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Dermatoses bolhosas autoimunes

Plano de clivagem, mucosa e imunofluorescência direta

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 62 anos apresenta, há 4 meses, bolhas tensas e pruriginosas de conteúdo citrino em tronco, abdome e superfícies flexoras, algumas sobre base eritematosa e outras em pele normal, que rompem deixando erosões que cicatrizam sem cicatriz. As mucosas estão poupadas e o sinal de Nikolsky é negativo. A imunofluorescência direta mostra depósito linear de IgG e C3 na zona da membrana basal. Qual é o antígeno-alvo mais provavelmente envolvido?

02

Como esse tema cai

As dermatoses bolhosas autoimunes formam um grupo pequeno, raro e de mortalidade relevante, e são das poucas doenças dermatológicas em que errar o diagnóstico custa vidas. A boa notícia para quem estuda é que elas se organizam em torno de uma única variável anatômica: a profundidade em que a bolha se forma.

Acima dessa variável se empilham quase todas as diferenças que o enunciado oferece. Bolha frouxa ou tensa, sinal de Nikolsky positivo ou negativo, mucosa acometida ou poupada, idade jovem ou avançada, prurido ausente ou intenso e precedendo as bolhas em semanas, depósito em rede ou depósito linear na imunofluorescência. Cada par desses é a mesma pergunta feita de outra maneira, e reconhecer isso transforma um grupo aparentemente difícil em um grupo previsível.

O que ainda decide questões difíceis está em três lugares. O primeiro é a lógica das desmogleínas, que explica por que uma doença começa pela boca e outra nunca chega à mucosa. O segundo é o exame que fecha o diagnóstico, com uma exigência de coleta que costuma ser cobrada: a imunofluorescência direta se faz em pele perilesional, e não na bolha. O terceiro é o tratamento, em que os degraus das duas famílias não coincidem e em que o penfigoide guarda uma recomendação que contraria a intuição.

E há, na porta de entrada dessas doenças, uma pergunta de rotina que muda o caso: a lista de medicamentos em uso. Em idoso com bolhas tensas, um antidiabético oral de uso comum entrou na lista de fatores associados à doença, e a revisão da farmácia doméstica deixou de ser formalidade.

03

O que muda decisão

A pergunta que abre tudo: onde a bolha se forma

Uma bolha é uma coleção de líquido entre camadas da pele, e o teto dela é feito do que estiver acima da separação. Se a clivagem ocorre dentro da epiderme, o teto é fino, formado por poucas camadas de queratinócitos, e a bolha é frágil. Se a clivagem ocorre abaixo da epiderme, na junção com a derme, o teto é a epiderme inteira, e a bolha é resistente.

Daí decorre o primeiro par de achados, e ele é observável a olho nu. A bolha intraepidérmica é frouxa, de parede fina, rompe-se ao menor atrito e frequentemente já chega à consulta como erosão — o paciente pode nunca ter visto uma bolha, só áreas em carne viva. A bolha subepidérmica é tensa, de parede espessa, resiste ao atrito, mantém-se íntegra por dias e, quando rompe, deixa erosão que reepiteliza com rapidez relativa.

Os pênfigos são as doenças intraepidérmicas, e nelas o autoanticorpo ataca proteínas do desmossomo, a estrutura que une um queratinócito ao vizinho. A perda dessa adesão é a acantólise, e o queratinócito solto e arredondado é a célula acantolítica. Os penfigoides e a epidermólise bolhosa adquirida são as doenças subepidérmicas, e nelas o alvo está na zona da membrana basal, o conjunto de estruturas que ancora a epiderme à derme.

A consequência clínica dessa diferença vai além da consistência da bolha. Na doença intraepidérmica, a perda de adesão se propaga lateralmente sob pressão, o que dá origem às manobras semiológicas descritas adiante. E a área desnuda resultante se comporta como queimadura extensa: perde líquido, perde proteína e abre porta para infecção, o que explica por que a principal causa de óbito no pênfigo vulgar é a septicemia.

Na doença subepidérmica, o teto íntegro protege a superfície, a erosão é menos extensa e reepiteliza mais rápido, e a mortalidade se relaciona sobretudo à idade avançada, às comorbidades e aos efeitos adversos do tratamento — não à perda de barreira.

Vale reter a hierarquia de leitura. Diante de um paciente com bolhas, a primeira coisa a fazer é palpar uma bolha íntegra: ela cede ao toque ou resiste? Essa informação, sozinha, separa duas famílias com prognósticos, exames e tratamentos diferentes, e ela está disponível antes de qualquer exame.

Nikolsky, Asboe-Hansen e o que essas manobras testam

Duas manobras de beira de leito exploram exatamente o mecanismo descrito acima, e ambas testam a mesma coisa: se a coesão entre queratinócitos está perdida na pele que ainda parece normal.

O sinal de Nikolsky consiste em aplicar pressão tangencial, um deslizamento firme do polegar, sobre pele aparentemente sã próxima às lesões. Quando a coesão intraepidérmica está comprometida, a camada superficial se desloca e se destaca, deixando área desnuda. É positivo nos pênfigos e negativo nos penfigoides, e a razão é anatômica: no penfigoide, a epiderme está íntegra por dentro e apenas descolada por baixo, de modo que a pressão lateral não a rasga.

O sinal de Asboe-Hansen é o complemento do anterior: pressiona-se verticalmente uma bolha íntegra e observa-se se ela se estende lateralmente, empurrando o líquido para a periferia e aumentando a área descolada. Positivo nas doenças com acantólise, pela mesma razão.

Duas advertências importam. A primeira é que o sinal de Nikolsky não é específico de pênfigo: ele é positivo em outras condições com clivagem alta e perda de coesão, notadamente na necrólise epidérmica tóxica e na síndrome da pele escaldada estafilocócica. O que o torna útil é o contexto — evolução em meses com lesões mucosas prévias aponta para doença autoimune; instalação em dias após introdução de fármaco, com febre e comprometimento sistêmico, aponta para reação grave a medicamento.

A segunda é que a manobra causa dano à pele do paciente e deve ser feita com parcimônia e em área limitada, o que na prática significa uma vez, num ponto escolhido, e não repetidamente para demonstração.

Há ainda um exame de beira de leito de baixo custo que costuma aparecer nos enunciados: o teste citológico de Tzanck, um esfregaço do assoalho de uma bolha recente ou de erosão, corado e examinado ao microscópio. Ele mostra células acantolíticas, isoladas ou em grupos, nas doenças intraepidérmicas. Não substitui a histopatologia nem a imunofluorescência, e um Tzanck com células acantolíticas apenas confirma a família, sem nomear a doença — e, no contexto errado, pode confundir com o achado de células multinucleadas das infecções herpéticas.

