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Diabetes tipo 1 e cetoacidose na criança

Diabetes mellitus tipo 1 e cetoacidose diabética na criança

A prova cobra duas coisas: reconhecer o DM1 antes que ele abra em cetoacidose e conduzir a cetoacidose pediátrica, cuja régua de fluido e de insulina não é a do adulto.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menino de 7 anos é levado ao PS com poliúria, polidipsia e perda de peso há 3 semanas, agora com vômitos e sonolência há 12 horas. Ao exame: desidratado, FC 130 bpm, FR 32 ipm com respiração profunda, hálito cetônico, tempo de enchimento capilar 3 s. Exames: glicemia 480 mg/dL, pH 7,10, bicarbonato 8 mEq/L, cetonemia positiva, Na+ 132 mEq/L, K+ 4,0 mEq/L. Qual é a conduta inicial mais adequada?

02

Como esse tema cai

O diabetes tipo 1 responde por cerca de 90% do diabetes da faixa etária pediátrica, e o dado que organiza este capítulo é outro: 30% a 50% das crianças brasileiras chegam ao diagnóstico já em cetoacidose. Não é que a doença abra de forma silenciosa — ela abre com poliúria, polidipsia, polifagia e perda de peso durante semanas. É que esses sintomas são atribuídos a outra coisa. Por isso a prova quase nunca escreve "criança com diabetes": ela escreve gastroenterite, broncoespasmo, abdome agudo ou enurese que voltou.

A segunda frente é a condução da cetoacidose. Aqui o candidato erra por transferir para a criança o protocolo do adulto, que ele decorou primeiro. Os três pontos em que a régua pediátrica diverge são numéricos e sempre os mesmos: o volume e a velocidade da expansão inicial, o momento de começar a insulina e a dose dela, e o fato de que bicarbonato praticamente não entra. O motivo por trás dos três é o mesmo: o edema cerebral, complicação que ocorre em 0,5% a 0,9% dos episódios pediátricos e mata 21% a 24% de quem o desenvolve.

O terceiro eixo é mais recente e vale para quem presta prova em 2026: o DM1 passou a ser estadiado, e a Sociedade Brasileira de Diabetes adotou em novembro de 2025 a definição de que dois ou mais autoanticorpos confirmados já fecham diagnóstico de DM1 estágio 1, sem hiperglicemia nenhuma. Isso muda o que a palavra "diagnóstico" significa numa questão — e ainda não é o que o protocolo do SUS usa para entregar insulina.

03

O que muda decisão

Quem adoece, e como o quadro abre

Como usar este capítulo: reconheça diabetes e classifique a cetoacidose, depois siga a sequência segura — volume inicial, potássio, insulina e correção gradual. Monitore neurologia e sódio durante todo o tratamento; diante de edema cerebral, trate imediatamente sem aguardar imagem.

O DM1 é a destruição autoimune das células beta pancreáticas em quem tem predisposição genética. A hiperglicemia só aparece quando cerca de 90% das ilhotas já foram destruídas — por isso a criança chega com a doença pronta, não em formação. A agregação familiar é a exceção, não a regra: 85% dos pacientes não têm história familiar, o que derruba a pergunta "há diabetes na família?" como filtro de suspeição. A concordância é de 30% a 70% entre gêmeos idênticos, 6% a 7% entre irmãos e 1% a 9% quando um dos pais tem DM1.

Segundo o Atlas da International Diabetes Federation de 2021, havia cerca de 92.000 crianças e adolescentes com DM1 no Brasil em 2020. A incidência vem subindo 2% a 3% ao ano, com o aumento mais expressivo entre menores de 15 anos e, dentro desse grupo, entre os menores de 5 anos. O pico de incidência está entre 10 e 14 anos.

As quatro manifestações clássicas são poliúria, polidipsia, polifagia e perda de peso. Ao redor delas há um conjunto de queixas que a família traz sem saber que são relevantes: visão turva, cansaço, hálito cetótico, candidíase genital, formigas atraídas pela urina em superfícies e queda do rendimento escolar. Duas apresentações merecem atenção porque parecem outra coisa: a poliúria pode se manifestar como enurese noturna secundária, em criança que já tinha controle vesical à noite; e a perda de peso pode se manifestar como ganho ponderal insuficiente numa criança que está comendo mais do que o habitual.

No lactente e na criança pequena os "polis" não são referidos, e o quadro é inespecífico: sede intensa, irritabilidade, fraldas pesadas com trocas mais frequentes e aumento atípico do volume das mamadas. Vacinação não desencadeia DM1 — é uma pergunta frequente da família e a Sociedade Brasileira de Pediatria orienta o pediatra a dizer isso explicitamente.

Os três disfarces no pronto-socorro

A cetoacidose imita três quadros comuns, e a Sociedade Brasileira de Pediatria descreve o discriminador de cada um. Vale decorar os discriminadores, não os quadros.

Gastroenterite. A criança chega desidratada, vomitando, prostrada. O que separa é o débito urinário: na gastroenterite a desidratação vem com oligúria; na cetoacidose vem com poliúria mantida, porque a diurese osmótica não para de perder água mesmo com a criança seca. Diarreia, aliás, costuma estar ausente na cetoacidose.

Pneumonia ou broncoespasmo. A respiração de Kussmaul — rápida e profunda — é lida como desconforto respiratório, e a criança recebe nebulização com beta-2 e, não raramente, corticosteroide. O corticoide piora a hiperglicemia e acelera a descompensação. O que separa é o conjunto: taquipneia sem ausculta pulmonar alterada, com desidratação e hálito cetônico.

