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Má rotação e volvo de intestino médio: o vômito bilioso do recém-nascido

Má rotação intestinal e volvo de intestino médio no recém-nascido

Bile no vômito de um recém-nascido significa obstrução abaixo da ampola de Vater, e a obstrução que não tolera espera é a torção de todo o intestino médio sobre o pedículo mesentérico. Este capítulo separa a criança que vai direto para a sala da criança que ainda cabe num estudo contrastado, mostra o que o contraste procura, e detalha o que o procedimento de Ladd faz e por que ele termina com uma apendicectomia.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Lactente de três semanas, estável, corado, com abdome mole e perfusão preservada, apresenta vômitos biliosos intermitentes há quatro dias e ganho de peso insuficiente. A equipe indica estudo radiológico contrastado do trato digestivo alto. Qual achado confirma a anomalia de rotação neste exame?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da anomalia de rotação e fixação do intestino médio e da sua complicação mais rápida, a torção de toda a alça sobre o pedículo dos vasos mesentéricos superiores. O recorte é a decisão: reconhecer que o vômito com bile num recém-nascido é obstrução até que se demonstre o contrário, separar a criança que precisa de sala imediata da criança que ainda cabe num estudo contrastado, saber o que esse estudo procura, e saber o que o procedimento de Ladd faz e por que termina retirando o apêndice.

Ficam de fora as demais causas de obstrução neonatal que têm capítulo próprio nesta apostila — atresia de esôfago, estenose hipertrófica de piloro, doença de Hirschsprung, invaginação, gastrosquise e onfalocele, divertículo de Meckel. Elas aparecem aqui só como vizinhas de diagnóstico diferencial, porque o sinal de entrada é o mesmo e a urgência não é. Também fica de fora a atresia duodenal isolada, embora a membrana duodenal entre no texto: um dos casos brasileiros usados aqui reunia membrana, rotação anômala e bandas de Ladd na mesma criança.

A régua de conduta deste capítulo vem de série e de relatos brasileiros publicados e nomeados, e não de norma federal: o guia do recém-nascido do órgão federal de saúde, em quatro volumes, não cobre o abdome cirúrgico. Cada afirmação numérica adiante traz a fonte que a sustenta, e onde duas fontes divergem o capítulo mostra as duas.

03

O que muda decisão

A rotação que não terminou e o pedículo que ficou estreito

Entre a sexta e a décima semana de gestação o intestino médio sai da cavidade, cresce fora dela e volta girando em torno do eixo da artéria mesentérica superior. Ao final do giro o duodeno passa por trás da artéria e termina à esquerda da coluna, no ângulo duodenojejunal; o ceco desce até a fossa ilíaca direita; e o mesentério se fixa numa linha longa e oblíqua que vai de um ponto ao outro. Essa linha longa é a garantia mecânica de tudo: quanto mais larga a base, menos o intestino pode girar sobre ela.

Quando o giro para no meio do caminho, duas coisas ficam por fazer, e é a segunda que mata. A primeira é que o duodeno não assume a posição retroarterial e o ceco fica alto, no quadrante superior direito ou no mesogástrio; do ceco mal posicionado partem faixas de peritônio que cruzam o duodeno para fixá-lo à parede — as bandas de Ladd. A segunda é que a fixação mesentérica não se estende: em vez de uma linha longa, resta um pedículo curto em torno dos vasos mesentéricos superiores. O relato brasileiro é direto ao nomear a causa: a falta de rotação completa faz com que não haja fixação do mesentério na parede abdominal posterior, e é isso que permite a torção do intestino em torno da artéria.

A classificação por estágio embriológico, na forma em que a literatura brasileira a reproduz, ajuda a arrumar o assunto na cabeça: a fase um reúne o defeito de retorno, com a onfalocele; a fase dois reúne a má rotação, a não rotação e a rotação inversa; a fase três reúne as falhas de fixação, com ceco móvel, duodeno móvel e mesentério livre do delgado. O que interessa à beira do leito é que a fase dois é a que produz base estreita, e base estreita é o que produz volvo de intestino médio.

Dois esquemas da raiz do mesentério lado a lado. Na fixação completa, uma faixa longa e oblíqua sustenta as alças de ponta a ponta da parede posterior, o arco do duodeno passa por trás dos vasos mesentéricos e termina à esquerda da coluna, e o ceco está na fossa ilíaca direita. Na fixação incompleta, resta um pedículo curto e estreito em torno dos vasos mesentéricos superiores, o duodeno fica curto e verticalizado à direita da coluna, o ceco sobe para perto da linha média e faixas finas de peritônio cruzam por cima do duodeno.
Quanto mais larga a base do mesentério, menos o intestino pode girar sobre ela. A rotação que não termina troca a faixa longa e oblíqua por um pedículo estreito em torno dos vasos mesentéricos superiores, e deixa o ceco alto, de onde partem as faixas de peritônio que cruzam o duodeno: o pedículo estreito é o que permite a torção de todo o intestino médio, e as faixas são o que o comprime por fora.

Vômito verde no recém-nascido: o que o sinal já exclui

A bile entra no tubo digestivo pela ampola de Vater, na segunda porção do duodeno. Um vômito que contém bile só é possível se o conteúdo intestinal alcançou a ampola e depois refluiu, ou seja, se o obstáculo está abaixo da ampola de Vater. É por isso que o vômito verde no recém-nascido tem valor de localização antes de ter valor de diagnóstico: ele desloca a suspeita para baixo do piloro e afasta, de saída, a estenose hipertrófica, que é obstrução pré-pilórica e produz vômito branco, em jato, em criança que continua faminta.

