Cirurgia Geral › Trauma
Choque hemorrágico no trauma
Reconhecer hemorragia em curso, ativar ressuscitação e controle do foco em paralelo e ajustar componentes, cálcio e temperatura pela resposta.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria de Consolidação nº 5, de 28 de setembro de 2017, Anexo IV — Regulamento Técnico de Procedimentos Hemoterápicos (dispositivos originários da Portaria GM/MS nº 158, de 4 de fevereiro de 2016)
Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 34, de 11 de junho de 2014, que dispõe sobre as Boas Práticas no Ciclo do Sangue
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes. 2ª ed., 1ª reimpressão. Brasília: Ministério da Saúde, 2015
Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais / Ebserh. Protocolo Assistencial nº 307 — Transfusão de hemocomponentes em situações de emergência. Versão 01, junho de 2022
Ribeiro Junior MAF, Pacheco LS, Duchesne JC, Parreira JG, Mohseni S. Reanimação durante o Controle de Danos: como é feita e onde podemos melhorar. Uma visão da realidade brasileira de acordo com profissionais de trauma. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume 51, e20243785, 2024
Holcomb JB, Tilley BC, Baraniuk S, et al. Transfusion of Plasma, Platelets, and Red Blood Cells in a 1:1:1 vs a 1:1:2 Ratio and Mortality in Patients With Severe Trauma: The PROPPR Randomized Clinical Trial. JAMA, volume 313, número 5, páginas 471 a 482, 2015
Lima DS, Moreira FH, Bastos SB, Cavalcante LB, Nascimento VD, Carlos LMB. Protocolo de transfusão maciça: experiência no atendimento ao trauma. Revista Médica de Minas Gerais, volume 31, 2021
Duarte EAC, Simionatto TE, Vallim ACSG, Aguiar HP. Implementação de um Protocolo Institucional de Hemorragia Maciça em Hospital Público Terciário. Revista Brasileira de Medicina de Emergência, volume 6, número 1, 2026
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Hospitalar às Urgências. Protocolos de Suporte Avançado de Vida — SAMU 192. Brasília: Ministério da Saúde, 2014 (protocolo AT4, revisão de abril de 2015)
European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma, sixth edition, 2023. [Acessar fonte](https://link.springer.com/article/10.1186/s13054-023-04327-7)
Responda antes de ler
Mulher de 34 anos, vítima de colisão frontal, chega com abdome tenso e doloroso, sem sangramento externo. Pressão arterial 96x74 mmHg, frequência cardíaca 118 bpm, pele fria, enchimento capilar de 3 segundos. FAST com líquido livre no espaço hepatorrenal. Recebe 1.000 mL de Ringer lactato aquecido e melhora para 114x78 mmHg com frequência de 96 bpm. Doze minutos depois está em 86x58 mmHg com frequência de 132 bpm e pálida novamente. Qual a conduta agora?
O paciente que você vai ver
Ela chega às 2h10. Mulher, 34 anos, passageira de um carro que bateu de frente com um caminhão em rodovia. Vem consciente, pálida, quieta demais para quem acabou de sair de uma colisão daquelas. Pressão 96 por 74, frequência cardíaca 118, pele fria, enchimento capilar de 3 segundos. O abdome está tenso e dói difusamente. Não há sangramento externo nenhum: nem no chão, nem na maca, nem na roupa. É um caso limpo, e é isso que assusta.
A sequência foi feita direito. Via aérea pérvia, ela fala. Tórax simétrico, murmúrio presente dos dois lados. Dois acessos calibrosos, coleta na mesma punção com tipagem, ácido tranexâmico feito na ambulância às 1h52. Ringer lactato aquecido correndo. FAST à beira do leito: líquido livre no espaço hepatorrenal. O plantonista de cirurgia foi chamado e está vindo de casa — chega em vinte minutos, no melhor cenário.
Depois de mil mililitros de Ringer ela melhora. Pressão 114 por 78, frequência 96, pele aquecendo. A sala respira. Doze minutos depois, 86 por 58, frequência 132, pálida outra vez. Alguém pede mais um litro de soro. Você é o interno, está com o cronômetro na mão desde a porta, e sabe duas coisas que ninguém disse em voz alta: isso é um respondedor transitório, e o próximo litro de cristaloide não vai fazer nada de bom.
A pergunta que decide a noite dela não é quanto volume infundir. É onde está o sangue, quem liga para pedir, e quantos minutos separam este leito da primeira bolsa. Ninguém na sala sabe a resposta dessa última, porque ninguém nunca precisou saber.
Quem adoece disso
Hemorragia é a principal causa evitável de morte no traumatizado, e responde por cerca de 1,5 milhão de mortes por ano no mundo. A palavra que carrega a informação é evitável: não se trata de lesões incompatíveis com a vida, e sim de pacientes que chegaram vivos, foram atendidos e morreram de uma coisa que tem tratamento. O tratamento é controlar o foco e repor sangue, nessa ordem de importância, e o obstáculo quase nunca é conhecimento — é logística.
O tamanho do buraco logístico brasileiro está medido. Em levantamento com 121 profissionais da Sociedade Brasileira de Trauma, conduzido entre abril e junho de 2024 e com os 27 estados representados, apenas 47,9% relataram existir protocolo de transfusão maciça em sua instituição. Mais de 90% ainda usam cristaloide na reposição volêmica de urgência. Aquecedor de líquidos existe em 19% dos serviços; sistema de infusão rápida, em 10%; tromboelastografia ou tromboelastometria, em 5%. Cobertor térmico, que é a intervenção mais barata da lista, aparece em 63,6%. Setenta e sete por cento dos hospitais representados eram públicos.
Leia esses números como uma instrução, não como lamento. A chance de você estar de plantão num serviço que tem protocolo escrito de transfusão maciça é de mais ou menos uma em duas — e a RDC 34 exige esse protocolo escrito de todo serviço que transfunde. Então a primeira pergunta a fazer não é clínica: é se existe protocolo aqui, quem o aciona e por qual ramal. Se existe, você precisa saber isso antes do plantão. Se não existe, você vai pedir bolsa a bolsa, e cada bolsa vai custar um telefonema — o que muda completamente o tempo que você tem de comprar com outras medidas.
E o desfecho, quando o paciente chega nesse ponto, é duro. Num serviço público de referência em trauma no Ceará, entre 306 pacientes atendidos em 2018 com indicação de reposição de urgência, a mortalidade em 24 horas foi de 29,7%; entre os 156 que receberam reposição na proporção de um para um para um, a sobrevida foi de 71,8%. No ensaio que testou a proporção de hemocomponentes, a mediana de tempo até a morte por exsanguinação foi de 106 minutos. Cento e seis minutos é menos que o tempo de uma reunião. É essa a janela em que tudo o que este capítulo descreve precisa acontecer.
Por que acontece o que acontece
Comece pelo que o cristaloide faz e pelo que ele não faz. Ele preenche o continente: sobe a pressão de enchimento, melhora o retorno venoso, e o número do manguito responde. O que ele não carrega é oxigênio, não carrega fatores de coagulação e não carrega plaquetas. Repor com cristaloide um paciente que perdeu sangue é substituir um líquido que coagula e transporta oxigênio por um líquido que não faz nem uma coisa nem outra. Enquanto a perda é pequena, isso é irrelevante e a manobra compra tempo barato. Quando a perda passa de um terço da volemia, cada litro adicional cobra três pedágios ao mesmo tempo: dilui o que restou de fator e de plaqueta, esfria o paciente, e empurra a pressão para cima o suficiente para desalojar coágulos que estavam se formando no foco. O ensaio da proporção de hemocomponentes mediu um desses custos com precisão inesperada: cada 500 mL de cristaloide nas primeiras seis horas se associou a aumento de 9% na incidência de síndrome do desconforto respiratório agudo.
A diluição tem aritmética, e a aritmética explica por que a coagulopatia aparece antes do que a intuição sugere. O Guia de hemocomponentes do Ministério da Saúde registra que os fatores da coagulação caem a níveis críticos depois da perda de cerca de 1,2 volemia, e as plaquetas depois de 2 volemias — mas acrescenta a frase que muda o cálculo: a reposição com cristaloide na abordagem inicial agrava esse efeito, e a coagulopatia pode estar presente com perda acima de 40% da volemia mesmo antes de qualquer hemocomponente ser infundido. Ou seja: a coagulopatia do trauma não é só diluição do que você infunde. É consumo no próprio foco, hiperfibrinólise desencadeada pelo trauma, e disfunção endotelial — e a diluição entra por cima disso tudo, como agravante evitável.
A hipotermia é o vértice mais barato de prevenir e o mais caro de reverter, e a conta cabe num guardanapo. O corpo humano armazena calor a cerca de 3,5 quilojoules por quilo por grau; um litro de líquido precisa de aproximadamente 4 quilojoules por grau para se aquecer. Infundir um litro de cristaloide a 22 °C num adulto de 70 kg exige do corpo cerca de 60 quilojoules, o que derruba a temperatura central em torno de 0,24 °C. Quatro litros derrubam quase um grau. E um litro de hemocomponente que saiu da geladeira a 4 °C custa cerca de 0,54 °C — mais que o dobro, pela mesma razão trivial de que a diferença de temperatura é maior. Dois litros de sangue frio, que é o que uma primeira rodada de protocolo entrega, valem por volta de um grau inteiro. Some a sala refrigerada, a roupa cortada, o corpo exposto e a perda evaporativa do abdome aberto, e a queda de 37 °C para menos de 36 °C acontece sem que ninguém tenha feito nada de errado — a não ser deixar de aquecer.
Por que meio grau importa? Porque as enzimas da cascata trabalham a 37 °C e perdem eficiência abaixo disso, e porque a função plaquetária também cai. O detalhe cruel é que o coagulograma não denuncia: o laboratório aquece a amostra a 37 °C antes de rodar o teste. O exame descreve um paciente que existiria se ele estivesse quente. Abaixo de 36 °C já se define hipotermia no traumatizado, e o limiar baseado em evidência para começar a reaquecer é qualquer temperatura abaixo de 37 °C. Abaixo de 33 °C, a mortalidade descrita chega a 100%.
A acidose fecha a terceira ponta pelo caminho da perfusão: menos oxigênio no tecido, metabolismo anaeróbio, lactato acumulado, pH em queda — e as mesmas enzimas, já lentas pelo frio, ficam lentas de novo pelo meio ácido. A acidose do choque hemorrágico não se trata com bicarbonato: trata-se restaurando perfusão e parando o sangramento. Bicarbonato corrige o número sem corrigir a causa, e o número corrigido tira de você o marcador que estava funcionando.
