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Hirsutismo e virilização: o androgênio que tira o caso do ovário policístico

Hiperandrogenismo, hirsutismo e virilização: o valor de androgênio que retira o caso da síndrome dos ovários policísticos

O protocolo brasileiro de ovários policísticos manda caçar neoplasia produtora de androgênios por sinal clínico e não escreve um único valor de hormônio; a prova entrega o valor, e numa unidade que nenhum dos documentos usa.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 27 anos, refere hirsutismo de instalação rápida nos últimos 6 meses, com aparecimento de pelos grossos em mento, tórax e dorso, engrossamento da voz e aumento do clitóris. Relata também amenorreia secundária há 4 meses. Ao exame: escore de Ferriman-Gallwey 20, clitoromegalia evidente. Laboratório: testosterona total 210 ng/dL (VR até 60), sulfato de de-hidroepiandrosterona (SDHEA) 180 mcg/dL (VR 35-430), 17-OH-progesterona normal, cortisol após supressão com dexametasona normal. Qual o exame mais adequado como próximo passo na investigação?

02

Como esse tema cai

Uma mulher de vinte e nove anos chega ao ambulatório de ginecologia com uma queixa que ela mesma cronometrou: em oito meses, os pelos do rosto e do abdome passaram de incômodo a barbear diário, a voz engrossou o suficiente para a irmã perguntar se ela estava resfriada, e a menstruação, que já era irregular, parou. O exame confirma pilificação masculina em face, abdome e dorso, e o clitóris está aumentado. O laboratório traz uma testosterona total de trezentos e vinte nanogramas por decilitro, com valor de referência até setenta.

O interno que a atendeu escreveu na evolução a hipótese mais comum do ambulatório e a conduta mais comum do ambulatório: síndrome dos ovários policísticos, iniciar anticoncepcional combinado e reforçar mudança de estilo de vida. A conduta está errada, e o erro não é de raciocínio clínico frouxo. É de leitura de fronteira: existe um patamar de androgênio acima do qual a paciente deixa de pertencer à síndrome mais comum e passa a pertencer à busca por um tumor.

O aluno que vai fazer prova de residência precisa saber onde fica esse patamar. E aqui aparece o problema que organiza este capítulo: o patamar não está escrito em documento nacional. O protocolo brasileiro de ovários policísticos, oito páginas e trinta e dois mil quatrocentos e sessenta e nove caracteres, manda investigar neoplasia produtora de androgênios diante de sinais de virilização — e não escreve um único valor de hormônio, em nenhuma unidade.

A prova, ao contrário, escreve. Nas questões de prova de ginecologia e obstetrícia, onze enunciados entregam um valor de testosterona total, e os onze usam a mesma unidade: nanogramas por decilitro. Os valores vão de setenta e oito a quinhentos e vinte. Essa unidade ocorre zero vez nos oito documentos deste capítulo, somados cento e setenta e nove mil quatrocentos e oitenta caracteres.

O capítulo, portanto, não vai entregar um número de bula que ninguém escreveu. Vai fazer coisa mais útil: mostrar por qual porta cada documento entra no caso, medir onde as portas não se encontram, e ensinar a decidir a partir do que está de fato escrito — o gatilho clínico do protocolo, a régua de pilificação com quatro redações, a série brasileira que mediu o hormônio numa paciente só, e o relógio que a lei dá para o resto.

Duas silhuetas femininas lado a lado: à esquerda, aumento leve e difuso de pelos; à direita, pilificação densa com recuo temporal do cabelo, laringe proeminente e ombros mais musculosos, com setas mais espessas ligando a silhueta ao ovário e à suprarrenal.
À esquerda, o excesso de pelo que a maioria das pacientes tem e que a régua de pilificação classifica. À direita, o conjunto que o protocolo nacional chama de sinais de virilização e que dispara, por si só, a investigação de neoplasia produtora de androgênios em ovário ou suprarrenal — sem que o documento peça qualquer valor de laboratório para autorizar essa busca.
03

O que muda decisão

O protocolo manda caçar tumor por sinal clínico e não escreve o valor

O protocolo de síndrome do ovário policístico da federação brasileira de especialidade, publicado em dezembro de 2025, organiza as manifestações hiperandrogênicas em quatro marcadores: hirsutismo, acne e seborreia, alopecia de padrão androgênico e sinais de virilização. Sobre o último, a frase é curta e é a que decide o caso da abertura: sinais de virilização são infrequentes e sugerem investigação para neoplasia produtora de androgênios, em ovário ou suprarrenal.

O documento lista quais são esses sinais, e a lista é inteiramente clínica: clitorimegalia, aumento de massa muscular, calvície temporal e engrossamento de voz. Nenhum deles é resultado de exame. A paciente da abertura tem três dos quatro. Pelo protocolo, ela já está dentro da investigação de neoplasia antes de qualquer dosagem, e a decisão do interno contraria o documento no ponto em que ele é mais explícito.

O que o protocolo não faz é fechar a régua pelo outro lado. Ele indica, na tabela de diagnóstico diferencial, que a condição a excluir chamada tumores secretores de androgênios se investiga com testosterona total e livre e com sulfato de deidroepiandrosterona. Indica o exame e não indica o corte: em trinta e dois mil quatrocentos e sessenta e nove caracteres, a unidade de concentração hormonal não aparece.

Vale registrar o que o documento faz de mais honesto: em outro marcador, ele declara a própria lacuna. Sobre acne e seborreia, escreve que não há definição exata da quantidade associada à hiperandrogenemia. É uma sociedade dizendo, no corpo do protocolo, que aquele critério não tem número. A lacuna do androgênio não vem com declaração equivalente, e por isso passa despercebida na leitura corrida.