A frase que a literatura brasileira repete em duas revistas diferentes vale ser lida na íntegra, porque é a régua de suspeita deste capítulo: a maioria dos pacientes apresenta sinais de obstrução durante o período neonatal, e esta condição deve ser considerada em todos os recém-nascidos com vômitos biliosos e dor abdominal. A carta de radiologia de 2016 reproduz a mesma orientação quase palavra por palavra e a atribui às mesmas fontes. Não é uma recomendação de raridade: é uma instrução de reflexo.

O reflexo concorrente é o que faz o estrago. A série de dois casos do hospital paulista de 2020 descreve exatamente o desvio: episódios de vômito em recém-nascidos são extremamente comuns e frequentemente atribuídos a refluxo gastroesofágico. No segundo caso, uma menina de dois meses com vômitos biliosos desde o nascimento e ganho de peso ruim passou vinte e oito dias internada numa unidade de terapia intensiva pediátrica antes que a laparotomia mostrasse bandas de Ladd, rotação anômala e membrana duodenal — três achados que o ultrassom não tinha visto. Vômito com bile e curva de peso caindo não é refluxo fisiológico; é anormalidade anatômica até prova documentada.

Duas doenças no mesmo nome: a banda que obstrui e o volvo que estrangula

Debaixo do rótulo de má rotação convivem dois problemas com relógios diferentes. O primeiro é mecânico e extrínseco: as bandas peritoneais que cruzam o duodeno o comprimem e produzem obstrução alta, de instalação lenta ou intermitente, com vômito bilioso, pouca distensão — porque o obstáculo é proximal — e, nas crianças maiores, história de cólicas repetidas atribuídas a outras coisas. Essa criança perde peso, desidrata e chega a alcalose metabólica hipoclorêmica, mas o intestino continua vivo.

O segundo problema é vascular: a alça inteira gira sobre o pedículo estreito e leva junto a artéria e a veia mesentéricas superiores. A obstrução deixa de ser o assunto principal; o assunto passa a ser isquemia de todo o intestino médio, do duodeno distal ao cólon transverso. O relato brasileiro descreve o mecanismo sem rodeio: a torção interrompe o fluxo sanguíneo, com isquemia e necrose subsequentes. O tempo em que isso acontece se conta em horas, e a criança que perde o intestino médio inteiro sai da sala dependente de nutrição parenteral, quando sai.

A consequência prática de haver duas doenças no mesmo nome é que o exame físico não pode ser lido como confirmação ou exclusão de doença, e sim como leitura de qual das duas está em curso. Vômito bilioso com abdome mole, criança rosada e perfundida é a primeira situação. Vômito bilioso com dor desproporcional, distensão que aparece, sangue nas fezes, taquicardia, hipotensão ou eritema da parede abdominal é a segunda — e a segunda não espera exame nenhum.

Entre os dois extremos existe uma faixa intermediária que a prova gosta de descrever e o plantão costuma perder: a criança maior, com meses ou anos, que tem episódios repetidos de dor e vômito bilioso que cedem sozinhos. São torções parciais que se desfazem espontaneamente, ou obstrução intermitente pelas bandas, e cada episódio é uma chance de diagnóstico. O relato brasileiro de adulto registra o padrão em uma frase: com uma boa anamnese descobre-se história prévia de sintomas intermitentes, mas leves. Criança com crises recorrentes de dor abdominal e vômito esverdeado, entre as quais fica perfeitamente bem, merece estudo contrastado eletivo e não mais uma alta com sintomático.

Quem vai direto para a mesa e quem passa pelo contraste

A bifurcação é o único conteúdo deste capítulo que precisa estar decorado. Recém-nascido com vômito bilioso e sinais de sofrimento — irritabilidade desproporcional ao exame, distensão em progresso, sangue por via retal, instabilidade hemodinâmica, defesa ou eritema de parede — vai para laparotomia depois da estabilização mínima, e a imagem não entra na sequência. Recém-nascido com vômito bilioso, estável, abdome mole e perfusão preservada vai para estudo contrastado do trato digestivo alto, e o exame precisa ser feito no mesmo turno, não no dia seguinte.

Estabilização mínima quer dizer pouca coisa e é a mesma nos dois braços: jejum, acesso venoso, expansão se houver má perfusão, sonda gástrica aberta para descomprimir o estômago cheio de bile e reduzir o risco de aspiração, correção do distúrbio hidroeletrolítico que a criança trouxe e comunicação imediata à cirurgia pediátrica. Nenhum desses passos atrasa o exame nem a sala; todos eles poupam tempo depois.

O erro que a bifurcação evita é o de trocar a ordem. Pedir tomografia, pedir ultrassom de piloro, repetir a mamada para ver se vomita de novo, prescrever bloqueador de bomba de prótons e reavaliar em vinte e quatro horas — todas essas condutas são razoáveis em criança sem bile no vômito e todas custam intestino em criança com bile e sinais de sofrimento. O relato brasileiro de adulto que abre este assunto mostra o custo do atraso na sua forma extrema: entre a entrada e a laparotomia se acumularam ultrassom, endoscopia digestiva alta, analgesia e bloqueador de bomba de prótons, e o achado operatório foi jejuno isquêmico com torção de setecentos e vinte graus.

