Cirurgia GeralCirurgia de Cabeça e Pescoço

Massas cervicais: três caixas, e a idade decide o peso de cada uma

Idade, tempo de evolução e localização respondem antes de qualquer exame. O erro caro não é errar o diagnóstico: é gastar duas semanas de antibiótico e abrir o pescoço com bisturi onde cabia uma agulha fina.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Em qual momento do desenvolvimento embrionário se origina o cisto do ducto tireoglosso e qual estrutura marca o ponto inicial de sua migração?

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Como esse tema cai

Massa cervical não é diagnóstico: é uma porta com três corredores — congênito, inflamatório e neoplásico —, e quase todo o trabalho está em decidir por qual deles o paciente entrou antes de pedir exame. O assunto aqui é o caroço no pescoço que não é tireoide, não é glândula salivar e não é paratireoide: o cisto de linha média que sobe com a língua, o cisto lateral do jovem, o linfonodo que não some, a massa supraclavicular do adulto e o gânglio frio que fistuliza.

O capítulo de câncer de boca e das vias aerodigestivas superiores começa onde este termina. Lá moram o estadiamento, a régua que a Portaria SAS/MS nº 516/2015 assinou, os quatro nomes de esvaziamento cervical e o relógio de 60 dias da Lei nº 12.732/2012. Aqui mora o que vem antes do laudo: quem punciona, com que agulha, o que se pede no material aspirado e por que abrir o pescoço com bisturi é a última porta, não a primeira. No instante em que a citologia diz carcinoma espinocelular, o caso muda de capítulo.

Da mesma apostila, três capítulos ficam com o que é glândula. O nódulo que se move com a deglutição e não com a protrusão da língua é tireoide, e a régua dele é o sistema Bethesda. A massa que nasce dentro da parótida ou da submandibular tem escala própria, o Sistema de Milão. O paciente hipercalcêmico com adenoma de paratireoide tem a conta dele. Sobra para cá tudo o mais — e o que sobra é a maioria dos pescoços que chegam ao ambulatório.

Da apostila de otorrinolaringologia vem o que é agudo e de mucosa: faringoamigdalite e critérios de Centor, otite, rinossinusite. O gânglio doloroso que aparece no terceiro dia de uma amigdalite é de lá. O mesmo gânglio, seis semanas depois, com a garganta já curada, é daqui — e o que separa os dois é o cronômetro, não o exame de imagem. E a escolha entre aspirar, cravar agulha grossa ou tirar o gânglio inteiro tem tratamento próprio no capítulo de colheita de tecido da apostila de Oncologia; aqui ela entra apenas na parte que decide o pescoço.

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O que muda decisão

Idade, tempo e lugar: três perguntas que fecham metade dos casos

Antes de qualquer exame, três dados de anamnese e inspeção reorganizam a probabilidade inteira. O primeiro é a idade. Abaixo dos 40 anos, a massa cervical é, na esmagadora maioria, inflamatória ou congênita; acima dos 40, a probabilidade a priori se inverte, e massa cervical lateral que não é tireoide passa a ser metástase de carcinoma até prova em contrário. O ensino clássico embala isso na regra dos oitenta — quatro em cada cinco massas não tireoidianas do adulto acima de 40 anos são neoplásicas, e quatro em cada cinco dessas são malignas —, mnemônico que serve de ordem de grandeza e não de medida: o valor dele é lembrar que a caixa neoplásica é a primeira a abrir depois dos 40 e a última antes dos 20.

O segundo é o tempo. A regra dos sete arruma as três caixas com um único número em três unidades: massa que existe há sete dias tende a ser inflamatória, há sete meses tende a ser neoplásica, há sete anos tende a ser congênita. É grosseira de propósito, e por isso funciona: o que ela pede é que o tempo seja perguntado em número, não em advérbio. Paciente que responde faz um tempo já entregou o dado mais importante da consulta, porque duração incerta conta como duração longa.

A diretriz dedicada ao tema transforma essa intuição em corte operacional. Ela define como de risco aumentado para malignidade o adulto cuja massa cervical persiste por duas semanas ou mais sem flutuação significativa de tamanho, ou cuja duração é incerta. Duas semanas é pouco tempo para quem espera um caroço sumir sozinho, e é exatamente esse o ponto: o corte foi posto baixo de propósito, para que a investigação comece cedo. À duração somam-se características do exame que também elevam o risco: consistência endurecida, fixação a planos profundos, tamanho acima de 1,5 cm e ulceração da pele que a recobre.

O terceiro é o lugar, o mais barato dos três. Linha média acima da cartilagem tireóidea, subindo com a deglutição e com a protrusão da língua: ducto tireoglosso. Borda anterior do esternocleidomastóideo, terço superior, paciente jovem: segundo arco branquial. Fossa supraclavicular, em qualquer idade adulta: doença maligna até prova em contrário, com frequência de primário abaixo das clavículas.

Esquema do pescoço em vista anterior, sem rosto, com três posições de massa cervical: marca circular na linha média acima da cartilagem tireóidea, marca ovalada sobre a borda anterior do esternocleidomastóideo esquerdo no terço superior, e marca no fundo da fossa supraclavicular do mesmo lado.
As três posições que respondem antes de qualquer exame: o círculo da linha média, acima da cartilagem tireóidea, é o cisto do ducto tireoglosso, que sobe com a deglutição e com a protrusão da língua; a elipse tracejada sobre a borda anterior do esternocleidomastóideo é a topografia do cisto branquial de segundo arco no jovem e a do gânglio de nível II no adulto; o losango da fossa supraclavicular olha para baixo das clavículas e é maligno até prova em contrário.

O antibiótico de tentativa é o erro que a diretriz nomeia

Existe uma conduta que a diretriz de massa cervical no adulto desaconselha por escrito, e ela é justamente a mais praticada: prescrever antibiótico como manejo inicial de uma massa cervical na ausência de sinais e sintomas de infecção bacteriana. Não é uma recomendação sobre resistência antimicrobiana — é uma recomendação sobre atraso. Cada ciclo empírico consome de sete a dez dias, o retorno costuma ser marcado para depois disso, e dois ciclos somados a duas agendas devolvem o paciente ao consultório um mês e meio depois, com a mesma massa e um diagnóstico ainda não iniciado.

