PediatriaGastroenterologia Pediátrica

Dor abdominal funcional na criança: um diagnóstico que se faz, não que sobra

Dor abdominal recorrente e distúrbios gastrointestinais funcionais na infância: critérios positivos e sinais de alarme

Quatro portas, quatro relógios e uma lista de alarme que aparece em duas redações

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menina de 5 anos apresenta há 6 meses episódios recorrentes de dor abdominal periumbilical, sem relação clara com alimentação, sem despertar noturno, sem vômitos, sem perda de peso e com crescimento normal. Não há sangue nas fezes, febre ou disfagia. Exame físico normal, incluindo abdome. Qual a conduta inicial mais apropriada?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata da dor abdominal recorrente da criança e do adolescente e dos distúrbios gastrointestinais funcionais que a causam: dispepsia funcional, síndrome do intestino irritável, enxaqueca abdominal e dor abdominal funcional sem outra especificação. O eixo é o diagnóstico positivo — feito por critérios preenchidos e ausência de sinais de alarme — e a decisão de quanto investigar.

Fica de fora o manejo da constipação intestinal funcional, que tem capítulo próprio nesta apostila e é aqui usada apenas como teste terapêutico que decide a fronteira com a síndrome do intestino irritável. Também ficam de fora o refluxo do lactente, a alergia à proteína do leite de vaca, a doença celíaca e a diarreia crônica, que têm capítulos próprios e aparecem aqui só como diagnóstico diferencial.

O que se ganha aqui é a leitura crítica de duas réguas brasileiras que se sobrepõem: a lista de sinais de alarme aparece em duas redações de tamanhos diferentes, e a recomendação de pedir um painel básico convive, no mesmo documento, com a medida de que exame complementar não muda prognóstico.

03

O que muda decisão

A dor que acorda a criança à noite já mudou de time

Como usar este capítulo: faça diagnóstico positivo pelo padrão e pelos critérios, ao mesmo tempo em que procura sinais de alarme. Explique o mecanismo à família, trate constipação quando presente e escolha intervenções graduais; investigação indiscriminada reforça o ciclo de dor.

A criança com dor abdominal funcional dói de dia. A dor se localiza em volta do umbigo ou no epigástrio, raramente irradia, dura de minutos a horas e se intercala com períodos de bem-estar em que a criança brinca, come e se distrai como qualquer outra. Pode ser forte a ponto de fazer chorar e de interromper a brincadeira — intensidade não é sinal de doença orgânica. Podem vir juntos palidez, sudorese, náusea e até vômito, e nada disso tira o rótulo de funcional: são sintomas neurovegetativos, e o guia brasileiro de gastroenterologia pediátrica os descreve dentro do quadro funcional, não fora dele.

O que muda o time é o horário. Dor que acorda o paciente à noite obriga a procurar causa orgânica, e o mesmo vale para a dor que interrompe justamente a atividade prazerosa — o passeio, a festa, o jogo. A lógica é simples e vale a pena guardar pelo avesso: a dor funcional respeita o sono e não escolhe o momento que mais custa à criança; a dor orgânica não tem essa educação. Um segundo eixo, espacial, acompanha o temporal: dor persistente em quadrante superior ou inferior direito afasta do território funcional, porque ali moram vesícula, fígado e íleo terminal.

Um terceiro eixo é o da companhia. A dor funcional vem sozinha ou acompanhada dos sintomas que o próprio guia lista dentro do quadro; o que ela não traz é disfagia, odinofagia, vômito que se repete dia após dia, sangue nas fezes, artrite ou lesão perianal. Perguntar o que vem junto com a dor rende mais em meio minuto de anamnese do que qualquer painel de sangue, e é essa pergunta que muda a decisão ainda na porta da unidade.

O exame físico entra com uma tarefa concreta antes de qualquer outra: medir peso e estatura e lançá-los na curva. Crescimento ponderoestatural normal é parte do retrato funcional; desaceleração da estatura, perda de peso involuntária ou atraso puberal são alarme. O exame abdominal detalhado procura massas, fígado, baço e loja renal, e o guia brasileiro inclui na rotina a avaliação perianal — fissura, plicoma e fístula mudam o rumo da consulta de um jeito que nenhum exame de sangue muda.

Essas três linhas de prontuário valem mais que o painel de sangue que viria depois. Antes de escrever qualquer pedido, o pediatra registra a que horas a dor acontece, se ela já acordou a criança, onde exatamente ela dói e o que vem junto — e só então decide se há motivo para investigar.

Contorno esquemático de um abdome infantil visto de frente, com a região em volta do umbigo e o epigástrio sombreados de um tom e os quadrantes superior direito e inferior direito sombreados de outro.
A dor funcional se concentra em volta do umbigo e no epigástrio; a dor persistente nos quadrantes direitos sai desse território, porque ali ficam vesícula, fígado e íleo terminal.

Cinco a dez em cem: a conta que inverte a ordem da consulta

Causas orgânicas respondem por uma fatia pequena da dor abdominal crônica da infância — entre cinco e dez de cada cem crianças, segundo a régua brasileira. A dor é comum: os estudos apontam prevalências que vão de meio por cento a quase vinte por cento conforme a idade e a definição usada, com dois picos etários, um entre quatro e seis anos e outro entre sete e doze.

Essa proporção inverte a ordem lógica da consulta. Quando nove em cada dez crianças têm um distúrbio funcional, procurar primeiro a doença rara e só depois pensar no funcional é caro, demorado e expõe a criança a exames que não mudam o desfecho. O guia brasileiro escreve isso sem meio-termo: espera-se menor solicitação de testes complementares e maior consideração dos distúrbios funcionais como causa primeira da afecção — e não como diagnóstico de exclusão.