A junção duodenojejunal é a resposta que o contraste procura

O exame de escolha na criança estável é o estudo radiológico contrastado do trato digestivo alto, e ele tem um alvo único. Nas palavras do relato de 2009: o achado mais importante a ser observado é a junção duodeno-jejunal, a qual não cruza a linha média e fica localizada à direita da coluna vertebral. O duodeno normal desenha um arco que vai para a direita, cruza para trás dos vasos e sobe à esquerda da coluna, na altura do piloro. Na má rotação esse arco fica curto e verticalizado, e a transição duodenojejunal permanece à direita — é isso que o radiologista está procurando, e é isso que o enunciado costuma descrever com outras palavras.

A acurácia declarada desse exame merece atenção porque as três fontes brasileiras dizem números parecidos e os atribuem a origens diferentes. O relato de 2009 escreve acurácia superior a oitenta por cento e acrescenta que em alguns estudos ela atinge cem por cento; o de 2011 escreve que os achados são encontrados em quase oitenta por cento dos pacientes; a carta de 2016 escreve oitenta por cento dos casos. O número que sobrevive às três leituras é oitenta por cento, e o corolário clínico dele é explícito no texto de 2011: por vezes este estudo pode ser normal. Exame normal em criança que continua vomitando bile não encerra a investigação.

Os outros métodos entram como reforço, não como substituto. O enema opaco mostra o ceco fora do lugar, logo abaixo do fígado e próximo à linha média, com o cólon deslocado para a esquerda. O ultrassom e a tomografia avaliam a relação entre a artéria e a veia mesentéricas superiores, normalmente com a veia à direita da artéria e invertida na anomalia de rotação; a tomografia com múltiplos detectores ainda avalia a alça e o pedículo vascular, e é o método que os dois casos adultos brasileiros usaram para chegar ao diagnóstico. Em situação aguda, porém, a literatura registra o desfecho de sempre: na maioria das vezes o diagnóstico continua sendo feito na laparotomia.

A radiografia simples de abdome entra como coadjuvante e precisa ser lida com o que ela é. Pode mostrar distensão gástrica e duodenal com pouco gás distal, o chamado padrão de dupla bolha quando a obstrução duodenal é acentuada, ou pode mostrar um abdome quase sem gás. Nenhuma dessas imagens confirma a anomalia de rotação, e — este é o ponto — uma radiografia normal não afasta a torção. Ela é útil por ser rápida e por ajudar a excluir pneumoperitônio, e por isso pode ser feita enquanto a sala é preparada. O que ela não pode é substituir o estudo contrastado na criança estável nem atrasar a laparotomia na criança instável.

O procedimento de Ladd, passo a passo — e por que o apêndice sai junto

O procedimento descrito em mil novecentos e trinta e seis não recoloca o intestino na anatomia normal — e é essa a chave para entendê-lo. A descrição que as três fontes brasileiras repetem tem quatro elementos: mobilização do duodeno e do cólon direito, secção das aderências peritoneais até as proximidades dos vasos mesentéricos superiores, alargamento da base do mesentério e apendicectomia. Quando há torção, antes de tudo isso vem a destorção da alça, feita no sentido anti-horário, e a reavaliação da viabilidade depois de alguns minutos de reperfusão.

O objetivo declarado é mecânico: reduzir o risco de volvo agudo, colocando o intestino delgado numa posição não rotada e alargando a base do mesentério. Ao final, o delgado fica do lado direito do abdome e o cólon do lado esquerdo, sem fixação — o relato de 2011 registra que o intestino foi colocado em posição sem qualquer fixação. A pergunta que o aluno faz é por que não fixar; a resposta é que a segurança vem da base larga, não do ponto de sutura, e o relato de 2009 anota que não há consenso quanto à prevenção de complicações por meio da cecopexia.

A apendicectomia tem justificativa explícita e não é profilaxia de apendicite: o apêndice terminará numa posição atípica, e uma apendicite futura nesse apêndice deslocado seria de diagnóstico difícil. É por isso que ela é feita mesmo com o apêndice normal, e é por isso que a resposta correta em prova nunca é retirar o apêndice porque ele está inflamado. A via pode ser aberta ou videolaparoscópica; a série da clínica americana citada pelo relato de 2011 comparou vinte e um adultos, onze operados por via laparoscópica e dez por laparotomia, e concluiu que a via minimamente invasiva é tão segura e viável quanto a aberta, com alta e reintrodução alimentar mais precoces.

Os números que a literatura brasileira publica sobre a doença

Vale ler os números com a mesma desconfiança com que se lê um exame. O relato de 2011 escreve que a incidência na população geral é de um para cada duzentos a quinhentos recém-nascidos e que os casos sintomáticos ocorrem em um para seis mil; a carta de 2016 repete apenas a primeira faixa. Já o relato de 2009 escreve que a incidência real não é conhecida, com estimativas variando de um para duzentos a um para seis mil. Os mesmos dois extremos, portanto, aparecem numa fonte como duas grandezas diferentes — quantos nascem com a anatomia e quantos adoecem por ela — e na outra como uma única faixa de incerteza, cujos extremos guardam entre si uma razão de trinta vezes. Quem decora a faixa larga decora a soma de duas perguntas.

