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Hemofilia e doença de von Willebrand na criança

Coagulopatias hereditárias na infância: hemofilia A e B e doença de von Willebrand

A coagulopatia hereditária mais comum do país é a que menos aparece no primeiro ano de vida, e a que menos aparece na prova é a que mais precisa de uma decisão antes dos três anos de idade.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menino de 5 anos, sem doenças prévias, apresenta há 2 dias hematomas e sangramento prolongado após pequeno trauma. Sem uso de medicações. Exame: equimoses em membros, sem petéquias, sem visceromegalias. Coagulograma: plaquetas 250.000/mm³, TAP normal (INR 1,0), TTPA prolongado (55 s; ref até 35 s). O TTPA corrige com o teste da mistura (plasma normal 1:1). História familiar: tio materno com sangramentos. Qual a hipótese diagnóstica mais provável?

02

Como esse tema cai

O enunciado costuma entregar uma criança que sangra e um coagulograma incompleto. A tentação é decorar um par de resultados e devolver um nome de doença. O avaliador raramente para aí: a pergunta seguinte é qual o próximo exame, qual a modalidade de reposição, qual droga não pode ser usada naquela idade, ou por que a história familiar negativa não serve de argumento.

Duas famílias explicam quase tudo que cai. A hemofilia é defeito da coagulação propriamente dita, ligada ao cromossomo X, com deficiência de fator VIII (hemofilia A) ou fator IX (hemofilia B); sangra fundo e tarde, dentro de articulações e músculos. A doença de von Willebrand é defeito da hemostasia primária, de herança em geral autossômica, e sangra raso e cedo, em pele e mucosas. O par tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada é o primeiro corte, e o capítulo mostra por que ele erra em pelo menos duas situações previsíveis.

O que este capítulo faz de diferente é ancorar cada régua no número brasileiro que a acompanha. Quantos pacientes o país tem em cada diagnóstico, quantas mulheres estão registradas com hemofilia, quantos estão em profilaxia primária, quantos inibidores foram efetivamente titulados — e quais dessas contas fecham exatas e quais não fecham. Onde as fontes discordam, o capítulo mostra as duas e diz como reconhecer qual delas o enunciado está usando.

03

O que muda decisão

Dois compartimentos, dois relógios

Como usar este capítulo: use o padrão de sangramento e o coagulograma para separar defeito de hemostasia primária de deficiência de fator. Depois classifique gravidade, escolha tratamento sob demanda ou profilaxia e reconheça situações especiais como inibidor e menorragia.

A hemostasia tem duas etapas e cada uma falha com uma assinatura clínica própria. A hemostasia primária é o tampão de plaquetas, e depende do fator de von Willebrand para colar a plaqueta ao colágeno exposto. Quando ela falha, o sangramento é imediato, superficial e mucocutâneo: epistaxe, gengivorragia, equimoses fáceis, sangramento que começa na hora da extração dentária e não para. A coagulação é a etapa que converte esse tampão frágil em coágulo de fibrina. Quando ela falha, o tampão inicial se forma, o sangramento parece controlado, e horas depois recomeça — dentro do músculo, dentro da articulação, no espaço retroperitoneal.

É por isso que a hemofilia tem um sítio quase patognomônico e a doença de von Willebrand não. A linha de cuidado do Espírito Santo tabula a distribuição dos sangramentos na hemofilia com a hemartrose em 70% a 80%, hematomas musculares em 10% a 20%, outros sangramentos maiores em 5% a 10% e hemorragias intracranianas em menos de 5%. Vale reparar no que essas quatro linhas fazem quando somadas: o mínimo é 85% e o máximo é 115%. A tabela não é uma partição; é uma coleção de estimativas independentes, e quem tentar completar um percentual que falta a partir dela vai inventar um número.

A hemartrose merece uma frase própria porque a sua distribuição anatômica não é aleatória. O mesmo documento registra que ela é mais comum em articulações monoaxiais, do tipo dobradiça — joelhos, cotovelos, tornozelos — e menos comum em ombros, quadris e punhos, que são triaxiais. A leitura mecânica é direta: articulação que só faz um movimento absorve carga em um eixo só e sangra na sinóvia com mais facilidade. Na criança pequena isso aparece como recusa de usar o membro antes de aparecer como articulação vermelha.

O detalhe que a prova adora: na doença de von Willebrand o sangramento articular é raro, e a linha de cuidado o registra como achado que aparece essencialmente no tipo 3, a forma com ausência quase completa do fator. Nos números da tabela adaptada de Rydz e James, a hemartrose está em 3% no tipo 1 e em 37% a 45% no tipo 3. Sangramento articular numa criança com sangramento mucocutâneo de longa data não afasta von Willebrand — mas obriga a perguntar de que tipo se está falando.

A régua da gravidade, e a fronteira que pertence às duas classes

A gravidade da hemofilia não se mede por quanto o paciente sangra; mede-se pela atividade residual do fator, e a faixa prevê o padrão de sangramento. O Quadro 2 da linha de cuidado estadual, que cita como fonte o Manual de Hemofilia de 2015 e os trabalhos de White e de Blanchette, classifica assim: grave abaixo de 1 UI/dL, ou menos de 1% do normal, com sangramentos articulares e musculares que ocorrem após traumas e frequentemente sem causa aparente; moderado de 1 a 5 UI/dL, com sangramentos em geral ligados a trauma e apenas ocasionalmente espontâneos; leve de 5 a 40 UI/dL, com sangramento associado a traumas maiores ou procedimentos.

Leia de novo as duas últimas faixas. O moderado vai de 1 a 5, e o leve começa em 5. O valor de 5 UI/dL pertence às duas classes ao mesmo tempo, e a tabela não diz de qual delas ele é. Não é um detalhe de estilo: é a diferença entre um paciente que a rede vai tratar como candidato a reposição regular e um que vai receber orientação para procedimentos.

