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Clínica MédicaGeriatria

Sarcopenia no idoso: o ponto de corte mede, e o que trata é carga e proteína

Sarcopenia na pessoa idosa: rastreio, pontos de corte brasileiros e a prescrição de exercício resistido e proteína

A perda de músculo chega ao consultório já medida — índice aplicado, panturrilha na fita, dinamômetro apertado. O que falta escrito é a linha seguinte: quanta carga, quanta proteína, e o que muda quando o rim entra na conta.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 81 anos é rastreada com o escore que acrescenta o perímetro de panturrilha ao questionário de cinco perguntas. Ela responde 'nenhuma dificuldade' a todas as perguntas e nunca caiu no último ano, mas o perímetro de panturrilha é de 31 cm. Qual o resultado do rastreio e a conduta decorrente?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata do que se prescreve para a pessoa idosa com perda de músculo e de força: a carga, a proteína, a frequência e o que muda quando existe doença renal. O ponto de partida é o momento em que a medida já foi feita e o resultado já está escrito no prontuário.

Fica de fora, de propósito, tudo o que identifica a pessoa. A avaliação geriátrica ampla, o índice de vulnerabilidade clínico-funcional com suas vinte perguntas e suas faixas, o fenótipo de fragilidade e os pontos de corte do consenso europeu têm endereço próprio no capítulo de avaliação geriátrica ampla e fragilidade, desta mesma apostila, e não se repetem aqui: entram apenas onde a régua escolhida muda a conduta.

Também ficam fora o rastreio anual de queda, os testes de marcha e equilíbrio e a intervenção que previne cair, que pertencem ao capítulo de quedas e imobilidade no idoso; a revisão da receita, a cascata iatrogênica e a desprescrição, que pertencem ao capítulo de polifarmácia e prescrição segura; e a dose de cálcio, de vitamina D e de antirreabsortivo para osso, que pertence ao capítulo de osteoporose. Quando a doença renal aparece aqui, ela aparece só pela oferta proteica: estadiamento, alvo de fósforo e escolha de quelante são de outro capítulo.

03

O que muda decisão

Onde a fita métrica para, e a receita começa

A perda de músculo chega ao consultório já medida. A pessoa idosa teve o índice aplicado, a panturrilha contornada pela fita, o dinamômetro apertado, a caminhada cronometrada — e o resultado escrito na caderneta, consulta a consulta. O que quase nunca chega escrito é a linha seguinte, a que diz o que fazer. É nela que este capítulo começa.

Vale fixar a ordem que os documentos usam, porque ela governa todo o resto. O parâmetro primeiro é a força; a quantidade de músculo confirma; o desempenho gradua. Força baixa isolada define sarcopenia provável. Força baixa somada a massa baixa define a sarcopenia confirmada. Quando o desempenho também cai, a doença é grave. Inverter essa ordem é a origem de metade dos erros: quem procura massa antes de força mede justamente o que menos prediz desfecho ruim.

A consequência prática dessa ordem é grande e passa despercebida. Como o degrau de entrada é a força, e força se mede com um aperto de mão ou com uma cadeira, o tratamento não espera exame de imagem. No instante em que a força está baixa já existe conduta — e a conduta não é medicamento. É carga e é comida.

Convém dizer também o que a sarcopenia não é. Não é emagrecimento: a pessoa com obesidade pode ter músculo pobre e força baixa, e a balança não denuncia nada. Não é sinônimo de fragilidade, que é uma síndrome mais larga, com exaustão referida, lentidão e baixa atividade. E não é envelhecimento comum: perder alguma força com a idade é esperado, perder força a ponto de não levantar da cadeira sem apoio não é.

O restante do capítulo responde a três perguntas em sequência. Quanto o número que define a doença depende da régua escolhida. Quanto vale, em cada instrumento brasileiro, a medida mais barata que existe. E qual é, em quantidade, a prescrição que sobra depois que se descobre que não há remédio.

O corte não descreve a população: ele a fabrica

O estudo brasileiro de maior porte sobre o assunto fez uma pergunta desconfortável e a respondeu com as mesmas pessoas. Foram sete mil e sessenta e cinco participantes de cinquenta anos ou mais, idade média de sessenta e um anos, pouco mais da metade mulheres, e quatro em cada dez já em risco de desnutrição. A amostra não mudou entre as duas contas. Mudou apenas o ponto de corte da força de preensão.

Com o corte do consenso europeu — vinte e sete quilos para homens e dezesseis para mulheres — a sarcopenia provável apareceu em dez vírgula seis por cento. Com o corte mais alto, de trinta e seis quilos para homens e vinte e três para mulheres, a mesma população passou a ter quarenta vírgula um por cento. A prevalência quadruplicou sem que ninguém envelhecesse, adoecesse ou emagrecesse no intervalo.

O efeito atravessa os outros degraus. A sarcopenia confirmada subiu de um vírgula quatro para cinco por cento; a grave, de três vírgula nove para oito vírgula oito. E a força da associação com desnutrição também se deslocou: a razão de risco relativo entre desnutrição e doença grave passou de seis vírgula quatro cinco para onze vírgula dois três. O mesmo achado clínico, lido com outra régua, ficou quase duas vezes mais associado ao estado nutricional.