O mesmo relato de 2009 escreve que sessenta e quatro por cento dos casos se tornam evidentes nos primeiros meses de vida e oitenta e dois por cento até o primeiro ano, atribuindo os dois a uma referência, e acrescenta que alguns autores afirmam que até noventa por cento são diagnosticados ao completar um ano, atribuindo esse terceiro número a outra referência. A referência dos dois primeiros é, pelo próprio título, um relato de três casos — e com três casos as únicas porcentagens que se pode imprimir são zero, trinta e três, sessenta e sete e cem. Os menores denominadores inteiros capazes de imprimir sessenta e quatro e oitenta e dois ao mesmo tempo são onze, vinte e dois e vinte e oito; vinte e cinco imprime sessenta e quatro e não imprime oitenta e dois, e dezessete imprime oitenta e dois e não imprime sessenta e quatro. Os dois números vieram de dentro da revisão da fonte, não da casuística dela.

Há ainda uma conta que só fecha com sobreposição. O relato de 2011 escreve que a maioria dos adultos afetados é assintomática e, adiante, que aproximadamente trinta por cento apresentam vômitos e vinte por cento têm dor abdominal inespecífica recorrente. Se a fração assintomática é maior que metade, sobra menos de metade para os sintomáticos, e trinta mais vinte já passam de cinquenta. A reconciliação existe e é obrigatória: os dois sintomas têm de se sobrepor. Se os assintomáticos forem sessenta por cento, ao menos dez por cento do total — um quarto dos sintomáticos — têm vômito e dor ao mesmo tempo; se forem setenta por cento, a sobreposição mínima sobe para dois terços dos sintomáticos. O número que atravessa as três fontes sem contradição é outro, e é o único que vale guardar: a apresentação em adultos responde por zero vírgula dois por cento dos casos.

Volvo sem má rotação: a complicação que aparece depois da laparoscopia

A associação entre torção e anomalia de rotação é forte, mas não é uma identidade, e há uma situação brasileira publicada que mostra a diferença. Um menino de treze anos operado de apendicite por videolaparoscopia começou a piorar no primeiro dia de pós-operatório; no segundo, a tomografia mostrou distensão de alças e líquido livre em grande quantidade; a laparoscopia diagnóstica encontrou alças isquêmicas e a laparotomia revelou volvo de delgado no íleo terminal, com cerca de cem centímetros de necrose, na ausência de má rotação e de cirurgia prévia.

A revisão de literatura que esse relato cita reuniu doze casos em adultos, e as duas repartições que ela publica fecham exatamente: por porta de entrada, oito depois de colecistectomia, três depois de apendicectomia e um depois de biópsia hepática; por tipo de torção, sete de delgado, quatro de ceco e um de sigmoide. Dos sete com torção de delgado, três tinham má rotação — ou seja, quatro não tinham. O texto não informa quantos dos cinco restantes tinham a anomalia, e sem esse dado a comparação entre subgrupos não se sustenta: mesmo supondo zero nos cinco, o teste exato de Fisher bilateral daria pê igual a zero vírgula dois zero cinco, que não separa nada.

O mecanismo proposto é hipótese declarada como tal: pneumoperitônio somado a intestino anormalmente móvel e manipulado, inclinações laterais da mesa, estase e distensão por agentes anestésicos, hipoperfusão tecidual. A sugestão prática que o texto oferece — descompressão mais lenta ao final do procedimento — é apresentada como talvez, e o capítulo a repassa com o mesmo grau de certeza. O que fica firme é a regra de vigilância: dor abdominal que piora no pós-operatório de uma laparoscopia sem complicação não é dor de trocarte até que se demonstre que não é obstrução.

Há uma leitura de método a fazer sobre esses doze casos, e ela vale para além do assunto. Uma revisão que reúne relatos publicados conta o que foi publicado, não o que aconteceu: complicação rara e resolvida sem sequela raramente vira artigo, e complicação rara com necrose extensa quase sempre vira. O número de doze, portanto, é um piso de publicação e não uma estimativa de incidência, e a repartição por porta de entrada — mais colecistectomias do que apendicectomias — reflete, em parte, quantas de cada operação se fazem no mundo. O que o conjunto sustenta é a existência do fenômeno e a lista de fatores predisponentes propostos; o que ele não sustenta é qualquer risco por procedimento.

O diagnóstico que chega tarde: adolescente e adulto

Fora do berçário a doença muda de cara e de nome. Os sintomas passam a ser cólicas intermitentes, vômitos recorrentes, saciedade precoce, constipação e dor que piora depois das refeições, sem distensão importante porque a obstrução é alta. O relato de 2009 descreve o desfecho dessa apresentação com precisão desconfortável: os sintomas vagos tornam o diagnóstico obscuro, e não raro o paciente é atendido por vários médicos, que atribuem as queixas a problemas de motilidade intestinal ou a desordens de origem psiquiátrica antes do diagnóstico definitivo.

As quatro portas brasileiras publicadas mostram quatro doenças diferentes, e a porta é que seleciona a apresentação. Pela unidade de cirurgia colorretal de um hospital universitário do Paraná entrou uma mulher de vinte e três anos com constipação crônica e evacuações a cada três dias, operada eletivamente. Por um hospital privado da mesma cidade entrou uma mulher de vinte e um anos com dor pós-prandial de três dias, e o achado foi jejuno isquêmico torcido em setecentos e vinte graus, com colectomia direita associada. Por um serviço de diagnóstico por imagem do interior paulista entrou um homem de trinta e oito anos com parada de eliminação de gases e fezes, resolvido por videolaparoscopia. E pelo pós-operatório de uma apendicectomia entrou o menino de treze anos da seção anterior. Nenhuma dessas séries contradiz a outra: cada uma descreve quem chega até ela.

