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Síndrome de ativação macrofágica: a febre que derruba as provas de inflamação

Síndrome de ativação macrofágica na criança reumática: a virada do laboratório e a decisão antes de o critério fechar

Na criança com artrite sistêmica ou lúpus juvenil, a febre que não cede vem com hemograma e provas de inflamação em queda.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Adolescente do sexo feminino, 14 anos, com diagnóstico de lúpus eritematoso sistêmico juvenil há 2 anos, em uso de hidroxicloroquina e prednisona 10 mg/dia, é internada por febre alta (39,5 °C) há 7 dias, prostração intensa e sangramento gengival. Ao exame: hepatoesplenomegalia e linfonodomegalia cervical. Exames: Hb 7,8 g/dL (VR 12-16), leucócitos 2.100/mm3 (VR 4.000-11.000), plaquetas 88.000/mm3 (VR 150.000-450.000), ferritina 9.600 ng/mL (VR 15-150), triglicerídeos 390 mg/dL (VR < 150), fibrinogênio 105 mg/dL (VR 200-400), AST 240 U/L (VR < 40), LDH 1.500 U/L (VR < 250) e VHS 9 mm/h (estava em 78 mm/h na última consulta). Qual o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Uma criança já tem diagnóstico reumatológico, já está em tratamento, e volta com febre. A pergunta que o plantão faz é sempre a mesma — infecção, ou a doença piorou? Existe uma terceira resposta, e ela é a que mata: a síndrome de ativação macrofágica, um estado de inflamação descontrolada em que o sistema de defesa deixa de conter a própria resposta. O recorte deste capítulo é o momento em que essa terceira resposta precisa ser levantada, e o que muda no exame quando ela chega.

O sinal é contraintuitivo e é por isso que escapa. A criança piora enquanto a velocidade de hemossedimentação cai, as plaquetas caem e o fibrinogênio cai — tudo o que a inflamação costuma empurrar para cima desce, e só a ferritina dispara. Quem lê o resultado sem olhar o resultado anterior do mesmo doente vê números que parecem melhores e uma criança que está pior.

A classificação dos subtipos da artrite idiopática juvenil, a escada de tratamento, o rastreio da uveíte e a aritmética de dose por peso pertencem ao capítulo de artrite idiopática juvenil, nesta mesma apostila, que já os trabalha em detalhe. O diagnóstico e o tratamento de fundo do lúpus eritematoso sistêmico juvenil também ficam de fora. A febre sem foco do lactente previamente hígido pertence ao capítulo de emergências pediátricas, e a doença de Kawasaki, ao de infectologia pediátrica. Aqui entra apenas a virada — o que faz o médico suspeitar, o que ele pede, e o que ele decide antes de qualquer critério fechar.

03

O que muda decisão

A febre muda de forma antes de o laboratório mudar de número

Como usar este capítulo: suspeite diante de febre persistente com piora clínica e inversão do padrão laboratorial — ferritina em ascensão, citopenias, triglicerídeos e transaminases subindo e fibrinogênio ou velocidade de hemossedimentação caindo. Colha tendências, trate o gatilho e não espere todos os critérios diante de deterioração.

A forma sistêmica da artrite idiopática juvenil tem uma febre com assinatura: picos altos, uma ou duas vezes ao dia, com retorno à temperatura normal entre eles. A criança fica prostrada no pico e volta a brincar no vale. Esse desenho é tão característico que serve de critério, e é justamente por isso que a sua perda é informação clínica de primeira grandeza. Quando a febre deixa de ter vales e passa a ser contínua, alguma coisa mudou — e o que mudou não é a artrite.

O protocolo federal que autoriza o tratamento no sistema público descreve o quadro sem meias palavras: febre geralmente persistente, organomegalia, disfunção do sistema nervoso central e sintomas hemorrágicos. A casuística brasileira publicada na revista da sociedade de pediatria é ainda mais concreta. Nas sete crianças que desenvolveram a complicação, todas tinham febre, icterícia, fígado e baço aumentados, sangramento e queda das três séries do sangue. Icterícia e sangramento numa criança com doença reumática em atividade não são achados de artrite: são achados de fígado que parou de sintetizar e de coagulação que se consumiu.

A sequência prática, então, é de exame físico antes de ser de exame laboratorial. Reavaliar o padrão térmico registrado pela família, medir o fígado e o baço em centímetros abaixo do rebordo e comparar com a última medida escrita no prontuário, procurar petéquias, equimoses e sangramento de mucosa, e avaliar o nível de consciência de uma criança que os pais descrevem como sonolenta. Nenhuma dessas quatro coisas depende de laboratório, e as quatro juntas mudam a hipótese antes de qualquer resultado voltar.

É também aqui que o erro mais caro se forma. A criança com doença reumática em atividade tem febre com frequência, e o serviço aprende a tratar febre como parte do quadro de base. A mudança de padrão é o que quebra essa inércia: não é a febre que informa, é a febre que passou a ser diferente da que essa criança costumava ter.

O sinal é a direção do exame, não o valor absoluto

Para entender por que o laboratório engana, é preciso lembrar de onde essa criança está partindo. A artrite idiopática juvenil sistêmica em atividade cursa com inflamação sistêmica intensa: plaquetas altas, fibrinogênio alto, ferritina alta e velocidade de hemossedimentação alta. Esse é o basal dela. Não é o basal de uma criança saudável, e a faixa de referência impressa no laudo foi construída para a criança saudável.

Quando a ativação macrofágica começa, o consumo passa a vencer a produção. As plaquetas caem porque são consumidas e porque a medula é freada. O fibrinogênio cai porque é consumido — e, como a velocidade de hemossedimentação depende em boa parte do fibrinogênio para acontecer, ela cai junto. O resultado é a imagem que dá nome a essa armadilha: a prova de inflamação mais conhecida da pediatria melhora enquanto a criança piora.

