 incursões por minuto, com saturação adequada. É a frequência respiratória, e não o despertar, que define se a naloxona funcionou

Se não melhora: A ventilação assistida começa na apresentação, não depois de atingir um total de naloxona. Se não houver resposta, reavaliar via de administração, hipóteses e depressores associados, garantindo oxigenação e ventilação e preparando via aérea avançada quando indicada. Dez miligramas não excluem opioide nem confirmam dano cerebral irreversível; discutir novas doses ou infusão com toxicologia. Piora da oxigenação apesar de frequência recuperada exige investigar aspiração, edema pulmonar e outras causas.

Ausculta pulmonar, secura axilar e ruídos peristálticos, na atropinizaçãoa cada 5 minutos durante a escalada, em formulário próprio

Esperado: ausculta limpa de crepitações e sibilos, axila seca, frequência cardíaca acima de 80 bpm e pressão sistólica acima de 80 mmHg

Se não melhora: Dobre a dose e siga; a atropina em falta mata mais que a atropina em excesso durante a reanimação. Não use a pupila como alvo — a miose é dos últimos sinais a reverter. Retorno dos sintomas depois de atropinizado pede novo bolus e aumento de 20% na taxa de infusão.

Sinais de toxicidade por atropinaa cada 5 minutos durante a escalada e a cada 30 minutos após a pausa

Esperado: ausência de taquicardia grave, ausência de íleo, temperatura normal, sem delírio e sem retenção urinária

Se não melhora: A presença de três dos cinco sinais indica pausar a infusão e monitorar a cada 30 minutos; remitindo, reinicia-se com 80% da última dose de infusão. Taquicardia isolada não indica suspender a atropina — pode ser hipovolemia, hipóxia, pneumonia ou outro medicamento.

Sintomas e carboxiemoglobina, na intoxicação por monóxidoclínica continuamente; dosagem conforme disponibilidade, ao longo da oxigenoterapia

Esperado: desaparecimento de cefaleia, náusea, tontura e confusão, com carboxiemoglobina em queda em direção ao basal do próprio paciente

Se não melhora: Persistência de alteração do estado mental, déficit focal, isquemia miocárdica ou acidose metabólica apesar de oxigênio a 100% muda o patamar: discuta câmara hiperbárica com o centro de referência e considere coexposição a cianeto quando a origem for incêndio domiciliar.

Transaminases, razão normalizada internacional, bilirrubinas e função renal, no paracetamolna admissão e a cada 12 a 24 horas durante e após o protocolo

Esperado: transaminases estáveis ou em queda e coagulação normal ao fim das 21 horas

Se não melhora: Enzimas subindo junto com alargamento da coagulação querem dizer que a lesão já se instalou. Nesse cenário o antídoto não se interrompe no relógio: a terceira etapa segue pelos dias que forem precisos, o centro toxicológico entra na condução, e a transferência para um serviço com hepatologia e programa de transplante passa a ser assunto do mesmo turno.

Força cervical e força respiratória, no inibidor de colinesterasea cada 4 a 6 horas nas primeiras 48 a 96 horas, mesmo no paciente que melhorou

Esperado: manter a cabeça levantada do travesseiro por alguns segundos, sem fadiga, com padrão respiratório estável

Se não melhora: Fraqueza de flexores cervicais em paciente já atropinizado é a manifestação inicial descrita da síndrome intermediária, e antecede a insuficiência respiratória. Antecipe vaga de terapia intensiva e prepare via aérea antes da queda de saturação, em vez de aguardar o oxímetro.

Lactato, gasometria e diurese, em qualquer dos agentesna admissão e a cada 6 a 12 horas enquanto houver instabilidade

Esperado: lactato em queda, sem acidose metabólica progressiva, diurese preservada

Se não melhora: Acidose metabólica que não corrige com suporte é sinal de que a hipótese está incompleta: reabra o diagnóstico, procure coingestão e discuta medida de eliminação extracorpórea com o nefrologista e com o centro toxicológico, lembrando que ela depende de baixo peso molecular, pequeno volume de distribuição e baixa ligação proteica.

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Onde o erro machuca

Aceitar a saturação do oxímetro de dedo como prova de que não é monóxido de carbono

O dano: O aparelho lê a carboxiemoglobina como se fosse hemoglobina oxigenada e devolve um número normal. Uma família inteira recebe alta com diagnóstico de virose e volta para a casa onde está a fonte — e quem ficou dormindo lá dentro continua exposto. O dano tardio é neurocognitivo e aparece entre 2 e 40 dias depois.