Abdome agudo. A dor abdominal difusa da cetoacidose já levou criança à sala de cirurgia com hipótese de apendicite. O discriminador é evolutivo e barato: a dor abdominal da cetoacidose melhora apenas com a hidratação.

A regra prática do consenso da ISPAD fecha os três de uma vez: medir glicemia capilar em toda criança que chega com respiração rápida, ou com vômitos e dor abdominal sem diarreia. É um teste de segundos que resolve a maior parte do atraso diagnóstico.

Diante da suspeita, os exames iniciais são glicemia (ao acaso ou de jejum) para confirmar e, definido o diagnóstico, hemoglobina glicada, exame de urina, peptídeo C e autoanticorpos (anti-GAD, anti-IA2, anti-insulina). Se houver suspeita de cetoacidose, acrescentam-se hemograma, eletrólitos (sódio, potássio, cloro, cálcio, fósforo), ureia, creatinina, gasometria venosa e sumário de urina, e a criança segue para o pronto-atendimento.

Criança em maca de emergência com respiração profunda, olhos encovados e lábios secos, com acesso venoso no braço, enquanto mãos com luvas medem glicemia capilar na ponta do dedo.
O gesto que encurta o atraso diagnóstico: glicemia capilar em toda criança com respiração rápida ou com vômitos e dor abdominal sem diarreia.

Fechando o diagnóstico de diabetes

Os quatro critérios laboratoriais são os mesmos do adulto: glicemia aleatória ≥ 200 mg/dL, glicemia de jejum de 8 horas ≥ 126 mg/dL, glicemia de 2 horas no teste oral de tolerância à glicose ≥ 200 mg/dL, ou hemoglobina glicada ≥ 6,5%. A diferença que decide questão está na necessidade de repetir: uma glicemia aleatória ≥ 200 mg/dL acompanhada de sintomas inequívocos de hiperglicemia — poliúria, polidipsia, perda de peso inexplicada — fecha o diagnóstico sozinha, sem segunda amostra. Na ausência de sintomas, qualquer dos exames precisa ser confirmado em segunda ocasião, e o mais breve possível.

Há uma particularidade pediátrica no teste de tolerância: a sobrecarga de glicose na criança é de 1,75 g/kg, com teto de 75 g. Quem responde 75 g fixos erra em criança pequena.

O protocolo do Ministério da Saúde acrescenta uma exigência que não é laboratorial: para entrar no protocolo, além da hiperglicemia demonstrada, o paciente precisa apresentar sinais de insulinopenia inequívoca — sintomas importantes de hiperglicemia ou cetoacidose diabética prévia. É esse conjunto, e não o exame isolado, que autoriza a dispensação de insulina no SUS.

Uma armadilha do próprio protocolo: hiperglicemia associada a estresse agudo — infeccioso, traumático ou circulatório — não é diagnóstica de diabetes, porque com frequência é transitória. A criança precisa ser reavaliada fora do contexto agudo. Isso não se aplica, evidentemente, a quem chegou em cetoacidose: aí a hiperglicemia é a doença, não a resposta ao estresse.

Desde novembro de 2025 a Sociedade Brasileira de Diabetes estadia o DM1 em quatro estágios. Estágio 1: dois ou mais autoanticorpos confirmados, glicemia normal, sem sintomas. Estágio 2: dois ou mais autoanticorpos com disglicemia que ainda não preenche critério de diabetes (glicemia de jejum 100–125 mg/dL, glicemia de 2 horas 140–199 mg/dL, glicemia em ponto intermediário do teste ≥ 200 mg/dL, HbA1c 5,7–6,4%, ou aumento de 10% ou mais na HbA1c em 3 a 12 meses). Estágio 3: hiperglicemia recém-instalada que preenche critério de diabetes — 3A se assintomático, 3B se francamente sintomático e com necessidade imediata de insulina. Estágio 4: DM1 de longa duração. Os autoanticorpos usados são anti-GAD, anti-IA2, anti-insulina e anti-ZnT8.

O rastreamento com autoanticorpos é recomendado aos parentes de primeiro grau, que têm risco cerca de 15 vezes maior que a população geral. O peso do achado é grande: entre indivíduos com dois ou mais autoanticorpos confirmados, a progressão para o estágio 3 foi de 43,5% em 5 anos, 69,7% em 10 anos e 84,2% em 15 anos. Com um único autoanticorpo, 14,5% em 10 anos. Quando há viabilidade, a Sociedade Brasileira de Diabetes sugere rastrear entre 2 e 4 anos, repetindo entre 6 e 8 e entre 10 e 15 anos se negativo.

Cetoacidose: o que fecha e o quanto pesa

A cetoacidose exige três achados simultâneos: hiperglicemia, acidose metabólica e cetose. Os números brasileiros e os do consenso pediátrico internacional coincidem em dois deles e divergem em um — a divergência está no bloco próprio, mais adiante.

Hiperglicemia: glicemia acima de 200 mg/dL. Existe cetoacidose euglicêmica, com glicemia normal ou pouco elevada, descrita no jejum prolongado, na dieta muito pobre em carboidrato e no uso de inibidores de SGLT2 — condição rara na criança, mas que explica por que a glicemia sozinha não descarta o diagnóstico. O manejo da forma euglicêmica é o mesmo, com uma ressalva: a solução com glicose entra mais cedo, logo após a expansão inicial.

Acidose: pH venoso < 7,3 ou bicarbonato sérico abaixo do corte adotado. Cetose: beta-hidroxibutirato sérico ≥ 3 mmol/L, ou cetonúria moderada a grande.