A lógica das desmogleínas: por que a mucosa entra ou não

Nos pênfigos, os autoanticorpos são dirigidos contra glicoproteínas transmembrana do desmossomo, as desmogleínas. Duas importam aqui: a desmogleína 3 e a desmogleína 1.

A chave está na distribuição delas nos tecidos. Na mucosa, a desmogleína 3 é a proteína dominante e a desmogleína 1 tem expressão baixa. Na pele, as duas estão presentes, com predomínio da desmogleína 1 nas camadas superficiais e da desmogleína 3 nas camadas profundas.

Três cortes esquemáticos de epitélio: um com fenda logo acima da camada basal, outro com fenda logo abaixo da camada córnea, e um terceiro com a separação inteira ocorrendo abaixo do bloco epitelial.
A altura da separação é o que organiza o grupo inteiro: fenda profunda dentro do epitélio, fenda superficial dentro do epitélio, e separação abaixo dele. Da altura decorrem a consistência da bolha, o resultado das manobras semiológicas e o padrão que a imunofluorescência vai mostrar.

Quando os autoanticorpos são apenas contra a desmogleína 3, a mucosa perde adesão porque ali não há desmogleína 1 para compensar, mas a pele continua coesa porque a desmogleína 1 remanescente sustenta a união. O resultado é doença mucosa dominante, com erosões orais sem lesões cutâneas — e é assim que o pênfigo vulgar costuma começar.

Quando os autoanticorpos atingem desmogleína 3 e desmogleína 1, a compensação deixa de existir também na pele, e a doença passa a ser mucocutânea: às erosões orais somam-se bolhas frouxas e erosões no tegumento. É a evolução natural do pênfigo vulgar não tratado ao longo de semanas a meses.

Quando os autoanticorpos são apenas contra a desmogleína 1, a mucosa é poupada, porque ali a desmogleína 3 dominante compensa. A pele perde adesão nas camadas superficiais, onde a desmogleína 1 predomina, e a clivagem é alta, logo abaixo da camada córnea. É o pênfigo foliáceo, que por definição não acomete mucosas.

Essa lógica resolve muitas perguntas de uma vez. Explica por que a mucosa oral é acometida em cerca de sete de cada dez casos de pênfigo vulgar e por que a genital vem em seguida. Explica por que o pênfigo foliáceo nunca abre com erosões orais. E explica por que a dosagem dos anticorpos antidesmogleína ajuda tanto: o perfil sorológico prediz a topografia do acometimento e acompanha a atividade da doença.

Um cuidado de leitura: o penfigoide bolhoso também costuma poupar mucosas, mas por outro motivo — o alvo dele não é desmogleína e sim proteínas da zona da membrana basal, e a mucosa não é o sítio preferencial delas. Poupar mucosa, portanto, não distingue pênfigo foliáceo de penfigoide; o que distingue é a consistência da bolha e a profundidade da clivagem.

Pênfigo vulgar: o quadro que começa pela boca

O pênfigo vulgar é a principal forma de pênfigo e a mais grave. Acomete principalmente adultos, com pico entre a quarta e a sexta décadas, e no Brasil também adultos jovens.

A apresentação típica é uma armadilha de tempo. O quadro começa por lesões mucosas que, após semanas ou meses, passam a acometer a pele. A mucosa mais frequentemente comprometida é a oral, seguida da genital; conjuntiva, faringe, laringe, esôfago e região anal também podem ser afetadas. As lesões orais são úlceras muito dolorosas, em qualquer ponto da cavidade oral, habitualmente acompanhadas de disfagia e perda de peso.

Essa fase mucosa isolada é responsável por atrasos diagnósticos de meses, porque o paciente circula por consultórios recebendo tratamentos empíricos para candidíase e para aftas. O dado que deveria disparar o alerta é a cronicidade: úlcera oral dolorosa que não cicatriza por semanas e não responde a nada não é afta.

Na pele, surgem vesículas e bolhas flácidas, de conteúdo límpido ou turvo, por todo o tegumento, com predomínio em couro cabeludo, face e tronco superior. Rompem-se e deixam extensas áreas de erosão muito dolorosas. Quando as lesões são muito extensas, há repercussão hidroeletrolítica, perda de proteína e anemia, e a ruptura da barreira facilita infecção secundária.

A gravidade se estima de forma prática, e o consenso brasileiro oferece um recorte utilizável. No acometimento mucoso, considera-se leve a doença limitada à mucosa oral, moderada a doença com lesões extensas na mucosa oral, e grave quando outras mucosas são atingidas, como esôfago e laringe. No acometimento mucocutâneo, considera-se leve o comprometimento de menos de 1% da superfície corporal, moderado de 1% a 10% e grave acima de 10%, tomando-se como referência que 1% corresponde aproximadamente à área palmar da mão com os dedos.

O prognóstico mudou drasticamente com o tratamento. Antes dos corticosteroides e imunossupressores, a mortalidade era de metade dos pacientes em dois anos; hoje está em torno de um décimo, e a principal causa de óbito é a septicemia. Vale a comparação que o próprio consenso faz: esses pacientes se comportam muitas vezes como grandes queimados, com perda da barreira facilitando infecção e distúrbios hidroeletrolíticos e metabólicos.

O pênfigo vegetante é subtipo clínico raro do pênfigo vulgar, com lesões vegetantes nas dobras — axilas, virilhas e regiões inframamárias. E, entre os diferenciais clínicos principais, estão o penfigoide bolhoso, o pênfigo paraneoplásico e a síndrome de Stevens-Johnson, o que reforça a necessidade de confirmação por histopatologia e imunofluorescência.

Pênfigo foliáceo, e a forma endêmica brasileira

No pênfigo foliáceo, o autoanticorpo é dirigido apenas contra a desmogleína 1, e a clivagem se dá logo abaixo do estrato córneo, com queratinócitos acantolíticos dentro ou adjacentes à camada granulosa. A consequência clínica é direta: a bolha é tão superficial que raramente se vê íntegra, e o que chega ao ambulatório são erosões rasas, escamas e crostas em áreas seborreicas, com sensação de queimação.

A marca negativa é decisiva: não há acometimento de mucosas. Um enunciado que descreve erosões orais e chama o quadro de pênfigo foliáceo está errado por construção.

A forma endêmica dessa doença tem relevância nacional. O chamado fogo selvagem ocorre em focos rurais do interior do país, tem distribuição geográfica reconhecida, acomete também crianças e adultos jovens, agrupa-se em famílias sem ser hereditário e tem relação epidemiológica com exposição a picadas de insetos hematófagos em áreas de mata. O nome popular descreve a sensação de queimação relatada pelos pacientes.

