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Clínica MédicaImunologia

Anafilaxia

A prova cobra duas coisas: reconhecer o quadro como anafilaxia (e não como "reação alérgica") e saber que adrenalina intramuscular é primeira linha sem exceção. Quem erra aqui erra porque deu anti-histamínico e ficou esperando.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 28 anos procura atendimento após ingerir camarão em um restaurante há 20 minutos. Refere prurido generalizado, placas eritematosas elevadas e pruriginosas disseminadas pelo tronco e membros, edema de lábios e sensação de aperto na garganta. PA 88x54 mmHg, FC 122 bpm, FR 26 ipm, SatO2 91% em ar ambiente. Ausculta pulmonar com sibilos difusos. Qual é a conduta inicial de escolha?

02

Como esse tema cai

Anafilaxia é reação sistêmica de hipersensibilidade, de início rápido, que pode matar. O que a prova cobra não é a fisiopatologia: é o reconhecimento. Anafilaxia mata quando o médico a chama de "reação alérgica", prescreve anti-histamínico e fica esperando a evolução. O tratamento é adrenalina intramuscular, imediata, sem exceção — e todo o resto do pacote existe para dar suporte, não para substituí-la.

O erro típico tem uma estrutura reconhecível na questão. O enunciado descreve urticária e um segundo sistema acometido — chiado, rouquidão, vômito repetido, síncope — e oferece nas alternativas prometazina intramuscular, hidrocortisona endovenosa, adrenalina subcutânea e adrenalina intramuscular na coxa. Três distratores derivam de práticas antigas ou de confusão de via, e todos são atraentes porque o quadro "parece" alérgico. O que separa quem estudou é ver que a pele mais um sistema já fecha o critério, e que o único item que reverte o mecanismo é o quarto.

Este capítulo é o do tema por extenso: critérios, adrenalina, posição, segunda linha, refratariedade, bifásica, alta e investigação. O choque anafilático também aparece na grade dos quatro tipos de choque, no capítulo de Cirurgia que ensina a diferenciar hipovolêmico, cardiogênico, obstrutivo e distributivo — lá ele entra como o representante do distributivo que tem antídoto. Aqui ele é o desfecho grave de um espectro que começa muito antes do choque, e é por isso que esperar a hipotensão para chamar de anafilaxia é o erro que se paga.

A régua brasileira existe e é acessível. O protocolo AC33 do SAMU, no documento de Suporte Avançado de Vida do Ministério da Saúde, escreve dose, via, sítio, intervalo de repetição e até calibre de agulha; o protocolo pediátrico APed26 faz o mesmo para a criança. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2021 adota os critérios da World Allergy Organization e é a ponte entre eles e a prática nacional. Onde o Brasil se afasta do estado da arte internacional, o motivo é quase sempre disponibilidade — e o exemplo mais claro é o autoinjetor de adrenalina, que não existe no mercado brasileiro.

03

O que muda decisão

O diagnóstico é clínico, e é aqui que a prova mora

Anafilaxia não tem exame que confirme na hora. O diagnóstico é feito à beira do leito, por critérios clínicos, e o tratamento começa antes de qualquer resultado. Os critérios clássicos — propostos no segundo simpósio do National Institute of Allergy and Infectious Diseases com a Food Allergy and Anaphylaxis Network, em 2006, e adotados pela World Allergy Organization em 2011 — são três, e a regra de ouro é que basta um deles. Essa é a pergunta que a banca faz de forma direta: não é preciso preencher os três, nem dois; um critério fecha o diagnóstico e manda dar adrenalina.

O primeiro critério é o mais frequente e responde por cerca de 80% dos casos. Ele exige início agudo, em minutos a algumas horas, com envolvimento de pele ou mucosa — urticária generalizada, prurido, rubor, inchaço de lábios, língua ou úvula — somado a pelo menos um de dois grupos: comprometimento respiratório (dispneia, broncoespasmo, estridor, hipoxemia) ou redução da pressão arterial com sintomas de disfunção de órgão-alvo (síncope, hipotonia, incontinência). Repare na estrutura: pele mais um sistema. É o critério que a maioria das vinhetas de prova descreve.

O segundo critério dispensa a certeza da causa e conta sistemas. Dois ou mais dos seguintes, agudamente, após exposição a um provável alérgeno: envolvimento de pele ou mucosa; comprometimento respiratório; redução da pressão arterial ou disfunção de órgão-alvo; sintomas gastrintestinais persistentes (dor abdominal, diarreia, vômitos). É o critério que resgata o caso sem pele evidente mas com dois outros sistemas em cena.

O terceiro critério é só pressão, e exige o alérgeno conhecido. Queda da pressão arterial de início agudo após exposição a alérgeno já conhecido daquele paciente: no adulto e na criança acima de 10 anos, sistólica abaixo de 90 mmHg ou queda maior que 30% da pressão basal da pessoa; no lactente e na criança abaixo de 10 anos, sistólica abaixo de 70 mmHg mais duas vezes a idade em anos, ou a mesma queda de 30% da basal. Aquela fórmula — 70 mais 2 vezes a idade — é cobrada literalmente em questão de pediatria, e vale a pena decorá-la.

Duas armadilhas de reconhecimento se resolvem lendo os critérios com atenção. A primeira: a pele pode não estar lá. Sinais cutâneos faltam em 10 a 20% das reações, e a ausência de urticária é justamente o que atrasa o diagnóstico nos casos fatais. A segunda: choque não é requisito. Nenhum dos três critérios exige hipotensão nos dois primeiros — o paciente com urticária e estridor tem anafilaxia com pressão normal, e tratar só quando a pressão cai é chegar tarde.

O diferencial que mais confunde é a reação vasovagal, e ela se separa por dois achados. A vasovagal dá sudorese, náusea e hipotensão com bradicardia, e sem urticária ou angioedema. A anafilaxia cursa com taquicardia, e só bradicardiza na iminência da falência cardiorrespiratória — quando bradicardiza, o quadro está pior, não melhor. Outros diferenciais que aparecem em prova: asma aguda isolada, angioedema hereditário ou por inibidor da enzima conversora de angiotensina (sem urticária e sem prurido, com resposta ruim à adrenalina), síndrome carcinoide, feocromocitoma, disfunção de cordas vocais, escombroidose (histamina de peixe malconservado, com mais de uma pessoa afetada na mesma refeição) e crise de pânico.

Figura esquemática de paciente em decúbito dorsal com membros inferiores elevados, ao lado de ícones de pele, via aérea e circulação, ligados por uma seta a uma seringa apontada para a face lateral da coxa.
O reconhecimento é por sistemas: pele mais um outro sistema fecha o critério. A resposta é a mesma nos três critérios — adrenalina intramuscular no vasto lateral, com o paciente deitado e os membros inferiores elevados.

Adrenalina: dose, apresentação, via e sítio — cada palavra é cobrada

Adrenalina é primeira linha e não tem substituto. O motivo é farmacológico e vale saber: o efeito alfa-adrenérgico reverte a vasodilatação periférica, reduz o edema de mucosa e a obstrução de via aérea superior e corrige a hipotensão; o efeito beta aumenta contratilidade e débito, faz broncodilatação e suprime a liberação de mediadores por mastócitos e basófilos. Nenhuma outra droga do carrinho faz esse conjunto. Não há contraindicação absoluta à adrenalina intramuscular no tratamento da anafilaxia.

A prescrição, na apresentação brasileira: adrenalina 1:1000, que é 1 mg/mL — a ampola comum. Dose de 0,01 mg/kg, com teto de 0,5 mg no adulto, o que corresponde a 0,5 mL da ampola. Na criança, a mesma 0,01 mg/kg com teto de 0,3 mg, ou seja, 0,3 mL. Via intramuscular. Sítio: região anterolateral do terço médio da coxa, que é o músculo vasto lateral. Repetir a cada 5 a 15 minutos conforme gravidade e resposta à dose anterior. O protocolo do SAMU chega ao detalhe operacional: preparar de preferência em seringa de 1 mL e injetar com agulha 25 x 7, considerando 30 x 8 em obesidade ou hipertrofia muscular.

