Cirurgia Geral › Trauma
Atendimento inicial ao politraumatizado
Reconhecer e controlar ameaças imediatas pelo xABCDE, trabalhar em equipe e reavaliar a resposta até o tratamento definitivo.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2016
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Básico de Vida. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2016
Governo do Distrito Federal. Secretaria de Estado de Saúde. Comissão Permanente de Protocolos de Atenção à Saúde. Protocolo de Atenção à Saúde: Uso de ácido tranexâmico em adultos por Unidades de Suporte Avançado (USAs). Portaria SES-DF nº 91, de 11 de março de 2024, publicada no DODF nº 49 de 12/03/2024
Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo. Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma — Diretrizes Clínicas. Versão 2018, aprovada em 30 de setembro de 2018
Roberts I, Shakur H, Coats T, et al. The CRASH-2 trial: a randomised controlled trial and economic evaluation of the effects of tranexamic acid on death, vascular occlusive events and transfusion requirement in bleeding trauma patients. Health Technology Assessment (NIHR), 2013
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 1.600, de 7 de julho de 2011, que reformula a Política Nacional de Atenção às Urgências e institui a Rede de Atenção às Urgências no Sistema Único de Saúde
American College of Surgeons, Committee on Trauma. ATLS — Advanced Trauma Life Support: Student Course Manual
ACS. Trauma Care Gets Major Upgrade with Launch of ATLS 11, 2025. [Acessar fonte](https://www.facs.org/for-medical-professionals/news-publications/news-and-articles/acs-brief/september-16-2025-issue/trauma-care-gets-major-upgrade-with-launch-of-atls-11/)
Responda antes de ler
Homem de 45 anos, trauma abdominal fechado por colisão automobilística. Chegou com pressão sistólica 84 mmHg e frequência cardíaca 126 bpm. Recebeu 1.000 mL de Ringer lactato aquecido e subiu para 112x70 mmHg, com frequência de 98 bpm. Doze minutos depois está em 88x58 mmHg, com frequência de 132 bpm e pele novamente fria. O FAST mostra líquido livre no espaço hepatorrenal. Qual a conduta?
O paciente que você vai ver
O rádio avisa três minutos antes: motociclista, homem, por volta dos vinte anos, colisão com automóvel em via de trânsito rápido, consciente, fratura exposta em perna direita, chegando. Você é o interno do plantão de cirurgia. Enquanto a equipe monta a sala, alguém pergunta em voz alta se já tem sangue reservado, e ninguém responde.
A maca entra e a primeira coisa que todo mundo vê é a perna. A tíbia está para fora, o curativo do resgate encharcou, e há um rastro de sangue no chão desde a porta. É impossível não olhar. Enquanto você olha, o socorrista fala sem parar — capacete danificado, cinemática de alta energia, pressão 110 por 70 na cena, glicemia 118, ácido tranexâmico feito às 21h14 — e você não escuta metade, porque a perna continua ali. O paciente está acordado, diz o próprio nome e pede, em frases curtas, que alguém segure a perna dele. Frases curtas: ele respira 30 vezes por minuto e fala em blocos de três palavras. A camisa cortada mostra uma escoriação larga no hemitórax direito, onde bateu no meio-fio. Ninguém auscultou esse tórax ainda.
Nos próximos dez minutos, tudo o que acontecer nesta sala vai ser decidido por uma única coisa: se a equipe vai atrás do que está sangrando na frente dela, ou atrás do que está acontecendo em silêncio. A perna é assustadora e é a lesão menos perigosa da noite dele. Um pneumotórax que se torna hipertensivo mata esse rapaz antes que alguém termine de imobilizar a tíbia. E você, que é o interno, ainda não sabe nem onde ficar de pé.
Quem adoece disso
O trauma responde por cerca de 10% de todas as mortes no mundo e concentra-se em pessoas de 5 a 44 anos — é a doença que mata quem tinha mais anos pela frente. No Brasil o desenho é o mesmo, e aparece com nitidez quando se olha por faixa etária: no Espírito Santo, em 2016, as causas externas foram a primeira causa de óbito em todas as faixas dos 5 aos 49 anos, à frente de neoplasias e de doenças do aparelho circulatório. A consequência prática para quem está de plantão é direta: no pronto-socorro de adulto jovem, trauma não é a exceção do dia — é a doença mais provável do turno, e o serviço precisa estar montado para isso antes de a maca entrar.
As mortes por trauma se distribuem em três picos, e só um deles pertence a você. O primeiro representa mais da metade de todas as mortes por trauma: são as mortes imediatas, nos primeiros minutos até a primeira hora, em geral ainda no local, por laceração do coração, de grandes vasos, do encéfalo, do tronco cerebral ou da medula. Em sua maioria não são evitáveis por medicina nenhuma; o que as reduz é prevenção — capacete, cinto, velocidade, acesso a arma de fogo. O terceiro pico ocorre dias a semanas depois, por infecção e falência de múltiplos órgãos, e é assunto da terapia intensiva.
O segundo pico é o seu. São cerca de 30% das mortes por trauma, ocorrem nas primeiras quatro horas e a diretriz estadual capixaba as descreve como mortes em sua maioria evitáveis mediante diagnóstico precoce e tratamento adequado — hemorragia, lesão do sistema respiratório, lesão de vísceras abdominais, hematoma subdural ou extradural. Guarde a frase inteira, porque ela contém a regra: o que separa a morte evitável da morte inevitável nesse grupo não é técnica cirúrgica sofisticada, é ordem e tempo. São exatamente essas lesões que a avaliação primária procura, e é por isso que a sequência existe.
Que a corrida seja contra o relógio aparece até nos indicadores de gestão. As diretrizes do Espírito Santo estabelecem como meta que pelo menos 95% das vítimas de trauma sejam avaliadas por um cirurgião nos primeiros 30 minutos, e organizam a recepção para que o paciente classificado como vermelho ou laranja não passe pela fila. Um serviço que precisa transformar em indicador algo aparentemente óbvio — que o cirurgião veja o traumatizado grave em meia hora — está dizendo, sem rodeios, que isso não acontece sozinho. O mesmo vale para você em escala menor: o que não tem hora anotada não aconteceu. Hora do trauma, hora do torniquete, hora do ácido tranexâmico, hora do primeiro Glasgow. Nenhuma delas se reconstrói depois.
Por que acontece o que acontece
A avaliação primária organiza ameaças que podem coexistir e matar em minutos. Hemorragia externa exsanguinante exige controle imediato: esse é o x do xABCDE. Não se espera terminar a via aérea para conter uma perda maciça visível, e a equipe pode tratar ambas em paralelo. Obstrução da via aérea, falha ventilatória, pneumotórax hipertensivo e sangramento interno também exigem reconhecimento rápido. O pneumotórax hipertensivo pode causar comprometimento respiratório e circulatório; não é preciso aguardar choque descompensado para agir diante de suspeita clínica consistente. A sequência é uma ferramenta de priorização e reavaliação, não uma tabela com tempos fixos para cada lesão matar.
A pressão arterial é o último parâmetro a cair e o primeiro em que todo mundo olha. Perdido volume, o barorreflexo dispara: a frequência cardíaca sobe e as arteríolas se fecham. O débito cai, mas a resistência sobe na mesma medida, e a pressão sistólica permanece normal enquanto a perda ficar até cerca de 30% da volemia — na tabela do SAMU, as classes I e II do choque hipovolêmico têm pressão arterial normal. O que muda antes: a frequência cardíaca, a frequência respiratória, a pele fria e pegajosa, o enchimento capilar acima de 2 segundos, o estado mental (ansiedade discreta antes de confusão) e a pressão de pulso, que se estreita porque a vasoconstrição sobe a diastólica enquanto a sistólica ainda resiste. A regra operacional que o protocolo extrai disso é brutalmente simples e cabe no exame de dez segundos: pulso radial ausente com pulso central presente já é choque, sem precisar de esfigmomanômetro. E o contrário também vale — o jovem atleta compensa até quase o fim e desaba de uma vez.
Volume perdido tem de estar em algum lugar, e são poucos lugares. A volemia de um adulto gira em torno de 70 mL por quilo, o que dá aproximadamente 5 litros num homem de 70 kg. Todo esse sangue, quando escapa, escapa para cinco endereços: o chão (a cena, o asfalto, a maca, o caminho até aqui), a cavidade torácica, a cavidade abdominal, o retroperitônio e a pelve, e as coxas, no caso das fraturas de fêmur. Dois desses endereços você comprime com a mão; três, não. A fratura exposta de tíbia sangra num compartimento que você alcança — compressão direta e, se falhar, torniquete. O hemotórax, o hematoma retroperitoneal e o sangramento intraperitoneal não têm mão que chegue: o tratamento deles é o centro cirúrgico, a hemotransfusão e a arteriografia, e o seu papel é reconhecê-los cedo e chamar. Essa é a diferença que organiza o C, e é a mesma que desmonta a atração pela lesão chamativa: o sangramento que você vê é, quase por definição, o sangramento que dá para conter.
Enquanto o sangramento corre, três coisas se retroalimentam e formam a tríade letal. A hipotermia vem primeiro e é em grande parte iatrogênica: o paciente chega molhado, é despido, fica numa sala refrigerada e recebe litros de solução em temperatura ambiente. As enzimas da cascata de coagulação trabalham a 37 °C; abaixo disso ficam lentas, e o paciente sangra mais. A acidose vem da hipoperfusão: menos oxigênio no tecido, metabolismo anaeróbio, lactato, pH em queda — e as mesmas enzimas, além das catecolaminas endógenas e das que você prescrever, perdem eficiência em meio ácido. A coagulopatia fecha o triângulo por três vias somadas: consumo de fatores no próprio coágulo, diluição pelo cristaloide que você infundiu e hiperfibrinólise desencadeada pelo trauma em si. Cada vértice piora os outros dois, e o conjunto explica três condutas que de outro modo pareceriam detalhe: a exposição do E vem obrigatoriamente acompanhada de reaquecimento, o cristaloide do trauma é infundido aquecido — o protocolo do SAMU especifica 39 °C, com Ringer lactato como primeira escolha —, e o antifibrinolítico é dado o mais cedo possível.
O ácido tranexâmico é a tradução farmacológica desse último vértice. Ele ocupa competitivamente os sítios de ligação do plasminogênio à fibrina e impede que o coágulo recém-formado seja dissolvido pela fibrinólise que o próprio trauma acelerou. Isso explica por que o relógio manda tanto: o CRASH-2 mostrou redução de mortalidade quando a droga foi administrada cedo (risco relativo de 0,68 na primeira hora e de 0,79 entre uma e três horas), e mostrou o oposto quando foi administrada depois de três horas — risco relativo de 1,44, com intervalo de confiança inteiramente acima de 1. Não é que a droga deixe de funcionar tarde: é que, passada a janela, o que ela faz com o equilíbrio entre coágulo e fibrinólise deixa de ajudar. Antifibrinolítico é remédio de hora marcada.
Por fim, o cérebro. A lesão primária — o que rasgou, contundiu ou cisalhou no instante do impacto — está fora do seu alcance quando o paciente chega. O que está ao seu alcance é a lesão secundária, e ela tem quatro combustíveis conhecidos: hipoxemia, hipotensão, distúrbio glicêmico e alteração de temperatura. O protocolo de trauma cranioencefálico do SAMU coloca isso como objetivo explícito da conduta pré-hospitalar — impedir o agravamento da lesão primária corrigindo hipoxemia, glicemia, temperatura corpórea e pressão arterial. Duas consequências práticas caem daí. A primeira é a razão de o D vir depois do C: um cérebro mal oxigenado e mal perfundido produz um Glasgow que não é o Glasgow do paciente, e avaliar antes de corrigir gera um número falso que vai contaminar todas as reavaliações seguintes. A segunda é o alvo pressórico diferente: no choque hemorrágico do trauma o protocolo aceita pressão sistólica acima de 80 mmHg, mas na presença de trauma cranioencefálico o piso sobe para 90 mmHg, porque o cérebro lesado não tolera a hipotensão que o resto do corpo tolera.

