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Outras EspecialidadesDermatologia

Herpes-zóster e infecções virais cutâneas

Janela antiviral, territórios de risco e prevenção de complicações

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Criança de 5 anos apresenta lesões de molusco contagioso restritas ao tronco e aos membros, sem acometimento genital. Qual a conduta e a implicação?

02

Como esse tema cai

Reconhecer um herpes-zóster é das tarefas mais fáceis da dermatologia: vesículas agrupadas sobre base eritematosa, distribuídas em faixa unilateral que não ultrapassa a linha média, precedidas por dias de dor ou queimação no mesmo território. Quem chegou até aqui acerta essa parte com folga.

O que decide a questão difícil está no que vem depois do reconhecimento. Existe uma janela para começar o antiviral, e existem situações que a estendem. Existem dois territórios que transformam um quadro ambulatorial em urgência de outra especialidade. Existe uma pergunta de contágio que quase todo mundo responde errado por metade. E existe uma pergunta sobre o hospedeiro: quando um zóster obriga a investigar quem o teve.

Depois vem a dor que sobra. A neuralgia pós-herpética é a complicação que mais adoece, e ela tem uma característica que muda a prescrição inteira: não responde a analgésico comum. Nela convivem duas réguas — a da eficácia farmacológica e a da segurança no idoso — que apontam para lados diferentes, e a maioria dos pacientes acometidos está exatamente na faixa etária em que a segunda pesa mais.

Fecham o capítulo as outras viroses cutâneas de consultório, e nelas o Brasil tem régua própria e detalhada: o protocolo nacional de infecções sexualmente transmissíveis fixa os esquemas do herpes simples genital e divide o tratamento das verrugas anogenitais entre o que o paciente aplica em casa e o que só se faz no serviço — divisão que tem consequência prática e é cobrada com frequência.

03

O que muda decisão

O que o zóster é, e por que ele acontece agora

O herpes-zóster é a reativação do vírus varicela-zóster, que permanece latente nos gânglios sensitivos das raízes dorsais e dos nervos cranianos desde a primoinfecção — a varicela. A reativação viaja pelo nervo sensitivo até a pele, e é por isso que a erupção respeita um dermátomo: o território cutâneo inervado por uma única raiz.

Daí decorre a apresentação que o enunciado descreve. A erupção é unilateral e não ultrapassa a linha média, distribui-se em faixa, e é frequentemente precedida por dois a três dias de pródromo doloroso no mesmo território — queimação, formigamento, sensibilidade aumentada ou dor franca, sem lesão visível. Esse pródromo é responsável por diagnósticos iniciais errados de dor torácica, cólica renal, abdome agudo e cefaleia, conforme o dermátomo envolvido.

As lesões evoluem em etapas previsíveis: máculas eritematosas, depois pápulas, depois vesículas agrupadas em cachos, depois pústulas e, por fim, crostas. A crostificação costuma completar-se em sete a dez dias e a resolução em duas a quatro semanas, deixando com frequência máculas hipocrômicas e hipercrômicas residuais no mesmo território.

O que faz a reativação acontecer é a queda da imunidade celular específica contra o vírus. Isso explica a epidemiologia da doença: a incidência cresce com a idade, com aceleração marcada após os sessenta anos, porque a imunidade celular declina com o envelhecimento. Explica também por que imunossupressão de qualquer origem antecipa e agrava o quadro.

Alguns territórios são mais frequentes que outros, e a razão é a distribuição da varicela na infância: os dermátomos torácicos concentram a maioria dos casos, seguidos do território do nervo trigêmeo, sobretudo o ramo oftálmico.

Vale registrar duas apresentações que confundem. O zóster sem erupção consiste em dor em faixa com todo o quadro típico e nenhuma lesão cutânea, diagnóstico difícil e frequentemente retrospectivo. E o zóster com poucas vesículas satélites fora do dermátomo principal é comum e não caracteriza doença disseminada — a disseminação exige um número mais expressivo de lesões fora do território acometido, e ela sim tem consequência de manejo.

A janela do antiviral, e o que a estende

O tratamento antiviral do herpes-zóster reduz a duração da erupção, acelera a cicatrização e diminui a intensidade e a duração da dor aguda. Ele deve ser iniciado o mais precocemente possível, e a janela de referência é de 72 horas a partir do início da erupção cutânea.

Esse prazo não é arbitrário: ele reflete o período em que a replicação viral ainda está ativa e, portanto, em que bloqueá-la muda o desfecho. Depois que todas as lesões estão em crosta, a replicação cessou e o antiviral perde a razão de ser.

A janela, porém, não é uma porta que se fecha. Continua havendo indicação de antiviral, mesmo após 72 horas, em quatro situações: quando ainda surgem lesões novas, sinal de replicação em curso; no zóster oftálmico, pelo risco ocular; nas formas disseminadas ou com acometimento visceral; e no paciente imunossuprimido, em que a replicação é mais prolongada e as complicações mais graves.

Os fármacos disponíveis são análogos de nucleosídeos, e o esquema clássico com aciclovir por via oral exige cinco tomadas diárias por sete dias, o que impõe uma dificuldade de adesão evidente. Valaciclovir e fanciclovir oferecem posologia mais cômoda com eficácia comparável, e a escolha na prática pública considera a disponibilidade na lista nacional de medicamentos.

Dois cuidados de prescrição merecem destaque e aparecem em prova. O primeiro é o ajuste à função renal: esses antivirais são eliminados por via renal e, em idosos, a filtração glomerular estimada frequentemente está reduzida mesmo com creatinina aparentemente normal — prescrever dose plena sem calcular a filtração é erro comum e produz toxicidade neurológica e renal. O segundo é a hidratação, especialmente relevante nas formulações intravenosas.

O tratamento da dor aguda corre em paralelo e não deve ser adiado até que o antiviral faça efeito. Ela pode ser intensa, e o controle inadequado da dor na fase aguda é fator associado à persistência dolorosa depois. Analgésicos simples, anti-inflamatórios quando não contraindicados e, conforme a intensidade, opioides fracos por período curto compõem o manejo, com escalonamento conforme a resposta.