A diferença entre causa primeira e diagnóstico de exclusão é a diferença entre duas consultas. No primeiro modo, o pediatra reúne história típica, exame normal e ausência de alarme, nomeia o distúrbio na frente da família e passa a tratar. No segundo, ele diz que ainda não sabe, pede a primeira leva de exames, marca retorno para ver os resultados, e a família sai da sala com a hipótese de doença grave intacta — porque nada foi afirmado, apenas adiado. Cada rodada de exame normal, nesse modo, reforça a ideia de que falta encontrar alguma coisa.

Vale notar o custo emocional embutido: o padrão recorrente do sintoma e a suspeita de doença grave produzem ansiedade considerável na criança e nos pais, e essa ansiedade é parte do quadro que se quer tratar. Pedir mais exames para acalmar a família costuma fazer o contrário.

O pediatra nomeia o distúrbio em voz alta na primeira consulta em que os critérios estiverem preenchidos, e escreve o nome no prontuário e no atestado.

A lista de alarme é a régua — e ela tem duas redações

A régua que separa funcional de orgânico é uma lista de sinais e sintomas de alerta. O guia brasileiro de dor abdominal crônica traz uma versão longa, adaptada do documento internacional que criou os critérios atuais: história familiar de doença inflamatória intestinal, doença celíaca ou doença péptica; dor persistente em quadrante superior ou inferior direito; disfagia; odinofagia; vômitos persistentes; sangramento gastrointestinal; diarreia noturna; artrite; doença perianal; perda ponderal involuntária; desaceleração do crescimento linear; atraso da puberdade; e febre sem explicação.

A mesma sociedade, em outro guia — o de exames complementares comuns na prática de gastroenterologia e hepatologia — repete a lista dentro da regra de quando não pedir endoscopia, e a repete mais curta. Ficam vômitos persistentes, perda de peso ou redução da linha de crescimento, hematêmese e melena, odinofagia e disfagia, febre de origem obscura, história familiar de úlcera péptica e das duas doenças intestinais, doença perianal e artrite. Somem da segunda redação a dor persistente em quadrante direito, a diarreia noturna e o atraso da puberdade.

A supressão não é neutra. As três que caem são justamente as que um pediatra apressado deixaria passar: a dor de quadrante direito exige pensar em apendicite crônica, doença de Crohn ileal e litíase; a diarreia noturna é a pista clássica de doença inflamatória; o atraso puberal é o alarme mais lento e mais silencioso de todos, porque só aparece se alguém estadiar a puberdade. Além disso, a segunda redação troca o amplo sangramento gastrointestinal pelo estreito hematêmese e melena, e sangue vivo nas fezes deixa de estar escrito.

Há uma explicação honesta para o encurtamento: a lista curta não nasceu como régua diagnóstica geral, e sim dentro de uma regra sobre quando não indicar endoscopia. Ela é adequada ao problema que resolve. O risco aparece quando alguém a transporta para fora desse contexto e a usa como se fosse a régua completa — e é fácil que isso aconteça, porque as duas vêm da mesma sociedade, no mesmo formato editorial e com a mesma autoridade aparente.

Como as duas coexistem e vêm do mesmo emissor, o pediatra aplica a mais longa, registra no prontuário qual usou e reavalia os três itens ausentes da curta a cada retorno.

Quatro relógios para a mesma dor

Quem estuda esse tema tropeça no tempo, porque há mais de um relógio em cima da mesa e todos são legítimos dentro do próprio documento.

O primeiro é histórico e ainda circula: a definição clássica de dor abdominal recorrente exigia três ou mais episódios, fortes o bastante para interromper as atividades habituais, num período não inferior a três meses. É a definição que batizou o tema e que os manuais mais antigos repetem.

O segundo relógio é o dos critérios atuais e vale para três das quatro entidades: dispepsia funcional, síndrome do intestino irritável e dor abdominal funcional sem outra especificação exigem que os critérios ocorram por pelo menos dois meses antes do diagnóstico. O terceiro é a exceção: a enxaqueca abdominal exige pelo menos seis meses. Um mesmo capítulo, um mesmo quadro-síntese, dois prazos opostos — e a diferença de quatro meses é toda a distância entre rotular e esperar.

O quarto relógio é de frequência, não de duração: ao menos quatro dias por mês para dispepsia funcional, para a síndrome do intestino irritável e para a dor sem outra especificação. A enxaqueca abdominal foge de novo: conta episódios, e bastam dois, desde que cada crise dure uma hora ou mais e seja o sintoma mais grave e aflitivo do quadro.

Guardar os quatro relógios em pares ajuda: dois meses e quatro dias por mês para as três irmãs; seis meses e dois episódios de uma hora para a enxaqueca abdominal; três meses e três episódios para a definição histórica. O pediatra conta os meses e os dias no papel antes de escrever o rótulo, porque rotular cedo demais é tão errado quanto não rotular.

As quatro portas do mesmo corredor

A dor abdominal funcional não é uma doença só. Os critérios atuais abrem quatro portas, e o sintoma que acompanha a dor decide por qual delas a criança entra.

A dispepsia funcional é a porta de cima: dor ou sintomas no abdome superior, com plenitude pós-prandial, saciedade precoce ou dor epigástrica que não se associa à defecação. Ela ainda se parte em dois subtipos que valem a pena separar. A síndrome de dificuldade pós-prandial é a da criança que enche rápido e não termina a refeição, com distensão do abdome superior, náusea depois de comer e eructação. A síndrome de dor epigástrica é a da dor ou queimação forte o bastante para atrapalhar, localizada no epigástrio, que não alivia com a evacuação nem com a eliminação de flatos e que pode ser desencadeada ou aliviada pela refeição.

A síndrome do intestino irritável é a porta do hábito intestinal: a dor se associa à evacuação, à mudança de frequência ou à mudança de aparência das fezes, e costuma vir com esforço, urgência, sensação de evacuação incompleta, muco e distensão.