A unidade que a prova usa e que nenhum documento usa

A medição que abre este capítulo merece ser refeita devagar, porque ela é o eixo. Foram varridos oito documentos: três de sociedade brasileira, três artigos de periódico indexado e dois diplomas legais federais. A soma dá cento e setenta e nove mil quatrocentos e oitenta caracteres normalizados. A busca pela unidade nanogramas por decilitro devolve zero em todos os oito.

A busca pela unidade vizinha, nanogramas por mililitro, devolve zero nos três documentos da federação, que somam oitenta e três mil quinhentos e quatro caracteres, e devolve dezessete ocorrências na série brasileira de tumores e vinte e sete no artigo de bioquímica adrenal. A unidade existe na pesquisa e não existe nos protocolos; a que a prova usa não existe em lugar nenhum.

A conversão é simples e o aluno precisa fazê-la de cabeça, porque a banca não faz: um nanograma por mililitro equivale a cem nanogramas por decilitro. A testosterona de trezentos e vinte nanogramas por decilitro da paciente da abertura é, na unidade da literatura, três vírgula dois nanogramas por mililitro.

Duas outras buscas completam o quadro. A expressão ponto de corte, ou o equivalente em inglês, devolve zero nos dois protocolos que disparam a caça — o de ovários policísticos e o algoritmo de amenorreia — e devolve uma ocorrência no protocolo de tumores anexiais, três no editorial e duas no artigo de bioquímica. E a expressão padrão-ouro, com o equivalente em inglês, devolve zero nos oito.

Quatro redações da mesma fronteira: a régua de pilificação

Se o androgênio não tem corte escrito, o pelo tem — e tem demais. O protocolo de ovários policísticos define hirsutismo pelo índice de pilificação quando o somatório for maior ou igual a seis na maioria das etnias, com exceção das asiáticas orientais, em que o valor é maior ou igual a quatro. Duas bordas, ambas explicitamente inclusivas, num mesmo período.

O editorial publicado na revista da mesma sociedade em 2019 conta outra história sobre a mesma régua. Escreve que a maior parte da literatura médica e dos consensos considerava hirsutismo quando o índice era oito, e que as recomendações internacionais mais recentes trazem valores mais baixos: seis para mulheres caucasianas e afrodescendentes, e quatro para mulheres de origem oriental.

São, então, quatro redações da mesma fronteira: oito, seis, quatro, e a do protocolo nacional, que adota seis com a exceção de quatro. E a redação mais antiga é a mais frouxa num aspecto que passa batido: ao escrever que a literatura considerava hirsutismo quando o índice era oito, o editorial não escreve sinal de desigualdade nenhum. A mulher de índice exatamente oito não é classificada por essa frase.

O editorial fecha declarando a incerteza: diz que a sabedoria de cada profissional deve prevalecer e que talvez novos estudos revisem os pontos de corte, para evitar o risco de sobrediagnóstico. É uma sociedade brasileira dizendo que não sabe onde fica a linha para a mulher brasileira — enquanto o protocolo da mesma sociedade, seis anos depois, escreve seis sem ressalva de população.

Aqui entra a medição que fecha a seção, e ela é um alívio. Os vinte e sete enunciados de prova que trazem um valor da régua de pilificação usam, todos, valores de nove para cima. A prova nunca põe o aluno na faixa disputada. Ela contorna a fronteira que os documentos não fecham e vai perguntar exatamente o que eles não quantificam.

Dois números para o mesmo critério, na mesma frase

O critério ultrassonográfico do protocolo nacional é o exemplo mais limpo de um vão que nasce dentro de uma única frase. O texto diz que, segundo as novas recomendações internacionais, o achado é a presença de vinte folículos ou mais em todo o ovário ou doze folículos em apenas uma secção do ovário, com diâmetro médio de dois a nove milímetros, e ou volume ovariano total maior que ou igual a dez centímetros cúbicos, em um ou ambos os ovários.

Os dois números são do mesmo critério e diferem porque o denominador difere: o ovário inteiro contra uma secção. O problema operacional é que o laudo que chega à mão do aluno, na vinheta e no ambulatório, quase nunca diz qual dos dois foi contado. Ele escreve o número e pronto.

A medição nas questões de prova mostra o vão povoado. Das dez contagens foliculares que aparecem nos enunciados de trilha de prova da área, duas caem entre os dois números do protocolo: catorze e quinze. São contagens que atendem o critério antigo, de doze por secção, e não atendem o novo, de vinte por ovário. O gabarito, nas duas, é a síndrome.

A unidade do volume também se multiplica. O protocolo escreve centímetros cúbicos; o algoritmo de amenorreia da mesma federação usa a abreviatura de capacidade; e a prova, nos quatro enunciados que trazem volume ovariano, usa duas grafias diferentes, duas vezes cada. São três escritas para a mesma quantidade, e é bom que o aluno saiba disso antes da prova e não durante.

Fecha a seção um detalhe de calendário que também tem duas escritas. O protocolo determina que ultrassom e dosagem de hormônio antimülleriano sejam solicitados apenas após oito anos da menarca, e, na nota da tabela de critérios, que o diagnóstico da adolescente seja revisto após oito anos da menarca. O mesmo gatilho aparece duas vezes, uma em algarismo e outra por extenso, e as duas são exclusivas: quem está exatamente no oitavo aniversário não é alcançada por nenhuma delas.

