Cirurgia GeralColoproctologia

Retocolite e Crohn: retirar o cólon cura, retirar o delgado só ganha tempo

Quando operar retocolite ulcerativa e doença de Crohn, qual operação a urgência permite e o que a reconstrução do trânsito cobra depois

Na retocolite a doença cabe em dois órgãos que se podem retirar inteiros; no Crohn ela percorre o tubo, e cada centímetro ressecado é um centímetro que não volta.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 28 anos, com retocolite ulcerativa extensa há 8 anos, em uso irregular de mesalazina, é internada com quadro de 6 dias de diarreia sanguinolenta (12 evacuações/dia), dor abdominal e distensão. Ao exame: FC 118 bpm, T 38,4 °C, PA 100/60 mmHg, abdome distendido e timpânico com dor difusa. Hb 8,9 g/dL (VR 12–16), leucócitos 16.400/mm³ (VR 4.000–11.000), albumina 2,4 g/dL (VR 3,5–5,0). Radiografia simples de abdome mostra dilatação do cólon transverso de 7 cm. Iniciados hidratação, corticoide venoso, antibioticoterapia e suspensão de opioides/anticolinérgicos. Após 48 h de tratamento clínico intensivo, mantém taquicardia, febre e persistência da dilatação colônica. Qual é a conduta mais adequada neste momento?

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Como esse tema cai

Duas doenças inflamatórias dividem o mesmo nome de família e chegam à mesa cirúrgica por motivos opostos. Na retocolite ulcerativa a inflamação começa na margem anal, sobe de forma contínua e não sai do cólon e do reto: toda a doença está contida em dois órgãos de que o organismo pode prescindir. Na doença de Crohn a inflamação é segmentar, salta trechos sadios e atravessa a parede inteira, em qualquer ponto entre a boca e o ânus. Dessa assimetria anatômica desce tudo o que se decide depois — se a operação encerra a doença ou apenas compra tempo, quanto intestino se pode retirar e o que se deve deixar para trás.

O eixo deste capítulo é a decisão cirúrgica e o preço dela. A primeira pergunta é se a operação vai curar ou administrar: ela se responde pelo órgão, não pela gravidade do surto. A segunda é qual operação a condição do doente naquele dia permite, porque a operação que cura não é a mesma que se faz com o doente séptico, desnutrido e imunossuprimido. A terceira só existe depois das duas primeiras, e é a que menos se ensina: quanto custa reconstruir o trânsito, em complicação, em função e em cirurgias adicionais.

Três vizinhos ocupam terreno próximo e ficam de fora. O tratamento clínico das duas doenças — aminossalicilato, corticoide, imunossupressor, agente biológico, terapia de resgate e o critério do terceiro dia — pertence ao capítulo de doenças inflamatórias intestinais. A técnica da doença perianal, com trajetos, sedenho e fistulotomia, pertence ao capítulo de fissura, abscesso e fístula anal. O rastreamento e o estadiamento do adenocarcinoma colorretal pertencem ao capítulo de câncer colorretal. Fica aqui o que nenhum deles cobre: a indicação da operação, a escolha do que se retira e do que se deixa, a reconstrução e a aritmética da recidiva.

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O que muda decisão

O cólon é um órgão que se pode retirar inteiro

A retocolite ulcerativa tem um privilégio raro entre as doenças inflamatórias crônicas: ela cabe dentro de dois órgãos dispensáveis. Começa na margem anal, sobe de forma contínua e simétrica, com demarcação nítida entre mucosa inflamada e mucosa normal, e não ultrapassa a mucosa e a submucosa. Retirados o cólon e o reto, a colite não entra em remissão: ela termina. Nenhum imunossupressor faz isso, e é por essa razão que a operação nunca sai do horizonte de quem trata a doença, mesmo no doente que vai bem.

A doença de Crohn não oferece essa saída, e o documento federal vigente escreve a consequência sem eufemismo: trata-se de doença clínica e cirurgicamente incurável. Ela é segmentar, assimétrica e transmural, e pode acometer qualquer porção do tubo digestivo, da boca ao ânus. Retirar o segmento doente retira aquele segmento; não retira a doença, que continua existindo no doente e volta a se manifestar noutro ponto. A operação, no Crohn, é um ato de administração de um território, não um ato de cura.

Daí vem a inversão que confunde quem estuda as duas doenças no mesmo bloco. Na retocolite, operar cedo é uma escolha legítima porque a operação é definitiva; o que segura a mão do cirurgião é o preço da reconstrução, não a dúvida sobre o benefício. No Crohn, operar cedo é uma escolha que se paga em comprimento de intestino, e o que segura a mão do cirurgião é a certeza de que virão outras operações. As duas doenças pedem prudência, e por motivos que não têm nada em comum.

Há ainda uma diferença de destino do órgão retirado. Na retocolite, a peça responde a uma pergunta de longo prazo: o cólon de quem tem colite extensa há muitos anos carrega risco acumulado de transformação maligna, e é isso que transforma displasia de alto grau confirmada em indicação de proctocolectomia mesmo em doente com sintomas controlados. No Crohn, a peça responde a uma pergunta imediata e menos glamorosa: onde estava a estenose, e quanto de intestino sobrou.

A urgência não escolhe a operação definitiva

Na colite aguda grave, o relógio corre em dias. O doente interna, recebe corticoide intravenoso, e no terceiro dia se decide entre resgate medicamentoso e cirurgia. Quando o resgate falha — ou quando não há resgate a oferecer, porque já se usou o que havia —, a operação deixa de ser opção e passa a ser conduta. O protocolo federal da retocolite diz que a avaliação cirúrgica precoce deve acompanhar o doente desde a internação, pelo risco de a colectomia se tornar necessária em qualquer momento da evolução.

