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Cirurgia GeralTrauma

Cirurgia de controle de danos e tríade letal

Entender por que se abrevia a operação, o que precisa ser corrigido na terapia intensiva e como planejar reexploração e fechamento do abdome.

Fontes deste capítulo

Edelmuth RCL, Buscariolli YS, Ribeiro Junior MAF. Cirurgia para controle de danos: estado atual. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume 40, número 2, páginas 142 a 151, 2013

Parreira JG, Soldá SC, Rasslan S. Análise dos indicadores de hemorragia letal em vítimas de trauma penetrante de tronco admitidas em choque: um método objetivo para selecionar os candidatos ao controle de danos. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume 29, número 5, páginas 256 a 266, 2002

Pimentel SK, Rucinski T, Meskau MPA, Cavassin GP, Kohl NH. Cirurgia de controle de danos: estamos perdendo controle das indicações? Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume 45, número 1, e1474, 2018

Stalhschmidt CMM, Formighieri B, Lubachevski FL. Controle de danos no trauma abdominal e lesões associadas: experiência de cinco anos em um serviço de emergência. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume 33, número 4, páginas 215 a 219, 2006

Caldas BS, Ascenção AMS. Protocolos para diagnóstico e manejo da hipertensão intra-abdominal em centros de tratamento intensivo. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume 47, e20202415, 2020

01

Responda antes de ler

Durante laparotomia abreviada por trauma penetrante em paciente com choque, o cirurgião encontra lesão extensa de íleo e sangramento hepático superficial. Há hematoma perirrenal direito de zona II, contido, não pulsátil e não expansivo, sem ruptura para o peritônio nem sinais de lesão associada que exijam sua abertura. Qual conjunto de gestos é mais adequado à estratégia de controle de danos nessa primeira cirurgia?

02

O paciente que você vai ver

Quarta-feira, 2h50 da madrugada. Hospital regional de 140 leitos no interior, referência de trauma para sete municípios. Ubiratan Freire tem 31 anos, é ajudante de carga e entrou pela porta da emergência à 1h20 com um ferimento por arma de fogo em flanco esquerdo, pálido, pressão de 82 por 50. Foi para a sala de cirurgia à 1h55. Você é o interno da escala noturna e está com o afastador na mão desde então.

O que se achou lá dentro: laceração de baço, dois orifícios no cólon descendente e um hematoma retroperitoneal à esquerda que não pulsa e não cresce. O baço já saiu. São nove unidades de concentrado de hemácias até agora. A anestesista lê os números em voz alta como quem lê uma sentença: temperatura esofágica 34,6 graus, pH 7,12, excesso de bases menos treze, plaquetas 78 mil.

E há uma coisa que você está vendo e ainda não sabe nomear. Cada compressa que sai seca volta úmida em poucos minutos, e não existe um vaso para pegar — o sangue rezuma de superfície, de borda de incisão, de ponto de agulha, de todo lugar e de lugar nenhum. O cirurgião tenta um ponto, e o ponto sangra.

Às 3h10 ele diz três palavras: “vamos abreviar aqui”. Coloca compressas nos quatro quadrantes, grampeia os dois cotos do cólon e não faz anastomose nem estoma, lava a cavidade com soro morno e costura uma bolsa plástica estéril na pele — nada de aponeurose, nada de pele fechada. Às 3h25 o paciente sai da sala com o abdome aberto, o intestino desconectado e uma bolsa transparente no lugar da parede. Você faz a pergunta certa, no corredor: por que paramos com o intestino desse jeito? A resposta é o capítulo inteiro: porque a partir de um certo ponto o que mata não é o que ficou por consertar, é o tempo gasto consertando. A cirurgia do Ubiratan não acabou. Ela foi partida em duas, e a metade que falta acontece depois de a unidade de terapia intensiva devolver a ele a fisiologia que a hemorragia levou.

03

Quem adoece disso

Duas séries brasileiras, a mesma cidade, resultados opostos — e a distância entre elas é a lição deste bloco. No Hospital Universitário Cajuru, em Curitiba, 39 pacientes foram submetidos a controle de danos entre janeiro de 2001 e março de 2005. A idade média era de 30 anos, o índice de gravidade de lesão médio era 44, o pH médio no intraoperatório era 7,10 e o excesso de bases, menos 14,4. Morreram 79,49% deles, a maioria nas primeiras 24 horas, e a necropsia apontou a hemorragia como principal causa. Entre a admissão e a primeira operação passaram-se, em média, 81,5 minutos; a operação em si durou 174 minutos.

No Hospital do Trabalhador, também em Curitiba, 46 pacientes foram operados sob a mesma estratégia entre janeiro de 2016 e fevereiro de 2017. Sobreviveram 80,4%. O pH médio era 7,19, o lactato 4,7 e o tempo de protrombina 13,5 segundos. A decisão foi tomada antes da chegada ao pronto-socorro, na chegada ou logo no início da cirurgia em 87% dos casos. E um dado desconfortável: em 6,5% dos pacientes não havia alteração hemodinâmica nem laboratorial nenhuma que sustentasse a escolha, e em 23,9% havia só a hemodinâmica. Os autores intitularam o trabalho com uma pergunta — se não estaríamos perdendo controle das indicações.

Leia as duas séries lado a lado e a conclusão sai sozinha: 79% de mortalidade e 80% de sobrevida não medem a técnica, medem quem foi escolhido para ela. Uma série reuniu pacientes que chegaram com pH 7,10; a outra, pacientes com pH 7,19 e um em cada quinze sem alteração alguma. Para você, no plantão, isso vira duas instruções práticas. A primeira: quando a indicação é boa, a decisão já está tomada quando o abdome abre — não é o desfecho de uma laparotomia que deu errado. A segunda: abdome aberto tem preço próprio, em fístula, reoperação, tempo de ventilação e hérnia de parede, e quem não precisava dele paga esse preço sem receber nada em troca.

04

Por que acontece o que acontece

Tudo o que se ensina no centro cirúrgico eletivo empurra para o mesmo lugar: achar todas as lesões, reparar todas, deixar o paciente anatomicamente inteiro antes de fechar. A cirurgia do trauma grave tem um ponto a partir do qual essa regra se inverte. Passado esse ponto, a operação deixa de ser tratamento e vira mais uma agressão sobre uma reserva fisiológica que já acabou — e o paciente morre com a anatomia impecável. A estratégia troca o alvo: em vez de restaurar a anatomia, restaurar a fisiologia; o reparo definitivo fica para quando houver fisiologia que o aguente. É por isso que o nome técnico da primeira cirurgia é laparotomia abreviada.

O que empurra o paciente para além desse ponto é a tríade letal, e ela não é uma lista de três problemas. É um circuito fechado. A hipotermia atrasa as enzimas da coagulação e prejudica a função plaquetária; a coagulopatia faz sangrar de onde não há vaso; o sangramento tira perfusão; a hipoperfusão faz metabolismo anaeróbio e acidose; a acidose inativa os fatores dependentes de pH e devolve a bola à coagulopatia; e cada nova rodada de reposição fria, com o corpo aberto numa sala refrigerada, devolve a bola à hipotermia. A fisiologia de cada vértice e o modo certo de repor sangue são o assunto do capítulo de choque hemorrágico. Aqui o que interessa é outra coisa: o circuito é um relógio, e a decisão cirúrgica é sobre que horas são.

O relógio tem números. Burch descreveu a taxa de sangramento secundário à coagulopatia subindo para 40% quando há hipotensão associada, 50% quando há hipotermia, 60% na presença de acidose — e chegando a 98% quando a tríade está completa. Repare no formato do salto. Cada vértice sozinho move o número em dezenas de pontos; os três juntos praticamente garantem o desfecho. É essa curva que explica por que a hora de decidir é antes de o terceiro vértice fechar, e por que “eu corrijo depois” não é um plano: depois de fechado, o circuito se alimenta sozinho.

A hipotermia do centro cirúrgico não é a mesma da sala de emergência, e é bem pior. O abdome aberto evapora, o campo é irrigado, a sala é refrigerada por norma, a anestesia abole a termorregulação e o sangue chega da geladeira. Ela se torna clinicamente importante abaixo de 36 graus por mais de quatro horas; abaixo de 35 graus associa-se a pior prognóstico; e há relatos de mortalidade de 100% abaixo de 32 graus. Duas consequências práticas. A primeira é que prevenir é muito mais fácil que corrigir, e por isso terminar rápido a laparotomia é, em si, uma medida térmica. A segunda é a frase que muda o jeito de o interno pensar: aquecer não é conforto, é tratamento da coagulopatia. O ponto mais importante para corrigir o distúrbio de coagulação desse paciente é tratar a hipotermia.

A acidose fecha o circuito pelo lado da perfusão, e o pH abaixo de 7,2 mantido por tempo prolongado é marcador de alta mortalidade. Ela também derruba a contratilidade miocárdica, o que retira do paciente exatamente a bomba de que ele precisaria. Mas o detalhe que decide conduta é este: a acidose aqui se autocorrige assim que a oferta de oxigênio alcança a demanda e a temperatura sobe. Ela não é uma doença do bicarbonato — é o mostrador da hipoperfusão. Corrigir o número com bicarbonato deixa o segundo plano onde ele deve estar e, de quebra, apaga o marcador que estava funcionando.

Falta a variável que não aparece em nenhum exame: a reserva. Não existe dosagem de reserva fisiológica, e é ela que a operação consome minuto a minuto. Por isso o tempo de cirurgia entra como critério em vários conjuntos publicados, com corte em torno de 90 minutos, ao lado da temperatura, do pH e do volume transfundido. E por isso a lição que os cirurgiões experientes resumem numa frase que vale copiar: é melhor recuar do que assistir ao paciente alcançar o próprio limite. Recuar cedo é uma decisão; recuar tarde é uma constatação.

A operação abreviada resolve um problema e cria outro, e o interno precisa saber disso antes de receber o paciente. As alças que foram manipuladas, isquemiadas e reperfundidas incham; o líquido que ressuscitou o paciente vai para o interstício; as compressas ocupam volume; o retroperitônio está hematoso. Tudo isso disputa espaço dentro de uma cavidade que não estica. É a hipertensão intra-abdominal, e fechar a aponeurose por cima dela equivale a amarrar um torniquete em volta das vísceras: cai o retorno venoso, sobe a pressão de via aérea, cai o débito urinário, e a isquemia esplâncnica realimenta a acidose que se estava tentando corrigir.

Daí a última peça, que costuma ser mal lida por quem chega na visita: o abdome aberto não é descuido nem obra inacabada, é um dispositivo. O fechamento temporário existe para dar volume ao conteúdo enquanto a fisiologia volta. Pode ser feito com pinças de campo, com uma bolsa plástica estéril costurada à pele — a bolsa de Bogotá —, com campo adesivo ou com curativo de pressão negativa, e o último tem a vantagem de manter o sistema fechado e de segurar a aponeurose, que de outro modo se retrai para os lados. Essa retração é o que torna o fechamento definitivo difícil depois de cerca de cinco dias, e é a razão de o relógio da reoperação também correr contra a parede abdominal, e não só contra o paciente.