A vizinha mais próxima na prova é a torção de ceco, que a literatura brasileira apresenta como a principal manifestação das anomalias de rotação no adulto, com incidência de dois vírgula oito a sete vírgula um por milhão de pessoas por ano, respondendo por vinte e dois por cento das torções colônicas e por um a um e meio por cento das obstruções intestinais do adulto. A diferença que importa é anatômica: ali gira o ceco com o íleo terminal e o cólon ascendente sobre os seus mesos, e não todo o intestino médio sobre o pedículo mesentérico superior. O tratamento também difere, e no relato brasileiro foi colectomia direita com anastomose ileotransversa.

De onde vem a régua que se usa à beira do leito

Convém ao aluno saber a procedência do que está decorando. O guia federal do recém-nascido, na segunda edição de dois mil e catorze, tem quatro volumes, setecentas e vinte e cinco páginas e cerca de um milhão e quatrocentos mil caracteres de texto, e cobre cuidados gerais, intervenções comuns, icterícia, infecções, problemas respiratórios, cardiocirculatórios, metabólicos, neurológicos, ortopédicos e dermatológicos, e o prematuro. Nesse conjunto, o nome da doença deste capítulo aparece zero vez, a palavra que nomeia a torção aparece zero vez e o nome do procedimento aparece zero vez. O adjetivo que descreve a bile aparece duas vezes, e nas duas descrevendo resíduo gástrico — uma na sepse tardia, outra na lista de sinais da enterocolite necrosante.

Isso não é defeito do guia: o abdome cirúrgico do recém-nascido está fora do recorte que ele declara. É, porém, um fato com consequência para quem estuda. A régua que este capítulo entrega — suspeitar por vômito bilioso, bifurcar pela estabilidade, confirmar pela junção duodenojejunal, tratar por Ladd e retirar o apêndice — vem de relatos e de série publicados em revistas brasileiras e das referências internacionais que eles citam, e não de norma nacional. O capítulo marca isso como marca qualquer outra atribuição.

A consequência de estudo é simples e vale para além deste assunto. Quando a régua é bibliográfica, ela varia entre fontes, e o aluno que decora um número isolado fica refém da fonte que caiu no seu material. Quando a régua é bibliográfica, o que se decora é a sequência de decisão, que as três fontes brasileiras escrevem de modo idêntico, e não os percentuais, que elas escrevem de três modos. A sequência é a mesma há décadas; os números mudaram de casa três vezes só nos artigos usados aqui.

04

Quatro perguntas, na ordem em que o intestino as cobra

A ordem abaixo é a ordem de decisão, e ela não coincide com a ordem em que a informação chega. O tempo de vida e o número de vômitos costumam ser as primeiras coisas informadas e não decidem nada sozinhos; a cor do vômito e o estado de perfusão decidem quase tudo, e costumam vir depois. Cada cartão responde uma pergunta e libera a seguinte.

O vômito tem bile, e não é leite nem sangue

Bile no vômito significa que o conteúdo passou pela ampola de Vater e voltou, ou seja, que o obstáculo está abaixo dela. Isso afasta de saída a estenose hipertrófica de piloro, que é obstrução pré-pilórica e dá vômito branco em jato numa criança que continua com fome. Vômito com sangue, com leite coalhado ou com muco não tem esse valor de localização. O passo é rápido, é clínico e não precisa de exame nenhum: em recém-nascido, verde é obstrução até que se demonstre o contrário.

A criança está estável, ou já mostra sofrimento de alça

Sinais que fecham a porta do exame de imagem: irritabilidade desproporcional ao abdome, distensão que aparece e progride, sangue por via retal, taquicardia e má perfusão, defesa ou eritema da parede abdominal. Qualquer um deles indica torção com sofrimento vascular e indica sala, depois da estabilização mínima. A criança rosada, com abdome mole e perfusão preservada, é a que ainda cabe no estudo contrastado — desde que ele seja feito no mesmo turno.

O contraste mostra a junção duodenojejunal à direita da coluna

O alvo do estudo contrastado do trato digestivo alto é um só: onde termina o duodeno. No normal ele cruza a linha média e a transição duodenojejunal fica à esquerda da coluna, na altura do piloro. Na anomalia de rotação o arco é curto, o duodeno fica verticalizado e a transição permanece à direita. O enema opaco mostra o ceco alto e medial; o ultrassom e a tomografia mostram a veia mesentérica superior à esquerda da artéria. Exame normal não encerra a investigação em criança que segue vomitando bile.

A alça está viável depois de destorcer, ou precisa sair

Na sala a sequência é destorcer no sentido anti-horário, aquecer e esperar a reperfusão antes de julgar viabilidade, seccionar as bandas peritoneais até as proximidades dos vasos mesentéricos, alargar a base do mesentério, deixar o delgado à direita e o cólon à esquerda sem fixação, e retirar o apêndice. Segmento francamente necrosado é ressecado; segmento duvidoso em criança instável justifica reoperação programada em vez de ressecção extensa numa passagem só.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual é a incidência da anomalia de rotação

Um para duzentos a quinhentos nascidos vivos, com sintomáticos em um para seis mil

Duas grandezas separadas e nomeadas: a primeira conta quem nasce com a anatomia anômala e a segunda conta quem adoece por ela. É a leitura que a carta de radiologia de 2016 reproduz, embora ela cite apenas a primeira faixa.

ABCD Arq Bras Cir Dig. 2011;24(1):89-91, introdução; e Radiol Bras. 2016;49(4):271-2, segundo parágrafo.

