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Exames do refluxo na criança: nenhum confirma, e o teste tem quatro prazos
Exames do refluxo gastroesofágico na criança: indicação, ordem e limites
Quatro documentos da mesma sociedade dão quatro prazos ao mesmo teste com inibidor de bomba, e nenhum deles o autoriza no lactente.
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Em uma discussão de caso, um interno afirma que a ultrassonografia esofagogástrica com doppler pode ser usada como rastreio de doença do refluxo na criança, porque tem sensibilidade em torno de 95%. Qual é a objeção correta a essa proposta?
Como esse tema cai
Este capítulo trata de um pedido, não de uma doença: a decisão de investigar refluxo numa criança que já foi examinada. O eixo é qual exame responde a qual pergunta, em que ordem eles entram e o que cada um deixa em aberto — incluindo a prova terapêutica com supressor de ácido, que é um teste antes de ser um tratamento.
Ficam de fora, com capítulo próprio nesta mesma apostila, a separação clínica entre regurgitação fisiológica e doença do refluxo no lactente e a régua brasileira de fármaco, rótulo e disponibilidade; a endoscopia com biópsia de duodeno da doença celíaca; e a ultrassonografia de abdome como exame de dor, massa e abdome agudo da criança. Os critérios sonográficos do piloro, da invaginação e das vias biliares pertencem à apostila de Cirurgia Pediátrica.
Entra aqui o que nenhum desses vizinhos cobre: o desempenho e o limite de cada método de investigação esofágica na criança, a fila em que eles se organizam e o prazo do teste terapêutico — que os documentos brasileiros escrevem de quatro maneiras diferentes e que nenhum deles autoriza no lactente.
O que muda decisão
O pedido chega antes da pergunta
Como usar este capítulo: primeiro defina se há sinais de alerta e qual pergunta precisa ser respondida. Contraste avalia anatomia, pHmetria mede exposição ácida, impedanciometria detecta refluxo não ácido e endoscopia procura complicações; nenhum exame isolado substitui o diagnóstico clínico.
A criança com queixa digestiva alta costuma chegar ao consultório com um pedido já formado pela família ou pelo colega que encaminhou: investigar refluxo. O guia brasileiro mais recente responde a esse pedido com uma frase seca, que vale como ponto de partida de qualquer raciocínio sobre exames — nenhum exame é considerado padrão-ouro para o diagnóstico da doença do refluxo gastroesofágico. Cada método tem prós, contras e indicações específicas, e a lista deles não é uma escada de confirmação.
A consequência prática é que a pergunta clínica precisa vir antes da requisição. O documento de dois mil e dezessete diz o mesmo por outro caminho: o exame ideal deveria documentar o refluxo, detectar suas complicações e estabelecer a relação de causa e efeito entre refluxo e sintoma, e nenhum teste isolado preenche essas três exigências ao mesmo tempo. Como cada exame avalia um aspecto diferente, é esperado que a correlação entre eles seja pobre.
Isso muda o que se espera de um resultado. Um estudo que volta normal não devolve a criança ao ponto de partida, e um estudo alterado não encerra a discussão: o que ele acrescenta depende inteiramente de qual das três exigências ele foi capaz de atender. A endoscopia identifica esofagite; a pHmetria mede a exposição ácida; a impedanciometria detecta o material que sobe independentemente do pH; o contraste desenha a anatomia. São quatro perguntas distintas.
O erro que essa arquitetura produz é sempre o mesmo: pedir um exame para confirmar um diagnóstico que é clínico, e depois tratar o resultado como veredito. Quem organiza a investigação por perguntas — há anormalidade anatômica? há esofagite? há relação temporal entre o sintoma e o refluxo? — chega ao mesmo consultório com uma requisição menor e uma conclusão mais firme.
Vale nomear desde já a hierarquia que os documentos brasileiros desenham, porque ela não é a ordem em que os exames costumam ser pedidos. O que separa refluxo fisiológico de doença é a avaliação clínica, e ela não delega essa tarefa a nenhum método. Os exames servem a três funções laterais: mostrar anormalidade anatômica, mostrar complicação de mucosa e medir a relação entre o material que sobe e o sintoma que a criança tem. Nenhuma dessas três funções é o diagnóstico em si, e é por isso que uma criança pode sair da consulta com o diagnóstico feito e nenhuma requisição na mão.
Regurgitar não é adoecer
O primeiro filtro é anterior a qualquer exame e é gratuito. O refluxo gastroesofágico é evento fisiológico, que ocorre várias vezes ao dia em lactentes, crianças, adolescentes e adultos saudáveis. Regurgitação é o nome que se dá ao refluxo quando o conteúdo é visível. No lactente, o refluxo fisiológico raramente começa antes da primeira semana de vida ou depois dos seis meses, e resolve-se sozinho até os dois anos na maioria dos casos.
A doença começa onde aparecem sintomas ou complicações que trazem morbidade — recusa alimentar, irritabilidade sustentada, choro com o mamar, parada de ganho de peso, dor, sangramento, sintoma respiratório atribuível. O lactente que golfa várias vezes ao dia, mama com avidez, dorme bem e sobe na curva não tem doença e não tem indicação de investigação nenhuma: o que ele tem é uma família preocupada, e o que muda o desfecho é a explicação.
Essa separação tem consequência direta sobre a fila dos exames. O documento brasileiro pergunta, em voz alta, se é preciso tanto bloqueio ácido numa doença benigna e autolimitada que melhora com o amadurecimento — e a pergunta não é retórica, porque cada requisição arrasta consulta, espera, custo e, quando o resultado é ambíguo, mais requisição. A criança que não precisa do exame também não precisa da ansiedade que ele instala em casa.
Há ainda um diferencial que precede a investigação esofágica no lactente: a alergia à proteína do leite de vaca imita a doença do refluxo com fidelidade suficiente para que os algoritmos brasileiros coloquem o teste terapêutico com exclusão do leite antes de qualquer exame. Manter o aleitamento com dieta de exclusão para a nutriz, ou trocar por fórmula extensamente hidrolisada quando não há aleitamento, por duas a quatro semanas, é o passo que vem primeiro.
Os sinais de alerta mudam o algoritmo
Antes de decidir qual exame pedir, existe uma pergunta que decide se o algoritmo do refluxo é o algoritmo certo. Os documentos brasileiros abrem os dois fluxos — o do lactente e o da criança maior — com a mesma caixa: história e exame físico, e a seguir a busca por sinais de alerta. Havendo qualquer um deles, a instrução é sair do fluxo e investigar outra doença, porque a lista não descreve refluxo grave, e sim outra coisa se apresentando como refluxo.
A lista é organizada em três colunas. Entre os gerais estão febre, letargia, irritabilidade ou dor excessivas, falha acentuada de crescimento com emagrecimento e disúria. Entre os neurológicos, fontanela tensa, macrocefalia ou microcefalia, aumento da circunferência craniana e convulsões. Entre os digestivos, vômito persistente, vômito noturno, vômito bilioso, hematêmese e melena, sangramento retal, diarreia crônica, distensão abdominal e o vômito que começa depois dos seis meses ou persiste depois dos doze.
Duas entradas dessa lista carregam mais peso do que as outras no lactente. O vômito bilioso desloca a criança para a suspeita de obstrução, e o relógio da má rotação com volvo é curto demais para caber numa fila de investigação de refluxo. O vômito que se inicia depois dos seis meses ou que persiste depois dos doze contraria a história natural da regurgitação fisiológica, e por isso deixa de ser tranquilizador exatamente quando a família mais espera ser tranquilizada.
A criança que passa por esse filtro sem acender nada segue no fluxo do refluxo. A que acende qualquer item sai dele — e a investigação que se abre é a da hipótese que o sinal levantou, não a do esôfago. É por isso que a lista aparece antes dos exames em todos os algoritmos: ela não escolhe o método, ela escolhe a doença que se vai investigar.
