PediatriaCardiologia Pediátrica

Febre reumática e cardite reumática

A prova cobra duas coisas: fechar (ou recusar) o diagnóstico numa vinheta usando os critérios de Jones revisados — com o Brasil na coluna de risco moderado/alto — e prescrever a profilaxia secundária com dose, intervalo e data de término da tabela brasileira.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menina de 6 anos, previamente hígida, é trazida ao pronto-socorro com febre há 8 dias, artralgia migratória em joelhos e tornozelos e nódulos subcutâneos indolores em superfícies extensoras. Refere infecção de garganta há 3 semanas, não tratada. Ao exame: T 38,2 °C, FC 118 bpm, novo sopro holossistólico apical irradiando para axila. ECG com intervalo PR de 0,22 s. Considerando os critérios diagnósticos, qual achado adicional confirmaria o diagnóstico?

02

Como esse tema cai

Febre reumática é o tema de cardiologia pediátrica que a banca consegue cobrar de três jeitos ao mesmo tempo: uma vinheta de artrite migratória com sopro novo para você somar critérios de Jones, uma linha de profilaxia secundária para você acertar dose, intervalo e — principalmente — até quando manter, e uma coreia isolada com ASLO normal para testar se você conhece a exceção mais famosa dos critérios. Quem decora só os cinco critérios maiores erra as três.

O detalhe que separa o candidato atualizado é a revisão de 2015 dos critérios de Jones (AHA): o mundo foi dividido em populações de baixo risco e de risco moderado/alto — e o Brasil está na segunda coluna. Aqui, monoartrite pode ser critério maior, a febre pontua a partir de 38 °C e a VHS a partir de 30 mm/h. A pegadinha recorrente é a alternativa que aplica os cortes de baixo risco (38,5 °C, VHS 60) a uma criança brasileira e conclui que 'não fecha critério'.

O capítulo também acerta as contas com dois vizinhos que a prova adora cruzar: a glomerulonefrite pós-estreptocócica (a outra sequela do estreptococo — que o antibiótico não previne, ao contrário da febre reumática) e a artrite reativa pós-estreptocócica (latência curta, não migratória, má resposta ao anti-inflamatório). Confundir esses pares custa questão inteira.

03

O que muda decisão

Do estreptococo à válvula: a doença

Como usar este capítulo: confirme o antecedente estreptocócico, aplique os critérios de Jones conforme o risco epidemiológico e avalie cardite inclusive subclínica. Depois trate o surto e defina duração da profilaxia secundária pela presença e pela sequela valvar.

A febre reumática é uma complicação não supurativa tardia da faringoamigdalite pelo estreptococo beta-hemolítico do grupo A (Streptococcus pyogenes) em indivíduos geneticamente predispostos. Só a infecção de orofaringe deflagra o surto — piodermite estreptocócica causa glomerulonefrite, não febre reumática. O mecanismo é mimetismo molecular: anticorpos e linfócitos T dirigidos contra a proteína M do estreptococo reagem de forma cruzada com proteínas do coração, das articulações, do sistema nervoso central e da pele.

Entre a faringite e o surto existe um período de latência de cerca de duas a quatro semanas para as manifestações articulares e cardíacas — e de meses (até 7) para a coreia. Essa latência explica por que cultura e teste rápido costumam ser negativos quando o paciente abre o quadro reumático: a infecção que causou tudo já foi embora.

A doença é problema de saúde pública brasileiro: a diretriz nacional estima cerca de 30.000 casos novos por ano no país, metade dos quais pode evoluir com acometimento cardíaco. Acomete preferencialmente escolares e adolescentes de 5 a 18 anos, e a cardiopatia reumática crônica segue sendo a principal cardiopatia adquirida da infância e do adulto jovem nos países em desenvolvimento — cirurgia valvar em gente de 20 e poucos anos é a cicatriz social da doença.