A série brasileira que mediu o hormônio numa paciente só

A única série brasileira aberta neste capítulo sobre o tumor que produz androgênio vem do Hospital de Câncer de Barretos e reúne doze pacientes tratadas entre outubro de 2009 e agosto de 2017 com tumor de células de Sertoli e Leydig do ovário. A idade mediana ao diagnóstico foi de trinta e um anos, com extremos de quinze e setenta e um.

A tabela de exames pré-operatórios é o achado que mais ensina, e ensina pelo que falta. Das doze pacientes, uma única teve testosterona total dosada antes da cirurgia, e uma única teve sulfato de deidroepiandrosterona dosado — a mesma paciente. O valor de testosterona registrado é três vírgula cinquenta e cinco nanogramas por mililitro, ou trezentos e cinquenta e cinco nanogramas por decilitro na unidade da prova.

O corpo do artigo transforma esse dado isolado numa estatística com aparência de amostra: escreve que a testosterona total mediana foi de três vírgula cinco nanogramas por mililitro, com intervalo de três vírgula cinco a três vírgula cinco. Uma mediana cujo intervalo é o próprio valor mede uma observação só. O mesmo vale para o sulfato de deidroepiandrosterona, com intervalo igualmente degenerado.

Duas consequências, e as duas são úteis. A primeira é de humildade: o valor brasileiro medido cai bem no meio da faixa que as bancas usam, o que sugere que a faixa não é arbitrária. A segunda é de método: com uma observação não existe distribuição nem corte derivável, e o aluno que espere achar num artigo brasileiro o número que o protocolo não escreveu vai encontrar exatamente isto.

O artigo também contém uma contradição de leitura fácil. Diz que a faixa etária mais acometida corresponde à segunda e à terceira décadas de vida, predominantemente, como evidenciado no nosso estudo, cuja idade mediana ao diagnóstico foi de trinta e um anos. Trinta e um anos é quarta década: a mediana citada como prova da afirmação fica fora do intervalo que a afirmação define.

Três contagens divergentes no mesmo artigo, e as três fecham

O mesmo artigo oferece o exercício que separa erro de leitura apressada. Ele traz três contagens diferentes de manifestação androgênica na mesma amostra de doze pacientes, e a tentação é acusar inconsistência. As três foram conferidas contra a tabela de características clínicas, paciente por paciente, e as três fecham.

Nos resultados, o artigo escreve que duas pacientes apresentaram sinais de virilização. Na discussão, escreve que o único sinal registrado na amostra foi hirsutismo, evidenciado ao exame físico de uma paciente. Na tabela de revisão da literatura, atribui à própria série quatro casos de manifestações androgênicas.

A tabela clínica resolve tudo, porque separa colunas de queixa na admissão e de exame físico. Duas pacientes trouxeram virilização como queixa. Uma única tinha hirsutismo anotado no exame físico. E a nota de rodapé da tabela de revisão define manifestações androgênicas de forma mais larga, incluindo amenorreia: são três pacientes com amenorreia mais uma com virilização de queixa, e a união dá quatro.

Dois, um e quatro são três definições, não três erros. A lição de prova é direta: quando um enunciado pergunta quantas pacientes tinham hiperandrogenismo, a resposta depende de a banca estar contando queixa, sinal ao exame ou manifestação em sentido amplo, e essas contagens divergem por um fator de quatro na mesma série.

A aritmética que não fecha e a que fecha por dentro

A tabela de revisão da literatura do mesmo artigo compara cinco séries e, em cada uma, distribui a amostra em três categorias exclusivas: sem manifestação hormonal, com manifestação androgênica e com manifestação estrogênica. Isso permite uma auditoria completa, feita nas cinco linhas.

Pelas contagens absolutas, as cinco linhas fecham exatamente: cada soma das três categorias é igual ao tamanho de amostra declarado na própria linha, para trinta e quatro, quarenta, onze, dezesseis e doze pacientes. Pelas porcentagens, as cinco também somam exatamente cem por cento.

O problema aparece quando se refazem as divisões. Em duas das cinco linhas, duas das três porcentagens erram na segunda casa. Na série de onze, sete sobre onze é sessenta e três vírgula sessenta e quatro e a tabela escreve sessenta e três vírgula sessenta e três; um sobre onze é nove vírgula zero nove e a tabela escreve nove vírgula dez. Na série de doze, quatro sobre doze vira trinta e três vírgula trinta, e dois sobre doze vira dezesseis vírgula setenta.

O erro tem direção. Em cada uma das duas linhas os desvios se compensam e a soma cai em cem vírgula zero zero: o total foi preservado às custas das parcelas. As outras três linhas dividem em valores exatos e não precisaram de ajuste. Vale dizer o que isso não é: não invalida a tabela, porque as contagens absolutas estão todas corretas e são elas que sustentam a comparação.

Uma segunda conta ficou abandonada e é honesto declará-la. Os resultados listam sintomas de admissão com porcentagens de denominador doze, o total da amostra, mas a frase que as introduz fala das nove pacientes sintomáticas. O denominador troca de nove para doze no meio do período, e nenhuma reconciliação recupera as duas leituras ao mesmo tempo.

O marcador que os documentos quantificam é o outro

Quando o protocolo manda buscar neoplasia de ovário, a pergunta natural do aluno é qual documento nacional ensina a avaliar uma massa anexial. Existe um, publicado pela mesma federação em abril de 2026, com seis páginas e trinta mil e setenta e três caracteres. Ele foi aberto e medido, e o resultado é o achado mais seco deste capítulo.

