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Anestesia local na cirurgia da pele: quanto injetar e onde o vaso entra

Anestesia local em cirurgia da pele: dose máxima, vasoconstritor e toxicidade

O teto da mesma lidocaína muda cinco vezes com a técnica, e a bula proíbe o vasoconstritor no dedo numa seção e o libera na outra.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Durante drenagem de abscesso em coxa, o médico infiltra lidocaína a 2% ao redor e sobre a área inflamada, sem obter anestesia satisfatória, apesar de volume generoso. O doente mantém dor intensa ao toque da lâmina. Qual é a explicação fisiopatológica e a conduta correta?

02

Como esse tema cai

Os outros textos desta apostila decidem o que fazer com a pele: qual cicatriz se infiltra, qual lesão por pressão vai para a mesa, qual ferida recebe enxerto e qual exige retalho. Nenhum deles diz quanto anestésico cabe na seringa antes de o gesto começar, e é essa a lacuna que este capítulo fecha. O eixo tem duas perguntas, e elas se respondem na ordem: quanto se pode injetar neste doente, e se o vasoconstritor pode ir junto para o território que se vai operar.

A primeira pergunta parece de farmacologia decorada e não é. O teto que se ensina — um número de miligramas por quilograma — muda de valor conforme a droga chegue ao sangue depressa ou devagar, e a mesma revisão brasileira que fixa um teto para a infiltração comum registra, poucas linhas adiante, um teto cinco vezes maior para a técnica tumescente. Quem lê os dois números como propriedades da lidocaína sai com a impressão de que a literatura se contradiz. Quem entende que o teto é uma propriedade da velocidade de absorção passa a saber qual dos dois governa o caso que tem diante de si.

A segunda pergunta é a que mais se erra por herança. Aprendemos que adrenalina não entra em dedo, nariz, orelha e pênis. Dois periódicos de sociedades médicas brasileiras dizem hoje o contrário, e um deles reconstrói a origem da proibição até um anestésico que saiu de uso há mais de setenta anos. Mas a bula que acompanha o frasco continua listando essas regiões entre as contraindicações — e, algumas linhas depois, no item de precauções, autoriza o uso cauteloso nelas. O documento que o serviço dispensa não se decidiu, e o médico que injeta precisa se decidir.

Este capítulo trabalha a farmacocinética que explica os dois tetos, a conta que converte concentração em miligramas à beira do leito, o que o vasoconstritor entrega e o que ele cobra na entrada, a história e o estado atual da proibição em extremidade, e o reconhecimento da toxicidade sistêmica — inclusive o ponto em que a bula e a revisão descrevem o primeiro sinal de maneiras diferentes e indicam tratamentos diferentes para o mesmo desfecho.

03

O que muda decisão

O anestésico só atravessa a membrana em uma das suas duas formas

A dor viaja como potencial de ação, e o potencial de ação depende do sódio entrar na fibra. O anestésico local impede esse influxo e a despolarização não acontece. O detalhe que decide o dia a dia é que a molécula existe em duas formas em equilíbrio: uma lipossolúvel, capaz de atravessar a membrana, e outra hidrossolúvel, que fica de fora. A proporção entre elas depende do pKa da droga e do pH do tecido, e a maioria dos anestésicos tem pKa próximo do pH fisiológico.

Daí vem a consequência clínica que se repete no pronto-socorro e no consultório: tecido inflamado é tecido ácido, o ambiente empurra o equilíbrio para a forma que não penetra, e a mesma dose que anestesiaria pele sadia falha ali. Não é falta de droga nem falta de técnica. É química. O abscesso que dói apesar da infiltração generosa e o panarício que não cede ao botão anestésico são a mesma cena, e a saída não é insistir com mais volume no centro da lesão, e sim bloquear o nervo antes da área inflamada ou anestesiar em tecido são ao redor.

A segunda consequência é de expectativa, e evita que se interrompa uma operação por engano. As fibras que conduzem dor são finas e sem mielina, e são as mais sensíveis ao bloqueio. As que conduzem pressão, vibração e propriocepção são mais grossas e resistem mais. O resultado é que o doente deixa de sentir dor antes de deixar de sentir toque, e continua percebendo que alguém puxa e movimenta o local operado. Dizer isso antes de começar transforma uma queixa em confirmação: quem relata pressão, e não ardência, está adequadamente anestesiado.

Vale ainda saber por que o início de ação varia entre as drogas. Quanto maior a solubilidade lipídica da porção aromática, maior a difusão pela membrana e maior a potência; quanto maior a afinidade pelas proteínas do canal de sódio, mais longa a duração. São propriedades da molécula, não da técnica — e são elas que explicam por que uma droga começa em minutos e outra dura horas, e por que a escolha entre as duas se faz pela duração prevista do gesto, não pelo tamanho da lesão.

Corte de uma bicamada lipídica com duas versões da mesma molécula: uma atravessa a membrana e surge do outro lado, e a outra permanece parada acima da superfície.
Só uma das duas versões da molécula cruza a membrana, e a proporção entre elas decide quanto tempo o bloqueio leva para instalar.

Amida e éster separam a alergia do metabolismo

A cadeia intermediária da molécula divide os anestésicos locais em dois grupos, e essa divisão decide duas coisas de conduta. Os do grupo amida são metabolizados no fígado, e por isso o doente com hepatopatia grave depura menos e acumula mais. Os do grupo éster são degradados por pseudocolinesterase plasmática, e um de seus metabólitos é o ácido para-aminobenzoico — a molécula responsável pelo potencial alergênico do grupo.

É por causa desse metabólito que a reação cruzada existe dentro do grupo éster e não atravessa para o grupo amida. A informação vira conduta na consulta em que o doente diz que é alérgico a anestésico. A alergia verdadeira mediada por imunoglobulina E é rara, estimada em menos de um por cento, e a maior parte do que se relata como alergia foi reação vasovagal, taquicardia do vasoconstritor ou ansiedade. Ainda assim, diante de história convincente com um anestésico do grupo amida, existe saída dentro da própria farmácia: usar um do grupo éster, cuja reação cruzada com amidas é baixa.