As cinco manifestações maiores

artrite é a manifestação maior mais frequente: cerca de 75% dos surtos. O padrão é assinatura da doença — poliartrite migratória, assimétrica, de grandes articulações (joelhos, tornozelos, cotovelos, punhos), em que cada articulação raramente fica inflamada por mais de uma semana e o conjunto se resolve sem qualquer sequela. A resposta ao anti-inflamatório não esteroidal é dramática: a dor costuma sumir em 24 horas e os demais sinais inflamatórios em dois a três dias. Guarde a leitura inversa: artrite que 'não responde' ao AINE em 48-72 horas pede outro diagnóstico. Na revisão de 2015, em populações de risco moderado/alto como a nossa, monoartrite asséptica também pode ser aceita como critério maior — e até poliartralgia, excluídas outras causas.

cardite aparece em 40% a 70% dos primeiros surtos e é a única manifestação que deixa sequela. coreia de sydenham ocorre em 5% a 36% das séries e tem seção própria adiante. eritema marginado (lesões róseas de borda serpiginosa e centro claro, em tronco e raiz de membros, fugazes, que pioram com calor) e nódulos subcutâneos (firmes, indolores, móveis, sobre superfícies extensoras e proeminências ósseas) são raros — juntos respondem por menos de 5% dos surtos —, mas são altamente específicos, e os nódulos andam de mãos dadas com cardite grave. Na prova, essas duas manifestações raras quase sempre aparecem como o detalhe que fecha um diagnóstico já desconfiado, não como queixa de entrada.

As manifestações menores da versão brasileira de risco moderado/alto: monoartralgia, febre a partir de 38 °C, provas inflamatórias elevadas (VHS ≥ 30 mm/h e/ou proteína C reativa ≥ 3,0 mg/dL) e intervalo PR alongado no ECG — este último só pontua se a cardite não estiver sendo usada como critério maior. A regra geral é não pontuar o mesmo território duas vezes: quem usa artrite como maior não soma artralgia como menor.

Cardite e cardiopatia reumática crônica

A cardite reumática é uma pancardite (endocárdio, miocárdio e pericárdio), mas a marca clínica e prognóstica é a valvulite. No surto agudo, a lesão característica é regurgitação: insuficiência mitral em primeiro lugar, insuficiência aórtica em segundo. O achado auscultatório típico é sopro sistólico regurgitativo em foco mitral irradiando para a axila; na valvulite mitral aguda pode aparecer o sopro de Carey Coombs — um ruflar mesodiastólico curto, por hiperfluxo e edema valvar, que desaparece quando a inflamação cede. Taquicardia desproporcional à febre e persistente durante o sono é pista precoce de miocardite; pericardite dá atrito e derrame, quase nunca tamponamento.

estenose mitral é outra história: é sequela tardia, da fase crônica — resultado de anos de cicatrização, espessamento e fusão comissural, com a clássica dupla lesão evoluindo para estenose dominante na vida adulta. Vinheta de surto agudo com estenose mitral isolada está contando errado a história natural, e a alternativa que faz essa troca é distrator frequente.

O ecocardiograma com Doppler mudou o jogo duas vezes. A diretriz brasileira de 2009 já recomendava o exame em todo caso suspeito e reconhecia a valvulite subclínica — regurgitação mitral e/ou aórtica de grau leve com ausculta normal. A AHA formalizou em 2015: cardite subclínica ao Doppler vale critério maior, com o mesmo peso da cardite clínica. Na prática de prova: ausculta normal não exclui cardite, e todo caso suspeito de febre reumática deve fazer ecocardiograma.

Corte anatômico do coração mostrando valvulite mitral reumática aguda com jato de regurgitação do ventrículo para o átrio esquerdo
No surto agudo a marca da cardite é a REGURGITAÇÃO (mitral > aórtica), inclusive a forma subclínica visível só ao Doppler. A estenose mitral é sequela tardia da fase crônica — não a procure na vinheta aguda.

A prova da infecção: ASLO, anti-DNase B e seus limites

Fechar febre reumática exige, além das manifestações, evidência de infecção estreptocócica prévia: antiestreptolisina O (ASLO) elevada ou em ascensão, anti-DNase B, cultura de orofaringe ou teste rápido positivos. Como o surto vem semanas depois da faringite, a sorologia é quem costuma entregar a prova — cultura e teste rápido positivos na abertura do quadro são exceção, e negativos não afastam nada.