O que se opera nesse cenário, porém, não é a doença inteira. O protocolo nomeia o procedimento e para exatamente ali: colectomia subtotal com confecção de ileostomia terminal, deixando a reconstrução do trânsito para depois da recuperação do quadro agudo. Retira-se o cólon doente, aborda-se o abdome, e não se toca na pelve. O reto fica.

A razão é fisiológica, não técnica. O doente que chega a essa operação vem de dias de diarreia sanguinolenta, com anemia, hipoalbuminemia, corticoide em dose plena e frequentemente um agente biológico recente. Nenhuma anastomose cicatriza bem nesse terreno, e a dissecção pélvica em paciente séptico soma sangramento, lesão nervosa e risco de deiscência num tempo em que ele não tem reserva para nada disso. Operar a pelve doente é trocar uma urgência por outra.

Há também uma razão diagnóstica, e ela pesa mais do que parece. Uma parcela dos doentes operados com diagnóstico presumido de retocolite acaba preenchendo, depois, critérios de doença de Crohn. Se a pelve tiver sido dissecada e a bolsa construída na primeira operação, essa reclassificação chega tarde demais: bolsa ileal em doença de Crohn tem taxa de insucesso que não justifica o risco. Deixar o reto no lugar preserva a informação e preserva o caminho de volta.

A operação de urgência é, portanto, deliberadamente incompleta. Ela resolve a sepse de origem colônica, retira a fonte de perda de sangue e proteína, e devolve ao doente meses para recuperar peso, sair do corticoide e ser reavaliado. Só então se discute o que fazer com o reto que ficou.

Esquema do abdome após a retirada do cólon: o íleo terminal exteriorizado como estoma na parede abdominal e o coto retal fechado deixado na pelve, com o contorno tracejado do cólon retirado.
A operação da urgência retira o cólon e não toca na pelve: o coto que fica preserva a informação e o caminho de volta.

O reto que fica não é um descuido

Terminada a colectomia subtotal, sobra um coto retossigmoide fechado dentro da pelve. Ele pode ser sepultado — fechado e devolvido ao abdome — ou exteriorizado como fístula mucosa, isto é, a extremidade aberta fixada à parede abdominal. As duas soluções existem porque resolvem problemas diferentes.

O coto sepultado é mais confortável para o doente, que fica com um estoma só, mas guarda um risco: se a linha de sutura abrir, o conteúdo do coto inflamado se derrama na cavidade e produz um abscesso pélvico num doente que acabou de sair de uma sepse. A fístula mucosa elimina esse risco, porque qualquer secreção sai pela parede em vez de acumular dentro. Em compensação, o doente convive com duas aberturas e com a drenagem mucosa contínua de um reto que continua inflamado.

Seja qual for a escolha, o coto continua doente. Ele sangra, drena muco e pode manter sintomas de proctite, e não é raro que precise de tratamento tópico enquanto espera. Isso surpreende o doente, que imaginou ter se livrado da colite ao perder o cólon, e precisa ser dito antes da operação, não depois.

Há um ganho adicional que raramente entra na conversa e deveria. Enquanto o coto está no lugar, o esfíncter continua sendo usado pela drenagem mucosa e não passa meses em desuso completo. A avaliação da continência antes de decidir a reconstrução fica mais confiável, e isso importa: reservatório construído sobre esfíncter insuficiente entrega ao doente incontinência em vez de autonomia, e não há como desfazer depois.

O coto tem, por fim, um valor que se colhe meses depois. A histologia da peça retirada e a evolução do coto ajudam a confirmar se aquilo era mesmo retocolite. É essa confirmação que autoriza construir uma bolsa. Quem retira o reto na urgência perde a peça de informação e constrói a reconstrução sobre uma suposição — e o preço de errar aqui é uma bolsa que falha e um estoma definitivo em alguém que tinha alternativa.

Reconstruir é uma segunda doença, e ela tem estatística

A reconstrução do trânsito depois de uma proctocolectomia se faz com um reservatório construído com o próprio íleo terminal, dobrado em jota e anastomosado ao ânus ou logo acima da linha pectínea. A vantagem é evidente e é a única que interessa ao doente: preserva-se a via natural de evacuação e evita-se a ileostomia definitiva. O custo é o que quase nunca se conta.

Uma série brasileira de centro terciário acompanhou cinquenta e cinco doentes operados ao longo de catorze anos e mediu esse custo. A mortalidade operatória ficou abaixo de dois por cento, o que é excelente. A morbidade global passou de três quartos dos operados. A complicação precoce mais frequente foi fístula anastomótica ou abscesso pélvico, em pouco mais de um terço dos doentes. Complicações pélvicas ocorreram em quase metade da série.

O insucesso do reservatório, definido como necessidade de estoma permanente com ou sem retirada da bolsa, alcançou pouco mais de um décimo dos doentes. Isso significa que o doente que aceita a reconstrução está aceitando, junto, uma probabilidade não desprezível de terminar com a ileostomia que a operação prometia evitar — depois de ter passado por todas as cirurgias do caminho.

A inflamação do próprio reservatório é a complicação tardia característica e não tem equivalente em nenhuma outra reconstrução digestiva. Cursa com tenesmo, aumento do número de evacuações, escape fecal, urgência, cólica e às vezes febre e sangramento. Não é recidiva da colite: o cólon não existe mais. É um fenômeno próprio do íleo transformado em reservatório, com participação de disbiose e de resposta imune anômala da mucosa.

O número que se cita para essa inflamação depende inteiramente de quem foi medido e por quanto tempo. Na série brasileira, pouco mais de um décimo dos doentes; na literatura citada pelos próprios autores, até dois quintos dos doentes com retocolite em dez anos de reservatório, com prevalência acumulada que chega à metade. Não são números contraditórios: são populações e relógios diferentes — uma série com maioria de polipose familiar e seguimento curto contra coortes de colite com uma década de observação.

