PediatriaNefrologia Pediátrica

Lesão renal aguda e distúrbios hidroeletrolíticos

A creatinina que sobe é apenas o início: a prova cobra estadiar pela KDIGO, reconhecer hipercalemia e disnatremias ameaçadoras e indicar diálise pela complicação, não por um número isolado.

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Responda antes de ler

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Questão de abertura

Após cálcio na hipercalemia, qual terapia desloca K para dentro da célula?

02

Como esse tema cai

Lesão renal aguda (LRA) em Pediatria é definida por elevação da creatinina e/ou redução da diurese, mesmo antes de a creatinina ultrapassar o intervalo laboratorial de referência. A questão de prova costuma ocultar a gravidade ao mostrar uma creatinina aparentemente baixa: em criança com pouca massa muscular, aumento de 0,3 mg/dL pode ser significativo.

Este capítulo integra LRA, volume e os distúrbios de sódio e potássio mais urgentes. O objetivo não é decorar fórmulas isoladas, mas decidir se o paciente precisa de volume, restrição, estabilização de membrana, correção hipertônica ou terapia renal substitutiva.

03

O que muda decisão

1. Reconhecer e estadiar a LRA

Pelo KDIGO, LRA existe quando a creatinina aumenta ≥0,3 mg/dL em 48 horas, atinge ≥1,5 vez o basal nos últimos 7 dias ou a diurese fica <0,5 mL/kg/h por pelo menos 6 horas. Creatinina é marcador tardio e influenciado por idade, massa muscular, hidratação e método laboratorial; tendência e diurese são mais úteis que um valor isolado.

Estágio 1: creatinina 1,5–1,9 vez o basal ou aumento ≥0,3 mg/dL, ou diurese <0,5 mL/kg/h por 6–12 h. Estágio 2: creatinina 2,0–2,9 vezes o basal ou diurese <0,5 por ≥12 h. Estágio 3: creatinina 3 vezes o basal, ≥4 mg/dL, início de terapia renal substitutiva ou, em menores de 18 anos, eTFG <35 mL/min/1,73 m²; pela diurese, <0,3 mL/kg/h por ≥24 h ou anúria ≥12 h.

Se o basal é desconhecido, procure resultados anteriores e interprete com contexto. Estimar um basal por eTFG presumida pode ajudar em epidemiologia, mas gera erro no indivíduo. Peso diário e balanço hídrico são essenciais; aumento de peso é marcador prático de sobrecarga.

2. Pré-renal, intrínseca ou pós-renal

LRA pré-renal decorre de perfusão inadequada sem lesão estrutural inicial: perdas gastrointestinais, hemorragia, sepse, baixo débito ou vasodilatação. Se prolongada, pode evoluir para necrose tubular aguda. LRA intrínseca inclui necrose tubular, nefrite intersticial, glomerulonefrite, síndrome hemolítico-urêmica e doença vascular. LRA pós-renal resulta de obstrução bilateral ou em rim único funcional.

História e exame procuram perdas, ingestão, febre, choque, edema, hipertensão, exantema, artralgia, urina escura, drogas nefrotóxicas e dificuldade miccional. Urina tipo I com sedimento é de alto rendimento: cilindros hemáticos e dismorfismo sugerem glomerular; piúria pode acompanhar nefrite intersticial; cilindros granulosos favorecem lesão tubular. Ausência desses achados não exclui LRA.

Ultrassom renal e de vias urinárias é indicado quando há suspeita de obstrução, anomalia congênita, rim único, bexiga palpável ou causa não esclarecida. Fração excretada de sódio/ureia sofre influência de diuréticos, sepse e doença tubular; nunca substitui avaliação clínica.

Três mecanismos de lesão renal aguda pediátrica: hipoperfusão, lesão parenquimatosa e obstrução
A classificação fisiopatológica organiza o raciocínio: LRA pré-renal decorre de hipoperfusão, a intrínseca de lesão do parênquima e a pós-renal de obstrução. A evolução pode sobrepor mecanismos.

3. Primeiras horas: perfusão sem produzir sobrecarga

Interrompa nefrotóxicos evitáveis, ajuste doses à função renal, monitore pressão, peso, diurese e eletrólitos. Se há choque ou hipovolemia, administre cristaloide isotônico em bolus de 10–20 mL/kg e reavalie após cada alíquota: frequência cardíaca, perfusão, pressão, ausculta pulmonar, fígado, edema e diurese. Sepse, cardiopatia e desnutrição exigem alíquotas e vigilância individualizadas.

Oligúria isolada não significa que todo paciente precise de volume. Edema, crepitações, hepatomegalia, hipertensão e ganho ponderal sugerem sobrecarga, na qual bolus repetidos pioram o quadro. Diurético de alça pode tratar congestão em paciente responsivo, mas não reverte a lesão renal nem melhora prognóstico por si só.

Após restaurar perfusão, prescreva manutenção considerando diurese, perdas extrarrenais e água de oxidação; evite o piloto automático da manutenção integral. Soluções isotônicas reduzem hiponatremia hospitalar em muitas situações, mas composição e volume dependem da doença, eletrólitos e capacidade renal.