Três etapas conectadas do controle de danos: intervenção abreviada, ressuscitação intensiva e reavaliação com retorno para reparo definitivo.
O controle de danos combina interrupção do sangramento e da contaminação com recuperação fisiológica e reavaliação. O reparo definitivo e o fechamento são programados conforme a resposta e as condições locais. A origem da hemorragia pode exigir cirurgia, radiologia intervencionista, endoscopia ou medidas mecânicas.
05

Como se apresenta de verdade

Controle de danos não é uma doença, é uma situação — e ela se apresenta de seis maneiras reconhecíveis. Duas acontecem antes de o abdome abrir, duas na mesa, e duas depois, quando o paciente já é seu na unidade de terapia intensiva. O que muda de uma para outra não é a técnica: é quem decide, quando, e com que informação na mão.

1. O paciente que já chega candidato

Ferimento penetrante de tronco, chegada em choque, resposta apenas transitória à prova de volume, sangramento em mais de uma cavidade, lesão vascular abdominal ou lesões múltiplas de vísceras. Esse conjunto identifica o candidato antes da incisão, e é assim que a coisa funciona quando funciona bem: na série do Hospital do Trabalhador, a decisão foi tomada antes da chegada ao pronto-socorro, na chegada ou logo no início da cirurgia em 87% dos casos, e só em 10,8% depois de o quadro piorar na mesa.

O trabalho brasileiro que deu números objetivos a essa intuição analisou 74 vítimas de ferimento penetrante de tronco admitidas hipotensas na Santa Casa de São Paulo. Quatro variáveis se correlacionaram com hemorragia letal: pressão sistólica abaixo de 110 mmHg no início da operação, pH arterial abaixo de 7,25 no início da operação, choque persistente depois da prova de volume, e mais de 1.200 mL de concentrado de hemácias transfundidos durante o ato. Nenhuma delas exige exame que você não vá ter.

2. O que se declara na mesa: sangramento sem vaso

É o achado mais específico do capítulo e o mais fácil de ver quando alguém aponta. O campo que estava seco volta a rezumar em minutos; sangra a borda da incisão, o ponto de agulha, a superfície do fígado que ninguém encostou, a área do retroperitônio já revista. Não há jato, não há vaso, não há o que pinçar. Isso não é falha de hemostasia — é hemostasia acontecendo em um paciente que perdeu a capacidade de coagular.

A leitura errada desse achado é o erro que consome as horas seguintes: o cirurgião procura o vaso, o interno afasta, a sala esfria, o paciente recebe mais sangue frio e o círculo acelera. A leitura certa é reconhecer que o sangramento difuso é um sinal de fisiologia, não de anatomia, e que o único ponto que o resolve fica fora do campo cirúrgico — está na temperatura, no pH e nos fatores de coagulação.

3. O idoso, e por que a régua dele é outra

Reserva fisiológica não aparece em exame e cai com a idade. Num trabalho citado pela revisão brasileira, a idade foi a principal variável de uma equação de mortalidade construída com idade, pH e temperatura, e naquela casuística a mortalidade dos submetidos a laparotomia abreviada acima dos 58 anos foi de 100%.

O que isso muda para você não é prognosticar; é antecipar. No idoso, a mesma pressão, o mesmo pH e o mesmo volume transfundido significam um paciente mais perto do fim da reserva do que significariam num rapaz de 25 anos. O gatilho, portanto, acende mais cedo — e o tempo que você tem para avisar, aquecer e chamar ajuda é menor.

4. Fora do abdome, e fora do trauma

A lógica migrou para fora do abdome. No tórax, uma revisão de 2006 sobre o tema descreve o mesmo princípio — corrigir de maneira temporária, com técnicas mais simples e rápidas — e uma série de casos descreveu que a toracotomia abreviada em traumatizados graves pode reduzir a mortalidade. Nas extremidades, o registro brasileiro traz o caso de um ferimento por arma de fogo em região inguinal tratado com derivativo intraluminal temporário para manter a perfusão distal do membro. E dentro do próprio abdome a mesma ideia governa a lesão vascular complexa: derivativo ou ligadura agora, reconstrução depois. A revisão brasileira registra que o método já é empregado em lesões torácicas, ortopédicas e vasculares de extremidades, e em todas elas pela mesma razão — adiar o reparo definitivo até existir fisiologia que o sustente.

E migrou também para fora do trauma: hemorragia intraoperatória volumosa, isquemia mesentérica aguda, sepse grave e infecção necrotizante já aparecem como cenários em que se opta pela laparotomia abreviada, muitas vezes somada à necessidade de lavagens repetidas e de revisar suturas. Se você entender o princípio uma vez, reconhece a decisão em qualquer sala.

5. O que parece indicação e não é

Abdome aberto tem morbidade própria: fístula entérica, reinternações, múltiplas intervenções, ventilação prolongada e perda de qualidade de vida. Em 2012 mostrou-se que usar fechamento temporário em pacientes com lesões menos graves aumentava a morbidade desse grupo, e uma casuística de 532 pacientes descreveu queda de laparotomias abreviadas de 36,3% para 8,8% em dois anos acompanhada de redução significativa da mortalidade, do uso de recursos e do custo hospitalar.

Some a isso os 6,5% de pacientes da série de Curitiba operados sob essa estratégia sem nenhuma alteração hemodinâmica ou laboratorial que a justificasse. A conclusão prática não é desconfiar do seu preceptor; é entender que “na dúvida, abrevia” não é a conduta conservadora que parece. Abreviar é uma decisão com custo, e o custo é cobrado do paciente nas semanas seguintes.

6. Como esse paciente chega à unidade de terapia intensiva

Vale descrever o que você vai encontrar no leito, porque quase nada disso é intuitivo. Paciente intubado e sedado, hipotérmico, frequentemente em vasopressor. O abdome tem uma bolsa plástica ou um curativo transparente no lugar da parede, e por baixo há compressas que ninguém vai tirar hoje. O intestino pode estar desconectado, com dois cotos grampeados e sem estoma. Pode haver dreno, pode haver hematoma retroperitoneal tamponado à espera de embolização.

Cada um desses achados é uma instrução. Compressa dentro significa relógio correndo, porque compressa é corpo estranho e o risco infeccioso sobe com o tempo. Intestino desconectado significa que ninguém vai alimentar por via enteral tão cedo. Abdome aberto significa perda evaporativa e térmica contínua, e significa também que a cavidade não está protegida contra a hipertensão intra-abdominal — ela está apenas com mais espaço do que teria, o que não é a mesma coisa que estar segura.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo tem duas metades separadas por uma porta. Antes da porta do centro cirúrgico, o que se investiga é se a fisiologia ainda aguenta uma operação inteira. Depois dela, o que se investiga é se a fisiologia já voltou o bastante para a segunda — e se apareceu a complicação que a primeira criou. São perguntas diferentes, com exames diferentes, e confundi-las é o que faz alguém pedir tomografia num paciente que devia estar sendo aquecido.

1. Qual número primeiro, e o que cada um responde

São quatro, e a ordem é a da velocidade com que você os consegue. A temperatura central — esofágica, vesical ou retal, nunca axilar num paciente aberto e vasoconstrito — responde se o vértice mais barato do círculo já fechou. A gasometria arterial dá pH e excesso de bases, e responde há quanto tempo o paciente está hipoperfundido; o excesso de bases é o que melhor traduz dívida acumulada, e não o instante. O coagulograma com plaquetas responde se há substrato para coagular. E o volume transfundido com a hora anotada responde a velocidade da perda, que é a única das quatro informações que descreve o futuro e não o passado.

Repare que nenhum desses quatro é um exame de imagem, e que os quatro cabem em qualquer hospital que faça uma laparotomia. Se você é o interno da sala, a contribuição mais útil que existe é garantir que eles sejam colhidos, ditos em voz alta e registrados com horário — porque a decisão do cirurgião melhora muito quando ela é comparada com a medição de vinte minutos atrás.

2. O que confirma, o que não confirma, e por que o coagulograma mente

Não existe padrão-ouro aqui, e é honesto dizer isso: não há critério consensual para indicar controle de danos, e a decisão continua sendo um julgamento com âncoras numéricas. O que os trabalhos brasileiros ofereceram foi transformar as três palavras qualitativas — acidose, hipotermia, coagulopatia — em faixas. Pressão sistólica abaixo de 110 mmHg no início da operação, pH abaixo de 7,25, choque persistente à prova de volume e mais de 1.200 mL de hemácias transfundidas no ato foram as variáveis mais correlacionadas com hemorragia letal na casuística paulista.

O mesmo grupo cruzou duas dessas variáveis numa tabela de probabilidade que dá dimensão concreta ao problema: com sistólica de 90 mmHg e 1.200 mL de hemácias no ato, o risco estimado de hemorragia letal é de 7%; com sistólica de 70 mmHg e 2.400 mL, sobe para 29%; com os mesmos 70 mmHg e 3.600 mL, chega a 52%. Não é uma calculadora para usar na mesa — é uma demonstração de que pressão baixa e transfusão alta não somam, multiplicam.

E há uma armadilha de laboratório que precisa ser dita porque quase ninguém a diz: o coagulograma é feito com a amostra aquecida a 37 graus. O resultado descreve um paciente que existiria se ele estivesse quente. Num doente a 34,6 graus, o exame pode voltar razoável enquanto o campo cirúrgico sangra difusamente — e, quando os dois discordam, quem está certo é o campo. Esse é o teste de coagulação de beira de leito que ninguém pede e todo mundo pode ler.

3. O que não pedir agora, e o custo de pedir

Tomografia em paciente instável é o exemplo clássico, e o custo dela não é a radiação: é a sala de exame, o corredor, a maca, os quinze minutos longe do centro cirúrgico e a impossibilidade de operar no meio do exame. O segundo item da lista é mais sutil: esperar o coagulograma para decidir abreviar. Além de o exame mentir pelo motivo acima, ele demora — e a decisão que ele deveria apoiar já foi tomada, ou já passou da hora.

O terceiro é esperar a definição formal para agir. Todas as definições de hemorragia grave que fecham um número olham para trás, e o paciente da mesa precisa de uma decisão que olhe para a frente. O que serve à beira do leito é o conjunto de gatilhos, não o rótulo. E o quarto item é o exame que não muda conduta nenhuma nas próximas duas horas: no paciente que está sendo aberto, ele só ocupa um técnico, um tubo de sangue e a atenção de alguém.

