PediatriaCardiologia Pediátrica

Sopro cardíaco na criança

Sopro cardíaco inocente versus patológico na criança

A prova quase nunca pergunta o nome do sopro. Ela monta a consulta e cobra a decisão: tranquilizar, investigar ou encaminhar hoje.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menino de 8 anos é encaminhado por sopro detectado em consulta de rotina. É assintomático, tem bom desenvolvimento e prática esportiva normal. Ao exame: FC 88 bpm, PA 100/62 mmHg, pulsos simétricos, sem cianose. Ausculta: sopro sistólico ejetivo 2/6 em borda esternal esquerda média, curto, musical, que diminui de intensidade quando ele senta e fica em pé, sem irradiação, com B2 normal e desdobramento fisiológico. Qual é a conduta mais adequada?

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Como esse tema cai

Entre 50% e 70% das crianças terão um sopro cardíaco em algum momento da infância ou da adolescência, com pico na idade escolar, e a esmagadora maioria não tem doença nenhuma. É por isso que o sopro é a principal causa de encaminhamento de criança ao cardiologista pediátrico — e é por isso que a prova raramente pergunta o que é um sopro de Still. Ela monta uma consulta inteira e cobra a decisão que vem depois: tranquilizar a família, pedir ecocardiograma ou encaminhar hoje.

O que decide essa conta não é o sopro sozinho. É o pacote: idade da criança, presença de sintoma, como está a segunda bulha, se há click, o que os pulsos femorais dizem, como vai a curva de peso e o que a mudança de postura faz com o sopro. Um sopro 2/6 vibratório num escolar corado que joga futebol é uma coisa; o mesmo 2/6 num lactente que sua para mamar e não ganha peso é outra completamente diferente.

Guarde a hierarquia, porque ela resolve a maioria das questões: existem achados que sozinhos derrubam a hipótese de sopro inocente — sopro diastólico, frêmito, click, desdobramento fixo de B2, pulso femoral fraco. Nenhum deles precisa de exame complementar para ser levado a sério, e nenhum exame complementar normal desfaz qualquer um deles.

03

O que muda decisão

Por que a maioria dos sopros da infância não é doença

Sopro é o som da turbulência do fluxo sanguíneo. A criança reúne todas as condições para produzi-la sem ter defeito nenhum: parede torácica fina, distância curta entre o coração e a membrana do estetoscópio, frequência cardíaca alta e débito cardíaco proporcionalmente grande. Qualquer estado hiperdinâmico — febre, anemia, ansiedade, exercício recente, hipertireoidismo — acelera o fluxo e faz aparecer, ou aumentar, um sopro que é apenas funcional.

Daí a prevalência que a SBP registra: de 50% a 70% das crianças apresentam sopro em algum momento, concentrado na idade escolar. Numa criança assintomática dessa faixa, com sopro sistólico isolado, a probabilidade pré-teste de cardiopatia estrutural é baixa. Isso não é licença para ignorar o achado — é exatamente o motivo pelo qual as características do sopro e o resto do exame físico carregam tanto peso na decisão.

A consequência prática mais rentável é simples: sopro que surge durante um quadro febril e desaparece com a criança afebril é a história clássica do sopro funcional. Reavaliar fora do quadro agudo, sem pressa, resolve boa parte desses casos sem consumir uma vaga de ecocardiograma. O que não se faz é dar alta com 'tem um sopro' escrito no prontuário e nenhuma característica descrita: na consulta seguinte, com outro profissional, esse registro vira encaminhamento.

A régua de intensidade e o que ela realmente decide

A intensidade se gradua de 1 a 6. Grau 1/6 é muito fraco, só audível com concentração e silêncio; 2/6 é fraco, mas audível assim que o estetoscópio encosta; 3/6 é claramente audível e ainda sem frêmito; 4/6 é forte e vem acompanhado de frêmito palpável; 5/6 é audível com apenas a borda do estetoscópio encostada no tórax; 6/6 é audível com o estetoscópio afastado da pele.

