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Exames do refluxo na criança: nenhum confirma, e o teste tem quatro prazos

Exames do refluxo gastroesofágico na criança: indicação, ordem e limites

Quatro documentos da mesma sociedade dão quatro prazos ao mesmo teste com inibidor de bomba, e nenhum deles o autoriza no lactente.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Em uma discussão de caso, um interno afirma que a ultrassonografia esofagogástrica com doppler pode ser usada como rastreio de doença do refluxo na criança, porque tem sensibilidade em torno de 95%. Qual é a objeção correta a essa proposta?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata de um pedido, não de uma doença: a decisão de investigar refluxo numa criança que já foi examinada. O eixo é qual exame responde a qual pergunta, em que ordem eles entram e o que cada um deixa em aberto — incluindo a prova terapêutica com supressor de ácido, que é um teste antes de ser um tratamento.

Ficam de fora, com capítulo próprio nesta mesma apostila, a separação clínica entre regurgitação fisiológica e doença do refluxo no lactente e a régua brasileira de fármaco, rótulo e disponibilidade; a endoscopia com biópsia de duodeno da doença celíaca; e a ultrassonografia de abdome como exame de dor, massa e abdome agudo da criança. Os critérios sonográficos do piloro, da invaginação e das vias biliares pertencem à apostila de Cirurgia Pediátrica.

Entra aqui o que nenhum desses vizinhos cobre: o desempenho e o limite de cada método de investigação esofágica na criança, a fila em que eles se organizam e o prazo do teste terapêutico — que os documentos brasileiros escrevem de quatro maneiras diferentes e que nenhum deles autoriza no lactente.

03

O que muda decisão

O pedido chega antes da pergunta

Como usar este capítulo: primeiro defina se há sinais de alerta e qual pergunta precisa ser respondida. Contraste avalia anatomia, pHmetria mede exposição ácida, impedanciometria detecta refluxo não ácido e endoscopia procura complicações; nenhum exame isolado substitui o diagnóstico clínico.

A criança com queixa digestiva alta costuma chegar ao consultório com um pedido já formado pela família ou pelo colega que encaminhou: investigar refluxo. O guia brasileiro mais recente responde a esse pedido com uma frase seca, que vale como ponto de partida de qualquer raciocínio sobre exames — nenhum exame é considerado padrão-ouro para o diagnóstico da doença do refluxo gastroesofágico. Cada método tem prós, contras e indicações específicas, e a lista deles não é uma escada de confirmação.

A consequência prática é que a pergunta clínica precisa vir antes da requisição. O documento de dois mil e dezessete diz o mesmo por outro caminho: o exame ideal deveria documentar o refluxo, detectar suas complicações e estabelecer a relação de causa e efeito entre refluxo e sintoma, e nenhum teste isolado preenche essas três exigências ao mesmo tempo. Como cada exame avalia um aspecto diferente, é esperado que a correlação entre eles seja pobre.

Isso muda o que se espera de um resultado. Um estudo que volta normal não devolve a criança ao ponto de partida, e um estudo alterado não encerra a discussão: o que ele acrescenta depende inteiramente de qual das três exigências ele foi capaz de atender. A endoscopia identifica esofagite; a pHmetria mede a exposição ácida; a impedanciometria detecta o material que sobe independentemente do pH; o contraste desenha a anatomia. São quatro perguntas distintas.

O erro que essa arquitetura produz é sempre o mesmo: pedir um exame para confirmar um diagnóstico que é clínico, e depois tratar o resultado como veredito. Quem organiza a investigação por perguntas — há anormalidade anatômica? há esofagite? há relação temporal entre o sintoma e o refluxo? — chega ao mesmo consultório com uma requisição menor e uma conclusão mais firme.

Vale nomear desde já a hierarquia que os documentos brasileiros desenham, porque ela não é a ordem em que os exames costumam ser pedidos. O que separa refluxo fisiológico de doença é a avaliação clínica, e ela não delega essa tarefa a nenhum método. Os exames servem a três funções laterais: mostrar anormalidade anatômica, mostrar complicação de mucosa e medir a relação entre o material que sobe e o sintoma que a criança tem. Nenhuma dessas três funções é o diagnóstico em si, e é por isso que uma criança pode sair da consulta com o diagnóstico feito e nenhuma requisição na mão.

Regurgitar não é adoecer

O primeiro filtro é anterior a qualquer exame e é gratuito. O refluxo gastroesofágico é evento fisiológico, que ocorre várias vezes ao dia em lactentes, crianças, adolescentes e adultos saudáveis. Regurgitação é o nome que se dá ao refluxo quando o conteúdo é visível. No lactente, o refluxo fisiológico raramente começa antes da primeira semana de vida ou depois dos seis meses, e resolve-se sozinho até os dois anos na maioria dos casos.

A doença começa onde aparecem sintomas ou complicações que trazem morbidade — recusa alimentar, irritabilidade sustentada, choro com o mamar, parada de ganho de peso, dor, sangramento, sintoma respiratório atribuível. O lactente que golfa várias vezes ao dia, mama com avidez, dorme bem e sobe na curva não tem doença e não tem indicação de investigação nenhuma: o que ele tem é uma família preocupada, e o que muda o desfecho é a explicação.

Essa separação tem consequência direta sobre a fila dos exames. O documento brasileiro pergunta, em voz alta, se é preciso tanto bloqueio ácido numa doença benigna e autolimitada que melhora com o amadurecimento — e a pergunta não é retórica, porque cada requisição arrasta consulta, espera, custo e, quando o resultado é ambíguo, mais requisição. A criança que não precisa do exame também não precisa da ansiedade que ele instala em casa.