Do ponto de vista laboratorial, a forma endêmica é indistinguível da clássica: mesma histologia, mesmo padrão de imunofluorescência direta, mesmo alvo antigênico. O que a separa é a epidemiologia — e é justamente por isso que a origem geográfica e a exposição ambiental precisam ser perguntadas quando o quadro é de pênfigo superficial.

A gravidade se estima como no pênfigo vulgar, pela extensão da área corporal com lesões ativas: até 1% na forma leve, até 10% na moderada e acima de 10% na grave, com a mesma referência da área palmar. Alguns serviços utilizam escores próprios de área e atividade para acompanhamento.

Uma observação de conduta que o consenso brasileiro registra e que costuma escapar: no pênfigo foliáceo o tratamento está indicado desde o início do quadro, mesmo em manifestação clínica leve, com o objetivo de induzir controle rápido e remissão completa minimizando os efeitos adversos. Não se observa doença bolhosa autoimune esperando para ver.

Vale ainda registrar o eosinófilo como pista de causa: no pênfigo foliáceo induzido por drogas, os eosinófilos são prevalentes no infiltrado dérmico, o que dá à revisão de medicamentos um valor que ultrapassa a formalidade.

Penfigoide bolhoso: a doença do idoso que começa com prurido

O penfigoide bolhoso é a mais comum das dermatoses bolhosas autoimunes, é doença subepidérmica e é doença do idoso, com incidência que cresce acentuadamente após os setenta anos.

A apresentação tem uma fase que precede as bolhas e que é responsável por muitos meses de diagnóstico errado: uma fase prodrômica pruriginosa, que pode durar semanas a meses, com prurido intenso, frequentemente de predomínio noturno, acompanhado ou não de placas eritematosas e urticariformes fugazes, sem qualquer bolha. Idoso com prurido intenso sem causa aparente e placas urticariformes migratórias merece que o penfigoide entre na lista.

Depois vêm as bolhas, e elas são tensas, de parede espessa, conteúdo citrino e por vezes hemorrágico, surgindo sobre base eritematosa ou urticariforme ou sobre pele normal. Predominam em abdome inferior, regiões flexoras dos membros, faces internas das coxas e áreas intertriginosas. Resistem ao atrito e, quando se rompem, deixam erosões que reepitelizam em poucos dias, sem produzir área desnuda extensa.

As mucosas costumam ser poupadas ou pouco acometidas, o que é um dos dados que mais ajuda a separar do pênfigo vulgar. Quando a mucosa é o sítio dominante e há tendência a cicatrização com sinéquias, sobretudo ocular e oral, a hipótese muda para penfigoide das mucosas, entidade distinta e com risco de sequela funcional.

Os sinais de Nikolsky e de Asboe-Hansen são negativos, porque a epiderme está íntegra por dentro. E o laboratório inespecífico costuma trazer duas pistas: eosinofilia periférica e elevação da imunoglobulina E total, ambas coerentes com o infiltrado rico em eosinófilos que a histologia mostra na derme superficial.

Um capítulo à parte é o dos medicamentos associados. Os inibidores da dipeptidil peptidase 4, antidiabéticos orais de uso amplo em idosos, foram associados a risco aumentado de penfigoide bolhoso, e o mesmo se descreve para inibidores de ponto de checagem imunológico usados em oncologia. Diuréticos de alça e alguns antibióticos aparecem em séries mais antigas. A consequência prática é que a revisão completa da lista de medicamentos, com data de introdução de cada um, virou passo obrigatório da consulta — e a eventual troca do antidiabético é decisão compartilhada com quem conduz o diabetes, e não uma suspensão unilateral.

Por fim, a associação com doença neurológica prévia é consistente na literatura: acidente vascular cerebral, demência e doença de Parkinson são mais frequentes nesses pacientes, o que tem consequência prática sobre autonomia para o tratamento — quem vai aplicar o creme em todo o corpo, e quem vai controlar as medicações em casa.

O exame que decide, e onde se coleta

O diagnóstico das dermatoses bolhosas autoimunes se apoia em dois fragmentos com finalidades diferentes, e trocar os locais de coleta é um erro que custa o exame.

Para a histopatologia, colhe-se uma bolha íntegra e recente, ou a borda de uma vesicobolha ou de erosão recente. O objetivo é ver onde está a fenda: intraepidérmica suprabasal com células acantolíticas no pênfigo vulgar; subcórnea, junto à camada granulosa, no pênfigo foliáceo; subepidérmica com infiltrado rico em eosinófilos no penfigoide bolhoso.

Para a imunofluorescência direta, colhe-se pele perilesional aparentemente normal, e não a bolha. A razão é simples: dentro da bolha o processo inflamatório e a degradação tecidual destroem os depósitos de imunoglobulina que se quer visualizar, e o exame volta falsamente negativo. Esse é o detalhe de coleta mais cobrado do tema.

O que a imunofluorescência direta mostra é o padrão do depósito, e ele nomeia a família. Nos pênfigos, imunoglobulina G e C3 depositados na superfície dos queratinócitos, entre as células, num padrão descrito como rendilhado ou em rede, ao longo da espessura do epitélio. Nos penfigoides, depósito linear e contínuo de imunoglobulina G e C3 na junção dermoepidérmica.

Duas limitações precisam ser conhecidas. A primeira: a imunofluorescência direta não separa pênfigo vulgar de pênfigo foliáceo — as duas mostram o mesmo padrão em rede, e quem as separa é a altura da clivagem na histologia, o quadro clínico e a sorologia. A segunda: um padrão linear na junção é compartilhado pelo penfigoide bolhoso, pelo penfigoide das mucosas e pela epidermólise bolhosa adquirida, e distingui-los exige um passo a mais.

Esse passo a mais é a imunofluorescência indireta em pele clivada por sal, técnica em que a pele é separada artificialmente na altura da lâmina lúcida antes de se aplicar o soro do paciente. Se o anticorpo circulante se deposita no lado epidérmico da clivagem, isto é, no teto, o alvo está na porção superior da junção e a hipótese é penfigoide bolhoso. Se ele se deposita no lado dérmico, isto é, no assoalho, o alvo está no colágeno da porção inferior e a hipótese é epidermólise bolhosa adquirida.

A imunofluorescência indireta convencional detecta e titula os autoanticorpos circulantes no soro, é positiva na maioria dos pacientes com pênfigo, e o título costuma acompanhar a atividade clínica. O substrato varia conforme o que se procura, e ela também não separa pênfigo vulgar de foliáceo.

Por fim, os ensaios imunoenzimáticos dosam anticorpos específicos: antidesmogleína 1 e antidesmogleína 3 nos pênfigos, com sensibilidade e especificidade superiores à imunofluorescência indireta e utilidade no acompanhamento da atividade e da resposta; e anticorpos contra os antígenos do penfigoide para confirmação e seguimento nas doenças subepidérmicas.