O corte que interessa é o quatro, porque ele é o frêmito. Frêmito não é sopro inocente — ponto final. Na prática, sopro de 3/6 já sai da zona de conforto e pede o resto do algoritmo com rigor; sopro com frêmito é patológico até prova em contrário e vai para ecocardiograma.

O que a régua não mede é gravidade. Uma comunicação interventricular muscular pequena produz sopro alto e rude justamente porque o orifício estreito gera muita turbulência, e pode nunca repercutir. Uma comunicação interventricular grande, com hipertensão pulmonar instalada, pode ter sopro discreto porque o gradiente entre os ventrículos caiu. Vale o mesmo para o recém-nascido em baixo débito por estenose aórtica crítica: o sopro pode ser modesto e a criança estar à beira do colapso. Sopro alto assusta mais; sopro discreto em criança sintomática mata mais.

Os cinco sopros inocentes que caem na prova

O sopro vibratório de Still é o mais cobrado: aparece entre 2 e 7 anos, é mesossistólico, ouvido na borda esternal esquerda baixa e no ápice, com timbre musical, vibratório — a comparação clássica é com corda de instrumento — e intensidade de 1 a 3/6. Aumenta em decúbito dorsal, com febre e com anemia; diminui ou desaparece quando a criança senta, fica em pé ou faz Valsalva.

O sopro sistólico de fluxo pulmonar é do escolar e do adolescente: ejetivo, suave, curto, 1 a 2/6, no segundo espaço intercostal esquerdo, com B2 preservada e desdobramento que varia com a respiração. O sopro supraclavicular (ou carotídeo) pode ocorrer em qualquer idade, é ejetivo, ouvido acima das clavículas, e reduz de forma característica com a hiperextensão dos ombros.

O zumbido venoso é o único inocente contínuo, e é justamente por isso que ele cai: ocorre entre 3 e 8 anos, é ouvido na região infraclavicular direita com a criança sentada, e desaparece com o decúbito dorsal, com a compressão da veia jugular ipsilateral e com a rotação da cabeça. É o que o separa da persistência do canal arterial, que é infraclavicular esquerda, tem timbre 'em maquinaria' e não se altera com nenhuma dessas manobras.

Por fim, a estenose fisiológica de ramos pulmonares do recém-nascido: sopro ejetivo suave em foco pulmonar que irradia para as axilas e para o dorso, presente nas primeiras semanas e que some por volta dos 3 a 6 meses, com o crescimento das artérias pulmonares. É o único sopro neonatal que se aceita como benigno, e apenas quando o restante do exame — pulsos, saturação pré e pós-ductal, ausculta e curva de peso — é normal.

O que todos têm em comum é o retrato que a SBP descreve: são sistólicos (com a exceção do zumbido venoso, que é contínuo), curtos, de baixa intensidade, sem frêmito, sem estalido e sem galope, sem irradiação relevante, com B2 normal, e mudam de intensidade com a posição.

Tórax infantil com focos de ausculta cardíaca, ponto supraclavicular direito, região infraclavicular direita e estetoscópio na borda esternal esquerda baixa.
Onde cada sopro se ouve: Still na borda esternal esquerda baixa, sopro de fluxo no foco pulmonar, zumbido venoso na região infraclavicular direita e sopro supraclavicular acima da clavícula.

O que nunca é inocente

Nenhum sopro diastólico é inocente. Não existe essa categoria. Sopro diastólico significa regurgitação aórtica ou pulmonar, ou estenose de valva atrioventricular, e o caminho é sempre ecocardiograma. Também estão fora do repertório benigno o sopro holossistólico — comunicação interventricular, insuficiência mitral ou tricúspide — e o sopro contínuo que não seja zumbido venoso.

Frêmito (grau 4/6 ou mais) encerra a discussão. Click de ejeção protossistólico aponta para valva aórtica ou pulmonar bicúspide ou estenótica; click mesossistólico aponta para prolapso mitral. E a segunda bulha diz mais do que o sopro em muitos casos: desdobramento amplo e fixo é a assinatura da comunicação interatrial, B2 única sugere valva única, atresia ou hipertensão pulmonar, e P2 hiperfonética sugere hipertensão pulmonar.