A enxaqueca abdominal é a porta paroxística: crises de dor intensa, aguda, periumbilical, na linha média ou difusa, incapacitantes, separadas por semanas ou meses de saúde completa, com padrão estereotipado no mesmo paciente e acompanhadas de pelo menos dois entre anorexia, náusea, vômito, cefaleia, fotofobia e palidez. O parentesco com a enxaqueca de cabeça é explícito, inclusive nos gatilhos alimentares descritos — chocolate à frente, seguido de queijo, frutas cítricas e bebida alcoólica no adolescente.

A quarta porta é a de saída: quando a dor não preenche nenhuma das três, chama-se dor abdominal funcional sem outra especificação — episódica ou contínua, que não ocorre exclusivamente durante eventos fisiológicos como comer ou menstruar. O pediatra escolhe a porta pelo sintoma acompanhante e escreve qual escolheu, porque o tratamento muda com a porta.

Tratar a constipação é o exame que fecha o diagnóstico

Há uma armadilha estrutural entre duas entidades vizinhas, e o guia brasileiro a resolve de um jeito que não usa laboratório nenhum. A constipação intestinal funcional é causa comum de dor abdominal crônica e é subestimada pelo médico e pela família, porque a criança pode evacuar todos os dias e ainda assim reter — esvaziamento incompleto, retenção progressiva, dor em cólica. Ao exame, palpam-se massas fecais no abdome; ao toque retal, a ampola aparece cheia de fezes endurecidas. Depois de evacuar, a dor alivia.

Como o quadro se sobrepõe ao da síndrome do intestino irritável, o documento manda fazer o teste pela terapêutica: quando a criança tem dor abdominal e constipação, inicia-se o tratamento da constipação funcional; se a dor desaparece com esse tratamento, o paciente tem constipação funcional — e não síndrome do intestino irritável. Os próprios critérios diagnósticos da síndrome escrevem a metade complementar dessa regra: em crianças com constipação, a dor pode não resolver com a resolução da constipação, e são essas que ficam com o rótulo de intestino irritável.

A consequência prática é grande e barata. Antes de investigar dor com alteração do hábito intestinal, trata-se a constipação de verdade — com desimpactação quando indicada e manutenção por tempo suficiente — e só então se reavalia a dor. Um tratamento malfeito, curto demais ou sem desimpactação, não serve de teste: ele produz um falso resultado e empurra a criança para uma investigação que ela não precisava.

O pediatra trata a constipação até o fim antes de chamar a dor de intestino irritável, e marca o retorno para ler o resultado desse teste terapêutico.

O painel básico que o próprio guia mede como inútil

Aqui o documento brasileiro faz duas afirmações que convivem mal, e conhecer as duas é o que separa quem estudou o tema de quem decorou uma lista.

Na parte diagnóstica, ele sugere uma avaliação laboratorial básica — hemograma, sumário de urina e parasitológico de fezes — e acrescenta que, dependendo da história, a investigação pode se ampliar com velocidade de hemossedimentação, proteína C reativa, função tireoidiana, amilase e lipase. Sobre a sorologia de doença celíaca, escreve que a realização de rotina é controversa e, ainda assim, sugerida pelo critério atual.

Na parte de prognóstico, o mesmo documento relata a revisão sistemática que acompanhou crianças com dor abdominal crônica sem sinais de alerta por vários anos e conclui, em uma frase seca, que a realização de testes complementares não influenciou no prognóstico. E, no meio do caminho, afirma que exames radiológicos de rotina, incluindo ultrassonografia, não são mais indicados em pacientes sem evidência clínica de causa orgânica.

As duas afirmações não se anulam: elas dizem coisas diferentes. O painel básico existe para fechar o diagnóstico positivo, porque os critérios atuais exigem que, após avaliação apropriada, os sintomas não sejam atribuíveis a outra entidade. O que a frase do prognóstico mede é outra coisa — que repetir exame não melhora o desfecho de quem já não tem alarme. Lidas juntas, produzem uma conduta única e defensável: um painel básico, uma vez, e nenhuma repetição sem sinal novo.

A imagem tem regra própria e mais dura: sem evidência clínica de causa orgânica, não se pede ultrassonografia de rotina. O ultrassom normal não tranquiliza a família por muito tempo, e o achado incidental — um cisto, um linfonodo, uma dilatação sem significado — cria uma segunda consulta que a criança não precisava.

O pediatra pede o painel básico uma vez, anota que o pediu, e não repete enquanto não aparecer alarme novo.

O marcador que separa orgânico de funcional está no outro guia

Existe um exame de fezes cuja função é exatamente separar inflamação de não-inflamação: a calprotectina fecal, proteína abundante em neutrófilos, resistente à temperatura e à digestão, que sobrevive nas fezes até ser dosada e cuja concentração acompanha a migração de neutrófilos para a luz intestinal. É barato de descrever e sedutor de pedir.

O guia brasileiro dedicado à dor abdominal crônica — o documento que existe para separar orgânico de funcional — não menciona a calprotectina em nenhuma linha. Quem a descreve é outro guia da mesma sociedade, o de exames complementares, e o que ele diz desaconselha o entusiasmo: em adultos, valores abaixo de cinquenta microgramas por grama de fezes são normais e acima de cem sugerem doença inflamatória intestinal; na população pediátrica o ponto de corte não está bem estabelecido. Recém-nascidos, prematuros ou a termo, e lactentes têm valores normalmente elevados, que caem devagar com o tempo, e a própria absorção de água pela fralda pode concentrar a amostra e falsear o resultado.

O par forma uma lição inteira. Um guia decide o problema sem citar o marcador; o outro descreve o marcador e avisa que, na idade em que o problema acontece, não há corte confiável para lê-lo. Pedir a calprotectina numa criança sem alarme cria um número sem régua: se vier alto, ninguém sabe se é doença ou idade; se vier baixo, não acrescenta ao que o exame físico normal e a curva de crescimento preservada já tinham dito.