Como pegar a tempo: Trate saturação normal como ausência de informação nesta hipótese. O que decide é o contexto: mais de uma pessoa da mesma casa com a mesma queixa, começo de tempo frio, e alguma combustão dentro de ambiente fechado. Comece o oxigênio a 100% na suspeita, sem esperar cooximetria.

Passar sonda e dar carvão porque "é intoxicação", sem saber o horário da ingestão

O dano: Lavagem e carvão podem causar aspiração, sobretudo em sonolência e perda de reflexos protetores. Na ingestão de agente e horário desconhecidos, o benefício também é incerto. Isso exige estabilização e avaliação individual; não torna a complicação inevitável nem transforma um limite de 60 minutos em regra universal para todas as formas de descontaminação.

Como pegar a tempo: Diferencie lavagem de carvão. Avalie substância, dose provável, formulação, tempo, absorção em curso, proteção da via aérea e contraindicações, com apoio do CIATox. Não faça procedimentos por rotina e não provoque vômito. No paciente sonolento e com história incerta, priorize suporte e investigação; exceções para carvão tardio precisam de justificativa clínica, não de aplicação automática.

Esperar o nível sérico de paracetamol para iniciar a acetilcisteína

O dano: O ganho do antídoto é máximo dentro das primeiras 8 horas, exatamente a fase em que o paciente está assintomático e o exame demora ou não existe. Perder essa janela não muda o exame — muda o fígado. E, se o horário da ingestão for desconhecido, o nomograma não é interpretável nem quando o resultado chega.

Como pegar a tempo: Trate por história quando houver ingestão de dose potencialmente tóxica sem nível disponível ou com horário desconhecido: é a própria regra do manual de referência. E descubra num plantão calmo se o seu hospital padronizou a apresentação injetável — ela não está na Rename 2024.

Titular a atropina pela pupila, ou suspendê-la por taquicardia isolada

O dano: A miose é dos últimos sinais a reverter: quem espera a pupila dilatar administra dose muito além da necessária. Do outro lado, suspender atropina porque o paciente taquicardizou devolve o paciente à broncorreia — e a morte da intoxicação colinérgica é respiratória, por secreção e fraqueza muscular.

Como pegar a tempo: Use os alvos declarados: ausculta limpa, axila seca, frequência acima de 80 bpm e sistólica acima de 80 mmHg. Para suspender, exija três dos cinco sinais de toxicidade atropínica — taquicardia grave, íleo, hipertermia, delírio e retenção urinária. Taquicardia sozinha não é um deles.

Usar flumazenil para acordar o paciente rebaixado

O dano: Em usuário crônico de benzodiazepínico, a retirada abrupta da modulação GABAérgica desencadeia abstinência e convulsão; na coingestão com agente pró-convulsivante, retira o único anticonvulsivante a bordo e produz uma crise de controle difícil, justamente porque o receptor está bloqueado. O manual que traz a dose traz o alerta na mesma linha.

Como pegar a tempo: Guarde o antagonista para a indicação estreita — reversão de sedação iatrogênica em paciente sem uso crônico e sem coingestão. No rebaixamento por benzodiazepínico isolado, o tratamento é posição, oxigênio, monitorização e tempo. E lembre que a duração do flumazenil, de 15 a 140 minutos, é menor que a de vários benzodiazepínicos.

Tratar o paciente e não tratar a casa, o trabalho ou a fonte

O dano: A intoxicação ambiental e a ocupacional têm sempre mais de um exposto, e o que fica em casa não vem ao pronto-socorro por definição — ele está dormindo, ou é a criança, ou é o idoso que não anda. Sem eliminar a fonte, a alta devolve o paciente ao agente. Sem notificar e sem abrir ficha de surto, a vigilância não vai à casa nem ao galpão.

Como pegar a tempo: Pergunte sempre quem mais foi exposto e se a fonte continua ligada, e trate a resposta como parte da prescrição. Notifique com o agente identificado por nome comercial e princípio ativo, abra ficha de surto quando houver possibilidade de novos casos, e emita a Comunicação de Acidente de Trabalho quando a exposição for do trabalho.

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O que dizer ao paciente e à família

Nas intoxicações, a conversa carrega informação que nenhum exame substitui — o que havia ao alcance, quanto, a que horas, quem mais estava lá — e carrega decisões que a família precisa entender para cumprir. As falas abaixo são modelos para adaptar, não frases para recitar.