A cetonemia é preferível à cetonúria tanto para diagnosticar quanto para acompanhar, e há duas razões distintas. Para diagnosticar, a fita de sangue capilar tem sensibilidade de 98% e especificidade de 79%, contra sensibilidade de 98% e especificidade de 35% da fita de urina. Para acompanhar, o problema é bioquímico: a fita urinária mede acetoacetato e acetona, não beta-hidroxibutirato, que é o cetoácido predominante na cetoacidose, produzido numa proporção de 20:1. Assim que a insulina começa, parte do beta-hidroxibutirato é convertida em acetoacetato — e a cetonúria piora ou persiste justamente enquanto o paciente melhora. Ausência de cetonúria não deve ser usada como critério de resolução.

A gravidade é classificada pelo grau de acidose, e é ordinal: leve com pH < 7,3 ou bicarbonato < 18 mmol/L; moderada com pH < 7,2 ou bicarbonato < 10 mmol/L; grave com pH < 7,1 ou bicarbonato < 5 mmol/L. Vale reter o quadro clínico do extremo: depressão do nível de consciência, Kussmaul franco, sinais de desidratação grave ou choque, arritmia e redução dos movimentos respiratórios quando o pH cai abaixo de 6,9.

O estado hiperglicêmico hiperosmolar é a outra ponta e tem critérios próprios, que a prova usa como distrator: glicemia > 600 mg/dL, pH venoso > 7,25, bicarbonato > 15 mmol/L, cetonúria pequena com cetonemia ausente a leve e osmolalidade efetiva > 320 mOsm/kg. O tratamento não é o mesmo: os volumes são substancialmente maiores e a insulina só entra — a 0,025 a 0,05 U/kg/h — quando a glicemia deixar de cair pelo menos 50 mg/dL por hora só com fluido.

As primeiras horas: a sequência que evita o edema cerebral

A avaliação inicial segue o suporte avançado de vida pediátrico e inclui, de imediato, glicemia, cetonas em sangue ou urina, eletrólitos, gasometria e avaliação do nível de consciência. Dois acessos venosos periféricos. O tratamento deve correr em serviço com experiência em cetoacidose pediátrica; quando a geografia obriga a iniciar em serviço menos experiente, o consenso recomenda suporte remoto por telefone ou videoconferência com quem tem a experiência.

A primeira decisão é uma inversão de ordem em relação ao reflexo do plantão: o fluido vem antes da insulina. A expansão é feita com soro fisiológico 0,9%, 10 a 20 mL/kg infundidos em 20 a 30 minutos — 20 mL/kg quando a perfusão tecidual está ruim, e bolus repetidos de 20 mL/kg o mais rápido possível na criança em choque, com reavaliação da circulação após cada bolus. Cristaloide, não coloide.

A insulina entra pelo menos 1 hora depois do início da reposição de fluidos, em infusão contínua de 0,05 a 0,1 U/kg/h — a dose de 0,05 U/kg/h pode ser considerada quando o pH está acima de 7,15. Não se faz bolus intravenoso de insulina. Essa recomendação de não fazer bolus não é uma peculiaridade pediátrica: a própria Sociedade Brasileira de Diabetes a estende ao adulto, apoiada em ensaio que comparou bolus seguido de infusão contra infusão direta e não encontrou diferença no tempo de resolução.

O potássio é dosado antes da insulina, sempre. Se o potássio inicial estiver acima de 5,5 mmol/L, adia-se a reposição até haver diurese documentada, infundindo solução sem potássio e medindo o eletrólito de hora em hora. Se estiver abaixo de 3,0 mmol/L, adia-se a insulina — porque ela empurra potássio para dentro da célula e agrava a hipocalemia, com risco de arritmia e de fraqueza da musculatura respiratória — e repõe-se potássio com monitorização cardíaca, sem ultrapassar 0,5 mEq/kg/h. Fora desses dois extremos, começa-se com 40 mmol de potássio por litro de solução.

O restante do déficit é reposto ao longo de 24 a 48 horas, com solução de 0,45% a 0,9%, somando-se a manutenção. Quando a glicemia cai para a faixa de 250 a 300 mg/dL — ou antes disso, se a queda for maior que 90 mg/dL por hora depois da expansão inicial —, acrescenta-se glicose a 5% ao soro, podendo ser necessário 10% ou 12,5%. O objetivo dessa manobra é permitir manter a infusão de insulina, porque a acidose leva mais tempo para se corrigir do que a glicemia; desligar a insulina para evitar hipoglicemia atrasa a resolução da cetoacidose.

Bicarbonato não é administrado. A exceção é estreita: hipercalemia com risco de vida, ou acidose grave com pH venoso < 6,9 acompanhada de evidência de contratilidade cardíaca comprometida. Os riscos do uso indevido são alcalose metabólica, acidose liquórica paradoxal, edema cerebral, hipóxia tecidual e atraso na normalização do lactato e da cetonemia.

A cetoacidose está resolvida quando o pH sobe acima de 7,30, o bicarbonato passa de 18 mmol/L, o beta-hidroxibutirato cai abaixo de 1 mmol/L ou o ânion gap fecha — o que sempre demora mais do que a normalização da glicemia. A transição para insulina subcutânea se faz com o paciente aceitando dieta, aplicando-se a insulina basal ainda com a infusão ligada e desligando a bomba ao menos 2 horas depois, preferencialmente logo antes de uma refeição.