Preste atenção na direção da manobra, porque a prova adora inverter: reduzir o retorno venoso — ficar em pé, fazer Valsalva — diminui o sopro inocente e diminui o sopro da estenose aórtica valvar, mas aumenta o sopro da cardiomiopatia hipertrófica, porque o ventrículo mais vazio agrava a obstrução dinâmica da via de saída. Sopro que fica mais alto quando a criança se levanta não é funcional.

Somam-se os contextos que mudam a probabilidade antes mesmo da ausculta: sopro em recém-nascido, sopro que irradia para o dorso ou para a região interescapular, criança com síndrome genética conhecida (Down, Turner, Williams, Noonan, deleção 22q11) e história familiar de morte súbita precoce ou cardiomiopatia. Nesses cenários, o limiar para pedir ecocardiograma é mais baixo, mesmo com sopro de características benignas.

O exame que fecha o caso não é a ausculta do sopro

Pulsos femorais são obrigatórios em toda criança com sopro, e a omissão deles é a falha mais cara do exame. Pulso femoral fraco, ausente ou com atraso em relação ao braquial significa coarctação da aorta até prova em contrário. Meça a pressão arterial nos quatro membros: gradiente de 20 mmHg ou mais entre membro superior e membro inferior é anormal e sustenta a hipótese.

A oximetria de pulso pré-ductal (membro superior direito) e pós-ductal (qualquer membro inferior) segue valendo mesmo quando o sopro é bonito: saturação abaixo de 95% em qualquer um dos pontos, ou diferença maior que 3 pontos percentuais entre eles, é resultado alterado e pede avaliação. Da mesma forma, cianose que não melhora com oferta de oxigênio aponta para shunt direita-esquerda, não para doença pulmonar.

No lactente, a insuficiência cardíaca não se apresenta como dispneia aos esforços — o esforço dele é mamar. Procure sudorese durante as mamadas, mamadas fracionadas e demoradas, interrupções para respirar, taquipneia sem febre, ganho de peso ruim e hepatomegalia. A tríade taquipneia, sudorese às mamadas e curva de peso caindo, com sopro, é insuficiência cardíaca por shunt esquerda-direita até que se prove o contrário.

Complete com o que o resto do corpo entrega: fácies e dismorfias sindrômicas, perfusão periférica, precórdio hiperdinâmico, ictus desviado, presença de galope. Um único desses achados, mesmo com sopro de 2/6, tira o caso da via do sopro inocente.

Que exame pedir — e o que cada um não faz

O ecocardiograma com Doppler é o único exame que responde à pergunta anatômica, e é ele que define a conduta quando há suspeita. O critério de uso apropriado publicado em 2014 pela cardiologia pediátrica norte-americana organiza bem a indicação: no sopro presumidamente inocente, em criança sem sintoma, sem sinal de doença cardiovascular e com história familiar benigna, o ecocardiograma inicial é classificado como raramente apropriado; na presença de qualquer sintoma, sinal alterado ou sopro com características patológicas, passa a apropriado.

O eletrocardiograma e a radiografia de tórax não são exames de triagem de sopro. Resultado normal não afasta cardiopatia estrutural, e resultado alterado costuma apenas confirmar o que o exame físico já apontava. Eles têm papel quando a pergunta é outra: arritmia, sobrecarga de câmaras, avaliação de área cardíaca e trama vascular pulmonar na suspeita de insuficiência cardíaca, ou o conjunto de sinais que acompanha a coarctação. Pedi-los para 'tranquilizar' produz falsa segurança e atrasa o encaminhamento.

A oximetria de pulso da triagem neonatal também tem alvo próprio: cardiopatia congênita crítica dependente de canal arterial. Resultado normal na maternidade não exclui comunicação interventricular, comunicação interatrial, persistência do canal arterial nem coarctação de apresentação tardia — todas acianóticas.