Explicando à família que a doença está na casa, e não em cada um deles

Os três estão com a mesma coisa, e não é virose: é um gás que aparece quando alguma coisa queima dentro de casa com pouca ventilação. Ele não tem cheiro e o aparelhinho do dedo não enxerga, por isso o exame parecia normal. Vou tratar os três com oxigênio agora. E preciso de duas coisas da senhora: que alguém vá buscar a sua irmã, que ficou dormindo lá, mesmo que ela diga que está bem; e que ninguém volte para casa antes de alguém desligar e olhar o aquecedor e abrir tudo.

Não diga: Não diga "é só uma intoxicaçãozinha" nem prometa que passou porque a dor de cabeça melhorou. E não libere ninguém para "passar em casa rapidinho" antes de a fonte estar desligada.

Pedindo o material da exposição a quem trouxe o paciente

O que vai mudar o meu tratamento não é exame nenhum: é a embalagem. Preciso que o senhor volte lá e traga tudo o que estiver perto — caixas, cartelas, frascos, o vidro, o rótulo, até os vazios, e o saco de lixo se for o caso. Se não achar, tire foto do armário e da pia. E me diga três coisas: que horas foi a última vez que ele foi visto bem, o que mais tem em casa que outra pessoa toma, e se pode ter sido mais de uma coisa.

Não diga: Não pergunte apenas "o que ele tomou". Não descarte a embalagem que chegou, e não deixe de anotar a concentração impressa no rótulo — o mesmo produto existe em várias concentrações.

Ligando para o centro de informação e assistência toxicológica

Bom dia, aqui é o interno de plantão da unidade de pronto atendimento. Tenho um adulto de 70 quilos, sem comorbidades, que ingeriu há cerca de três horas um produto cujo rótulo diz carbamato, e trouxeram a embalagem. Está com miose, sialorreia, sudorese e estertores difusos, frequência 48, pressão 96 por 60, saturação 92% em ar ambiente. Já fiz oxigênio, acesso, glicemia, eletrocardiograma e retirei a roupa com lavagem de pele. Ainda não iniciei atropina. Preciso saber a dose de ataque que vocês recomendam, até onde escalonar, se cabe alguma descontaminação a esta altura e por quanto tempo observar. Meu serviço tem 100 ampolas de atropina, não tem oxima, e a terapia intensiva mais próxima fica a quarenta minutos.

Não diga: Não ligue sem o nome do princípio ativo, a concentração, a quantidade estimada e o horário. E não deixe de dizer o que o seu serviço tem — a orientação muda conforme o recurso disponível.

Explicando ao paciente acordado por que ele vai receber antídoto por 21 horas

Você está se sentindo bem, e isso é verdade e é esperado. O remédio que você tomou não machuca o fígado na hora: machuca depois de um a três dias, e quando começa a doer já é tarde. O antídoto funciona muito melhor se começar nas primeiras horas, que é agora. São três etapas seguidas, num total de vinte e uma horas, e você vai ficar com soro no braço esse tempo todo. É chato, é longo, e é a diferença entre não acontecer nada e acontecer uma coisa grave.

Não diga: Não use a palavra "prevenção" como se fosse opcional, e não sugira que ele pode reavaliar depois. Não prometa que não haverá efeito adverso — a infusão de ataque pode dar reação, e é melhor avisar antes.

Dizendo ao trabalhador que a exposição do trabalho gera documento

Pelo que o senhor descreveu, essa exposição aconteceu trabalhando. Isso muda uma coisa no atendimento: além da ficha de saúde que eu preencho para todo caso de intoxicação, eu emito uma comunicação de acidente de trabalho. Ela não é acusação contra ninguém e não depende de o senhor querer processar a empresa. Ela existe para garantir o seu direito junto à Previdência e para que a fiscalização possa ir ver como o produto está sendo usado lá — inclusive para os seus colegas.

Não diga: Não deixe de emitir por receio da reação do empregador, e não apresente o documento como formalidade sem sentido. Não marque "ignorado" no campo de relação com o trabalho por pressa.

Explicando por que o paciente assintomático fica em observação

Eu sei que ele está bem agora, e eu concordo com a senhora: ele está bem. O problema é que esse produto tem um atraso. Tem gente que fica bem por horas e depois começa a ter fraqueza, primeiro no pescoço, e daí para respirar. Por isso ele fica aqui monitorizado, e eu vou passar de tempos em tempos pedindo para ele levantar a cabeça do travesseiro. Se nada acontecer no tempo que a gente combinou, ele vai para casa com orientação escrita.

Não diga: Não diga "é só protocolo". Não dê um prazo que você não vai cumprir, e não deixe a família sem saber o que exatamente está sendo vigiado.

