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Clínica MédicaGeriatria

Via alimentar na demência avançada: a sonda não entrega o que promete

A família pede a sonda para quem engasga; o que muda o desfecho não é a via, e sim quem oferece a comida e por quanto tempo.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Idoso de 84 anos, com demência avançada e disfagia, é acompanhado em domicílio pela equipe de atenção primária. A família pergunta sobre a colocação de sonda para alimentação. Considerando as melhores evidências e os princípios do cuidado centrado na pessoa, qual orientação é a mais adequada?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata de uma decisão só: o que se faz quando a pessoa com demência em estádio avançado para de comer. A pergunta chega quase sempre pronta, vinda da família ou da equipe de enfermagem, e vem em forma de pedido de procedimento — passar a sonda, marcar a gastrostomia. A resposta é clínica e tem régua, e a régua não é a mesma que se aplica ao paciente cirúrgico desnutrido ou ao doente com obstrução mecânica do tubo digestivo.

Três vizinhos ficam de fora, de propósito, e todos foram conferidos linha a linha antes de serem citados. A escada analgésica, a dose de resgate, a rotação de opioide e a constipação induzida por opioide estão no capítulo de dor oncológica em cuidados paliativos, da apostila de Oncologia, que traz a morfina, os degraus e o resgate por escrito. O diagnóstico da demência, os pontos de corte do miniexame do estado mental por escolaridade e a separação entre declínio cognitivo e quadro agudo estão nos capítulos de demências e de delirium, desta mesma apostila. A escolha da via e o momento de iniciar terapia nutricional no doente que vai operar estão no capítulo de terapia nutricional no cirúrgico, da apostila de Pré e Pós-operatório.

O que sobra aqui é o que nenhum daqueles decide: se a via artificial de alimentação muda algum desfecho na demência avançada, o que se prescreve quando não se prescreve a sonda, como a decisão sobre líquido se separa da decisão sobre comida, e quem, afinal, assina. Não se discute neste capítulo a disfagia por obstrução, que é outra doença e pede imagem e endoscopia.

03

O que muda decisão

Quem chega com a pergunta não é quem vai ser operado

A cena se repete com uma regularidade que já deveria ter virado protocolo. A filha diz que a mãe está engasgando, que come cada vez menos, que a refeição virou uma hora e meia de luta, e pergunta se não é hora de passar a sonda. Às vezes quem pergunta é a equipe de enfermagem, cansada de registrar recusa alimentar. Às vezes é o médico plantonista, diante da terceira internação por pneumonia no mesmo semestre.

O que está sendo pedido não é um exame nem uma opinião: é um procedimento. E procedimento tem indicação, tem risco, tem alternativa e tem consentimento. Tratar o pedido como se fosse uma preferência de família — atender porque foi pedido, ou recusar porque incomoda — é o erro de origem, e ele contamina tudo o que vem depois.

A pergunta certa não é se a família quer a sonda. É se a sonda faz, nesta doença e neste estádio, aquilo que quem a pede acredita que ela faça. São quatro promessas, e vale nomeá-las antes de examiná-las uma a uma: que a sonda impede a pessoa de engasgar, que ela faz a pessoa viver mais, que ela fecha a ferida das costas e que ela alivia o sofrimento de quem não come. Nenhuma das quatro se sustenta na demência avançada, e a literatura que as testou é antiga o bastante para não ser novidade.

Há uma quinta crença, menos dita e mais poderosa: a de que não passar a sonda é abandonar. É contra ela que o resto do capítulo trabalha, porque a alternativa à sonda não é ausência de cuidado — é um cuidado mais trabalhoso, mais caro em tempo humano e muito menos visível no prontuário. Quem decide sem enxergar isso decide entre fazer algo e não fazer nada, e essa nunca foi a escolha real.

A régua que sustenta as próximas páginas não é opinião de escola. Vem de três lugares que se checam entre si: uma revisão sistemática que recusou juntar os números num só resultado, uma diretriz europeia de nutrição clínica que separa a conduta por estádio da demência, e coorte com pareamento por escore de propensão que mediu sobrevida e pneumonia lado a lado. Os três apontam para o mesmo lado, e onde discordam a divergência está escrita adiante.

Demência avançada é um estádio com definição, não um adjetivo

Antes de discutir via alimentar é preciso saber se o paciente está mesmo no estádio em que a discussão se aplica, e aqui o vocabulário solto atrapalha. Avançada não quer dizer antiga, nem quer dizer que a família acha que piorou muito. É um estádio funcional descrito por instrumentos, e a descrição é razoavelmente uniforme entre eles.

O quadro que interessa é o da pessoa dependente para todas as atividades básicas, incontinente de urina e de fezes, com linguagem reduzida a poucas palavras inteligíveis ou ausente, e que perdeu a marcha independente ou a capacidade de se sustentar sentada. Nas escalas de estadiamento funcional da demência esse conjunto ocupa o degrau final; nas escalas de gravidade clínica global, o grau mais alto. Não é preciso decorar a numeração de cada instrumento para reconhecê-lo à beira do leito, mas é preciso não chamar de avançada a demência de quem ainda anda, ainda se veste com supervisão e ainda constrói frases.

A distinção tem consequência direta, e ela é o eixo de uma das divergências deste tema. A diretriz europeia de nutrição em demência corta a conduta pelo estádio: admite nutrição e hidratação artificiais como opção temporária na demência leve ou moderada, e as recusa na demência grave e na fase terminal da vida. Quem aplica a recomendação contrária a um paciente em fase moderada com perda de peso por causa tratável está estendendo uma conclusão para além do território onde ela vale — e, nesse caso, deixando de investigar o que tinha tratamento.

O segundo dado do estádio é prognóstico, e ele muda a conversa. Nessa fase a dificuldade para comer não é uma complicação que aparece por acaso: é um dos eventos que anunciam a proximidade do fim, ao lado do episódio febril e da pneumonia. Coortes que acompanharam residentes de instituições de longa permanência com demência terminal mostraram mortalidade elevada nos meses seguintes a cada um desses marcos. Quando a pessoa deixa de comer, o relógio já está andando — e nenhuma via de alimentação o atrasa. Reconhecer isso é o que transforma a conversa de logística de sonda em conversa de objetivos de cuidado.

A disfagia da demência não é obstrução: é o comando que se desfaz

O engasgo do paciente com demência avançada tem mecanismo próprio, e confundi-lo com o engasgo de quem tem tumor de esôfago leva a pedir o exame errado e a oferecer a solução errada. Na obstrução mecânica o alimento não passa: a queixa começa com sólidos, progride para pastosos e depois para líquidos, e o paciente aponta o lugar onde a comida para. Esse quadro pede investigação de lesão, e sai do território deste texto.