A cinética da ASLO importa mais que o valor isolado: começa a subir por volta do 7º dia da infecção, atinge o pico entre a 4ª e a 6ª semana e permanece elevada por meses. Por isso a diretriz brasileira recomenda duas dosagens com intervalo de 15 dias — ascensão de título vale mais que um número solto. Dois limites do exame caem em prova: cerca de 20% dos surtos de febre reumática cursam sem elevação da ASLO (aí o anti-DNase B, que sobe mais tarde e permanece elevado por mais tempo, ajuda — especialmente na coreia, de latência longa); e ASLO alta isolada não é doença — escolar saudável em país endêmico pode ter título elevado por estreptococcia recente sem nenhuma febre reumática. ASLO elevada é bilhete de entrada, nunca diagnóstico.

As exceções à exigência de evidência estreptocócica são duas, e ambas se explicam pela latência longa: coreia de sydenham e cardite indolente (aquela que se apresenta meses depois, já como valvopatia estabelecida de baixo ruído). Nesses dois cenários o diagnóstico se sustenta sem ASLO, sem cultura e sem teste rápido.

Coreia de Sydenham

A coreia é a manifestação neurológica da febre reumática: movimentos involuntários, rápidos e sem propósito de face, mãos e membros, incoordenação (a letra piora, objetos caem da mão), hipotonia e marcante labilidade emocional — choro fácil, irritabilidade, queda do rendimento escolar. Piora com estresse e esforço e desaparece durante O sono, o que a diferencia de tiques e de outras discinesias. Predomina em meninas escolares e adolescentes.

É manifestação tardia — pode surgir até 7 meses depois da estreptococcia, quando ASLO e cultura já normalizaram. Daí as duas regras de prova: a coreia fecha o diagnóstico sozinha, sem nenhum outro critério e sem evidência laboratorial de infecção prévia (excluídas outras causas de coreia, como lúpus, doença de Wilson e efeito de fármacos); e mesmo a coreia 'isolada' obriga ecocardiograma — parte dos pacientes tem valvulite subclínica junto — e obriga início de profilaxia secundária.

O curso é autolimitado em semanas a meses. Quando os movimentos atrapalham a vida (alimentação, marcha, escola), a diretriz brasileira indica tratamento sintomático: haloperidol 1 a 5 mg/dia, ácido valproico até 30 mg/kg/dia ou carbamazepina 7 a 20 mg/kg/dia, além de repouso relativo e ambiente calmo. Corticoide não é rotina para coreia.

Tratamento do surto e as duas profilaxias

Todo surto começa igual: erradicação do estreptococo com penicilina G benzatina intramuscular em dose única (600.000 UI se < 20 kg; 1.200.000 UI se ≥ 20 kg), independentemente de cultura ou teste rápido — o objetivo é zerar o gatilho antigênico. Essa mesma dose inaugura o calendário da profilaxia secundária.

O anti-inflamatório segue a manifestação. artrite: naproxeno 10 a 20 mg/kg/dia ou ácido acetilsalicílico 80 a 100 mg/kg/dia — o naproxeno vem ganhando a preferência pediátrica pela posologia mais cômoda e menor risco hepático que o salicilato em dose plena. cardite moderada A grave: corticoide — prednisona 1 a 2 mg/kg/dia (máximo 80 mg/dia), mantida por 2 a 3 semanas e então retirada gradualmente, num esquema total de cerca de 12 semanas; repouso no leito enquanto houver atividade inflamatória, e manejo padrão de insuficiência cardíaca quando presente. coreia: sintomáticos da seção anterior. Recaída clínica na retirada do corticoide ('rebote') se maneja alongando o desmame, não recomeçando do zero.

profilaxia primária é tratar a faringoamigdalite estreptocócica a tempo: penicilina benzatina em dose única (mesmas doses por peso) administrada até O 9º dia do início do quadro previne o primeiro surto de febre reumática. Alternativas orais exigem 10 dias completos: penicilina V ou amoxicilina 50 mg/kg/dia (máximo 1 g/dia). Em alérgicos à penicilina, a escolha é a eritromicina (clindamicina como alternativa) — sulfas não servem para tratar a faringite. E o contraste que a prova adora: tratar a faringite previne febre reumática, mas não previne glomerulonefrite pós-estreptocócica.