Fecha o cuidado local a orientação de higiene das lesões, compressas, e a advertência de não aplicar preparados que macerem a área. Antibiótico sistêmico não faz parte do tratamento do zóster e entra apenas diante de infecção bacteriana secundária documentada.

Os dois territórios que mudam a urgência

A maioria dos casos de zóster é de manejo ambulatorial. Dois territórios fogem à regra e precisam ser reconhecidos na primeira consulta.

O primeiro é o zóster oftálmico, reativação no ramo oftálmico do nervo trigêmeo. Ele produz erupção na fronte, na pálpebra superior e no dorso do nariz, sempre unilateral, e pode cursar com ceratite, uveíte, esclerite, glaucoma secundário e perda visual. O achado que aumenta muito a probabilidade de acometimento ocular tem nome próprio: a presença de lesões na ponta ou na asa do nariz, o sinal de Hutchinson, que indica envolvimento do ramo nasociliar — o mesmo ramo que inerva a córnea e a conjuntiva.

Contorno esquemático de um tronco com linha tracejada no meio e uma faixa curva sólida apenas do lado direito, que acompanha o trajeto de uma costela e para exatamente na linha central.
A distribuição em faixa unilateral que para na linha média é a assinatura da reativação: o vírus percorre um único nervo sensitivo, e o território que ele pinta é exatamente o dermátomo daquela raiz.

Diante de zóster oftálmico, a conduta é antiviral sistêmico imediato, mesmo além das 72 horas, e avaliação oftalmológica urgente — não encaminhamento eletivo. O sinal de Hutchinson não é obrigatório para indicar essa avaliação; sua ausência não exclui acometimento ocular, apenas reduz a probabilidade.

O segundo território é o do nervo facial, na apresentação conhecida como síndrome de Ramsay Hunt. A tríade característica reúne paralisia facial periférica, vesículas no conduto auditivo externo e no pavilhão auricular, e otalgia intensa. Podem somar-se hipoacusia, zumbido, vertigem e alteração do paladar nos dois terços anteriores da língua.

A importância prática é dupla. Primeiro, porque a paralisia facial pode preceder as vesículas, e o exame cuidadoso do conduto auditivo em toda paralisia facial periférica é o que separa esse diagnóstico de uma paralisia idiopática. Segundo, porque o prognóstico de recuperação da função facial é pior do que o da paralisia idiopática, e o tratamento antiviral precoce associado ao corticosteroide, nessa apresentação específica, é conduta consagrada — situação diferente da discussão sobre corticosteroide no zóster torácico não complicado.

Vale ainda lembrar que a paralisia facial periférica se distingue da central por comprometer também a musculatura da fronte do mesmo lado, e que a incapacidade de fechar a pálpebra exige proteção ocular imediata, com lubrificação e oclusão noturna, para evitar ceratite de exposição.

Contágio: o que o zóster transmite, e para quem

Essa é a pergunta que mais se responde pela metade, e a resposta completa tem três partes.

A primeira: o paciente com herpes-zóster transmite o vírus varicela-zóster, presente no líquido das vesículas. A segunda: quem se contamina a partir dele e nunca teve varicela nem foi vacinado desenvolve varicela, e não zóster — porque zóster é reativação de vírus já latente, e não infecção primária. A terceira: quem já teve varicela ou está imunizado não corre risco a partir daquele contato.

Disso decorrem as medidas práticas. No zóster localizado em paciente imunocompetente, a transmissão se dá por contato direto com o líquido das vesículas, e cobrir as lesões com curativo praticamente elimina o risco. O paciente pode manter atividades habituais, evitando contato próximo com pessoas suscetíveis enquanto houver vesículas.

O período de transmissibilidade termina quando todas as lesões estão em crosta. Antes disso, o cuidado se mantém; depois disso, ele deixa de fazer sentido.

Existem, contudo, duas situações em que o cuidado é maior. No zóster disseminado e no zóster de paciente imunossuprimido, a transmissão pode ocorrer também por via respiratória, o que exige precauções de aerossóis somadas às de contato em ambiente hospitalar.

Os contatos que exigem atenção especial são os de sempre: gestantes suscetíveis, recém-nascidos e imunossuprimidos. Nesses grupos, a exposição a um caso ativo demanda avaliação sobre profilaxia pós-exposição, cuja indicação e cujo prazo pertencem às normas de imunização.

Uma consequência de comunicação que costuma valer ponto em estação: a avó com zóster no tronco e o neto pequeno não vacinado em casa. A resposta correta não é dizer que não há risco nenhum, nem proibir o convívio: é explicar que o risco existe enquanto houver vesículas, que ele é de varicela e não de zóster, que cobrir as lesões reduz drasticamente a transmissão, e que a vacinação da criança suscetível deve ser verificada e atualizada.

Quando o zóster obriga a investigar o hospedeiro

Zóster em pessoa idosa é esperado e não demanda investigação de imunodeficiência. Zóster em outras circunstâncias é um alerta, e o enunciado costuma colocá-lo ali de propósito.

As situações que pedem investigação são reconhecíveis: idade jovem sem causa aparente, sobretudo em adulto abaixo dos cinquenta anos; acometimento de mais de um dermátomo ou de dermátomos não contíguos; doença disseminada; recorrências frequentes; e evolução prolongada ou atipicamente grave.

A investigação começa pelo mais frequente e mais consequente: sorologia para o vírus da imunodeficiência humana. O zóster é uma das manifestações que aparecem cedo na infecção e frequentemente antes de outras doenças definidoras, o que faz do episódio uma oportunidade de diagnóstico precoce. Um hemograma completo, com atenção à contagem de linfócitos, compõe o exame inicial.

A partir daí, a investigação se orienta por sintoma e por contexto: perda de peso, sudorese noturna, adenomegalia, alteração de hemograma e sintomas dirigidos por aparelho justificam ampliar a busca por neoplasia hematológica ou por outra causa de imunossupressão. Uso de imunossupressor, corticoterapia prolongada, quimioterapia e transplante já explicam o episódio e mudam a conduta terapêutica para esquemas mais agressivos.