Na demência avançada a passagem está livre. O que se desorganiza é o comando. A fase oral se perde primeiro: a pessoa não reconhece o alimento na boca, não forma o bolo, retém a comida no vestíbulo bucal por minutos, esquece de engolir. Depois se atrasa o disparo do reflexo de deglutição, e a via aérea fica desprotegida no instante exato em que o conteúdo passa pela faringe. É uma apraxia, não um obstáculo.

Daí decorre o fato que derruba a primeira promessa: boa parte do que é aspirado nesses doentes não é a refeição. É saliva, colonizada por flora orofaríngea, deglutida dezenas de vezes por hora, dia e noite. E é conteúdo gástrico que reflui, num paciente que passa a maior parte do tempo deitado, com esvaziamento gástrico lento e tônus de esfíncter reduzido. Nenhuma dessas duas fontes passa pela boca — logo, nenhuma delas é interrompida por uma via que contorna a boca.

Há ainda uma diferença de reversibilidade que precisa ser buscada antes de qualquer decisão definitiva. Candidíase oral, dentes soltos ou prótese mal adaptada, xerostomia por fármaco anticolinérgico, sedação excessiva por psicotrópico prescrito para agitação: cada um desses reduz a ingestão e cada um tem tratamento. Um deles pode ser a causa inteira do quadro. Procurá-los custa uma inspeção da boca e uma leitura da receita, e não custa procedimento nenhum. É a etapa que mais muda conduta e a que mais se pula.

A sonda não impede a aspiração — e há razão anatômica para isso

A primeira promessa é a mais fácil de desmontar, porque a anatomia responde antes da estatística. Uma sonda nasoenteral ou uma gastrostomia entrega nutrição líquida diretamente ao estômago ou ao jejuno. Ela desvia o alimento da boca e da faringe. Ela não desvia a saliva, que continua sendo produzida e deglutida, e não impede o refluxo do conteúdo gástrico, que continua subindo.

Pior: em vários aspectos a via artificial trabalha contra. A sonda nasoenteral atravessa o esfíncter esofágico inferior e o mantém entreaberto, o que facilita o refluxo em vez de dificultá-lo. A infusão de volume no estômago de quem está deitado aumenta o resíduo gástrico disponível para refluir. E a presença do tubo na faringe aumenta a produção de secreção e reduz a sensibilidade local. Quem já aspirava saliva passa a aspirar saliva mais dieta refluída.

A medida existe e tem sinal. Uma coorte prospectiva com pareamento por escore de propensão, conduzida em dois hospitais geriátricos, comparou pessoas com demência avançada e dificuldade alimentar em sonda nasogástrica e em alimentação assistida cuidadosa. O risco ajustado de pneumonia em um ano foi maior no grupo com sonda, com intervalo de confiança que não cruza a unidade. É o oposto exato da promessa que costuma ser feita à família na hora de pedir a assinatura.

Nenhum ensaio clínico com distribuição aleatória respondeu à pergunta nessa população, e é preciso dizer isso com todas as letras, porque a ausência de ensaio é usada dos dois lados da discussão. A revisão sistemática que reuniu o que existe declarou que os resultados não eram adequados para metanálise e os apresentou de forma narrativa, separando gastrostomia, sonda nasogástrica e demais vias. O que se tem, portanto, é convergência de coortes e de posições de sociedades — forte o bastante para orientar conduta, insuficiente para se chamar de prova definitiva. Se o argumento apresentado à família for de que a sonda evita a pneumonia, ele está errado, e volta contra quem o usou na internação seguinte.

Corte sagital de cabeça, pescoço, tórax e estômago de uma pessoa reclinada, com uma sonda entrando pelo nariz, descendo pela faringe e pelo esôfago até o estômago e mantendo entreaberta a junção com o esôfago, e setas que mostram saliva escorrendo para a via aérea e conteúdo gástrico subindo.
A via artificial desvia o alimento da boca, mas não desvia a saliva nem impede o refluxo — e o tubo que atravessa a junção esofágica ainda a mantém entreaberta em quem passa a maior parte do tempo deitado.

Sobrevida: o desfecho que a via não move

A segunda promessa é a de que a sonda faz viver mais. Ela é intuitiva: quem não come morre, logo quem passa a receber calorias deveria viver mais. A intuição falha porque inverte a direção da causa. Na demência avançada a pessoa não está morrendo por falta de comida; ela parou de comer porque está morrendo. A anorexia e a disfagia são manifestação da doença cerebral em estádio final, do mesmo modo que a incontinência e a perda da marcha são.

Na mesma coorte pareada citada acima, a sobrevida ajustada em um ano não diferiu entre quem recebeu sonda nasogástrica e quem manteve alimentação assistida: a razão de risco ficou abaixo da unidade, mas com intervalo de confiança que a atravessa com folga para os dois lados e valor de significância longe do limiar convencional. Vale a leitura fina dos dois resultados dessa coorte lado a lado: no mesmo estudo, o intervalo do desfecho de pneumonia não cruza a unidade e o do desfecho de sobrevida cruza. Um número autoriza afirmar direção; o outro autoriza apenas afirmar ausência de diferença detectada.

É preciso ser honesto sobre a natureza dessa evidência, porque a honestidade aqui protege quem vai conversar com a família. São estudos observacionais, sujeitos a confusão por indicação: quem recebe sonda pode ser justamente quem estava pior, e isso empurraria o resultado contra a sonda mesmo que ela funcionasse. Os desenhos com pareamento por escore de propensão existem para reduzir esse problema, e não para aboli-lo. Ainda assim, o enunciado defensável é o de que não há evidência de benefício, e não o de que exista prova cabal de dano na sobrevida.

Essa distinção não afrouxa a conduta: numa intervenção que tem custo, risco e alternativa, a ausência demonstrada de benefício já basta para não indicá-la de rotina. A régua da medicina não é fazer tudo o que não foi provado prejudicial. É oferecer o que tem benefício demonstrado, e explicar por que o resto fica de fora — inclusive porque essa é a formulação que sobrevive quando a família pergunta se existe estudo dizendo o contrário.

