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Acidente com material biológico: a régua da profilaxia corre ao contrário da régua do risco

Acidente de trabalho com exposição a material biológico e profilaxia pós-exposição

HIV, hepatites virais e prazos da profilaxia

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Enfermeira de 30 anos sofre acidente com agulha oca de grosso calibre visivelmente contaminada com sangue de paciente-fonte HIV positivo, em falha terapêutica com carga viral elevada. O acidente ocorreu há 2 horas. A profissional é HIV negativa. Qual é a conduta correta quanto à profilaxia pós-exposição (PEP)?

02

Como esse tema cai

Este capítulo cobre o acidente de trabalho com exposição a material biológico do adulto: a decisão dos primeiros minutos, as quatro perguntas que indicam ou não a profilaxia antirretroviral, a tabela de hepatite B por situação vacinal, o que existe e o que não existe para a hepatite C, o calendário de retorno e o circuito de registro. O leitor típico é a própria pessoa exposta.

Ficam de fora, com endereço: o manejo da infecção pelo vírus da imunodeficiência humana já estabelecida e a profilaxia pré-exposição, que pertencem ao capítulo de infecção pelo vírus da imunodeficiência humana; a sorologia da hepatite B lida marcador por marcador, que pertence ao capítulo de hepatite B; e a profilaxia depois de violência sexual, que corre por outra régua e tem prazos próprios de notificação.

Também fica de fora a profilaxia depois de mordedura de animal, que compartilha a expressão profilaxia pós-exposição e nada mais: material biológico, janela, esquema e alvo são outros. Confundir as duas é o modo mais rápido de errar uma questão fácil.

O recorte vale para o trabalhador de qualquer ocupação. A definição nacional de caso não restringe o agravo ao pessoal da saúde, e em São Paulo cerca de um décimo das notificações vem de empresas que não são de saúde.

03

O que muda decisão

O acidente cujo paciente é o leitor

A notificação deste agravo é obrigatória em todo o território nacional desde a Portaria nº 777, de 28 de abril de 2004, e a definição de caso é mais larga do que a intuição sugere: notifica-se todo trabalhador que teve contato com material potencialmente contaminado, e não apenas o da saúde. Um coletor de resíduos que se fere numa agulha dentro do saco de lixo é caso notificável pela mesma ficha que a residente da enfermaria.

O tamanho do problema é conhecido pela vigilância, não pela clínica. Em São Paulo, a série municipal mostra queda em 2020, na pandemia, e alta em 2023 e 2024 — e a explicação registrada no próprio documento é administrativa: um projeto do Ministério Público do Trabalho junto aos serviços especializados das empresas e, em dezembro de 2023, notificações sanitárias expedidas a cinquenta e sete hospitais que não notificavam nada. O número subiu porque a subnotificação caiu, não porque o risco aumentou.

Vale reter o outro dado do mesmo levantamento, porque ele mede a qualidade do registro e não a do cuidado: em cerca de um quinto das fichas o nome da empresa vinha em branco, ignorado ou não informado. A ficha existe para ligar o acidente ao ambiente que o produziu; sem o nome da empresa, ela vira uma estatística de doença e deixa de ser um instrumento de vigilância.

Do outro lado da mesa, o relógio é curto. A vigilância acompanha o acidentado por no mínimo seis meses e encerra o caso por volta do oitavo mês. A decisão que este capítulo ensina, porém, cabe inteira na primeira hora — e ela é tomada, quase sempre, por um plantonista que acabou de ser acordado para atender um colega.

Três vírus, três ferramentas, e a régua ao contrário

Os três agentes que interessam ao acidente percutâneo têm riscos de transmissão muito diferentes, e é aqui que a intuição trai. O vírus da imunodeficiência humana transmite-se em cerca de 0,3% das exposições percutâneas com sangue contaminado e em cerca de 0,09% das exposições de mucosa. O vírus da hepatite C fica em torno de 1,8%, com faixa relatada de zero a sete por cento. O vírus da hepatite B é, de longe, o mais transmissível: com fonte reagente para o antígeno de superfície e para o antígeno de replicação, o risco de hepatite clínica é de vinte e dois a trinta e um por cento, e o de evidência sorológica de infecção vai de trinta e sete a sessenta e dois por cento.

Ordenados pelo risco, ficam assim: hepatite B em primeiro, hepatite C em segundo, imunodeficiência humana em terceiro e distante. Ordenados pelo que se faz na sala de atendimento, a fila se inverte. Para a hepatite B, o profissional com resposta vacinal conhecida e adequada recebe, nas três colunas da tabela nacional, nenhuma medida. Para a hepatite C, não existe profilaxia — o documento federal é explícito ao dizer que a única forma de reduzir o risco de transmissão desse vírus é a prevenção do acidente. Para a imunodeficiência humana, que é o menor dos três riscos, indica-se um esquema de três antirretrovirais por vinte e oito dias.

A inversão não é incoerência: ela mede a existência de ferramenta, não a gravidade. Contra a hepatite B existe uma vacina, e ela foi aplicada anos antes do acidente — a decisão já estava tomada quando a agulha entrou. Contra a imunodeficiência humana existe medicamento, e ele só funciona depois. Contra a hepatite C não existe nem uma coisa nem outra, e o que sobra é diagnosticar cedo para tratar a infecção aguda.

É por isso que o maior número deste capítulo é o que menos decide sozinho. Sessenta e dois por cento é o número mais impressionante da página e o que menos muda a conduta de hoje: quem decide agora é o 0,3%, que aciona a receita, e um sim ou não sobre a resposta vacinal, que dispensa tudo.

