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Hipotireoidismo congênito

O teste do pezinho não fecha diagnóstico: ele separa o TSH em três faixas, e cada faixa tem uma conduta. A prova cobra os dois cortes (10 e 20 mUI/L), o prazo (14 dias) e a dose (10 a 15 mcg/kg/dia).

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Lactente do sexo masculino, com 20 dias de vida, é encaminhado por triagem neonatal (teste do pezinho) alterada, com TSH elevado. Assintomático ao exame. O teste confirmatório sérico mostra TSH 45 mUI/L (VR até 4,5) e T4 livre 0,5 ng/dL (VR 0,9-1,7). Qual é a conduta mais adequada?

02

Como esse tema cai

O hipotireoidismo congênito é a doença endócrina congênita mais comum e a principal causa evitável de deficiência intelectual. No Brasil a incidência fica entre 1 caso para cada 2.595 e 1 para cada 4.795 nascidos vivos, com predomínio de 2 para 1 no sexo feminino. O detalhe que organiza tudo o que vem depois é que o recém-nascido afetado parece normal: apenas 5% dos casos são identificados clinicamente no período neonatal. Quem faz o diagnóstico é o programa de triagem, não o exame físico.

A questão de prova quase sempre entrega um valor de TSH em papel-filtro e pergunta a conduta. São três faixas e três respostas diferentes: abaixo de 10 mUI/L nada se faz, entre 10 e 20 mUI/L colhe-se nova amostra do calcanhar, e acima de 20 mUI/L a criança é convocada com urgência para dosagem de TSH e T4 em sangue venoso. Trocar uma faixa pela outra custa caro nos dois sentidos — tratar quem não tem doença, ou perder a janela de quem tem.

A segunda metade da questão é o relógio. O tratamento com levotiroxina deve começar até o 14º dia de vida, na dose de 10 a 15 mcg/kg/dia, logo depois de colhido o sangue confirmatório. Daí sai o princípio que resolve boa parte das pegadinhas do tema: nenhum exame de imagem atrasa a primeira dose.

03

O que muda decisão

Por que a janela fecha em duas semanas

Como usar este capítulo: comece pelo rastreio no tempo correto, confirme em sangue venoso e inicie levotiroxina sem esperar a investigação etiológica. Dose inicial, técnica de administração e metas de T4 e TSH determinam o prognóstico; casos especiais exigem nova coleta.

O feto com tireoide ausente ou defeituosa está parcialmente protegido pelo T4 materno que atravessa a placenta. Além disso, o cérebro fetal aumenta a atividade da desiodase que converte T4 em T3, mantendo concentrações cerebrais de T3 próximas do normal às custas de outros tecidos — é por isso que o esqueleto sofre primeiro e a idade óssea vem atrasada, enquanto o exame neurológico ao nascer é normal.

Essa proteção acaba com o cordão. O período crítico de dependência de hormônio tireoidiano para o sistema nervoso central vai da vida fetal até os 2 anos de idade, e é mais intenso nos primeiros seis meses. Nos casos graves — atireose e disormonogênese grave —, o dano cerebral começa a se instalar depois da segunda semana de vida. Daí o alvo de iniciar a levotiroxina idealmente até o 14º dia, logo após a coleta do sangue confirmatório.

Esperar o quadro clínico não é opção. Os sinais clássicos só se completam entre 6 e 12 semanas de vida: letargia, choro rouco, constipação, macroglossia, hérnia umbilical, fontanela posterior ampla, hipotonia, pele seca e engasgos frequentes. A icterícia neonatal prolongada é um dos primeiros sinais e costuma ser a única pista antes disso. O fácies típico e a queda da velocidade de crescimento aparecem depois dos primeiros meses — quando o prejuízo cognitivo já é irreversível. Bócio ao nascimento é raro e, quando aparece, aponta para disormonogênese.