A reação tardia também existe e tem outra cara. A dermatite de contato alérgica aparece um a dois dias depois da exposição, com eritema, edema, descamação, bolhas e prurido, e o alérgeno mais frequente nos testes de contato é a benzocaína, seguida pela lidocaína. Não é emergência, mas muda a receita do doente para sempre — e é uma das poucas situações em que se justifica confirmar formalmente antes de rotular.

A reação imediata verdadeira, por sua vez, não se distingue de qualquer outra anafilaxia: começa nos primeiros trinta minutos, envolve dois ou mais sistemas ou compromete respiração e circulação, e o tratamento é adrenalina por via intramuscular. Convém guardar a ironia útil desse quadro, porque ela aparece em cena: a mesma amina que assusta na seringa do anestésico é a que salva quando a reação é anafilática. O que muda é a via, a dose e o motivo pelo qual ela está sendo dada.

O teto de dose não está no frasco: está no peso e na companhia

O número que a maioria decora é o da lidocaína isolada, e ele vem da tabela da revisão brasileira de segurança dos anestésicos locais: quatro vírgula cinco miligramas por quilograma, com teto absoluto entre trezentos e trezentos e cinquenta miligramas no adulto. Acrescentando epinefrina à mesma solução, o mesmo documento sobe o limite para sete miligramas por quilograma, com teto absoluto entre trezentos e quinhentos miligramas. É o mesmo fármaco, no mesmo doente, com dois tetos distintos — e a diferença não está na droga, está no que a acompanha.

Os outros anestésicos têm cada um a sua régua, e ela não se deduz da lidocaína. A bupivacaína, que dura mais e é a mais cardiotóxica do grupo, tem teto de dois miligramas por quilograma, com cento e setenta e cinco miligramas em dose única e quatrocentos miligramas no total do dia sem vasoconstritor, subindo a duzentos e vinte e cinco miligramas com epinefrina. A ropivacaína fica em dois vírgula nove miligramas por quilograma, com teto de duzentos miligramas. A prilocaína permite mais em miligramas, mas traz uma trava que nenhuma das outras tem, e ela reaparece adiante.

Repare no formato de cada regra, porque ele é a fonte de metade dos erros: há sempre um limite por peso e um limite absoluto, e vale o menor dos dois. No adulto grande, quem trava é o número absoluto. No adulto pequeno, no idoso debilitado e na criança, quem trava é o peso — e é exatamente aí que o hábito de contar frascos, em vez de calcular miligramas, deixa de proteger.

A bula reforça esse desenho de outra maneira. Ela fixa a mesma dose máxima com vasoconstritor que os periódicos, e a converte em um limite de unidades prontas para uso, o que é cômodo e perigoso ao mesmo tempo: cômodo porque dispensa conta na hora, perigoso porque o limite de unidades foi calculado para um adulto de porte médio e continua o mesmo diante de um doente que pesa bem menos. Quem usa o limite de unidades num doente pequeno está usando um teto que não é dele.

E o mesmo teto se multiplica quando a técnica muda

A revisão que fixa sete miligramas por quilograma para a infiltração com vasoconstritor registra, poucos parágrafos adiante, que a técnica tumescente permite trinta e cinco miligramas por quilograma de lidocaína na lipoaspiração. O artigo de ortopedia repete os dois números lado a lado, sem tentar conciliá-los. É um fator de cinco para a mesma molécula, no mesmo doente, dentro do mesmo texto.

A conciliação existe, e é o conceito que vale a pena levar embora. O que intoxica não é a quantidade injetada no tecido: é a concentração plasmática que essa quantidade produz. Tudo o que atrasa a chegada da droga ao sangue derruba o pico e permite uma massa total maior com o mesmo risco. A técnica tumescente reúne todos esses atrasos ao mesmo tempo — solução muito diluída, grande volume distribuído no plano subcutâneo, vasoconstritor associado e injeção lenta —, e é por isso que ela pode carregar a massa que carrega.

A leitura inversa vale igualmente, e é a que salva doente. Tudo o que acelera a absorção derruba o teto real, mesmo que o número escrito na tabela continue o mesmo. Tecido muito vascularizado, mucosa, área inflamada e hiperêmica, injeção rápida e, sobretudo, injeção intravascular inadvertida encurtam o caminho até o sangue. É por isso que a aspiração antes de cada injeção suplementar não é ritual: ela é a única manobra que separa a dose calculada da dose que entra direto na circulação.

Daí decorre a regra prática que substitui a decoreba dos números. Antes de perguntar quantos mililitros cabem, pergunte por onde a droga vai sair dali. Uma infiltração dérmica pura, num plano pouco vascularizado, com solução diluída e vasoconstritor, comporta muito mais do que a mesma massa injetada depressa num leito hiperemiado. O teto pertence à técnica antes de pertencer ao fármaco: quem escolhe a diluição, o plano e a velocidade da injeção já decidiu, antes de encher a seringa, quanto vai poder injetar.

O vasoconstritor faz quatro coisas ao mesmo tempo

A epinefrina associada ao anestésico local não é um acessório de conforto. Ela produz quatro efeitos simultâneos, e cada um deles resolve um problema diferente do gesto cirúrgico. Primeiro, retarda a reabsorção sistêmica da droga, o que é a razão farmacológica de o teto por quilograma subir. Segundo, e em consequência, reduz o pico plasmático, que é o que de fato importa para a toxicidade. Terceiro, prolonga a duração do efeito anestésico, em cerca de duzentos por cento no caso da lidocaína. Quarto, promove hemostasia no campo, o que muda a qualidade da operação e, na mão, chega a dispensar o torniquete.