Três colunas de alturas diferentes sobre a mesma base, com uma faixa horizontal cruzada pela mais alta e pela mais baixa, e não pela intermediária.
A altura da coluna é o risco de transmissão por acidente percutâneo; a faixa é o patamar em que existe alguma medida a tomar hoje. O mais alto e o mais baixo cruzam a faixa. O do meio, não.

As quatro perguntas não são um escore

O protocolo nacional organiza a indicação da profilaxia antirretroviral em quatro perguntas. O material biológico é de risco? O tipo de exposição é de risco? O tempo entre a exposição e o atendimento é inferior a 72 horas? A pessoa exposta é não reagente no momento do atendimento? E então vem a frase que muda tudo: se todas as respostas forem sim, a profilaxia está indicada.

Isso não é um escore. Não existe três de quatro, não existe faixa de pontuação, não existe risco intermediário. É uma conjunção: um único não encerra a conversa. Quem chega ao serviço com setenta e três horas de acidente não tem indicação, por mais grave que tenha sido a exposição; quem se feriu em pele íntegra não tem indicação, por mais alta que seja a carga viral da fonte. Este é o ponto que separa esta régua do escore de garganta e do escore de trombose, e é exatamente onde a banca costuma armar.

A primeira pergunta traz uma lista fechada. São materiais com risco: sangue, sêmen, fluidos vaginais, líquidos de serosas — peritoneal, pleural e pericárdico —, líquido amniótico e líquor. São materiais sem risco: suor, lágrima, fezes, urina, vômito, secreção nasal e saliva. Um detalhe da lista de sem risco vale a questão inteira: a saliva sai da lista em ambiente odontológico, onde ela costuma vir com sangue.

A segunda pergunta também é lista, e tem um par simétrico que a prova adora: mordedura com presença de sangue é exposição de risco; mordedura sem sangue não é. A mesma boca, o mesmo dente, a mesma pele — e o que decide é o sangue visível. Pele íntegra nunca é exposição de risco, e essa é a linha que anula todas as outras.

Repare no que a estrutura faz com o raciocínio: a checagem do material e do tipo de exposição vem antes de tudo. Se o material é urina e a pele estava íntegra, não se pergunta a hora nem se testa ninguém. A régua não soma, ela filtra — e o achado que tira o caso do filtro torna irrelevante todo o resto da página.

O texto pergunta quatro vezes, o desenho pergunta seis

Quatro páginas adiante do quadro das quatro perguntas, o mesmo protocolo traz a Figura 2, o fluxograma de indicação. E o desenho tem seis caixas de decisão, não quatro. Depois do material, do tipo de exposição, do tempo e do estado sorológico da pessoa exposta, o fluxograma acrescenta duas perguntas que o quadro do texto não faz: a pessoa-fonte tem exame reagente ou desconhecido, e a pessoa-fonte teve exposição de risco nos últimos trinta dias.

Não é detalhe de diagramação, porque as duas páginas mandam condutas diferentes para o mesmo paciente. Pelo quadro, quatro sins indicam a profilaxia. Pelo desenho, o mesmo caso com fonte comprovadamente não reagente e sem exposição de risco no último mês desemboca na caixa que diz para não recomendar a profilaxia e dispensa até o acompanhamento sorológico. O mesmo profissional sai com receita pela página do texto e sem nada pela página do fluxograma.

E há uma terceira voz no mesmo documento: no item que trata do estado sorológico da fonte, o protocolo escreve que esse é o único critério não obrigatório para a indicação da profilaxia, porque nem sempre a fonte está presente ou disponível. O texto rebaixa a fonte a critério dispensável; o desenho a promove a caixa de decisão com poder de veto.

Para a prova, a saída é ler o verbo do enunciado. Quando a questão descreve fonte desconhecida ou ausente e pergunta a conduta, a resposta segue as quatro perguntas e a profilaxia é indicada. Quando a questão faz questão de dizer que a fonte foi testada, que o resultado é não reagente e que não há história de exposição recente, a banca está desenhando o fluxograma e quer a suspensão. O detalhe que denuncia o recorte é a menção aos trinta dias: essa frase só existe no desenho.

Os primeiros minutos: o que fazer e o que estraga

O cuidado imediato com a área exposta é curto e quase todo negativo. Em exposição percutânea ou cutânea, lavagem exaustiva com água e sabão. Em mucosa, lavagem exaustiva com água ou solução salina fisiológica. E acaba aí.

O que o documento federal proíbe é mais cobrado do que o que ele manda: são contraindicados os procedimentos que aumentam a área exposta, e ele nomeia dois — cortes e injeções locais —, além do uso de soluções irritantes, com três exemplos nominais: éter, hipoclorito e glutaraldeído. Espremer o dedo para fazer sangrar entra na primeira categoria: aumenta o trauma local sem nenhuma evidência de que reduza a inoculação.

A prevenção que teria evitado tudo isso está na norma trabalhista, não no protocolo clínico. A norma de segurança em serviços de saúde veda o reencape e a desconexão manual de agulhas, atribui o descarte ao próprio trabalhador que usou o objeto perfurocortante, e fixa um número que cai em prova: o limite máximo de enchimento do recipiente rígido deve estar cinco centímetros abaixo do bocal, com o recipiente em suporte exclusivo e em altura que permita ver a abertura.

A mesma norma põe a vacinação no colo do empregador, e com três obrigações encadeadas: fornecer gratuitamente as vacinas eficazes contra os agentes a que o trabalhador está exposto, fazer o controle da eficácia sempre que recomendado e providenciar reforço, e registrar a vacinação no prontuário clínico individual. Há ainda um dever de documentação que muda a lógica da recusa: se o trabalhador recusa a vacina, o empregador precisa guardar documento comprobatório disso, informando antes as vantagens, os efeitos colaterais e os riscos da falta.