O contraste responde por anatomia
A radiografia contrastada de esôfago, estômago e duodeno é barata, rápida e amplamente disponível, e é o exame que mais aparece em requisição de refluxo sem ter qualquer papel diagnóstico ali. O guia brasileiro é explícito: não é adequado ao diagnóstico da doença do refluxo. Ele avalia apenas o refluxo pós-prandial imediato, num intervalo curto e artificial, e não tem como quantificar episódios ao longo do dia.
O guia internacional que os documentos brasileiros citam separa a mesma coisa em duas recomendações consecutivas: uma sugere não usar o estudo contrastado para diagnosticar a doença, e a seguinte sugere usá-lo para excluir anormalidade anatômica. As duas convivem porque o exame não erra — o que erra é a pergunta. Quem pede contraste para saber se há refluxo recebe uma resposta sem valor; quem pede para saber se há obstrução recebe a resposta certa.
As situações em que ele entra são nomeadas: disfagia, vômito bilioso e suspeita de volvo, obstrução, estenose ou membrana no esôfago, no estômago ou no duodeno. Repare que essa lista se sobrepõe quase inteiramente à coluna digestiva dos sinais de alerta — o que é coerente, porque é justamente a criança que saiu do fluxo do refluxo quem precisa da anatomia desenhada.
O corolário clínico é direto e economiza consulta. Diante do lactente que vomita, o contraste não é o exame que diz se ele tem doença do refluxo; é o exame que diz se ele tem uma barreira mecânica ou uma rotação intestinal incompleta. Quando o motivo do pedido não é anatômico, a requisição está no exame errado, e o resultado — normal ou alterado — não vai mudar a conduta.
Há um efeito colateral desse mal-entendido que aparece muito na prática. O laudo do estudo contrastado às vezes descreve refluxo, porque durante o exame o contraste realmente sobe; e essa frase, lida como confirmação, autoriza tratamento em criança que não tem doença e tranquiliza a família na criança que tem outra. Um laudo que registra refluxo durante uma aquisição de poucos minutos não diz nada sobre a exposição ao longo do dia, sobre a existência de esofagite ou sobre a relação com o sintoma — as três coisas que a decisão precisa saber.
Cintilografia e ultrassonografia respondem outra pergunta
A cintilografia esofagogástrica tem a mesma limitação temporal do contraste: avalia o refluxo pós-prandial imediato. Suas vantagens são outras — identifica o refluxo mesmo depois de dieta com pH neutro, mede o esvaziamento gástrico e pode detectar aspiração pulmonar, para o que é preciso imagem tardia de vinte e quatro horas. O guia mais recente sugere não usá-la para diagnosticar a doença do refluxo.
A ressalva mais útil está no que ela mede bem. Esvaziamento gástrico lento não confirma doença do refluxo, e por isso a pesquisa só se justifica em quem tem clínica de retenção gástrica. E cintilografia negativa não exclui aspiração pulmonar: quem procura microaspiração precisa da aquisição tardia, e mesmo assim o achado entra como peça de um raciocínio, não como prova.
A ultrassonografia esofagogástrica é o exemplo mais didático de exame com números bons e utilidade ruim. Comparada à pHmetria de vinte e quatro horas, sua sensibilidade fica em torno de noventa e cinco por cento, mas a especificidade é de onze por cento — e a frequência de refluxo que ela detecta não se correlaciona com o índice de refluxo medido pela pHmetria. Sensibilidade alta com especificidade baixa transforma quase todo mundo em positivo.
Daí a conclusão brasileira, escrita sem meio-termo: da maneira como vem sendo usada, a ultrassonografia não diferencia refluxo fisiológico de doença, não auxilia o pediatra no dia a dia e não tem lugar como teste diagnóstico de rotina, nem no lactente nem na criança maior. Ela guarda um papel preciso e diferente — o diagnóstico diferencial com a estenose hipertrófica de piloro, cujos critérios sonográficos têm endereço próprio na apostila de Cirurgia Pediátrica.
A pHmetria mede ácido, e o leite apaga o ácido
A pHmetria esofágica de vinte e quatro horas registra continuamente o pH dentro do esôfago e quantifica frequência, duração e tempo total de exposição ácida. O parâmetro que carrega a leitura é o índice de refluxo — a fração do tempo estudado em que o pH ficou abaixo de quatro. O documento brasileiro de dois mil e dezessete considera anormal o índice acima de cinco por cento na criança com mais de um ano, e acima de dez por cento abaixo de um ano.
Suas vantagens são reais: avalia a criança em condições fisiológicas, por período longo, e permite correlacionar episódios de refluxo com sinais e sintomas registrados no diário do exame. Foi tratada por muito tempo como padrão de referência, e deixou de sê-lo por um motivo específico e não por moda — ela enxerga apenas o refluxo ácido, e deixa de fora o fracamente ácido e o alcalino.
Essa cegueira tem endereço etário. No lactente, cuja dieta é exclusiva ou predominantemente láctea, o próprio leite neutraliza o conteúdo que sobe, e o refluxo pós-prandial pode simplesmente não ser detectado. Ou seja: o exame perde sensibilidade justamente na faixa em que a queixa de refluxo é mais frequente. Um traçado normal num lactente que mama a cada três horas informa menos do que parece.
As indicações que os documentos brasileiros repetem são estreitas e coerentes com o que o método faz: avaliar sintoma atípico ou extradigestivo, pesquisar refluxo oculto, avaliar a resposta ao tratamento em quem tem esôfago de Barrett ou doença de difícil controle, e a avaliação anterior e posterior à cirurgia antirrefluxo. Quando não há impedanciometria disponível, a pHmetria assume o papel de correlacionar sintoma com ácido e de medir a eficácia da supressão.
A impedanciometria enxerga o refluxo sem ácido
A impedanciometria intraluminal esofágica detecta o movimento retrógrado de líquidos, sólidos e ar em qualquer nível do esôfago, medindo variações de resistência elétrica em múltiplos canais. Por não depender do pH, ela vê o que a pHmetria não vê: os episódios fracamente ácidos e não ácidos. Na prática é usada acoplada ao sensor de pH, e o exame combinado é superior à medida isolada de pH para relacionar sintoma e refluxo no tempo.
É esse ganho que a torna o exame de escolha da criança cujo sintoma não é digestivo. Quando a queixa é respiratória e a pergunta é se o material que sobe tem relação temporal com a tosse, com a sibilância ou com a pneumonia de repetição, o método que responde é o que registra também o refluxo não ácido e o correlaciona com o sintoma anotado — porque o refluxo do lactente é, em boa parte, não ácido.
A ressalva vem no mesmo parágrafo e é fácil de perder. O guia internacional considerou insuficiente a evidência para indicar a impedanciometria com pH como técnica única de diagnóstico da doença em lactentes e crianças, e os padrões de normalidade por faixa etária pediátrica não estão bem estabelecidos. O exame é melhor que o anterior e ainda assim não é o veredito que a requisição costuma esperar dele.
O que ele decide bem é o desfecho da criança maior que já tomou supressor de ácido e continua sintomática com endoscopia normal. Exposição ácida anormal aponta doença não erosiva; exposição normal com correlação positiva entre sintoma e refluxo aponta esôfago hipersensível; exposição normal sem correlação aponta azia funcional. São três diagnósticos com tratamentos diferentes, e nenhum outro exame os separa.
Essa separação vale a consulta porque muda a prescrição em direções opostas. A doença não erosiva responde ao bloqueio ácido e justifica mantê-lo; o esôfago hipersensível responde parcialmente e pede que se some ao bloqueio o manejo da percepção do sintoma; a azia funcional não se beneficia de mais ácido bloqueado, e insistir nele adia a conversa que resolve. Sem o exame, os três recebem a mesma receita, e dois deles seguem sintomáticos com a explicação de que o remédio precisa de mais tempo.

A endoscopia procura complicação, não refluxo
A endoscopia digestiva alta avalia diretamente a mucosa e permite colher material para estudo histopatológico. O que ela diagnostica são as complicações — esofagite erosiva, estenose péptica, esôfago de Barrett — e os diferenciais que imitam o refluxo. O guia internacional é explícito ao dizer que ela não deve ser usada para diagnosticar refluxo, e sim para avaliar complicação, diferenciar de outras esofagites e decidir antes de escalonar a supressão ácida.