As concentrações usadas na prática vão de um para cinquenta mil a um para duzentos mil, e as duas mais empregadas são a de um para cem mil e a de um para duzentos mil. Entre essas duas, o efeito vasoconstritor é semelhante — a diluição maior não compra menos hemostasia. O ponto tem consequência direta quando o volume necessário é grande: pode-se diluir mais sem perder o campo seco, e a diluição é justamente o que mantém a massa total dentro do teto.

No Brasil, a pré-mistura disponível é lidocaína a dois por cento com adrenalina a um para duzentos mil, e o serviço público padroniza também a de dois por cento com um para oitenta mil e a de um por cento com um para duzentos mil. Saber qual frasco a unidade tem deixa de ser detalhe logístico quando se percebe que a concentração do anestésico, e não a do vasoconstritor, é o que consome o teto de miligramas.

Há também o que o vasoconstritor cobra em cautela, e a lista é curta e específica: doente em uso de betabloqueador, cardiopatia, doença vascular periférica, hipertensão grave, feocromocitoma e hipertireoidismo. Fora dessas situações, a associação é considerada segura mesmo em cardiopatia estável, quando usada em pequenas doses. A cautela é do doente, não do território — e essa distinção é a chave da divergência que vem a seguir.

De onde veio a proibição de injetar adrenalina no dedo

A frase que todos aprendemos é categórica: nada de vasoconstritor em dedo, nariz, orelha e pênis, sob pena de necrose. O artigo de revisão da sociedade brasileira de ortopedia reconstrói a origem dessa frase e a chama, com todas as letras, de mito. Ela nasceu entre as décadas de vinte e quarenta do século passado, na era da procaína, o anestésico em uso até o fim dos anos quarenta, quando a lidocaína o substituiu.

O mecanismo do dano está descrito e não envolve a amina: a solução de procaína saía de fábrica com pH em torno de três e meio e, armazenada por muito tempo, acidificava até chegar a pH de um. Era essa acidez que necrosava o dedo. O texto registra que a agência reguladora norte-americana chegou a encontrar lotes de procaína com pH de um destinados a injeção em seres humanos, e publicou o achado. A associação entre a vasoconstrição e a perda do dedo foi, portanto, uma correlação com o veículo, não com o princípio ativo — e sobreviveu ao anestésico que a causou.

A medição posterior aponta na direção oposta. O artigo afirma que não há casos de necrose relatados nem quando adrenalina em concentração de um para mil, isto é, a apresentação pura da ampola de emergência, foi injetada acidentalmente em dedo. E acrescenta uma comparação que reposiciona o risco: foram relatadas mais lesões digitais por torniquete usado indevidamente do que por lidocaína com adrenalina. Existe ainda um reversor conhecido desde o fim dos anos cinquenta, a fentolamina, que desfaz de modo confiável a vasoconstrição — e cujo uso, diz o mesmo texto, é raramente necessário na prática.

A revisão dermatológica brasileira chega ao mesmo lugar por outro caminho e é explícita: a adição de epinefrina se comprovou segura em locais de vascularização terminal, nomeando dáctilos, mãos, pés e região genital. São duas sociedades médicas diferentes, em periódicos diferentes, escrevendo a mesma coisa. Diante de um dedo bem perfundido, portanto, quem injeta decide pela perfusão que examinou, e não pela frase que herdou.

A mesma bula proíbe numa seção e autoriza com cautela na seguinte

Falta o documento que chega junto com o frasco, e ele não acompanhou o movimento. No item de contraindicações, a bula manda evitar o uso do vasoconstritor nas áreas do corpo supridas por artérias finais ou com comprometimento do suprimento sanguíneo, e nomeia dedos, nariz, ouvido externo e pênis. A redação é a mesma na apresentação em carpule e na reprodução da bula profissional da solução injetável.

Algumas linhas adiante, no item de precauções, o mesmo documento escreve outra coisa: soluções de anestésico local contendo vasoconstritor devem ser usadas com cautela, em quantidades limitadas, nessas mesmas áreas supridas por artérias finais. O território que a seção de contraindicações manda evitar reaparece na seção de precauções como território de uso cuidadoso. Não são duas bulas em desacordo: é uma só, dizendo as duas coisas.

A contradição não é retórica, porque as duas seções têm força diferente. Contraindicação é fechamento; precaução é condição. Enquanto o texto não se decide, quem injeta é que decide — e a decisão não se toma pelo título da seção, e sim pelo vaso que está diante da agulha. O que a mesma bula deixa claro, em ambas as seções, é qual é o doente de risco: quem tem doença vascular periférica ou doença vascular hipertensiva pode ter resposta vasoconstritora exagerada, com lesão isquêmica e necrose.

A síntese que sobrevive aos três documentos é essa. Em dedo, orelha, nariz e pênis de doente com perfusão normal, a vasoconstrição usada em concentração habitual tem respaldo de duas sociedades brasileiras e um reversor disponível. Em extremidade já isquêmica, em doença vascular periférica estabelecida, em vasoespasmo conhecido, a resposta exagerada está descrita na própria bula — e é ali que a solução sem vasoconstritor deixa de ser tradição e passa a ser indicação. Registrar no prontuário a perfusão avaliada antes da injeção converte uma escolha discutível em conduta defensável.

O que o vasoconstritor cobra na hora de entrar

Todo o benefício descrito até aqui tem um preço, e ele foi medido no Brasil. Um estudo experimental duplo-cego com dez voluntários adultos comparou sete soluções cruzadas no mesmo antebraço: lidocaína a meio por cento, a um por cento e a dois por cento, com e sem epinefrina, e soro fisiológico como controle. Cada voluntário recebeu todas as soluções, o que elimina a variação entre pessoas.

O resultado tem duas metades que apontam para lados opostos. A epinefrina aumentou a dor da infiltração — média de cinco vírgula oito contra cinco vírgula zero na escala visual, com diferença estatisticamente significativa. E a epinefrina prolongou a anestesia: aos sessenta minutos, a frequência de sensibilidade dolorosa foi de trinta por cento nas soluções com o vasoconstritor contra setenta por cento nas soluções sem ele, e a única solução que manteve anestesia completa durante todo o experimento foi a de lidocaína a dois por cento com epinefrina.