Esse encadeamento explica por que a próxima seção é decidida por um exame que muitas vezes não existe. O controle da eficácia vacinal é obrigação legal do empregador; quando ele não foi feito, o custo aparece na madrugada do acidente, em forma de imunoglobulina.

Hepatite B: a linha que decide é a que costuma faltar

A tabela nacional de hepatite B na exposição ocupacional cruza duas entradas: a situação vacinal e sorológica do profissional exposto, nas linhas, e o estado do antígeno de superfície da pessoa-fonte, nas colunas — reagente, não reagente e desconhecido. Ela vale para o exposto que tem o próprio antígeno de superfície não reagente.

Duas linhas resolvem quase todas as questões. A primeira é a do profissional não vacinado ou com esquema incompleto: com fonte reagente, imunoglobulina somada a iniciar ou completar a vacinação; com fonte não reagente ou desconhecida, apenas vacinar. A segunda é a linha que a prova mais esconde: resposta vacinal conhecida e adequada, definida como antígeno protetor igual ou superior a dez unidades por mililitro, dá nenhuma medida nas três colunas — inclusive quando a fonte é reagente.

Três doses de vacina produzem esse título protetor em mais de noventa por cento dos adultos e jovens saudáveis, e em mais de noventa e cinco por cento de lactentes, crianças e adolescentes. Os que não respondem à primeira série recebem, com fonte reagente, imunoglobulina somada à primeira dose da segunda série; os que não respondem depois de seis doses recebem duas doses de imunoglobulina, com intervalo de um mês, porque para eles a vacina já mostrou que não funciona.

Agora o detalhe que faz o capítulo. A linha da resposta adequada exige que a resposta seja conhecida — não basta ter tomado as três doses. Quem tem esquema completo e resposta vacinal desconhecida cai numa linha própria, que manda testar o antígeno protetor. E o rodapé dessa linha traz o prazo: se o resultado não estiver disponível dentro de 48 horas, conduz-se o caso como resposta vacinal inadequada.

Leia de novo o que isso significa. O trabalhador imunizado há dez anos, com anticorpo suficiente circulando agora, recebe imunoglobulina e recomeça série vacinal porque o laboratório demorou. O que mudou de braço no fluxograma não foi a imunidade dele: foi a ausência de um papel. O déficit apaga o sinal, e o sinal apagado é lido como sinal negativo.

O relógio da imunoglobulina e o relógio do exame

A imunoglobulina humana anti-hepatite B tem dose e prazo próprios: dose única de zero vírgula zero seis mililitro por quilo, por via intramuscular, em extremidade diferente da que recebeu a vacina, com teto de cinco mililitros, e pode ser aplicada junto com a vacina desde que em locais diferentes. Está disponível nos centros de referência para imunobiológicos especiais.

O prazo tem duas pontas, e a prova usa as duas. Recomenda-se aplicá-la nas primeiras vinte e quatro horas. O limite, porém, é de sete dias na exposição percutânea e de catorze dias na exposição sexual. São dois números diferentes para o mesmo produto, separados pela via de exposição — e o do acidente de trabalho é o menor dos dois.

Ponha as duas réguas lado a lado e a decisão fica óbvia, ainda que ela pareça contraintuitiva. Uma régua decide a investigação: o antígeno protetor do profissional, com prazo de quarenta e oito horas para chegar. A outra decide o relógio: a janela da imunoglobulina, de sete dias na exposição percutânea. As duas não competem, porque a janela é larga o bastante para o exame caber inteiro dentro dela, com cinco dias de folga.

O que se ganha esperando é preciso: uma dose de imunoglobulina que não seria necessária, mais o recomeço de uma série vacinal em quem já está protegido. O que se arrisca é zero, desde que o exame volte no prazo. Esperar custa uma dose, não uma hepatite — e o rodapé das quarenta e oito horas existe justamente para que a espera não vire indefinição.

Duas réguas empilhadas, uma em horas e outra em dias, com linhas pontilhadas que se cruzam entre elas e terminam no vazio, uma acabando num frasco com receita e a outra num relógio.
A régua de cima é o exame que decide qual linha da tabela vale; a de baixo é a janela do produto. O cruzamento acontece dentro da janela, e a faixa sombreada é a folga que sobra depois de esperar.

A profilaxia antirretroviral e o que a janela de setenta e duas horas compra

Indicada a profilaxia, o esquema preferencial é único e independe do tipo de exposição e do material envolvido: tenofovir com lamivudina, em comprimido coformulado de trezentos miligramas com trezentos miligramas, um comprimido ao dia, somado a dolutegravir de cinquenta miligramas, um comprimido ao dia. A duração é de 28 dias. O tenofovir não entra em quem tem lesão renal aguda, e o dolutegravir na apresentação de cinquenta miligramas vale para quem tem mais de seis anos e mais de vinte quilos.

O teste rápido é peça central e por um motivo cronométrico: ele dispensa infraestrutura laboratorial, pode ser feito na frente da pessoa e devolve resultado em 30 minutos ou menos. Dentro de uma janela de setenta e duas horas, meia hora não é custo. Por isso o protocolo exige que todo serviço que ofereça a profilaxia se organize também para oferecer a testagem — e por isso, do outro lado, manda que exame nenhum atrase o começo da profilaxia, dizendo isso literalmente sobre o hemograma no quadro de seguimento.