O pezinho: 48 horas, 5º dia e o corte de 10

No SUS a triagem é feita pela dosagem de TSH por imunofluorimetria em sangue seco em papel-filtro. Dosar TSH e T4 simultaneamente é tecnicamente possível e aumenta a captura do hipotireoidismo central, mas encarece o programa — o Programa Nacional de Triagem Neonatal trabalha com TSH isolado.

A janela de coleta tem dois limites e cada um existe por um motivo diferente. O piso é 48 horas de vida: o parto dispara um pico fisiológico de TSH que leva cerca de dois dias para cair, e coletar antes disso enche o programa de falso-positivos. O teto é o 5º dia, porque cada dia a mais come a janela terapêutica de duas semanas. O intervalo ideal, portanto, é entre o 3º e o 5º dia de vida.

O nível de corte padronizado pelo PNTN é 10 mUI/L em sangue total, e vale para recém-nascido a termo, aparentemente saudável, com mais de 48 horas de vida. Nem todo serviço brasileiro usa esse número: os valores praticados no país variam de 5 a 10 mUI/L, e essa variação é a origem de metade das dúvidas em questões que trazem um TSH de 7 ou 8.

Três interferências caem em prova. Dopamina e glicocorticoide suprimem o TSH e produzem falso-negativo. Contaminação por iodo — antisséptico usado no parto, contraste, antitussígeno — produz falso-positivo. E, quando há indicação de transfusão de sangue total, a amostra da triagem é colhida antes da transfusão, sob pena de o resultado ser o do doador.

Por fim, cerca de 5% dos casos têm elevação tardia do TSH e passam pela triagem com resultado normal. Um lactente com sinais sugestivos e pezinho normal ainda precisa de TSH e T4 séricos — triagem negativa não é o mesmo que doença descartada.

Do papel-filtro ao sangue venoso: o que confirma o diagnóstico

O teste de triagem não é diagnóstico. A confirmação exige dosagem de TSH e de T4 total ou livre em amostra de sangue venoso, colhida o mais rápido possível — na prática, entre a primeira e a segunda semana de vida, quando o limite superior de normalidade do TSH já caiu para perto de 10 mUI/L.

TSH venoso acima de 10 mUI/L com T4 livre ou T4 total baixos confirma o hipotireoidismo congênito primário e indica iniciar o tratamento. Os valores de referência entre 4 e 30 dias de vida são TSH abaixo de 9 mUI/L, T4 livre de 0,8 a 2,3 ng/dL, T4 total de 7 a 16 mcg/dL e tireoglobulina de 2,0 a 35,0 ng/dL.

A zona cinzenta é o TSH confirmatório entre 6 e 10 mUI/L com T4 normal: a orientação brasileira é repetir a dosagem em uma semana e, se o TSH continuar discretamente elevado com um mês de vida, considerar tratar com reavaliação programada depois dos 3 anos.

Duas situações imitam o diagnóstico e não devem ser tratadas. A primeira é a deficiência de TBG, a proteína carreadora do T4: herança ligada ao X, atinge meninos, cursa com T4 total baixo e T4 livre normal — a investigação é T4 total, T4 livre, TSH e TBG, e a conduta é nenhuma. A segunda é a síndrome do doente eutireóideo do prematuro e do recém-nascido gravemente enfermo, com T4 baixo e TSH normal, que só se trata se houver evidência de doença hipotalâmica ou hipofisária.

O hipotireoidismo central — de causa hipofisária ou hipotalâmica — é raro (entre 1:25.000 e 1:100.000 nascidos vivos no Brasil), cursa com T4 baixo e TSH baixo ou normal e, por definição, escapa de uma triagem que mede apenas TSH. Costuma vir acompanhado de outros déficits hipofisários, e é aí que a hipoglicemia neonatal persistente, o micropênis e a icterícia colestática entram como pistas.

Etiologia: 85% disgenesia, 15% disormonogênese — e ela pode esperar

No hipotireoidismo congênito primário, cerca de 85% dos casos são disgenesia tireoidiana — agenesia (atireose), ectopia, hipoplasia ou hemiagenesia da glândula. É quase sempre esporádica, familiar em apenas 2% dos casos. Os 15% restantes são disormonogênese: defeitos hereditários da síntese hormonal, geralmente autossômicos recessivos, com o defeito de organificação por mutação da peroxidase como causa mais comum. A glândula, nesse grupo, é tópica e de volume normal ou aumentado.