Nesse protocolo, testosterona ocorre zero vez, androgênio zero e virilização zero, nos dois idiomas. O documento que trata do órgão em que o tumor produtor de androgênio nasce não menciona androgênio nenhuma vez: organiza o risco por imagem, idade, história oncológica, sintomas, achados de exame clínico e níveis de marcadores tumorais.

E ele dá número — para outro marcador. Descreve o índice que combina achado ultrassonográfico, estado menopausal e o antígeno de câncer de ovário, e escreve que, ao usar o ponto de corte duzentos, a sensibilidade e a especificidade do método são de oitenta e cinco por cento e noventa e sete por cento. É a única acurácia numérica do documento, e pertence a um marcador que o tumor virilizante não costuma elevar.

A série de Barretos permite testar isso, e o teste é impiedoso. Das doze pacientes com tumor confirmado, cinco tiveram o antígeno dosado antes da cirurgia: quarenta e dois, vinte e seis vírgula zero um, vinte e quatro vírgula cinco, dezenove vírgula um e cento e quarenta e sete. Nenhum deles cruza o corte de duzentos. O único número operacional que os protocolos oferecem para a massa anexial teria sido negativo em todas as pacientes medidas desta série.

O corte que o próprio artigo declara incapaz de separar

A outra causa que o protocolo manda excluir antes de fechar a síndrome é a hiperplasia adrenal congênita de forma tardia, e o exame indicado é a dosagem de dezessete hidroxiprogesterona. Aqui existe corte escrito, e ele vem do artigo de bioquímica adrenal publicado em revista brasileira de endocrinologia em 2022.

O artigo declara os critérios do próprio centro para indicar análise molecular: basal acima de dois nanogramas por mililitro e, após estímulo, acima de dez. Depois, na discussão, cita um segundo corte da literatura: valores acima de três nanogramas por mililitro após estímulo foram propostos para identificar portadoras heterozigóticas.

E então o artigo faz o que quase nenhum documento faz: declara a inutilidade do próprio corte. Escreve que encontrou, entre portadoras e mulheres sem variante, níveis após estímulo acima de três e até alguns acima de dez, o corte usualmente aplicado ao diagnóstico da forma tardia, e conclui que esses grupos não podem ser separados de forma distinta por critério bioquímico.

Daí sai uma regra de leitura de vinheta que vale ouro. Quando o enunciado entrega um valor basal claramente baixo — e a prova entrega cinco assim, todos abaixo de dois nanogramas por mililitro — a hiperplasia tardia está afastada para efeito de prova. Quando entrega quatro vírgula cinco, valor que o próprio enunciado descreve como insuficiente para o diagnóstico direto, a resposta esperada é o teste de estímulo, não o diagnóstico.

Uma anotação de auditoria, porque apareceu na medição e seria desonesto omitir. Na tabela de dados bioquímicos das crianças, a linha das meninas sem variante traz mediana de dois vírgula zero com intervalo declarado de zero vírgula quatro a um vírgula três. A mediana não cabe no próprio intervalo. Os demais valores da tabela fecham entre si, o que indica erro num único algarismo do máximo dessa linha, provavelmente treze vírgula zero com a vírgula adiantada.

A lei dá o relógio, e não dá o hormônio

Reconhecida a suspeita de neoplasia produtora de androgênios, o caso deixa de ser apenas clínico e passa a ter prazo legal. Dois diplomas federais governam esse tempo, e os dois foram abertos e medidos, com um resultado que espelha o dos protocolos, ao contrário.

A lei de 2019, que alterou a lei de 2012, determina que, quando a hipótese for de neoplasia maligna, os exames necessários à elucidação sejam realizados no prazo máximo de trinta dias, mediante solicitação fundamentada do médico responsável. A lei de 2012 estabelece que a paciente com neoplasia maligna comprovada tem direito ao primeiro tratamento no sistema público em até sessenta dias, contados do dia em que o diagnóstico for firmado em laudo patológico.

A medição de conteúdo é simétrica à dos protocolos. Nos dois diplomas somados, treze mil cento e noventa caracteres, prazo ocorre sete vezes e neoplasia nove; testosterona, androgênio e hormônio ocorrem, cada um, zero vez. Os protocolos dão o gatilho clínico e nenhuma unidade; a lei dá o relógio e nenhum valor de laboratório.

Existe um vão real entre os dois. A lei condiciona o prazo de trinta dias à hipótese de neoplasia maligna. Boa parte dos tumores produtores de androgênio de ovário tem comportamento indolente e é diagnosticada em estádio inicial: na série de Barretos, todos estavam no estádio mais precoce da classificação em vigor. Quem redige a solicitação precisa saber que o direito ao prazo depende de a hipótese estar escrita como neoplasia maligna, e não como massa a esclarecer.

O que a prova pergunta, medido, e como responder

Vale fechar com o que a prova de fato cobra, porque isso organiza o estudo melhor do que qualquer intuição. Entre as questões de trilha de prova classificadas na área, trinta enunciados trazem o vocabulário de androgênio em nível tumoral, e em treze deles o gabarito é sair da síndrome: pedir imagem de ovário e de suprarrenal, indicar teste de estímulo, ou nomear o tumor virilizante.

Os gabaritos que constituem esse eixo são poucos e repetitivos, o que é ótima notícia para quem estuda. São eles: solicitar exame de imagem de ovários e adrenais para investigar neoplasia produtora de androgênios; realizar teste de estímulo dosando dezessete hidroxiprogesterona; nomear tumor virilizante de ovário; e, do outro lado da bifurcação, excluir tireoide, prolactina e hiperplasia adrenal antes de firmar a síndrome.