Por que o vasto lateral e não o deltoide nem o glúteo. A coxa anterolateral é massa muscular grande, com vascularização abundante e fácil de acertar sem ajuda, e a injeção ali atinge pico sérico mais rápido e mais alto do que no deltoide. Na criança e no obeso, a coxa também é onde a agulha padrão realmente alcança músculo — no glúteo, o tecido adiposo faz a injeção virar subcutânea sem que ninguém perceba. Ainda: em quem está hipotenso, a perfusão do subcutâneo cai e a absorção subcutânea despenca, o que é exatamente o argumento contra a via subcutânea.

Adrenalina subcutânea em anafilaxia é erro, não alternativa mais segura. A absorção é lenta e imprevisível, e piora justamente no paciente que mais precisa — o hipoperfundido. Se a alternativa da questão oferece "adrenalina subcutânea", ela é distrator. O mesmo vale para a via inalatória isolada: adrenalina nebulizada tem lugar como adjuvante na obstrução de via aérea superior, ao lado da injeção intramuscular, nunca em lugar dela.

A via endovenosa existe, é restrita e é perigosa. O protocolo AC33 reserva a adrenalina endovenosa aos casos de iminência de choque ou choque já estabelecido, e mesmo aí manda fazer infusão lenta de adrenalina 1:10.000 — obtida diluindo 1 mL da ampola em 9 mL de água destilada ou soro fisiológico, resultando em 0,1 mg/mL — com titulação guiada por monitorização de frequência e ritmo cardíaco. O guia pediátrico da Sociedade Brasileira de Pediatria é ainda mais restritivo: diluições de 1:10.000 ou 1:100.000 por via endovenosa só em parada cardiorrespiratória ou em hipotensão profunda que não respondeu à expansão de volume nem a múltiplas injeções intramusculares. A World Allergy Organization diz, em 2020, que a via endovenosa não é recomendada para o tratamento inicial, e que se usada deve ser em paciente monitorizado, por pessoal com experiência em diluir e administrar, preferencialmente em infusão por bomba.

O perigo do bolus endovenoso tem dois nomes. O primeiro é erro de diluição: a ampola de anafilaxia é 1:1000 e a endovenosa exige 1:10.000 — dez vezes de diferença, no meio de uma emergência, com pressa. O segundo é toxicidade direta: arritmia potencialmente fatal, hipertensão grave, isquemia miocárdica. A via intramuscular no vasto lateral tem margem de segurança larga e é geralmente bem tolerada; palidez, tremor, ansiedade, palpitação, tontura e cefaleia depois da dose são efeitos farmacológicos esperados, e indicam que a dose terapêutica foi ofertada — não são motivo para não repetir.

Vale conhecer a simplificação por faixa etária que a World Allergy Organization publica, porque ela aparece em material internacional e em questão que copia tabela: lactente abaixo de 10 kg, 0,01 mg/kg (isto é, 0,01 mL/kg da solução 1 mg/mL); criança de 1 a 5 anos, 0,15 mg; criança de 6 a 12 anos, 0,3 mg; adolescente e adulto, 0,5 mg. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria registra a faixa de 0,2 a 0,5 mg para adultos e adolescentes, com 0,5 mg como dose máxima. As três referências convergem no essencial: 0,01 mg/kg, teto 0,5 mg, intramuscular na coxa.

A posição do paciente é conduta, e sentar mata

Decúbito dorsal com membros inferiores elevados. O protocolo do SAMU escreve a proibição com todas as letras: não permitir que o paciente sente ou se levante bruscamente, nem colocá-lo em posição vertical, pelo risco de morte súbita — a síndrome da veia cava e do ventrículo vazio. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria repete: levantar-se ou sentar-se subitamente está associado a desfechos fatais, a chamada síndrome do ventrículo vazio.

O mecanismo explica por que isso é regra e não conforto. Na anafilaxia o leito vascular está dilatado e a permeabilidade capilar aumentada — o paciente perde tônus e perde plasma para o interstício ao mesmo tempo. O retorno venoso depende, nesse momento, da posição. Sentar ou levantar joga o volume para a periferia, a veia cava esvazia, o ventrículo direito não recebe, o esquerdo não tem o que ejetar e o coração bate vazio. Há relatos de morte súbita ocorrendo no momento em que o paciente foi colocado de pé, inclusive já em vigência de tratamento.

As exceções são de bom senso e estão nos protocolos. Se há dispneia ou vômito, posição de conforto — no protocolo pediátrico, com leve inclinação da cabeceira e mantendo os membros inferiores elevados. A gestante fica em decúbito lateral esquerdo semi-recostada. O inconsciente que respira vai para a posição de recuperação. E vale registrar uma divergência de nuance: a World Allergy Organization considera controverso o benefício da elevação dos membros inferiores em si, embora a posição supina siga recomendada para a maioria dos pacientes. O que não é controverso em nenhuma fonte é o contrário — pôr o paciente de pé.

Em prova, esse é o detalhe que separa quem decorou o algoritmo de quem entendeu o mecanismo. A questão descreve o paciente que "melhorou e pediu para sentar" ou que "foi levado caminhando até a maca", e a alternativa correta é a que mantém o decúbito. Se a vinheta menciona a mudança de posição seguida de deterioração, o nome que a banca espera é síndrome do ventrículo vazio.

Segunda linha: o que anti-histamínico e corticoide fazem, e o que não fazem

Anti-histamínico alivia pele. É isso. O anti-H1 tem papel limitado no tratamento da anafilaxia e serve para prurido, urticária e rubor — não trata broncoespasmo, não trata edema laríngeo, não trata hipotensão, e não muda o desfecho. A World Allergy Organization registra que em algumas diretrizes o anti-histamínico já foi rebaixado a terceira linha, exatamente pelo risco de que administrá-lo atrase medidas mais urgentes, como repetir a adrenalina intramuscular. Há ainda um detalhe prático: os anti-H1 de primeira geração são os únicos disponíveis por via parenteral, e a administração endovenosa rápida de um deles pode causar hipotensão.

O erro clínico que essa droga produz é o mais letal do tema. Prescrever prometazina ou difenidramina e observar cria a sensação de que algo foi feito — a urticária realmente melhora — enquanto a via aérea continua fechando. Se a questão oferece anti-histamínico como conduta inicial de um quadro que preenche critério de anafilaxia, é distrator, e a chave do comentário é que ele não age nos mecanismos que matam.

Corticoide é o dogma que envelheceu, e é preciso saber o estado da discussão. A justificativa tradicional era prevenir sintomas prolongados e reação bifásica, e é por isso que hidrocortisona entrou nos protocolos. As doses brasileiras, quando usadas: hidrocortisona endovenosa ou intraóssea, 5 a 10 mg/kg, com teto de 100 mg no protocolo do adulto e 250 mg no protocolo pediátrico; ou, por via oral na alta, prednisona ou prednisolona 1 a 2 mg/kg/dia. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria, no entanto, é explícito: os corticosteroides, por via oral ou parenteral, são tradicionalmente administrados, porém têm pouca ou nenhuma ação no tratamento agudo da anafilaxia — e a própria tabela do guia coloca "prevenção de reações bifásicas?" com sinal de interrogação. A World Allergy Organization vai além: há evidência crescente de que o glicocorticoide pode não trazer benefício no manejo agudo e até ser prejudicial, e seu uso rotineiro está se tornando controverso.

Nem um nem outro atrasa a adrenalina. Essa é a frase operacional. Segunda linha significa depois, e depois quer dizer com a adrenalina já feita, o paciente deitado, o oxigênio correndo e o acesso instalado — nunca em vez disso.