Na direção oposta sobem a ferritina, as enzimas hepáticas, a desidrogenase lática, os D-dímeros e os triglicerídeos, e alongam-se o tempo de protrombina e o tempo parcial de tromboplastina. O protocolo brasileiro lista exatamente esse conjunto, e vale ler a lista como um só movimento: um compartimento cai e o outro sobe ao mesmo tempo, o que é diferente de qualquer causa isolada de plaquetopenia ou de qualquer hepatite.

A consequência prática desmonta o reflexo de comparar com a faixa de referência. Um fibrinogênio no meio do intervalo normal, numa criança cujo fibrinogênio estava muito acima dele na semana passada, é um fibrinogênio que caiu. Uma contagem de plaquetas normal, numa criança que vinha com trombocitose de doença ativa, é uma queda. O comparador correto não é o laudo do laboratório: é o laudo anterior do mesmo doente.

Duas curvas laboratoriais partem juntas dentro da faixa de referência, divergem em sentidos opostos ainda dentro dela e depois ultrapassam seus limites
Um conjunto de exames cai enquanto outro sobe, e o movimento começa dentro da faixa de referência: o comparador que denuncia a virada não é o laudo isolado, mas o resultado anterior do mesmo doente.

Duas réguas para a mesma síndrome, e nenhuma contém a outra

Existem duas listas de critérios em circulação, e elas não foram escritas para a mesma pergunta. A mais antiga é a das diretrizes internacionais para linfo-histiocitose hemofagocítica, publicadas em dois mil e quatro para a doença genética do lactente e depois emprestadas a todo estado de hiperinflamação. Ela exige cinco de oito achados: febre, esplenomegalia, citopenia em duas das três séries do sangue periférico, hipertrigliceridemia e/ou hipofibrinogenemia, hemofagocitose em medula, baço ou linfonodo, atividade de células natural killer baixa ou ausente, ferritina elevada e receptor solúvel de interleucina dois elevado.

A mais nova é a dos critérios de classificação de dois mil e dezesseis, construídos especificamente para a complicação da artrite idiopática juvenil sistêmica por uma iniciativa conjunta das sociedades europeia e americana de reumatologia com a organização internacional de ensaios em reumatologia pediátrica. O desenho é outro: uma criança febril com a doença de base conhecida ou suspeita, ferritina acima do corte, e ao menos dois entre quatro achados laboratoriais — plaquetas baixas, aspartato-aminotransferase alta, triglicerídeos altos e fibrinogênio baixo.

O ponto que interessa não é qual delas é a boa. É que elas não se contêm. Para plaquetas, fibrinogênio e triglicerídeos, a régua de dois mil e quatro é bem mais exigente: pede queda muito maior para aceitar o achado. Para ferritina, o sentido se inverte, e é a régua da artrite que pede o valor mais alto. Uma criança pode preencher uma lista inteira e ficar de fora da outra, sem que nenhum exame tenha sido mal colhido.

Há ainda uma assimetria de disponibilidade que decide sozinha. Três das oito exigências da régua mais antiga são medida de atividade de células natural killer, dosagem de receptor solúvel de interleucina dois e demonstração de hemofagocitose em tecido — exames que a maioria dos hospitais brasileiros não oferece em tempo útil, quando oferece. A régua nova usa cinco exames que qualquer pronto-socorro colhe. Não é preferência acadêmica: é o motivo pelo qual a lista de dois mil e dezesseis é a que se aplica à beira do leito no país.

Vale ainda separar duas funções que a palavra critério esconde. Uma lista de classificação existe para tornar comparáveis os doentes de estudos diferentes, e por isso privilegia a uniformidade sobre a sensibilidade individual. O diagnóstico à beira do leito existe para decidir sobre uma criança específica, hoje, com o que se tem em mãos. Uma criança que ainda não preenche a lista pode perfeitamente ter a síndrome, e quem espera o critério fechar para agir está usando um instrumento de pesquisa como se fosse instrumento de plantão — troca que, aqui, custa horas que a criança não tem.

O corte que mora dentro da faixa de referência

Dois dos quatro achados menores da régua nova têm uma propriedade que costuma passar despercebida: o número que eles chamam de anormal é um número que o laboratório devolve como normal. A contagem de plaquetas exigida está dentro do intervalo de referência de qualquer serviço, e o fibrinogênio exigido também. Lido de fora do contexto, o critério parece frouxo ou até errado.

Ele não é. O corte foi posicionado onde está exatamente porque a criança de quem se fala partiu de um valor acima do normal. Um critério que só acendesse com plaquetas francamente baixas chegaria depois — e chegaria tarde. Aqui está a aritmética que o texto do critério não explica e o leitor precisa reconstruir: a régua abandonou de propósito a faixa de referência da população e adotou o basal da doença, e por isso o mesmo número significa coisas opostas nas duas leituras.

A coorte que aplicou esses critérios a episódios reais mostra o preço disso. A mediana de plaquetas no início dos episódios ficou abaixo do corte, mas o quartil superior ficou acima dele — ou seja, em boa parte dos casos a contagem, sozinha, ainda estava dentro do que o critério considera aceitável quando a criança já estava em franca ativação macrofágica. Foi, de longe, o achado que menos vezes acendeu.

O que fazer com isso à beira do leito é simples de enunciar e difícil de sustentar sob pressão: não descartar a hipótese porque as plaquetas ainda estão normais. Elas são o exame que mais tarda a cruzar o limiar, e é justamente por isso que ele não pode ser usado como porteiro. A decisão de repetir o exame em horas, e não em dias, nasce dessa observação.