A bifurcação é lida no enunciado, não no laboratório sozinho. Quando o quadro é arrastado, com pilificação de anos e valores discretamente elevados, a rota é a exclusão ordenada e depois a síndrome. Quando é rápido, com virilização, e o valor sobe para as centenas, a rota é imagem. A velocidade e o sinal decidem antes do número, porque é assim que o protocolo está escrito e assim que a banca monta a vinheta.

E resta o que este capítulo não pode entregar, dito com todas as letras. Não existe, nos documentos brasileiros abertos aqui, um valor de testosterona que autorize sozinho a busca por tumor. Quem repetir na prova um limiar decorado estará repetindo literatura estrangeira que nenhum dos oito documentos escreve. O que existe, e é defensável em qualquer banca, é a sequência: o sinal dispara, os androgênios medem, a imagem localiza, e o relógio legal começa quando a hipótese de neoplasia maligna é escrita no pedido.

04

As quatro leituras do hiperandrogenismo na mulher que procura o ambulatório

Os cartões seguem a ordem crescente de compromisso com a busca por neoplasia, e o número de blocos cheios na base acompanha essa ordem. A ordem não é de gravidade do sintoma nem de valor de laboratório: é de quanto o quadro obriga a sair da síndrome mais comum e ir atrás de um tumor de ovário ou de suprarrenal.

Pilificação de anos, sem sinal de virilização: fica na síndrome

Excesso de pelo instalado ao longo de anos, ciclos longos desde a adolescência, sem clitorimegalia, sem mudança de voz, sem calvície temporal e sem ganho de massa muscular. O protocolo nacional não dispara a busca por neoplasia aqui, porque o gatilho que ele escreve é o sinal de virilização, e ele não está presente.

Androgênio pouco acima da referência: exclua as outras causas antes

Testosterona total discretamente acima da referência, sem sinal de virilização. A tabela de diagnóstico diferencial do protocolo manda excluir tireoide, prolactina, forma tardia da hiperplasia adrenal e síndrome de Cushing antes de firmar a síndrome. Só depois disso o diagnóstico de exclusão pode ser escrito.

Instalação em meses com virilização: a imagem entra por sinal clínico

Quadro que se instalou em meses, com clitorimegalia, engrossamento de voz, recuo temporal do cabelo ou ganho de massa muscular. É a frase literal do protocolo: sinais de virilização sugerem investigação para neoplasia produtora de androgênios em ovário ou suprarrenal. A imagem é pedida pelo sinal, sem esperar valor.

Androgênio em faixa masculina com virilização: prioridade e prazo

Testosterona total em centenas de nanogramas por decilitro, com virilização franca. Imagem de ovário e de suprarrenal com prioridade, e a hipótese escrita no pedido como neoplasia maligna, porque é essa redação que aciona o prazo legal de trinta dias para os exames de elucidação.

A ordem dos cartões é de compromisso com a busca por tumor, não de gravidade do sintoma. Uma paciente do primeiro cartão pode sofrer mais com o pelo do que uma do terceiro sofre com a voz, e ainda assim não precisar de imagem.

Nenhum dos quatro cartões traz um valor de androgênio como fronteira, e isso é fiel aos documentos: o protocolo nacional não escreve nenhum. As centenas citadas no quarto cartão descrevem a faixa que a prova usa, e não um corte de sociedade.

Os cartões dois e três podem coexistir na mesma paciente e não se anulam: exclusão de outras causas e imagem correm juntas quando há virilização, porque a exclusão pode demorar e o prazo legal já começou a contar.

A régua de pilificação não separa os cartões, e não é descuido. Ela tem quatro redações entre oito, seis e quatro, e a prova nunca coloca o aluno nessa faixa disputada: todos os valores que ele entrega são de nove para cima.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A partir de que índice de pilificação se diz que a mulher tem hirsutismo, e a borda é inclusiva ou não?

Hirsutismo avaliado e diagnosticado pelo índice quando o somatório for maior ou igual a seis na maioria das etnias, com exceção das asiáticas orientais, em que esse valor é maior ou igual a quatro.

Protocolo Febrasgo de síndrome do ovário policístico, Femina, volume 53, número 12, ano 2025, seção de manifestações clínicas. Borda inclusiva nas duas faixas.

A maior parte da literatura médica e dos consensos considerava hirsutismo quando o índice era oito.

Editorial da Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, volume 41, número 6, ano 2019. A frase não traz sinal de desigualdade: não diz maior que oito nem maior ou igual a oito.

As recomendações internacionais mais recentes trazem valores de corte mais baixos: seis para mulheres caucasianas e afrodescendentes, e quatro para mulheres de origem oriental.

Mesmo editorial, ao descrever a diretriz internacional que o protocolo nacional viria a adotar seis anos depois.

A sabedoria de cada profissional deve prevalecer, e talvez novos estudos revisem os pontos de corte na prática clínica, para evitar o risco de sobrediagnóstico.

Fecho do mesmo editorial, que declara a incerteza da régua para a população atendida no país.

Na prova

Enunciado com mulher jovem, ciclos irregulares e escore de pilificação entre seis e oito, perguntando se o critério clínico de hiperandrogenismo está preenchido.

Quantos folículos definem a morfologia ovariana policística, e contados em quê?