A ferida das costas não fecha porque a comida entra pelo tubo

A terceira promessa é a mais teimosa dentro dos hospitais, porque a lesão por pressão é visível, incomoda a equipe e parece um problema de nutrição. O raciocínio é conhecido: a ferida precisa de proteína para cicatrizar, o paciente não come, logo a sonda vai fechar a ferida. E o raciocínio tem um pedaço verdadeiro — desnutrição de fato prejudica cicatrização, e oferta proteica adequada faz parte do cuidado de quem já tem lesão.

O que não se sustenta é o salto para a via artificial como tratamento da ferida na demência avançada. Lesão por pressão foi eleita desfecho primário pela revisão sistemática do tema, ao lado de sobrevida e qualidade de vida, e o resultado não autorizou recomendar a via enteral por essa razão. Parte dos estudos mostrou incidência maior no grupo com sonda, e há explicação plausível: quem recebe dieta por tubo tende a permanecer mais tempo deitado, é mais frequentemente contido para não arrancá-lo, é mudado de posição com menos frequência porque a infusão desestimula a mobilização, e recebe volume que aumenta a produção de urina e de fezes sobre uma pele já frágil.

O determinante da lesão por pressão não é a via da caloria: é a pressão. O que muda o desfecho é aliviar carga sobre proeminência óssea com mudança de decúbito programada, superfície de suporte adequada, cuidado com umidade e manejo da incontinência. A oferta proteica entra como coadjuvante, e ela pode ser feita por via oral com dieta modificada e suplemento, na maioria dos casos em que ainda há alguma ingestão.

Vale registrar o desenho do argumento porque ele se repete em outros temas: um fator de risco verdadeiro — desnutrição — é usado para justificar uma intervenção que não foi testada contra o desfecho, e que atua sobre o fator errado. Reconhecer esse desenho vale mais do que decorar o resultado de um estudo específico, e ele reaparece toda vez que alguém propõe corrigir um marcador em vez de tratar o mecanismo.

O que a via artificial cobra: contenção, deslocamento e a boca que seca

Até aqui o capítulo mostrou o que a sonda não entrega. Falta o outro lado da conta, que é o que ela cobra — e essa parte quase nunca é apresentada à família na hora do consentimento, o que torna o consentimento incompleto.

O primeiro custo é a contenção. O paciente com demência avançada não compreende a finalidade do tubo e tenta retirá-lo, porque ele incomoda. A resposta habitual é imobilizar as mãos ou aumentar a sedação. Contenção mecânica e contenção química produzem agitação, delirium, perda de massa muscular e mais imobilidade, e cada uma delas piora exatamente aquilo que se queria melhorar. A régua de enfermagem para contenção e o manejo do idoso agitado estão no capítulo de delirium; o ponto aqui é que a sonda cria a indicação de contenção onde ela não existia. Revisões que descrevem os danos associados à via artificial listam o uso de contenção ao lado de mortalidade e pneumonia, e não como detalhe de enfermagem.

O segundo custo é o deslocamento. Tubo arrancado precisa ser reposicionado, e reposicionar costuma significar transporte, sala de procedimento, jejum, sedação e, com frequência, uma ida à emergência. Cada um desses episódios é uma oportunidade de queda, de infecção e de sofrimento, num paciente cujo objetivo declarado de cuidado era conforto.

O terceiro custo é o menos mensurável e talvez o maior. Comer não é só receber caloria: é gosto, é temperatura, é presença de alguém do lado. Quem passa a receber dieta por tubo perde o único momento do dia em que ainda havia contato, prazer e rotina, e ganha uma boca seca que ninguém lembra de cuidar porque ela deixou de ser usada. A higiene oral, que era necessária, passa a ser esquecida — e a boca colonizada continua alimentando a aspiração de saliva que a sonda não interrompeu.

Alimentação assistida cuidadosa é prescrição, não ausência de conduta

A recusa da sonda só é defensável se vier acompanhada do que entra no lugar, e o que entra tem nome, tem técnica e cabe no prontuário. Chama-se alimentação assistida cuidadosa, e a diferença entre fazê-la bem e fazê-la mal é maior do que a diferença entre fazê-la e passar um tubo.

O que se prescreve: posição sentada, com tronco elevado, mantida durante a refeição e por pelo menos meia hora depois. Ambiente sem televisão e sem conversa cruzada, porque atenção dividida piora a apraxia. Volumes pequenos por vez, com pausa entre eles, e confirmação visual de que a boca esvaziou antes da oferta seguinte. Consistência ajustada pela avaliação fonoaudiológica, e não pelo hábito da enfermaria. Utensílio adequado e a mão do cuidador levando o alimento quando a pessoa já não leva. Tempo — e é aqui que a prescrição costuma falhar, porque o tempo de uma refeição assistida é medido em dezenas de minutos e a escala de pessoal não o prevê.

A diretriz europeia de nutrição em demência sustenta esse mesmo conjunto e vai além dele: recomenda apoio social e de enfermagem à ingestão por via oral, com assistência, utensílios, treinamento e cuidado da boca, e manda eliminar as causas potenciais de desnutrição e desidratação antes de qualquer outra coisa. Recomenda ainda suplementos nutricionais orais para melhorar o estado nutricional — e adverte que eles não corrigem o comprometimento cognitivo nem previnem o declínio, o que separa a indicação nutricional da promessa que às vezes se faz com ela.

Registrar a decisão como alimentação por via oral com assistência, por objetivo de conforto — e não como dieta zero, nem como recusa de tratamento — é o que impede que a equipe do plantão seguinte leia o prontuário e conclua que nada foi decidido. Decisão de cuidado que não está escrita é decisão que será refeita por quem chegar depois, geralmente de madrugada e sem a família presente. Vale reconhecer o custo do outro lado: a alimentação assistida transfere trabalho e desgaste para o cuidador, e ignorar isso é a forma mais rápida de a prescrição não acontecer.

Hidratação e nutrição se decidem separadas

Um erro frequente é tratar comida e líquido como uma coisa só. São decisões distintas, com fisiologia distinta, horizonte distinto e, em alguns documentos, enquadramento ético distinto. Recusar a via artificial de alimentação não implica recusar hidratação, e aceitar hidratação não obriga a passar sonda para dieta.

A hidratação artificial pode ser oferecida por via venosa ou por via subcutânea. A via subcutânea, feita com agulha fina em tecido celular, dispensa acesso venoso, pode ser mantida em domicílio e em instituição de longa permanência, tem manejo simples e é bem tolerada. Ela resolve o problema prático de manter aporte de líquido em quem não tem veia disponível e para quem a internação não acrescenta nada.