O mesmo raciocínio vale para a endoscopia. O guia de exames é explícito ao listar as situações em que não se indica endoscopia digestiva alta com pesquisa da bactéria gástrica, e a dor abdominal crônica está nessa lista — salvo quando acompanhada dos sinais de alarme.

O pediatra não usa um ponto de corte que não existe para a idade da criança à sua frente, e deixa a endoscopia para quem tem alarme.

A conversa é a intervenção, e ela tem roteiro

Assegurar à criança e à família a benignidade do quadro, dentro de uma boa relação médico-paciente, é descrito como parte central do tratamento — não como cortesia que se faz depois de tratar. A abordagem médica, diz o guia, não é apenas sobre o sintoma da criança: é também sobre os medos da família, cujo limiar de ansiedade varia com experiências anteriores, estilo de enfrentamento e percepção de doença.

O roteiro é explícito e cabe numa consulta: envolver o paciente no atendimento; construir uma história centrada nele e sem julgamento; descobrir qual era a necessidade imediata que trouxe a família naquele dia; fazer exame físico cuidadoso e solicitar investigação custo-efetiva; entender o que o paciente pensa sobre a própria doença e endereçar as preocupações dele; ensinar a criança a entender e nomear os próprios sintomas; associar estresse e sintoma de forma compatível com as crenças da família; estabelecer limites; e manter a continuidade do envolvimento.

Duas observações desse roteiro ajudam na prática. A primeira é que a criança pequena não discrimina bem sofrimento emocional de sofrimento físico — daí a recomendação de estimular a aquisição de habilidades verbais para relatar a dor, que é intervenção e não conversa fiada. A segunda é que a falha em diagnosticar e tratar o sintoma funcional é, ela mesma, causa de sofrimento emocional contínuo e incapacitante: não nomear tem custo.

Entre as terapias psicológicas estudadas — suporte familiar, psicoterapia e terapia cognitivo-comportamental —, as evidências apontam a terapia cognitivo-comportamental como a mais efetiva. As técnicas cognitivas mantêm a criança focada em outro pensamento ou imagem durante a crise, e as comportamentais atacam a tensão muscular e as interações que mantêm e amplificam a dor, incluindo as do cuidador.

O pediatra reserva tempo da consulta para essa conversa e marca o retorno antes que a família saia da sala.

O que se prescreve, e o pouco que se sustenta

A farmacologia desse tema é modesta, e saber onde ela é fraca evita prescrição inútil.

Entre os probióticos, três produtos aparecem com evidência de diminuir a intensidade da dor, sobretudo na síndrome do intestino irritável: dois lactobacilos — o rhamnosus e o reuteri — e uma combinação de múltiplas cepas que não está disponível no Brasil. É um efeito sobre intensidade, não uma cura.

Entre os antiespasmódicos, a honestidade do documento é útil: embora comumente utilizados, os anticolinérgicos como a escopolamina não têm estudos controlados para controle da dor nesses distúrbios. A frase autoriza o pediatra a não prescrever o que a família espera.

Os antidepressivos podem ajudar por vias diferentes — diminuindo o trânsito intestinal, tratando depressão que exista como comorbidade, melhorando o sono e induzindo analgesia — e o documento pede cautela pelos efeitos colaterais. Doses baixas de tricíclicos, como amitriptilina e imipramina, ficam para os casos difíceis, e o próprio texto marca que a evidência ainda é inadequada.

Por porta: na enxaqueca abdominal, a profilaxia medicamentosa usa ciproeptadina, amitriptilina, propranolol, pizotifeno e flunarizina — e a melhora com essas drogas reforça retrospectivamente o diagnóstico. Na dispepsia funcional com dor predominante, o bloqueio ácido com bloqueador de receptor de histamina ou inibidor de bomba pode ser tentado por quatro semanas em crianças maiores e adolescentes; a ciproeptadina é considerada segura e eficaz em parte dos casos; e náusea, distensão e saciedade precoce, que são os sintomas mais teimosos, admitem procinético quando disponível.

Na dieta, o alvo estudado são os carboidratos fermentáveis de cadeia curta, mas a evidência para restringi-los na infância ainda é restrita, e o documento condiciona qualquer dieta restritiva à supervisão de nutricionista com formação pediátrica, porque restrição malfeita na infância produz inadequação nutricional e transtorno alimentar. Quando há distensão e diarreia, vale um período de retirada da lactose antes de qualquer teste; na dispepsia, evitam-se cafeína, picantes e gordurosos.

O pediatra escreve uma receita curta, explica o que cada item faz, e marca reavaliação próxima em vez de acumular fármacos.

Trinta em cem seguem com dor — e isso se diz na primeira consulta

O prognóstico é bom, mas não é o que a família imagina quando ouve a palavra funcional. Cerca de trinta em cada cem crianças mantêm a dor de forma persistente. A revisão sistemática citada pelo guia brasileiro reuniu dezoito estudos e mais de mil crianças com dor abdominal crônica sem sinais de alerta, seguidas em média por cinco anos, e encontrou perto de trinta em cem ainda com dor ao fim do seguimento.

A mesma revisão dá três informações que mudam a conversa. Há evidência moderada de que história parental de sintomas gastrointestinais se associa à persistência — o que transforma a pergunta sobre os pais em pergunta prognóstica, e não apenas em busca de doença hereditária. Não se encontrou associação entre a persistência e o sexo feminino, com evidência forte, nem com a gravidade da dor, com evidência moderada — de modo que dor muito forte não prediz dor duradoura. E, de novo, a realização de testes complementares não influenciou no prognóstico.

Há ainda uma continuidade que vale mencionar à família de adolescente: a dor abdominal crônica da infância é fator de risco para síndrome do intestino irritável na vida adulta. Dizer isso não é assustar; é evitar que, aos vinte anos, a mesma pessoa recomece do zero uma investigação já feita.