De 5% a 10% dos casos são transitórios. As causas listadas são uso materno de antitireoidiano, exposição materna ou neonatal a iodo, passagem transplacentária de anticorpos maternos bloqueadores do receptor de TSH, deficiência de iodo e hemangioma hepático volumoso — este último por excesso de desiodase tipo 3, que degrada o hormônio circulante.

A investigação etiológica começa pela ultrassonografia cervical, preferencialmente com Doppler colorido, e se completa com cintilografia com tecnécio-99m ou iodo-123 quando a ultrassonografia não resolve. A tireoglobulina fecha a conta: reduzida aponta atireose, mensurável com glândula ausente do leito habitual aponta tecido ectópico funcionante. A radiografia simples de joelho mede a gravidade do hipotireoidismo intrauterino pela ausência das epífises femoral distal e tibial proximal, e é um preditor de desenvolvimento psicomotor no primeiro ano.

A regra que a prova cobra é a da precedência: a impossibilidade de fazer os exames de imagem não pode adiar o tratamento. Se o resultado não sai em cerca de cinco dias, inicia-se a levotiroxina e a definição da causa fica para depois dos 3 anos de idade, quando a suspensão breve do hormônio já não custa neurônios.

Duas associações valem a memorização. Cerca de 10% das crianças com hipotireoidismo congênito têm alguma malformação associada, contra 3% na população geral — as cardíacas (estenose pulmonar, comunicação interatrial e interventricular) são as mais frequentes. E até 20% têm alteração auditiva, motivo pelo qual toda criança afetada faz triagem auditiva.

Quatro esquemas do pescoço de um recém-nascido, comparando tireoide normal, hipoplásica, ectópica na base da língua e ausente.
A disgenesia responde por 85% do hipotireoidismo congênito primário: a glândula pode estar pequena, fora do lugar ou ausente. A ultrassonografia separa as três — e nenhuma delas muda a primeira dose de levotiroxina.

Levotiroxina: a dose, o comprimido e os erros de administração

A dose inicial é de 10 a 15 mcg/kg/dia de levotiroxina por via oral, uma vez ao dia. Casos mais graves — os de T4 livre mais baixo — começam na faixa alta, e o PCDT admite 12 a 17 mcg/kg/dia nessas situações. Em números redondos, a dose média é de 50 mcg/dia para o recém-nascido a termo e de 25 a 37,5 mcg/dia para o pré-termo.

Só existe apresentação em comprimido: não há solução líquida de levotiroxina aprovada no Brasil. O comprimido é macerado, dissolvido em pouca água ou leite materno e dado de colher. Diluir na mamadeira é erro clássico — parte da dose fica no fundo e a criança recebe uma quantidade diferente a cada dia.

O ideal é dar em jejum, mantendo 30 minutos sem alimentação depois. Quando isso não é viável na rotina da família, administra-se no intervalo entre as mamadas e ajusta-se a dose pelos controles laboratoriais — a regularidade vale mais do que o jejum perfeito. Se a criança vomitar logo em seguida, repete-se a mesma dose.

Três substâncias atrapalham a absorção e não devem ser dadas junto: leite de soja, ferro e cálcio em suplemento. O aleitamento materno é mantido, inclusive quando a mãe usa antitireoidiano. E há uma ordem que não se inverte: se houver insuficiência adrenal ou deficiência de ACTH associada, a corticoterapia começa primeiro e a levotiroxina entra 3 a 5 dias depois, para não precipitar crise adrenal.

O tratamento é para a vida toda, com uma exceção: os casos em que a suspensão programada depois dos 3 anos demonstra hipotireoidismo transitório.