Qual exame chega primeiro, e qual chega sempre

Quando os cinco itens da régua nova foram medidos um a um numa série de episódios confirmados, a hierarquia que apareceu é útil e não é a que a intuição sugere. A aspartato-aminotransferase esteve acima do corte em todos os episódios, sem exceção. A ferritina acima do corte em quase todos. O fibrinogênio abaixo do corte na grande maioria. Os triglicerídeos, em cerca de sete de cada dez. E as plaquetas, na minoria — pouco mais da metade.

Isso reordena o pedido de exames. Numa criança reumática com febre que mudou de padrão, o hemograma sozinho é um pedido incompleto: ele mede o item que menos acende e deixa de fora os dois que mais acendem. O par que carrega o diagnóstico é transaminase e ferritina, e os dois saem no mesmo tubo de bioquímica que o serviço já colhe todo dia.

A ferritina merece uma observação de ordem prática. Ela é reagente de fase aguda e sobe em qualquer inflamação, o que faz muita gente descartá-la como inespecífica. Só que na série estudada a mediana no início dos episódios foi de vários milhares — uma ordem de grandeza acima do que uma infecção comum produz. O valor não é dicotômico: quanto mais alto, menos alternativas restam, e um resultado na casa dos milhares numa criança febril com hepatoesplenomegalia é achado que obriga a agir.

Vale também dizer o que o conjunto não faz. Nenhum desses cinco exames separa a ativação macrofágica de uma sepse grave por si só, porque a sepse também consome fibrinogênio e também eleva transaminase. O que separa é a trajetória: na sepse a velocidade de hemossedimentação e o fibrinogênio raramente despencam a partir de valores altos ao mesmo tempo em que a ferritina sobe a milhares, e é essa combinação de direções opostas que fecha a suspeita.

O consenso da mesma casa descarta variáveis que o critério imprime

No mesmo ano em que os critérios de classificação foram publicados, a mesma rede internacional de reumatologia pediátrica — desta vez com a sociedade que estuda as histiocitoses — publicou um segundo documento, com outra pergunta: em quais exames a variação ao longo do tempo é mais valiosa para o diagnóstico precoce. Um painel de especialistas avaliou mais de cem perfis reais, cada um com o valor de cada exame na última consulta antes do episódio e no início dele.

O resultado tem duas metades. A primeira é uma hierarquia: plaquetas, ferritina e aspartato-aminotransferase foram os exames em que a mudança pesou mais, nessa ordem de escolha. A segunda é o incômodo: hemoglobina e triglicerídeos não foram escolhidos por nenhum especialista entre os cinco mais valiosos — e triglicerídeos é um dos quatro achados menores que a lista de classificação imprime. Dois documentos da mesma casa, no mesmo ano, com pesos opostos para a mesma variável.

As medianas medidas explicam a hierarquia melhor do que qualquer argumento. Entre a consulta anterior e o início do episódio, as plaquetas caíram cerca de dois terços, os neutrófilos cerca de dois terços, os leucócitos cerca de metade — e a hemoglobina, apenas um décimo. A hemoglobina quase não se move porque a criança com doença sistêmica ativa já vinha anêmica: não sobrava queda para acontecer. Um exame que já está no chão não serve de alarme.

O documento diz, com todas as letras, que a variação relativa pode ser mais relevante para o diagnóstico precoce do que a descida abaixo — ou a subida acima — de um limiar estipulado pelos critérios. Ele não descarta a régua fixa; ele avisa que a régua fixa chega depois. A leitura que serve ao plantão é a interseção: usar os cortes para nomear o quadro e a variação para suspeitar dele, sempre nessa ordem.

O protocolo brasileiro nomeia a síndrome e manda repetir o exame

O documento que governa o tratamento no sistema público é o protocolo clínico do Ministério da Saúde para a artrite idiopática juvenil, atualizado em janeiro de dois mil e vinte e seis. Ele nomeia a síndrome, diz que ela é a complicação que torna o subtipo sistêmico o mais grave, dá a frequência com que aparece nesse subtipo, descreve a clínica e enumera a direção de cada variável laboratorial. É um documento que conhece a síndrome em detalhe.

E ele não imprime um único ponto de corte. Não há número de ferritina, de plaquetas, de fibrinogênio ou de triglicerídeos em nenhuma linha do texto. O protocolo escreve que o paciente pode não apresentar os critérios diagnósticos no início e que é necessário acompanhá-lo com exames frequentes para que o tratamento correto seja feito a tempo — remetendo a critérios que ele próprio não transcreve.

Isso desenha uma repartição incomum, que o médico brasileiro precisa reconhecer para não se perder. O número com que ele vai nomear o quadro vem de documentos internacionais; a autorização para tratar, do protocolo nacional, que é quem inclui a droga na lista e define quem a recebe. Não são fontes concorrentes: são camadas diferentes do mesmo cuidado, e cobrar uma pela função da outra gera confusão inútil.

Há uma vantagem escondida nessa redação, e ela é a instrução mais acionável do documento. Ao mandar acompanhar com exames frequentes em vez de fixar um corte, o protocolo está prescrevendo exatamente aquilo que a evidência internacional recomenda — a medida seriada. Quem cumpre a orientação nacional ao pé da letra, colhendo e registrando com data, produz sozinho a comparação que faz o diagnóstico precoce acontecer.

Quando isso acontece mudou de lugar

Durante muito tempo a complicação foi ensinada como evento tardio, de criança com doença longa. A casuística brasileira sustentava essa leitura: entre as sete crianças da série nacional, a mediana de tempo entre o início da artrite e o episódio foi de oito anos e quatro meses. Uma criança que adoeceu na pré-escola e teve a complicação na adolescência.