4. Depois da primeira cirurgia: a pressão intra-abdominal, que é o exame que você faz

Este é o exame do interno, e ele custa quase nada. Material: sonda vesical de duas vias, sistema coletor fechado com portal lateral, 20 mL de soro fisiológico, uma seringa de 20 mL, um equipo de soro, uma agulha e a régua de aferição de pressão venosa central. Paciente em decúbito dorsal a zero grau, bexiga esvaziada, coletor clampeado logo após a conexão. Punciona-se o portal lateral, injetam-se os 20 mL, espera-se de 30 segundos a um minuto para o sistema equalizar e conecta-se o equipo, que vira coluna de água. O zero da régua fica na linha axilar média, a leitura é feita ao fim da expiração e com a parede abdominal relaxada. O valor sai em centímetros de água e se converte multiplicando por 0,74.

Quando medir: na admissão da unidade e seis horas depois, em todo paciente que entra — as duas medidas existem para revelar tendência, não valor isolado. Se a primeira já vier alta, o paciente passa para monitorização contínua, e aí a sonda de três vias é melhor, porque repetir a punção do portal obriga a trocar o sistema coletor a cada vez.

O que os números dizem: no paciente crítico a pressão fica normalmente entre 5 e 7 mmHg. Acima de 12 mmHg já é hipertensão intra-abdominal. A síndrome compartimental abdominal é definida por pressão sustentada acima de 20 mmHg associada a nova disfunção de órgão — não é o número sozinho, é o número mais o rim que parou de urinar, o ventilador que passou a pedir mais pressão, o fígado que alterou as enzimas. E o motivo de tudo isso ser medido em vez de palpado: o exame físico tem acurácia de apenas 50% para apontar quem está com a pressão elevada. Cara a cara com essa estatística, palpar o abdome é o mesmo que jogar uma moeda.

O ventilador é o segundo detector, e costuma avisar antes de você lembrar de medir. Quando a pressão de platô sobe sem causa pulmonar que explique, a diretriz brasileira de ventilação mecânica manda procurar redução da complacência da parede torácica e hipertensão intra-abdominal, monitorar a pressão e indicar descompressão quando for o caso. A mesma diretriz lista peritoniostomia entre as contraindicações à posição prona, e a hipertensão intra-abdominal como contraindicação relativa — o que evita que alguém tente resolver hipoxemia virando um paciente cuja causa é abdominal.

5. O diferencial dentro da unidade: por que ele piorou?

Nas primeiras 48 horas, a piora tem quatro endereços e cada um manda numa direção diferente. Ressangramento: cai a hemoglobina, sobe a necessidade transfusional, o curativo temporário enche de sangue vivo, a pressão não sustenta — e o destino é o centro cirúrgico, agora, sem esperar a fisiologia melhorar. Síndrome compartimental: a pressão medida sobe, o débito urinário cai, a pressão de platô sobe, o abdome fica tenso sob o curativo — e a resposta é descomprimir, não repor mais volume.

Terceiro endereço: isquemia ou necrose de alça, que costuma se anunciar por acidose que não corrige apesar de temperatura e perfusão razoáveis, com lactato que sobe em vez de cair. Quarto: infecção, que aparece mais tarde, tipicamente depois de 48 a 72 horas de compressa dentro, e vem com febre, leucocitose, secreção turva no curativo e disfunção orgânica nova.

O que separa os quatro é uma combinação de três coisas, e todas estão ao alcance do interno: a hemoglobina seriada, a pressão intra-abdominal medida com hora, e o aspecto e o volume do que sai pelo fechamento temporário. Anotar isso em série vale mais do que qualquer exame isolado — porque o que decide não é o valor, é a direção.

6. O que se consegue no Sistema Único de Saúde

A boa notícia é que o exame que decide é praticamente gratuito. A medida intravesical da pressão intra-abdominal usa material que já existe em qualquer unidade de terapia intensiva do país, e é justamente por isso que ela foi proposta como rastreio para escolher quem precisa de monitorização contínua. O que falta quase nunca é o material — é o protocolo escrito: num hospital universitário terciário de Curitiba, referência estadual em trauma, 81,6% dos médicos entrevistados não mediam a pressão intra-abdominal, e a justificativa declarada foi que o serviço não tinha protocolo definido.

No fechamento temporário, a diferença entre o que a literatura descreve e o que a maioria dos serviços tem é grande. Pinças de campo e bolsa plástica estéril costurada à pele estão em qualquer sala; o curativo de pressão negativa e os dispositivos de aproximação progressiva são caros e pouco disponíveis. Isso não muda a indicação de abreviar; muda o que você promete à família sobre o fechamento da parede, e antecipa a conversa sobre hérnia ventral.

Na prescrição da unidade, duas coisas mudam por lista. A enoxaparina consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais pelo componente especializado e vinculada a protocolo próprio, enquanto a heparina sódica de 5.000 unidades consta do componente básico — de modo que, em muitos serviços, a heparina não fracionada é a que está disponível quando chegar a hora de começar a tromboprofilaxia. E o omeprazol consta apenas em cápsulas orais de 10 e 20 mg, o que é um problema real num paciente sem trânsito intestinal: a via endovenosa, que é a indicada para o crítico em dieta zero, depende do que o hospital padronizou por conta própria.

07

A decisão, os gatilhos, as duas pressões e as metas da volta

Controle de danos combina operação abreviada, ressuscitação e retorno planejado. A escolha depende de fisiologia e lesões; limiares numéricos são sinais de alerta, não indicação automática isolada.

  1. 1Identificar incapacidade de tolerar reparo definitivo e discutir operação abreviada com a equipe responsável.
  2. 2Controlar hemorragia e contaminação de forma rápida e efetiva, registrando o que ficou pendente, segmentos em descontinuidade e compressas deixadas.
  3. 3Na transferência à UTI, comunicar perdas, componentes, drogas, fisiologia, lesões, fechamento temporário e plano de reexploração.
  4. 4Reavaliar perfusão, temperatura, coagulação e cálcio, além de oxigenação e função orgânica; hipocalcemia também participa da deterioração do trauma grave.
  5. 5No abdome aberto, acompanhar perdas do sistema, integridade da cobertura, proteção das vísceras e balanço; não manipular o fechamento sem equipe e indicação.
  6. 6Programar reexploração em geral em 24–48 horas, antecipando diante de deterioração, sangramento, isquemia ou outra indicação; não esperar normalizar todos os exames para reavaliar a necessidade de voltar.
  7. 7Decidir anastomose, estomia ou manutenção temporária de descontinuidade pela viabilidade, perfusão, contaminação e condição global.
  8. 8Buscar fechamento fascial assim que seguro e planejar nutrição. Trânsito interrompido exige definir via segura antes de dieta enteral; integrar o capítulo de estomias se for necessário exteriorizar alça.

A primeira cirurgia: o que se faz e o que fica para a segunda

ObjetivoO que se faz agoraO que fica para a reoperação
HemostasiaCompressas nos quatro quadrantes criando vetores de força; ligadura ou clampeamento de vasos; balão de tamponamento hepático improvisado com sonda; sutura simples de parênquima; esplenectomia ou nefrectomia quando o órgão exigir procedimento complexoReparos vasculares complexos, ressecções regradas e reconstruções; embolização por arteriografia entra como adjuvante, não como substituto do tamponamento
Hematoma retroperitonealTamponar e encaminhar para embolização; hematomas perirrenais, retro-hepáticos e pélvicos não se exploram nesta faseExploração dirigida, se ainda for necessária depois da embolização e da recuperação fisiológica
Grandes vasosSutura simples quando a lesão permitir; derivativo temporário ou ligadura quando não permitir. Aorta, mesentérica superior e ilíaca externa não se ligam; salvo a cava inferior acima das renais, as demais veias abdominais toleram ligaduraReconstrução definitiva, enxerto, retirada do derivativo
ContaminaçãoInspeção de todo o intestino, do ângulo de Treitz ao reto; sutura simples das lesões pequenas; ressecção do segmento lesado com os cotos ligados ou grampeados; pinças atraumáticas ou fitas para ocluir alça; derivativo temporário em lesão ureteral; irrigação com solução aquecidaReavaliar viabilidade e controle do foco; anastomose, estoma ou novo adiamento dependem das condições locais e sistêmicas, e não apenas do tempo decorrido.
Parede abdominalFechamento temporário com pinças de campo, bolsa plástica estéril costurada à pele, campo adesivo ou curativo de pressão negativaFechamento definitivo, com separação de componentes ou tela quando necessário; a tela entra tarde, para não contaminar a prótese
O que nunca se faz nesta faseSutura da aponeurose sob tensão — além de ineficaz, predispõe à síndrome compartimental abdominal

Os sinais que acendem na sala, e o que cada um diz

SinalFaixa que acendeO que ele significaOnde você o obtém
Temperatura centralAbaixo de 35 graus; abaixo de 36 por mais de quatro horasO vértice mais barato de prevenir já fechou; abaixo de 32 graus há relatos de mortalidade de 100%Sonda esofágica, vesical ou retal — nunca axilar no paciente aberto
pH arterialAbaixo de 7,2 (conjuntos publicados variam de 7,1 a 7,3)Hipoperfusão sustentada; inativa fatores dependentes de pH e derruba a contratilidadeGasometria arterial, repetida
Excesso de basesAbaixo de −6 a −12 mEq/L, conforme o conjunto de critériosDívida acumulada de oxigênio; traduz o tempo em choque melhor do que o pH isoladoA mesma gasometria
Pressão sistólica no início da operaçãoAbaixo de 110 mmHg; abaixo de 70 em critérios mais restritivosVariável independente de hemorragia letal na casuística brasileiraMonitor, com a hora do valor
Volume de hemácias no intraoperatórioAcima de 1.200 mL; mais de 10 unidades em alguns conjuntosVelocidade de perda, que é a única informação que descreve o futuroContagem de bolsas com horário — tarefa que costuma ficar sem dono
Tempo de operaçãoAcima de 90 minutosReserva fisiológica consumida pela própria cirurgiaO relógio da sala, anotado desde a incisão
Sangramento difuso sem vasoQualitativo, e por isso mesmo decisivoCoagulopatia instalada; vale mais que o coagulograma, que é lido a 37 grausO campo cirúrgico

Pressão intra-abdominal: as faixas e o que muda em cada uma

Pressão medidaNomeO que fazer
5 a 7 mmHgFaixa normal do paciente críticoManter a medida seriada; a segunda aferição, seis horas depois, existe para mostrar tendência
12 a 15 mmHgHipertensão intra-abdominal de grau IIniciar as medidas clínicas: corrigir balanço hídrico positivo, otimizar sedação e analgesia, evitar cabeceira acima de 30 graus, descomprimir estômago e reto
16 a 20 mmHgGrau IIManter as medidas anteriores, considerar bloqueio neuromuscular, avaliar paracentese ou drenagem percutânea se houver líquido, e monitorização contínua
21 a 25 mmHgGrau IIIReavaliar de hora em hora e procurar ativamente disfunção nova; a partir daqui a descompressão cirúrgica entra na discussão
Acima de 25 mmHgGrau IVDescompressão cirúrgica, salvo decisão explícita em contrário
Acima de 20 mmHg com disfunção orgânica novaSíndrome compartimental abdominalDescompressão. Não é o número sozinho: é o número mais o rim, o pulmão ou o fígado que mudaram

Metas fisiológicas antes de voltar ao centro cirúrgico

ParâmetroMeta
TemperaturaAcima de 35 graus; a referência é chegar acima de 37 nas primeiras quatro horas de unidade de terapia intensiva
pH e excesso de basesExcesso de bases acima de −4 mmol/L, com o pH acompanhando
Lactato séricoAbaixo de 2,5 mmol/L
Pressão sistólica90 mmHg
Hemoglobina e hematócritoAcima de 10 g/dL e acima de 30%
Tempo de protrombina e de tromboplastinaAbaixo de 15 s e abaixo de 35 s
Plaquetas e fibrinogênioAcima de 50.000/mm3 e acima de 100 mg/dL
Cálcio séricoAcima de 0,9 mmol/L
Oxigenação e suporteSaturação acima de 95% com fração inspirada abaixo de 50%, e dose baixa de inotrópico

Os limiares de controle de danos variam entre os oito conjuntos de critérios da revisão brasileira: temperatura abaixo de 33–35,5 °C, pH abaixo de 7,1–7,3, excesso de bases abaixo de −6 a −12 mEq/L e PAS abaixo de 70–110 mmHg. A tabela usa faixas centrais como sinais de alerta. Interprete o conjunto e sua evolução, sem transformar um número isolado em indicação automática.

