PediatriaGastroenterologia Pediátrica

Abdome agudo obstrutivo em Pediatria

Abdome agudo obstrutivo pediátrico: intussuscepção, volvo por má rotação, hérnia encarcerada e obstrução intestinal

No vômito bilioso e na distensão progressiva, o diagnóstico anatômico não pode atrasar a estabilização: malrotação com volvo, invaginação e hérnia encarcerada têm relógios diferentes.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Lactente de 8 meses com invaginação ileocólica confirmada por ultrassonografia permanece estável após avaliação e suporte iniciais, sem peritonite nem sinais de perfuração. Qual é a conduta preferencial, havendo equipe experiente e retaguarda de cirurgia pediátrica?

02

Como esse tema cai

Abdome agudo obstrutivo pediátrico é um conjunto de síndromes em que idade, cor do vômito, padrão da dor e perfusão definem prioridade. Vômito bilioso — verde, não apenas amarelo — deve ser considerado obstrução distal à ampola duodenal até prova em contrário, sobretudo no recém-nascido e lactente.

A prova exige reconhecer invaginação, má rotação com volvo, hérnia encarcerada e obstrução por aderências, além de saber quando ultrassom, enema terapêutico ou cirurgia são apropriados. A regra clínica é estabilizar em paralelo e não permitir que imagem atrasada consuma intestino viável.

03

O que muda decisão

1. Fisiologia e sinais de estrangulamento

Obstrução provoca acúmulo de líquido e gás proximal, vômitos, terceiro espaço, hipovolemia e distúrbios eletrolíticos. Obstrução simples compromete trânsito; estrangulamento adiciona isquemia por prejuízo venoso e depois arterial, podendo evoluir para necrose, perfuração, sepse e choque.

Dor contínua entre crises, defesa ou rigidez, distensão progressiva, sangue nas fezes, febre, taquicardia desproporcional, acidose, lactato crescente e instabilidade sugerem sofrimento intestinal. Lactato normal não exclui isquemia precoce. O exame seriado vale mais que uma fotografia clínica única.

Enquanto define causa, mantenha jejum, acesso venoso ou intraósseo, cristaloide em alíquotas com reavaliação, analgesia, correção de glicose/eletrólitos e monitorização. Sonda nasogástrica ou orogástrica descomprime quando há vômitos persistentes ou distensão. Antibiótico de amplo espectro é indicado na suspeita de isquemia, perfuração, sepse ou perioperatório, conforme protocolo.

2. Vômito bilioso: emergência até prova em contrário

Pergunte e, se possível, peça que a família aponte a cor em escala visual. Bile verdadeira é verde. Em recém-nascido, considere má rotação com volvo, atresia intestinal, íleo meconial, doença de Hirschsprung e outras obstruções. Abdome inicialmente pouco distendido não tranquiliza no volvo proximal.

Acione cirurgia pediátrica precocemente, ressuscite, descomprima e obtenha imagem sem atrasos. Radiografia simples pode mostrar dilatação, níveis ou escassez de gás, mas um exame normal não exclui má rotação/volvo. Em paciente estável, estudo contrastado do trato gastrointestinal alto é exame tradicional para avaliar posição da junção duodenojejunal e obstrução; ultrassom especializado pode demonstrar relação vascular anômala e sinal do redemoinho.

Instabilidade, peritonite ou forte suspeita clínica de volvo exigem abordagem cirúrgica imediata; não se deve aguardar estudo completo. O procedimento de Ladd destorce o intestino, amplia a base mesentérica, divide bandas obstrutivas e reposiciona alças; avalia-se viabilidade intestinal.

Comparação anatômica entre invaginação ileocólica e volvo do intestino médio
Dois mecanismos tempo-dependentes: na invaginação, um segmento intestinal penetra no adjacente; no volvo por má rotação, o mesentério estreito torce e ameaça a perfusão intestinal.

3. Invaginação intestinal

Invaginação é a penetração de um segmento no adjacente, mais frequentemente ileocólica entre 6 e 36 meses. A tríade clássica — dor, massa e fezes em geleia de morango — ocorre em minoria e costuma ser tardia. Apresentação típica é dor súbita episódica com flexão das pernas, palidez ou prostração entre crises, vômitos e, às vezes, letargia isolada.

Ultrassom é o exame inicial preferido e mostra sinal do alvo ou pseudorrim. Radiografia não exclui invaginação; é útil quando se suspeita perfuração ou obstrução avançada. Em paciente estável, sem peritonite ou perfuração, enema pneumático ou contrastado é diagnóstico e terapêutico, realizado com equipe experiente e retaguarda cirúrgica.