Passando o caso à equipe de saúde mental depois de estabilizar

Do lado clínico ele está estável: fez o antídoto, os exames estão controlados, e do ponto de vista da intoxicação ele tem alta hoje. O que falta é a parte que não é minha. Ele está lúcido e orientado desde as seis da manhã e ainda não conversou com ninguém sobre o que aconteceu. Não vou liberar antes dessa conversa, e deixei anotado o que ele contou e o que a família contou.

Não diga: Não trate a avaliação de saúde mental como etapa opcional quando a enfermaria está cheia. Não diga que o paciente "foi desintoxicado" como se isso encerrasse o caso, e não faça a avaliação de risco você mesmo se não é a sua função no serviço.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Manutenção da atropina no intoxicado por inibidor de colinesterase: infusão contínua ou bolus repetidos

Infusão contínua após a atropinização

A administração de atropina se faz em doses incrementais, com ataque de 0,6 a 3 mg e duplicação a cada cinco minutos até a atropinização, com recomendação forte a favor. Alcançada a atropinização, mantém-se infusão contínua de 10% a 20% da dose total requerida, por hora, em salina 0,9%; se os sintomas colinérgicos reaparecerem, retomam-se os bolus e aumenta-se a taxa de infusão em 20% por hora. O ensaio que sustenta a recomendação encontrou menor mortalidade, menor tempo até a atropinização e menor toxicidade por atropina no grupo incremental.

Diretrizes brasileiras para o diagnóstico e tratamento de intoxicações agudas por agrotóxicos, capítulo aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 79, de 14 de dezembro de 2018, consolidado na edição do Ministério da Saúde de 2020

Bolus repetidos, com a infusão contínua desaconselhada

A dose inicial é de 1 a 4 mg de sulfato de atropina por via intravenosa em bolus, repetida a cada 2 a 15 minutos até a atropinização plena, com redução progressiva da dose conforme a melhora clínica. O manual diz expressamente que se deve evitar o uso de infusão intravenosa contínua, tanto por ser menos eficaz na obtenção da atropinização adequada quanto pelo maior risco de intoxicação atropínica — febre, rubor, agitação, delírio, taquicardia e midríase.

Manual de Toxicologia Clínica: orientações para assistência e vigilância das intoxicações agudas, Covisa/Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, 1ª edição, 2017

Como decidir

Os dois documentos são brasileiros, os dois estão em uso e eles se contradizem na palavra "evitar". A diferença que decide é de natureza: o documento federal é uma diretriz baseada em ensaio clínico randomizado com desfecho de mortalidade, e o municipal é um manual assistencial que consolida prática. Diante do paciente, o que os dois concordam vale mais que o que os separa: a atropinização se alcança por escalada rápida, a ausculta limpa e a axila seca são os alvos, a pupila não é alvo, e o subtratamento mata mais que o excesso durante a reanimação. Para a manutenção, decida pelo que o seu serviço consegue vigiar. Onde há monitorização contínua e uma folha de registro a cada cinco minutos, a infusão contínua é reprodutível e é a régua federal. Onde a equipe é pequena e o paciente vai ficar horas com checagem espaçada, bolus com reavaliação é mais seguro do que uma bomba correndo sem quem olhe — e a toxicidade atropínica, com três dos cinco sinais, é a que manda pausar. Se o seu serviço tem protocolo institucional escrito, ele não é seu para revogar no meio do atendimento; leve a divergência para a discussão depois do plantão.

Oximas na intoxicação por carbamato, inclusive pelo aldicarbe do "chumbinho"

Contraindicadas nos carbamatos, sem exceção

Não se recomenda o uso de oximas na intoxicação por inibidores de colinesterase, com recomendação condicional contra a intervenção. A avaliação de cinco ensaios clínicos randomizados com pralidoxima não mostrou benefício em mortalidade, necessidade de ventilação mecânica ou síndrome intermediária, e há indícios de que possam ser prejudiciais no autoenvenenamento grave. O texto acrescenta que as oximas também são contraindicadas para os casos de intoxicação por carbamatos.

Diretrizes brasileiras para o diagnóstico e tratamento de intoxicações agudas por agrotóxicos, Portaria SCTIE/MS nº 79, de 14 de dezembro de 2018

Contraindicadas apenas para o carbaril, e utilizáveis no aldicarbe grave

A atropina e as oximas são recomendadas para o tratamento das intoxicações por inibidores de colinesterase. Nas intoxicações por carbamatos, as oximas são contraindicadas apenas para o inseticida carbaril. Podem ser utilizadas nas intoxicações graves por carbamatos de alta toxicidade aguda, como o aldicarbe, promovendo recuperação clínica mais rápida e sem efeitos adversos importantes; como os demais carbamatos costumam determinar intoxicações leves e de curta duração, nesses a oxima não é indicada. O mesmo manual registra que o produto é de difícil acesso no mercado nacional.