O estudo prospectivo de Curitiba apresenta duas médias de PAS para a mesma casuística: 80,3 e cerca de 89 mmHg. A recomposição dos grupos sustenta o segundo valor, adotado na leitura deste capítulo. A inconsistência reforça a necessidade de interpretar a seleção para controle de danos pela fisiologia completa, além da pressão isolada.

A série de cinco anos do Cajuru contém divergências entre contagens e percentuais. Os números absolutos correspondem a 21 complicações imediatas em 39 pacientes (53,85%) e 35 homens em 39 (89,74%). A mortalidade citada, 31 óbitos em 39 pacientes (79,49%), é consistente. Essas limitações afetam a leitura descritiva da série, sem definir a conduta individual.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a do Ubiratan e vale para qualquer paciente que sai da sala com o abdome aberto. Oito marcos, em ordem cronológica, e a ordem importa: dois deles são decisões que se anulam se tomadas na sequência errada — aquecer antes de repor fator, e esperar a fisiologia antes de reoperar. Nenhum desses marcos é indicação sua; quase todos são execução sua.

Uma advertência sobre prescrição que vale para o bloco inteiro, e que é lição de segurança medicamentosa antes de ser lição de trauma: confira sempre a apresentação contra a dose, mesmo quando o documento é oficial. O protocolo institucional de profilaxia de úlcera gástrica citado aqui traz, no esquema alternativo, a linha “sucralfato 1 mg/comprimido mastigável — 1 grama, por via oral, duas vezes ao dia”. A própria bula que o protocolo lista nas referências registra o comprimido mastigável de 1 g. Como 1 g são 1.000 mg, a apresentação escrita exigiria mil comprimidos por dose e dois mil por dia para entregar a dose prescrita na mesma linha: é erro de digitação da unidade, e a dose correta é a de 1 g duas vezes ao dia. O hábito que isso ensina é simples — leia a apresentação e a dose como se fossem uma conta, e faça a conta.

  1. Minuto 0 — a decisão está sendo tomada, e você está na sala

    O cirurgião decide; você garante que ele decida com informação. As três tarefas do interno neste momento são as que ninguém costuma ter mãos livres para fazer: manter o relógio da operação, manter a contagem de bolsas transfundidas com horário, e repetir em voz alta a temperatura central e a última gasometria. Quando a decisão de abreviar sai, a quarta tarefa começa — avisar, em paralelo e não em sequência, a unidade de terapia intensiva, a agência transfusional e a família.

    Prescrição
    • Registro do horário de incisão e de cada gasometria, com o valor ao lado — o tempo de operação acima de 90 minutos é critério em vários conjuntos publicados (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2013)
    • Temperatura central por sonda esofágica, vesical ou retal, repetida; temperatura axilar não serve no paciente aberto e vasoconstrito
    • Gasometria arterial seriada com pH e excesso de bases, a cada 20 a 30 minutos enquanto a operação durar (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2002 e 2013)
    • Contagem cumulativa do concentrado de hemácias infundido no ato, em mililitros — o corte de 1.200 mL é um dos quatro indicadores brasileiros de hemorragia letal (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2002)
    • Comunicação simultânea à unidade de terapia intensiva, à agência transfusional e à família
  2. Ainda na mesa — parar a hemorragia, e só isso

    A laparotomia mediana xifopubiana já está feita. A hemostasia se faz com compressas nos quatro quadrantes, ligadura ou clampeamento dos vasos acessíveis e, no fígado, digitoclasia, ligadura direta ou tamponamento. As compressas hepáticas precisam ser posicionadas criando vetores de força, e não empurradas desordenadamente — mal colocadas, não comprimem nada e ocupam espaço. Balões improvisados com sonda podem ser insuflados dentro do parênquima quando a digitoclasia não resolve. Hematoma perirrenal, retro-hepático ou pélvico não se explora: tampona e segue para embolização.

    Prescrição
    • Compressas nos quatro quadrantes, com troca durante o ato quando necessário e permanência até a reoperação programada (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2013)
    • Sutura simples de parênquima esplênico ou renal quando resolver; ressecção do órgão quando for preciso procedimento mais complexo
    • Lesão vascular: sutura simples quando possível; derivativo temporário ou ligadura quando não. Aorta, mesentérica superior e ilíaca externa não se ligam; salvo a cava inferior acima das renais, as demais veias abdominais toleram ligadura
    • Reparo vascular complexo, ressecção regrada e exploração de hematoma retroperitoneal ficam para a segunda cirurgia
  3. Ainda na mesa — conter a contaminação e fechar por fora

    Segundo objetivo, e ele é rápido de propósito. Inspeciona-se todo o intestino, do ângulo de Treitz ao reto. Lesão pequena, sutura simples; lesão extensa, ressecção com os cotos ligados ou grampeados. Nada de anastomose e nada de estoma agora — os dois consomem tempo e os dois dependem de tecido bem perfundido, que é exatamente o que este paciente não tem. Lesão de ureter recebe derivativo temporário. Irriga-se a cavidade com solução salina aquecida, e o aquecida não é detalhe: é uma das poucas oportunidades de devolver calor por dentro. A parede fecha temporariamente, porque a segunda operação é certa.

    Ilustração de laparotomia com compressas laterais e, ao lado, cobertura plástica transparente suturada à pele, com compressas sob a cobertura e sem afastadores.
    Exemplo esquemático de packing dirigido e cobertura abdominal temporária do tipo bolsa de Bogotá, com a fáscia não aproximada. A técnica é escolhida conforme o contexto e os recursos; esta imagem não estabelece preferência universal. Registrar as compressas e planejar a reabordagem são essenciais. Mesmo com abdome aberto, persiste a necessidade de vigiar pressão, perfusão e complicações.
    Prescrição
    • Inspeção completa das alças, do ângulo de Treitz ao reto (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2013)
    • Ressecção única quando houver múltiplas lesões em menos de 50% do comprimento intestinal; cotos ligados ou grampeados, sem anastomose e sem estoma nesta fase
    • Irrigação das cavidades abdominal e pélvica com solução salina aquecida antes de terminar
    • Fechamento temporário por pinças de campo, bolsa plástica estéril costurada à pele, campo adesivo ou curativo de pressão negativa — nunca sutura da aponeurose sob tensão
  4. Do centro cirúrgico ao leito — os dez minutos em que tudo se perde

    O transporte é curto e é onde o ganho térmico da sala evapora. O paciente sai coberto, com manta térmica sobre o tronco, e tudo o que estiver correndo continua correndo — a reposição não se interrompe na porta do elevador. A passagem de plantão para a unidade tem cinco itens obrigatórios, e nenhum deles é opcional: quais lesões foram tratadas e como; quantas compressas ficaram dentro e onde; se o trânsito intestinal está interrompido; qual o tipo de fechamento temporário; e quanto sangue entrou, com horário.

    Prescrição
    • Manta térmica sobre o tronco e cobertura completa durante todo o transporte; retirada de roupa e campos úmidos antes de sair da sala (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2013)
    • Continuidade da reposição e do aquecimento dos líquidos infundidos, sem interrupção no trajeto
    • Registro escrito do número exato de compressas deixadas na cavidade e da sua localização
    • Registro do tipo de fechamento temporário empregado e do estado do trânsito intestinal
  5. Hora 0 a hora 6 na unidade de terapia intensiva — aquecer é o tratamento

    Esta é a metade da operação que acontece fora do centro cirúrgico, e o interno é quem a executa. Reaquecer vem primeiro, porque o ponto mais importante para corrigir a coagulopatia é tratar a hipotermia — repor fator num paciente a 34 graus é repor num sistema que não vai funcionar. As medidas sobem em escada: ambiente aquecido, roupa seca, manta e colchão térmico, todos os líquidos aquecidos antes de entrar, irrigação das sondas gástrica e vesical com salina aquecida, e, se mesmo assim a temperatura não passar de 35 graus, métodos de cavidade. A referência prática é chegar acima de 37 graus nas primeiras quatro horas de unidade. A ventilação já entra protetora, e a pressão intra-abdominal é medida agora, para haver com o que comparar.

    Prescrição
    • Reaquecimento em escada: sala aquecida, retirada de roupa úmida, manta térmica, colchão térmico ou sistema de ar aquecido, e aquecimento de todos os líquidos antes da infusão (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2013)
    • Irrigação das sondas gástrica e vesical com solução salina aquecida a 39 a 40 graus (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2013)
    • Temperatura persistindo abaixo de 35 graus apesar do acima: irrigação de cavidade por drenos de tórax com solução aquecida; abaixo de 33 graus, aquecimento arteriovenoso contínuo (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2013)
    • Meta térmica: acima de 37 graus até a quarta hora de unidade de terapia intensiva (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2013)
    • Ventilação protetora: volume corrente de 6 mL/kg de peso predito, com o peso calculado pela altura — 50 + 0,91 × (altura em cm − 152,4) para homens e 45,5 + 0,91 × (altura em cm − 152,4) para mulheres; pressão de platô igual ou abaixo de 30 cmH2O e pressão de distensão igual ou abaixo de 15 cmH2O (Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013)
    • Medida da pressão intra-abdominal por via intravesical na admissão da unidade e seis horas depois; conversão de centímetros de água para milímetros de mercúrio multiplicando por 0,74 (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2020)
    • Correção da acidose pelo tratamento do choque e da hipotermia, e não por bicarbonato de rotina — a acidose se autocorrige quando a oferta de oxigênio alcança a demanda (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2013)
  6. Hora 6 a hora 24 — as profilaxias que entram e a que ainda não entra

    Com o paciente aquecendo e a reposição estabilizando, entram as prescrições de rotina da unidade — e uma delas depende de o sangramento ter parado. Profilaxia de úlcera de estresse está indicada: este paciente reúne coagulopatia, ventilação mecânica prolongada, politrauma grave e choque com vasopressor, e qualquer um desses critérios, isolado ou em par, já o coloca dentro do protocolo. Antibiótico profilático e controle glicêmico não restritivo fazem parte do pacote. A tromboprofilaxia farmacológica, ao contrário, não entra enquanto houver sangramento ativo ou alto risco de sangramento: nesse período o que se usa é a profilaxia mecânica, e a troca para heparina se faz assim que o risco hemorrágico ceder. Sedação e analgesia bem tituladas não são conforto: melhoram a complacência abdominal e ajudam a controlar a pressão intracavitária.