A frase que mais muda conduta é a inversa: endoscopia normal não exclui a doença. Boa parte dos pacientes tem doença do refluxo sem lesão visível, e é justamente esse grupo que os documentos chamam de doença não erosiva. Encerrar a investigação porque o exame veio normal é o mesmo erro de encerrá-la porque veio alterado — em ambos os casos o resultado foi lido como veredito de uma pergunta que ele não responde.
Há um detalhe de definição que sustenta essa leitura. Hoje não se valoriza a esofagite apenas histológica ou microscópica: só se considera esofagite endoscópica quando há lesão macroscópica, erosão ou úlcera. As biópsias continuam obrigatórias, mas o alvo delas mudou — elas existem para separar a doença do refluxo de outras causas, com destaque para a esofagite eosinofílica, cuja apresentação clínica é sobreponível.
Em Pediatria, portanto, a endoscopia sem biópsia responde menos do que deveria. E o documento brasileiro fecha a questão de quem pede: endoscopia, pHmetria e impedanciometria só devem ser solicitadas pelo gastroenterologista pediatra. Não é uma reserva de mercado, é uma consequência de tudo o que veio antes — são exames cuja indicação depende de uma pergunta clínica precisa e cuja leitura depende de padrões etários que o pedido genérico não alcança.
A manometria e a fila dos exames
A manometria esofágica avalia a motilidade, e o guia internacional a trata em duas recomendações consecutivas com a mesma lógica do contraste: sugere não usá-la para diagnosticar a doença do refluxo e sugere considerá-la quando se suspeita de distúrbio de motilidade. Os sintomas que a chamam são disfagia e odinofagia, e ela é útil sobretudo em quem não respondeu à supressão ácida e tem endoscopia negativa.
Com isso, a fila fica desenhada sem que nenhum documento precise numerá-la. A história e o exame físico abrem; os sinais de alerta decidem se a criança continua no fluxo do refluxo; as medidas conservadoras e, no lactente, o teste de exclusão do leite entram antes de qualquer requisição; o teste terapêutico com supressor de ácido vale para a criança maior com sintoma típico; e os exames instrumentais entram quando o teste falha, quando há sinal de complicação ou quando o sintoma não é digestivo.
Dentro desse último degrau, a escolha do método é ditada pela pergunta. Anatomia pede contraste. Retenção gástrica ou suspeita de aspiração pede cintilografia com aquisição tardia. Complicação da mucosa e diferencial com esofagite eosinofílica pedem endoscopia com biópsia. Relação temporal entre sintoma e refluxo pede impedanciometria com pH, ou pHmetria isolada quando aquela não estiver disponível. Motilidade pede manometria.
O que sobra fora da fila é a ultrassonografia como teste de refluxo, que os documentos recusam, e a repetição de exames normais como tentativa de encontrar uma prova que o método não produz. Uma investigação bem montada costuma ser mais curta que a requisição espontânea da família, e o tempo economizado ali é o mesmo que se ganha para tratar o que a criança realmente tem.
Falta dizer quem assina a requisição. O documento brasileiro de dois mil e dezessete fecha a questão com uma frase curta: endoscopia, pHmetria e impedanciometria só devem ser solicitadas pelo gastroenterologista pediatra. As edições seguintes trocam essa frase por caixas de encaminhamento dentro dos algoritmos, e o efeito prático é o mesmo — quem indica precisa saber qual pergunta o exame responde e qual padrão de normalidade se aplica àquela idade. Na atenção primária, portanto, a decisão que cabe é encaminhar com a pergunta escrita, e não requisitar o método.
O teste terapêutico: quem pode, e por quanto tempo
A prova com supressor de ácido é um exame disfarçado de tratamento, e é onde os documentos brasileiros mais divergem entre si. A regra de quem pode fazê-la é estável nas três edições: criança maior e adolescente, com sintoma típico — azia, dor epigástrica em queimação, dor retroesternal, dispepsia — e sem sinal de alerta. Sintoma típico e ausência de alarme são as duas condições, e nenhuma delas é dispensável.
A regra de quem não pode é ainda mais firme, e é a que a prática mais desrespeita. Não há base científica para indicar teste terapêutico no diagnóstico do lactente, porque nessa faixa os sintomas são muito menos específicos e a resposta ao tempo confunde-se com a resposta ao remédio. O guia internacional diz o mesmo em recomendação própria: a prova com inibidor de bomba não deve ser usada como teste diagnóstico no lactente.
O que muda de documento para documento é o prazo, e ele muda quatro vezes. O guia internacional fixou uma janela diagnóstica de quatro a oito semanas. O texto brasileiro de dois mil e vinte e um, repetido em dois mil e vinte e quatro, escreve quatro semanas, estendendo para doze se houver melhora clínica. A figura do algoritmo do mesmo documento brasileiro manda tirar a supressão em quatro a oito semanas. E o documento de dois mil e dezessete autoriza empiricamente o bloqueador H dois por quatro a seis semanas.
Fechar essa divergência é mais útil do que denunciá-la, porque as duas metades medem coisas diferentes. A janela de quatro a oito semanas é diagnóstica: é o prazo para decidir se o ácido explica o sintoma. A extensão até doze semanas só existe depois de melhora clínica, e portanto já é tratamento de quem respondeu, não teste de quem está sendo investigado. O que o algoritmo acrescenta é o passo que a prosa esquece: independentemente da resposta, tenta-se retirar a droga.
Na cabeceira do doente isso vira uma sequência única. Quatro a oito semanas para saber; retirada gradual ao fim do prazo, respondendo ou não; e, se o sintoma volta ao desmame ou nunca cedeu, o caso deixa de ser de prova terapêutica e passa a ser de investigação — com endoscopia e, mantida a queixa com mucosa normal, com impedanciometria para separar doença não erosiva de esôfago hipersensível e de azia funcional.
A criança que chega pelo pulmão
Tosse crônica, sibilância pouco responsiva, pneumonia de repetição e laringite recorrente formam o grupo que mais gera requisição de exame de refluxo e menos se beneficia dela. O guia internacional inverteu explicitamente a lógica antiga: recomenda não usar bloqueador H dois nem inibidor de bomba em quem tem sintoma extraesofágico, com uma exceção nomeada — a presença de sintoma típico de refluxo, ou de exame sugestivo.
O documento brasileiro de dois mil e dezessete diz a mesma coisa no corpo, com outras palavras: em asma e nas demais manifestações relacionadas, o inibidor de bomba não deve ser empírico, e fica condicionado aos casos em que se comprova a ação ácida por endoscopia, pHmetria ou impedanciometria com pH. E abre, logo adiante, uma porta estreita: asma persistente grave, com exacerbação noturna, e sintomas digestivos como azia, queimação retroesternal e epigastralgia pode receber tratamento empírico por três meses.
O item de fecho do mesmo documento reproduz essa porta sem a condição digestiva, e é essa versão encurtada que circula. A diferença não é de detalhe: sem sintoma típico associado, a criança com asma grave e nada mais entra num tratamento de três meses que o corpo do próprio documento e o guia internacional recusam. A leitura correta é a do corpo, e ela coincide com a exceção escrita na recomendação internacional.
Há ainda uma advertência clínica que precede tudo isso. Pneumonia de repetição pede investigação ampla antes de ser atribuída ao refluxo, porque causas mais frequentes disputam o mesmo quadro — imunodeficiência, infecção crônica, fibrose cística e aspiração de corpo estranho. Atribuir ao esôfago o que é do pulmão ou da imunidade adia o diagnóstico que muda o prognóstico.
Quando a suspeita persiste e a criança tem doença respiratória crônica, o exame que responde é o que correlaciona sintoma com refluxo independentemente do pH. É por isso que o lactente com displasia broncopulmonar, pneumonias de repetição no mesmo território e sibilância refratária termina na impedanciometria com pH de vinte e quatro horas, e não numa nova prova cega com supressor de ácido.