O que autoriza o antibiótico é o quadro infeccioso, não a massa: dor local, calor, eritema da pele sobrejacente, febre, evolução em poucos dias, porta de entrada identificável na orofaringe, nos dentes ou na pele do couro cabeludo. Esses achados descrevem linfadenite bacteriana aguda, e aí o antibiótico é o tratamento. O que não autoriza é o caroço indolor, endurecido, de semanas, em adulto — nem quando o paciente relata dor de garganta no mês passado.

Há uma armadilha de segunda ordem que a prova adora, e ela mora na resposta parcial. Massa cervical que diminuiu com antibiótico não fica com isso classificada como benigna. Metástase cística de carcinoma de orofaringe pode ter conteúdo inflamatório agudo por cima, e é esse componente que responde ao antibiótico e reduz o volume — sem que a lesão de base tenha mudado. O enunciado que oferece melhorou parcialmente com amoxicilina, mantive a conduta expectante está oferecendo uma falsa tranquilidade construída com um dado verdadeiro.

O corolário é curto: antibiótico não é teste diagnóstico. O que falta, nesses casos, é caracterização — e ela começa pelo exame de toda a mucosa das vias aerodigestivas superiores, inclusive a que só se vê com endoscópio flexível, e pela palpação sistemática de todas as cadeias.

Os níveis do pescoço são um mapa de primários, não geografia

A divisão do pescoço em seis níveis existe porque a drenagem linfática é previsível, e o nível em que o gânglio apareceu aponta para onde procurar o tumor que o encheu. Daí a diferença entre escrever caroço à direita e escrever massa de 3 cm em nível II à direita: a primeira frase não dirige nenhum exame, a segunda dirige todos.

O nível I ocupa o triângulo submentoniano e o submandibular, e drena lábio, assoalho da boca, língua anterior, pele da face e a própria glândula submandibular. Os níveis II, III e IV correm ao longo da veia jugular interna, do crânio às clavículas, divididos pelos ossos hioide e cricoide: recebem orofaringe, laringe supraglótica, hipofaringe, cavidade oral e parótida. O nível V, no triângulo posterior, atrás do esternocleidomastóideo, recebe nasofaringe, tireoide e pele do couro cabeludo posterior. O nível VI, no compartimento central entre as carótidas, recebe tireoide, subglote e esôfago cervical.

A regra que reorganiza tudo isso numa frase é a do território: metástase cervical acima do nível IV vem, quase sempre, de primário acima das clavículas — mucosa das vias aerodigestivas superiores, pele da cabeça, glândula salivar ou tireoide. Já o gânglio da fossa supraclavicular olha para baixo: pulmão, esôfago, estômago, pâncreas, ovário, testículo e linfoma entram na lista antes de qualquer coisa de boca. O gânglio supraclavicular esquerdo tem nome próprio na literatura por causa dessa drenagem, que traz para ali o ducto torácico e, com ele, o abdome.

Esse mapa muda a ordem dos exames. Massa em nível II num adulto tabagista pede endoscopia da faringe e da laringe no mesmo dia da consulta; massa supraclavicular esquerda com perda de peso pede tomografia de tórax e abdome antes de qualquer panendoscopia, porque o primário não está onde o endoscópio alcança; e gânglio único em nível V de paciente jovem pede que a nasofaringe seja vista com atenção redobrada.

Linha média: sobe com a deglutição e sobe com a língua

A massa mediana do pescoço tem uma manobra que a resolve à beira do leito. Pede-se ao paciente que degluta e depois que ponha a língua para fora. O que sobe nas duas manobras está preso ao osso hioide pelo remanescente do ducto tireoglosso; o que sobe só na deglutição está preso à laringe e à traqueia, isto é, é tireoide. A elevação à deglutição sozinha é sensível e não é específica: quase tudo que está fixado ao complexo laringotraqueal sobe. A protrusão da língua é a manobra que separa.

O cisto do ducto tireoglosso é a massa cervical congênita mais frequente e costuma se manifestar na primeira ou na segunda década, muitas vezes depois de uma infecção de via aérea superior que o inflama e o torna visível. Fica na linha média ou muito próximo dela, geralmente entre o hioide e a cartilagem tireóidea, é móvel, indolor e de consistência elástica quando não está infectado.

O tratamento tem nome próprio e uma característica que é a razão de ele existir: a operação de Sistrunk retira o cisto, o trajeto e o corpo central do osso hioide, seguindo até a base da língua. O motivo é anatômico. O ducto atravessa o hioide durante a migração embriológica da tireoide, e ramificações microscópicas do trajeto ficam dentro e ao redor do osso. Retirar apenas o cisto deixa esse material para trás, e a recidiva é a regra: séries de exérese simples registram recorrência muito superior à da técnica com ressecção do corpo do hioide, que fica na casa de poucos por cento. Recidiva depois de cirurgia de linha média cobra a pergunta de sempre — o hioide foi retirado?

Duas travas antes da mesa. Documentar que existe tireoide tópica funcionante, porque parte dos casos de tecido ectópico tem naquele resto a única glândula do paciente, e retirá-lo produz hipotireoidismo definitivo. E lembrar que o cisto de linha média pode abrigar carcinoma, quase sempre papilífero, numa minoria pequena mas real — o que faz do exame da peça uma etapa obrigatória, não um formalismo.

Lateral no jovem: o trajeto que a cirurgia tem de levar junto

As anomalias dos arcos branquiais aparecem como cisto, seio ou fístula, e a esmagadora maioria vem do segundo arco. A topografia é característica: borda anterior do esternocleidomastóideo, no ponto em que o terço superior encontra o médio, logo abaixo do ângulo da mandíbula. A lesão é indolor e estável por anos, e o motivo pelo qual o paciente finalmente procura atendimento quase sempre é o mesmo — aumentou depois de uma infecção de garganta, porque o revestimento linfoide da parede responde ao estímulo infeccioso.

O trajeto explica a cirurgia. O ducto do segundo arco parte da pele na borda anterior do esternocleidomastóideo, corre profundamente ao platisma, sobe ao longo da bainha carotídea e passa entre a carótida interna e a externa, cruzando por cima dos nervos hipoglosso e glossofaríngeo, para terminar na fossa amigdaliana. A classificação clássica em quatro tipos descreve exatamente a profundidade a que o remanescente chegou, do mais superficial, logo abaixo do platisma, ao mais profundo, encostado na parede lateral da faringe.