Monitorizar: quando dosar e qual é a meta

O controle é clínico e laboratorial. T4 livre (ou T4 total) e TSH são dosados com 2 e 4 semanas do início do tratamento; depois, a cada 1 a 2 meses dos 0 aos 6 meses, a cada 2 a 3 meses dos 6 meses aos 3 anos, e a cada 6 a 12 meses após os 3 anos. Cada mudança de dose gera uma dosagem 4 semanas depois. O sangue é colhido antes da dose do dia; se a levotiroxina já foi dada, espera-se no mínimo 4 horas.

As metas dos três primeiros anos são T4 livre entre 1,4 e 2,3 ng/dL (ou T4 total entre 10 e 16 mcg/dL) e TSH entre 0,4 e 4 mUI/L. Repare que o alvo de T4 livre é a metade superior da faixa de referência do período neonatal, não o meio dela.

Em cerca de 10% das crianças com TSH inicial muito elevado, o TSH demora a normalizar mesmo com T4 adequado. Antes de atribuir isso a um ajuste lento do feedback hipofisário, checa-se o óbvio: subdose e irregularidade na administração.

Excesso de hormônio por período prolongado também tem preço — craniossinostose e alterações de temperamento. A dose alta que protege o desenvolvimento é a inicial, não a crônica: depois da normalização, quem manda é a meta laboratorial.

O seguimento inclui curva de crescimento e ganho de peso. Alguns lactentes têm velocidade de crescimento reduzida entre 6 e 12 meses e recuperam depois. A idade óssea costuma normalizar por volta dos 3 anos quando o tratamento é regular, e serve como marcador de adesão.

Prematuro, gemelar e doente: uma coleta só não serve

A estratégia desenhada para o recém-nascido a termo não funciona no prematuro. O eixo hipotálamo-hipófise-tireoide imaturo produz elevação tardia do TSH, e a incidência de hipotireoidismo congênito é maior em pré-termo e em baixo peso ao nascer do que na população geral — ou seja, o grupo com mais doença é justamente aquele em que a amostra única do 3º ao 5º dia mais falha.

Os grupos que exigem repetição são: idade gestacional abaixo de 37 semanas, baixo peso ao nascimento, gemelares, uso de dopamina ou amiodarona, exposição a iodo, anomalia cardíaca congênita e recém-nascidos criticamente enfermos.

A conduta brasileira oferece dois caminhos. O primeiro é colher a amostra inicial entre o 3º e o 5º dia e repetir com 1 mês de vida ou na alta hospitalar, o que ocorrer primeiro. O segundo é a triagem tripla, com coletas no 5º, no 10º e no 30º dia de vida. Em qualquer um deles, a amostra precede a transfusão de sangue total.

Aos 3 anos: quem pode sair da levotiroxina

Nem todo caso tratado é permanente, e a única forma de saber é suspender o hormônio — o que só é seguro depois dos 3 anos, quando a janela crítica do sistema nervoso central já passou. São candidatos à reavaliação as crianças sem etiologia definida por imagem (sobretudo com tireoide tópica e normal à ultrassonografia), as de quadro inicial duvidoso e as que nunca precisaram de aumento de dose ao longo do seguimento.

O procedimento é suspender a levotiroxina por 30 dias e dosar o TSH. Valor acima de 9,9 mUI/L confirma disormonogênese, e o tratamento é reinstituído. Valor abaixo de 5 mUI/L em três avaliações seriadas com intervalo mensal fecha o diagnóstico de hipotireoidismo congênito transitório. Entre 5,0 e 9,9 mUI/L, dosa-se mensalmente: se o TSH subir, é disormonogênese; se permanecer abaixo de 5, é transitório.

Na criança que nunca teve nenhuma investigação etiológica, a suspensão de 30 dias é a oportunidade de fechar a causa: dosam-se T4 livre, TSH e tireoglobulina e fazem-se cintilografia com tecnécio-99m e ultrassonografia de tireoide. Exames normais definem hipotireoidismo transitório; alterados definem doença permanente, com a etiologia estabelecida e o tratamento retomado.