Do outro lado, a revisão sistemática publicada em 2025 no periódico da associação brasileira de hematologia escreve as mesmas três faixas de outro jeito: grave abaixo de 1%, moderado de 1 a 5%, leve de 6 a 40%. Ali o problema é o oposto e igualmente mecânico: entre 5% e 6% não existe classe nenhuma. Um laboratório que devolve 5,4% de atividade de fator VIII deixa a criança num intervalo que, por uma das duas réguas, é leve, e pela outra não tem nome.

Duas réguas de atividade de fator VIII sobrepostas: na de cima o valor 5% pertence às faixas moderada e leve ao mesmo tempo; na de baixo há uma lacuna sem classe entre 5% e 6%, e um resultado de 5,4% cai dentro dela.
As duas réguas brasileiras de gravidade da hemofilia, e o que acontece com um resultado de 5,4%: numa ele é leve, na outra ele não tem classe. A fronteira não está no mesmo lugar nos dois documentos.

Para a prova, o que importa é que as três faixas existem e que a faixa grave é a que sangra sem trauma. Os números brasileiros dizem quanto pesa cada uma. No registro nacional de 2025, entre os 12.151 pacientes com hemofilia A, 5.577 são graves e 3.428 são leves; entre os 2.425 com hemofilia B, 858 são graves e 640 são leves. Recalculando dos numeradores: 45,9% da hemofilia A é grave, contra 35,4% da hemofilia B. A noção clássica de que a hemofilia B costuma ser clinicamente mais branda tem, aqui, uma medida nacional.

Uma observação de leitura de gráfico, porque ela ensina a desconfiar de rosca de pizza. O gráfico de gravidade da hemofilia B no relatório do Ministério da Saúde imprime 35%, 32%, 27% e 6%, que somam exatamente 100. Só que 640 de 2.425 são 26,4%, e não 27%. A fatia foi arredondada para cima para o círculo fechar. Nenhuma decisão clínica muda por causa disso; a lição é que a soma bater não prova que cada parcela está certa.

Quem sangra cedo, e quem aparece cedo

A doença de von Willebrand é a coagulopatia hereditária mais prevalente do registro brasileiro. Na tabela de diagnósticos de 2025 são 12.863 pacientes, contra 12.151 de hemofilia A, 2.425 de hemofilia B, 4.304 de coagulopatias raras e 4.109 de outros transtornos hemorrágicos. Os cinco somam 35.852, que é exatamente o total impresso, e os percentuais arredondados — 36, 34, 7, 12 e 11 — somam exatamente 100. Essa partição fecha nos dois sentidos, e por isso dá para usá-la sem medo.

A diferença entre von Willebrand e hemofilia A é de apenas 712 pacientes, ou seja, as duas primeiras posições estão praticamente empatadas. E é aqui que a tabela por faixa etária desmonta a intuição. Na faixa de menores de um ano, o país inteiro registra 42 pacientes com hemofilia A, 9 com hemofilia B e 3 com doença de von Willebrand.

Antes de transformar isso em acusação, é preciso reconciliar. A tabela é de pacientes vivos por idade atual, não de idade ao diagnóstico, e as faixas têm larguras diferentes: menores de um ano cobrem um ano de nascimentos, enquanto a faixa de 19 a 30 cobre doze. Normalizando por ano de idade, a hemofilia A tem 42 pacientes no primeiro ano contra 228 por ano no platô adulto — está em um quinto do seu platô já no primeiro ano de vida. A doença de von Willebrand tem 3 no primeiro ano contra 262 por ano no platô: está em um oitenta e sete avos. A diferença sobrevive à normalização, e sobrevive com folga.

Duas curvas de pacientes por ano de idade no registro brasileiro: a hemofilia A parte de 42 no primeiro ano de vida e a doença de von Willebrand parte de 3, embora as duas terminem em platôs adultos semelhantes.
Densidade por ano de idade no registro nacional de 2025. A doença mais prevalente do país é a que quase não existe antes do primeiro aniversário: no primeiro ano, a hemofilia A já alcançou um quinto do seu platô adulto, e a doença de von Willebrand, um oitenta e sete avos.

A explicação é clínica, não estatística. A hemofilia grave sangra em músculo e articulação assim que a criança começa a engatinhar e a andar, e a linha de cuidado do Espírito Santo escreve exatamente esse marco: suspeitar diante de hematomas subcutâneos nos primeiros anos de vida ou de sangramento muscular e articular em meninos acima de dois anos. A doença de von Willebrand, na maioria dos casos leve, só produz um evento que chame atenção quando aparece a primeira extração dentária, a primeira cirurgia ou a menarca. Quem espera o sangramento chamar acaba diagnosticando a doença mais comum uma década depois da mais grave.

A contrapartida disso é que o dado pediátrico existe e é grande. Somando as quatro faixas até 18 anos, o registro tem 3.247 pacientes com hemofilia A, 620 com hemofilia B e 2.148 com doença de von Willebrand — 7.638 crianças e adolescentes ao todo, ou 21,3% de todos os registrados. Coagulopatia hereditária não é doença de adulto que às vezes aparece na infância; um em cada cinco pacientes do país tem menos de dezenove anos.

Trinta por cento sem história familiar, e as 444 mulheres

A hemofilia é ligada ao cromossomo X, e a prova cobra as duas consequências do modo mais preguiçoso possível: o afetado é homem, e a mãe é portadora. As duas frases estão certas na maioria dos casos e servem de armadilha nas duas pontas.

A primeira ponta é a história familiar. Os três documentos brasileiros consultados repetem que, embora a história familiar esteja frequentemente presente, em até 30% dos casos não há antecedente familiar de hemofilia, porque a mutação surgiu de novo na mãe ou no próprio feto. Numa vinheta, 'sem casos na família' não afasta nada. Um menino de dois anos com hemartrose e história familiar limpa continua sendo hemofílico até que a dosagem de fator diga o contrário.

A segunda ponta é o sexo. O registro nacional de 2025 traz, na tabela por sexo, 320 mulheres com hemofilia A e 124 com hemofilia B — 444 mulheres com hemofilia no país. As colunas fecham exatas: 11.831 homens mais 320 mulheres dão os 12.151 da hemofilia A, e 2.301 mais 124 dão os 2.425 da hemofilia B. Proporcionalmente, a hemofilia B tem quase o dobro de mulheres da hemofilia A: 5,11% contra 2,63%. Portadoras podem ter atividade de fator suficientemente baixa para sangrar, sobretudo em menorragia e no pós-parto, e o registro as conta como pacientes.