Seis evacuações por dia é o bom resultado

Quando se pergunta ao doente operado como ele vive, a resposta não se parece com a de quem tem intestino normal, e é importante que ninguém prometa que vai se parecer. Na série brasileira, a mediana foi de seis evacuações em vinte e quatro horas, com uma delas noturna. Esse é o resultado considerado satisfatório, não o resultado ruim.

A continência para fezes sólidas foi preservada na grande maioria, e todos os doentes conseguiam adiar a evacuação por mais de meia hora — o que, na prática, é o que separa uma vida social possível de uma vida presa ao banheiro. Em compensação, metade relatou escape fecal e cerca de um terço, urgência evacuatória. Dois em cada cinco usavam antidiarreico de forma regular, e a maioria mantinha alguma restrição alimentar.

O achado mais interessante da série é o que ela não encontrou. As complicações pélvicas, que foram muitas e graves, não pioraram a função do reservatório nem a qualidade de vida. O que se associou à qualidade de vida foi outro conjunto de variáveis: sexo, escolaridade e tempo decorrido desde a operação, com escores mais baixos entre quem tinha o reservatório havia mais de cinco anos.

Isso obriga a separar duas conversas que costumam vir coladas. Uma é a conversa cirúrgica, sobre risco de fístula, de abscesso e de perda do reservatório, e ela é dura. A outra é a conversa sobre viver com o reservatório, e ela é melhor do que a primeira faz supor. Prometer a segunda sem contar a primeira é desonesto; contar a primeira e calar a segunda empurra para a ileostomia definitiva doentes que teriam vivido bem.

Vale registrar por que a operação se faz em um, dois ou três tempos. O doente eletivo, bem nutrido e fora do corticoide, pode receber a proctocolectomia com o reservatório e uma ileostomia de proteção, e depois fechá-la — dois tempos. O doente que chegou pela urgência já gastou o primeiro tempo com a colectomia subtotal, e vai precisar de mais dois: a proctectomia com o reservatório, e o fechamento do estoma. O estado clínico no dia da primeira operação é o que define quantas cirurgias haverá.

No Crohn, a régua deixa de ser o órgão e passa a ser o centímetro

Do outro lado, a aritmética muda de unidade. A diretriz brasileira elaborada em conjunto pelo grupo de estudos da doença inflamatória intestinal, pela federação de gastroenterologia e pela sociedade de coloproctologia registra que que, dos doentes com Crohn, entre setenta e noventa por cento operam alguma vez ao longo da vida, do simples abscesso anal drenado à ressecção segmentar complexa.

Se a operação não cura e vai se repetir, cada ressecção passa a ser um saque em uma conta finita. A mesma diretriz nomeia o desfecho a evitar: ressecções múltiplas ao longo do tempo aumentam o risco de síndrome do intestino curto, com as morbidades metabólicas associadas. Intestino delgado insuficiente é dependência de nutrição parenteral, e ninguém devolve comprimento depois.

Daí nasce o princípio de economia intestinal, que é a marca da cirurgia do Crohn e não tem paralelo na cirurgia oncológica. Não se ressecam margens generosas, porque a margem generosa não previne recidiva e custa comprimento. Não se retira o segmento inflamado que pode responder a medicamento. E, quando a estenose é curta e fibrótica, é possível abrir o intestino em vez de retirá-lo.

A operação que faz isso abre a estenose no sentido do comprimento e fecha a abertura no sentido transversal, alargando a luz sem sacrificar um centímetro de tubo. Serve à estenose curta e fixa, à estenose múltipla espalhada por metros de delgado, ao doente que já tem intestino curto e àquele em que a obstrução recidivou rápido depois de uma ressecção. Não serve à estenose longa, ao segmento com fístula ou abscesso, nem à lesão suspeita de neoplasia.

Uma advertência de vocabulário, porque ela custa questão. A literatura brasileira chama essa operação de plastia intestinal ou enteroplastia; o nome que circula nas provas é estenoplastia, e há ainda quem escreva estricturoplastia. A diretriz nacional de tratamento cirúrgico do Crohn não usa nenhum dos dois últimos termos — escreve enteroplastia. Quem procurar a palavra errada não encontra a conduta certa.

A estenose que volta não volta onde se operou

O medo intuitivo de quem ouve falar em abrir a estenose em vez de retirá-la é imediato: deixa-se doença para trás, logo ela vai fechar de novo naquele ponto. Uma série brasileira de serviço universitário mediu isso e encontrou o contrário do que o medo previa.

Vinte e oito doentes foram operados ao longo de treze anos, com seguimento médio de quase cinco anos, e quase metade deles já tinha ressecção intestinal prévia. Foram feitas cento e dezesseis plastias, a grande maioria pela técnica que abre no sentido longitudinal e fecha no transversal; em quase dois terços dos doentes houve ressecção associada no mesmo ato.

As complicações ficaram em um quarto dos doentes, com um óbito. A complicação local precoce mais frequente foi a deiscência da própria plastia, em cerca de um décimo. Até aqui, nada que surpreenda quem opera intestino inflamado.

O número que muda a compreensão do procedimento é outro. A recidiva sintomática da estenose ocorreu em quase dois terços dos doentes, e o índice de reoperação passou de dois quintos. Mas a recidiva no local de uma plastia prévia apareceu em quatro das cento e dezesseis plastias — pouco mais de três por cento —, distribuídas por três doentes. A doença voltou; voltou noutro lugar.

A leitura clínica é direta e vale mais do que a técnica. O ponto que se poupa não é o ponto que falha. O intestino que se abriu e se alargou comporta-se, no seguimento, tão bem quanto o intestino que se anastomosou depois de uma ressecção; o que recidiva é a doença, no território que ela quiser. Retirar mais intestino não teria mudado a recidiva — teria mudado o comprimento restante.