Manual de Toxicologia Clínica, Covisa/Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, 1ª edição, 2017

Como decidir

A divergência tem endereço brasileiro concreto, porque o aldicarbe é o princípio ativo mais frequente do "chumbinho", que é o raticida clandestino de maior letalidade no país. Comece pelo que não está em disputa: a atropina é o tratamento, a ventilação é o que muda mortalidade, e nenhuma oxima substitui ou atrasa qualquer das duas. Depois, olhe para o que você tem em mãos. Se a oxima não está disponível — e o próprio manual que a defende diz que o acesso é difícil —, a discussão é teórica e o tempo gasto procurando é tempo tirado da atropina. Se estiver disponível e o protocolo do seu serviço a prevê, isso é decisão institucional legítima, e a orientação de uso deve vir do centro de informação toxicológica, que conhece o produto e a série local. Nenhuma das duas posições autoriza oxima em carbamato leve, e a definição de leve, aqui, é clínica: paciente que atropiniza com dose baixa e permanece estável.

Alvo da oxigenoterapia na intoxicação por monóxido de carbono: número de carboxiemoglobina ou desaparecimento dos sintomas

Alvo numérico: tratar até carboxiemoglobina abaixo de 5%

Oxigênio a 100% deve ser administrado através de máscara não reinalante até que o paciente esteja assintomático e com níveis de carboxiemoglobina inferiores a 5%. A gestante precisa ser tratada por períodos mais longos, porque a carboxiemoglobina fetal é mais alta e tem eliminação cerca de cinco vezes mais lenta que a materna.

Manual de Toxicologia Clínica, Covisa/SMS-SP, 2017, item Antídoto do capítulo de monóxido de carbono

Alvo clínico: o número de referência não vale para todo paciente

Fumantes podem chegar com carboxiemoglobina mais elevada pela exposição ao tabaco. Esse dado modifica a interpretação inicial, mas não significa que o valor não possa cair abaixo de 5% após cessar a exposição. A conclusão de que o alvo seria inalcançável no fumante não decorre da fonte.

Manual de Toxicologia Clínica, Covisa/SMS-SP, 2017, item Diagnóstico do mesmo capítulo

Como decidir

Acompanhe sintomas, exame neurológico e cardíaco e, quando disponível, cooximetria seriada interpretada pelo tempo e pelo oxigênio recebido. O CDC destaca que a carboxiemoglobina se correlaciona mal com gravidade e resposta. Valores baixos após tratamento não excluem uma exposição grave anterior. Gestação, alteração neurológica, perda de consciência, isquemia ou acidose importante exigem discussão especializada. A alta inclui afastamento da fonte e orientação sobre possíveis manifestações tardias; o tabagismo não torna a queda laboratorial impossível.

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O raciocínio, em voz alta

A família Barroqueiro — Silvaneide, 38 anos, Kleberson, 14, e dona Placidina, 71 — na unidade de pronto atendimento, sábado de junho, sete e quarenta da manhã. Cefaleia, náusea e tontura desde a madrugada nos três; confusão leve na avó. Sem febre. Saturação de 98%, 97% e 98% em ar ambiente. A irmã de Silvaneide, 41 anos, ficou dormindo em casa.

  1. O padrão que salta antes de qualquer exame

    Três pessoas, uma casa, uma madrugada, a mesma queixa. Nenhuma síndrome infecciosa se distribui assim numa noite, e nenhuma intoxicação alimentar acontece sem que ninguém tenha comido nada em comum. Quando o denominador é o endereço e não a pessoa, o agente é ambiental — e o ambiental mais comum numa noite fria brasileira é a combustão em local fechado. Não estou diante de três pacientes: estou diante de uma casa.

  2. Por que a saturação normal não me acalma

    O oxímetro de pulso não distingue carboxiemoglobina de oxi-hemoglobina, e por isso devolve número normal justamente na intoxicação em que o transporte de oxigênio está comprometido. O manual brasileiro registra esse aviso dentro do item de suporte, e é um dos avisos mais fáceis de atravessar sem ler. Nesta hipótese, saturação normal não é dado tranquilizador: é ausência de dado.