Na doença de von Willebrand a distribuição por sexo inverte, e por um motivo que não é biológico e sim de detecção. São 8.776 mulheres contra 4.087 homens, ou seja, 68,2% do registro é feminino. A doença não é mais frequente em mulheres; a mulher tem, todo mês, um teste de hemostasia primária que o homem não tem. Quem menstrua com defeito de plaqueta ou de fator de von Willebrand recebe um sinal repetido e datado; quem não menstrua espera uma cirurgia.

Menorragia: o condicional que o aluno inverte

A linha de cuidado estadual traz, no mesmo parágrafo, dois números que dizem coisas opostas e que a prova usa para separar quem leu com atenção. O primeiro: a menorragia pode estar presente em até 93% das mulheres com doença de von Willebrand. O segundo: aproximadamente 13% das mulheres com menorragia têm doença de von Willebrand.

São duas probabilidades condicionais em direções contrárias, e só uma delas serve para a adolescente que está na sua frente. A primeira responde 'quantas doentes sangram muito' e é altíssima. A segunda responde 'quantas que sangram muito estão doentes' e é baixa: 87 em cada 100 adolescentes com menstruação abundante não têm a doença. O aluno lê o 93%, guarda a impressão de que menorragia praticamente sela o diagnóstico, e marca a alternativa que manda tratar sem investigar.

O uso correto dos dois é sequencial. O 93% justifica que a pergunta sobre o padrão menstrual entre na anamnese de toda adolescente com suspeita de coagulopatia, e que menorragia desde a menarca — e não menorragia que começou aos vinte e cinco anos — seja levada a sério. O 13% justifica que a conduta seguinte seja investigar, e não presumir. Coagulopatia é uma das causas de sangramento uterino abundante na adolescente, não a causa.

Vale um aviso sobre a própria tabela de onde vêm esses percentuais. A Tabela 1 daquele documento tem cinco colunas de números, e duas delas se chamam 'Controle' e 'Controles', ambas com n igual a 1.056. Na primeira, epistaxe em controles aparece como 63%; na segunda, como 5% a 11%. Hemartrose aparece como 4% numa e 6% na outra. Duas colunas com o mesmo rótulo e o mesmo denominador não podem descrever populações diferentes, e o documento não diz qual é qual. Cito como está impresso e sem reconstruir denominador: quem usar a coluna do meio como referência de normalidade vai concluir que gente saudável tem epistaxe tanto quanto quem tem a doença.

A profilaxia primária e o relógio de três anos

O tratamento da hemofilia é reposição do fator deficiente, e a pergunta de prova quase nunca é qual fator — é quando repor. O Quadro 6 da linha de cuidado separa o tratamento episódico, feito no momento do sangramento, das modalidades de profilaxia contínua, e as define por marcos que são todos pediátricos.

A profilaxia primária é a reposição regular contínua iniciada antes de qualquer evidência de alteração osteocondral, antes da segunda hemartrose e até os três anos de idade. A secundária começa depois de duas ou mais hemartroses, mas ainda antes da alteração osteocondral. A terciária começa depois que a alteração osteocondral já existe. E a intermitente é a que se faz por menos de 45 semanas ao ano. Note que os dois marcos da primária são conjuntivos: perder qualquer um dos dois — a segunda hemartrose ou o terceiro aniversário — tira o paciente daquela categoria para sempre.

O documento define reposição regular contínua como intenção de tratar por 52 semanas ao ano tendo sido tratado por pelo menos 45 semanas, e rotula esse mínimo entre parênteses como 85% da intenção de tratar. Recalculando, 45 de 52 são 86,5%. Antes de chamar isso de erro, vale conferir a atribuição: a fonte declarada do quadro é a definição internacional de Srivastava e de Blanchette, e o rótulo de 85% vem de lá. O documento brasileiro transcreveu com fidelidade uma aproximação alheia; não inventou uma.

O que o mesmo documento afirma logo abaixo merece leitura devagar: a profilaxia primária, diz o texto, 'é considerada a única forma de tratamento capaz de prevenir a ocorrência de alterações articulares em pacientes com hemofilia grave'. A frase se choca com o quadro que está na página anterior, onde a profilaxia secundária é definida como aquela que começa antes da evidência de alteração osteocondral — isto é, uma modalidade que, por construção, ainda tem articulação íntegra para preservar. Se secundária começa antes do dano, ela não pode ser incapaz de preveni-lo. A mesma frase aparece, quase palavra por palavra, no protocolo do Distrito Federal, o que mostra que ela viaja entre documentos sem ser reexaminada.

O número nacional dá a dimensão prática do impasse. Em 2025 o país tinha 781 pacientes em profilaxia primária e 8.660 em profilaxia secundária e terciária — a modalidade declarada como única capaz de proteger a articulação cobre 8,3% de quem está em profilaxia contínua. Para calibrar: crianças de até 12 anos com hemofilia A ou B somam 2.418 no registro. Os 781 da profilaxia primária incluem quem começou criança e continua adulto, de modo que a fração de crianças efetivamente coberta é menor que os 32,3% que a divisão simples sugere.

O inibidor, e a fração que ninguém testou

A complicação que define o prognóstico do tratamento é o inibidor: aloanticorpos que neutralizam o fator infundido e transformam um paciente controlado num paciente que sangra apesar da dose. A linha de cuidado registra incidência cumulativa de 20% a 30% na hemofilia A e de 1% a 5% na hemofilia B, e explica a consequência prática: acima de 5 unidades Bethesda por mililitro o inibidor é de alta resposta, e o tratamento do sangramento deixa de ser o fator deficiente e passa a ser um agente de desvio.

Agora o registro nacional. A tabela de pacientes com hemofilia A e inibidores lista 1.038 pacientes, distribuídos assim: 257 com título entre 0,6 e 4,9 UB/mL, 22 entre 5 e 10, 24 entre 10,1 e 40, 16 entre 40,1 e 200, 6 acima de 200,1, mais 40 negativos e 673 sem teste ou sem informação. A soma dá 1.038 exatos. Os titulados são 325, ou 31,3% da tabela; os não testados são 64,8%.