A mesma série registra uma diferença entre as técnicas de plastia: a recidiva no local prévio concentrou-se no tipo que faz a abertura em ferradura sobre um segmento mais longo, com um quinto de recidiva local, contra um índice muito menor na técnica simples. É um achado de série pequena, e é assim que deve ser lido.

Três números para a mesma recidiva, e nenhum deles está errado

Quem estuda Crohn cirúrgico encontra números de recidiva que não fecham entre si, e conclui, erradamente, que a literatura está confusa. Ela não está: cada número mede uma população diferente, e o que muda o número é o denominador.

O protocolo federal vigente da doença de Crohn afirma que a recorrência pós-operatória pode incidir entre vinte e oito e quarenta e cinco por cento em cinco anos. É uma taxa de recorrência da doença após ressecção, em população geral operada.

A série brasileira de plastias encontrou recidiva sintomática de estenose em quase dois terços, com reoperação em pouco mais de dois quintos. Parece um desastre ao lado do número federal, e não é: essa é uma população selecionada de doentes estenosantes, quase metade deles já reoperada antes de entrar na série, seguida por quase cinco anos. Quem já tem estenose e já foi operado é, por definição, quem mais recidiva.

A introdução dessa mesma série cita a literatura da época com taxas de reoperação de trinta a sessenta por cento, faixa larga o bastante para conter os dois números anteriores. E o protocolo federal traz ainda um quarto: numa coorte de doentes com doença ileocecal limitada operados precocemente, metade seguia sem tratamento medicamentoso cinco anos depois.

Vale notar que nenhum desses números fala de cura, e sim de intervalo livre. A palavra que descreve o desfecho no Crohn é recorrência, e ela pressupõe que a doença continua ali, quieta, no restante do tubo. Por isso a profilaxia medicamentosa depois da ressecção não é excesso de zelo: o protocolo federal indica tratamento profilático a quem ressecou segmento ileocólico e tem ao menos um fator de risco de recorrência, entre eles tabagismo, cirurgia prévia, doença penetrante e localização perianal.

Colocados lado a lado, os quatro números contam uma história coerente. Quanto mais selecionada e mais precoce a população, melhor o resultado; quanto mais crônica e mais reoperada, pior. O erro não é acreditar em um deles — é citar qualquer um sem dizer de quem se está falando.

A mesma operação é alternativa numa doença e resgate na outra

Os dois protocolos federais que governam essas doenças no país foram escritos pelo mesmo ministério e colocam a cirurgia em lugares opostos do algoritmo. A diferença não é de rigor nem de época: é consequência de qual órgão está doente.

No protocolo da retocolite, a colectomia aparece depois. Ela entra quando o corticoide intravenoso falha e o resgate com ciclosporina ou com agente biológico também falha, e o texto é explícito ao dizer que não se faz terapia sequencial — falhado o primeiro resgate, a indicação é operar. A cirurgia é o fim da linha medicamentosa.

No protocolo do Crohn, a ressecção aparece antes. Para o doente com doença ileocecal limitada, com até quarenta centímetros de delgado acometido, sem componente estenosante e com perda de resposta à terapia convencional, o texto oferece a ileocolectomia direita, de preferência por videolaparoscopia, como alternativa ao agente biológico — não como fracasso dele.

O argumento que sustenta essa antecipação é de coorte, e o protocolo o resume: comparada ao agente biológico, a ileocolectomia direita primária associou-se a redução de cerca de um terço no risco de hospitalização, de necessidade de corticoide sistêmico, de nova cirurgia e de doença perianal. É uma oferta de troca, não uma capitulação.

A inversão faz sentido quando se lembra do primeiro princípio. Na retocolite, operar cedo custa a pelve e a reconstrução, e por isso se esgota o remédio primeiro. No Crohn, adiar custa parede intestinal inflamada, fístula e abscesso, e uma ressecção curta e precoce pode sair mais barata em comprimento do que anos de doença ativa. O que se economiza é diferente nas duas doenças.

O que a doença de Crohn faz com uma bolsa ileal

Existe uma decisão que reúne tudo o que veio antes e é onde mais se erra: construir um reservatório ileal em quem tem doença de Crohn. O reservatório pressupõe um íleo terminal sadio que vai virar reservatório e uma anastomose ao ânus que vai cicatrizar. As duas premissas caem quando a doença acomete o delgado e a região perianal.

O resultado previsível é fístula do reservatório para a vagina, para a bexiga ou para a pele, estenose da anastomose, abscesso pélvico e, ao fim, retirada do reservatório com ileostomia definitiva — em alguém que já não tem cólon e agora também não tem o íleo terminal que foi consumido na tentativa. É a sequência mais cara da coloproctologia.

Por isso a séria advertência prática: na dúvida entre as duas doenças, não se constrói bolsa. Opera-se em tempos, deixa-se o reto, colhe-se a histologia e observa-se a evolução. O tempo, aqui, é um exame diagnóstico. A pressa de devolver a via natural de evacuação é o que produz o estoma definitivo que ela pretendia evitar.

A mesma cautela vale para a colite indeterminada, que não é diagnóstico definitivo e sim confissão de que a peça não permitiu classificar. Ela não proíbe a reconstrução, mas obriga a conversa prévia honesta: o doente precisa saber que existe uma probabilidade de o diagnóstico mudar e de o reservatório não sobreviver a essa mudança.

E vale, por fim, para o doente com doença perianal ativa. Ânus com fístula complexa em atividade não é lugar de anastomose ileoanal, mesmo que o diagnóstico de retocolite pareça seguro; a doença perianal em atividade é, por si, um argumento a favor de rever o diagnóstico antes de operar a pelve.