Como se apresenta de verdade
O politraumatizado do livro é um homem jovem, motociclista, de alta energia, e existe de verdade — mas ele é a apresentação que a equipe já reconhece. Os que matam por engano são os outros: os que chegam sem o rótulo de trauma grave colado na testa.
Quem é trauma maior antes de qualquer exame
As diretrizes do Espírito Santo definem trauma maior por três conjuntos independentes de critérios, e basta um item de qualquer um deles. Os parâmetros vitais: Glasgow abaixo de 14 ou deterioração neurológica, pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, frequência respiratória abaixo de 10 ou acima de 29, ou necessidade de intubação já no pré-hospitalar. A anatomia da lesão: ferimento penetrante em crânio, pescoço, tórax, abdome ou em extremidade proximal ao cotovelo ou ao joelho; combinação de traumas ou queimaduras de segundo ou terceiro graus; suspeita clínica de instabilidade de pelve; suspeita de fratura de dois ou mais ossos longos proximais; paralisia de um ou mais membros; amputação completa ou incompleta proximal ao punho ou ao tornozelo. E o mecanismo: impacto violento, ejeção do veículo, velocidade acima de 60 km/h, deformação externa maior que 50 cm, intrusão da lataria maior que 30 cm, capotamento, morte de outro ocupante do mesmo veículo, atropelamento de pedestre ou ciclista acima de 10 km/h.
Repare no que essa lista faz com o seu raciocínio: dois dos três conjuntos não dependem de o paciente estar mal. Um rapaz de 22 anos que foi ejetado da moto, conversando, com pressão 120 por 80, é trauma maior pelo mecanismo — e trauma maior significa sala de emergência, equipe acionada e avaliação primária completa, não fila. Quem espera a fisiologia alterar para tratar como grave está esperando o fim da compensação, que é justamente o momento em que para de haver margem.
O idoso que caiu da própria altura
Este é o paciente que a sala inteira subestima, e ele chega todo dia. O mecanismo parece banal — tropeçou no tapete, escorregou no banheiro —, mas o osso é osteoporótico, o encéfalo é atrófico e as veias-ponte estão esticadas, de modo que a mesma energia produz fratura de quadril, hematoma subdural e fratura de arcos costais que um jovem não teria. O protocolo de trauma raquimedular do SAMU inclui explicitamente qualquer tipo de queda, especialmente em idosos, entre os mecanismos que levantam suspeita de lesão de coluna: não é exagero de protocolo, é reconhecimento de que a energia necessária cai com a idade.
Três armadilhas fisiológicas se somam. O betabloqueador impede a taquicardia, e o principal sinal precoce de choque simplesmente não aparece — um idoso em uso de metoprolol pode estar em classe II com frequência de 78. O antiagregante e o anticoagulante transformam sangramentos que se resolveriam sozinhos em hematomas que crescem por horas; a diretriz capixaba manda avaliar de forma individualizada todo paciente em uso dessas drogas ou com distúrbio de coagulação, mesmo com Glasgow 15. E a pressão "normal" pode ser hipotensão: 110 por 70 num hipertenso de longa data que vive em 160 por 90 é queda de quase um terço, ainda que nenhum alarme toque.
A regra prática, então, é inverter o gatilho. No jovem, você usa a fisiologia alterada para elevar a suspeita. No idoso, você usa a idade e a medicação para elevar a suspeita antes que a fisiologia diga qualquer coisa — e mantém a mesma sequência, com a mesma exposição e a mesma reavaliação, num paciente que "só caiu em casa".
A gestante, e por quem você reanima
A gestante traumatizada carrega dois problemas que o resto dos pacientes não tem. O primeiro é que ela compensa melhor e por mais tempo, porque a gravidez aumenta o volume plasmático — e essa reserva é comprada às custas da circulação uteroplacentária, que é a primeira a ser sacrificada pela vasoconstrição. Traduzindo: quando a pressão materna começa a cair, o feto já está sofrendo há um bom tempo. Não existe conduta fetal separada da conduta materna na avaliação primária; a melhor coisa que você pode fazer pelo feto é oxigenar, perfundir e parar o sangramento da mãe.
O segundo é mecânico. Deitada em decúbito dorsal a partir da segunda metade da gestação, o útero comprime a veia cava inferior e derruba o retorno venoso — a paciente fica hipotensa por posição, e você pode passar meia hora procurando uma hemorragia que não existe, ou pior, deixar de encontrar a que existe porque atribuiu a hipotensão à posição. A correção é imediata e não custa nada: desloque manualmente o útero para a esquerda, ou incline lateralmente a prancha, mantendo o alinhamento da coluna. Faça isso antes de interpretar a pressão, não depois.
O intoxicado, e o Glasgow que não é do paciente
"Ele está assim porque bebeu" é a frase que mais atrasa tomografia de crânio no Brasil. Álcool e trauma andam juntos, o que significa que o paciente intoxicado é também o paciente com mais chance de ter lesão intracraniana — e não menos. A diretriz do Espírito Santo é direta: o Glasgow deve ser registrado na admissão e reavaliado após corrigir fatores de confusão potenciais, entre eles hipotensão, hipóxia e intoxicação exógena. Reavaliar depois de corrigir, e não descartar por atribuição.
Na prática isso quer dizer que o rebaixamento é sempre estrutural até que a evolução prove o contrário. Meça a glicemia capilar — é o exame que devolve o paciente em segundos quando a causa é hipoglicemia. Corrija hipóxia e hipotensão. Refaça o Glasgow. Se o número não subir junto com a correção, ou se cair, a causa não era metabólica. E vale para a direção contrária: a intoxicação por si pode levar o Glasgow abaixo de 8, e um Glasgow abaixo de 8 é indicação de via aérea definitiva independentemente da causa, porque quem está nesse nível não protege a própria via aérea.
Quem chega andando, e quem chega "resolvido"
Duas chegadas escapam do roteiro. A primeira é a do paciente que vem por meios próprios: ninguém avisou pelo rádio, não há colar, não há prancha, não há relato de cinemática, e a queixa que ele apresenta na recepção é o que o incomoda, não o que o ameaça. Ferimento por arma branca em tórax, ferimento por projétil em coxa e trauma abdominal fechado após briga chegam assim com frequência, andando, conversando. Para esse paciente, a classificação de risco na porta é a sua avaliação primária: se o mecanismo cabe em qualquer critério de trauma maior, ele sai da fila e entra na sala, mesmo que pareça bem.
A segunda é a do paciente que chega aparentemente resolvido — intubado, com colar, imobilizado, monitorizado, e com um relato competente de quem o trouxe. A tentação é aceitar o A como concluído. Não aceite: o tubo pode ter migrado durante o transporte para o brônquio principal direito, e o achado resultante é murmúrio reduzido à esquerda com expansão assimétrica, que é exatamente o quadro de um pneumotórax hipertensivo à esquerda. O próprio protocolo de punção de descompressão do SAMU alerta para essa confusão e manda checar o posicionamento da cânula por ausculta antes de puncionar qualquer tórax de paciente já intubado. Refazer o A em trinta segundos custa menos que uma agulha no lugar errado.
Como fechar o diagnóstico
No trauma, a pergunta "qual exame eu peço" chega tarde demais para ser a primeira. O primeiro exame é o exame físico, ele tem ordem fixa e leva menos de dois minutos. Tudo o que vem depois — radiografia, ultrassom, tomografia, laboratório — existe para responder a uma pergunta que a avaliação primária já formulou. Exame pedido antes da pergunta é exame que só produz atraso e corredor.
A segunda regra é que o exame do politraumatizado tem um critério de entrada que não existe em nenhuma outra área da medicina: a estabilidade hemodinâmica. Não é uma questão de custo nem de disponibilidade. É que levar um paciente instável para fora da sala de emergência é retirá-lo do único lugar do hospital onde há gente, material e sangue para ressuscitá-lo.
A avaliação primária é o exame, e cada letra tem uma pergunta
A: a via aérea está pérvia e vai continuar pérvia? A resposta mais barata do plantão é pedir que o paciente diga o próprio nome. Voz normal, em frase inteira, responde de uma vez que a via aérea está aberta, que há ventilação suficiente para falar e que o encéfalo está perfundido o bastante para obedecer. O que a fala não descarta: sangue, secreção, dente ou prótese na cavidade oral; fratura de face instável; hematoma cervical em expansão; queimadura de via aérea; estridor. E a via aérea que está pérvia agora pode não estar em cinco minutos — essa é a razão de o A ser reavaliado antes de qualquer outra coisa a cada deterioração. A estabilização manual da coluna cervical é simultânea, não posterior: o protocolo do SAMU manda avaliar a responsividade e estabilizar a cervical no mesmo gesto, com o colar entrando assim que possível.
B: o ar está entrando nos dois lados e chegando ao sangue? Exponha o tórax. Conte a frequência respiratória de verdade, olhando o relógio; conte também no paciente que fala, porque frases curtas são o achado. Olhe a traqueia e as jugulares antes de encostar. Avalie simetria de expansão, esforço, uso de musculatura acessória, lesões abertas ou fechadas. Palpe todo o tórax quando a ventilação estiver anormal, e ausculte. O protocolo do SAMU fixa dois gatilhos numéricos: oxigênio por máscara facial a 10 a 12 litros por minuto se a saturação cair abaixo de 94%, e ventilação assistida com bolsa-valva-máscara com reservatório se a frequência respiratória ficar abaixo de 8 por minuto ou se ventilação e oxigenação não se mantiverem.
C: há sangramento, e a perfusão está mantida? A ordem dentro do C também é fixa: primeiro controlar sangramento externo com compressão direta e, se necessário, torniquete; depois avaliar. Enchimento capilar (normal até 2 segundos), temperatura, umidade e cor da pele, pulso central e pulso radial. Pulso radial ausente com pulso central presente manda seguir o protocolo de choque; pulso central também ausente manda seguir o de parada. A pressão arterial é aferida precocemente, mas ela é a confirmação, não o gatilho.
D: qual é o estado neurológico agora, para comparação depois? AVDI ou Escala de Coma de Glasgow, mais as pupilas — diâmetro, fotorreatividade e simetria; assimetria acima de 1 mm manda procurar sinais focais. O valor do D não está no número isolado, está na série. Um Glasgow de 13 registrado com hora é informação; um Glasgow de 13 sem hora é ruído.
E: exponha inteiro e aqueça imediatamente. Cortar as vestes sem movimentação excessiva, e só as partes necessárias; virar o paciente em bloco para ver e palpar o dorso, inclusive os processos espinhosos; e então cobrir com manta térmica e desligar o ar condicionado. O E é a letra mais pulada da sequência e a que produz os achados mais constrangedores no dia seguinte — ferimento por projétil em dorso, ferimento perineal, mordida de animal, escara de prancha. Ninguém encontra o que não expõe.
Os adjuntos rodam ao lado, não depois
Um pequeno conjunto de exames pertence à avaliação primária e roda em paralelo, sem tirar o paciente da sala. As diretrizes do Espírito Santo recomendam radiografia de tórax em ântero-posterior e radiografia de bacia na própria sala de choque para o paciente hemodinamicamente estável com trauma contuso multissistêmico. A radiografia de tórax responde a quatro perguntas em trinta segundos: há pneumotórax, há hemotórax, o mediastino está alargado, e a cânula de intubação está onde deveria. A de bacia responde uma só, e ela vale muito: o anel pélvico está aberto? Fratura instável de pelve com instabilidade hemodinâmica tem indicação de fixação externa imediata, e é um dos poucos sangramentos volumosos que se contêm sem abrir o abdome.