Daí decorrem as duas regras operatórias. A primeira é que o tratamento é a exérese completa do cisto com todo o trajeto, até a fossa amigdaliana; deixar o trajeto é deixar a recidiva marcada. A segunda é o momento: opera-se fora da fase inflamatória aguda. Cisto infectado tem planos apagados, e dissecar entre as carótidas num campo edemaciado troca uma cirurgia eletiva por um risco vascular e nervoso desnecessário — drena-se e trata-se a infecção, e a exérese fica para semanas depois. Episódios infecciosos prévios e drenagens repetidas aumentam a taxa de recorrência justamente porque fibrosam o trajeto e o tornam mais difícil de seguir por inteiro.

Os outros arcos entram pela exceção. As anomalias do primeiro arco aparecem em topografia periauricular ou submandibular alta e correm junto ao nervo facial: cirurgia sem identificação do facial não se faz ali. As do terceiro e do quarto são raras, quase sempre à esquerda, e se apresentam como fístula do seio piriforme — quem volta várias vezes com abscesso cervical baixo ou tireoidite supurativa sempre do mesmo lado tem essa comunicação até que alguém a procure. O tratamento passa por fechar o orifício do seio piriforme, não apenas por drenar a coleção.

Depois dos 40, o mesmo cisto lateral muda de nome

A frase mais importante deste tema é uma inversão de probabilidade: massa cística lateral do pescoço em adulto acima dos 40 anos é metástase cística de carcinoma até prova em contrário, e o rótulo de cisto branquial nessa faixa etária é diagnóstico de exclusão. A diretriz dedicada ao assunto tem recomendação específica para isso — a natureza cística de uma massa cervical no adulto não permite presumir benignidade.

O tumor por trás dessa apresentação tem endereço: o carcinoma de orofaringe associado ao papilomavírus humano, em especial de tonsila palatina e de base de língua. Ele produz metástase cervical volumosa e de conteúdo líquido a partir de um primário que pode ser minúsculo e invisível à inspeção, e acomete gente que não corresponde ao estereótipo do tabagista pesado. É a combinação que engana: paciente de 46 anos, sem vícios, com massa amolecida de crescimento lento, tem exatamente o retrato do cisto branquial que já não é mais provável naquela idade.

Por isso a punção desse material não termina na citologia. Sobre o aspirado se pede a marcação para p16 e a pesquisa do papilomavírus, que apontam a orofaringe como sítio provável, e a pesquisa de Epstein-Barr no material, que aponta a nasofaringe. São exames feitos no que já foi colhido, sem procedimento adicional, e mudam o mapa da busca pelo primário.

Há ainda uma limitação técnica que a prova cobra e que a prática esquece. Punção de lesão predominantemente cística devolve com frequência apenas líquido e células degeneradas, e por isso tem taxa maior de material não diagnóstico e de resultado falsamente negativo do que punção de nódulo sólido. A forma de reduzir esse erro é técnica: puncionar sob guia ultrassonográfica, dirigindo a agulha para a parede e para qualquer componente sólido mural, e não simplesmente esvaziar a lesão. Citologia negativa em massa cística de adulto acima de 40 anos não encerra a investigação — apenas não a resolveu ainda.

Agulha fina primeiro, bisturi por último

A ordem dos procedimentos no pescoço é a regra que menos admite exceção de conveniência: quando é preciso material, a punção aspirativa por agulha fina vem antes da biópsia aberta. A diretriz recomenda isso expressamente para o adulto com massa cervical de risco aumentado, e a justificativa não é custo — é que a incisão feita fora de plano compromete o campo de uma cirurgia oncológica que ainda nem foi planejada.

O dano da biópsia aberta precoce é concreto. Ela abre planos que a dissecção oncológica teria mantido fechados, espalha células no tecido subcutâneo, cria cicatriz que precisa ser removida em bloco depois e, em algumas séries, associa-se a mais recidiva local. Enquanto a punção percorre um trajeto que a ressecção subsequente inclui sem alterar a operação, a incisão mal posicionada muda o desenho da cirurgia definitiva. Vale a mesma lógica do princípio geral de biópsia oncológica, tratado no capítulo de colheita de tecido da apostila de Oncologia: o trajeto tem de ser removível junto com a peça.

Isso não significa que a agulha fina resolva tudo. Ela responde há células malignas com boa acurácia e é ótima para confirmar carcinoma metastático, que é o que mais se procura no pescoço do adulto. Não responde qual tipo, porque não traz arquitetura, e é por isso que a suspeita de linfoma segue caminho diferente: em gânglio elástico, indolor, com sintomas sistêmicos, o que classifica é o gânglio inteiro, retirado com a cápsula preservada, ou no mínimo um fragmento de agulha grossa. Aspirar um linfoma e receber laudo de linfócitos maduros é o resultado esperado — e não é diagnóstico.

A sequência prática, portanto, tem três degraus. Punção aspirativa guiada por ultrassom como primeiro material. Punção repetida, ou agulha grossa, quando o material vem insuficiente ou discorda da clínica e da imagem. Biópsia excisional apenas quando a suspeita é de doença que exige arquitetura, ou depois de as etapas anteriores terem falhado — e, mesmo então, feita por quem vai operar o pescoço, com incisão desenhada para caber dentro da ressecção futura.

Quando a massa é infecção: quatro quadros e um esquema de seis meses

A caixa inflamatória tem quatro moradores frequentes, separados pelo tempo e pela companhia. A linfadenite reacional sucede infecção identificável de orofaringe, dentes ou pele, evolui em dias, dói, tem gânglios pequenos e móveis e regride em semanas — não se investiga, se acompanha. A doença da arranhadura do gato dá gânglio regional único, às vezes volumoso, com pápula de inoculação no território drenado; costuma ser autolimitada. A mononucleose infecciosa dá adenomegalia cervical posterior bilateral, febre, faringite exsudativa e, com frequência, esplenomegalia — e é o quadro em que a palpação do abdome muda a orientação sobre esporte de contato.

O quarto morador é o que a prova brasileira mais cobra: a tuberculose ganglionar periférica, que é a forma extrapulmonar mais frequente no país. O retrato é de gânglio cervical de crescimento arrastado por semanas a meses, indolor no começo, que amolece, adere à pele, ganha aspecto de abscesso sem sinais flogísticos exuberantes — o abscesso frio — e pode fistulizar espontaneamente. Sintomas sistêmicos podem ser discretos ou ausentes, e a radiografia de tórax é normal numa parte importante dos casos, o que engana quem espera achar tuberculose no pulmão para aceitar o diagnóstico no pescoço.