A sequência que resolve a decisão à beira do leito

Diante do doente internado com colite grave, a primeira pergunta não é qual operação, e sim se o relógio já venceu. Corticoide intravenoso, reavaliação no terceiro dia, resgate único se houver resgate a oferecer, e cirurgia se o resgate falhar. A equipe cirúrgica acompanha desde a admissão; ela não é chamada quando o doente piora, é chamada quando ele interna.

Vencido o relógio, a segunda pergunta é sobre o estado do doente, não sobre a doença. Séptico, desnutrido, sob corticoide em dose plena ou biológico recente: colectomia subtotal com ileostomia terminal, pelve intocada, reto preservado. Estável, eletivo, fora do corticoide, diagnóstico firme: a proctocolectomia com reservatório pode ser feita de uma vez, com estoma de proteção.

A terceira pergunta é sobre o diagnóstico, e ela se responde com a peça e com o tempo. Confirmada a retocolite, a reconstrução está autorizada, com a conversa completa sobre morbidade, sobre inflamação do reservatório e sobre as seis evacuações diárias que serão o bom resultado. Havendo qualquer suspeita de Crohn, a reconstrução espera.

Do lado do Crohn, a sequência é outra e começa por distinguir a estenose inflamatória da fibrótica: a primeira responde a medicamento, a segunda não. Confirmada a fibrose, a pergunta seguinte é de comprimento — estenose curta e única, com intestino de sobra, tolera ressecção; estenose múltipla, ou doente já encurtado por operações anteriores, pede que se abra em vez de retirar.

E, em toda decisão de operar Crohn, cabe uma última verificação antes da incisão: existe abscesso a drenar por punção primeiro, existe desnutrição a corrigir, existe corticoide a reduzir? Operar intestino inflamado em doente desnutrido e imunossuprimido é a receita da fístula anastomótica, e a pressa aqui não economiza intestino — gasta.

Fechada a decisão, resta o combinado com o doente, que é parte do tratamento e não cortesia. Ele precisa saber quantas operações estão previstas, o que cada estoma faz e por quanto tempo, e qual função esperar no fim. Quem promete uma operação só, ou uma vida intestinal normal depois dela, não está poupando o doente do susto: está transferindo o susto para o pós-operatório, quando já não há escolha a rever.

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O órgão responde primeiro, o estado do doente responde depois

Duas perguntas em sequência resolvem quase toda decisão cirúrgica nas doenças inflamatórias intestinais. A primeira é sobre o órgão: retirar cura ou apenas administra? Ela separa retocolite de Crohn e define se a operação é definitiva. A segunda é sobre o doente naquele dia: ele suporta a operação que cura, ou só suporta a que salva? Ela define quantos tempos cirúrgicos haverá.

  1. 1A doença está confinada ao cólon e ao reto, contínua desde a margem anal e limitada à mucosa? Então retirar os dois órgãos encerra a colite, e a discussão passa a ser sobre quando e em quantos tempos.
  2. 2O doente está séptico, desnutrido, sob corticoide em dose plena ou biológico recente? Colectomia subtotal com ileostomia terminal, sem tocar na pelve. O reto fica: ele preserva a opção de reconstruir e a informação que confirma o diagnóstico.
  3. 3O diagnóstico de retocolite está firme e o doente se recuperou? A reconstrução com reservatório ileal está autorizada, com a conversa prévia sobre morbidade, inflamação do reservatório e função esperada.
  4. 4Há dúvida entre retocolite e Crohn, colite indeterminada ou doença perianal em atividade? Não se constrói reservatório. Opera-se em tempos e usa-se o tempo como exame.
  5. 5A doença é de Crohn? A operação não cura, e cada ressecção é definitiva no comprimento. Distinga estenose inflamatória (medicamento) de fibrótica (cirurgia).
  6. 6Estenose fibrótica curta e única, com delgado de sobra: ressecção econômica. Estenoses múltiplas, intestino já encurtado ou recidiva rápida pós-ressecção: plastia intestinal, que alarga sem sacrificar comprimento.

Os três tempos da retocolite grave

Da esquerda para a direita: o cólon retirado com ileostomia terminal e o coto retal fechado na pelve; meses depois, a proctectomia com o reservatório em jota anastomosado ao ânus e um estoma de proteção; por fim, o estoma fechado e o trânsito devolvido. O doente eletivo pula o primeiro painel.

Ressecar encurta; a plastia alarga

Acima, a ressecção: o segmento estenosado sai e as duas pontas se juntam — a luz volta ao normal e o tubo fica mais curto. Abaixo, a plastia: a estenose é aberta no sentido do comprimento e fechada no sentido transversal — a luz alarga e nenhum centímetro se perde.

Onde a doença volta depois da plastia

As barras comparam, na mesma série, três desfechos: a recidiva sintomática de estenose em qualquer lugar, a reoperação, e a recidiva no próprio local de uma plastia anterior. A terceira barra é a menor por uma ordem de grandeza — o ponto poupado não é o ponto que falha.

Reconstrução com reservatório ileal — o que uma série brasileira de 55 doentes mediu

DesfechoSérie (n=55)Observação
Mortalidade operatória1,8%Compatível com o ~1% da literatura
Morbidade global76,4%Precoce 65,5%; tardia 41,8%
Fístula anastomótica ou abscesso pélvico34,5%Complicação precoce mais frequente
Complicações pélvicas47,3%44% do total de complicações
Inflamação do reservatório10,8%Até 40% em 10 anos na colite, na literatura citada
Obstrução de delgado9,1%Dois doentes precisaram de reoperação
Insucesso do reservatório10,9%Estoma permanente, com ou sem retirada

Função do reservatório na mesma série (n=40) — o que é resultado bom

ItemResultado
Evacuações em 24 h (mediana)6, sendo 1 noturna
Continência para fezes sólidas87,5% sem incontinência
Escape fecal50%
Urgência evacuatória32,5%
Adiar a evacuação por mais de 30 min100% dos doentes
Uso de antidiarreico40%

Plastias de estenose no delgado — série brasileira, 28 doentes e 116 plastias

DesfechoValor
Seguimento médio58,1 meses
Doentes com ressecção prévia46,4%
Técnica de abertura longitudinal e fechamento transversal94 de 116 (81%)
Complicações25% dos doentes; 1 óbito (3,6%)
Deiscência de plastia10,7%
Recidiva sintomática de estenose (qualquer local)63%
Reoperação40,7%
Recidiva NO local de plastia prévia4 de 116 plastias (3,5%)

A colectomia de urgência na colite grave é subtotal e deixa o reto por três razões somadas: a pelve não se disseca em doente séptico, o coto guarda a informação histológica que confirma o diagnóstico, e sem reto não há reconstrução possível depois.