O FAST é o exame que mais muda a próxima ação no paciente instável. Feito à beira do leito, examina quatro janelas — saco pericárdico, espaço hepatorrenal, espaço esplenorrenal e pelve, no recesso de Douglas — e responde a uma pergunta binária: há líquido livre? Ele é descrito nas diretrizes capixabas como extremamente útil na detecção da causa do choque, e essa formulação é precisa. FAST positivo em paciente instável com trauma contuso é indicação de laparotomia; FAST negativo não exclui lesão. Um exame que serve para decidir quando é positivo e não serve para tranquilizar quando é negativo precisa ser lido exatamente assim, ou vira alta indevida.
O laboratório da chegada é curto e tem um item que todo mundo esquece: tipagem sanguínea com prova cruzada. As diretrizes do Espírito Santo chegam a instruir o laboratório a armazenar parte do sangue já coletado, para que a agência transfusional tenha em mãos o substrato das provas cruzadas se a transfusão for necessária. O detalhe burocrático esconde a lição clínica: o tempo entre decidir transfundir e ter a bolsa na mão é gasto quase todo em tipagem, e esse tempo pode ser pago adiantado, na primeira punção. Acrescente glicemia capilar, hemograma, função renal, eletrólitos e coagulograma, e, no traumatizado grave, gasometria arterial — a diretriz determina que anormalidades de glicemia, sódio e gasometria sejam rapidamente corrigidas justamente para reduzir a injúria secundária.

A tomografia e o seu único critério de entrada
A tomografia é o melhor exame do politraumatizado e o mais perigoso de pedir na hora errada. Ela demanda tempo, e por isso as diretrizes capixabas a reservam ao paciente hemodinamicamente estável em quem não haja indicação aparente de laparotomia de emergência. A frase seguinte do mesmo documento é a que mais protege paciente: nunca realizar tomografia se isso causar atraso na transferência para um nível de atenção mais avançado. Guardadas essas duas travas, a vantagem dela é real — informa sobre órgãos específicos e sobre a extensão das lesões, e enxerga o retroperitônio e a pelve, que escapam do exame físico, do FAST e da lavagem peritoneal.
No crânio, a régua da diretriz estadual é explícita e vale decorar. Tomografia de crânio e de coluna cervical sem contraste para todas as vítimas de trauma cranioencefálico grave e moderado. Tomografia de crânio sem contraste para todo paciente com Glasgow 13 ou 14, para excluir lesão cirúrgica. Com Glasgow 15, indicação conforme os critérios canadenses. Usuários de antiagregante, de anticoagulante ou com distúrbio de coagulação: avaliação individualizada, o que na prática rebaixa muito o limiar. E tomografia de corpo inteiro — crânio, coluna cervical, tórax, abdome e pelve — sugerida para todo trauma cranioencefálico grave por mecanismo de alta energia, com a escolha entre corpo inteiro e cortes seletivos definida por protocolo institucional. O manejo da lesão intracraniana em si pertence ao capítulo de trauma cranioencefálico; o que interessa aqui é o gatilho da imagem.
Quando o exame que decide é a decisão de operar
Há um grupo de pacientes em que nenhum exame adicional acrescenta nada, porque a indicação cirúrgica já está posta. As diretrizes do Espírito Santo listam nove situações que indicam laparotomia de emergência: trauma abdominal contuso com hipotensão, FAST positivo ou evidência clínica de sangramento intraperitoneal sem outra fonte; hipotensão com ferida abdominal que penetra a fáscia anterior; ferimento penetrante que atravessa a cavidade peritoneal; evisceração; sangramento do estômago, do reto ou do trato geniturinário após trauma penetrante; peritonite; ar livre na cavidade, ar no retroperitônio ou sinais de rotura de hemidiafragma; achados tomográficos de rotura do trato gastrointestinal, lesão de pedículo renal ou lesão grave de parênquima visceral; e aspiração de conteúdo gastrointestinal, fibras vegetais ou bile na lavagem peritoneal, ou de 10 mL de sangue em paciente hemodinamicamente instável.
Reconhecer que o paciente está nessa lista é uma competência do interno, ainda que a decisão não seja dele. O documento é honesto quanto a isso e registra que o julgamento cirúrgico é sempre necessário para determinar a necessidade e o melhor momento da laparotomia. O que você faz com o reconhecimento é dizer em voz alta, para quem comanda a sala, a frase que muda o plano: "este paciente tem indicação de laparotomia, não de tomografia". Vale a mesma lógica para o tórax: hemotórax com mais de 1.000 a 1.500 mL drenados de imediato, ou drenagem superior a 300 mL por hora nas primeiras três horas, é indicação de toracotomia — o detalhamento está no capítulo de trauma torácico com risco iminente de morte.
O que não pedir, e quanto custa pedir
Tomografia no instável é o erro caro. O trajeto até a sala de exame tira o paciente do monitor, da equipe e do carrinho de ressuscitação, e nenhuma imagem compensa uma parada no corredor. Radiografia de membro antes de o C estar resolvido é o mesmo erro em escala menor: a fratura de rádio não muda em vinte minutos, e a hemorragia muda.
Coagulograma como gatilho para tratar a coagulopatia do trauma é outro engano de raciocínio. O exame demora, é feito a 37 °C no laboratório — portanto não enxerga a lentidão enzimática do paciente que está a 34 °C na maca — e chega quando a decisão já foi tomada. O que orienta a conduta na primeira hora é a clínica: mecanismo, sinais de choque, sangramento em curso.
Repetir a manobra de estabilidade do anel pélvico é o erro que sangra. O protocolo de trauma de pelve do SAMU é categórico: diante de deformidade visível da pelve, não realizar o exame de estabilidade do anel nem qualquer outra manipulação desnecessária — apenas imobilizar. Cada compressão desfaz o coágulo que estava se formando no foco de fratura. A informação que a manobra dá uma vez não se repete; o dano, sim.
E esperar a radiografia para descomprimir um pneumotórax hipertensivo é o erro que mata rápido. As diretrizes capixabas dizem que o diagnóstico se estabelece de imediato pela história, pelo mecanismo e pelo exame clínico — dispneia aguda, dor torácica, taquicardia, turgência jugular, hipotensão, hipertimpanismo, ausência de murmúrio vesicular — e que o tratamento deve ser imediato, sem esperar confirmação radiológica. Vale registrar o que o protocolo do SAMU acrescenta: turgência jugular e desvio de traqueia são sinais tardios. Quem espera a tríade completa está esperando o pior momento possível para agir.
Nem todo choque no trauma é hemorrágico
A regra de partida está escrita no protocolo do SAMU e é a mais segura que existe: diante de um traumatizado em choque, considere a causa como hemorrágica até prova em contrário. Mas as provas em contrário existem, são poucas, e todas se detectam com as mãos e o estetoscópio.
Choque obstrutivo é o que você não pode deixar passar, porque tem tratamento imediato na própria sala. Pneumotórax hipertensivo: choque com murmúrio vesicular abolido de um lado e hipertimpanismo, mais turgência jugular e desvio traqueal quando já é tarde. Tamponamento cardíaco: choque que piora progressivamente, com turgência jugular, bulhas abafadas, pulso paradoxal — a pressão sistólica caindo mais de 10 mmHg na inspiração, com o pulso radial diminuindo ou sumindo —, pressão de pulso reduzida e baixa voltagem no eletrocardiograma. O protocolo do SAMU dá o atalho mental definitivo: sinais clínicos de choque na ausência de hipovolemia e de pneumotórax hipertensivo sugerem tamponamento.
Choque neurogênico é o que se reconhece pelo que falta. Enquanto o choque hipovolêmico tem pele fria, úmida e pegajosa, palidez ou cianose, consciência alterada, enchimento capilar acima de 2 segundos e frequência cardíaca aumentada, o neurogênico tem pele quente e seca, cor rosada, paciente alerta, lúcido e orientado, enchimento capilar normal e frequência cardíaca diminuída. Hipotensão sem taquicardia num traumatizado é uma das poucas combinações que muda de hipótese sozinha. Ainda assim, num politraumatizado, choque neurogênico e hemorragia coexistem com frequência: o diagnóstico de um não dispensa a busca do outro.
E há o choque cardiogênico do trauma — contusão miocárdica, mais comum no ventrículo direito por proximidade com a parede torácica anterior. As diretrizes capixabas registram que troponina I e troponina T têm baixa sensibilidade nesse cenário, embora valores normais com eletrocardiograma normal tenham alto valor preditivo negativo, e apontam a ultrassonografia com Doppler como procedimento diagnóstico de escolha. Traduzindo para a sala: troponina não é exame de triagem de contusão cardíaca, e não é para isso que ela deve entrar no seu pedido.
O que existe no SUS, e o que muda quando não existe
Radiografia e ultrassom existem em praticamente toda porta de urgência do país; tomografia, cirurgião de sobreaviso, banco de sangue com estoque e centro cirúrgico disponível, não. Isso não diminui a sua responsabilidade — desloca a pergunta. Onde não há tomógrafo, o FAST assume o papel de decidir se o paciente instável vai para o centro cirúrgico. Onde não há ultrassonografista nem aparelho, as diretrizes capixabas mantêm a lavagem peritoneal diagnóstica como alternativa, com indicação preferencial no instável com trauma abdominal contuso, ou no trauma penetrante com múltiplos orifícios e trajetórias tangenciais — lembrando que a aspiração de conteúdo gástrico, fibras vegetais ou bile já indica laparotomia urgente, sem esperar o lavado.
Onde não há cirurgião nem centro cirúrgico, o exame que decide o destino do paciente é o telefone. A Rede de Atenção às Urgências existe para isso, e o acionamento da regulação não é etapa burocrática: é a intervenção. A regra da diretriz estadual sobre transferência é a mesma para todos os cenários — estabilizar primeiro, transferir depois, e não gastar tempo com imagem que atrase o transporte. Um paciente que precisa de laparotomia num hospital que não a realiza tem uma única conduta correta, e ela não envolve nenhum exame novo.
A pergunta que fecha o bloco, e que você deve saber responder antes de pedir qualquer coisa, é: o resultado deste exame muda o que eu vou fazer nos próximos trinta minutos? Se muda, peça agora. Se não muda, ele pertence à avaliação secundária, e a avaliação secundária só começa depois que a primária estiver resolvida e reavaliada.
A sequência, e o que a interrompe
O percurso principal segue xABCDE: controle imediato de hemorragia externa exsanguinante, via aérea, respiração, circulação, avaliação neurológica e exposição com proteção térmica. A equipe executa tarefas em paralelo e repete a avaliação após cada intervenção.
- 1Preparar equipe, material, aquecimento, papéis e possibilidade de sangue e tratamento definitivo; ouvir a passagem do resgate sem adiar gestos vitais.
- 2x: identificar e controlar hemorragia externa exsanguinante com compressão, tamponamento ou torniquete apropriados ao sítio e à situação; registrar intervenções e horários.
- 3A: avaliar proteção da via aérea e necessidade de ajuda, mantendo restrição de movimento cervical quando indicada.
- 4B: avaliar ventilação e oxigenação e tratar imediatamente lesões torácicas ameaçadoras, sem depender de sinais clássicos completos.
- 5C: procurar hemorragia externa e interna, obter acesso, acionar sangue e controle do foco conforme gravidade; não esperar anemia laboratorial para reconhecer choque hemorrágico.
- 6D: registrar componentes do Glasgow, pupilas, lateralização e glicemia; interpretar interferências e corrigir hipóxia e hipotensão sem atrasar proteção da via aérea.
- 7E: examinar todo o paciente conforme técnica e equipe, evitar manipulação pélvica repetida e proteger contra hipotermia.
- 8Repetir xABCDE na deterioração e depois de intervenções; selecionar exames que mudam a decisão sem atrasar cirurgia ou transferência.