profilaxia secundária é o coração do tema: penicilina G benzatina 600.000 UI (< 20 kg) ou 1.200.000 UI (≥ 20 kg) IM a cada 21 dias, começando no diagnóstico do surto. Quem não pode receber benzatina usa penicilina V oral diária (adesão pior — é exceção, não regra); alérgicos à penicilina usam sulfadiazina (500 mg/dia até 30 kg; 1 g/dia acima), com hemograma quinzenal nos 2 primeiros meses; alérgicos a penicilina E sulfa, eritromicina 250 mg de 12/12 h. A duração depende do que o surto deixou no coração — é a tabela do bloco seguinte, e ela cai em prova todo ano.

04

Critérios de Jones revisados (AHA 2015) — com o Brasil na coluna certa

A revisão de 2015 estratificou os critérios por risco populacional: baixo risco = incidência de febre reumática ≤ 2/100.000 escolares/ano ou prevalência de cardiopatia reumática ≤ 1/1.000. O Brasil não cabe nessa definição — use SEMPRE a coluna de risco moderado/alto. Em qualquer população, o diagnóstico exige evidência de estreptococcia prévia (exceto coreia e cardite indolente).

  1. 1Confirme a evidência de infecção estreptocócica prévia: ASLO (ideal: 2 dosagens em 15 dias) e/ou anti-DNase B elevadas ou em ascensão, cultura ou teste rápido — exceções: coreia e cardite indolente
  2. 2Classifique a população: Brasil = risco moderado/alto → monoartrite pode ser maior; febre ≥ 38 °C e VHS ≥ 30 mm/h já pontuam como menores
  3. 3Some: SURTO INICIAL = 2 critérios maiores OU 1 maior + 2 menores
  4. 4RECORRÊNCIA (já teve febre reumática) = 2 maiores OU 1 maior + 2 menores OU 3 menores
  5. 5Não pontue o mesmo território duas vezes: artrite maior anula artralgia menor; cardite maior anula PR alongado menor
  6. 6Ecocardiograma com Doppler em TODO caso suspeito ou confirmado — valvulite subclínica é critério maior

Sem cardite prévia — benzatina 21/21 dias até 21 anos ou 5 anos do último surto (o maior período)

Válvulas normais em todos os surtos. O risco é a recorrência articular/neurológica — a profilaxia protege o coração que ainda não foi tocado.

Cardite prévia curada ou insuficiência mitral leve residual — até 25 anos ou 10 anos do último surto

O coração já mostrou que é alvo. A idade-limite de 25 anos é particularidade da diretriz brasileira — degrau que não existe nas referências internacionais.

Lesão valvar residual moderada a grave — até os 40 anos ou por toda a vida

Cada recorrência soma agressão a uma válvula já doente. A profilaxia vira projeto de décadas — e a adesão é o que separa a valvopatia estável da cirurgia.

Após cirurgia valvar — por toda a vida

Prótese ou plastia não devolve válvula nativa: recorrência aqui é catástrofe. A benzatina acompanha o paciente para sempre.

CritérioPopulação de baixo riscoRisco moderado/alto (Brasil)
Maiores — articularApenas POLIartritePoliartrite, MONOartrite ou até poliartralgia (excluídas outras causas)
Maiores — demaisCardite clínica OU subclínica (Doppler), coreia, eritema marginado, nódulos subcutâneosOs mesmos
Menores — articularPoliartralgiaMonoartralgia
Menores — febre≥ 38,5 °C≥ 38,0 °C
Menores — provas inflamatóriasVHS ≥ 60 mm/h e/ou PCR ≥ 3,0 mg/dLVHS ≥ 30 mm/h e/ou PCR ≥ 3,0 mg/dL
Menores — ECGPR alongado (se cardite não for o critério maior)Igual
Fecha o diagnósticoEvidência de estreptococcia + 2 maiores OU 1 maior + 2 menoresIgual (recorrência aceita também 3 menores)

Duração da profilaxia secundária (Diretriz Brasileira, 2009 — vale o que cobrir o MAIOR período)

CategoriaManter até
Febre reumática SEM cardite prévia21 anos de idade OU 5 anos após o último surto
Cardite prévia com insuficiência mitral leve residual ou lesão valvar resolvida25 anos de idade OU 10 anos após o último surto
Lesão valvar residual moderada a graveAté os 40 anos OU por toda a vida
Após cirurgia valvarPor toda a vida

Dose e intervalo (Brasil): penicilina G benzatina 600.000 UI IM se < 20 kg e 1.200.000 UI se ≥ 20 kg, a cada 21 dias — o intervalo de 3 semanas é marca da diretriz brasileira; OMS e AHA trabalham com 4 semanas (ver divergências).