Há ainda um diferencial que precede a investigação esofágica no lactente: a alergia à proteína do leite de vaca imita a doença do refluxo com fidelidade suficiente para que os algoritmos brasileiros coloquem o teste terapêutico com exclusão do leite antes de qualquer exame. Manter o aleitamento com dieta de exclusão para a nutriz, ou trocar por fórmula extensamente hidrolisada quando não há aleitamento, por duas a quatro semanas, é o passo que vem primeiro.

Os sinais de alerta mudam o algoritmo

Antes de decidir qual exame pedir, existe uma pergunta que decide se o algoritmo do refluxo é o algoritmo certo. Os documentos brasileiros abrem os dois fluxos — o do lactente e o da criança maior — com a mesma caixa: história e exame físico, e a seguir a busca por sinais de alerta. Havendo qualquer um deles, a instrução é sair do fluxo e investigar outra doença, porque a lista não descreve refluxo grave, e sim outra coisa se apresentando como refluxo.

A lista é organizada em três colunas. Entre os gerais estão febre, letargia, irritabilidade ou dor excessivas, falha acentuada de crescimento com emagrecimento e disúria. Entre os neurológicos, fontanela tensa, macrocefalia ou microcefalia, aumento da circunferência craniana e convulsões. Entre os digestivos, vômito persistente, vômito noturno, vômito bilioso, hematêmese e melena, sangramento retal, diarreia crônica, distensão abdominal e o vômito que começa depois dos seis meses ou persiste depois dos doze.

Duas entradas dessa lista carregam mais peso do que as outras no lactente. O vômito bilioso desloca a criança para a suspeita de obstrução, e o relógio da má rotação com volvo é curto demais para caber numa fila de investigação de refluxo. O vômito que se inicia depois dos seis meses ou que persiste depois dos doze contraria a história natural da regurgitação fisiológica, e por isso deixa de ser tranquilizador exatamente quando a família mais espera ser tranquilizada.

A criança que passa por esse filtro sem acender nada segue no fluxo do refluxo. A que acende qualquer item sai dele — e a investigação que se abre é a da hipótese que o sinal levantou, não a do esôfago. É por isso que a lista aparece antes dos exames em todos os algoritmos: ela não escolhe o método, ela escolhe a doença que se vai investigar.

O contraste responde por anatomia

A radiografia contrastada de esôfago, estômago e duodeno é barata, rápida e amplamente disponível, e é o exame que mais aparece em requisição de refluxo sem ter qualquer papel diagnóstico ali. O guia brasileiro é explícito: não é adequado ao diagnóstico da doença do refluxo. Ele avalia apenas o refluxo pós-prandial imediato, num intervalo curto e artificial, e não tem como quantificar episódios ao longo do dia.

O guia internacional que os documentos brasileiros citam separa a mesma coisa em duas recomendações consecutivas: uma sugere não usar o estudo contrastado para diagnosticar a doença, e a seguinte sugere usá-lo para excluir anormalidade anatômica. As duas convivem porque o exame não erra — o que erra é a pergunta. Quem pede contraste para saber se há refluxo recebe uma resposta sem valor; quem pede para saber se há obstrução recebe a resposta certa.

As situações em que ele entra são nomeadas: disfagia, vômito bilioso e suspeita de volvo, obstrução, estenose ou membrana no esôfago, no estômago ou no duodeno. Repare que essa lista se sobrepõe quase inteiramente à coluna digestiva dos sinais de alerta — o que é coerente, porque é justamente a criança que saiu do fluxo do refluxo quem precisa da anatomia desenhada.

O corolário clínico é direto e economiza consulta. Diante do lactente que vomita, o contraste não é o exame que diz se ele tem doença do refluxo; é o exame que diz se ele tem uma barreira mecânica ou uma rotação intestinal incompleta. Quando o motivo do pedido não é anatômico, a requisição está no exame errado, e o resultado — normal ou alterado — não vai mudar a conduta.

Há um efeito colateral desse mal-entendido que aparece muito na prática. O laudo do estudo contrastado às vezes descreve refluxo, porque durante o exame o contraste realmente sobe; e essa frase, lida como confirmação, autoriza tratamento em criança que não tem doença e tranquiliza a família na criança que tem outra. Um laudo que registra refluxo durante uma aquisição de poucos minutos não diz nada sobre a exposição ao longo do dia, sobre a existência de esofagite ou sobre a relação com o sintoma — as três coisas que a decisão precisa saber.

Cintilografia e ultrassonografia respondem outra pergunta

A cintilografia esofagogástrica tem a mesma limitação temporal do contraste: avalia o refluxo pós-prandial imediato. Suas vantagens são outras — identifica o refluxo mesmo depois de dieta com pH neutro, mede o esvaziamento gástrico e pode detectar aspiração pulmonar, para o que é preciso imagem tardia de vinte e quatro horas. O guia mais recente sugere não usá-la para diagnosticar a doença do refluxo.

A ressalva mais útil está no que ela mede bem. Esvaziamento gástrico lento não confirma doença do refluxo, e por isso a pesquisa só se justifica em quem tem clínica de retenção gástrica. E cintilografia negativa não exclui aspiração pulmonar: quem procura microaspiração precisa da aquisição tardia, e mesmo assim o achado entra como peça de um raciocínio, não como prova.

A ultrassonografia esofagogástrica é o exemplo mais didático de exame com números bons e utilidade ruim. Comparada à pHmetria de vinte e quatro horas, sua sensibilidade fica em torno de noventa e cinco por cento, mas a especificidade é de onze por cento — e a frequência de refluxo que ela detecta não se correlaciona com o índice de refluxo medido pela pHmetria. Sensibilidade alta com especificidade baixa transforma quase todo mundo em positivo.