O diabetes merece parágrafo próprio porque é comum e frequentemente subestimado: descontrole glicêmico prolongado prejudica a resposta imune celular e associa-se a evolução mais arrastada, além de compor risco para a dor persistente. Zóster em paciente diabético é oportunidade legítima de reavaliar o controle metabólico.

Uma advertência de proporção: um único episódio de zóster torácico em pessoa de setenta anos com hemograma normal não pede investigação oncológica extensa. O que se procura é o padrão fora da curva — o jovem, o disseminado, o recidivante, o que não cicatriza. Transformar todo zóster em investigação ampla gera exames sem destino e ansiedade sem benefício.

Neuralgia pós-herpética: a dor que sobra

A neuralgia pós-herpética é a complicação mais frequente e mais incapacitante do herpes-zóster, e consiste na persistência da dor no território acometido depois que as lesões cutâneas já cicatrizaram.

O quadro tem uma assinatura clínica reconhecível. A dor é descrita como queimação contínua, com paroxismos em choque ou pontada sobrepostos, e acompanha-se de alodínia — dor desencadeada por estímulo que normalmente não dói, tipicamente o contato da roupa, do lençol ou de uma brisa. A área pode exibir também hipoestesia e hiperalgesia, combinação que traduz lesão do nervo sensitivo.

A alodínia é o achado que mais transforma a vida do paciente, porque ela impede o uso de roupa sobre a área, atrapalha o sono e restringe atividades. Ela também é o achado que mais orienta a terapia tópica dirigida à área sensível.

Os fatores de risco são consistentes e valem ser conhecidos: idade avançada, que é o mais forte; dor intensa na fase aguda; erupção extensa; pródromo doloroso proeminente; e início tardio do antiviral. É essa lista que justifica tratar bem a dor aguda e iniciar o antiviral cedo — não só pelo conforto imediato, mas pelo desfecho a longo prazo.

O ponto que mais decide questões é terapêutico e tem uma formulação simples: analgésico comum isolado não controla dor neuropática. Prescrever apenas paracetamol ou anti-inflamatório e reavaliar em um mês é a conduta que o enunciado costuma oferecer como armadilha, porque parece razoável e é o que muitos pacientes já vinham fazendo sem sucesso.

O tratamento se organiza em torno de fármacos de ação sobre a transmissão dolorosa neuropática, com titulação progressiva, e de terapia tópica dirigida à área de alodínia como medida adjuvante. A titulação é essencial: começar em dose baixa, subir devagar e avaliar em semanas, e não em dias. E o ajuste à função renal é obrigatório nas classes de eliminação renal, situação corriqueira na faixa etária acometida.

Dois cuidados fecham o manejo e são frequentemente esquecidos. O primeiro é a saúde mental: dor crônica intensa em idoso associa-se a sintomas depressivos, insônia, perda de peso e ideação de morte, e a busca ativa desses sintomas faz parte da consulta, não do adicional. O segundo é a expectativa: a melhora é gradual e parcial em muitos casos, e prometer resolução rápida garante abandono do tratamento no momento em que ele começaria a funcionar.

A vacina: o que existe, para quem, e onde ela está

A prevenção do herpes-zóster mudou de patamar com a vacina recombinante adjuvada, aplicada em duas doses, que substituiu em desempenho a antiga formulação de vírus vivo atenuado.

Duas diferenças entre as tecnologias importam. A primeira é a eficácia, expressivamente maior com a recombinante, inclusive nas faixas etárias mais avançadas, em que a resposta à vacina de vírus vivo caía. A segunda é de segurança e de indicação: por não conter vírus vivo, a recombinante pode ser aplicada em pessoas imunossuprimidas, justamente o grupo de maior risco e para o qual a formulação atenuada era contraindicada.

A recomendação clínica das sociedades científicas contempla adultos a partir de determinada faixa etária e pessoas imunocomprometidas a partir da idade adulta, com esquema de duas doses. A vacina também é recomendada para quem já teve um episódio de zóster, com intervalo após a resolução do quadro, porque um episódio prévio não confere proteção duradoura contra novos episódios.

Aqui entra a segunda régua, e ela responde a outra pergunta. A avaliação de incorporação ao sistema público analisou a vacina recombinante adjuvada para população idosa em faixa etária avançada e para imunocomprometidos adultos, com um impacto orçamentário expressivo, e a decisão foi de não incorporar ao Sistema Único de Saúde. A consequência prática é que a vacina existe, está registrada e é recomendada por sociedades científicas, mas o acesso a ela se dá fora da rede pública.

Essa é a mesma arquitetura que aparece em outras dermatoses de manejo prolongado: uma régua clínica que diz o que é melhor e uma régua de financiamento que diz o que está disponível. Enunciado que pergunta pela recomendação de imunização de um idoso está na primeira; enunciado que pergunta o que orientar a um paciente sobre onde obter a vacina, ou que fala em calendário nacional, está na segunda.

Duas notas práticas completam. A vacinação não substitui o tratamento nem interfere no manejo de um episódio em curso — vacina-se depois da resolução, e não durante. E a orientação sobre a vacina é parte legítima da consulta de quem teve zóster, mesmo quando ela não está disponível no serviço, porque o paciente tem direito à informação sobre a prevenção de novos episódios.

Vale ainda diferenciar as duas vacinas que envolvem o mesmo vírus: a vacina contra a varicela, que previne a primoinfecção e integra o calendário infantil, e a vacina contra o herpes-zóster, que previne a reativação no adulto. São produtos, públicos-alvo e finalidades diferentes, e confundi-las é erro recorrente.

Herpes simples genital pela régua nacional

O protocolo brasileiro de infecções sexualmente transmissíveis fixa os esquemas do herpes genital com o nível de detalhe que permite cobrança direta, e vale conhecê-los pela estrutura antes de decorar números.

