PediatriaHematologia Pediátrica

Esferocitose hereditária na criança

Esferocitose hereditária na infância: diagnóstico, esplenectomia e profilaxia

A doença é batizada por uma célula que o esfregaço descreve em menos da metade dos doentes, e classificada por duas réguas que a mesma revista publicou no mesmo ano sem que elas fechem.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menina de 6 anos é levada ao ambulatório por icterícia recorrente desde os 2 anos, sempre associada a quadros infecciosos banais. Ao exame, tem baço palpável a 3 cm do rebordo costal esquerdo. Hemoglobina 9,4 g/dL, reticulócitos 8%, bilirrubina indireta 2,2 mg/dL, teste de Coombs direto negativo. O laudo do esfregaço descreve apenas anisocitose discreta, sem menção a esferócitos. A mãe fez colecistectomia aos 28 anos. Qual a conduta diagnóstica mais adequada?

02

Como esse tema cai

A vinheta de prova quase sempre entrega os mesmos quatro elementos: criança com icterícia recorrente, esplenomegalia, anemia com reticulocitose e Coombs direto negativo. O erro que ela cobra é o de parar no primeiro diagnóstico plausível. Anemia ferropriva não cursa com reticulocitose alta nem com baço palpável. Doença hemolítica por incompatibilidade materno-fetal tem Coombs positivo e não reaparece aos seis anos. Deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase dá crise aguda ligada a gatilho, não hemólise crônica com baço grande e vesícula cheia de cálculo aos onze anos.

O capítulo devolve de propósito três eixos que já têm dono nesta apostila e nas vizinhas. A icterícia das primeiras semanas, com as curvas de fototerapia e os limiares corrigidos, é do capítulo de icterícia neonatal — inclusive a parte da deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase, que lá tem parágrafo próprio e é a causa que mais muda o limiar. A hemólise de Coombs positivo, das incompatibilidades Rh e ABO, é do capítulo de doença hemolítica perinatal, e é lá que moram os esferócitos do esfregaço do recém-nascido. A asplenia funcional da doença falciforme é do capítulo de doença falciforme; o Manual dos Centros de Referência a data por volta de 6 a 8 anos de idade.

Fica aqui o que nenhum deles cobre: a criança depois do período neonatal, com hemólise crônica de Coombs negativo, e as três decisões que ela obriga — como confirmar, quando tirar o baço e o que precisa estar feito antes de tirar. O que este capítulo entrega de volta ao capítulo de icterícia neonatal é um número que falta lá: no registro norte-americano de kernicterus, a esferocitose hereditária foi a terceira condição hemolítica de base mais frequente, atrás apenas da deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase e da doença hemolítica ABO, e é a principal causa de anemia hemolítica com antiglobulina direta negativa a exigir transfusão de hemácias nos primeiros meses de vida.

03

O que muda decisão

Defeito de membrana: a hemácia perde superfície

Como usar este capítulo: conecte defeito de membrana, hemólise extravascular e esplenomegalia; depois confirme o diagnóstico e classifique a gravidade. A decisão de esplenectomia depende do impacto clínico, e exige planejamento vacinal, profilaxia e orientação sobre febre.

A hemácia normal é um disco bicôncavo, e a bicôncavidade não é enfeite: ela é superfície sobrando em relação ao volume. Essa sobra é o que permite à célula se dobrar, alongar e passar por fendas mais estreitas que o próprio diâmetro. Quem sustenta a forma é uma malha proteica presa por baixo da bicamada lipídica, e é ela que falha na esferocitose hereditária.

O defeito é heterogêneo, e a revisão que abre a coorte brasileira o descreve assim: Anquirina é a proteína mais frequentemente acometida, seguida de espectrina, da proteína banda 3 e, mais raramente, da proteína 4.2; os genes envolvidos estão nos cromossomos 1, 8, 14, 15 e 17. A consequência mecânica é sempre a mesma, independentemente de qual proteína falhou: a ancoragem entre a malha e a bicamada afrouxa, pedaços de membrana se destacam, e a célula perde área de superfície sem perder volume. Perdendo área e mantendo volume, ela só pode fazer uma coisa — virar esfera.

Isso explica por que o nome da doença descreve uma forma e não um defeito. A esfera é o ponto final de um processo de subtração, não o defeito primário. E explica a herança: na mesma revisão, cerca de 75% dos casos seguem padrão autossômico dominante, e o restante reúne formas recessivas e mutações novas. O aluno que exige história familiar positiva para pensar no diagnóstico já começa errado por um quarto dos casos — e na prática erra mais, porque a história familiar precisa ter sido perguntada e registrada.

A expressão clínica é notoriamente variável, e a variabilidade tem endereço: costuma ser uniforme dentro da família e diferente entre famílias. A coorte brasileira de Belo Horizonte registra uma exceção ilustrativa, em que o caso-índice foi classificado como grave e dependente de transfusão, enquanto os dois irmãos ficaram na faixa leve. Vale guardar a regra e a exceção: a regra orienta o rastreamento familiar; a exceção impede que um irmão assintomático seja usado como prova de que o caso não é grave.

Hemólise extravascular: o papel do baço

A polpa vermelha do baço funciona como uma peneira mecânica. O sangue chega aos cordões esplênicos e precisa reentrar na circulação atravessando fendas do sinusoide, entre células endoteliais,, mais estreitas que a hemácia. O disco bicôncavo se dobra e passa. O esferócito, que já gastou a sobra de superfície, não se dobra: fica retido, e a cada tentativa perde mais membrana na borda de entrada. Perdendo mais membrana, torna-se mais esférico; mais esférico, passa pior. É um circuito que se realimenta, e o baço está no meio dele.