O resto do pacote inicial, em ordem de execução. Suspender a exposição ao agente, se possível. Oxigênio suplementar sob máscara não reinalante se a saturação cair abaixo de 94% — e vale a observação do guia pediátrico de que saturação abaixo de 95% anda junto da necessidade de mais de uma dose de adrenalina. Acesso venoso periférico do maior calibre possível (14 ou 16 gauge no adulto). Expansão volêmica com solução salina 0,9%: 1 a 2 litros rapidamente no adulto, o que corresponde a 5 a 10 mL/kg nos primeiros 5 a 10 minutos; na criança, 5 a 10 mL/kg nos primeiros 5 minutos e 30 mL/kg na primeira hora. Salbutamol inalatório para o broncoespasmo: no adulto, 4 a 8 jatos a cada 20 minutos; na criança, 1 jato para cada 2 kg de peso até o máximo de 10 jatos. E monitorização contínua de frequência cardíaca, pressão, oximetria e ritmo.

Intubação orotraqueal precoce é decisão que se toma pelo achado, não pela gasometria. Rouquidão, alteração de voz, edema de língua, estridor, edema de orofaringe ou angioedema de via aérea superior: considerar intubar já. A via aérea que ainda está pérvia pode não estar em cinco minutos, e intubar edema instalado é outro problema — pode virar via aérea cirúrgica. O protocolo pediátrico manda pré-oxigenar por 3 a 4 minutos antes.

Quando não responde: refratariedade, betabloqueador e o glucagon

Até 10% das reações podem não ser revertidas mesmo com adrenalina administrada rapidamente. Antes de concluir refratariedade, checar o óbvio: a dose foi 0,01 mg/kg de fato ou foi "meia ampola"? Foi intramuscular na coxa ou subcutânea no braço? Já se passaram 5 minutos para repetir? O paciente está deitado? A exposição ao agente foi interrompida — o soro com o antibiótico foi fechado, o ferrão foi retirado? Boa parte da anafilaxia "que não responde" é anafilaxia subtratada.

Duas regras de progressão ajudam. Quanto mais a hipotensão se agrava ao longo da reação, menor a resposta ao tratamento com adrenalina — o que é argumento a favor de tratar cedo, não de esperar. E asma mal controlada é fator de risco reconhecido para reação fatal: o asmático que faz anafilaxia é o paciente para quem o limiar de intubação e de internação é mais baixo.

O paciente em uso de betabloqueador é a situação clássica de resposta ruim. O bloqueio beta limita justamente o braço da adrenalina que faz broncodilatação e aumenta o débito, e esses pacientes tendem a apresentar quadros mais graves. Podem ser necessárias doses maiores de adrenalina para o mesmo efeito. O protocolo brasileiro manda, na bradicardia persistente, usar atropina; e no broncoespasmo resistente, brometo de ipratrópio inalatório.

É aí que entra o glucagon, e a dose é cobrável: 5 a 15 µg por minuto em infusão contínua endovenosa. A lógica é elegante — o glucagon aumenta o AMP cíclico intracelular por uma via que não passa pelo receptor beta, contornando o bloqueio. A World Allergy Organization registra o uso parenteral de glucagon em paciente sem resposta ótima à adrenalina, particularmente em quem usa betabloqueador, com a ressalva honesta de que a evidência é muito limitada. Náusea e vômito são o efeito adverso esperado — em paciente com nível de consciência rebaixado, atenção à via aérea.

Um par de medicações merece nota porque muda o manejo futuro: betabloqueadores e inibidores da enzima conversora de angiotensina interferem no tratamento de um próximo episódio, e sua suspensão ou substituição entra na conversa da alta, junto do inibidor da monoamino oxidase. Na anafilaxia refratária, a adrenalina passa a ser dada em infusão contínua com monitorização, e o corticoide entra — como adjuvante, é a formulação da diretriz europeia de 2021 — nunca em preferência à adrenalina ou aos vasopressores.

Reação bifásica, tempo de observação e o que a alta precisa levar

Reação bifásica é o retorno dos sintomas depois de um intervalo de melhora, sem nova exposição ao alérgeno. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria a situa entre 8 e 12 horas após o episódio agudo, em até 10% dos casos. A World Allergy Organization registra que cerca de metade das reações bifásicas ocorre nas primeiras 6 a 12 horas. É esse número — e só ele — que sustenta a exigência de observação: ninguém observa por burocracia, observa porque uma em dez reações volta.

O tempo de observação brasileiro é o do guia pediátrico e vale decorar: mínimo de 6 a 8 horas nos casos leves, e 24 a 48 horas nos casos graves. Se a questão é de prova nacional e pede um número, é esse par. A alta antes disso, num caso que precisou de adrenalina, é conduta frágil.

Fatores que empurram para o teto do intervalo, e que a vinheta costuma plantar: necessidade de duas ou mais doses de adrenalina; hipotensão ou comprometimento respiratório durante a reação; asma mal controlada; história prévia de reação bifásica; alérgeno de absorção continuada (alimento ingerido há pouco, medicamento de depósito); atraso na primeira dose de adrenalina; anafilaxia idiopática; e o critério social, que ninguém deveria esquecer — paciente que mora longe, sem acompanhante ou sem acesso a serviço de emergência.

A alta é prescrição, não despedida. O que sai por escrito: plano de ação em linguagem clara, com o nome e a dose dos medicamentos e o que fazer diante dos primeiros sinais; identificação portátil com o diagnóstico, o telefone de contato e o plano; notificação da escola quando for criança, com os fatores a evitar e a conduta na emergência; revisão dos medicamentos de risco (betabloqueador, inibidor da enzima conversora de angiotensina, inibidor da monoamino oxidase); e encaminhamento ao alergista — sempre, mesmo depois de um único episódio.

A medicação de alta do guia brasileiro tem prazo: corticosteroide oral (prednisona ou prednisolona 1 a 2 mg/kg/dia em dose única) por 5 a 7 dias, e anti-histamínico H1 de segunda geração (fexofenadina, cetirizina, desloratadina) nas doses habituais por pelo menos 7 dias, em todas as faixas etárias. É prática consolidada no Brasil, e é justo saber que a discussão internacional sobre o benefício do corticoide na prevenção da bifásica está aberta — a prescrição segue nos documentos nacionais.

O item de alta mais cobrado é o autoinjetor de adrenalina, e ele tem um problema brasileiro. Os dispositivos existem em doses fixas — 0,1 mg para lactentes, 0,15 mg para crianças até 30 kg, 0,3 mg para crianças maiores e adultos — aplicados na face anterolateral da coxa, por cima da roupa para não perder tempo, com segunda dose 5 a 10 minutos depois se não houver melhora. A recomendação internacional é prescrever ao menos um, idealmente já na alta. No Brasil o produto não tem registro sanitário e não é comercializado: a adrenalina existe em ampola, e a alternativa que resta é seringa preenchida ou ampola com seringa de 1 mL, com treinamento e instrução escrita para aspirar a dose correta. A causa não é discordância técnica — é ausência de pedido de registro por parte de fabricante, e o dispositivo importado sem registro é objeto de apreensão pela autoridade sanitária. As sociedades brasileiras de pediatria e de alergia sustentam a demanda pela disponibilização, e a reclassificação do dispositivo como inovação incremental pela agência, em setembro de 2024, foi passo regulatório nessa direção.

Gatilhos, cofatores e a investigação depois da crise

O perfil de gatilho depende da idade, e a prova usa isso para dar pista. No inquérito brasileiro conduzido entre alergologistas, os principais agentes causais foram: medicamentos — anti-inflamatórios não hormonais e antibióticos, com destaque para os betalactâmicos —, seguidos de alimentos e de picadas de insetos (formigas de fogo, abelhas, vespas). Dentro dos alimentos, a distribuição por faixa etária é a que se decora: leite de vaca e clara de ovo entre lactentes e pré-escolares; crustáceos entre crianças maiores, adolescentes e adultos. Em cerca de 10% dos casos o agente não é identificado — anafilaxia idiopática.