Cada exame responde uma pergunta — e recusa as outras
A tabela abaixo é a fila em forma de requisição: à esquerda o método, no meio o que ele decide, à direita o que ele não decide. Nenhuma linha se sobrepõe a outra, e é isso que torna a escolha do exame uma consequência da pergunta clínica.
- 1História e exame físico; buscar sinais de alerta. Havendo qualquer um, sair do fluxo do refluxo e investigar a hipótese que ele levanta.
- 2Lactente sem alarme: orientação à família, manter o aleitamento, evitar superalimentação, fórmula espessada se usa fórmula; e teste de exclusão da proteína do leite de vaca por 2 a 4 semanas.
- 3Criança maior/adolescente com sintoma típico e sem alarme: medidas de estilo de vida e prova com IBP por 4 a 8 semanas; ao fim do prazo, tentar retirar a droga gradualmente.
- 4Sintoma persistente, ou retorno ao desmame: encaminhar ao gastroenterologista pediatra para endoscopia digestiva alta com biópsias.
- 5Endoscopia normal com sintoma mantido: pH-impedanciometria (ou pHmetria, se aquela não estiver disponível) para separar DRGE não erosiva, esôfago hipersensível e azia funcional.
A investigação afunila
A fila encolhe da esquerda para a direita: história e sinais de alerta atendem a maioria; as medidas conservadoras e o teste de exclusão do leite atendem quase todo o resto; o exame instrumental fica para a minoria com pergunta precisa.
Sensível não é específico
Sensibilidade de ~95% com especificidade de 11% (ultrassonografia contra pHmetria): quase todo doente acende, mas quase todo saudável também. Barra grande de positivos, fatia pequena de verdadeiros — por isso o exame não entra como teste de refluxo.
Quatro relógios, uma prova
Quatro prazos para a mesma prova: 4-6 semanas (anti-H2, SBP 2017), 4-8 semanas (guia de 2018 e a figura da SBP 2021), 4 semanas estendendo a 12 (texto da SBP 2021 e 2024) e 3 meses (asma, SBP 2017). A janela diagnóstica é a interseção estreita.
A régua é a interseção
Sintoma extraesofágico só autoriza supressor de ácido dentro da interseção: asma (ou tosse, ou sibilância) E sintoma típico de refluxo, ou exame sugestivo. Fora dela, a recomendação internacional e o corpo do documento brasileiro recusam a prova.
| Exame | Responde | Não responde | Quando entra |
|---|---|---|---|
| Radiografia contrastada de esôfago, estômago e duodeno | Anatomia do trato digestório alto | Presença ou gravidade da DRGE | Disfagia, vômito bilioso, suspeita de volvo, obstrução, estenose ou membrana |
| Cintilografia esofagogástrica | Esvaziamento gástrico; aspiração pulmonar (imagem de 24 h) | Diagnóstico de DRGE (o consenso sugere não usar) | Clínica de retenção gástrica; suspeita de aspiração |
| Ultrassonografia esofagogástrica | Diagnóstico diferencial com estenose hipertrófica de piloro | DRGE — sensibilidade ~95% com especificidade de 11% | Nunca como teste de refluxo de rotina |
| pHmetria esofágica de 24 h | Exposição ácida (índice de refluxo) e correlação com sintoma | Refluxo fracamente ácido ou alcalino — some no lactente | Sintoma atípico; resposta ao tratamento; pré e pós-operatório; quando não há impedanciometria |
| Impedanciometria com pH (pH-MII) | Refluxo ácido, fracamente ácido e não ácido, correlacionado ao sintoma | Diagnóstico isolado — evidência insuficiente como técnica única | Sintoma extraesofágico; sintoma persistente com endoscopia normal |
| Endoscopia digestiva alta com biópsia | Esofagite erosiva, estenose, Barrett, esofagite eosinofílica | Presença de refluxo — endoscopia normal NÃO exclui (NERD) | Sinal de complicação; antes de escalonar supressão ácida |
| Manometria esofágica | Distúrbio de motilidade (disfagia, odinofagia, acalasia) | Diagnóstico de DRGE | Sem resposta à supressão ácida e endoscopia negativa |
Os cortes do índice de refluxo (>5% acima de 1 ano; >10% abaixo de 1 ano) são do Documento Científico da SBP de 2017. O par sensibilidade/especificidade da ultrassonografia (95%/11%) aparece tanto no guia da SBP de 2021 quanto no guia NASPGHAN/ESPGHAN de 2018, que é a fonte primária do dado.
As recomendações internacionais citadas têm número próprio: 3.1 e 3.2 (contraste), 3.3 e 3.4 (ultrassonografia), 3.9 e 3.10 (manometria), 3.13 (prova com IBP no lactente), 3.14 (prova de 4 a 8 semanas na criança maior) e 5.7 (sintoma extraesofágico).
A regra de que endoscopia, pHmetria e impedanciometria só devem ser solicitadas pelo gastroenterologista pediatra é do documento da SBP de 2017 e não aparece com essa literalidade nas edições seguintes, que a substituem por caixas de encaminhamento dentro dos algoritmos.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Prova de 4 a 8 semanas de inibidor de bomba para sintoma típico na criança maior. O mesmo intervalo é o ponto de checagem da eficácia: independentemente da resposta, após 4 a 8 semanas recomenda-se tentar retirar a droga.
NASPGHAN/ESPGHAN, guia de 2018 (Rosen et al.), recomendação 3.14 e questão 8.
Teste empírico com IBP durante 4 semanas, podendo estender esse tempo para 12 semanas se houver melhora clínica.
SBP, Guia Prático de Orientação de 2021, parágrafo do teste terapêutico empírico (repetido no guia nº 185, de 2024).
Continuar supressão ácida e tentar tirar em 4 a 8 semanas, gradativamente — o número da figura não é o número do texto do mesmo documento.
SBP, Guia Prático de Orientação de 2021, Figura 2 (algoritmo da criança maior), caixa de supressão ácida.
Nos sintomas leves a moderados, autoriza-se empiricamente o bloqueador H2 pelo prazo de quatro a seis semanas.
SBP, Documento Científico nº 2, de 2017, seção de antagonistas H2.
Na prova
O enunciado normalmente entrega qual documento está usando — cita a sociedade, o consenso de 2018 ou a diretriz brasileira. Quando não entrega, o intervalo que aparece na maioria das provas é o de 4 a 8 semanas, porque é o do guia internacional e o da figura brasileira. As 12 semanas só aparecem legitimamente quando a vinheta já diz que houve melhora clínica: aí não se está mais testando, está-se tratando quem respondeu. E há um detalhe que o candidato costuma perder: qualquer que seja o prazo, a instrução seguinte é tentar retirar a droga — questão que oferece 'manter indefinidamente' está oferecendo o erro que os três documentos combatem.
Sugere não usar bloqueador H2 nem inibidor de bomba em pacientes com sintoma extraesofágico (tosse, sibilância, asma), exceto na presença de sintoma típico de DRGE e/ou exame sugestivo.
NASPGHAN/ESPGHAN, guia de 2018, recomendação 5.7.
Em asma e demais manifestações relacionadas, o emprego de IBP não deve ser empírico, e fica condicionado aos casos em que se comprova a ação ácida por endoscopia, pHmetria ou impedâncio-pHmetria.
SBP, Documento Científico nº 2, de 2017, corpo do texto, seção de inibidores de bomba.
Pacientes com asma persistente grave e nítida exacerbação noturna podem receber tratamento empírico para DRGE com IBP pelo prazo de 3 meses — sem a condição de sintomas digestivos que o corpo do mesmo documento exige.
SBP, Documento Científico nº 2, de 2017, item 8 do fecho de recomendações.
Na prova
Não é divergência entre instituições: é o corpo de um documento contra o resumo do mesmo documento. O corpo pede asma grave com exacerbação noturna E sintomas digestivos; o item de fecho suprime a segunda metade. O corpo coincide com a exceção escrita na recomendação internacional, e é ele que deve guiar a resposta. Na prática da prova: vinheta de asma sem azia, sem dor epigástrica e sem exame sugestivo não autoriza IBP empírico — a conduta é investigar as causas que competem com o refluxo (imunodeficiência, infecção crônica, fibrose cística, corpo estranho) e, mantida a suspeita, pedir impedanciometria com pH.