Nos últimos dias de vida, porém, a conta muda. Volume infundido em paciente em fase final tende a acumular onde não deveria: edema periférico, ascite, secreção respiratória aumentada e o ruído de secreção alta que angustia a família e não incomoda o paciente inconsciente. E o sintoma que se pretendia tratar — a sede — responde mal ao soro e responde bem ao cuidado da boca: umedecer lábios e mucosa, oferecer pequenos goles ou gelo se houver deglutição segura, tratar candidíase. A sede da fase final é sintoma de boca seca, e boca seca se trata na boca.

A regra prática que resolve a maior parte dos casos: decida a hidratação pelo sintoma que ela vai aliviar, com prazo para reavaliar, e não pelo número de mililitros que a rotina prescreve. Se a oferta de líquido aumentou a secreção e não reduziu queixa alguma, ela é candidata a ser reduzida — e reduzir também é conduta, com a mesma dignidade de qualquer outra. Cabe uma ressalva de fonte: a diretriz europeia trata nutrição e hidratação artificiais na mesma frase ao cortar por estádio, e a separação defendida aqui é de decisão clínica no dia a dia, não de categoria documental.

A pneumonia que volta é informação, não fracasso

A terceira internação por pneumonia no mesmo ano costuma ser o momento em que alguém pede a sonda. É o momento errado para o procedimento e o momento certo para a conversa, porque a repetição carrega informação prognóstica que a primeira internação não carregava.

Pneumonia em pessoa com demência terminal é um dos marcos que anunciam curta sobrevida, e o antibiótico não altera esse fato tanto quanto se espera. Isso não quer dizer que antibiótico esteja proibido: ele frequentemente alivia sintoma, reduz febre e desconforto respiratório, e pode ser oferecido por essa razão, inclusive por via oral e no local onde a pessoa mora. Quer dizer que a expectativa de que a próxima não venha é infundada, e que o plano precisa antecipar a próxima. E convém lembrar, quando alguém propuser a sonda como solução da recorrência, que a coorte pareada mediu mais pneumonia com sonda, e não menos.

Antecipar significa deixar escrito, antes do evento, o que se fará: se haverá nova internação ou tratamento no local de moradia, se haverá antibiótico e por qual via, o que se faz com desconforto respiratório, e o que explicitamente não se fará. Um plano assim reduz decisões tomadas às pressas por quem não conhece o paciente, e é o instrumento que mais protege a família da culpa retrospectiva.

Vale nomear o desconforto ético que ronda a conversa. Escolher tratar sintomas em vez de perseguir cada causa não é acelerar a morte nem deixar de tratar: é reconhecer que a doença de base é irreversível e progressiva, e escolher onde o esforço rende. O Código de Ética Médica veda abreviar a vida do paciente, ainda que a pedido dele, e no mesmo dispositivo manda oferecer todos os cuidados paliativos disponíveis, sem ações diagnósticas ou terapêuticas inúteis ou obstinadas. As duas metades vivem no mesmo parágrafo, e é a segunda que autoriza não fazer o que não serve.

Quando a via artificial ainda cabe

Um capítulo que só diz não é um capítulo incompleto, e a régua descrita até aqui tem fronteiras nítidas que precisam ser ditas com a mesma clareza. A recomendação contra a via artificial vale para a demência em estádio avançado, com disfagia decorrente da própria doença e sem causa reversível identificada. Fora dessas condições, ela não vale.

A primeira fronteira é o estádio, e é a que a própria diretriz europeia desenha: nutrição e hidratação artificiais são opção temporária na demência leve ou moderada, e não o são na grave nem na fase terminal. Pessoa com demência em fase intermediária que perdeu peso tem investigação a fazer e causas a tratar, e recusar suporte ali por analogia com a fase final é aplicar a régua ao contrário.

A segunda fronteira é a doença que causa a disfagia. Sequela de acidente vascular cerebral em fase de reabilitação, tumor de cabeça e pescoço em tratamento, doença do neurônio motor: nessas situações a via artificial tem indicação própria, com evidência própria, e recusá-la por analogia com a demência é transportar conclusão para população onde ela não foi medida.

A terceira fronteira é a doença aguda sobreposta e reversível. Pessoa que deixou de comer no curso de uma infecção tratável, de um delirium por fármaco ou de um quadro que se espera reverter em dias pode receber suporte por via artificial como ensaio com prazo: define-se antes o que se espera observar, quanto tempo se aguarda e o que se fará se a expectativa não se cumprir. Aqui é honesto marcar o limite da fonte: essa ressalva é raciocínio clínico corrente sobre reversibilidade, e não uma exceção que a diretriz europeia escreva para a demência grave — o que ela escreve é o corte por estádio. O prazo é o que separa o ensaio da instalação definitiva por inércia; sem ele, a sonda de quinze dias vira a sonda de dois anos, porque retirar exige uma decisão que ninguém quer tomar sozinha.

A quarta fronteira é a vontade previamente manifestada. Havendo diretiva antecipada registrada, ela prevalece sobre qualquer parecer não médico, inclusive sobre os desejos dos familiares, e o médico a registra em prontuário. Na ausência de registro e de representante designado, e não havendo consenso entre familiares, a norma manda buscar o comitê de bioética da instituição ou a comissão de ética do hospital antes de decidir sozinho. E a pergunta que se faz à família nunca é o que ela quer: é o que aquela pessoa quereria.

04

As réguas do tema: as quatro promessas, os números que as testaram e o que entra no lugar

Decoram-se três blocos, e os três decidem conduta: as quatro promessas atribuídas à via artificial na demência avançada e o que cada uma resiste; a separação entre a decisão de nutrir e a decisão de hidratar; e a lista fechada de fronteiras em que a via artificial continua indicada. O quarto item — a técnica da alimentação assistida — é o que se prescreve, e cai como conduta, não como conceito.