Anafilaxia perioperatória tem elenco próprio, e a ordem importa. A causa mais frequente são os bloqueadores neuromusculares; o látex é a segunda maior causa. Além deles, antibióticos, anti-inflamatórios não hormonais, coloides, opiáceos, clorexidina e corantes. O cenário é traiçoeiro porque o paciente está coberto, sob anestesia e monitorizado — a urticária não é vista e a queixa não existe. O que denuncia é hipotensão inexplicada, aumento súbito da pressão de vias aéreas, broncoespasmo ou dessaturação sem causa ventilatória. E existe um agravante mecânico: o paciente anestesiado já está deitado, mas também está com o retorno venoso comprometido pela própria anestesia.

O látex merece parágrafo à parte pelos grupos de risco e pelas reações cruzadas. Risco aumentado: profissionais de saúde, pacientes com espinha bífida e quem passou por múltiplas cirurgias. Reação cruzada com frutas e vegetais — banana, abacate, kiwi, mamão, e ainda aipim e inhame. Mais de 40 mil produtos médicos e de uso geral contêm látex: chupetas, balões de festa, máscaras odontológicas, luvas cirúrgicas, drenos, equipos de soro. Em paciente sensível, procedimento em ambiente látex-free, com substitutos de vinil, nitrila, polietileno ou silicone.

Contraste iodado ainda aparece em prova. Cerca de 2% dos indivíduos que recebem radiocontraste iônico de alta osmolaridade apresentam algum tipo de reação adversa; a maioria é leve, mas há reações fatais. Com contraste não iônico de baixa osmolaridade a frequência é muito menor. Pré-tratamento pode ser indicado em quem já teve reação prévia a contraste.

Cofatores mudam o limiar da mesma exposição, e é por isso que o paciente "come camarão sempre e nunca aconteceu nada". Exercício físico — isolado ou associado a alimento como camarão, maçã, aipo e trigo —, infecção em curso, privação de sono, estresse, álcool, anti-inflamatórios não hormonais, status hormonal e as próprias medicações (betabloqueador, inibidor da enzima conversora de angiotensina). Do lado endógeno: mastocitose sistêmica, asma instável, doença cardiovascular, triptase basal elevada.

A triptase é o exame do tema, e serve para depois, não para decidir agora. Ela sobe no sangue a partir de 15 minutos do início dos sintomas, permanece elevada por até 3 horas ou mais, e o pico ocorre entre 1 e 2 horas — essa é a janela de coleta. O ponto que a prova cobra: valor normal não exclui anafilaxia. Em 36 a 40% dos casos a triptase permanece abaixo de 11,4 µg/L, e na criança com anafilaxia por alimento a normalidade é comum. Além disso, recomenda-se dosar a triptase basal ao menos 24 horas depois da resolução dos sintomas, mesmo quando a do episódio veio normal: comparar pico e basal é o que dá sentido ao número — a equação de consenso de 2010 pede que o pico seja maior que 1,2 vez a basal mais 2 ng/mL. Triptase basal elevada abre a investigação de mastocitose, e mesmo triptase basal normal não a exclui.

A investigação etiológica é do alergista e vem depois. História detalhada — agente suspeito, via, dose, sequência e tempo dos sintomas, tratamento aplicado antes na mesma situação, exercício e medicações associadas —, testes cutâneos e IgE específica. Dosar IgE específica no momento da reação pode dar resultado falsamente negativo, e por isso a coleta é posterior. Quando nada é identificado, anafilaxia idiopática é o rótulo, e aí mastocitose e distúrbio clonal de mastócito precisam ser afastados. Imunoterapia específica é eficaz e indicada na anafilaxia por veneno de himenópteros; dessensibilização e indução de tolerância cabem em casos selecionados de alimento e medicamento.

O que não fazer — a lista curta que resolve a maioria das questões

Não esperar para ver. Anafilaxia é diagnóstico clínico com um critério, e o tratamento começa junto com o reconhecimento. Não existe "observo mais um pouco e, se piorar, faço adrenalina": a demora até a primeira dose é fator de risco para desfecho fatal, e a resposta à adrenalina piora conforme a hipotensão se aprofunda.

Não dar anti-histamínico primeiro. Ele alivia pele e não faz nada pelos mecanismos que matam. Prescrevê-lo como conduta inicial é o erro clássico, e o efeito colateral pior não é farmacológico: é a falsa sensação de que o caso está tratado.

Não usar adrenalina subcutânea. Absorção lenta e imprevisível, e pior justamente no hipotenso. A via é intramuscular, no vasto lateral.

Não fazer adrenalina em bolus endovenoso na anafilaxia sem choque. Risco de arritmia fatal e de erro de diluição — 1:1000 é a ampola intramuscular, 1:10.000 é a diluída para infusão. A via endovenosa é para o choque iminente ou estabelecido, em infusão lenta e titulada, com monitorização.

Não sentar nem levantar o paciente. Síndrome do ventrículo vazio, morte súbita descrita. Decúbito dorsal com membros inferiores elevados; posição de conforto só se houver dispneia ou vômito.

Não confiar em triptase normal para descartar. Não substituir a segunda dose de adrenalina por corticoide. Não dar alta cedo em quem precisou de duas doses. Não mandar o paciente embora sem plano de ação escrito e sem encaminhamento ao alergista. E não considerar excluído o diagnóstico só porque não havia urticária — em 10 a 20% das reações a pele não participa, e são essas as que chegam tarde.

04

Os critérios diagnósticos e as doses, lado a lado

A primeira tabela é a régua do diagnóstico: um critério basta. A segunda é a adrenalina por faixa etária, na apresentação brasileira. A terceira separa segunda linha de primeira linha, com dose e com a função real de cada droga.

  1. 1Reconheça: quadro agudo, minutos a horas, após exposição possível — preenche 1 dos 3 critérios? Trate.
  2. 2Adrenalina 1:1000 (1 mg/mL), 0,01 mg/kg IM no vasto lateral (terço médio anterolateral da coxa). Teto 0,5 mg no adulto, 0,3 mg na criança. Anote o horário.
  3. 3Posicione: decúbito dorsal com membros inferiores elevados. Não sentar, não levantar. Posição de conforto só se dispneia ou vômito.
  4. 4Suspenda o agente, chame ajuda, oxigênio se saturação abaixo de 94%, acesso venoso de grosso calibre.
  5. 5Reavalie em 5 minutos: sem melhora, repita a adrenalina IM (a cada 5 a 15 minutos, quantas vezes for preciso).
  6. 6Expanda: salina 0,9%, 1 a 2 L rápido no adulto; 5 a 10 mL/kg em 5 minutos na criança, 30 mL/kg na primeira hora.
  7. 7Via aérea: rouquidão, edema de língua, estridor ou angioedema de orofaringe → considere intubação precoce.
  8. 8Broncoespasmo residual: salbutamol inalatório. Refratário em betabloqueado: atropina se bradicardia, ipratrópio, e glucagon 5 a 15 µg/min IV.
  9. 9Só então a segunda linha (anti-H1, corticoide) — nunca antes, nunca em lugar da adrenalina.
  10. 10Observe: 6 a 8 horas no caso leve, 24 a 48 horas no grave. Alta com plano de ação escrito, identificação, revisão de medicações e encaminhamento ao alergista.
CritérioO que exigeDetalhe cobrado
Regra geralBasta UM dos três critérios para o diagnóstico ser altamente provávelNão precisa de dois, nem dos três. Um fecha e manda tratar
1º critérioPele ou mucosa + ao menos 1 de: respiratório OU queda da PA / disfunção de órgão-alvoPresente em cerca de 80% dos casos
2º critério2 ou mais de: pele/mucosa; respiratório; queda da PA / órgão-alvo; gastrintestinal persistente — após provável alérgenoÉ o que capta o caso com gastrintestinal proeminente
3º critérioQueda da PA isolada, após alérgeno CONHECIDO daquele pacienteAdulto e >10 anos: PAS <90 mmHg ou queda >30% da basal; <10 anos: PAS <(70 + 2×idade)
Definição de hipotensãoQueda >30% da pressão sistólica basal da própria pessoa serve em qualquer idadeO corte absoluto muda com a idade; a queda relativa não
InícioMinutos a algumas horas após a exposiçãoA alergia à alfa-gal (galactose-alfa-1,3-galactose) é a exceção reconhecida de início tardio após a exposição
ConfirmaçãoNenhum exame confirma na hora — o diagnóstico é clínicoTriptase serve para depois; normal não exclui