No primeiro episódio, o esquema é aciclovir por via oral em dose fracionada ao longo do dia, por sete a dez dias, com duas formas equivalentes de distribuição das tomadas: três tomadas diárias de dose maior, ou cinco tomadas diárias de dose menor, em horários fixos. O tratamento deve ser iniciado o mais precocemente possível e pode ser prolongado se a cicatrização estiver incompleta ao fim dos dez dias.

Na recidiva, o esquema é mais curto, de cinco dias, e o protocolo faz uma observação de tempo que é o coração da orientação: o tratamento deve ser iniciado preferencialmente no período prodrômico, isto é, ao primeiro sinal de aumento de sensibilidade local, ardor, dor, prurido ou hiperemia — antes da vesícula aparecer. Um paciente com recidivas frequentes precisa sair da consulta sabendo reconhecer o pródromo, e não apenas com uma receita.

A terapia supressiva tem critério de elegibilidade explícito: pacientes com episódios repetidos, definidos como seis ou mais por ano. Ela é feita por até seis meses, podendo ser prolongada por até dois anos, com avaliação periódica das funções renal e hepática. Esse é um dos poucos números do protocolo que é literalmente um critério de indicação, e por isso aparece com frequência.

No paciente imunossuprimido com lesões extensas — usuários crônicos de corticoide, pessoas em uso de imunomoduladores, transplantados de órgãos sólidos e pessoas vivendo com o vírus da imunodeficiência humana —, o protocolo prevê a opção pelo tratamento intravenoso por cinco a sete dias, ou até a resolução clínica.

Na gestação, a orientação tem duas partes. O primeiro episódio se trata em qualquer trimestre, conforme o esquema do primeiro episódio. E, se a primoinfecção ocorreu na gestação ou se houve recidivas frequentes no período gestacional, pode-se realizar terapia supressiva a partir da trigésima sexta semana, com aciclovir em três tomadas diárias — medida cuja finalidade é reduzir a chance de lesão ativa no momento do parto.

Completam o manejo as orientações que o protocolo lista e que costumam ser cobradas em estação: tratamento local com compressas de solução fisiológica para higienização das lesões, analgésicos orais quando necessário, retorno em uma semana para reavaliação, abordagem da forma de transmissão e da possibilidade de infecção assintomática, e uma informação que tranquiliza e é frequentemente omitida — não há associação entre herpes simples genital e câncer.

Por fim, uma armadilha comum de conduta: nas úlceras genitais em que o diagnóstico etiológico não é possível, o protocolo orienta tratamento baseado em achados clínicos com o uso de fluxogramas, e a presença de lesões vesiculosas ativas é justamente o que direciona ao tratamento do herpes genital.

Verrugas, condiloma e molusco

As verrugas cutâneas comuns são causadas por papilomavírus humano e se apresentam como pápulas ceratósicas de superfície irregular, frequentemente com pontos escuros que correspondem a capilares trombosados. Na planta do pé, a pressão as torna endofíticas e dolorosas, e a interrupção dos dermatóglifos sobre a lesão é o achado que a separa de um calo. São doença benigna e autolimitada em muitos casos, sobretudo em crianças, e o tratamento é destrutivo.

Nas verrugas anogenitais, o protocolo nacional organiza o tratamento por uma divisão que tem consequência prática direta: quem aplica.

O tratamento domiciliar, autoaplicado pelo paciente, comporta duas opções incorporadas: o imiquimode em creme, aplicado em dias alternados, três vezes por semana, mantido por até dezesseis semanas, deixado agir por seis a dez horas e depois removido; e a podofilotoxina, aplicada duas vezes ao dia por três dias consecutivos seguidos de quatro dias sem aplicação, em ciclos que se repetem, com máximo de quatro ciclos. O protocolo registra que o imiquimode tem menos efeitos locais, mas exige mais tempo de tratamento.

O tratamento ambulatorial, feito por profissional de saúde, comporta o ácido tricloroacético em solução concentrada, aplicado com aplicador de algodão até o branqueamento da lesão, em sessões semanais; a podofilina em solução, com limite explícito de volume e de área por sessão pelo risco de toxicidade sistêmica; a eletrocauterização; a exérese cirúrgica, inclusive tangencial, que tem a vantagem de permitir estudo histopatológico; e a crioterapia com nitrogênio líquido.

Duas travas do protocolo merecem destaque. A primeira: o ácido tricloroacético não deve ser prescrito para uso domiciliar, pelo potencial dano aos tecidos e pelas complicações — é agente cáustico e a aplicação exige técnica. A segunda: na gestação, a podofilina e o imiquimode não devem ser usados, e as boas opções são o ácido tricloroacético e o nitrogênio líquido, com eletrocoagulação ou exérese tangencial para lesões volumosas.

O protocolo também define quando mudar de estratégia: considerar troca de opção terapêutica quando não houver melhora significativa após três sessões, ou se as verrugas não desaparecerem após seis sessões. E registra que o tratamento não erradica o vírus, de modo que recorrências são frequentes e testes de detecção viral não são indicados em nenhuma situação nesse contexto.

Um alerta que o documento faz questão de registrar: lesões anogenitais em crianças devem sempre levantar a suspeita de abuso sexual, ainda que possam ocorrer na ausência dele, e a investigação precisa ser cuidadosa o suficiente para não negligenciar a hipótese nem produzir acusação injustificada.

Fecha o conjunto o molusco contagioso, causado por um poxvírus, que se apresenta como pápulas hemisféricas, cor da pele ou perláceas, com umbilicação central característica. É comum em crianças, transmite-se por contato direto e por fômites, e é autolimitado, ainda que possa levar meses a anos para resolver. Duas situações mudam a leitura: no adulto com lesões genitais, ele se comporta como infecção sexualmente transmissível; e lesões numerosas, extensas ou de aspecto atípico, sobretudo na face de adulto, devem levantar a hipótese de imunossupressão e motivar testagem para o vírus da imunodeficiência humana.

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Da faixa unilateral à decisão: janela, território, contágio e hospedeiro

No zóster, o diagnóstico raramente separa as alternativas. O que separa é a sequência de quatro decisões que vêm depois dele — quando tratar, se o território muda a urgência, o que dizer sobre contágio e se o hospedeiro precisa ser investigado — e, na sequela, saber que a dor neuropática tem farmacologia própria.