  1. 1Pessoa com demência e redução da ingestão: primeiro confirmar o estádio — dependência total, incontinência, linguagem mínima, perda da marcha. Sem esse conjunto, não se aplica a régua da fase avançada, e a diretriz europeia inclusive admite suporte temporário na demência leve ou moderada.
  2. 2Inspecionar a boca e ler a receita: candidíase, dentes e prótese, xerostomia por anticolinérgico, sedação por psicotrópico. Tratar o que for reversível antes de decidir qualquer via.
  3. 3Excluir doença aguda sobreposta — infecção, delirium, descompensação — que explique a queda recente da ingestão e que se espere reverter.
  4. 4Se há causa reversível: tratar, e se for necessário suporte, oferecê-lo como ensaio com prazo definido, com o que se espera observar e a data de reavaliação escritos antes de começar.
  5. 5Se não há causa reversível e o estádio é avançado: prescrever alimentação assistida cuidadosa — posição, ambiente, volume, consistência avaliada, tempo e cuidador treinado — e registrar como conduta, com objetivo de conforto.
  6. 6Decidir hidratação em separado, pelo sintoma que ela alivia, com prazo de reavaliação; preferir via subcutânea quando não houver veia e a internação não acrescentar.
  7. 7Escrever o plano para o próximo evento: local de tratamento, uso e via de antibiótico, manejo de desconforto respiratório, e o que explicitamente não se fará.
  8. 8Buscar registro de diretiva antecipada; havendo, ela prevalece sobre qualquer parecer não médico, inclusive sobre o desejo dos familiares, e vai ao prontuário. Não havendo diretiva, representante designado nem consenso familiar, recorrer ao comitê de bioética da instituição ou à comissão de ética do hospital.

Os dois desfechos da mesma coorte, lado a lado

Mesma coorte pareada, dois desfechos em um ano. Barra de cima: sobrevida, com o ponto à esquerda da linha tracejada da unidade e o intervalo atravessando-a — nenhuma diferença detectada. Barra de baixo: pneumonia, com o intervalo inteiro à direita da unidade — mais pneumonia no grupo com sonda. Um resultado autoriza afirmar direção; o outro autoriza apenas afirmar ausência de diferença.

O aspirado que a sonda não desvia

As três origens do material aspirado na demência avançada. Barra alta: saliva colonizada, deglutida dezenas de vezes por hora. Barra média: conteúdo gástrico refluído, favorecido pelo decúbito e pelo tubo que cruza o esfíncter. Barra baixa: o bolo alimentar — a única que a via artificial retira do caminho. A linha tracejada marca o patamar que a sonda deixa intacto.

Onde a decisão realmente se bifurca

O nó não está entre sonda e nada: está entre causa reversível e fase final. À esquerda, o ramo que se investiga e se trata — candidíase, prótese, fármaco que seda, delirium, infecção aguda. À direita, o ramo em que a disfagia é a própria doença em estádio terminal, e a conduta é alimentação assistida com objetivo de conforto. A linha tracejada é o prazo: todo suporte que entra no ramo reversível entra com data de reavaliação.

As quatro promessas da sonda na demência avançada

PromessaO que se medeVereditoO que muda o desfecho de verdade
Evita a aspiraçãoRisco de pneumonia em 1 anoCai, e com sinal invertido: na coorte pareada, razão de risco ajustada de 1,60 (IC 95% 1,06-2,42; p = 0,03) contra a alimentação assistida — mais pneumonia com sondaHigiene oral, retirada de sedativo e anticolinérgico, posicionamento, oferta sem pressa
Prolonga a sobrevidaSobrevida em 1 anoCai: razão de risco ajustada de 0,85 (IC 95% 0,59-1,23; p = 0,38) na mesma coorte — intervalo atravessa a unidade, sem diferença detectadaNada prolonga; o que se ajusta é o objetivo do cuidado
Previne e cicatriza lesão por pressãoDesfecho primário da revisão sistemática, ao lado de sobrevida e qualidade de vidaCai: sem benefício demonstrado, e parte dos estudos aponta incidência maior no grupo com sondaAlívio de pressão, superfície de suporte, controle de umidade, proteína por via oral
Alivia o sofrimento de quem não comeConforto e sinais de desconfortoCai por alvo errado: sede na fase final responde a cuidado de boca, não a volume infundidoCuidado oral, tratamento de candidíase, presença de cuidador na refeição

As quatro promessas caem por razões diferentes: aspiração cai por anatomia e tem número contra (razão de risco ajustada de 1,60; IC 95% 1,06-2,42), sobrevida cai por inversão de causa e tem número neutro (0,85; IC 95% 0,59-1,23), lesão por pressão cai por fator errado (o determinante é pressão, não caloria) e conforto cai por alvo errado (a sede se trata na boca).

Os dois intervalos vieram do MESMO estudo: coorte prospectiva com pareamento por escore de propensão, 283 participantes, idade média de 89,8 anos, 62,2% mulheres, 73,5% vindos de instituição de longa permanência, dois hospitais geriátricos, setembro de 2020 a setembro de 2022; subamostra pareada de 176 (116 em alimentação assistida, 60 em sonda nasogástrica).

O enunciado defensável sobre sobrevida é ausência de evidência de benefício, não prova de dano — e ele vem da revisão sistemática, que declarou os resultados inadequados para metanálise e os apresentou de forma narrativa, separando gastrostomia, sonda nasogástrica e demais vias.

A diretriz europeia de nutrição em demência corta por ESTÁDIO: nutrição e hidratação artificiais são opções temporárias na demência leve ou moderada, e não na demência grave nem na fase terminal da vida. São 40 recomendações, 7 no plano institucional e 33 no individual.

A mesma diretriz recomenda suplemento nutricional oral para melhorar o estado nutricional e adverte que ele não corrige comprometimento cognitivo nem previne declínio — a indicação nutricional não carrega promessa cognitiva.

A contenção é consequência prevista da sonda, não acidente: o paciente não compreende o tubo e tenta retirá-lo. Revisões do tema listam o uso de contenção ao lado de mortalidade e pneumonia entre os danos associados.

Alimentação assistida cuidadosa é prescrição com itens: posição, ambiente, volume, consistência avaliada por fonoaudiologia, utensílio, tempo e cuidador treinado. Escrever dieta zero ou recusa de tratamento no lugar dela é o erro de registro que faz a decisão ser refeita no plantão seguinte.

Resolução CFM nº 1.805/2006, Art. 1º: é permitido limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente em fase terminal de enfermidade grave e incurável, respeitada a vontade da pessoa ou de seu representante legal; §2º exige decisão fundamentada e registrada em prontuário. Art. 2º garante todos os cuidados necessários para aliviar os sintomas, assistência integral e direito à alta hospitalar.

Resolução CFM nº 1.995/2012: as diretivas antecipadas prevalecem sobre qualquer parecer não médico, inclusive sobre os desejos dos familiares (§3º), vão ao prontuário (§4º), e na ausência delas, de representante e de consenso familiar recorre-se ao comitê de bioética da instituição ou à comissão de ética do hospital (§5º).