Edema cerebral: o que observar e quando agir

É a complicação que justifica toda a cautela dos parágrafos anteriores. A lesão cerebral clinicamente evidente ocorre em 0,5% a 0,9% dos episódios de cetoacidose pediátrica, e a letalidade entre os acometidos é de 21% a 24%. Alterações do estado mental com Glasgow abaixo de 14 aparecem em 4% a 15% das crianças tratadas. A janela é a das primeiras 12 horas de tratamento, mas o quadro pode ocorrer antes de qualquer terapia e, raramente, até 24 a 48 horas depois.

Os sinais de alarme têm uma característica em comum que a prova explora: quase todos aparecem ou pioram depois que o tratamento começou. Cefaleia que surge ou piora progressivamente após o início do tratamento; vômitos que aparecem depois de iniciada a terapia; bradicardia não explicada pelo sono nem pela melhora da volemia; mudança do estado neurológico — irritabilidade, letargia, confusão, incontinência; sinais neurológicos específicos, como paralisia de nervo craniano; queda da saturação de oxigênio. A tríade de Cushing — hipertensão, bradicardia e depressão respiratória — é sinal tardio.

Um detalhe que derruba candidato: hipertensão arterial é comum na criança com cetoacidose e, isolada, não deve ser tomada como sinal de alerta de lesão cerebral.

Quatro fatores de risco justificam deixar o agente hiperosmolar preparado à beira do leito, com a dose já calculada: ureia sérica elevada (nitrogênio ureico > 20 mg/dL), acidose grave com pH < 7,1, hipocapnia grave com pCO2 < 21 mmHg e idade menor que 5 anos. Lesão cerebral é mais frequente nas crianças mais novas e nas que abrem o diabetes já em cetoacidose.

Diante de deterioração neurológica aguda, a terapia hiperosmolar é imediata e não espera exame de imagem: manitol 0,5 a 1 g/kg por via intravenosa em 10 a 15 minutos, com efeito esperado em 15 minutos e duração aproximada de 120 minutos, repetível após 30 minutos se necessário. Como alternativa, ou em adição quando não há resposta ao manitol em 15 a 30 minutos, salina hipertônica a 3% na dose sugerida de 2,5 a 5 mL/kg em 10 a 15 minutos — 2,5 mL/kg de salina a 3% é equimolar a 0,5 g/kg de manitol.

Depois da cetoacidose: a insulina que vai para casa

A dose diária total no diagnóstico recente ou logo após a cetoacidose fica entre 0,5 e 1 U/kg/dia. Durante a remissão parcial — a fase de lua de mel, em que ainda há secreção residual — a necessidade cai para menos de 0,5 U/kg/dia. Com a evolução, sobe para 0,7 a 1 U/kg/dia na criança pré-púbere e pode chegar a 1 a 2 U/kg/dia na puberdade; em situações de estresse físico ou emocional, 1,2 a 1,5 U/kg/dia.

Da dose total, 40% a 60% é basal, para mimetizar a secreção endógena — no SUS, insulina NPH em duas a três aplicações diárias. O restante vai em bolus antes das refeições, com insulina regular (30 minutos antes) ou análogo de ação rápida (5 a 15 minutos antes ou imediatamente após). Uma forma alternativa de calcular os bolus é 0,05 U/kg no café da manhã e 0,1 U/kg no almoço e no jantar.

O protocolo do Ministério da Saúde disponibiliza insulina NPH e insulina regular para todos os incluídos, e análogos de ação rápida e de ação prolongada mediante critérios adicionais. Os critérios pedem uso prévio de insulina regular por pelo menos três meses, acompanhamento regular pelo menos duas vezes ao ano, automonitorização de glicemia capilar no mínimo três vezes ao dia e a documentação de hipoglicemias — graves, ou não graves repetidas mais de duas vezes por semana, ou noturnas mais de uma vez por semana — ou controle glicêmico inadequado persistente por um ano apesar de tudo isso. Insulina não pode ser interrompida: suspender leva a cetoacidose, coma e morte.

A hipoglicemia é a complicação do dia a dia. Na criança consciente: 15 g de carboidrato simples — uma colher de sopa de açúcar, três balas de mel, um copo de suco ou refrigerante comum —, remedir a glicemia capilar em 15 minutos e repetir até normalizar. No lactente, 7,5 g. Na criança inconsciente, glucagon intramuscular ou subcutâneo em casa; no hospital, glicose intravenosa — soro glicosado a 10% na dose de 2 a 4 mL/kg, ou a 25% na dose de 1 a 2 mL/kg.

A cetoacidose em quem já tem diagnóstico quase sempre tem causa administrativa, não biológica: falha em aplicar a insulina, sobretudo a basal, ou interrupção da entrega por mau funcionamento do conjunto de infusão em quem usa bomba. Criança em bomba desenvolve cetoacidose rapidamente quando a entrega falha, porque não há depósito subcutâneo de insulina de ação longa para segurar. No primo-diagnóstico, a causa é atraso diagnóstico. Encerrar o tratamento sem identificar qual das duas coisas aconteceu é encerrar pela metade.

O acompanhamento envolve endocrinologista a cada 3 meses, oftalmologista anualmente para maiores de 10 anos ou com mais de 5 anos de doença, nutricionista ao diagnóstico e em intervalos regulares, e dentista anualmente. Duas autoimunidades associadas devem ser lembradas pela prevalência: hipotireoidismo, em 17% a 30%, e doença celíaca, em 1,6% a 16,4%. Além do calendário de rotina, são especialmente recomendadas influenza (preferir a quadrivalente, a partir dos 6 meses), pneumocócicas conjugadas (preferir a VPC13), pneumocócica polissacarídica 23-valente a partir dos 2 anos em duas doses com intervalo de cinco anos, e hepatite B em três doses com sorologia um a dois meses depois.

