Outras EspecialidadesNeurologia e Neurocirurgia

Nervo cortado e plexo arrancado: dois relógios que não são o mesmo

Lesões de nervos periféricos e do plexo braquial

Lesão periférica, localização e momento da cirurgia

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 28 anos é atendido no pronto-socorro após queda de motocicleta há 2 horas, com trauma direto na face lateral do joelho direito. Refere que não consegue estender ativamente o pé nem realizar dorsiflexão. Ao exame: PA 130x80 mmHg, FC 88 bpm, joelho estável, sem derrame significativo, mas com queda do pé (marcha escarvante). Há hipoestesia no dorso do pé e no primeiro espaço interdigital. Os pulsos pedioso e tibial posterior estão presentes e simétricos. Qual estrutura foi mais provavelmente lesada?

02

Como esse tema cai

O capítulo cobre a lesão focal de nervo periférico e do plexo braquial no adulto: a secção por objeto cortante, a lesão fechada por tração, a compressão aguda e as neuropatias de aprisionamento na parte que interessa ao diagnóstico topográfico. O eixo é a decisão de tempo — quem vai para a sala hoje, quem é observado com exame seriado e quem tem uma janela de meses que se fecha.

Fica de fora o que já tem dono. A polineuropatia difusa e a síndrome de Guillain-Barré são do capítulo de polineuropatias desta apostila; a ataxia por doença dos gânglios sensitivos é do capítulo anterior; o trauma raquimedular e a compressão medular são do capítulo de trauma raquimedular, e a lesão de medula é o diagnóstico que mais se confunde com plexo arrancado. As fraturas do membro superior — supracondiliana, do rádio distal, do escafoide — e a fratura da diáfise umeral com lesão do nervo radial são da apostila de Ortopedia, que também trata do princípio de imobilização; aqui a fratura entra só como pista de mecanismo. O atendimento inicial ao politraumatizado é da apostila de Trauma. E o enquadramento ocupacional das neuropatias de aprisionamento, com nexo causal, comunicação de acidente e vigilância, é da apostila de Medicina do Trabalho — aqui trata-se apenas de localizar a lesão.

As fontes se dividem em três funções. Dois artigos clássicos deram nome aos graus de lesão, e é por esses nomes que a prova pergunta. Revisões cirúrgicas fixam as janelas de reparo e a diferença de estratégia entre raiz arrancada e nervo rompido depois do gânglio. E uma referência eletrofisiológica explica por que um exame pedido cedo demais não responde a pergunta nenhuma.

O achado mais contraintuitivo do capítulo vale ser anunciado agora: na avulsão de raiz, o potencial sensitivo do nervo pode continuar presente justamente no território em que o paciente não sente nada. Entender por que isso acontece resolve sozinho uma família inteira de questões.

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O que muda decisão

O grau da lesão define o prognóstico antes de qualquer exame

A classificação de Seddon tem três degraus e continua sendo a linguagem das questões. A neuropraxia é o bloqueio da condução sem interrupção do axônio: a bainha sofreu, o cilindro não. Não há degeneração distal, a recuperação é completa e ocorre em dias a semanas, e ela não depende de crescimento nenhum — é o desbloqueio de um trecho que continuava inteiro. O exemplo cotidiano é a paralisia por compressão postural prolongada.

A axonotmese interrompe o axônio e preserva os tubos de tecido conjuntivo que o envolvem. O segmento distal degenera, mas o trilho permanece, e o axônio regenera dentro do próprio tubo, chegando ao alvo correto. A recuperação é boa e lenta, porque depende de crescimento.

A neurotmese interrompe axônio e envoltórios: não há trilho para guiar o crescimento. A recuperação espontânea útil não acontece, e o tratamento é cirúrgico. Entre a axonotmese pura e a neurotmese completa, a classificação de Sunderland detalha cinco graus conforme a estrutura rompida — axônio, endoneuro, perineuro, epineuro —, o que explica os quadros que recuperam de forma incompleta e desorganizada, com reinervação de músculo errado.

Sobre a velocidade, guarde um número e uma consequência. O axônio regenera a cerca de um milímetro por dia. Some a isso o tempo de espera antes de o crescimento começar e transforme a distância em calendário: um nervo seccionado no punho precisa de muitos meses para alcançar a musculatura intrínseca da mão. Não é lentidão do serviço, é biologia — e é o que se explica ao paciente antes de ele criar expectativa de melhora em semanas.