  3. As duas perguntas que fecham o diagnóstico, e que são de graça

    Pergunto o que queima dentro de casa e quem mais dormiu lá. A resposta vem rápido: aquecedor de água a gás no banheiro, janela basculante fechada por causa do frio, porta fechada, e todo mundo tomou banho quente à noite. E a resposta da segunda pergunta é a que me tira do lugar: falta uma pessoa, a irmã, que chegou às cinco da manhã, tomou banho e foi dormir. Ela é agora a paciente mais grave do meu plantão, e não está aqui.

  4. O que faço antes de confirmar qualquer coisa

    Oxigênio a 100% em máscara não reinalante, 10 a 15 litros por minuto, nos três, iniciado na suspeita. Não espero cooximetria — que este serviço não faz — nem transferência. É competição de massa: quanto maior a fração inspirada, mais rápido o monóxido larga a hemoglobina. A meia-vida em ar ambiente é de 252 minutos, e com oxigênio a 100% cai para a ordem de uma hora. Junto: acesso, glicemia capilar, temperatura, eletrocardiograma nos três — a avó tem 71 anos e o gás se liga também à mioglobina cardíaca.

  5. O que mando fazer fora do hospital, e que vale tanto quanto o oxigênio

    Peço que alguém vá buscar a irmã imediatamente, mesmo que ela diga que está bem, e oriento a não entrar antes de abrir portas e janelas. Aviso que ninguém volta para casa antes de o aquecedor ser desligado e verificado. Do lado do serviço, aciono a vigilância municipal, porque três casos ligados por um endereço com fonte ativa preenchem exatamente as duas perguntas do fluxograma de surto do Guia: existe possibilidade de novos casos, e a substância pode atingir mais pessoas.

  6. Como decido quem fica e quem vai para casa

    Sigo os critérios do manual. Assintomático e não gestante pode ser observado em casa, desde que confirmado que a fonte foi eliminada e que o ambiente está livre — o que aqui ainda não é verdade para ninguém. Sintomático leve a moderado permanece na unidade até o desaparecimento dos sintomas: é o caso de Silvaneide e de Kleberson. Interna-se quem permanece sintomático apesar do tratamento adequado, quem tem exame neurológico alterado ou lesão miocárdica, e a gestante com sofrimento fetal. Dona Placidina, com confusão, é a minha candidata a internação, e é dela o eletrocardiograma que eu vou olhar duas vezes.

  7. Quando ligo, e o que peço

    Ligo para o centro de informação e assistência toxicológica pelo 0800 722 6001 assim que os três estão com oxigênio correndo. Levo o que tenho: número de expostos, tipo de fonte, tempo estimado de exposição, sintomas de cada um, ausência de cooximetria no serviço, distância até o hospital regional. Peço três coisas: por quanto tempo manter oxigênio sem poder dosar, quais destes pacientes justificariam discutir câmara hiperbárica, e o que orientar sobre a moradora que ficou em casa. Anoto no prontuário o horário, o centro que atendeu e a orientação.

  8. O que eu digo na alta, e que muda o próximo mês da família

    Duas orientações escritas. A primeira é sobre a fonte: aquecedor a gás não fica em ambiente sem ventilação permanente, e a manutenção não é opcional. A segunda é sobre o corpo: efeitos neurocognitivos podem aparecer entre 2 e 40 dias depois — dificuldade de concentração, esquecimento, mudança de comportamento — e isso não é frescura nem depressão; é motivo de retorno. Notifico os casos na ficha de investigação de intoxicação exógena, preenchendo o agente como monóxido de carbono e a circunstância como acidental, e abro a ficha de surto.

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Faça você

Domingo, 4h20, mesmo serviço. Nadiane Trancoso tem 19 anos, 70 quilos, e chegou de carro com a tia. Ela conta que tomou comprimidos "por volta das dez da noite" e não sabe quantos; a tia trouxe duas cartelas vazias de um analgésico com 750 mg de paracetamol por comprimido e uma caixa vazia de antigripal. Nadiane está acordada, orientada, chorando, sem dor, com sinais vitais normais. O hospital não dosa paracetamol, e o laboratório de referência mais próximo devolve resultado em dias.

  1. Passo 1 — o que a aparência dela não diz

    Paciente lúcida, sem dor, com sinais vitais normais, seis horas depois da ingestão. Isso é a fase 1 da intoxicação por paracetamol, que vai até 24 horas e é assintomática ou traz apenas anorexia, náusea e vômito. A fase 2, de 24 a 72 horas, também não dói, e já traz alteração de função hepática. A dor e a icterícia chegam na fase 3, de 72 a 96 horas, quando a necrose está instalada. O aspecto dela não é tranquilizador: é esperado.