Tratamento dos pênfigos: degraus, adjuvantes e prazos

O tratamento das dermatoses bolhosas autoimunes é sistêmico por natureza, deve começar o mais precocemente possível e frequentemente dura anos.

Antes de começar, o consenso brasileiro pede uma avaliação estruturada: peso, altura e pressão arterial; hemograma, eletrólitos, funções hepática e renal, glicemia e hemoglobina glicada, vitamina D, lípides, urina, sorologias para hepatites B e C, sífilis e vírus da imunodeficiência humana; teste de gravidez quando for o caso; radiografia de tórax; e densitometria óssea, a ser repetida após seis meses e depois anualmente. Acrescenta avaliação oftalmológica inicial e anual.

A esse pacote somam-se cuidados que dependem do fármaco escolhido: atividade da tiopurina-metiltransferase antes da azatioprina, atividade da glicose-6-fosfato desidrogenase antes da dapsona, pesquisa de tuberculose latente diante de imunossupressão, e — item que costuma escapar e é particularmente brasileiro — tratamento preventivo da estrongiloidíase, recomendado independentemente do resultado do exame de fezes, pelo risco de disseminação sob imunossupressão.

O corticosteroide sistêmico é a base. A prednisona é a mais utilizada, e a maioria dos autores prefere administrar dose plena desde o início, de 1 a 2 mg/kg por dia, em vez de escalonar. O consenso registra um teto de segurança: recomenda-se que a dose diária não ultrapasse 1,5 mg/kg por dia, porque acima disso a chance de infecção cutânea e de evolução para septicemia — principal causa de óbito — cresce progressivamente. Todos os pacientes devem receber protetor de mucosa gástrica e suplementação de vitamina D.

Os adjuvantes são os poupadores de corticosteroide, e existem porque as doses e os prazos necessários produzem efeitos adversos graves. A azatioprina, de 1 a 3 mg/kg por dia, é a mais antiga e a mais prescrita, com efeito pleno em quatro a seis semanas e recomendação de aguardar três meses antes de trocá-la por outro adjuvante. O micofenolato, de 2 a 3 g por dia, é preferido por alguns pela menor hepatotoxicidade, com falha considerada apenas após três meses na dose de 3 g. Metotrexato, ciclofosfamida, dapsona e ciclosporina completam o arsenal com indicações mais restritas.

O rituximabe, anticorpo monoclonal contra o antígeno CD20, produz depleção rápida e sustentada dos linfócitos B por seis a doze meses, e dois esquemas circulam na literatura sem diferença clara de desfecho: quatro infusões semanais calculadas por superfície corporal, ou duas infusões de dose fixa separadas por duas semanas, repetíveis após seis meses. Doses menores são ineficazes.

O plano tem duas fases. Na indução da remissão, o objetivo é interromper o surgimento de novas lesões e iniciar a reepitelização, o que costuma levar cerca de três semanas; adjuvantes podem ser iniciados nessa fase, mas seu início de ação lento os torna inadequados como controle isolado. Na manutenção da remissão, as doses são lentamente reduzidas, com o objetivo final de manter a doença controlada com prednisona de até 10 mg por dia. A suspensão precoce deve ser evitada e raramente é possível antes de um ano.

Duas notas fecham. A antibioticoterapia sistêmica é indicada somente diante de evidência clínica ou laboratorial de infecção secundária, nunca de forma profilática, e a escolha deve ser guiada por cultura e antibiograma. E o tratamento tópico é sempre adjuvante, com objetivo de reduzir dor e prevenir infecção, incluindo antissépticos em quadros muito extensos e corticosteroide potente em gel na mucosa oral.

Penfigoide bolhoso: a recomendação que contraria a intuição

No penfigoide bolhoso o degrau inicial é diferente, e é aqui que está a informação que mais separa quem estudou de quem deduziu.

A intuição diz que doença extensa se trata por via sistêmica e doença localizada por via tópica. No penfigoide, um ensaio clássico comparou corticosteroide tópico de altíssima potência aplicado em todo o tegumento com prednisona oral, e encontrou eficácia ao menos equivalente na doença extensa, com menos eventos adversos graves. O resultado deslocou o corticosteroide tópico superpotente para a primeira linha, inclusive em doença extensa, sempre que a aplicação for factível.

O advérbio importa: sempre que factível. Aplicar creme em toda a superfície corporal, duas vezes ao dia, em um idoso com limitação de mobilidade e frequentemente com déficit cognitivo, depende de um cuidador disponível e treinado. Onde essa condição não existe, a via oral volta a ser a escolha, com prednisona em dose habitualmente ao redor de 0,5 mg/kg por dia — dose menor do que a usada no pênfigo vulgar, coerente com a doença menos agressiva.

Essa é uma decisão que se toma com a família na sala, e não no papel. Perguntar quem mora com o paciente, quem administra as medicações e quem poderia aplicar o creme é parte da prescrição, não conversa acessória.

Sobre o cuidado local, três orientações têm consequência: não romper as bolhas em casa, porque o teto íntegro é curativo biológico e protege a superfície; drenar apenas as bolhas grandes ou tensas o suficiente para incomodar, com técnica asséptica e preservando o teto; e usar curativo não aderente nas áreas erosadas. Infecção secundária se trata conforme cultura.

Quanto ao medicamento associado, a conduta diante de um paciente em uso de inibidor da dipeptidil peptidase 4 é revisar a associação e discutir a substituição do antidiabético com a equipe que conduz o diabetes. Duas advertências: a retirada do fármaco isoladamente costuma não controlar a doença, de modo que o tratamento específico começa de qualquer forma; e a substituição precisa manter o controle glicêmico, o que torna a decisão compartilhada e não unilateral.

Por fim, os adjuvantes poupadores de corticosteroide existem também aqui, com a mesma lógica dos pênfigos, e a escolha considera disponibilidade, custo, comorbidades do idoso e interações — um paciente com função renal reduzida, polifarmácia e risco de queda tolera muito pouco de tudo, e essa é a verdadeira restrição terapêutica na faixa etária em que a doença acontece.

04

Da consistência da bolha ao padrão da imunofluorescência

Nas doenças bolhosas autoimunes, o nome do diagnóstico raramente separa as alternativas: todas são raras e todas soam plausíveis. O que separa é a sequência — profundidade da clivagem, participação da mucosa, resultado das manobras, padrão do depósito imune — e cada etapa elimina metade das hipóteses.