Regra de encaminhamento que fecha o capítulo: sopro em recém-nascido, sopro com qualquer característica patológica, sopro em criança sintomática, alteração de pulsos ou de saturação, e história familiar de morte súbita precoce vão para avaliação com cardiologista pediátrico e ecocardiograma. Nos casos com insuficiência cardíaca já instalada ou suspeita de lesão dependente de canal, isso não entra em fila de rotina.

O que dizer à família quando o sopro é inocente

Diga o nome e diga o que ele significa: sopro inocente, ou funcional, é o som de um coração normal com fluxo normal. Não é doença, não é 'coração fraco', não vira doença com o tempo e não exige acompanhamento cardiológico indefinido. Essa conversa evita que a família chegue à próxima consulta apresentando a criança como cardiopata.

Sopro inocente não restringe atividade física nem esporte competitivo, não indica profilaxia de endocardite infecciosa e não pede ecocardiograma de controle. Reavaliar é razoável na consulta de rotina seguinte, especialmente se o sopro apareceu durante um quadro febril.

Registre no prontuário e na Caderneta de Saúde da Criança as características auscultadas — tempo no ciclo, foco, timbre, intensidade, resposta à mudança de postura e o estado dos pulsos femorais. É esse registro que permite ao próximo profissional reconhecer o mesmo sopro em vez de reiniciar a investigação. E oriente o retorno antes do previsto se surgir cansaço desproporcional, sudorese às mamadas, síncope ou dor torácica ao esforço, cianose ou piora da curva de peso.

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Triagem do sopro em cinco perguntas

As cinco perguntas abaixo são feitas na consulta, com estetoscópio e mão, antes de qualquer pedido de exame. Cinco respostas favoráveis, em criança fora do período neonatal, definem sopro provavelmente inocente. Uma única resposta desfavorável leva a ecocardiograma e avaliação com cardiologista pediátrico.

  1. 1A criança está assintomática? Sudorese às mamadas, mamadas interrompidas, ganho de peso ruim, cansaço desproporcional aos pares, síncope ao esforço, dor torácica ao esforço ou cianose tiram o caso da via do sopro inocente.
  2. 2O sopro é sistólico, curto, de baixa intensidade e sem frêmito? Qualquer sopro diastólico, holossistólico, contínuo fora do zumbido venoso, ou com frêmito, encerra a triagem aqui.
  3. 3A segunda bulha é normal e não há click? Desdobramento amplo e fixo, B2 única, P2 hiperfonética, click de ejeção ou galope pedem ecocardiograma.
  4. 4Os pulsos femorais estão cheios e simétricos, sem atraso braquiofemoral, e a pressão dos quatro membros é concordante? Gradiente de 20 mmHg ou mais entre membro superior e inferior sustenta coarctação da aorta.
  5. 5O sopro muda com a postura na direção esperada? O inocente diminui em pé e com Valsalva. Sopro que aumenta nessas manobras é o comportamento da cardiomiopatia hipertrófica.

Grau 1 a 2/6 — sem frêmito

Fraco. O 1/6 exige silêncio e concentração; o 2/6 é audível assim que o estetoscópio encosta. Faixa em que vivem os sopros inocentes.

Grau 3/6 — sem frêmito

Claramente audível, ainda sem frêmito. Já sai da zona de conforto: exige que as outras quatro perguntas da triagem sejam respondidas com rigor.

Grau 4/6 — com frêmito

Forte, com frêmito palpável. Frêmito não é sopro inocente: a partir daqui é patológico até prova em contrário, e o caminho é ecocardiograma.

Grau 5 a 6/6 — com frêmito

O 5/6 é audível com apenas a borda do estetoscópio encostada; o 6/6, com o estetoscópio afastado da pele. Intensidade alta não mede gravidade da lesão.