Daí a conclusão brasileira, escrita sem meio-termo: da maneira como vem sendo usada, a ultrassonografia não diferencia refluxo fisiológico de doença, não auxilia o pediatra no dia a dia e não tem lugar como teste diagnóstico de rotina, nem no lactente nem na criança maior. Ela guarda um papel preciso e diferente — o diagnóstico diferencial com a estenose hipertrófica de piloro, cujos critérios sonográficos têm endereço próprio na apostila de Cirurgia Pediátrica.

A pHmetria mede ácido, e o leite apaga o ácido

A pHmetria esofágica de vinte e quatro horas registra continuamente o pH dentro do esôfago e quantifica frequência, duração e tempo total de exposição ácida. O parâmetro que carrega a leitura é o índice de refluxo — a fração do tempo estudado em que o pH ficou abaixo de quatro. O documento brasileiro de dois mil e dezessete considera anormal o índice acima de cinco por cento na criança com mais de um ano, e acima de dez por cento abaixo de um ano.

Suas vantagens são reais: avalia a criança em condições fisiológicas, por período longo, e permite correlacionar episódios de refluxo com sinais e sintomas registrados no diário do exame. Foi tratada por muito tempo como padrão de referência, e deixou de sê-lo por um motivo específico e não por moda — ela enxerga apenas o refluxo ácido, e deixa de fora o fracamente ácido e o alcalino.

Essa cegueira tem endereço etário. No lactente, cuja dieta é exclusiva ou predominantemente láctea, o próprio leite neutraliza o conteúdo que sobe, e o refluxo pós-prandial pode simplesmente não ser detectado. Ou seja: o exame perde sensibilidade justamente na faixa em que a queixa de refluxo é mais frequente. Um traçado normal num lactente que mama a cada três horas informa menos do que parece.

As indicações que os documentos brasileiros repetem são estreitas e coerentes com o que o método faz: avaliar sintoma atípico ou extradigestivo, pesquisar refluxo oculto, avaliar a resposta ao tratamento em quem tem esôfago de Barrett ou doença de difícil controle, e a avaliação anterior e posterior à cirurgia antirrefluxo. Quando não há impedanciometria disponível, a pHmetria assume o papel de correlacionar sintoma com ácido e de medir a eficácia da supressão.

A impedanciometria enxerga o refluxo sem ácido

A impedanciometria intraluminal esofágica detecta o movimento retrógrado de líquidos, sólidos e ar em qualquer nível do esôfago, medindo variações de resistência elétrica em múltiplos canais. Por não depender do pH, ela vê o que a pHmetria não vê: os episódios fracamente ácidos e não ácidos. Na prática é usada acoplada ao sensor de pH, e o exame combinado é superior à medida isolada de pH para relacionar sintoma e refluxo no tempo.

É esse ganho que a torna o exame de escolha da criança cujo sintoma não é digestivo. Quando a queixa é respiratória e a pergunta é se o material que sobe tem relação temporal com a tosse, com a sibilância ou com a pneumonia de repetição, o método que responde é o que registra também o refluxo não ácido e o correlaciona com o sintoma anotado — porque o refluxo do lactente é, em boa parte, não ácido.

A ressalva vem no mesmo parágrafo e é fácil de perder. O guia internacional considerou insuficiente a evidência para indicar a impedanciometria com pH como técnica única de diagnóstico da doença em lactentes e crianças, e os padrões de normalidade por faixa etária pediátrica não estão bem estabelecidos. O exame é melhor que o anterior e ainda assim não é o veredito que a requisição costuma esperar dele.

O que ele decide bem é o desfecho da criança maior que já tomou supressor de ácido e continua sintomática com endoscopia normal. Exposição ácida anormal aponta doença não erosiva; exposição normal com correlação positiva entre sintoma e refluxo aponta esôfago hipersensível; exposição normal sem correlação aponta azia funcional. São três diagnósticos com tratamentos diferentes, e nenhum outro exame os separa.

Essa separação vale a consulta porque muda a prescrição em direções opostas. A doença não erosiva responde ao bloqueio ácido e justifica mantê-lo; o esôfago hipersensível responde parcialmente e pede que se some ao bloqueio o manejo da percepção do sintoma; a azia funcional não se beneficia de mais ácido bloqueado, e insistir nele adia a conversa que resolve. Sem o exame, os três recebem a mesma receita, e dois deles seguem sintomáticos com a explicação de que o remédio precisa de mais tempo.

Esquema de um cateter fino dentro do esôfago, com vários pares de anéis distribuídos ao longo dele e um sensor único perto da extremidade inferior; ao lado, duas linhas de registro empilhadas, uma com um degrau no momento em que um bolo sobe e outra que permanece plana.
Os pares de anéis registram o material que sobe pela variação de resistência elétrica, com ácido ou sem ele; a linha do sensor de pH pode permanecer plana no mesmo episódio.

A endoscopia procura complicação, não refluxo

A endoscopia digestiva alta avalia diretamente a mucosa e permite colher material para estudo histopatológico. O que ela diagnostica são as complicações — esofagite erosiva, estenose péptica, esôfago de Barrett — e os diferenciais que imitam o refluxo. O guia internacional é explícito ao dizer que ela não deve ser usada para diagnosticar refluxo, e sim para avaliar complicação, diferenciar de outras esofagites e decidir antes de escalonar a supressão ácida.