Classe I — até 15% da volemia (menos de 750 mL)
Frequência cardíaca abaixo de 100, frequência ventilatória de 14 a 20, pressão normal, ansiedade discreta. O paciente parece bem porque ainda está bem — mas o sangramento pode estar em curso.
Classe II — 15 a 30% (750 a 1.500 mL)
Frequência cardíaca de 100 a 120, ventilatória de 20 a 30, pressão ainda normal, ansiedade leve. É a classe que engana: quem só olha a pressão não vê nada, e já se foi até um litro e meio.
Classe III — 30 a 40% (1.500 a 2.000 mL)
Frequência cardíaca de 120 a 140, ventilatória de 30 a 40, pressão diminuída, ansiedade e confusão. A hipotensão aparece aqui, e não antes: é sinal de perda avançada, não de perda inicial.
Classe IV — acima de 40% (mais de 2.000 mL)
Frequência cardíaca acima de 140, pressão diminuída, confusão e letargia. Reposição sozinha não resolve: sem controle cirúrgico do foco, o volume infundido sai pelo mesmo buraco.
| Letra | O que mata | Reconhecimento em 30 segundos | A ação imediata | O que não pode vir antes |
|---|---|---|---|---|
| A | Obstrução ou perda iminente da via aérea | Não fala, fala com voz alterada, estridor, roncos, sangue ou vômito na boca, fratura de face instável, hematoma cervical em expansão, queimadura de via aérea, Glasgow abaixo de 8 | Aspirar, retirar corpo estranho, manobra de abertura para o trauma, cânula orofaríngea, oxigênio; chamar quem intuba e preparar o material enquanto ele vem | Nada. O A não espera exame, nem imagem, nem opinião — e a estabilização cervical é simultânea, não anterior |
| B | Pneumotórax hipertensivo | Suspeita clínica de pneumotórax hipertensivo com comprometimento respiratório grave ou circulatório; assimetria e murmúrio reduzido apoiam a hipótese. Não exigir choque descompensado, desvio traqueal ou turgência jugular. | Descompressão por agulha imediata: cateter sobre agulha 14G de pelo menos 5 cm, no 2º ou 3º espaço intercostal na linha hemiclavicular, a 90°, pela borda superior da costela inferior | Radiografia. O diagnóstico é clínico e o tratamento é imediato, sem esperar confirmação radiológica |
| B | Pneumotórax aberto (ferimento aspirativo) | Solução de continuidade da parede torácica com passagem de ar audível ou visível, hipóxia e hipercapnia | Curativo oclusivo estéril de três pontas, que deixa o ar sair e impede que entre; drenagem pleural fechada como tratamento definitivo | Oclusão nos quatro lados, que transforma o pneumotórax aberto em hipertensivo |
| C | Hemorragia externa exsanguinante | Sangramento ativo visível, poça no chão, curativo encharcado; pulso radial ausente com pulso central presente | Compressão direta sobre o ferimento como primeira opção; curativo compressivo por cima do primeiro se encharcar; torniquete proximal em membro se a compressão falhar, com a hora anotada | Avaliar o resto do C. O controle da hemorragia vem antes de aferir pressão, puncionar acesso ou pedir qualquer exame |
| C | Hemorragia interna (tórax, abdome, retroperitônio, pelve) | Choque sem foco externo; abdome doloroso ou distendido; instabilidade do anel pélvico; FAST positivo; murmúrio reduzido com macicez | Dois acessos calibrosos, cristaloide aquecido titulado, ácido tranexâmico na janela, cinta ou fixação pélvica se a pelve estiver aberta, e o cirurgião chamado agora | Tomografia. O instável não sai da sala de emergência para exame nenhum |
| C | Tamponamento cardíaco | Trauma torácico, mais frequentemente penetrante, com choque progressivo, turgência jugular, bulhas abafadas, pulso paradoxal, pressão de pulso reduzida, baixa voltagem no eletrocardiograma | Reposição volêmica rápida para ganhar tempo e acionamento imediato do cirurgião; pericardiocentese apenas com treinamento, material e transporte prolongado | Descartar pelo achado isolado. Choque com hipovolemia afastada e pneumotórax hipertensivo afastado já sugere tamponamento |
| D | Lesão cerebral com perda de proteção de via aérea | Glasgow abaixo de 8, queda de 2 ou mais pontos na série, assimetria pupilar acima de 1 mm, déficit focal novo | Via aérea definitiva; manter pressão sistólica acima de 90 mmHg e saturação de oxigênio em pelo menos 94%; corrigir glicemia e temperatura | Interpretar o Glasgow antes de corrigir hipóxia, hipotensão e hipoglicemia — e hiperventilar profilaticamente |
Classificação do choque hipovolêmico
| Parâmetro | Classe I | Classe II | Classe III | Classe IV |
|---|---|---|---|---|
| Sangue perdido | menos de 750 mL (menos de 15%) | 750 a 1.500 mL (15 a 30%) | 1.500 a 2.000 mL (30 a 40%) | mais de 2.000 mL (mais de 40%) |
| Frequência cardíaca | menos de 100 | 100 a 120 | 120 a 140 | mais de 140 |
| Frequência ventilatória | 14 a 20 | 20 a 30 | 30 a 40 | acima de 35 |
| Pressão arterial | normal | normal | diminuída | diminuída |
| Estado mental | ansiedade discreta | ansiedade leve | ansiedade e confusão | confusão e letargia |
Choque no trauma: o que a pele e a consciência separam
| Sinal | Hipovolêmico | Neurogênico | Cardiogênico | Séptico |
|---|---|---|---|---|
| Temperatura da pele | fria, úmida, pegajosa | quente, seca | fria, úmida, pegajosa | fria, úmida, pegajosa |
| Coloração da pele | pálida, cianose | rosada | pálida, cianose | pálida, rendilhada |
| Pressão arterial | normal ou diminuída | normal ou diminuída | normal ou diminuída | normal ou diminuída |
| Nível de consciência | alterado | alerta, lúcido, orientado | alterado | alterado |
| Enchimento capilar | acima de 2 segundos | normal, até 2 segundos | acima de 2 segundos | acima de 2 segundos |
| Frequência cardíaca | aumentada | diminuída | aumentada | aumentada |
Trauma maior: basta um item de qualquer domínio
| Domínio | O que conta |
|---|---|
| Parâmetros vitais | Glasgow abaixo de 14 ou deterioração neurológica; pressão sistólica abaixo de 90 mmHg; frequência respiratória abaixo de 10 ou acima de 29; mecânica ventilatória que exigiu intubação pré-hospitalar |
| Anatomia da lesão | Ferimento penetrante craniano, cervical, torácico, abdominal ou em extremidade proximal ao cotovelo ou ao joelho; combinação de traumas ou queimaduras de 2º ou 3º graus; suspeita clínica de instabilidade da pelve; suspeita de fratura de dois ou mais ossos longos proximais; paralisia de um ou mais membros; amputação completa ou incompleta proximal ao punho ou ao tornozelo |
| Mecanismo do trauma | Impacto violento; ejeção do veículo; velocidade acima de 60 km/h; deformação externa acima de 50 cm; intrusão da lataria acima de 30 cm; capotamento; morte de outro ocupante do mesmo veículo; colisão, atropelamento de pedestre ou de ciclista acima de 10 km/h |
Ácido tranexâmico no trauma — a régua do protocolo
| Item | Régua |
|---|---|
| Quem recebe | Trauma penetrante ou contuso em pescoço, tórax, abdome ou pelve com sinais de choque (frequência cardíaca acima de 100, sistólica abaixo de 90 mmHg, pulso radial filiforme, sudorese, perfusão acima de 2 segundos); trauma de extremidade com sangramento ativo e perda acima de 500 mL ou choque de classe II ou mais; hemorragia visível ativa com perda acima de 500 mL |
| Quem não recebe | Hipersensibilidade conhecida; mais de 3 horas do trauma ou do início da hemorragia; gestantes; insuficiência renal crônica. Protocolo não aplicável a pacientes pediátricos, e cautela em quem tem antecedente recente ou significativo de tromboembolismo venoso |
| Apresentação | Solução injetável de 50 mg/mL em ampola de 5 mL — portanto 250 mg por ampola |
| Preparo e infusão | 1 g, ou seja 4 ampolas, em 100 mL de soro fisiológico, por via endovenosa em 10 minutos, a 10 mL por minuto |
| Quando interromper | Suspeita de evento adverso: náusea, vômito, hipotensão, queda da frequência cardíaca, alergia de pele, cefaleia, turvação visual, tromboembolismo |
As classes do choque hemorrágico descrevem tendências. Idade, condicionamento físico e medicamentos alteram a resposta: um idoso betabloqueado pode sangrar sem taquicardia, e um jovem pode manter a pressão apesar de perda importante. Use a classificação para antecipar necessidades, sem calcular a perda exata nem excluir choque porque o paciente não se encaixa em uma coluna.
As faixas de frequência respiratória das classes III e IV se sobrepõem no protocolo do SAMU. Taquipneia acima de 30 incursões por minuto no traumatizado exige atenção à perfusão e às lesões associadas; distinguir 35 de 40 não deve atrasar a conduta.
Glasgow classifica o TCE em leve (13–15), moderado (9–12) e grave (3–8). Registre os componentes e a evolução após a ressuscitação inicial. Glasgow ≤8 exige avaliar via aérea definitiva no contexto clínico; queda de pelo menos 2 pontos no TCE moderado indica nova tomografia na diretriz estadual. A escala completa e o manejo da hipertensão intracraniana estão no capítulo de TCE.
O protocolo pré-hospitalar do Distrito Federal prevê dose única de ácido tranexâmico. O regime completo do CRASH-2 inclui 1 g em 10 minutos e mais 1 g em 8 horas, com manutenção no hospital. Na passagem do caso, confirme a dose administrada e seu horário para evitar repetir o ataque.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a do rapaz da moto: 24 anos, colisão em alta energia, acordado, taquipneico, com fratura exposta de tíbia direita e escoriação no hemitórax direito. Cada marco traz o que se faz e a prescrição por extenso. Duas coisas atravessam a linha inteira. A primeira é que nenhum passo espera o anterior estar bonito: o C começa enquanto alguém ainda trabalha no A. A segunda é o papel do interno, que aparece marco a marco — quase nunca é comandar, e nunca é assistir.
Minuto −3 — o rádio tocou
Os três minutos entre o aviso e a maca são os únicos em que a sala está calma, e são os mais produtivos do atendimento. Alguém precisa dizer em voz alta quem faz o quê, porque equipe sem papel definido converge toda para a mesma lesão. Se ninguém disser, diga você: pergunte quem vai ficar no A, quem vai no C, e ofereça-se para cronometrar e registrar. Registrar não é tarefa menor — é a função que produz a série de sinais vitais e de Glasgow sobre a qual todas as decisões seguintes vão se apoiar, e é a que o interno pode assumir sem pedir autorização a ninguém.
Prescrição- Equipamento de proteção individual completo para todos, antes de a maca entrar — é obrigatório em todos os protocolos de procedimento do SAMU 192 e é a primeira coisa que se esquece com pressa (SAMU 192, Suporte Avançado de Vida)
- Solução cristaloide aquecida a 39 °C separada e pronta, com Ringer lactato como primeira escolha e soro fisiológico 0,9% como segunda (SAMU 192, protocolo AT4)
- Manta térmica aluminizada aberta e ar condicionado desligado antes de o paciente chegar (SAMU 192, protocolos AT1 e AT4)
- Banco de sangue avisado de que vem trauma maior, para adiantar o preparo das provas cruzadas (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
Minuto 0 — a maca entra
A passagem do caso é a única informação irrecuperável do atendimento, e ela dura menos de um minuto. Pare a sala, ouça o mecanismo, o horário do trauma, os sinais vitais na cena, as intervenções feitas e a hora de cada uma — e anote enquanto ouve. No caso do rapaz: colisão moto contra automóvel em via de trânsito rápido, capacete danificado, pressão 110 por 70 na cena, glicemia 118, ácido tranexâmico administrado às 21h14. Esse último dado vale ouro e some em trinta segundos se ninguém escrever. Em paralelo, a classificação de risco define destino físico: vermelho e laranja vão para a sala com material aberto, não para a fila.