Esquema da polpa vermelha do baço: um disco bicôncavo atravessa a fenda do sinusoide, enquanto um esferócito fica retido e perde membrana.
A fenda entre as células endoteliais é o filtro. O disco bicôncavo se dobra e passa; o esferócito não se dobra, fica retido e perde mais membrana a cada tentativa — o que o torna ainda mais esférico.

Duas consequências clínicas saem direto dessa anatomia. A primeira é que retirar o baço normaliza a hemoglobina sem consertar a célula: o esferócito continua sendo produzido, mas deixa de ser destruído no ritmo antigo. A segunda é que o baço aumenta porque trabalha, e o tamanho não mede gravidade — a série de Belo Horizonte encontrou esplenomegalia em 44 das 63 crianças, 69,8%, distribuída pelas três faixas de gravidade. O comentário publicado na mesma revista é explícito ao dizer que a esplenomegalia, por si só, não é indicação nem de esplenectomia nem de restrição de atividade física.

A terceira consequência é a que o enunciado costuma explorar. O baço filtra bactérias encapsuladas por opsonização, e essa função não tem substituto. Retirá-lo troca uma anemia administrável por um risco infeccioso permanente. É por isso que a decisão cirúrgica, neste tema, nunca é apenas hematológica: ela vem obrigatoriamente acompanhada de um calendário vacinal e de uma orientação sobre febre, e a questão de prova costuma cobrar exatamente a parte que não é o corte.

Classificação da gravidade e seus limites

A classificação em leve, moderada e grave organiza o seguimento e a indicação cirúrgica, e é onde as fontes deixam de concordar. A coorte brasileira classificou pelos parâmetros hematológicos e imprimiu, na nota da Tabela 1, os cortes de hemoglobina: leve a partir de 11,0 g/dL, moderada entre 8,1 e 10,9, grave até 8,0 g/dL. Lida ao pé da letra, essa régua tem dois vazios: uma hemoglobina de 8,05 g/dL não é grave, porque grave é até 8,0, nem moderada, porque moderada começa em 8,1; e uma hemoglobina de 10,95 g/dL não é moderada nem leve.

Duas réguas de hemoglobina empilhadas; uma linha tracejada em 10,95 g/dL cai num vazio da régua de cima e dentro da classe moderada da régua de baixo.
A mesma criança, duas classificações publicadas na mesma revista e no mesmo ano. Em 10,95 g/dL a régua de cima não tem classe; a de baixo chama de moderada. Em 8,0 g/dL a régua de baixo chama de grave e de moderada ao mesmo tempo.

O comentário publicado na mesma revista e no mesmo ano usa outra régua, e erra para o outro lado. Ele descreve a doença grave como hemoglobina de 6 a 8 g/dL e parte da moderada como 8 a 12 g/dL. Aqui o problema não é lacuna, é sobreposição: 8,0 g/dL pertence às duas classes ao mesmo tempo. E as duas réguas discordam também no meio da faixa útil — uma criança com 11,5 g/dL é leve pelo artigo, porque leve é a partir de 11, e moderada pelo comentário impresso ao lado, porque moderada vai até 12.

Antes de acusar qualquer um dos dois de erro, vale reconciliar. As duas réguas descrevem populações e finalidades diferentes: a do artigo serve para alocar retrospectivamente 63 prontuários em três grupos, e a do comentário serve para indicar cirurgia. Uma régua de alocação tolera um vazio de 0,1 g/dL; uma régua de indicação cirúrgica não tolera uma sobreposição no valor exato do corte. O próprio artigo reconhece o problema pela raiz, ao registrar que não conseguiu avaliar as três variáveis — hemoglobina, bilirrubina e reticulócitos — em todos os pacientes, o que, nas palavras dos autores, pode afetar a alocação correta nos grupos de risco.

O que fica para a prova é mais simples do que a discussão: classifique pela hemoglobina fora de crise e fora de infecção. O comentário insiste nesse ponto ao lembrar que a crise aplástica por parvovírus B19 pode ser a primeira manifestação da doença, e que não se deve avaliar gravidade até a criança estar totalmente recuperada. Uma hemoglobina de 6 g/dL colhida durante a crise não classifica ninguém como grave.

Esferócitos no esfregaço: ausência não exclui

Aqui está o dado que mais desarma o raciocínio automático. Na coorte brasileira, o exame morfológico do esfregaço de sangue periférico foi feito em 51 pacientes, e 23 deles, 45%, tinham esferócitos descritos. Todos os 63 tinham a doença. Ou seja: a célula que dá nome à condição aparece no laudo de pouco menos da metade dos doentes, e o aluno que exige "esferócitos no esfregaço" para levantar a hipótese descarta 55% dos casos na primeira leitura.

Há uma razão prosaica para isso, e ela também é cobrada: a descrição de esferócitos depende de quem olha a lâmina e de quanto tempo olha. O comentário na mesma revista chega a recomendar que se revise o esfregaço com cuidado e que se considerem diagnósticos alternativos quando a morfologia não for típica, citando nominalmente a anemia diseritropoética congênita tipo II e outros defeitos de membrana como armadilhas de leitura.

O caminho inverso é igualmente traiçoeiro. Esferócitos no esfregaço não significam esferocitose hereditária: no recém-nascido, a causa mais comum de esferócitos na lâmina é a incompatibilidade ABO, que é hemólise imune e tem antiglobulina direta positiva. É por isso que o Coombs vem antes da morfologia na ordem de leitura da vinheta. Esferócitos com Coombs positivo apontam para o capítulo de doença hemolítica perinatal; com Coombs negativo, para este.