A frase que mais muda conduta é a inversa: endoscopia normal não exclui a doença. Boa parte dos pacientes tem doença do refluxo sem lesão visível, e é justamente esse grupo que os documentos chamam de doença não erosiva. Encerrar a investigação porque o exame veio normal é o mesmo erro de encerrá-la porque veio alterado — em ambos os casos o resultado foi lido como veredito de uma pergunta que ele não responde.

Há um detalhe de definição que sustenta essa leitura. Hoje não se valoriza a esofagite apenas histológica ou microscópica: só se considera esofagite endoscópica quando há lesão macroscópica, erosão ou úlcera. As biópsias continuam obrigatórias, mas o alvo delas mudou — elas existem para separar a doença do refluxo de outras causas, com destaque para a esofagite eosinofílica, cuja apresentação clínica é sobreponível.

Em Pediatria, portanto, a endoscopia sem biópsia responde menos do que deveria. E o documento brasileiro fecha a questão de quem pede: endoscopia, pHmetria e impedanciometria só devem ser solicitadas pelo gastroenterologista pediatra. Não é uma reserva de mercado, é uma consequência de tudo o que veio antes — são exames cuja indicação depende de uma pergunta clínica precisa e cuja leitura depende de padrões etários que o pedido genérico não alcança.

A manometria e a fila dos exames

A manometria esofágica avalia a motilidade, e o guia internacional a trata em duas recomendações consecutivas com a mesma lógica do contraste: sugere não usá-la para diagnosticar a doença do refluxo e sugere considerá-la quando se suspeita de distúrbio de motilidade. Os sintomas que a chamam são disfagia e odinofagia, e ela é útil sobretudo em quem não respondeu à supressão ácida e tem endoscopia negativa.

Com isso, a fila fica desenhada sem que nenhum documento precise numerá-la. A história e o exame físico abrem; os sinais de alerta decidem se a criança continua no fluxo do refluxo; as medidas conservadoras e, no lactente, o teste de exclusão do leite entram antes de qualquer requisição; o teste terapêutico com supressor de ácido vale para a criança maior com sintoma típico; e os exames instrumentais entram quando o teste falha, quando há sinal de complicação ou quando o sintoma não é digestivo.

Dentro desse último degrau, a escolha do método é ditada pela pergunta. Anatomia pede contraste. Retenção gástrica ou suspeita de aspiração pede cintilografia com aquisição tardia. Complicação da mucosa e diferencial com esofagite eosinofílica pedem endoscopia com biópsia. Relação temporal entre sintoma e refluxo pede impedanciometria com pH, ou pHmetria isolada quando aquela não estiver disponível. Motilidade pede manometria.

O que sobra fora da fila é a ultrassonografia como teste de refluxo, que os documentos recusam, e a repetição de exames normais como tentativa de encontrar uma prova que o método não produz. Uma investigação bem montada costuma ser mais curta que a requisição espontânea da família, e o tempo economizado ali é o mesmo que se ganha para tratar o que a criança realmente tem.

Falta dizer quem assina a requisição. O documento brasileiro de dois mil e dezessete fecha a questão com uma frase curta: endoscopia, pHmetria e impedanciometria só devem ser solicitadas pelo gastroenterologista pediatra. As edições seguintes trocam essa frase por caixas de encaminhamento dentro dos algoritmos, e o efeito prático é o mesmo — quem indica precisa saber qual pergunta o exame responde e qual padrão de normalidade se aplica àquela idade. Na atenção primária, portanto, a decisão que cabe é encaminhar com a pergunta escrita, e não requisitar o método.

O teste terapêutico: quem pode, e por quanto tempo

A prova com supressor de ácido é um exame disfarçado de tratamento, e é onde os documentos brasileiros mais divergem entre si. A regra de quem pode fazê-la é estável nas três edições: criança maior e adolescente, com sintoma típico — azia, dor epigástrica em queimação, dor retroesternal, dispepsia — e sem sinal de alerta. Sintoma típico e ausência de alarme são as duas condições, e nenhuma delas é dispensável.

A regra de quem não pode é ainda mais firme, e é a que a prática mais desrespeita. Não há base científica para indicar teste terapêutico no diagnóstico do lactente, porque nessa faixa os sintomas são muito menos específicos e a resposta ao tempo confunde-se com a resposta ao remédio. O guia internacional diz o mesmo em recomendação própria: a prova com inibidor de bomba não deve ser usada como teste diagnóstico no lactente.

O que muda de documento para documento é o prazo, e ele muda quatro vezes. O guia internacional fixou uma janela diagnóstica de quatro a oito semanas. O texto brasileiro de dois mil e vinte e um, repetido em dois mil e vinte e quatro, escreve quatro semanas, estendendo para doze se houver melhora clínica. A figura do algoritmo do mesmo documento brasileiro manda tirar a supressão em quatro a oito semanas. E o documento de dois mil e dezessete autoriza empiricamente o bloqueador H dois por quatro a seis semanas.

Fechar essa divergência é mais útil do que denunciá-la, porque as duas metades medem coisas diferentes. A janela de quatro a oito semanas é diagnóstica: é o prazo para decidir se o ácido explica o sintoma. A extensão até doze semanas só existe depois de melhora clínica, e portanto já é tratamento de quem respondeu, não teste de quem está sendo investigado. O que o algoritmo acrescenta é o passo que a prosa esquece: independentemente da resposta, tenta-se retirar a droga.

Na cabeceira do doente isso vira uma sequência única. Quatro a oito semanas para saber; retirada gradual ao fim do prazo, respondendo ou não; e, se o sintoma volta ao desmame ou nunca cedeu, o caso deixa de ser de prova terapêutica e passa a ser de investigação — com endoscopia e, mantida a queixa com mucosa normal, com impedanciometria para separar doença não erosiva de esôfago hipersensível e de azia funcional.