A coorte contemporânea diz outra coisa. Numa rede nacional que acompanhou crianças com a forma sistêmica tratadas com bloqueio de interleucina um desde o diagnóstico, metade dos episódios ocorreu nos três primeiros meses após o diagnóstico, e a incidência nos dois primeiros anos de doença foi de cerca de um em cada cinco doentes — número que os próprios autores descrevem como comparável ao dos doentes historicamente tratados com corticoide, ou seja, não reduzido pela terapia moderna.

Antes de chamar isso de contradição, vale fechar a conta. As duas populações não são a mesma: uma série retrospectiva de prontuários de um serviço de referência, capturada há duas décadas, tende a registrar os casos que sobreviveram tempo suficiente para acumular anos de doença, enquanto uma coorte prospectiva que começa a contar no dia do diagnóstico enxerga o que acontece logo no início. Somam-se a isso duas décadas de diferença no tratamento e no reconhecimento precoce. São recortes distintos do mesmo fenômeno, não números que se desmentem.

Mas o efeito sobre a conduta é real e vale a mudança. A janela de maior risco é o começo, e não o fim. Isso significa que a criança recém-diagnosticada com a forma sistêmica é a que precisa de exames seriados e de orientação escrita à família sobre febre que muda de padrão — e que o diagnóstico recente não é argumento para afastar a hipótese.

Isso muda também o que se diz à família na alta da primeira internação. A criança recém-diagnosticada volta para casa com um roteiro de retorno, e esse roteiro precisa conter a frase que os pais conseguem reconhecer sozinhos: se a febre deixar de dar trégua entre os picos, se a barriga crescer, se aparecerem manchas roxas ou sangramento de gengiva, ou se a criança ficar sonolenta, o retorno é imediato e não espera a consulta marcada. Orientação escrita, com essas quatro situações nomeadas, faz mais pelo diagnóstico precoce do que qualquer exame agendado para dali a um mês.

Não é só artrite sistêmica: lúpus, infecção e o gatilho

Os critérios de classificação foram construídos para a artrite idiopática juvenil sistêmica, e isso cria uma armadilha de leitura: o médico passa a associar a síndrome àquele diagnóstico e deixa de pensar nela em qualquer outro. O lúpus eritematoso sistêmico juvenil é a segunda porta clássica, e uma adolescente em uso de corticoide que volta com febre alta, queda do estado geral e hepatoesplenomegalia está exatamente na cena que o critério não cobre e a medicina cobre.

A lista de doenças de base é maior do que essas duas — abrange outras doenças reumáticas da infância, quadros hiperinflamatórios pós-infecciosos e defeitos genéticos da citotoxicidade que se manifestam tarde. O que todas têm em comum é o mecanismo: a célula que deveria desligar a resposta imune não desliga, e a inflamação passa a consumir o próprio doente. Reconhecer o mecanismo comum é o que permite pensar na síndrome fora da doença que a batizou.

O gatilho quase sempre existe e quase sempre é infeccioso. Na coorte contemporânea, o vírus Epstein-Barr foi o desencadeante identificável mais frequente, e a investigação de infecção foi feita em todos os episódios, com hemocultura, sorologia e biologia molecular para os vírus mais associados. Na série brasileira, três das sete crianças tinham infecção associada — e uma delas teve o episódio duas semanas após a introdução de um medicamento novo, lembrete de que droga também dispara.

Daí sai uma regra de conduta que parece contraditória e não é: procurar a infecção não é alternativa a tratar a hiperinflamação. As duas coisas coexistem na maioria dos casos. Quem encontra o vírus e para de investigar perde a síndrome; quem trata a síndrome e não procura o vírus deixa de tratar o gatilho. Colher as culturas e as sorologias, e não esperar por elas para decidir, é a única sequência que não perde nenhuma das duas.

O que a punção de medula responde e o que ela não responde

A palavra hemofagocitose está no nome da doença original e no meio das oito exigências da régua mais antiga, o que faz muita gente tratar a punção de medula como o exame que confirma. Ela não é. Na casuística brasileira, a proliferação de macrófagos com hemofagocitose foi demonstrada em cinco das sete crianças — mesmo entre casos clínicos inequívocos, o achado faltou em parte deles.

A explicação é de amostragem e de tempo. O fenômeno é focal e evolui: uma punção feita cedo pode atravessar uma região da medula que ainda não o exibe, e uma segunda punção dias depois pode encontrá-lo. Por isso a leitura correta é assimétrica — a presença reforça a hipótese e a falta não a exclui. Quem trata resultado negativo de medula como afastamento diagnóstico está usando um exame focal como se fosse um exame de sangue.

Ainda assim a punção tem uma indicação forte nesse cenário, e ela não é a que o nome sugere. Uma criança com febre prolongada, hepatoesplenomegalia e queda das séries do sangue tem, entre os diagnósticos possíveis, a leucemia aguda — que se apresenta exatamente assim e cujo tratamento começa por um diagnóstico que o corticoide apaga. Aspirar a medula antes de iniciar corticoide protege esse diagnóstico.

O modo de conciliar as duas coisas na prática é de sequência, não de escolha. Quando há suspeita de neoplasia, a punção precede o corticoide e não deve ser adiada por conveniência. Quando o quadro é inequívoco numa criança com doença reumática já conhecida e em franca deterioração, o tratamento não espera o resultado do mielograma — a medula é colhida, e a droga entra.

A decisão: tratar as duas hipóteses e reavaliar em horas

O que está em jogo aparece nos números de desfecho, e eles são duros. No painel internacional, os doentes em que os especialistas confirmaram a síndrome tiveram internação em terapia intensiva em quase metade dos casos, contra menos de um quinto entre os não confirmados, e a mortalidade se concentrou inteiramente no grupo confirmado. Na série brasileira, três das sete crianças morreram. Isso não é uma complicação de acompanhamento ambulatorial.