04

Classificar a cetoacidose e conduzir as primeiras horas

A gravidade é definida pelo grau de acidose, e é ela que orienta o rigor da monitorização — não a altura da glicemia. A sequência abaixo é a pediátrica: fluido antes de insulina, insulina sem bolus e bicarbonato praticamente nunca.

  1. 1Avaliar via aérea, respiração e circulação; nível de consciência; dois acessos venosos periféricos.
  2. 2Colher glicemia, cetonas (preferir beta-hidroxibutirato sérico), gasometria venosa, eletrólitos, ureia e creatinina — e dosar potássio antes de qualquer insulina.
  3. 3Expandir com soro fisiológico 0,9%: 10 a 20 mL/kg em 20 a 30 minutos; 20 mL/kg se a perfusão estiver ruim; bolus repetidos de 20 mL/kg se houver choque.
  4. 4Iniciar insulina regular em infusão contínua a 0,05–0,1 U/kg/h pelo menos 1 hora após o início dos fluidos, sem bolus intravenoso.
  5. 5Repor potássio: adiar se K > 5,5 mmol/L até haver diurese; adiar a insulina se K < 3,0 mmol/L; fora disso, 40 mmol/L na solução.
  6. 6Repor o déficit restante em 24 a 48 horas e acrescentar glicose a 5% quando a glicemia chegar a 250–300 mg/dL, ou antes se cair mais de 90 mg/dL por hora.
  7. 7Monitorar sinais de lesão cerebral e manter manitol ou salina a 3% calculados à beira do leito nos casos de risco.
  8. 8Encerrar quando pH > 7,30, bicarbonato > 18 mmol/L, beta-hidroxibutirato < 1 mmol/L ou ânion gap fechado — e só então passar para insulina subcutânea, aplicando a basal ao menos 2 horas antes de desligar a infusão.

Leve

pH venoso < 7,3 ou bicarbonato < 18 mmol/L. Criança em geral alerta, desidratação discreta a moderada.

Moderada

pH venoso < 7,2 ou bicarbonato < 10 mmol/L. Kussmaul evidente, vômitos, desidratação clara.

Grave

pH venoso < 7,1 ou bicarbonato < 5 mmol/L. Risco maior de lesão cerebral; abaixo de pH 6,9 surgem arritmia e queda dos movimentos respiratórios.

AchadoCetoacidose diabéticaEstado hiperglicêmico hiperosmolar
Glicemia> 200 mg/dL (pode ser normal na forma euglicêmica)> 600 mg/dL
pH venoso< 7,3> 7,25 (arterial > 7,30)
Bicarbonato< 18 mmol/L (ISPAD 2022) / < 15 mEq/L (SBD e SBP)> 15 mmol/L
CetonasBeta-hidroxibutirato ≥ 3 mmol/L ou cetonúria moderada a grandeCetonúria pequena; cetonemia ausente a leve
Osmolalidade efetivaVariável> 320 mOsm/kg
Insulina0,05–0,1 U/kg/h, iniciada ≥ 1 h após os fluidos0,025–0,05 U/kg/h, só quando a glicemia deixar de cair 50 mg/dL/h com fluido

Doses e limiares das primeiras horas na criança

ItemCondutaNúmero
Expansão inicialSoro fisiológico 0,9% em 20–30 min10–20 mL/kg (20 mL/kg se má perfusão)
ChoqueBolus repetidos de SF 0,9% o mais rápido possível20 mL/kg por bolus, reavaliando após cada um
InsulinaInfusão contínua, sem bolus, iniciada ≥ 1 h após os fluidos0,05–0,1 U/kg/h (0,05 se pH > 7,15)
Potássio altoAdiar reposição até haver diurese; medir de hora em horaK > 5,5 mmol/L
Potássio baixoAdiar a insulina e repor potássio com monitorização cardíacaK < 3,0 mmol/L; máximo 0,5 mEq/kg/h
Potássio nas demais situaçõesAcrescentar à solução de manutenção40 mmol/L
Glicose no soroAcrescentar glicose a 5% (até 10% ou 12,5% se preciso)Glicemia 250–300 mg/dL, ou queda > 90 mg/dL/h
Reposição do déficitSolução 0,45% a 0,9%, somada à manutenção24 a 48 horas
BicarbonatoSó em hipercalemia com risco de vida ou acidose com contratilidade comprometidapH venoso < 6,9
ResoluçãoCritério bioquímico para desligar a infusãopH > 7,30, HCO₃ > 18 mmol/L, BOHB < 1 mmol/L ou ânion gap fechado

Insulina subcutânea depois da alta, por fase

FaseDose diária total
Diagnóstico recente ou logo após a cetoacidose0,5 a 1 U/kg/dia
Remissão parcial (lua de mel)< 0,5 U/kg/dia
Criança pré-púbere, doença estabelecida0,7 a 1 U/kg/dia
Puberdade1 a 2 U/kg/dia
Estresse físico ou emocional1,2 a 1,5 U/kg/dia
Fração basal em qualquer fase40% a 60% da dose total

A glicemia não classifica a gravidade — a acidose classifica. Uma criança com glicemia de 700 mg/dL e pH 7,28 tem cetoacidose leve; outra com glicemia de 320 mg/dL e pH 7,05 tem cetoacidose grave.

A dor abdominal da cetoacidose melhora com a hidratação; a do abdome agudo cirúrgico não. É o discriminador mais barato à beira do leito.