    Prescrição
    • Omeprazol 40 mg, frasco-ampola, 1 ampola por via endovenosa uma vez ao dia, reconstituída em 10 mL do diluente próprio e infundida em 20 a 30 minutos após diluição em 100 mL de soro fisiológico a 0,9% — a via endovenosa é a indicada no crítico em dieta zero (Protocolo PRT.DCDT.002, HU-UFGD/Ebserh, 2023)
    • Quando houver via enteral disponível: omeprazol 20 mg, 1 cápsula por via oral ou por sonda, uma vez ao dia, com a dieta pausada 1 hora antes e retomada 2 horas depois (Protocolo PRT.DCDT.002, HU-UFGD/Ebserh, 2023)
    • Profilaxia mecânica de tromboembolismo enquanto houver sangramento ativo ou alto risco de sangramento: meias de compressão gradual, compressão pneumática intermitente ou bombas plantares (Protocolo PRT.DCDT.001, HU-UFGD/Ebserh, 2023)
    • Cessado o risco hemorrágico, trocar para profilaxia farmacológica: enoxaparina 40 mg/0,4 mL por via subcutânea a cada 24 horas; 20 mg a cada 24 horas se a filtração glomerular estimada estiver abaixo de 30 mL/min/1,73 m2; alternativa de heparina sódica 5.000 unidades por via subcutânea a cada 8 ou 12 horas (Protocolo PRT.DCDT.001, HU-UFGD/Ebserh, 2023)
    • Antibioticoterapia profilática durante o período de abdome aberto e controle glicêmico não restritivo, com alvo abaixo de 180 mg/dL (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2013)
    • Sedação e analgesia tituladas, com o objetivo declarado de melhorar a complacência abdominal e o padrão respiratório; cabeceira mantida em até 30 graus (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2013 e 2020)
    • Correção ativa do balanço hídrico positivo assim que a ressuscitação permitir, com diurético ou ultrafiltração quando indicado — o excesso de líquido é a causa evitável mais comum de hipertensão intra-abdominal (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2020)
  7. 24 a 48 horas — a decisão de voltar

    A reexploração deve ser planejada desde a primeira operação, geralmente em 24–48 horas conforme a diretriz WSES, com antecipação quando há deterioração ou indicação urgente. A recuperação de temperatura, perfusão, coagulação e função orgânica ajuda a decidir o que pode ser reparado, mas não autoriza esperar indefinidamente todos os parâmetros normalizarem. Ressangramento, suspeita de isquemia, contaminação não controlada ou síndrome compartimental exigem reavaliação imediata. Registre horário previsto, equipe responsável e gatilhos de retorno antecipado.

    Prescrição
    • Reavaliação das metas fisiológicas a cada turno, com o valor e a hora registrados
    • Reoperação programada quando as metas forem atingidas — sem prazo fixo, mas com a janela de 24 a 48 horas como referência da prática (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2013 e 2018)
    • Retorno imediato ao centro cirúrgico, independentemente das metas, diante de ressangramento com queda de hemoglobina e necessidade transfusional crescente
    • Retorno imediato diante de pressão intra-abdominal acima de 20 mmHg com disfunção orgânica nova (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2020)
    • Arteriografia com embolização como alternativa ou complemento em focos hepáticos ou pélvicos previamente tamponados (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2013)
  8. A reoperação, a parede e o que vem depois

    Na reexploração, a equipe confere compressas e pendências, controla sangramento, avalia viabilidade e contaminação e decide como tratar o intestino. Restaurar trânsito não é obrigatório em toda segunda cirurgia: perfusão, edema, necessidade de vasopressor e contexto podem favorecer estomia ou nova etapa. O objetivo é fechar a fáscia assim que a fisiologia e as condições locais permitirem, sem tensão ou risco de síndrome compartimental. O prolongamento do abdome aberto aumenta retração e complicações, mas cinco dias não é um ponto de corte universal de impossibilidade. Técnicas de fechamento e reconstrução são decisões especializadas; informar a família sobre o plano, suas incertezas e eventual hérnia planejada.

    Prescrição
    • Umidificação com solução salina aquecida antes da retirada das compressas (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2013)
    • Na revisão operatória, decidir entre anastomose, estoma ou adiamento conforme perfusão intestinal, fisiologia, edema, contaminação e possibilidade de fechamento e acompanhamento; não restaurar trânsito automaticamente.
    • Fechamento da parede sem tensão sobre a aponeurose; separação de componentes ou tela quando necessário, com a tela colocada tardiamente e sem contato com as alças (Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2013)
    • Registro em prontuário do defeito residual e do plano de correção da hérnia ventral, com a informação repassada ao paciente e à família antes da alta
09

Como saber se está funcionando

A reavaliação deste capítulo tem uma particularidade: o desfecho que se persegue nas próximas 48 horas não é a cura, é a autorização para a segunda cirurgia. Cada parâmetro abaixo existe para responder uma de duas perguntas — a fisiologia está voltando, ou apareceu a complicação que a primeira cirurgia criou.

A segunda particularidade é que quase tudo aqui vale como série, e não como valor. Uma pressão intra-abdominal de 14 mmHg não diz nada sozinha; 9 mmHg às oito da manhã e 14 mmHg ao meio-dia dizem tudo. Anotar a hora ao lado de cada número não é burocracia: é o que transforma medida em informação, e é a tarefa que sobra para quem tem as mãos livres.

E uma advertência sobre o que não fazer nesta fase: não prometer a segunda cirurgia para uma data. Quem marca o dia acaba operando o calendário em vez do paciente, e o paciente que ainda está a 34,8 graus não melhora por ser terça-feira.

Temperatura centralContínua ou a cada hora nas primeiras seis horas; depois a cada duas a quatro horas

Esperado: Subindo de forma sustentada, com a referência de passar de 37 graus até a quarta hora de unidade de terapia intensiva. Acima de 35 graus é o piso das metas de reoperação

Se não melhora: Se a temperatura não sobe, o problema quase sempre é o que está entrando ou o que está escapando: líquido em temperatura ambiente, aquecedor desligado, roupa de cama úmida, curativo abdominal frouxo com grande superfície exposta. Suba a escada — irrigação de sondas gástrica e vesical com salina aquecida a 39 a 40 graus e, persistindo abaixo de 35, métodos de cavidade. Uma temperatura que cai enquanto o paciente é reposto é motivo para reavaliar se ele não está ressangrando

Excesso de bases e lactatoGasometria a cada 4 a 6 horas nas primeiras 24 horas, e sempre que houver piora clínica

Esperado: Excesso de bases caminhando para acima de −4 mmol/L e lactato caindo em direção a menos de 2,5 mmol/L. O que importa é a inclinação da curva, não o ponto

Se não melhora: Lactato que sobe, ou excesso de bases que não corrige com temperatura e perfusão razoáveis, tem três explicações e nenhuma delas é laboratorial. Sangramento em curso é a primeira e a mais comum. Isquemia ou necrose de alça é a segunda, e é a que se paga caro por demorar a lembrar. Hipertensão intra-abdominal com isquemia esplâncnica é a terceira, e essa você mede. Bicarbonato corrige o número e apaga o marcador — não é resposta

Pressão intra-abdominalNa admissão da unidade e seis horas depois em todo paciente; monitorização contínua se qualquer medida vier acima de 12 mmHg

Esperado: Entre 5 e 7 mmHg, e sobretudo estável entre uma medida e a seguinte

Se não melhora: Pressão subindo aciona as medidas clínicas na ordem: corrigir balanço hídrico positivo, otimizar sedação e analgesia, considerar bloqueio neuromuscular, manter cabeceira em até 30 graus, descomprimir estômago por sonda em sifonagem e reto, e drenar coleção líquida quando houver. Acima de 20 mmHg com disfunção orgânica nova, a conduta é descompressão cirúrgica — e descompressão não espera meta fisiológica nenhuma

Débito urinárioHorário, pela mesma sonda que mede a pressão

Esperado: Recuperação progressiva com a perfusão. É o parâmetro mais barato da lista e o mais fácil de interpretar errado

Se não melhora: Oligúria aqui é multifatorial por definição: pré-renal pelo choque, renal por necrose tubular aguda depois de horas de hipoperfusão, e pós-renal funcional pela hipertensão intra-abdominal. Não atribua a nenhuma das três sem medir a pressão intracavitária e sem olhar a resposta ao volume — e não descarte a hipertensão intra-abdominal só porque o paciente urina

Pressão de platô e pressões de via aéreaA cada avaliação da mecânica ventilatória, e sempre que o ventilador alarmar

Esperado: Platô igual ou abaixo de 30 cmH2O e pressão de distensão igual ou abaixo de 15 cmH2O

Se não melhora: Platô que sobe sem alteração de parênquima que explique manda procurar queda da complacência da parede torácica e hipertensão intra-abdominal, medir a pressão intracavitária e indicar descompressão quando for o caso. Este é o detector que costuma avisar antes de alguém se lembrar de medir. E resista à tentação de resolver a hipoxemia com posição prona: peritoniostomia é contraindicação, e a própria hipertensão intra-abdominal é contraindicação relativa

Hemoglobina seriada e o débito do fechamento temporárioHemoglobina a cada 4 a 6 horas nas primeiras 24 horas; o curativo, a cada passagem pelo leito

Esperado: Hemoglobina estabilizando acima de 10 g/dL sem transfusão adicional, e débito pelo curativo diminuindo e clareando

Se não melhora: Sangue vivo em volume crescente pelo fechamento temporário, com hemoglobina caindo e necessidade transfusional que não cessa, é ressangramento — e a resposta é o centro cirúrgico agora, não mais uma rodada de hemocomponente. Secreção turva ou fecaloide indica deiscência ou contaminação e muda o planejamento da reoperação. Débito que some de repente em paciente que sangrava merece desconfiança: pode ser curativo obstruído, e não hemostasia

10

Onde o erro machuca

Chegar ao controle de danos como saída de uma laparotomia que deu errado

O dano: Quando a decisão vem depois de a fisiologia já ter acabado, ela não compra mais nada: o paciente entra na unidade de terapia intensiva com a tríade completa, e a taxa de sangramento secundário à coagulopatia nessa condição chega a 98%. A série brasileira com pH intraoperatório médio de 7,10 e excesso de bases de −14,4 teve 79,49% de mortalidade, a maioria nas primeiras 24 horas.