A consequência oposta também é aritmética. Enquanto o axônio não chega, o músculo está denervado, e a denervação prolongada leva à perda progressiva das placas motoras e à substituição do músculo por tecido fibroso. Passado um intervalo longo — descrito na literatura na ordem de um a dois anos —, mesmo um nervo perfeitamente reconstruído encontra um alvo incapaz de responder. É por isso que atraso não é neutro: cada mês perdido consome uma parte do resultado possível.

Uma quarta possibilidade fecha o quadro conceitual e aparece em enunciado de trauma: a lesão em continuidade, em que o nervo está anatomicamente inteiro mas contém, no seu interior, feixes com graus diferentes de lesão. Ela é a razão de o exame seriado existir: nem o aspecto externo nem a imagem dizem o que está acontecendo dentro do tronco nervoso, e só a evolução ao longo de semanas separa o que vai recuperar do que não vai.

Aberto e cortante, fechado e tracionado: dois calendários

Toda a decisão de tempo começa pelo mecanismo, e existem dois grandes grupos com condutas opostas.

A ferida aberta por objeto cortante — vidro, faca, lâmina — produz secção limpa, com cotos bem definidos e pouca lesão no tecido vizinho. Aqui a suposição de trabalho é a neurotmese, e o tratamento é a exploração com reparo microcirúrgico. Quando a ferida é limpa e há equipe e material disponíveis, o reparo primário, feito nos primeiros dias, é o que oferece melhor resultado: os cotos ainda não retraíram, a identificação dos feixes é mais fácil e a distância a percorrer é menor.

A ferida contaminada, por esmagamento ou por arma de fogo muda o cálculo. Nesses casos a extensão real do dano ao nervo não é visível no primeiro dia: o trecho lesado se demarca ao longo de duas a três semanas, e reparar cedo demais significa suturar coto doente em coto doente. Por isso a prática admite o reparo primário tardio, por volta de três semanas, com limpeza e estabilização das partes moles primeiro.

Tres linhas de tempo paralelas com faixas hachuradas em posicoes diferentes: junto a origem na de corte limpo, adiante na de ferida contaminada e bem mais tarde e mais larga na de tracao fechada, esta ultima fechada por um traco vertical.
Três mecanismos, três janelas. O corte limpo abre a janela no mesmo momento da lesão; a ferida contaminada empurra o reparo para depois que o dano se demarca; a tração fechada só decide depois de semanas de observação, e sua janela é a mais larga e a única que se fecha com um limite claro adiante.

A lesão fechada por tração, típica do acidente de motocicleta com afastamento forçado entre a cabeça e o ombro, é o terceiro caso e o mais diferente de todos. Não há ferida para explorar, o nervo costuma estar em continuidade, e o mesmo trauma pode ter produzido neuropraxia num feixe e avulsão em outro. Operar cedo significa operar quem recuperaria sozinho; nunca operar significa perder quem não vai recuperar. A solução é o exame seriado — clínico e eletrofisiológico — ao longo de semanas, com decisão cirúrgica entre três e seis meses quando não houver sinal de recuperação.

A compressão aguda fecha a lista: garrote, gesso apertado, posição prolongada em cirurgia, hematoma em expansão. Aqui a conduta é remover a causa e reavaliar, porque a maioria é neuropraxia. A exceção é a compressão que continua atuando — hematoma que cresce, síndrome compartimental —, em que a descompressão é urgência e o nervo é apenas uma das estruturas em risco.

Resuma o eixo assim: ferida cortante limpa vai para a sala; ferida suja ou por esmagamento espera a demarcação; tração fechada é observada com prazo marcado; compressão tem a causa removida. Enunciado que descreve o mecanismo já entregou metade da conduta.

O exame que localiza sem pedir imagem

No punho e na mão, três nervos dividem o território e cada um tem um teste motor e um teste sensitivo que cabem em segundos.