A queda esperada da glicemia é de 36 a 90 mg/dL por hora depois do início da insulina; só a reposição de volume já derruba 35 a 70 mg/dL por hora nas primeiras horas.

O sódio medido cai por diluição na hiperglicemia. Corrige-se somando 1,6 mEq/L ao sódio aferido para cada 100 mg/dL de glicose acima de 100 — e 2,4 mEq/L quando a glicemia passa de 400 mg/dL.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual bicarbonato entra no critério diagnóstico de cetoacidose

Bicarbonato < 18 mmol/L

O consenso pediátrico internacional passou a incluir bicarbonato sérico abaixo de 18 mmol/L entre os critérios bioquímicos, listando essa mudança explicitamente como novidade em relação à versão anterior. O mesmo corte de 18 mmol/L é usado como critério de resolução da cetoacidose.

ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022, capítulo de cetoacidose diabética e estado hiperglicêmico hiperosmolar

Bicarbonato < 15 mEq/L

Os dois documentos brasileiros de referência mantêm o corte em 15 mEq/L. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes o traz no quadro de critérios diagnósticos e na recomendação R1, e o documento científico da Sociedade Brasileira de Pediatria repete o mesmo valor ao caracterizar laboratorialmente a cetoacidose da criança.

SBD, Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética (ed. 2025, revisão de 2023); SBP, Documento Científico nº 37 (2023)

Na prova

A diferença só muda a resposta na faixa estreita entre 15 e 18 mmol/L com pH ainda acima de 7,3 — abaixo de 15 os dois cortes convergem, e um pH < 7,3 fecha o critério de acidose sozinho, por qualquer dos dois documentos. Identifique o recorte por três pistas: menção nominal a ISPAD ou a sociedade brasileira no enunciado; unidade e vocabulário (mmol/L e beta-hidroxibutirato sinalizam o texto internacional; mEq/L e cetonúria em cruzes, o brasileiro); e as alternativas, porque um distrator construído em cima do valor 18 revela em qual documento a questão foi escrita.

Meta de hemoglobina glicada da criança e do adolescente com DM1

HbA1c < 7,5%

É a meta que o protocolo do Ministério da Saúde adota para crianças e adolescentes, e é com ela que se avaliam os critérios de inclusão e de manutenção do tratamento com análogos de insulina no SUS.

PCDT do Diabete Melito Tipo 1, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17, de 12/11/2019

HbA1c < 7,0%, condicionada ao acesso à monitorização

A diretriz brasileira de 2023 desceu a meta para menos de 7,0%, sustentada em achados de que a hiperglicemia crônica e a variabilidade glicêmica se associam a crescimento mais lento de substância branca e cinzenta em regiões cerebrais de processamento sensório-motor e cognição. A própria recomendação impõe uma condição: a meta só deve ser perseguida quando há acesso à tecnologia de monitorização, sob pena de aumentar o risco de hipoglicemia.

SBD, Peculiaridades do tratamento da criança com DM1 (ed. 2025, revisão de 11/04/2023), recomendação R4, classe IIa nível B

Na prova

A causa da diferença é de data e de contexto de aplicação: o protocolo do SUS é de 2019 e serve para autorizar dispensação de medicamento em rede que ainda não distribui sensor de glicose; a diretriz de sociedade é de 2023 e condiciona a meta mais apertada justamente ao recurso que o protocolo não fornece. Vinheta ambientada em unidade básica, com pergunta sobre critério para liberar análogo de insulina, aponta para o corpo do Ministério da Saúde; vinheta de acompanhamento em serviço especializado, com sensor ou bomba na história, aponta para o corpo da sociedade. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS; nas demais bancas, veja o que as alternativas revelam.

Volume, velocidade e momento da insulina na cetoacidose

Expansão de 15 a 20 mL/kg na primeira hora, insulina a 0,1 U/kg/h desde o início

É o esquema da diretriz brasileira de cetoacidose, cujo capítulo foi escrito para o paciente adulto: soro fisiológico 0,9% em média 15 a 20 mL/kg na primeira hora para restabelecer a perfusão periférica, e insulina regular em infusão contínua a 0,1 U/kg/h uma vez que o potássio esteja acima de 3,3 mEq/L. Bicarbonato pode ser considerado com pH abaixo de 6,9, e o próprio texto registra que não é recomendado especialmente em crianças.

SBD, Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética (ed. 2025), recomendações R6, R11 e R14

Expansão de 10 a 20 mL/kg em 20 a 30 minutos, insulina a 0,05–0,1 U/kg/h ao menos 1 hora depois

É o esquema do consenso pediátrico: um ou mais bolus de soro fisiológico 0,9% em 20 a 30 minutos para restaurar a circulação periférica, insulina iniciada pelo menos 1 hora após o começo da reposição de fluidos, na faixa de 0,05 a 0,1 U/kg/h, e reposição do déficit em 24 a 48 horas. O que sustenta o desenho é a lesão cerebral, que ocorre em 0,5% a 0,9% dos episódios pediátricos com letalidade de 21% a 24% e é mais frequente nos menores de 5 anos e em quem abre o diabetes já em cetoacidose.

ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022, capítulo de cetoacidose diabética

Na prova

A causa aqui não é econômica nem de desatualização: é a população-alvo. O Brasil não tem protocolo do Ministério da Saúde para cetoacidose pediátrica, e o documento da Sociedade Brasileira de Pediatria descreve o tratamento em termos qualitativos — hidratação venosa, insulina em infusão contínua e reposição de eletrólitos — sem fixar números. O corpo numérico que sobra para a criança brasileira é o do consenso pediátrico internacional, e é dele que saem os protocolos de serviço. Idade na vinheta é a pista mais forte; o par de números 15–20 mL/kg mais bolus imediato de insulina, quando aparece numa questão de criança, costuma vir de um distrator montado sobre o esquema do adulto.