Alergia à penicilina: sulfadiazina 500 mg/dia (até 30 kg) ou 1 g/dia (acima de 30 kg), com hemograma quinzenal nos 2 primeiros meses; alergia a penicilina E a sulfa: eritromicina 250 mg de 12/12 h.

Em toda linha da tabela vale o que cobrir o MAIOR período entre o limite de idade e o tempo desde o último surto — e exposição continuada de risco (profissional de saúde, convívio com crianças, área endêmica) pesa a favor de estender.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Intervalo da benzatina na profilaxia secundária: 21 dias ou 4 semanas?

Diretriz Brasileira (SBC/SBP/SBR, 2009): a cada 21 dias

Em parte dos pacientes o nível sérico de penicilina cai abaixo do protetor antes do 28º dia; num país de alta endemicidade, o custo de uma recorrência — nova agressão valvar — justifica encurtar o intervalo para 3 semanas como padrão nacional.

Diretrizes Brasileiras de Febre Reumática, Arq Bras Cardiol 2009

OMS (2024) e prática internacional: a cada 4 semanas

O esquema de 4/4 semanas é o validado nos grandes estudos e o padrão dos programas internacionais de controle; a própria OMS registra evidência de que intervalos de 2-3 semanas reduzem recorrências e infecções de orofaringe, reservando-os a cenários selecionados (recorrência em uso regular, alto risco).

WHO guideline on prevention and diagnosis of RF/RHD, 2024

Na prova

Enunciado ambientado no SUS ou que cite a diretriz nacional trabalha com 21/21 dias; enunciado que nomeie OMS/AHA ou traga alternativas em semanas ('a cada 4 semanas') denuncia a régua internacional. Prova oficial do MEC tende à conduta SUS; nas demais bancas, as próprias alternativas revelam o recorte — 21 dias e 28 dias raramente aparecem juntos por acaso.

Quem dita a DURAÇÃO da profilaxia: a tabela brasileira ou um padrão internacional?

Diretriz Brasileira (2009): tabela fechada 21-5 / 25-10 / 40-vida / vida

A diretriz nacional fixa idades-limite e tempos mínimos por categoria de sequela, incluindo o degrau de 25 anos para cardite curada — deliberadamente conservador para uma população endêmica, em que recorrência na década pós-cardite é real.

Diretrizes 2009, Tabela 7

OMS (2024): sem duração própria — delega às diretrizes nacionais

A OMS reconhece que a duração ótima não tem resposta experimental (seguimentos de 8 meses a 6 anos nos estudos) e recomenda seguir as diretrizes nacionais e de sociedades — ou seja, no Brasil, a tabela de 2009 É a régua vigente, sem documento internacional que a substitua.

WHO guideline on prevention and diagnosis of RF/RHD, 2024

Na prova

Os números 21-5, 25-10 e 40-vida são do documento brasileiro — alternativa que os traga está cobrando a diretriz nacional. O limite de 25 anos para cardite curada é o dedo-duro: só existe na tabela brasileira. Questão de recorte internacional tende a cobrar o princípio (duração mínima prolongada, mais longa quanto pior a válvula) em vez de idades exatas.

Critérios de Jones: a versão da diretriz brasileira (2009) ou a revisão da AHA (2015)?

Diretriz Brasileira (2009): Jones modificados, com eco valorizado antes da AHA

Publicada seis anos antes da revisão americana, trabalha com os cinco maiores clássicos e artralgia/febre/provas de fase aguda/PR como menores, sem colunas por risco populacional — mas já recomendava Doppler em todo caso suspeito e reconhecia a valvulite subclínica, antecipando o que a AHA formalizaria.