O quarto vértice foi promovido recentemente, e é o que mais escapa do interno: o cálcio. Toda bolsa é anticoagulada com citrato, que é um quelante de cálcio — foi para impedir a coagulação dentro da bolsa que ele está lá. Infundido no paciente, continua fazendo o mesmo com o cálcio iônico circulante. O fígado metaboliza citrato depressa, mas um fígado hipoperfundido, isquêmico ou previamente doente não dá conta. Cerca de 55% dos traumatizados chegam hipocalcêmicos antes de qualquer transfusão, e a transfusão piora. O cálcio iônico é cofator obrigatório de várias etapas da cascata — é literalmente o fator IV — e ainda é necessário à contratilidade miocárdica e ao tônus vascular: o paciente hipocalcêmico sangra mais, responde menos a vasopressor e faz arritmia. Foi assim que o triângulo virou losango.
Junte tudo e o desenho fica claro. Cada vértice piora os outros, e o motor que gira o circuito é o sangramento que continua. Nenhuma das quatro correções para o circuito sozinha — elas ganham tempo. Quem para o circuito é o controle do foco: o centro cirúrgico, a angiografia, a compressão que funciona. Daí a consequência que parece contraintuitiva: repor bem é o que permite ao paciente chegar vivo à mesa, não o que substitui a mesa. Quando a reposição vira a estratégia inteira, ela deixa de ser tratamento e passa a ser o modo mais lento de perder o paciente.

Como se apresenta de verdade
O paciente que precisa de sangue quase nunca chega com um rótulo dizendo isso. Ele chega como um choque que ainda não se declarou, e a apresentação varia menos pela lesão do que pelo tipo de corpo que a sofreu. As quatro formas abaixo são as que mais atrasam a decisão.
O respondedor transitório, que é o achado e não o susto
Melhora com o volume e volta a piorar em minutos. É a apresentação mais importante deste capítulo, porque é a única que diz, sem imagem nenhuma, que o sangramento continua acontecendo agora. Quem responde e se mantém teve uma perda que já parou; quem não responde a nada está exsanguinando ou tem outra fisiologia junto; quem responde e recai está perdendo tanto quanto você repõe.
O erro previsível é ler a melhora como resolução e desmobilizar a equipe. Vinte minutos depois, com o cirurgião dispensado e o banco de sangue não avisado, o paciente recai — e tudo recomeça do zero, com menos margem. A melhora do respondedor transitório é uma janela de validade curta, que serve para levar o paciente ao lugar onde o foco será controlado. A conduta que ela dispara não é mais cristaloide; é hemocomponente e cirurgião na sala.

O idoso, o betabloqueado e o anticoagulado
Aqui a fisiologia mente em três frentes ao mesmo tempo. A taquicardia, que é o sinal precoce, não aparece em quem toma betabloqueador. A pressão dita normal pode ser hipotensão relativa: 110 por 70 num hipertenso de longa data que vive em 160 por 90 é queda de quase um terço. E o antiagregante ou o anticoagulante transformam sangramentos autolimitados em hemorragias que não param sozinhas — o que muda não só a magnitude da perda, mas a resposta esperada ao hemocomponente, porque repor hemácia não reverte varfarina.
A régua prática do choque no idoso é mais baixa. O consenso de reanimação para controle de danos define hipotensão como pressão sistólica abaixo de 90 mmHg no adulto e abaixo de 110 mmHg acima dos 65 anos. Some a isso o índice de choque — frequência cardíaca dividida pela pressão sistólica —, que separa muito bem o paciente compensado do descompensado quando a taquicardia está mascarada: 96 por 108 dá 0,89, e não ativa nada; 118 por 96 dá 1,23, e ativa. É uma conta de dois números que você já mediu.
A gestante, e onde a régua obstétrica diverge
A gestante traumatizada compensa por mais tempo, porque a gravidez aumenta o volume plasmático, e essa reserva é comprada às custas da circulação uteroplacentária. Quando a pressão materna cai, o feto já vinha sofrendo. Nada disso muda a lógica deste capítulo: reponha na mãe, controle o foco da mãe.
O que muda é um número, e vale saber porque ele aparece no mesmo protocolo hospitalar. A meta de fibrinogênio para interromper a reposição é acima de 150 mg/dL no sangramento em geral, e acima de 200 mg/dL na hemorragia pós-parto. A razão é que a hipofibrinogenemia se instala mais cedo e é mais preditiva de gravidade na hemorragia obstétrica do que no trauma, e por isso a régua obstétrica é mais exigente. Na traumatizada grávida com sangramento de causa traumática, siga a régua do trauma; se o sangramento é obstétrico, siga a obstétrica, que está detalhada no capítulo de hemorragia pós-parto.
Quem sangra devagar, e o hematócrito que engana
Nem toda hemorragia grave é dramática nos primeiros minutos. Fratura de pelve, hematoma retroperitoneal e lesão hepática contida sangram em ritmo que permite ao paciente conversar e ao interno relaxar. Nesses casos o primeiro exame pedido costuma ser o hemograma, e é aí que mora a armadilha: o hematócrito não serve para decidir transfusão na hemorragia aguda, porque só começa a cair uma a duas horas depois do início do sangramento. Quem sangrou um litro há vinte minutos tem hematócrito normal, porque perdeu plasma e hemácia na mesma proporção.
O corolário é constrangedor de tão simples: hematócrito normal na primeira hora do trauma não é informação tranquilizadora, é informação nenhuma. O que decide transfusão aqui é clínica — frequência acima de 100 a 120, hipotensão, queda do débito urinário, taquipneia, enchimento capilar acima de 2 segundos, alteração do nível de consciência —, e a régua do próprio Ministério é que a transfusão de hemácias está recomendada após perda superior a 25% a 30% da volemia.
Como fechar o diagnóstico
A pergunta deste bloco não é qual exame fecha o diagnóstico — o diagnóstico é clínico e já foi feito. É outra: quais informações mudam a próxima ação nos próximos trinta minutos, e quais delas chegam a tempo de mudar alguma coisa. Exame que volta depois da decisão não é exame, é registro histórico.
Há uma segunda regra, específica deste cenário. Todo exame aqui compete com o relógio de duas coisas ao mesmo tempo: o sangue que precisa ser pedido e o foco que precisa ser controlado. Um exame que atrasa qualquer um dos dois tem que valer muito.
A punção que vale mais: a amostra pré-transfusional
O tempo entre decidir transfundir e ter a bolsa na mão é gasto quase todo em identificação e tipagem, e pode ser pago adiantado: colha a amostra pré-transfusional na mesma punção do primeiro acesso, antes de infundir qualquer coisa. O regulamento é explícito sobre o motivo — a amostra deve ser colhida antes da transfusão, ou pelo menos antes de grande quantidade de componentes, porque a diluição compromete os testes.
A identificação da amostra é o ponto do processo onde os erros matam, e é uma tarefa que o interno faz. O tubo é rotulado à beira do leito, no ato, com nome completo sem abreviaturas, número de identificação ou localização, data e quem colheu; o protocolo hospitalar acrescenta a identificação positiva por dois profissionais — um fala o nome em voz alta, o outro confere com a etiqueta, ou pergunta-se ao próprio paciente o nome e a data de nascimento. Rotular tubo no posto de enfermagem, depois, de memória, é como se cria a incompatibilidade ABO por erro de identificação.
Junto com a tipagem, colha o painel que vai orientar as rodadas seguintes: hemograma, coagulograma, fibrinogênio, gasometria arterial, cálcio iônico, lactato e potássio. Todos na mesma punção, e todos serão repetidos — o valor deles está na série, não no ponto.
Os dois gatilhos que preveem, e o que os separa
Definir transfusão maciça depois que ela aconteceu é fácil e inútil. O Guia do Ministério lista quatro definições, e todas olham para trás: reposição equivalente a uma volemia em 24 horas; 50% da volemia em 3 horas; perda de 1,5 mL por quilo por minuto por pelo menos 20 minutos; e mais de 4 unidades de concentrado de hemácias em 1 hora. Só a última é útil à beira do leito, e mesmo ela exige que uma hora já tenha passado.
O que serve na sala são os três gatilhos prospectivos. O índice de choque é frequência cardíaca dividida pela pressão sistólica, com corte em 1,0 — a conta mais barata do plantão e a que menos depende de julgamento. O escore Assessment of Blood Consumption tem quatro itens de um ponto cada — mecanismo penetrante, pressão sistólica igual ou abaixo de 90 mmHg, frequência cardíaca igual ou acima de 120 bpm e FAST positivo — e ativa com 2 pontos ou mais; na experiência publicada de um serviço público de referência em trauma no Ceará, esse corte teve especificidade de 86% e sensibilidade de 75%. E o limiar crítico de administração, que é a necessidade de pelo menos 3 unidades de hemácias em uma hora, descreve o paciente que consome sangue mais rápido do que o serviço repõe pedido a pedido — o que significa mudar de bolsas avulsas para protocolo contínuo.
Repare no que os três têm em comum: nenhum depende de imagem ou de laboratório que demore, e todos podem ser calculados na porta. Não é coincidência — eles existem para que o telefonema saia antes de o paciente estar em classe IV.

O que cada bolsa entrega, e o que ela não entrega
A ficha técnica de cada bolsa está na tabela do bloco seguinte. O que precisa ficar na cabeça é a lógica das ausências, porque é ela que faz o pedido errado. Concentrado de hemácias repõe transporte de oxigênio e não repõe hemostasia: uma bolsa tem pouquíssimo plasma e nenhuma plaqueta funcionante, de modo que transfundir só hemácia em quem sangra é uma forma cara de diluir. Plasma fresco congelado repõe todos os fatores e não repõe oxigênio nem plaquetas — e não é expansor volêmico, indicação que o próprio Guia classifica como inadequada. Plaqueta repõe plaqueta, e é o único componente que não pode ser aquecido, sob pena de perder função. Crioprecipitado é o único que repõe fibrinogênio de forma eficiente.
A dosagem precoce e seriada do fibrinogênio orienta a reposição junto com testes viscoelásticos, quando disponíveis. Na hemorragia importante, a referência atual é ≤150 mg/dL ou deficiência funcional. A dose inicial usual é equivalente a 3–4 g de fibrinogênio, mas o número de bolsas de crioprecipitado depende do produto e deve ser confirmado pela agência transfusional. Planejar disponibilidade desde cedo, sem esperar a segunda rodada ou valor abaixo de 100 mg/dL.