Testes confirmatórios e limitações de cada método

Uma comparação direta em 150 pacientes com esferocitose hereditária mediu o desempenho dos testes disponíveis e produziu o número que reorganiza o tema. O teste de ligação da eosina-5'-maleimida, que mira o defeito molecular, teve sensibilidade de 93% e especificidade de 98%, e a sensibilidade não variou com o tipo de defeito nem com o fenótipo clínico. O teste de lise em glicerol acidificado chegou a 95% e o teste do rosa a 91%.

O contraste está no teste que a maioria dos serviços ainda chama de padrão. A fragilidade osmótica em cloreto de sódio teve sensibilidade de 68% em sangue fresco e 81% em sangue incubado — e, nos casos compensados, isto é, justamente os leves, caiu para 53% e 64%. Em números absolutos, aplicada às 63 crianças da coorte brasileira, a versão em sangue fresco deixaria de identificar cerca de 20; nos casos compensados, deixaria passar praticamente metade.

Agora o ponto que separa quem entendeu de quem decorou, e os dois números ficam neste mesmo parágrafo. Na série de 150 pacientes, a eosina-5'-maleimida acerta 93% de quem tem a doença. Mas se ela fosse aplicada a crianças não selecionadas, com a prevalência estimada pela coorte brasileira entre 1 para 2.000 e 1 para 5.000, a probabilidade de a criança ter esferocitose depois de um resultado positivo seria de 2,3% a 0,9% — ou seja, entre 98 e 99 de cada 100 positivos não teriam a doença. O teste é o mesmo; muda a população. Aplicado à criança que já chegou com hemólise, Coombs negativo e baço palpável, com probabilidade pré-teste da ordem de 30%, o mesmo resultado positivo leva a 95%.

A lição prática é a inversão: o exame não cria a suspeita, ele confirma a suspeita já construída pela clínica. O aluno que guarda apenas o "93%" da série de 150 e pede o teste como rastreio marca a alternativa que investiga sem antes selecionar. O que seleciona é a tríade de anemia com reticulocitose, esplenomegalia e antiglobulina direta negativa, com história familiar quando houver.

O que os estudos pediátricos acrescentam à classificação

A maior série pediátrica brasileira publicada acompanhou 63 crianças de 52 famílias não aparentadas no serviço de hematologia pediátrica do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, entre janeiro de 1988 e dezembro de 2007. A mediana de idade ao diagnóstico foi 5,2 anos, com amplitude de 5 meses a 21 anos, e a mediana de seguimento foi de 4,6 anos. As manifestações predominantes ao diagnóstico foram esplenomegalia em 44 (69,8%), anemia em 40 (63,5%) e icterícia em 24 (38%). Os dois motivos de encaminhamento mais frequentes dizem muito sobre onde essas crianças estavam antes: anemia de causa indeterminada em 16 (25%) e anemia que não respondeu à reposição de ferro em 8 (12,7%).

A distribuição de gravidade fecha exatamente: 16 leves (25,4%), 34 moderadas (54%) e 13 graves (20,6%), somando 63 e 100,0%. A série italiana de 468 crianças que o artigo usa como comparação também fecha: 21%, 72% e 7%, cem por cento redondos. Já a estimativa de livro que o próprio artigo cita — cerca de 20% de leves, cerca de 70% de moderados e 3 a 5% de graves — soma entre 93% e 95%, e deixa de 5 a 7 pacientes em cada cem sem classe nenhuma. Vale reter qual das três é a régua confiável: a que se recalcula a partir dos numeradores.

Há um segundo detalhe que só aparece recalculando. A coluna "moderada" da Tabela 1 declara n = 34, e quatro linhas dessa coluna usam quatro denominadores diferentes: transfusão, 20 (60,6%), só fecha com 33; colelitíase, 11 (32,4%), fecha com 34; sequestro esplênico, 10 (32,3%), fecha com 31; e crise aplástica, 2 (6,3%), fecha com 32. As colunas leve (n = 16) e grave (n = 13) são internamente consistentes em todas as linhas. Não é erro de conta, é dado faltante não declarado — os próprios autores registram que não conseguiram as três variáveis para todos os pacientes. A consequência para quem lê é operacional: não se somam as linhas dessa coluna e não se comparam as três colunas linha a linha.

A mesma tabela guarda uma troca de unidade que a leitura desatenta reproduz. Sob o cabeçalho "mediana de idade ao diagnóstico (anos)", as células trazem 125,5 / 61,1 / 6,4. Nenhuma criança é diagnosticada com 125 anos. Lidos como meses, os mesmos números dão 10,5 / 5,1 / 0,5 anos — que é exatamente o que o corpo do texto afirma, ao dizer que as graves foram diagnosticadas por volta dos seis meses e as leves por volta dos dez anos. O cabeçalho nomeia outra unidade que a das células, e o dado clínico que sobrevive à correção é sólido: a gravidade antecipa o diagnóstico em cerca de uma década.

Colelitíase: rastreamento e momento da colecistectomia

A hemólise crônica joga bilirrubina no ciclo entero-hepático e produz cálculo de vesícula. Na coorte, 17 crianças (27%) desenvolveram colelitíase ao longo do seguimento, e 10 (15,9%) foram submetidas a colecistectomia, com média de idade de 12 anos. A soma por grupo fecha exatamente: 5 + 11 + 1 = 17, e 17 sobre 63 dá 26,98%, o que confere com os 27% impressos.