Código de Ética Médica, Art. 41 e parágrafo único: veda abreviar a vida do paciente ainda que a pedido dele, e manda, na doença incurável e terminal, oferecer todos os cuidados paliativos disponíveis sem ações diagnósticas ou terapêuticas inúteis ou obstinadas, considerada a vontade expressa do paciente ou a do representante legal.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Indicar ou não via enteral de alimentação na demência em estádio avançado

Não indicar na fase grave; a régua corta por estádio

A diretriz europeia de nutrição e hidratação em demência trata nutrição e hidratação artificiais como opções TEMPORÁRIAS em pacientes com demência leve ou moderada, e as recusa na demência grave e na fase terminal da vida. A conduta na fase avançada é apoiar a ingestão por via oral com assistência, utensílios, treinamento e cuidado da boca, depois de eliminar as causas potenciais de desnutrição e desidratação.

ESPEN guideline on nutrition and hydration in dementia — Update 2024, Clinical Nutrition, DOI 10.1016/j.clnu.2024.04.039 (resumo estruturado lido; texto completo não obtido)

Indicar sempre que a ingestão oral for insuficiente e o trato funcionar

Os documentos de terapia nutricional partem de outra pergunta e de outro princípio: diante de ingestão oral abaixo da meta calórico-proteica por período definido, e com trato digestivo funcionante e acessível, a via enteral é a via preferencial de suporte. Enunciada sem qualificação de estádio nem de prognóstico, essa regra geral leva à indicação da sonda também na demência avançada.

Princípio geral de terapia nutricional (trato funcionante indica via enteral), atribuído sem número por não ter sido possível abrir documento brasileiro do tema nesta rodada

Na prova

Não é contradição de mérito: é diferença de pergunta e de população. O documento de nutrição responde qual via usar depois que se decidiu nutrir artificialmente; o documento de geriatria responde se se deve nutrir artificialmente naquele paciente. A questão que descreve estádio avançado com dependência total, incontinência e linguagem mínima está pedindo a régua geriátrica, e a correta oferece alimentação assistida com decisão compartilhada. A questão que descreve doente com trato funcionante e meta calórica não atingida, sem qualificar estádio, está pedindo a régua nutricional. Quem não separa as duas perguntas aplica a régua certa no paciente errado — e a banca sabe disso, porque é exatamente aí que o enunciado costuma esconder o dado de estadiamento no meio da história social.

Se a alimentação artificial é procedimento que prolonga a vida ou cuidado que alivia sintoma

Procedimento que prolonga a vida — logo, limitável na fase terminal

A norma brasileira sobre terminalidade permite ao médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente em fase terminal de enfermidade grave e incurável, respeitada a vontade da pessoa ou de seu representante legal, com decisão fundamentada e registrada em prontuário. Enquadrada aqui, a via artificial de alimentação é limitável.

Resolução CFM nº 1.805/2006, Art. 1º e §2º (leitura direta do arquivo de 6 páginas, deslocamento 1.993 cru / 1.936 normalizado)

Cuidado necessário para aliviar sintoma — logo, assegurado

A mesma norma assegura, no artigo seguinte, que o doente continuará a receber todos os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, com assistência integral e conforto físico, psíquico, social e espiritual. Enquadrada aqui, a oferta de nutrição seria cuidado assegurado, e não medida sujeita a limitação.

Resolução CFM nº 1.805/2006, Art. 2º (leitura direta, deslocamento 2.722 do texto extraído)

Na prova

Nenhum dos dois artigos diz em qual caixa a sonda cai, e é essa lacuna que o tema explora. Quem decide é a medida clínica: se a via artificial não prolonga a sobrevida — e o intervalo de confiança da coorte pareada atravessa a unidade —, ela não é o procedimento que o primeiro artigo autoriza limitar POR prolongar a vida; e se ela não alivia sintoma — a sede responde a cuidado de boca, e a pneumonia aumentou —, ela também não é o cuidado que o segundo artigo assegura. Sobra a terceira caixa, que o Código de Ética Médica nomeia no parágrafo único do Art. 41: ação terapêutica inútil ou obstinada, que não se deve empreender. Enunciado que cite a norma de terminalidade e ofereça alternativa com as palavras registro em prontuário, decisão fundamentada e vontade do paciente está pedindo o primeiro artigo; enunciado que descreva conflito com a família está pedindo a norma de diretivas antecipadas, e não esta.

O que a literatura autoriza afirmar: ausência de benefício ou dano medido

Só se pode afirmar que o equilíbrio não está claro

A revisão sistemática do tema declara que o equilíbrio entre benefícios e danos da via enteral na demência grave não está claro, adota como desfechos primários tempo de sobrevida, qualidade de vida e lesão por pressão, e conclui que os resultados não eram adequados para metanálise, apresentando-os de forma narrativa e em separado por tipo de via. Nessa leitura, o enunciado defensável é ausência de evidência de benefício.

Enteral tube feeding for people with severe dementia, Cochrane Database of Systematic Reviews, 2021, DOI 10.1002/14651858.CD013503.pub2 (resumo estruturado lido)

Já se pode afirmar dano em desfecho específico

A coorte prospectiva com pareamento por escore de propensão mediu, na mesma população, risco ajustado de pneumonia em um ano maior no grupo com sonda nasogástrica, com intervalo de confiança que não cruza a unidade, e sobrevida sem diferença. Nessa leitura já existe estimativa pontual com intervalo para um desfecho de dano, e não apenas ausência de benefício.

Coorte pareada em dois hospitais geriátricos, The Journals of Gerontology Series A, 2025, DOI 10.1093/gerona/glaf165 (resumo estruturado lido; texto completo indisponível pela interface)

Na prova

A diferença é de gênero e de data: revisão sistemática que recusa juntar números autoriza menos do que coorte pareada posterior que produziu estimativa com intervalo. Para escolher a alternativa, vale a formulação: quando a opção diz que não há evidência de benefício em sobrevida, ela está segura nas duas leituras; quando diz que a sonda reduz aspiração, está errada nas duas; e quando afirma categoricamente que a sonda encurta a vida, ultrapassa o que qualquer das duas sustenta, porque o intervalo da sobrevida atravessa a unidade. É a alternativa que mais parece contundente e por isso mesmo costuma ser a errada.