  2. Passo 2 — a dose que provavelmente entrou

    Duas cartelas vazias de comprimidos de 750 mg, mais um antigripal que também contém paracetamol, numa pessoa de 70 quilos. O limiar de dose tóxica no adulto é de 7,5 g a 10 g — dez comprimidos de 750 mg já alcançam o limiar inferior. A soma exata é desconhecida, e é isso que importa: história de ingestão de dose potencialmente tóxica com quantidade incerta é, por regra, indicação de antídoto.

  3. Passo 3 — por que o exame não vai resolver e o relógio vai

    O nível sérico só é interpretável entre 4 e 24 horas após uma ingestão aguda única, e o serviço não dosa. O horário informado é aproximado. E o ganho da acetilcisteína é máximo dentro das primeiras 8 horas, das quais já se passaram cerca de 6. Esperar o exame que não existe custa a única janela que existe.

  4. Passo 4 — o que não se faz

    Não faço lavagem gástrica de rotina. Seis horas de evolução não autorizam descartar toda possibilidade de carvão apenas pelo relógio: esclareço agente, formulação, tamanho da ingestão e possível absorção persistente com CIATox. Isso não atrasa a N-acetilcisteína indicada. A paciente não recebe carvão automaticamente, e eventual uso deve considerar via aérea, benefício plausível e interação com antídoto por via oral. Rastreio toxicológico inespecífico não substitui essa decisão.

  5. Passo 5 — sua vez

    Escreva a prescrição completa da N-acetilcisteína intravenosa para Nadiane, com as três etapas do protocolo de 21 horas: dose em miligramas por quilo, massa total de cada etapa em gramas para os 70 quilos dela, diluente e volume prescritos, e tempo de infusão. Diga quantas ampolas de 300 mg em 3 mL cada etapa consome e quantas o tratamento inteiro consome. Aponte o problema prático que aparece na primeira etapa quando se soma o volume do fármaco ao volume do diluente. Diga qual seria a alternativa oral e por que você não a escolheu aqui. Liste os exames que você colhe agora e com que frequência os repete. E diga as duas condições que precisam ser satisfeitas antes de essa paciente receber alta.