O tratamento de resgate descrito na casuística nacional foi pulsoterapia com metilprednisolona em todas as crianças, com ciclosporina, plasmaférese e gamaglobulina endovenosa acrescentadas em parte delas. O arsenal contemporâneo acrescentou o bloqueio de interleucina um e o de interleucina seis, e o protocolo nacional chegou a formular pergunta de escopo específica sobre um desses bloqueadores nessa complicação. A decisão de qual droga usar é do serviço de referência; a decisão de acionar esse serviço hoje é de quem está com a criança.

A conduta de quem recebe essa criança cabe em quatro movimentos. Internar, porque o quadro evolui em horas. Colher, na mesma punção venosa, hemograma, transaminases, ferritina, fibrinogênio, triglicerídeos, provas de coagulação e bilirrubinas, além das culturas e das sorologias. Iniciar o antimicrobiano se houver qualquer suspeita de infecção bacteriana, sem que isso adie a discussão da hiperinflamação. E acionar a reumatologia pediátrica no mesmo turno, não no dia seguinte.

O quinto movimento é o que separa o diagnóstico precoce do tardio: repetir os exames em horas. É a instrução que o protocolo nacional dá quando manda acompanhar com exames frequentes, e é a única forma de enxergar a variação que a evidência internacional aponta como o sinal mais precoce. Registrar valor e horário de cada coleta transforma dois resultados isolados numa trajetória — e é a trajetória, e não o valor de hoje, que autoriza tratar antes de o critério fechar.

Vale fechar pelo que se escreve no prontuário, porque é ali que a decisão se sustenta enquanto o resultado do gatilho não volta. Registrar o padrão térmico anterior e o atual, as medidas de fígado e baço de hoje e da última consulta, os valores pareados dos exames com data e horário, e a frase que justifica a conduta: criança com doença reumática em atividade cuja trajetória laboratorial indica hiperinflamação, com investigação de gatilho infeccioso em curso e tratamento iniciado por risco de vida. É essa anotação que permite a quem assume o plantão seguinte continuar a mesma linha de raciocínio em vez de recomeçar do zero.

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Esquemas e tabelas

Os números que as duas réguas imprimem, e o que a coorte encontrou quando aplicou a mais nova a episódios reais.

As duas réguas, item a item

Diretrizes de 2004 para linfo-histiocitose hemofagocítica (5 de 8): febre; esplenomegalia; citopenia em 2 das 3 séries (Hb < 9 g/dL, plaquetas < 100 ×10⁹/L, neutrófilos < 1 ×10⁹/L); triglicerídeos ≥ 265 mg/dL e/ou fibrinogênio ≤ 1,5 g/L; hemofagocitose em tecido; atividade de células NK baixa/ausente; ferritina ≥ 500 µg/L; CD25 solúvel ≥ 2.400 U/mL. Critérios de classificação de 2016 para a artrite idiopática juvenil sistêmica: febre + ferritina > 684 ng/mL + 2 de 4 (plaquetas ≤ 181 ×10⁹/L; AST > 48 U/L; triglicerídeos > 156 mg/dL; fibrinogênio ≤ 360 mg/dL).

O corte que fica dentro do normal

Plaquetas ≤ 181 ×10⁹/L e fibrinogênio ≤ 360 mg/dL são valores que a maioria dos laboratórios devolve dentro da faixa de referência. O corte foi posto ali de propósito: a criança com doença sistêmica ativa parte de trombocitose e de fibrinogênio alto, e a queda até o limite superior do normal já é a queda que interessa.

Qual item acendeu, em 29 episódios reais

AST > 48 U/L em 100% (29/29); ferritina > 684 ng/mL em 97% (28/29); fibrinogênio ≤ 360 mg/dL em 84% (21/25); triglicerídeos > 156 mg/dL em 71% (20/28); plaquetas ≤ 181 ×10⁹/L em apenas 59% (17/29). Mediana de plaquetas no início: 128 ×10⁹/L, com intervalo interquartil de 95 a 243 — o quartil superior está acima do próprio corte.

A variação, entre a consulta anterior e o episódio

Plaquetas 337 → 111 ×10⁹/L (−63%); neutrófilos 10,6 → 4,7 ×10⁹/L (−64%); leucócitos 15,0 → 7,4 ×10⁹/L (−50%); hemoglobina 11,2 → 9,9 g/dL (−10%). Os três exames em que a variação pesou mais no consenso: plaquetas, ferritina e AST. Hemoglobina e triglicerídeos não foram escolhidos por nenhum especialista.

Os pontos de corte da régua de 2016 valem para a criança febril com a doença de base conhecida ou suspeita — fora desse cenário, o mesmo conjunto de números não foi validado.

A régua de 2004 exige três exames que a maior parte dos serviços brasileiros não realiza em tempo útil: atividade de células natural killer, CD25 solúvel e demonstração de hemofagocitose em tecido.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual conjunto de critérios define a síndrome na criança com artrite idiopática juvenil sistêmica — e por que os dois não se contêm

"Fulfilment of HLH-2004 clinical criteria, i.e. five of the eight criteria below: Fever; Splenomegaly; Cytopenias affecting 2 of 3 lineages in the peripheral blood (hemoglobin <90 g/L; platelets <100 x 109/L; neutrophils <1 x 109/L); Hypertriglyceridemia (fasting triglycerides ≥3 mmol/L or ≥265 mg/dL) and/or hypofibrinogenemia (fibrinogen ≤1.5 g/L); Hemophagocytosis in bone marrow, spleen or lymph nodes; Low or absent natural killer (NK)-cell activity; Ferritin ≥500 µg/L; Soluble CD25 ≥2400 U/mL."