O diagnóstico se faz no material do próprio gânglio: aspirado ou biópsia, com exame histopatológico procurando granuloma com necrose caseosa, pesquisa direta do bacilo, teste molecular rápido e cultura — que continua sendo a que fecha o caso e a única que devolve o perfil de sensibilidade. O tratamento no Brasil é o esquema básico, com rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol por dois meses, seguidos de rifampicina e isoniazida por quatro, totalizando seis meses; as formas que fogem desse tempo são a meningoencefálica e a osteoarticular, que são tratadas por doze meses. Todo diagnóstico de tuberculose obriga a oferta de teste para o vírus da imunodeficiência humana.

Um detalhe de seguimento evita conduta errada: durante o tratamento, o gânglio pode aumentar ou surgir gânglio novo, e isso não significa falha nem resistência. É a chamada reação paradoxal, atribuída à recuperação da resposta imune contra antígenos do bacilo morto, e o manejo é manter o esquema e reavaliar, não trocar o tratamento nem indicar cirurgia por causa dela.

Imagem: qual exame, em que ordem, e o que ele não decide

A imagem no pescoço tem três funções distintas, e confundi-las gera pedidos inúteis. Caracterizar: dizer se a massa é cística ou sólida, onde está em relação aos vasos e ao músculo, e se há outros gânglios. Guiar a agulha. E estadiar, o que só faz sentido depois de existir diagnóstico — pedir tomografia de estadiamento antes de saber que há câncer é comprar exame que não muda a próxima decisão.

A diretriz dedicada ao adulto de risco aumentado recomenda tomografia computadorizada com contraste — ou ressonância, quando a tomografia está contraindicada — como estudo de imagem do pescoço. A tomografia com contraste é o exame que mostra ao mesmo tempo a lesão, todas as cadeias, o realce parietal que sugere componente sólido dentro de uma lesão cística, e a relação com a bainha carotídea, que é o que o cirurgião precisa.

Na prática brasileira, a ultrassonografia costuma ser o primeiro exame, com boa razão: está disponível na atenção básica, não usa radiação, distingue cístico de sólido e guia a punção no mesmo ato. A síntese que não erra é que ultrassom e punção guiada resolvem a maioria dos casos, e que a tomografia com contraste é obrigatória quando a suspeita é de carcinoma metastático, porque só ela mapeia o pescoço inteiro.

A ressonância entra quando o problema é parafaríngeo, de base de crânio ou de partes moles profundas. E a tomografia por emissão de pósitrons tem indicação estreita: procurar o primário que o exame clínico, a endoscopia e a imagem convencional não acharam. Fora disso, ela não substitui nenhum exame anterior — e vale o princípio que fecha a seção: imagem nenhuma dispensa a agulha. O laudo pode dizer lesão cística de paredes finas, sugestiva de origem embrionária, e ainda assim é o material celular que decide. Deixar de puncionar porque o ultrassom pareceu tranquilizador é o modo mais comum de perder um carcinoma metastático cístico na meia-idade.

Carcinoma no gânglio e mucosa limpa: o primário oculto

Quando a punção devolve carcinoma espinocelular e o exame da mucosa não mostra tumor, o caso entra num roteiro próprio, e o erro clássico é abandonar o roteiro para abrir o pescoço. O primeiro passo é usar o que já está no aspirado: p16 e papilomavírus positivos dirigem a busca para a orofaringe, sobretudo tonsila e base de língua; material com Epstein-Barr detectado dirige para a nasofaringe. Essa informação estreita o campo antes de qualquer procedimento novo.

O segundo passo é a imagem funcional, e a ordem importa: a tomografia por emissão de pósitrons é feita antes da panendoscopia. O motivo é técnico — biópsias e manipulação cirúrgica produzem inflamação que gera captação e cria achados falsamente positivos, e o exame feito depois perde parte da capacidade de apontar o sítio. Feito antes, ele pode indicar exatamente onde a biópsia dirigida deve ser tomada.

O terceiro passo é a panendoscopia com biópsias dirigidas dos sítios de maior probabilidade e, quando a suspeita é de orofaringe, a tonsilectomia ipsilateral diagnóstica — porque o primário pode estar escondido dentro das criptas da tonsila e não aparecer em biópsia superficial. É esse conjunto, e não a exploração cirúrgica do pescoço, que encontra a maior parte dos primários ditos ocultos.

Confirmado o carcinoma, o caso muda de capítulo. Agrupamento por estádio, escolha entre cirurgia, radioterapia e tratamento combinado, tipo de esvaziamento cervical e prazos legais de início do tratamento pertencem ao capítulo de câncer de boca e das vias aerodigestivas superiores. O que se entrega àquele capítulo é o pescoço já caracterizado, com material colhido pela via certa, o primário procurado na ordem certa e um campo cirúrgico que ninguém abriu antes da hora.

Na criança as três caixas são as mesmas, com os pesos invertidos

Massa cervical em criança é achado comum e quase sempre banal: linfonodos cervicais palpáveis são a norma na idade escolar, e a caixa inflamatória domina de longe, seguida da congênita. A neoplásica é a menor das três — e é a que justifica o roteiro, porque quando ela é a certa o tempo perdido custa caro.

Os sinais que tiram a criança da observação e a colocam em investigação são poucos e memorizáveis: gânglio supraclavicular em qualquer idade; gânglio que cresce progressivamente por mais de quatro a seis semanas sem explicação; consistência endurecida ou aderência a planos profundos; tamanho persistente acima de 2 cm; sintomas sistêmicos como febre prolongada, sudorese noturna, prurido e perda de peso; visceromegalia ou outras cadeias acometidas; e alargamento de mediastino na radiografia de tórax. Qualquer um deles muda a conduta de observar para investigar, e o linfoma é o diagnóstico que a lista existe para não perder.

Há um quadro pediátrico que tem conduta cirúrgica particular e cai em prova exatamente por isso: a linfadenite por micobactérias não tuberculosas. O retrato é de criança pequena, hígida, sem febre nem sintomas sistêmicos, com gânglio submandibular ou pré-auricular unilateral de evolução em semanas, que amolece e adquire coloração violácea da pele sobrejacente, sem resposta a antibióticos comuns. A conduta preferencial é a exérese completa do gânglio acometido; incisão e drenagem tendem a produzir fístula crônica de difícil cicatrização, e é esse o desfecho que a alternativa errada costuma propor.

As lesões congênitas comparecem com as topografias já conhecidas e um acréscimo: a malformação linfática, massa amolecida, compressível, mal delimitada, presente desde os primeiros anos, que aumenta durante infecções de via aérea e pode ocupar mais de um compartimento — quadro em que a imagem antecede qualquer tentativa de ressecção, porque a extensão real costuma ser maior que a palpável.