Adrenalina na anafilaxia — apresentação brasileira (ampola 1:1000 = 1 mg/mL)

PacienteDoseVolume da ampola 1 mg/mLVia e sítioRepetição
Adulto e adolescente0,01 mg/kg, teto de 0,5 mgaté 0,5 mLIM, terço médio anterolateral da coxa (vasto lateral)a cada 5 a 15 min conforme gravidade e resposta
Criança (regra geral)0,01 mg/kg, teto de 0,3 mgaté 0,3 mLIM, terço médio anterolateral da coxaa cada 5 a 15 min
Lactente < 10 kg0,01 mg/kg0,01 mL/kgIM, coxaa cada 5 a 15 min
Criança 1 a 5 anos (dose fixa WAO)0,15 mg0,15 mLIM, coxaa cada 5 a 15 min
Criança 6 a 12 anos (dose fixa WAO)0,3 mg0,3 mLIM, coxaa cada 5 a 15 min
Choque iminente ou estabelecidoAdrenalina 1:10.000 (0,1 mg/mL) — 1 mL da ampola em 9 mL de AD ou SF 0,9%infusão lenta, tituladaIV/IO, com monitorização de FC e ritmotitular; NÃO é a via do tratamento inicial
Parada cardiorrespiratória0,01 mg/kg (0,1 mL/kg da solução 1:10.000) em bolusconforme protocolo de PCRIV/IOconforme protocolo de PCR
Autoinjetor (doses fixas)0,1 mg lactente · 0,15 mg até 30 kg · 0,3 mg maiores e adultosdispositivo prontoIM na face anterolateral da coxa, por cima da roupa2ª dose 5 a 10 min depois se não houver melhora

Primeira linha × segunda linha: dose e função real

DrogaLinhaDoseO que fazO que NÃO faz
Adrenalina IM1ª — sem substituto0,01 mg/kg IM na coxa (teto 0,5 mg adulto / 0,3 mg criança), repetir 5-15 minReverte vasodilatação e edema de mucosa (alfa); broncodilata, aumenta débito e freia mediadores (beta)
Oxigênio1ª (suporte)Máscara não reinalante se SatO2 < 94%Corrige hipoxemiaNão trata o mecanismo
Salina 0,9%1ª (suporte)Adulto 1-2 L rápido (5-10 mL/kg em 5-10 min); criança 5-10 mL/kg em 5 min e 30 mL/kg na 1ª horaRepõe o plasma perdido para o interstícioNão reverte a vasodilatação
Salbutamol inalatórioAdulto 4-8 jatos a cada 20 min; criança 1 jato/2 kg, máx. 10 jatosAlivia broncoespasmo residualNão substitui repetir a adrenalina; não age em via aérea alta nem em hipotensão
Anti-H1 (prometazina, difenidramina)2ª — 3ª em algumas diretrizesDifenidramina 25-50 mg IV no adulto; 1 mg/kg na criança (máx. 50 mg)Alivia prurido, urticária e ruborNão trata broncoespasmo, edema laríngeo nem hipotensão; IV rápido pode causar hipotensão
Hidrocortisona5-10 mg/kg IV/IO (teto 100 mg no protocolo do adulto; 250 mg no pediátrico)Uso tradicional para sintomas prolongadosInício de ação tardio; pouca ou nenhuma ação no quadro agudo; benefício na prevenção da bifásica é controverso
Prednisona / prednisolona VOalta1-2 mg/kg/dia por 5 a 7 diasPrescrição de alta consolidada no BrasilNão é conduta da emergência
Glucagonresgate5-15 µg/min IV em infusão contínuaEleva AMPc sem passar pelo receptor beta — resgate no betabloqueadoEvidência limitada; causa náusea e vômito
Atropina / ipratrópioresgate no betabloqueadoAtropina na bradicardia persistente; ipratrópio inalatório no broncoespasmo resistenteCobre bradicardia e broncoespasmo refratáriosNão trata a reação em si

A dose é sempre em mg/kg com teto; a apresentação brasileira é 1:1000 (1 mg/mL), e por isso a dose em mL coincide numericamente com a dose em mg. Confundir a ampola 1:1000 com a diluição 1:10.000 é erro de dez vezes.

Anote o horário de cada dose de adrenalina. É o que permite decidir a repetição em 5 minutos e é o que sustenta a decisão de observar por 24 horas depois.

Saturação abaixo de 95% na criança anda junto da necessidade de mais de uma dose de adrenalina — trate o número como aviso, não como meta isolada.

Palidez, tremor, palpitação, tontura e cefaleia após a adrenalina são efeitos farmacológicos esperados e indicam que a dose terapêutica foi ofertada. Não são motivo para não repetir.

Não há contraindicação absoluta à adrenalina intramuscular na anafilaxia — nem idade, nem coronariopatia, nem gestação.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Três critérios diagnósticos ou dois?

Três critérios (NIAID/FAAN 2006, adotados pela WAO em 2011 e usados nos protocolos brasileiros do SAMU)

Os critérios propostos no segundo simpósio do National Institute of Allergy and Infectious Diseases com a Food Allergy and Anaphylaxis Network, publicados em 2006, são três, e anafilaxia é altamente provável quando qualquer um deles é preenchido: (1) pele/mucosa mais um de respiratório ou queda de pressão/órgão-alvo; (2) dois ou mais sistemas após provável alérgeno, incluindo gastrintestinal persistente; (3) queda de pressão isolada após alérgeno conhecido. Foram desenhados para identificar ao menos 95% dos episódios e é essa a forma reproduzida nos protocolos AC33 e APed26 do SAMU, que são o documento operacional do atendimento pré-hospitalar brasileiro.

Sampson HA, Muñoz-Furlong A, Campbell RL, et al. Second symposium on the definition and management of anaphylaxis. Ann Emerg Med. 2006;47:373-380; reproduzidos em Ministério da Saúde, Protocolos SAMU 192 — SAV, AC33 e APed26

Dois critérios (World Allergy Organization 2020, reproduzidos pela Sociedade Brasileira de Pediatria em 2021)

A World Allergy Organization, em 2020, propôs emendar os critérios: combinou os dois primeiros num só e modificou o terceiro, resultando em dois. O primeiro passa a ser pele ou mucosa mais ao menos um de respiratório, queda de pressão/órgão-alvo ou sintomas gastrintestinais GRAVES (a palavra "persistente" saiu por ser ambígua, e "grave" entrou, com a ressalva de que o gastrintestinal pesa mais após alérgeno não alimentar). O segundo passa a captar o início agudo de hipotensão OU broncoespasmo OU envolvimento laríngeo após exposição a alérgeno conhecido ou altamente provável, mesmo sem manifestação cutânea — reconhecendo que apresentação respiratória isolada é comum na anafilaxia fatal e não era contemplada pelos critérios de 2006. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2021 traz exatamente esse quadro de dois critérios, em português, como "novos critérios".