O que se aprende com isso não é ceticismo, é disciplina de leitura. Quando alguém diz que a pessoa idosa à sua frente tem ou não tem sarcopenia, a afirmação só significa alguma coisa se vier acompanhada da régua. A prevalência é uma propriedade do instrumento tanto quanto do doente — e, entre duas réguas defensáveis, a distância chega a um fator de quatro.

Há uma consequência prática direta para quem atende. O corte mais alto identifica mais gente e identifica mais cedo, e os próprios autores registram que cortes mais altos podem ser melhores para permitir intervenção precoce. Como a intervenção é exercício e alimento, e não uma droga com efeito adverso relevante, o custo de tratar quem talvez não precisasse é baixo, e o custo de não tratar quem precisava é alto.

A categoria do meio quase não existe, e isso diz onde o doente chega

Há um detalhe nos mesmos números que costuma passar batido e que ensina mais do que a prevalência. Com o corte europeu, a sarcopenia confirmada ficou em um vírgula quatro por cento e a sarcopenia grave, em três vírgula nove. Com o corte mais alto, cinco por cento contra oito vírgula oito. Nas duas contas, o degrau grave é mais populoso que o degrau anterior a ele.

As três categorias são mutuamente exclusivas, então não há erro aritmético: quem está no degrau grave saiu da contagem do degrau confirmado. O que o par de números diz é outra coisa. Quando a massa muscular já está mensuravelmente baixa, o desempenho quase sempre já caiu junto. A fase intermediária — força baixa e massa baixa, mas caminhada ainda preservada — é uma janela estreita, e é raro flagrar alguém dentro dela.

Isso reorganiza a prioridade da consulta. Esperar a confirmação por massa para começar a tratar significa, na prática brasileira medida, encontrar a pessoa já no degrau grave. O degrau que se pode alcançar cedo, e que concentra dez ou quarenta por cento da população conforme a régua, é o provável — aquele que se fecha só com força baixa, sem nenhum exame de composição corporal.

Há um efeito colateral disso na leitura de qualquer laudo que chegue pronto. Quando o relatório traz a palavra grave, ela não descreve necessariamente alguém acamado: descreve alguém que preencheu os três degraus, e no Brasil isso acontece cedo, porque o desempenho cai junto com a massa. O adjetivo assusta mais do que informa, e o que muda conduta continua sendo o mesmo par — carga e proteína — com intensidade e supervisão ajustadas à reserva de quem tem menos.

Some-se a isso o que a densitometria e a bioimpedância significam na rede pública: um exame que a maior parte das unidades básicas não tem. Se a conduta dependesse dele, ela não aconteceria. Por isso a definição operacional que interessa ao médico da atenção primária é a que abre com o aperto de mão e com a cadeira, e não a que abre com o aparelho.

A regra que resume a seção cabe numa frase: começa-se a tratar na sarcopenia provável. Confirmar por massa é útil para pesquisa, para prognóstico e para relatório; não é condição para prescrever carga e proteína a quem já tem força baixa.

Duas fitas para a mesma panturrilha, com três centímetros entre elas

A medida mais barata do rastreio é o perímetro da panturrilha: uma fita métrica, a perna relaxada, a pessoa em pé. É também a medida em que dois documentos brasileiros vigentes discordam abertamente, e a discordância é de tamanho clínico.

A caderneta federal da pessoa idosa traz, dentro do índice de vulnerabilidade clínico-funcional, o marcador de circunferência de panturrilha menor que trinta e um centímetros. Não há distinção por sexo: o mesmo número vale para homens e mulheres. O corte está impresso na ficha que a equipe preenche consulta a consulta.

A diretriz brasileira de terapia nutricional no envelhecimento, publicada por sociedade, adota outro par de números para a mesma população: menor ou igual a trinta e quatro em homens e trinta e três em mulheres, citando estudo feito com idosos brasileiros. São dois a três centímetros acima do corte federal, e são específicos por sexo.

A consequência é concreta e cabe numa consulta. Uma mulher de setenta e nove anos com panturrilha de trinta e dois centímetros é normal pela régua federal e alterada pela régua da sociedade. Não há como ser as duas coisas, e não há autoridade única que resolva: uma régua nasceu para triagem populacional dentro de um índice multidimensional, a outra para decidir intervenção nutricional individual.

A saída não é escolher a régua favorita e esquecer a outra. É saber para que serve cada uma. Se a pergunta é organizar fila e periodicidade de reavaliação na unidade, o corte federal é o que está na ficha e o que a equipe registra. Se a pergunta é se aquela pessoa precisa de intervenção proteica agora, o corte da diretriz nutricional é o que foi validado para essa decisão. A mesma perna, medida duas vezes, responde a duas perguntas diferentes.

Dois pontos em quarenta, dez pontos em vinte: a mesma perna, dois pesos

A divergência de centímetros é pequena diante da divergência de peso. Os dois instrumentos brasileiros não discordam apenas sobre onde fica o corte da panturrilha: discordam, por uma ordem de grandeza, sobre o quanto essa medida importa no resultado final.

No índice federal, a panturrilha aparece no item de capacidade aeróbica e muscular, ao lado de outros três marcadores: perda de peso não intencional, índice de massa corporal baixo e caminhada lenta. O item inteiro vale, no máximo, dois pontos dos quarenta do índice — e a ficha diz isso com todas as letras, registrando que a pontuação máxima é de dois pontos mesmo que a pessoa responda sim a todos os itens. Os quatro marcadores são, para efeito de escore, intercambiáveis: ter um vale o mesmo que ter os quatro.