Presença de vinte folículos ou mais em todo o ovário, com diâmetro médio de dois a nove milímetros.

Protocolo Febrasgo de síndrome do ovário policístico, ano 2025, nota da tabela de critérios diagnósticos, ao citar as novas recomendações internacionais.

Ou doze folículos em apenas uma secção do ovário, com o mesmo diâmetro médio de dois a nove milímetros.

Mesma frase do mesmo protocolo: os dois números convivem num único período e diferem apenas pelo denominador da contagem.

Ou volume ovariano total maior que ou igual a dez centímetros cúbicos, em um ou ambos os ovários.

Terceiro braço da mesma frase, que permite fechar o critério sem contar folículo nenhum e cuja unidade aparece com outra grafia no algoritmo de amenorreia da mesma federação.

Na prova

Enunciado com laudo de ultrassom transvaginal informando catorze ou quinze folículos, sem dizer se a contagem foi do ovário inteiro ou de uma secção.

Que valor de dezessete hidroxiprogesterona separa portadora de doente, e o corte separa mesmo?

Os critérios do centro para indicar análise molecular eram dezessete hidroxiprogesterona basal acima de dois nanogramas por mililitro e, após estímulo, acima de dez nanogramas por mililitro.

Archives of Endocrinology and Metabolism, volume 66, número 2, ano 2022, seção de métodos.

Valores após estímulo acima de três nanogramas por mililitro foram propostos para a identificação do estado de portadora.

Mesmo artigo, seção de discussão, ao citar corte da literatura diferente do adotado nos próprios métodos.

Encontramos, entre portadoras e mulheres sem variante, níveis após estímulo acima de três e mesmo alguns acima de dez, o corte usualmente aplicado ao diagnóstico da forma tardia; esses grupos não podem ser separados de forma distinta por critério bioquímico.

Mesmo artigo, discussão, declarando que o próprio corte que ele usa não separa os grupos que deveria separar.

Na prova

Enunciado com dezessete hidroxiprogesterona basal de quatro vírgula cinco nanogramas por mililitro, descrita como insuficiente para o diagnóstico direto, perguntando o próximo exame.

Qual marcador tumoral tem ponto de corte escrito para a massa anexial suspeita?

Ao usar o ponto de corte duzentos no índice de risco de malignidade, a sensibilidade e a especificidade do método são de oitenta e cinco por cento e noventa e sete por cento, respectivamente.

Protocolo Febrasgo de tumores anexiais, Femina, volume 54, número 4, ano 2026, seção de avaliação de risco. Único ponto de corte numérico do documento.

O antígeno de câncer de ovário está aumentado em oitenta por cento das pacientes com câncer epitelial, e não deve ser utilizado isoladamente para diferenciar tumores benignos de malignos.

Mesmo protocolo, seção de marcadores tumorais séricos, com a ressalva que limita o uso do único marcador que ele quantifica.

Das doze pacientes com tumor de células de Sertoli e Leydig, cinco tiveram o antígeno dosado antes da cirurgia, com valores de quarenta e dois, vinte e seis vírgula zero um, vinte e quatro vírgula cinco, dezenove vírgula um e cento e quarenta e sete.

Tabela de exames pré-operatórios da série do Hospital de Câncer de Barretos, Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, volume 41, número 7, ano 2019: nenhum valor cruza o corte de duzentos.

Na prova

Enunciado com massa anexial sólido-cística em mulher jovem com virilização, perguntando qual exame confirma ou afasta malignidade.

Em quanto tempo os exames de elucidação precisam sair, e a que hipótese esse prazo está preso?

Quando a principal hipótese diagnóstica for a de neoplasia maligna, os exames necessários à elucidação devem ser realizados no prazo máximo de trinta dias, mediante solicitação fundamentada do médico responsável.

Lei número 13.896, de 30 de outubro de 2019, que inseriu o dispositivo na lei de 2012. O prazo está preso à palavra maligna.

A paciente com neoplasia maligna comprovada tem direito de se submeter ao primeiro tratamento no sistema público no prazo de até sessenta dias, contados do dia em que for firmado o diagnóstico em laudo patológico.

Lei número 12.732, de 22 de novembro de 2012, artigo primeiro. Segundo relógio, com marco diferente: o laudo patológico, e não a suspeita.

Todos os tumores da série estavam no estádio mais precoce da classificação em vigor, e a mediana de seguimento foi de dezenove vírgula cinco meses, sem casos de recidiva.

Série do Hospital de Câncer de Barretos, ano 2019: o comportamento indolente é o que torna delicada a redação do pedido como neoplasia maligna.

Na prova

Enunciado com suspeita de tumor virilizante em serviço público, perguntando prazo e redação do encaminhamento.