A criança que chega pelo pulmão

Tosse crônica, sibilância pouco responsiva, pneumonia de repetição e laringite recorrente formam o grupo que mais gera requisição de exame de refluxo e menos se beneficia dela. O guia internacional inverteu explicitamente a lógica antiga: recomenda não usar bloqueador H dois nem inibidor de bomba em quem tem sintoma extraesofágico, com uma exceção nomeada — a presença de sintoma típico de refluxo, ou de exame sugestivo.

O documento brasileiro de dois mil e dezessete diz a mesma coisa no corpo, com outras palavras: em asma e nas demais manifestações relacionadas, o inibidor de bomba não deve ser empírico, e fica condicionado aos casos em que se comprova a ação ácida por endoscopia, pHmetria ou impedanciometria com pH. E abre, logo adiante, uma porta estreita: asma persistente grave, com exacerbação noturna, e sintomas digestivos como azia, queimação retroesternal e epigastralgia pode receber tratamento empírico por três meses.

O item de fecho do mesmo documento reproduz essa porta sem a condição digestiva, e é essa versão encurtada que circula. A diferença não é de detalhe: sem sintoma típico associado, a criança com asma grave e nada mais entra num tratamento de três meses que o corpo do próprio documento e o guia internacional recusam. A leitura correta é a do corpo, e ela coincide com a exceção escrita na recomendação internacional.

Há ainda uma advertência clínica que precede tudo isso. Pneumonia de repetição pede investigação ampla antes de ser atribuída ao refluxo, porque causas mais frequentes disputam o mesmo quadro — imunodeficiência, infecção crônica, fibrose cística e aspiração de corpo estranho. Atribuir ao esôfago o que é do pulmão ou da imunidade adia o diagnóstico que muda o prognóstico.

Quando a suspeita persiste e a criança tem doença respiratória crônica, o exame que responde é o que correlaciona sintoma com refluxo independentemente do pH. É por isso que o lactente com displasia broncopulmonar, pneumonias de repetição no mesmo território e sibilância refratária termina na impedanciometria com pH de vinte e quatro horas, e não numa nova prova cega com supressor de ácido.

04

Cada exame responde uma pergunta — e recusa as outras

A tabela abaixo é a fila em forma de requisição: à esquerda o método, no meio o que ele decide, à direita o que ele não decide. Nenhuma linha se sobrepõe a outra, e é isso que torna a escolha do exame uma consequência da pergunta clínica.

  1. 1História e exame físico; buscar sinais de alerta. Havendo qualquer um, sair do fluxo do refluxo e investigar a hipótese que ele levanta.
  2. 2Lactente sem alarme: orientação à família, manter o aleitamento, evitar superalimentação, fórmula espessada se usa fórmula; e teste de exclusão da proteína do leite de vaca por 2 a 4 semanas.
  3. 3Criança maior/adolescente com sintoma típico e sem alarme: medidas de estilo de vida e prova com IBP por 4 a 8 semanas; ao fim do prazo, tentar retirar a droga gradualmente.
  4. 4Sintoma persistente, ou retorno ao desmame: encaminhar ao gastroenterologista pediatra para endoscopia digestiva alta com biópsias.
  5. 5Endoscopia normal com sintoma mantido: pH-impedanciometria (ou pHmetria, se aquela não estiver disponível) para separar DRGE não erosiva, esôfago hipersensível e azia funcional.

A investigação afunila

A fila encolhe da esquerda para a direita: história e sinais de alerta atendem a maioria; as medidas conservadoras e o teste de exclusão do leite atendem quase todo o resto; o exame instrumental fica para a minoria com pergunta precisa.

Sensível não é específico

Sensibilidade de ~95% com especificidade de 11% (ultrassonografia contra pHmetria): quase todo doente acende, mas quase todo saudável também. Barra grande de positivos, fatia pequena de verdadeiros — por isso o exame não entra como teste de refluxo.

Quatro relógios, uma prova

Quatro prazos para a mesma prova: 4-6 semanas (anti-H2, SBP 2017), 4-8 semanas (guia de 2018 e a figura da SBP 2021), 4 semanas estendendo a 12 (texto da SBP 2021 e 2024) e 3 meses (asma, SBP 2017). A janela diagnóstica é a interseção estreita.

A régua é a interseção

Sintoma extraesofágico só autoriza supressor de ácido dentro da interseção: asma (ou tosse, ou sibilância) E sintoma típico de refluxo, ou exame sugestivo. Fora dela, a recomendação internacional e o corpo do documento brasileiro recusam a prova.

ExameRespondeNão respondeQuando entra
Radiografia contrastada de esôfago, estômago e duodenoAnatomia do trato digestório altoPresença ou gravidade da DRGEDisfagia, vômito bilioso, suspeita de volvo, obstrução, estenose ou membrana
Cintilografia esofagogástricaEsvaziamento gástrico; aspiração pulmonar (imagem de 24 h)Diagnóstico de DRGE (o consenso sugere não usar)Clínica de retenção gástrica; suspeita de aspiração
Ultrassonografia esofagogástricaDiagnóstico diferencial com estenose hipertrófica de piloroDRGE — sensibilidade ~95% com especificidade de 11%Nunca como teste de refluxo de rotina
pHmetria esofágica de 24 hExposição ácida (índice de refluxo) e correlação com sintomaRefluxo fracamente ácido ou alcalino — some no lactenteSintoma atípico; resposta ao tratamento; pré e pós-operatório; quando não há impedanciometria
Impedanciometria com pH (pH-MII)Refluxo ácido, fracamente ácido e não ácido, correlacionado ao sintomaDiagnóstico isolado — evidência insuficiente como técnica únicaSintoma extraesofágico; sintoma persistente com endoscopia normal
Endoscopia digestiva alta com biópsiaEsofagite erosiva, estenose, Barrett, esofagite eosinofílicaPresença de refluxo — endoscopia normal NÃO exclui (NERD)Sinal de complicação; antes de escalonar supressão ácida
Manometria esofágicaDistúrbio de motilidade (disfagia, odinofagia, acalasia)Diagnóstico de DRGESem resposta à supressão ácida e endoscopia negativa