Diretrizes 2009

AHA (2015): estratificação por risco populacional

Cria as duas colunas (baixo risco × moderado/alto), promove cardite subclínica a critério maior explícito, aceita monoartrite/poliartralgia como maiores no alto risco e fixa os cortes de febre (38 °C × 38,5 °C) e VHS (30 × 60 mm/h). É a versão adotada pela OMS em 2024 e a que domina as provas atuais.

Gewitz et al., Circulation 2015; reproduzida na diretriz OMS 2024

Na prova

Vinheta em que monoartrite, febre de 38,2 °C ou VHS de 35 mm/h 'fecham' critério só funciona na AHA 2015 com o Brasil como risco moderado/alto — cortes e monoartrite são o vocabulário que denuncia a versão. Enunciado que liste apenas poliartrite como maior e artralgia como menor, sem cortes numéricos, está na gramática clássica da diretriz de 2009. Em divergência de data, registre: 2009 (brasileira) × 2015 (AHA) — e a banca moderna quase sempre cobra a segunda.

06

Caso resolvido

Menino, 9 anos, interior de Pernambuco. Há 6 dias, dor e edema em joelho direito que melhoraram sozinhos e 'mudaram' para o tornozelo esquerdo e depois para o joelho esquerdo. Febre aferida de 38,2 °C. Teve 'garganta inflamada' há 1 mês, não tratada. Exame: artrite de joelho esquerdo e sopro sistólico 3+/6+ em foco mitral irradiando para axila, inexistente em consultas anteriores. VHS 52 mm/h, PCR 4,1 mg/dL, ASLO 640 UI/mL (referência do laboratório < 200), ECG com PR de 0,22 s.
achado
Poliartrite MIGRATÓRIA de grandes articulações + sopro regurgitativo mitral NOVO = duas manifestações maiores (artrite e cardite). A migração articular contada pela mãe é o dado de ouro da vinheta.
evidência
ASLO mais de 3 vezes a referência, com faringite não tratada 4 semanas antes (latência típica) = evidência de estreptococcia prévia. Bilhete de entrada carimbado.
critério
2 maiores + evidência fecham o surto inicial — os menores (febre ≥ 38 °C, VHS ≥ 30, PCR ≥ 3,0) nem são necessários. O PR de 0,22 s NÃO pode ser somado como menor: cardite já é critério maior. Não pontue o mesmo território duas vezes.
conduta
Benzatina 1.200.000 UI IM já (erradicação — e primeira dose do calendário de 21/21 dias), ecocardiograma com Doppler para graduar a valvulite, repouso, naproxeno para a artrite e prednisona 1-2 mg/kg/dia se a cardite for moderada/grave ao eco. Antes da alta: deixar AGENDADA a profilaxia secundária e explicar à família que ela dura anos — a categoria final (e a data de término) depende do que o eco mostrar na evolução.
07