O modo de dizer importa mais que o conteúdo. Prometer que a dor vai sumir em semanas cria a recaída como fracasso e traz a família de volta pedindo exame. Dizer que o diagnóstico está feito, que a dor pode ir e voltar, que o objetivo é manter a criança na escola e nas atividades, e que a porta da unidade continua aberta se aparecer sinal de alarme — isso constrói a aliança que o tratamento exige.

O pediatra diz o prognóstico real na primeira consulta, lista para a família os sinais que fazem voltar antes do retorno marcado, e agenda o acompanhamento.

04

Da primeira queixa de dor à alta do rótulo funcional, sem exame que não muda nada

A decisão treinada aqui tem cinco degraus e começa antes de qualquer pedido de exame. O pediatra lê o horário da dor, mede a criança na curva, varre a lista longa de alarme, conta os meses e os dias de sintoma, e só então decide entre nomear o distúrbio ou investigar. Quando há dor com constipação, um sexto passo se intercala: tratar a constipação até o fim e reler a dor depois.

  1. 1Caracterize a dor antes de pedir qualquer exame: horário, localização, duração, relação com alimentação e defecação, e se já acordou a criança à noite. Dor diurna, periumbilical ou epigástrica, de minutos a horas, com bem-estar entre as crises, é o retrato funcional — palidez, sudorese, náusea e vômito cabem dentro dele.
  2. 2Meça peso e estatura e lance na curva; estadie a puberdade no escolar e no adolescente. Crescimento ponderoestatural normal integra o diagnóstico positivo. Faça exame abdominal detalhado com avaliação perianal e toque retal quando indicado.
  3. 3Varra a lista LONGA de alarme (13 itens), não a curta: história familiar de doença inflamatória intestinal, celíaca ou péptica; dor persistente em quadrante superior ou inferior direito; disfagia; odinofagia; vômitos persistentes; sangramento gastrointestinal; diarreia noturna; artrite; doença perianal; perda ponderal; desaceleração do crescimento linear; atraso puberal; febre sem explicação.
  4. 4Sem alarme e com exame normal, conte o tempo e escolha a porta: 2 meses e 4 dias por mês levam a dispepsia funcional (abdome superior), síndrome do intestino irritável (dor ligada à evacuação ou às fezes) ou dor funcional sem outra especificação; 6 meses e 2 crises estereotipadas de 1 hora ou mais levam a enxaqueca abdominal.
  5. 5Havendo dor COM constipação, trate a constipação funcional até o fim antes de rotular: se a dor sumir com o tratamento, o diagnóstico é constipação funcional; se persistir, é síndrome do intestino irritável. Depois nomeie o distúrbio para a família, peça no máximo um painel básico e marque retorno.

Três portas com o mesmo relógio, e uma que anda sozinha

Dispepsia funcional, síndrome do intestino irritável e dor abdominal funcional sem outra especificação exigem 2 meses de critérios e dor em ao menos 4 dias por mês. A enxaqueca abdominal exige 6 meses e conta episódios: bastam 2 crises de 1 hora ou mais.

O horário decide antes do exame

Dor de dia, intercalada por bem-estar, periumbilical ou epigástrica, com crescimento normal: retrato funcional. Dor que acorda a criança à noite, ou que interrompe a atividade prazerosa, ou persistente em quadrante direito: procure causa orgânica.

Cinco a dez em cem, e o resto é funcional

Causas orgânicas respondem por 5% a 10% da dor abdominal crônica na infância. Por isso o distúrbio funcional é causa primeira e não diagnóstico de exclusão — e por isso o painel básico se pede uma vez, sem repetição sem alarme novo.

As quatro portas: o que acompanha a dor, o tempo e a frequência

EntidadeO que acompanha a dorTempo e frequência
Dispepsia funcionalPlenitude pós-prandial, saciedade precoce ou dor epigástrica que não se associa à defecação; subtipos pós-prandial e de dor epigástrica≥ 2 meses; ao menos 4 dias por mês
Síndrome do intestino irritávelDor ligada à evacuação, ou à mudança de frequência, ou à mudança de aparência das fezes; urgência, muco, distensão≥ 2 meses; ao menos 4 dias por mês
Enxaqueca abdominalCrises paroxísticas periumbilicais, incapacitantes e estereotipadas, com ≥ 2 entre anorexia, náusea, vômito, cefaleia, fotofobia e palidez≥ 6 meses; ao menos 2 episódios de 1 hora ou mais
Dor funcional sem outra especificaçãoNada específico: critérios insuficientes para as outras três; não ocorre só em eventos fisiológicos≥ 2 meses; ao menos 4 dias por mês
Constipação funcional (vizinha)Massas fecais palpáveis, ampola cheia, alívio após evacuar; a dor SOME com o tratamento da constipaçãoDefinida em capítulo próprio; aqui é teste terapêutico

A mesma lista de alarme em duas redações da mesma sociedade

Sinal de alarmeGuia de dor abdominal crônica (2019)Guia de exames complementares
Vômitos persistentesSimSim
Perda ponderal / desaceleração do crescimentoSimSim
Odinofagia e disfagiaSimSim
Doença perianal e artriteSimSim
Febre sem explicaçãoSimSim
História familiar de DII, celíaca ou pépticaSimSim
Sangramento gastrointestinalSim (amplo)Só hematêmese/melena
Dor persistente em quadrante superior ou inferior direitoSimAUSENTE
Diarreia noturnaSimAUSENTE
Atraso da puberdadeSimAUSENTE

A lista longa tem 13 itens e vem adaptada de Hyams e colaboradores, 2016; a lista curta tem 8 e aparece dentro da regra de quando NÃO indicar endoscopia. As três que somem — quadrante direito, diarreia noturna e atraso puberal — são exatamente as que passariam despercebidas numa consulta rápida. Use a longa.