A segunda metade do achado é a que muda o hábito brasileiro. Concentrações abaixo de dois por cento doeram menos à infiltração sem prejuízo anestésico nos primeiros trinta minutos, o que confirma, em pele humana, o mesmo princípio que sustenta a técnica tumescente. Para o gesto curto — uma biópsia, a exérese de uma lesão pequena, a infiltração de uma cicatriz —, a solução mais concentrada não entrega nada além de dor na entrada e miligramas gastos do teto.

Os próprios autores registram os limites do que mediram: volume pequeno, uma só topografia, modelo experimental sem a ansiedade que acompanha a cirurgia. Nada disso desfaz o sentido da conduta, que é somar as medidas conhecidas para reduzir a dor de entrada em vez de escolher entre elas: diluir a lidocaína, tamponar a solução, não usá-la gelada, agulha fina, injeção lenta e reentrada pela área já anestesiada. O vasoconstritor pode continuar, e o preço que ele cobra é o que essas medidas pagam.

A conta que decide à beira do leito

Nenhum dos tetos serve enquanto a solução estiver descrita em porcentagem, porque teto é massa e porcentagem é concentração. A conversão é uma só e não muda: porcentagem multiplicada por dez dá miligramas por mililitro. Uma solução a um por cento tem dez miligramas em cada mililitro; a dois por cento, vinte. Feita essa passagem, o resto é multiplicação, e o cálculo cabe em dois passos: quantos miligramas este doente pode receber, e quantos mililitros contêm essa massa.

O exemplo que expõe o erro é o do doente pequeno. Um adulto de cinquenta quilogramas, recebendo lidocaína com vasoconstritor, tem teto de sete miligramas por quilograma, o que dá trezentos e cinquenta miligramas. Em solução a dois por cento, isso corresponde a pouco menos de dezoito mililitros. Sem vasoconstritor, o teto cai para quatro vírgula cinco miligramas por quilograma, ou duzentos e vinte e cinco miligramas, e o volume disponível encolhe para pouco mais de onze mililitros. Uma única seringa de vinte mililitros a dois por cento já ultrapassa os dois tetos desse doente.

O mesmo cálculo aplicado às unidades prontas para uso mostra por que o limite de unidades da bula não substitui a conta. O limite escrito no documento equivale à dose por quilograma de um adulto de porte médio; num doente de cinquenta quilogramas, o número de unidades que cabe é sensivelmente menor, e ninguém o avisa disso na hora. A trava por peso protege o doente pequeno; a trava por unidades protege o doente médio.

Duas correções finais fecham a conta. A primeira é somar tudo o que foi injetado, inclusive o que o colega infiltrou antes e o que se usou para o bloqueio de campo — a dose é do doente, não do procedimento. A segunda é lembrar que doses repetidas elevam o nível plasmático a cada nova aplicação, porque a droga e seus metabólitos se acumulam devagar. Reinjetar uma hora depois não recomeça a contagem do zero, e o segundo tempo de uma operação longa é onde o teto costuma ser ultrapassado sem que ninguém tenha ultrapassado nada de uma vez só.

A toxicidade avisa pelo cérebro, e os documentos não avisam igual

A toxicidade sistêmica do anestésico local é o evento adverso mais grave desta prática e é raro, porque a dose usada na maior parte dos procedimentos fica muito abaixo do teto. Quando acontece, tem duas formas de instalação: abrupta, por injeção inadvertida em vaso, ou lenta, por dose excessiva ou depuração reduzida. A ordem dos sistemas atingidos é fixa e é o que dá tempo de agir — o sistema nervoso central avisa antes de o coração falhar.

É aqui que os dois documentos principais descrevem o mesmo evento com palavras diferentes, e a diferença tem consequência prática. A revisão dermatológica lista como primeiros sinais a parestesia perioral e facial, a fala lentificada, o gosto metálico, a diplopia, as alterações auditivas e as alucinações, com hipertensão e taquicardia associadas. A bula lista inquietação, ansiedade, tontura, visão borrada, tremores, depressão e sonolência. Quem vigia apenas uma das listas pode não reconhecer o primeiro sinal da outra — e ambas descrevem o mesmo começo.

A progressão é a mesma nos dois: da excitação para a depressão do sistema nervoso, culminando em depressão respiratória, e só então os efeitos cardiovasculares, com depressão do miocárdio, prolongamento da condução, bradicardia, hipotensão e falência cardíaca. A revisão associa esses dois patamares a concentrações séricas de quinze e de vinte microgramas por mililitro, respectivamente. O primeiro gesto, em qualquer suspeita, é o mesmo e não depende de exame: suspender a injeção e ofertar oxigênio ao primeiro sinal de mudança.

O tratamento é o segundo ponto em que os documentos se afastam. A revisão da sociedade de dermatologia nomeia a emulsão lipídica a vinte por cento como tratamento específico da falência cardíaca por anestésico local. A bula, no item de superdose, prescreve via aérea, oxigênio, benzodiazepínico ou barbitúrico de ação ultracurta para as convulsões, fluidos, vasopressor e ressuscitação cardiopulmonar — e não menciona a emulsão lipídica. Quem só leu o documento que acompanha o frasco não conhece o antídoto. A própria revisão mede o tamanho desse buraco ao citar um inquérito em que pouco mais de um quinto dos participantes acertou esse tratamento. Saber que ele existe, e onde ele fica guardado no serviço, é parte de indicar a anestesia.

Quem não recebe o mesmo teto

Alguns doentes têm régua própria, e a bula é explícita ao dizer que idosos, debilitados, doentes agudos e crianças devem receber doses reduzidas conforme idade e condição física. A criança é o caso mais sensível, porque o cálculo por quilograma e o teto absoluto convergem para números pequenos, e porque o anestésico tópico também conta: a área máxima de aplicação dos cremes é limitada por faixa de peso, e a superfície tratada é o que determina a absorção.