Agora a conta que a régua esconde. Imagine mil acidentes percutâneos com fonte reagente e sangue visível. Com risco de três por mil, esperam-se três conversões sorológicas se ninguém tomar nada. A profilaxia reduz esse risco em cerca de quatro quintos, de modo que ela evita algo em torno de duas conversões e meia. Ou seja: mil pessoas tomam vinte e oito dias de três antirretrovirais para que menos de três não adoeçam, e mais de novecentas e noventa delas tomariam remédio sem nenhuma chance de benefício, porque nunca iam converter.

Isso não é crítica ao protocolo — é a razão de ele existir na forma em que existe. Como não há maneira de saber qual dos mil é o que vai converter, trata-se os mil; e como o custo individual é vinte e oito dias de um esquema bem tolerado, a conta fecha. É a mesma aritmética que sustenta qualquer profilaxia de evento raro e grave, e é por isso que a pergunta certa nunca é o tamanho do risco, e sim se a exposição atravessou as quatro perguntas.

Vale ainda uma nota de prazo que a prova cobra pelo avesso: depois de setenta e duas horas a profilaxia deixa de ser indicada, mas o atendimento não acaba. Testa-se, vacina-se quando indicado, acompanha-se. Perder a janela retira a receita, não o paciente.

Hepatite C: o vírus do meio, que não tem o que oferecer

A hepatite C ocupa a posição mais desconfortável do capítulo: risco intermediário e arsenal vazio. Não há vacina, não há imunoglobulina, não há profilaxia medicamentosa. O documento federal encerra o assunto numa frase que vale decorar: a única forma de reduzir o risco de transmissão desse vírus é a prevenção do acidente.

O que sobra, e não é pouco, é o diagnóstico precoce. Detectar a conversão sorológica ou o material genético do vírus durante o seguimento permite tratar a infecção ainda na fase aguda, o que reduz a progressão para a forma crônica e corta novas transmissões. O seguimento é feito com anticorpo, carga viral e enzima hepática, na fonte e no exposto, imediatamente — o protocolo escreve até 48 horas —, depois entre quatro e seis semanas e outra vez entre quatro e seis meses.

Há uma armadilha metodológica no meio disso, e ela está escrita no próprio protocolo: a janela imunológica para detecção de anticorpos contra o vírus da hepatite C varia de 33 a 129 dias. Um resultado não reagente na fonte, colhido logo depois do acidente, pode ser falso negativo — e por isso, havendo história epidemiológica compatível naquele intervalo, recomenda-se testar a fonte outra vez ao fim da janela e manter o acompanhamento do exposto.

Repare no que essa janela faz com o fluxograma da seção anterior. A caixa que pergunta se a fonte teve exposição de risco nos últimos trinta dias existe exatamente por isso: um exame não reagente colhido dentro da janela não é prova de ausência de infecção, é prova de ausência de anticorpo. Trinta dias, no entanto, é um corte estreito diante de uma janela que pode chegar a cento e vinte e nove — e essa distância entre o corte do desenho e o número do texto é matéria de prova.

Quando o exposto volta, e por que o calendário muda de página

Aqui o capítulo encontra a divergência mais concreta do conjunto, e ela cabe num caractere. O protocolo federal traz dois calendários de retorno. No quadro de seguimento da profilaxia, o teste para o vírus da imunodeficiência humana é feito no primeiro atendimento, na quarta semana e na 12ª semana após o início do esquema. No apêndice de cronograma de exames, o mesmo teste aparece no atendimento inicial, entre quatro e seis semanas, e numa terceira coluna que decide o retorno.

Essa terceira coluna tem dois rótulos diferentes em dois arquivos oficiais do mesmo protocolo. Na versão exportada em julho, ela se chama três semanas. Na versão exportada em setembro, com a paginação idêntica e um único caractere de diferença no arquivo inteiro, ela se chama três meses. Três semanas e três meses são o mesmo número com unidades diferentes, e o profissional exposto ganha um retorno em vinte e um dias por um arquivo e em noventa dias pelo outro.

O detalhe que resolve é que a coluna vizinha já é de quatro a seis semanas: um retorno de três semanas cairia antes dela, invertendo a ordem cronológica da própria tabela — e o quadro de seguimento, na mesma publicação, marca a décima segunda semana. Quando dois rótulos brigam, quem desempata é a coluna vizinha e o quadro do corpo do texto, não a memória.

E há um terceiro calendário, municipal, que mede o mesmo intervalo por outro caminho: o material de vigilância de São Paulo manda testar para imunodeficiência humana no momento zero, com trinta e noventa dias, e para hepatites B e C no momento zero, com noventa e cento e oitenta dias. Nenhuma dessas datas coincide exatamente com as do protocolo federal, e nenhuma das duas fontes menciona a outra.

Uma linha do apêndice federal fecha a seção e vale a questão: os testes para sífilis, gonococo, clamídia e gravidez, que aparecem no cronograma, trazem asterisco com a observação de que não precisam ser feitos em caso de exposição ocupacional. A tabela é a mesma para a violência sexual e para o acidente de trabalho, e é o rodapé que separa os dois pacientes.

Corrente de quatro elos com uma seta descendo ao longo dela e outra subindo por fora, um bloco tracejado separado embaixo e duas chaves abraçando trechos diferentes da fila.
A seta cheia é o percurso do trabalhador acidentado; a seta vazada é o retorno da informação ao ambiente que produziu o acidente. O bloco tracejado, fora da corrente, é a exposição ocorrida fora do trabalho, que não entra neste circuito.