A tentação é confrontar os 325 com a incidência cumulativa de 20% a 30% e concluir que o Brasil tem muito menos inibidor do que a literatura. Isso seria comparar coisas diferentes. Incidência cumulativa mede quem já desenvolveu inibidor em algum momento, tipicamente nos primeiros dias de exposição ao fator, na primeira infância. A tabela mede quem tem título detectável agora. E ainda assim, mesmo aceitando a diferença de pergunta, sobra um problema que não se resolve por interpretação: dois terços das linhas da tabela nacional de inibidores não têm resultado. Não é que o país meça pouco inibidor; é que o número que descreveria a complicação mais temida do tratamento não pode ser lido daquela tabela.

O que dá para dizer com segurança é a comparação interna entre as duas hemofilias, porque ela usa a mesma régua nos dois lados. Titulados sobre o total de cada diagnóstico: 325 em 12.151 na hemofilia A, ou 2,67%; 18 em 2.425 na hemofilia B, ou 0,74%. A razão é de 3,6 vezes, na direção que a literatura prevê. E os números de suporte confirmam a assimetria: o país tem 59 pacientes em indução de imunotolerância e 510 em uso de emicizumabe.

Desmopressina: a droga que não serve na idade em que a doença se decide

O acetato de desmopressina, o DDAVP, é análogo sintético da vasopressina que libera fator VIII e fator de von Willebrand dos estoques endoteliais. É a droga que evita hemoderivado em quem tem doença leve, e é uma das perguntas mais rentáveis do tema porque tem três contraindicações que caem sempre.

A primeira é de subtipo. A linha de cuidado indica o DDAVP na hemofilia A leve e na doença de von Willebrand exceto no tipo 3 e no subtipo 2B. No tipo 3 não há estoque para liberar; no 2B o fator liberado é justamente o que tem afinidade aumentada pela plaqueta, e a droga pode agravar a plaquetopenia.

A segunda é de idade, e é a que interessa ao pediatra. O documento lista como grupo em que o medicamento deve ser evitado, por risco de efeitos colaterais, crianças com idade inferior a três anos, principalmente se estiverem recebendo soluções hipotônicas endovenosas, pela possibilidade de hiponatremia e convulsões. Repare na sobreposição de calendários: os três anos são exatamente o prazo que define a profilaxia primária. A droga que poupa fator na doença leve é indisponível justamente na faixa etária em que a decisão que define o resto da vida articular está sendo tomada. Não é contradição, é limitação de idade — mas explica por que, no lactente, o caminho é o concentrado de fator, e não o atalho farmacológico.

A terceira é a taquifilaxia. A dose é de 0,2 a 0,4 microgramas por quilo por via intravenosa ou subcutânea, com pico de fator entre 30 e 60 minutos pela veia e entre 60 e 120 minutos pelo subcutâneo, e pode ser repetida a cada 12 ou 24 horas por duas a três doses. Depois da terceira dose a resposta cai, porque o estoque endotelial se esgota. Um enunciado que descreve terceira dose com resposta insuficiente não está pedindo aumento de dose; está pedindo troca de estratégia. A apresentação intranasal é de 300 microgramas no adulto e 150 microgramas na criança, e a restrição hídrica durante o uso é parte da prescrição, não recomendação acessória.

O que o Brasil sabe sobre se a profilaxia funciona

Em 2025 uma revisão sistemática publicada no periódico da associação brasileira de hematologia foi procurar quantos sangramentos por ano têm os brasileiros com hemofilia A grave em profilaxia. O funil é o achado principal: as buscas retornaram 536 registros, 417 após remoção de duplicatas, 104 selecionados para leitura integral, e apenas 5 publicações preencheram os critérios. Cinco de 536 são 0,93%. Os autores concluíram que a informação disponível no país é escassa e possivelmente enviesada, e que dados sobre adesão não puderam sequer ser extraídos.

O único conjunto brasileiro de taxa anualizada de sangramento veio de um estudo multinacional observacional. Vale ler o desenho antes do resultado: o estudo era um run-in para os ensaios de fase 3 de terapia gênica do patrocinador, incluiu homens de 18 anos ou mais com hemofilia A grave sem história de inibidor, excluiu quem tinha infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, disfunção hepática significativa, hepatite B crônica ou hepatite C ativa, e exigia documentação de alta qualidade dos seis meses anteriores. O sítio brasileiro foi um só, o hemocentro universitário de Campinas.

O que esse desenho compra e o que ele não compra precisa ficar explícito. Ele compra uma medida cuidadosa de sangramento em pacientes reais fora de ensaio. Ele não compra nada sobre crianças: o critério de inclusão tinha piso etário de dezoito anos, e a idade mediana dos brasileiros foi de 27 anos. A pergunta que um pediatra faria — a profilaxia primária brasileira está preservando articulação de criança? — não tem resposta nessa revisão, e a revisão não esconde isso.

Os números merecem cuidado adicional. A taxa anualizada de sangramentos tratados nos brasileiros foi, na janela total, média de 2,42 com desvio-padrão de 4,05 e mediana de 0,80; nas duas outras janelas a mediana foi zero. Média maior que mediana, com desvio-padrão maior que a própria média, é distribuição em que a maioria não sangrou e uma minoria sangrou muito. Dizer 'o brasileiro em profilaxia sangra 2,4 vezes por ano' descreve um paciente que quase não existe.

Uma reconciliação para não acusar o que não é erro: o perfil basal traz 54 brasileiros e a análise de sangramento, 41. Parecem números incompatíveis, e não são — o estudo só analisou quem completou seis meses de seguimento, e globalmente isso foi 225 de 294 enrolados, ou 76,5%. Entre os brasileiros, 41 de 54 são 75,9%. As duas frações batem quase exatamente, e a diferença entre os dois enes é o critério de seguimento, não perda de dados.