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As réguas, em ordem de uso

Três tabelas resolvem quase todo enunciado de massa cervical: a que diz em qual das três caixas o paciente entrou, a que traduz nível em primário provável, e a que ordena os procedimentos de coleta.

  1. 1Pergunte idade, tempo em número e localização antes de pedir qualquer exame. Duração de duas semanas ou mais sem flutuação de tamanho, ou duração incerta, em adulto, já classifica o caso como de risco aumentado para malignidade.
  2. 2Não prescreva antibiótico como manejo inicial se não houver sinais e sintomas de infecção bacteriana. E não use resposta parcial ao antibiótico como prova de benignidade: componente inflamatório sobre metástase cística também regride.
  3. 3Examine toda a mucosa das vias aerodigestivas superiores e palpe todas as cadeias cervicais por níveis, além de axilas, inguinais, fígado e baço. Massa cervical sem exame de mucosa é exame incompleto.
  4. 4Massa mediana que sobe à deglutição e à protrusão da língua: ducto tireoglosso. Documente tireoide tópica antes da cirurgia e programe operação de Sistrunk, com o corpo do hioide, nunca exérese isolada do cisto.
  5. 5Massa lateral na borda anterior do esternocleidomastóideo em paciente jovem: anomalia de segundo arco. Exérese completa com todo o trajeto até a fossa amigdaliana, fora da fase inflamatória aguda.
  6. 6A mesma massa cística lateral em adulto acima de 40 anos: metástase cística até prova em contrário. Punção guiada por ultrassom dirigida à parede, com marcação para p16 e pesquisa de papilomavírus, e pesquisa de Epstein-Barr no material.
  7. 7Precisa de material? Agulha fina antes de bisturi. Material insuficiente ou discordante da clínica: repita guiada por imagem ou passe para agulha grossa. Suspeita de linfoma: gânglio inteiro, porque a agulha fina não classifica.
  8. 8Gânglio frio de semanas a meses, que amolece e fistuliza, sem febre exuberante: pense em tuberculose ganglionar. Material do gânglio com histopatologia, teste molecular e cultura; esquema básico por seis meses; ofereça teste para o vírus da imunodeficiência humana.
  9. 9Citologia com carcinoma espinocelular e mucosa limpa: use p16 e Epstein-Barr para dirigir a busca, faça a imagem funcional antes da panendoscopia, e só então panendoscopia com biópsias dirigidas e tonsilectomia ipsilateral quando indicada.
  10. 10Criança: observe o gânglio pequeno, móvel e reacional. Investigue diante de gânglio supraclavicular, crescimento progressivo por mais de quatro a seis semanas, mais de 2 cm persistente, endurecimento, sintomas sistêmicos ou mediastino alargado.

As três caixas, e o que empurra o caso para cada uma

CaixaTempo típicoIdade que favoreceAchados que apontam
InflamatóriaDias a poucas semanasQualquer, predomina em crianças e adultos jovensDor, calor, eritema, febre, porta de entrada na orofaringe, nos dentes ou na pele; gânglios pequenos e móveis
CongênitaAnos, com aumentos episódicos após infecção de via aéreaPrimeiras duas a três décadasTopografia fixa e previsível: linha média com elevação à protrusão da língua, ou borda anterior do esternocleidomastóideo; consistência elástica; sem sintomas sistêmicos
NeoplásicaSemanas a meses, com crescimento progressivoAcima de 40 anos, e qualquer idade se supraclavicularEndurecimento, aderência a planos profundos, tamanho acima de 1,5 cm, ulceração da pele, sintomas sistêmicos, tabagismo e etilismo

O nível em que o gânglio apareceu e onde procurar o primário

NívelLimites em uma linhaPrimários que drenam para ali
ITriângulos submentoniano e submandibularLábio, assoalho da boca, língua anterior, pele da face, glândula submandibular
IITerço superior da jugular interna, da base do crânio ao hioideOrofaringe, cavidade oral, parótida, laringe supraglótica, nasofaringe
IIITerço médio da jugular, do hioide à cricoideOrofaringe, hipofaringe, laringe, cavidade oral
IVTerço inferior da jugular, da cricoide à clavículaLaringe, hipofaringe, esôfago cervical, tireoide, e primários abaixo das clavículas
VTriângulo posterior, atrás do esternocleidomastóideoNasofaringe, tireoide, pele do couro cabeludo posterior
VICompartimento central, entre as carótidasTireoide, subglote, esôfago cervical
SupraclavicularFossa acima da clavículaPulmão, esôfago, estômago, pâncreas, ovário, testículo, linfoma

Coleta de material: o que cada procedimento responde e o que ele não responde

ProcedimentoRespondeNão respondeQuando é o passo certo
Punção aspirativa por agulha fina, guiada por ultrassomHá células malignas; confirma carcinoma metastático; permite p16, papilomavírus e Epstein-Barr no materialQual o subtipo de linfoma; grau histológico; arquiteturaPrimeiro material de qualquer massa cervical de risco aumentado
Agulha grossaTraz fragmento com arquitetura parcial e permite estudo imuno-histoquímicoNem sempre suficiente para classificar linfomaPunção insuficiente, discordante da clínica, ou suspeita de doença que exige tecido
Biópsia excisional do gânglio inteiroArquitetura completa; é o padrão para classificar linfomaNada, mas custa um campo cirúrgico abertoSuspeita de linfoma, ou fracasso das etapas anteriores, com incisão desenhada por quem vai operar
Biópsia incisional aberta do pescoçoFornece tecidoNão compensa o que comprometeRecurso final, evitado antes de avaliar o primário; feito fora de plano, altera a cirurgia oncológica

Duração incerta conta como duração longa. O corte de duas semanas sem flutuação de tamanho foi posto baixo de propósito, para antecipar a investigação em quem tem risco aumentado.

A elevação à deglutição é sensível e não é específica: quase toda massa fixada ao complexo laringotraqueal sobe. Quem separa linha média de tireoide é a protrusão da língua.

Punção de lesão predominantemente cística tem mais material não diagnóstico e mais resultado falsamente negativo do que punção de nódulo sólido. Dirija a agulha à parede e a qualquer componente sólido, sob guia ultrassonográfica.

A tomografia por emissão de pósitrons na busca do primário oculto vai antes da panendoscopia. Biópsias e manipulação produzem inflamação, e inflamação produz captação que confunde o exame feito depois.