EixoSopro inocenteSopro patológico
Momento no cicloSistólico; o zumbido venoso é o único contínuoQualquer diastólico; holossistólico; contínuo fora do zumbido venoso
Intensidade1 a 3/6, nunca com frêmito4/6 ou mais; qualquer intensidade acompanhada de frêmito
TimbreMusical, vibratório, suave, ejetivo curtoRude, áspero, em jato, prolongado
IrradiaçãoAusente ou mínimaDorso, região interescapular, axila, carótidas
Bulhas e extrasB2 normal, desdobramento que varia com a respiração, sem click e sem galopeDesdobramento amplo e fixo, B2 única, P2 hiperfonética, click, terceira bulha ou galope
Resposta à posturaDiminui ou some em pé e com Valsalva; aumenta em decúbito, na febre e na anemiaPraticamente fixo; ou aumenta em pé e com Valsalva, como na cardiomiopatia hipertrófica
IdadeEscolar e adolescente; no recém-nascido, apenas a estenose fisiológica de ramos pulmonaresRecém-nascido e lactente pedem investigação mesmo com sopro discreto
Resto do examePulsos femorais cheios e simétricos, saturação normal, crescimento adequadoPulso femoral fraco ou atrasado, gradiente de pressão, cianose, hepatomegalia, precórdio hiperdinâmico
SintomasNenhumSudorese às mamadas, mamadas interrompidas, cansaço, síncope ou dor torácica ao esforço

Os cinco sopros inocentes: como reconhecer cada um

SoproIdade típicaOnde se ouveTempo e timbreO que o reduz ou abole
Vibratório de Still2 a 7 anosBorda esternal esquerda baixa e ápiceMesossistólico, musical e vibratório, 1 a 3/6Sentar, ficar em pé, Valsalva
Sistólico de fluxo pulmonarEscolar e adolescenteSegundo espaço intercostal esquerdoEjetivo suave e curto, 1 a 2/6Ficar em pé
Supraclavicular ou carotídeoQualquer idadeAcima das clavículas, irradiando para o pescoçoEjetivo, protossistólico, 1 a 3/6Hiperextensão dos ombros
Zumbido venoso3 a 8 anosRegião infraclavicular direita, com a criança sentadaContínuo, suave e sopradoDecúbito dorsal, compressão da jugular, rotação da cabeça
Estenose fisiológica de ramos pulmonaresRecém-nascido até 3 a 6 mesesFoco pulmonar, irradiando para axilas e dorsoEjetivo suave, 1 a 2/6Desaparece sozinho com o crescimento das artérias pulmonares

Achado à ausculta e a lesão que ele sugere

AchadoLesão sugeridaPista que confirma o raciocínio
Holossistólico rude em borda esternal esquerda baixa, com frêmitoComunicação interventricularQuanto menor o defeito, mais alto o sopro; a repercussão aparece como insuficiência cardíaca do lactente
Sistólico ejetivo em foco pulmonar com desdobramento amplo e fixo de B2Comunicação interatrialO sopro é do hiperfluxo pela valva pulmonar, não do defeito no septo
Contínuo em maquinaria, infraclavicular esquerdoPersistência do canal arterialPulsos amplos e pressão de pulso divergente; não muda com postura nem com compressão jugular
Sistólico ejetivo em foco aórtico irradiando para carótidas, com clickEstenose aórtica ou valva aórtica bicúspideSíncope e dor torácica ao esforço; o sopro diminui com Valsalva
Sistólico ejetivo em foco pulmonar com click, irradiando para o dorsoEstenose pulmonar valvarDesdobramento amplo de B2 com P2 hipofonética nas formas importantes
Sistólico audível na região interescapularCoarctação da aortaPulso femoral fraco ou atrasado e gradiente de 20 mmHg ou mais entre membros superiores e inferiores
Holossistólico apical irradiando para a axilaInsuficiência mitralEm escolar com história de faringoamigdalite, levanta cardite reumática
Sistólico que aumenta em pé e com Valsalva, sem clickCardiomiopatia hipertróficaHistória familiar de morte súbita precoce; síncope durante o exercício, não depois

Sopro que aparece na vigência de febre ou anemia e desaparece com a criança compensada é funcional: reavaliar fora do quadro agudo evita ecocardiograma desnecessário.

Intensidade não mede gravidade. Comunicação interventricular pequena faz sopro alto; comunicação interventricular grande com hipertensão pulmonar pode fazer sopro discreto.