  1. 11. A bolha é frouxa ou tensa? Frouxa, que rompe ao atrito e chega como erosão, indica clivagem dentro da epiderme e família dos pênfigos. Tensa, de parede espessa e resistente, indica clivagem abaixo da epiderme e família dos penfigoides.
  2. 22. Os sinais de Nikolsky e de Asboe-Hansen são positivos? Positivos confirmam perda de coesão intraepidérmica e apontam para pênfigo, com a ressalva de que também são positivos na necrólise epidérmica tóxica e na síndrome da pele escaldada estafilocócica, cujo contexto é agudo e medicamentoso ou infeccioso.
  3. 33. Houve acometimento de mucosa, e ele veio antes? Lesão mucosa precedendo em meses as lesões de pele é a assinatura do pênfigo vulgar. Mucosa poupada com bolha frouxa aponta para pênfigo foliáceo. Mucosa poupada com bolha tensa em idoso aponta para penfigoide bolhoso.
  4. 44. Houve fase de prurido intenso antes das bolhas, durando semanas? Esse pródromo pruriginoso é característico do penfigoide bolhoso e explica meses de diagnósticos alternativos.
  5. 55. Qual a idade e qual a lista de medicamentos? Idoso com bolhas tensas exige revisão completa da farmácia doméstica, com data de introdução de cada item, procurando inibidores da dipeptidil peptidase 4 e inibidores de ponto de checagem imunológico.
  6. 66. Colheu os dois fragmentos nos lugares certos? Bolha íntegra recente para a histopatologia; pele perilesional aparentemente normal para a imunofluorescência direta.
  7. 77. Qual o padrão do depósito? Em rede entre os queratinócitos indica pênfigo. Linear e contínuo na junção dermoepidérmica indica doença subepidérmica, e aí a pele clivada por sal separa depósito no teto, que sugere penfigoide bolhoso, de depósito no assoalho, que sugere epidermólise bolhosa adquirida.
  8. 88. A pergunta é sobre tratar? No pênfigo, corticosteroide sistêmico em dose plena com adjuvante poupador e avaliação pré-tratamento completa. No penfigoide, corticosteroide tópico superpotente em todo o tegumento como primeira linha, quando a aplicação for factível.

Régua brasileira dos pênfigos

Consenso da Sociedade Brasileira de Dermatologia sobre pênfigo vulgar e pênfigo foliáceo, 2019. Avaliação pré-tratamento com exames, radiografia de tórax, densitometria e avaliação oftalmológica; prednisona em dose plena de 1 a 2 mg/kg por dia com teto recomendado de 1,5 mg/kg por dia; azatioprina de 1 a 3 mg/kg por dia e micofenolato de 2 a 3 g por dia como adjuvantes, com falha considerada após três meses; tratamento preventivo da estrongiloidíase independentemente do exame de fezes; meta de manutenção com prednisona de até 10 mg por dia.

Régua da gravidade dos pênfigos

Mesmo consenso. No acometimento mucoso: leve se limitado à mucosa oral, moderado se as lesões orais forem extensas, grave se outras mucosas estiverem envolvidas, como esôfago e laringe. No acometimento mucocutâneo: leve abaixo de 1% de superfície corporal, moderado de 1% a 10%, grave acima de 10%, tomando 1% como a área palmar da mão com os dedos. A classificação é orientação inicial e não substitui a avaliação individual da velocidade de instalação e das comorbidades.

Régua do penfigoide bolhoso

Ensaio comparativo entre corticosteroide tópico de altíssima potência aplicado em todo o tegumento e prednisona oral, com eficácia ao menos equivalente e menos eventos adversos graves na doença extensa. O tópico superpotente é a primeira linha sempre que a aplicação for factível; onde não for, a prednisona oral é a alternativa, em dose habitualmente ao redor de 0,5 mg/kg por dia.

Régua da coleta

Histopatologia: bolha íntegra e recente, ou borda de vesicobolha ou erosão recente. Imunofluorescência direta: pele perilesional aparentemente normal, nunca a bolha, porque dentro dela os depósitos imunes são destruídos e o exame volta falsamente negativo. Imunofluorescência indireta em pele clivada por sal: distingue depósito no lado epidérmico, que aponta para penfigoide bolhoso, do depósito no lado dérmico, que aponta para epidermólise bolhosa adquirida.

Os três quadros lado a lado

AchadoPênfigo vulgarPênfigo foliáceoPenfigoide bolhoso
Profundidade da clivagemIntraepidérmica suprabasalIntraepidérmica subcórneaSubepidérmica
Consistência da bolhaFrouxa, rompe ao atritoTão superficial que quase não se vêTensa, resiste ao atrito
MucosaAcometida, e costuma vir antesPoupadaHabitualmente poupada
Nikolsky e Asboe-HansenPositivosPositivosNegativos
Faixa etária típicaQuarta a sexta décadasVariável; forma endêmica atinge jovensAcima dos setenta anos
PródromoErosões orais por semanas a mesesQueimação em áreas seborreicasPrurido intenso por semanas a meses
Alvo antigênicoDesmogleína 3, com ou sem desmogleína 1Desmogleína 1Antígenos da zona da membrana basal
Imunofluorescência diretaDepósito em rede entre queratinócitosDepósito em rede entre queratinócitosDepósito linear na junção dermoepidérmica
Primeira linhaCorticosteroide sistêmico com adjuvanteCorticosteroide, iniciado mesmo na forma leveCorticosteroide tópico superpotente, quando factível

Imunofluorescência direta se colhe em pele perilesional aparentemente normal. Colher a bolha destrói os depósitos que se quer ver e produz resultado falsamente negativo.

A imunofluorescência direta não separa pênfigo vulgar de pênfigo foliáceo: as duas mostram depósito em rede. Quem separa é a altura da clivagem na histologia, o acometimento mucoso e a sorologia antidesmogleína.

Pênfigo foliáceo não acomete mucosa, por causa da compensação pela desmogleína 3 no epitélio mucoso. Erosão oral exclui esse diagnóstico.

Sinal de Nikolsky positivo não é sinônimo de pênfigo: aparece também na necrólise epidérmica tóxica e na síndrome da pele escaldada estafilocócica, que se instalam em dias e têm contexto medicamentoso ou infeccioso.

No pênfigo, a principal causa de óbito é a septicemia, e o teto de dose recomendado de 1,5 mg/kg por dia de prednisona existe por causa disso.

Antibiótico sistêmico no pênfigo é indicado apenas com evidência clínica ou laboratorial de infecção secundária, nunca de forma profilática, e guiado por cultura.

Tratamento preventivo da estrongiloidíase antes da imunossupressão é recomendado independentemente do exame parasitológico de fezes.