  1. 11. A erupção é unilateral, em faixa, e não cruza a linha média, com pródromo doloroso no mesmo território? Então é reativação, e o próximo passo é olhar o relógio e o mapa.
  2. 22. Quantas horas se passaram do início da erupção? Dentro de 72 horas, antiviral indicado sem discussão. Depois disso, ainda indicado se surgem lesões novas, se o território é oftálmico, se há disseminação ou se o paciente é imunossuprimido.
  3. 33. Qual é o território? Fronte, pálpebra superior e dorso do nariz configuram zóster oftálmico, e lesão na ponta ou na asa do nariz aumenta a probabilidade de acometimento ocular — em ambos os casos, avaliação oftalmológica urgente. Vesículas no conduto auditivo com paralisia facial periférica e otalgia configuram a síndrome do nervo facial.
  4. 44. Calculou a filtração glomerular antes de escrever a dose? Em idoso, creatinina aparentemente normal convive com filtração reduzida, e o antiviral é de eliminação renal.
  5. 55. Quem convive com o paciente? Enquanto houver vesículas, há risco de transmitir varicela a suscetíveis, e não zóster. Cobrir as lesões reduz drasticamente o risco. O risco cessa quando todas as lesões estão em crosta. Em doença disseminada ou em imunossuprimido, somam-se precauções para aerossóis.
  6. 66. O hospedeiro é esperado? Idade jovem, mais de um dermátomo, doença disseminada, recorrências ou evolução arrastada pedem sorologia para o vírus da imunodeficiência humana e hemograma, e investigação adicional guiada por sintoma.
  7. 77. A dor persiste depois da cicatrização, em queimação com paroxismos e alodínia? Então é dor neuropática, e analgésico comum isolado não a controla: usa-se fármaco de primeira linha para dor neuropática, com titulação progressiva e ajuste à função renal, mais terapia tópica dirigida à área de alodínia.
  8. 88. A pergunta é sobre herpes simples ou sobre verruga anogenital? Então a régua é o protocolo nacional de infecções sexualmente transmissíveis, e a primeira decisão é se o tratamento é autoaplicado em casa ou feito no serviço.

Régua do herpes genital

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis, 2022. Primeiro episódio: aciclovir oral por sete a dez dias, em três ou em cinco tomadas diárias. Recidiva: cinco dias, iniciados preferencialmente no pródromo. Supressão: indicada a partir de seis ou mais episódios por ano, por até seis meses, prolongável por até dois anos, com avaliação periódica das funções renal e hepática. Imunossupressos com lesões extensas: opção intravenosa por cinco a sete dias. Gestação: tratar o primeiro episódio em qualquer trimestre e considerar supressão a partir da trigésima sexta semana.

Régua das verrugas anogenitais

Mesmo protocolo. Domiciliar e autoaplicado: imiquimode e podofilotoxina. Ambulatorial e feito no serviço: ácido tricloroacético, podofilina, eletrocauterização, exérese cirúrgica e crioterapia. O ácido tricloroacético não deve ser prescrito para uso em casa. Na gestação, podofilina e imiquimode estão fora, e ácido tricloroacético e nitrogênio líquido são boas opções. Trocar de estratégia se não houver melhora após três sessões ou se as lesões persistirem após seis.

Régua do zóster agudo

Antiviral iniciado idealmente nas primeiras 72 horas da erupção, e ainda indicado depois desse prazo quando surgem lesões novas, no zóster oftálmico, nas formas disseminadas e no paciente imunossuprimido. Dose ajustada à função renal estimada. Dor aguda tratada em paralelo e com escalonamento, porque dor intensa na fase aguda é fator de risco para a dor persistente.

Réguas da vacina

A régua clínica recomenda a vacina recombinante adjuvada em duas doses para adultos a partir de determinada faixa etária e para imunocomprometidos, inclusive para quem já teve um episódio, e ela pode ser usada em imunossuprimidos por não conter vírus vivo. A régua de financiamento avaliou a incorporação ao sistema público e a decisão foi de não incorporar, de modo que o acesso se dá fora da rede pública.

Verrugas anogenitais: quem aplica o quê, e onde

TratamentoOnde é feitoObservação que decide
Imiquimode cremeDomiciliar, autoaplicadoTrês vezes por semana, por até dezesseis semanas; menos efeitos locais
PodofilotoxinaDomiciliar, autoaplicadoTrês dias de aplicação e quatro de intervalo, no máximo quatro ciclos
Ácido tricloroacéticoAmbulatorialNão se prescreve para uso em casa; pode ser usado na gestação
Podofilina em soluçãoAmbulatorialLimite de volume e de área por sessão; contraindicada na gestação
CrioterapiaAmbulatorialAtóxica, pode ser usada na gestação, boa para lesões isoladas
EletrocauterizaçãoAmbulatorialExige anestesia local; útil em lesões exofíticas e volumosas
Exérese cirúrgicaAmbulatorialPermite estudo histopatológico do fragmento retirado

Zóster transmite varicela a quem nunca teve e nunca foi vacinado, e não transmite zóster. É a metade da resposta que mais se perde.

A transmissibilidade termina quando todas as lesões estão em crosta; antes disso, cobrir as lesões reduz muito o risco no quadro localizado.

O sinal de Hutchinson aumenta a probabilidade de acometimento ocular, mas sua ausência não a exclui: todo zóster oftálmico merece avaliação oftalmológica urgente.

Em toda paralisia facial periférica, examinar o conduto auditivo externo e o pavilhão: vesículas ali mudam o diagnóstico, o tratamento e o prognóstico.

Analgésico comum isolado não controla dor neuropática. Prescrevê-lo e reavaliar em um mês é a conduta que parece razoável e não funciona.

Na terapia supressiva do herpes genital, o critério de indicação é numérico: seis ou mais episódios por ano.

O ácido tricloroacético é tratamento ambulatorial e não deve ser prescrito para uso domiciliar, por ser cáustico e exigir técnica de aplicação.