Duas outras contas daquela coorte fecham exatas e ensinam. Cinco de 54 brasileiros tinham articulação-problema, 9,26%, o menor índice entre todas as regiões do estudo — e a tabela de contagem confirma: 49 com zero articulações-problema mais 5 com uma articulação somam os 54, e ninguém tinha duas ou mais. E 12 de 54, ou 22,2%, tinham história de hepatite C, cicatriz do período anterior à inativação viral dos concentrados. É um retrato de dois tempos no mesmo grupo: articulações preservadas pela profilaxia moderna e sorologia herdada do tratamento antigo.

04

As réguas, lado a lado

Três tabelas resolvem a maior parte dos enunciados do tema: a que classifica a gravidade e mostra onde as duas fontes brasileiras discordam, a que traduz o par tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada no próximo exame a pedir, e a que define as modalidades de reposição pelos marcos que decidem qual delas o paciente ainda alcança.

  1. 1Ler a vinheta procurando o compartimento antes do nome: sangramento imediato de pele e mucosa aponta hemostasia primária; sangramento tardio em músculo ou articulação aponta coagulação.
  2. 2Ler o coagulograma como par, nunca isolado. Contagem de plaquetas, tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada juntos, e só então o exame confirmatório.
  3. 3Diante de tempo de tromboplastina parcial alargado com tempo de protrombina normal, pedir dosagem da atividade coagulante do fator VIII e do fator IX; a diferença entre as duas hemofilias é laboratorial, não clínica.
  4. 4Não usar tempo de tromboplastina parcial normal como argumento para afastar hemofilia: a própria linha de cuidado registra que em alguns casos de hemofilia leve ele permanece normal.
  5. 5Diante de sangramento mucocutâneo com plaquetas, tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial normais, pedir o painel de von Willebrand — antígeno e atividade de cofator de ristocetina —, porque o rastreio pode ser inteiramente normal na doença leve.
  6. 6Estabelecida a hemofilia, classificar pela atividade residual do fator e verificar em qual das duas réguas o valor cai; anotar o número, e não o rótulo, na evolução.
  7. 7Perguntar a idade e o número de hemartroses antes de discutir profilaxia: os dois marcos que definem a modalidade primária são a segunda hemartrose e o terceiro aniversário.
  8. 8Antes de prescrever desmopressina, checar três coisas: o subtipo, a idade e quantas doses já foram dadas.

Gravidade da hemofilia: as duas réguas brasileiras e o que cada faixa prevê

FormaLinha de Cuidado ES 2024 (fonte: Manual de Hemofilia 2015)Revisão sistemática brasileira 2025Padrão de sangramento descrito
GraveAbaixo de 1 UI/dL, ou menos de 1% do normalAbaixo de 1%Sangramento articular e muscular após trauma e frequentemente sem causa aparente
ModeradoDe 1 a 5 UI/dL, ou 1% a 5%De 1% a 5%Sangramento em geral ligado a trauma, apenas ocasionalmente espontâneo
LeveDe 5 a 40 UI/dL, ou 5% a menos de 40%De 6% a 40%Sangramento associado a trauma maior ou a procedimento
O que acontece com 5%Pertence ao moderado e ao leve ao mesmo tempoPertence só ao moderadoA conduta muda: quem é moderado entra na conversa sobre reposição regular
O que acontece com 5,4%É leveNão pertence a nenhuma classeA régua adotada precisa ser declarada na evolução, junto com o número
Distribuição nacional em 2025, hemofilia A (Ministério da Saúde, n = 12.151)Grave 5.577 (45,9%), moderado 2.401 (19,8%), leve 3.428 (28,2%), sem teste 745 (6,1%)As quatro parcelas somam 12.151 exatos e os arredondamentos somam 100%
Distribuição nacional em 2025, hemofilia B (Ministério da Saúde, n = 2.425)Grave 858 (35,4%), moderado 779 (32,1%), leve 640 (26,4%), sem teste 148 (6,1%)Proporcionalmente menos formas graves que na hemofilia A

O coagulograma de triagem e para onde ele manda

Tempo de tromboplastina parcial ativadaTempo de protrombinaExame seguinteO que se abre
AlargadoNormalAtividade coagulante do fator VIII e do fator IX; dosagem de fator XI e de fator XIIHemofilia A, hemofilia B, deficiência de fator XI, deficiência de fator XII
AlargadoNormalAntígeno e atividade de cofator de ristocetina do fator de von WillebrandDoença de von Willebrand com fator VIII secundariamente reduzido
AlargadoAlargadoDosagem de protrombina, de fator V, de fator X e de fibrinogênioDeficiências da via comum, hipofibrinogenemia e afibrinogenemia
NormalAlargadoDosagem de fator VIIDeficiência de fator VII, a coagulopatia rara mais frequente do registro nacional
NormalNormalTeste de solubilidade do coágulo e dosagem de fator XIII; painel de von WillebrandDeficiência de fator XIII e doença de von Willebrand com rastreio normal
NormalNormal, com plaquetas baixasEsfregaço de sangue periférico antes de qualquer outra coisaTrombocitopenias, que são o outro capítulo desta apostila

Modalidades de reposição, pelos marcos que decidem qual delas ainda cabe

ModalidadeDefinição da linha de cuidadoMarco que fecha a porta
Episódico, sob demandaReposição no momento da evidência clínica de sangramentoNenhum; é a modalidade de quem não entrou em profilaxia
Profilaxia primáriaReposição regular contínua iniciada antes de alteração osteocondral, antes da segunda hemartrose e com idade até 3 anosA segunda hemartrose ou o terceiro aniversário, o que vier primeiro
Profilaxia secundáriaReposição regular contínua iniciada após duas ou mais hemartroses e antes da evidência de alteração osteocondralA primeira evidência de alteração osteocondral
Profilaxia terciáriaReposição regular contínua iniciada após a evidência de alteração osteocondralNenhum; é a modalidade de quem já perdeu os anteriores
Profilaxia intermitente ou de curta duraçãoReposição por período inferior a 45 semanas ao anoNão é contínua por definição; complementa, não substitui
Quantos pacientes o país tinha em 2025 (registro do Ministério da Saúde)781 em primária; 8.660 em secundária e terciária; 59 em imunotolerância; 510 em emicizumabeA primária cobre 8,3% de quem está em profilaxia contínua

A definição de reposição regular contínua exige intenção de tratar por 52 semanas ao ano com pelo menos 45 semanas efetivas. O documento rotula esse mínimo como 85% da intenção de tratar; a divisão dá 86,5%. O rótulo vem da definição internacional citada como fonte do quadro, não de um arredondamento local.