Uma advertência sobre a conta do crioprecipitado, porque ela aparece diferente conforme onde se lê. O regulamento técnico exige no mínimo 150 mg de fibrinogênio por unidade; o Guia do Ministério cita 200 mg no texto e usa 250 mg na fórmula de cálculo. Num adulto de 70 kg com hematócrito de 40%, o volume plasmático é de cerca de 29 decilitros, de modo que uma bolsa de 200 mg eleva o fibrinogênio em torno de 7 mg/dL e uma de 250 mg, em torno de 8,5 — as duas dentro da faixa de 5 a 10 mg/dL por unidade que o próprio Guia descreve. Para subir de 80 para 150 mg/dL nesse paciente, a conta dá 8 bolsas com 250 mg por unidade e 10 bolsas com 200 mg. A moral é que a fórmula é estimativa, não medida: peça pela regra prática e redose o fibrinogênio depois, em vez de confiar na aritmética.
O que monitorar, com que frequência, e o que não pedir
Quatro exames guiam a reposição e são pedidos em série: hemograma, coagulograma, fibrinogênio e cálcio iônico. Some gasometria arterial com lactato e excesso de base, que medem perfusão em vez de pressão, e potássio, que sobe com hemácia estocada há mais de dez dias. As metas que autorizam interromper estão na tabela do bloco seguinte, e vale decorá-las.
Agora o que não pedir. Coagulograma como gatilho para iniciar plasma é erro em duas camadas: ele demora, e é processado a 37 °C, de modo que não enxerga a lentidão enzimática do paciente que está a 34 °C na maca. Na primeira hora, a decisão é clínica. Tomografia em instável continua proibida pelo mesmo motivo de sempre, agravado aqui — o corredor não tem banco de sangue. E repetir o hematócrito de dez em dez minutos esperando que ele denuncie a hemorragia é ler o termômetro errado: ele responde à diluição, não à perda.
Tromboelastografia e tromboelastometria mudariam bastante essa conversa, porque medem coagulação no sangue total, à temperatura do paciente, em tempo real. No Brasil, 5% dos serviços as têm — escrever a conduta em função delas seria escrever para outro país. O que sobra, e funciona, é a régua de metas laboratoriais somada à reavaliação clínica.
O exame que decide o destino: a resposta ao volume, medida
Todas as informações anteriores ajustam a reposição. Uma só decide se o paciente continua sendo reposto ou vai ser aberto: como ele respondeu à carga que você já deu, medida com hora anotada. Respondedor sustentado permite investigar. Respondedor transitório significa sangramento ativo e manda ir controlar o foco. Não respondedor obriga a reabrir o diferencial — perda maciça em curso, choque obstrutivo que passou batido, ou os dois.
Para isso a reavaliação precisa ser um ato agendado, não um acaso: 10 a 15 minutos depois de iniciada cada carga, com os quatro números escritos — frequência, pressão, enchimento capilar e horário. Sem horário não há série; sem série não há categoria; e sem categoria a equipe fica discutindo se o paciente está melhor ou pior, que é a discussão mais estéril da sala de trauma.
Onde não há cirurgião, centro cirúrgico ou angiografia, a conclusão não muda — apenas aponta para o telefone. Respondedor transitório em hospital sem recurso definitivo é indicação de transferência regulada com o paciente estabilizado e a equipe avisada do outro lado, e não de mais uma rodada enquanto se espera. Repor sem destino definido é gastar o recurso mais escasso do sistema para adiar uma decisão que já está tomada.
Ativar, pedir, receber, parar
Trate a fisiologia e o foco em paralelo. Protocolos organizam a entrega inicial, mas composição de pacotes, velocidade, equivalência de plaquetas e crioprecipitado variam entre serviços e devem ser conferidas, sem transformar a logística de um hospital em regra universal.
- 1Reconhecer sangramento ameaçador e tendência clínica; escores apoiam, mas não substituem a decisão nem devem atrasar a ativação.
- 2Acionar simultaneamente controle hemorrágico, agência transfusional e equipe; colher identificação e amostras sem atrasar liberação emergencial necessária.
- 3Iniciar o protocolo disponível de sangue total ou componentes balanceados, passando a reposição guiada por exames e resposta assim que possível.
- 4Limitar cristaloide, aquecer com equipamento apropriado e monitorar temperatura e cálcio ionizado, corrigindo para a faixa normal do laboratório.
- 5Acompanhar hemoglobina, coagulação, plaquetas, fibrinogênio e perfusão; não aguardar limiar isolado para tratar exsanguinação.
- 6Reavaliar necessidade de cada componente e desativar o protocolo quando hemostasia e resposta permitirem, comunicando a mudança e prevenindo desperdício.
Hemácias sem prova cruzada — 5 a 10 minutos
É a bolsa que existe para agora. Sai com termo de responsabilidade assinado e rótulo dizendo que os testes não foram concluídos. Enquanto ela corre, as provas continuam sendo feitas.
Plaquetas — 5 a 10 minutos
Guardadas entre 20 e 24 °C sob agitação, não precisam de descongelamento e chegam rápido. Em compensação são o único componente que não se aquece, sob pena de perder função.
Plasma fresco congelado — cerca de 30 minutos
O tempo é o descongelamento a 37 °C, para até três unidades. É por isso que o plasma sempre chega atrasado em relação à hemácia se ninguém pedir os dois na mesma ligação.
Crioprecipitado — 30 a 40 minutos
Até dez unidades descongeladas. Como a dose de adulto é justamente da ordem de dez bolsas, o pedido de fibrinogênio precisa sair cedo, não quando o exame voltar baixo.
Hemácias com prova cruzada — 40 a 50 minutos
É a bolsa mais segura e a mais lenta. Num paciente que perde meio litro por minuto, esperar por ela é uma decisão clínica, e precisa ser tomada como tal — não por hábito.
| Componente | O que ele repõe | O que ele NÃO repõe | Dose de adulto | Detalhe que atrapalha na sala |
|---|---|---|---|---|
| Concentrado de hemácias | Hemácias aumentam a capacidade de transporte de oxigênio. A elevação aproximada de 1 g/dL por unidade é uma estimativa para adulto sem sangramento ativo, não uma previsão na exsanguinação. | Fatores e plaquetas — praticamente não tem plasma nem plaqueta funcionante | Quantidade e ritmo pelo protocolo de hemorragia e resposta. Limites de volume por solicitação administrativa são locais e não limitam a reposição necessária. | Guardado a 2-6 °C; fora da temperatura controlada, só volta à agência transfusional em até 30 minutos |
| Plasma fresco congelado | Todos os fatores da coagulação. 10 a 20 mL/kg elevam os níveis em 20% a 30% | Oxigênio e plaquetas. E não é expansor volêmico — usá-lo assim é indicação inadequada | Dose inicial usual de 10–20 mL/kg quando indicada, ajustada pelo protocolo, coagulação e resposta. Não transformar limite administrativo de pedido em teto clínico. | Descongelamento a 37 °C: cerca de 30 minutos para até três unidades. Depois, 24 horas de validade a 4 ± 2 °C |
| Concentrado de plaquetas | Plaquetas. Unitário tem cerca de 5,5 x 10¹⁰ em 50 a 60 mL; uma aférese equivale a um pool de 4 a 6 unitários | Fatores em quantidade útil e oxigênio | 1 pool, 1 aférese ou 4 a 6 unidades randômicas; 1 unidade para cada 7 a 10 kg | Único componente que não pode ser aquecido. Guardado a 20-24 °C sob agitação constante |
| Crioprecipitado | Fibrinogênio, fator VIII, fator de von Willebrand e fator XIII | Oxigênio, plaquetas e os demais fatores da cascata | Na deficiência relevante, dose inicial equivalente a 3–4 g de fibrinogênio. Confirmar conteúdo e número de bolsas com a agência transfusional; reavaliar para doses adicionais. | Descongelamento de 30 a 40 minutos para até dez unidades; validade de 6 horas depois, a 22 ± 2 °C |
| Cálcio (gluconato ou cloreto a 10%) | Corrigir hipocalcemia para a faixa normal de cálcio ionizado do laboratório, em geral 1,1–1,3 mmol/L, com controle seriado durante transfusão importante. | Volume, oxigênio e fatores — não é reposição, é correção de um efeito colateral dela | Escolher sal, concentração e dose conforme protocolo, acesso e cálcio ionizado. Esquemas empíricos por quantidade transfundida são pontos de partida locais e exigem reavaliação, não dose universal fixa. | Exige via própria: nada além de cloreto de sódio a 0,9% pode dividir linha com a bolsa |
As quatro modalidades de transfusão e o que cada uma promete
| Modalidade | Prazo | Testes pré-transfusionais | Quando usar |
|---|---|---|---|
| Programada | Dia e hora combinados | Completos | Fora deste capítulo |
| De rotina | Dentro de 24 horas | Completos | Anemia sem sangramento ativo, preparo de procedimento |
| De urgência | Dentro de 3 horas | Completos | Sangramento já controlado, paciente sintomático mas estável |
| De emergência | Quando o retardo puder acarretar risco para a vida | Podem ser liberados antes do término, com termo de responsabilidade assinado; as provas são concluídas mesmo depois de a transfusão terminar | Choque hemorrágico com sangramento não controlado — o cenário deste capítulo |
Qual sangue sai quando não há tempo de tipar
| Situação | Hemácias | Por quê |
|---|---|---|
| Sem tipagem, mulher em idade fértil (até 50 anos) | O RhD negativo | Evita aloimunização anti-D, que compromete gestações futuras. É o estoque mais escasso e por isso o mais protegido |
| Sem tipagem, homem de qualquer idade ou mulher acima de 50 anos | O RhD negativo se houver; O RhD positivo é aceitável | O regulamento autoriza o O RhD positivo quando o estoque de negativo é insuficiente, sobretudo em homens e em pacientes de qualquer sexo acima de 45 anos |
| Duas tipagens prévias registradas, sem aloanticorpos | Isogrupo ou compatível | Na maioria das emergências dá tempo de tipar, e usar isogrupo poupa o estoque de O |
| Duas ou mais emergências simultâneas no serviço | Hemácias O para todos | Reduz o risco de incompatibilidade ABO por troca de identificação, que é o erro mais provável com dois pacientes graves na mesma sala |
| Paciente sabidamente aloimunizado | Melhor fenótipo disponível, decidido com o hemoterapeuta | Exige comunicação imediata com o hemoterapeuta de plantão e assinatura do comunicado de resultado de prova cruzada quando a unidade não for plenamente compatível |
Metas que interrompem a reposição
| Parâmetro | Alvo | Observação |
|---|---|---|
| Hemoglobina | acima de 8 g/dL | Acima de 7 g/dL basta na hemorragia digestiva alta. Fora da hemorragia aguda, a estratégia restritiva (7 a 8) é superior ou equivalente à liberal (9 a 10) |
| Tempo de protrombina | abaixo de 1,5 vez o controle | O mesmo limiar de 1,5 vez vale para o tempo de tromboplastina parcial ativada como parâmetro de reposição de plasma |
| Plaquetas | acima de 50.000 a 100.000/µL | O alvo sobe dentro da faixa conforme o porte e a localização do sangramento — sangramento em sistema nervoso central puxa para o topo |
| Fibrinogênio | acima de 150 mg/dL | Reposição dirigida quando fibrinogênio ≤150 mg/dL ou houver deficiência funcional; não esperar chegar a 100 mg/dL. Reavaliar após a reposição. |
| Cálcio iônico | acima de 1 mmol/L | Não é meta de interrupção e sim meta permanente: abaixo disso a cascata não funciona por mais componente que se infunda |
| Temperatura | acima de 36 °C, e reaquecer sempre que estiver abaixo de 37 °C | Abaixo de 33 °C a mortalidade descrita chega a 100% |
O que o interno faz sem pedir autorização, e o que ele chama
| Faz | Chama |
|---|---|
| Calcula o índice de choque e o escore, e diz o resultado em voz alta | A ativação do protocolo, que é ato do médico responsável pelo paciente |
| Cronometra, registra hora de cada bolsa e sinais vitais no início e no término | A assinatura do termo de responsabilidade da liberação sem prova cruzada |
| Colhe e identifica a amostra à beira do leito, busca a bolsa, confere identificação, rótulo, etiqueta e validade antes de instalar | O hemoterapeuta, sempre que o paciente for aloimunizado ou a prova cruzada for positiva |
| Liga o aquecedor, põe a manta, tira a roupa molhada, checa se o cálcio está correndo em via própria | A decisão de operar ou transferir, dita como pergunta: qual é o plano para controlar o foco? |
O regulamento técnico e a RDC 34 limitam a infusão de cada hemocomponente a 4 horas pelo risco de proliferação bacteriana. Ao atingir esse prazo, interrompa a transfusão e descarte a bolsa conforme o protocolo. No choque hemorrágico, aproximar-se desse limite também exige conferir se a velocidade atende à necessidade de reposição.