04

Do TSH do pezinho à conduta

O mesmo exame gera três decisões diferentes conforme a faixa do TSH em papel-filtro. As faixas abaixo valem para recém-nascido a termo, aparentemente saudável e com mais de 48 horas de vida — prematuro, doente e gemelar têm esquema próprio.

  1. 1Coletar o sangue em papel-filtro a partir de 48 horas de vida, idealmente entre o 3º e o 5º dia
  2. 2TSH abaixo de 10 mUI/L: nenhum seguimento. Entre 10 e 20 mUI/L: convocar para nova amostra do calcanhar
  3. 3TSH acima de 20 mUI/L: convocar com urgência e colher TSH e T4 (total ou livre) em sangue venoso
  4. 4TSH venoso acima de 10 mUI/L com T4 baixo: hipotireoidismo congênito primário confirmado
  5. 5Iniciar levotiroxina 10 a 15 mcg/kg/dia, dose única diária, idealmente até o 14º dia de vida e logo após a coleta confirmatória
  6. 6Solicitar ultrassonografia cervical (e cintilografia, se necessária) sem adiar a primeira dose
  7. 7Dosar T4 livre e TSH com 2 e 4 semanas; reavaliar a etiologia depois dos 3 anos quando ela ficou em aberto

TSH abaixo de 10 mUI/L — normal

Nenhum seguimento. O corte vale para recém-nascido a termo com mais de 48 horas de vida; abaixo desse tempo, o pico fisiológico do TSH ainda não caiu.

TSH de 10 a 20 mUI/L — limítrofe

Convocar para nova amostra em papel-filtro. Na maioria das vezes o segundo resultado vem normal, e nenhuma dose é prescrita nessa etapa.

TSH acima de 20 mUI/L — sugestivo

Convocação urgente para consulta e dosagem venosa de TSH e T4. A maioria dessas crianças tem a doença, e é aqui que o relógio dos 14 dias passa a contar.

Perfil hormonalTireoglobulinaUltrassonografiaIdade ósseaDiagnóstico provável
TSH alto, T4 ou T4 livre baixoReduzidaSem tireoide no leito habitualAtrasadaAtireose (agenesia)
TSH alto, T4 ou T4 livre baixoMensurávelSem tireoide no leito habitualNormal ou atrasadaEctopia
TSH alto, T4 ou T4 livre baixoMensurávelTireoide tópica de volume reduzidoNormal ou atrasadaHipoplasia
TSH alto, T4 ou T4 livre baixoNormal ou elevadaTireoide tópica normal ou aumentadaNormal ou atrasadaDisormonogênese
TSH alto, T4 ou T4 livre baixo ou normalNormalTireoide tópica e normalNormalHipotireoidismo transitório

Valores de referência em sangue venoso (4 a 30 dias de vida)

ExameFaixa de referência
TSHabaixo de 9 mUI/L
T4 livre0,8 a 2,3 ng/dL
T4 total7 a 16 mcg/dL
Tireoglobulina2,0 a 35,0 ng/dL

Monitorização de T4 livre e TSH durante o tratamento

MomentoFrequência das dosagens
Após o início da levotiroxinacom 2 e com 4 semanas
Dos 0 aos 6 mesesa cada 1 a 2 meses
Dos 6 meses aos 3 anosa cada 2 a 3 meses
Após os 3 anosa cada 6 a 12 meses
Depois de cada mudança de dose4 semanas após o ajuste

Dopamina e glicocorticoide suprimem o TSH e geram falso-negativo; contaminação por iodo gera falso-positivo; havendo indicação de transfusão de sangue total, a amostra da triagem é colhida antes.

Prematuro, baixo peso, gemelar, cardiopata, exposto a iodo, em uso de dopamina ou amiodarona e criticamente enfermo repetem a triagem com 1 mês de vida ou na alta hospitalar, o que ocorrer primeiro — alternativamente, triagem tripla no 5º, 10º e 30º dia.