No escore da sociedade, o mesmo perímetro de panturrilha vale dez pontos dos vinte possíveis. O questionário de rastreio original tem cinco perguntas de zero a dois, somando dez, e é sugestivo a partir de quatro. Acrescentada a panturrilha, o total vai a vinte e o ponto de virada passa a ser onze.

Dessa aritmética sai um fato pouco intuitivo e muito cobrável. Como a panturrilha alterada dá dez e o corte é onze, a panturrilha sozinha nunca cruza a linha: é preciso pelo menos um ponto vindo das perguntas. Em compensação, quem tem panturrilha alterada precisa de apenas uma queixa mínima — uma única resposta de alguma dificuldade — para passar de negativo a positivo.

O contraste vale ser dito na forma mais crua possível, porque é ele que orienta a leitura de qualquer resultado que chegue pronto. A mesma perna vale um vigésimo num instrumento e metade no outro. Quem lê o escore sem saber qual instrumento gerou o número está lendo uma palavra sem saber a língua.

O questionário e o dinamômetro não encontram as mesmas pessoas

Se o rastreio por perguntas e a medida de força apontassem para a mesma gente, a escolha entre eles seria de conveniência. Um estudo brasileiro em duas cidades mediu os dois na mesma amostra e mostrou que não é assim.

Foram quinhentas e vinte e nove pessoas idosas da comunidade, idade média de oitenta anos e pouco, escolaridade média de pouco mais de quatro anos, sete em cada dez mulheres. O questionário de rastreio veio positivo em vinte e sete vírgula três por cento. A força de preensão baixa apareceu em trinta e oito vírgula três por cento. E os dois critérios juntos, que é o que define sarcopenia provável naquele desenho, ficaram em treze vírgula seis por cento.

Ponha os três números lado a lado e o problema salta. Dos que tinham força baixa, pouco mais de um terço havia sido apontado pelo questionário; quase dois terços da fraqueza medida não tinham sido flagrados por pergunta nenhuma. E metade dos que o questionário apontou tinha força normal ao dinamômetro.

A leitura correta disso não é que o questionário é ruim. É que ele foi desenhado para ser sensível a limitação percebida, e força baixa nem sempre é percebida por quem já organizou a vida em torno dela — quem parou de carregar peso, quem passou a se apoiar para levantar, quem trocou a escada pelo elevador, deixa de referir dificuldade porque deixou de tentar. A adaptação apaga a queixa antes de apagar a força.

O mesmo estudo mede o custo de deixar passar. Depois de ajustar para idade, sexo, escolaridade, depressão, diabetes, hipertensão, atividade física e obesidade, a sarcopenia provável ficou associada a comprometimento no miniexame do estado mental com razão de chances de dois vírgula cinco dois. A pessoa que se identifica pela mão fraca não tem só um problema de músculo à frente.

Na prática, a conclusão é operacional: em quem tem qualquer marcador antropométrico ou funcional, mede-se a força, não se pergunta por ela. O dinamômetro, ou a cadeira quando ele não existe, é o que separa o rastreio positivo do rastreio que se perdeu.

O artigo que prometia remédio e terminou entregando carga

Existe, na literatura brasileira indexada, uma revisão dedicada exclusivamente ao tratamento medicamentoso da sarcopenia, escrita a partir de um serviço de doenças osteometabólicas de hospital universitário. Ela percorre as classes que já foram tentadas, com seus efeitos adversos — supressão do eixo gonadal, alterações hepáticas, virilização, reações no local de aplicação — e chega ao fim.

A frase final é a que interessa: o tratamento, escreve o autor, continua baseado muito nos exercícios de resistência e em alguns suplementos. Um artigo cujo título anuncia farmacologia encerra dizendo que o que se tem é treino. Não é ironia editorial; é o estado da questão, e é a razão pela qual não existe caixa a prescrever.

A mesma conclusão aparece por outro caminho numa revisão publicada em periódico brasileiro de endocrinologia, que registra o treinamento resistido progressivo como a intervenção mais bem estabelecida até então, e acrescenta que o valor da suplementação é menos claro. Convém registrar que esse texto é assinado por autores estrangeiros e não traz dado brasileiro — ele sustenta a afirmação sobre exercício, não uma régua nacional.

Isso muda o que se escreve na receita e o que se diz à família. Não há comprimido para músculo perdido. Há um estímulo — a contração contra carga que aumenta com o tempo — e há substrato para responder a ele. Quando qualquer um dos dois falta, o outro rende pouco: treinar sem proteína suficiente é pedir construção sem material, e ofertar proteína sem estímulo é entregar material sem obra.

Daí a forma correta da conduta. Exercício e alimento entram juntos, não em sequência, e nenhum dos dois é orientação genérica de estilo de vida: os dois são prescrição, com parâmetro, com frequência e com reavaliação marcada.

Carga progressiva é prescrição, e prescrição tem parâmetros

A palavra que aparece nas condutas corretas é sempre a mesma: exercício resistido, e frequentemente multicomponente. Vale desdobrar as duas, porque elas não significam caminhar mais.

Resistido é o exercício em que o músculo trabalha contra uma carga, e progressivo é o exercício em que essa carga sobe conforme a pessoa melhora. Sem progressão não há estímulo novo, e sem estímulo novo o ganho estaciona. O material pode ser peso livre, faixa elástica, máquina ou o próprio corpo: o que define não é o equipamento, é a resistência crescente.