Choque, peritonite, perfuração, falha do enema ou ponto guia que exige correção indicam cirurgia. Após redução, observe recorrência e retorno da alimentação conforme protocolo. Em crianças maiores, recorrência ou localização atípica, pense em ponto guia como divertículo de Meckel, pólipo, linfoma ou púrpura de Henoch-Schönlein.

4. Hérnia inguinal encarcerada

A hérnia encarcerada aparece como massa inguinal ou inguinoescrotal dolorosa, firme e irredutível, com irritabilidade e vômitos. Lactentes, sobretudo prematuros, têm maior risco. Em meninas, o conteúdo pode ser ovário e trompa; comprometimento vascular exige urgência.

Na ausência de peritonite, instabilidade, eritema importante ou suspeita de necrose, redução manual gentil pode ser tentada por profissional experiente após analgesia e sedação apropriadas. Força excessiva é perigosa. Redução bem-sucedida não encerra o caso: avaliação cirúrgica e correção em tempo oportuno são necessárias pelo alto risco de recorrência.

Instabilidade, sinais sistêmicos, pele comprometida, peritonite, obstrução completa ou redução malsucedida indicam cirurgia urgente. Torção ovariana dentro da hérnia é preocupação específica.

5. Obstrução por aderências e outras causas

História de cirurgia abdominal torna aderência causa relevante, embora crianças também apresentem hérnia interna, estenose inflamatória, bezoar, duplicação e tumor. Dor em cólica, vômitos, distensão e parada de fezes/gases orientam, mas diarreia inicial não exclui obstrução parcial.

Radiografia pode mostrar alças dilatadas e níveis, mas ultrassom e tomografia são escolhidos conforme dúvida, radiação, estabilidade e disponibilidade. Tomografia ajuda a localizar transição e sinais de alça fechada/isquemia; nunca deve atrasar cirurgia diante de peritonite ou choque.

Paciente estável sem sinais de estrangulamento pode receber tratamento não operatório monitorado: jejum, descompressão, reposição, correção eletrolítica e exame seriado, às vezes com contraste hidrossolúvel conforme protocolo. Piora clínica, ausência de resolução, alça fechada ou isquemia indicam operação.

6. Obstrução neonatal distal

Atraso na eliminação de mecônio, distensão e vômito bilioso levantam doença de Hirschsprung, íleo meconial, síndrome do plugue meconial e atresia distal. Toque retal explosivo pode ocorrer em Hirschsprung, mas não confirma diagnóstico. Enema contrastado avalia calibre e zona de transição; biópsia retal confirma aganglionose.

Em suspeita de enterocolite associada a Hirschsprung — distensão, febre, diarreia explosiva, sangue, letargia ou choque — faça ressuscitação, antibióticos e descompressão/irrigações retais sob orientação cirúrgica. É uma emergência potencialmente fatal.

Íleo meconial associa-se à fibrose cística e pode responder a enema terapêutico especializado quando não complicado; perfuração, peritonite ou volvo exigem cirurgia.

7. Imagem escolhida pela hipótese, não pelo hábito

Ultrassom é primeira escolha para invaginação e pode ser muito útil no volvo em centros experientes. Estudo contrastado alto é referência para má rotação em paciente estável. Enema contrastado avalia obstrução colônica/neonatal e trata invaginação em condições adequadas. Radiografia identifica perfuração e padrão obstrutivo, mas raramente encerra o diagnóstico.

Tomografia oferece visão ampla em crianças maiores e causas complexas, porém envolve radiação e eventualmente contraste. A pergunta antes do exame é: o resultado mudará a conduta e o paciente pode esperar? Se há peritonite, choque ou deterioração, a resposta costuma ser cirurgia, não mais imagem.

8. Reavaliação e comunicação com cirurgia

Registre início e evolução da dor, vômito bilioso, última evacuação, cirurgias, hérnias, episódios prévios e hidratação. Examine perfusão, abdome, orifícios herniários e região perineal; em lactente, observe entre crises. Reavalie depois de analgesia — analgesia adequada não mascara de modo perigoso uma indicação cirúrgica.

Ao telefonar para cirurgia, informe idade, tempo, cor do vômito, perfusão, peritonismo, distensão, hérnias, imagem, acesso, fluidos, antibiótico e tendência clínica. Transporte deve manter descompressão, monitorização e ressuscitação.

9. Padrão mental para a prova

Vômito verde em lactente: má rotação/volvo até exclusão e cirurgia precoce. Dor episódica com palidez ou letargia em 6–36 meses: ultrassom para invaginação; se estável e sem perfuração/peritonite, redução por enema. Massa inguinal irredutível: hérnia encarcerada. Cirurgia abdominal prévia: aderências, mas sinais de isquemia anulam a espera. Nunca exija a tríade completa para diagnosticar invaginação.

