Cirurgia Geral › Trauma
Trauma de pescoço
Priorizar hemorragia e via aérea, investigar lesões vasculares e aerodigestivas e reconhecer os limites da observação no trauma cervical.
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EAST. Penetrating Neck Injuries, Management of. [Acessar fonte](https://www.east.org/education-resources/practice-management-guidelines/details/penetrating-neck-injuries-management-of)
Responda antes de ler
Três horas após a admissão por ferimento cervical, a enfermagem chama porque a voz do paciente está mais rouca e ele diz que 'apertou para engolir'. O contorno cervical esquerdo está maior do que no registro da chegada e a traqueia parece discretamente desviada. A saturação é 96% em ar ambiente e a pressão está normal. A angiotomografia feita há duas horas não mostrou extravasamento de contraste. O que você faz agora?
O paciente que você vai ver
Sexta-feira, 22h50. Hospital regional de 120 leitos no interior, referência para seis municípios, a cento e setenta quilômetros do hospital estadual que tem cirurgião vascular e endoscopia de plantão. Tem tomógrafo, e o técnico está na escala até meia-noite. Tem cirurgião geral em sobreaviso, que mora a doze minutos. Você é o interno da noite.
Jandir Camilo, 26 anos, ajudante de pedreiro, chega andando, apoiado no irmão. Ele mesmo tira a mão do pescoço para te mostrar: um corte de uns três centímetros na face lateral esquerda, um pouco acima da altura do pomo de adão, com sangue seco na camisa e um filete que ainda escorre devagar. Ele fala com você em frases inteiras. Diz que foi uma discussão na rua, que foi faca, que aconteceu há uns quarenta minutos. Pergunta se vai precisar levar ponto.
A pressão é 128 por 78. Frequência cardíaca 96. Saturação 97% no ar ambiente. Ele está orientado, anda, engole a própria saliva sem esforço, move os quatro membros. Se você fosse descrever esse paciente no prontuário em uma frase, sairia a frase mais perigosa da medicina de emergência: paciente em bom estado geral, lúcido, orientado, hemodinamicamente estável.
A técnica de enfermagem, que está no serviço há onze anos, olha o curativo e faz uma pergunta que parece administrativa: "quer que eu já separe o material de sutura?". A resposta certa não é sim nem não. A resposta certa é uma pergunta anterior, e ela é a única pergunta deste capítulo: esse corte atravessou o platisma?
Enquanto você pensa, o telefone da sala toca. É a regulação avisando que vem outro paciente, chegada estimada em vinte minutos: adolescente de 17 anos, encontrado em casa pela mãe pendurado por um cinto na estrutura do beliche, retirado por ela em menos de dois minutos, chegou a ficar mole, voltou a respirar sozinho e agora está acordado, chorando e falando. A regulação usa a palavra que vai te enganar se você deixar: "está bem". Os dois pacientes desta noite vão chegar conversando. Nenhum dos dois está resolvido.
Quem adoece disso
Ferimento cervical é doença de homem jovem e de horário noturno, e as duas maiores séries brasileiras publicadas concordam nisso com uma precisão incômoda. Em Curitiba, o Hospital Universitário Cajuru varreu 487.128 prontuários de emergência entre 1996 e 2001 e isolou 191 pacientes com lesão cervical exclusiva: 164 deles, ou 86%, eram homens, e a idade média foi de 28 anos, com extremos de 10 e 72. Em São Paulo, no hospital municipal do Campo Limpo, uma série de 39 pacientes operados entre 2001 e 2009 encontrou 33 homens, ou 84,6%, e exatamente a mesma média de 28 anos. O horário de maior admissão em Curitiba foi entre 20h e 4h. Isso tem consequência de escala: o ferimento cervical chega quando o hospital está com a equipe reduzida, e quem recebe é frequentemente quem tem menos tempo de casa.
O mecanismo divide o campo ao meio no Brasil, e essa é a diferença mais importante em relação ao que se lê na literatura de língua inglesa. Na série de Curitiba, entre os 191 pacientes, 90 ferimentos (47%) foram por arma de fogo e 88 (46%) por arma branca — praticamente empatados —, com 8 mordeduras de cão e 5 de outras causas. Nas séries norte-americanas citadas pelos próprios autores, a arma de fogo chega a 74%. A leitura prática é que, no pronto-socorro brasileiro, a faca é tão provável quanto a arma de fogo, e ela não é o mecanismo benigno da dupla: é o mecanismo que mais frequentemente deixa o paciente vivo, acordado e conversando na sua frente com uma lesão de estrutura nobre por baixo.
Ainda sobre mecanismo, um aviso de leitura que vale para o resto da sua vida profissional. A série paulista afirma, no resumo, nos resultados e na conclusão, que a principal causa de ferimento cervical penetrante foi o projétil de arma de fogo, com 19 casos (48,72%) — e a própria Tabela 1 do artigo, na mesma página, lista 19 ferimentos por arma de fogo e 20 por arma branca (51,3%), somando exatamente os 39 pacientes da casuística. Vinte é maior que dezenove: pela tabela do próprio estudo, a principal causa foi a arma branca. Na discussão o artigo escreve ainda um terceiro número, 17 ferimentos por arma branca, que somado aos 19 daria 36 e deixaria três pacientes de fora. A tabela é a parte internamente consistente, e é ela que vale. Guarde o método, mais do que o caso: some as colunas antes de repetir a frase de destaque, mesmo em artigo revisado por pares.
A zona II domina a estatística, e por um motivo geométrico simples: é a maior das três e é a que fica exposta quando a cabeça está em posição neutra. Em Curitiba, dos 73 pacientes em que a zona foi registrada, 40 (55%) foram de zona II, 26 (36%) de zona I e 7 (9%) de zona III. Na série paulista, entre os 39 operados, 29 (74,4%) tinham lesão de zona II, 9 (23,1%) de zona I e 1 (2,6%) de zona III. Os dois estudos citam faixas da literatura que vão de 47% a 82% para a zona II. Sabê-lo muda a expectativa: se você atende três ferimentos cervicais na vida, dois vão ser de zona II, e é justamente sobre a zona II que existe a maior controvérsia de conduta do capítulo.
O dado que mais desloca a suspeita é o do platisma. Em Curitiba, o músculo foi ultrapassado em 101 dos 191 pacientes, ou 53% — pouco mais da metade. Desses 101, 92 foram internados e 9 foram liberados após doze horas de observação sem sinais. Metade dos 101, ou seja 51 pacientes, acabou operada. E aqui vem o número que justifica todo o cuidado deste capítulo com a decisão de operar: dessas 51 cervicotomias, 24 foram não terapêuticas — 47%. Quase metade das operações não resolveu nada que precisasse ser resolvido, num serviço universitário de referência.
A letalidade brasileira publicada precisa de leitura cuidadosa, porque o denominador muda tudo. A série paulista relata 8 óbitos entre 39 pacientes, ou 20,5%, e os próprios autores dizem que isso é alto frente à literatura, que vai de 1,5% a 7,5%. Só que aqueles 39 pacientes eram todos operados: o critério de entrada do estudo foi ter sido submetido a cervicotomia exploradora. Não é a letalidade do trauma cervical; é a letalidade do trauma cervical que foi para a sala. Ler 20% como risco geral assusta o interno na direção errada. O número correto de guardar é outro, e é comparativo: naquela mesma série, a zona I teve 3 óbitos em 9 pacientes e a zona II teve 4 em 29 — a zona mais frequente não é a mais letal.
A outra metade deste capítulo tem estatística própria, e ela não vem do trauma: vem da vigilância em saúde. O boletim epidemiológico nacional sobre suicídios e violências autoprovocadas contabilizou 15.507 suicídios no Brasil em 2021, 77,8% deles no sexo masculino — a 27ª causa de morte no país, mas a terceira maior entre adolescentes de 15 a 19 anos e a quarta entre jovens de 20 a 29. No mesmo ano houve 114.159 notificações de violência autoprovocada, 80.233 delas em mulheres (70,3%) e 33.908 em homens (29,7%). E é na repartição por meio que está o número que muda a sua conduta no pronto-socorro: entre as notificações, a intoxicação exógena responde por 67,1%, os objetos cortantes por 17,9% e o enforcamento por 6,6%. Ou seja, o enforcamento é um meio pouco frequente entre as tentativas que chegam vivas ao serviço — e é o de maior letalidade que você vai atender.
Dentro desses 6,6% há duas concentrações que valem como alerta de plantão. Entre homens, o enforcamento aparece em 12,9% das notificações, contra 3,9% entre mulheres — razão de 3,3, que se reproduz a partir dos próprios números do boletim. Entre indígenas, o percentual é de 32,1% contra 6,4% entre não indígenas, razão de 5,0. Traduzindo para a beira do leito: quando o paciente que chega vivo depois de uma constrição cervical é homem, ou é indígena, ele pertence ao grupo em que esse meio é a escolha habitual, e não a exceção. Some-se o desfecho, que vem de outra fonte: um estudo brasileiro de séries temporais sobre adultos de 20 a 29 anos, cobrindo 1997 a 2019 no Sistema de Informações sobre Mortalidade, encontrou coeficiente médio de suicídio de 6,36 por 100 mil habitantes na faixa, com 87,18% dos óbitos (41.913 casos) no grupo das lesões autoprovocadas por meios não tóxicos — o grupo que se abre justamente com enforcamento, estrangulamento e sufocação — contra 12,82% (6.163) de autointoxicação. O método que mais aparece na notificação não é o que mais aparece no atestado. E mais da metade desses óbitos, 54,93%, ocorreu no domicílio: o mesmo domicílio de onde a família tira o paciente e o traz de carro, sem passar pelo resgate e sem nenhuma informação de cena registrada.
Duas ressalvas de leitura sobre esse boletim, porque elas ensinam mais do que os números. A primeira: os percentuais por meio de agressão não fecham em cem. Somados, os oito meios do recorte geral dão 103,3%, e o mesmo excesso reaparece no recorte masculino (103,3%), no feminino (103,2%) e no de não indígenas (103,4%) — só o de indígenas fica em 100,7%. O excesso é compatível com um campo de preenchimento múltiplo, em que uma notificação registra mais de um meio, e o próprio boletim usa exatamente essa nota de rodapé numa tabela vizinha, para a variável de tipo de deficiência. Na figura dos meios de agressão a nota não aparece, e por isso o leitor não consegue distinguir preenchimento múltiplo de arredondamento. A segunda: das quatro razões que o texto do boletim publica, duas se reproduzem a partir dos valores impressos e duas não. Enforcamento entre homens e mulheres dá 12,9 dividido por 3,9, igual a 3,3, exatamente como publicado; entre indígenas e não indígenas dá 32,1 por 6,4, igual a 5,0, também como publicado. Mas arma de fogo entre homens e mulheres dá 1,4 por 0,2, igual a 7,0, e o boletim escreve 7,2; e entre indígenas e não indígenas dá 3,2 por 0,6, igual a 5,3, e o boletim escreve 5,7. As duas últimas só fecham se as razões tiverem sido calculadas antes do arredondamento para uma casa decimal, o que é provável e não está dito. Há ainda um detalhe de editoração no mesmo arquivo: uma das dezoito páginas traz no cabeçalho a data de 14 de dezembro de 2024, contra 6 de fevereiro de 2024 nas outras dezessete e na capa — sobra de gabarito, e um bom lembrete de que a data de um documento se confere no conjunto, não numa linha. Nada disso derruba a mensagem do boletim. Serve para a régua que este capítulo repete: refaça a conta antes de repetir o número, inclusive quando a fonte é oficial.
Por que acontece o que acontece
O pescoço não tem caixa. O tórax tem costelas, o crânio tem calota, o abdome tem pelo menos musculatura espessa e uma cavidade que dá espaço ao sangue. Na face anterior e lateral do pescoço, entre a pele e a carótida, existem alguns milímetros de tecido celular subcutâneo, uma lâmina muscular fina e a fáscia. Um artigo brasileiro resume a razão de tanta morbidade em uma frase que vale decorar: é a quantidade de estruturas vitais reunidas em um espaço confinado e pequeno, de modo que pequenas agressões produzem lesões importantes. Não é uma região que exige força para ser vencida. Exige apenas direção.
O platisma é a lâmina muscular superficial que se estende do terço superior do tórax até a mandíbula, logo abaixo da pele. Ele não protege nada: tem espessura de papel e a função de franzir a pele do pescoço. O que ele faz é dividir. Acima dele existe pele, gordura e nada mais; abaixo dele começam a bainha carotídea, a traqueia, o esôfago, os nervos e a coluna. Por isso a literatura brasileira o adotou como marco operacional: ferimento penetrante de pescoço é, por definição, o que ultrapassa o platisma. As três séries brasileiras deste capítulo usam exatamente essa definição, e é ela que separa a conduta de sutura de partes moles da conduta de internar. O corte que não o atravessa é um problema de pele. O corte que o atravessa é um problema de anatomia, e você não sabe qual até resolver essa pergunta.