O achado que interessa está no protocolo, não no total. O serviço rastreava com ultrassonografia anual a partir dos 7 anos de idade, ou antes disso se houvesse sintoma. E a idade ao diagnóstico dos cálculos variou de 4,8 a 18,3 anos. O caso mais precoce foi encontrado mais de dois anos antes da idade em que o rastreamento programado começaria a olhar — o que só é possível porque essa criança teve sintoma. Vale como regra de leitura de qualquer protocolo de rastreio: a idade de início do rastreamento não é a idade de início da doença, e a cláusula "ou a qualquer idade se sintomático" é o que salva o protocolo.

Sobre o que fazer com o cálculo encontrado, as fontes divergem com honestidade. O comentário na mesma revista afirma que não está claro se a ultrassonografia periódica é custo-efetiva no paciente assintomático, nem se cálculos assintomáticos devem ser operados. E registra a orientação que efetivamente cai em prova: na criança que vai ser esplenectomizada e tem cálculos sintomáticos, a vesícula sai no mesmo tempo cirúrgico; se a vesícula for deixada no lugar, o seguimento ultrassonográfico próximo passa a ser necessário.

Esplenectomia: indicação, idade e consequências

Na coorte brasileira, 22 crianças (36%) foram esplenectomizadas, com mediana de idade de 7 anos e amplitude de 9,8 meses a 21 anos. A probabilidade de ter sido operada até os 10 anos acompanhou a gravidade e a diferença é grande: 9% nas leves, 38% nas moderadas e 55% nas graves, com p de 0,005. É a única comparação do estudo em que os três grupos são medidos com a mesma régua e na mesma janela — e a razão entre extremos é de 6,1 vezes, na direção que a literatura prevê.

A indicação principal, porém, é a parte contestada. O artigo registra que a principal indicação foi sequestro esplênico, em 9 pacientes (14%), e que a complicação ocorreu em 14 crianças no total (22,2%). O comentário publicado ao lado responde a isso em duas frases: a incidência declarada de sequestro esplênico é surpreendente, a complicação é raramente relatada na literatura nesta doença e não costuma estar entre as indicações de esplenectomia nela. Ou seja: a indicação mais frequente da série é uma indicação que o comentarista não reconhece como indicação. O comentário levanta a hipótese de que esses episódios tenham sido precipitados por infecções virais intercorrentes.

Sobre a idade, o comentário é direto: a esplenectomia deve ser adiada, quando possível, para depois dos 6 anos, por causa do risco infeccioso. Confrontada com o dado, a série mostra o limite inferior da amplitude em 9,8 meses — mais de cinco anos antes da idade recomendada. Não é necessariamente contradição: uma mediana de 7 anos com amplitude larga é compatível com adiar como regra e antecipar em casos extremos. Mas mostra que a recomendação de idade descreve a intenção, não o que aconteceu.

Quanto à técnica, um estudo com 79 pacientes (33 totais e 46 parciais, soma que fecha exatamente) comparou os desfechos. Eventos adversos tardios foram mais frequentes após a parcial (50% contra 29%, p = 0,001), com recorrência de anemia, icterícia e fadiga em 6 pacientes e 5 esplenectomias de complementação. Aos 5 anos, a hemoglobina não diferiu entre as técnicas: 12,3 contra 13,4 g/dL, p = 0,25. Duas ressalvas de leitura importam mais que o resultado: os 50% correspondem exatamente a 23 de 46, enquanto 29% não é atingível com 33 — 9 de 33 dá 27,3% e 10 de 33 dá 30,3%; e o seguimento foi 2,4 vezes mais longo no grupo parcial (59,6 contra 24,9 meses), de modo que a comparação de proporções brutas favorece o grupo observado por menos tempo. O achado que resiste às duas ressalvas é o da hemoglobina, medido no mesmo marco temporal nos dois braços.

Vacinação e profilaxia: como programar a esplenectomia

Se há uma linha deste capítulo que cai em prova com número, é esta. O Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, do Ministério da Saúde, nomeia a condição explicitamente ao dizer que crianças com anemias hemolíticas não devidas a hemoglobinopatias — "esferocitose e assemelhados", junto com as anemias hemolíticas autoimunes — podem vir a sofrer esplenectomia eletiva como método de controle da hemólise. E fixa a regra: nos pacientes que serão submetidos a esplenectomia eletiva, "a vacinação deverá preceder o procedimento cirúrgico pelo período mínimo de 14 dias".

Corrente de cinco elos, da indicação da esplenectomia à profilaxia, com seta de escrita para a direita e seta de conferência para a esquerda.
A mesma corrente lida nos dois sentidos: a prescrição anda da indicação para a profilaxia; a conferência, diante da criança com febre, anda da profilaxia de volta até a data da vacina.

O mesmo manual, porém, enuncia esse prazo de três maneiras. Na seção que trata da condição, ele é "período mínimo de 14 dias". Na seção da vacina pneumocócica, onde o leitor vai procurar a vacina, a observação diz que "nos casos de esplenectomia eletiva, a vacina deve ser aplicada pelo menos duas semanas antes da cirurgia" e, na frase imediatamente seguinte, que em quimioterapia deve ser aplicada "preferencialmente 15 dias antes". E na seção geral sobre imunodepressão programada, que cita esplenectomia eletiva pelo nome, o prazo volta a ser "pelo menos duas semanas". A forma numérica sobrevive apenas na seção da doença; quem consulta pela vacina encontra a forma em semanas ao lado de um "15 dias" que é de outro contexto. A coorte brasileira, por sua vez, escreveu 15 dias.