Como pegar a tempo: Trate o controle de danos como uma decisão que se toma cedo e por critério, não como um resgate. Na série prospectiva brasileira em que a estratégia funcionou, a escolha foi feita antes da chegada ao pronto-socorro, na chegada ou logo no início da cirurgia em 87% dos casos. Se você é o interno, o que está ao seu alcance é fazer os números aparecerem cedo: temperatura central, gasometria e contagem de bolsas ditas em voz alta a cada 20 a 30 minutos.

Abreviar quem não precisava, achando que é a conduta conservadora

O dano: Abdome aberto tem morbidade própria — fístula entérica, reinternações, múltiplas intervenções, ventilação prolongada e hérnia de parede. Um estudo mostrou que o fechamento temporário em pacientes com lesões menos graves aumentou a morbidade desse grupo, e uma casuística de 532 pacientes registrou queda de laparotomias abreviadas de 36,3% para 8,8% em dois anos acompanhada de redução significativa da mortalidade e do custo.

Como pegar a tempo: Peça o dado objetivo antes de aceitar a impressão. No estudo prospectivo de Curitiba, 6,5% dos pacientes operados sob a estratégia não tinham alteração hemodinâmica nem laboratorial que a justificasse, e 23,9% tinham apenas a hemodinâmica. Perguntar “qual foi a temperatura, o pH e o volume transfundido?” não é desafiar o preceptor: é oferecer a informação que sustenta a decisão dele.

Tratar o aquecimento como conforto — manta por cima e nada mais

O dano: O paciente continua hipotérmico, os fatores de coagulação continuam em hipometabolismo e cada unidade de plasma que entra é dinheiro jogado num sistema desligado. Pior: o coagulograma volta razoável porque a amostra é aquecida a 37 graus no laboratório, e a equipe conclui que a coagulação está resolvida enquanto o campo sangra difusamente.

Como pegar a tempo: Prescreva o reaquecimento como escada, com metas e horário — ambiente, roupa seca, manta e colchão térmico, líquidos aquecidos antes de entrar, irrigação de sondas gástrica e vesical com salina aquecida a 39 a 40 graus, e métodos de cavidade se a temperatura não passar de 35 graus. E lembre a régua: o ponto mais importante para corrigir a coagulopatia é tratar a hipotermia, não repor mais fator.

Corrigir a acidose com bicarbonato

O dano: O número melhora e a hipoperfusão continua. Você perde o marcador que estava funcionando — o excesso de bases e o pH eram justamente o que mostraria que o paciente ainda sangra ou que uma alça está isquêmica — e ganha uma sobrecarga de sódio e de gás carbônico num paciente cuja ventilação já está limitada pela pressão intra-abdominal.

Como pegar a tempo: Trate a causa: parar o sangramento, restaurar perfusão e subir a temperatura. A acidose deste paciente se autocorrige quando a oferta de oxigênio alcança a demanda, e o bicarbonato fica em segundo plano por decisão de quem escreveu a revisão, não por esquecimento. Se o excesso de bases não melhora com temperatura e perfusão razoáveis, a pergunta não é qual álcali usar — é onde ainda há sangue ou isquemia.

Não medir a pressão intra-abdominal, e explicar os sinais por outra coisa

O dano: A oligúria vira “ainda é o choque”, a pressão de platô alta vira “deve ser contusão pulmonar”, e a hipertensão intra-abdominal segue sustentada, prolongando ventilação, derrubando débito cardíaco por queda do retorno venoso e mantendo a isquemia esplâncnica que realimenta a acidose. Palpar o abdome não resolve: o exame físico tem acurácia de apenas 50% para detectá-la.

Como pegar a tempo: Meça. O método intravesical usa material que existe em qualquer unidade do país e leva poucos minutos: sonda de duas vias, coletor clampeado, 20 mL de soro, equipo como coluna de água, régua zerada na linha axilar média, leitura ao fim da expiração, resultado multiplicado por 0,74. Faça na admissão e seis horas depois em todo paciente que entra, e escreva a hora. Num hospital universitário de referência em trauma, 81,6% dos médicos entrevistados não mediam — e a justificativa era a ausência de protocolo do serviço, o que é uma lacuna que uma pessoa consegue começar a preencher.

Fechar a aponeurose sob tensão para “resolver” o abdome aberto

O dano: É a receita da síndrome compartimental abdominal: a sutura não segura, o edema visceral continua, e a parede vira um torniquete em volta das vísceras. O paciente volta ao centro cirúrgico em piores condições do que estava, agora com uma aponeurose lacerada pelos pontos.

Como pegar a tempo: Aceite o abdome aberto como dispositivo temporário e cuide dele como tal. Se o fechamento é difícil, o caminho é separação de componentes, tela colocada tardiamente e sem contato com alça, ou dispositivo de aproximação progressiva — e, quando nada disso está disponível, a hérnia ventral programada é o desfecho aceitável, não o fracasso. Existe ainda a fasciotomia anterior do reto abdominal, técnica pouco invasiva capaz de reduzir a pressão da ordem de 10 mmHg, cuja crítica é justamente a hérnia que ela deixa — um problema menor diante de risco iminente de vida.

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O que dizer ao paciente e à família

Esta conversa tem uma dificuldade que as outras do trauma não têm: você precisa explicar que a cirurgia foi interrompida de propósito, sem que isso soe como desistência ou como erro. A família espera ouvir “deu tudo certo” ou “não conseguimos”, e a resposta verdadeira não é nenhuma das duas. É “a cirurgia foi dividida em duas, e a primeira parte terminou”.

A régua deste bloco tem quatro partes e cabe em qualquer versão da conversa: diga o que foi feito, diga o que ficou para depois, diga o que precisa acontecer para a segunda cirurgia acontecer, e diga quando você volta para dar notícia. A família que ouve as quatro coisas não fica sem resposta — ela fica com uma resposta verdadeira, mesmo quando a notícia é ruim.

E há uma imagem específica que você vai precisar preparar, porque ela assusta mais do que qualquer palavra: em algum momento alguém vai entrar no leito e ver um plástico transparente onde deveria estar a barriga. Se a família for avisada antes, isso é um curativo. Se for surpreendida, é a confirmação de que algo terrível aconteceu.

Logo depois da primeira cirurgia, no corredor, quando a família pergunta se deu certo

A senhora pode sentar comigo um minuto? O Ubiratan perdeu muito sangue, e por causa disso o corpo dele chegou num ponto em que ficou frio demais e sem conseguir coagular direito. Quando isso acontece, continuar operando por mais duas ou três horas para consertar tudo de uma vez é mais perigoso do que parar. Então a equipe fez o mais urgente: estancou o sangramento e limpou a cavidade. O resto do conserto vai ser feito numa segunda cirurgia, quando ele estiver aquecido e mais estável. Isso não foi uma cirurgia que deu errado — foi uma cirurgia dividida em duas partes de propósito, e a primeira parte terminou.

Não diga: Não diga “correu tudo bem” nem “foi tudo tirado”. E não use as palavras “paramos no meio”: elas descrevem o gesto com precisão e o sentido ao contrário.

Antes da primeira visita ao leito, preparando a família para o abdome aberto

Antes da senhora entrar, preciso explicar uma coisa para não assustar. A barriga dele está coberta por um plástico transparente costurado na pele, em vez de estar fechada com pontos. Isso é de propósito e é um curativo, não um descuido. Os órgãos incham muito depois de um sangramento grande, e se a gente fechar por cima disso a pressão lá dentro sobe e prejudica o rim e a respiração dele. Então a barriga fica protegida assim até a segunda cirurgia. Vai parecer estranho de ver, e é normal ficar impressionada. Eu fico aqui do lado enquanto a senhora entra.

Não diga: Não minimize com “é só um curativo” antes de explicar por quê, e não descreva o conteúdo da cavidade em detalhe. A informação que a família precisa é a função, não a anatomia.

Quando perguntam quanto tempo vai demorar a segunda cirurgia

A segunda cirurgia normalmente acontece entre um e dois dias depois da primeira, mas não é o calendário que manda: é como o corpo dele responde. Estamos esperando três coisas — que a temperatura volte ao normal, que o sangue volte a coagular e que os exames que medem a circulação melhorem. Enquanto essas três não estiverem no lugar, operar de novo faria mal. Eu prefiro não marcar um dia com a senhora, porque se eu marcar e não acontecer, a senhora vai achar que piorou — e pode ser só que ainda não chegou a hora. Combinamos assim: eu venho falar com a senhora todo dia de manhã e toda vez que alguma coisa mudar.

Não diga: Não prometa data. E não diga “assim que ele estabilizar”, que é uma frase técnica sem conteúdo para quem escuta — diga quais são as três coisas que estão sendo esperadas.

Quando o paciente precisa voltar ao centro cirúrgico antes do previsto, por ressangramento ou por pressão alta dentro do abdome

Vim avisar que ele vai voltar para a sala de cirurgia agora, antes do que a gente tinha conversado. Aconteceu uma das duas coisas que não podem esperar — nesse caso, a pressão dentro da barriga subiu e começou a atrapalhar o rim e a respiração. A cirurgia de agora é para aliviar essa pressão. Não é a segunda cirurgia que a gente estava planejando; é uma cirurgia a mais, e depois dela o plano continua o mesmo. Não vou dizer que estou tranquilo, porque não estou, e a senhora perceberia. Vou dizer o que sei: ele está indo agora, a equipe está pronta, e eu volto para falar com a senhora assim que terminar.

Não diga: Não apresente a volta ao centro cirúrgico como parte do plano original quando ela é uma complicação, e não use “complicou” sem dizer o que complicou. Também não transmita otimismo que você não tem — a família aprende rápido a ler a diferença entre a sua voz e as suas palavras.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quando levar o paciente de volta ao centro cirúrgico: a janela de 24 a 48 horas ou a fisiologia, sem prazo

A janela de 24 a 48 horas como referência de planejamento

No estudo prospectivo do Hospital do Trabalhador, em Curitiba, cada cirurgião foi perguntado, logo depois da operação, em quanto tempo indicaria a reoperação. A resposta de 78,3% foi entre 24 e 48 horas; 17,4% responderam depois de 48 horas; 4,3% responderam entre 12 e 24 horas; e nenhum indicaria antes de 12 horas. A série de cinco anos do Hospital Universitário Cajuru descreve permanência média de 41,75 horas na unidade de terapia intensiva depois da primeira cirurgia, o que é a mesma janela por outro caminho. Quem sustenta essa posição argumenta que o prazo organiza a logística — vaga de sala, equipe, reserva de hemocomponente — e que um alvo declarado impede que o paciente fique esquecido com compressas dentro por tempo indefinido, num serviço onde outras urgências competem pelo mesmo centro cirúrgico.

Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume 45, número 1, e1474, 2018; e volume 33, número 4, páginas 215 a 219, 2006

Sem prazo: quem autoriza a volta são os parâmetros fisiológicos

A revisão brasileira sobre o estado atual do controle de danos afirma que não há período mínimo nem máximo para o retorno ao centro cirúrgico, e que muito mais do que o tempo são as condições fisiológicas que determinam se o paciente está apto. O mesmo texto registra que a escolha do momento é controversa entre cirurgiões e descreve três posturas que convivem: reoperar assim que a temperatura passar de 36 graus e o tempo de sangramento normalizar; permitir tempo adicional para otimizar a oferta de oxigênio e mobilizar o líquido do terceiro espaço; ou antecipar por causa do risco infeccioso, que cresce com o tempo de permanência das compressas. Quem sustenta essa posição argumenta que operar um paciente ainda hipotérmico e coagulopata porque o relógio marcou 48 horas repete exatamente o erro que a estratégia foi criada para evitar.

Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume 40, número 2, páginas 142 a 151, 2013

Como decidir

Use a janela de 24–48 horas para planejar sala, equipe e hemocomponentes; a condição clínica orienta o momento efetivo do retorno. Reavalie temperatura, excesso de bases, lactato, coagulação e necessidade de suporte conforme as metas apresentadas. Se houver motivo para antecipar ou adiar, registre-o e atualize o plano. Compressas mantidas além de 48–72 horas aumentam a preocupação infecciosa. Ressangramento e síndrome compartimental abdominal exigem avaliação imediata, sem aguardar a janela programada.

Na reoperação, restaurar o trânsito com anastomose tardia ou fazer estoma

Anastomose tardia, para poupar o paciente do estoma

A revisão brasileira registra que houve, por algum tempo, um certo consenso favorável à anastomose tardia depois de lesões extensas de cólon. O argumento era duplo: evitava criar estoma em pacientes nos quais a anastomose primária não fora possível na primeira cirurgia, e, segundo os trabalhos daquele período, não aumentava o número de complicações. O mesmo texto delimita as condições em que a anastomose tardia era considerada factível dentro da reoperação programada: ausência de acidose grave, ausência de edema de parede intestinal e ausência de infecção intra-abdominal. Quem sustenta essa posição acrescenta que o estoma tem morbidade própria, exige uma terceira operação para ser fechado e tem custo social alto para um paciente jovem que voltará a trabalhar.

Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume 40, número 2, páginas 142 a 151, 2013

Colostomia terminal tardia, porque a anastomose nesse terreno falha mais

A mesma revisão traz o estudo retrospectivo de Weinberg, que reabriu a discussão ao observar aumento significativo da incidência de complicações pós-operatórias nos pacientes submetidos a ressecção com anastomose tardia em comparação com os submetidos a ressecção com colostomia terminal tardia — 12% contra 3%, com significância estatística. Os autores da revisão concluem que isso levanta de novo a dúvida e sugere que o estoma pode ser a alternativa mais segura, apesar de ter suas próprias complicações. Quem sustenta essa posição lembra que a anastomose deste cenário é feita em alça que passou por horas de hipoperfusão, edema e manipulação, e que uma deiscência de anastomose num abdome que ainda está aberto é uma catástrofe de outra ordem.

Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume 40, número 2, páginas 142 a 151, 2013

Como decidir

A equipe avalia acidose, edema intestinal e infecção intra-abdominal antes de reconstruir o trânsito. Persistência desses fatores pesa contra a anastomose; sua ausência, com recuperação fisiológica, pode permitir reconstrução tardia. Considere também o risco de deiscência, a necessidade de nova operação e a assistência disponível ao paciente com estoma após a alta. A decisão deve integrar as condições locais e sistêmicas encontradas na reoperação.

A oligúria serve como sinal precoce de síndrome compartimental abdominal

Sim, é o sinal precoce reconhecido, e é assim que a maioria a usa

No estudo transversal com 38 médicos de um hospital universitário terciário de Curitiba, referência estadual em traumatologia, 71,1% dos entrevistados apontaram a oligúria como o sinal precoce de síndrome compartimental abdominal. A própria carta que contesta o uso do sinal reconhece haver embasamento científico para a afirmação nos documentos da sociedade mundial da síndrome compartimental abdominal. Quem sustenta essa posição argumenta que o débito urinário é medido de hora em hora em qualquer unidade de terapia intensiva do país, não custa nada, e funciona como gatilho para ir medir a pressão intracavitária num serviço onde a maioria dos médicos não mede.

Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume 45, número 3, e1884, 2018

Não à beira do leito: no traumatizado a oligúria é multifatorial

Em carta ao editor da mesma revista, um membro da sociedade mundial da síndrome compartimental abdominal e da disciplina de cirurgia do trauma da Universidade de Campinas escreve que, embora exista embasamento no consenso, na prática clínica esse sinal perde relevância. O argumento é direto: a oligúria do paciente crítico é multifatorial, e um traumatizado tem várias razões para desenvolvê-la — pré-renal pelo choque hemorrágico e renal por necrose tubular aguda, entre outras. Daí a conclusão em duas mãos: a oligúria não pode ser atribuída primariamente à hipertensão intra-abdominal, e o diagnóstico de hipertensão intra-abdominal não pode ser concluído só pela presença de oligúria, porque nenhuma das duas afirmações se sustenta na maioria dos casos reais.

Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume 46, número 2, e2001, 2019

Como decidir

Oligúria é motivo para investigar, mas não confirma nem exclui síndrome compartimental abdominal. Meça a pressão intra-abdominal quando houver suspeita e procure causas associadas de disfunção. O critério apresentado combina pressão acima de 20 mmHg e disfunção orgânica nova. Diurese preservada não afasta hipertensão intra-abdominal, e redução da diurese pode decorrer de hipovolemia ou lesão renal.

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O raciocínio, em voz alta

3h50 da mesma quarta-feira. Ubiratan Freire, 31 anos, chega à unidade de terapia intensiva vindo do centro cirúrgico. Intubado e sedado, em noradrenalina em dose baixa. Temperatura esofágica 34,8 graus, pressão 96 por 58, frequência 118, saturação 94% com fração inspirada de 60%. Gasometria da saída da sala: pH 7,16, excesso de bases −11, lactato 5,4. Hemoglobina 8,9. Plaquetas 74 mil. Abdome coberto por bolsa plástica costurada à pele, com dez compressas dentro segundo o registro da sala. Cólon descendente ressecado com os dois cotos grampeados, sem anastomose e sem estoma. Baço retirado. Hematoma retroperitoneal esquerdo tamponado. Recebeu 11 unidades de hemácias no total. Você é o interno da unidade, e o residente está admitindo outro paciente na box ao lado.

  1. O que penso ao receber o paciente

    Antes de olhar qualquer prescrição, faço a leitura do círculo: 34,8 graus, pH 7,16, plaquetas 74 mil. Os três vértices estão presentes, e é exatamente por isso que ele está aqui em vez de estar terminando a cirurgia. Isso reordena a minha lista: a primeira coisa não é antibiótico nem profilaxia, é temperatura — porque enquanto ele estiver a 34,8 graus, qualquer plasma que eu peça vai para um sistema enzimático desligado. Aquecer é o tratamento da coagulopatia, não o conforto dele.

  2. O que faço nos primeiros trinta minutos

    Subo a escada térmica inteira de uma vez, não item por item: sala aquecida, roupa e campos úmidos fora, manta e colchão térmico, todos os líquidos aquecidos antes de entrar. Prescrevo irrigação da sonda gástrica e da vesical com salina aquecida a 39 a 40 graus. Ajusto a ventilação para protetora — ele tem 1,75 m, então o peso predito é 50 mais 0,91 vezes 22,6, cerca de 70,6 kg, e o volume corrente de 6 mL por quilo dá aproximadamente 423 mL — com platô mirando 30 cmH2O e distensão até 15. E defino a meta em voz alta para a enfermagem: acima de 37 graus até as 7h50, que é a quarta hora aqui dentro.

  3. O exame que ninguém pediu e que eu faço

    Peço o material da pressão intra-abdominal e meço na admissão. Sonda de duas vias, coletor clampeado logo depois da conexão, bexiga vazia, 20 mL de soro pelo portal lateral, um minuto para equalizar, equipo virando coluna de água, régua zerada na linha axilar média, leitura no fim da expiração. Dá 12 cmH2O, que multiplicados por 0,74 são aproximadamente 8,9 mmHg. Anoto o valor e a hora, e programo a repetição para as 9h50. Faço isso porque a medida de agora não vale por si: ela vale como primeiro ponto da curva, e sem ela a de daqui a seis horas não vai significar nada.

  4. O que prescrevo e o que deliberadamente não prescrevo

    Prescrevo profilaxia de úlcera de estresse, porque ele soma coagulopatia, ventilação mecânica que vai passar de 48 horas, politrauma grave e choque com vasopressor — omeprazol 40 mg endovenoso uma vez ao dia, já que ele está em dieta zero e sem trânsito. Prescrevo antibiótico profilático e controle glicêmico com alvo abaixo de 180. Não prescrevo heparina: ele saiu da sala há vinte minutos com o abdome cheio de compressas, e sangramento ativo ou alto risco de sangramento contraindicam a profilaxia farmacológica. Prescrevo compressão pneumática intermitente no lugar, e escrevo na evolução a razão da troca e a condição para revertê-la.

  5. Às 9h50, o segundo ponto da curva — e o que ele muda

    Temperatura 36,9. Lactato caiu de 5,4 para 3,1. Excesso de bases de −11 para −6. Hemoglobina estável em 9,1 sem transfusão nova. A pressão intra-abdominal, porém, subiu de 8,9 para 15 mmHg. Isso é hipertensão intra-abdominal de grau I, e o que ela me diz é que a ressuscitação está funcionando e cobrando o preço dela: o líquido que trouxe o lactato para baixo está indo para o interstício e para a alça. Aciono as medidas clínicas — reviso o balanço hídrico, titulo melhor a sedação, mantenho a cabeceira em 30 graus, ponho a sonda gástrica em sifonagem — e passo a medir de quatro em quatro horas. Não é hora de descomprimir: não há disfunção nova, o rim está urinando 0,8 mL por quilo por hora e o platô está em 24.

  6. Como eu passo esse paciente para o plantão seguinte

    A passagem tem cinco itens e eu os digo na mesma ordem toda vez. Primeiro: dez compressas dentro, colocadas às 3h10 — o relógio do risco infeccioso começou ali. Segundo: trânsito intestinal interrompido, dois cotos grampeados, sem estoma, dieta enteral fora de questão. Terceiro: a curva térmica, 34,8 às 3h50 e 36,9 às 9h50. Quarto: a curva da pressão intra-abdominal, 8,9 e 15, com as horas. Quinto: as metas que faltam para a reoperação e as duas condições que a antecipam sem discussão, que são ressangramento e pressão acima de 20 com disfunção nova. Se eu passar só o diagnóstico e a prescrição, o plantão seguinte herda um paciente; se eu passar as duas curvas, ele herda uma decisão em andamento.