A prilocaína carrega uma trava exclusiva e é a origem de um acidente evitável. Acima de oito miligramas por quilograma, o metabólito ortotoluidina produz metemoglobinemia, e o risco é particularmente alto no lactente pequeno, cujo sistema de redução da metemoglobina ainda está imaturo nos primeiros meses. Como a prilocaína entra na composição de um dos cremes anestésicos mais usados em criança, o cuidado se transfere da seringa para o tubo: área limitada, tempo limitado, sem oclusão além do prescrito. Cianose que não melhora com oxigênio depois de anestésico tópico em lactente é metemoglobinemia até prova em contrário.

No hepatopata, a depuração das amidas cai e as concentrações plasmáticas tóxicas chegam mais cedo; no cardiopata com função comprometida, a capacidade de compensar o prolongamento da condução atrioventricular é menor, e a bupivacaína, que é a mais cardiotóxica do grupo, é a que menos convém ali. Na gestante, a lidocaína é considerada de risco menor e a epinefrina de risco maior, com a recomendação de adiar o uso do vasoconstritor para depois do parto sempre que possível — sem que isso proíba o vasoconstritor quando o procedimento não pode esperar.

Duas frases fecham o assunto porque são as que mais mudam conduta. A primeira é da bula e vale para todo doente: a menor dose que resultar em anestesia efetiva é a que se deve usar. A segunda é da lista de regras do artigo de ortopedia e diz quase o contrário: anestésico local a mais é melhor do que anestésico local insuficiente. As duas convivem se a leitura for correta — a segunda fala de não subanestesiar o campo; a primeira, de não exceder a massa total. Quem dilui a solução obedece às duas ao mesmo tempo — e é por isso que diluir, em vez de escolher entre as frases, resolve.

04

Três tetos para a mesma lidocaína — e o que muda entre eles

Os cartões abaixo estão desenhados sobre a mesma linha de base para que a comparação seja imediata: a coluna cheia é o teto de que o cartão trata, e as vazias são os outros dois, na mesma escala. O que separa as três alturas não é a molécula, é a velocidade com que ela chega ao sangue.

  1. 1Converta antes de decidir: porcentagem × 10 = mg/mL. Depois multiplique o peso pelo teto em mg/kg e compare com o teto absoluto — vale o menor dos dois.
  2. 2Some tudo o que já entrou neste doente hoje, inclusive o que outra pessoa infiltrou. A dose é do doente, não do procedimento.
  3. 3Escolha a concentração pela duração do gesto, não pelo tamanho da lesão: abaixo de 2% dói menos à entrada e não perde eficácia nos primeiros 30 minutos.
  4. 4Avalie e registre a perfusão da extremidade antes de decidir sobre o vasoconstritor. Perfusão normal: a associação tem respaldo de duas sociedades brasileiras. Isquemia, doença vascular periférica ou vasoespasmo: solução sem vasoconstritor.
  5. 5Aspire antes de cada injeção suplementar e injete devagar — é o que separa a dose calculada da dose que entra direto no vaso.
  6. 6Ao primeiro sinal neurológico, pare a injeção e ofereça oxigênio. Saiba onde o serviço guarda a emulsão lipídica a 20% antes de precisar dela.

Sem vasoconstritor

Lidocaína isolada, infiltração comum: 4,5 mg/kg, com teto absoluto de 300 a 350 mg no adulto. É o menor dos três porque nada atrasa a absorção. Em solução a 2%, um adulto de 50 kg cabe em pouco mais de 11 mL.

Com vasoconstritor

Lidocaína com epinefrina, infiltração comum: 7 mg/kg, com teto absoluto de 300 a 500 mg. A bula fixa o mesmo 7 mg/kg e o converte em limite de carpules — número calculado para adulto de porte médio, que deixa de proteger o doente pequeno.

Tumescente

Técnica tumescente: 35 mg/kg citados pela mesma revisão que fixa os 7 mg/kg acima. Solução muito diluída, grande volume no subcutâneo, vasoconstritor e injeção lenta — quatro atrasos somados que derrubam o pico plasmático.

AnestésicoSem vasoconstritorCom vasoconstritorTrava própria
Lidocaína4,5 mg/kg (máx. 300-350 mg)7 mg/kg (máx. 300-500 mg)Padrão de comparação; 1% = 10 mg/mL, 2% = 20 mg/mL
Bupivacaína2 mg/kg — 175 mg em dose única, 400 mg em 24 h225 mgA mais cardiotóxica do grupo; cautela com betabloqueador e digoxina
Ropivacaína2,9 mg/kg (máx. 200 mg)Não estabelecido na tabela da fonteTem ação vasoconstritora própria
Prilocaína5,7 a 8,5 mg/kg (máx. 400 mg)600 mgMetemoglobinemia acima de 8 mg/kg (ortotoluidina); risco maior no lactente
Mepivacaína300 mg500 mgCriança: 4-6 mg/kg, máx. 270 mg, sem vasoconstritor
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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Vasoconstritor em dedo, nariz, orelha e pênis

Contraindicação: evitar nessas regiões

Deve-se evitar o uso do vasoconstritor em anestesia nas áreas do corpo supridas por artérias finais ou com comprometimento do suprimento sanguíneo, como dedos, nariz, ouvido externo, pênis.

Bula do vasoconstritor associado à lidocaína, item de contraindicações (redação encontrada tanto no PDF do fabricante quanto na reprodução da bula profissional).

Precaução: usar com cautela nas mesmas regiões

Anestésicos locais com vasoconstritor devem ser usados com cautela, e em quantidades limitadas, nas áreas do corpo supridas por artérias finais ou com comprometimento do suprimento sanguíneo; doentes com doença vascular periférica e doença vascular hipertensiva podem ter resposta vasoconstritora exagerada, podendo resultar em lesão isquêmica e necrose.

O MESMO documento, item de precauções, poucas linhas adiante.