As três zonas de Monson não existem para classificar a gravidade. Existem para responder uma pergunta cirúrgica: se este paciente sangrar na mesa, o cirurgião consegue chegar ao vaso? A zona I vai das clavículas até a cartilagem cricoide, e contém a origem dos grandes vasos, o ápice pulmonar, a traqueia proximal e o esôfago cervical baixo — território cuja exposição pode exigir abrir o tórax ou a clavícula. A zona II vai da cricoide ao ângulo da mandíbula, e é a única em que o controle proximal e distal do vaso se faz com uma cervicotomia clássica, à mão, rápida. A zona III vai do ângulo da mandíbula à base do crânio, e ali o vaso entra no osso: o controle distal pode ser impossível pela cervicotomia, e o tratamento pode passar por radiologia intervencionista. Traduzindo para o plantão: nas zonas I e III, o que resolve é imagem antes e serviço com recurso; na zona II, o que resolve é o cirurgião e a sala.

A via aérea do trauma cervical fecha por um mecanismo que não é o do trauma de face nem o do queimado. Não é edema de mucosa que cresce de dentro para fora — é sangue que se acumula de fora para dentro, num espaço que não expande. O hematoma cervical ocupa volume dentro de fáscias inextensíveis, empurra a laringe para o lado e para trás e comprime as veias de drenagem, o que produz, em segunda instância, edema supraglótico por congestão. Duas consequências práticas nascem daí. A primeira é que o paciente com hematoma cervical pode ter saturação normal até o momento em que não tem mais nada: o que está estreitando é o tubo, não a troca gasosa. A segunda é que a laringe deslocada e o edema supraglótico transformam uma laringoscopia de rotina em laringoscopia sem referência anatômica — e essa deterioração é progressiva, ou seja, cada dez minutos de espera pioram a chance da tentativa.
Quando o vaso lesado é arterial, o dano tem duas vias e o interno costuma só enxergar uma. A via óbvia é a hemorragia. A via silenciosa é a isquemia: uma lesão de íntima da carótida pode não sangrar nada e produzir trombo, que ocluí ou emboliza para o cérebro horas depois. É por isso que déficit neurológico focal em paciente de trauma cervical não se explica por choque nem por trauma craniano até que a carótida tenha sido olhada. Quando o vaso é venoso, o problema muda de natureza. A jugular trabalha em pressão baixa e, durante a inspiração, a pressão intratorácica negativa transforma um vaso aberto do pescoço em um cano por onde entra ar. Volume suficiente de ar alojado no ventrículo direito interrompe o débito — é a embolia gasosa, e ela é a razão de duas condutas que parecem contraintuitivas: ocluir a ferida cervical sangrante e não deixar o paciente sentado enquanto a jugular está aberta.
O trato aerodigestivo lesa de dois modos e mata em dois tempos. A traqueia e a laringe avisam cedo, e avisam pelo ar: escape audível pela ferida, enfisema de subcutâneo que cresce ao toque, voz que muda, tosse com sangue. O perigo agudo dessas lesões é técnico — em uma traqueia parcialmente seccionada, o tubo endotraqueal pode ser empurrado por um falso trajeto e ventilar o mediastino em vez do pulmão. Já o esôfago não avisa. Ele é um tubo sem serosa, colabado, com conteúdo séptico, e uma perfuração pequena pode ficar horas sem produzir dor localizada, febre ou alteração de exame. O que ela produz, ao final, é mediastinite: contaminação de um compartimento que não drena e não tolera infecção. A série da Santa Casa de São Paulo mostra o formato do problema — sete perfurações de hipofaringe entre 157 ferimentos cervicais penetrantes, ou 4,4%, e em cinco delas só a endoscopia revelou a lesão.
Na constrição cervical — o enforcamento e o estrangulamento —, o mecanismo é hipóxia cerebral, e ela começa antes do que a intuição sugere. Fechar as veias jugulares exige muito menos força do que fechar as carótidas, e menos ainda do que colapsar a traqueia. Por isso o quadro típico não é o de asfixia por obstrução de via aérea: é o de estase venosa cerebral com fluxo arterial ainda presente, que produz aumento de pressão intracraniana, perda de consciência em segundos e as petéquias de face e conjuntiva que se vê em quem sobrevive. Some-se a isso o estímulo mecânico sobre o seio carotídeo, capaz de disparar bradicardia e hipotensão reflexas, e a compressão direta da laringe, que lesa cartilagem e mucosa. O que essa combinação deixa depois é o problema clínico: uma via aérea inflamada que vai inchar nas horas seguintes e um cérebro que sofreu hipóxia por tempo que ninguém cronometrou.
Reunindo tudo, a pergunta "por que parece bem?" tem quatro respostas, e as quatro são mecanismos, não sorte. Primeira: o sangramento venoso cervical é contido pelas fáscias, e o hematoma cresce para dentro antes de aparecer por fora. Segunda: o adulto jovem compensa perda volêmica com vasoconstrição e taquicardia discreta, de modo que a pressão cai tarde. Terceira: a lesão esofágica não tem, nas primeiras horas, nenhum achado de exame físico que a denuncie. Quarta: a via aérea estreita de fora para dentro sem alterar a oxigenação até quase o fim. As quatro convergem para a mesma regra de conduta, que é a espinha deste capítulo: no pescoço, o exame normal de agora não é informação sobre daqui a duas horas.
Como se apresenta de verdade
Existem duas grandes formas de chegada e um espectro dentro de cada uma. A primeira é o ferimento aberto, quase sempre por arma branca ou por projétil, em que a pergunta é sobre profundidade e trajeto. A segunda é o trauma fechado, que inclui o acidente de trânsito, o golpe direto, o "efeito varal" do motociclista contra fio ou cabo, e — com peso próprio, porque é o que mais chega em pronto-socorro geral — a constrição cervical do enforcamento e do estrangulamento.
Uma advertência que vale para todas as formas: no pescoço, a apresentação inicial não é o quadro, é o primeiro quadro. Descreva o que você viu com hora anotada, porque o valor do seu exame vem inteiro da comparação com o próximo. Frases como "pescoço sem alterações" não servem para comparar; "contorno cervical simétrico, sem abaulamento, traqueia na linha média, sem crepitação à palpação, voz normal, 23h05" serve.
O paciente que conversa — a forma mais comum e a mais traiçoeira
É o Jandir da cena, e é a maioria. Chega andando ou sentado na maca, fala, tem pressão normal e um ferimento que sangrou e parou. Na série de Curitiba, apenas 51 dos 101 pacientes com ferimento que ultrapassou o platisma tinham sinais e sintomas clínicos significativos — ou seja, quase metade dos ferimentos verdadeiramente penetrantes se apresentava sem nada de chamativo ao exame.
O que engana aqui não é a ausência de sinais; é a presença de sinais tranquilizadores. Ele fala, então a via aérea está pérvia — neste segundo. Ele tem pressão normal, então não sangrou muito — até agora. O curativo está seco, então parou de sangrar — ou está sangrando para dentro. Cada uma dessas leituras é verdadeira sobre o presente e falsa sobre o futuro, e o erro de raciocínio não é acreditar nelas, é datá-las como permanentes.
Nesse paciente, a decisão que importa não é "opero ou não opero", que não é sua. É "este ferimento atravessou o platisma?" — e, se atravessou, ele deixa de ser candidato a sutura e alta e passa a ser candidato a internação, jejum, imagem ou observação com regime escrito, conforme o que o seu serviço tem. Um dado da série de Curitiba dá a régua de tempo: nove pacientes com ferimento penetrante foram liberados após doze horas de observação sem sinais. Doze horas, não duas. O período de doze horas descreve esse estudo e não substitui critérios individualizados de investigação, observação e alta.
Os sinais duros — o quadro que dispensa investigação
Chamam-se sinais duros porque não pedem confirmação: quem os tem vai para a sala, e pedir exame é atrasar. São sangramento ativo em jato ou pulsátil, hematoma que cresce enquanto você olha, sopro ou frêmito sobre a ferida, choque que não responde a volume, déficit neurológico focal, escape de ar pela ferida, enfisema de subcutâneo que se estende, hemoptise e obstrução de via aérea instalada.
A série paulista mostra que essa lista não é teórica: entre os 39 pacientes levados à cervicotomia, as indicações mais frequentes foram hemorragia profusa em 8 casos (20,5%), enfisema de subcutâneo em 6 (15,4%) e hematoma em expansão em 6 (15,4%). Somados, os três respondem por metade das indicações da série. São achados de inspeção, palpação e ausculta — nenhum deles precisa de aparelho.
Preste atenção em dois deles, porque são os que o interno mais deixa passar. O primeiro é o hematoma em expansão: expansão é uma medida no tempo, não uma característica do hematoma, e só quem examinou duas vezes com hora anotada pode afirmar. O segundo é o déficit neurológico focal, que costuma ser atribuído ao traumatismo craniano associado, ao álcool ou ao choque, quando pode ser a primeira manifestação de uma carótida trombosada.
Os sinais brandos — e por que eles não liberam ninguém
Sinais brandos são rouquidão ou disfonia sem estridor, disfagia ou odinofagia, hematoma estável, enfisema de subcutâneo limitado e sem progressão, sangramento venoso que já cessou, parestesia. Eles têm um papel diferente do dos sinais duros: não indicam sala, mas indicam investigação — e, principalmente, não permitem alta.
A série de Curitiba registrou, entre os pacientes internados, 16 com sangramento ativo pela ferida, 14 com quadro de traumatismo raquimedular, 12 com enfisema de subcutâneo, 5 com lesão de plexo braquial, 3 com disfagia, 3 com rouquidão, 3 com escape de ar pela ferida e 2 com hemoptise. Note a proporção entre os brandos e os duros: os brandos são muitos e cada um deles é raro. Isso significa que você vai encontrá-los isolados, num paciente que quer ir embora, e é exatamente nessa situação que a decisão é difícil.
A disfagia merece linha própria. Ela é o sinal mais frequentemente presente e mais frequentemente ignorado da lesão de hipofaringe e de esôfago cervical, e é o único sintoma que aponta para a lesão que mata tarde. Um paciente que diz que dói para engolir a própria saliva, num ferimento cervical, não está com dor de garganta.
A via aérea que ainda não fechou
É a apresentação que decide quem vive. O paciente fala, satura bem, tem 30 anos e um abaulamento na região lateral do pescoço que estava do tamanho de um ovo há vinte minutos e agora está do tamanho de um punho. Não há hipoxemia. Não há estridor. E a janela está fechando.
Os achados que anunciam essa trajetória são de trajetória, não de gravidade: mudança de voz em relação à voz de dez minutos atrás, dificuldade nova para engolir saliva, sensação subjetiva de aperto, abaulamento cervical que aumenta, desvio de traqueia, enfisema que progride à palpação comparativa. O protocolo brasileiro de suporte avançado de vida coloca exatamente dois desses achados como itens obrigatórios do exame do pescoço, tanto na avaliação primária quanto na secundária: a distensão das veias e o desvio da traqueia. Eles não estão ali por elegância anatômica — estão porque são visíveis em segundos e mudam a conduta.
O manejo em si, com a escolha do plano, as drogas e a técnica, é assunto do capítulo de via aérea no trauma desta apostila e não se repete aqui. O que é próprio deste capítulo é o momento e a razão: aqui você intuba antes, e intuba porque a anatomia ainda existe. É a única situação de trauma em que atrasar a intubação por dez minutos pode transformá-la de difícil em impossível — e em que o degrau seguinte, a via aérea cirúrgica, também está comprometido, porque a referência da membrana cricotireóidea pode estar coberta pelo mesmo hematoma.
O trauma fechado, o enforcamento e o estrangulamento
Aqui não há ferida para explorar, e é essa ausência que faz o serviço subestimar o quadro. O paciente do "efeito varal", o motociclista que bateu o pescoço no cabo, a vítima de agressão com golpe direto na região anterior e o paciente retirado de uma constrição por corda, cinto ou lençol compartilham a mesma armadilha: lesão de laringe, de traqueia, de esôfago e de vasos pode existir com pele íntegra.
No paciente que sobreviveu a uma constrição cervical, o exame tem itens que não estão na rotina. Procure o sulco na pele e descreva sua posição, direção e se é completo — não para periciar, mas porque a posição informa a estrutura sob tensão. Procure petéquias na face, nas conjuntivas e na mucosa oral, que traduzem a estase venosa. Procure rouquidão, dor à palpação da cartilagem tireóidea, crepitação, disfagia e dispneia. E examine o estado neurológico com atenção desproporcional: confusão discreta, agitação, amnésia do episódio e lentificação são manifestações de hipóxia cerebral e não de "nervosismo", mesmo quando o paciente está falando com você.