O coto retal deixado continua doente: sangra, drena muco e pode manter proctite. Isso precisa ser avisado antes da operação — o doente supõe que perder o cólon acaba com tudo.

Inflamação do reservatório não é recidiva da colite. O cólon não existe mais; trata-se de fenômeno próprio do íleo transformado em reservatório.

Na estenose do Crohn, o adjetivo que decide é 'fibrótica'. A diretriz nacional escreve 'lesão fibroestenótica fixa' no corpo do texto e omite o 'fixa' na recomendação — o adjetivo é justamente o que separa o que se opera do que se medica.

A literatura brasileira chama a operação de plastia intestinal ou enteroplastia; os termos estenoplastia e estricturoplastia não aparecem na diretriz nacional.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Se a taxa de colectomia após resgate com ciclosporina é 34% ou 40% em 12 meses

O corpo do protocolo atribui à ciclosporina melhora clínica em 43% e taxa de colectomia de 26% e 34%, em 3 e 12 meses, acrescentando que não há diferença estatística em relação ao infliximabe.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Retocolite Ulcerativa, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 9, de 12 de setembro de 2024 — corpo do texto, seção de colite aguda grave

A tabela de evidência do apêndice do MESMO protocolo, resumindo a mesma meta-análise, coloca esses números na coluna do infliximabe: resposta 43% (IFX) contra 41% (ciclosporina); colectomia em 3 meses 26% contra 26%; colectomia em 12 meses 34% (IFX) contra 40% (ciclosporina).

Mesmo protocolo, Apêndice 1, quadro de evidência da meta-análise de resgate na colite aguda grave refratária a corticoide

Na prova

A conclusão clínica não muda: os dois resgates têm eficácia semelhante, e é isso que o item costuma cobrar. O que muda é a memorização do numeral. Se o enunciado pedir a taxa de colectomia em 12 meses APÓS CICLOSPORINA, o quadro de evidência diz 40%; o corpo do texto do mesmo documento diz 34%, que é o valor do braço do infliximabe. A frase do corpo já existia na edição de 2021 e sobreviveu à revisão de 2024 — não é erro novo. Diante de alternativas com 34% e 40%, o seguro é responder pela equivalência entre os dois resgates, que é o que ambas as leituras sustentam.

Se a estenose do Crohn precisa ser 'fixa' para indicar cirurgia

No corpo do texto, a diretriz condiciona a indicação ao caráter fixo da lesão: a suboclusão crônica, geralmente resultado de uma lesão fibroestenótica fixa, tende a necessitar de tratamento cirúrgico.

Doença de Crohn — Tratamento Cirúrgico. Grupo de Estudos da Doença Inflamatória Intestinal do Brasil, Federação Brasileira de Gastroenterologia e Sociedade Brasileira de Coloproctologia, 2017 — corpo do texto, seção de doença estenosante

Na caixa de recomendações do mesmo documento, o adjetivo desaparece: a suboclusão crônica, geralmente resultado de uma lesão fibroestenótica, tende a necessitar de tratamento cirúrgico.

Mesmo documento, bloco RECOMENDAÇÕES da mesma seção, grau de recomendação D

Na prova

A diferença de uma palavra muda a conduta. Enunciado que descreve dor em cólica com sinais de atividade inflamatória, provas inflamatórias altas e espessamento parietal com realce está pedindo tratamento clínico, não cirurgia. Enunciado que descreve estenose curta, com fibrose à enterografia, sem sinais de atividade, e episódios repetidos de suboclusão, está pedindo operação. Quem decorou a versão sem 'fixa' opera inflamação — e inflamação responde a medicamento.

Qual a frequência real de inflamação do reservatório ileal

Na casuística medida, a inflamação do reservatório ocorreu em 10,8% dos doentes, empatada com a obstrução de delgado como complicação tardia mais frequente, e foi mais comum entre os doentes com retocolite.

Série de 55 doentes submetidos a proctocolectomia restauradora com anastomose ileoanal em centro terciário universitário brasileiro, periódico indexado de acesso aberto

A discussão do mesmo artigo cita a literatura: entre 0 e 10% na polipose adenomatosa familiar, e taxas que chegam a 40% na retocolite em dez anos de reservatório, com prevalência acumulada de até 50%.

Mesmo artigo, seção de discussão, revisão da literatura sobre inflamação do reservatório

Na prova

Não é contradição, e o item que trata como se fosse está errado. A casuística tinha 69,1% de polipose adenomatosa familiar e seguimento heterogêneo; a taxa de 40% refere-se a retocolite com dez anos de reservatório. Se o enunciado fixar a doença e o tempo, use o número da faixa correspondente. Se pedir a complicação tardia mais frequente do reservatório, ambas as leituras apontam para a inflamação do reservatório.