Aumento do gânglio durante o tratamento da tuberculose pode ser reação paradoxal por recuperação imune, e não falha terapêutica. Mantenha o esquema e reavalie antes de trocar qualquer coisa.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual imagem vem primeiro na massa cervical do adulto

Tomografia com contraste

A diretriz americana dedicada ao tema recomenda estudo de imagem com tomografia computadorizada do pescoço com contraste — ou ressonância magnética com contraste quando a tomografia é inadequada — para o adulto com massa cervical classificada como de risco aumentado para malignidade.

Pynnonen MA, Gillespie MB, Roman B, et al. Clinical Practice Guideline: Evaluation of the Neck Mass in Adults. Otolaryngology-Head and Neck Surgery. 2017;157(2 Suppl):S1-S30, declarações de ação sobre imagem.

Ultrassonografia com punção guiada

A avaliação inicial da massa cervical em serviços organizados como ambulatório de resolução única parte da ultrassonografia com punção aspirativa guiada no mesmo ato, por ser o método disponível na porta de entrada, sem radiação, que distingue cístico de sólido e dirige a agulha.

National Institute for Health and Care Excellence. Cancer of the upper aerodigestive tract: assessment and management in people aged 16 and over. NICE guideline NG36, 2016, seção de avaliação diagnóstica.

Na prova

As duas posições respondem a perguntas diferentes, e o enunciado costuma dizer qual delas está fazendo. Enunciado que descreve porta de entrada, unidade básica, primeira consulta e necessidade de caracterizar a lesão está pedindo ultrassonografia com punção guiada. Enunciado que já traz citologia com carcinoma, ou que fala em planejamento cirúrgico, extensão para a bainha carotídea e mapeamento de todas as cadeias, está pedindo tomografia com contraste. O que não muda em nenhuma das duas leituras é a ordem lógica: a imagem caracteriza e guia, e a agulha decide.

Qual o corte que dispara a via rápida de investigação

Duas semanas, a partir dos 40 anos

A diretriz americana define risco aumentado para malignidade quando a massa cervical do adulto persiste por duas semanas ou mais sem flutuação significativa de tamanho, ou tem duração incerta, somando idade acima de 40 anos, tabagismo, etilismo e outros fatores como agravantes.

Pynnonen MA, Gillespie MB, Roman B, et al. Otolaryngology-Head and Neck Surgery. 2017;157(2 Suppl):S1-S30, declaração de ação sobre identificação de risco aumentado.

Massa inexplicada, a partir dos 45 anos

A régua britânica de encaminhamento por suspeita de câncer aciona a via de duas semanas para pessoas de 45 anos ou mais com rouquidão persistente inexplicada ou com massa cervical inexplicada, sem estabelecer um número mínimo de semanas de duração da massa.

National Institute for Health and Care Excellence. Suspected cancer: recognition and referral. NICE guideline NG12, recomendações sobre câncer de laringe e de cavidade oral.

Na prova

Os dois documentos discordam no gatilho e concordam no efeito, e é o efeito que a prova cobra. Quando o enunciado oferece um prazo de observação de trinta ou sessenta dias para massa cervical de adulto, ele está oferecendo algo que nenhuma das duas réguas sustenta. Quando oferece números diferentes de semanas, procure o que o texto diz sobre idade e sobre explicação: massa explicada por infecção documentada segue outro caminho; massa inexplicada em quem passou dos 40 dispara investigação nos dois documentos.

Citologia negativa em massa cística lateral de adulto acima de 40 anos

Repetir dirigida antes de operar

Como a massa cística tende a devolver apenas líquido e células degeneradas, a conduta diante de material não diagnóstico ou negativo é repetir a punção sob guia ultrassonográfica, dirigindo a agulha à parede e a qualquer componente sólido mural, e completar com marcação para p16 e pesquisa de papilomavírus no material.

Pynnonen MA, Gillespie MB, Roman B, et al. Otolaryngology-Head and Neck Surgery. 2017;157(2 Suppl):S1-S30, declarações de ação sobre punção aspirativa e sobre testes auxiliares no material.

Excisão diagnóstica planejada por quem vai operar

Como a natureza cística não autoriza presumir benignidade no adulto, a persistência da massa apesar de citologia negativa mantém a suspeita de metástase cística e leva à excisão diagnóstica, planejada por equipe de cirurgia de cabeça e pescoço com incisão que caiba na eventual ressecção definitiva.

Pynnonen MA, Gillespie MB, Roman B, et al. Otolaryngology-Head and Neck Surgery. 2017;157(2 Suppl):S1-S30, declaração de ação sobre massa cervical cística no adulto.

Na prova

As duas posições saem do mesmo documento, o que já avisa que a diferença é de sequência e não de conflito de evidência. O que a prova nunca aceita é a terceira opção, que é dar alta com o argumento de que a citologia foi negativa. Leia o que o enunciado descreve depois da punção: se a massa persiste ou cresce e ainda não houve avaliação da mucosa, o passo é repetir dirigida e completar a busca do primário; se a mucosa já foi vista, a punção já foi repetida e a massa continua ali, o passo é a excisão planejada por quem opera o pescoço.