Molusco contagioso extenso ou de aspecto atípico em adulto, e lesões genitais em adulto, mudam a leitura e motivam testagem para o vírus da imunodeficiência humana.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Corticosteroide sistêmico associado ao antiviral no zóster agudo

A favor, com desfecho de fase aguda

O corticosteroide associado ao antiviral pode ser considerado em pacientes selecionados, sem contraindicação, por melhorar a dor aguda, o tempo de cicatrização e a retomada de atividades, com o objetivo declarado de conforto na fase aguda.

Dworkin RH, Johnson RW, Breuer J, et al. Recommendations for the management of herpes zoster. Clin Infect Dis. 2007;44(Suppl 1):S1-26.

Contra, com desfecho de sequela

Quando o desfecho analisado é a prevenção da neuralgia pós-herpética, a revisão sistemática não sustenta o uso do corticosteroide para essa finalidade, o que retira a justificativa mais frequentemente invocada para prescrevê-lo.

Chen N, Li Q, Yang J, Zhou M, Zhou D, He L. Corticosteroids for preventing postherpetic neuralgia. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(2):CD005582.

Na prova

As duas posições respondem a perguntas diferentes, e o desfecho citado no enunciado indica qual está em jogo. Quando a pergunta é se o corticosteroide previne a dor persistente, a resposta esperada é negativa. Quando a pergunta é sobre conforto e dor na fase aguda em paciente selecionado e sem contraindicação, o corticosteroide reaparece como possibilidade. Fora dessa ambiguidade há um consenso: no zóster com paralisia facial periférica e vesículas no conduto auditivo, a associação de corticosteroide ao antiviral é conduta estabelecida, e essa situação não se confunde com o zóster torácico não complicado.

A vacina contra o herpes-zóster: recomendada, disponível onde

Régua clínica

A vacina recombinante adjuvada, em duas doses, é recomendada por sociedades científicas para adultos a partir de determinada faixa etária e para pessoas imunocomprometidas, inclusive para quem já teve um episódio de zóster, e pode ser aplicada em imunossuprimidos por não conter vírus vivo.

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Nota técnica sobre a vacina herpes-zóster inativada recombinante.

Régua de financiamento público

A avaliação de incorporação ao sistema público analisou a vacina para idosos de faixa etária avançada e para imunocomprometidos adultos, concluiu por um impacto orçamentário expressivo diante do benefício estimado, e a decisão foi de não incorporar.

Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde. Relatório de Recomendação nº 1073 — Vacina recombinante adjuvada para a prevenção do herpes-zóster. Brasília, dezembro de 2025.

Na prova

O vocabulário do enunciado separa as réguas. Palavras como recomendação, indicação, esquema de doses, imunocomprometido e episódio prévio pertencem à régua clínica, e a resposta é que a vacinação está indicada. Palavras como calendário nacional, sistema público, incorporação, dispensação e disponibilidade na unidade pertencem à régua de financiamento, e a resposta muda. A pegadinha é o enunciado que descreve um idoso na unidade básica perguntando se pode tomar a vacina ali, porque a resposta clinicamente correta e a resposta administrativamente correta não coincidem — e a conduta é informar sobre a recomendação e sobre onde ela é obtida.

Antidepressivo tricíclico como primeira linha na neuralgia pós-herpética do idoso

Régua da eficácia

Os antidepressivos tricíclicos figuram entre os fármacos de primeira linha para dor neuropática, ao lado dos gabapentinoides e dos inibidores duais de recaptação, com estimativas de efeito favoráveis nas meta-análises da área.

Finnerup NB, Attal N, Haroutounian S, et al. Lancet Neurol. 2015;14(2):162-73.

Régua da segurança no idoso

Os antidepressivos tricíclicos constam entre os medicamentos potencialmente inapropriados em pessoas idosas, pela carga anticolinérgica, pela hipotensão ortostática, pelo risco de queda e pelos efeitos cognitivos e de condução cardíaca.

American Geriatrics Society Beers Criteria Update Expert Panel. American Geriatrics Society updated Beers Criteria for potentially inappropriate medication use in older adults.

Na prova

A idade do paciente descrito é o dado que indica qual régua governa. Enunciado que pergunta quais são as classes de primeira linha para dor neuropática em geral admite o antidepressivo tricíclico entre elas. Enunciado que descreve um paciente idoso, com quedas, prostatismo, glaucoma, arritmia ou déficit cognitivo, e pergunta a melhor escolha, está cobrando a régua de segurança, e a resposta desloca-se para as classes de menor carga anticolinérgica, com atenção ao ajuste pela função renal. Enunciado que oferece paracetamol ou anti-inflamatório isolado está fora das duas réguas, porque analgésico comum não controla dor neuropática.