Não adicione medicamentos à bolsa nem os infunda na mesma linha do hemocomponente. A exceção prevista é o cloreto de sódio a 0,9%, em situações específicas. O cálcio exige acesso separado; planeje as vias desde o atendimento inicial.
As definições retrospectivas de transfusão maciça usam volumes e números de unidades que não são diretamente intercambiáveis. Concentrado de hemácias e sangue total têm volumes distintos por unidade, e as estimativas de volemia também variam. Este capítulo usa 70 mL/kg nos cálculos apresentados. À beira do leito, ative o protocolo pela necessidade prevista e pela evolução clínica, sem esperar atingir uma definição retrospectiva.
A proporção 1:1:1 não corresponde a volumes iguais. Uma unidade de plaquetas por aférese equivale a um pool de 4–6 unidades randômicas. Confirme com a agência transfusional a apresentação e a composição dos pacotes; pedir apenas “uma de cada” pode produzir reposição desequilibrada.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a da mulher de 34 anos da colisão frontal: trauma abdominal fechado, FAST positivo no espaço hepatorrenal, respondedora transitória, num hospital onde a agência transfusional fica dois andares acima e o cirurgião vem de casa. Cada marco traz o que se faz e a prescrição por extenso. Duas coisas atravessam a linha inteira. A primeira é que acionar não é pedir: acionar é abrir um fluxo contínuo que só para quando alguém o desliga. A segunda é que quase tudo o que o interno faz aqui é tempo — e tempo, neste capítulo, é a única coisa que não se repõe.
Minuto 0 — o gatilho, e o telefonema
Aos 86/58 mmHg e 132 bpm, o índice de choque é 132/86 = 1,53. O ABC soma três pontos: PAS ≤90, frequência ≥120 e FAST positivo; o mecanismo fechado não pontua. A deterioração após resposta inicial já sustenta acionar protocolo de hemorragia maciça e controle do foco, sem depender de completar um escore. O interno deve comunicar imediatamente a evolução e auxiliar o médico responsável e a equipe transfusional.
Prescrição- Ativação do protocolo de transfusão maciça por contato telefônico ou presencial com a agência transfusional, informando nome completo e data de nascimento da paciente, tipo e localização do sangramento, setor onde está sendo atendida e nome e número do conselho do médico prescritor (HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307)
- Acionamento simultâneo da equipe cirúrgica e da equipe de enfermagem pelo médico responsável, e não em sequência (Protocolo institucional de hemorragia maciça, Hospital Governador Celso Ramos)
- Coleta imediata de amostra para testes pré-transfusionais em tubo de EDTA, com identificação positiva à beira do leito por dois profissionais — um fala o nome completo em voz alta e o outro confere com a etiqueta (HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307)
- Coleta, na mesma punção, de hemograma, tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada, fibrinogênio, gasometria arterial, cálcio iônico, lactato e potássio (HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307)
- Suspensão da infusão de cristaloide como estratégia de reposição a partir deste ponto — a fase de cristaloide aquecido pertence ao atendimento inicial e termina quando o hemocomponente entra (Protocolos de Suporte Avançado de Vida, SAMU 192, protocolo AT4; Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2024)
Minuto 0 a 5 — a fase cega, enquanto ninguém sabe o tipo dela
Nesta janela não existe informação imuno-hematológica nenhuma, e a decisão é de regulamento, não de julgamento. Ela é mulher e está em idade fértil: sai O RhD negativo, e esse ponto não se negocia por escassez de estoque. O termo de responsabilidade é assinado pelo médico responsável; em emergência a assinatura pode vir depois, desde que a solicitação escrita alcance a agência transfusional antes do fim do plantão. E a bolsa vem com um rótulo dizendo que saiu sem os testes concluídos — o rótulo não é burocracia, é o aviso de que qualquer reação febril nos próximos minutos precisa ser lida como possível incompatibilidade.
Prescrição- Concentrado de hemácias O RhD negativo, 1 a 2 unidades por dose, liberadas sem prova de compatibilidade, com teto de 600 mL de hemácias por pedido nessa modalidade (Portaria de Consolidação nº 5/2017, Anexo IV, Art. 170, § 4º; HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307)
- Termo de responsabilidade assinado pelo médico responsável pela paciente, afirmando expressamente o conhecimento do risco e a concordância com o procedimento (Portaria de Consolidação nº 5/2017, Anexo IV, Art. 170, III; RDC/Anvisa nº 34/2014, roteiro de inspeção, item 5.2.1)
- Infusão simultânea de duas unidades em dois acessos calibrosos, com equipo dotado de filtro que retenha coágulos e agregados; velocidade livre, definida pela gravidade (RDC/Anvisa nº 34/2014, Art. 143; HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307)
- Conferência à beira do leito antes de instalar cada bolsa: identificação da receptora, rótulo da bolsa, dados da etiqueta de liberação, validade, inspeção visual e verificação dos sinais vitais (RDC/Anvisa nº 34/2014, Art. 142)
- Acompanhamento dos 10 primeiros minutos de cada transfusão à beira do leito, pelo profissional que a instalou (RDC/Anvisa nº 34/2014, Art. 143, parágrafo único)
- Registro no prontuário de data, horário de início e término, sinais vitais no início e no término, origem e identificação de cada bolsa e identificação do profissional que realizou o procedimento (RDC/Anvisa nº 34/2014, Art. 144)
Minuto 5 a 20 — a rodada completa, e o cálcio que ninguém lembra
A primeira caixa completa chega com hemácia, plasma e plaqueta em proporção próxima de um para um para um. O plasma demorou porque precisou descongelar; se não tivesse sido pedido no primeiro telefonema, estaria começando a descongelar agora. Enquanto a rodada corre, entra o cálcio, por via própria — nada além de soro fisiológico a 0,9% pode dividir a linha com o hemocomponente. Cada 500 mL de bolsa carrega citrato suficiente para derrubar o cálcio iônico de uma paciente que já tinha metade da chance de estar hipocalcêmica antes de qualquer transfusão.
Prescrição- Rodada de hemocomponentes em proporção próxima de 1:1:1, com liberação contínua e ininterrupta pela agência transfusional até a suspensão do protocolo (HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307)
- Fase cega expandida com 2 concentrados de hemácias, 2 unidades de plasma fresco congelado e 1 pool de plaquetas, antes de qualquer resultado laboratorial (Protocolo institucional de hemorragia maciça, Hospital Governador Celso Ramos)
- Plasma fresco congelado 10 a 20 mL/kg — em 70 kg, 700 a 1.400 mL, ou cerca de 4 a 8 unidades — com teto de 400 mL por pedido liberado sem prova de compatibilidade (Guia para o uso de hemocomponentes, 2015; HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307)
- Concentrado de plaquetas: 1 pool, 1 unidade por aférese ou 4 a 6 unidades randômicas por dose de adulto, sem aquecer (Guia para o uso de hemocomponentes, 2015)
- Gluconato de cálcio a 10%, 10 a 20 mL por via endovenosa para cada 500 mL de hemocomponente transfundido, em acesso separado da bolsa — 1 ampola de 10 mL contém 1 g do sal e 93 mg de cálcio elementar (HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307)
- Alternativa em paciente com função hepática anormal: cloreto de cálcio a 10%, 2 a 5 mL por via endovenosa para cada 500 mL de hemocomponente — 1 ampola de 10 mL contém 273 mg de cálcio elementar, quase o triplo do gluconato (HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307)
- Aquecimento dos componentes em aquecedor próprio, dotado de termômetro visível e alarme sonoro e visual, sob protocolo escrito do serviço — nunca em banho improvisado, e nunca para plaquetas (Portaria de Consolidação nº 5/2017, Anexo IV, Art. 197; Guia para o uso de hemocomponentes, 2015)
- Manta térmica, remoção de roupas úmidas, elevação da temperatura da sala e cobertura de todo segmento que não estiver sendo examinado (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2024)
Minuto 20 a 30 — a pressão que se persegue enquanto o foco não fecha
Durante hemorragia ainda não controlada, a reposição procura preservar perfusão sem aumentar desnecessariamente o sangramento. A equipe pode usar PAS de 80–90 mmHg temporariamente em trauma selecionado sem lesão cerebral ou medular. Essa estratégia não se aplica ao TCE, no qual se evitam episódios de hipotensão e se usam metas próprias, em geral PAS ≥110 mmHg no percurso ACS 2024, individualizadas. Reavaliar perfusão e resposta junto com controle do foco; um número de pressão não prova ressuscitação completa.
Prescrição- Enquanto sangra, individualizar metas: hipotensão permissiva de PAS 80–90 mmHg pode ser usada em trauma selecionado sem lesão cerebral ou medular. TCE pede proteção da perfusão cerebral, com metas próprias; PAS apenas acima de 90 não é alvo suficiente do percurso atual.