A partir de quando existe diabetes tipo 1

Dois ou mais autoanticorpos já são diagnóstico (estágio 1)

A diretriz brasileira de rastreamento, publicada em novembro de 2025, adota a posição da ISPAD e da Breakthrough T1D: o diagnóstico de DM1 já se estabelece com dois ou mais autoanticorpos anticélula beta confirmados, independentemente de hiperglicemia. O que a glicemia faz é estadiar — estágio 1 sem disglicemia, estágio 2 com disglicemia, estágio 3 quando os critérios de diabetes são preenchidos.

SBD, Rastreamento do diabetes mellitus tipo 1 (ed. 2025, publicada em 14/11/2025)

Só existe diabetes com hiperglicemia demonstrada e insulinopenia inequívoca

O protocolo do Ministério da Saúde exige, para incluir o paciente, sinais de insulinopenia inequívoca — sintomas importantes de hiperglicemia ou cetoacidose prévia — somados à demonstração laboratorial de hiperglicemia. Autoanticorpos aparecem no texto como parâmetro auxiliar, cuja ausência não exclui o diagnóstico, e não como critério suficiente.

PCDT do Diabete Melito Tipo 1, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17, de 12/11/2019

Na prova

A diferença é de data e de finalidade: um texto é de 2025 e classifica história natural; o outro é de 2019 e define quem recebe insulina pelo SUS. O estadiamento também traz vocabulário próprio — estágio 1, estágio 2A e 2B, estágio 3A e 3B, DM1 pré-clínico —, que só existe no corpo mais novo. Enunciado que fala em irmão assintomático de criança com DM1, em rastreamento familiar ou em medicamento imunomodulador para retardar a progressão está no mundo do estadiamento; enunciado sobre dispensação de insulina em unidade do SUS está no mundo do protocolo.

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Caso resolvido

Menino de 6 anos, previamente hígido, levado ao pronto-socorro com vômitos e dor abdominal difusa há 12 horas. A mãe conta que há três semanas ele bebe água o tempo todo, voltou a urinar na cama à noite e emagreceu, apesar de comer bem. Não há diarreia. Ao exame: consciente mas irritado, mucosas secas, tempo de enchimento capilar de 3 segundos, respiração de 42 incursões por minuto, profunda, com ausculta pulmonar limpa, hálito adocicado. Frequência cardíaca 148 bpm, pressão arterial 96 x 62 mmHg. Glicemia capilar 512 mg/dL. Gasometria venosa: pH 7,08, bicarbonato 4 mEq/L, pCO2 18 mmHg. Beta-hidroxibutirato 5,8 mmol/L. Potássio 4,6 mEq/L. Ureia com nitrogênio ureico de 24 mg/dL.
achado
Poliúria com enurese secundária, polidipsia e perda de peso por três semanas, agora com vômitos e dor abdominal sem diarreia. Desidratação com poliúria — não com oligúria — afasta gastroenterite; taquipneia profunda com ausculta limpa é Kussmaul, não broncoespasmo.
diagnóstico
Cetoacidose diabética grave, abrindo um diabetes tipo 1. Os três critérios estão presentes: glicemia acima de 200 mg/dL, pH venoso abaixo de 7,3 e beta-hidroxibutirato acima de 3 mmol/L. A gravidade é dada pela acidose, não pela glicemia: pH abaixo de 7,1 e bicarbonato abaixo de 5 mmol/L.
risco
Três fatores de risco de lesão cerebral coexistem: nitrogênio ureico acima de 20 mg/dL, pH abaixo de 7,1 e pCO2 abaixo de 21 mmHg. Manitol ou salina a 3% devem estar à beira do leito com a dose já calculada. A hipertensão, se aparecer, não conta como sinal de alarme isolado.
conduta
Dois acessos periféricos e expansão com soro fisiológico 0,9% 10 a 20 mL/kg em 20 a 30 minutos — 20 mL/kg pela perfusão ruim. Insulina regular em infusão contínua a 0,05–0,1 U/kg/h iniciada pelo menos 1 hora depois do início dos fluidos, sem bolus. Potássio de 4,6 mEq/L permite iniciar a insulina no tempo previsto e acrescentar 40 mmol de potássio por litro à solução.
seguimento
Repor o déficit restante em 24 a 48 horas e acrescentar glicose a 5% quando a glicemia chegar a 250–300 mg/dL, mantendo a insulina ligada. Nenhum bicarbonato: o pH de 7,08 não atinge o limiar de 6,9 nem há evidência de contratilidade comprometida. Encerrar a infusão quando pH > 7,30, bicarbonato > 18 mmol/L e beta-hidroxibutirato < 1 mmol/L, aplicando a insulina basal ao menos 2 horas antes de desligar.
07