Ausência de sopro não afasta cardiopatia grave: a transposição das grandes artérias com septo interventricular íntegro pode se apresentar apenas com cianose, sem sopro nenhum.

Todo recém-nascido com sopro merece exame completo com pulsos femorais e oximetria pré e pós-ductal antes da alta da maternidade, mesmo que o sopro pareça benigno.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quem decide que o sopro é inocente — e o que isso muda na indicação do ecocardiograma

Critério de uso apropriado da cardiologia pediátrica norte-americana, 2014

O ecocardiograma transtorácico inicial é classificado como raramente apropriado diante de sopro presumidamente inocente em criança sem sintoma, sem sinal ou achado de doença cardiovascular e com história familiar benigna; torna-se apropriado quando há sintoma, sinal alterado ou sopro com características patológicas. O cenário do documento, porém, é o ambulatório de cardiologia pediátrica: a criança avaliada já passou pelo ouvido do especialista, e é sobre essa classificação prévia que o critério se apoia.

ACC/AAP/AHA/ASE/HRS/SCAI/SCCT/SCMR/SOPE 2014 Appropriate Use Criteria for Initial Transthoracic Echocardiography in Outpatient Pediatric Cardiology, JACC 2014

Documento da SBP dirigido ao pediatra geral, 2018

O interlocutor é o pediatra da consulta de rotina, que no Brasil é quem faz a triagem antes de qualquer encaminhamento. O documento coloca o exame clínico como principal pilar da avaliação e descreve as características que tornam o sopro provavelmente inocente na criança assintomática — a decisão de encaminhar nasce da anamnese e do exame físico, não de um exame de imagem pedido por rotina. A diferença de interlocutor explica a diferença de ênfase: onde o acesso ao cardiologista pediátrico e ao ecocardiograma é limitado, o filtro precisa funcionar na atenção básica.

SBP, Departamento Científico de Cardiologia. Avaliação da criança com sopro cardíaco, novembro de 2018

Na prova

O recorte se identifica pelo cenário e pelo vocabulário do enunciado. Consulta de puericultura, unidade básica, pediatra geral e criança assintomática colocam o eixo no exame clínico e nas características auscultatórias — as alternativas costumam contrastar seguimento pelo pediatra contra pedidos de exame. Ambulatório de cardiologia pediátrica, menção nominal a critério de uso apropriado ou a presença de sintoma, sinal alterado ou sopro patológico deslocam o eixo para a indicação do ecocardiograma. Um detalhe denuncia o mundo da questão: alternativa que oferece eletrocardiograma e radiografia de tórax como etapa de triagem pertence ao repertório de serviço com acesso restrito ao ecocardiograma, e não ao documento internacional, que só discute o eco. Vale a régua geral: prova oficial do MEC tende a conduta compatível com o SUS; em outras bancas, o que as alternativas oferecem revela o recorte.

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Caso resolvido

Menina de 5 anos em consulta de puericultura. Assintomática, frequenta a escola, brinca e corre sem cansar mais que os colegas. Peso e estatura no percentil 50, sem intercorrências. Ao exame: corada, hidratada, acianótica, frequência cardíaca 96 bpm, pressão arterial 92 x 58 mmHg. Sopro mesossistólico 2/6, de timbre musical, na borda esternal esquerda baixa, mais audível em decúbito dorsal e que praticamente desaparece quando ela fica em pé. Segunda bulha com desdobramento que varia com a respiração, sem click e sem galope. Pulsos femorais cheios e simétricos. Sem história familiar de morte súbita precoce.
achado
O sopro reúne todas as marcas do vibratório de Still: idade entre 2 e 7 anos, foco na borda esternal esquerda baixa, timbre musical, intensidade 2/6, mesossistólico e claramente postura-dependente.
achado
Segunda bulha com desdobramento que varia com a respiração e ausência de click afastam comunicação interatrial e lesão valvar como origem do sopro.
achado
Pulsos femorais cheios e simétricos, com pressão arterial normal para a idade, tornam coarctação improvável. Este é o passo que não se pula, mesmo quando o sopro é típico.
raciocínio
As cinco perguntas da triagem foram respondidas de forma favorável em criança assintomática, fora do período neonatal e sem história familiar de risco. A probabilidade de cardiopatia estrutural aqui é muito baixa, e nenhum exame complementar acrescentaria informação à decisão.
conduta
Seguimento com o pediatra, sem eletrocardiograma, sem radiografia de tórax e sem ecocardiograma. Registrar no prontuário e na Caderneta de Saúde da Criança as características auscultadas e o estado dos pulsos femorais, para que a próxima consulta reconheça o mesmo sopro. Liberar atividade física e esporte sem restrição, sem profilaxia de endocardite infecciosa, e explicar à família que sopro inocente não é doença nem se transforma em doença. Retorno antes do previsto se surgir cansaço desproporcional, síncope ou dor torácica durante o exercício, cianose ou queda da curva de peso.
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Agora feche você