06

Caso resolvido

Três pacientes chegam ao mesmo pronto-atendimento na mesma tarde com erupção vesicular em faixa. O primeiro é um homem de 68 anos, hipertenso, com erupção no hemitórax esquerdo iniciada há cinco dias, e ao exame ainda há vesículas de aspecto recente, algumas surgidas naquele dia, ao lado de lesões já crostificadas. A creatinina é de 1,2 mg/dL. O segundo é uma mulher de 72 anos, com erupção na fronte direita, pálpebra superior e dorso do nariz, incluindo duas vesículas na ponta do nariz, iniciada há quatro dias, com dor intensa e olho vermelho. O terceiro é um homem de 33 anos, previamente hígido pelo que refere, com erupção vesicular acometendo simultaneamente dois territórios não contíguos do tronco, iniciada há dois dias, com adenomegalia cervical e relato de perda de cinco quilos nos últimos meses. Os três perguntam se podem voltar para casa e se oferecem risco a quem mora com eles.
Passo 1 — o relógio do primeiro paciente não fecha a porta
Cinco dias de erupção ultrapassam a janela de referência de 72 horas, mas o exame mostra vesículas surgidas naquele mesmo dia, e lesões novas significam replicação viral em curso. Essa é justamente uma das situações em que o antiviral permanece indicado além do prazo. A conduta é iniciar o antiviral, e não recusá-lo por aritmética de calendário.
Passo 2 — a creatinina do primeiro paciente não é o número que importa
Creatinina de 1,2 mg/dL em homem de 68 anos parece confortável e frequentemente convive com filtração glomerular estimada bem abaixo do normal, porque a massa muscular é menor. Antes de escrever a dose, estima-se a filtração e ajusta-se o esquema, sob pena de toxicidade neurológica e renal. O mesmo cuidado vale para os fármacos da dor que serão prescritos adiante.
Passo 3 — o território da segunda paciente muda a urgência
Fronte, pálpebra superior e dorso do nariz compõem o território do ramo oftálmico do trigêmeo, e as vesículas na ponta do nariz caracterizam o sinal de Hutchinson, que indica envolvimento do ramo nasociliar — o mesmo que inerva córnea e conjuntiva. Somados ao olho vermelho, esses achados exigem antiviral sistêmico imediato, mesmo além das 72 horas, e avaliação oftalmológica urgente, não eletiva. Vale registrar que a ausência do sinal não teria autorizado esperar.
Passo 4 — o hospedeiro do terceiro paciente é o problema
Trinta e três anos, dois dermátomos não contíguos, adenomegalia e perda de peso compõem exatamente o padrão fora da curva. A conduta inclui sorologia para o vírus da imunodeficiência humana e hemograma completo com atenção à contagem de linfócitos, e ampliação da investigação conforme os sintomas. O antiviral está indicado independentemente disso, e o acometimento de mais de um dermátomo obriga a reavaliar se o quadro é disseminado, o que mudaria o local de tratamento e as precauções.
Passo 5 — a resposta sobre contágio é a mesma nos três, com uma ressalva
Os três transmitem o vírus varicela-zóster pelo contato com o líquido das vesículas, e quem se contaminar sem nunca ter tido varicela nem ter sido vacinado desenvolverá varicela, não zóster. O risco existe enquanto houver vesículas e cessa quando todas as lesões estiverem em crosta; cobrir as lesões reduz drasticamente a transmissão no quadro localizado. A ressalva é para o terceiro paciente: se o quadro for disseminado ou se houver imunossupressão, somam-se precauções para aerossóis, e a orientação domiciliar muda.
Passo 6 — o que cada um leva da consulta
O primeiro paciente leva antiviral em dose ajustada à filtração, analgesia escalonada com meta de controlar bem a dor aguda — porque dor intensa nessa fase é fator de risco para a dor persistente — e retorno programado. A segunda paciente leva antiviral e avaliação oftalmológica no mesmo dia. O terceiro leva antiviral, exames de investigação do hospedeiro e uma conversa sobre por que eles estão sendo pedidos. Os três levam a orientação de contágio completa, com o cuidado de identificar gestantes suscetíveis, recém-nascidos e imunossuprimidos entre os contatos, e os dois mais velhos levam também a informação sobre a vacina para prevenção de novos episódios, com a explicação de onde ela é obtida.
07