4. Hipercalemia: estabilizar, deslocar e remover

Confirme uma amostra hemolisada quando o paciente está estável, mas não atrase tratamento diante de potássio muito elevado, fraqueza, arritmia ou alterações no ECG. ECG pode mostrar T apiculada, encurtamento de QT, prolongamento de PR, perda de P, alargamento de QRS e padrão sinusoidal; ECG normal não garante segurança em hipercalemia importante.

Primeiro estabilize o miocárdio quando houver alteração elétrica ou hipercalemia grave: gluconato de cálcio 10% IV, frequentemente 0,5–0,7 mL/kg conforme protocolo, com monitorização. O cálcio não reduz o potássio e pode ser repetido se o ECG não melhorar. Em seguida, desloque potássio para dentro da célula com insulina regular IV associada à glicose e considere beta-2 agonista; bicarbonato é mais útil quando há acidose metabólica significativa.

A remoção ocorre por diurese se função renal e volume permitirem, resinas em cenários selecionados e, de modo definitivo, diálise. Monitore glicemia repetidamente após insulina. Suspender fontes de potássio, drogas que elevam K e transfusões desnecessárias faz parte do tratamento.

5. Hiponatremia: sintoma neurológico define urgência

Hiponatremia é sódio <135 mmol/L. Avalie tonicidade, estado volêmico, velocidade de instalação e sintomas. Hiperglicemia reduz sódio medido sem necessariamente representar hipotonicidade extrema; pseudohiponatremia é menos comum com métodos modernos. Dor, náusea, doença pulmonar ou do SNC e fluidos hipotônicos podem aumentar ADH.

Convulsão, coma ou sinais de herniação atribuíveis à hiponatremia exigem salina hipertônica 3% em bolus de 2–3 mL/kg, conforme protocolo, com reavaliação clínica e do sódio; pode-se repetir até melhora, buscando elevação inicial de cerca de 4–6 mmol/L. O objetivo imediato é reduzir edema cerebral, não normalizar o sódio.

Depois da estabilização, a correção geralmente não deve ultrapassar 8 mmol/L em 24 horas em hiponatremia crônica ou de duração desconhecida, e deve ser ainda mais conservadora em alto risco de desmielinização osmótica. Interrompa perdas, restrinja água quando há SIADH e trate a causa. Se houver correção excessiva, nefrologia/UTI pode indicar desmopressina e água livre.

6. Hipernatremia: água entra devagar no cérebro

Hipernatremia geralmente reflete déficit de água em relação ao sódio. Avalie perdas, concentração inadequada de fórmula ou soro, diabetes insípido, diurese osmótica e capacidade de acesso a água. Sinais clínicos de desidratação podem ser menos evidentes porque o volume intravascular é relativamente preservado.

Se há choque, restaure primeiro a circulação com cristaloide isotônico. Depois, calcule manutenção e déficit, repondo de forma gradual. Em hipernatremia crônica ou de duração desconhecida, reduza o sódio em no máximo cerca de 0,5 mmol/L/h e 10–12 mmol/L/dia. Correção rápida pode causar edema cerebral e convulsões.

Meça sódio a intervalos curtos e ajuste a infusão pela resposta real, não apenas pela fórmula. Hipernatremia extrema, oligúria, sobrecarga ou causa renal requer discussão precoce com terapia intensiva/nefrrologia.

7. Outros distúrbios e interpretação integrada

Hipocalcemia sintomática pode causar tetania, convulsão e QT prolongado; cálcio IV exige monitorização e atenção a extravasamento. Hipomagnesemia torna hipocalcemia e hipocalemia refratárias e deve ser corrigida. Hiperfosfatemia acompanha LRA e lise celular, frequentemente com hipocalcemia.

Acidose metabólica na LRA pode refletir choque, sepse ou retenção de ácidos. Trate perfusão e causa. Bicarbonato não é correção automática de todo déficit; considere-o em acidemia grave selecionada, hipercalemia e perdas específicas, atento a sódio, volume e ventilação.

Na síndrome de lise tumoral, monitore potássio, fósforo, cálcio, ácido úrico, creatinina e ritmo; hidratação e hipouricemiantes são preventivos, e anormalidades graves podem exigir diálise precoce.

8. Quando chamar nefrologia e indicar terapia renal substitutiva

Peça avaliação precoce em estágio 2–3, progressão rápida, causa incerta, suspeita glomerular, síndrome hemolítico-urêmica, hipertensão importante, distúrbio eletrolítico difícil ou necessidade potencial de terapia renal substitutiva. Não espere a creatinina atingir um número arbitrário.

Indicações clássicas podem ser lembradas por AEIOU: Acidose refratária; Eletrólitos, sobretudo hipercalemia refratária; Intoxicações dializáveis; Overload/sobrecarga com hipoxemia; Uremia com encefalopatia, pericardite ou sangramento. Em Pediatria, sobrecarga hídrica progressiva e incapacidade de oferecer nutrição ou terapias também pesam.