Segurança comprovada em vascularização terminal

A adição de epinefrina aos anestésicos locais também se comprovou segura em locais de vascularização terminal, como dáctilos, mãos, pés e região genital.

Anais Brasileiros de Dermatologia, revisão de segurança dos anestésicos locais, 2020.

A proibição veio do veículo ácido, não do vasoconstritor

O mito nasceu entre 1920 e 1945, do uso de procaína cuja solução acidificava até pH 1, e era essa acidez, não a epinefrina, que necrosava o dedo; não há casos de necrose relatados mesmo com adrenalina 1:1.000 injetada acidentalmente em dedo, e mais lesões digitais foram relatadas com torniquete usado indevidamente do que com lidocaína com adrenalina.

Revista Brasileira de Ortopedia, revisão sobre anestésico local com adrenalina na cirurgia da mão, 2017.

Na prova

As duas posições não descrevem doentes diferentes: descrevem o mesmo território em documentos com finalidades diferentes, e uma delas se contradiz internamente. O que identifica o recorte é o vocabulário do enunciado. Cenário de bloqueio digital, cirurgia da mão, campo exangue sem torniquete ou menção explícita à técnica de paciente acordado opera na régua das sociedades. Enunciado que cite a bula, o texto registrado, responsabilidade ou uso fora do previsto em rótulo opera na régua regulatória. E quando o enunciado descreve doença vascular periférica, extremidade fria, vasoespasmo ou isquemia estabelecida, os três documentos concordam — ali a solução é sem vasoconstritor, e a divergência desaparece.

Quanto injetar: o menor volume eficaz ou o suficiente para não subanestesiar

Menor volume e menor dose eficazes

O menor volume de solução que resulta em anestesia eficaz deve ser administrado, e deve haver tempo entre as injeções para observar se o doente manifesta alguma reação adversa; a menor dose que resultar em anestesia efetiva deverá ser usada para evitar altos níveis plasmáticos e graves reações adversas.

Bula, item de posologia e item de advertências.

Não subanestesiar o campo

Anestésico local a mais é melhor do que anestésico local insuficiente.

Revista Brasileira de Ortopedia, 2017 — décima das dez regras de injeção listadas no artigo.

Na prova

As duas frases governam grandezas diferentes e só colidem quando se lê uma delas como regra de volume. A régua da bula é de massa total e aparece em enunciado que fala de teto, peso, dose máxima, doente pequeno, idoso ou hepatopata. A régua do artigo de ortopedia é de cobertura do campo e aparece em enunciado que descreve anestesia insuficiente, doente que sente dor durante o procedimento ou necessidade de campo exangue sem torniquete. Diluir a solução é a conduta que satisfaz as duas ao mesmo tempo, e é o que se espera quando o enunciado traz volume grande com teto apertado.

Qual é o primeiro sinal da toxicidade sistêmica

Sinais de excitação e distúrbios sensoriais

Inicialmente o doente apresenta sinais de ativação do sistema nervoso central, de forma progressiva: parestesia perioral, parestesia facial, lentificação da fala, gosto metálico, diplopia, alterações auditivas e alucinações, com hipertensão arterial e taquicardia associadas.

Anais Brasileiros de Dermatologia, 2020.

Inquietação, tontura e sonolência

Agitação, ansiedade, zumbido, vertigem, visão nebulosa, tremores, depressão ou sonolência podem representar os primeiros sinais de toxicidade do sistema nervoso central; se sinais de toxicidade sistêmica aguda aparecerem, a injeção do anestésico local deve ser interrompida imediatamente.

Bula, item de advertências e item de superdose.

Na prova

As duas listas descrevem o mesmo momento e não se excluem; o que muda é qual delas o serviço memorizou. Enunciado que traz gosto metálico, parestesia perioral, zumbido, diplopia ou fala arrastada está no vocabulário da revisão. Enunciado que traz inquietação, ansiedade, tontura, visão borrada, tremor ou sonolência logo após a infiltração está no vocabulário da bula. Em ambos, o que se cobra é a mesma conduta imediata: parar a injeção e ofertar oxigênio antes de qualquer outra medida.

O tratamento específico da falência cardíaca por anestésico local

Emulsão lipídica a 20% como tratamento específico

O tratamento específico em casos de falência cardíaca é feito com a terapia de emulsão lipídica a 20%; o mesmo texto registra que, num inquérito, o tratamento da toxicidade sistêmica com emulsão lipídica foi corretamente acertado por 21,7% dos participantes, índice considerado baixo pelos autores.

Anais Brasileiros de Dermatologia, 2020.

Suporte, anticonvulsivante e ressuscitação, sem antídoto

Manter via aérea, oxigênio sob pressão positiva; se as convulsões persistirem apesar do suporte respiratório, diazepam 0,1 mg/kg ou tiopental sódico 1-3 mg/kg por via intravenosa; fluidos e vasopressor para a depressão circulatória; medidas padrão de ressuscitação cardiopulmonar em caso de parada. Não há menção a emulsão lipídica.

Bula, item de superdose (PDF do fabricante e reprodução da bula profissional).

Na prova

Não é divergência de opinião clínica: é um documento que traz o antídoto e outro que não o menciona. Enunciado ambientado em serviço com protocolo, ou que ofereça emulsão lipídica entre as condutas, opera na régua da revisão. Enunciado que se limite ao que está escrito no rótulo do medicamento encontra apenas suporte, anticonvulsivante e ressuscitação. Como as duas condutas não se anulam — o suporte é o mesmo nos dois textos —, o que separa é a presença ou a ausência da emulsão lipídica, e ela é o passo que só um dos documentos conhece.