O nervo mediano dá sensibilidade às polpas do polegar, do indicador, do médio e da metade radial do anelar, e comanda a abdução palmar do polegar, aquela em que o polegar se afasta da palma apontando para o teto. Sua lesão alta compromete também a flexão das falanges distais do polegar e do indicador, o que se testa pedindo o gesto de fazer um círculo unindo as pontas dos dois dedos — quando o círculo vira um triângulo, há falha desse comando.

O nervo ulnar dá sensibilidade à borda ulnar da mão, ao dedo mínimo e à metade ulnar do anelar, e comanda a musculatura intrínseca: afastar e aproximar os dedos, e segurar uma folha entre o polegar e o indicador sem dobrar a falange distal do polegar. Sua lesão produz a mão em garra, mais evidente nos dois últimos dedos.

O nervo radial é o da extensão: punho, dedos e polegar. Sua lesão característica é o punho caído, e a sensibilidade comprometida ocupa o dorso da primeira comissura. Ele acompanha a diáfise do úmero, o que explica sua vulnerabilidade nas fraturas desse osso.

Dois testes de beira de leito acrescentam informação e não custam nada. O sinal de Tinel é a sensação de choque irradiada para o território do nervo quando se percute o ponto suspeito: percutido sobre a cicatriz, indica que ali há axônios em brotamento ou um neuroma; percutido em pontos progressivamente mais distais ao longo das semanas, ele marca o avanço da regeneração, e essa progressão é um dos poucos sinais clínicos de que o nervo está crescendo. O teste do enrugamento aproveita a inervação simpática da pele: o segmento denervado não enruga quando a mão fica imersa em água morna, o que ajuda em criança e em paciente que não colabora com o exame de sensibilidade.

As neuropatias de aprisionamento entram aqui pelo lado topográfico. A compressão do mediano no túnel do carpo produz parestesia noturna nas polpas dos três primeiros dedos e, tardiamente, atrofia da eminência tenar; a do ulnar no cotovelo produz queixa na borda ulnar da mão com fraqueza dos intrínsecos. O que muda em relação ao trauma é o tempo — meses a anos, com instalação insidiosa — e o fato de que a discussão sobre exposição ocupacional, nexo e notificação pertence a outro capítulo.

Registre por escrito o exame de admissão, com força por miótomos e sensibilidade por dermátomos. Não é formalidade: sem esse registro, a comparação que decide a cirurgia meses depois não existe, e ninguém consegue afirmar se houve ou não recuperação.

Por que o exame elétrico pedido cedo não responde nada

É comum o enunciado descrever uma eletroneuromiografia realizada horas depois do trauma e perguntar o que fazer com o resultado. A resposta correta passa por entender a cronologia da degeneração walleriana.

Quando um axônio é interrompido, o segmento distal não morre imediatamente. Ele continua conduzindo por alguns dias: as respostas motoras à estimulação distal caem entre o terceiro e o quinto dia, e as sensitivas, um pouco depois. Ou seja, um exame feito muito cedo pode encontrar condução distal preservada num nervo completamente seccionado — e o achado não significa integridade, significa que a degeneração ainda não terminou.

Do outro lado, os potenciais de desnervação que a agulha procura no músculo — fibrilações e ondas positivas — só aparecem depois de duas a três semanas. Antes disso, sua ausência não informa nada. É por isso que um exame de 36 horas não distingue neuropraxia de secção completa: nenhum dos dois marcadores que fariam essa distinção teve tempo de se instalar.

A consequência prática se enuncia em duas frases. Na ferida aberta e cortante, com déficit no território correspondente, o exame elétrico precoce não muda a indicação: quem decide é o mecanismo somado ao exame físico, e a exploração cirúrgica é ao mesmo tempo diagnóstica e terapêutica. Na lesão fechada, o exame tem papel central, mas o momento certo é a partir de três a quatro semanas, e o rendimento maior está na repetição — porque o que interessa não é a foto, é a comparação entre duas fotos.

O que se procura na repetição são potenciais de reinervação: unidades motoras polifásicas de baixa amplitude aparecendo em músculo antes silencioso. Sua presença indica que o axônio chegou e desautoriza a cirurgia; sua ausência sustentada, com o prazo correndo, é o que empurra a decisão para a sala.

Vale um cuidado adicional na lesão fechada de plexo. O exame precisa incluir os potenciais sensitivos do lado acometido, porque é neles que mora o sinal que separa a lesão de dentro da lesão de fora do canal — assunto da próxima seção.