Prescrição- Monitorização multiparamétrica contínua: ritmo cardíaco, oximetria de pulso, pressão arterial não invasiva e temperatura (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
- Registro escrito, com hora, do horário do trauma, dos sinais vitais de cena e de cada droga já administrada (SAMU 192, protocolos AP19 e AT5)
Minuto 0 a 2 — A e B
Ele fala em blocos de três palavras: a via aérea está pérvia naquele momento, mas há comprometimento respiratório. Manter proteção cervical, avaliar tórax imediatamente e ofertar oxigênio, com monitorização e cirurgião acionado. A expansão assimétrica, o murmúrio reduzido e a SpO₂ de 91% exigem investigar lesão pleural e outras causas. Pressão de 108 por 84, traqueia central e jugulares não túrgidas não excluem pneumotórax hipertensivo. Se a avaliação sustentar essa suspeita com comprometimento respiratório grave ou circulatório, a equipe descomprime sem aguardar imagem. Se estável e persistir dúvida, usar imagem à beira do leito sem atrasar tratamento.
Prescrição- Oxigênio por máscara facial a 10 a 12 L/min, já que a saturação está abaixo de 94% (SAMU 192, protocolo AT1)
- Colar cervical de tamanho adequado, medido pela distância entre a mandíbula e o ombro, com estabilização manual mantida até a instalação do imobilizador lateral de cabeça (SAMU 192, protocolo BP17)
- Ventilação assistida com bolsa-valva-máscara com reservatório se a frequência respiratória cair abaixo de 8 por minuto ou se ventilação e oxigenação não se mantiverem (SAMU 192, protocolo AT1)
- Suspeita clínica de pneumotórax hipertensivo com comprometimento respiratório ou circulatório exige descompressão imediata por profissional habilitado, conforme técnica e material do serviço, sem aguardar imagem. Não esperar choque descompensado ou todos os sinais clássicos; organizar drenagem definitiva e reavaliar.
- Avaliar via aérea definitiva em incapacidade de proteger a via aérea, falha de oxigenação/ventilação, deterioração ou Glasgow ≤8 após ressuscitação inicial, considerando contexto e trajetória. O interno aciona e auxilia o operador habilitado.
Minuto 2 a 5 — C
Antes de qualquer outra coisa no C, a perna. O curativo está encharcado: não retire o que está por baixo — aplique um novo curativo por cima do primeiro, com mais pressão manual. Persistindo, torniquete proximal ao ferimento, apertado até o sangramento parar e o pulso distal desaparecer, com a hora escrita em esparadrapo sobre o dispositivo. Torniquete frouxo é pior que torniquete nenhum: ele bloqueia o retorno venoso e mantém o fluxo arterial, e o membro sangra mais. Só então avalie perfusão. Pulso radial presente mas fino, enchimento capilar de 3 segundos, pele fria e úmida, frequência cardíaca de 124: classe II caminhando para III, e a fratura de tíbia não explica sozinha esse quadro. Procure o resto — tórax, abdome, pelve, coxas, chão.
Prescrição- Compressão direta com gaze ou compressa estéril sobre o ferimento, mantida até o sangramento parar; curativo compressivo por cima, sem remover o anterior encharcado (SAMU 192, protocolo AP18)
- Torniquete comercial, esfigmomanômetro insuflado ou recurso adaptado com pelo menos 10 cm de largura, imediatamente proximal ao ferimento, com hora registrada e idealmente menos de duas horas de permanência (SAMU 192, protocolo AP19)
- Dois acessos venosos periféricos calibrosos, com coleta na mesma punção: tipagem sanguínea com prova cruzada, hemograma, função renal, eletrólitos, glicemia, coagulograma e gasometria arterial (SAMU 192, protocolo AT4; Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
- Punção intraóssea após duas tentativas sem sucesso de acesso periférico; na impossibilidade, punção de jugular externa ou dissecção venosa, com preferência pela veia safena (SAMU 192, protocolo AT4)
- Usar fluidos aquecidos e reposição titulada com controle da hemorragia. Sem lesão cerebral ou medular, a equipe pode adotar PAS de 80–90 mmHg temporariamente até hemostasia; TCE exige evitar hipotensão permissiva e metas próprias, como PAS ≥110 mmHg no percurso ACS 2024, individualizadas.
- Ácido tranexâmico 1 g, quatro ampolas de 250 mg da solução de 50 mg/mL, diluído em 100 mL de soro fisiológico 0,9% e infundido por via endovenosa em 10 minutos, a 10 mL/min, desde que estejamos dentro de 3 horas do trauma (Protocolo SES-DF, Portaria nº 91 de 2024)
- Manutenção de ácido tranexâmico 1 g endovenoso em 8 horas, iniciada no hospital após a dose de ataque — é a segunda metade do regime testado no CRASH-2 (Health Technology Assessment, NIHR, 2013)
- Se a pelve estiver instável ou dolorosa: cinta pélvica ou lençol amarrado sobre os trocânteres, sem repetir a manobra de estabilidade do anel; fratura instável com instabilidade hemodinâmica tem indicação de fixação externa imediata (SAMU 192, protocolo BT15; Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
Minuto 5 a 7 — D e E
Glasgow com hora anotada, pupilas e glicemia capilar. Ele está em 15, pupilas isocóricas e fotorreagentes, glicemia 118 — e esse 15 vale porque foi medido depois de o oxigênio subir a saturação. Então o E: cortar o que resta da roupa, virar em bloco para ver e palpar o dorso e os processos espinhosos, e cobrir imediatamente. A rotação em bloco é o momento em que a equipe descobre ferimento por projétil no dorso, hematoma lombar e sangue acumulado sob o paciente. É também o momento em que o interno tem uma função concreta e insubstituível: quatro pessoas viram o paciente, e a que segura a cabeça mantém o alinhamento com a coluna. Ofereça-se para uma das mãos.
Prescrição- Escala de Coma de Glasgow e avaliação pupilar (diâmetro, fotorreatividade e simetria), com hora anotada; assimetria acima de 1 mm manda pesquisar sinais focais (SAMU 192, protocolos AT1 e AT5)
- Glicemia capilar em todo paciente com alteração do nível de consciência (SAMU 192, protocolo AT2)
- Exposição completa cortando as vestes sem movimentação excessiva, seguida imediatamente de manta térmica aluminizada, retirada de roupa molhada e sala aquecida (SAMU 192, protocolos AT1 e AT4)
- Sondagem gástrica pela via orogástrica sempre que houver fratura de face ou suspeita de fratura de base de crânio (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
- Sondagem vesical de demora para monitorar perfusão pela diurese, exceto diante de suspeita de lesão de uretra ou de lesão pélvica — aí não sondar e chamar o urologista (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
Minuto 7 a 15 — adjuntos, analgesia e a segunda volta
Radiografia de tórax e de bacia na própria sala, FAST à beira do leito, laboratório colhido. A radiografia mostra pneumotórax direito de pequeno volume com fraturas do 6º ao 8º arcos costais; a bacia está íntegra; o FAST não mostra líquido livre. Agora a analgesia, que até aqui esperava porque a dor era informação: com o quadro caracterizado e a decisão de destino encaminhada, tratar dor deixa de mascarar e passa a ajudar — dor intensa aumenta consumo de oxigênio, frequência cardíaca e agitação, e atrapalha tudo o que vem a seguir. E então a segunda volta: refaça a avaliação primária inteira, do A.
Prescrição- Radiografia de tórax em ântero-posterior e radiografia de bacia na sala de choque, no traumatizado contuso multissistêmico hemodinamicamente estável (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
- FAST à beira do leito nas quatro janelas: saco pericárdico, espaço hepatorrenal, espaço esplenorrenal e pelve (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
- Dor leve, de 1 a 4: dipirona sódica 1 g por via endovenosa — 2 mL da solução de 500 mg/mL — ou paracetamol 500 mg por via oral (SAMU 192, protocolo AC37)
- Dor moderada, de 5 a 7: tramadol 100 mg por via endovenosa lenta — 2 mL da solução de 50 mg/mL — somado ao analgésico simples (SAMU 192, protocolo AC37)
- Dor intensa, de 8 a 10: sulfato de morfina 2 a 10 mg por via endovenosa para 70 kg de peso, ou fentanil 100 a 200 mcg — 2 a 4 mL da solução de 50 mcg/mL —, sempre em infusão lenta, porque a infusão rápida de opioide potente provoca rigidez torácica e laringoespasmo (SAMU 192, protocolo AC37)
- Analgesia criteriosa e em doses fracionadas se a pressão sistólica estiver abaixo de 90 mmHg (SAMU 192, protocolo AC37)
- Anti-inflamatório não hormonal fica fora do traumatizado que sangra: o protocolo o prevê para dor leve em geral, mas no politraumatizado ele soma disfunção plaquetária e queda da perfusão renal a um paciente já hipovolêmico (SAMU 192, protocolo AC37)
Minuto 15 a 30 — o destino e a fratura exposta
Com o quadro caracterizado, o destino se define: drenagem torácica e internação em leito monitorizado, com a perna para o centro cirúrgico em seguida. A fratura exposta, que abriu o atendimento como protagonista, entra agora no lugar certo da fila — e o que decide o desfecho dela não é a rapidez da cirurgia, é a rapidez do antibiótico. Se o hospital não tem cirurgião de sobreaviso, ortopedista ou centro cirúrgico, o destino é transferência regulada, e a regra é estabilizar antes de transportar, sem gastar tempo com imagem que atrase a saída.
Prescrição- Antibioticoprofilaxia com cefalosporina de primeira geração por via endovenosa na fratura exposta, iniciada idealmente na primeira hora após o trauma e em qualquer caso antes de 3 horas — é o fator isolado mais importante na prevenção de infecção; a dose e o esquema seguem a padronização de profilaxia cirúrgica da instituição (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
- Cobertura da ferida com gaze ou tecido limpo após limpeza com água corrente ou soro fisiológico, imobilização provisória e imobilização definitiva do membro em posição funcional (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
- Verificação e atualização da cobertura antitetânica (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
- Exposição de todo o membro para procurar lesões associadas e checagem do estado vascular e neurológico distal antes e depois de qualquer imobilização (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
- Acionamento da regulação para transferência quando o serviço não dispuser do recurso definitivo, com estabilização clínica antes do transporte e sem tomografia que atrase a saída (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
Depois — a avaliação secundária, e o exame que ninguém faz
A avaliação secundária só começa quando a primária estiver resolvida, e ela é um exame da cabeça aos pés, frente e dorso, somado à entrevista SAMPLA: sintomas, alergias, medicamentos, passado médico e prenhez, líquidos e última refeição, ambiente do evento. Em paciente crítico, algumas etapas podem ser suprimidas, e a qualquer deterioração se retorna à avaliação primária. Vinte e quatro horas depois vem o exame terciário: o reexame completo do paciente já estabilizado, acordado e capaz de apontar onde dói. É nele que aparecem as fraturas de punho, de escafoide e de arcos costais que ninguém viu na noite anterior — não por descuido, mas porque a avaliação primária não foi feita para encontrá-las.