Lactente de 3 meses trazido à unidade básica porque a consulta anterior registrou 'sopro no coração'. A mãe conta que ele mama pouco de cada vez, sua muito durante a mamada e precisa interromper para respirar; ganhou 300 g nos últimos dois meses. Ao exame: frequência respiratória 62 irpm, tiragem subcostal leve, sem febre. Frequência cardíaca 168 bpm. Sopro holossistólico 3/6, rude, na borda esternal esquerda baixa, sem irradiação para o dorso. Fígado palpável a 3,5 cm do rebordo costal direito. Pulsos femorais presentes, cheios e simétricos. Saturação de oxigênio 97% no membro superior direito e 97% no membro inferior, em ar ambiente.
achado
Sopro holossistólico e rude está fora do repertório de qualquer sopro inocente, e a localização na borda esternal esquerda baixa aponta para shunt entre os ventrículos.
achado
Sudorese e interrupção das mamadas, taquipneia sem febre, taquicardia e hepatomegalia compõem a insuficiência cardíaca do lactente. Aqui, a dispneia aos esforços é a mamada.
achado
Ganho de 300 g em dois meses é falha de crescimento, não variação — nessa idade, o esperado é aproximadamente o dobro disso por mês.
achado
Saturação normal e sem diferença entre pré e pós-ductal, com pulsos femorais cheios e simétricos, situam o caso entre as cardiopatias acianóticas e afastam coarctação e lesão dependente do canal arterial.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Pedir eletrocardiograma e radiografia de tórax para 'descartar' cardiopatia São exames disponíveis e baratos, o que os torna tentadores como triagem. O problema é o desempenho: normal não afasta cardiopatia estrutural, e a normalidade dos dois produz uma tranquilidade que atrasa o encaminhamento de uma criança que tinha sopro holossistólico ou pulso femoral fraco. O exame que responde à pergunta anatômica é o ecocardiograma.
  2. 2Achar que sopro fraco em recém-nascido é sinal de benignidade A intuição de que sopro alto é grave se inverte no período neonatal. Recém-nascido em baixo débito por lesão obstrutiva crítica pode ter sopro discreto ou nenhum sopro, porque falta fluxo para gerar turbulência. Todo sopro no recém-nascido pede exame completo com pulsos femorais e oximetria pré e pós-ductal, e limiar baixo para ecocardiograma.
  3. 3Chamar todo sopro contínuo de persistência do canal arterial O zumbido venoso é contínuo e é inocente, o que quebra a regra decorada de que sopro contínuo é sempre patológico. A separação é feita à beira do leito: o zumbido é infraclavicular direito, aparece com a criança sentada e desaparece com decúbito dorsal, compressão da jugular ou rotação da cabeça. O canal arterial é infraclavicular esquerdo, tem timbre em maquinaria e não se altera com nenhuma dessas manobras.
  4. 4Ler a manobra postural ao contrário Ficar em pé e fazer Valsalva reduzem o retorno venoso, e o reflexo é assumir que todo sopro diminui. Diminuem o sopro inocente e o da estenose aórtica valvar; aumenta o da cardiomiopatia hipertrófica, porque o ventrículo menos cheio agrava a obstrução dinâmica. Sopro que fica mais alto quando a criança se levanta é exatamente o achado que não pode ser rotulado como funcional.
  5. 5Confundir intensidade do sopro com gravidade da lesão A associação parece natural e é falsa. Comunicação interventricular pequena faz sopro alto e rude sem repercussão; comunicação interventricular grande com hipertensão pulmonar pode ter sopro discreto porque o gradiente entre os ventrículos caiu. Quem gradua a gravidade é a repercussão clínica — crescimento, taquipneia, hepatomegalia — não a régua de 1 a 6.