Catorze ou quinze dias muda pouco na biologia e muito na correção de prova. O número a guardar é o mínimo de 14 dias antes da cirurgia eletiva, com o mesmo manual acrescentando que os já esplenectomizados respondem melhor à vacinação a partir de 14 dias do ato cirúrgico, mas que a oportunidade de vacinar deve ser considerada prioritária na decisão de quando vacinar — cláusula que existe para impedir que o prazo vire desculpa para não vacinar quem já operou.

E o que vacinar é mais amplo do que a memória costuma guardar. O manual lista, além das vacinas de rotina, seis frentes: varicela, hepatite A, influenza inativada e as três contra germes encapsulados — pneumocócica, meningocócica e Haemophilus influenzae tipo b. A coorte brasileira, que operou entre 1988 e 2007, registra ter imunizado contra apenas duas delas, Haemophilus influenzae e pneumococo. Antes de chamar isso de falha, a reconciliação é cronológica: a série termina em 2007 e o manual é de 2023. A distância entre as duas listas mede a evolução do programa, não a qualidade do serviço. Quanto à antibioticoprofilaxia, o serviço brasileiro recomendava penicilina oral ou intramuscular até os 18 anos, registrando que alguns autores recomendam profilaxia por toda a vida; o comentário na mesma revista responde que, embora a profilaxia seja frequentemente recomendada, "a evidência para isso é escassa", e sugere que pode importar mais orientar a família a procurar atendimento com urgência diante de febre e a manter um antibiótico apropriado em casa.

04

As réguas, lado a lado

Três quadros resolvem a maior parte dos enunciados: a régua de gravidade e onde ela não fecha, o desempenho de cada teste laboratorial e o que se deve à criança antes e depois de retirar o baço. Os números vêm dos documentos nomeados em cada linha; nada aqui foi reconstruído a partir de percentuais.

  1. 1Ler a vinheta procurando a tríade antes do nome: anemia com reticulocitose, esplenomegalia e icterícia recorrente na criança.
  2. 2Pedir o teste de Coombs direto e ler o resultado antes da morfologia: positivo manda para hemólise imune, negativo mantém a criança neste capítulo.
  3. 3Não exigir esferócitos no esfregaço para levantar a hipótese: na coorte brasileira eles aparecem em 45% dos laudos de quem tem a doença.
  4. 4Perguntar história familiar e, quando possível, examinar os pais: pela revisão citada na coorte, cerca de 75% dos casos são autossômicos dominantes, mas um quarto não terá história.
  5. 5Confirmar com teste de ligação da eosina-5'-maleimida ou lise em glicerol acidificado, sabendo que, na série de 150 pacientes, a fragilidade osmótica isolada perde de 32% a 47% dos casos.
  6. 6Classificar a gravidade pela hemoglobina de base, nunca durante crise ou infecção intercorrente.
  7. 7Rastrear colelitíase por ultrassonografia a partir dos 7 anos, como fazia o serviço da coorte brasileira, e a qualquer idade se houver sintoma.
  8. 8Diante de indicação cirúrgica, adiar para depois dos 6 anos quando possível, como recomenda o comentário, e checar a data das vacinas antes de marcar: o mínimo de 14 dias é do Manual dos Centros de Referência.
  9. 9Depois da cirurgia, orientar a família sobre febre e definir a conduta de profilaxia com o serviço que acompanha a criança.

Perde superfície, mantém volume

O defeito de ancoragem entre a malha proteica e a bicamada faz a hemácia perder área de membrana sem perder volume. Só há uma forma geométrica possível para esse resultado, e é a esfera. Pela revisão citada na coorte brasileira, anquirina é a proteína mais comumente acometida e cerca de 75% dos casos são autossômicos dominantes.

A fenda do sinusoide é o filtro

O disco bicôncavo se dobra e atravessa a fenda entre as células endoteliais; o esferócito fica retido e perde mais membrana a cada passagem. Retirar o baço normaliza a hemoglobina sem corrigir a célula — e é por isso que a esplenomegalia, sozinha, não indica cirurgia nem restrição de atividade.

Catorze dias, e seis vacinas

Pelo Manual dos Centros de Referência, na esplenectomia eletiva a vacinação precede a cirurgia pelo período mínimo de 14 dias. As vacinas devidas, além das de rotina, são seis: varicela, hepatite A, influenza inativada, pneumocócica, meningocócica e Haemophilus influenzae tipo b. Quem já operou responde melhor a partir de 14 dias do ato, mas a oportunidade de vacinar é prioritária.

Gravidade pela hemoglobina: duas réguas publicadas na mesma revista e no mesmo ano

ClasseCoorte de Belo Horizonte, nota da Tabela 1 (2012)Comentário na mesma revista (2012)O que a diferença produz
LeveHemoglobina a partir de 11,0 g/dLNão define faixa de hemoglobina; descreve como aquela em que os riscos da cirurgia superam os benefíciosSem corte inferior no comentário, a faixa leve fica implícita
Moderada8,1 a 10,9 g/dL8 a 12 g/dL, com reticulócitos a partir de 6%Uma criança com 11,5 g/dL é leve por um documento e moderada pelo outro
GraveAté 8,0 g/dL6 a 8 g/dL, com reticulócitos a partir de 10%O valor 8,0 pertence a duas classes no comentário
Zonas sem classe8,00 a 8,10 e 10,90 a 11,00 g/dLNenhumaDuas lacunas de 0,1 g/dL na régua do artigo
Quando medirParâmetros hematológicos de baseSó após recuperação completa; a crise aplástica por parvovírus B19 pode ser a primeira manifestaçãoHemoglobina colhida em crise não classifica ninguém

Desempenho dos testes em 150 pacientes com a doença (Haematologica, 2012)