A regra de conduta que diferencia esse cenário é a observação obrigatória. O paciente que sofreu constrição cervical e chega falando ainda pode desenvolver edema de laringe nas horas seguintes, e pode desenvolver insuficiência respiratória por lesão pulmonar aguda depois disso. Alta imediata porque "está bem, está falando" é o erro de conduta mais previsível deste capítulo. Some-se um segundo motivo, não respiratório: a razão que trouxe esse paciente continua existindo quando ele sair, e o protocolo de autoagressão e risco de suicídio do serviço móvel nacional é explícito ao mandar que ele jamais seja deixado sozinho e que a avaliação de risco seja feita, e não adiada.
Quem esconde o quadro: a criança, o idoso, o anticoagulado, o intoxicado
Na criança, a laringe é mais alta, mais anterior e mais cartilaginosa, o que a torna mais tolerante ao impacto e menos tolerante ao edema: a mesma quantidade de inchaço reduz proporcionalmente muito mais a luz. E o resgate de via aérea muda de ferramenta — o protocolo brasileiro de suporte avançado contraindica a cricotireoidostomia cirúrgica abaixo de 12 anos, o que significa que, na criança, a decisão de intubar precoce não tem plano de resgate equivalente e por isso precisa ser ainda mais precoce.
No idoso, o pescoço curto, a artrose cervical e a limitação de extensão dificultam a laringoscopia antes de qualquer trauma, e o hematoma se instala sobre um terreno já desfavorável. Se ele usa anticoagulante ou antiagregante, some a isso um hematoma que cresce mais e por mais tempo a partir de um trauma que em outro paciente seria banal — inclusive por trauma fechado sem ferida nenhuma.
O paciente intoxicado por álcool ou por drogas apaga dois dos seus melhores instrumentos: a queixa de disfagia e a avaliação neurológica. Numa série em que o horário de pico de admissão foi entre 20h e 4h, essa combinação não é excepcional, é o padrão da madrugada. Nesse paciente, o exame seriado com registro comparável substitui a anamnese que você não vai conseguir, e o limiar para pedir imagem cai.
Como fechar o diagnóstico
Este bloco responde uma sequência de perguntas, e a ordem delas importa mais do que o nome dos exames. Primeira: este paciente tem sinal duro? Se tem, a investigação acabou antes de começar. Segunda: o ferimento atravessou o platisma? Se não atravessou, é ferimento de partes moles. Terceira: em que zona está e o que aquela zona esconde? Quarta: das quatro famílias de estrutura — vascular, laríngo-traqueal, faringo-esofágica e neurológica —, qual você já excluiu e qual ainda está em aberto?
Guarde a proporção que essa sequência tenta evitar. Na série de Curitiba, 51 pacientes foram operados e 24 dessas cervicotomias, ou 47%, foram não terapêuticas. Numa série que praticava exploração mandatória citada pelos mesmos autores, as explorações negativas chegaram a 226 de 393 pacientes. Investigar não é preciosismo acadêmico: é o que separa metade das operações desnecessárias de uma operação indicada.
Antes de qualquer exame: o que se faz com as mãos
A avaliação primária vem antes e não é formalidade. O protocolo brasileiro de suporte avançado de vida coloca o pescoço em dois momentos distintos e por motivos diferentes: na avaliação primária, dentro da checagem de respiração, procurando posicionamento da traqueia e turgência jugular, porque os dois apontam para causas de morte em minutos; e na avaliação secundária, no exame de cabeça aos pés, mandando avaliar a região anterior e a posterior do pescoço, com atenção especial a distensão das veias e desvio da traqueia. Repare que o protocolo manda olhar a nuca, e não só a frente — orifício em região posterior do pescoço é dos que mais escapam, e ele só aparece com rolamento em bloco.
Duas manobras de exame são específicas desta região e valem ser feitas de propósito. A primeira é a ausculta sobre o ferimento e sobre o trajeto dos vasos, procurando sopro — achado que praticamente não é procurado em outras regiões e que aqui aponta para lesão arterial. A segunda é a palpação comparativa e sequencial do contorno cervical: os dois lados, com a mesma mão, com hora anotada, procurando crepitação e abaulamento novo. É a única forma de transformar "hematoma" em "hematoma em expansão", que é o achado que muda a conduta.
Depois disso, e ainda sem exame nenhum, você já sabe se o paciente pertence a um dos três grupos que a literatura brasileira separa: instável ou com sinal duro, que vai para a sala; estável com ferimento que atravessou o platisma, que é o paciente deste bloco; e ferimento que não atravessou o platisma, que sai daqui com curativo, profilaxia antitetânica conforme a situação vacinal e orientação escrita de retorno.
Qual exame primeiro, e o que cada um responde
A angiotomografia de pescoço com contraste é o exame que responde mais perguntas de uma vez, e por isso é o primeiro do paciente estável: mostra o trajeto do agente, o vaso, o hematoma, a coluna, o ar fora de lugar e, indiretamente, aponta para a via aérea e o esôfago. Ela não é exame de paciente instável: quem tem sinal duro vai para a sala, e o único uso legítimo do tomógrafo nesse paciente é nenhum. A série de Curitiba é explícita ao propor que os casos suspeitos ao rastreio vascular sejam confirmados pela angiotomografia.
A investigação seletiva do paciente estável integra trajeto e suspeita de lesão. Angiotomografia costuma orientar a avaliação vascular; Doppler é complementar em situações selecionadas, com limitações técnicas e anatômicas, e não é exame adicional obrigatório para toda lesão de zona I ou III. Suspeita aerodigestiva pode exigir exames dirigidos mesmo quando a avaliação vascular é negativa.
A radiografia simples continua tendo dois papéis pequenos e concretos, e nenhum deles é excluir lesão. O primeiro é mapear projétil e conferir paridade: cada projétil ou saiu, ou está no corpo. O segundo é a coluna cervical, e aqui a diretriz brasileira das três sociedades é direta: a investigação da lesão de coluna cervical começa pela radiografia simples em três incidências — anteroposterior, perfil e transoral — e só depois recorre à tomografia e à ressonância. Ar no tecido mole cervical e desvio de traqueia também aparecem na radiografia, mas ausência deles não exclui nada.
Um lembrete de sequência que o interno erra com frequência: nenhum desses exames vem antes de resolver a via aérea. Se a indicação de tubo existe e a de imagem também, a ordem é tubo primeiro, e o paciente vai para o tomógrafo intubado, não a caminho de ser.
O trato aerodigestivo: o que confirma e o que só a endoscopia vê
É aqui que a investigação deixa de ser opcional, porque é aqui que mora a lesão que mata tarde. A sistematização proposta pela série de Curitiba, para casos com sinais clínicos de lesão ou ferimentos transfixantes, tem três componentes e uma reserva: radiografia simples da coluna cervical, esofagograma associado à esofagoscopia, e nasofaringolaringoscopia; a traqueobroncoscopia fica reservada para a suspeita de lesão de via aérea e para os casos em que a nasofaringolaringoscopia for inconclusiva. Naquela série, isso significou 17 broncoscopias, 15 endoscopias digestivas altas e 9 exames vasculares por eco-Doppler entre os pacientes conduzidos sem operação.
A razão para associar esofagograma e esofagoscopia, em vez de escolher um, é que eles falham de modos diferentes: o contraste pode não extravasar por uma perfuração puntiforme colabada, e a endoscopia pode não ver uma lesão coberta por coágulo ou situada em ângulo desfavorável. Um exame negativo isolado, num paciente com disfagia ou com trajeto que cruza a linha média, não fecha a questão.
A série da Santa Casa de São Paulo mostra o peso disso em números pequenos e eloquentes: em 157 ferimentos cervicais penetrantes ao longo de quatro anos, sete pacientes (4,4%) tinham perfuração de hipofaringe. Dois foram operados sem avaliação endoscópica prévia, porque a condição clínica não permitia esperar — um por instabilidade hemodinâmica por secção da jugular interna direita, outro por insuficiência respiratória aguda por edema de base de língua. Nos outros cinco, foi a endoscopia que revelou a lesão. Traduzindo: nessa casuística, a lesão de hipofaringe só foi diagnosticada por endoscopia ou por indicação de emergência — nunca pelo exame físico isolado.
Um detalhe anatômico do mesmo artigo ajuda a pedir o exame certo: a hipofaringe estende-se da borda superior da epiglote à borda inferior da cartilagem cricoide, e lateralmente é composta pelos seios piriformes. Isso é território de zona II alta e de transição para a zona III — ou seja, o ferimento que você mais vai atender é justamente o que passa por ali.
O que não pedir, e o que custa pedir
Não sonde a ferida cervical às cegas, com pinça, cotonete ou dedo, para "ver se é fundo". No pescoço, a objeção é mais forte do que no abdome: além do falso negativo, existe a chance real de deslocar um coágulo que está contendo um vaso e transformar um sangramento parado numa hemorragia dentro de uma sala que não é o centro cirúrgico. A avaliação da penetração do platisma se faz por inspeção sob boa iluminação, e a dúvida se resolve internando, não cutucando.
Não improvise exploração local da ferida cervical à beira do leito como se faz na parede anterior do abdome. Ali existe um marco confiável, a aponeurose, e uma cavidade que perdoa. Aqui, a estrutura que fica a poucos milímetros da sua pinça é a bainha carotídea. Se a exploração for necessária, ela acontece com o cirurgião, com material e no lugar certo.
Não passe sonda nasogástrica às cegas na suspeita de lesão faringoesofágica antes de a via aérea estar definida e antes de o cirurgião saber do caso: a sonda pode aprofundar uma perfuração e pode desencadear vômito num paciente com hematoma cervical e via aérea limítrofe. E não peça radiografia de coluna cervical para "liberar o pescoço" antes de intubar — a conduta com o colar e o alinhamento é a mesma com radiografia ou sem ela.
Não leve ao tomógrafo o paciente com sinal duro. É o erro de maior letalidade da lista, porque tem a aparência de zelo. Quem tem hematoma em expansão ou sangramento em jato precisa de sala e de cirurgião; o corredor a caminho da tomografia é onde a via aérea fecha sem plateia.
E não peça o colar cervical automaticamente no ferimento penetrante isolado do pescoço. Ele cobre justamente a região que você precisa inspecionar e palpar de dez em dez minutos, atrapalha a compressão local e não trata nada num mecanismo que não produz instabilidade de coluna por si. Se houver mecanismo contuso associado, ou déficit neurológico, ou o paciente estiver inconsciente, a estabilização é mantida — e o protocolo nacional prevê que, garantido o pescoço em posição neutra com estabilização manual da coluna cervical, o colar pode ser retirado para a intubação e recolocado em seguida. Aproveite essa janela para examinar o pescoço inteiro.
O diferencial mora aqui dentro
No pescoço, o diferencial não é entre doenças, é entre estruturas — e o exame que confirma uma é o que exclui a outra. Isso muda a maneira de pedir: você não pede "exames", pede a resposta de uma pergunta anatômica.
Enfisema de subcutâneo cervical tem três origens possíveis e três destinos diferentes. Pode vir da árvore respiratória cervical, e então o exame é a laringotraqueoscopia; pode vir do trato digestivo, e então o exame é o esofagograma com esofagoscopia; e pode vir de baixo, de um pneumotórax que dissecou para cima, e então o exame é a radiografia de tórax e a conduta pode ser drenagem torácica. A mesma crepitação sob os seus dedos aponta para três serviços diferentes.
Déficit neurológico em vítima de trauma cervical tem quatro origens que competem. Pode ser lesão medular direta, e a série de Curitiba registrou 14 pacientes com quadro de traumatismo raquimedular entre os internados. Pode ser lesão de plexo braquial, que foram 5 na mesma série, e que é focal, periférica e não compromete o tronco. Pode ser traumatismo cranioencefálico associado, tema de capítulo próprio desta apostila. E pode ser isquemia cerebral por lesão de carótida — a possibilidade que só se exclui olhando o vaso, e a que o interno menos lembra.
Rouquidão nova tem duas leituras que exigem condutas opostas. Se for por lesão direta da laringe, o caminho é a laringoscopia e o cirurgião. Se for por hematoma que comprime e desloca, o caminho é a via aérea definitiva agora, porque a rouquidão é o aviso de que a compressão já alcançou a laringe. Diante da dúvida, trate como a segunda: o erro de intubar cedo é recuperável; o inverso, não.
Por fim, um diferencial que não é anatômico e que este capítulo carrega: no ferimento cervical, a distinção entre agressão por terceiro e lesão autoprovocada muda o desfecho do paciente mais do que qualquer exame de imagem. Ela se faz perguntando, e o momento de perguntar é quando o paciente está estável e sozinho com você.
O que existe no SUS, e o que fazer no hospital que não tem
Exame que não se consegue não é conduta. O hospital geral brasileiro de médio porte costuma ter radiografia e tomógrafo; frequentemente tem ultrassonografia com Doppler dependente de plantonista; raramente tem endoscopia digestiva e laringoscopia flexível de urgência na madrugada; e quase nunca tem angiografia com radiologia intervencionista. Como a zona I e a zona III são justamente as que mais dependem de imagem e de recurso, a decisão nesses hospitais deixa de ser "qual exame" e passa a ser "quando este paciente sai daqui".