06

Caso resolvido

Mulher de oitenta e sete anos, com doença de Alzheimer diagnosticada há nove anos, mora com a filha. Está acamada, não deambula, é incontinente de urina e fezes, depende de terceiros para banho, vestir e higiene, e emite apenas palavras isoladas. Nos últimos dois meses passou a recusar a refeição, engasga com líquidos finos e a filha relata que cada almoço leva mais de uma hora. Perdeu quatro quilos no período. Foi internada duas vezes no último semestre por pneumonia, ambas tratadas com antibiótico venoso. Na consulta, a filha pergunta se não é hora de fazer a gastrostomia, porque ouviu dizer que assim a mãe para de engasgar e não perde mais peso. Exame da boca: mucosa seca, placas esbranquiçadas removíveis em língua e palato, prótese superior folgada. Em uso de quetiapina à noite para agitação e de escopolamina prescrita para sialorreia.
confirmar o estádio
Dependência para todas as atividades básicas, incontinência dupla, linguagem reduzida a palavras isoladas e perda da marcha: o conjunto fecha demência em estádio avançado. Isso não decide a conduta sozinho, mas define qual régua se aplica — a da fase grave, em que a diretriz europeia recusa nutrição e hidratação artificiais, e não a da fase leve ou moderada, em que ela as admite como opção temporária. As duas pneumonias no semestre acrescentam informação de prognóstico, não indicação de procedimento.
procurar o reversível antes de decidir a via
A boca entrega três achados tratáveis e a receita entrega mais dois. Placas removíveis em língua e palato são candidíase, que dói e reduz a ingestão; prótese folgada impede a mastigação; mucosa seca piora a formação do bolo. A quetiapina seda e reduz a participação na refeição, e a escopolamina prescrita para sialorreia é anticolinérgica e produz exatamente a xerostomia observada. Tratar a candidíase, ajustar a prótese, suspender a escopolamina e reavaliar a necessidade do psicotrópico é o que se faz antes de qualquer decisão sobre via.
responder às duas promessas da pergunta
A filha trouxe duas expectativas explícitas: que a gastrostomia impeça o engasgo e que evite a perda de peso. A primeira não se sustenta, porque o material aspirado é sobretudo saliva colonizada e conteúdo gástrico refluído, que não passam pela boca — e a coorte pareada mediu risco ajustado de pneumonia de 1,60 (IC 95% 1,06-2,42) no grupo com sonda. A segunda inverte a causa: nessa fase a redução da ingestão é manifestação da doença em estádio final, e a sobrevida ajustada não diferiu entre os grupos (0,85; IC 95% 0,59-1,23).
prescrever o que entra no lugar
Alimentação assistida cuidadosa, escrita como conduta: tronco elevado durante a refeição e por meia hora depois, ambiente sem competição de atenção, volumes pequenos com pausa e confirmação de que a boca esvaziou, consistência definida por avaliação fonoaudiológica, utensílio adequado, cuidador treinado e tempo previsto. Junto, higiene oral com escovação e tratamento da candidíase — a medida com efeito próprio sobre pneumonia neste paciente — e o reconhecimento explícito, com a filha, do trabalho que isso transfere para quem cuida.
separar a hidratação e escrever o próximo evento
A decisão sobre líquido corre à parte e se resolve pelo sintoma: havendo desidratação sintomática sem veia disponível, a via subcutânea permite aporte em casa, sem internar. E fica escrito, antes de acontecer, o plano para a próxima pneumonia: local de tratamento, se haverá antibiótico e por qual via, manejo do desconforto respiratório e o que não se fará. A decisão vai fundamentada ao prontuário, como manda a norma de terminalidade, e se houver diretiva antecipada registrada ela prevalece sobre a preferência dos familiares.
07

Agora feche você

Homem de oitenta e um anos, com demência de provável doença de Alzheimer, dependente para todas as atividades básicas, incontinente, com linguagem reduzida a poucas palavras e sem marcha independente há mais de um ano. Vinha comendo por via oral com assistência da esposa, sem engasgos frequentes, mantendo peso estável nos últimos seis meses. Há quatro dias iniciou febre, tosse produtiva e queda acentuada da ingestão: hoje não aceita nem líquidos. Ao exame, taquipneico, com estertores em base direita, desidratado, sonolento e menos responsivo que o habitual. A radiografia mostra consolidação em base direita. A equipe da enfermaria pergunta se já se deve indicar gastrostomia, dado que o paciente tem demência avançada e agora parou de comer.
o que o estádio devolve
Dependência total, incontinência, linguagem mínima e perda da marcha: o estádio é avançado, e a régua da fase grave se aplica. Isoladamente, esse dado empurraria a resposta para alimentação assistida e contra a via artificial definitiva.
o que a história recente devolve em sentido contrário
Até quatro dias atrás o paciente comia por via oral com assistência, sem engasgos frequentes e com peso estável. A queda da ingestão não é a evolução lenta da demência: ela tem data, e tem uma pneumonia com consolidação radiológica e um rebaixamento agudo do nível de consciência ao lado. Há doença aguda potencialmente reversível sobreposta.
a pergunta que fica
Duas leituras do mesmo tema apontam para lados diferentes neste paciente: o estádio pede alimentação assistida, e a intercorrência aguda abre espaço para suporte temporário. O que se faz hoje com a nutrição e com a hidratação, e o que precisa estar escrito antes de qualquer sonda ser passada?
08