Intensidade da dor não separa funcional de orgânico, e a revisão sistemática citada pelo guia mostra evidência moderada de que a gravidade da dor NÃO prediz persistência. O que separa é horário, localização, crescimento e a lista de alarme.

Sintomas neurovegetativos (palidez, sudorese, náusea, vômito) cabem dentro do quadro funcional. Vômito PERSISTENTE é outra coisa e está na lista de alarme — a diferença é a persistência, não a presença.

Exames radiológicos de rotina, incluindo ultrassonografia, não são mais indicados sem evidência clínica de causa orgânica. A calprotectina fecal não é citada no guia de dor abdominal crônica, e o guia de exames avisa que na população pediátrica o ponto de corte não está bem estabelecido (em adultos, < 50 mcg/g normal e > 100 mcg/g sugestivo de doença inflamatória intestinal).

A definição histórica de Apley (1958) — 3 ou mais episódios em período não inferior a 3 meses, fortes o bastante para interromper as atividades — ainda circula em material antigo, mas os critérios vigentes usam 2 meses (ou 6, na enxaqueca abdominal).

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Pedir ou não o painel laboratorial básico na criança sem sinal de alarme

Painel básico sugerido para todos

O documento sugere que uma avaliação laboratorial básica deva ser realizada, incluindo hemograma, sumário de urina e exame parasitológico de fezes, e admite ampliação (VHS, PCR, função tireoidiana, amilase e lipase) conforme a história.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Gastroenterologia. Guia Prático de Atualização nº 6, 'Dor abdominal crônica na infância e adolescência', janeiro de 2019, deslocamento 5.508 do texto extraído.

Exame complementar não mudou o prognóstico

A frase é literal: a realização de testes complementares não influenciou no prognóstico. O mesmo documento afirma, no meio do caminho, que se espera menor solicitação de testes complementares.

Mesmo documento, seção de prognóstico, deslocamento 24.046: revisão sistemática de 18 estudos e 1.331 crianças com dor abdominal crônica sem sinais de alerta, seguimento médio de 5 anos.

Na prova

As duas frases estão a 18.538 caracteres de distância no mesmo documento e não se anulam: o painel serve para fechar o diagnóstico positivo exigido pelos critérios; a medida de prognóstico refere-se a repetir exame em quem já não tem alarme. Quando o enunciado descreve criança sem alarme que JÁ fez o painel, a conduta é nomear e acompanhar, nunca repetir. Quando descreve a primeira consulta, um painel básico único é aceitável. Imagem de rotina não entra em nenhum dos dois cenários.

Sorologia de doença celíaca de rotina na dor abdominal crônica

Sugerida pelo critério vigente

O texto registra que a realização rotineira de sorologia para doença celíaca é sugerida pelo atual critério de Roma IV.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Atualização nº 6, 2019, deslocamento 5.649.

A própria fonte a chama de controversa

A recomendação vem carimbada como controversa pelo próprio documento que a transmite — não é consenso, e a sociedade brasileira não a converte em obrigação.

Mesmo documento, mesma frase, que abre com a ressalva 'Embora seja controversa'.

Na prova

Enunciado que ofereça sorologia celíaca como conduta isolada em criança sem alarme costuma estar testando excesso de investigação. Quando há diarreia crônica, desaceleração de crescimento ou história familiar de doença celíaca, a sorologia deixa de ser rotina e vira investigação dirigida — e aí é a resposta certa por outro motivo.

Qual lista de sinais de alarme aplicar

Lista longa, de 13 itens

Inclui dor persistente em quadrante superior ou inferior direito, diarreia noturna e atraso da puberdade, além de sangramento gastrointestinal em sentido amplo.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Atualização nº 6, 2019, Tabela 1, adaptada de Hyams et al., 2016.

Lista curta, de 8 itens

Suprime quadrante direito, diarreia noturna e atraso puberal, e estreita sangramento gastrointestinal para hematêmese e melena.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Atualização, 'Exames complementares comuns na prática clínica em Gastroenterologia e Hepatologia', deslocamento 57.619 do texto extraído, dentro da regra de quando não indicar endoscopia digestiva alta.

Na prova

Um enunciado construído sobre a lista curta pode apresentar como 'sem sinais de alarme' uma criança com diarreia noturna ou atraso puberal. Leia a vinheta contra a lista longa: se qualquer um dos 13 itens estiver presente, a conduta é investigar, independentemente de o enunciado afirmar que não há alarme.