Traz 'vômitos persistentes' como item isolado, lista 'dor retroesternal ou abdominal intensas' na coluna gastrointestinal e agrupa 'hematêmese/melena/enterorragia' numa entrada só.
SBP, Guia Prático de Orientação de 2021, Tabela 3 ('Sinais de alerta que sugerem outras doenças').
Reescreve o item como 'vômitos persistentes com perda de peso', retira a dor retroesternal/abdominal intensa da coluna gastrointestinal (absorvendo-a em 'irritabilidade/dor excessivas' entre os gerais), separa 'hematêmese/melena' de 'sangramento retal' e acrescenta 'aumento da circunferência cerebral' entre os neurológicos.
SBP, Guia Prático de Orientação nº 185, de 2024, Tabela 2 ('Sinais de alerta, que podem sugerir outro diagnóstico').
Na prova
A redação de 2024 é mais restritiva no item que mais aparece em vinheta: vômito persistente deixa de ser alarme por si e passa a exigir perda de peso associada. Como as duas tabelas circulam, a questão que pede 'qual dos achados é sinal de alarme' tende a escolher itens estáveis nas duas redações — vômito bilioso, hematêmese, convulsão, fontanela tensa, início dos vômitos após os 6 meses. Quando o enunciado oferece 'vômitos persistentes' sozinho, vale ler se há queda de percentil no caso: com perda de peso, é alarme nas duas versões; sem ela, só na de 2021.
Caso resolvido
- Passo 1
- Rodar a lista de sinais de alerta antes de qualquer requisição. Não há vômito bilioso, hematêmese, melena, sangramento retal, febre, letargia, convulsão nem fontanela tensa; o crescimento está preservado. A criança permanece no fluxo do refluxo — o alarme, aqui, não é digestivo.
- Passo 2
- Afastar as causas que competem com o refluxo na pneumonia de repetição. Imunodeficiência, infecção crônica, fibrose cística e aspiração de corpo estranho precedem a atribuição ao esôfago. Neste caso há um fator estrutural conhecido — a displasia broncopulmonar — que não dispensa a investigação, mas explica parte da suscetibilidade.
- Passo 3
- Reconhecer que a prova terapêutica já foi feita e falhou. Seis semanas de inibidor de bomba sem mudança respiratória encerram o teste: a recomendação internacional é avaliar eficácia e excluir causas alternativas em quem não responde a 4 a 8 semanas de terapia otimizada. Repetir a prova, ou dobrar a dose sem investigar, é o erro.
- Passo 4
- Escolher o exame pela pergunta. O que falta saber é se existe relação temporal entre episódios de refluxo e os sintomas respiratórios — e o refluxo do lactente é em boa parte não ácido, invisível à pHmetria isolada e ainda mais apagado pela dieta láctea. O exame que responde é a pH-impedanciometria intraluminal esofágica de 24 horas.
- Passo 5
- Saber o que o resultado vai e não vai fechar. Correlação positiva sustenta o tratamento antirrefluxo dirigido; correlação negativa devolve o caso ao pulmão e à imunidade, com a vantagem de retirar o supressor de ácido de uma criança que não se beneficiava dele. O exame não é veredito isolado — a evidência foi considerada insuficiente para usá-lo como técnica única de diagnóstico.
Agora feche você
- Passo 1
- Conferir os dois requisitos da prova terapêutica: sintoma típico e ausência de sinal de alerta. Azia e dor epigástrica em queimação são típicos; disfagia, odinofagia, hematêmese, melena e perda de peso estão ausentes. Idade e apresentação colocam o adolescente exatamente na população em que a prova é autorizada.
- Passo 2
- Instituir as medidas conservadoras junto com a prova, e não em vez dela: evitar refeições volumosas e altamente calóricas, reduzir alimentos gordurosos, evitar ingestão nas horas que antecedem o sono e, no adolescente, decúbito lateral esquerdo com cabeceira elevada.
- Passo 3
- Definir o prazo e o que fazer ao fim dele — inclusive se houver melhora — e dizer qual seria o próximo exame caso o sintoma persista ou retorne à retirada.
Onde a banca derruba
- 1Pedir contraste para saber se há refluxo Atrai porque é o exame mais barato, mais rápido e mais disponível, e porque o laudo às vezes descreve refluxo. O estudo contrastado avalia apenas o refluxo pós-prandial imediato e não quantifica episódios: o guia internacional sugere não usá-lo para diagnóstico e usá-lo para excluir anormalidade anatômica. Diante de disfagia, vômito bilioso ou suspeita de volvo, obstrução, estenose ou membrana, ele é o exame certo — e a pergunta, nesses casos, já não é sobre refluxo.
- 2Tratar endoscopia normal como exclusão da doença Atrai porque o exame é invasivo e a expectativa é de veredito. Boa parte dos doentes não tem lesão erosiva e é classificada como doença não erosiva; a endoscopia normal com sintoma mantido é justamente a porta da pH-impedanciometria, que separa doença não erosiva, esôfago hipersensível e azia funcional. Além disso, só se considera esofagite quando há lesão macroscópica — a alteração apenas histológica não fecha o diagnóstico, e as biópsias existem sobretudo para excluir a esofagite eosinofílica.
- 3Dar prova terapêutica com inibidor de bomba ao lactente Atrai porque o lactente irritado que regurgita parece um caso claro e porque o remédio é fácil de prescrever. Não há base científica para o teste terapêutico como ferramenta diagnóstica nessa faixa: os sintomas são inespecíficos e a melhora espontânea confunde-se com a resposta ao fármaco. O teste que cabe antes é outro — exclusão da proteína do leite de vaca por duas a quatro semanas, mantendo o aleitamento ou usando fórmula extensamente hidrolisada.
- 4Estender o teste a doze semanas em quem não melhorou Atrai porque o texto brasileiro escreve '4 semanas, podendo estender para 12'. A extensão está condicionada à melhora clínica: quem respondeu segue em tratamento, quem não respondeu sai do teste. Manter o supressor de ácido em criança que não melhorou atrasa a endoscopia, atrasa o diagnóstico diferencial e transforma um exame de prazo definido em uso crônico sem indicação.
- 5Atribuir a pneumonia de repetição ao refluxo Atrai porque a associação é intuitiva e porque a criança de fato regurgita. Antes de responsabilizar o esôfago é preciso afastar causas mais frequentes de pneumonia recorrente — imunodeficiência, infecção crônica, fibrose cística e aspiração de corpo estranho. Só depois disso, e mantida a suspeita, o exame que responde é a impedanciometria com pH, que registra também o refluxo não ácido e o correlaciona ao sintoma.
- 6Confiar na pHmetria isolada no lactente Atrai porque a pHmetria já foi tratada como padrão de referência e porque o índice de refluxo é um número objetivo. No lactente com dieta láctea o leite neutraliza o material refluído, e o episódio pós-prandial pode não ser registrado: o exame perde sensibilidade exatamente onde a queixa é mais comum. Quando existe a possibilidade, a impedanciometria acoplada ao pH é quem responde; a pHmetria isolada fica para quando aquela não está disponível.
- 7Pedir ultrassonografia como teste de refluxo Atrai porque é inócua, barata e frequentemente já foi feita. Com sensibilidade em torno de 95% e especificidade de 11%, ela transforma quase toda criança em positiva e não se correlaciona com o índice de refluxo da pHmetria. Os documentos brasileiros e o guia internacional recusam seu uso como teste diagnóstico de rotina; o papel que ela preserva é o diagnóstico diferencial com a estenose hipertrófica de piloro.
- 8Prescrever supressor de ácido para tosse isolada Atrai porque o sintoma é incômodo e a família cobra conduta. A recomendação internacional pede que não se use bloqueador H2 nem inibidor de bomba em sintoma extraesofágico, salvo quando há sintoma típico de refluxo associado ou exame sugestivo — e uma revisão sistemática não mostrou benefício dos inibidores de bomba para tosse na criança. Tosse sem azia, sem dor epigástrica e sem exame não é indicação.