No penfigoide bolhoso, a bolha íntegra não deve ser rompida em casa: o teto funciona como curativo biológico e protege a superfície.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Onde entra o rituximabe no tratamento do pênfigo

Posição do consenso brasileiro

O rituximabe está indicado quando o paciente é refratário à terapêutica convencional ou quando necessita de prednisona em doses superiores a 10 mg por dia associada a imunossupressor por mais de seis meses, registrando-se que alguns autores e grupos de especialistas já o recomendam como opção de primeira linha.

Consenso sobre tratamento de dermatoses bolhosas autoimunes: pênfigo vulgar e pênfigo foliáceo — Sociedade Brasileira de Dermatologia. An Bras Dermatol. 2019;94(2 Supl 1):S20-32.

Posição do ensaio controlado

A combinação de rituximabe com prednisolona em curso curto, usada como tratamento inicial, mostrou-se superior à prednisolona isolada para o controle da doença em dois anos, com diferença expressiva nas taxas de remissão completa e com menor exposição acumulada a corticosteroide.

Joly P, Maho-Vaillant M, Prost-Squarcioni C, et al. Lancet. 2017;389(10083):2031-40.

Na prova

O verbo do enunciado indica qual leitura está sendo cobrada. Perguntas com as expressões refratário, falha da terapêutica convencional ou dependência de corticosteroide pertencem à leitura do consenso, e a resposta é o rituximabe como resgate. Perguntas com as expressões tratamento inicial, primeira linha ou maior taxa de remissão completa em dois anos pertencem à leitura do ensaio. O que não muda entre as duas é que o rituximabe não é monoterapia de indução em quadro grave e agudo: o corticosteroide continua sendo o que controla a doença rapidamente, porque a depleção de linfócitos B leva semanas a produzir efeito clínico.

Doença extensa se trata por via tópica ou sistêmica no penfigoide bolhoso

Evidência do ensaio comparativo

Corticosteroide tópico de altíssima potência aplicado em todo o tegumento teve eficácia ao menos equivalente à prednisona oral no penfigoide bolhoso extenso, com menos eventos adversos graves, o que o coloca como primeira linha inclusive nessa situação.

Joly P, Roujeau JC, Benichou J, et al. N Engl J Med. 2002;346(5):321-7.

Restrição de exequibilidade

A aplicação de creme em toda a superfície corporal, duas vezes ao dia, depende de cuidador disponível e treinado; em idoso com limitação funcional ou déficit cognitivo e sem suporte domiciliar, o tratamento sistêmico segue sendo a via praticável, com prednisona em dose habitualmente ao redor de 0,5 mg/kg por dia.

Consenso sobre tratamento de dermatoses bolhosas autoimunes: penfigoide bolhoso, penfigoide das mucosas e epidermólise bolhosa adquirida — Sociedade Brasileira de Dermatologia. An Bras Dermatol. 2019;94(2 Supl 1).

Na prova

Quando o enunciado pergunta qual é o tratamento de primeira linha do penfigoide bolhoso, inclusive extenso, a resposta esperada é o corticosteroide tópico de altíssima potência aplicado em todo o tegumento. Quando o enunciado descreve um idoso que mora sozinho, com déficit cognitivo ou sem cuidador, e pergunta a conduta praticável, a resposta muda para a via sistêmica. Enunciado que descreve corticosteroide sistêmico em dose alta como escolha inicial em paciente com cuidador disponível está apostando na intuição de que doença extensa exige via sistêmica.

O que conta como controle da doença no pênfigo

Definição do consenso brasileiro na fase de indução

As doses devem ser mantidas até o controle do quadro, definido como reepitelização de cerca de 80% das lesões de pele e mucosas e ausência de lesões novas por período mínimo de duas semanas.

Consenso sobre tratamento de dermatoses bolhosas autoimunes: pênfigo vulgar e pênfigo foliáceo — Sociedade Brasileira de Dermatologia. An Bras Dermatol. 2019;94(2 Supl 1):S20-32, seção de indução da remissão.

Definição do consenso internacional de terminologia

Controle da doença é o momento em que cessa o surgimento de lesões novas e as lesões já existentes começam a cicatrizar, sem exigência de percentual de reepitelização nem de intervalo mínimo de observação.

Murrell DF, Dick S, Ahmed AR, et al. J Am Acad Dermatol. 2008;58(6):1043-6.

Na prova

As duas definições marcam momentos diferentes da mesma trajetória, e a diferença aparece quando o enunciado pergunta quando começar a reduzir o corticosteroide. Pela definição mais exigente, é preciso reepitelização de cerca de 80% e duas semanas sem lesões novas; pela definição internacional de terminologia, basta que as novas tenham cessado e as antigas tenham começado a cicatrizar. O que é seguro em qualquer leitura: não se reduz dose enquanto surgem lesões novas, a mucosa oral cicatriza mais lentamente que a pele, e a redução é mais rápida no início e mais lenta no fim.