Os cortes do índice de refluxo (>5% acima de 1 ano; >10% abaixo de 1 ano) são do Documento Científico da SBP de 2017. O par sensibilidade/especificidade da ultrassonografia (95%/11%) aparece tanto no guia da SBP de 2021 quanto no guia NASPGHAN/ESPGHAN de 2018, que é a fonte primária do dado.

As recomendações internacionais citadas têm número próprio: 3.1 e 3.2 (contraste), 3.3 e 3.4 (ultrassonografia), 3.9 e 3.10 (manometria), 3.13 (prova com IBP no lactente), 3.14 (prova de 4 a 8 semanas na criança maior) e 5.7 (sintoma extraesofágico).

A regra de que endoscopia, pHmetria e impedanciometria só devem ser solicitadas pelo gastroenterologista pediatra é do documento da SBP de 2017 e não aparece com essa literalidade nas edições seguintes, que a substituem por caixas de encaminhamento dentro dos algoritmos.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Por quanto tempo dura a prova terapêutica com supressor de ácido

Prova de 4 a 8 semanas de inibidor de bomba para sintoma típico na criança maior. O mesmo intervalo é o ponto de checagem da eficácia: independentemente da resposta, após 4 a 8 semanas recomenda-se tentar retirar a droga.

NASPGHAN/ESPGHAN, guia de 2018 (Rosen et al.), recomendação 3.14 e questão 8.

Teste empírico com IBP durante 4 semanas, podendo estender esse tempo para 12 semanas se houver melhora clínica.

SBP, Guia Prático de Orientação de 2021, parágrafo do teste terapêutico empírico (repetido no guia nº 185, de 2024).

Continuar supressão ácida e tentar tirar em 4 a 8 semanas, gradativamente — o número da figura não é o número do texto do mesmo documento.

SBP, Guia Prático de Orientação de 2021, Figura 2 (algoritmo da criança maior), caixa de supressão ácida.

Nos sintomas leves a moderados, autoriza-se empiricamente o bloqueador H2 pelo prazo de quatro a seis semanas.

SBP, Documento Científico nº 2, de 2017, seção de antagonistas H2.

Na prova

O enunciado normalmente entrega qual documento está usando — cita a sociedade, o consenso de 2018 ou a diretriz brasileira. Quando não entrega, o intervalo que aparece na maioria das provas é o de 4 a 8 semanas, porque é o do guia internacional e o da figura brasileira. As 12 semanas só aparecem legitimamente quando a vinheta já diz que houve melhora clínica: aí não se está mais testando, está-se tratando quem respondeu. E há um detalhe que o candidato costuma perder: qualquer que seja o prazo, a instrução seguinte é tentar retirar a droga — questão que oferece 'manter indefinidamente' está oferecendo o erro que os três documentos combatem.

Prova terapêutica na criança com sintoma respiratório

Sugere não usar bloqueador H2 nem inibidor de bomba em pacientes com sintoma extraesofágico (tosse, sibilância, asma), exceto na presença de sintoma típico de DRGE e/ou exame sugestivo.

NASPGHAN/ESPGHAN, guia de 2018, recomendação 5.7.

Em asma e demais manifestações relacionadas, o emprego de IBP não deve ser empírico, e fica condicionado aos casos em que se comprova a ação ácida por endoscopia, pHmetria ou impedâncio-pHmetria.

SBP, Documento Científico nº 2, de 2017, corpo do texto, seção de inibidores de bomba.

Pacientes com asma persistente grave e nítida exacerbação noturna podem receber tratamento empírico para DRGE com IBP pelo prazo de 3 meses — sem a condição de sintomas digestivos que o corpo do mesmo documento exige.

SBP, Documento Científico nº 2, de 2017, item 8 do fecho de recomendações.

Na prova

Não é divergência entre instituições: é o corpo de um documento contra o resumo do mesmo documento. O corpo pede asma grave com exacerbação noturna E sintomas digestivos; o item de fecho suprime a segunda metade. O corpo coincide com a exceção escrita na recomendação internacional, e é ele que deve guiar a resposta. Na prática da prova: vinheta de asma sem azia, sem dor epigástrica e sem exame sugestivo não autoriza IBP empírico — a conduta é investigar as causas que competem com o refluxo (imunodeficiência, infecção crônica, fibrose cística, corpo estranho) e, mantida a suspeita, pedir impedanciometria com pH.

A lista de sinais de alerta, em duas redações do mesmo emissor

Traz 'vômitos persistentes' como item isolado, lista 'dor retroesternal ou abdominal intensas' na coluna gastrointestinal e agrupa 'hematêmese/melena/enterorragia' numa entrada só.

SBP, Guia Prático de Orientação de 2021, Tabela 3 ('Sinais de alerta que sugerem outras doenças').

Reescreve o item como 'vômitos persistentes com perda de peso', retira a dor retroesternal/abdominal intensa da coluna gastrointestinal (absorvendo-a em 'irritabilidade/dor excessivas' entre os gerais), separa 'hematêmese/melena' de 'sangramento retal' e acrescenta 'aumento da circunferência cerebral' entre os neurológicos.