O par de desempenho é o argumento: sensibilidade em torno de 95% com especificidade de apenas 11% significa que quase toda criança examinada acende como positiva, doente ou não, e a frequência de refluxo vista ao doppler não se correlaciona com o índice de refluxo medido pela pHmetria. Por isso os documentos brasileiros e o guia internacional afirmam que a ultrassonografia não diferencia refluxo fisiológico de doença e não tem papel como teste diagnóstico de rotina, preservando-lhe o diagnóstico diferencial com a estenose hipertrófica de piloro. Não se trata de jejum, de faixa etária, de detecção de refluxo não ácido nem de radiação — a ultrassonografia não usa radiação ionizante.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Menino de 11 anos com azia mantém os sintomas apesar do inibidor de bomba, e a endoscopia digestiva alta com biópsias foi inteiramente normal. Qual exame separa doença do refluxo não erosiva, esôfago hipersensível e azia funcional nesse paciente?
Com endoscopia normal e sintoma persistente, a classificação em fenótipos depende de medir exposição ácida e correlacioná-la ao sintoma: exposição ácida anormal indica doença não erosiva; exposição normal com correlação positiva indica esôfago hipersensível; exposição normal sem correlação indica azia funcional. Esse é exatamente o papel da impedanciometria acoplada ao pH, que ainda detecta refluxo fracamente ácido e não ácido. A cintilografia mede esvaziamento gástrico e aspiração; o estudo contrastado avalia anatomia; repetir a endoscopia não acrescenta, porque a mucosa já foi vista e biopsiada; e a ultrassonografia não tem papel diagnóstico no refluxo.
Durante uma sessão clínica, discute-se o prazo da prova terapêutica com inibidor de bomba na criança maior. Um residente cita o texto do guia brasileiro ('quatro semanas, podendo estender para 12') e outro cita a figura do mesmo guia ('tentar tirar em 4 a 8 semanas'). Qual leitura concilia corretamente as duas passagens?
As duas passagens medem coisas diferentes e por isso convivem. O intervalo de 4 a 8 semanas é a janela diagnóstica adotada pelo guia internacional que o documento brasileiro cita, e é também o ponto em que se avalia a eficácia e se tenta a retirada gradual da droga. A extensão até 12 semanas aparece no texto brasileiro condicionada à melhora clínica: quem melhorou já não está sendo testado, está sendo tratado. Ler o prazo maior como prolongamento do teste faz uma criança sem resposta ficar meses sob supressão ácida sem investigação, que é justamente o que os documentos combatem ao recomendar a tentativa de desmame.
Menina de 6 anos com queixa de dificuldade para engolir alimentos sólidos, sensação de parada retroesternal e dor ao deglutir, sem azia, mantém os sintomas após oito semanas de inibidor de bomba. A endoscopia digestiva alta com biópsias foi normal. Qual exame o guia internacional sugere considerar nesse ponto?
Disfagia e odinofagia são os sintomas que chamam o estudo de motilidade, e o guia internacional traz duas recomendações consecutivas: não usar manometria para diagnosticar doença do refluxo e considerá-la quando se suspeita de distúrbio de motilidade. O cenário descrito — falha da supressão ácida com endoscopia negativa e sintoma de transporte, não de queimação — é exatamente aquele em que a manometria é útil, inclusive para identificar acalasia e outras condições que imitam refluxo. A ultrassonografia não é teste de refluxo, a cintilografia responde por esvaziamento e aspiração, a pHmetria não explica disfagia com mucosa normal e o estudo contrastado avalia anatomia, não motilidade quantificada.
Menina de 9 anos, com asma persistente grave e exacerbações noturnas frequentes, é encaminhada para avaliação de refluxo. Ela nega azia, dor retroesternal, dor epigástrica, regurgitação e vômito. Nunca fez exame do trato digestivo. Segundo a recomendação internacional de 2018 e o corpo do documento brasileiro de 2017, qual é a conduta?
A recomendação internacional sugere não usar bloqueador H2 nem inibidor de bomba em sintoma extraesofágico (tosse, sibilância, asma), com uma exceção nomeada: presença de sintoma típico de refluxo e/ou exame sugestivo. O corpo do documento brasileiro de 2017 diz o mesmo — em asma, o inibidor de bomba não deve ser empírico e fica condicionado à comprovação da ação ácida por endoscopia, pHmetria ou impedanciometria — e a porta que ele abre para o tratamento empírico de três meses exige asma grave com exacerbação noturna E sintomas digestivos, que aqui não existem. O estudo contrastado não diagnostica refluxo, e a cintilografia com imagem imediata avalia esvaziamento, não a relação com o sintoma respiratório.
Recém-nascido de 12 dias, a termo, que eliminou mecônio nas primeiras 24 horas, inicia subitamente vômitos esverdeados, irritabilidade e distensão abdominal. Estava em aleitamento materno exclusivo e vinha bem. A mãe relata que ele 'sempre golfou um pouco'. Qual é a leitura correta do quadro?
Vômito bilioso é sinal de alerta nas duas redações da tabela brasileira e retira a criança do algoritmo do refluxo: a instrução é investigar outra doença. Em recém-nascido que já eliminou mecônio e abre quadro súbito, a hipótese que corre contra o relógio é a obstrução por má rotação com volvo de intestino médio, e o exame indicado é justamente o estudo contrastado do trato digestório alto, que o guia recomenda para excluir anormalidade anatômica. Tratar o quadro como refluxo, como alergia ao leite ou como intolerância à lactose desperdiça o intervalo em que o intestino ainda é viável.
Menino de 13 anos é atendido na atenção primária por azia e dor epigástrica em queimação há três meses, sem disfagia, hematêmese, vômito ou perda de peso, com exame físico e curva de crescimento normais. A mãe pede uma endoscopia para 'confirmar o refluxo'. Qual conduta corresponde ao que os guias brasileiro e internacional recomendam nesse cenário?
Adolescente com sintoma típico (azia, dor epigástrica em queimação) e sem sinal de alerta é exatamente a população em que a prova terapêutica com inibidor de bomba é autorizada, por 4 a 8 semanas, associada às medidas conservadoras; ao fim do prazo, recomenda-se tentar a retirada gradual, tenha ou não havido melhora. A endoscopia não diagnostica refluxo — ela procura complicação e diferencial, e endoscopia normal não exclui a doença. O estudo contrastado avalia anatomia, não refluxo. A ultrassonografia tem especificidade de apenas 11% e não tem lugar como teste de refluxo. E nenhum exame é padrão-ouro: a pHmetria mede exposição ácida e tem indicação restrita.
Adolescente de 15 anos com azia diária completou oito semanas de inibidor de bomba de prótons em dose adequada, com boa adesão, e mantém os sintomas. Não tem disfagia, perda de peso, anemia nem sangramento. Qual é o próximo passo?
Sintoma que persiste apesar de 4 a 8 semanas de terapia otimizada encerra a prova terapêutica: a recomendação é avaliar a eficácia, checar adesão, revisar diferenciais e prosseguir com investigação. O caminho do algoritmo é o encaminhamento ao gastroenterologista pediatra para endoscopia com biópsias, que busca esofagite erosiva, estenose, Barrett e o diferencial com esofagite eosinofílica. A extensão para 12 semanas descrita no texto brasileiro está condicionada à melhora clínica, que aqui não houve. A ultrassonografia não é teste de refluxo, e a manometria não diagnostica a doença — ela entra quando se suspeita de distúrbio de motilidade, tipicamente após endoscopia negativa.
Lactente de 4 meses, em aleitamento materno exclusivo, regurgita várias vezes ao dia desde a terceira semana de vida, sem esforço, sem bile e sem sangue. Mama com avidez, dorme bem, está no percentil 50 e sobe na curva. Exame físico normal. A avó insiste em 'um exame de refluxo'. Qual é a conduta correta?