As três posologias de manutenção do emicizumabe listadas — 1,5 mg/kg por semana, 3 mg/kg a cada duas semanas e 6 mg/kg a cada quatro semanas — entregam exatamente a mesma dose semanal de 1,5 mg/kg. A escolha entre elas é de conveniência e adesão, não de intensidade de tratamento.

Crioprecipitado contém fibrinogênio e fator VIII, e por isso não trata hemofilia B. É a troca que a vinheta oferece quando quer saber se o candidato sabe qual fator falta em qual doença.

Na criança com inibidor, a dose de fator VII ativado recombinante recomendada para intercorrência hemorrágica é de 90 a 120 microgramas por quilo, em bolus, a cada 2 horas — contra a cada 3 horas no adulto. O intervalo pediátrico é mais curto, não mais longo.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Onde termina o moderado e onde começa o leve

Moderado de 1 a 5%, leve de 5 a menos de 40%

O Quadro 2 da linha de cuidado estadual fecha o moderado em 5 UI/dL e abre o leve em 5 UI/dL, de modo que o valor 5 pertence às duas faixas. A tabela não declara qual delas tem precedência, e a decisão sobre reposição regular depende justamente dessa classificação.

Linha de Cuidado Coagulopatias Hereditárias, SESA-ES, 2024, Quadro 2, citando White e col. (2001), Blanchette e col. (2014) e o Manual de Hemofilia (2015)

Moderado de 1 a 5%, leve de 6 a 40%

A revisão sistemática brasileira de 2025 escreve as faixas com números inteiros e sem sobreposição, mas ao subir o piso do leve para 6% cria um intervalo entre 5% e 6% que não pertence a classe nenhuma. Um resultado de 5,4% de atividade fica sem rótulo.

Prezotti ANL e col., Hematol Transfus Cell Ther, 2025;47(2):103736, seções de resumo e introdução

Na prova

O avaliador que quer testar a régua entrega um valor confortavelmente dentro de uma faixa — 0,5%, 3%, 20% — e a resposta é direta. O avaliador que quer testar leitura entrega exatamente 5%, ou um valor entre 5 e 6. Nesse caso a chave não é escolher o rótulo mais bonito: é ver qual documento o enunciado está citando, porque a fonte costuma aparecer na própria vinheta ou no vocabulário usado. Se nada indicar a fonte, a alternativa que descreve a conduta pelo número de atividade, e não pelo nome da faixa, é a que sobrevive às duas réguas.

Para quem o emicizumabe está liberado no país

Restrito a hemofilia A com inibidor que falhou na imunotolerância

A versão submetida a consulta pública escreve que o emicizumabe 'até o momento está liberado no Brasil para os pacientes que têm Hemofilia A e inibidor e que falharam no tratamento de imunotolerância', e acrescenta que serve para prevenção de sangramentos, mas não para tratá-los.

Linha de Cuidado Coagulopatias Hereditárias, SESA-ES, versão de consulta pública, dezembro de 2023, seção Emicizumabe

Seção do fármaco sem a restrição, restrição sobrevivendo na logística dos frascos

Na versão publicada em julho de 2024 a seção do medicamento foi reescrita em torno do mecanismo e da conveniência da via subcutânea, e a frase que restringe a indicação sumiu dali; ela permanece apenas num trecho sobre a origem dos frascos, que diz que eles vêm do Ministério da Saúde nominais e apenas para hemofilia A com inibidor que falhou na imunotolerância.

Linha de Cuidado Coagulopatias Hereditárias, SESA-ES, 2024, seções Emicizumabe e dispensação

Na prova

Duas versões do mesmo ato estão no ar, no mesmo domínio, e a mais nova é a que lê como se a droga fosse de uso amplo em hemofilia A. Numa questão, o que separa é a palavra 'inibidor' no enunciado: sem ela, a alternativa que oferece emicizumabe como profilaxia de rotina está apostando na leitura solta do texto de 2024. O registro nacional ajuda a calibrar a escala real: 510 pacientes em emicizumabe contra 8.660 em profilaxia com concentrado de fator.

A profilaxia primária é mesmo a única capaz de preservar a articulação

Única forma capaz de prevenir alteração articular

Os três documentos brasileiros consultados afirmam, com redação praticamente idêntica, que a profilaxia primária é recomendada pela federação mundial e pela organização mundial de saúde e 'é considerada a única forma de tratamento capaz de prevenir a ocorrência de alterações articulares em pacientes com hemofilia grave'.

Linha de Cuidado SESA-ES 2024 e versão de 2023, seção Tratamento; Protocolo de Atenção Integral às Pessoas com Hemofilias A e B, SES-DF, 2020

A definição de secundária contradiz a exclusividade

O quadro de modalidades, no mesmo documento e uma página antes, define profilaxia secundária como reposição regular contínua iniciada após duas ou mais hemartroses e antes da evidência de alteração osteocondral. Uma modalidade que começa antes do dano é, por construção, capaz de evitá-lo — e portanto a primária não pode ser a única.

Linha de Cuidado Coagulopatias Hereditárias, SESA-ES, 2024, Quadro 6

Na prova

A frase de exclusividade é retórica de advocacia por um programa, e a definição do quadro é técnica. Numa questão sobre uma criança que já teve três hemartroses, a alternativa derrotista — 'a janela de proteção articular foi perdida' — é a que usa a frase; a alternativa correta usa o quadro e indica profilaxia secundária, porque ainda não há alteração osteocondral documentada. O que fecha a porta para a secundária é a alteração osteocondral, não o número de hemartroses.