Ver como fecharíamos

Prescrição intravenosa, protocolo de 21 horas, para 70 quilos. Etapa 1, ataque: N-acetilcisteína 150 mg/kg, ou seja, 10.500 mg — 10,5 g —, diluída em 200 mL de soro glicosado a 5%, por via intravenosa, em 60 minutos. Etapa 2, manutenção: 50 mg/kg, ou seja, 3.500 mg — 3,5 g —, em 500 mL de soro glicosado a 5%, em 4 horas. Etapa 3, manutenção: 100 mg/kg, ou seja, 7.000 mg — 7 g —, em 1.000 mL de soro glicosado a 5%, em 16 horas. O total é de 300 mg/kg, 21 g em 21 horas. Em ampolas de 300 mg em 3 mL, a concentração é 100 mg/mL. A etapa 1 usa exatamente 105 mL de fármaco: 35 ampolas. A etapa 2 usa 35 mL: abrem-se 12 ampolas, retiram-se 35 dos 36 mL e descarta-se 1 mL. A etapa 3 usa 70 mL: abrem-se 24 ampolas, retiram-se 70 dos 72 mL e descartam-se 2 mL. Para preparar as três etapas separadamente, sem guardar sobras de ampolas de uso único, separar 71 ampolas; são administrados 210 mL, ou 21 g, e descartados 3 mL. Arredonda-se a quantidade de ampolas a abrir, nunca a dose prescrita. Confirmar apresentação e estoque com a farmácia enquanto o atendimento prossegue, sem atrasar acesso venoso e início do antídoto. O problema prático da primeira etapa é de volume. As 35 ampolas do ataque são 105 mL de fármaco, que se somam aos 200 mL de diluente prescritos: o que corre de fato em 60 minutos é da ordem de 305 mL, e não 200 mL. Quem programa a bomba pelo volume da prescrição infunde mais devagar do que pensa, e quem programa pelo volume real precisa checar tolerância — em idoso, cardiopata ou nefropata isso deixa de ser detalhe. A alternativa oral é 140 mg/kg de ataque, o que dá 9,8 g, seguidos de 70 mg/kg — 4,9 g — a cada 4 horas, num total de 17 doses, o que estende o tratamento por cerca de três dias e soma 1.330 mg/kg. Não é a escolha aqui por dois motivos: exige que alguém administre 17 doses sem falhar nenhuma, e a paciente pode vomitar, o que compromete a dose sem que se saiba quanto foi perdido. Se o serviço só tivesse a apresentação oral, ela seria aceitável — paciente acordada, orientada, sem vômito — desde que com registro rigoroso de cada dose. Exames agora: transaminases, tempo de protrombina e razão normalizada internacional, bilirrubinas total e frações, função renal, eletrólitos, glicemia e hemograma; eletrocardiograma; e, onde houver, nível sérico de salicilato, pela frequência das formulações combinadas. Repetir função hepática, coagulograma e função renal a cada 12 a 24 horas durante e após o protocolo. Transaminases em elevação com razão normalizada internacional em alargamento indicam hepatotoxicidade instalada: mantém-se a última fase do antídoto pelos dias necessários, aciona-se o centro toxicológico e discute-se transferência para serviço com hepatologia. As duas condições antes da alta: primeiro, estabilidade bioquímica — protocolo completo e função hepática e coagulação sem deterioração; segundo, avaliação de saúde mental com a paciente lúcida, porque a circunstância é autoprovocada. Além disso, notifica-se na ficha de investigação de intoxicação exógena, com o agente preenchido em nome comercial e princípio ativo, e na ficha de notificação individual de violência interpessoal e autoprovocada, esta em até 24 horas; e encaminha-se à Rede de Atenção Psicossocial. A avaliação de risco e o cuidado psiquiátrico são do capítulo de risco de suicídio; o que este capítulo garante é que a alta não sai sem eles.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Acionar imediatamente resgate e autoridades competentes para interromper a exposição e proteger a pessoa ainda no local, sem entrada de pessoas desprotegidas. Comunicar prontamente à vigilância o agrupamento e o risco persistente como evento de saúde pública, dentro do prazo de 24 horas para eventos ameaçadores. Registrar casos suspeitos ou confirmados nas fichas individuais de intoxicação exógena, agravo de notificação semanal, e realizar registro/investigação do surto conforme fluxo. Não esperar dosagem de carboxiemoglobina. A periodicidade semanal dos casos não permite adiar resposta ao evento; gases tóxicos não tornam toda intoxicação isolada automaticamente de notificação imediata.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare intoxicação por opioide, síndrome colinérgica, monóxido de carbono e exposição a paracetamol. Para cada uma, diga qual ameaça precisa ser tratada primeiro, que dado não pode faltar e qual é o papel e o limite do antídoto. Explique por que oxímetro normal não exclui monóxido de carbono e por que melhora da consciência não basta para encerrar a observação após naloxona. Consulte critérios, doses e preparo somente depois de reconhecer a síndrome e acionar o suporte necessário.

Em 30 dias

Simule uma intoxicação com horário ou agente incertos. Organize segurança da equipe, ventilação, circulação, glicemia, ECG e contato com o CIATox conforme o caso. Justifique se há indicação de descontaminação, sem transformar carvão ou lavagem em rotina. Depois compare resposta inicial e recorrência dos sintomas após antídoto, indicando o que será monitorizado e por quanto tempo conforme agente e formulação. Se houver possível autoagressão, inclua avaliação de segurança e cuidado em saúde mental antes de definir alta.

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Agora atenda

Quarta-feira, 16h10. O plantão é seu, como interno, num hospital municipal de 40 leitos no interior, a cento e vinte quilômetros do hospital regional. Chega um homem de 46 anos, lavrador, trazido pelo irmão numa caminhonete, encontrado caído ao lado do pulverizador costal cerca de uma hora depois de ter começado a aplicação. A camisa está encharcada e tem odor forte; o irmão trouxe a embalagem, que traz o nome de um organofosforado com a concentração impressa no rótulo. Ele abre os olhos ao chamado, está encharcado de suor, com pupilas puntiformes, sialorreia, estertores difusos em toda a ausculta, frequência cardíaca de 44, pressão de 92 por 58 e saturação de 88% em ar ambiente. O serviço tem oxigênio, monitor, uma caixa fechada de 100 ampolas de atropina de 0,25 mg/mL, não tem oxima e não tem laboratório aos fins de semana. Conduza: diga o que se faz antes de tocar em antídoto e por quê, prescreva a atropina por extenso com a dose de ataque, o esquema de escalada e os alvos, diga quantas ampolas cada degrau consome e o que você manda buscar antes de começar, explique por que a pupila não serve de alvo e o que faz você pausar a infusão, justifique se cabe ou não descontaminação gástrica nesta hora, diga o que você pergunta ao centro toxicológico e o que informa a ele, e liste o que precisa acontecer antes de esse paciente ser transferido ou receber alta.

Intoxicações exógenas agudas e antídotos – O antídoto é a menor parte — Internato | OsceLabs