Multicomponente é o programa que soma, na mesma sessão ou na mesma semana, força, equilíbrio, marcha e componente aeróbico. A razão de somar é que a pessoa idosa com músculo pobre raramente tem só um problema: ela tem força baixa, base instável e pouca reserva cardiorrespiratória, e treinar apenas um desses eixos deixa os outros no lugar. É por isso que a resposta correta às situações de fragilidade costuma trazer as duas palavras juntas, com supervisão.

Supervisão não é detalhe burocrático. A pessoa que está sendo tratada por fraqueza é a mesma que cai, e um programa de carga sem alguém corrigindo execução e progressão troca um risco por outro. Onde há equipe multiprofissional na unidade, é ali que o programa se ancora; onde não há, a prescrição precisa ser conservadora e reavaliada em intervalo curto.

Vale antecipar a objeção que a família costuma trazer, porque ela aparece em quase toda consulta. Quem já é fraco tem medo de exercício, e quem cuida tem medo de autorizar. A resposta honesta é que o repouso é justamente o acelerador da perda: quanto menos carga o músculo recebe, mais rápido ele encolhe, e a pessoa que passa a semana sentada perde força numa velocidade que nenhuma dieta compensa. O risco de treinar sob supervisão é menor do que o risco de não treinar.

Uma advertência de honestidade sobre quantidade. O guia federal brasileiro de atividade física dedica um de seus oito grupos de trabalho às pessoas idosas, e declara, no próprio material de elaboração, que a quantidade e o volume de atividade recomendados foram tomados das recomendações globais da Organização Mundial da Saúde publicadas em dois mil e vinte. Este capítulo não transcreve minutos semanais por não ter lido o miolo desse guia; o que ele afirma é o que está verificado — carga que progride, mais de uma vez por semana, com supervisão e com reavaliação marcada.

Três cenas do mesmo idoso treinando: sentado puxando uma faixa elástica presa sob os pés, levantando da cadeira com os braços cruzados no peito e apoiando um pé à frente do outro num degrau baixo, com um profissional ao lado supervisionando e uma seta indicando carga crescente.
Treino resistido progressivo dentro de um programa multicomponente: carga que aumenta, exercício funcional de levantar da cadeira, treino de equilíbrio e supervisão de quem corrige execução e progressão.

A proteína tem faixa, e a faixa sobe com a doença

Do lado do alimento, a régua brasileira existe, é de sociedade e é explícita. A diretriz de terapia nutricional no envelhecimento fixa, para a pessoa idosa saudável, uma oferta de um vírgula zero a um vírgula dois grama de proteína por quilo por dia, lembrando que a quantidade se individualiza.

O número já é, por si, um recado clínico. A recomendação usual para o adulto jovem fica abaixo dessa faixa, e a razão de o idoso precisar de mais é fisiológica: com a idade, a mesma quantidade de proteína gera menos síntese muscular. Ofertar ao idoso a cota do adulto é, na prática, subofertar.

Quando existe doença, a faixa sobe. Para a pessoa idosa com doença aguda ou crônica, a diretriz escreve um vírgula dois a um vírgula cinco grama por quilo por dia, podendo chegar a dois gramas por quilo por dia na doença grave, em que a perda proteica é maior pelo catabolismo elevado. É o oposto da intuição de poupar quem está doente.

A mesma diretriz lembra do que costuma sabotar a conta: o apetite cai com o envelhecimento, e a ingestão cai junto. Prescrever grama por quilo sem verificar o que efetivamente entra é escrever um número que não acontece. Por isso a oferta proteica se acompanha, e não apenas se recomenda.

Há ainda um ponto de ordem que evita erro grosseiro. Suplemento não substitui refeição, e proteína não é conduta isolada: os documentos que sustentam o benefício mediram proteína somada a treino. Aumentar a oferta e não mexer na carga entrega ao organismo material sem demanda — e o resultado, medido, é bem menor do que o das duas coisas juntas.

Quando o rim entra, as duas réguas se cruzam em zero vírgula oito

A pessoa idosa com sarcopenia frequentemente tem também doença renal crônica, e nesse ponto as duas recomendações apontam para lados opostos dentro do mesmo documento. É o cenário mais cobrado do tema e o que mais se erra.

A diretriz escreve, para a doença renal crônica grave, com filtração abaixo de trinta, oferta de zero vírgula seis a zero vírgula oito grama por quilo por dia de peso corporal ideal. Para a moderada, entre trinta e sessenta, a oferta pode chegar a zero vírgula oito, com filtração monitorada duas vezes ao ano. E para a leve, acima de sessenta, a ingestão segue a necessidade do idoso — de volta ao um vírgula zero a um vírgula dois.

Repare no encaixe: o teto renal na doença grave, zero vírgula oito, é mais baixo que o piso do idoso saudável, um vírgula zero. Não há faixa comum. Se o médico aplicar a régua renal, sub-oferta para o músculo; se aplicar a régua do envelhecimento, sobrecarrega o rim que quer preservar.

A própria diretriz resolve o conflito numa linha, e é essa linha que se decora: para a pessoa idosa com doença renal crônica não dialítica e sarcopênica, recomenda-se a ingestão de pelo menos zero vírgula oito grama por quilo por dia. Ou seja, dentro da faixa renal escolhe-se o extremo superior, e não o inferior — a restrição não se leva ao limite quando há músculo em risco.