06

Caso resolvido

Homem de 52 anos, 58 kg, tabagista, hipertenso em uso de losartana, chega ao ambulatório para exérese de lesão cutânea de 1,5 cm no dorso da mão direita e reparo de laceração antiga em prega interdigital, sob anestesia local. Refere que 'não pode tomar anestesia com vaso' porque um dentista lhe disse isso há anos. Ao exame, mão quente, enchimento capilar de 2 segundos, pulsos radial e ulnar cheios, teste de Allen com reperfusão pronta, sem alterações tróficas. Disponível na sala: lidocaína a 2% sem vasoconstritor e lidocaína a 2% com adrenalina 1:200.000, soro fisiológico e bicarbonato a 8,4%. Como se define a solução, a concentração e o volume?
Passo 1
Estabelecer o teto antes de escolher a solução, porque é ele que limita o volume. Com vasoconstritor, 7 mg/kg em 58 kg dá 406 mg; sem vasoconstritor, 4,5 mg/kg dá 261 mg. Em solução a 2% (20 mg/mL), isso corresponde a cerca de 20 mL com vasoconstritor e a cerca de 13 mL sem ele. O teto absoluto (300-500 mg com epinefrina; 300-350 mg sem) não trava antes do peso neste doente.
Passo 2
Separar a contraindicação real da herança. O relato de 'não pode tomar com vaso' não descreve reação alérgica nem evento cardiovascular: descreve a orientação clássica sobre extremidade. A perfusão está documentada — mão quente, enchimento capilar de 2 segundos, pulsos cheios, Allen com reperfusão pronta —, não há doença vascular periférica nem vasoespasmo, e a hipertensão está tratada. Duas sociedades brasileiras publicam a segurança da associação em vascularização terminal, e a própria bula localiza a cautela no doente com doença vascular, não no território.
Passo 3
Escolher a concentração pela duração do gesto e pelo volume necessário, e não pelo que estiver aberto na bandeja. São dois campos (dorso da mão e prega interdigital), o que exige volume e não exige potência: diluir a solução a 2% com soro fisiológico até 1% dobra o volume disponível dentro do mesmo teto de miligramas, dói menos à infiltração e não perde eficácia nos primeiros 30 minutos.
Passo 4
Somar as medidas que reduzem a dor de entrada, em vez de escolher entre elas, e explicar ao doente o que ele vai sentir: agitação e tremor passageiros pela adrenalina, e a percepção de pressão sem ardência durante o procedimento.
07