  6. 6Não palpar os pulsos femorais É a omissão mais cara do exame cardiovascular pediátrico, porque a coarctação da aorta pode ter sopro discreto, ausente ou audível apenas na região interescapular. Pulso femoral fraco, ausente ou atrasado em relação ao braquial, e gradiente de 20 mmHg ou mais entre membro superior e inferior, mudam a conduta imediatamente.
  7. 7Prescrever profilaxia de endocardite ou restringir esporte por sopro inocente O rótulo de 'sopro' faz o profissional agir por precaução, e o custo recai sobre a criança: exclusão da educação física, antibiótico antes de procedimento odontológico e uma família que passa a se referir a ela como cardiopata. Sopro inocente é coração normal — não restringe atividade, não indica profilaxia e não pede ecocardiograma de controle.
  8. 8Tratar o teste do coraçãozinho normal como certificado de coração sadio A oximetria da triagem neonatal tem alvo estreito: cardiopatia congênita crítica dependente de canal arterial. Comunicação interventricular, comunicação interatrial, persistência do canal arterial e coarctação de apresentação tardia são acianóticas e passam pelo teste com saturação normal. Resultado normal na maternidade não substitui o exame físico de cada consulta de puericultura.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O sopro descrito tem todas as características de sopro inocente (de Still): sistólico ejetivo, curto, musical/vibratório, baixa intensidade (≤2/6), sem irradiação, B2 normal, criança assintomática e que varia com a postura (diminui ao sentar/levantar). A conduta é tranquilizar, sem exames. Ecocardiograma de urgência é desnecessário e ansiogênico. Cateterismo é invasivo e não indicado. Profilaxia de endocardite não se aplica a sopro inocente. Restrição de atividade é injustificada em criança assintomática com sopro inocente.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Refaça de memória as cinco perguntas da triagem, na ordem, e liste as características que fazem um sopro ser provavelmente inocente segundo a SBP: sistólico, curto, baixa intensidade, sem estalido ou galope, sem irradiação e que muda de intensidade com a posição. Depois nomeie os cinco sopros inocentes com idade típica, foco e a manobra que reduz cada um — e diga qual deles é contínuo e como separá-lo da persistência do canal arterial.

em 30 dias

Monte três casos e resolva cada um até a conduta: escolar assintomático com sopro 2/6 vibratório postura-dependente; lactente de 3 meses com sopro holossistólico, sudorese às mamadas e hepatomegalia; adolescente com sopro sistólico que aumenta quando fica em pé e história familiar de morte súbita antes dos 50 anos. Para cada um, escreva quais exames você pede e por quê, e explique em uma frase por que eletrocardiograma e radiografia de tórax normais não encerrariam a discussão.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Menino de 6 anos vem à consulta de rotina; a mãe está preocupada porque o pediatra anterior escreveu 'sopro' no prontuário e pediu para 'ver com um cardiologista'. A criança joga futebol duas vezes por semana, acompanha os colegas sem cansar, come bem e está no percentil 50 de peso e estatura. Você precisa auscultar, caracterizar o sopro, palpar os pulsos femorais, medir a pressão arterial e decidir se essa criança sai da consulta com um pedido de ecocardiograma ou com uma explicação para a família. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Sopro cardíaco inocente versus patológico na criança – Sopro cardíaco na criança — Preparatório para provas | OsceLabs