Duas ressalvas fecham o raciocínio. A conta renal é feita sobre peso corporal ideal, não sobre o peso aferido, o que muda o resultado em quem está acima ou abaixo do esperado. E o paciente em diálise sai dessa lógica de restrição: ali a perda proteica pelo próprio método inverte o sinal da recomendação. Restringir proteína em quem já está dialisando e sarcopênico é somar dois erros.

De quatro vírgula oito a sessenta e dois por cento: o que a prevalência não decide

Duas fontes brasileiras independentes chegaram ao mesmo par de extremos para a prevalência de sarcopenia no país: de quatro vírgula oito a sessenta e dois por cento. Uma revisão de nove estudos, com amostras que vão de cem a quase doze mil pessoas, registra essa faixa; o grande estudo de corte transversal a repete ao citar a literatura nacional.

A mesma revisão, nos dois estudos que separaram por sexo, encontrou de dez vírgula quatro a dezessete por cento em mulheres e de seis vírgula nove a vinte e oito vírgula oito por cento em homens. E identificou os grupos em que a associação foi significativa: pessoas idosas acamadas, institucionalizadas, com déficit cognitivo, de idade mais avançada, tabagistas e com déficit nutricional.

Uma faixa que vai de menos de cinco a mais de sessenta por cento não é um número: é o registro de que instrumentos, cenários e populações diferentes foram somados sob o mesmo rótulo. O idoso institucionalizado e acamado do estudo de sessenta e dois por cento não é o idoso da comunidade que anda até a unidade básica.

Isso tem uma consequência clínica útil e uma armadilha. A consequência é que o cenário desloca a probabilidade antes de qualquer teste: numa instituição de longa permanência, a pergunta razoável deixa de ser se há sarcopenia e passa a ser em que degrau ela está. A armadilha é usar a faixa larga como argumento para não medir — como se, por não haver número único, não houvesse doença.

A síntese do capítulo cabe em três frases. A régua muda o número, então diga sempre qual régua usou. A força entra antes da massa, então trate na sarcopenia provável. E o tratamento não é um comprimido: é carga que progride e proteína que acompanha, com o rim ditando o piso quando ele estiver doente.

04

As réguas do capítulo: cortes, pesos e faixas de proteína

Três blocos se decoram aqui, e os três decidem conduta: os pontos de corte que definem a doença, o peso que cada instrumento brasileiro dá à panturrilha e a escada proteica com o degrau renal.

  1. 1Pessoa idosa com qualquer marcador antropométrico ou funcional alterado — panturrilha fina, perda de peso, caminhada lenta, queixa de fraqueza.
  2. 2Meça a FORÇA: dinamômetro (< 27 kg em homens, < 16 kg em mulheres) ou teste de sentar e levantar (5 repetições em mais de 15 segundos).
  3. 3Força baixa = sarcopenia provável. Já se trata; não espere exame de composição corporal.
  4. 4Prescreva exercício resistido progressivo e multicomponente, supervisionado, com reavaliação marcada.
  5. 5Prescreva proteína: 1,0-1,2 g/kg/dia se saudável; 1,2-1,5 g/kg/dia (até 2,0) se doença aguda ou crônica.
  6. 6Se houver doença renal crônica não dialítica e sarcopenia: pelo menos 0,8 g/kg/dia de peso corporal ideal — extremo SUPERIOR da faixa renal.
  7. 7Massa muscular baixa confirma o diagnóstico; desempenho físico baixo gradua como grave. Nenhum dos dois é condição para começar.

O corte fabrica a prevalência — mesma amostra, dois números

As mesmas 7.065 pessoas do ELSI-Brasil. Barra baixa: sarcopenia provável em 10,6% com o corte de preensão de 27/16 kg. Barra alta: 40,1% com o corte de 36/23 kg. A linha tracejada marca o patamar do corte europeu — tudo acima dela é população que só existe porque a régua mudou.

A mesma perna, dois pesos

Esquerda: no IVCF-20, a panturrilha divide um item de 2 pontos com outros três marcadores, dentro de um total de 40 — a fatia cheia é quase invisível. Direita: no SARC-CalF, a mesma medida vale 10 pontos de 20, metade do escore. Ler um resultado sem saber o instrumento é ler o número errado.

A escada proteica e o degrau renal

Degraus: idoso saudável 1,0-1,2 g/kg/dia; doença aguda ou crônica 1,2-1,5; doença grave até 2,0. A linha tracejada é o piso de 0,8 g/kg/dia que a diretriz manda respeitar na doença renal crônica não dialítica com sarcopenia — dentro da faixa renal, escolhe-se o extremo de cima.

A panturrilha em dois instrumentos brasileiros

InstrumentoPonto de cortePeso no escorePara que serve
IVCF-20 (caderneta federal)< 31 cm, sem distinção por sexoItem de até 2 pontos em 40, dividido com perda de peso, IMC < 22 e marcha > 5 s em 4 mTriagem multidimensional e periodicidade de reavaliação na rede
SARC-F (rastreio de sarcopenia)Não usa panturrilhaSomatório 0-10; sugestivo a partir de 4Rastreio por limitação percebida
SARC-CalF (versão com panturrilha)≤ 34 cm homens, ≤ 33 cm mulheres10 pontos em 20; sugestivo a partir de 11Rastreio com sensibilidade melhorada para intervenção nutricional

O corte de força é sexo-específico (27 kg homens, 16 kg mulheres); o teste de sentar e levantar, não: mais de 15 segundos para cinco repetições vale para os dois sexos.