Agora feche você

Menina, 11 anos. Há 3 semanas 'derruba objetos', a letra piorou e faz movimentos involuntários das mãos e da face, que pioram quando é repreendida e desaparecem quando dorme. Chora 'do nada', segundo a mãe. Sem artrite, sem febre, sem queixa de garganta nos últimos meses. Ausculta cardíaca normal. ASLO dentro da referência; cultura de orofaringe negativa.
achado
Movimentos coreicos + incoordenação + labilidade emocional, que somem no sono, em menina escolar = coreia de Sydenham até prova em contrário (excluir lúpus, doença de Wilson, fármacos).
critério
Coreia é critério maior que fecha febre reumática SOZINHA — e é uma das duas exceções que dispensam evidência de estreptococcia (a latência de meses já normalizou ASLO e cultura; a outra exceção é a cardite indolente).
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Exigir ASLO elevada para aceitar a coreia Atrai porque 'todo diagnóstico exige evidência de estreptococcia'. A coreia é a exceção oficial: latência de até 7 meses normaliza a sorologia. Alternativa que 'afasta febre reumática porque a ASLO veio normal' numa coreia típica está errada por definição.
  2. 2ASLO alta = febre reumática ativa O caminho inverso da armadilha anterior. ASLO elevada só prova contato recente com estreptococo — comum em escolar saudável de país endêmico — e 20% dos surtos verdadeiros cursam sem elevação. Sem manifestação maior/menor, título alto não diagnostica nada; com quadro típico, título normal não afasta (peça anti-DNase B).
  3. 3Somar o mesmo território duas vezes PR alongado 'de brinde' quando a cardite já é o critério maior, ou artralgia menor somada à artrite maior. A banca monta a vinheta com os dois achados de propósito: quem conta 1 maior + 2 menores usando o par proibido fecha um diagnóstico que não existe — ou deixa de ver que já havia 2 maiores limpos.
  4. 4Dar estenose mitral ao surto agudo Estenose é cicatriz de anos (fase crônica); o surto agudo produz REGURGITAÇÃO (mitral > aórtica). Vinheta aguda com 'estenose mitral' na alternativa é troca deliberada de fase da doença. O sopro diastólico do surto que confunde é o Carey Coombs — mesodiastólico, por valvulite, transitório.
  5. 5'Tratou a faringite, preveniu as duas sequelas' A benzatina até o 9º dia previne febre reumática, mas NÃO previne glomerulonefrite pós-estreptocócica. A questão cruza as duas complicações não supurativas esperando que você estenda a proteção de uma para a outra. FR: só faringite, prevenível, profilaxia contínua. GNPE: faringite ou piodermite, não prevenível, sem profilaxia.
  6. 6Aplicar os cortes de baixo risco a uma criança brasileira Febre de 38,2 °C e VHS de 40 mm/h 'não pontuam' se você usar a coluna errada (38,5 °C / 60 mm/h). No Brasil — risco moderado/alto — febre ≥ 38 °C e VHS ≥ 30 mm/h são menores, monoartralgia é menor e monoartrite pode ser MAIOR. A alternativa 'não preenche critérios' costuma ser a casca de banana da questão.
  7. 7Insistir no diagnóstico quando o AINE 'não funciona' A artrite reumática responde de forma dramática: dor some em ~24 h, sinais em 2-3 dias. Sem resposta em 48-72 h, reabra o leque — artrite séptica, artrite idiopática juvenil, leucemia, e a artrite reativa pós-estreptocócica (latência curta de dias, não migratória, resposta pobre ao anti-inflamatório), que é entidade distinta da febre reumática.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é febre reumática aguda: cardite (sopro de insuficiência mitral), poliartrite migratória e nódulos subcutâneos são critérios maiores de Jones; o PR prolongado é critério menor. Para confirmar é necessária evidência de infecção estreptocócica prévia — ASLO elevado (ou cultura/teste rápido positivo). Hemocultura para S. viridans indicaria endocardite infecciosa, não FR. Vegetação valvar sugere endocardite, não é achado da FR (que causa valvulite/regurgitação). FAN positivo aponta para lúpus/doença do colágeno. Leucocitose é inespecífica e não integra os critérios de Jones.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Reconstrua de memória a coluna brasileira dos critérios de Jones: os 5 maiores (lembrando no que a monoartrite pode virar), os 4 menores com os três números — 38 °C, 30 mm/h, 3,0 mg/dL — e as duas regras de soma (inicial: 2M ou 1M+2m; recorrência aceita 3m). Depois recite as 4 linhas da duração da profilaxia: 21-5, 25-10, 40-vida, vida. Errou uma linha? Releia só o bloco de critérios.

em 30 dias

Feche três vinhetas sem consultar nada: (1) poliartrite migratória + sopro novo + ASLO alta; (2) monoartrite de tornozelo + febre 38,1 °C + VHS 35 + ASLO em ascensão; (3) coreia isolada com ASLO normal. Para cada uma: fecha ou não fecha, por quais critérios, e a prescrição completa da profilaxia (droga, dose pelo peso, intervalo e ATÉ QUANDO). Se hesitou no 25 da cardite curada ou no 9º dia da profilaxia primária, refaça a tabela.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Menina de 9 anos chega com dor que 'passeia' pelas grandes articulações há uma semana, febre baixa e um sopro que ninguém tinha ouvido antes. A mãe lembra de uma amigdalite não tratada no mês passado. Feche os critérios na entrevista, peça o exame certo e saia da consulta com a profilaxia prescrita — com data de término. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Febre reumática e cardite reumática — Preparatório para provas | OsceLabs