Modalidade — hemodiálise intermitente, terapia contínua ou diálise peritoneal — depende de tamanho, estabilidade, acesso, urgência e recursos. A indicação clínica é mais importante que a modalidade.

9. Recuperação não encerra o risco

A diurese pode aumentar na fase de recuperação e causar perdas de água, potássio e magnésio; ajuste reposição. Revise medicamentos, pressão, creatinina e proteinúria. Episódio de LRA aumenta risco de doença renal crônica, hipertensão e recorrência.

Organize reavaliação em até 3 meses — antes nos casos graves — com função renal, urina e pressão. Explique à família hidratação em doenças intercorrentes, sinais de alarme e risco de anti-inflamatórios e outros nefrotóxicos.

04

Da oligúria à decisão terapêutica

Use diurese, tendência da creatinina, perfusão e congestão em conjunto.

  1. 1Confirmar critérios KDIGO
  2. 2Classificar mecanismo provável
  3. 3Avaliar hipovolemia versus sobrecarga
  4. 4Tratar K/Na/acidose ameaçadores
  5. 5Reavaliar resposta e indicação de TRS

Perfusão baixa

Bolus isotônico em alíquotas com reavaliação.

Congestão

Evitar bolus repetidos; considerar diurético e suporte.

Eletrólito ameaçador

Tratar imediatamente, antes da confirmação etiológica completa.

Refratariedade

Nefrologia e terapia renal substitutiva sem esperar creatinina-limite.

Estadiamento KDIGO pediátrico

EstágioCreatininaDiurese
11,5–1,9× basal ou +0,3 mg/dL<0,5 mL/kg/h por 6–12 h
22,0–2,9× basal<0,5 mL/kg/h por ≥12 h
33× basal, ≥4 mg/dL, TRS ou eTFG <35<0,3 por ≥24 h ou anúria ≥12 h

Emergências eletrolíticas

DistúrbioAmeaça imediataIntervenção inicial
Hipercalemia com ECGArritmiaCálcio IV; depois insulina/glicose e remoção
Hiponatremia convulsivaEdema cerebralNaCl 3% 2–3 mL/kg em bolus
Hipernatremia com choqueHipoperfusãoCristaloide isotônico; depois correção lenta
Acidose refratáriaDepressão cardiovascularTratar causa e avaliar TRS

Diurese deve ser expressa em mL/kg/h.

Peso diário torna a sobrecarga visível.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quanto fluido no primeiro bolus?

10 mL/kg

Preferível quando há cardiopatia, desnutrição, congestão ou maior risco de sobrecarga.

Protocolos conservadores

20 mL/kg

Pode ser usado em hipovolemia clara, com reavaliação imediata.

Ressuscitação pediátrica

Na prova

A resposta mais segura explicita alíquota de 10–20 mL/kg e reavaliação; não prescreva bolus seriados cegos.

Bicarbonato na acidose

Não rotineiro

Corrigir perfusão e ventilação costuma ser prioritário.

Cuidados críticos

Uso selecionado

Pode ser indicado em acidemia grave, hipercalemia ou intoxicação por bloqueador de canal de sódio.

Nefrologia/toxicologia

Na prova

O pH isolado não basta: considere causa, ventilação, sódio e volume.

06

Caso resolvido

Criança de 18 kg com diarreia apresenta extremidades frias, taquicardia, mucosas secas, oligúria de 0,3 mL/kg/h por 8 horas e creatinina 0,8 mg/dL; basal há um mês era 0,4.
Diagnóstico
LRA estágio 2 pela creatinina 2 vezes o basal; a diurese também é anormal.
Mecanismo
Hipoperfusão por perdas sugere componente pré-renal.
Conduta
Cristaloide isotônico 10–20 mL/kg com reavaliação de perfusão e congestão após a alíquota.
Proteção renal
Suspender nefrotóxicos, ajustar doses, medir eletrólitos e balanço.
Reavaliação
Persistência após perfusão adequada sugere lesão intrínseca ou outra causa e exige investigação.
07

Agora feche você

Paciente com LRA oligúrica apresenta K 7,0 mmol/L, QRS alargado e glicemia 110 mg/dL.
Primeiro objetivo
_____
Redução transitória do potássio
_____
Remoção definitiva
_____
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Onde a banca derruba

  1. 1Creatinina 'normal' Aumento de 0,3 mg/dL pode definir LRA em criança.
  2. 2Oligúria igual a hipovolemia Congestão pode ser a causa; examine antes do bolus.
  3. 3Cálcio reduz potássio Cálcio apenas estabiliza membrana.
  4. 4ECG normal tranquiliza Hipercalemia grave pode ter ECG inicialmente normal.
  5. 5Normalizar sódio rapidamente O alvo agudo é melhorar sintomas e evitar correção excessiva.
  6. 6Alta sem seguimento LRA eleva risco renal crônico e exige reavaliação.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Insulina promove deslocamento; monitorar glicemia.

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Recuperação

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Plano de revisão

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Lesão renal aguda e distúrbios hidroeletrolíticos — Preparatório para provas | OsceLabs