Protocolo de ensaio clínico NI-0501-10, versão 3.0 (9 de março de 2020), que reproduz as diretrizes internacionais de 2004 para linfo-histiocitose hemofagocítica como critério de inclusão

"These criteria include fever, ferritin levels 684 ng/mL, and at least two of the following: platelet count ≤181 × 10⁹/L, aspartate aminotransferase (AST) levels 48 U/L, triglyceride levels 156 mg/dL, and/or fibrinogen levels ≤360 mg/dL."

Arthritis & Rheumatology, 2025, transcrevendo e aplicando os critérios de classificação de 2016 da EULAR/ACR/PRINTO a 29 episódios

Na prova

A divergência não é de opinião, é de calibração, e ela se inverte de variável para variável: para plaquetas, fibrinogênio e triglicerídeos a régua de 2004 é muito mais exigente; para ferritina, a de 2016 é que pede o valor mais alto. Não existe, portanto, 'a régua mais rígida' — existe a interseção. O enunciado brasileiro quase sempre entrega a cena e pergunta a hipótese, não o critério: criança com doença reumática conhecida, febre que virou contínua, hepatoesplenomegalia, citopenia, VHS caindo e ferritina disparando. Quando o enunciado cobra o critério, confira antes qual documento ele nomeia — se cita artrite idiopática juvenil sistêmica, a régua esperada é a de 2016; se cita linfo-histiocitose hemofagocítica ou pede exame de medula, atividade de NK e CD25 solúvel, é a de 2004. Distrator recorrente: exigir hemofagocitose no mielograma para aceitar o diagnóstico.

O que dispara a suspeita: cruzar um ponto de corte fixo ou a variação em relação ao próprio doente

A classificação é dicotômica e usa apenas o valor do momento: febre mais ferritina acima de 684 ng/mL mais dois entre quatro achados com cortes fixos. Nenhum item do conjunto pede o resultado anterior do mesmo doente.

Critérios de classificação de 2016 da EULAR/ACR/PRINTO, conforme transcritos e aplicados na coorte holandesa publicada em Arthritis & Rheumatology, 2025

"it has been argued that the relative change in laboratory values over time may be more relevant for making an early diagnosis than the decrease below, or increase above, a certain threshold, as stipulated by the criteria" — e, no mesmo texto, hemoglobina e triglicerídeos não foram escolhidos por nenhum especialista entre os cinco exames mais valiosos, embora triglicerídeos seja um dos quatro achados menores impressos na classificação.

Expert consensus on dynamics of laboratory tests, RMD Open 2016;2:e000161 (PRINTO, CARRA, PRCSG e Histiocyte Society)

Na prova

São dois documentos do mesmo ano e da mesma rede internacional, e eles não pedem a mesma coisa: um define, o outro antecipa. Isso vira questão de duas maneiras. Na primeira, a vinheta traz valores 'quase normais' — plaquetas de 160 mil, fibrinogênio de 300 mg/dL — junto de uma criança em franca deterioração, e a resposta esperada é reconhecer a queda a partir de um basal alto, não descartar a hipótese. Na segunda, o enunciado descreve a queda da velocidade de hemossedimentação como se fosse melhora e pergunta a conduta; a resposta nunca é reduzir imunossupressão. Guarde a ordem de utilidade dos exames medida na prática: AST e ferritina acendem quase sempre, plaquetas acendem por último.

Em que momento da doença o risco é maior: nos primeiros meses ou depois de anos de artrite

Sete pacientes (1,5% do total, todos com a forma sistêmica) desenvolveram a síndrome; a mediana de duração da artrite idiopática juvenil antes do episódio foi de 8 anos e 4 meses, e a mediana de idade de início da artrite foi de 3 anos e 10 meses.

Jornal de Pediatria (Sociedade Brasileira de Pediatria), 2004;80(6):517-22 — série retrospectiva de 462 prontuários de artrite idiopática juvenil

"the incidence rate of MAS in the first two years of disease was 18% (12 of 66 patients) […] Half of MAS episodes occurred within three months after diagnosis" — incidência que os autores descrevem como comparável à dos doentes historicamente tratados com corticoide.

Arthritis & Rheumatology, 2025 — coorte prospectiva nacional holandesa de 66 crianças com doença de início recente sob anacinra de primeira linha

Na prova

Antes de tratar isso como contradição, note que os denominadores e as épocas são outros: 1,5% é sobre todas as formas de artrite idiopática juvenil, enquanto 10% (protocolo nacional) e 18% (coorte) são sobre o subtipo sistêmico; e uma série retrospectiva de referência dos anos noventa não captura o mesmo doente que uma coorte que começa a contar no dia do diagnóstico. O que muda de fato é a vigilância. Enunciado que descreve criança com diagnóstico recente de forma sistêmica e febre que virou contínua não está fora da faixa de risco — está dentro dela. Desconfie da alternativa que use 'doença de curta duração' como argumento para afastar a hipótese.