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Caso resolvido

Mulher de vinte e nove anos, sem comorbidades, procura o ambulatório de ginecologia por aumento de pelos em face, abdome e dorso iniciado há oito meses e progressivo, com necessidade de barbear diário no último mês. Refere que a voz engrossou nesse período e que está sem menstruar há cinco meses. Nega uso de anabolizantes, de suplementos ou de medicações. Ao exame, índice de pilificação vinte e dois, alopecia de padrão masculino nas têmporas e clitóris aumentado. Índice de massa corporal vinte e três, sem acantose nigricante, sem estrias violáceas e sem fácies cushingoide. Exames: gonadotrofina coriônica negativa, hormônio estimulante da tireoide e prolactina normais, dezessete hidroxiprogesterona basal de um vírgula um nanograma por mililitro, sulfato de deidroepiandrosterona normal e testosterona total de trezentos e vinte nanogramas por decilitro, para referência até setenta.
A velocidade e os sinais classificam a paciente antes de qualquer número
Oito meses de instalação, engrossamento de voz, alopecia temporal e clitorimegalia formam o conjunto que o protocolo nacional chama de sinais de virilização. A frase do documento é direta: esses sinais são infrequentes e sugerem investigação para neoplasia produtora de androgênios em ovário ou suprarrenal. A paciente entra na investigação por essa porta, e não pela dosagem.
Os exames normais não são ruído, são a exclusão que o protocolo pede
A tabela de diagnóstico diferencial manda excluir hiperprolactinemia, doença da tireoide, forma tardia da hiperplasia adrenal e síndrome de Cushing. Prolactina e hormônio da tireoide normais afastam duas; dezessete hidroxiprogesterona basal de um vírgula um, abaixo do corte de dois usado como critério de investigação molecular, afasta a terceira; a ausência de estrias violáceas e de fácies característica, somada ao índice de massa corporal baixo, torna a quarta improvável.
O sulfato de deidroepiandrosterona normal aponta a origem, e não afasta o tumor
Esse marcador é predominantemente adrenal. Normal, ele torna menos provável a origem em suprarrenal e desloca a atenção para o ovário, mas não afasta neoplasia alguma, porque a testosterona é o produto que o tumor ovariano de células de Sertoli e Leydig secreta. A leitura correta é de localização, não de exclusão.
A imagem é pedida para os dois órgãos, mesmo com a origem sugerida
O protocolo escreve ovário ou suprarrenal, sem hierarquia. Os gabaritos de prova que constituem este eixo repetem a mesma fórmula: solicitar exame de imagem de ovários e adrenais para investigar neoplasia produtora de androgênios. Ultrassonografia transvaginal e tomografia ou ressonância de abdome cobrem os dois territórios numa rodada só.
O antígeno de câncer de ovário não decide e não deve ser esperado
O protocolo de tumores anexiais o quantifica com corte duzentos dentro de um índice de risco, e adverte que não serve isolado. A série brasileira mostra por quê: das cinco pacientes com tumor confirmado que o dosaram, o valor mais alto foi cento e quarenta e sete. Um resultado baixo aqui não muda nada da conduta e não deve atrasar a imagem.
A redação do pedido é o que aciona o relógio legal
Com hipótese principal de neoplasia produtora de androgênios, a solicitação fundamentada aciona o prazo máximo de trinta dias para os exames de elucidação, previsto na lei de 2019. Escrever apenas investigar hiperandrogenismo não aciona. Confirmado o tumor em laudo patológico, começa o segundo relógio, de até sessenta dias para o primeiro tratamento no sistema público.
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Agora feche você

Mulher de trinta e seis anos procura a unidade básica por aumento de pelos em buço, queixo e linha média do abdome, que ela descreve como presente desde os vinte e poucos anos e que piorou devagar. Ciclos menstruais entre quarenta e cinquenta dias desde a adolescência, com dois períodos de amenorreia de três meses ao longo da vida. Índice de massa corporal trinta e um, acantose nigricante em nuca, sem clitorimegalia, sem alteração de voz e sem calvície temporal. Índice de pilificação doze. Exames: gonadotrofina coriônica negativa, hormônio estimulante da tireoide e prolactina normais, dezessete hidroxiprogesterona basal de zero vírgula oito nanograma por mililitro, testosterona total de oitenta e dois nanogramas por decilitro para referência até sessenta. Ultrassonografia transvaginal com quinze folículos de dois a nove milímetros no ovário direito e volume ovariano de onze centímetros cúbicos.
Passo 1
Escreva a frase do protocolo nacional que dispara a busca por neoplasia produtora de androgênios e explique, item por item da lista de sinais que ela nomeia, por que esta paciente não a aciona.
Passo 2
O laudo informa quinze folículos. Diga a qual das duas contagens do protocolo esse número atende e a qual não atende, explique o que muda entre elas e decida se o critério ultrassonográfico está preenchido usando também o volume ovariano informado.
Passo 3
Liste as quatro condições que a tabela de diagnóstico diferencial manda excluir antes de firmar a síndrome, aponte quais os exames desta paciente já excluíram e quais ainda não, e diga se o diagnóstico pode ser escrito hoje.
Passo 4
O índice de pilificação desta paciente é doze. Diga se ela seria classificada como tendo hirsutismo por cada uma das quatro redações da fronteira apresentadas no capítulo, e explique por que essa disputa não muda a conduta neste caso.
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Onde a banca derruba