Onde a banca derruba

  1. 1Prometer à família que a sonda evita a pneumonia É a promessa mais comum e a mais frágil, porque a anatomia a desmente antes da estatística e a estatística a desmente com sinal invertido. O material aspirado nesse paciente é predominantemente saliva colonizada e conteúdo gástrico refluído, e nenhum dos dois passa pela boca; a sonda nasoenteral ainda mantém o esfíncter esofágico inferior entreaberto e favorece o refluxo. Na coorte pareada, o risco ajustado de pneumonia em um ano foi de 1,60 (IC 95% 1,06-2,42) no grupo com sonda. Quem usa esse argumento perde a credibilidade na internação seguinte, que virá.
  2. 2Afirmar que a sonda encurta a vida É o erro simétrico, e cai por excesso. Na mesma coorte, a razão de risco ajustada para sobrevida em um ano foi de 0,85, com intervalo de 0,59 a 1,23 e valor de significância de 0,38 — o intervalo atravessa a unidade e não sustenta afirmação de direção. A revisão sistemática do tema foi ainda mais contida, declarando os resultados inadequados para metanálise. O enunciado que resiste é ausência de evidência de benefício em sobrevida, e ele basta para não indicar de rotina uma intervenção com custo, risco e alternativa.
  3. 3Chamar de demência avançada quem ainda anda e conversa Toda a régua deste tema foi construída no estádio terminal: dependência para todas as atividades básicas, incontinência dupla, linguagem reduzida a poucas palavras, perda da marcha independente. A diretriz europeia é explícita ao cortar por estádio, admitindo nutrição e hidratação artificiais como opções temporárias na demência leve ou moderada. Aplicar a recomendação contrária em fase intermediária é usar a régua ao contrário — e nessa fase há causas tratáveis de perda de peso que exigem investigação, não abstenção.
  4. 4Indicar a sonda para cicatrizar a lesão por pressão Desnutrição de fato prejudica cicatrização, e é daí que o erro nasce. Mas o determinante da lesão por pressão é a pressão: alívio de carga, superfície de suporte, mudança de decúbito e controle de umidade. A lesão por pressão foi desfecho primário da revisão sistemática do tema, ao lado de sobrevida e qualidade de vida, e o resultado não autorizou recomendar a via enteral por essa razão; parte dos estudos mostrou incidência maior, com mecanismo plausível — mais tempo deitado, mais contenção, menos mobilização e mais umidade sobre pele frágil.
  5. 5Tratar comida e líquido como uma decisão só São duas decisões, com fisiologia e horizonte diferentes. Recusar dieta por sonda não recusa hidratação, e aceitar hidratação não obriga a passar tubo para dieta. A via subcutânea resolve o aporte de líquido em quem não tem veia disponível, em domicílio ou em instituição de longa permanência. Já nos últimos dias a conta se inverte, e volume passa a produzir edema, ascite e secreção sem aliviar a sede, que se trata na boca. Vale registrar que a diretriz europeia trata as duas na mesma frase ao cortar por estádio: a separação defendida aqui é de decisão no dia a dia.
  6. 6Escrever dieta zero em vez de prescrever a alimentação assistida A alternativa à sonda tem nome, técnica e itens: posição sentada mantida por meia hora após a refeição, ambiente sem competição de atenção, volumes pequenos com pausa e confirmação de que a boca esvaziou, consistência definida por avaliação fonoaudiológica, utensílio adequado, cuidador treinado e tempo. Registrar recusa de tratamento ou dieta zero no lugar disso faz a equipe seguinte concluir que nada foi decidido — e refazer a decisão de madrugada, sem a família presente.
  7. 7Esquecer a boca depois que ela deixou de ser usada A higiene oral é uma das poucas medidas com efeito próprio sobre a pneumonia nesse paciente, e é justamente a que se perde quando a alimentação passa para o tubo. Boca colonizada continua produzindo a saliva que é aspirada, e boca seca é a origem da sede na fase final. Escovação, umidificação de lábios e mucosa e tratamento de candidíase permanecem prescritos em todos os cenários deste tema, inclusive naqueles em que tudo o mais foi limitado.
  8. 8Deixar o suporte entrar sem prazo Na doença aguda reversível sobreposta, o suporte por via artificial cabe — mas como ensaio, com o desfecho esperado e a data de reavaliação escritos antes de começar, e preferindo a via reversível à definitiva. Sem prazo, a sonda instalada por duas semanas vira a sonda de dois anos, porque retirar exige uma decisão ativa que ninguém quer tomar sozinha. O caráter definitivo, e não a via em si, é o que costuma tornar errada a opção que oferece gastrostomia nesse cenário.
  9. 9Perguntar à família o que ela quer Havendo diretiva antecipada registrada, ela prevalece sobre qualquer parecer não médico, inclusive sobre os desejos dos familiares, e o médico a registra em prontuário. Não havendo diretiva conhecida, nem representante designado, nem consenso entre familiares, a norma manda recorrer ao comitê de bioética da instituição ou à comissão de ética médica do hospital. E a pergunta correta à família nunca é o que ela deseja, e sim o que aquela pessoa teria escolhido — reconstrução de vontade, não decisão por procuração afetiva.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Em demência avançada, evidências consistentes mostram que alimentação por sonda (gastrostomia/nasoenteral) NÃO prolonga sobrevida, NÃO previne pneumonia aspirativa nem úlceras por pressão e pode aumentar sofrimento. Recomenda-se 'careful hand feeding' (alimentação assistida por via oral, no ritmo e conforto do paciente) e decisão compartilhada com a família, priorizando conforto e dignidade. Indicação compulsória/rotineira e a suspensão total de oferta (que configura abandono) são incorretas e antiéticas.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Quatro promessas e por que cada uma cai: aspiração cai por anatomia e tem número contra (razão de risco ajustada 1,60; IC 95% 1,06-2,42), sobrevida cai por inversão de causa e tem número neutro (0,85; IC 95% 0,59-1,23; p = 0,38), lesão por pressão cai por fator errado (o determinante é pressão), conforto cai por alvo errado (a sede se trata na boca). O que entra no lugar: alimentação assistida cuidadosa com posição, ambiente, volume, consistência avaliada, utensílio, cuidador treinado e tempo, mais higiene oral e revisão de sedativos e anticolinérgicos. Nutrir e hidratar são decisões separadas; hidratação pode correr por via subcutânea. Quatro fronteiras em que a via artificial ainda cabe: estádio leve ou moderado (opção temporária pela diretriz europeia), disfagia por outra doença, doença aguda reversível sobreposta com ensaio de prazo definido, e vontade previamente manifestada em sentido contrário.

em 30 dias

Recite o estádio antes da conduta: dependência para todas as atividades básicas, incontinência de urina e fezes, linguagem reduzida a poucas palavras, perda da marcha independente — sem esse conjunto a régua não se aplica. Depois recite as três origens do aspirado na ordem em que a sonda as afeta: saliva colonizada (não muda), conteúdo gástrico refluído (piora, porque o tubo cruza o esfíncter), bolo alimentar (a única que sai do caminho). Diga em voz alta os dois intervalos da mesma coorte e o que cada um autoriza: 1,06 a 2,42 para pneumonia, que não cruza a unidade e sustenta direção; 0,59 a 1,23 para sobrevida, que cruza e sustenta apenas ausência de diferença detectada. Feche com os três dispositivos: a norma de terminalidade permite limitar o que prolonga a vida e assegura o que alivia sintoma; a de diretivas antecipadas as faz prevalecer sobre parecer não médico, inclusive sobre desejo de familiar; e o Código de Ética Médica manda oferecer todo cuidado paliativo sem ação inútil ou obstinada.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

A filha de uma paciente de oitenta e sete anos com demência avançada chega ao ambulatório decidida: quer marcar a gastrostomia, porque a mãe engasga e emagrece. Você tem uma espátula, a lista de medicamentos em uso e vinte minutos. Examine a boca, leia a receita, decida a via — e explique, sem prometer o que a sonda não entrega, o que entra no lugar dela. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.