Agora feche você

Menina de 11 anos com DM1 há 4 anos, em uso de bomba de infusão contínua de insulina, chega ao pronto-socorro 8 horas depois de começar com náuseas e dor abdominal. Está sem febre e sem diarreia. Glicemia capilar 336 mg/dL, cetonemia capilar 4,1 mmol/L, gasometria venosa com pH 7,24 e bicarbonato 13 mEq/L. Potássio 2,8 mEq/L. Ao exame, mucosas discretamente secas, enchimento capilar de 2 segundos, pressão arterial normal, sem alteração do nível de consciência. Ao revisar o dispositivo, a equipe encontra o cateter da bomba desconectado sob a roupa.
achado
Cetoacidose em paciente com diagnóstico prévio, sem doença intercorrente, com o conjunto de infusão desconectado — a causa mais comum de cetoacidose em quem usa bomba, porque não existe depósito subcutâneo de insulina de ação longa segurando o intervalo.
classificação
Cetoacidose leve pelo grau de acidose: pH abaixo de 7,3 sem chegar a 7,2, e bicarbonato ainda acima de 10 mmol/L. Desidratação discreta, sem repercussão hemodinâmica.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Dar bolus intravenoso de insulina antes de expandir É o reflexo de quem aprendeu cetoacidose no adulto e o transferiu inteiro para a criança. Na criança, o fluido vem primeiro e a insulina começa pelo menos 1 hora depois, sem bolus. A recomendação de dispensar o bolus, aliás, já vale também para o adulto na diretriz brasileira, apoiada em ensaio que não encontrou diferença no tempo de resolução.
  2. 2Classificar a gravidade pela altura da glicemia Atrai porque a glicemia é o número mais visível da vinheta e o que mais impressiona. Mas a classificação é feita pelo pH ou pelo bicarbonato: glicemia de 700 mg/dL com pH 7,28 é cetoacidose leve, e glicemia de 320 mg/dL com pH 7,05 é grave. Na cetoacidose euglicêmica a glicemia sequer está alta.
  3. 3Usar a cetonúria para dizer que a cetoacidose não resolveu Parece lógico: se ainda há cetona na urina, ainda há cetose. Só que a fita urinária mede acetoacetato e acetona, e o cetoácido predominante é o beta-hidroxibutirato, na proporção de 20:1. Quando a insulina começa, parte do beta-hidroxibutirato vira acetoacetato — e a cetonúria piora ou persiste por horas ou dias justamente enquanto o paciente melhora.
  4. 4Tratar a hipertensão arterial como sinal de edema cerebral Atrai porque hipertensão faz parte da tríade de Cushing, que todo mundo decorou. Mas hipertensão é comum na criança com cetoacidose e, isolada, não é sinal de alerta. Os sinais que contam são cefaleia que surge ou piora após o início do tratamento, bradicardia não explicada, mudança do estado neurológico, sinais neurológicos focais e queda da saturação.
  5. 5Desligar a insulina quando a glicemia cai É intuitivo e atrasa a resolução. A acidose demora mais para corrigir do que a glicemia; a solução é acrescentar glicose ao soro — a 5%, 10% ou até 12,5% — quando a glicemia chega a 250–300 mg/dL, mantendo a infusão de insulina ligada até que pH, bicarbonato e cetonemia atinjam o critério de resolução.
  6. 6Responder 75 g na sobrecarga do teste de tolerância à glicose É o número do adulto, e o enunciado pediátrico frequentemente traz o peso da criança justamente para testá-lo. Na criança a sobrecarga é de 1,75 g/kg, com teto de 75 g — e o teto só é alcançado a partir de aproximadamente 43 kg.
  7. 7Nebulizar e corticoidar a taquipneia da cetoacidose A respiração de Kussmaul passa por desconforto respiratório, e o corticoide administrado agrava a hiperglicemia e acelera a descompensação. O que separa é a ausculta pulmonar limpa somada a desidratação e hálito cetônico — e uma glicemia capilar resolve a dúvida em segundos.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Trata-se de cetoacidose diabética (CAD) na abertura de DM1. O primeiro passo é a expansão volêmica com SF 0,9% para restaurar a perfusão; a insulina em infusão contínua é iniciada após 1-2 horas de hidratação (não em bolus, pelo risco de edema cerebral e queda glicêmica abrupta). Bolus de insulina não é recomendado em pediatria. Bicarbonato só em situações extremas (pH muito baixo com instabilidade) e não de rotina, pelo risco de edema cerebral e hipocalemia. Potássio em bolus é perigoso; repõe-se de forma diluída conforme níveis e diurese, nunca em bolus.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os três critérios de cetoacidose (glicemia > 200 mg/dL, pH < 7,3, beta-hidroxibutirato ≥ 3 mmol/L); a classificação de gravidade pelo pH (7,3 / 7,2 / 7,1); a sequência fluido antes de insulina, com 10–20 mL/kg em 20–30 minutos e 0,05–0,1 U/kg/h iniciada 1 hora depois; e os dois limiares de potássio, 5,5 e 3,0 mmol/L.

em 30 dias

Os discriminadores dos três disfarces (desidratação com poliúria, ausculta limpa com taquipneia, dor abdominal que melhora com hidratação); os sinais de edema cerebral que aparecem depois do início do tratamento e a dose do manitol; a sobrecarga pediátrica de 1,75 g/kg no teste de tolerância; e as duas divergências de número — bicarbonato de 15 contra 18 mmol/L e meta de HbA1c de 7,5% contra 7,0%.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Menino de 5 anos chega à emergência com vômitos, dor abdominal e respiração rápida há um dia. A mãe relata sede intensa e volta da enurese noturna nas últimas semanas. Está desidratado, taquipneico, com ausculta pulmonar limpa e hálito adocicado. Conduza a avaliação inicial, defina a gravidade e prescreva as primeiras quatro horas. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Diabetes mellitus tipo 1 e cetoacidose diabética na criança – Diabetes tipo 1 e cetoacidose na criança — Preparatório para provas | OsceLabs