  1. 1Esperar um valor de androgênio para começar a investigar o tumor O protocolo nacional dispara a busca por neoplasia produtora de androgênios diante de sinais de virilização, e a lista que ele dá é inteiramente clínica: clitorimegalia, aumento de massa muscular, calvície temporal e engrossamento de voz. Quem aguarda o laboratório para pedir imagem inverte a ordem do documento e perde a paciente cuja testosterona ficou em duzentos e dez.
  2. 2Decorar um limiar de testosterona como se fosse de sociedade brasileira Nenhum dos oito documentos deste capítulo escreve um valor de testosterona que autorize sozinho a busca por tumor, e a unidade que a prova usa não aparece em nenhum deles. Um limiar recitado na prova vem de literatura estrangeira, e o aluno que o defende como norma nacional está afirmando mais do que consegue sustentar.
  3. 3Ler o número de folículos do laudo como se o denominador estivesse dito A mesma frase do protocolo traz vinte folículos para o ovário inteiro e doze para uma secção. O laudo raramente informa qual foi contado. Catorze e quinze, que a prova entrega em dois enunciados, atendem o critério antigo e não atendem o novo, e é preciso decidir com os outros dois critérios de Rotterdam em vez de brigar com a contagem.
  4. 4Tratar a paciente de instalação rápida como se fosse a de anos O que distingue o cartão que fica na síndrome do cartão que vai para a imagem não é o valor, é a velocidade do quadro somada à virilização. Pilificação instalada em meses, com voz e clitóris alterados, é história de tumor até prova em contrário, mesmo com testosterona que pareceria modesta numa tabela.
  5. 5Confundir os três jeitos de contar manifestação androgênica numa série A série brasileira aberta aqui registra duas pacientes com virilização como queixa, uma com sinal ao exame físico e quatro com manifestação androgênica em sentido amplo, o que inclui amenorreia. As três contagens fecham contra a tabela clínica e valem para perguntas diferentes; usar uma no lugar da outra erra por um fator de quatro.
  6. 6Pedir o antígeno de câncer de ovário esperando que ele decida a massa virilizante O protocolo de tumores anexiais dá ponto de corte para esse marcador e adverte que ele não deve ser usado isoladamente. Na série brasileira, cinco pacientes com tumor confirmado tiveram o marcador dosado e o valor mais alto foi cento e quarenta e sete, abaixo do corte de duzentos. Marcador negativo não afasta tumor produtor de androgênio.
  7. 7Fechar hiperplasia adrenal tardia pelo valor basal quando ele está na zona cinzenta Basal claramente abaixo de dois nanogramas por mililitro afasta, e a prova entrega vários assim. Valor intermediário exige teste de estímulo, e mesmo depois dele o artigo de referência declara que portadoras e não portadoras se sobrepõem acima de três e até acima de dez. Diagnosticar pelo basal na zona cinzenta é fabricar certeza que a fonte nega.
  8. 8Escrever o pedido como massa anexial a esclarecer e contar com o prazo de trinta dias A lei prende o prazo de trinta dias para os exames de elucidação à hipótese principal de neoplasia maligna, e exige solicitação fundamentada do médico responsável. Um pedido redigido sem essa hipótese explícita não aciona o direito, e o prazo de sessenta dias do primeiro tratamento só começa com o laudo patológico firmado.
  9. 9Achar que a régua de pilificação resolve o caso quando ela é justamente a mais disputada O índice tem quatro redações entre oito, seis e quatro, e o editorial da sociedade brasileira declara que talvez precisem ser revistas para evitar sobrediagnóstico. A prova contorna a disputa: nenhum enunciado entrega valor abaixo de nove. Investir tempo em decorar a fronteira do pelo é estudar a parte do assunto que a prova evita.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: o quadro é de virilização franca de instalação rápida (voz grave, clitoromegalia) com testosterona total muito elevada (>150-200 ng/dL) e SDHEA normal. O SDHEA normal aponta para origem OVARIANA (e não adrenal) do excesso de androgênio, sendo o SDHEA um marcador quase exclusivo da adrenal. Logo, o próximo passo é a imagem ovariana pela USG transvaginal, buscando tumor produtor de androgênios (ex.: tumor de células de Sertoli-Leydig). Errada: a TC de adrenais estaria indicada se o SDHEA estivesse muito elevado (origem adrenal), o que não é o caso. Errada: RM de sela investiga prolactinoma/adenoma hipofisário, não relacionado a este padrão androgênico. Errada: o teste da cortrosina investiga HAC não clássica, já afastada pela 17-OHP normal e pelo padrão de virilização tumoral. Errada: a androstenediona pode complementar, mas não define a topografia nem é o próximo passo diante de virilização rápida com testosterona muito alta — a prioridade é localizar o tumor por imagem.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sem consultar nada, escreva as quatro redações da fronteira do índice de pilificação — a do protocolo nacional com sua exceção étnica, as duas da diretriz internacional e a frase do editorial que não traz sinal de desigualdade — e diga qual delas deixa a mulher de índice exatamente oito sem classificação. Em seguida, escreva a frase do protocolo que dispara a busca por neoplasia produtora de androgênios e liste os quatro sinais que ela nomeia, sem acrescentar nenhum valor de laboratório.

em 30 dias

Pegue a paciente do caso a completar, a de trinta e seis anos com pilificação de dez anos e testosterona de oitenta e dois nanogramas por decilitro, e reescreva a conduta em três linhas. Depois troque um dado: mantenha o valor e some engrossamento de voz surgido em quatro meses. Diga o que muda, por que muda pelo texto do protocolo e não pelo número, e qual redação o pedido de imagem precisa ter para acionar o prazo legal de trinta dias.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você atende no ambulatório de ginecologia de um hospital secundário. A próxima paciente é uma mulher jovem encaminhada da atenção básica com o encaminhamento escrito à mão: excesso de pelos, investigar. Colha a história com atenção à velocidade de instalação e às mudanças de voz, de cabelo e de corpo que a paciente pode não relatar espontaneamente; examine buscando os sinais que o protocolo nomeia; decida quais exames pedir e em que ordem; e, se concluir pela investigação de neoplasia, escreva o pedido com a redação que aciona o prazo legal. Explique cada passo à paciente em linguagem que ela entenda, sem prometer diagnóstico antes da imagem. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hiperandrogenismo, hirsutismo e virilização – Hirsutismo e virilização: o androgênio que tira o caso do ovário policístico — Preparatório para provas | OsceLabs