Plexo braquial: a pergunta é se a raiz saiu da medula

No plexo braquial, o problema não é apenas qual tronco foi lesado, e sim onde, em relação ao gânglio da raiz dorsal. Essa distinção governa tudo o que vem depois.

A lesão pós-ganglionar ocorre distalmente ao gânglio, no tronco ou na divisão. O coto proximal existe e está conectado à medula, o que permite enxerto nervoso ligando os dois lados e admite recuperação espontânea quando a lesão é em continuidade.

A lesão pré-ganglionar, ou avulsão, é o arrancamento da raiz de dentro do canal medular. Não há coto proximal utilizável, a recuperação espontânea não ocorre, e o reparo direto é impossível. A reconstrução se faz por transferência nervosa, em que se toma um nervo doador funcionante e se o conecta ao nervo alvo, aceitando perder uma função menor para recuperar uma função essencial.

Cinco sinais apontam avulsão, e o enunciado costuma espalhá-los pelo texto. A síndrome de Horner ipsilateral — pálpebra caída, pupila menor, menos suor na hemiface — indica lesão das fibras simpáticas que saem com a raiz de T1, dentro do canal. A escápula alada por fraqueza do serrátil anterior e a fraqueza dos romboides apontam nervos que se desprendem das raízes muito proximalmente, e por isso só falham quando o problema está na raiz. A paralisia do diafragma, com elevação da hemicúpula na radiografia, aponta as raízes cervicais altas que formam o nervo frênico. A dor neuropática intensa em queimação no membro anestesiado, refratária a analgésico comum, é típica da desaferentação por avulsão. E há o quinto sinal, que é eletrofisiológico e contraintuitivo.

Esse quinto sinal é o potencial sensitivo preservado em território anestesiado. Parece contradição e não é: o corpo do neurônio sensitivo mora no gânglio da raiz dorsal, que fica fora da medula. Quando a raiz é arrancada dentro do canal, o gânglio permanece ligado ao seu axônio periférico, que continua íntegro e conduzindo — por isso o exame registra resposta sensitiva. Mas a conexão com a medula foi rompida, e a informação não chega ao cérebro: o paciente não sente. Território anestesiado com potencial sensitivo presente é, portanto, assinatura de lesão antes do gânglio.

A imagem completa o quadro. A mielotomografia cervical e a ressonância do plexo procuram a pseudomeningocele: coleção de líquido em forma de divertículo junto ao forame, no ponto onde a raiz foi arrancada e a bainha rompida deixou o líquido escapar. É um sinal útil e não é perfeito — pode faltar em raiz avulsionada e pode existir sem que a raiz correspondente esteja completamente arrancada —, o que mantém o exame físico e a eletrofisiologia no centro da decisão.

Por fim, o padrão motor nomeia o nível. A lesão do tronco superior, das raízes C5 e C6, produz ombro sem abdução e cotovelo sem flexão, com o membro pendendo em rotação interna e antebraço pronado — o quadro clássico de Erb. A lesão do tronco inferior, de C8 e T1, poupa o ombro e destrói a mão, com fraqueza dos intrínsecos e, com frequência, Horner associado — o quadro de Klumpke. E a lesão completa deixa o membro inteiro parado e insensível, que é o que se vê no trauma de alta energia.

A janela que corre e o que se faz enquanto ela corre

A reconstrução do plexo tem prazo, e ele é o dado de conduta mais cobrado. Quando há evidência inequívoca de avulsão — Horner, escápula alada, romboides fracos, diafragma elevado, potencial sensitivo preservado em território anestesiado, pseudomeningocele —, não há o que esperar: a recuperação espontânea não acontece, e o encaminhamento para transferência nervosa é imediato.

Quando a lesão é fechada e o padrão é pós-ganglionar ou indeterminado, espera-se recuperação espontânea por três a quatro meses, com exame clínico e eletrofisiológico seriados. Ausência de sinal de reinervação nesse intervalo indica cirurgia, e o consenso prático coloca o melhor resultado nas reconstruções realizadas até seis meses do trauma. Depois disso os resultados pioram progressivamente, porque o alvo muscular vai perdendo a capacidade de aceitar reinervação.