- Hipotensão permissiva contraindicada na presença de traumatismo cranioencefálico, em qualquer alvo — a lesão cerebral secundária por hipoperfusão não é reversível (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2024)
- Reposição com hemocomponente, e não com cristaloide, a partir da ativação: cada 500 mL de cristaloide nas primeiras seis horas se associou a aumento de 9% na síndrome do desconforto respiratório agudo. Onde faltar componente, cristaloide balanceado em bolus pequenos, como ponte e nunca como estratégia (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2024, citando o ensaio PROPPR)
- Vasopressor não substitui volume no choque hemorrágico: eleva o número sem repor o que saiu nem conter a perda
Minuto 30 a 45 — os exames voltam, e a rodada deixa de ser cega
Fibrinogênio cai precocemente na hemorragia grave. Repor diante de concentração ≤150 mg/dL ou deficiência funcional no teste viscoelástico, com dose inicial usual equivalente a 3–4 g e ajuste pela resposta. Conferir com a agência transfusional a equivalência do crioprecipitado disponível. Repor plaquetas conforme sangramento, contagem e sítio, corrigir cálcio ionizado e manter aquecimento apropriado. Não aguardar fibrinogênio abaixo de 100 mg/dL nem uma rodada predeterminada para reconhecer a deficiência.
Prescrição- Na hemorragia importante, repor fibrinogênio diante de concentração ≤1,5 g/L (150 mg/dL) ou deficiência funcional no teste viscoelástico, conforme protocolo. Dose inicial usual de 3–4 g de concentrado de fibrinogênio ou equivalente em crioprecipitado, com equivalência confirmada pela agência transfusional e reavaliação; não esperar cair abaixo de 100 mg/dL.
- Orientar plaquetas pelo sangramento, exames e sítio: em geral manter >50.000/µL, com meta mais alta, frequentemente >100.000/µL, no TCE. Conferir protocolo e resposta, sem confundir pool, unidade randômica e unidade por aférese.
- Plasma fresco congelado adicional pelo tempo de protrombina acima de 1,5 vez o controle, com a mesma dose de 10 a 20 mL/kg (Guia para o uso de hemocomponentes, 2015)
- Gluconato de cálcio a 10%, 10 a 30 mL por via endovenosa pela hipocalcemia grave com cálcio iônico abaixo de 1 mmol/L, cada ampola de 10 mL infundida em 5 a 10 minutos, sem ultrapassar 2 mL por minuto, seguida de infusão contínua de 0,5 mg/kg/hora, que pode chegar a 2 mg/kg/hora (HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307)
- Reaquecimento ativo por estar abaixo de 37 °C: aquecedor de líquidos para tudo que for infundido, manta térmica sobre o tronco, sala aquecida (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2024)
- Correção da acidose pelo tratamento do choque, e não por bicarbonato de rotina — bicarbonato fica reservado a casos especiais, porque a acidose aqui decorre de hipoperfusão (HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307)
- Atenção à hipercalemia em paciente com disfunção renal ou recebendo hemácias estocadas há mais de 10 dias ou irradiadas há mais de 24 horas (HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307)
Minuto 45 — a decisão de parar de repor e ir operar
Ela recebeu seis unidades de hemácia, quatro de plasma e um pool de plaquetas em quarenta e cinco minutos, e continua em 88 por 60 com frequência de 128. Esse é o ponto em que a resposta correta deixa de ser uma prescrição. Reposição não fecha vaso: ela mantém o paciente vivo enquanto alguém fecha. Consumo acima de três unidades por hora com foco intraperitoneal identificado e não controlado é indicação cirúrgica, e o que a reposição está fazendo agora é comprar o tempo do transporte até a mesa. Sem centro cirúrgico ou cirurgião, a mesma conclusão aponta para a regulação: estabilizar e transferir, com a equipe do destino avisada. O que não existe é a terceira opção de continuar repondo e ver no que dá.
Prescrição- Encaminhamento imediato ao centro cirúrgico pela combinação de trauma abdominal contuso, FAST positivo, instabilidade hemodinâmica e resposta transitória ao volume — o detalhamento da técnica de controle de danos pertence ao capítulo próprio
- Manutenção do protocolo de transfusão maciça durante o transporte e dentro da sala cirúrgica, sem interrupção do fluxo de pacotes (HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307)
- Acionamento da regulação para transferência quando o serviço não dispuser de cirurgião ou centro cirúrgico, com estabilização antes do transporte e sem exame de imagem que atrase a saída
- Continuidade da reposição de cálcio e do aquecimento durante todo o transporte — as duas medidas que mais são esquecidas quando o paciente sai da sala
- Comunicação escrita e verbal, a quem receber o caso, de quantas unidades de cada componente já foram infundidas e a que horas, e de que houve liberação sem prova cruzada
Depois — desativar o protocolo, e devolver o que sobrou
O protocolo é caro em duas moedas: sangue, que é finito e que o serviço não fabrica, e atenção da agência transfusional, que interrompe outras atividades para dedicar um técnico ao caso. Por isso ele tem que ser desligado explicitamente, em voz alta — e o critério é o conjunto de metas laboratoriais somado ao fato mais importante de todos: o sangramento parou. Componente que ficou menos de 30 minutos fora da temperatura controlada volta à agência e é reaproveitado; passado o prazo, é descarte.
Prescrição- Desativação formal do protocolo quando: hemoglobina acima de 8 g/dL, tempo de protrombina abaixo de 1,5 vez o controle, plaquetas acima de 50.000 a 100.000/µL, fibrinogênio acima de 150 mg/dL e sangramento controlado (HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307)
- Devolução dos componentes não utilizados à agência transfusional dentro de 30 minutos fora da temperatura ou da agitação controlada (HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307)
- Conclusão das provas pré-transfusionais mesmo depois de a transfusão ter terminado, com notificação imediata ao médico assistente diante de qualquer anormalidade (Portaria de Consolidação nº 5/2017, Anexo IV, Arts. 170, IV, e 171)
- Regularização da documentação: solicitação escrita do que foi pedido verbalmente até o fim do plantão, e assinatura do termo de responsabilidade e do comunicado de resultado de prova cruzada quando couber (HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307)
- Notificação de evento adverso transfusional para investigação e registro, e discussão do caso no comitê transfusional da instituição, que é o fórum onde as solicitações de emergência são avaliadas (RDC/Anvisa nº 34/2014, Arts. 145, 146 e 147)
Como saber se está funcionando
Reavaliar aqui tem um significado estreito: é responder, a cada rodada, uma pergunta binária — o que eu infundi ficou dentro do paciente, ou saiu pelo mesmo buraco? Todo parâmetro abaixo existe para responder isso mais cedo do que a pressão responderia.
E há uma segunda camada, que é a do processo. Bolsa infundida sem hora anotada, componente pedido e não recebido, aquecedor desligado, cálcio prescrito e não instalado: são falhas de execução, não de conhecimento, e são as que mais matam em protocolo de transfusão maciça. Alguém precisa estar olhando para elas, e esse alguém costuma ser quem tem as mãos livres.
Esperado: Frequência caindo, pressão subindo em direção ao alvo, enchimento capilar normalizando, pele aquecendo — e assim permanecendo até a rodada seguinte. Índice de choque abaixo de 1,0 resume tudo isso num número.
Se não melhora: Recaída depois de melhora é sangramento ativo, e a conduta muda de categoria: não é mais quantidade de componente, é controle do foco. Nenhuma melhora depois de duas rodadas obriga a reabrir o diferencial — foco não identificado, choque obstrutivo somado, ou lesão de grande vaso. Nos dois casos a frase é a mesma: este paciente precisa de sala, não de mais uma bolsa.
Esperado: Acima de 36 °C. O limiar para começar a reaquecer é qualquer valor abaixo de 37 °C, e não abaixo de 36 — a diferença existe porque a coagulação já perde eficiência antes de o número cruzar a linha da definição.
Se não melhora: Se a temperatura cai enquanto você repõe, o problema quase sempre é o que está entrando: componente frio, cristaloide em temperatura ambiente, aquecedor desligado ou inexistente — ele existe em 19% dos serviços brasileiros. Onde não há, a compensação é manta térmica sobre o tronco, sala aquecida e roupa seca; nunca improvisar aquecimento da bolsa em água quente, que hemolisa. Abaixo de 33 °C a mortalidade descrita é de 100%, e a hipotermia entra na decisão de fazer cirurgia abreviada em vez de reconstrução definitiva.
Esperado: Acima de 1 mmol/L, de forma sustentada. Cerca de 55% dos traumatizados já chegam hipocalcêmicos antes de qualquer transfusão, então o valor inicial normal não dispensa a repetição.
Se não melhora: Cálcio iônico que não sobe costuma significar dose aquém do consumo de citrato, ou fígado hipoperfundido que não metaboliza o citrato. Antes de aumentar a dose, confira duas coisas: se o cálcio está mesmo correndo — ele exige via própria, e é a prescrição que mais some no meio do plantão — e se o sal é o que você pensa, já que 1 ampola de gluconato a 10% entrega 93 mg de cálcio elementar contra 273 mg do cloreto. No hepatopata, prefira o cloreto. Parestesia, tetania, arritmia e alargamento do QT são os sinais do distúrbio.
Esperado: Acima de 150 mg/dL no trauma, acima de 200 mg/dL se a hemorragia for pós-parto. É o fator que cai primeiro na hemorragia maciça, e o único que o crioprecipitado repõe de forma eficiente.
Se não melhora: Fibrinogênio que não sobe depois do crioprecipitado tem três explicações e todas mudam conduta. A primeira é consumo em curso, isto é, o sangramento não parou — e aí a resposta é cirúrgica. A segunda é dose insuficiente: a regra prática de 1,0 a 1,5 bolsa por 10 kg é uma estimativa, e a recuperação intravascular real na transfusão maciça pode ficar em torno da metade do fibrinogênio administrado. A terceira é o intervalo: o exame foi colhido cedo demais em relação ao fim da infusão. Redose antes de concluir qualquer coisa.
Esperado: Lactato caindo e excesso de base voltando em direção ao normal. São os marcadores que dizem se a perfusão melhorou de verdade, e por isso valem mais que a pressão: a pressão pode estar bonita com o tecido ainda em dívida de oxigênio. Entre os cirurgiões de trauma brasileiros, lactato é o marcador de resposta fisiológica mais usado, em 81,8%.
Se não melhora: Lactato que não cai apesar de reposição adequada significa perfusão que não foi restaurada — sangramento em curso, débito insuficiente, ou hipoperfusão regional que a pressão sistêmica não denuncia. Déficit de base persistente e profundo é sinal de gravidade independente da quantidade transfundida. Nenhum dos dois se corrige com bicarbonato: corrige-se parando o sangramento.