O que fecha o caso: a comunicação, a ficha e a alta

O acidente com material biológico corre em dois trilhos que não se substituem. O trilho clínico termina no consultório, com a última sorologia. O trilho legal e de vigilância só termina na ficha, e é ele que a prova de medicina do trabalho cobra.

A ficha nacional do agravo tem um campo de preenchimento obrigatório para dizer se foi emitida a comunicação de acidente de trabalho, o documento previdenciário devido quando o trabalhador é segurado. É um campo de sim, não, não se aplica e ignorado — e a existência da opção não se aplica é o que separa o vínculo formal do informal: o trabalhador sem carteira gera notificação e não gera comunicação previdenciária.

O campo de evolução do caso é o que fecha o registro, e as suas opções ensinam a lógica do seguimento: alta com conversão sorológica, alta sem conversão sorológica, e alta por paciente-fonte negativo. Repare que a última fecha o caso pelo resultado da fonte, e não pelo do exposto — é a única saída que dispensa esperar as janelas.

Há também o que não se notifica, e o critério é o vínculo com o trabalho, não o material. Contatos com material biológico ocorridos fora do ambiente ou das condições de trabalho, como o que acontece em casa com uma criança, ficam de fora da ficha. O mesmo sangue, a mesma agulha, e o registro muda porque muda o cenário.

Uma última nota sobre o que os números da vigilância significam. Em São Paulo, no ano de 2024, dezoito casos foram detectados com evolução registrada como conversão sorológica, e o próprio documento informa que todos foram encerrados erroneamente e depois corrigidos. Esses dezoito representam 0,3% das notificações do município no ano — o mesmo dígito do risco de transmissão por exposição percutânea, e sem nenhuma relação com ele. Um dos números é uma probabilidade por acidente; o outro é uma taxa de erro de preenchimento sobre o total de fichas. Quando dois números coincidem, vale perguntar sempre qual é o denominador de cada um antes de tratá-los como a mesma medida.

04

Da agulha à receita, na ordem em que se decide

A sequência abaixo vale para o acidente de trabalho com exposição a material biológico em adulto, na primeira hora de atendimento. Ela é filtro, não somatório: o primeiro não encerra o ramo.

  1. 1Cuide da área exposta: água e sabão na pele e na exposição percutânea; água ou solução salina fisiológica na mucosa. Não corte, não injete nada no local e não use éter, hipoclorito nem glutaraldeído.
  2. 2Classifique o material. Sangue, sêmen, fluido vaginal, líquido de serosa, líquido amniótico e líquor têm risco. Suor, lágrima, fezes, urina, vômito, secreção nasal e saliva não têm — e a saliva volta a ter em ambiente odontológico.
  3. 3Classifique a exposição. Percutânea, mucosa, pele não íntegra e mordedura com sangue têm risco. Pele íntegra e mordedura sem sangue não têm.
  4. 4Olhe o relógio. Menos de setenta e duas horas mantém o ramo aberto para a profilaxia antirretroviral; mais do que isso fecha a receita e mantém o acompanhamento.
  5. 5Teste a pessoa exposta com teste rápido. Resultado não reagente mantém o ramo aberto; reagente encaminha para tratamento, porque a infecção é anterior ao acidente.
  6. 6Teste a pessoa-fonte quando ela existir e estiver disponível. É o único critério não obrigatório da lista, e é o que o fluxograma usa para suspender a profilaxia já iniciada.
  7. 7Prescreva tenofovir com lamivudina somado a dolutegravir, por vinte e oito dias, sem esperar exame nenhum além do teste rápido da pessoa exposta.
  8. 8Resolva a hepatite B pela tabela de situação vacinal. Resposta conhecida e adequada dispensa qualquer medida. Resposta desconhecida manda testar o antígeno protetor, e o resultado precisa chegar em quarenta e oito horas.
  9. 9Aplique imunoglobulina quando a tabela mandar, de preferência nas primeiras vinte e quatro horas e no máximo até sete dias na exposição percutânea.
  10. 10Programe o seguimento da hepatite C: anticorpo, carga viral e enzima hepática, com retorno entre quatro e seis semanas e entre quatro e seis meses.
  11. 11Feche o circuito administrativo: notifique o agravo e verifique se cabe emitir a comunicação de acidente de trabalho.

Os três vírus, lado a lado

VírusRisco por exposição percutâneaO que existe para hojeO que decideObservação para a prova
Hepatite B, fonte com antígeno de replicação reagente22% a 31% de hepatite clínica; 37% a 62% de evidência sorológicaVacina e imunoglobulinaA resposta vacinal do expostoMaior risco dos três e o mais frequentemente resolvido com nenhuma medida
Hepatite B, fonte só com antígeno de superfície reagente1% a 6% de hepatite clínica; 23% a 37% de conversão sorológicaVacina e imunoglobulinaA mesma tabela de situação vacinalAs duas faixas do mesmo vírus mudam pelo antígeno de replicação da fonte
Hepatite CCerca de 1,8%, faixa relatada de 0% a 7%NadaSó o seguimentoRisco intermediário e única linha sem profilaxia possível
Imunodeficiência humana, percutâneaCerca de 0,3%Esquema de três antirretroviraisAs quatro perguntas e o relógio de setenta e duas horasMenor risco e única linha que gera receita
Imunodeficiência humana, mucosaCerca de 0,09%O mesmo esquemaAs mesmas quatro perguntasMucosa é exposição de risco, e o esquema não muda por causa dela