Prescrição- Entrevista SAMPLA com o paciente, familiares ou terceiros; em paciente inconsciente, buscar as informações com quem estava junto (SAMU 192, protocolo AT2)
- Exame segmentar completo — cabeça e face, pescoço com atenção a distensão jugular e desvio de traqueia, tórax, abdome, pelve, membros com pulsos distais e avaliação motora e sensitiva comparada, e dorso com palpação dos processos espinhosos (SAMU 192, protocolo AT2)
- Reexame completo em 24 horas, com o paciente acordado e comunicativo, procurando as lesões que a avaliação primária não se propõe a achar
Como saber se está funcionando
O politraumatizado é o paciente que mais muda de estado por unidade de tempo em todo o hospital, e o exame que você fez há dez minutos descreve um paciente que já não existe. Por isso todos os protocolos repetem a mesma instrução em lugares diferentes: repetir a avaliação primária durante o transporte, retomar a avaliação primária a qualquer deterioração, reavaliar o paciente após cada procedimento. Reavaliar não é caprichar — é a única forma de saber se o que você fez funcionou.
E reavaliar tem uma regra de estrutura que quase ninguém segue: a reavaliação começa no A, sempre, mesmo que o problema tenha aparecido no C. Um paciente que estava estável e ficou hipotenso pode ter perdido a via aérea, pode ter desenvolvido pneumotórax hipertensivo depois que você iniciou ventilação com pressão positiva, ou pode estar sangrando. Começar pela hipótese mais provável em vez de começar pela letra mais rápida é como se perde o paciente que já estava na sua frente.
Esperado: Que ele continue falando com a mesma voz, sem estridor, sem esforço novo e sem queda de saturação. Fale com o paciente a cada reavaliação, mesmo que não haja nada a perguntar: a voz é o monitor mais barato da sala.
Se não melhora: Voz que muda, estridor novo, rouquidão, agitação crescente ou hematoma cervical em expansão são via aérea perdendo terreno, e a hora de intubar é antes, não durante. Chame quem intuba enquanto ainda há tempo de posicionar, pré-oxigenar e preparar o material — via aérea de trauma feita em situação de resgate tem outro patamar de dificuldade e é assunto do capítulo de manejo de via aérea no trauma.
Esperado: Frequência caindo em direção à faixa normal com o oxigênio e a analgesia; murmúrio simétrico, expansão simétrica. Taquipneia persistente num traumatizado é sinal de perda avançada de volume, dor não controlada ou lesão torácica em evolução — nunca é ansiedade.
Se não melhora: Piora súbita com assimetria de ausculta exige avaliar pneumotórax hipertensivo e outras causas. Em intubado, conferir também posição e permeabilidade do tubo e circuito, em paralelo à avaliação torácica. Não assumir automaticamente intubação seletiva nem pneumotórax: diante de suspeita consistente deste último com comprometimento grave, descompressão imediata por profissional habilitado, sem esperar choque ou imagem.
Esperado: Três desfechos possíveis, e o que interessa é qual deles aconteceu. Respondedor: frequência cai, pressão sobe, pele aquece, enchimento capilar normaliza — e assim permanece. Respondedor transitório: melhora e volta a piorar em minutos. Não respondedor: nada muda.
Se não melhora: Respondedor transitório significa sangramento ativo, e a conduta não é mais cristaloide — é hemocomponente e controle cirúrgico do foco, com o cirurgião já na sala. Não respondedor obriga a reabrir o diferencial do choque: perda maciça em curso, ou choque obstrutivo que passou batido (pneumotórax hipertensivo, tamponamento), ou choque neurogênico somado. O protocolo de transfusão maciça e a relação entre hemocomponentes ficam no capítulo de choque hemorrágico no trauma; o que pertence a você é reconhecer a categoria e dizê-la em voz alta.
Esperado: Pulso radial cheio, enchimento capilar até 2 segundos, pele quente e seca, pressão de pulso alargando de volta ao normal. Esses três achados melhoram antes de a pressão sistólica melhorar, e por isso são o sinal precoce de que a reposição está funcionando.
Se não melhora: Pulso radial que desaparece com pulso central mantido é choque, e vale como gatilho independentemente do que o manguito informar. Pressão de pulso que se estreita com sistólica ainda normal é perda em curso. E cuidado com a pressão "normal" do hipertenso crônico e do paciente betabloqueado: nos dois, os números tranquilizam sem motivo.
Esperado: Estabilidade ou melhora conforme a perfusão e a oxigenação melhoram. A diretriz estadual trata a série das primeiras 48 horas como prognóstica, e é a série, não o ponto, que carrega a informação.
Se não melhora: Queda de pelo menos 2 pontos no traumatizado cranioencefálico moderado indica nova tomografia para avaliar piora das lesões prévias. Glasgow abaixo de 9 a qualquer momento indica intubação orotraqueal e conduta de trauma grave. Anisocoria nova acima de 1 mm manda procurar sinal focal e acionar o neurocirurgião. Antes de tudo isso, porém, cheque outra vez pressão, saturação e glicemia: um Glasgow que cai junto com a pressão pode ser perfusão, não hematoma.
Esperado: Temperatura mantida próxima do normal com manta térmica, sala aquecida, roupas molhadas removidas e cristaloide aquecido a 39 °C. Prevenir custa quase nada; reverter custa horas.
Se não melhora: Hipotermia no traumatizado não é desconforto, é o primeiro vértice da tríade letal — e o coagulograma colhido não vai mostrar isso, porque o laboratório roda o exame a 37 °C. Se o paciente esfriou, o sangramento vai piorar antes de qualquer exame avisar. Suspenda fluido em temperatura ambiente, aqueça o que for infundir, cubra tudo o que não estiver sendo examinado e avise a equipe cirúrgica: a hipotermia entra na decisão de fazer cirurgia abreviada em vez de reconstrução definitiva.
Esperado: Fluxo urinário que aparece e se mantém depois da reposição. É o marcador mais simples de perfusão de órgão que existe à beira do leito, e a diretriz estadual arrola a sondagem vesical justamente como adjunto para avaliar perfusão tecidual.
Se não melhora: Oligúria persistente apesar de reposição adequada significa que a reposição não foi adequada, que o sangramento continua, ou que há lesão renal ou de vias urinárias. Hematúria macroscópica pede investigação do trato urinário. E se houver sangue no meato, hematoma perineal ou suspeita de lesão de uretra, a sonda não entra e o urologista é chamado — a informação da diurese não vale uma falsa via.
Esperado: Sangramento cessado, ausência de fluxo arterial distal, membro sem novo sangramento sob o curativo, e a decisão de conversão ou retirada tomada dentro de duas horas, idealmente por quem vai operar.
Se não melhora: Sangramento que continua com o torniquete aplicado quase sempre significa torniquete frouxo: nesse estado ele inibe o retorno venoso e mantém o fluxo arterial, e o membro sangra mais do que sangraria sem nada. Aperte até o pulso distal sumir, e reavalie a dor — o protocolo prevê explicitamente controle da dor no paciente torniquetado.
Esperado: Que a segunda volta confirme a primeira. Confirmação não é perda de tempo: é o que autoriza você a passar para a avaliação secundária e para os exames complementares.
Se não melhora: Se algo mudou, não continue de onde parou — recomece na letra A. A regra parece burocrática e é justamente o contrário: ela existe porque a deterioração de causa nova quase sempre se apresenta como o sintoma da causa antiga. Paciente que piora com fratura de fêmur conhecida costuma ser lido como "está sangrando da perna", e às vezes é um pneumotórax que apareceu depois.
Onde o erro machuca
O dano: O fêmur exposto, a amputação, a deformidade grosseira e o sangramento visível capturam a atenção de toda a equipe ao mesmo tempo, e o sangramento que se vê é, quase por definição, o que se consegue comprimir. Enquanto quatro pessoas se debruçam sobre a perna, a via aérea fecha, o pneumotórax se torna hipertensivo e o hemotórax enche — nenhum deles faz barulho. É esse o mecanismo do segundo pico de mortalidade, que responde por cerca de 30% das mortes por trauma e é descrito como em sua maioria evitável.
Como pegar a tempo: A sequência é uma prótese de atenção: ela existe exatamente porque o julgamento humano, sob adrenalina, vai para o sangue visível. Cubra a lesão chamativa com um campo antes de começar, para tirá-la do campo visual, e diga em voz alta em que letra a equipe está. Se você é o interno e ninguém está falando as letras, fale você.
O dano: "Via aérea garantida, tubo checado" é uma frase verdadeira no momento em que foi dita e potencialmente falsa quando a maca encosta na sua. A cânula migra durante o transporte, habitualmente para o brônquio principal direito, e o resultado é murmúrio reduzido à esquerda com expansão assimétrica — quadro indistinguível de pneumotórax hipertensivo à esquerda. Já se puncionou tórax de paciente que só precisava que o tubo recuasse 2 cm.
Como pegar a tempo: O protocolo de punção de descompressão do SAMU manda checar por ausculta o posicionamento da cânula antes de descomprimir qualquer paciente já intubado. Faça disso regra: no paciente que chega pronto, você refaz A, B e C em trinta segundos, sempre. Não é desconfiança de quem trouxe, é reconhecimento de que a informação envelhece.
O dano: O corredor não tem monitor, não tem equipe, não tem carrinho de ressuscitação e não tem sangue. As diretrizes estaduais reservam a tomografia ao paciente hemodinamicamente estável em quem não haja indicação aparente de laparotomia, e proíbem que ela atrase a transferência. Quem leva o instável troca informação por tempo, e no trauma o tempo é justamente a moeda que falta.
Como pegar a tempo: Antes de qualquer transporte, faça três perguntas em voz alta: o paciente está estável agora, o resultado muda a conduta dos próximos trinta minutos, e a equipe vai junto com o material. Se uma das três falhar, o exame espera. E lembre que existe alternativa dentro da sala: o FAST positivo no instável já decide a próxima porta, sem corredor nenhum.
O dano: Álcool e trauma andam juntos, o que significa que o paciente intoxicado tem mais chance de lesão intracraniana, não menos. Rebaixamento explicado pela substância é rebaixamento não investigado, e o hematoma que cresce em silêncio aparece horas depois, quando a janela cirúrgica já passou.
Como pegar a tempo: A diretriz estadual manda registrar o Glasgow na admissão e reavaliá-lo depois de corrigir os fatores de confusão — hipotensão, hipóxia, intoxicação exógena. Meça glicemia capilar, corrija oxigenação e pressão, refaça o Glasgow e compare. Se o número não acompanhar a correção, a causa não é metabólica. E vale a régua da tomografia: Glasgow 13 ou 14 já é indicação de imagem de crânio.
O dano: Ferimento por projétil nas costas, hematoma lombar expansivo, empalamento, mordida, sangue acumulado sob o paciente e escoriação de arrastamento não existem enquanto ninguém vira o paciente. A avaliação secundária do SAMU inclui explicitamente a inspeção do dorso e a palpação dos processos espinhosos durante o posicionamento — e é justamente a etapa que se suprime quando a sala está cheia.
Como pegar a tempo: Trate a rotação em bloco como parte obrigatória do E, com hora marcada, e não como cortesia a ser feita se sobrar tempo. Ela precisa de quatro pessoas, uma delas segurando a cabeça alinhada com o tronco. Se você é o interno e a equipe é pequena, essa é uma das mãos que você oferece sem pedir licença.
O dano: Cada compressão látero-medial e ântero-posterior desfaz o coágulo que estava se formando no foco de fratura, e o retroperitônio aceita litros sem que nada apareça por fora. O protocolo do SAMU é explícito: diante de deformidade visível da pelve, não realizar o exame de estabilidade do anel nem qualquer manipulação desnecessária — apenas imobilizar.
Como pegar a tempo: A manobra tem uma execução por paciente, feita por quem vai decidir a conduta, e não se repete para cada novo profissional que chega. Registre o resultado no prontuário para que a informação circule no lugar da manobra. Suspeita de instabilidade sem deformidade visível pede radiografia de bacia e cinta pélvica, não uma segunda compressão.
O dano: Sala refrigerada, roupa cortada, corpo exposto e litros de cristaloide em temperatura ambiente produzem hipotermia iatrogênica em minutos. As enzimas da coagulação perdem eficiência abaixo de 37 °C, e o coagulograma não denuncia isso porque é processado à temperatura correta no laboratório. O paciente sangra mais, recebe mais volume frio, esfria mais: a tríade letal é um circuito, não uma lista.