Esperado: Fluxo que aparece e se mantém depois da reposição. É o marcador de perfusão de órgão mais barato à beira do leito, e o segundo mais usado pelos cirurgiões de trauma brasileiros, em 77,7%.
Se não melhora: Oligúria persistente com reposição adequada significa que a reposição não foi adequada, que o sangramento continua, ou que há lesão renal ou de via urinária. Diante de sangue no meato, hematoma perineal ou suspeita de lesão de uretra, a sonda não entra e o urologista é chamado.
Esperado: Cada bolsa com hora de início e de término, sinais vitais nos dois momentos, identificação da bolsa e de quem instalou — que é exatamente o que o regulamento exige no prontuário. E cada bolsa acompanhada nos 10 primeiros minutos à beira do leito por quem a instalou.
Se não melhora: Rodada que não chegou pede nova ligação, não espera: em protocolo bem executado o fluxo é contínuo, e silêncio por mais de dez minutos significa que alguma coisa se perdeu no caminho. Plasma que não veio junto com a hemácia quase sempre não foi pedido — descongelar custa cerca de 30 minutos, e esse relógio só começa quando alguém pede. E componente prescrito verbalmente exige pedido escrito na agência transfusional antes do fim do plantão.
Esperado: Nenhuma. Sinais vitais registrados no início e no término de cada unidade servem justamente de linha de base para reconhecer o que muda.
Se não melhora: Febre, calafrio, dor lombar, hipotensão desproporcional, hemoglobinúria ou sangramento difuso novo em paciente que estava melhorando levantam suspeita de reação hemolítica aguda — e o risco é maior justamente aqui, porque houve liberação sem prova cruzada e porque há mais de um paciente grave na sala. Interrompa a transfusão daquela bolsa, mantenha o acesso, comunique a agência transfusional e o hemoterapeuta, e notifique o evento. Distinga do que é apenas frio: calafrio com queda de temperatura em paciente recebendo bolsa gelada é hipotermia, e o tratamento é aquecer, não parar.
Onde o erro machuca
O dano: O número do manguito melhora e o paciente piora. Cada litro dilui o que restou de fator e de plaqueta, esfria o paciente em torno de 0,24 °C quando está em temperatura ambiente, e eleva a pressão o suficiente para desalojar coágulos que se formavam no foco. O custo pulmonar também foi medido: cada 500 mL nas primeiras seis horas se associou a aumento de 9% na síndrome do desconforto respiratório agudo. Mais de 90% dos serviços brasileiros ainda repõem volume com cristaloide.
Como pegar a tempo: Trate cristaloide como ponte, não como estratégia: ele atravessa os minutos entre reconhecer o choque e ter hemocomponente na mão. A partir da ativação, a resposta correta à hipotensão não é abrir o soro, é perguntar onde está a próxima rodada. Enquanto o componente não chega, cristaloide balanceado em bolus pequenos, alvo pressórico baixo, e o telefone na outra mão.
O dano: Concentrado de hemácias não tem fator de coagulação nem plaqueta funcionante. Repor só hemácia em quem sangra restaura o transporte de oxigênio enquanto piora a hemostasia — é a versão cara da mesma diluição que o cristaloide faz. E o atraso se acumula: o plasma precisa descongelar por cerca de 30 minutos, de modo que um pedido feito trinta minutos depois chega uma hora depois.
Como pegar a tempo: Peça a rodada, não a bolsa. Na primeira ligação já entram hemácia, plasma e plaquetas, e na segunda entra o crioprecipitado — antes de o fibrinogênio voltar, porque ele leva 30 a 40 minutos para descongelar. É exatamente essa a diferença entre ativar um protocolo e solicitar transfusões avulsas: o protocolo entrega pacotes prontos e contínuos, sem que alguém precise pedir cada item.
O dano: Cada bolsa carrega citrato, que sequestra cálcio iônico e derruba um cofator obrigatório da cascata, da contratilidade miocárdica e do tônus vascular: o paciente hipocalcêmico sangra mais, responde menos a vasopressor e faz arritmia. Há um segundo dano, mais silencioso, que é a subdose por confusão de sal — 1 ampola de gluconato de cálcio a 10% contém 1 g do sal e apenas 93 mg de cálcio elementar, contra 273 mg de 1 ampola de cloreto de cálcio a 10%.
Como pegar a tempo: Prescreva por sal e por volume, nunca por "grama de cálcio": gluconato de cálcio a 10%, 10 a 20 mL para cada 500 mL de hemocomponente, em acesso separado. Meta de cálcio iônico acima de 1 mmol/L, dosado em série. Em hepatopata, prefira cloreto de cálcio. E lembre da trava do regulamento: nada além de soro fisiológico a 0,9% divide linha com a bolsa, o que faz dos dois acessos calibrosos uma exigência e não um capricho.
O dano: Dois litros de hemocomponente vindos da geladeira a 4 °C custam ao corpo de um adulto de 70 kg cerca de 1 °C de temperatura central; dois litros de cristaloide em temperatura ambiente custam cerca de 0,5 °C. Some sala refrigerada, corpo exposto e abdome aberto, e a queda para menos de 36 °C acontece durante uma ressuscitação tecnicamente correta. Abaixo disso as enzimas ficam lentas e o coagulograma continua normal, porque o laboratório aquece a amostra antes de rodar o teste.
Como pegar a tempo: Aqueça tudo o que entra, em aquecedor próprio com termômetro e alarme, exceto plaquetas. Manta térmica sobre o tronco, roupa molhada fora, sala aquecida, e temperatura anotada como sinal vital — que é o que ela é. Onde não há aquecedor de líquidos, as medidas passivas passam a valer mais, não menos. E nunca improvise mergulhando a bolsa em água quente: hemólise não avisa antes de acontecer.
O dano: São os dois caminhos para o erro que mais mata na hemoterapia. Tubo rotulado no posto de enfermagem, de memória, com dois pacientes graves na sala, produz incompatibilidade ABO — que é a reação hemolítica aguda, e é evitável em 100% dos casos. Amostra colhida depois de grande volume de componente vem diluída e compromete os testes, e o regulamento diz isso com todas as letras.
Como pegar a tempo: A amostra sai na primeira punção, antes de qualquer infusão, e o tubo é rotulado à beira do leito no ato da coleta, com identificação positiva por dois profissionais: um fala o nome completo em voz alta, o outro confere com a etiqueta. Se a paciente puder responder, pergunte a ela o nome e a data de nascimento. E quando houver duas emergências simultâneas no serviço, o próprio regulamento recomenda hemácias O para as duas, exatamente para reduzir o risco de troca.
O dano: O RhD negativo é o estoque mais escasso do banco de sangue e existe para proteger quem tem futuro reprodutivo em risco de aloimunização anti-D. Consumi-lo em pacientes que poderiam receber O positivo, ou em pacientes que já têm duas tipagens registradas e poderiam receber isogrupo, significa que a próxima mulher jovem que chegar não vai encontrar bolsa. O dano não acontece com o seu paciente; acontece com o da madrugada seguinte.
Como pegar a tempo: Aplique a regra escrita: sem tipagem, O RhD negativo para mulher em idade fértil; para homem de qualquer idade ou mulher acima de 50 anos, o regulamento autoriza O RhD positivo quando o estoque de negativo é insuficiente. E lembre da observação do próprio regulamento de que, na maioria das emergências, dá tempo de fazer a tipagem ABO do receptor e usar sangue isogrupo — a tipagem é rápida; é a prova cruzada que demora.
O dano: É o erro central deste capítulo. Reposição não fecha vaso: quem consome mais de três unidades por hora, com foco identificado e não controlado, está sendo mantido vivo por um processo que não tem desfecho próprio — e a mediana de tempo até a morte por exsanguinação, no maior ensaio do tema, foi de 106 minutos. Repor bem e decidir tarde é a forma mais bem-intencionada de perder o paciente.
Como pegar a tempo: Estabeleça um ponto de decisão explícito e diga em voz alta quando ele chegar: "segunda rodada correndo e ele não sustenta; qual é o plano de controle do foco?". Com cirurgião, é centro cirúrgico; sem cirurgião, é regulação e transferência com o paciente estabilizado. E se ainda não se sabe onde está o sangramento em quem não responde, achar o foco vira a prioridade absoluta, acima da próxima bolsa.
O dano: Sem registro por unidade, ninguém responde às perguntas que a equipe seguinte precisa fazer: quantas unidades entraram, há quanto tempo, houve liberação sem prova cruzada, o cálcio foi reposto, quando a temperatura caiu. A consequência é repetição de dose, componente pedido em duplicata e reação transfusional sem linha de base para ser reconhecida. O regulamento exige no prontuário data, horário de início e término, sinais vitais nos dois momentos, identificação de cada bolsa e de quem realizou o procedimento.
Como pegar a tempo: Essa é a tarefa do interno, e não precisa de autorização de ninguém: uma linha por bolsa, hora de início e término, sinais vitais nos dois momentos. Na passagem do caso, três frases — quantas unidades de cada componente, quantas saíram sem prova cruzada, quais metas já foram atingidas. Quem recebe o paciente sem esses três dados começa do zero.
O que dizer ao paciente e à família
Neste cenário há três conversas simultâneas, e uma delas quase nunca é ensinada: a que se tem com a agência transfusional, que é uma pessoa do outro lado de um telefone tomando decisões técnicas com base no que você disser. As falas abaixo são para dizer em voz alta, na ordem em que costumam aparecer.
O telefonema que ativa o protocolo
“Aqui é o plantão da emergência, vou ativar protocolo de transfusão maciça. Paciente Maria Aparecida da Silva, nascida em 12 de março de 1992, trauma abdominal fechado, FAST positivo, sala vermelha. Prescritor doutor Rocha, CRM 45.221. Preciso de hemácia O negativo agora e da primeira rodada completa, com plasma e plaquetas — o plasma pode começar a descongelar já. A amostra está saindo agora com o técnico.”
Não diga: "Preciso de dois de sangue urgente." Sem nome completo, data de nascimento, tipo de sangramento e localização, a agência transfusional não consegue nem começar, e cada esclarecimento vira uma segunda ligação. E pedir só hemácia significa que o plasma nem começou a descongelar — a fila de 30 minutos só começa quando alguém pede.
Você é o interno e percebeu que o paciente recaiu
“Pressão 86 por 58, frequência 132, agora, às 2h37 — ele tinha subido para 114 por 78 às 2h25. Índice de choque 1,53. Isso é respondedor transitório.”
Não diga: "Acho que ele piorou de novo." A frase sem números e sem horas é ouvida como impressão. Com os dois pares de números e os dois horários, ela vira uma série, e série é o que autoriza mudar de estratégia. Você não precisa ter certeza da conduta para relatar o que mediu.