06

Caso resolvido

Mulher de 28 anos, professora, sem comorbidades, não tabagista, procura o ambulatório por abaulamento no lado esquerdo do pescoço. Diz que o caroço existe há uns quatro anos, sempre do mesmo tamanho, mas que aumentou há três semanas, logo depois de um quadro de dor de garganta com febre, e ainda não voltou ao tamanho anterior. Não tem disfagia, odinofagia, otalgia, rouquidão nem obstrução nasal. Nega febre persistente, sudorese noturna, prurido e perda de peso. Ao exame: massa de cerca de 3 cm na borda anterior do esternocleidomastóideo esquerdo, em nível II, indolor, de consistência amolecida, móvel, sem alteração da pele sobrejacente; oroscopia sem lesões nas amígdalas e nas fossas amigdalianas; demais cadeias cervicais e periféricas sem linfonodomegalia; fígado e baço não palpáveis. Ultrassonografia cervical: formação cística de 3,3 cm anterior ao esternocleidomastóideo, em nível II, com conteúdo espesso homogêneo, paredes finas, reforço acústico posterior e ausência de vascularização interna.
1. As três perguntas já dirigem o caso
Idade abaixo dos 40, tempo de existência medido em anos e topografia na borda anterior do esternocleidomastóideo no terço superior colocam o caso na caixa congênita antes de qualquer exame. O aumento recente não muda a caixa: ele é o gatilho típico, porque o revestimento linfoide da parede da lesão responde ao estímulo infeccioso da via aérea superior. A regra dos sete arruma o quadro numa frase — o que existe há anos tende a ser congênito.
2. O que a ausência de sinais de alarme compra, e o que ela não compra
Não há endurecimento, aderência a planos profundos, ulceração da pele nem sintomas sistêmicos; a mucosa foi inspecionada e está livre; as demais cadeias estão limpas. Isso mantém o caso na via eletiva e afasta o quadro de linfoma e de tuberculose ganglionar como hipóteses principais. O que não se compra com idade jovem é a dispensa da citologia: a caracterização da lesão pela imagem é compatível com origem embrionária, e ainda assim é o material celular que fecha o diagnóstico.
3. Qual material colher, e por qual via
Punção aspirativa por agulha fina guiada por ultrassom, dirigida à parede da lesão, e não apenas ao conteúdo líquido. No aspirado de um cisto de segundo arco espera-se líquido acastanhado e turvo, com células escamosas anucleadas, linfócitos maduros e cristais de colesterol, sem células epiteliais atípicas. Na mesma amostra se pede marcação para p16 e pesquisa de papilomavírus: aqui elas vêm negativas, e é essa negatividade que retira do caminho a hipótese de metástase cística de carcinoma de orofaringe. Biópsia incisional aberta está fora de cogitação nesta etapa.
4. O exame que completa a exclusão
Nasofibrolaringoscopia, inspecionando rinofaringe, base de língua, valécula, fossas amigdalianas e seios piriformes. Em massa cística lateral, essa endoscopia é o exame que fecha a porta do primário oculto — mesmo em paciente jovem e sem fatores de risco, porque o carcinoma de orofaringe associado ao papilomavírus acomete exatamente esse perfil. Com mucosa normal, citologia compatível e marcadores virais negativos, o diagnóstico de lesão cística cervical lateral de origem embrionária está firmado.
5. A cirurgia, e as duas coisas que se explicam antes dela
Exérese completa da lesão com todo o trajeto até a fossa amigdaliana, programada fora da fase inflamatória aguda — operar agora, com os planos apagados pelo episódio recente, é dissecar entre a carótida interna e a externa num campo edemaciado. Duas informações vão para a paciente antes de assinar o consentimento: a recidiva é possível e é mais provável quando o trajeto não é levado por inteiro ou quando houve infecções e drenagens prévias; e a dissecção corre perto de estruturas nobres, incluindo os nervos hipoglosso e glossofaríngeo, que o trajeto cruza. A tomografia de pescoço com contraste, aqui, serve ao planejamento cirúrgico, não ao diagnóstico.
07

Agora feche você

Homem de 63 anos, pedreiro, tabagista de 45 maços-ano e etilista diário, chega ao ambulatório com massa cervical à direita percebida há cerca de dois meses, que só cresceu. Não dói. Já usou dois ciclos de antibiótico prescritos em pronto atendimento, com redução discreta do volume no primeiro e nenhuma mudança no segundo. Perdeu 6 kg em três meses. Ao exame: massa de 4,5 cm em nível II à direita, endurecida, pouco móvel, aderida a planos profundos, sem sinais flogísticos; oroscopia sem lesões visíveis; sem outras linfonodomegalias. A ultrassonografia descreve lesão predominantemente cística de 4,4 cm, com paredes espessadas e componente sólido mural vascularizado. A punção aspirativa guiada, dirigida ao componente mural, resulta em carcinoma espinocelular; a marcação para p16 no material é positiva.
achado
Massa cervical de nível II, de dois meses, endurecida, aderida, em homem de 63 anos com tabagismo e etilismo pesados e perda ponderal; dois ciclos de antibiótico sem resolução, com redução parcial no primeiro; ultrassonografia com lesão cística de paredes espessadas e componente sólido mural vascularizado; citologia com carcinoma espinocelular e p16 positivo no aspirado.
o que isso caracteriza
É o retrato inverso ao do caso anterior, item por item. A duração de dois meses ultrapassa com folga o corte de duas semanas sem flutuação; a idade acima de 40 anos, o tabagismo e o etilismo somam fatores de risco; endurecimento, aderência a planos profundos e tamanho muito acima de 1,5 cm compõem os achados de exame que elevam o risco. A redução discreta no primeiro ciclo de antibiótico é o dado que engana: correspondia ao componente inflamatório sobreposto, e não à lesão de base. A natureza cística, longe de tranquilizar, é típica da metástase de carcinoma de orofaringe associado ao papilomavírus, e o p16 positivo no aspirado dirige a busca do primário para tonsila e base de língua.
o que fazer agora
O caso deixou de ser massa cervical e passou a ser carcinoma metastático em linfonodo cervical com primário ainda não identificado. A ordem é fixa: tomografia de pescoço e tórax com contraste, imagem funcional antes de qualquer manipulação cirúrgica, e só então panendoscopia com biópsias dirigidas aos sítios que o p16 aponta, com tonsilectomia ipsilateral diagnóstica quando a inspeção e a imagem não localizarem a lesão. Duas travas: nenhuma biópsia aberta do pescoço antes de a mucosa ter sido investigada, porque a incisão fora de plano compromete a cirurgia definitiva; e nenhum novo ciclo de antibiótico. Confirmado o primário, o agrupamento por estádio, a escolha entre cirurgia, radioterapia e tratamento combinado, o tipo de esvaziamento cervical e os prazos legais de início do tratamento são do capítulo de câncer de boca e das vias aerodigestivas superiores.
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Onde a banca derruba