SBP, Guia Prático de Orientação nº 185, de 2024, Tabela 2 ('Sinais de alerta, que podem sugerir outro diagnóstico').

Na prova

A redação de 2024 é mais restritiva no item que mais aparece em vinheta: vômito persistente deixa de ser alarme por si e passa a exigir perda de peso associada. Como as duas tabelas circulam, a questão que pede 'qual dos achados é sinal de alarme' tende a escolher itens estáveis nas duas redações — vômito bilioso, hematêmese, convulsão, fontanela tensa, início dos vômitos após os 6 meses. Quando o enunciado oferece 'vômitos persistentes' sozinho, vale ler se há queda de percentil no caso: com perda de peso, é alarme nas duas versões; sem ela, só na de 2021.

06

Caso resolvido

Lactente de 10 meses, ex-prematuro tardio, com displasia broncopulmonar leve, é encaminhado ao ambulatório após três internações no último semestre por pneumonia em lobo médio e inferior direitos, além de sibilância recorrente pouco responsiva a broncodilatador e corticoide inalatório. A mãe refere regurgitações desde os primeiros meses, que persistem. Ganho ponderal no percentil 15, sem queda recente. Não há vômito bilioso, hematêmese, febre nem convulsão. Já usou inibidor de bomba por seis semanas, sem mudança no padrão respiratório. Radiografia de tórax com opacidade residual em base direita. Qual exame responde à pergunta que sobrou?
Passo 1
Rodar a lista de sinais de alerta antes de qualquer requisição. Não há vômito bilioso, hematêmese, melena, sangramento retal, febre, letargia, convulsão nem fontanela tensa; o crescimento está preservado. A criança permanece no fluxo do refluxo — o alarme, aqui, não é digestivo.
Passo 2
Afastar as causas que competem com o refluxo na pneumonia de repetição. Imunodeficiência, infecção crônica, fibrose cística e aspiração de corpo estranho precedem a atribuição ao esôfago. Neste caso há um fator estrutural conhecido — a displasia broncopulmonar — que não dispensa a investigação, mas explica parte da suscetibilidade.
Passo 3
Reconhecer que a prova terapêutica já foi feita e falhou. Seis semanas de inibidor de bomba sem mudança respiratória encerram o teste: a recomendação internacional é avaliar eficácia e excluir causas alternativas em quem não responde a 4 a 8 semanas de terapia otimizada. Repetir a prova, ou dobrar a dose sem investigar, é o erro.
Passo 4
Escolher o exame pela pergunta. O que falta saber é se existe relação temporal entre episódios de refluxo e os sintomas respiratórios — e o refluxo do lactente é em boa parte não ácido, invisível à pHmetria isolada e ainda mais apagado pela dieta láctea. O exame que responde é a pH-impedanciometria intraluminal esofágica de 24 horas.
Passo 5
Saber o que o resultado vai e não vai fechar. Correlação positiva sustenta o tratamento antirrefluxo dirigido; correlação negativa devolve o caso ao pulmão e à imunidade, com a vantagem de retirar o supressor de ácido de uma criança que não se beneficiava dele. O exame não é veredito isolado — a evidência foi considerada insuficiente para usá-lo como técnica única de diagnóstico.
07