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Caso resolvido

Menino de 2 anos e 4 meses, previamente hígido, é levado à unidade de pronto atendimento porque parou de apoiar o pé direito e chora quando a mãe tenta dobrar o joelho. Não houve queda testemunhada. A mãe conta que, desde que ele começou a andar, aparecem hematomas grandes e endurecidos nas pernas com quedas pequenas, e que uma vez sangrou por quase uma hora depois de morder o lábio. Nega casos de sangramento na família, de qualquer lado. Ao exame, está afebril, corado, com o joelho direito aumentado de volume, quente e com limitação da flexão; sem petéquias, sem visceromegalias. Exames: hemoglobina 11,4 g/dL, plaquetas 288.000/mm³, tempo de protrombina normal com relação normalizada internacional de 1,0, tempo de tromboplastina parcial ativada alargado, fibrinogênio normal.
achado
O compartimento se declara pelo sítio e pelo tempo. Articulação de joelho, quente e com limitação de flexão, sem trauma nomeável, numa criança que sangra tardiamente após mordida de lábio, é sangramento profundo e retardado — falha da coagulação, não da hemostasia primária. Plaquetas normais e ausência de petéquias reforçam que o tampão inicial está se formando.
exame
O par tempo de protrombina normal com tempo de tromboplastina parcial ativada alargado é a assinatura de laboratório, e ela abre exatamente quatro portas segundo o quadro de diagnóstico diferencial: fator VIII, fator IX, fator XI e fator XII. Fator XII não sangra. A dosagem da atividade coagulante do fator VIII e do fator IX é o exame confirmatório, e é ele — não o rastreio — que nomeia a doença.
armadilha
A frase 'nega casos na família' é o convite ao erro. Em até 30% dos casos de hemofilia não há antecedente familiar, porque a mutação é nova na mãe ou no feto. A história limpa não muda a conduta neste menino. A idade também não afasta: a linha de cuidado descreve exatamente este quadro — hematomas subcutâneos nos primeiros anos de vida e sangramento articular em meninos acima de dois anos.
classificação
Suponha que a dosagem devolva fator VIII com atividade de 0,7%. Isso classifica como hemofilia A grave nas duas réguas brasileiras, porque as duas fecham o grave abaixo de 1%. O grave é a forma que sangra sem causa aparente, e é a que compõe a maior fatia do registro nacional na hemofilia A: 5.577 de 12.151, ou 45,9%.
conduta
O que decide o futuro deste menino não é a analgesia de hoje: é a contagem de hemartroses e a idade. Esta é a primeira hemartrose documentada, e ele tem 2 anos e 4 meses. Os dois marcos da profilaxia primária ainda estão abertos, e os dois se fecham logo — a segunda hemartrose pode acontecer em semanas, e o terceiro aniversário está a oito meses. Encaminhamento imediato ao hemocentro de referência com o registro escrito da data desta hemartrose é o ato que preserva a elegibilidade.
o que não fazer
Não puncionar a articulação para 'aliviar', não prescrever anti-inflamatório não esteroidal, e não oferecer desmopressina. Além de não ser a droga da forma grave, ela é evitada abaixo dos três anos pelo risco de hiponatremia e convulsão, sobretudo se houver solução hipotônica endovenosa correndo. Crioprecipitado também não resolve: repõe fibrinogênio e fator VIII, e o fator ainda não foi identificado.
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Agora feche você

Adolescente de 13 anos é levada ao ambulatório pela mãe por menstruação abundante desde a menarca, ocorrida aos 11 anos. Troca o absorvente a cada hora nos dois primeiros dias, já faltou à escola por isso três vezes neste semestre, e teve dois episódios de epistaxe que exigiram tamponamento na infância. Sangrou por dois dias depois de extrair um dente aos 10 anos. A mãe relata que também 'sempre menstruou muito'. Exame físico com palidez cutâneo-mucosa discreta, sem petéquias, sem hepatoesplenomegalia, sem sinais de puberdade atrasada. Exames: hemoglobina 9,8 g/dL, volume corpuscular médio 71 fL, plaquetas 265.000/mm³, tempo de protrombina normal, tempo de tromboplastina parcial ativada normal. O residente propõe iniciar contraceptivo hormonal combinado, prescrever sulfato ferroso e reavaliar em três meses, dizendo que o coagulograma normal afasta coagulopatia.
achado
O padrão é mucocutâneo e vem de longe: menorragia desde a menarca, epistaxe que exigiu tamponamento, sangramento prolongado após exodontia, e história materna semelhante. Isso é hemostasia primária, e a herança sugerida é autossômica, não ligada ao X.
exame
Plaquetas normais com tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada normais formam a linha do quadro de diagnóstico diferencial em que ainda cabem duas hipóteses: deficiência de fator XIII, que exige teste de solubilidade do coágulo, e doença de von Willebrand, que exige o painel específico com antígeno e atividade de cofator de ristocetina.
armadilha
A afirmação do residente inverte o valor do exame. O rastreio normal não afasta doença de von Willebrand — é justamente na forma leve, que é a maioria, que ele costuma ser normal. Além disso, o tratamento hormonal proposto reduz o sangramento e apaga o sinal que traria a paciente de volta para investigação.
o que decidir
Diga o que fazer com os dois números da menorragia, qual exame pedir antes de qualquer prescrição, o que a anemia microcítica acrescenta ao raciocínio, e por que a resposta muda se o painel identificar tipo 3 ou subtipo 2B.
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Onde a banca derruba