TesteSensibilidadeQuem escapaLeitura
Ligação da eosina-5'-maleimida93% (especificidade 98%)7 em cada 100Sensibilidade independente do tipo de defeito e do fenótipo; maior especificidade de doença
Lise em glicerol acidificado95%5 em cada 100Combinado com o anterior, identificou todos os 150 pacientes da série
Teste do rosa91%9 em cada 100Desempenho comparável ao da lise em glicerol acidificado
Fragilidade osmótica, sangue fresco68%32 em cada 100Chamado de padrão-ouro por tradição, é o menos sensível dos cinco
Fragilidade osmótica, sangue incubado81%19 em cada 100A incubação recupera parte da sensibilidade
Fragilidade osmótica em casos compensados53% (fresco) e 64% (incubado)Até 47 em cada 100É nos casos leves que o teste tradicional mais falha
Esferócitos no esfregaço45% (23 de 51 crianças da coorte brasileira)55 em cada 100O achado que nomeia a doença falta na maioria dos laudos

Antes e depois de retirar o baço: o que o Manual dos Centros de Referência exige

ItemRegraOnde está escrito
Prazo antes da cirurgia eletivaVacinação deve preceder o procedimento pelo período mínimo de 14 diasSeção 5.1, que nomeia esferocitose e assemelhados
O mesmo prazo, dito de outro modoPelo menos duas semanas antes da cirurgiaObservação da seção da vacina pneumocócica e seção geral de imunodepressão programada
Quem já operouResposta melhor a partir de 14 dias do ato cirúrgico, mas a oportunidade de vacinar é prioritáriaSeção 5.1
Vacinas devidasAlém das de rotina: varicela, hepatite A, influenza inativada, pneumocócica, meningocócica e Haemophilus influenzae tipo bObservação da seção 5.1
Por que varicelaA varicela pode ser fator importante para invasão bacteriana secundária, com aumento significativo da morbimortalidadeSeção 5.1
AntibioticoprofilaxiaPenicilina até os 18 anos no serviço brasileiro; alguns autores recomendam por toda a vida; o comentário afirma que a evidência é escassaCoorte de Belo Horizonte e comentário na mesma revista

A coorte brasileira usou fragilidade osmótica positiva como critério de entrada dos 63 pacientes. Como esse teste tem sensibilidade de 53% a 64% nos casos compensados, a fração de leves da série (25,4%) é um piso, não uma estimativa: quem tinha doença leve e fragilidade osmótica negativa não entrou no estudo.

A coluna moderada da Tabela 1 declara n = 34 e usa denominadores 33, 34, 31 e 32 em quatro linhas diferentes; as colunas leve e grave são consistentes. Os autores registram que não obtiveram as três variáveis para todos os pacientes. Não some as linhas dessa coluna.

As medianas laboratoriais da coorte repousam sobre frações muito diferentes do grupo: hemoglobina e reticulócitos em 51 de 63 (81%), bilirrubina indireta em 34 de 63 (54%) e desidrogenase láctica em apenas 13 de 63 (20,6%). A mediana de 667 UI descreve um quinto da coorte.

Nenhum dos documentos usados neste capítulo traz grau de recomendação, nível de evidência ou sistema GRADE; são uma coorte retrospectiva, um comentário editorial, dois estudos observacionais e um manual normativo do Ministério da Saúde.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Onde termina a doença grave e onde começa a moderada

Grave até 8,0; moderada de 8,1 a 10,9; leve a partir de 11,0

A nota da Tabela 1 fixa os cortes com uma casa decimal e cria, sem querer, duas faixas sem classe: de 8,00 a 8,10 e de 10,90 a 11,00 g/dL. Uma criança com hemoglobina de 10,95 g/dL não é classificável por essa régua.

Oliveira e col., Clinical course of 63 children with hereditary spherocytosis, Rev Bras Hematol Hemoter 2012;34(1):9-13, nota da Tabela 1

Grave de 6 a 8; moderada de 8 a 12

O comentário publicado na mesma revista e no mesmo ano usa faixas fechadas em números inteiros e sobrepõe as duas classes exatamente em 8 g/dL, além de estender a moderada até 12, invadindo a faixa que o artigo chama de leve.

Bolton-Maggs, Comments on 'clinical course of 63 children with hereditary spherocytosis', Rev Bras Hematol Hemoter 2012, citando Eber e col.

Na prova

O avaliador que quer testar a régua entrega um valor confortavelmente dentro de uma faixa — 7,2 ou 9,5 g/dL — e cobra a conduta que a classe implica. Se o enunciado trouxer 8,0 g/dL exato, ou algo entre 10,9 e 11,0, a pergunta provavelmente não é sobre a classe: leia se o que se pede é a conduta, que nesse intervalo é a mesma nas duas réguas.

Se a fragilidade osmótica ainda é exame obrigatório

Obrigatória, como critério diagnóstico

A coorte brasileira exigiu fragilidade osmótica positiva, com e sem incubação de 24 horas, somada a antiglobulina direta negativa, para incluir cada um dos 63 pacientes. O serviço registra que o teste de eosina-5'-maleimida por citometria de fluxo não estava disponível em seu laboratório.

Oliveira e col., Rev Bras Hematol Hemoter 2012;34(1):9-13, seção Métodos

Dispensável quando o quadro é típico

O comentário afirma que frequentemente não é necessário fazer a fragilidade osmótica — nem qualquer outro teste diagnóstico — quando os demais achados são típicos, por ser um exame laborioso, demorado e capaz de dar resultado falso-negativo.