06

Caso resolvido

Dois pacientes são internados na mesma semana por doença bolhosa. O primeiro é uma mulher de 46 anos, merendeira escolar, com cinco meses de erosões dolorosas em mucosa jugal, gengiva e palato, que não cicatrizam, sangram à escovação e foram tratadas várias vezes como candidíase e como aftas. A dor limitou a ingesta e ela perdeu doze quilos. Há sete semanas surgiram bolhas de parede frouxa e conteúdo claro em tórax anterior e dorso, que se rompem com facilidade e deixam extensas áreas em carne viva. Ao exame, a pressão tangencial em pele aparentemente sã descola a camada superficial. O segundo é um homem de 78 anos, aposentado, com dez semanas de evolução: as primeiras seis semanas foram de prurido intenso de predomínio noturno, com placas eritematosas fugazes e nenhuma bolha; nas últimas quatro semanas surgiram bolhas de parede espessa e conteúdo citrino em abdome inferior, virilhas, antebraços e pernas, que resistem ao atrito e, quando rompem, reepitelizam em poucos dias. As mucosas estão íntegras e a pressão tangencial não descola nada. Ele usa um antidiabético oral introduzido há dois anos e tem hemograma com 1.480 eosinófilos por milímetro cúbico.
Passo 1 — separar as duas famílias pela consistência da bolha
A primeira paciente tem bolhas frouxas que se rompem com facilidade e deixam áreas extensas de erosão, com pressão tangencial descolando pele aparentemente sã: clivagem dentro da epiderme, com perda de coesão entre queratinócitos. O segundo tem bolhas tensas de parede espessa que resistem ao atrito e reepitelizam rápido, com manobra negativa: clivagem abaixo da epiderme, com o bloco epidérmico íntegro por dentro. Duas famílias, dois prognósticos, dois tratamentos.
Passo 2 — a sequência temporal nomeia cada doença dentro da sua família
Na primeira paciente, as lesões de mucosa precederam em meses as lesões de pele, o que é a assinatura do pênfigo vulgar e é explicado pela lógica das desmogleínas: anticorpos contra desmogleína 3 atingem primeiro a mucosa, onde não há desmogleína 1 para compensar. No segundo, uma fase prodrômica pruriginosa de seis semanas antecedeu as bolhas, e essa fase é característica do penfigoide bolhoso — é ela que faz esses pacientes passarem meses recebendo anti-histamínico e diagnóstico de prurido senil.
Passo 3 — os dados de apoio confirmam cada leitura
No segundo paciente, dois achados reforçam: a eosinofilia periférica marcada, coerente com o infiltrado rico em eosinófilos que a histologia mostra na derme superficial, e o antidiabético oral introduzido dois anos antes. Se ele pertencer à classe dos inibidores da dipeptidil peptidase 4, entra na lista de fármacos associados a risco aumentado da doença, e a revisão da farmácia doméstica com data de introdução de cada item deixa de ser formalidade. Na primeira paciente, a perda de doze quilos por limitação da ingesta é consequência direta da dor oral e obriga a envolver a nutrição.
Passo 4 — pedir os exames nos lugares certos
Nos dois casos, dois fragmentos com finalidades diferentes. Da bolha íntegra e recente sai a histopatologia, que mostrará clivagem suprabasal com células acantolíticas na primeira paciente e clivagem subepidérmica com eosinófilos no segundo. De pele perilesional aparentemente normal sai a imunofluorescência direta, que é o exame decisivo: depósito em rede entre os queratinócitos na primeira, depósito linear e contínuo na junção dermoepidérmica no segundo. Colher a imunofluorescência da bolha destruiria os depósitos e devolveria resultado falsamente negativo.
Passo 5 — o passo a mais que o padrão linear exige
O depósito linear na junção é compartilhado pelo penfigoide bolhoso, pelo penfigoide das mucosas e pela epidermólise bolhosa adquirida. Quem separa é a imunofluorescência indireta em pele clivada por sal: anticorpo circulante depositando-se no lado epidérmico da clivagem, isto é, no teto, aponta para penfigoide bolhoso; no lado dérmico, isto é, no assoalho, aponta para epidermólise bolhosa adquirida. Os anticorpos contra os antígenos do penfigoide completam a confirmação e servem ao seguimento.
Passo 6 — os tratamentos, que não coincidem
Na primeira paciente, com doença mucocutânea extensa e internação, o tratamento é sistêmico: corticosteroide em dose plena, precedido da avaliação estruturada — sorologias, radiografia de tórax, densitometria, avaliação oftalmológica, pesquisa de tuberculose latente e tratamento preventivo da estrongiloidíase —, com adjuvante poupador associado, cuidado de barreira, higiene oral com solução sem álcool, aporte nutricional definido com a nutrição e antibiótico apenas se houver infecção documentada por cultura. No segundo, a primeira linha é corticosteroide tópico de altíssima potência aplicado em todo o tegumento, decisão que depende de haver quem aplique: perguntar quem mora com ele e quem administra as medicações é parte da prescrição. Some-se a orientação de não romper as bolhas em casa e a discussão da troca do antidiabético com quem conduz o diabetes.
07