  1. 1Usar tempo de tromboplastina parcial normal para afastar hemofilia Atrai porque a associação entre a via intrínseca e o tempo de tromboplastina parcial ativada é ensinada como se fosse absoluta. A própria linha de cuidado registra a exceção: o alargamento com tempo de protrombina normal ocorre na grande maioria das vezes, 'com exceção de alguns casos de hemofilia leve, onde o TTPa permanece normal'. Uma criança com sangramento desproporcional a procedimentos e rastreio normal precisa de dosagem de fator, não de alta.
  2. 2Tratar história familiar negativa como argumento diagnóstico Atrai porque a herança ligada ao X sugere linhagem visível. Os três documentos brasileiros repetem que em até 30% dos casos não há antecedente familiar, porque a mutação é nova na mãe ou no feto. Ausência de casos na família não altera a probabilidade o suficiente para dispensar exame. A vinheta que insiste em 'nenhum familiar com problema de sangramento' geralmente está montando exatamente essa cilada.
  3. 3Descartar hemofilia porque a paciente é menina Atrai porque a regra ensinada é homem afetado, mulher portadora. O registro nacional de 2025 conta 320 mulheres com hemofilia A e 124 com hemofilia B, 444 no total, e as colunas fecham exatas contra os totais de cada diagnóstico. Portadoras com atividade de fator baixa sangram, sobretudo em menorragia e pós-parto. Proporcionalmente há quase o dobro de mulheres na hemofilia B, 5,11% contra 2,63%.
  4. 4Ler o 93% da menorragia como se fosse o 13% Atrai porque a linha de cuidado do Espírito Santo imprime os dois números no mesmo parágrafo e o maior fica na memória. Até 93% das mulheres com doença de von Willebrand têm menorragia; cerca de 13% das mulheres com menorragia têm a doença. A primeira justifica perguntar; a segunda obriga a investigar antes de rotular. Marcar a alternativa que trata sem confirmar é errar a direção do condicional, não o conteúdo.
  5. 5Concluir doença de von Willebrand a partir de hemartrose Atrai porque a doença é a coagulopatia hereditária mais prevalente e o candidato tenta encaixar o achado mais chamativo nela. Nos dados adaptados de Rydz e James, hemartrose aparece em 3% no tipo 1 — e nas colunas de controle do mesmo documento aparece em 4% e em 6%. Só no tipo 3 ela sobe para 37% a 45%. Articulação sangrando em criança pequena continua sendo pergunta de hemofilia até prova em contrário.
  6. 6Prescrever desmopressina para o lactente ou para o tipo errado Atrai porque a droga é barata, evita hemoderivado e parece a escolha elegante. Ela é contraindicada na doença de von Willebrand tipo 3 e no subtipo 2B, e deve ser evitada em crianças com menos de três anos pelo risco de hiponatremia e convulsões, sobretudo com solução hipotônica endovenosa em curso. E perde efeito depois da terceira dose por esgotamento do estoque endotelial: terceira dose sem resposta pede troca de estratégia, não aumento de dose.
  7. 7Oferecer crioprecipitado como tratamento de hemofilia B Atrai porque crioprecipitado é a palavra que o candidato associa a coagulopatia e sangramento. Ele repõe basicamente fibrinogênio e fator VIII, que na hemofilia B estão normais. A vinheta que descreve um menino com tempo de tromboplastina parcial alargado, tempo de protrombina normal e dosagem de fator IX reduzida e oferece crioprecipitado entre as opções está testando se o candidato ligou o fator ao produto.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

TTPA prolongado com TAP normal, plaquetas normais, que CORRIGE no teste da mistura (indica deficiência de fator e não inibidor) em menino com história familiar ligada ao X (tio materno) aponta para hemofilia A ou B (correta). Doença de von Willebrand tipo 3 é grave e rara, e o quadro clássico de deficiência isolada de via intrínseca com padrão ligado ao X favorece hemofilia. Deficiência de vitamina K prolonga primariamente o TAP (fatores II, VII, IX, X). Inibidor/anticoagulante lúpico NÃO corrige na mistura. PTI cursa com plaquetopenia e coagulograma normal, não com TTPA alargado.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere sem consultar: (1) os dois compartimentos e a assinatura de cada um — mucocutâneo imediato para hemostasia primária, profundo e tardio para coagulação; (2) as três faixas de gravidade e o problema do valor 5%, que pertence a duas classes numa régua e o 5,4% que não pertence a nenhuma na outra; (3) os quatro números do registro nacional que mais mudam a leitura de uma vinheta: 12.863 pacientes com doença de von Willebrand contra 12.151 com hemofilia A, 444 mulheres com hemofilia, 42 pacientes com hemofilia A menores de um ano contra 3 com von Willebrand, e 781 em profilaxia primária contra 8.660 em secundária e terciária; (4) os dois marcos da profilaxia primária, que são a segunda hemartrose e os três anos de idade, e o marco que fecha a secundária, que é a alteração osteocondral; (5) as três contraindicações da desmopressina — tipo 3 e subtipo 2B, idade abaixo de três anos, e a terceira dose.

em 30 dias

Trinta dias depois, reconstrua o capítulo por cinco perguntas. Primeira: por que a doença mais prevalente do registro brasileiro tem três pacientes menores de um ano e a menos prevalente tem quarenta e dois — e por que a resposta continua valendo depois de normalizar as faixas por ano de idade. Segunda: por que 'nenhum caso na família' e 'é menina' não afastam hemofilia, e qual número sustenta cada uma das duas negativas. Terceira: qual é a diferença entre o 93% e o 13% da menorragia, e o que cada um autoriza a fazer com a adolescente que está na sua frente. Quarta: por que a frase de que a profilaxia primária é a única capaz de preservar a articulação não sobrevive à leitura do quadro que está uma página antes, e o que isso muda diante de uma criança que já teve três hemartroses. Quinta: por que a tabela nacional de inibidores, com 673 de 1.038 linhas sem resultado, não pode ser usada para dizer que o Brasil tem menos inibidor do que a literatura — e o que ainda dá para dizer com ela, comparando as duas hemofilias com a mesma régua.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Uma mãe traz o filho de 3 anos ao pronto atendimento porque ele acordou mancando e não quer apoiar o pé. Não houve queda. Ela conta que o menino faz hematomas grandes desde que começou a andar e que o irmão dela teve 'problema de sangue' na infância, mas não sabe dizer qual. Colha a história tentando datar o primeiro sangramento articular, examine a articulação comparando com o lado oposto, decida quais três exames pedem prioridade no rastreio, e explique à mãe, sem jargão, por que a data de hoje precisa ficar escrita no prontuário. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Coagulopatias hereditárias na infância – Hemofilia e doença de von Willebrand na criança — Preparatório para provas | OsceLabs