Bolton-Maggs, comentário na mesma revista, 2012, remetendo à diretriz de 2011 de que é primeira autora

Na prova

A medição resolve a divergência sem escolher lado: a sensibilidade da fragilidade osmótica é de 68% em sangue fresco, 81% em sangue incubado e cai a 53% e 64% nos casos compensados. Um resultado negativo não afasta a doença, e é isso que o enunciado testa quando entrega quadro típico com fragilidade osmótica normal.

Por quanto tempo manter antibioticoprofilaxia depois da esplenectomia

Penicilina até os 18 anos, com autores defendendo a vida toda

O serviço de Belo Horizonte recomendava penicilina oral ou intramuscular como profilaxia até os 18 anos de idade, registrando explicitamente que alguns autores recomendam profilaxia por toda a vida.

Oliveira e col., Rev Bras Hematol Hemoter 2012;34(1):9-13, seção Métodos

Evidência escassa; pode importar mais a orientação sobre febre

O comentário sustenta que, embora a profilaxia com penicilina após a esplenectomia seja frequentemente recomendada, a evidência para ela é escassa, e que pode ser mais importante orientar cuidadosamente o paciente a procurar atendimento médico urgente diante de febre e a manter em casa um curso de antibiótico apropriado.

Bolton-Maggs, comentário na mesma revista, 2012, remetendo à revisão de diretrizes sobre baço ausente ou disfuncional de que é coautora

Na prova

As duas posições concordam no que a prova costuma cobrar: vacinar antes, com o prazo mínimo de 14 dias do Manual dos Centros de Referência, e orientar a família sobre febre. A duração da profilaxia antibiótica é o ponto em aberto — se a alternativa afirmar um prazo como se fosse consenso, desconfie; se afirmar a vacinação prévia, é a que fecha.

06

Caso resolvido

Menina de 6 anos e 4 meses é levada ao ambulatório de pediatria por icterícia que a mãe descreve como recorrente, sempre associada a quadros infecciosos banais, desde os 2 anos. Nasceu a termo, sem intercorrências neonatais registradas. Ao exame, está corada em 2+ de 4, ictérica em 1+, com baço palpável a 3 cm do rebordo costal esquerdo e fígado impalpável. Hemoglobina 9,4 g/dL, volume corpuscular médio 84 fL, reticulócitos 8%, bilirrubina total 3,0 mg/dL com fração indireta de 2,2 mg/dL, desidrogenase láctica elevada. Teste de Coombs direto negativo. O laudo do esfregaço descreve "anisocitose discreta", sem menção a esferócitos. A mãe relata icterícia intermitente na própria infância e colecistectomia aos 28 anos.
achado
Anemia com reticulócitos em 8% é hemólise, não produção deficiente. Bilirrubina de predomínio indireto e desidrogenase láctica elevada confirmam destruição aumentada. Baço palpável a 3 cm em criança de 6 anos é esplenomegalia. Os três achados juntos definem hemólise crônica com hiperesplenismo funcional.
regra
O Coombs direto negativo é o divisor. Ele afasta a hemólise imune — incompatibilidades Rh e ABO, anemia hemolítica autoimune — e move o raciocínio para as causas não imunes: defeitos de membrana, enzimopatias e hemoglobinopatias.
achado
A ausência de esferócitos no laudo não afasta nada. Na maior série pediátrica brasileira, esferócitos foram descritos em 23 de 51 esfregaços, 45%. A descrição depende de quem lê a lâmina, e o laudo aqui é genérico — "anisocitose discreta" —, o que sugere leitura de rotina, não revisão dirigida.
regra
A história materna vale como dado laboratorial. Cerca de 75% dos casos são autossômicos dominantes, segundo a revisão citada na coorte brasileira, e a mãe traz dois marcadores: icterícia intermitente na infância e colecistectomia aos 28 anos, idade precoce para cálculo biliar. A expressão costuma ser uniforme dentro da família.
conduta
Confirmar com teste de ligação da eosina-5'-maleimida, se disponível, ou com lise em glicerol acidificado. Não usar fragilidade osmótica isolada para excluir: na série de 150 pacientes ela perde 32% dos casos em sangue fresco e 47% dos compensados. Solicitar revisão dirigida do esfregaço e estender a investigação aos pais.
conduta
Classificar a gravidade pela hemoglobina de base, fora de infecção — 9,4 g/dL a coloca na faixa moderada pelas duas réguas. Iniciar seguimento com ácido fólico, programar ultrassonografia de vesícula a partir dos 7 anos, como no protocolo da coorte brasileira, ou antes se houver sintoma, e não indicar esplenectomia apenas pelo baço palpável.
07