Monte a sua conduta a partir do que existe hoje, à noite, no seu plantão, e não do algoritmo ideal. Se o ferimento atravessou o platisma e o seu serviço não tem endoscopia nem cirurgião de retaguarda, o paciente não é candidato a observação: é candidato a transferência, com acesso venoso, jejum, analgesia, monitorização e contato com a regulação. Se tem cirurgião e tem tomógrafo, ele pode ser investigado onde está. Se tem cirurgião e o paciente tem sinal duro, ele não precisa de nada disso — precisa de sala.
A profilaxia antitetânica é o exemplo de conduta que independe de estrutura e por isso não se deve esquecer justamente nos hospitais mais simples. O guia nacional de vigilância classifica ferimentos por arma branca e por arma de fogo entre os de alto risco de tétano. Nessa categoria, a conduta é vacina quando a história é incerta, com menos de três doses, ou com a última dose há cinco anos ou mais; e a associação de soro antitetânico ou imunoglobulina, na dose profilática, quando a história é incerta ou incompleta, ou em situações especiais de imunodeprimidos, desnutridos graves e idosos com última dose há dez anos ou mais. Vacina e soro, quando indicados juntos, vão em grupos musculares diferentes. Os dois imunobiológicos estão na relação nacional de medicamentos essenciais, no componente estratégico, com a concentração declarada: o soro antitetânico com no mínimo 1.000 unidades internacionais neutralizantes por mililitro, e a imunoglobulina antitetânica a 250 unidades internacionais por mililitro. Disso sai uma conta que vale fazer antes de aspirar: a dose profilática de soro corresponde a 5 mililitros, e é por isso que ela se divide em duas massas musculares; a de imunoglobulina corresponde a 1 mililitro.
Uma nota sobre leitura de tabela que este capítulo precisa registrar, porque ela mudaria uma conta do seu plantão. A tabela de lesões encontradas na série de Curitiba lista 20 lesões vasculares, 19 neurológicas, 15 aéreas, 4 digestivas e 6 em outros, e traz como total de lesões o número 58. Somando as cinco colunas chega-se a 64: o total publicado deixou de fora a coluna "outros". Isso não muda a mensagem do artigo — vasculares na frente, neurológicas em seguida, aéreas depois e digestivas por último —, mas muda qualquer proporção que alguém calcule usando 58 como denominador. Some as colunas antes de citar percentual, inclusive de fonte revisada por pares.
Do corte à decisão: profundidade, sinal e zona
Fisiologia e sinais de lesão determinam urgência. As zonas ajudam a descrever anatomia, mas não devem funcionar como regra isolada de investigação ou de destino.
- 1Avaliar xABCDE, controlar hemorragia por técnica apropriada e chamar equipe habilitada; não explorar ferida ou pinçar estruturas às cegas.
- 2Sangramento importante, hematoma em expansão, ameaça à via aérea ou outros sinais inequívocos exigem intervenção urgente, sem atraso por TC.
- 3Preparar via aérea com operador experiente e estratégia de resgate, considerando distorção anatômica; o interno auxilia sob supervisão.
- 4No paciente estável, avaliar violação do platisma e indicar angio-TC conforme mecanismo e suspeita, sem adicionar Doppler obrigatório apenas pela zona.
- 5Suspeita de lesão faríngea, esofágica, laríngea ou traqueal pode exigir endoscopia, estudo contrastado ou broncoscopia mesmo com investigação vascular favorável.
- 6Definir observação pela avaliação completa e capacidade de resgate; doze horas de uma série não são garantia universal de alta segura.
- 7Reavaliar voz, respiração, hematoma, deglutição e neurologia. Mudança clínica exige avaliação imediata; transferir cedo se faltam recursos.
- 8Planejar cuidados da ferida, prevenção do tétano, antimicrobianos quando indicados e retorno com orientações compreendidas.
Parou acima do platisma
Trajeto que fica na pele e no subcutâneo. Não é ferimento penetrante de pescoço pela definição usada nas séries brasileiras. Conduta de partes moles, profilaxia antitetânica conforme situação vacinal e alta com orientação escrita.
Atravessou o platisma
O marco operacional da penetração. Você sabe que a lâmina que separa a pele da anatomia foi vencida e não sabe o que há do outro lado. Não é indicação de operar: é indicação de internar em jejum e definir a investigação pela zona.
Alcançou estrutura, com sinal brando
Rouquidão, disfagia, hematoma estável, enfisema limitado, parestesia. Não manda para a sala e não libera para casa: manda investigar a estrutura que o sinal aponta, com o paciente internado e reavaliado com hora marcada.
Alcançou estrutura, com sinal duro
Sangramento em jato, hematoma em expansão, sopro, escape de ar, enfisema progressivo, déficit focal, choque refratário. A investigação está dispensada e qualquer exame é atraso. Cirurgião e sala, agora.
| Achado | Classe | O que ele está dizendo | Conduta imediata |
|---|---|---|---|
| Sangramento em jato ou pulsátil pela ferida | Duro | Vaso arterial aberto | Compressão direta sobre a ferida, sem enfaixamento circular; cirurgião e sala acionados no mesmo minuto |
| Hematoma que aumenta entre dois exames | Duro | Sangramento ativo contido pela fáscia, e via aérea em rota de compressão | Via aérea definitiva antes que a anatomia mude, e cirurgião acionado |
| Sopro ou frêmito sobre o trajeto | Duro | Fluxo turbulento em vaso lesado ou fístula | Não manipule a ferida; imagem vascular só se o paciente puder esperar por ela |
| Escape de ar audível pela ferida | Duro | Comunicação com a via aérea | Não ocluir hermeticamente sem via aérea garantida; equipe de via aérea e cirurgião |
| Enfisema de subcutâneo que progride ao toque | Duro | Ar saindo de traqueia, laringe, faringe, esôfago ou tórax | Definir a origem: laringotraqueoscopia, esofagograma com esofagoscopia, radiografia de tórax |
| Déficit neurológico focal | Duro | Medula, plexo braquial ou isquemia por lesão de carótida | Não atribuir ao álcool nem ao choque; imagem vascular e cirurgião |
| Choque que não responde a volume | Duro | Perda sanguínea ativa | Sala. Nenhum exame antes |
| Rouquidão ou disfonia nova, sem estridor | Brando | Laringe lesada ou comprimida | Investigar a laringe e, se houver hematoma, tratar como via aérea em rota de fechamento |
| Disfagia ou odinofagia | Brando | O sinal mais associado à lesão que mata tarde | Esofagograma com esofagoscopia; jejum; não passar sonda às cegas |
| Hematoma estável, sem crescimento documentado | Brando | Sangramento que cessou, ou que ainda não foi medido duas vezes | Palpação comparativa e contorno com hora anotada; internar |
| Enfisema limitado, sem progressão | Brando | Vazamento pequeno de ar, origem ainda indefinida | Investigar via aérea e trato digestivo; observar com reavaliação seriada |
| Parestesia ou paresia de um membro superior | Brando | Plexo braquial | Exame neurológico comparado e registrado; imagem conforme a zona |
As três zonas de Monson e o que cada uma muda na conduta
| Zona | Limites | O que passa por ali | O que a zona muda |
|---|---|---|---|
| Zona I | Das clavículas até a borda inferior da cartilagem cricoide | Origem dos grandes vasos, ápice pulmonar, traqueia proximal, esôfago cervical baixo, ducto torácico | Acesso cirúrgico difícil, podendo exigir abertura do tórax ou da clavícula. Imagem vascular antes, sempre que o paciente puder esperar por ela. Limiar baixo para transferência |
| Zona II | Da cartilagem cricoide até o ângulo da mandíbula | Carótidas, jugulares, laringe, traqueia, hipofaringe e esôfago cervical, nervo vago e laríngeo recorrente | É a única zona em que o controle proximal e distal do vaso se faz por cervicotomia clássica. Zona mais frequente e a de maior controvérsia entre explorar e investigar |
| Zona III | Do ângulo da mandíbula até a base do crânio | Carótida interna distal, artéria vertebral, faringe alta, pares cranianos baixos | Controle distal pode ser inalcançável por cervicotomia. Depende de imagem e, com frequência, de radiologia intervencionista — recurso que a maioria dos hospitais gerais não tem |
Sobrevivente de constrição cervical: o que examinar e por quanto tempo observar
| O que procurar | Como | O que significa |
|---|---|---|
| Sulco cervical | Inspeção, descrevendo posição, direção e se é completo | Marca da constrição; a posição informa que estruturas ficaram sob tensão |
| Petéquias em face, conjuntivas e mucosa oral | Inspeção com boa iluminação, incluindo pálpebra everted e mucosa jugal | Estase venosa cerebral durante a constrição, e portanto tempo de compressão relevante |
| Voz, deglutição de saliva e estridor | Conversar e observar; repetir a cada dez minutos com registro comparável | Envolvimento laríngeo; a piora entre dois registros é indicação de via aérea definitiva |
| Dor e crepitação sobre a cartilagem tireóidea | Palpação delicada e comparativa | Lesão de arcabouço laríngeo, que pode existir com pele íntegra |
| Estado neurológico fino | Orientação, memória do episódio, agitação, lentificação, exame motor | Hipóxia cerebral; confusão discreta em paciente que fala não é nervosismo |
| Oxigenação e ausculta pulmonar seriadas | Oximetria contínua e ausculta com hora marcada | Deterioração respiratória tardia pode aparecer horas depois da chegada |
| Risco de autoagressão e segurança | Avaliação de risco feita e registrada, paciente nunca sozinho, objetos de risco fora de alcance | A causa que trouxe o paciente continua existindo quando ele receber alta |
As zonas descrevem a anatomia do ferimento penetrante. No trauma fechado, também ajudam a localizar achados, mas a avaliação deve considerar cada estrutura em risco.
A zona do orifício de entrada não define a localização de toda a lesão. Trajetos transfixantes ou que cruzam zonas ampliam as estruturas em risco. A série de Curitiba identificou 23 ferimentos transfixantes entre 101 que ultrapassaram o platisma.
Sinais duros são achados clínicos e exigem reavaliação imediata. Hematoma em expansão mantém a urgência mesmo após angiotomografia sem extravasamento: a imagem registra um momento anterior da evolução.
Ausência de sinais iniciais não autoriza alta. Na série de Curitiba, quase metade dos ferimentos que ultrapassaram o platisma não apresentava manifestações clínicas significativas na primeira avaliação.
As fontes situam o limite superior da zona III na base do crânio ou na mastoide. A variação de redação não altera a dificuldade central: nesse território, o acesso e o controle vascular distal por cervicotomia são limitados.
A classificação de sinais duros e brandos varia entre as séries. Neste percurso, rouquidão isolada exige investigação laríngea; associada a hematoma, aumenta a preocupação com a via aérea. Avalie evolução e repercussão funcional, além do nome atribuído ao sinal.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo separa-se em dois ramos por volta do minuto dez: o do paciente que vai para a sala e o do paciente que fica. Os primeiros minutos são iguais para os dois, e é neles que o interno faz a maior parte do que lhe cabe. Toda dose citada vem com a fonte que a sustenta, e nenhuma delas vem de memória.
Uma convenção de escrita antes de começar, porque ela vale para o capítulo inteiro: escreva unidade internacional por extenso na prescrição, sem abreviar. Em prescrição de soro antitetânico e de imunoglobulina, a abreviatura é uma das formas mais conhecidas de erro de dose por um ou dois zeros.
Minuto 0 — antes de olhar a ferida
A avaliação primária vem primeiro, e no pescoço ela tem itens que não existem em outras regiões. Estabilização manual do alinhamento cervical enquanto se chama o paciente. Via aérea: fala? fala igual a antes? engole a própria saliva? Respiração: onde está a traqueia, as jugulares estão distendidas? Circulação: onde sangra e qual é o pulso. Neurológico: pupilas, escala de coma e, aqui em especial, força e sensibilidade dos quatro membros, porque déficit focal é sinal duro. Exposição com rolamento em bloco, procurando orifício na região posterior do pescoço e na nuca. Só depois disso o ferimento ganha a sua atenção.
Prescrição- Oxigênio por máscara facial, 10 a 12 litros por minuto, se saturação abaixo de 94% (protocolo AT1 do serviço móvel nacional, suporte avançado de vida, 2ª edição, 2016).
- Monitorização contínua com oximetria, e dois acessos venosos periféricos calibrosos, de preferência em membros superiores, no lado oposto ao ferimento quando possível.
- Registro escrito do exame do pescoço com hora: contorno, simetria, posição da traqueia, presença ou ausência de crepitação, qualidade da voz.