04

Decisão no abdome obstrutivo

Estabilidade e sinais de isquemia vêm antes do nome etiológico.

  1. 1Jejum + acesso + monitorização
  2. 2Ressuscitar e descomprimir
  3. 3Procurar estrangulamento/peritonite
  4. 4Escolher imagem pela hipótese
  5. 5Redução terapêutica ou cirurgia

Vômito verde

Tratar como obstrução cirúrgica até exclusão.

Dor episódica

Pensar em invaginação mesmo sem sangue nas fezes.

Peritonite/choque

Ressuscitação e cirurgia; não atrasar por imagem.

Estável

Escolher exame dirigido e manter reavaliação seriada.

Diagnósticos por padrão

CenárioHipótese principalExame/ação
RN/lactente com vômito biliosoMá rotação com volvoCirurgia precoce; TGI alto/US se estável
6–36 meses, dor episódica e palidezInvaginaçãoUltrassom; enema se elegível
Massa inguinal dolorosa irredutívelHérnia encarceradaRedução gentil selecionada ou cirurgia
Cirurgia abdominal préviaAderênciasSuporte monitorado se sem isquemia; operar se piora
Atraso de mecônio e distensãoHirschsprung/atresia/íleo meconialEnema contrastado e cirurgia pediátrica

Analgesia é parte do cuidado.

Radiografia normal não exclui volvo nem invaginação.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Ultrassom ou estudo contrastado na má rotação?

TGI alto

Avalia a posição duodenojejunal e obstrução em paciente estável.

Referência tradicional

Ultrassom

Pode mostrar relação vascular e sinal do redemoinho com rapidez.

Centros experientes

Na prova

A disponibilidade não muda a urgência: peritonite, choque ou suspeita forte de volvo não aguardam exame demorado.

Observar após redução de invaginação?

Observação breve

Casos selecionados podem receber alta após período curto, alimentação e critérios seguros.

Vias clínicas modernas

Internação

Preferida em idade atípica, sintomas prolongados, recorrência, dificuldade de acesso ou complicação.

Protocolos conservadores

Na prova

A redução bem-sucedida exige reavaliação; destino é individualizado por risco e protocolo.

06

Caso resolvido

Lactente de 9 meses apresenta episódios de choro intenso com flexão das pernas, palidez e prostração entre crises. Vomitou duas vezes; abdome é macio e não há sangue nas fezes.
Hipótese
Invaginação intestinal; a tríade completa não é necessária.
Exame
Ultrassom abdominal como primeira escolha.
Estabilização
Jejum, acesso, analgesia e reposição se hipovolêmico.
Tratamento
Se estável, sem peritonite ou perfuração, enema pneumático/contrastado com retaguarda cirúrgica.
Se falhar
Cirurgia; investigar ponto guia em idade ou apresentação atípica.
07

Agora feche você

Recém-nascido de 12 dias apresenta vômito verde súbito. Está taquicárdico, perfusão lenta e abdome pouco distendido.
Diagnóstico de risco
_____
Conduta paralela
_____
Imagem
_____
08

Onde a banca derruba

  1. 1Vômito amarelo igual a bilioso Confirme verde verdadeiro; quando presente, trate como emergência.
  2. 2Esperar tríade da invaginação É incomum e tardia.
  3. 3Radiografia normal tranquiliza Não exclui volvo ou invaginação.
  4. 4Negar analgesia Analgesia permite exame melhor e não substitui reavaliação.
  5. 5Forçar hérnia Redução deve ser gentil e apenas sem sinais de estrangulamento.
  6. 6Imagem antes da ressuscitação Suporte e cirurgia ocorrem em paralelo.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Nesse contexto, a redução não operatória por enema é uma opção inicial apropriada. O procedimento exige analgesia, equipe treinada e disponibilidade de cirurgia pediátrica diante de falha ou complicação. Instabilidade, peritonite e perfuração contraindicam essa abordagem. A recomendação não deve ser extrapolada a toda invaginação, especialmente às formas restritas ao intestino delgado ou aos adultos.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.

Criar conta grátis e continuar →
10

Plano de revisão

em 7 dias

Monte uma tabela por idade com vômito bilioso, invaginação, hérnia e aderências; associe exame e tratamento.

em 30 dias

Resolva duas vinhetas: invaginação sem sangue nas fezes e recém-nascido instável com vômito verde. Explique quando não esperar imagem.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Reconheça a apresentação incompleta, selecione o ultrassom e verbalize critérios para enema ou cirurgia. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Abdome agudo obstrutivo pediátrico – Abdome agudo obstrutivo em Pediatria — Preparatório para provas | OsceLabs