Metas dos três primeiros anos: T4 livre de 1,4 a 2,3 ng/dL (ou T4 total de 10 a 16 mcg/dL) e TSH de 0,4 a 4 mUI/L, com o sangue colhido antes da dose do dia.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Ponto de corte do TSH na triagem em papel-filtro

PNTN: corte único de 10 mUI/L

O Programa Nacional de Triagem Neonatal padroniza 10 mUI/L em sangue total para recém-nascido a termo com mais de 48 horas de vida. Abaixo desse valor, nenhum seguimento é preconizado; entre 10 e 20, nova amostra; acima de 20, dosagem venosa urgente.

PCDT do Hipotireoidismo Congênito, Portaria Conjunta nº 05/2021 (Ministério da Saúde)

Serviços que operam entre 5 e 10 mUI/L

Parte dos serviços brasileiros e dos programas internacionais trabalha com corte mais baixo — normal abaixo de 5 mUI/L, limítrofe de 6 a 10, sugestivo acima de 10. O corte menor captura formas leves e casos de elevação tardia do TSH, ao custo de mais reconvocações e mais famílias mobilizadas por resultado que virá normal.

SBP, Documento Científico nº 5 de Endocrinologia (2018), quadro de interpretação da triagem

Na prova

A diferença é de escala: um programa nacional que cobre praticamente todos os nascidos vivos calibra o corte também pela capacidade de reconvocar e reexaminar, enquanto um centro de referência pode absorver mais falso-positivo. Enunciado que fala em teste do pezinho da rede pública, PNTN ou triagem do SUS está no corte de 10 mUI/L. Enunciado que apresenta um TSH de 7 ou 8 mUI/L como resultado alterado está usando corte de serviço, e costuma nomear o laboratório ou o centro. As alternativas denunciam o recorte: quando um TSH de 12 mUI/L aparece com a opção de repetir o pezinho, a régua é a do PNTN; quando o mesmo valor aparece com a opção de dosagem venosa imediata, é a régua do corte baixo.

Segunda coleta no prematuro e no recém-nascido enfermo

Repetir com 1 mês de vida ou na alta hospitalar, ou triagem tripla no 5º, 10º e 30º dia

A régua brasileira ancora a segunda amostra em dois momentos que a rede já garante — a alta da unidade neonatal e a consulta de puericultura do primeiro mês —, ou substitui o esquema por três coletas em datas fixas.

PCDT nº 05/2021 e SBP, Documento Científico nº 5 (2018)

Segunda amostra entre 10 e 14 dias de vida

O consenso europeu ancora a repetição no prazo terapêutico: colher de novo entre o 10º e o 14º dia mantém a chance de iniciar a levotiroxina dentro das duas primeiras semanas, mesmo quando a elevação do TSH é tardia.

Consenso ENDO-ERN/ESPE/ESE 2020-2021, Thyroid 2021;31(3):387-419

Na prova

A causa da diferença é logística, não fisiológica: os dois documentos concordam que o prematuro tem elevação tardia do TSH e divergem sobre em que ponto do sistema de saúde a segunda amostra é confiável. Cenário de UTI neonatal do SUS, alta hospitalar ou consulta de 1 mês aponta para o esquema brasileiro; enunciado que cita consenso europeu, ESPE, ou que fala em segunda amostra com duas semanas, aponta para o outro corpo. A alternativa repetir na alta hospitalar só existe no vocabulário brasileiro.

TSH venoso elevado com T4 livre normal

Confirmação diagnóstica exige TSH alto com T4 baixo

O documento brasileiro define o diagnóstico por TSH venoso acima de 10 mUI/L acompanhado de T4 livre ou total baixos, e é esse par que indica o tratamento. Com T4 normal e TSH entre 6 e 10 mUI/L, a orientação é repetir em uma semana e, se o TSH persistir elevado com um mês de vida, considerar tratar com reavaliação depois dos 3 anos.

PCDT nº 05/2021 e SBP, Documento Científico nº 5 (2018)

Tratar quando o TSH venoso passa de 20 mUI/L, mesmo com T4 livre normal

O consenso europeu trata a hipertireotropinemia como hipotireoidismo compensado: TSH sérico acima de 20 mUI/L no teste confirmatório indica levotiroxina ainda que o T4 livre esteja dentro da faixa, sem esperar nova dosagem.