Hepatite B na exposição ocupacional, linha por linha

Situação do profissional expostoFonte com antígeno de superfície reagenteFonte não reagenteFonte desconhecida
Não vacinadoImunoglobulina e iniciar vacinaçãoIniciar vacinaçãoIniciar vacinação
Vacinação incompletaImunoglobulina e completar vacinaçãoCompletar vacinaçãoCompletar vacinação
Resposta vacinal conhecida e adequada, com dez unidades por mililitro ou maisNenhuma medidaNenhuma medidaNenhuma medida
Resposta vacinal desconhecidaTestar o antígeno protetor; adequada dispensa medida, inadequada indica imunoglobulina e vacinaTestar o antígeno protetor; inadequada indica segunda sérieTestar o antígeno protetor; inadequada indica segunda série
Sem resposta após a primeira série de três dosesImunoglobulina e primeira dose da segunda sérieIniciar nova série de três dosesIniciar nova série de três doses
Sem resposta após a segunda série, seis doses no totalDuas doses de imunoglobulina, com um mês de intervaloNenhuma medida específicaDuas doses de imunoglobulina, com um mês de intervalo

Quando o exposto volta: três calendários para o mesmo acidente

DocumentoVírus da imunodeficiência humanaHepatite BHepatite C
Protocolo federal, quadro de seguimento da profilaxiaPrimeiro atendimento, 4ª semana e 12ª semana após o início do esquemaNão consta neste quadroNão consta neste quadro
Protocolo federal, apêndice de cronograma, arquivo de julhoAtendimento inicial, 4 a 6 semanas e três semanasAntígeno de superfície aos 6 meses; antígeno protetor no inicial e aos 6 mesesAnticorpo no inicial, 4 a 6 semanas e 6 meses
Protocolo federal, apêndice de cronograma, arquivo de setembroAtendimento inicial, 4 a 6 semanas e três mesesIdêntico ao arquivo de julhoIdêntico ao arquivo de julho
Protocolo federal, quadro específico de hepatite CNão se aplicaNão se aplicaAté 48 horas, 4 a 6 semanas e 4 a 6 meses
Material municipal de vigilância de São PauloMomento zero, 30 dias e 90 diasMomento zero, 90 dias e 180 diasMomento zero, 90 dias e 180 dias

A lista das quatro perguntas é conjunção, não escore: um único não encerra o ramo, e não existe conduta intermediária por pontuação parcial.

O rodapé das quarenta e oito horas se aplica ao antígeno protetor do profissional exposto, não à sorologia da fonte. Confundir os dois inverte a conduta da tabela de hepatite B.

Sífilis, gonococo, clamídia e teste de gravidez constam do cronograma do protocolo porque a tabela serve também à violência sexual. O rodapé dispensa os quatro em caso de exposição ocupacional.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Até quando começar a profilaxia antirretroviral

A profilaxia deve ser instituída até setenta e duas horas após a exposição, e quanto mais precoce o início, maior a eficácia. Depois desse prazo, ela não está mais indicada, e o protocolo afirma que não há benefício demonstrado.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pós-Exposição de Risco à Infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, infecções sexualmente transmissíveis e hepatites virais, Ministério da Saúde, 2021

O retardo na notificação e no atendimento coloca a exposição num intervalo de tempo em que o benefício da profilaxia é indeterminado, e esse intervalo começa após vinte e quatro a trinta e seis horas.

Recomendações para atendimento e acompanhamento de exposição ocupacional a material biológico, Ministério da Saúde, 2004

Na prova

As duas réguas são do mesmo Ministério, com dezessete anos entre elas, e discordam sobre o paciente que chega na quadragésima hora. O que vale hoje é o protocolo de 2021: a janela é de setenta e duas horas e a indicação existe até o último minuto dela. O recorte se identifica pelo desenho do enunciado — quando a questão descreve o acidente com hora cravada entre trinta e setenta e duas horas e oferece a opção de não iniciar por perda de janela, ela está testando se o candidato ainda usa a régua antiga. Enunciado que descreve mais de setenta e duas horas não tem controvérsia: a receita sai de cena e o acompanhamento permanece.

Qual é a terceira coleta do exposto

O teste para o vírus da imunodeficiência humana é feito no primeiro atendimento, na quarta semana e na décima segunda semana após o início do esquema, segundo o quadro de seguimento laboratorial do protocolo.

Protocolo federal de profilaxia pós-exposição, quadro de seguimento laboratorial, 2021

O cronograma de exames do mesmo protocolo põe a terceira coleta numa coluna cujo rótulo diverge entre os dois arquivos oficiais publicados: três semanas no arquivo exportado em julho e três meses no arquivo exportado em setembro.

Protocolo federal de profilaxia pós-exposição, apêndice de cronograma de exames laboratoriais, versões de julho e de setembro

O material municipal de vigilância marca a coleta para o vírus da imunodeficiência humana no momento zero, aos trinta dias e aos noventa dias, e a das hepatites no momento zero, aos noventa e aos cento e oitenta dias.

Procedimentos para investigação epidemiológica de acidentes de trabalho com exposição a material biológico, Cadernos de Saúde do Trabalhador, Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, 2025

Na prova

Nenhuma banca vai cobrar a diferença entre dois arquivos do mesmo protocolo, mas todas cobram a terceira coleta. O desempate está dentro da própria tabela: a coluna vizinha já é de quatro a seis semanas, de modo que uma terceira coleta de três semanas cairia antes dela e inverteria a ordem cronológica. Marque o intervalo de três meses, que é o único compatível com a décima segunda semana do quadro de seguimento e o mesmo que o relatório de recomendação da comissão nacional já trazia. Se o enunciado citar explicitamente o serviço municipal e usar contagem em dias, siga trinta e noventa dias.