Cardona V, et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472; Sociedade Brasileira de Pediatria, Anafilaxia: atualização 2021, Quadro 1

Na prova

O conteúdo clínico dos dois conjuntos é praticamente o mesmo — o que muda é a contagem e a redação do gastrintestinal. Como identificar o recorte: se o enunciado ou as alternativas falam em "três critérios", "critérios do NIAID/FAAN", "sintomas gastrintestinais persistentes" ou citam protocolo do SAMU, o documento em jogo é o de 2006. Se aparecem "dois critérios", "World Allergy Organization 2020", "sintomas gastrintestinais graves" ou o reconhecimento explícito de broncoespasmo/envolvimento laríngeo isolado como anafilaxia, o recorte é o de 2020 — e a bibliografia pediátrica brasileira mais recente já está desse lado. O que não varia entre os dois, e é o que a pergunta costuma testar de verdade: basta um critério, choque não é requisito, e a ausência de urticária não exclui o diagnóstico.

Quanto tempo observar depois de uma anafilaxia?

Prazo fixo por gravidade: 6 a 8 horas no caso leve, 24 a 48 horas no grave (Sociedade Brasileira de Pediatria, 2021)

O guia brasileiro de 2021 dá números fechados: observação clínica de no mínimo 6 a 8 horas nos casos leves e de 24 a 48 horas nos casos graves. O que sustenta o intervalo é a estatística da reação bifásica que o próprio documento apresenta: ela pode ocorrer entre 8 e 12 horas após o episódio agudo, em até 10% dos casos, e o guia acrescenta que a orientação de alta deve cobrir a possibilidade de recorrência de sintomas por até 12 horas, especialmente nos casos idiopáticos, com absorção continuada do alérgeno, asma mal controlada ou história prévia de reação bifásica.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Alergia. Anafilaxia: atualização 2021 — "Considerações importantes em relação ao acompanhamento"

Sem prazo fixo: observação individualizada e estratificada por risco (EAACI, atualização de 2021)

A diretriz europeia de anafilaxia, na atualização de 2021, abandonou o tempo fixo e propôs abordagem pragmática, individualizada e estratificada por risco. O argumento registrado é que a recomendação anterior, de prazo fixo, podia oferecer falsa segurança quanto ao risco de reação bifásica: nem todo paciente precisa do mesmo tempo, e cumprir o número não garante que a bifásica não venha depois da alta. Na prática, a estratificação usa a gravidade da reação, o número de doses de adrenalina necessárias, comorbidades como asma e a segurança do plano de alta.

Muraro A, Worm M, Alviani C, et al. EAACI guidelines: Anaphylaxis (2021 update). Allergy. 2022;77(2):357-377

Observação orientada pela janela da bifásica, sem número único (World Allergy Organization, 2020)

A World Allergy Organization registra que cerca de metade das reações bifásicas ocorre nas primeiras 6 a 12 horas e afirma que pacientes com anafilaxia precisam ser observados, com ênfase nas reações graves e nas que exigiram múltiplas doses de adrenalina — mas o documento reconhece expressamente, na lista de necessidades não atendidas, que ainda falta consenso sobre por quanto tempo observar.

Cardona V, et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472

Na prova

Questão de banca brasileira que pede um número tende a trazer o par do documento nacional (6 a 8 horas no leve, 24 a 48 horas no grave), e a presença desses valores entre as alternativas já indica o recorte. Quando as alternativas descrevem critérios em vez de horas — "observar mais tempo se precisou de duas doses de adrenalina", "se há asma mal controlada", "se a reação foi grave" —, o recorte é o da estratificação por risco da diretriz europeia. O elemento comum, e que sustenta qualquer das duas posições, é a estatística: reação bifásica em até 10% dos casos, com metade das ocorrências nas primeiras 6 a 12 horas. Enunciado que traz paciente que precisou de duas doses de adrenalina, asma mal controlada ou mora longe está plantando fatores de risco para prolongar a observação, qualquer que seja a régua.

Corticoide previne reação bifásica?

Uso mantido nos protocolos brasileiros, com a finalidade declarada de ajudar a prevenir a bifásica

O protocolo pediátrico do SAMU afirma que a hidrocortisona deve ser administrada no atendimento pré-hospitalar, apesar do início de ação mais tardio, porque pode ajudar a prevenir a anafilaxia bifásica. As doses estão nos protocolos: hidrocortisona 5 a 10 mg/kg IV/IO, com teto de 100 mg no protocolo do adulto e 250 mg no pediátrico. E a prescrição de alta do guia da Sociedade Brasileira de Pediatria mantém corticosteroide oral — prednisona ou prednisolona 1 a 2 mg/kg/dia em dose única — por 5 a 7 dias, justamente pela possibilidade de recorrência de sintomas até 12 horas depois.

Ministério da Saúde, Protocolos SAMU 192 — SAV, APed26 e AC33; Sociedade Brasileira de Pediatria, Anafilaxia: atualização 2021 — "Orientações após a alta hospitalar"

Sem ação no quadro agudo, e a prevenção da bifásica aparece com interrogação no próprio documento brasileiro

O mesmo guia da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2021 escreve que os corticosteroides, por via oral ou parenteral, são tradicionalmente administrados, porém têm pouca ou nenhuma ação no tratamento agudo da anafilaxia — e na tabela de agentes terapêuticos registra a finalidade como "prevenção de reações bifásicas?", com sinal de interrogação, ao lado da observação de que a padronização de doses não está estabelecida. Convive, no mesmo documento, a prescrição consolidada e a dúvida sobre o benefício.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Anafilaxia: atualização 2021 — Quadro 3 e "Considerações importantes"

Evidência crescente de ausência de benefício e possibilidade de dano; uso rotineiro em revisão (WAO 2020, EAACI 2021)

A World Allergy Organization, em 2020, registra que glicocorticoides são comumente usados com o objetivo de prevenir sintomas prolongados e reações bifásicas, mas que há evidência crescente de que possam não trazer benefício no manejo agudo da anafilaxia, e mesmo ser prejudiciais — o uso rotineiro, diz o documento, está se tornando controverso. A diretriz europeia de 2021 reposiciona a droga: é razoável incluir corticosteroide no manejo da anafilaxia refratária, mas apenas como adjuvante, e não em preferência à adrenalina ou aos inotrópicos e vasopressores.

Cardona V, et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472; Muraro A, et al. EAACI guidelines: Anaphylaxis (2021 update). Allergy. 2022;77(2):357-377

Na prova

Duas perguntas diferentes se esconderam nesse tema, e vale separá-las. Se a questão pergunta o que se faz PRIMEIRO, ou qual droga reverte o quadro, a discussão sobre corticoide é irrelevante — o item é adrenalina, e corticoide como conduta inicial é distrator em qualquer recorte. Se a questão pergunta especificamente sobre o papel do corticoide, o recorte se lê pelo vocabulário: enunciado que descreve o corticoide como parte do protocolo de atendimento, com dose de hidrocortisona, está no mundo dos documentos brasileiros; enunciado que fala de "evidência", "revisão sistemática", "prevenção de reação bifásica" ou oferece alternativas do tipo "não previne" está no mundo da literatura internacional recente. E há um ponto em que todas as fontes coincidem, que é o mais cobrável de todos: corticoide tem início de ação tardio e não substitui a adrenalina nem justifica atrasá-la.

Autoinjetor de adrenalina na alta: recomendação internacional × realidade brasileira

Prescrever autoinjetor a todo paciente em risco, idealmente já na alta (World Allergy Organization, 2020)

A World Allergy Organization recomenda que pacientes em risco de novo episódio recebam prescrição de um ou mais autoinjetores de adrenalina, com treinamento sobre por que, quando e como aplicar, além de plano de ação escrito e identificação médica — idealmente entregues na alta após a reação. O documento reconhece, no mesmo parágrafo, que os dispositivos não estão disponíveis em muitas regiões: estão presentes em apenas 32% dos 195 países do mundo, sobretudo os de renda alta. Onde não há, a orientação é recomendar formulações alternativas — seringa preenchida de adrenalina ou, na falta dela, ampola com seringa de 1 mL, com treinamento adequado e instrução escrita para aspirar a dose correta.