06

Caso resolvido

Menino de 5 anos, com diagnóstico de artrite idiopática juvenil sistêmica há 3 meses, em uso de corticoide, é internado por febre. A mãe relata que, desde o diagnóstico, a febre vinha em um ou dois picos diários com melhora entre eles, mas há 4 dias tornou-se contínua. Está prostrado, ictérico, com fígado a 5 cm e baço a 3 cm do rebordo costal, e a mãe notou sangramento gengival ao escovar os dentes. Exames de hoje: hemoglobina 8,6 g/dL, leucócitos 4.100/mm³, plaquetas 168.000/mm³, VHS 18 mm/h, ferritina 6.240 ng/mL, AST 210 U/L, fibrinogênio 190 mg/dL, triglicerídeos 240 mg/dL, TP e TTPa alargados, bilirrubina direta elevada. Os exames de 12 dias atrás mostravam plaquetas 610.000/mm³, VHS 88 mm/h e fibrinogênio 620 mg/dL.
Passo 1 — o que mudou na febre
A febre perdeu os vales. O padrão intermitente com retorno à temperatura normal é a assinatura da forma sistêmica; a febre contínua é outra coisa. Somada a icterícia, sangramento e crescimento de fígado e baço, ela levanta a hipótese de síndrome de ativação macrofágica antes de qualquer exame ser lido.
Passo 2 — a leitura correta do laboratório é comparativa
Isolados, VHS de 18 mm/h e plaquetas de 168.000/mm³ parecem normais ou até tranquilizadores. Comparados aos exames de 12 dias atrás — VHS 88 mm/h, plaquetas 610.000/mm³, fibrinogênio 620 mg/dL — são quedas de cerca de 80%, 72% e 69%. A criança partiu de trombocitose e de provas de inflamação altas; o comparador é o resultado anterior dela, não a faixa de referência do laudo.
Passo 3 — aplicar a régua de 2016
Criança febril com artrite idiopática juvenil sistêmica conhecida: ferritina 6.240 ng/mL está acima de 684 ng/mL. Dos quatro achados menores, três estão presentes — AST 210 U/L (> 48), fibrinogênio 190 mg/dL (≤ 360) e triglicerídeos 240 mg/dL (> 156). As plaquetas em 168.000/mm³ também cruzam o corte de 181 ×10⁹/L, ainda que o laudo as devolva como normais. O quadro preenche a classificação com folga.
Passo 4 — o que ainda não está respondido
Falta o gatilho. Colher hemocultura, sorologia e biologia molecular para Epstein-Barr, citomegalovírus e parvovírus B19, e rever a lista de medicamentos introduzidos nas últimas semanas. Encontrar um agente não muda a hipótese de hiperinflamação; não encontrar também não a afasta. Se houver qualquer suspeita de infecção bacteriana, o antimicrobiano entra em paralelo.
Passo 5 — a decisão de hoje
Internar com monitorização, acionar a reumatologia pediátrica no mesmo turno e repetir hemograma, AST, ferritina e fibrinogênio em 12 horas, com horário registrado. O tratamento de resgate — pulsoterapia com metilprednisolona, com ciclosporina, imunoglobulina endovenosa ou bloqueio de interleucina conforme a evolução — é decisão do serviço de referência, mas o encaminhamento e a coleta seriada não esperam por ele. A metade dos episódios ocorre nos três primeiros meses de doença: diagnóstico recente não afasta nada.
07