Uma faixa única de um para duzentos a um para seis mil

O mesmo par de extremos aparece como faixa de incerteza sobre uma grandeza só, precedido da ressalva de que a incidência real não é conhecida. Os extremos guardam entre si uma razão de trinta vezes.

ABCD Arq Bras Cir Dig. 2009;22(4):240-2, introdução.

Na prova

Enunciado que traz a faixa larga costuma estar apenas contextualizando a raridade e vai cobrar outra coisa adiante — em geral a conduta diante do vômito bilioso. Se o enunciado pedir explicitamente a incidência, veja se ele qualifica a pergunta: incidência anatômica e incidência de doença sintomática têm respostas diferentes, e o enunciado que não qualifica costuma esperar a faixa de um para duzentos a quinhentos, que é a mais repetida na literatura brasileira.

Quanto vale o estudo contrastado do trato digestivo alto

Acurácia superior a oitenta por cento, chegando a cem por cento em alguns estudos

A afirmação de cem por cento é atribuída a uma referência que é, pelo próprio título, uma comparação de resultados cirúrgicos entre via aberta e via laparoscópica, e não um estudo de acurácia diagnóstica.

ABCD Arq Bras Cir Dig. 2009;22(4):240-2, discussão, com a atribuição à referência de número cinco da própria lista.

Achados presentes em quase oitenta por cento dos pacientes, com a ressalva de que o exame pode ser normal

A mesma ordem de grandeza, atribuída a outra referência, e acompanhada da observação clínica que muda conduta: exame normal não afasta o diagnóstico.

ABCD Arq Bras Cir Dig. 2011;24(1):89-91, discussão; a carta de Radiol Bras. 2016;49(4):271-2 repete oitenta por cento e atribui a um terceiro par de referências.

Na prova

O avaliador raramente cobra o percentual; ele cobra o achado. Enunciado que descreve duodeno verticalizado, arco curto ou transição duodenojejunal à direita da coluna está descrevendo o exame positivo, mesmo sem nomear o método. E enunciado que descreve exame normal em criança que continua vomitando bile está pedindo persistência na investigação, não alta.

Operar o portador assintomático

Não operar

Posição atribuída à série da clínica de Cleveland, que descreveu dois grupos de adultos sintomáticos e serve de base à conduta expectante em quem nunca teve sintoma.

ABCD Arq Bras Cir Dig. 2009;22(4):240-2, discussão, referência de número um da própria lista.

Operar para prevenir a torção e a hérnia interna

Posição atribuída a duas outras referências da mesma lista, sustentada no argumento anatômico de que a base estreita permanece estreita enquanto não for alargada.

ABCD Arq Bras Cir Dig. 2009;22(4):240-2, discussão, referências de números cinco e seis; o mesmo texto registra que não há consenso quanto à cecopexia.

Na prova

Em prova de residência a pergunta quase nunca é sobre o assintomático adulto: é sobre o recém-nascido com vômito bilioso, e ali não há divergência. Se o enunciado descrever achado incidental em adulto sem sintomas, a resposta segura é individualizar e discutir com o paciente, e não afirmar que a operação está indicada ou contraindicada de modo absoluto.

06

Caso resolvido

Recém-nascido a termo, com cinco dias de vida, que vinha mamando bem e ganhando peso, é levado ao pronto-socorro por três episódios de vômito esverdeado nas últimas seis horas. A mãe conta que a criança ficou muito irritada e passou a recusar o peito. O parto foi vaginal, sem intercorrências, e a ultrassonografia morfológica da gestação foi descrita como normal. Ao exame está irritado, chorando de modo agudo e difícil de acalmar, com tempo de enchimento capilar de três segundos, taquicárdico, abdome pouco distendido e doloroso à palpação, sem massas. Há resíduo esverdeado na fralda de vômito e não há sangue nas fezes. O exame do períneo é normal e não há hérnias palpáveis.
primeiro, ler a cor do vômito como localização
O vômito esverdeado indica que o conteúdo alcançou a ampola de Vater e refluiu, ou seja, que o obstáculo está abaixo dela. Isso afasta a estenose hipertrófica de piloro, que produz vômito branco em jato, e transforma o quadro em obstrução intestinal até prova documentada. O detalhe de que a criança vinha mamando bem e ganhando peso reforça a leitura: obstrução de instalação súbita em intestino que funcionava até ontem é mecânica, não é dificuldade alimentar.
segundo, procurar sofrimento de alça antes de escolher o exame
Três elementos aparecem juntos e apontam para o mesmo lado: irritabilidade desproporcional ao abdome, taquicardia e enchimento capilar de três segundos. Nenhum deles é diagnóstico isolado, mas somados eles descrevem uma criança que já não está apenas obstruída. Distensão discreta não tranquiliza aqui: a obstrução é alta, e é característico da obstrução alta distender pouco. A pouca distensão, portanto, é coerente com o diagnóstico, e não contra ele.
terceiro, começar a estabilização sem parar a fila
Jejum, acesso venoso, expansão com cristaloide diante da má perfusão, sonda gástrica aberta para descomprimir o estômago cheio de bile e reduzir o risco de aspiração, coleta de eletrólitos, gasometria e provas de coagulação, e reserva de hemocomponentes. Tudo isso corre em paralelo com o telefonema à cirurgia pediátrica, que é o passo que muda o desfecho. Nenhuma dessas medidas trata a torção; todas elas tornam possível tratá-la.
quarto, decidir a bifurcação com o que já se tem
Esta criança tem vômito bilioso e sinais de sofrimento. A bifurcação, portanto, está resolvida: laparotomia depois da estabilização mínima, sem estudo contrastado. Pedir o contraste aqui seria transformar um exame que serve para a criança estável em atraso na criança instável. A radiografia simples de abdome pode ser feita enquanto a sala é preparada, porque não atrasa nada, mas seu resultado não altera a decisão já tomada.
quinto, saber o que se espera encontrar e em que ordem se resolve
Na cavidade, o achado esperado é o intestino médio torcido sobre o pedículo dos vasos mesentéricos superiores, com alças de coloração alterada. A sequência é destorcer no sentido anti-horário, aquecer as alças e esperar a reperfusão antes de julgar viabilidade, seccionar as bandas peritoneais que cruzam o duodeno, alargar a base do mesentério, posicionar o delgado à direita e o cólon à esquerda sem fixação, e retirar o apêndice. Segmento francamente necrosado é ressecado.
sexto, reconhecer quando a decisão é reoperar em vez de ressecar
Se depois da reperfusão restarem segmentos de viabilidade duvidosa em extensão grande, a ressecção ampla numa passagem só condena a criança à síndrome do intestino curto. A alternativa é fechar temporariamente e reoperar em prazo curto para reavaliar, decidindo sobre tecido que já teve tempo de se declarar. É uma decisão de cirurgião, mas o clínico que acompanha precisa entendê-la para não interpretar a reoperação programada como complicação.
07