06

Caso resolvido

Menina de seis anos é levada à unidade básica com dor abdominal há sete meses, em crises de cerca de meia hora, sempre em volta do umbigo, quase todos os dias de semana e raramente aos sábados e domingos. Nunca acordou à noite por causa da dor. Não há vômitos, sangue nas fezes, diarreia noturna, febre ou artralgia. Come bem e brinca normalmente entre as crises. Peso e estatura acompanham o mesmo canal desde os dois anos. Exame abdominal sem massas, sem visceromegalias, região perianal normal. A mãe traz um ultrassom de abdome feito há dois meses, descrito como normal, e pede uma tomografia.
Passo 1
Leia o horário antes de qualquer outra coisa. A dor é diurna, dura minutos, deixa a criança bem entre as crises e nunca a acordou à noite. Esse é o retrato funcional descrito pelo guia brasileiro, e o padrão que piora em dia de aula e melhora no fim de semana reforça a associação com estresse ambiental, que é parte do quadro e não uma acusação à criança.
Passo 2
Confirme o crescimento na curva. Peso e estatura no mesmo canal desde os dois anos afastam desaceleração do crescimento linear e perda ponderal involuntária, dois dos alarmes. Crescimento normal não é achado neutro: integra o diagnóstico positivo.
Passo 3
Varra a lista longa de alarme, item por item. Não há história familiar de doença inflamatória intestinal, celíaca ou péptica; a dor não é de quadrante direito; não há disfagia, odinofagia, vômito persistente, sangramento, diarreia noturna, artrite, doença perianal, atraso puberal nem febre. Nenhum dos treze está presente.
Passo 4
Conte o tempo e escolha a porta. São sete meses de sintoma, com dor em quase todos os dias úteis — muito acima dos dois meses e dos quatro dias por mês exigidos. Não há relação com evacuação nem alteração das fezes, o que afasta a síndrome do intestino irritável; não há plenitude, saciedade precoce nem dor epigástrica, o que afasta dispepsia funcional; as crises são curtas e frequentes, não paroxísticas e separadas por semanas, o que afasta enxaqueca abdominal. Sobra dor abdominal funcional sem outra especificação.
Passo 5
Decida a investigação com a proporção na cabeça. Causas orgânicas são cinco a dez em cem, e esta criança não tem nenhum alarme. Cabe, no máximo, o painel básico — hemograma, sumário de urina, parasitológico de fezes — uma única vez. O ultrassom já foi feito e era desnecessário; repetir imagem ou escalar para tomografia contraria a regra escrita de que exame radiológico de rotina não se indica sem evidência clínica de causa orgânica.
Passo 6
Nomeie e trate. Diga à mãe, com o nome próprio, que a criança tem dor abdominal funcional, que o diagnóstico está feito e não é uma sobra de exames, que a dor é real e não inventada, e que cerca de trinta em cem seguem com dor por anos — mas que o objetivo é manter a menina na escola e nas atividades. Liste os sinais que fazem voltar antes do retorno e marque o acompanhamento.
07