Você precisa dizer que repor já não é o plano
“Segunda rodada correndo e ele não sustenta a pressão. Já foram seis de hemácia e quatro de plasma em quarenta e cinco minutos. Qual é o plano para controlar o foco?”
Não diga: Ficar em silêncio esperando que quem comanda chegue à mesma conclusão. E também o oposto: anunciar a indicação cirúrgica como se fosse sua. A pergunta sobre o plano coloca o dado na mesa e devolve a decisão a quem cabe, sem exigir que você suba um degrau de hierarquia para ser útil.
A família pergunta se vai precisar de sangue, e se é seguro
“Sim, ela está recebendo sangue, e é o tratamento certo para o que ela tem. Como o caso é grave, algumas bolsas saíram antes de todos os testes de compatibilidade ficarem prontos — isso é previsto em norma para situações de risco de vida, e os testes continuam sendo feitos enquanto ela recebe. É por isso que escolhemos o tipo de sangue seguro para praticamente todo mundo. Se algum resultado vier diferente do esperado, somos avisados na hora e reavaliamos.”
Não diga: "É sangue universal, não tem risco nenhum." Existe risco, ele é conhecido e é aceito porque o risco de esperar é maior. Prometer risco zero produz uma família que não vai acreditar em mais nada que você disser se acontecer uma reação transfusional — e é preciso poder falar com eles depois.
A família pede para doar sangue agora, para repor
“Obrigado, e doar ajuda de verdade — só que não do jeito que costumam imaginar. O sangue que ela está recebendo já está aqui, testado e pronto; sangue doado hoje leva tempo para ser processado. A doação de vocês repõe o estoque para o próximo paciente. Procurem o hemocentro ainda hoje ou amanhã, e não fiquem esperando lá.”
Não diga: Deixar a família na fila do hemocentro durante a ressuscitação, achando que aquilo está salvando a paciente naquele minuto. Além de falso, tira do lado dela as pessoas de quem você vai precisar para consentimento, história e decisão nas próximas horas.
Você precisa passar o caso para quem vai operar ou receber
“Mulher, 34 anos, colisão frontal às 1h40, trauma abdominal fechado, FAST positivo no espaço hepatorrenal, respondedora transitória. Protocolo ativo desde 2h12. Entraram seis unidades de hemácia — as quatro primeiras sem prova cruzada, O negativo —, quatro de plasma, um pool de plaquetas e dez de crioprecipitado. Ácido tranexâmico às 1h52, ataque cumprido. Cálcio reposto, último iônico 0,94. Temperatura 35,4 e reaquecendo. Lactato 5,1.”
Não diga: "Está recebendo bastante sangue." Quantidade sem unidade e sem hora obriga quem recebe a recomeçar a contagem — e repetir a dose de ataque de ácido tranexâmico por não ter perguntado é o erro mais comum dessa passagem.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Razão fixa próxima de 1:1:1, liberada em pacotes contínuos
O protocolo hospitalar libera pacotes prontos com hemácia, plasma e plaquetas em proporção próxima de um para um para um, sem esperar exame, porque isso agiliza a dispensação e mantém a proporção. O ensaio que testou a razão encontrou mais pacientes alcançando hemostasia com 1:1:1 do que com 1:1:2 (86% contra 78%, p = 0,006) e menos mortes por exsanguinação em 24 horas (9,2% contra 14,6%, p = 0,03), sem diferença nas 23 complicações pré-especificadas.
HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307, 2022; Holcomb JB et al., PROPPR, JAMA, 2015
Reposição guiada por exame, com fórmula fixa desaconselhada
O Guia de hemocomponentes do Ministério da Saúde registra que a prescrição sistemática de plasma por fórmulas automáticas de reposição não se mostrou eficaz na prevenção de distúrbios da coagulação. Aponta a alteração do tempo de protrombina e do tempo de tromboplastina parcial ativada como critério mais racional para guiar e monitorar a transfusão, e menciona tromboelastografia e tromboelastometria como métodos potencialmente mais fidedignos e em tempo real.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes, 2ª ed., 2015
Escolha a estratégia pela fase da ressuscitação. Enquanto os exames não estão disponíveis, inicie o protocolo de reposição balanceada do serviço sem atrasar o controle hemorrágico. Assim que chegarem coagulograma, fibrinogênio e plaquetas, ajuste os componentes às metas e à resposta. Testes viscoelásticos, quando disponíveis, podem antecipar esse ajuste. Reavalie continuamente a necessidade de cada componente para limitar exposição desnecessária.
Reposição profilática proporcional ao volume transfundido
O protocolo hospitalar prescreve gluconato de cálcio a 10%, 10 a 20 mL por via endovenosa para cada 500 mL de hemocomponente transfundido, como uso profilático em pacientes sob risco de hipocalcemia, e reserva doses maiores para o tratamento da hipocalcemia documentada — 10 a 30 mL na hipocalcemia grave, com cálcio iônico abaixo de 1 mmol/L. A meta é manter o cálcio iônico acima de 1 mmol/L, dosado em série.
HC-UFMG, Protocolo Assistencial nº 307, 2022
Dose fixa desde a primeira unidade, na chave militar
O levantamento brasileiro de reanimação para controle de danos registra que a hipocalcemia se tornou o quarto elemento do diamante da morte, está presente em cerca de 55% dos traumatizados e que algumas diretrizes militares sugerem manter o cálcio iônico entre 1 e 1,2 mmol/L, administrando cálcio já na primeira unidade de hemoderivado e pelo menos de novo após quatro unidades. Nesse levantamento, 71,1% dos cirurgiões de trauma brasileiros repõem cálcio.
Ribeiro Junior MAF et al., Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2024
Especifique o sal, a concentração e o volume na prescrição. Dez mililitros de gluconato de cálcio a 10% contêm 1 g do sal e cerca de 93 mg de cálcio elementar; o mesmo volume de cloreto a 10% contém cerca de 273 mg de cálcio elementar. As apresentações não são intercambiáveis ampola por ampola. Use via separada e ajuste a reposição ao volume transfundido e ao cálcio ionizado, buscando a faixa normal do laboratório conforme o fluxo deste capítulo. Sem dosagem disponível, siga o esquema institucional e providencie monitorização assim que possível.
Sangue total, quando existir
O levantamento com profissionais de trauma brasileiros argumenta que a medida mais adequada para restabelecer o volume perdido é substituir sangue por sangue, e propõe uma hierarquia explícita: sangue total, depois hemocomponentes em 1:1:1, depois hemácias e plasma em 1:1, depois plasma com ou sem hemácias, e por último hemácias isoladas. Registra que apenas 18,2% dos respondentes utilizam sangue total e que, no Brasil, ainda não há regulamentação específica para esse uso no trauma.
Ribeiro Junior MAF et al., Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2024
Hemocomponentes, que é o que o sistema produz e regula
O regulamento técnico brasileiro é construído em torno de componentes sanguíneos: define processamento, validade, controle de qualidade e testes pré-transfusionais para concentrado de hemácias, plasma, plaquetas e crioprecipitado, e as regras de liberação em emergência tratam nominalmente de sangue total ou concentrado de hemácias. O Guia de hemocomponentes do Ministério estrutura toda a terapêutica por componente, com dose e modo de administração próprios de cada um.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria de Consolidação nº 5/2017, Anexo IV; Guia para o uso de hemocomponentes, 2ª ed., 2015
Confirme o recurso disponível e acione o protocolo institucional de sangue total ou de componentes balanceados. A escolha depende do programa transfusional e do estoque do serviço. Se faltar um componente, comunique a limitação à equipe transfusional e organize a melhor reposição disponível enquanto prossegue o controle hemorrágico. Não espere uma rodada ideal para tratar exsanguinação.
O raciocínio, em voz alta
Volte à mulher de 34 anos. Colisão frontal em rodovia, passageira, chegada às 2h10. Consciente, pálida, abdome tenso e doloroso, sem sangramento externo. Pressão 96 por 74, frequência 118, enchimento capilar de 3 segundos. FAST com líquido livre no espaço hepatorrenal. Ácido tranexâmico feito às 1h52 na ambulância. Acompanhe o raciocínio em voz alta.
o que penso na chegada, antes de qualquer bolsa
Trauma contuso com abdome doloroso, taquicardia, pele fria e FAST positivo. Índice de choque na chegada: 118 dividido por 96, ou seja 1,23 — já acima de 1. Escore Assessment of Blood Consumption: mecanismo contuso não pontua, pressão sistólica de 96 não pontua, frequência de 118 fica logo abaixo do corte de 120 e não pontua, FAST positivo pontua. Um ponto. Não atinge o corte de dois. E ainda assim eu não vou relaxar: o índice de choque já disse o que o escore ainda não diz, e a lesão está identificada num compartimento que a minha mão não alcança. Aviso o banco de sangue que vem trauma maior, mando colher a amostra pré-transfusional agora, e chamo o cirurgião.
a primeira carga, e o que ela responde
Mil mililitros de Ringer lactato aquecido, e ela melhora: 114 por 78, frequência 96, pele aquecendo. O erro possível aqui é achar que resolveu. O que eu tenho não é um desfecho, é o começo de uma pergunta — e ela só se responde na reavaliação seguinte. Marco a hora, 2h25, anoto os quatro números, não dispenso ninguém e não peço tomografia.
a recaída, e o telefonema que ela dispara
Às 2h37, pressão 86/58 e frequência 132 após melhora transitória indicam deterioração. Com FAST positivo e mecanismo compatível, a suspeita de hemorragia intra-abdominal em curso é alta. Índice de choque 1,53 e ABC de três pontos reforçam a necessidade, mas o protocolo não deve esperar esses cálculos. Aciono agência transfusional, enfermagem e equipe cirúrgica em paralelo e reduzo dependência de cristaloide, priorizando sangue e hemostasia.
qual sangue sai, e por que esse
Ela é mulher e tem 34 anos, portanto está em idade fértil: hemácias O RhD negativo, e esse é um dos poucos pontos em que a escassez de estoque não é argumento. Assino o termo de responsabilidade da liberação sem prova cruzada, sabendo que as provas continuam sendo feitas e que qualquer anormalidade me será comunicada. Confiro cada bolsa à beira do leito antes de instalar — identificação dela, rótulo, etiqueta, validade, inspeção visual, sinais vitais — e fico os dez primeiros minutos ali. Duas unidades correm ao mesmo tempo, nos dois acessos.