Agora feche você

Lactente do sexo feminino, com dois meses de vida, nascida a termo com peso adequado, é trazida ao ambulatório por vômitos frequentes desde a primeira semana. A mãe descreve os vômitos como esverdeados em parte das vezes, sem sangue e sem jato, e relata dificuldade para completar as mamadas. A criança recebeu diagnóstico de refluxo em dois atendimentos anteriores, com orientação de mamadas mais frequentes e complemento com fórmula; os vômitos aumentaram desde então. O escore de peso para idade caiu de zero vírgula dois para menos um vírgula oito em oito semanas. Ao exame está hipoativa, com mucosas secas, abdome pouco distendido e indolor, sem massas. Os exames mostram alcalose metabólica hipoclorêmica e hiponatremia. Uma ultrassonografia de abdome feita na semana anterior foi descrita como sem alterações.
Passo 1
Qual característica do vômito descrito muda a hipótese de refluxo para obstrução, e por que essa característica localiza o obstáculo em relação à ampola de Vater?
Passo 2
Esta criança está no braço estável ou no braço instável da bifurcação, e quais achados do exame e dos exames sustentam a sua resposta?
Passo 3
Qual é o exame de escolha neste braço, qual é o achado que o torna positivo, e por que a ultrassonografia normal da semana anterior não afasta o diagnóstico?
Passo 4
Como se explica a alcalose metabólica hipoclorêmica numa obstrução distal ao piloro, e por que ela não serve como argumento a favor da estenose hipertrófica?
Passo 5
Se o estudo contrastado for descrito como normal e os vômitos biliosos persistirem, qual é a conduta e qual é o argumento publicado que a sustenta?
Passo 6
Se a laparotomia encontrar bandas peritoneais cruzando o duodeno, rotação anômala e uma membrana duodenal, quais procedimentos precisam ser feitos e por que a apendicectomia entra na lista mesmo com o apêndice normal?
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Onde a banca derruba