Regurgitação de pequeno volume, sem esforço, iniciada nas primeiras semanas, em lactente que mama bem e ganha peso, é refluxo gastroesofágico fisiológico — evento normal que se resolve com o amadurecimento e que não tem indicação de exame nenhum. A pHmetria, além de indicação restrita, perde sensibilidade justamente no lactente, porque a dieta láctea neutraliza o material refluído. A prova com inibidor de bomba não vale como teste diagnóstico nessa faixa etária. O estudo contrastado avalia anatomia e não diagnostica nem exclui a doença. Trocar o leite materno por fórmula contraria a orientação de manter o aleitamento.
Lactente de 3 meses, em aleitamento materno exclusivo, apresenta regurgitações frequentes acompanhadas há três semanas de choro prolongado às mamadas, recusa alimentar intermitente e queda de dois percentis de peso. Não há vômito bilioso, hematêmese, febre nem alteração neurológica. Qual é o passo terapêutico que os algoritmos brasileiros colocam antes de qualquer exame?
No lactente sintomático sem sinal de alerta, os algoritmos brasileiros colocam o teste terapêutico para alergia à proteína do leite de vaca antes de qualquer exame e antes de qualquer supressor de ácido: em quem mama, isso significa excluir leite de vaca e derivados da dieta da nutriz por duas a quatro semanas, mantendo o aleitamento; em quem usa fórmula, trocar por extensamente hidrolisada ou de aminoácidos pelo mesmo prazo. A prova com inibidor de bomba não vale como teste diagnóstico nessa faixa etária. A pHmetria perde sensibilidade na dieta láctea, a cintilografia responde a outra pergunta e substituir o leite materno por fórmula contraria a orientação de manter o aleitamento.
Lactente de 5 meses, em aleitamento materno com mamadeiras de fórmula, foi submetido a pHmetria esofágica de 24 horas por sintomas respiratórios recorrentes. O laudo informa índice de refluxo de 6%. Considerando os parâmetros do documento brasileiro e os limites do método, qual é a interpretação correta?
O documento brasileiro considera anormal o índice de refluxo — a fração do tempo estudado em que o pH ficou abaixo de quatro — acima de 5% na criança com mais de um ano e acima de 10% abaixo de um ano, de modo que 6% num lactente de 5 meses fica dentro do esperado pelo critério. O que o resultado não faz é afastar a doença. A pHmetria enxerga apenas o refluxo ácido e deixa de fora o fracamente ácido e o alcalino, e essa cegueira tem endereço etário: no lactente, cuja dieta é predominantemente láctea, o próprio leite neutraliza o conteúdo que sobe, e o refluxo pós-prandial pode simplesmente não ser detectado — o exame perde sensibilidade justamente na faixa em que a queixa é mais frequente. Concluir que os episódios são fracamente ácidos inverte a lógica, porque a pHmetria não os registra e por isso não pode caracterizá-los. E nenhum exame é padrão-ouro do diagnóstico: a pergunta que sobrou, se existe relação temporal entre o material que sobe e o sintoma respiratório, é respondida pela impedanciometria com pH.
Sobre os exames na investigação do refluxo gastroesofágico na criança, qual afirmação está correta?
O diagnóstico da doença do refluxo é clínico e nenhum método isolado o confirma — cada exame responde uma pergunta diferente: a impedanciopHmetria quantifica episódios ácidos e não ácidos e correlaciona com sintomas, a endoscopia avalia complicação da mucosa e afasta esofagite eosinofílica, e a seriografia estuda anatomia, servindo para excluir má rotação e estenose, não para diagnosticar refluxo. Chamar a pHmetria de padrão-ouro universal é o erro clássico. Endoscopia normal é comum na doença do refluxo sem esofagite e não exclui nada.
Adolescente de 13 anos com disfagia progressiva para sólidos, impactação alimentar prévia e pirose que não melhorou com 8 semanas de inibidor de bomba. Qual a próxima conduta?
Disfagia com impactação e refratariedade ao inibidor de bomba levanta esofagite eosinofílica, e o diagnóstico exige endoscopia com biópsias escalonadas de esôfago proximal e distal — pelo menos seis fragmentos — porque a mucosa pode parecer normal ao olho. Insistir em dose dobrada por meses perde tempo e é justamente o cenário que define a refratariedade. A cirurgia antirrefluxo em esofagite eosinofílica não resolve e pode piorar a disfagia. Manometria investiga acalasia, hipótese secundária aqui. Dieta empírica sem biópsia impede o diagnóstico histológico posterior.
Criança de 3 anos com tosse crônica noturna, pigarro e rouquidão, sem sibilância e com radiografia de tórax normal. A mãe relata que os sintomas pioram após jantar tardio. Qual a conduta inicial mais adequada?
Tosse, pigarro e rouquidão são inespecíficos. Piora após jantar tardio pode motivar orientações e investigação, mas não confirma DRGE. A NASPGHAN/ESPGHAN não recomenda teste de IBP para manifestações extraesofágicas isoladas sem sintomas típicos ou evidência diagnóstica compatível. A avaliação deve considerar outras causas da tosse; ausência de sibilância e radiografia normal não excluem todas elas. Exames complementares são selecionados conforme a história e evolução. Corticoide em dose alta, antitussígeno central ou cirurgia não constituem respostas automáticas ao quadro descrito.
Em qual situação a endoscopia digestiva alta com biópsias está indicada em criança com sintomas de refluxo?
A endoscopia responde perguntas específicas sobre a mucosa e é indispensável quando há sinais de alarme ou quando é preciso diferenciar esofagite péptica de eosinofílica, cujo tratamento é completamente diferente. Indicá-la em toda regurgitação submeteria lactentes a sedação e procedimento sem mudança de conduta. Choro isolado, sem outros achados, tem baixíssimo rendimento diagnóstico nesse exame.
Criança de 4 anos apresenta pneumonias de repetição, tosse crônica noturna e episódios de engasgo durante as refeições. Qual investigação deve ser considerada?
Engasgo durante as refeições aponta para aspiração durante a deglutição, mecanismo distinto do refluxo com aspiração retrógrada, e o estudo dinâmico da deglutição é o exame que responde a essa pergunta, muitas vezes revelando alteração neurológica ou anatômica subjacente. Tratar apenas como asma ou como refluxo é o caminho que mantém a criança em pneumonias de repetição. Fístula traqueoesofágica em H e anel vascular também entram no diferencial.
Qual é a limitação principal dos exames complementares na investigação da doença do refluxo gastroesofágico na criança?
A pHmetria com impedância mede episódios de refluxo, mas sua correlação com sintomas é imperfeita, a endoscopia mostra esofagite quando existe e serve para excluir esofagite eosinofílica, e o estudo contrastado avalia anatomia e obstruções, não refluxo patológico. Por isso o diagnóstico se apoia na história e no exame, com os exames respondendo perguntas específicas. Tratar o estudo contrastado como padrão-ouro é equívoco frequente que gera diagnósticos falsos.
Menino de 8 anos com asma persistente moderada em uso regular de corticoide inalatório e beta-2 de resgate apresenta há 4 meses tosse crônica noturna e sibilância de difícil controle, sem pirose, regurgitação, dor epigástrica ou disfagia. Ganho ponderal adequado, sem sinais de alerta. Foi encaminhado com hipótese de DRGE como causa dos sintomas respiratórios. Qual é a conduta mais adequada em relação à investigação e ao tratamento antirrefluxo?
A NASPGHAN/ESPGHAN 2018 (recomendação 5.7) e a SBP orientam não usar IBP ou anti-H2 em manifestações extraesofágicas isoladas (tosse, sibilância, asma) sem sintoma típico de refluxo ou exame sugestivo. Deve-se otimizar o tratamento da doença de base e afastar competidores (rinite, infecção, aspiração, imunodeficiência, fibrose cística). Persistindo a suspeita, o exame que melhor avalia refluxo em pediatria — inclusive não ácido, comum em crianças — é a impedanciopHmetria de 24 horas. Referências: NASPGHAN/ESPGHAN Pediatric Gastroesophageal Reflux Clinical Practice Guidelines 2018 — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29470322/ SBP – Refluxo e Doença do Refluxo Gastroesofágico em Pediatria (GPO 2021) — https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/23224c-GPO-Refluxo_e_Doenca_RefluxoGastroesof_em_Pediatria.pdf
Menina de 10 anos com pirose e regurgitação diárias há 6 meses foi tratada com omeprazol em dose plena por 8 semanas, com melhora parcial e recorrência ao desmame. Foi encaminhada ao gastroenterologista pediatra, que realizou endoscopia digestiva alta com biópsias: mucosa esofágica de aspecto normal, sem erosões, sem eosinofilia significativa e sem outras alterações histológicas relevantes. A paciente mantém sintomas típicos. Qual é a conduta mais adequada para prosseguir a investigação?