Consenso ENDO-ERN/ESPE/ESE 2020-2021, Thyroid 2021;31(3):387-419

Na prova

O documento brasileiro é, antes de tudo, o critério de acesso ao medicamento no SUS, e por isso amarra a indicação a um par laboratorial verificável; o europeu escreve para um cenário em que iniciar e depois reavaliar custa pouco. Enunciado com T4 livre normal e TSH venoso entre 10 e 20 mUI/L testa a conduta de repetir e acompanhar. Enunciado com TSH venoso bem acima de 20 e T4 livre normal, oferecendo iniciar levotiroxina entre as opções, trabalha com a régua internacional — e costuma vir junto de vocabulário como hipertireoidismo compensado ou hipertireotropinemia, que não aparece nos documentos nacionais.

06

Caso resolvido

Recém-nascida a termo, 39 semanas, 3.150 g, parto sem intercorrências, alta com 48 horas. Teste do pezinho colhido no 4º dia de vida em UBS, com TSH de 34 mUI/L em papel-filtro. A família é convocada e comparece no 8º dia. Ao exame, lactente ativa, sem bócio, com icterícia leve de face e tronco; restante do exame sem alterações.
achado
TSH acima de 20 mUI/L em amostra colhida dentro da janela correta (4º dia, mais de 48 horas de vida) em recém-nascido a termo e saudável. A icterícia prolongada é compatível, mas não acrescenta nem retira nada da decisão.
leitura
A faixa acima de 20 mUI/L não pede nova amostra de calcanhar: pede convocação urgente e dosagem de TSH e T4 em sangue venoso. A maioria das crianças nessa faixa tem a doença. O exame físico normal é o esperado — só 5% dos casos dão sinais no período neonatal.
conduta imediata
Colher TSH e T4 livre (ou T4 total) venosos no mesmo atendimento e iniciar levotiroxina logo após a coleta, sem aguardar o resultado. Com 3,15 kg, a dose de 10 a 15 mcg/kg/dia corresponde a cerca de 37,5 a 50 mcg/dia, em tomada única, com o comprimido macerado em pouca água ou leite materno e dado de colher.
etiologia
Solicitar ultrassonografia cervical com Doppler e tireoglobulina; a cintilografia entra se a ultrassonografia não definir. Se os exames não ficarem prontos em cerca de cinco dias, o tratamento segue e a definição da causa fica para depois dos 3 anos. Vale ainda revisar a triagem auditiva e examinar o precórdio, pela associação com malformações cardíacas.
seguimento
Novas dosagens de T4 livre e TSH com 2 e com 4 semanas de tratamento, colhidas antes da dose do dia, mirando T4 livre de 1,4 a 2,3 ng/dL e TSH de 0,4 a 4 mUI/L. Orientar a mãe a manter o aleitamento e a não dar a levotiroxina junto com ferro, cálcio ou fórmula de soja.
07