Minuto 0 a 3 — a compressão que se faz e a que não se faz
O controle de hemorragia externa no pescoço tem três proibições e uma técnica. A técnica é a compressão direta manual sobre gaze ou compressa estéril, mantida até o sangramento parar, aplicada em um ponto e não em volta. A primeira proibição é o enfaixamento circular do pescoço: ele comprime as duas carótidas e a via aérea, e o protocolo nacional resolve isso de forma explícita — sangramentos no pescoço podem receber enfaixamento circular passando sob a axila contralateral, ou seja, o laço se fecha em volta do tronco e do braço do lado oposto, nunca em volta do pescoço. A segunda proibição é o torniquete, cuja indicação no protocolo se restringe a ferimentos de membros superiores e inferiores. A terceira é remover objeto encravado: não se remove, e a pressão se aplica nas bordas do ferimento, ao lado do objeto, que fica fixado e imobilizado.

A compressão cervical deve ser localizada sobre o ponto de sangramento, preservando a via aérea e evitando compressão bilateral. Se for necessário fixar o curativo, a faixa pode passar sob a axila oposta, como no modelo central. Não enfaixar circularmente o pescoço. O controle local acompanha a mobilização da equipe e a avaliação das ameaças imediatas. Prescrição- Compressão manual direta sobre gaze ou compressa estéril, mantida até cessar o sangramento; se houver sangramento sob o curativo, não remover o curativo encharcado — aplicar outro por cima, com mais pressão (protocolo AP18, 2016).
- Se for necessário fixar o curativo, enfaixamento passando sob a axila contralateral; nunca circular no pescoço (AP18).
- Objeto encravado: não mover, não remover, fixar e imobilizar, e comprimir nas bordas do ferimento (AP18 e AP19).
- Na suspeita de lesão de jugular com ferida aberta, ocluir a ferida e manter o paciente deitado, com o decúbito rebaixado e não sentado, pelo risco de embolia gasosa; a decisão de sentar para conforto respiratório passa a ser discutida com quem vai conduzir a via aérea.
Minuto 0 a 10 — a via aérea, quando ela ainda existe
Esta é a decisão que separa este capítulo de todos os outros do trauma. A pergunta não é "ele está hipoxêmico?", é "esta anatomia vai continuar sendo esta anatomia daqui a dez minutos?". Se a resposta é não ou talvez, a via aérea definitiva se faz agora, com o paciente ainda oxigenado, ainda colaborativo e com a laringe ainda no lugar. Chame em voz alta o profissional mais experiente disponível para conduzir; o seu papel, se você é o interno, é preparar, cronometrar e entregar material aberto. Antes de qualquer droga, palpe e marque a membrana cricotireóidea com caneta, enquanto ela ainda é palpável — se o hematoma cobri-la, o plano de resgate deixa de existir. A técnica e a escolha entre os planos são assunto do capítulo de via aérea no trauma desta apostila.
Prescrição- Sequência rápida de intubação, tabela do protocolo AP9 (2016): analgesia com fentanil 1 a 5 microgramas por quilo, intravenoso, ampola de 50 microgramas por mililitro — em um adulto de 70 quilos, 70 a 350 microgramas.
- Hipnose, opções do mesmo protocolo: midazolam 0,1 a 0,3 miligrama por quilo intravenoso (ampola de 5 miligramas por mililitro); cetamina 2 a 3 miligramas por quilo intravenoso (ampola de 50 miligramas por mililitro), a considerar no instável; etomidato 0,2 a 0,3 miligrama por quilo intravenoso (ampola de 2 miligramas por mililitro), a considerar no instável.
- Bloqueador neuromuscular e indutor são escolhidos e administrados pelo operador responsável, com acesso adequado, doses conferidas, plano de oxigenação e resgate. Não transpor automaticamente para este cenário uma sequência com bloqueador intramuscular e espera fixa; seguir protocolo de via aérea difícil e condições do paciente.
- Kit de via aérea cirúrgica aberto e visível antes da primeira tentativa; membrana cricotireóidea localizada e marcada. A cricotireoidostomia cirúrgica é contraindicada abaixo de 12 anos (AP5, 2016).
Minuto 3 a 20 — o paciente com sinal duro
Aqui o relógio muda de dono e o seu trabalho é preparar a transferência para a sala, não investigar. Cirurgião e centro cirúrgico acionados no mesmo minuto; se não houver cirurgião na casa, regulação médica no mesmo minuto, e a conversa com a regulação começa antes de o paciente estar pronto, não depois. Enquanto isso: acessos, sangue tipado com prova cruzada, aquecimento, analgesia e nenhum exame que atrase. Se o paciente vai ser transferido, ele sai com a via aérea resolvida — via aérea limítrofe não entra em ambulância.
Prescrição- Tipagem sanguínea com prova cruzada e reserva de concentrado de hemácias; hemograma e coagulograma na mesma punção.
- Jejum absoluto assim que a hipótese cirúrgica se estabelece.
- Analgesia conforme intensidade, protocolo AC37 (2016): dor intensa com sulfato de morfina 2 a 10 miligramas por 70 quilos, intravenoso, em infusão lenta; ou fentanil intravenoso, 2 a 4 mililitros da apresentação de 50 microgramas por mililitro, o que corresponde a 100 a 200 microgramas. Analgesia criteriosa se a pressão sistólica estiver abaixo de 90 milímetros de mercúrio.
- Dor leve a moderada: dipirona sódica 1 grama intravenoso (apresentação de 500 miligramas por mililitro, portanto 2 mililitros), conforme o mesmo protocolo.
Minuto 20 a 60 — o paciente estável que atravessou o platisma
Este paciente não vai para casa e não vai para a sala. Ele é internado em jejum, tem a zona definida e a investigação pedida conforme a zona, e passa a ter um regime de reavaliação escrito. Defina agora, e escreva, quem examina o pescoço dele em cada turno e de quanto em quanto tempo. A palavra observação, sozinha na prescrição, é o começo de um paciente esquecido no corredor.
Prescrição- Internação em jejum absoluto, com acesso venoso mantido e hidratação conforme necessidade.
- No paciente estável, angio-TC de pescoço conforme avaliação de lesão penetrante e suspeita vascular; não solicitar Doppler de rotina adicional para toda zona I ou III apenas por classificação anatômica. Suspeita aerodigestiva exige investigação dirigida, pois avaliação vascular negativa não encerra esse diagnóstico.
- Havendo sinal clínico de lesão ou ferimento transfixante: radiografia simples de coluna cervical, esofagograma associado a esofagoscopia e nasofaringolaringoscopia; traqueobroncoscopia reservada à suspeita de lesão de via aérea ou à nasofaringolaringoscopia inconclusiva (mesma série).
- Prescrição do regime de vigilância, com hora: exame do pescoço e da voz de duas em duas horas nas primeiras seis horas, sinais vitais de duas em duas horas, e a lista nominal de gatilhos para chamar o médico entregue por escrito à enfermagem.
Hora 1 a 6 — profilaxias e o que se escreve por extenso
Rever cuidado de ferida e prevenção do tétano conforme tipo de lesão e histórico vacinal. Antimicrobiano não é obrigatório em toda ferida superficial, e profilaxia cirúrgica deve atingir concentração adequada antes da incisão. Contudo, suspeita ou confirmação de perfuração aerodigestiva e contaminação pode exigir tratamento precoce; não aguardar a indução apenas por chamar todo antibiótico de profilaxia. A equipe define indicação, espectro e duração e reavalia após conhecer a lesão.
Prescrição- Profilaxia antitetânica pelo Quadro 4 do Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição, 2023, lido linha a linha para ferimento de alto risco: história vacinal incerta ou menos de três doses recebe vacina e soro; três ou mais doses com a última há menos de cinco anos não recebe nada; três ou mais doses com a última entre cinco e dez anos recebe um reforço de vacina e não recebe soro; três ou mais doses com a última há dez anos ou mais recebe um reforço e também não recebe soro. Duas notas de rodapé do mesmo quadro corrigem esse desenho e são o que mais se esquece: no paciente imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso, além do reforço de vacina está indicado também o soro ou a imunoglobulina; e, se o profissional suspeitar de que os cuidados posteriores com o ferimento não serão adequados, a imunização passiva deve ser considerada mesmo onde a linha da tabela diz que não.
- Quando indicado, soro antitetânico na dose profilática de 5.000 unidades internacionais, intramuscular, aplicado em duas massas musculares diferentes; ou imunoglobulina humana antitetânica na dose profilática de 250 unidades internacionais, intramuscular (Quadro 2 do mesmo guia). Pelas concentrações da relação nacional de medicamentos essenciais — soro com no mínimo 1.000 unidades internacionais por mililitro, imunoglobulina a 250 por mililitro —, isso corresponde a 5 mililitros de soro, divididos entre os dois grupos musculares, e a 1 mililitro de imunoglobulina.
- Vacina e soro, quando indicados juntos, em grupos musculares diferentes (mesmo guia).
- Limpeza do ferimento com soro fisiológico, remoção de corpos estranhos e de tecido desvitalizado, e desbridamento do foco quando indicado (mesmo guia).
- Profilaxia antimicrobiana cirúrgica, quando houver cirurgia com penetração da mucosa oral, nasal ou faríngea: ampicilina com sulbactam 3 gramas intravenoso na indução, 30 a 60 minutos antes da incisão, com repique a cada 2 horas de cirurgia e encerramento ao término do procedimento (protocolo de profilaxia antimicrobiana em cirurgias do hospital universitário da Grande Dourados, versão 06, 2026). O mesmo protocolo classifica o trauma penetrante com menos de quatro horas como cirurgia contaminada.
Hora 6 a 24 — a observação que decide, ou a transferência
A série de Curitiba descreveu alta de casos selecionados após doze horas sem sintomas, mas esse prazo não demonstra segurança para todo trauma cervical. A decisão exige avaliação clínica e investigação apropriadas, estabilidade sustentada e acesso a retorno. Durante a observação, vigiar via aérea, voz, contorno do pescoço, neurologia e deglutição. Qualquer mudança exige reavaliação imediata. Se faltam recursos para investigar uma lesão provável ou resgatar deterioração, organizar transferência precocemente em vez de substituir essa capacidade por mais horas de observação.
Prescrição- Regime de vigilância escrito e nominal: exame do pescoço e da voz de duas em duas horas nas primeiras seis horas e de quatro em quatro horas até completar as doze; sinais vitais de duas em duas horas; exame neurológico comparado a cada avaliação.
- Manter jejum enquanto houver hipótese de lesão faringoesofágica em aberto. A realimentação depende do exame que excluiu a lesão, não do relógio.
- Gatilhos escritos para chamar o médico imediatamente: mudança de voz, dificuldade nova para engolir saliva, estridor, aumento do contorno cervical, crepitação nova ou que se estende, sangramento novo, queda de saturação, dor torácica, febre, confusão ou agitação novas.
- Transferência, quando indicada: acesso venoso, jejum, analgesia, oxigênio, monitorização, via aérea resolvida antes do embarque, e informe escrito com o horário e o resultado de cada reavaliação feita até ali.
Dia 1 até a alta — o pós, e a alta que não é só clínica
Quem operou lesão faringoesofágica segue um caminho conhecido: jejum, alimentação por sonda e antibiótico, com realimentação oral quando a equipe cirúrgica autorizar. Na série da Santa Casa de São Paulo, os pacientes receberam alimentação exclusivamente por sonda nasoenteral e antibioticoterapia de amplo espectro no pós-operatório, foram realimentados por via oral após dez dias e tiveram o dreno retirado entre o quinto e o sétimo dia; o tempo médio de internação foi de 11,2 dias, variando de 10 a 12. Quem não operou tem alta com duas coisas por escrito: os sinais de alarme e uma consulta marcada. Quem sobreviveu a uma constrição cervical tem uma terceira, e ela é a que muda o desfecho: a continuidade do cuidado em saúde mental, articulada antes da alta, com a família orientada e o acesso aos meios restringido em casa.
Prescrição- Alta com orientação escrita entregue ao paciente e a um acompanhante, listando: mudança de voz, dificuldade para engolir, falta de ar, inchaço no pescoço, febre, dor torácica ou dor entre as escápulas — e o endereço do serviço de retorno.
- Sobrevivente de constrição cervical: alta somente com avaliação de risco de autoagressão feita e registrada, encaminhamento formal para acompanhamento em saúde mental, orientação de restrição de acesso a meios em casa, e acompanhante identificado. O paciente não fica sozinho enquanto estiver no serviço (protocolo AC43, 2016).
- Notificação de violência interpessoal ou autoprovocada preenchida em todos os casos em que houver indício, como parte do cuidado, e não como denúncia.
- Nos casos de violência contra a mulher, comunicação à autoridade policial no prazo de 24 horas, conforme o parecer do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais nº 128/2020, que interpreta a Lei 13.931/2019 — comunicando o fato e a identificação, sem enviar dados clínicos do atendimento.
Como saber se está funcionando
No trauma de pescoço, reavaliar não é conferir se o tratamento está funcionando. É conferir se a decisão de não operar e de não intubar continua certa. Você não está esperando uma droga agir; está vigiando uma hipótese que pode mudar em minutos. Por isso os parâmetros abaixo são quase todos de exame físico, e por isso todos eles têm hora.