Cardona V, et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472 — seções de manejo de longo prazo e "Global availability of epinephrine autoinjectors"

No Brasil o dispositivo não é comercializado — a adrenalina existe em ampola, e as sociedades sustentam a demanda pela disponibilização

O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria descreve as doses fixas dos dispositivos (0,1 mg para lactentes, 0,15 mg para crianças até 30 kg, 0,3 mg para crianças maiores e adultos), a técnica de aplicação na face anterolateral da coxa por cima da roupa e a segunda dose 5 a 10 minutos depois — e encerra registrando a expectativa de que em breve seja possível adquirir a adrenalina autoinjetável no país, com a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia lutando por essa disponibilização. A causa da ausência é regulatória e comercial, não técnica: o produto não tem registro sanitário no Brasil porque nenhum fabricante solicitou o registro, e dispositivo importado sem registro é objeto de apreensão pela autoridade sanitária — a agência determinou apreensão de autoinjetor importado em abril de 2026. Em setembro de 2024 o dispositivo foi reclassificado como inovação incremental pela agência, passo regulatório na direção do registro.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Anafilaxia: atualização 2021 — "Como prevenir?" e Figura 2; Anvisa, notícia de 02/04/2026 sobre apreensão de autoinjetor de adrenalina sem registro no Brasil

Na prova

É o caso clássico de recomendação internacional que não se cumpre por indisponibilidade, e a causa tem nome: falta de registro sanitário por ausência de pedido de fabricante — não discordância clínica. Como identificar o recorte: enunciado que descreve orientação de alta em ambiente brasileiro, ou que pergunta "o que prescrever no SUS", trabalha com ampola de adrenalina, plano de ação escrito, identificação portátil e encaminhamento ao alergista. Enunciado que cita autoinjetor, EpiPen, dose de 0,15 mg ou 0,3 mg em dispositivo, ou que se ancora em diretriz internacional, trabalha com a recomendação da World Allergy Organization. O conteúdo que atravessa os dois mundos e costuma ser o ponto real da questão: todo paciente que teve anafilaxia sai com plano de ação por escrito, identificação, revisão das medicações de risco e encaminhamento ao especialista.

06

Caso resolvido

Mulher de 34 anos chega ao pronto-socorro trazida por colegas de trabalho, 20 minutos depois de almoçar num restaurante japonês. Refere prurido intenso que começou no couro cabeludo e se espalhou, sensação de "garganta apertando" e falta de ar. Nunca teve alergia diagnosticada. Ao exame: consciente, ansiosa, urticária confluente em tronco e membros, edema de lábios, voz rouca, estridor inspiratório leve, sibilos difusos. PA 118/74 mmHg, FC 122 bpm, FR 26 irpm, SpO2 93% em ar ambiente. Enquanto é examinada, pede para sentar na maca porque "deitada fica pior".
achado
Início agudo (20 minutos após provável alérgeno alimentar) com pele e mucosa envolvidas — urticária generalizada e edema de lábios — MAIS comprometimento respiratório: rouquidão, estridor, sibilos, saturação 93%. Isso preenche o primeiro critério, e um critério basta. Diagnóstico: anafilaxia.
raciocínio
A pressão arterial está normal, e é justamente aí que o caso engana. Nenhum dos dois primeiros critérios exige hipotensão — esperar a pressão cair para chamar de anafilaxia é o atraso que a literatura associa a desfecho fatal. A taquicardia de 122 bpm, além de esperada na anafilaxia, afasta a reação vasovagal, que cursaria com bradicardia e sem urticária.
conduta
Adrenalina 1:1000 (1 mg/mL), 0,5 mg — 0,5 mL da ampola — intramuscular no terço médio anterolateral da coxa, agora, antes de qualquer outra droga. Anotar o horário. Suspender a exposição (nada mais por via oral). Chamar ajuda.
posição
O pedido para sentar não é atendido como conforto. Ela tem dispneia, o que autoriza posição de conforto — leve elevação da cabeceira —, mas mantendo os membros inferiores elevados e sem permitir que se levante ou fique em posição vertical: risco de morte súbita por síndrome do ventrículo vazio. A explicação vai junto, em linguagem clara, para que ela não se levante quando ninguém estiver olhando.
suporte
Oxigênio sob máscara não reinalante (SpO2 93%, abaixo de 94%). Acesso venoso periférico de grosso calibre. Monitorização de pressão, frequência, ritmo e oximetria. Salbutamol inalatório para o broncoespasmo, sem que isso substitua a próxima dose de adrenalina.
via aérea
Rouquidão mais estridor mais edema de lábios é sinal de alerta de via aérea superior. A decisão de intubar precocemente é tomada pelo achado, não pela gasometria: a via aérea que está pérvia agora pode não estar em cinco minutos, e intubar edema instalado pode virar via aérea cirúrgica. Material de via aérea difícil à cabeceira, profissional mais experiente disponível.
reavaliação
Aos 5 minutos, sem melhora do estridor: segunda dose de adrenalina IM, 0,5 mg na coxa. O intervalo é de 5 a 15 minutos, e o número de doses é o que for preciso. Se ela evoluir com hipotensão, expandir com salina 0,9%, 1 a 2 litros rápido; se caminhar para choque, adrenalina passa a infusão endovenosa de 1:10.000 titulada com monitorização — nunca bolus da ampola 1:1000.
segunda linha
Só depois: anti-H1 para o prurido e a urticária (que é o que ele faz), e corticoide conforme protocolo do serviço, sabendo que o início de ação é tardio e que nenhum dos dois trata a via aérea nem substitui a adrenalina.
observação
Reação com comprometimento respiratório e necessidade de duas doses de adrenalina não é caso leve: observação prolongada, no teto do intervalo — 24 horas ou mais —, pela janela da reação bifásica, que ocorre entre 8 e 12 horas em até 10% dos casos e cuja metade se concentra nas primeiras 6 a 12 horas.
alta
Plano de ação por escrito com o que fazer aos primeiros sinais; identificação portátil com o diagnóstico; corticoide oral 1 a 2 mg/kg/dia por 5 a 7 dias e anti-H1 de segunda geração por pelo menos 7 dias, conforme o guia brasileiro; orientação de que o autoinjetor não é comercializado no país e de como aspirar a dose de uma ampola de adrenalina, se essa for a alternativa disponível; e encaminhamento ao alergista para investigação etiológica — provável crustáceo, mas isso se confirma com teste, não com suposição. Triptase, se o serviço dispuser, colhida na janela de 15 minutos a 3 horas do início, com basal repetida ao menos 24 horas depois.
07