No SARC-CalF a panturrilha alterada dá 10 pontos e o corte é 11 — ela nunca cruza a linha sozinha, precisa de pelo menos 1 ponto vindo das perguntas.

No IVCF-20 os quatro marcadores do item 14 são intercambiáveis: a ficha registra que o máximo é 2 pontos mesmo com resposta positiva a todos.

A conta proteica renal usa PESO CORPORAL IDEAL, não o peso aferido — em quem está muito acima ou abaixo do esperado o resultado muda.

Paciente em diálise não segue a lógica de restrição: a perda proteica pelo método inverte a recomendação.

Medicina de Emergência e o capítulo de avaliação geriátrica ampla já ensinam a identificação e os estratos de risco; aqui o eixo é a prescrição, e as duas réguas de panturrilha entram só porque mudam a decisão de intervir.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual ponto de corte de perímetro de panturrilha usar na pessoa idosa brasileira

Menor que 31 cm, sem distinção por sexo

O instrumento federal impresso na ficha de acompanhamento usa um único número para homens e mulheres e o coloca como um de quatro marcadores intercambiáveis de um item que vale, no máximo, 2 pontos dos 40 do índice.

Ministério da Saúde, Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa, IVCF-20, item 14 (capacidade aeróbica e/ou muscular)

Menor ou igual a 34 cm em homens e 33 cm em mulheres

A diretriz de sociedade adota cortes específicos por sexo, dois a três centímetros acima do federal, citando estudo com população idosa brasileira, e dá à medida 10 dos 20 pontos do escore de rastreio.

Diretriz BRASPEN de terapia nutricional no envelhecimento, BRASPEN J 2019;34(Supl 3), seção de avaliação antropométrica e Tabela 2 (SARC-CalF)

Na prova

A diferença é de finalidade, não de qualidade: um número foi calibrado para triagem multidimensional dentro de um índice que organiza fila e periodicidade na rede; o outro, para decidir intervenção nutricional individual. O enunciado que descreve uma consulta de rotina com preenchimento de caderneta está pedindo a régua federal; o enunciado que descreve avaliação nutricional com decisão de suplementar está pedindo a régua da sociedade. Quando o enunciado traz uma panturrilha entre 31 e 34 cm sem dizer o instrumento, ele está testando exatamente a consciência de que existem duas réguas.

Que ponto de corte de força de preensão define fraqueza muscular

27 kg em homens e 16 kg em mulheres

É o corte de referência mais usado. Aplicado aos 7.065 participantes do estudo brasileiro, resultou em sarcopenia provável em 10,6%, confirmada em 1,4% e grave em 3,9%.

Consenso europeu de 2018, tal como aplicado no Estudo ELSI-Brasil (Cad Saúde Pública 2025;41(5):e00155624)

36 kg em homens e 23 kg em mulheres

Aplicado à mesma amostra, elevou a sarcopenia provável a 40,1%, a confirmada a 5% e a grave a 8,8%, além de aumentar a razão de risco relativo entre desnutrição e doença grave de 6,45 para 11,23.

Operacionalização alternativa comparada no mesmo artigo do Estudo ELSI-Brasil, com os mesmos participantes

Na prova

O ponto a identificar é que a divergência não é sobre quem está doente, e sim sobre onde traçar a linha — e que a escolha multiplica a prevalência por quatro sem que a população mude. Enunciado que traz preensão entre os dois pares de números está montado sobre essa zona cinzenta, e a leitura segura é reconhecer que o resultado depende da régua declarada. Como a intervenção é exercício e alimento, e não fármaco com risco relevante, a linha mais inclusiva tem custo baixo — argumento que os próprios autores registram ao defender cortes mais altos para intervenção precoce.

Quanta proteína ofertar ao idoso sarcopênico com doença renal crônica não dialítica

0,6 a 0,8 g/kg/dia — a régua da nefroproteção

Na doença renal crônica grave em tratamento conservador, a recomendação diária é de 0,6 a 0,8 g/kg de peso corporal ideal, com a finalidade de retardar a progressão da perda de função.

Diretriz BRASPEN de terapia nutricional no envelhecimento, seção de doença renal crônica (filtração abaixo de 30 mL/min/1,73 m²)

Pelo menos 0,8 g/kg/dia — a régua do músculo

Para o idoso com doença renal crônica não dialítica e sarcopenia, o mesmo documento recomenda ingestão de pelo menos 0,8 g/kg/dia, por ser estratégia segura para manter ou reduzir a perda de massa livre de gordura e melhorar a sobrevida.

Diretriz BRASPEN de terapia nutricional no envelhecimento, mesma seção, recomendação específica para o idoso sarcopênico

Na prova

As duas posições estão no mesmo documento e não se contradizem: a segunda diz em que ponto da faixa da primeira se deve ficar quando há músculo em risco. O erro clássico é aplicar o extremo inferior da restrição a quem já está sarcopênico, e o segundo erro é abandonar a restrição por completo. O enunciado que descreve idoso com filtração baixa, perda de peso e fraqueza está pedindo o extremo superior da faixa renal — e a menção a diálise muda tudo, porque o paciente dialítico sai da lógica de restrição.