A regra que sustenta o bloco inteiro: um parâmetro só informa se foi medido duas vezes do mesmo jeito. Hematoma em expansão é uma comparação, não um adjetivo. Voz mudada é uma comparação. Enfisema que progride é uma comparação. Se o primeiro registro foi "pescoço sem alterações", não há comparação possível, e a segunda medida não vale nada.
Esperado: Mesma voz do registro de base, sem rouquidão nova, sem esforço para engolir, sem estridor, sem sialorreia
Se não melhora: Voz mais rouca ou abafada, pigarro que aumenta, dificuldade nova para engolir saliva ou estridor são deterioração mesmo com saturação de 98%. Não reavaliar em mais dez minutos: chamar quem intuba e intubar agora, com o kit de via aérea cirúrgica aberto.
Esperado: Contorno estável, sem abaulamento novo, traqueia na linha média, sem crepitação nova e sem extensão da que já existia
Se não melhora: Aumento visível ou palpável do hematoma é indicação de via aérea definitiva imediata e de acionar o cirurgião — sem esperar exame. Enfisema que se estende exige definir a origem entre via aérea, trato digestivo e tórax, e a radiografia de tórax entra aqui.
Esperado: Saturação estável acima de 94% em ar ambiente ou com o suplemento em uso, frequência respiratória estável
Se não melhora: Queda de saturação no trauma cervical é achado tardio, não precoce: quando ela cai, a janela para uma intubação eletiva já se fechou. No sobrevivente de constrição, dessaturação ou dispneia novas horas após a chegada levantam lesão pulmonar tardia e exigem radiografia de tórax e reavaliação médica imediata.
Esperado: Sem déficit novo, sem assimetria nova, sem alteração de fala que não se explique pela dor ou pela via aérea
Se não melhora: Déficit focal novo em trauma cervical é lesão de carótida até prova em contrário. Não atribua a álcool, a choque ou ao traumatismo craniano associado sem ter olhado o vaso. Acione imagem vascular e o cirurgião.
Esperado: Estabilidade, ou queda gradual da frequência à medida que a dor é controlada
Se não melhora: Taquicardia que não cede com analgesia é gatilho de reavaliação médica imediata. No pescoço, antes de atribuí-la à dor ou à ansiedade, procure o hematoma que cresceu e o sangramento que foi para dentro — a queda de pressão é o último sinal a aparecer no adulto jovem.
Esperado: Odinofagia que não aparece e não piora; sem febre; sem dor torácica ou interescapular; sem enfisema novo
Se não melhora: Febre, taquicardia, odinofagia que aparece ou piora e dor torácica são a apresentação da mediastinite por lesão faringoesofágica não diagnosticada, e ela aparece tarde, quando o paciente já parecia bem. Isso encerra a observação: comunicar o cirurgião, manter jejum, e reabrir a investigação do esôfago mesmo que um exame anterior tenha sido normal.
Esperado: Orientação preservada, memória do episódio compatível, sem agitação nova; risco avaliado, registrado e com plano de continuidade combinado
Se não melhora: Confusão, agitação ou lentificação novas são hipóxia cerebral até prova em contrário e não se explicam por emoção. Risco de autoagressão persistente ou plano estruturado impedem a alta: o paciente permanece acompanhado, com objetos de risco fora de alcance, e o serviço aciona a retaguarda de saúde mental antes de decidir destino.
Onde o erro machuca
O dano: A sutura fecha a única via de saída do sangue e transforma um sangramento que drenava para fora em hematoma que cresce para dentro, no compartimento que comprime a laringe. E remove a informação: depois de suturado, ninguém mais consegue avaliar a profundidade do trajeto por inspeção. O paciente vai para casa com um curativo e volta, se voltar, com uma via aérea em que ninguém consegue entrar.
Como pegar a tempo: A pergunta vem antes da agulha. Inspecione o ferimento sob boa iluminação, com o paciente monitorizado e a região exposta, procurando ver se a lâmina muscular superficial está íntegra. Se atravessou, ou se você não conseguiu afirmar que não atravessou, o paciente é internado — a sutura, se for feita, é feita depois de definida a conduta, e por quem vai conduzir o caso.
O dano: O instrumento segue o plano de menor resistência e não o trajeto real, o que gera falso negativo. Pior: pode deslocar o coágulo que está contendo um vaso e converter um sangramento parado em hemorragia arterial num lugar onde não há como fazer controle proximal. No abdome existe um marco confiável a explorar; aqui, a estrutura que fica a poucos milímetros da pinça é a bainha carotídea.
Como pegar a tempo: Não sonde e não explore. A dúvida sobre penetração se resolve internando e investigando, não cutucando. Se a exploração for necessária, ela é um procedimento cirúrgico, com o cirurgião, com material e no lugar certo — e essa decisão não é do interno.
O dano: O enfaixamento circular comprime as duas carótidas e a via aérea ao mesmo tempo, e o faz de forma progressiva à medida que o hematoma por baixo aumenta. Você produz, com um gesto de enfermagem, a mesma fisiologia da constrição cervical que este capítulo descreve na outra metade: estase venosa, hipóxia cerebral e obstrução de via aérea.
Como pegar a tempo: Compressão manual direta em um ponto, sobre gaze ou compressa estéril. Se for necessário fixar, o protocolo nacional de suporte avançado de vida manda que o enfaixamento passe sob a axila contralateral, de modo que o laço se feche em volta do tronco e do braço do lado oposto, e nunca em volta do pescoço. Torniquete não tem indicação aqui: o protocolo o restringe a membros superiores e inferiores.
O dano: A saturação é o último parâmetro a se alterar quando a obstrução é extrínseca e progressiva. Quando ela cai, a laringe já está deslocada, a supraglote já está edemaciada por congestão venosa, e a intubação que seria difícil passou a ser impossível. E o plano de resgate some junto: a membrana cricotireóidea pode estar coberta pelo mesmo hematoma que fechou a via aérea.
Como pegar a tempo: A indicação é de trajetória, não de gravidade. Registre voz, deglutição de saliva, contorno cervical e posição da traqueia na chegada, com hora, e repita de dez em dez minutos. Qualquer piora entre dois registros é indicação de intubar agora, com a equipe mais experiente e a membrana já palpada e marcada com caneta enquanto ela ainda é palpável.
O dano: São dois danos independentes. O primeiro é respiratório: a laringe agredida por constrição inflama e edemacia nas horas seguintes, e o paciente pode voltar em obstrução — ou não voltar. O segundo é o que trouxe o paciente: a intenção que produziu a constrição não termina quando a corda é retirada, e o meio usado é de alta letalidade. A desproporção entre frequência e letalidade está nos números nacionais: o enforcamento responde por 6,6% das notificações de violência autoprovocada, chegando a 12,9% entre homens e a 32,1% entre indígenas, enquanto 87,18% dos óbitos por suicídio de adultos de 20 a 29 anos entre 1997 e 2019 pertenciam ao grupo de lesões autoprovocadas por meios não tóxicos — o grupo que se abre exatamente com enforcamento, estrangulamento e sufocação. Quem chega vivo escapou do meio que menos perdoa.
Como pegar a tempo: Observação obrigatória com vigilância de voz, contorno cervical, oxigenação e estado neurológico, mesmo com o paciente conversando. E avaliação de risco de autoagressão feita, registrada e resolvida antes de qualquer decisão de destino, com o paciente nunca deixado sozinho e com encaminhamento articulado para acompanhamento em saúde mental, como determina o protocolo nacional de autoagressão e risco de suicídio.
O dano: A disfagia é o sinal mais associado à lesão que mata tarde. A perfuração faringoesofágica pode passar horas sem dor localizada, sem febre e sem alteração de exame, e o que ela produz ao final é mediastinite — contaminação de um compartimento que não drena. Realimentar empurra conteúdo pela solução de continuidade e transforma um vazamento potencial em contaminação estabelecida. Na série da Santa Casa de São Paulo, em cinco dos sete pacientes com perfuração de hipofaringe foi a endoscopia, e não o exame físico, que revelou a lesão.
Como pegar a tempo: Jejum enquanto a hipótese estiver aberta, e a hipótese só se fecha com exame que a exclua, não com o relógio. Diante de disfagia, odinofagia ou trajeto que cruza a linha média, associe esofagograma e esofagoscopia em vez de escolher um dos dois: eles falham de modos diferentes. E não passe sonda nasogástrica às cegas antes de a via aérea estar definida e de o cirurgião saber do caso.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa no trauma de pescoço tem duas dificuldades somadas. A primeira é a do trauma penetrante em geral: quase sempre há um crime no meio, e quase sempre há alguém na sala que não quer falar. A segunda é específica desta região: você vai precisar convencer uma pessoa que está falando com você, sem dor importante e sem falta de ar, de que ela precisa ficar internada, em jejum, e possivelmente ser intubada nos próximos minutos. É uma conversa em que a evidência visível está toda do lado do paciente.
As falas abaixo são para dizer, não para parafrasear. Quando a notícia for de morte ou de risco iminente de morte, o capítulo de comunicação de más notícias desta plataforma tem o passo a passo, e este aqui não o repete.
O paciente quer levar ponto e ir embora, e você precisa interná-lo
“Eu entendo que você está se sentindo bem, e você está mesmo, agora. O problema é o lugar do corte. No pescoço, tudo o que é importante fica a menos de um centímetro da pele: os vasos que levam sangue ao cérebro, o tubo por onde você respira e o tubo por onde a comida desce. Esse corte passou da camada que separa a pele do resto. Isso não quer dizer que alguma coisa está machucada; quer dizer que eu ainda não sei, e que o jeito de saber leva algumas horas. Você vai ficar aqui em jejum, com soro, e eu vou examinar seu pescoço e sua voz de tempos em tempos. Se nada mudar, isso termina bem.”
Não diga: Não diga que está tudo bem porque a pressão está normal. E não use a palavra observação sozinha — ela soa como esperar, e o paciente aceita mal esperar quando se sente bem. Diga o que você vai fazer, com que frequência, e o que faria você mudar de ideia.
Você vai intubar um paciente que está conversando com você
“Preciso te explicar uma coisa e preciso ser rápido. Está se formando um inchaço por dentro do seu pescoço, e ele está apertando o caminho do ar. Agora você está respirando bem. Se eu esperar esse inchaço crescer, colocar o tubo vai ficar muito mais difícil, e talvez impossível. Então eu vou colocar agora, enquanto ainda é seguro. Você vai dormir, não vai sentir, e vai acordar com o tubo, sem conseguir falar por um tempo. Quem for te acompanhar vai saber onde você está. Tem alguém que você quer que eu avise antes?”
Não diga: Não peça permissão como se fosse opcional quando não é, e não descreva a intubação como um exame. Não deixe de avisar que ele acordará sem conseguir falar — essa é a parte que mais assusta depois, e ela é evitável com uma frase.
A família pergunta por que não fizeram tomografia e já mandaram para a sala
“Ele tem um sangramento no pescoço que está aumentando. Quando isso acontece, o exame de imagem não muda o que precisa ser feito — só atrasa. O tomógrafo fica em outro andar, e o tempo que a gente gastaria indo e voltando é justamente o tempo que ele não tem. O cirurgião já está com ele. Assim que houver informação nova, eu venho aqui e conto.”
Não diga: Não responda com a palavra protocolo. Explique a troca concreta: exame agora contra minutos até o cirurgião. E não prometa desfecho para ganhar a conversa.
Dizer à família que este hospital não vai tratar este paciente
“O que ele tem exige recursos que este hospital não tem hoje à noite. Isso não é uma questão de esperar mais um pouco: quanto antes ele chegar a um serviço que tenha, melhor. Eu já falei com a central de regulação. Ele está com soro, oxigênio, remédio para dor e vai numa ambulância com equipe. Assim que eu tiver o nome do hospital e a previsão de saída, eu venho aqui dizer para vocês.”
Não diga: Não peça desculpas pelo hospital nem culpe a rede na frente da família — isso desloca a conversa para a raiva e rouba o tempo dela. E não prometa hospital nem horário antes de a vaga estar confirmada.
Perguntar ao paciente se o ferimento foi autoprovocado
“Vou te fazer uma pergunta direta, e ela é a mesma que eu faço para todo mundo que chega com um ferimento assim. Esse corte foi você quem fez? Se foi, isso não muda nada no meu cuidado com você e não é motivo de julgamento nenhum. Só muda uma coisa: eu preciso saber, porque o que vai te machucar depois que a gente cuidar do pescoço pode não ser o pescoço.”
Não diga: Não pergunte com a família ao lado, e não pergunte de forma indireta ou envergonhada — a pergunta clara é a que recebe resposta. Não prometa que ninguém vai saber, porque há situações de comunicação obrigatória.