Como pegar a tempo: O E é exposição seguida imediatamente de reaquecimento — manta térmica aluminizada, retirada de roupa molhada, ar condicionado desligado e cristaloide aquecido a 39 °C, como o protocolo especifica. Meça a temperatura e anote. Nenhuma dessas medidas custa dinheiro e todas dependem de alguém lembrar; o interno que lembra vale mais na sala do que imagina.
O dano: O torniquete mal apertado ocluiu o retorno venoso e manteve o fluxo arterial: o membro sangra mais do que sangraria sem nenhum dispositivo, e a equipe acredita que a hemorragia está controlada. E o torniquete sem horário registrado transforma cada troca de plantão numa estimativa — ninguém sabe se são quarenta minutos ou três horas de isquemia, e a decisão sobre o membro passa a ser tomada no escuro.
Como pegar a tempo: Aperte até o sangramento parar e o pulso distal desaparecer; qualquer coisa aquém disso é dano. Escreva a hora num pedaço de esparadrapo colado sobre o dispositivo, como o protocolo recomenda, e repita a hora em voz alta na passagem do caso. O limite prático é de duas horas, e quem decide converter ou retirar é quem vai operar.
O dano: O interno costuma ser a pessoa da sala com menos a fazer com as mãos e mais tempo para olhar — e é frequentemente quem enxerga o murmúrio que sumiu, o Glasgow que caiu dois pontos, o curativo que encharcou de novo, a bolsa de soro que acabou. Achado não verbalizado é achado inexistente. O erro não é não saber; é saber e esperar que outra pessoa também tenha visto.
Como pegar a tempo: Fale em frase curta, com número e sem pedido de desculpas: "murmúrio sumiu à direita", "Glasgow caiu para 12 às 22h40", "pressão 84 por 60 agora". Ninguém na sala de trauma se ofende com dado objetivo dito em voz alta, e todo mundo se ofende com dado que aparece depois. Há coisas que você faz sem autorização — cronometrar, registrar, expor, aquecer, comprimir, segurar a cabeça na rotação, oferecer oxigênio — e há coisas que você chama: descompressão, intubação, indicação cirúrgica, transfusão. Saber de que lado da linha está cada gesto é metade do seu papel.
O que dizer ao paciente e à família
Na sala de trauma há duas conversas simultâneas e as duas são difíceis. Uma é com a equipe, em voz alta, sobre o que você está vendo. A outra é com um paciente acordado, assustado e sendo despido por estranhos, e com uma família que ainda não sabe de nada. As falas abaixo são para dizer em voz alta.
Você viu algo e não é quem comanda a sala
“Murmúrio abolido à direita agora, saturação 88, pressão 82 por 60. Ainda faltam número, hora e nada mais: dado objetivo, dito alto, sem pedir licença e sem pedir desculpas. Se ninguém responder em cinco segundos, repita olhando para quem comanda e chame pelo nome.”
Não diga: "Desculpa, acho que talvez o murmúrio esteja um pouquinho diferente, mas eu posso estar enganado." A hesitação faz o achado ser ouvido como opinião de interno, e não como dado. Você não precisa ter certeza do diagnóstico para relatar o que mediu.
Você precisa de ajuda e ainda não tem o diagnóstico
“Preciso de você aqui agora. Homem de 24 anos, colisão de moto há quarenta minutos, taquipneico, murmúrio reduzido à direita, frequência 124, pressão caindo. Não sei o que é, e por isso estou chamando. Nome, mecanismo, o que está alterado, e o pedido explícito de presença física — não "dá uma olhada quando puder".”
Não diga: Esperar ter certeza para chamar. No trauma, o custo de chamar cedo e o quadro se resolver é zero; o custo de chamar tarde não se recupera. E evite passar o caso por mensagem: pedido de ajuda por escrito vira fila.
O paciente pergunta se vai perder a perna
“A sua perna está quebrada e a gente vai cuidar dela, mas agora eu preciso resolver a sua respiração primeiro, porque é o que está mais urgente. O ortopedista já foi chamado. Eu volto a falar da perna com você assim que a respiração estiver segura.”
Não diga: "Fica quieto que a perna é o de menos." É verdade clínica e é péssima frase: para ele a perna é tudo, e um paciente que se sente ignorado deixa de colaborar exatamente quando você precisa que ele respire fundo e diga onde dói.
A família chegou e ainda não há diagnóstico
“Ele está acordado e falando comigo, o que é um bom sinal. Eu ainda não sei a extensão das lesões — estou nos primeiros minutos e a primeira coisa que a gente faz é procurar o que coloca a vida em risco, antes de examinar o resto. Vou pedir alguns exames agora e volto a falar com vocês em cerca de trinta minutos, mesmo que não tenha novidade nenhuma. Se algo mudar antes disso, eu venho antes.”
Não diga: "Está tudo sob controle" no primeiro contato. Se em vinte minutos o paciente for para o centro cirúrgico, a frase vira mentira retrospectiva e destrói a confiança de que você vai precisar na conversa seguinte, que costuma ser pior.
O paciente pergunta pela pessoa que vinha com ele
“Eu ainda não tenho essa informação, e não vou inventar. Vou descobrir e te conto assim que souber. Agora eu preciso da sua ajuda: respira fundo pra mim e me diz onde dói mais.”
Não diga: Dizer que a outra pessoa está bem sem ter checado, e também dar a má notícia no meio da ressuscitação. Informação de morte dada a um paciente instável, sem alguém junto e sem tempo para acolher a reação, é dano — ela pode e deve esperar o paciente estar estável e acompanhado.
O paciente vai ser transferido para outro hospital
“O senhor vai para outro hospital porque lá tem o cirurgião e o centro cirúrgico que esse caso precisa, e aqui não tem hoje. Isso não é abandono nem falta de vaga: é o hospital certo para o problema. Nós vamos junto na ambulância, com o soro e o monitor, e a equipe de lá já está avisada e esperando.”
Não diga: "Aqui a gente não pode fazer nada." Além de falso — tudo o que estabilizou o paciente foi feito aqui —, produz uma família que chega ao destino desconfiada de toda a cadeia de cuidado.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Janela de 3 horas, dose única no pré-hospitalar
O protocolo distrital exclui explicitamente o paciente com mais de 3 horas de trauma ou de início da hemorragia, e prescreve 1 g em 100 mL de soro fisiológico em 10 minutos como dose única durante o atendimento pré-hospitalar. Exclui também gestantes, portadores de insuficiência renal crônica e pacientes pediátricos, e pede cautela em quem tem antecedente de tromboembolismo venoso.
Protocolo de Atenção à Saúde SES-DF, Portaria nº 91 de 11 de março de 2024
Regime de duas partes, com inclusão até 8 horas
O ensaio que sustenta a droga incluiu pacientes até 8 horas do trauma e testou 1 g em 10 minutos seguido de 1 g em 8 horas, com redução de mortalidade por todas as causas de 16,0% para 14,5% (risco relativo 0,91). A análise por tempo até o tratamento, que é exploratória e não desfecho primário, encontrou benefício maior na primeira hora (0,68), benefício entre 1 e 3 horas (0,79) e dano acima de 3 horas (1,44, com intervalo de confiança inteiramente acima de 1).
Roberts I, Shakur H, Coats T, et al. The CRASH-2 trial. Health Technology Assessment (NIHR), 2013
Confirme o horário do trauma, a indicação e o que já foi administrado antes de prescrever ácido tranexâmico. A janela de até 3 horas orienta o início; horário incerto exige avaliação da equipe, sem presumir que o paciente esteja dentro dela. Se o ataque já foi feito, organize a manutenção hospitalar de 8 horas e registre os horários. A redução absoluta de mortalidade de cerca de 1,5 ponto percentual, correspondente a aproximadamente 68 pacientes tratados para evitar uma morte, reforça seu papel como adjuvante: a administração não deve atrasar o controle do sangramento.
Pelo mecanismo, com imobilização em prancha rígida
O protocolo pré-hospitalar lista mecanismos que já levantam suspeita de lesão de coluna e disparam a imobilização: impacto violento em cabeça, pescoço, tronco ou pelve; aceleração ou desaceleração repentina; qualquer tipo de queda, especialmente em idosos; ejeção de veículo; acidente em águas rasas; lesão na cabeça com qualquer alteração de consciência; dano significativo no capacete. A imobilização é em posição supina, alinhada e neutra, sobre prancha rígida, com colar e imobilizador lateral de cabeça.
Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Básico de Vida, protocolo BT11
Pela suspeita clínica, na sala de emergência
A diretriz hospitalar estadual coloca a imobilização com colar cervical como conduta na suspeita de fratura cervical ou na impossibilidade de avaliação neurológica, e atribui ao médico a decisão de manter ou retirar o colar, com auxílio da avaliação neurocirúrgica quando indicada. Ou seja: dentro do hospital, o critério passa a ser clínico e revisável, não o mecanismo.
Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma, 2018
Considere o ambiente e a confiabilidade do exame. No pré-hospitalar, mecanismo e necessidade de transporte pesam quando não há avaliação confiável. No hospital, verifique consciência, orientação, intoxicação, lesão distratora e déficit focal antes de decidir sobre a restrição. A prancha rígida serve ao transporte; sua permanência prolongada causa dor, lesão por pressão e restrição respiratória. Reavalie sua necessidade ao transferir para a maca. A retirada do colar requer decisão médica documentada, com o exame ou a investigação que a sustenta.
Pressão sistólica acima de 80 mmHg no choque hemorrágico
No choque do trauma, a reposição com cristaloide isotônico tem por objetivo manter pressão sistólica acima de 80 mmHg. O alvo baixo é deliberado: pressão alta demais antes do controle cirúrgico do foco desfaz o coágulo formado, aumenta o sangramento e dilui os fatores de coagulação com o volume infundido.
Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, protocolo AT4
Pressão sistólica acima de 90 mmHg quando há trauma cranioencefálico
Na presença de traumatismo cranioencefálico, o mesmo conjunto de protocolos eleva o piso para 90 mmHg e coloca a correção da pressão arterial, ao lado da hipoxemia, da glicemia e da temperatura, como meio explícito de impedir a lesão cerebral secundária. O encéfalo lesado perde a autorregulação e passa a depender diretamente da pressão sistêmica para se perfundir.
Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, protocolos AT4 e AT5
Quando TCE e hemorragia coexistem, use as metas próprias do TCE descritas na conduta, evitando hipotensão permissiva. O percurso ACS 2024 citado neste capítulo adota PAS ≥110 mmHg, individualizada pela equipe. A reposição sustenta a perfusão enquanto se controla o foco; ela não substitui hemostasia. Se houver dúvida sobre lesão cerebral associada, comunique-a e mantenha a proteção da perfusão cerebral no planejamento da ressuscitação.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao rapaz da moto. Homem de 24 anos, colisão com automóvel em via de trânsito rápido há quarenta minutos, capacete danificado. Chega acordado, em prancha e colar, com fratura exposta de tíbia direita e curativo encharcado. Escoriação larga no hemitórax direito. Fala em blocos de três palavras. Acompanhe o raciocínio em voz alta.
o que penso antes de encostar nele
O mecanismo e a fratura exposta indicam trauma maior, mas a primeira decisão é reconhecer ameaça imediata. O curativo encharcado e o rastro de sangue exigem verificar e conter hemorragia externa grave já na chegada. Peço compressão direta e, se necessário para hemorragia ameaçadora no membro, torniquete apropriado com horário registrado, enquanto a equipe avalia via aérea e respiração. O xABCDE evita tanto a distração pela deformidade quanto a omissão de um sangramento exsanguinante.
o A, e o que a voz dele já respondeu
Pergunto o nome. Ele responde. Isso me dá três informações de uma vez: via aérea pérvia, ventilação suficiente para fonar, encéfalo perfundido o bastante para obedecer. O que não me dá: garantia de que continuará assim. Inspeciono a boca, não há sangue nem corpo estranho, não há estridor, o pescoço não tem hematoma em expansão. A estabilização cervical já vinha da rua, e mantenho o colar. O A está resolvido por ora — e vou refazê-lo a cada deterioração.
o B, e o achado que muda a noite
A fala curta, FR de 30 e SpO₂ de 91% sinalizam comprometimento respiratório. Ofereço oxigênio e avalio imediatamente o tórax com a equipe: há assimetria e murmúrio reduzido à direita. Pressão preservada e ausência de sinais clássicos tardios não afastam pneumotórax hipertensivo. A decisão de descomprimir depende da suspeita clínica e da gravidade respiratória ou circulatória, sem esperar choque; ausculta reduzida isoladamente também não justifica punção automática. Organizo ultrassom à beira do leito se houver dúvida e estabilidade suficiente, sem atrasar intervenção, e acompanho a resposta continuamente.
o C, e a ordem dentro dele
Primeiro o que sangra: o curativo da perna encharcou. Não removo — coloco outro por cima e faço compressão manual firme. O sangramento cede, e o torniquete fica preparado, não aplicado. Só então avalio perfusão: pulso radial presente mas fino, enchimento capilar de 3 segundos, pele fria e úmida, frequência 124. Pela tabela, isso é classe II caminhando para III — entre 750 e 1.500 mL perdidos, talvez mais. Dois acessos calibrosos, coleta na mesma punção com tipagem e prova cruzada, e Ringer lactato aquecido a 39 °C titulado por resposta. O socorrista disse 21h14 para o ácido tranexâmico: já foi feito, está anotado, não repito o ataque.
como a resposta ao volume muda o que penso
Aos quinze minutos, frequência 106, pressão 114/76, enchimento capilar de dois segundos e pele aquecendo mostram resposta favorável, mantida na avaliação seguinte. Isso não prova que toda hemorragia cessou: reavalio o foco externo, tórax, abdome, pelve e necessidade de suporte. A estabilidade sustentada permite investigação compatível com os recursos e riscos; melhora transitória seguida de deterioração exige controle hemorrágico e ressuscitação imediatos, sem repetir cristaloide por inércia.
o D e o E, sem pular
Glasgow 15 às 21h58, pupilas isocóricas e fotorreagentes, glicemia 118 — e esse 15 vale porque foi medido depois de a saturação subir. Exponho o resto, viro em bloco com quatro pessoas (eu seguro a cabeça), palpo os processos espinhosos, não há ferimento em dorso nem sangue acumulado sob ele. Cubro imediatamente com manta térmica. A pelve é palpada uma vez, sem dor e sem instabilidade, e eu registro isso no prontuário para que ninguém repita a manobra.
os adjuntos, e a decisão
Radiografia de tórax e de bacia na própria sala, FAST à beira do leito. O tórax mostra pneumotórax direito de pequeno volume com fraturas do 6º ao 8º arcos costais; a bacia está íntegra; o FAST não mostra líquido livre — e eu leio esse FAST negativo pelo que ele é, ausência de líquido neste momento, não ausência de lesão. Como está estável e responde, ele tem indicação de tomografia; se estivesse instável, não sairia da sala. Destino: drenagem torácica, tomografia, leito monitorizado e centro cirúrgico para a perna. E a fratura exposta, que abriu o atendimento como protagonista, recebe agora o que de fato muda o desfecho dela: cefalosporina de primeira geração endovenosa dentro da primeira hora, cobertura da ferida, imobilização em posição funcional, checagem de pulso distal e verificação da cobertura antitetânica.
Faça você
Agora é outro paciente. Homem de 41 anos, pedreiro, queda de andaime de cerca de 4 metros há trinta minutos, trazido pelo SAMU em prancha e colar. Chega gritando de dor e segurando o antebraço esquerdo, que tem deformidade grosseira e angulação evidente, sem exposição óssea. Diz o próprio nome e a data. Frequência respiratória 30, saturação 90% em ar ambiente, murmúrio vesicular diminuído à direita com expansão assimétrica, traqueia central, jugulares não túrgidas. Pressão 104 por 78, frequência cardíaca 118, pele fria e úmida, enchimento capilar de 3 segundos, pulso radial presente e fino. Glasgow 15, pupilas isocóricas, glicemia 104. Sem sangramento externo visível. Refere dor em hemitórax direito e no antebraço.
por que ele é trauma maior antes de qualquer exame
Ele preenche dois domínios independentes. Mecanismo: queda de altura, impacto violento. Parâmetros vitais: frequência respiratória de 30, acima do corte de 29. Não precisa de mais nada — sala, equipe, avaliação primária completa, e nenhuma fila.
o que a lesão que grita não explica
A fratura de antebraço fechada é a lesão mais visível, a mais dolorosa e a que ele pede que você trate. Ela não explica taquipneia de 30, não explica saturação de 90%, não explica murmúrio diminuído à direita e não explica perda de volume suficiente para deixar a pele fria com enchimento capilar de 3 segundos. Antebraço não sangra litros e não afeta a ventilação. Tudo o que está alterado aponta para outro lugar.
a pergunta do B que precisa ser respondida agora
Murmúrio reduzido e expansão assimétrica podem decorrer de pneumotórax, hemotórax, contusão e lesões associadas. Avaliar gravidade respiratória e circulatória imediatamente. Suspeita consistente de pneumotórax hipertensivo exige descompressão se houver comprometimento grave, sem aguardar hipotensão ou todos os sinais clássicos; imagem só quando puder esclarecer sem atrasar tratamento.
os números do C, lidos pela tabela
Frequência 118, frequência ventilatória 30, pressão ainda normal, pele fria e pegajosa, enchimento capilar acima de 2 segundos, paciente lúcido e ansioso. Isso é classe II entrando em III: entre 750 e 1.500 mL, possivelmente mais, e a pressão de 104 por 78 tem pressão de pulso de 26 mmHg — estreita.
conduta
— sua vez —
Continuidade do caso e prática do internato
Volte ao motociclista: o problema visível deve ser controlado quando ameaça a vida, enquanto se procura o que ainda não foi visto.
Questão integrativa 1
O rastro de sangue permite adiar a perna até terminar o A?
Questão integrativa 2
Pressão inicialmente normal exclui perda importante?
Questão integrativa 3
É necessário choque descompensado para tratar pneumotórax hipertensivo?
Questão integrativa 4
Glasgow total é suficiente na passagem?
Questão integrativa 5
Melhora após expansão prova hemostasia?
Questão integrativa 6
Qual é a função do interno na avaliação primária?
Ver como fecharíamos
A conduta segue xABCDE, controlando eventual hemorragia exsanguinante imediatamente enquanto a equipe avalia A e B. A: ele fala, a via aérea está pérvia, o colar permanece. B: oxigênio por máscara facial a 10 a 12 L/min, porque a saturação está abaixo de 94%; palpar todo o tórax e auscultar de novo; deixar o cateter 14G de pelo menos 5 cm separado e à mão. Avaliar imediatamente com a equipe se a suspeita de pneumotórax hipertensivo é consistente e se há comprometimento respiratório grave ou circulatório: nesse caso, descomprimir sem esperar choque ou radiografia. Murmúrio reduzido isolado não basta para punção automática; se estável e houver dúvida, imagem à beira do leito pode esclarecer sem atrasar intervenção. Manter reavaliação contínua. C: dois acessos calibrosos com coleta na mesma punção, incluindo tipagem e prova cruzada; Ringer lactato aquecido a 39 °C titulado para pressão sistólica acima de 80 mmHg — acima de 90 se houver qualquer suspeita de trauma cranioencefálico; ácido tranexâmico 1 g em 100 mL de soro fisiológico em 10 minutos, porque o trauma tem trinta minutos e ele tem sinais de choque com trauma contuso de tronco. Não há sangramento externo a comprimir, então o volume perdido está no tórax, no abdome, no retroperitônio ou na pelve, e é isso que os adjuntos precisam responder. D: Glasgow 15 e glicemia 104, registrados com hora. E: expor, virar em bloco (a queda de altura obriga a examinar o dorso e a coluna) e cobrir com manta térmica imediatamente. Adjuntos na própria sala: radiografia de tórax em ântero-posterior e radiografia de bacia, FAST nas quatro janelas, laboratório com gasometria. O antebraço entra depois: imobilização em posição funcional, checagem de pulso e perfusão distais antes e depois de imobilizar, analgesia titulada — e radiografia do membro só quando o C estiver resolvido. Duas travas fecham o caso. Se ele for respondedor transitório, a conduta deixa de ser cristaloide e passa a ser hemocomponente com cirurgião na sala. E, estável ou não, ele não sai da sala de emergência para tomografia enquanto a resposta ao volume não estiver sustentada. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Verificar e controlar hemorragia exsanguinante imediatamente, com a equipe avaliando A e B em paralelo. 2. Não. Compensação pode manter a pressão; integrar perfusão, tendência e mecanismo. 3. Não. Comprometimento respiratório ou circulatório com suspeita clínica consistente exige intervenção imediata por profissional habilitado. 4. Não. Informar componentes, pupilas, horário e fatores que interferem, como sedação, hipóxia ou hipotensão. 5. Não. Verificar sustentação da resposta e focos; recidiva de deterioração muda a urgência. 6. Reconhecer ameaças, comunicar, executar tarefas supervisionadas, registrar intervenções e acompanhar resposta e destino.
A informação mais valiosa do C não é a pressão, é o padrão de resposta ao volume. Respondedor sustentado permite investigar; respondedor transitório — melhora e volta a piorar em minutos — significa que o sangramento continua e que o volume está apenas sendo perdido pelo mesmo buraco. Somado a FAST positivo em paciente instável com trauma contuso, isso preenche a primeira das indicações de laparotomia de emergência listadas na diretriz estadual. Mais cristaloide dilui fatores de coagulação, esfria o paciente e adia a única intervenção que resolve. Tomografia está proscrita no instável, porque tira o paciente da sala onde há equipe, monitor e sangue. Vasopressor em choque hemorrágico mascara o número sem repor volume nem conter a perda. E repetir o FAST em 30 minutos gasta exatamente o tempo que falta.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reescreva de memória, sem consultar, a sequência da avaliação primária no trauma e, para cada letra, a lesão que mata naquela letra, o achado que a denuncia em trinta segundos e a conduta que fica proibida antes dela. Depois escreva as quatro classes do choque hipovolêmico com os volumes e diga, para cada uma, o primeiro sinal que muda. Confira por fim três números que dependem do seu serviço: onde fica o carrinho de via aérea, quanto tempo o banco de sangue leva para liberar concentrado sem prova cruzada, e quem é o cirurgião de sobreaviso hoje.
Em 30 dias
Refaça os dois casos mudando um dado de cada vez e veja onde a decisão quebra: e se a pressão do pedreiro fosse 78 por 50; e se o rapaz da moto tivesse Glasgow 12 em vez de 15; e se o ácido tranexâmico não tivesse sido feito e o trauma tivesse 4 horas; e se o serviço não tivesse tomógrafo. Depois pegue o último politraumatizado que você atendeu de verdade e escreva, em uma frase, em que letra a equipe estava quando o quadro mudou — e se a reavaliação recomeçou no A ou continuou de onde parou.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 32 anos, atropelado por automóvel há vinte minutos, trazido em prancha e colar, acordado e agitado, com deformidade em coxa direita e escoriações extensas. Você tem as suas mãos, um monitor, radiografia e ultrassom na sala, e o telefone da regulação. Conduza da porta ao destino — mantenha a sequência, diga em voz alta o que encontrar e chame quem precisa ser chamado antes de ter certeza.