  1. 1Ler o vômito bilioso como sinal de gravidade e não como sinal de localização A bile não diz que a criança está grave; diz onde está o obstáculo. É por isso que ela aparece igual na obstrução por banda, que tolera horas, e no volvo, que não tolera. Quem lê a bile como marcador de gravidade fica paralisado diante de uma criança rosada e com abdome mole e deixa de pedir o contraste; e quem a lê como sinal banal manda a criança para casa. A leitura certa é intermediária e é sempre a mesma: bile obriga a investigar obstrução, e o estado da criança decide se a investigação é imagem ou sala.
  2. 2Pedir tomografia para a criança instável porque a tomografia mostra mais coisas Mostra mesmo, e é o método que resolveu os dois casos adultos brasileiros. Só que o adulto daqueles relatos estava estável e o recém-nascido com sinais de sofrimento não está. Cada exame pedido nesse cenário é tempo de isquemia, e a literatura registra que, na fase aguda, o diagnóstico continua sendo feito na laparotomia na maioria das vezes. O enunciado que descreve criança com distensão em progresso, sangue nas fezes ou má perfusão está pedindo sala, e quem marca imagem perde a questão pela mesma razão pela qual perderia o intestino.
  3. 3Aceitar o rótulo de refluxo porque a criança vomita desde o nascimento Vomitar desde o nascimento é justamente o que torna o rótulo suspeito quando há bile e quando o peso cai. O caso brasileiro de dois mil e vinte descreve a sequência inteira: diagnóstico inicial de refluxo, orientação de mamar com mais frequência e complemento com fórmula, vômitos que aumentam, desnutrição, e só então a cirurgia. Bile mais curva de peso descendente é anormalidade anatômica; a idade em que os vômitos começaram não é argumento a favor de refluxo, é argumento contra.
  4. 4Achar que o procedimento de Ladd devolve a anatomia normal Não devolve, e a prova gosta disso. Ao final o delgado fica à direita e o cólon à esquerda, sem fixação; a proteção vem do alargamento da base do mesentério, e não da recolocação de cada víscera no lugar do livro. Alternativa que descreve recolocação anatômica, fixação do ceco de rotina ou cecopexia obrigatória está errada, e o próprio texto brasileiro registra que não há consenso sobre a cecopexia. A pergunta seguinte, quase sempre, é sobre o apêndice.
  5. 5Justificar a apendicectomia como profilaxia de apendicite A justificativa publicada é outra e é de diagnóstico, não de prevenção da doença: o apêndice terminará numa posição atípica e uma apendicite futura ali seria difícil de reconhecer. Por isso ele sai mesmo estando normal. Alternativa que diga que o apêndice foi retirado por estar inflamado, ou que a apendicectomia previne apendicite, troca a razão certa por uma razão parecida e errada — e é o tipo de troca que o avaliador usa para separar quem entendeu de quem decorou a lista de passos.
  6. 6Supor que toda torção de alça implica anomalia de rotação A associação é forte no recém-nascido e falha fora dele. O relato brasileiro do menino de treze anos descreve torção de delgado com cem centímetros de necrose sem má rotação e sem cirurgia abdominal prévia, depois de uma apendicectomia videolaparoscópica sem intercorrência. Na revisão que ele cita, três dos sete adultos com torção de delgado tinham a anomalia — os outros quatro, não. Piora de dor no pós-operatório de laparoscopia merece investigação de obstrução, e a ausência de anomalia de rotação não é argumento para descartar torção.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O estudo contrastado do trato digestivo alto tem um alvo único nesta suspeita: onde o duodeno termina. No arranjo normal ele descreve um arco que cruza a linha média por trás dos vasos mesentéricos e sobe à esquerda da coluna, na altura do piloro. Quando a rotação embrionária não se completou, o arco fica curto, o duodeno aparece verticalizado e a transição duodenojejunal permanece à direita da coluna — é essa a descrição que a literatura brasileira aponta como o achado mais importante do exame. A imagem de dupla bolha sem gás distal descreve obstrução duodenal completa, compatível com atresia, e não é o achado que define a anomalia de rotação. O estômago dilatado com canal pilórico alongado e espessado descreve estenose hipertrófica de piloro, doença que a presença de bile já havia afastado. O contraste retido no esôfago com afilamento em direção à cárdia descreve obstáculo esofágico, fora do território em questão. E o ceco na fossa ilíaca direita com trânsito colônico habitual é o contrário do esperado: a posição alta e medial do ceco é achado a favor da anomalia, e a posição habitual pesa contra ela.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Vômito com bile em recém-nascido é obstrução abaixo da ampola de Vater até que se demonstre o contrário, e a obstrução que não espera é a torção do intestino médio sobre um pedículo mesentérico que ficou estreito porque a rotação embrionária parou no meio. A bifurcação é única e vale decorada: criança com sinais de sofrimento — irritabilidade desproporcional, distensão em progresso, sangue por via retal, má perfusão, defesa ou eritema de parede — vai para laparotomia depois da estabilização mínima; criança estável, com abdome mole, vai para estudo contrastado do trato digestivo alto no mesmo turno. O alvo do contraste é a junção duodenojejunal, que na anomalia não cruza a linha média e fica à direita da coluna, com duodeno curto e verticalizado. O tratamento é o procedimento de Ladd: destorcer no sentido anti-horário, seccionar as bandas peritoneais, alargar a base do mesentério, deixar o delgado à direita e o cólon à esquerda sem fixação, e retirar o apêndice porque ele terminará em posição atípica. Estabilização mínima é jejum, acesso, expansão se houver má perfusão, sonda gástrica aberta e telefonema à cirurgia pediátrica.

em 30 dias

Os números que sobrevivem a trinta dias são poucos e são de leitura, não de decoreba. O primeiro é a incidência: a literatura brasileira publica um para duzentos a quinhentos nascidos vivos para a anatomia e um para seis mil para a doença sintomática, e uma das fontes junta os dois extremos numa faixa só, cujos limites guardam razão de trinta vezes — quem decora a faixa larga decora duas perguntas somadas. O segundo é a apresentação em adultos, zero vírgula dois por cento, que as três fontes escrevem igual. O terceiro é o rendimento do estudo contrastado, oitenta por cento, com a ressalva publicada de que ele pode ser normal e de que exame normal não encerra investigação em criança que segue vomitando bile. Vale guardar também que a maioria dos casos se manifesta no primeiro ano de vida, sem apego ao percentual exato: uma fonte escreve sessenta e quatro por cento nos primeiros meses e oitenta e dois por cento no primeiro ano, e a mesma fonte registra que outros autores escrevem noventa por cento para o mesmo marco. Por fim, torção pode ocorrer sem anomalia de rotação, inclusive no pós-operatório de laparoscopia sem intercorrência, e o relato brasileiro que descreve isso encontrou cem centímetros de intestino necrosado num menino de treze anos.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Este capítulo se aprende de verdade num atendimento em que o recém-nascido chega vomitando verde e a decisão de chamar a cirurgia antes de pedir imagem precisa ser tomada com o que o exame físico já entregou — e em que perguntar pela cor do vômito, pela curva de peso e pelo tempo de enchimento capilar, sem exame nenhum, já separa a criança que cabe no contraste da criança que não cabe. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Má rotação intestinal e volvo de intestino médio no recém-nascido – Má rotação e volvo de intestino médio: o vômito bilioso do recém-nascido — Preparatório para provas | OsceLabs