06

Caso resolvido

Mulher de 79 anos, viúva, mora sozinha e é acompanhada na unidade básica de saúde. Comparece para consulta de rotina trazida pela filha, que relata que a mãe 'está mais devagar'. Refere perda de peso não intencional de 5 kg no último ano, sem alteração do apetite que ela própria perceba, e diz que passou a se apoiar nos braços da poltrona para levantar. Nega quedas. É hipertensa, em uso de losartana e hidroclorotiazida. Exame: peso 52 kg, altura 1,58 m, perímetro de panturrilha 30 cm, força de preensão 14 kg, leva 18 segundos para completar cinco levantadas da cadeira. Creatinina 1,4 mg/dL, com filtração glomerular estimada de 34 mL/min/1,73 m².
rastreio
Três marcadores já estão alterados antes de qualquer exame: perda ponderal não intencional acima de 4,5 kg no último ano, perímetro de panturrilha de 30 cm (abaixo dos 31 cm do IVCF-20 e também dos 33 cm da régua nutricional para mulheres) e dificuldade referida para levantar. No IVCF-20 esses marcadores dividem um item de até 2 pontos; para a decisão de intervir, o que importa é que existe indicação de medir a força.
confirmação do degrau
Força de preensão de 14 kg está abaixo do corte de 16 kg para mulheres, e o teste de sentar e levantar em 18 segundos está acima dos 15 segundos. Os dois testes de força vieram positivos: está fechada a sarcopenia provável. Não é necessário nem disponível exame de composição corporal para iniciar o tratamento — a confirmação por massa mudaria a classificação, não a conduta.
prescrição de exercício
Programa de exercício multicomponente com ênfase em treino resistido progressivo, supervisionado, mais de uma vez por semana, incorporando também equilíbrio e marcha. A supervisão não é formalidade: a mesma pessoa que tem força baixa é a que cai, e progressão sem correção de execução troca um risco por outro. Reavaliação marcada com repetição dos mesmos testes de força.
prescrição proteica
Aqui está o nó do caso. A filtração de 34 mL/min/1,73 m² coloca a paciente na doença renal crônica moderada, cuja oferta pode chegar a 0,8 g/kg/dia de peso corporal ideal. Como há sarcopenia e o tratamento é conservador, a diretriz manda ficar no piso de pelo menos 0,8 g/kg/dia — extremo superior da faixa renal, e não o inferior. Ofertar 1,2 g/kg/dia seria ignorar o rim; ofertar 0,6 g/kg/dia seria ignorar o músculo.
o que não fazer
Não se prescreve fármaco para a sarcopenia: não há classe aprovada, e a revisão brasileira dedicada ao tema encerra dizendo que a base continua sendo exercício de resistência. Não se substitui carga por caminhada. E não se adia a conduta à espera de densitometria: o degrau que autoriza tratar já está fechado pela força.
acompanhamento
Monitorar a filtração glomerular na periodicidade indicada para a doença renal moderada, verificar a ingestão efetivamente alcançada — e não apenas a prescrita, porque o apetite reduzido faz os dois números divergirem — e repetir preensão e teste da cadeira na reavaliação. Ganho de força é o desfecho que se persegue; ganho de peso isolado não é.
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Agora feche você

Homem de 72 anos, aposentado, comparece à unidade básica para renovar receita. Mora com a esposa, é independente para todas as atividades. Nega perda de peso, nega quedas e diz não ter dificuldade nenhuma para carregar sacola, subir escada ou levantar da cadeira. Ao exame de rotina, o perímetro de panturrilha é de 32 cm. Peso 74 kg, altura 1,72 m. Sem doença renal conhecida; creatinina 0,9 mg/dL.
o que o rastreio devolve
Pelo IVCF-20, a panturrilha de 32 cm está acima dos 31 cm e não pontua. Pelo SARC-F, o paciente responde zero a todas as cinco perguntas: somatório zero, abaixo do corte de 4. Os dois instrumentos de rastreio vieram negativos.
onde as réguas se separam
Pela régua nutricional da diretriz brasileira, 32 cm está abaixo do corte de 34 cm para homens — a panturrilha é alterada, e no SARC-CalF ela valeria 10 pontos. Como o corte do escore é 11 e o questionário deu zero, o total fica em 10 e não cruza a linha. É exatamente a aritmética que faz a panturrilha nunca decidir sozinha.
a pergunta que fica
Rastreios negativos por dois instrumentos, um marcador antropométrico alterado por um terceiro, e nenhuma queixa. O que se faz com esse paciente hoje, e o que se faz na próxima consulta?
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Onde a banca derruba