o que eu faço enquanto a rodada corre
Três coisas que não são bolsa e que ninguém vai lembrar por mim. Cálcio: gluconato de cálcio a 10%, 20 mL, em acesso separado, porque nada além de soro fisiológico pode dividir linha com o hemocomponente, e porque cada 500 mL de bolsa traz citrato quelando o cálcio dela. Calor: aquecedor ligado para tudo menos plaqueta, manta térmica sobre o tronco, roupa molhada fora, sala aquecida. E registro: uma linha por bolsa, com hora de início e término e sinais vitais nos dois momentos.
o laboratório volta, e o que ele muda
Hemoglobina 6,8; plaquetas 88 mil; TP 1,8 vez o controle; fibrinogênio 92 mg/dL; cálcio iônico 0,94 mmol/L; lactato 5,1; temperatura 35,4 °C. Há hipofibrinogenemia, hipocalcemia e hipotermia relevantes: peço reposição dirigida e aquecimento enquanto se controla a hemorragia. Não preciso aguardar fibrinogênio abaixo de 100 para intervir — a referência atual usa ≤150 mg/dL ou deficiência funcional. A dose de crioprecipitado depende do conteúdo do produto e do protocolo, conferidos com a agência transfusional.
a decisão, que não é uma prescrição
2h55. Seis unidades de hemácia, quatro de plasma, um pool de plaquetas, e ela em 88 por 60 com frequência 128. Ela consumiu mais de três unidades em menos de uma hora, tem foco intraperitoneal identificado e não controlado, e não sustenta a pressão. A conduta certa aqui não tem dose: é centro cirúrgico agora, com o protocolo seguindo aberto durante o transporte e dentro da sala. Se este hospital não tivesse cirurgião, a conduta seria a mesma decisão com outro endereço — regulação, transferência com ela estabilizada, e a equipe do destino avisada de tudo o que já entrou e a que horas.
Faça você
Agora é outro paciente. Homem de 52 anos, hipertenso, em uso de atenolol, vítima de ferimento por arma branca em flanco esquerdo há vinte e cinco minutos. Chega andando, apoiado por um amigo, com um curativo improvisado. Está lúcido, ansioso, pele fria e úmida. Pressão 104 por 86, frequência cardíaca 104 bpm, frequência respiratória 26, enchimento capilar de 3 segundos, saturação 96% em ar ambiente. Abdome doloroso à palpação do flanco esquerdo, sem defesa franca. FAST com líquido livre no espaço esplenorrenal. Não há sangramento externo importante no curativo. Hemoglobina de chegada: 12,6 g/dL. O hospital é de médio porte, tem agência transfusional no próprio prédio e cirurgião de sobreaviso, que está a vinte e cinco minutos.
por que nem a hemoglobina nem a frequência tranquilizam
Hematócrito e hemoglobina só começam a cair uma a duas horas depois do início da hemorragia aguda, porque no primeiro momento se perde plasma e hemácia na mesma proporção: vinte e cinco minutos de sangramento produzem hemoglobina normal em quem já perdeu bastante. E ele toma atenolol, de modo que o betabloqueio corta o principal sinal precoce do choque — uma frequência de 104 aqui pode corresponder a bem mais em alguém sem a droga. Pela mesma razão, 104 por 86 num hipertenso de longa data pode ser hipotensão relativa. Sobram os sinais que ele não controla: pele fria e úmida, enchimento capilar de 3 segundos, taquipneia de 26, pressão de pulso estreita em 18 mmHg.
os dois gatilhos, calculados
Índice de choque: 104 dividido por 104 é exatamente 1,00 — atinge o corte. Escore Assessment of Blood Consumption: mecanismo penetrante pontua; pressão sistólica de 104 não pontua; frequência de 104 não pontua; FAST positivo pontua. Dois pontos, que é o corte de ativação. Os dois gatilhos disparam, e nenhum deles precisou de exame que demore.
o que já foi feito e não precisa ser refeito
A sequência do atendimento inicial já rodou: via aérea pérvia, tórax simétrico, dois acessos calibrosos com coleta na mesma punção, cristaloide aquecido iniciado, ácido tranexâmico dentro da janela. O que muda daqui em diante não é a sequência — é a natureza do que se infunde e o fato de que existe um foco em compartimento que a mão não alcança.
conduta
— sua vez —
Continuidade do caso e prática do internato
A melhora da mulher após uma rodada não encerra o caso: acompanhe se o foco foi controlado e se a resposta se mantém.
Questão integrativa 1
Quanto soma o ABC no momento de 86/58, FC 132 e FAST positivo?
Questão integrativa 2
É necessário esperar o escore para pedir sangue?
Questão integrativa 3
O mesmo pacote de bolsas serve para todos os hospitais?
Questão integrativa 4
Fibrinogênio de 120 mg/dL em sangramento importante permite esperar até 100?
Questão integrativa 5
Por que vigiar cálcio ionizado durante transfusão?
Questão integrativa 6
Quando a pressão melhora, termina a ressuscitação?
Ver como fecharíamos
A conduta é ativar o protocolo de transfusão maciça agora, e o primeiro ato é um telefonema simultâneo, não uma prescrição. Ligue para a agência transfusional informando nome completo, data de nascimento, ferimento penetrante em flanco esquerdo com FAST positivo, localização e prescritor com número do conselho; no mesmo minuto, chame o cirurgião de sobreaviso e avise a enfermagem. Peça a rodada completa, com hemácia, plasma e plaquetas — o plasma leva cerca de 30 minutos para descongelar, e esse relógio só começa quando alguém pede. Amostra pré-transfusional colhida agora, antes de mais volume, com o tubo rotulado à beira do leito por dois profissionais; ele está lúcido, então pergunte a ele o nome completo e a data de nascimento. Na mesma punção vão hemograma, coagulograma, fibrinogênio, gasometria com lactato, cálcio iônico e potássio. Qual sangue: ele é homem, e na ausência de tipagem o regulamento aceita O RhD positivo quando o estoque de negativo é insuficiente — mas, com agência transfusional no prédio, a equipe verifica se a tipagem pode ser concluída sem atraso; se não puder, utiliza liberação emergencial prevista no protocolo, sem aguardar tipagem ou prova cruzada para tratar exsanguinação. Termo de responsabilidade assinado se alguma unidade sair sem prova cruzada, conferência à beira do leito antes de instalar e acompanhamento dos dez primeiros minutos. Pare o cristaloide como estratégia: alvo temporário de pressão sistólica de 80–90 mmHg, individualizado pela equipe enquanto o foco não estiver controlado, e sem hipotensão permissiva diante de qualquer suspeita de traumatismo cranioencefálico. Junto com a rodada entram as duas coisas que não são bolsa: reposição de cálcio conforme protocolo, acesso e cálcio ionizado seriado, visando a faixa normal do laboratório; e aquecimento do paciente, ambiente, fluidos e produtos cuja administração admita aquecedor homologado, seguindo as orientações de cada produto, com manta térmica e sala aquecida. Reavalie em 10 a 15 minutos, com hora anotada, e classifique a resposta. A trava que fecha o caso: ferimento penetrante em flanco com FAST positivo e instabilidade tem indicação cirúrgica, não tomográfica — e os vinte e cinco minutos do cirurgião são exatamente o que a reposição existe para comprar. Se ele não sustentar a pressão, ou se o cirurgião não puder vir, a decisão é regulação e transferência com o melhor suporte possível e o protocolo aberto; não condicionar a saída à normalização que depende de hemostasia indisponível no local, e não uma terceira rodada esperando que a situação se resolva sozinha. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Três pontos: pressão, frequência e FAST. Mecanismo fechado não soma. 2. Não. Hemorragia ameaçadora e deterioração justificam ativação clínica pelo responsável. 3. Não. Produtos, equivalências e logística diferem; conhecer o protocolo e confirmar o que cada unidade contém. 4. Não. A referência atual recomenda reposição com ≤150 mg/dL ou deficiência funcional, conforme protocolo e reavaliação. 5. Citrato e alterações do trauma podem causar hipocalcemia, prejudicando coagulação e função cardiovascular; corrigir de forma monitorada. 6. Não automaticamente. Verificar hemostasia, perfusão, temperatura e exames, ajustando e encerrando o protocolo quando apropriado.
Melhorar com volume e recair em minutos é o padrão do respondedor transitório, e ele significa uma coisa só: o sangramento continua acontecendo agora. Somado a FAST positivo, isso torna a reposição com cristaloide não apenas insuficiente, mas prejudicial — cada litro dilui fator e plaqueta, esfria o paciente e eleva a pressão o bastante para desalojar coágulo. O índice de choque de 132 dividido por 86 dá 1,53, e o escore Assessment of Blood Consumption agora soma três pontos: FAST positivo, pressão sistólica ≤90 mmHg e frequência cardíaca ≥120 bpm; o mecanismo contuso não pontua. Tomografia está proscrita no instável, e o corredor não tem banco de sangue. Pedir só hemácia e esperar o coagulograma erra duas vezes: hemácia não repõe hemostasia, e o coagulograma é rodado a 37 graus no laboratório, de modo que nem enxerga a lentidão enzimática do paciente frio. Vasopressor eleva o número sem repor o que saiu nem conter a perda.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reescreva de memória, sem consultar: os quatro componentes, o que cada um repõe, o que cada um não repõe e quanto tempo cada um leva para chegar; as cinco metas laboratoriais que autorizam desativar o protocolo; e a diferença entre transfusão de emergência e transfusão maciça. Depois calcule o índice de choque de três pacientes que você atendeu esta semana. E confira quatro coisas que dependem só do seu serviço: se existe protocolo escrito de transfusão maciça aqui, qual é o ramal da agência transfusional, quanto tempo leva a primeira bolsa de hemácia sem prova cruzada, e onde fica o aquecedor de líquidos — ou se não há.
Em 30 dias
Refaça os dois casos mudando um dado por vez e veja onde a decisão quebra: e se a paciente da colisão tivesse 68 anos e tomasse varfarina; e se o fibrinogênio dela tivesse voltado 240 em vez de 92; e se o hospital não tivesse plaqueta em estoque nenhuma; e se ela também tivesse traumatismo cranioencefálico com Glasgow 10. Depois pegue o último paciente que você viu receber transfusão de urgência e responda três perguntas por escrito: quanto tempo passou entre a decisão de transfundir e a primeira bolsa correndo, quem repôs cálcio, e quem anotou a hora de cada unidade.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 27 anos, ferimento por projétil de arma de fogo em coxa esquerda com torniquete aplicado na cena há trinta minutos, mais ferimento em abdome. Chega pálido, taquicárdico, respondendo a comandos. Você tem dois acessos, monitor, ultrassom, uma agência transfusional a dois andares e um cirurgião que está sendo chamado. Conduza da porta ao destino: calcule os gatilhos em voz alta, ative o que precisa ser ativado, peça o que precisa ser pedido na ordem certa, e diga quando parar de repor.