Agora feche você

Mulher de 46 anos, 52 kg, sem comorbidades, é atendida na sala de procedimentos para sutura de ferimento corto-contuso extenso em antebraço e drenagem de abscesso adjacente em fase flutuante. O residente infiltrou 15 mL de lidocaína a 2% sem vasoconstritor ao redor da laceração e, como o abscesso continuava doloroso, injetou mais 8 mL diretamente sobre a área inflamada, sem melhora. Chama o preceptor dizendo que 'a anestesia não pegou' e pede autorização para completar com mais 10 mL. A doente está lúcida, refere gosto metálico na boca e formigamento em volta dos lábios, e pergunta se isso é normal.
Passo 1
Fazer a conta do que já entrou e comparar com o teto desta doente, lembrando que a dose é do doente e não do procedimento — soma-se tudo o que foi injetado hoje, por quem quer que tenha injetado.
Passo 2
Interpretar os dois sintomas que a doente relatou espontaneamente, dizendo a que sistema pertencem e em que ponto da sequência de toxicidade eles ficam.
Passo 3
Explicar por que a segunda infiltração, feita sobre o abscesso, não anestesiou — e dizer qual seria a manobra correta para anestesiar aquela área.
Passo 4
Definir a conduta imediata e o que precisa estar disponível na sala antes de qualquer decisão sobre concluir ou adiar o procedimento.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Contar frascos em vez de calcular miligramas Atrai porque o frasco é o que está na mão e a conta parece dispensável em procedimento pequeno. O teto é sempre duplo — um valor por quilograma e um valor absoluto — e vale o menor dos dois. No adulto de porte médio quem trava é o número absoluto, e por isso o hábito funciona; no doente de cinquenta quilogramas, no idoso debilitado e na criança, quem trava é o peso, e o hábito deixa de proteger exatamente em quem tem menos margem. A conversão que resolve cabe numa linha: porcentagem multiplicada por dez dá miligramas por mililitro.
  2. 2Levar o teto da técnica tumescente para a infiltração comum Atrai porque o número maior está publicado na mesma revisão e no mesmo artigo que o número menor. O teto elevado da tumescente depende de quatro condições somadas: solução muito diluída, grande volume distribuído no subcutâneo, vasoconstritor associado e injeção lenta. Retire qualquer uma delas e a absorção acelera. Injetar solução concentrada, depressa, em tecido hiperemiado, confiando no número da lipoaspiração, é usar um teto cujas condições não estão presentes.
  3. 3Insistir com mais volume dentro do abscesso quando a anestesia não pega Atrai porque a falha parece de dose. O tecido inflamado é ácido, o equilíbrio da molécula se desloca para a forma que não atravessa a membrana e a droga não chega ao canal de sódio. Mais volume no mesmo lugar aumenta a massa total, aproxima o teto e não melhora a anestesia. A saída é anestesiar fora da área inflamada — bloqueio do nervo proximal ou bloqueio de campo em tecido são.
  4. 4Recusar o vasoconstritor no dedo de doente com perfusão normal Atrai porque a proibição foi ensinada como absoluta e porque parece a escolha prudente. Duas sociedades médicas brasileiras publicaram o contrário, e uma delas rastreia a origem da regra até a acidez da procaína, anestésico fora de uso desde o fim dos anos quarenta. O custo de recusar não é nulo: perde-se hemostasia, perde-se duração e, na mão, entra o torniquete — a mesma fonte registra que o torniquete usado indevidamente causou mais lesões digitais do que a lidocaína com adrenalina. A cautela permanece onde a bula a localiza: doença vascular periférica, doença vascular hipertensiva, extremidade já isquêmica.
  5. 5Tratar a queixa de pressão durante o procedimento como falha de anestesia Atrai porque o doente fala enquanto se opera e a reação instintiva é injetar mais. As fibras de dor são bloqueadas antes das fibras de pressão e propriocepção, de modo que sentir puxar e movimentar é o esperado num campo bem anestesiado. Injetar mais por causa disso gasta teto sem ganhar nada. O que resolve é ter avisado antes: o que não pode existir é ardência ou dor em queimação.
  6. 6Chamar de alergia a taquicardia que veio depois da injeção Atrai porque o doente relata mal-estar logo após a picada e o rótulo de alergia parece seguro. Alergia verdadeira mediada por imunoglobulina E é rara, estimada em menos de um por cento; agitação, tremor e taquicardia depois de solução com vasoconstritor são efeito da amina, e tontura com sudorese e bradicardia é reação vasovagal. Rotular errado retira do doente, para o resto da vida, a droga mais estudada da classe. Quando a história for mesmo convincente para um anestésico do grupo amida, existe saída dentro da farmácia: um do grupo éster, cuja reação cruzada com amidas é baixa.
  7. 7Reinjetar uma hora depois como se a contagem recomeçasse Atrai porque o efeito passou e parece que a droga também. Doses repetidas elevam o nível plasmático a cada aplicação, porque a droga e seus metabólitos se acumulam devagar. Numa operação longa, ou quando outra pessoa já infiltrou antes, é a soma do dia que conta contra o teto — e é no segundo tempo que ele costuma ser ultrapassado sem que nenhuma dose isolada tenha sido excessiva.
  8. 8Esquecer que o creme anestésico também tem teto Atrai porque o produto é tópico, vendido sem receita em algumas apresentações e usado em criança justamente para evitar a agulha. A absorção depende da área tratada, do tempo de aplicação e da oclusão, e as recomendações limitam área e tempo por faixa de peso. Quando a formulação contém prilocaína, soma-se o risco de metemoglobinemia pelo metabólito ortotoluidina, maior no lactente pequeno: cianose que não melhora com oxigênio depois de anestésico tópico é metemoglobinemia até prova em contrário.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O anestésico local existe em equilíbrio entre uma forma lipossolúvel, que atravessa a membrana nervosa, e uma hidrossolúvel, que não atravessa; a proporção depende do pKa da droga e do pH do tecido. O ambiente ácido do tecido inflamado favorece a forma que não penetra, e a mesma dose que anestesiaria pele sadia falha ali. Insistir com mais volume no centro da lesão aumenta a massa total, aproxima o teto de dose e não melhora a anestesia — a saída é anestesiar fora da área inflamada, por bloqueio do nervo proximal ou bloqueio de campo em tecido são. A vasodilatação inflamatória de fato acelera a absorção, mas isso reduz o teto real e não é o que impede a droga de agir; e mielinização maior torna a fibra mais resistente, não mais sensível, ao bloqueio.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Conversão que abre tudo: porcentagem × 10 = mg/mL (1% = 10 mg/mL; 2% = 20 mg/mL). Lidocaína isolada 4,5 mg/kg, teto absoluto 300-350 mg; com epinefrina 7 mg/kg, teto absoluto 300-500 mg; vale sempre o MENOR entre o cálculo por peso e o teto absoluto. Bupivacaína 2 mg/kg (175 mg em dose única, 400 mg em 24 h; 225 mg com epinefrina) e é a mais cardiotóxica. Ropivacaína 2,9 mg/kg (200 mg). Prilocaína 5,7-8,5 mg/kg (400 mg; 600 mg com epinefrina) com metemoglobinemia acima de 8 mg/kg. Vasoconstritor faz quatro coisas: retarda absorção, reduz pico plasmático, prolonga a duração em cerca de 200% e dá hemostasia; concentrações de 1:50.000 a 1:200.000, com 1:100.000 e 1:200.000 equivalentes em vasoconstrição. Toxicidade avisa pelo sistema nervoso central antes do coração; primeiro gesto é parar a injeção e dar oxigênio.

em 30 dias

Os porquês. Por que o mesmo texto traz 7 e 35 mg/kg: o teto é da velocidade de absorção, não da molécula — a tumescente soma diluição, plano subcutâneo, vasoconstritor e injeção lenta, e tudo o que acelera a absorção derruba o teto real, com a injeção intravascular inadvertida no extremo. Por que o abscesso não anestesia: pH ácido desloca o equilíbrio para a forma que não atravessa a membrana. Por que pressão persiste com dor abolida: fibras finas e amielínicas bloqueiam antes das grossas. Por que a proibição no dedo caiu: nasceu da procaína que acidificava até pH 1, e duas sociedades brasileiras publicaram a segurança em vascularização terminal — mas a bula ainda contraindica num item e autoriza com cautela em outro, e a cautela real é do doente com doença vascular, não do território. Por que diluir resolve a contradição entre 'menor dose eficaz' e 'anestésico a mais é melhor que insuficiente': diluição cobre o campo sem gastar massa. Por que o estudo brasileiro muda a receita: epinefrina aumentou a dor de entrada (5,8 contra 5,0) e prolongou a anestesia (30% contra 70% de sensibilidade aos 60 minutos), e concentrações abaixo de 2% doeram menos sem perder eficácia nos primeiros 30 minutos. Por que saber onde fica a emulsão lipídica a 20%: a revisão a indica na falência cardíaca, a bula não a menciona, e no inquérito citado apenas 21,7% acertaram esse tratamento.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Treine a consulta em que a decisão precede a agulha: o doente que chega dizendo que não pode tomar anestesia com vasoconstritor, o doente pequeno em que o número de frascos deixa de proteger, o abscesso que não cede à infiltração e a doente que relata gosto metálico no meio do procedimento. Em todos, o exercício é o mesmo — dizer em voz alta o teto em miligramas antes de escolher a solução, examinar e registrar a perfusão antes de decidir sobre o vasoconstritor, e nomear o primeiro sinal que faria você parar. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Anestesia local em cirurgia da pele – Anestesia local na cirurgia da pele: quanto injetar e onde o vaso entra — Preparatório para provas | OsceLabs