  1. 1Esperar a densitometria para começar a tratar O degrau de entrada é força baixa, não massa baixa. Sarcopenia provável já é indicação de exercício resistido e ajuste proteico. Como a composição corporal quase nunca está disponível na atenção primária, condicionar a conduta a ela é, na prática, não tratar. Os dados brasileiros mostram que quem chega com massa mensurável baixa quase sempre já tem desempenho baixo junto: a espera não afina o diagnóstico, ela atrasa o único tratamento que existe.
  2. 2Prescrever caminhada como tratamento da sarcopenia Caminhada é atividade aeróbica e tem valor próprio, mas não é o estímulo que reverte perda de força. O que a literatura sustenta é treino contra carga que progride, associado a equilíbrio e marcha no formato multicomponente. Substituir carga por caminhada é oferecer o estímulo errado ao problema certo, e a resposta correta em situação de fragilidade traz explicitamente as palavras resistido e multicomponente.
  3. 3Confiar só no questionário de rastreio No estudo brasileiro de duas cidades, 38,3% tinham força de preensão baixa e apenas 27,3% pontuavam no questionário; os dois critérios coincidiram em 13,6%. Isso significa que a maior parte da fraqueza medida não aparece como queixa: quem adaptou a vida à limitação deixa de referi-la. Diante de qualquer marcador antropométrico ou funcional, mede-se a força — não se pergunta por ela.
  4. 4Aplicar o corte de 31 cm como se fosse regra universal Os 31 cm são a operacionalização federal dentro do IVCF-20, sem distinção por sexo, e valem 2 pontos em 40 divididos com outros três marcadores. A diretriz brasileira de nutrição usa 34 cm para homens e 33 cm para mulheres e dá à mesma medida 10 pontos em 20. Citar um dos cortes como se fosse o único é o erro; a conduta correta é declarar qual instrumento gerou o número.
  5. 5Restringir proteína no idoso sarcopênico com doença renal Levar a restrição ao extremo inferior da faixa renal em quem já perde músculo soma dois problemas. A própria diretriz que escreve 0,6 a 0,8 g/kg/dia na doença grave registra o piso de pelo menos 0,8 g/kg/dia quando há sarcopenia associada e o tratamento é conservador. E o paciente já em diálise sai dessa lógica: ali a perda proteica pelo método inverte o sinal da recomendação.
  6. 6Tratar sarcopenia com medicamento Não existe fármaco aprovado para reverter perda de massa e força relacionada à idade. A revisão brasileira dedicada ao tratamento medicamentoso encerra afirmando que a base continua sendo exercício de resistência e alguns suplementos. Oferecer hormônio, anabolizante ou qualquer classe farmacológica como conduta principal é prescrever o que a literatura não sustenta, com efeitos adversos relevantes de brinde: supressão do eixo gonadal, virilização e reação no local de aplicação.
  7. 7Ofertar proteína sem mexer na carga O benefício medido vem da combinação. Suplemento proteico isolado, sem treino resistido, rende muito menos do que os dois juntos, porque falta o estímulo que direciona a síntese. A prescrição correta entra em par, e a oferta proteica se acompanha na prática — o apetite reduzido do idoso faz com que o grama por quilo prescrito e o grama por quilo ingerido sejam números diferentes.
  8. 8Ler sarcopenia como sinônimo de magreza A pessoa com obesidade pode ter massa muscular baixa e força baixa, e o índice de massa corporal não denuncia. Descartar sarcopenia por causa do peso é perder justamente o grupo em que o diagnóstico chega mais tarde. O que define é força, e força se mede — o índice de massa corporal entra no rastreio federal como marcador auxiliar de um item de 2 pontos, não como critério diagnóstico.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O escore soma o questionário de cinco perguntas, que vai de zero a dez, com dez pontos atribuídos ao perímetro de panturrilha alterado, chegando a um total de vinte, e o ponto de virada é onze. Com todas as perguntas zeradas e a panturrilha alterada, o total fica exatamente em dez: a medida antropométrica nunca cruza a linha sozinha, precisa de pelo menos um ponto vindo das perguntas. Ainda assim, dispensar a medida de força é arriscado, porque a discordância entre queixa referida e fraqueza medida foi quantificada em população brasileira: quase dois terços de quem tem preensão baixa não pontua no questionário, já que a adaptação da rotina apaga a queixa antes de apagar a força.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Ordem: força primeiro (provável), massa confirma, desempenho gradua. Cortes de força: 27 kg homens, 16 kg mulheres; ou 5 levantadas da cadeira em mais de 15 segundos, sem distinção de sexo. Panturrilha: 31 cm no IVCF-20 (2 pontos em 40, sem distinção de sexo) contra 34/33 cm no SARC-CalF (10 pontos em 20, corte 11). SARC-F: 0 a 10, sugestivo a partir de 4. Proteína: 1,0-1,2 g/kg/dia saudável; 1,2-1,5 (até 2,0) com doença; pelo menos 0,8 g/kg/dia se doença renal crônica não dialítica com sarcopenia, sobre peso corporal ideal.

em 30 dias

Recite os pares de prevalência do ELSI-Brasil na ordem em que o corte muda: 27/16 kg dá 10,6% provável, 1,4% confirmada, 3,9% grave; 36/23 kg dá 40,1%, 5% e 8,8%. Repare que em ambos a categoria grave é maior que a confirmada. Depois recite os três números do FIBRA — 27,3% de questionário positivo, 38,3% de força baixa, 13,6% de sobreposição — e diga em voz alta o que a diferença significa. Feche com a faixa brasileira de 4,8% a 62% e com a razão pela qual ela é tão larga.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 79 anos vem à unidade básica trazida pela filha, que diz que a mãe 'está mais devagar'. Você tem uma fita métrica, um dinamômetro, uma cadeira sem braços e a última creatinina dela. Meça a força, decida o degrau, e escreva a receita — a de carga e a de proteína — sabendo que o rim dela vai limitar uma das duas. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Sarcopenia na pessoa idosa – Sarcopenia no idoso: o ponto de corte mede, e o que trata é carga e proteína — Preparatório para provas | OsceLabs