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Caso resolvido

Mulher de 27 anos, com retocolite ulcerativa extensa há seis anos, interna com nove dias de diarreia sanguinolenta, doze evacuações por dia e dor abdominal. Ao exame: FC 116 bpm, T 38,3 °C, PA 96x58 mmHg, abdome distendido e doloroso, sem descompressão. Hb 8,4 g/dL, albumina 2,3 g/dL, PCR 92 mg/L. Iniciada hidrocortisona intravenosa. No terceiro dia mantém dez evacuações sanguinolentas e PCR 78 mg/L. Recebeu infliximabe como resgate. No sexto dia persiste com nove evacuações, taquicárdica e febril; radiografia mostra cólon transverso com 6,2 cm.
o relógio
O critério do terceiro dia já foi aplicado e o resgate único já foi dado. Não existe terapia sequencial: falhado o infliximabe, não se oferece ciclosporina. A conduta a partir daqui é cirúrgica, e o protocolo federal é explícito ao dizer que, nessa situação, a colectomia deve ser indicada.
o estado do doente
Séptica, anêmica, com albumina de 2,3 g/dL, sob corticoide em dose plena e com infliximabe recente. Esse é o pior terreno possível para uma anastomose e para uma dissecção pélvica. A operação que cura não é a operação de hoje.
a operação
Colectomia subtotal com ileostomia terminal, sem abordar a pelve. O coto retossigmoide é fechado ou exteriorizado como fístula mucosa. A escolha entre os dois recai sobre o risco de deiscência do coto num abdome contaminado: a fístula mucosa transforma uma deiscência intra-abdominal em drenagem pela parede.
o que fica pendente
O reto permanece doente e pode exigir tratamento tópico enquanto espera. A peça vai à histologia, e é ela — com a evolução — que confirmará retocolite e autorizará a reconstrução. Nada de bolsa agora.
a conversa
Explicar que a colite acaba com a retirada do cólon, que o estoma é temporário e planejado, que o reto que ficou pode continuar sangrando e drenando muco, e que a reconstrução será discutida quando ela estiver recuperada e fora do corticoide — com o preço dela dito por inteiro.
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Agora feche você

Homem de 34 anos, com doença de Crohn ileal há onze anos, já submetido a duas ressecções de delgado (a última com 40 cm ressecados). Vem com quatro episódios de suboclusão nos últimos oito meses, resolvidos clinicamente. Está sem febre, PCR 6 mg/L, calprotectina fecal 90 µg/g. A enterografia por ressonância mostra três estenoses curtas em delgado, de 3 a 4 cm cada, com paredes finas e sem realce inflamatório, sem fístula e sem abscesso. Peso estável, albumina 3,8 g/dL.
inflamação ou fibrose
Provas inflamatórias baixas, calprotectina baixa, paredes finas e ausência de realce apontam estenose fibrótica, não inflamatória. Fibrose não responde a corticoide nem a biológico: aumentar o tratamento clínico aqui só adia a obstrução seguinte.
o comprimento disponível
Duas ressecções prévias, a última de 40 cm. Três estenoses novas ressecadas em bloco custariam mais alguns dezenas de centímetros e aproximariam o doente da síndrome do intestino curto — o desfecho que a diretriz nacional nomeia como aquele a evitar.
a operação que preserva
Estenoses curtas, múltiplas, sem fístula, sem abscesso e sem suspeita de neoplasia, em doente já encurtado: é a indicação clássica de plastia intestinal. Abre-se cada estenose no sentido do comprimento e fecha-se no transversal; a luz alarga e nada se perde.
o que dizer sobre a recidiva
A doença vai voltar — mas a série brasileira mostra que ela volta noutro ponto: recidiva no local de uma plastia prévia ocorreu em 3,5% das plastias, contra 63% de recidiva sintomática em qualquer local. Poupar o segmento não é o que faz a doença retornar.
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Onde a banca derruba