Agora feche você

Um homem de 71 anos, aposentado, diabético há quinze anos, procura o ambulatório por dor persistente no hemitórax direito com quatro meses de evolução. O quadro começou com erupção vesicular agrupada em faixa unilateral, do dorso à região anterior do tórax, sem ultrapassar a linha média, precedida por dois dias de queimação local. Foi atendido no sexto dia de erupção e recebeu antiviral por sete dias. As lesões crostificaram e se resolveram em duas semanas, deixando máculas hipocrômicas e hipercrômicas residuais no mesmo território. A dor, entretanto, nunca cedeu. Ele a descreve como queimação contínua, com choques sobrepostos várias vezes ao dia, e diz que não consegue usar camisa, porque o tecido roçando na pele provoca dor intensa. Dorme mal, perdeu apetite, emagreceu e afastou-se das atividades que fazia na igreja. Vem tomando paracetamol e, algumas vezes, um anti-inflamatório que sobrou em casa, sem qualquer alívio. Traz exames: glicemia de jejum de 164 mg/dL, hemoglobina glicada de 8,2%, creatinina de 1,3 mg/dL com taxa de filtração glomerular estimada de 56 mL/min por 1,73 m², e vitamina B12 de 184 pg/mL.
Pista 1
A descrição da dor tem três elementos que, juntos, nomeiam a natureza dela e explicam por que os analgésicos que ele vem usando não funcionam.
Pista 2
A impossibilidade de usar camisa por causa do roçar do tecido tem nome técnico. É também o achado que mais orienta uma medida terapêutica específica, dirigida à área.
Pista 3
Duas circunstâncias do episódio agudo aparecem na história e figuram entre os fatores associados à persistência da dor. Vale identificá-las e reconhecer que elas explicam o desfecho, ainda que não possam mais ser mudadas.
Pista 4
Insônia, hiporexia, perda de peso e afastamento das atividades sociais em um idoso com dor crônica compõem um quadro que precisa ser perguntado de forma direta, e não deduzido.
Pista 5
A taxa de filtração glomerular estimada é o número da lista de exames que muda a prescrição, e não a creatinina isolada. Vale conferir a que classes esse cuidado se aplica.
Pista 6
A idade dele coloca duas réguas em competição na escolha do fármaco. Vale identificar quais são e o que cada uma recomenda antes de decidir.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar a janela de 72 horas como porta que se fecha O prazo é a referência para o benefício habitual, mas o antiviral continua indicado depois dele quando ainda surgem lesões novas, no zóster oftálmico, nas formas disseminadas e no paciente imunossuprimido. Recusar o tratamento a um paciente que chega no quinto dia com vesículas surgindo é aplicar a regra sem aplicar as exceções que a própria regra prevê.
  2. 2Dizer que quem convive com o paciente pode pegar zóster Zóster é reativação de vírus já latente e não se adquire de outra pessoa. O que se transmite, pelo contato com o líquido das vesículas, é o vírus varicela-zóster, e quem nunca teve varicela nem foi vacinado desenvolve varicela. A metade que falta na resposta é justamente essa, e ela muda a orientação dada à família.
  3. 3Encaminhar o zóster oftálmico para avaliação eletiva O acometimento do ramo oftálmico do trigêmeo pode cursar com ceratite, uveíte, esclerite, glaucoma secundário e perda visual, e a avaliação oftalmológica é urgente. A lesão na ponta ou na asa do nariz aumenta a probabilidade de comprometimento ocular por indicar envolvimento do ramo nasociliar, mas a ausência dela não autoriza esperar.
  4. 4Diagnosticar paralisia facial idiopática sem olhar o conduto auditivo Vesículas no conduto auditivo externo e no pavilhão, com otalgia intensa e paralisia facial periférica, configuram outra doença, com prognóstico funcional pior e com indicação estabelecida de antiviral associado a corticosteroide. A paralisia pode preceder as vesículas, o que torna o exame otológico obrigatório e a reavaliação prudente.
  5. 5Prescrever dose plena de antiviral sem calcular a função renal Os análogos de nucleosídeos usados no zóster são eliminados por via renal, e no idoso a filtração glomerular estimada costuma estar reduzida mesmo com creatinina dentro dos valores de referência, porque a massa muscular é menor. Dose plena nessa situação produz toxicidade neurológica e renal em paciente que já está fragilizado pela dor.
  6. 6Tratar neuralgia pós-herpética com analgésico comum isolado A dor é neuropática, com queimação contínua, paroxismos e alodínia, e não responde a paracetamol nem a anti-inflamatório isolados. O tratamento se faz com fármaco de primeira linha para dor neuropática, titulado progressivamente e ajustado à função renal, somado a terapia tópica dirigida à área de alodínia, e a avaliação de resposta se dá em semanas.
  7. 7Ignorar o hospedeiro quando o zóster está fora do esperado Adulto jovem, acometimento de mais de um dermátomo, doença disseminada, recorrências e evolução arrastada são padrões que pedem sorologia para o vírus da imunodeficiência humana e hemograma. O episódio pode ser a primeira manifestação de imunodeficiência, e perder essa oportunidade custa anos de diagnóstico.
  8. 8Prescrever ácido tricloroacético para o paciente aplicar em casa É agente cáustico, exige técnica de aplicação e o protocolo nacional o classifica como tratamento ambulatorial, com a advertência explícita de que não deve ser prescrito para uso domiciliar pelo potencial dano aos tecidos. Os tratamentos autoaplicados incorporados são o imiquimode e a podofilotoxina, com esquemas próprios.
  9. 9Usar podofilina ou imiquimode em gestante com verrugas anogenitais Os dois estão fora na gestação. As boas opções são o ácido tricloroacético e o nitrogênio líquido, e para lesões volumosas a eletrocoagulação ou a exérese tangencial. Vale ainda lembrar que a presença das lesões, por si, não indica cesariana: a indicação obstétrica seria a obstrução do canal de parto ou o sangramento, ocorrências excepcionais.
  10. 10Tratar molusco contagioso extenso em adulto sem olhar o hospedeiro Lesões numerosas, extensas ou de aspecto atípico, sobretudo na face de um adulto, levantam a hipótese de imunossupressão e motivam testagem para o vírus da imunodeficiência humana. E, no adulto com lesões genitais, o quadro se comporta como infecção sexualmente transmissível, o que muda a abordagem e inclui a avaliação de parcerias.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O molusco contagioso em crianças é comum, transmitido por contato direto e fômites, com lesões em tronco e membros, e não implica abuso quando fora da região genital; a conduta é expectante ou tópica. Notificar como violência engana porque lesões genitais em crianças de fato exigem essa reflexão, mas a topografia descrita é a habitual da infecção infantil banal. Não há indicação de antiviral sistêmico, e o afastamento escolar não é recomendado.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as quatro situações em que o antiviral continua indicado no herpes-zóster depois das primeiras 72 horas da erupção. Em seguida, escreva as três partes da resposta sobre contágio: o que o paciente transmite, o que a pessoa suscetível desenvolve e quando o risco termina. Por fim, escreva os critérios do protocolo nacional para indicar terapia supressiva no herpes genital e o esquema previsto para a gestante a partir da trigésima sexta semana.

em 30 dias

Resolva seis quadros curtos dizendo, antes de responder, qual decisão o enunciado está cobrando. Homem de 68 anos no quinto dia de erupção torácica, com vesículas novas surgindo hoje. Mulher de 72 anos com vesículas na fronte, pálpebra superior e ponta do nariz. Homem de 55 anos com paralisia facial periférica, otalgia intensa e vesículas no pavilhão auricular. Homem de 34 anos com zóster acometendo dois dermátomos não contíguos e sem causa aparente. Avó com zóster no tronco e neto de dois anos não vacinado em casa. Idoso de 71 anos com dor em queimação e alodínia há quatro meses após a cicatrização, em uso apenas de paracetamol.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Um aposentado de 71 anos, diabético, chega ao ambulatório com dor persistente no hemitórax direito há quatro meses, iniciada após uma erupção vesicular em faixa que já cicatrizou. Conduza a consulta: caracterize a erupção inicial, a distribuição unilateral e o tempo decorrido até o início do antiviral; caracterize a dor quanto a qualidade, intensidade, ritmo e fatores desencadeantes; pesquise ativamente alodínia ao contato do vestuário e o impacto no sono; investigue sintomas depressivos, hiporexia, perda de peso e ideação de morte; procure sinais de imunossupressão, de neoplasia e novas lesões vesiculares; levante o antecedente vacinal e o controle do diabetes; e liste os analgésicos já usados com a resposta obtida. No exame, inspecione o dermátomo acometido, teste alodínia com pincel e algodão, avalie sensibilidade térmica e dolorosa no território, examine força e reflexos, inspecione o restante do tegumento e as mucosas e palpe linfonodos axilares. Então decida: qual fármaco você escolhe e por qual critério, o que precisa ser calculado antes de escrever a dose, e o que mais você aciona hoje além da prescrição. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Herpes-zóster e infecções virais cutâneas — Preparatório para provas | OsceLabs