  1. 1A melhora parcial com antibiótico lida como prova de benignidade O caso descreve massa cervical que reduziu de tamanho depois de um ciclo de amoxicilina e oferece manutenção da conduta expectante. Metástase cística de carcinoma de orofaringe pode ter componente inflamatório agudo sobreposto, e é esse componente que responde ao antibiótico — a lesão de base continua igual. A diretriz do tema desaconselha o antibiótico como manejo inicial justamente na ausência de sinais de infecção bacteriana, e a resposta parcial não é um teste diagnóstico.
  2. 2Cisto branquial aceito como diagnóstico depois dos 40 anos O caso traz massa cística lateral, indolor, amolecida, em paciente de 46 anos sem tabagismo, e oferece exérese como cisto de segundo arco. Nessa faixa etária o rótulo é diagnóstico de exclusão: a mesma apresentação é típica da metástase cística do carcinoma de orofaringe associado ao papilomavírus, que acomete gente mais jovem e não fumante. Antes de operar, a mucosa é examinada e o material é puncionado com marcação para p16 e pesquisa do vírus.
  3. 3Biópsia aberta oferecida como primeiro procedimento no pescoço O caso descreve gânglio endurecido em nível II de adulto tabagista e oferece biópsia incisional para esclarecer. A punção aspirativa por agulha fina vem antes, por recomendação expressa da diretriz. A incisão feita fora de plano abre planos que a dissecção oncológica manteria fechados, exige remoção em bloco da cicatriz e altera o desenho da cirurgia definitiva. O trajeto da agulha, ao contrário, cabe dentro da ressecção sem mudar a operação.
  4. 4Exérese isolada do cisto de linha média, sem o corpo do hioide O caso traz massa mediana que sobe à deglutição e à protrusão da língua e oferece exérese simples do cisto. O ducto tireoglosso atravessa o osso hioide durante a migração embriológica da tireoide, e ramificações microscópicas ficam dentro e ao redor do osso: sem retirar o corpo central do hioide, a recorrência é a regra. E antes da mesa há uma segunda trava — documentar tireoide tópica funcionante, porque em parte dos casos de tecido ectópico aquela é a única glândula do paciente.
  5. 5Aspirado de linfonodo aceito como diagnóstico de linfoma O caso descreve gânglio elástico, indolor, com febre vespertina e sudorese noturna, e oferece punção aspirativa como conduta diagnóstica definitiva. A agulha fina responde se há células malignas, e é excelente para confirmar carcinoma metastático, mas não traz arquitetura — e sem arquitetura não se classifica linfoma. Laudo de linfócitos maduros nesse cenário é o resultado esperado da técnica, não um resultado tranquilizador. O que classifica é o gânglio inteiro, ou no mínimo fragmento de agulha grossa.
  6. 6Aumento do gânglio durante o tratamento da tuberculose lido como falha O caso traz paciente em tratamento de tuberculose ganglionar que retorna no segundo mês com o gânglio maior, ou com gânglio novo, e oferece troca de esquema por suspeita de resistência. Reação paradoxal por recuperação da resposta imune é descrita e esperada nessa forma, e o manejo é manter o esquema básico e reavaliar. Trocar o tratamento sem prova microbiológica de resistência substitui um esquema que está funcionando por outro, mais tóxico, sem indicação.
  7. 7Incisão e drenagem oferecidas para a linfadenite micobacteriana da criança O caso descreve criança pequena, sem febre nem sintomas sistêmicos, com gânglio submandibular unilateral que amoleceu e deixou a pele violácea, sem resposta a antibióticos comuns, e oferece drenagem cirúrgica. Nas micobactérias não tuberculosas a conduta preferencial é a exérese completa do gânglio acometido; incisão e drenagem tendem a produzir fístula crônica de cicatrização difícil, que é exatamente o desfecho que a conduta pretendia evitar.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A tireoide se forma no assoalho da faringe primitiva e desce até sua posição definitiva, deixando como marca o forame cego na base da língua; a falha de obliteração desse trajeto é o que origina o cisto, e é exatamente por isso que a operação precisa perseguir o caminho até a base da língua e retirar o corpo do hioide, que o trajeto atravessa. A fossa tonsilar é o destino da anomalia de segundo arco, lateral e não de linha média, e é o distrator natural. O ducto de Rathke é hipofisário, e o onfalomesentérico é abdominal — nenhum deles tem relação com massas cervicais de linha média.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Três perguntas e uma proibição. As perguntas são idade, tempo em número e localização: abaixo dos 40 anos o caso tende a ser inflamatório ou congênito; acima dos 40, massa cervical lateral não tireoidiana é metástase até prova em contrário; supraclavicular é maligna em qualquer idade adulta e costuma vir de primário abaixo das clavículas. O corte operacional é duas semanas sem flutuação de tamanho, e duração incerta conta como longa. A proibição é o antibiótico de tentativa sem sinais de infecção bacteriana — e a melhora parcial com ele não classifica nada como benigno. Linha média que sobe com a língua é ducto tireoglosso, e a cirurgia leva o corpo do hioide. Borda anterior do esternocleidomastóideo no jovem é segundo arco, e a cirurgia leva o trajeto até a fossa amigdaliana, fora da fase aguda. Agulha fina antes de bisturi sempre; gânglio inteiro quando a suspeita é de linfoma. Gânglio frio que fistuliza sem febre exuberante é tuberculose ganglionar, tratada por seis meses.

em 30 dias

Refaça sem consultar. Diga qual manobra separa massa de linha média de nódulo de tireoide, e por que a outra manobra não separa. Explique por que a operação inclui um osso, e o que acontece quando ela não inclui. Descreva o trajeto do remanescente de segundo arco entre duas artérias e diga onde ele termina, e por que isso define a extensão da cirurgia. Diga o que se pede no material aspirado além da citologia, e para onde cada resultado aponta a busca do primário. Explique por que punção de lesão cística erra mais que punção de nódulo sólido, e qual ajuste técnico reduz esse erro. Diga em que ordem entram imagem funcional e panendoscopia na busca do primário oculto, e por que a ordem inversa piora o exame. Liste os sete sinais que tiram a criança da observação. E diga por que aumentar o gânglio no segundo mês de tratamento da tuberculose não é motivo para trocar o esquema.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Agora atenda: mulher de 28 anos que chega ao ambulatório dizendo que tem um caroço no lado esquerdo do pescoço há anos e que ele cresceu depois de uma dor de garganta recente. Ela está assustada porque alguém falou em cirurgia. Colha o tempo de existência em número e a estabilidade prévia do tamanho, ligue o aumento recente ao quadro infeccioso, procure ativamente os sintomas que mudariam a caixa do diagnóstico — febre persistente, sudorese noturna, prurido, perda de peso, disfagia, otalgia, rouquidão — e investigue os fatores de risco com respeito e privacidade. No exame, palpe a massa, avalie a mobilidade em relação ao esternocleidomastóideo, faça oroscopia inspecionando as fossas amigdalianas, palpe as cadeias por níveis e procure hepatoesplenomegalia. Depois explique a ela, em português, por que uma agulha fina vem antes de qualquer bisturi, por que a possibilidade de tumor precisa ser afastada antes da cirurgia e por que a operação não vai ser marcada para esta semana. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Massas cervicais: três caixas, e a idade decide o peso de cada uma — Preparatório para provas | OsceLabs