  1. 1Construir o reservatório ileal na mesma cirurgia da colite grave O doente da colite aguda grave chega à mesa séptico, anêmico, hipoalbuminêmico, sob corticoide em dose plena e muitas vezes com biológico recente. Dissecar a pelve e anastomosar o íleo ao ânus nesse terreno soma deiscência, abscesso pélvico e lesão nervosa a quem não tem reserva. O protocolo federal nomeia a operação da urgência e ela é outra: colectomia subtotal com ileostomia terminal, deixando a reconstrução para depois da recuperação.
  2. 2Retirar o reto na primeira operação para 'resolver de uma vez' O coto retal deixado não é esquecimento. Ele preserva a possibilidade de reconstruir, evita a dissecção pélvica no pior momento e guarda a informação que confirma se a doença era mesmo retocolite. Quem retira o reto na urgência fecha a porta da reconstrução e, se o diagnóstico mudar para Crohn, terá operado a pelve à toa.
  3. 3Tratar a inflamação do reservatório como recidiva da colite Depois da proctocolectomia não há cólon para recidivar. A inflamação do reservatório é entidade própria do íleo transformado em reservatório, com tenesmo, aumento do número de evacuações, escape, urgência e às vezes febre e sangramento. Chamá-la de recidiva leva a reintroduzir terapia da colite em vez de tratar o que está inflamado.
  4. 4Achar que seis evacuações por dia é falha da operação A mediana medida em série brasileira foi de seis evacuações em vinte e quatro horas, uma delas noturna, com continência preservada para fezes sólidas na grande maioria e capacidade de adiar a evacuação por mais de meia hora em todos os doentes. Esse é o resultado esperado e considerado satisfatório. Quem prometeu função normal ao doente errou na conversa, não na cirurgia.
  5. 5Ressecar margens generosas de intestino delgado no Crohn Margem ampla é conceito oncológico e não previne recidiva na doença inflamatória. O que ela produz é perda de comprimento, e a diretriz nacional nomeia o desfecho a evitar: ressecções múltiplas ao longo da vida aumentam o risco de síndrome do intestino curto, com as morbidades metabólicas associadas. No Crohn se ressecam doença e não margens.
  6. 6Operar a estenose inflamatória do Crohn Obstrução aguda por inflamação ativa costuma ceder com tratamento clínico; a suboclusão crônica por lesão fibroestenótica fixa é que tende a exigir operação. Enterografia com espessamento e realce mural marcado, provas inflamatórias altas e resposta prévia a corticoide apontam inflamação. Operar aí gasta intestino num quadro que responderia a medicamento.
  7. 7Procurar a palavra errada para a plastia intestinal A literatura brasileira e a diretriz nacional de tratamento cirúrgico do Crohn escrevem plastia intestinal e enteroplastia. Estenoplastia e estricturoplastia circulam em outras fontes e não constam do documento nacional. A operação é a mesma: abre-se a estenose no sentido longitudinal e fecha-se no transversal, alargando a luz sem sacrificar comprimento.
  8. 8Descartar a cirurgia no Crohn ileocecal limitado porque 'ainda há biológico' O protocolo federal vigente coloca a ileocolectomia direita, de preferência videolaparoscópica, como alternativa ao agente biológico no doente com doença ileocecal limitada a até quarenta centímetros de delgado, não estenosante, com perda de resposta à terapia convencional. É oferta paralela, não fim de linha, e vem apoiada em coorte com redução de hospitalização, de corticoide e de nova cirurgia.
  9. 9Comparar taxas de recidiva de populações diferentes Recorrência pós-operatória de 28% a 45% em cinco anos vem de população geral operada; recidiva sintomática de estenose em 63% vem de série de doentes estenosantes, quase metade já reoperada; reoperação de 30% a 60% é faixa histórica ampla. Citar um número sem dizer de quem se fala transforma três medidas coerentes em contradição aparente.
  10. 10Indicar reservatório ileal com doença perianal ativa Fístula perianal complexa em atividade contraindica anastomose ileoanal e, antes disso, deveria reabrir a discussão diagnóstica: doença perianal é território clássico do Crohn. Construir o reservatório nesse cenário produz fístula do reservatório, estenose da anastomose e, com frequência, ileostomia definitiva em quem já não tem cólon.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Trata-se de megacólon tóxico (dilatação colônica >6 cm + toxemia sistêmica: taquicardia, febre, leucocitose) complicando RCU. A falha do tratamento clínico intensivo em 48–72 h — persistência de sinais tóxicos e da dilatação — é indicação de colectomia de urgência. CORRETA: a operação de escolha na urgência é a colectomia total (subtotal) com ileostomia terminal, deixando o coto retal fechado; é a mais segura, evita anastomose em paciente séptico/desnutrido e permite reconstrução (bolsa ileal) em segundo tempo eletivo. Terapia de resgate com ciclosporina/infliximabe é opção na colite aguda grave refratária ao corticoide, mas NÃO no megacólon tóxico já estabelecido e sem melhora — insistir clinicamente aumenta risco de perfuração. Colonoscopia no megacólon tóxico é contraindicada pelo alto risco de perfuração e não muda a conduta. A proctocolectomia com bolsa em J em tempo único é procedimento eletivo — inadequado no paciente agudo/séptico/desnutrido (albumina 2,4), com alto risco de deiscência. Prolongar a terapia clínica diante de falha já caracterizada retarda a cirurgia salvadora e eleva a mortalidade.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Retocolite é doença de dois órgãos dispensáveis: retirar cólon e reto encerra a colite. Crohn é doença do tubo inteiro e é clínica e cirurgicamente incurável — operar administra, não cura. Na colite aguda grave, corticoide intravenoso, reavaliação no 3º dia, um resgate só (ciclosporina ou infliximabe, eficácia semelhante) e, na falha, cirurgia: colectomia subtotal com ileostomia terminal, sem tocar na pelve, deixando o reto e a reconstrução para depois. A reconstrução é o reservatório ileal em jota anastomosado ao ânus, feita em um, dois ou três tempos conforme o estado do doente. No Crohn, 70% a 90% operam alguma vez; a economia de intestino manda: sem margens largas, e plastia intestinal quando a estenose é curta e fibrótica, múltipla, ou o intestino já está curto.

em 30 dias

Os números e os porquês. Reservatório ileal em série brasileira de 55 doentes: mortalidade 1,8%, morbidade 76,4%, fístula ou abscesso pélvico 34,5%, insucesso do reservatório 10,9%, inflamação do reservatório 10,8% (até 40% em 10 anos na retocolite, na literatura); função mediana de 6 evacuações/24 h com 1 noturna, continência para sólidos em 87,5%, escape fecal em 50% — e as complicações pélvicas NÃO pioraram função nem qualidade de vida. Por que o reto fica: pelve não se disseca em séptico, o coto guarda a histologia que confirma o diagnóstico, e sem reto não há reconstrução. Plastias de estenose (28 doentes, 116 plastias): recidiva sintomática 63% e reoperação 40,7%, mas recidiva NO local da plastia 3,5% — o ponto poupado não é o que falha. Recorrência pós-operatória do Crohn 28% a 45% em 5 anos no protocolo federal; ileocolectomia direita é alternativa ao biológico na doença ileocecal limitada até 40 cm, não estenosante.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 31 anos com retocolite ulcerativa há oito anos procura o ambulatório de coloproctologia encaminhada para discutir cirurgia. Está bem no momento, mas teve duas internações no último ano e depende de corticoide para ficar sem sintomas. Ouviu dizer que a cirurgia cura e quer saber se vai ficar com uma bolsa de colostomia para sempre. Explique o que a operação resolve, em quantos tempos ela acontece e como será a vida depois. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Quando operar retocolite ulcerativa e doença de Crohn, qual… – Retocolite e Crohn: retirar o cólon cura, retirar o delgado só ganha tempo — Preparatório para provas | OsceLabs