Falar com o adolescente que sobreviveu a uma tentativa por enforcamento
“Imagino que o tamanho do seu sofrimento seja muito grande, a ponto de você já ter desejado morrer. Eu não vim aqui te dar bronca. Vim entender o que está acontecendo e cuidar de você, e vou ficar o tempo que for preciso. Agora eu preciso te manter aqui algumas horas, porque a região do seu pescoço pode inchar por dentro depois e eu quero estar por perto se isso acontecer. Enquanto isso, vamos conversar. Tem alguém com quem você consegue falar sobre isso?”
Não diga: Não pressione por detalhes do método nem do episódio. Não desafie e não prometa o que não pode cumprir — inclusive que a família não vai saber. Não o deixe sozinho em nenhum momento, e não trate a alta como decisão apenas clínica.
Falar com a mãe que retirou o filho da constrição e o trouxe de carro
“A senhora fez a coisa certa e fez rápido, e isso importa muito no que vem pela frente. Agora eu vou pedir a sua ajuda em duas coisas. A primeira é aqui: ele precisa ficar em observação algumas horas mesmo estando falando, porque o pescoço pode inchar por dentro depois. A segunda é em casa: antes de ele voltar, precisamos combinar o que sai de perto dele, e quem fica com ele. Eu vou te explicar exatamente o quê, e vamos escrever junto.”
Não diga: Não pergunte por que ela demorou, não pergunte por que não chamou o resgate, e não faça a conversa virar apuração de culpa. E não dê alta com a orientação apenas falada: escreva.
A paciente é mulher, o agressor é o companheiro, e você precisa comunicar
“Preciso te contar uma coisa antes que você saiba por outra pessoa. A lei obriga o serviço de saúde a comunicar a polícia quando atende uma mulher em situação de violência, e esse aviso vai sair em até vinte e quatro horas. O que vai na comunicação é o fato e os seus dados de identificação. O que a gente conversou aqui, o exame e o seu prontuário não vão. Se você quiser fazer a queixa e falar com a delegacia, eu chamo o serviço social para te acompanhar.”
Não diga: Não envie relatório médico, laudo nem prontuário junto da comunicação. Não comunique sem avisá-la antes: descobrir por terceiros que o médico chamou a polícia é o que faz a paciente não voltar da próxima vez.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Exploração de princípio, quando o serviço a comporta
O argumento histórico nasceu de uma casuística dos anos 1950 em que a mortalidade foi de 6% entre os operados precocemente e de 35% entre os observados e operados depois — foi essa diferença que estabeleceu a exploração de princípio. O argumento contemporâneo é de logística, não de dogma: a exploração é segura e aceitável, e em serviços que recebem grande volume de ferimentos cervicais num curto período, sem estrutura de investigação e de observação disponível a qualquer hora, explorar todos os que atravessaram o platisma pode ser a conduta mais defensável. A própria série paulista conclui que a exploração mandatória pode ser realizada de acordo com as fontes e os recursos presentes em cada instituição.
Cruvinel Neto e Dedivitis, Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, 2011, na revisão histórica e na conclusão do artigo; e Bahten e colaboradores, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2003, ao registrar uma casuística estrangeira com 226 explorações negativas em 393 pacientes em 1,8 ano e ao comentar a necessidade de explorar todos quando o serviço recebe volume elevado em curto período
Conduta seletiva com investigação dirigida
A partir dos anos 1970 a conduta seletiva passou a ser defendida, com os não operados imediatamente ficando em observação e sendo submetidos a exames complementares. As justificativas listadas na literatura brasileira são cinco: alta incidência de cervicotomias brancas, maior morbidade da cervicotomia de princípio, risco de lesões causadas pela própria exploração de rotina, menor custo e a disponibilidade crescente de métodos endoscópicos, angiográficos e de imagem. Os números domésticos sustentam o argumento: na série de Curitiba, 24 das 51 cervicotomias, ou 47%, foram não terapêuticas, e a conclusão dos autores é que o número elevado mostrou haver necessidade de manejo mais seletivo.
Bahten e colaboradores, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2003, nos resultados e na conclusão; e Cruvinel Neto e Dedivitis, Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, 2011, na enumeração das justificativas da conduta seletiva
Confirme os recursos necessários à conduta seletiva: equipe cirúrgica, angiotomografia, avaliação endoscópica quando indicada, observação com reavaliações e acesso a sangue e operação urgente. A estrutura do plantão deve sustentar o plano inteiro. Se faltar um recurso essencial, organize transferência ou tratamento definitivo conforme o quadro. Pondere a morbidade de uma exploração não terapêutica e o risco de reconhecer tardiamente uma lesão.
Manter a imobilização cervical como no restante do trauma
O protocolo nacional de suporte avançado de vida trata a estabilização cervical como parte da avaliação primária de todo paciente com suspeita de trauma ou em situação ignorada: estabilizar manualmente a cabeça com alinhamento neutro e colocar o colar cervical assim que possível. O protocolo de trauma raquimedular do mesmo documento inclui, entre os critérios para suspeitar de lesão de coluna, a lesão na área da coluna por ferimento penetrante, a presença de dor ou sensibilidade na região da coluna, o déficit ou sintoma neurológico e o paciente cuja informação não é confiável por embriaguez ou por lesões mais dolorosas que desviem a atenção — situações que descrevem boa parte de quem chega com ferimento cervical de madrugada. O argumento é de segurança sistêmica: a regra simples, aplicada a todos, protege o paciente cuja lesão de coluna você não identificou.
Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, 2ª edição, 2016, protocolo AT1 (estabilização e colar na avaliação primária), protocolo AT18 (critérios para suspeitar de trauma raquimedular) e protocolo AP30 (instalação do colar cervical)
Não imobilizar de rotina o ferimento penetrante isolado do pescoço
O argumento contrário é de custo de oportunidade e é anatômico. No ferimento penetrante isolado, a lesão de coluna que a imobilização protegeria é rara, e o colar cobre justamente a região que precisa ser inspecionada e palpada a cada dez minutos: contorno, abaulamento, posição da traqueia, crepitação. O colar também atrapalha a compressão local e dificulta a laringoscopia, tanto que o próprio protocolo prevê retirá-lo para a intubação e recolocá-lo em seguida, desde que o pescoço seja mantido em posição neutra com estabilização manual da coluna cervical. Há ainda uma ressalva do protocolo de trauma raquimedular que se aplica bem aqui: o alinhamento da cabeça é contraindicado e deve ser interrompido diante de piora da dor, piora do padrão respiratório, resistência voluntária ao movimento, déficit neurológico novo ou que aumenta e espasmo dos músculos do pescoço — nesses casos, imobiliza-se a cabeça na posição encontrada. Nesse cenário, imobilizar de rotina pode custar o diagnóstico do hematoma em expansão, que é o achado que muda o desfecho.
Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, 2ª edição, 2016, protocolo AP7 (retirada do colar para a intubação e recolocação em seguida, com pescoço neutro e estabilização manual) e protocolo AT18 (contraindicações ao alinhamento da cabeça); e a exigência de reavaliação seriada do pescoço que decorre das séries brasileiras de ferimento cervical
Defina a restrição cervical pelo mecanismo e pela avaliação da coluna. No ferimento penetrante isolado, sem déficit ou suspeita vertebral, mantenha o pescoço visível para vigilância. Mecanismo contuso associado, exame não confiável, déficit ou dor vertebral exigem as precauções indicadas. Durante exame e manejo da via aérea, a equipe pode usar estabilização manual para permitir acesso. Em todos os cenários, repita a inspeção e acompanhe hematoma, sangramento e respiração.
Explorar e reparar, com drenagem
A maior parte dos autores acredita que o tratamento preferencial consiste na exploração cirúrgica imediata, com reparo primário da lesão e drenagem, ou somente drenagem, reservando o tratamento conservador a casos selecionados. O argumento é de segurança de compartimento: um relato citado na literatura registra que 25% dos ferimentos de hipofaringe e de esôfago cervical tratados conservadoramente desenvolveram abscesso cervical que exigiu tratamento cirúrgico — e que, portanto, operar no primeiro tempo seria o procedimento mais seguro. Na série da Santa Casa de São Paulo, seis dos sete pacientes (85,7%) foram tratados cirurgicamente, cinco deles (71,4%) com sutura primária e drenagem, sem nenhuma fístula faringocutânea nem abscesso cervical e sem óbito.
Corsi, Carrieri Neto e Rasslan, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume XXV, número 1, na introdução, nos resultados e na discussão do artigo
Tratar sem operar, quando o diagnóstico é precoce e a lesão é pequena
Os mesmos autores registram a posição contrária com igual cuidado: há quem sustente que o tratamento conservador de perfurações de faringe e esôfago é possível desde que o diagnóstico seja precoce, com uma casuística de dez doentes conduzidos sem operação, nenhum precisando de cirurgia e sem óbito, com a ressalva de que esses pacientes devem ser monitorizados quanto ao desenvolvimento de abscesso cervical ou mediastinal e drenados cirurgicamente se as complicações aparecerem. Outra posição citada preconiza o corte por tamanho: perfurações de faringe menores que dois centímetros podem ser tratadas conservadoramente, e nas maiores ou nas que se estendem até o esôfago cervical o melhor tratamento é a cirurgia. A própria série paulista teve um paciente com pequena lesão em parede posterior de hipofaringe conduzido sem operação, com antibiótico, jejum e alimentação por sonda, realimentado por via oral no décimo dia sem intercorrências.
Corsi, Carrieri Neto e Rasslan, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume XXV, número 1, na discussão, ao resumir as posições de Dolgin e de Niezgoda, e nos próprios resultados
O tratamento conservador depende de diagnóstico precoce, lesão selecionada e monitorização capaz de reconhecer abscesso cervical ou mediastinal. Disfagia exige investigação e não deve ser atribuída automaticamente à ferida. A equipe cirúrgica define operação ou observação e o suporte com jejum, nutrição e antibiótico endovenoso descrito. Sem meios de diagnóstico, reavaliação ou intervenção urgente, organize transferência.
O raciocínio, em voz alta
É o Jandir da cena, 23h05, o mesmo plantão. Homem de 26 anos, ferimento por arma branca de aproximadamente três centímetros na face lateral esquerda do pescoço, cerca de dois dedos acima da cartilagem tireóidea, com bordas lineares. Pressão 128 por 78, frequência cardíaca 96, saturação 97% em ar ambiente, escala de coma 15. Fala em frases inteiras, anda, engole a própria saliva. Sangramento venoso lento sob a gaze. O hospital tem cirurgião geral em sobreaviso a doze minutos, tomógrafo com técnico até meia-noite e nenhuma endoscopia de urgência.
O que penso ao entrar na sala
Antes do ferimento, penso nas causas de morte em minutos que existem nesta região: obstrução de via aérea, hemorragia e lesão medular alta. Ele fala, então a via aérea está pérvia neste segundo — e essa informação tem prazo de validade de dez minutos. A pressão normal num homem de 26 anos não me diz que ele não sangrou; diz que ele ainda compensa. E a localização acima da cartilagem tireóidea me coloca em zona II, a mais frequente e a de maior controvérsia de conduta. Nada disso ainda dependeu de exame.
O que faço nos primeiros três minutos
Monitorização, oximetria, dois acessos calibrosos no membro superior direito, tipagem com prova cruzada e hemograma na mesma punção. Exposição do pescoço inteiro e rolamento em bloco para ver a nuca — não quero descobrir um segundo orifício no centro cirúrgico. Compressão manual direta sobre gaze estéril, em um ponto, sem enfaixar em volta. Registro escrito, com hora: contorno cervical simétrico, traqueia na linha média, sem crepitação, voz normal, 23h07. Esse registro é o que vai me permitir dizer daqui a vinte minutos se algo mudou.
Testo contra os sinais duros
Sangramento em jato ou pulsátil? Não, é venoso e lento. Hematoma? Não há abaulamento agora. Sopro ou frêmito sobre o trajeto? Ausculto e não há. Choque? Não. Déficit focal? Força e sensibilidade simétricas nos quatro membros, fala preservada. Escape de ar pela ferida ou enfisema à palpação? Não. Hemoptise? Não. Nenhum sinal duro. Isso não o libera de nada: significa apenas que ele não vai para a sala neste minuto e que a investigação tem espaço para existir.
A pergunta que decide o resto do plantão
Atravessou o platisma? Inspeciono com boa iluminação, com a região exposta e o paciente monitorizado — e não introduzo nada na ferida. Vejo tecido adiposo e não consigo afirmar que a lâmina muscular superficial está íntegra. Isso encerra a discussão: na dúvida, considero que atravessou. Jandir deixa de ser candidato a sutura e alta e passa a ser candidato a internação em jejum. Se eu tivesse cutucado com uma pinça para 'ver se é fundo', teria arriscado deslocar coágulo de um vaso a poucos milímetros dali, numa sala que não é o centro cirúrgico, para ganhar uma informação que a conduta não precisa.
O que peço, e por quê cada exame
Com a equipe, interpreto a angiotomografia junto ao trajeto e ao exame. Não acrescento Doppler automaticamente apenas por zona I ou III. Se persistir suspeita vascular, discutir exame complementar apropriado; se houver suspeita esofágica ou de via aérea, realizar investigação dirigida, pois um estudo vascular negativo não encerra toda a avaliação.