Endoscopia normal não exclui DRGE, pois esofagite erosiva ocorre em apenas cerca de 30% dos casos; a maioria dos pacientes tem doença não erosiva (NERD). Diante de sintomas típicos persistentes e endoscopia sem lesão, a impedanciopHmetria de 24 horas permite quantificar a exposição ácida (índice de refluxo) e correlacionar sintomas com episódios de refluxo — inclusive não ácidos —, diferenciando NERD (exposição anormal), esôfago hipersensível (exposição normal com correlação positiva) e pirose funcional (exposição normal sem correlação). Referências: NASPGHAN/ESPGHAN Pediatric Gastroesophageal Reflux Clinical Practice Guidelines 2018 — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29470322/ SBP – Guia Prático de Orientação nº 185: Doença do Refluxo Gastroesofágico (2024) — https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/24664f-GPO_-_Doenca_de_Refluxo_Gastroesofagico_SITE.pdf
Menino de 6 anos, previamente hígido, é levado à emergência pediátrica por episódio único de vômito com sangue vivo em pequena quantidade, ocorrido há 2 horas. Há cerca de 4 meses queixa-se de dor epigástrica em queimação intermitente, sem relação clara com alimentação, sem pirose, sem regurgitação e sem disfagia. Ganho ponderal adequado, exame físico sem alterações, hemodinamicamente estável, hemoglobina de 12,3 g/dL. A família nega uso de anti-inflamatórios e não há relato de ingestão de cáustico. Considerando as diretrizes vigentes, qual é a conduta mais adequada em relação à investigação?
A hematêmese é um sinal de alerta clássico nas tabelas de sinais de alarme da SBP e da NASPGHAN/ESPGHAN e retira o caso do fluxo do refluxo. Diante de sangramento digestivo, a prova terapêutica empírica com IBP não é adequada: é necessário investigar diretamente a mucosa para identificar esofagite erosiva, úlcera péptica, varizes ou outras causas, o que se faz por endoscopia digestiva alta com biópsias em serviço de gastroenterologia pediátrica. Referências: SBP – Guia Prático de Orientação nº 185: Doença do Refluxo Gastroesofágico (2024) — https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/24664f-GPO_-_Doenca_de_Refluxo_Gastroesofagico_SITE.pdf NASPGHAN/ESPGHAN Pediatric Gastroesophageal Reflux Clinical Practice Guidelines 2018 — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29470322/
Adolescente de 15 anos, com regurgitação pós-prandial sem esforço e remastigação há cinco meses, recebeu diagnóstico de síndrome de ruminação após avaliação apropriada. Não apresenta disfagia, sintomas noturnos, doença orgânica explicativa ou transtorno alimentar. O quadro prejudica as refeições na escola. Qual intervenção inicial é mais diretamente voltada ao mecanismo dos episódios?
A abordagem comportamental ensina uma resposta que compete com o padrão de regurgitação, como respiração diafragmática. Ela deve ser explicada e treinada, com acompanhamento. Atribuir os episódios automaticamente a ácido, esvaziamento lento ou alergia desvia o tratamento do mecanismo identificado. Referências: GIKids / NASPGHAN — Rumination Disorder — https://gikids.org/digestive-topics/rumination-disorder/
Lactente de 4 meses, em aleitamento materno exclusivo, é levado à consulta com queixa de regurgitações várias vezes ao dia após as mamadas, iniciadas no primeiro mês de vida. A mãe refere choro pós-prandial, arqueamento do tronco e sono fragmentado. Ao exame: ganho pôndero-estatural adequado no percentil 50, abdome flácido, sem visceromegalias, sem sinais de desidratação. Nega vômito bilioso, hematêmese, sangue nas fezes, febre, letargia ou dificuldade respiratória. O pediatra plantonista sugere iniciar omeprazol "como teste diagnóstico" para doença do refluxo gastroesofágico. Considerando as diretrizes da SBP e da NASPGHAN/ESPGHAN, qual é a conduta mais adequada neste momento?
Lactente com regurgitações recorrentes, ganho ponderal adequado e sem sinais de alerta configura refluxo gastroesofágico fisiológico ou, na presença de sintomas incomodativos como choro e arqueamento, uma síndrome que se sobrepõe amplamente à alergia à proteína do leite de vaca (APLV). As diretrizes brasileiras e a NASPGHAN/ESPGHAN 2018 são explícitas ao NÃO recomendar teste terapêutico empírico com supressor ácido (IBP ou anti-H2) em lactentes, tanto pela ausência de superioridade em relação ao placebo quanto pelos riscos associados (aumento de gastroenterite, pneumonia e enterocolite necrosante). O passo correto após medidas conservadoras é o teste de exclusão da proteína do leite de vaca por 2 a 4 semanas — na criança em aleitamento materno, mediante dieta de exclusão materna — antes de qualquer investigação instrumental de DRGE. Exames como pHmetria, impedanciopHmetria e endoscopia ficam reservados a falha da abordagem inicial e devem ser solicitados pelo gastroenterologista pediatra. Referências: SBP – Guia Prático de Orientação nº 185: Doença do Refluxo Gastroesofágico (2024) — https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/24664f-GPO_-_Doenca_de_Refluxo_Gastroesofagico_SITE.pdf NASPGHAN/ESPGHAN Pediatric Gastroesophageal Reflux Clinical Practice Guidelines 2018 — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29470322/ SBP – Guia Prático de Orientação: Refluxo e Doença do Refluxo Gastroesofágico em Pediatria — https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/23224c-GPO-Refluxo_e_Doenca_RefluxoGastroesof_em_Pediatria.pdf
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em 7 dias
Nenhum exame é padrão-ouro do refluxo: cada um responde uma pergunta diferente e a pergunta vem antes da requisição. Contraste desenha anatomia e não diagnostica refluxo. Cintilografia mede esvaziamento gástrico e aspiração, com imagem tardia de 24 h. Ultrassonografia não é teste de refluxo (sensibilidade ~95%, especificidade 11%) e serve ao diferencial com estenose de piloro. pHmetria mede exposição ácida (índice de refluxo anormal acima de 5% após 1 ano, acima de 10% antes) e some no lactente, cuja dieta láctea neutraliza o ácido. Impedanciometria com pH vê o refluxo não ácido e correlaciona com sintoma, mas não basta sozinha para diagnosticar. Endoscopia com biópsia procura complicação e esofagite eosinofílica — normal, não exclui.
em 30 dias
A prova terapêutica é exame, não tratamento: cabe à criança maior e ao adolescente com sintoma típico e sem sinal de alerta, por 4 a 8 semanas, com tentativa de retirada ao fim do prazo, respondendo ou não. No lactente ela não vale como teste diagnóstico — o que vem antes é a exclusão da proteína do leite de vaca por 2 a 4 semanas. Em sintoma extraesofágico (tosse, sibilância, asma), supressor de ácido só com sintoma típico associado ou exame sugestivo. Sinal de alerta tira a criança do fluxo do refluxo e abre outra investigação: vômito bilioso, hematêmese, sangramento retal, convulsão, fontanela tensa, vômito que começa após os 6 meses ou persiste após os 12.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Treine a consulta em que a família chega com a requisição pronta: o lactente que regurgita e ganha peso, o adolescente com azia que quer endoscopia, a criança com tosse crônica que já tomou supressor de ácido. Em todos, o exercício é o mesmo — nomear a pergunta clínica antes de escolher o método, dizer em voz alta o que o exame pedido não responderia e explicar o prazo do que for prescrito, incluindo a data em que a droga começará a ser retirada. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