Agora feche você

Um homem de 34 anos, trabalhador rural natural de uma região de mata do interior do país, procura o serviço por lesões de pele com quatro meses de evolução. Descreve que tudo começou com pequenas bolhas rasas que se rompiam quase imediatamente, deixando áreas descamativas e crostosas. Ao exame, há erosões superficiais, escamas e crostas em couro cabeludo, face, região pré-esternal e dorso superior, algumas confluindo em placas. Ele refere sensação intensa de queimação nas áreas acometidas, que descreve como pele ardendo. A pressão tangencial sobre pele aparentemente sã ao lado das lesões descola a camada superficial. Ao exame da cavidade oral, da conjuntiva e da região genital não há qualquer erosão, úlcera ou lesão. Não houve introdução de medicamento novo nos últimos dois anos. Ele conta que um primo que mora na mesma região teve um problema de pele parecido há alguns anos e que outras pessoas do povoado já tiveram algo semelhante. Nega febre, artralgia e perda de peso importante.
Pista 1
A pressão tangencial sobre pele sã descola a camada superficial. Esse achado responde à primeira pergunta do raciocínio e elimina uma família inteira de hipóteses.
Pista 2
As bolhas se rompem quase imediatamente e o que se vê são erosões rasas, escamas e crostas. Vale pensar em que altura da epiderme precisa estar a fenda para que o teto seja tão frágil assim.
Pista 3
A distribuição em couro cabeludo, face, região pré-esternal e dorso superior corresponde a um conjunto de áreas com nome próprio, e ele é característico de uma das duas entidades da família identificada na primeira pista.
Pista 4
O exame de mucosa oral, conjuntival e genital é inteiramente normal. Esse achado negativo não é acessório: ele é explicado por um mecanismo específico e decide entre as duas entidades restantes.
Pista 5
A origem geográfica, a ocupação rural em região de mata e o agrupamento de casos semelhantes no mesmo povoado, sem parentesco próximo em todos, apontam para uma forma particular da doença, com nome popular ligado ao sintoma que ele descreve.
Pista 6
Falta decidir os exames. Um fragmento vai para a histopatologia e outro para a imunofluorescência direta, e cada um tem local de coleta próprio. Vale também pensar no que a imunofluorescência direta consegue e no que ela não consegue separar.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Colher a imunofluorescência direta da bolha O fragmento deve ser de pele perilesional aparentemente normal. Dentro da bolha, a inflamação e a degradação tecidual destroem os depósitos de imunoglobulina que o exame procura, e o resultado volta falsamente negativo — o que atrasa o diagnóstico de uma doença em que o atraso custa caro. A bolha íntegra e recente é o fragmento da histopatologia, que é outro exame com outra finalidade.
  2. 2Chamar de afta a erosão oral que não cicatriza O pênfigo vulgar começa pela mucosa em boa parte dos casos e permanece meses restrito a ela, período em que o paciente recebe tratamentos empíricos para candidíase e para aftas. Úlcera oral dolorosa que não cicatriza por semanas, com sangramento à escovação, disfagia e perda de peso, exige biópsia com imunofluorescência, não outro enxaguante.
  3. 3Aceitar pênfigo foliáceo com lesão de mucosa No pênfigo foliáceo o autoanticorpo é dirigido apenas contra a desmogleína 1, e no epitélio mucoso a desmogleína 3 dominante compensa a perda, de modo que a mucosa é poupada por mecanismo, e não por acaso. Enunciado que descreve erosões orais e propõe pênfigo foliáceo está oferecendo uma combinação que a fisiopatologia não permite.
  4. 4Ler sinal de Nikolsky positivo como diagnóstico de pênfigo A manobra testa perda de coesão intraepidérmica, e ela existe também na necrólise epidérmica tóxica e na síndrome da pele escaldada estafilocócica. O que separa é o tempo e o contexto: doença autoimune se instala em semanas a meses e costuma ter história mucosa prévia; as reações graves se instalam em dias, com febre, comprometimento sistêmico e relação temporal com fármaco ou com foco infeccioso.
  5. 5Tratar penfigoide bolhoso extenso presumindo que tópico não serve O corticosteroide tópico de altíssima potência aplicado em todo o tegumento mostrou eficácia ao menos equivalente à prednisona oral na doença extensa, com menos eventos adversos graves, e por isso é a primeira linha quando a aplicação é factível. A restrição real não é a extensão da doença: é a existência de alguém capaz de aplicar o creme duas vezes ao dia em um idoso com limitação funcional.
  6. 6Suspender o antidiabético do idoso por conta própria Os inibidores da dipeptidil peptidase 4 estão associados a risco aumentado de penfigoide bolhoso, e a revisão da lista de medicamentos é obrigatória. Mas a retirada isolada costuma não controlar a doença, de modo que o tratamento específico começa de qualquer forma, e a substituição precisa preservar o controle glicêmico — o que faz dela decisão compartilhada com quem conduz o diabetes.
  7. 7Romper as bolhas tensas para acelerar a cicatrização No penfigoide bolhoso, o teto íntegro funciona como curativo biológico e protege a superfície de infecção e de perda de líquido. Orientar a família a não romper as bolhas em casa faz parte da prescrição; drenagem, quando necessária pelo volume ou pela dor, é feita com técnica asséptica e preservando o teto, e as áreas erosadas recebem curativo não aderente.
  8. 8Prescrever antibiótico profilático no pênfigo extenso A antibioticoterapia sistêmica é indicada somente diante de evidência clínica ou laboratorial de infecção secundária, e a escolha deve ser guiada por cultura e antibiograma. O uso profilático seleciona resistência sem reduzir o risco que se quer evitar, num paciente que já é imunossuprimido e que terá muitas oportunidades de precisar do antibiótico certo.
  9. 9Iniciar imunossupressão sem a avaliação prévia completa O consenso brasileiro pede exames laboratoriais amplos, sorologias, radiografia de tórax, densitometria óssea e avaliação oftalmológica antes de começar, além de tiopurina-metiltransferase antes da azatioprina, glicose-6-fosfato desidrogenase antes da dapsona e pesquisa de tuberculose latente. E recomenda tratamento preventivo da estrongiloidíase independentemente do exame de fezes — item de peso particular no país.
  10. 10Trocar o adjuvante antes do prazo de falha A azatioprina leva de quatro a seis semanas para efeito pleno, e recomenda-se aguardar três meses antes de substituí-la por outro adjuvante quando não há resposta satisfatória. O micofenolato tem falha considerada apenas após três meses na dose plena. Trocar antes disso descarta um fármaco que ainda não teve chance de agir e reinicia o relógio com outro de latência semelhante.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é penfigoide bolhoso: bolhas tensas, prurido, poupança de mucosas, Nikolsky negativo e IFD com IgG/C3 linear na membrana basal; os autoanticorpos têm como alvo os antígenos hemidesmossômicos BP180 (colágeno XVII) e BP230. As desmogleínas 1 e 3 são alvos do pênfigo vulgar/foliáceo (bolhas flácidas, Nikolsky positivo, IFD em padrão de 'favo de mel' intercelular). A transglutaminase epidérmica é o alvo da dermatite herpetiforme (IgA granular nas papilas). O colágeno tipo VII é alvo do penfigoide/epidermólise bolhosa adquirida (IgG sublamina densa). A desmocolina 1 associa-se a formas raras de pênfigo, não ao penfigoide.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória a tabela de três colunas comparando pênfigo vulgar, pênfigo foliáceo e penfigoide bolhoso nos seguintes campos: profundidade da clivagem, consistência da bolha, acometimento mucoso, sinais de Nikolsky e de Asboe-Hansen, alvo antigênico e padrão da imunofluorescência direta. Em seguida, escreva de onde se colhe o fragmento para histopatologia e de onde se colhe para imunofluorescência direta, e explique por que a troca dos locais invalida o segundo exame. Por fim, escreva a lógica da compensação entre desmogleína 1 e desmogleína 3 e o que ela prediz sobre a topografia das lesões.

em 30 dias

Resolva seis quadros curtos dizendo, antes de responder, em qual família a doença está. Mulher de 46 anos com cinco meses de erosões orais dolorosas seguidas de bolhas frouxas no tronco. Homem de 78 anos com seis semanas de prurido intenso seguidas de bolhas tensas em abdome e flexuras, em uso de antidiabético oral introduzido há dois anos. Homem de 34 anos de área rural do interior com erosões, escamas e crostas em áreas seborreicas e sensação de queimação, sem lesão oral. Paciente com bolhas e imunofluorescência direta mostrando depósito linear na junção, e a pergunta é qual exame separa as hipóteses restantes. Paciente com pênfigo vulgar em prednisona há dez semanas com lesões novas ainda surgindo, e a pergunta é se cabe reduzir a dose. Idoso com penfigoide extenso que mora sozinho e não tem cuidador, e a pergunta é a via de tratamento.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Uma mulher de 46 anos está internada há três dias por doença bolhosa com acometimento mucoso predominante: cinco meses de erosões orais dolorosas que não cicatrizam, tratadas várias vezes como candidíase e como aftas, com perda de doze quilos por limitação da ingesta, e há sete semanas bolhas frouxas e erosões extensas em tronco, couro cabeludo e região genital. Conduza a avaliação: adapte a entrevista à dor para falar, estabeleça a ordem temporal entre as lesões de mucosa e as de pele, caracterize a bolha quanto à fragilidade e à ausência de prurido, quantifique a perda de peso e a limitação da ingesta, investigue introdução de fármacos antes do início do quadro e pesquise acometimento de outras mucosas, incluindo nasal, ocular e genital. No exame, inspecione as erosões do tronco e do dorso, avalie os sinais de descolamento em pele sã e de extensão da bolha à pressão, examine a mucosa oral e a orofaringe, o couro cabeludo, a região genital e perianal, e estime a superfície corporal com erosão. Então decida: qual é o diagnóstico e o exame decisivo com o local exato de coleta, o que precisa ser avaliado antes de iniciar a imunossupressão, e o que você vai acionar hoje mesmo além do medicamento. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Dermatoses bolhosas autoimunes — Preparatório para provas | OsceLabs