Qual é o risco de infecção pela hepatite B em acidente percutâneo

Com fonte reagente para o antígeno de superfície e para o antígeno de replicação, o risco de hepatite clínica varia de vinte e dois a trinta e um por cento e o de evidência sorológica de infecção, de trinta e sete a sessenta e dois por cento. Com fonte reagente apenas para o antígeno de superfície, os valores caem para um a seis por cento e vinte e três a trinta e sete por cento.

Recomendações para atendimento e acompanhamento de exposição ocupacional a material biológico, Ministério da Saúde, 2004

O risco de infecção pela hepatite B varia de seis a trinta por cento, podendo chegar a sessenta por cento conforme o estado de saúde do paciente-fonte.

Cadernos de Saúde do Trabalhador, Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, 2025, citando documento municipal de 2001

Na prova

As duas faixas parecem competir e medem coisas diferentes. A régua federal separa dois desfechos com o mesmo denominador: adoecer com hepatite clínica e apenas mostrar marcador sorológico. A régua municipal funde os dois num único rótulo de risco de infecção, e o resultado é uma faixa cujo teto de trinta por cento fica abaixo do piso de trinta e sete por cento da faixa sorológica federal — e cuja extensão até sessenta por cento atravessa as duas sem separar nenhuma. Em prova, o número que costuma aparecer é o de até sessenta por cento, usado para contrastar com o risco da imunodeficiência humana; se o enunciado pedir a distinção entre hepatite clínica e evidência sorológica, ele está na régua federal de 2004.

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Caso resolvido

Técnica de enfermagem de 26 anos sofre acidente com agulha oca durante punção venosa em paciente internado, há 90 minutos. A agulha estava visivelmente contaminada com sangue e atingiu a polpa do segundo dedo, com sangramento. O paciente-fonte tem antígeno de superfície da hepatite B reagente e teste rápido para o vírus da imunodeficiência humana não reagente, colhido há dois dias, sem história de exposição de risco recente. A trabalhadora relata três doses de vacina contra hepatite B aos 15 anos, sem cartão em mãos e sem sorologia de controle. O teste rápido dela, feito agora, é não reagente.
primeiro, cuide da área e não piore o ferimento
Água e sabão, exaustivamente. Nada de espremer o dedo, de ampliar o corte ou de aplicar éter, hipoclorito ou glutaraldeído — os três estão nomeados como contraindicados. O cuidado imediato leva menos de um minuto e não compete com nenhuma das decisões seguintes.
segundo, rode as quatro perguntas
Sangue é material de risco. Percutânea é exposição de risco. Noventa minutos está muito dentro das 72 horas. E a exposta é não reagente agora. Quatro sins: pelo quadro do texto, a profilaxia antirretroviral está indicada e começa já.
terceiro, olhe a fonte — e saiba que ela é o único critério dispensável
A fonte é não reagente e sem exposição de risco recente. É exatamente a combinação que o fluxograma usa para não recomendar a profilaxia. Como o teste da fonte tem dois dias e não há história de risco no último mês, o caso desemboca na suspensão do esquema depois de iniciado — e não no seu adiamento, porque esperar não é opção dentro de uma janela de setenta e duas horas.
quarto, resolva a hepatite B, que aqui é o problema de verdade
Fonte reagente para o antígeno de superfície coloca o caso na coluna mais exigente da tabela. A trabalhadora não está na linha de resposta conhecida e adequada, porque não há sorologia — está na linha de resposta vacinal desconhecida, que manda testar o antígeno protetor.
quinto, use o rodapé das quarenta e oito horas
Se o antígeno protetor voltar em até 48 horas com dez unidades por mililitro ou mais, a conduta é nenhuma medida específica. Se não voltar nesse prazo, conduz-se como resposta inadequada: imunoglobulina somada à primeira dose de vacina. A janela do produto é de sete dias na exposição percutânea, então há folga para esperar o exame.
sexto, feche o circuito e programe o retorno
Notifique o agravo e verifique a emissão da comunicação de acidente de trabalho, já que ela é celetista. Programe a sorologia de hepatite C no atendimento inicial e nos retornos, e o teste do vírus da imunodeficiência humana nas coletas de seguimento. O caso será encerrado como alta por paciente-fonte negativo se a fonte se confirmar, sem esperar todas as janelas.
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Agora feche você