Agora feche você

Adolescente de 14 anos procura a unidade básica por azia e dor epigástrica em queimação há quatro meses, quase diárias, piores à noite e depois de refeições volumosas. Nega disfagia, odinofagia, vômito, hematêmese, melena, perda de peso e uso de anti-inflamatório. Exame físico normal, curva de crescimento preservada. A mãe chega pedindo endoscopia, porque um parente fez e 'descobriu gastrite'. Não há endoscopia disponível na rede local em menos de cinco meses.
Passo 1
Conferir os dois requisitos da prova terapêutica: sintoma típico e ausência de sinal de alerta. Azia e dor epigástrica em queimação são típicos; disfagia, odinofagia, hematêmese, melena e perda de peso estão ausentes. Idade e apresentação colocam o adolescente exatamente na população em que a prova é autorizada.
Passo 2
Instituir as medidas conservadoras junto com a prova, e não em vez dela: evitar refeições volumosas e altamente calóricas, reduzir alimentos gordurosos, evitar ingestão nas horas que antecedem o sono e, no adolescente, decúbito lateral esquerdo com cabeceira elevada.
Passo 3
Definir o prazo e o que fazer ao fim dele — inclusive se houver melhora — e dizer qual seria o próximo exame caso o sintoma persista ou retorne à retirada.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Pedir contraste para saber se há refluxo Atrai porque é o exame mais barato, mais rápido e mais disponível, e porque o laudo às vezes descreve refluxo. O estudo contrastado avalia apenas o refluxo pós-prandial imediato e não quantifica episódios: o guia internacional sugere não usá-lo para diagnóstico e usá-lo para excluir anormalidade anatômica. Diante de disfagia, vômito bilioso ou suspeita de volvo, obstrução, estenose ou membrana, ele é o exame certo — e a pergunta, nesses casos, já não é sobre refluxo.
  2. 2Tratar endoscopia normal como exclusão da doença Atrai porque o exame é invasivo e a expectativa é de veredito. Boa parte dos doentes não tem lesão erosiva e é classificada como doença não erosiva; a endoscopia normal com sintoma mantido é justamente a porta da pH-impedanciometria, que separa doença não erosiva, esôfago hipersensível e azia funcional. Além disso, só se considera esofagite quando há lesão macroscópica — a alteração apenas histológica não fecha o diagnóstico, e as biópsias existem sobretudo para excluir a esofagite eosinofílica.
  3. 3Dar prova terapêutica com inibidor de bomba ao lactente Atrai porque o lactente irritado que regurgita parece um caso claro e porque o remédio é fácil de prescrever. Não há base científica para o teste terapêutico como ferramenta diagnóstica nessa faixa: os sintomas são inespecíficos e a melhora espontânea confunde-se com a resposta ao fármaco. O teste que cabe antes é outro — exclusão da proteína do leite de vaca por duas a quatro semanas, mantendo o aleitamento ou usando fórmula extensamente hidrolisada.
  4. 4Estender o teste a doze semanas em quem não melhorou Atrai porque o texto brasileiro escreve '4 semanas, podendo estender para 12'. A extensão está condicionada à melhora clínica: quem respondeu segue em tratamento, quem não respondeu sai do teste. Manter o supressor de ácido em criança que não melhorou atrasa a endoscopia, atrasa o diagnóstico diferencial e transforma um exame de prazo definido em uso crônico sem indicação.
  5. 5Atribuir a pneumonia de repetição ao refluxo Atrai porque a associação é intuitiva e porque a criança de fato regurgita. Antes de responsabilizar o esôfago é preciso afastar causas mais frequentes de pneumonia recorrente — imunodeficiência, infecção crônica, fibrose cística e aspiração de corpo estranho. Só depois disso, e mantida a suspeita, o exame que responde é a impedanciometria com pH, que registra também o refluxo não ácido e o correlaciona ao sintoma.
  6. 6Confiar na pHmetria isolada no lactente Atrai porque a pHmetria já foi tratada como padrão de referência e porque o índice de refluxo é um número objetivo. No lactente com dieta láctea o leite neutraliza o material refluído, e o episódio pós-prandial pode não ser registrado: o exame perde sensibilidade exatamente onde a queixa é mais comum. Quando existe a possibilidade, a impedanciometria acoplada ao pH é quem responde; a pHmetria isolada fica para quando aquela não está disponível.
  7. 7Pedir ultrassonografia como teste de refluxo Atrai porque é inócua, barata e frequentemente já foi feita. Com sensibilidade em torno de 95% e especificidade de 11%, ela transforma quase toda criança em positiva e não se correlaciona com o índice de refluxo da pHmetria. Os documentos brasileiros e o guia internacional recusam seu uso como teste diagnóstico de rotina; o papel que ela preserva é o diagnóstico diferencial com a estenose hipertrófica de piloro.
  8. 8Prescrever supressor de ácido para tosse isolada Atrai porque o sintoma é incômodo e a família cobra conduta. A recomendação internacional pede que não se use bloqueador H2 nem inibidor de bomba em sintoma extraesofágico, salvo quando há sintoma típico de refluxo associado ou exame sugestivo — e uma revisão sistemática não mostrou benefício dos inibidores de bomba para tosse na criança. Tosse sem azia, sem dor epigástrica e sem exame não é indicação.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O par de desempenho é o argumento: sensibilidade em torno de 95% com especificidade de apenas 11% significa que quase toda criança examinada acende como positiva, doente ou não, e a frequência de refluxo vista ao doppler não se correlaciona com o índice de refluxo medido pela pHmetria. Por isso os documentos brasileiros e o guia internacional afirmam que a ultrassonografia não diferencia refluxo fisiológico de doença e não tem papel como teste diagnóstico de rotina, preservando-lhe o diagnóstico diferencial com a estenose hipertrófica de piloro. Não se trata de jejum, de faixa etária, de detecção de refluxo não ácido nem de radiação — a ultrassonografia não usa radiação ionizante.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Nenhum exame é padrão-ouro do refluxo: cada um responde uma pergunta diferente e a pergunta vem antes da requisição. Contraste desenha anatomia e não diagnostica refluxo. Cintilografia mede esvaziamento gástrico e aspiração, com imagem tardia de 24 h. Ultrassonografia não é teste de refluxo (sensibilidade ~95%, especificidade 11%) e serve ao diferencial com estenose de piloro. pHmetria mede exposição ácida (índice de refluxo anormal acima de 5% após 1 ano, acima de 10% antes) e some no lactente, cuja dieta láctea neutraliza o ácido. Impedanciometria com pH vê o refluxo não ácido e correlaciona com sintoma, mas não basta sozinha para diagnosticar. Endoscopia com biópsia procura complicação e esofagite eosinofílica — normal, não exclui.

em 30 dias

A prova terapêutica é exame, não tratamento: cabe à criança maior e ao adolescente com sintoma típico e sem sinal de alerta, por 4 a 8 semanas, com tentativa de retirada ao fim do prazo, respondendo ou não. No lactente ela não vale como teste diagnóstico — o que vem antes é a exclusão da proteína do leite de vaca por 2 a 4 semanas. Em sintoma extraesofágico (tosse, sibilância, asma), supressor de ácido só com sintoma típico associado ou exame sugestivo. Sinal de alerta tira a criança do fluxo do refluxo e abre outra investigação: vômito bilioso, hematêmese, sangramento retal, convulsão, fontanela tensa, vômito que começa após os 6 meses ou persiste após os 12.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Treine a consulta em que a família chega com a requisição pronta: o lactente que regurgita e ganha peso, o adolescente com azia que quer endoscopia, a criança com tosse crônica que já tomou supressor de ácido. Em todos, o exercício é o mesmo — nomear a pergunta clínica antes de escolher o método, dizer em voz alta o que o exame pedido não responderia e explicar o prazo do que for prescrito, incluindo a data em que a droga começará a ser retirada. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Exames do refluxo gastroesofágico na criança – Exames do refluxo na criança: nenhum confirma, e o teste tem quatro prazos — Preparatório para provas | OsceLabs