Agora feche você

Menina de 13 anos, com lúpus eritematoso sistêmico juvenil diagnosticado há 2 anos, em uso de hidroxicloroquina e prednisona 10 mg/dia, é internada por febre alta há 5 dias, prostração e dor abdominal. Ao exame: hepatoesplenomegalia, sem artrite, sem lesão cutânea nova. Exames: hemoglobina 8,1 g/dL, leucócitos 2.900/mm³, plaquetas 96.000/mm³, VHS 12 mm/h, PCR 42 mg/L, ferritina 9.870 ng/mL, AST 264 U/L, LDH elevada, fibrinogênio 145 mg/dL, triglicerídeos 310 mg/dL, D-dímero elevado. Hemocultura em andamento. A equipe da enfermaria discute se o quadro é atividade lúpica, sepse, ou outra coisa — e se deve pedir mielograma antes de qualquer decisão.
Passo 1
Diga qual conjunto de achados desta paciente aponta para hiperinflamação e não para atividade lúpica isolada, nomeando ao menos três exames e a direção de cada um. Explique por que a VHS baixa, aqui, é achado a favor e não contra.
Passo 2
Aplique os critérios de classificação de 2016 a esta paciente, item a item, e depois responda: essa aplicação é legítima? Diga o que muda pelo fato de a doença de base ser lúpus e não artrite idiopática juvenil sistêmica, e o que continua valendo mesmo assim.
Passo 3
Aplique agora a régua de 2004 aos dados disponíveis. Quantos dos oito itens você consegue avaliar com o que está no enunciado, e quais exigiriam exames que a maioria dos hospitais brasileiros não faz em tempo útil? Diga o que isso implica para a decisão desta noite.
Passo 4
Decida sobre o mielograma: indicá-lo, adiá-lo ou dispensá-lo. Justifique separando as duas perguntas que o exame poderia responder — a que ele responde mal e a que ele responde bem — e diga qual delas pesa nesta paciente.
Passo 5
Escreva a conduta das próximas 12 horas em forma de prescrição: exames a repetir e com que intervalo, culturas e sorologias a colher, se o antimicrobiano entra e por quê, e quem deve ser acionado hoje. Inclua a frase que você escreveria no prontuário para justificar tratar antes de o resultado do gatilho voltar.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Ler a queda da velocidade de hemossedimentação como melhora É a armadilha central. A velocidade de hemossedimentação depende do fibrinogênio, e o fibrinogênio está sendo consumido — por isso ela cai enquanto a criança piora. Numa criança com doença reumática em atividade que vinha com esse exame muito alto, a queda associada a ferritina em disparada é sinal de ativação macrofágica, não de controle da doença. Reduzir imunossupressão nesse cenário é o erro mais grave possível.
  2. 2Descartar a hipótese porque as plaquetas ainda estão normais A contagem de plaquetas é o item que menos vezes acende: em 29 episódios reais, cruzou o corte em apenas 59% deles, e o intervalo interquartil da mediana no início do episódio ficava acima do próprio limiar. A criança parte de trombocitose de doença ativa, e a descida até a faixa normal já é a descida que interessa. O comparador é o hemograma anterior, não a faixa de referência.
  3. 3Pedir hemograma sem transaminases e sem ferritina O hemograma isolado mede o item que mais tarda e deixa de fora os dois que mais acendem. Aspartato-aminotransferase esteve acima do corte em todos os episódios da coorte e ferritina em quase todos. Numa criança reumática com febre que mudou de padrão, o pedido mínimo inclui hemograma, transaminases, ferritina, fibrinogênio, triglicerídeos, provas de coagulação e bilirrubinas — e repetição em horas.
  4. 4Exigir hemofagocitose no mielograma para aceitar o diagnóstico O achado é focal e evolui: na casuística brasileira foi demonstrado em cinco das sete crianças, todas com quadro clínico inequívoco. A presença reforça, a falta não exclui. A punção de medula tem, nesse cenário, outra indicação forte e frequentemente esquecida — afastar leucemia aguda antes que o corticoide apague o diagnóstico — e essa indicação é que determina a urgência do exame.
  5. 5Parar de investigar ao encontrar o vírus, ou tratar só a hiperinflamação Gatilho infeccioso e síndrome coexistem na maioria dos casos: o vírus Epstein-Barr foi o desencadeante identificável mais comum na coorte contemporânea, e três das sete crianças da série brasileira tinham infecção associada. Achar o agente não desfaz a hiperinflamação, e tratar a hiperinflamação sem procurar o agente deixa o gatilho ativo. Colher culturas e sorologias, iniciar antimicrobiano se houver suspeita bacteriana, e não esperar os resultados para acionar a reumatologia.
  6. 6Só pensar na síndrome quando a doença de base é artrite sistêmica Os critérios de classificação foram construídos para a artrite idiopática juvenil sistêmica, mas a síndrome não respeita esse recorte: o lúpus eritematoso sistêmico juvenil é porta clássica, e adolescente em uso de corticoide com febre alta, queda do estado geral e hepatoesplenomegalia está exatamente nessa cena. Aplicar os cortes fora da doença para a qual foram validados exige dizer isso em voz alta — o raciocínio clínico continua valendo, a classificação não foi feita para aquele doente.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: o quadro preenche o padrão clássico de síndrome de ativação macrofágica (SAM/HLH secundária) no LES juvenil - febre persistente, hepatoesplenomegalia, bicitopenia/pancitopenia, hiperferritinemia acentuada (9.600), hipertrigliceridemia (390), hipofibrinogenemia (105) e transaminases/LDH elevados. A pegadinha decisiva que a separa do flare lúpico é a VHS PARADOXALMENTE BAIXA (9, antes 78): o consumo de fibrinogênio derruba a VHS, enquanto na atividade lúpica ela tende a subir. Ferritina muito alta + fibrinogênio baixo compõem os critérios de classificação de SAM (Ravelli 2016). Errada: no flare lúpico espera-se VHS ALTA, fibrinogênio normal/alto (reagente de fase aguda) e a hiperferritinemia extrema com hipofibrinogenemia não é típica. Errada: a sepse cursa com fibrinogênio consumido, mas a hiperferritinemia > 9.000 com hipertrigliceridemia e a queda da VHS apontam para SAM; ausência de foco/choque torna sepse menos provável. Errada: linfoma pode dar adenomegalia e citopenias, mas não explica ferritina > 9.000, hipertrigliceridemia e hipofibrinogenemia agudas em dias. Errada: na PTT há esquizócitos, LDH alto por hemólise microangiopática e plaquetopenia, porém a ferritina extrema, a hipofibrinogenemia e a hipertrigliceridemia não fazem parte da PTT.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória, em duas colunas, os itens das duas réguas com os números: à esquerda, as oito exigências de 2004 (e o quorum de cinco); à direita, o desenho de 2016 (febre + ferritina > 684 ng/mL + 2 de 4: plaquetas ≤ 181 ×10⁹/L, AST > 48 U/L, triglicerídeos > 156 mg/dL, fibrinogênio ≤ 360 mg/dL). Depois marque, variável por variável, qual das duas é a mais exigente — e explique em uma frase por que o corte de plaquetas de 2016 fica dentro da faixa de referência do laboratório.

em 30 dias

Refaça os dois casos decidindo em voz alta e depois escreva o pedido de exames como prescrição, com a frase de reavaliação incluída ('repetir hemograma, AST, ferritina e fibrinogênio em 12 horas'). Em seguida reproduza de cabeça a ordem em que os itens acenderam nos 29 episódios (AST, ferritina, fibrinogênio, triglicerídeos, plaquetas) e as quatro variações medianas do consenso de dinâmica (plaquetas −63%, neutrófilos −64%, leucócitos −50%, hemoglobina −10%), explicando por que a hemoglobina quase não se move.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você é o plantonista da enfermaria pediátrica. Recebe uma criança com artrite idiopática juvenil sistêmica diagnosticada há poucos meses, internada por febre que deixou de ceder entre os picos, agora sonolenta e com sangramento gengival. A mãe pergunta se 'a artrite piorou' e por que os exames de inflamação estão melhores que os da semana passada. Colha a história do padrão térmico e da medicação, examine fígado, baço, pele e nível de consciência, formule a hipótese em voz alta, peça os exames certos no mesmo tubo, decida sobre antimicrobiano e sobre o acionamento da reumatologia, e explique à mãe, em linguagem que ela entenda, por que um exame que 'melhorou' é justamente o que mais preocupa. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Síndrome de ativação macrofágica na criança reumática – Síndrome de ativação macrofágica: a febre que derruba as provas de inflamação — Preparatório para provas | OsceLabs