Agora feche você

Homem de 58 anos, hipertenso em uso de atenolol e enalapril, recebe a primeira dose de cefalexina endovenosa na sala de observação por celulite de perna. Cinco minutos depois refere mal-estar, náusea e "tontura forte". Ao exame: sonolento mas despertável, sem urticária visível, extremidades quentes, tempo de enchimento capilar 3 segundos. PA 68/40 mmHg, FC 52 bpm, FR 24 irpm, SpO2 95%. A enfermagem já fechou o soro do antibiótico.
achado
Queda aguda da pressão arterial (68/40 mmHg) minutos após exposição a um alérgeno provável — betalactâmico endovenoso —, com extremidades quentes e enchimento capilar alargado: quadro distributivo. A pele não participa, e a frequência cardíaca está em 52 bpm.
raciocínio
Dois achados atrapalham o reconhecimento e são a razão de ser deste caso. Primeiro: a ausência de urticária não exclui anafilaxia — a pele falta em 10 a 20% das reações, e essa apresentação é comum nas fatais; a queda de pressão isolada após alérgeno provável preenche critério. Segundo: a bradicardia não afasta o diagnóstico. Ela poderia sugerir reação vasovagal, mas o paciente usa betabloqueador (atenolol), e a anafilaxia bradicardiza na iminência da falência cardiorrespiratória. O enalapril é o segundo agravante: inibidor da enzima conversora de angiotensina interfere na resposta compensatória.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de "reação alérgica", dar anti-histamínico e observar É o erro que mata, e atrai porque funciona parcialmente: a urticária melhora e o médico sente que tratou. Só que o anti-H1 não age no broncoespasmo, no edema laríngeo nem na hipotensão — os três mecanismos que levam ao óbito. Pior: administrá-lo consome tempo e atenção, e é por isso que algumas diretrizes já o rebaixaram a terceira linha. Se o quadro preenche um critério, o item é adrenalina; o anti-histamínico vem depois e trata pele.
  2. 2Esperar a hipotensão para chamar de anafilaxia Choque não é requisito em nenhum dos dois primeiros critérios. Urticária mais estridor com pressão normal é anafilaxia. A armadilha é sedutora porque a palavra "anafilático" veio associada a "choque" — mas o choque é o extremo do espectro, não o portão de entrada. E há uma consequência prática: quanto mais a hipotensão se aprofunda ao longo da reação, menor a resposta à adrenalina.
  3. 3Descartar anafilaxia porque não há urticária Sinais cutâneos faltam em 10 a 20% das reações — e são exatamente essas as que chegam tarde, porque ninguém pensou no diagnóstico. Hipotensão, broncoespasmo ou envolvimento laríngeo de início agudo após exposição a alérgeno conhecido ou altamente provável é anafilaxia sem pele nenhuma. Anafilaxia perioperatória é o cenário arquetípico: o paciente está coberto, anestesiado, e a urticária não é vista.
  4. 4Adrenalina subcutânea Parece a via "mais segura" e é a pior. A absorção subcutânea é lenta e imprevisível, e despenca justamente no paciente hipotenso, que é quem mais precisa de nível sérico rápido. A via é intramuscular, no vasto lateral — terço médio anterolateral da coxa. Se a alternativa oferece via subcutânea, ela existe para punir quem decorou uma prática antiga.
  5. 5Confundir 1:1000 com 1:10.000 — e fazer bolus endovenoso A ampola do atendimento é 1:1000, ou 1 mg/mL, e é intramuscular. A endovenosa exige 1:10.000, obtida diluindo 1 mL em 9 mL. São dez vezes de diferença, no meio de uma emergência. Bolus endovenoso da concentração errada produz arritmia potencialmente fatal, hipertensão grave e isquemia miocárdica. A via endovenosa é reservada ao choque iminente ou estabelecido, em infusão lenta e titulada, com monitorização.
  6. 6Sentar ou levantar o paciente "que já melhorou" Síndrome da veia cava e do ventrículo vazio: com o leito vascular dilatado e o volume represado na periferia, a mudança para a vertical esvazia o ventrículo e há relatos de morte súbita — inclusive já em vigência de tratamento. O protocolo brasileiro escreve a proibição com todas as letras. Decúbito dorsal com membros inferiores elevados; posição de conforto apenas se houver dispneia ou vômito, mantendo os membros elevados.
  7. 7Tratar a bradicardia como prova de que não é anafilaxia A regra geral é taquicardia, e a bradicardia aponta reação vasovagal — mas com duas exceções que a prova adora: o paciente em uso de betabloqueador, e a anafilaxia já na iminência da falência cardiorrespiratória. No segundo caso, a bradicardia é sinal de gravidade extrema, não de diagnóstico alternativo. O que realmente separa vasovagal de anafilaxia é a presença de urticária ou angioedema e o contexto da exposição.
  8. 8Confiar em triptase normal para excluir o diagnóstico A triptase sobe a partir de 15 minutos, tem pico entre 1 e 2 horas e pode permanecer elevada por 3 horas ou mais — mas em 36 a 40% dos casos ela fica abaixo de 11,4 µg/L, e normalidade é frequente na anafilaxia alimentar da criança. O exame apoia o diagnóstico quando alterado; valor normal não exclui nada. E o diagnóstico nunca dependeu dele: é clínico, e o tratamento começa antes de qualquer coleta.
  9. 9Dar alta cedo, sem plano e sem encaminhamento Reação bifásica ocorre em até 10% dos casos, entre 8 e 12 horas depois, e cerca de metade das bifásicas se concentra nas primeiras 6 a 12 horas. A régua brasileira observa 6 a 8 horas no caso leve e 24 a 48 horas no grave; quem precisou de duas doses de adrenalina, tem asma mal controlada ou história prévia de bifásica fica no teto. E a alta é prescrição: plano de ação por escrito, identificação portátil, revisão de betabloqueador e inibidor da enzima conversora de angiotensina, notificação da escola quando for criança, e encaminhamento ao alergista sempre — mesmo depois de um episódio único.
  10. 10Achar que corticoide cobre a falta da segunda dose de adrenalina O corticoide tem início de ação tardio, sua padronização de dose não está estabelecida e o benefício na prevenção da reação bifásica está sob revisão — o próprio guia brasileiro escreve que ele tem pouca ou nenhuma ação no tratamento agudo. Nada disso é argumento para retirá-lo do protocolo do seu serviço; é argumento para não deixar de repetir a adrenalina enquanto os sintomas persistem.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Trata-se de anafilaxia (envolvimento cutâneo, respiratório e cardiovascular após exposição a alérgeno). A adrenalina IM (1:1000, região anterolateral da coxa) é a primeira medida e não deve ser retardada. Anti-histamínico H1 isolado e corticoide têm início lento e não revertem a obstrução de via aérea nem a hipotensão, sendo apenas adjuvantes. Adrenalina EV em bolus é reservada a parada/refratariedade e traz risco de arritmia/isquemia. Salbutamol trata o broncoespasmo mas não a anafilaxia sistêmica.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite em voz alta, sem consultar: os três critérios diagnósticos (e que basta UM); a fórmula da hipotensão pediátrica (sistólica abaixo de 70 + 2 × idade em anos) e a do adulto (abaixo de 90 mmHg, ou queda maior que 30% da basal); a prescrição completa da adrenalina — 1:1000 (1 mg/mL), 0,01 mg/kg, teto 0,5 mg no adulto e 0,3 mg na criança, intramuscular no terço médio anterolateral da coxa, repetir a cada 5 a 15 minutos; a posição (decúbito dorsal com membros inferiores elevados) e o nome do que acontece se o paciente se levantar (síndrome do ventrículo vazio); e a frase que resume a segunda linha: anti-histamínico trata pele, corticoide tem início tardio, nenhum dos dois substitui nem atrasa a adrenalina.

em 30 dias

Reconstrua sem olhar: a diluição da adrenalina endovenosa (1 mL da ampola 1:1000 em 9 mL = 1:10.000 = 0,1 mg/mL) e as duas únicas situações que a autorizam; a dose do glucagon no betabloqueado (5 a 15 µg/min IV em infusão contínua) e por que ele funciona sem passar pelo receptor beta; os números da reação bifásica (8 a 12 horas, até 10% dos casos; metade nas primeiras 6 a 12 horas) e o tempo de observação brasileiro (6 a 8 horas no leve, 24 a 48 horas no grave); a janela da triptase (15 minutos a 3 horas, pico entre 1 e 2 horas) e a razão de valor normal não excluir; os gatilhos por faixa etária (leite de vaca e clara de ovo em lactentes e pré-escolares; crustáceos em crianças maiores, adolescentes e adultos; medicamentos liderando o inquérito brasileiro) e a ordem da anafilaxia perioperatória (bloqueador neuromuscular primeiro, látex segundo). Depois abra a tabela de divergências e diga, para cada uma das quatro, qual documento sustenta cada posição e em que ano.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Menino de 7 anos chega à unidade de pronto atendimento carregado pela mãe, 15 minutos depois de comer um salgadinho na festa de um colega. Está com o rosto inchado, a voz mudada e diz que "não consegue engolir". A mãe conta que ele já teve urticária depois de comer amendoim uma vez, mas nunca assim. Ele tenta se sentar no colo dela para respirar melhor. Você é o médico da sala: reconheça o quadro, diga o que faz primeiro, com que dose e por que via, e resolva o pedido de posição. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Anafilaxia — Preparatório para provas | OsceLabs