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Faça você

Dez dias depois, outro plantão. Sandoval Piedade, 44 anos, motorista, colisão frontal em rodovia. Chegou às 20h05 hipotenso, com fratura de bacia e líquido livre abdominal. Foi para a sala às 20h40. Laparotomia com hemostasia hepática por tamponamento, ressecção de segmento de delgado com cotos grampeados e fechamento temporário com bolsa plástica; a bacia recebeu fixador externo. Saiu da sala às 23h15 e chegou à unidade a 35,1 graus, com pH 7,18, excesso de bases −9, lactato 4,8. Recebeu 8 unidades de hemácias. Nas primeiras seis horas tudo caminhou: às 5h15 está a 37,1 graus, lactato 2,2, excesso de bases −3, hemoglobina 10,2 estável sem transfusão desde a meia-noite, noradrenalina desmamada, plaquetas 96 mil, tempo de protrombina 14 segundos. Você mediu a pressão intra-abdominal na admissão — 10 mmHg — e mede agora, às 5h15: 23 mmHg. Nas últimas duas horas o débito urinário caiu de 0,9 para 0,3 mL por quilo por hora e a pressão de platô subiu de 23 para 33 cmH2O, sem alteração nova na radiografia de tórax. O plantonista de cirurgia está no centro cirúrgico com outro caso e pede que você diga, ao telefone, o que está acontecendo e o que você quer.

  1. Primeiro passo — separe o que melhorou do que piorou

    Duas histórias estão correndo neste paciente ao mesmo tempo, e misturá-las é o que faz alguém dar a notícia errada ao telefone. A primeira é a ressuscitação, e ela deu certo: temperatura acima de 37, lactato 2,2, excesso de bases −3, hemoglobina estável sem transfusão há cinco horas, vasopressor desmamado. Pela tabela de metas, este paciente estaria autorizado a voltar ao centro cirúrgico. A segunda história é outra coisa, e é ela que está no telefone.

  2. Segundo passo — nomeie o que os três números novos formam juntos

    Pressão intra-abdominal de 23 mmHg, débito urinário caindo de 0,9 para 0,3 e pressão de platô subindo de 23 para 33 sem causa pulmonar nova não são três problemas: são um só, visto por três janelas. A pressão medida acima de 20 mmHg com disfunção orgânica nova — renal e respiratória — preenche a definição de síndrome compartimental abdominal. E repare no detalhe que a diretriz de ventilação mecânica antecipa: platô que sobe sem alteração de parênquima manda procurar queda de complacência de parede e hipertensão intra-abdominal, e não subir a pressão do ventilador.

  3. Terceiro passo — descarte as saídas que parecem razoáveis

    Repor volume para melhorar a diurese pioraria a pressão intracavitária, porque o balanço positivo é justamente uma das causas evitáveis dela. Aumentar a pressão do ventilador trataria o mostrador e não a causa. Virar o paciente em prona está contraindicado, porque peritoniostomia consta da lista de contraindicações e a própria hipertensão intra-abdominal é contraindicação relativa. E as medidas clínicas de redução — sedação, bloqueio neuromuscular, descompressão gástrica, cabeceira — cabem em hipertensão de grau I ou II, não em síndrome instalada com dois órgãos disfuncionando.

  4. Quarto passo — o que você diz ao telefone

    Diga na ordem em que a informação decide: o número, a disfunção, a curva. “Pressão intra-abdominal 23 mmHg agora, era 10 na admissão. Débito urinário caiu de 0,9 para 0,3 nas últimas duas horas e o platô subiu de 23 para 33 sem alteração nova no raio X. A ressuscitação está pronta: 37,1 graus, lactato 2,2, excesso de bases −3, hemoglobina estável sem transfusão desde meia-noite.” Uma frase com curva vale por cinco frases com adjetivo.

  5. Último passo — o pedido, e a justificativa em uma frase

    Termine a ligação dizendo o que você quer e por quê. A frase precisa conter três coisas: o que você está pedindo, o critério que autoriza o pedido, e o que muda se esperar. Escreva-a em voz alta antes de olhar a resposta — e repare que uma das informações da vinheta, que parece só um detalhe favorável, na verdade resolve dois problemas com uma única ida à sala.

  6. Continuidade do caso e prática do internato

    Na visita a Ubiratan, use a descrição operatória para explicar o objetivo de cada cuidado e o que precisa ser decidido antes de alimentação e fechamento.

  7. Questão integrativa 1

    Por que abreviar a operação de Ubiratan?

  8. Questão integrativa 2

    Hipocalcemia importa mesmo com hemoglobina corrigida?

  9. Questão integrativa 3

    A reoperação pode esperar indefinidamente o lactato normalizar?

  10. Questão integrativa 4

    Toda segunda operação exige anastomose?

  11. Questão integrativa 5

    Pode iniciar dieta enteral sem conferir o intestino deixado em descontinuidade?

  12. Questão integrativa 6

    O que precisa constar na passagem à UTI?

Ver como fecharíamos

Você pede o centro cirúrgico agora, para descompressão — e pede sem condicionar a nada, porque este é um dos dois cenários que dispensam meta fisiológica. A conta é esta: pressão intra-abdominal sustentada acima de 20 mmHg associada a disfunção orgânica nova define síndrome compartimental abdominal, e a conduta dela é descompressão cirúrgica. Aqui há duas disfunções novas, renal e respiratória, e a curva de cada uma acompanha a curva da pressão. O detalhe que fecha o raciocínio é conveniente e vale dizer em voz alta: as metas fisiológicas deste paciente já estão atingidas, de modo que a mesma ida à sala resolve os dois problemas — descomprime e permite a reoperação programada, com retirada das compressas hepáticas depois de umidificadas com solução aquecida e restauração do trânsito, se o terreno permitir. Enquanto a sala se prepara, três coisas suas: suspender qualquer expansão volêmica que não seja imprescindível, otimizar sedação e analgesia, e manter a cabeceira em até 30 graus. E não fechar a aponeurose no fim — o fechamento sob tensão é o que devolveria o paciente exatamente ao ponto de onde ele está saindo. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Porque a fisiologia deteriorada pode tornar o reparo definitivo prolongado mais perigoso; controle rápido de hemorragia e contaminação permite ressuscitar e retornar. 2. Sim. Pode prejudicar coagulação e função cardiovascular; acompanhar cálcio ionizado e corrigir conforme protocolo. 3. Não. Deve haver plano, usualmente 24–48 horas, e antecipação por deterioração ou pendência urgente. 4. Não. A escolha depende de viabilidade, perfusão, edema, contaminação e condição global. 5. Não. Confirmar anatomia, continuidade e acesso seguro com a cirurgia e nutrição. 6. Lesões tratadas e pendentes, compressas, segmentos intestinais, perdas e componentes, drogas e resposta, fechamento temporário e prazo e gatilhos de reexploração.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O controle de danos prioriza hemostasia e contenção da contaminação, com reconstrução após recuperação fisiológica. Ressecar o íleo inviável e fechar os cotos, sem anastomose imediata, e tamponar o fígado são medidas compatíveis com essa estratégia. Para hematoma renal de zona II estável, a EAST recomenda condicionalmente evitar exploração mesmo em paciente instável submetido a laparotomia. Isso não autoriza deixar todo hematoma penetrante fechado: expansão, ruptura, sangramento persistente e suspeita de lesões associadas mudam a decisão. Após estabilização, imagem e evolução orientam observação ou intervenção; embolização não é automática para todo hematoma contido.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

No sétimo dia, recupere cinco coisas, e recupere na ordem em que elas aparecem na sala. Primeira: a lógica invertida — passado certo ponto, a operação vira agressão sobre uma reserva que acabou, e por isso se troca restaurar a anatomia por restaurar a fisiologia. Segunda: a tríade como círculo, e os números que mostram o formato do salto — 40% com hipotensão, 50% com hipotermia, 60% com acidose, 98% com os três. Terceira: os gatilhos que você reconhece na sala, com faixa e tudo — temperatura abaixo de 35 graus, pH abaixo de 7,2, sistólica abaixo de 110 no início da operação, mais de 1.200 mL de hemácias no ato, tempo de cirurgia acima de 90 minutos, e o sangramento difuso sem vaso, que vale mais que o coagulograma porque o coagulograma é lido a 37 graus. Quarta: o que se faz na primeira cirurgia — hemostasia, contenção de contaminação, fechamento temporário — e o que não se faz, que é anastomose, estoma, reparo vascular complexo, exploração de hematoma retroperitoneal e sutura de aponeurose sob tensão. Quinta: os dois números da pressão intra-abdominal, 12 e 20, e a diferença entre eles, que é a disfunção orgânica nova. Se você conseguir dizer as cinco em voz alta sem consultar, o capítulo está no lugar certo.

Em 30 dias

No trigésimo dia, o que precisa estar automático é o que você faz com as mãos e o que você escreve. Saiba executar a medida intravesical da pressão intra-abdominal sem consultar nada: sonda de duas vias, coletor clampeado, bexiga vazia, 20 mL de soro pelo portal lateral, um minuto de equalização, equipo como coluna de água, zero da régua na linha axilar média, leitura no fim da expiração, resultado multiplicado por 0,74 — e saiba que ela se faz na admissão da unidade e seis horas depois, em todo paciente que entra, porque o que vale é a tendência. Saiba de cor a escada do reaquecimento e a meta de passar de 37 graus até a quarta hora. Saiba os cinco itens da passagem de plantão do abdome aberto: quantas compressas e desde que hora, estado do trânsito intestinal, tipo de fechamento temporário, a curva térmica e a curva da pressão intracavitária. E saiba a frase que você vai dizer à família antes da primeira visita ao leito, porque ela vai ser necessária de madrugada, sem tempo de ensaiar: a barriga está coberta por um plástico de propósito, é um curativo, e existe para que a pressão lá dentro não prejudique o rim e a respiração.

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Agora atenda

Agora atenda. O paciente do simulador chega de trauma grave e a operação já está em curso quando você entra na sala. Não espere que alguém lhe peça os números: mantenha o relógio da cirurgia, peça temperatura central — não axilar —, gasometria seriada e a contagem de hemácias transfundidas com horário, e diga cada valor em voz alta comparado com o anterior. Quando a decisão de abreviar for tomada, registre por escrito quantas compressas ficaram dentro, onde, e a que horas. Na unidade de terapia intensiva, comece pela temperatura antes de qualquer profilaxia, e meça a pressão intra-abdominal na admissão mesmo que ninguém tenha pedido — a segunda medida, seis horas depois, só vale se existir a primeira. Antes da primeira visita da família ao leito, explique o abdome aberto com as palavras que você já treinou, e não prometa data para a segunda cirurgia. No fim, confira se a sua passagem de plantão contém duas curvas com horários diferentes — a térmica e a da pressão intracavitária. É a única informação capaz de provar que este paciente estava melhorando, ou que não estava.

Cirurgia de controle de danos e tríade letal — Internato | OsceLabs