Agente comunitária de saúde de 41 anos é atendida na unidade básica após se ferir com agulha usada, ao auxiliar a troca de um curativo em domicílio. O acidente ocorreu há 30 horas. Ela não sabe informar quem é o paciente-fonte e o material não pôde ser recuperado. Traz cartão de vacinação com seis doses de vacina contra hepatite B registradas ao longo de dez anos e duas sorologias de controle anexadas, ambas com antígeno protetor abaixo de dez unidades por mililitro. O teste rápido dela para o vírus da imunodeficiência humana é não reagente. Ela pergunta se precisa tomar remédio.
Passo 1
Rode as quatro perguntas com o que a vinheta dá e diga se a profilaxia antirretroviral está indicada, explicando o que a ausência da pessoa-fonte muda e o que ela não muda.
Passo 2
Localize a trabalhadora na tabela de hepatite B, dizendo em qual linha ela cai e por quê. Preste atenção ao número de doses registradas no cartão.
Passo 3
Diga a conduta de hepatite B para a coluna correspondente ao estado do antígeno de superfície da fonte, e escreva por extenso o que a coluna de fonte desconhecida manda fazer nesse caso.
Passo 4
Verifique os dois relógios do caso e diga se algum deles já se fechou. Nomeie os dois prazos separadamente e diga a que produto cada um pertence.
Passo 5
Feche o circuito administrativo, dizendo se cabe notificação e se cabe comunicação de acidente de trabalho para esta trabalhadora.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar as quatro perguntas como escore Não existe três de quatro. A indicação exige todas as respostas afirmativas, e um único não encerra o ramo — inclusive quando o não é o do tempo e a exposição foi gravíssima. Alternativa que oferece profilaxia com setenta e quatro horas de acidente está errada por estrutura, não por dose.
  2. 2Ler a linha da resposta vacinal adequada como esquema completo A tabela pede resposta conhecida e adequada, com antígeno protetor igual ou superior a dez unidades por mililitro. Três doses documentadas sem sorologia caem na linha da resposta desconhecida, que manda testar. Enunciado que diz apenas esquema completo na infância não autoriza a resposta de nenhuma medida.
  3. 3Trocar o prazo de quarenta e oito horas pelo prazo da imunoglobulina As quarenta e oito horas são o limite de espera pelo antígeno protetor do exposto; passado esse tempo, conduz-se como resposta inadequada. O prazo do produto é outro: até sete dias na exposição percutânea, com aplicação preferencial nas primeiras vinte e quatro horas.
  4. 4Oferecer profilaxia para a hepatite C Não há vacina, imunoglobulina nem antiviral profilático para esse vírus depois da exposição. Qualquer alternativa que ofereça medicamento preventivo contra a hepatite C está errada; o que se faz é seguimento com anticorpo, carga viral e enzima hepática, para tratar a infecção aguda se ela aparecer.
  5. 5Confundir mordedura com e sem sangue A mordedura só é exposição de risco quando há sangue presente. É um par simétrico que a banca escreve com cuidado: se o enunciado diz que não houve sangramento e a pele ficou íntegra, o caso morre na segunda pergunta e não há profilaxia nem acompanhamento.
  6. 6Esquecer que a saliva sai da lista de material sem risco no ambiente odontológico A saliva figura entre os materiais sem risco de transmissão ocupacional, com uma exceção nomeada: o ambiente odontológico, onde ela costuma estar misturada a sangue. Enunciado que descreve acidente em consultório dentário está usando a exceção, não a regra.
  7. 7Esperar exame para começar o esquema antirretroviral O protocolo manda que exame nenhum atrase o início da profilaxia, e diz isso literalmente sobre o hemograma. O único teste que precede a decisão é o teste rápido da pessoa exposta, que devolve resultado em até trinta minutos. Colher creatinina e enzimas hepáticas é seguimento, não pré-requisito.
  8. 8Achar que o vínculo empregatício decide a notificação Duas coisas diferentes: a notificação do agravo alcança todo trabalhador, com carteira ou sem, do setor saúde ou não. A comunicação de acidente de trabalho é documento previdenciário e só cabe a quem é segurado. Por isso a ficha nacional tem a opção de não se aplica nesse campo.
  9. 9Notificar exposição ocorrida fora do trabalho O critério do agravo é o vínculo com o ambiente ou o processo de trabalho. Contato com material biológico em casa, como o que acontece com uma criança, recebe o mesmo atendimento clínico e fica fora da ficha nacional deste agravo.
  10. 10Espremer o ferimento ou usar antisséptico agressivo São contraindicados os procedimentos que aumentam a área exposta, e o documento federal nomeia cortes e injeções locais, além de soluções irritantes como éter, hipoclorito e glutaraldeído. O cuidado imediato é água e sabão na pele, água ou solução salina fisiológica na mucosa.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Exposição de alto risco (agulha oca de grosso calibre, sangue visível, fonte HIV+ com CV alta) indica PEP com esquema tríplice preferencial TDF/3TC + dolutegravir por 28 dias, iniciada o quanto antes (ideal <2 h, até 72 h). Monoterapia com AZT está abandonada. Não se aguarda sorologia da fonte/profissional para iniciar — começa-se já. O risco não é desprezível numa exposição percutânea profunda com fonte virêmica. Dose única não confere profilaxia (esquema é de 28 dias).

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as quatro perguntas da indicação, na ordem, e diga por que elas não formam um escore. Em seguida, recite as duas listas fechadas — material com risco e material sem risco — e nomeie a exceção da saliva. Termine dizendo, sem consultar, o risco percutâneo dos três vírus e qual deles gera receita.

em 30 dias

Refaça a tabela de hepatite B de cabeça, com as seis linhas e as três colunas, e explique em voz alta por que a linha da resposta conhecida e adequada dá nenhuma medida mesmo com fonte reagente. Depois, separe os dois prazos que se parecem: as quarenta e oito horas do antígeno protetor e os sete dias da imunoglobulina na exposição percutânea. Feche montando o circuito administrativo do caso, da comunicação de acidente ao campo de evolução da ficha.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Uma técnica de enfermagem de 29 anos chega ao pronto atendimento com o dedo enrolado num papel-toalha, dizendo que se furou com a agulha de um paciente há uma hora e que já lavou o dedo com álcool três vezes. Ela não sabe se tomou a terceira dose da vacina de hepatite B e chegou sem o cartão. Você tem duas listas fechadas para percorrer, um relógio de setenta e duas horas, uma tabela de seis linhas e um exame que pode não voltar a tempo. Conduza o atendimento e decida, antes de qualquer receita, se este acidente atravessa as quatro perguntas. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Acidente de trabalho com exposição a material biológico e… – Acidente com material biológico: a régua da profilaxia corre ao contrário da régua do risco — Preparatório para provas | OsceLabs