Agora feche você

Menino de 5 anos e 2 meses, com esferocitose hereditária confirmada aos 18 meses, tem hemoglobina de base entre 7,2 e 7,8 g/dL, recebeu quatro transfusões nos últimos 18 meses e apresentou dois episódios de aumento agudo do baço com queda de hemoglobina. A equipe de cirurgia pediátrica concorda com a esplenectomia e propõe operar em nove dias, aproveitando uma vaga de centro cirúrgico. A caderneta mostra o calendário de rotina em dia. A mãe pergunta se pode marcar.
achado
Hemoglobina de base abaixo de 8 g/dL com dependência transfusional coloca a criança na faixa grave por qualquer das duas réguas publicadas, e é nessa faixa que a esplenectomia é claramente indicada.
regra
A idade recomendada para adiar a cirurgia é depois dos 6 anos, quando possível, por causa do risco infeccioso. A criança tem 5 anos e 2 meses; a mediana de idade à esplenectomia na série brasileira foi de 7 anos, com casos operados a partir de 9,8 meses quando a doença exigiu.
regra
O calendário de rotina em dia não cobre o que a esplenectomia exige. O manual do Ministério da Saúde lista, além das vacinas de rotina, seis frentes: varicela, hepatite A, influenza inativada, pneumocócica, meningocócica e Haemophilus influenzae tipo b.
conduta
Confrontar a data proposta com o prazo mínimo. Nove dias é menos que 14, e o prazo do manual não é sugestão de conveniência: é o intervalo mínimo entre a vacinação e o procedimento eletivo.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Exigir esferócitos no esfregaço para levantar a hipótese Atrai porque o nome da doença descreve a célula. A medição desmonta: na coorte brasileira, esferócitos foram descritos em 23 de 51 esfregaços, 45% — a maioria dos laudos de quem tem a doença não os menciona. O que levanta a hipótese é a tríade de anemia com reticulocitose, esplenomegalia e antiglobulina direta negativa.
  2. 2Tratar fragilidade osmótica normal como exclusão do diagnóstico Atrai porque o exame é apresentado como padrão-ouro em textos antigos. Na série de 150 pacientes, ele tem sensibilidade de 68% em sangue fresco e de apenas 53% nos casos compensados, que são justamente os leves — o subgrupo em que a dúvida diagnóstica é maior. Um resultado normal em criança com quadro típico não fecha nada.
  3. 3Pedir o teste de eosina-5'-maleimida como rastreamento Atrai porque os 93% de sensibilidade e os 98% de especificidade medidos na série de 150 pacientes parecem números de rastreio. Aplicado a crianças não selecionadas, com a prevalência que a coorte brasileira estima entre 1 para 2.000 e 1 para 5.000, o valor preditivo positivo cai para 2,3% a 0,9%. O exame confirma uma suspeita clínica; ele não a cria.
  4. 4Classificar a gravidade com a hemoglobina colhida durante a crise Atrai porque o valor mais baixo parece o mais informativo. A crise aplástica por parvovírus B19 pode ser a primeira manifestação da doença e derruba a hemoglobina transitoriamente; o comentário na mesma revista adverte que não se deve avaliar a gravidade até a criança estar totalmente recuperada. A régua vale para a hemoglobina de base.
  5. 5Confundir esferócitos com esferocitose hereditária no recém-nascido Atrai porque a morfologia é a mesma. No recém-nascido, a causa mais frequente de esferócitos no esfregaço é a incompatibilidade ABO, que é hemólise imune e tem antiglobulina direta positiva. A ordem de leitura é Coombs primeiro, morfologia depois — e é o Coombs que separa os dois capítulos.
  6. 6Indicar esplenectomia pelo tamanho do baço Atrai porque o baço grande é o achado mais visível. A esplenomegalia ocorreu em 69,8% da coorte, distribuída pelas três faixas de gravidade, e o comentário afirma que ela, sozinha, não é indicação de cirurgia nem de restrição de atividade física. Quem indica é a gravidade da anemia e a dependência transfusional.
  7. 7Marcar a cirurgia e vacinar depois Atrai porque a lógica cirúrgica manda resolver a operação primeiro. O Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais fixa que, na esplenectomia eletiva, a vacinação precede o procedimento pelo período mínimo de 14 dias. Vacinar depois não é equivalente: para quem já operou, o manual diz que a resposta é melhor a partir de 14 dias do ato cirúrgico, e que aí a prioridade passa a ser não perder a oportunidade.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A tríade que sustenta a hipótese é anemia com reticulocitose, esplenomegalia e antiglobulina direta negativa, e ela está completa na vinheta. A ausência de esferócitos no laudo não tem o peso que o nome da doença sugere: na maior série pediátrica brasileira, esferócitos foram descritos em 23 de 51 esfregaços, 45%, e todos os 63 pacientes tinham a doença. A colecistectomia materna aos 28 anos é dado de herança, já que cerca de 75% dos casos são autossômicos dominantes. Reticulócitos em 8% afastam anemia carencial; Coombs negativo afasta hemólise imune; e deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase dá crise aguda ligada a gatilho, não hemólise crônica com baço grande.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere sem consultar: (1) a tríade que levanta a hipótese e por que o Coombs vem antes da morfologia; (2) em que fração dos laudos os esferócitos aparecem; (3) a sensibilidade da fragilidade osmótica em sangue fresco e nos casos compensados; (4) os cortes de hemoglobina das duas réguas e onde cada uma falha; (5) o prazo mínimo entre a vacina e a esplenectomia eletiva e quantas frentes vacinais o manual exige.

em 30 dias

Trinta dias depois, reconstrua o capítulo por cinco perguntas. Primeira: por que uma doença definida por perda de superfície produz uma esfera, e por que a esfera passa mal pela fenda do sinusoide. Segunda: por que retirar o baço corrige a anemia sem corrigir a célula, e o que se compra em troca. Terceira: se o teste mais sensível é o mesmo exame em duas populações diferentes, o que mudou entre um valor preditivo de 2% e um de 95%. Quarta: como a mesma revista publicou, no mesmo ano, duas réguas de gravidade que discordam em 8,0 e em 11,5 g/dL, e qual das duas serve para indicar cirurgia. Quinta: por que o rastreio de colelitíase começa aos 7 anos e a série encontrou cálculo aos 4,8.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Uma mãe traz a filha de 6 anos ao ambulatório porque ela "fica amarela" toda vez que pega uma virose, e desta vez ficou pálida também. Colha a história, examine o abdome com atenção ao baço e decida quais exames pede — e em que ordem — antes de nomear a doença. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Esferocitose hereditária na infância – Esferocitose hereditária na criança — Preparatório para provas | OsceLabs