Como a resposta muda o que eu penso
Observação exige equipe capaz de repetir o exame e intervir, com investigação concluída conforme a suspeita. O intervalo de doze horas de um estudo histórico não autoriza alta automática; a decisão depende de evolução sustentada, lesões razoavelmente afastadas, plano de retorno e recursos locais.
O que prescrevo, escrito, antes de sair da sala
Internação em jejum absoluto, acesso mantido, analgesia. Exame do pescoço e da voz de duas em duas horas nas primeiras seis horas e de quatro em quatro depois, com o registro na mesma linguagem do meu registro das 23h07, e o nome de quem examina em cada turno. Sinais vitais de duas em duas horas. E a lista escrita de gatilhos para me chamar: mudança de voz, dificuldade nova para engolir saliva, estridor, aumento do contorno do pescoço, crepitação nova, sangramento novo, queda de saturação, febre, dor torácica ou entre as escápulas. Profilaxia antitetânica: ele diz ter tomado 'as vacinas todas' na infância e não sabe da última dose — história incerta em ferimento por arma branca, que é de alto risco. Vacina e soro antitetânico na dose profilática de 5.000 unidades internacionais, intramuscular, em duas massas musculares diferentes, e a vacina em grupo muscular diferente do soro.
Às 2h20, o exame seriado muda
A enfermagem me chama porque a voz do Jandir está diferente e ele reclama que 'está apertado para engolir'. Examino: o contorno cervical esquerdo está maior que às 23h07, a traqueia parece discretamente desviada para a direita, a saturação é 96%. Nenhum desses números é alarmante isoladamente. Todos eles, comparados com o registro de base, dizem a mesma coisa. Isso é hematoma em expansão, que é sinal duro, e a conduta não é repetir a tomografia. É via aérea definitiva agora, com o profissional mais experiente presente, kit de via aérea cirúrgica aberto e a membrana cricotireóidea palpada e marcada antes de qualquer droga — e o cirurgião chamado no mesmo minuto.
O que este caso ensina
Nada do que mudou a conduta do Jandir veio de um exame de imagem. Veio de dois exames físicos separados por três horas, escritos na mesma linguagem, por pessoas que sabiam o que procurar. A angiotomografia normal das 23h30 continua sendo verdadeira sobre as 23h30. O erro possível aqui não era pedir o exame errado: era acreditar que o exame respondia sobre o futuro.
Faça você
23h20 do mesmo plantão, a segunda entrada da noite. Ravi Tolentino, 17 anos, estudante, trazido de carro pela mãe. Ela o encontrou em casa suspenso por um cinto preso à estrutura do beliche e o retirou sozinha, pelo que estima, em menos de dois minutos. Ele ficou mole, não respondia, e voltou a respirar espontaneamente ainda em casa. Chega acordado, chorando, falando com você. Pressão 118 por 70, frequência cardíaca 104, saturação 98% em ar ambiente, escala de coma 15. Ao exame: sulco avermelhado oblíquo ascendente na região cervical anterior e lateral direita, petéquias na conjuntiva e na pele da face, voz discretamente rouca, dor à palpação da cartilagem tireóidea, sem crepitação, sem estridor, sem dispneia. Neurológico sem déficit focal; ele não se lembra do momento em que perdeu a consciência. A mãe pergunta, na porta da sala, se pode levá-lo para casa depois que ele se acalmar.
Primeiro passo — a triagem que não usa exame
A mesma triagem do ferimento aberto vale aqui, e a ausência de ferida não a dispensa. Sinal duro? Não há sangramento, não há hematoma visível, não há sopro, não há déficit focal, não há escape de ar e não há obstrução instalada. Ameaça de via aérea? Há rouquidão nova e dor sobre a cartilagem tireóidea, o que é sinal brando de envolvimento laríngeo: não manda intubar agora, manda vigiar de perto e registrar a voz de base com hora. A conclusão desse primeiro passo é que ele não vai para a sala neste minuto — e que também não vai embora.
Segundo passo — o que os achados de pele estão dizendo
As petéquias em conjuntiva e face não são enfeite de prova: elas traduzem estase venosa cerebral durante a constrição, ou seja, que houve tempo de compressão relevante com fluxo arterial ainda presente. Somadas à perda de consciência relatada e à amnésia do episódio, elas dizem que houve hipóxia cerebral por tempo que ninguém cronometrou. O sulco oblíquo ascendente e a dor sobre a cartilagem tireóidea dizem que a laringe esteve sob tensão direta. Esses três achados juntos mudam a categoria do paciente: ele não é um adolescente que 'está bem, está falando'; é um paciente com lesão cervical por constrição, acordado.
Terceiro passo — por que o tempo trabalha contra, e não a favor
No ferimento aberto, o que piora com o tempo é o hematoma. Aqui, o que piora com o tempo é o edema da laringe agredida, que se instala nas horas seguintes, e a lesão pulmonar que pode aparecer depois disso. Nos dois casos o mecanismo é o mesmo do ponto de vista da conduta: a apresentação inicial é boa e a trajetória é desconhecida. Um paciente que saturou 98% na chegada e foi para casa às 2h da manhã pode voltar em obstrução às 6h — ou não voltar.
Quarto passo — a segunda doença que veio junto
A causa que produziu a constrição continua existindo quando o pescoço estiver resolvido, e ela é o desfecho que mais provavelmente mata este paciente. O meio usado é de alta letalidade: entre os óbitos por suicídio de adultos jovens brasileiros de 1997 a 2019, 87,18% pertenciam ao grupo de lesões autoprovocadas por meios não tóxicos, contra 12,82% de autointoxicação. O protocolo nacional de autoagressão e risco de suicídio é explícito em dois pontos que dependem de você agora: avaliar risco, com perguntas diretas e sem julgamento, e jamais deixar o paciente sozinho — inclusive mantendo atenção redobrada a mudanças de comportamento mesmo quando ele aparenta calma.
Quinto passo — a decisão que fecha o caso
Você tem os achados, tem o mecanismo, tem a mãe na porta pedindo para levá-lo, e tem uma cama. O que você prescreve, por escrito, nas próximas doze horas — e o que precisa estar resolvido antes de qualquer decisão de alta?
Continuidade do caso e prática do internato
Descreva a lesão e sua repercussão antes de citar a zona. Explique qual suspeita cada exame procura resolver e quais mudanças encerram a observação.
Questão integrativa 1
Hematoma cervical em expansão pode esperar angio-TC?
Questão integrativa 2
Zona anatômica substitui avaliação da fisiologia?
Questão integrativa 3
Angio-TC sem lesão vascular afasta perfuração esofágica?
Questão integrativa 4
Doppler é obrigatório depois da angio-TC em todo ferimento de zona I ou III?
Questão integrativa 5
Doze horas assintomático bastam sempre para alta?
Questão integrativa 6
O interno deve explorar profundamente uma ferida para procurar o vaso?
Ver como fecharíamos
A conduta é observação hospitalar com vigilância de via aérea, e a alta fica condicionada a duas coisas que não são a saturação. Prescreva por escrito: monitorização com oximetria contínua; exame de voz, deglutição de saliva, estridor e contorno cervical a cada dez minutos na primeira hora e a cada duas horas depois, com o registro comparável ao de base e a hora anotada; ausculta pulmonar e frequência respiratória seriadas; exame neurológico com orientação e memória do episódio a cada turno; jejum enquanto houver dor à deglutição; analgesia; e a lista nominal de gatilhos para chamar o médico — rouquidão que piora, dificuldade nova para engolir saliva, estridor, dispneia, queda de saturação, aumento do contorno cervical, crepitação nova, confusão ou agitação novas. Investigue a laringe conforme o achado e a disponibilidade do serviço, e peça radiografia de tórax se houver qualquer deterioração respiratória. O segundo bloco da resposta é o que fecha o caso: avaliação de risco de autoagressão feita, registrada e resolvida antes de decidir destino, paciente nunca sozinho, objetos de risco fora do alcance, encaminhamento formal para acompanhamento em saúde mental articulado com a rede antes da alta, orientação escrita à mãe sobre restrição de acesso a meios em casa e sobre quem fica com ele, e notificação de violência autoprovocada preenchida como parte do cuidado. Responder à mãe 'pode levar depois que ele se acalmar' é errar as duas metades do caso ao mesmo tempo: a laringe que ainda vai inchar e a intenção que não foi avaliada. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não quando ameaça via aérea ou sugere hemorragia importante. Acionar equipe e intervenção urgente sem atraso por imagem. 2. Não. A zona descreve localização; gravidade e sinais de lesão orientam prioridade. 3. Não necessariamente. Persistência de suspeita aerodigestiva exige investigação específica. 4. Não como regra anatômica universal. O exame adicional depende da pergunta clínica e dos resultados. 5. Não. Esse período veio de casos selecionados; considerar investigação, risco, evolução e capacidade de retorno. 6. Não. Deve reconhecer gravidade, comprimir quando indicado, chamar ajuda e auxiliar a equipe habilitada sem instrumentação às cegas.
Hematoma que aumentou entre dois exames é sinal duro, e sinal duro dispensa investigação. A angiotomografia sem extravasamento continua verdadeira sobre o instante em que foi feita e não responde sobre agora; repeti-la só gasta a janela. Esperar a saturação cair é o erro de maior letalidade do capítulo, porque a queda de saturação é achado tardio na obstrução extrínseca progressiva: quando ela aparece, a laringe já se deslocou e a intubação difícil virou impossível. Compressão circular no pescoço comprime as carótidas e a via aérea. E reavaliar em uma hora é escolher não fazer nada com informação suficiente para agir.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
No sétimo dia, recupere a cascata na ordem, em voz alta, sem olhar. Primeira pergunta: há sinal duro? Sangramento em jato, hematoma em expansão, sopro, choque refratário, déficit focal, escape de ar, enfisema progressivo, hemoptise, obstrução instalada. Se sim, a investigação acabou: cirurgião e sala, e qualquer exame é atraso. Segunda: a via aérea está ameaçada sem estar obstruída? Voz mudada, disfagia nova para saliva, hematoma que cresce, traqueia desviada, enfisema que progride. Se sim, via aérea definitiva agora, enquanto a anatomia ainda existe, com a membrana cricotireóidea palpada e marcada antes de qualquer droga. Terceira: atravessou o platisma? Decidido por inspeção, nunca sondando, e na dúvida considera-se que sim. Quarta: em que zona? Da clavícula à cricoide é zona I, da cricoide ao ângulo da mandíbula é zona II, do ângulo da mandíbula à base do crânio é zona III — e a zona não mede gravidade, mede acesso. Termine recitando os três números que calibram a suspeita: pouco mais da metade dos ferimentos cervicais ultrapassa o platisma; quase metade dos que ultrapassam não tem sinal clínico significativo ao exame inicial; e 47% das cervicotomias de uma série universitária brasileira foram não terapêuticas.
Em 30 dias
No trigésimo dia, o que precisa estar automático é o que não é raciocínio e por isso escapa no plantão cansado. A compressão do pescoço é pontual, sobre gaze, com a mão; se precisar fixar, o enfaixamento passa sob a axila do lado oposto, e nunca em volta do pescoço. Torniquete é para membro, não para pescoço. Objeto encravado não se remove: fixa-se, imobiliza-se e comprime-se nas bordas. Não se sonda a ferida cervical. Não se leva paciente com sinal duro ao tomógrafo. Não se pede radiografia de coluna para liberar o pescoço antes de intubar. Disfagia em ferimento cervical não é dor de garganta, é a lesão que mata tarde, e ela pede esofagograma com esofagoscopia, não um dos dois. E o paciente que sobreviveu a enforcamento ou estrangulamento fica em observação mesmo conversando, com a avaliação de risco de autoagressão feita, registrada e resolvida antes de qualquer decisão de alta — porque a via aérea dele ainda vai inchar e porque a razão que o trouxe continua lá quando ele sair.
Agora atenda
Agora atenda. O paciente do simulador vai chegar falando, com pressão normal e um ferimento de pescoço que já parou de sangrar — e é exatamente por isso que ele é difícil. Treine a sequência inteira em voz alta: avaliação primária com traqueia e jugulares olhadas de propósito, exposição com rolamento em bloco à procura do orifício na nuca, teste contra a lista de sinais duros, a pergunta do platisma resolvida por inspeção e não por sondagem, a zona nomeada com o limite anatômico que a define, e a compressão feita em um ponto e nunca em volta. Preste atenção especial a duas coisas. A primeira é o seu registro inicial: se você escrever "pescoço sem alterações", jogou fora a única ferramenta que teria daqui a duas horas. A segunda é o que você chama de observação — se a sua prescrição não disser quem examina, de quanto em quanto tempo, com qual linguagem e o que faz chamar o médico, você não prescreveu observação, prescreveu espera.