Agora feche você

Prematuro de 31 semanas, 1.380 g, internado em UTI neonatal em uso de dopamina na primeira semana. Teste do pezinho colhido no 5º dia de vida, com TSH de 4 mUI/L em papel-filtro. Recebe alta com 34 dias de vida, e a equipe pergunta se a triagem já está resolvida.
achado
TSH de 4 mUI/L no 5º dia, portanto abaixo do corte de 10 mUI/L do PNTN — resultado que, num recém-nascido a termo e saudável, encerraria a investigação.
por que o primeiro pezinho não bastou
Este recém-nascido acumula três motivos de repetição: idade gestacional abaixo de 37 semanas, baixo peso ao nascer e uso de dopamina, que suprime o TSH e produz falso-negativo. A imaturidade do eixo hipotálamo-hipófise-tireoide provoca elevação tardia do TSH, e a incidência de hipotireoidismo congênito é maior nesse grupo, não menor.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Tratar o resultado do pezinho como diagnóstico — ou esperar o venoso para começar Os dois erros são simétricos e a banca explora ambos. O papel-filtro triagem, não diagnostica: com TSH acima de 20 mUI/L, colhe-se sangue venoso. Mas o resultado venoso não é pré-requisito para a primeira dose — colhe-se e inicia-se a levotiroxina na sequência, porque o prazo de 14 dias não espera laboratório.
  2. 2Adiar a levotiroxina até sair a ultrassonografia ou a cintilografia A investigação etiológica separa atireose, ectopia, hipoplasia e disormonogênese, e nenhuma dessas respostas muda a dose inicial. Quando os exames não saem em cerca de cinco dias, trata-se e adia-se a definição da causa para depois dos 3 anos — a agenda do serviço de imagem atrai porque parece organização, e custa neurônios.
  3. 3Colher o pezinho antes de 48 horas de vida O parto dispara um pico fisiológico de TSH que leva cerca de dois dias para cair. Coletar antes disso gera falso-positivo em massa. A alta hospitalar precoce não autoriza antecipar a coleta: a janela é de 48 horas até o 5º dia, com o intervalo do 3º ao 5º como ideal.
  4. 4Diluir a levotiroxina na mamadeira Parte do comprimido macerado fica no fundo e a criança recebe dose diferente a cada dia — e a curva de TSH que não normaliza vira, erradamente, suspeita de resistência ao tratamento. O correto é macerar em pouca água ou leite materno e dar de colher, longe de ferro, cálcio e fórmula de soja.
  5. 5Achar que triagem normal descarta hipotireoidismo congênito Cerca de 5% dos casos têm elevação tardia do TSH e escapam da amostra única. E o hipotireoidismo central, com T4 baixo e TSH baixo ou normal, é invisível para uma triagem que mede só TSH. Lactente com icterícia prolongada, hipotonia, constipação e choro rouco merece TSH e T4 séricos mesmo com pezinho normal.
  6. 6Tratar T4 total baixo com T4 livre normal em menino É deficiência de TBG, a proteína carreadora, de herança ligada ao X: o hormônio livre — o que age — está normal, e a criança não precisa de levotiroxina. A investigação é T4 total, T4 livre, TSH e TBG. O primo dessa armadilha é a síndrome do doente eutireóideo do prematuro grave, com T4 baixo e TSH normal, que também não se trata.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O hipotireoidismo congênito confirmado (TSH muito elevado + T4 livre baixo) exige início IMEDIATO de levotiroxina, idealmente nas primeiras 2 semanas de vida, pois o atraso compromete irreversivelmente o neurodesenvolvimento. Aguardar 3 meses causaria dano cognitivo permanente. A investigação etiológica (cintilografia/USG) pode ser feita, mas nunca deve atrasar o início do tratamento. Metimazol é para hipertireoidismo, o oposto do quadro. Suplementação de iodo isolada não trata hipotireoidismo congênito confirmado (a causa mais comum é disgenesia tireoidiana).

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Pezinho de 48 horas ao 5º dia: TSH abaixo de 10 mUI/L encerra, de 10 a 20 repete a amostra, acima de 20 convoca e dosa TSH e T4 venosos. Confirmado (TSH venoso acima de 10 com T4 baixo), levotiroxina 10 a 15 mcg/kg/dia até o 14º dia de vida.

em 30 dias

Imagem nunca atrasa a primeira dose — 85% é disgenesia, 15% disormonogênese, e a etiologia pode esperar os 3 anos. Prematuro, gemelar e enfermo repetem a triagem com 1 mês ou na alta. Metas até os 3 anos: T4 livre de 1,4 a 2,3 ng/dL e TSH de 0,4 a 4 mUI/L, com dosagens em 2 e 4 semanas e a cada mudança de dose.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Lactente de 12 dias trazido à unidade básica após convocação do teste do pezinho, com TSH de 45 mUI/L em papel-filtro. O bebê mama bem e está assintomático; a mãe chega assustada, dizendo que ninguém explicou o que o exame mostrou. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Hipotireoidismo congênito — Preparatório para provas | OsceLabs