Agora feche você

Menino de nove anos vem à consulta por dor abdominal há oito meses. As crises são raras, cerca de uma a cada seis ou oito semanas, mas quando vêm são violentas: dor periumbilical intensa que dura de duas a quatro horas, obriga a deitar no escuro e vem acompanhada de palidez, náusea e recusa alimentar. Entre as crises fica completamente bem. A mãe tem enxaqueca. Não há vômitos persistentes, sangue nas fezes, diarreia noturna, febre, artrite nem doença perianal; o crescimento é adequado e o exame físico, normal. Já fez hemograma, urina e parasitológico há três meses, todos normais, e a família chega pedindo endoscopia.
Passo 1
Separe o padrão paroxístico do padrão contínuo. Crises separadas por semanas ou meses, com saúde completa entre elas, não são o desenho da dor funcional sem outra especificação nem o da dispepsia — são o desenho da enxaqueca abdominal, que conta episódios em vez de dias.
Passo 2
Confira os critérios da entidade paroxística um a um: dor periumbilical intensa e aguda durando uma hora ou mais, sendo o sintoma mais grave; episódios intervalados por semanas ou meses; dor incapacitante que interfere nas atividades; padrão estereotipado no mesmo paciente; e pelo menos dois sintomas acompanhantes entre anorexia, náusea, vômito, cefaleia, fotofobia e palidez. Este menino tem palidez, náusea, anorexia e fotofobia.
Passo 3
Aplique o relógio certo. Esta é a única das quatro portas que exige seis meses de critérios, e não dois. São oito meses de história, com crises a cada seis a oito semanas — mais que os dois episódios mínimos. O critério temporal está cumprido.
Passo 4
Varra a lista longa de alarme antes de aceitar o rótulo. Ausentes vômitos persistentes, sangramento, diarreia noturna, artrite, doença perianal, febre, disfagia, odinofagia, perda ponderal, desaceleração do crescimento e atraso puberal; a dor é periumbilical, não de quadrante direito. História familiar é de enxaqueca, não de doença inflamatória intestinal, celíaca ou péptica — o que reforça o diagnóstico em vez de alarmar.
Passo 5
Resista à endoscopia. O guia de exames da própria sociedade lista a dor abdominal crônica entre as situações em que não se indica endoscopia digestiva alta com pesquisa da bactéria gástrica, salvo quando há sinais de alarme. O painel básico já foi feito e foi normal; repetir exame não muda prognóstico, e a família precisa ouvir isso com essas palavras.
Passo 6
Trate e combine o seguimento. Discuta profilaxia medicamentosa — ciproeptadina, amitriptilina, propranolol, pizotifeno ou flunarizina são as opções citadas — e explique que a melhora com essas drogas reforça retrospectivamente o diagnóstico. Investigue gatilhos alimentares descritos (chocolate à frente, depois queijo e frutas cítricas) sem impor dieta restritiva ampla, e marque retorno para reler a frequência das crises.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar o funcional como diagnóstico de exclusão É o erro que organiza todos os outros. Quem trata o distúrbio funcional como sobra pede a primeira leva de exames, marca retorno para os resultados, pede a segunda leva, e a cada resultado normal reforça na família a ideia de que ainda falta achar alguma coisa. O guia brasileiro escreve o contrário: espera-se menor solicitação de testes e maior consideração dos distúrbios funcionais como causa primeira da afecção, e não como diagnóstico de exclusão. Com história típica, exame normal e nenhum sinal de alarme, o rótulo se dá na consulta, não depois dela.
  2. 2Usar a lista curta de alarme porque foi a que apareceu As duas redações são da mesma sociedade e as duas são legítimas no contexto em que aparecem — mas a curta nasceu dentro de uma regra sobre endoscopia, não como régua diagnóstica geral. Quem decora a curta perde dor persistente em quadrante direito, diarreia noturna e atraso da puberdade, e troca sangramento gastrointestinal amplo por hematêmese e melena — deixando sangue vivo nas fezes fora do radar. Varra a lista de 13 itens.
  3. 3Achar que dor forte é dor orgânica A dor funcional pode ser forte o bastante para fazer a criança chorar e interromper a brincadeira — a definição histórica exigia exatamente isso. Palidez, sudorese, náusea e vômito acompanham o quadro funcional como sintomas neurovegetativos. A revisão sistemática citada no guia mede que a gravidade da dor não prediz persistência. Intensidade não é critério; horário, localização, crescimento e alarme são.
  4. 4Chamar de intestino irritável antes de tratar a constipação Quando há dor e constipação juntas, o guia manda tratar a constipação funcional primeiro. Se a dor desaparece com o tratamento, o diagnóstico é constipação funcional; se persiste, aí sim é síndrome do intestino irritável — e os próprios critérios da síndrome dizem que, em crianças com constipação, a dor pode não resolver com a resolução da constipação. Tratamento curto ou sem desimpactação não serve de teste: produz falso resultado e empurra para investigação.
  5. 5Pedir ultrassonografia para tranquilizar a família Exames radiológicos de rotina, incluindo ultrassonografia, não são mais indicados em paciente sem evidência clínica de causa orgânica. O ultrassom normal tranquiliza por pouco tempo e o achado incidental — cisto, linfonodo, dilatação sem significado — cria uma segunda consulta e uma segunda investigação que a criança não precisava. O que tranquiliza é o diagnóstico dito em voz alta e o retorno marcado.
  6. 6Pedir calprotectina fecal e ler o número como se houvesse régua O guia de exames da própria sociedade avisa que na população pediátrica o ponto de corte não está bem estabelecido; que recém-nascidos, prematuros ou a termo, e lactentes têm valores normalmente elevados que caem com o tempo; e que a absorção de água pela fralda pode concentrar a amostra. Os valores citados (< 50 mcg/g normal, > 100 mcg/g sugestivo de doença inflamatória) são de adultos. Um número sem régua para a idade não decide nada e gera investigação.
  7. 7Confundir os dois relógios e rotular a enxaqueca abdominal cedo Três das quatro portas pedem 2 meses de critérios e dor em ao menos 4 dias por mês. A enxaqueca abdominal pede 6 meses e conta episódios, não dias: 2 crises bastam, desde que durem 1 hora ou mais, sejam incapacitantes, estereotipadas no mesmo paciente e venham com pelo menos 2 entre anorexia, náusea, vômito, cefaleia, fotofobia e palidez. Aplicar o relógio curto à enxaqueca abdominal rotula uma criança que ainda não preencheu critério.
  8. 8Prescrever escopolamina como se houvesse evidência O documento é direto: embora comumente utilizados, os anticolinérgicos como a escopolamina não têm estudos controlados para controle da dor nesses distúrbios. O que tem alguma evidência de reduzir intensidade são probióticos específicos (Lactobacillus rhamnosus GG e Lactobacillus reuteri DSM 17938), e a terapia cognitivo-comportamental é a psicoterapia mais efetiva. Dieta restritiva sem nutricionista pediátrica é iatrogenia: produz inadequação nutricional e transtorno alimentar.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dor abdominal periumbilical crônica, recorrente, sem sinais de alarme (sem perda de peso, sem despertar noturno, sem sangramento, crescimento normal, exame normal) caracteriza dor abdominal funcional — a conduta é tranquilizar e acompanhar. Endoscopia, TC e teste/tratamento de H. pylori só se indicam na presença de sinais de alarme, ausentes aqui. Dietas de exclusão indiscriminadas não têm respaldo e podem prejudicar a criança sem diagnóstico definido.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Dor abdominal funcional dói de dia, em volta do umbigo ou no epigástrio, dura minutos a horas e deixa a criança bem entre as crises; palidez, sudorese, náusea e vômito cabem no quadro. Dor que acorda à noite, dor persistente em quadrante direito, diarreia noturna, artrite, doença perianal, sangramento, perda de peso, desaceleração do crescimento, atraso puberal, disfagia, odinofagia, vômitos persistentes, febre sem explicação e história familiar de doença inflamatória intestinal, celíaca ou péptica são os 13 alarmes. Causas orgânicas são 5% a 10%. Três portas pedem 2 meses e 4 dias por mês (dispepsia funcional, síndrome do intestino irritável, dor funcional sem outra especificação); a enxaqueca abdominal pede 6 meses e 2 crises de 1 hora ou mais. Com dor e constipação juntas, trate a constipação: se a dor sumir, era constipação.

em 30 dias

O diagnóstico é positivo, não de exclusão: história típica, exame normal com crescimento preservado e nenhum dos 13 alarmes já autorizam nomear o distúrbio na primeira consulta. Painel básico (hemograma, sumário de urina, parasitológico de fezes) se pede uma vez; ultrassonografia de rotina não se pede; calprotectina fecal não tem ponto de corte pediátrico estabelecido; endoscopia fica para quem tem alarme. A conversa é intervenção: assegurar benignidade, endereçar o medo da família, ensinar a criança a nomear a dor, terapia cognitivo-comportamental como a psicoterapia mais efetiva. Fármacos com alguma evidência: probióticos específicos na síndrome do intestino irritável; profilaxia de enxaqueca abdominal com ciproeptadina, amitriptilina, propranolol, pizotifeno ou flunarizina; bloqueio ácido por 4 semanas na dispepsia com dor predominante. Escopolamina não tem estudo controlado. Cerca de 30% seguem com dor, história parental de sintoma gastrointestinal associa-se à persistência, e exame complementar não muda prognóstico.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Escolar com dor abdominal recorrente há meses, exame normal e crescimento preservado, cuja mãe chega decidida a conseguir uma tomografia. Treine nomear o distúrbio funcional em voz alta, listar os sinais que fariam voltar antes do retorno e sustentar a decisão de não pedir imagem sem transformar a conversa em recusa. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Dor abdominal recorrente e distúrbios gastrointestinais funcionais na infância – Dor abdominal funcional na criança: um diagnóstico que se faz, não que sobra — Preparatório para provas | OsceLabs