Some as duas contagens e a mensagem fica clara: entre três e seis meses existe uma janela, e ela é curta para um sistema de saúde com fila. É por isso que o encaminhamento ao serviço de cirurgia de nervos periféricos é conduta do primeiro atendimento, e não algo a fazer quando ficar evidente que não houve melhora.

Enquanto a janela corre, o que se faz não é esperar de braços cruzados. A fisioterapia com mobilização passiva diária de ombro, cotovelo, punho e dedos previne rigidez articular e retração — e é decisiva, porque nervo reconstruído em articulação anquilosada não devolve função. A órtese de posicionamento mantém o membro em posição funcional. Os cuidados com a pele insensível evitam queimaduras, feridas por pressão e lesões que o paciente não percebe.

A dor neuropática merece prescrição própria e é erro frequente de conduta. Dor em queimação e em choque no membro anestesiado, com predomínio noturno e sem resposta a analgésico comum, não melhora com aumento de dose de analgésico simples nem com anti-inflamatório: ela pede fármaco de ação neuropática. Insistir no analgésico comum é a alternativa errada mais escolhida nessas questões.

Completa o pacote o acompanhamento respiratório quando há paralisia diafragmática, com fisioterapia e vigilância da função pulmonar, e o cuidado com o impacto sobre trabalho e vida — o paciente típico é jovem, produtivo e sai do acidente com um membro dominante inútil. Explicar o prognóstico sem prometer recuperação, e ao mesmo tempo sem apagar a possibilidade da reconstrução, é parte do que a estação prática pontua.

Na lesão isolada de nervo já reparada, a lógica é a mesma em escala menor: órtese, reabilitação da mão, proteção da área insensível e uma expectativa de tempo calculada pela distância entre a sutura e o músculo alvo, na conta de um milímetro por dia.

As quatro operações, e o que cada uma exige para existir

A cirurgia de nervo tem quatro procedimentos básicos, e a escolha entre eles não é preferência do cirurgião: é consequência do que sobrou. Saber o que cada um exige explica por que a avulsão muda a estratégia inteira.

A neurólise libera o nervo do tecido cicatricial que o comprime, sem seccioná-lo. Ela se aplica à lesão em continuidade em que o tronco conduz, ainda que mal, e é o procedimento mais conservador — resolve compressão, não resolve interrupção.

A sutura direta, ou neurorrafia, aproxima os dois cotos e os alinha feixe a feixe. Ela exige duas condições simultâneas: cotos viáveis e ausência de tensão. Nervo suturado sob tensão isquemia na linha de sutura e cicatriza com fibrose, o que anula o reparo — por isso ganhar comprimento flexionando a articulação é solução ruim, que troca um problema por outro.

O enxerto de nervo entra quando há perda de substância entre os cotos. Toma-se um nervo sensitivo doador de menor importância funcional, tipicamente da perna, e ele serve de ponte por onde os axônios do coto proximal crescerão. O preço é conhecido e aceito: uma área de hipoestesia definitiva no território do doador, e duas linhas de sutura para o axônio atravessar em vez de uma.

A transferência nervosa, ou neurotização, é a operação da avulsão. Quando não existe coto proximal — porque a raiz saiu da medula —, nenhum enxerto resolve, já que enxerto é ponte e ponte precisa de duas margens. A saída é tomar um nervo funcionante de menor prioridade e ligá-lo ao nervo alvo, aceitando perder uma função menor para recuperar uma essencial. É uma escolha explícita de prioridades, e por isso a conversa com o paciente antecede a cirurgia.

Essa hierarquia de prioridades tem lógica funcional e aparece em questão de conduta. Num membro superior devastado, recupera-se primeiro o que devolve autonomia: flexão do cotovelo, que traz a mão até o corpo, e estabilidade e abdução do ombro, que posicionam o membro no espaço. A sensibilidade protetora da mão vem em seguida, porque mão insensível se fere. A motricidade fina dos intrínsecos é a última da fila e a que menos recupera, porque é a mais distante do ponto de reparo e a que mais tempo espera denervada.

Fecha o raciocínio a razão de a avulsão ser encaminhada sem período de observação: como não há coto proximal, não há o que aguardar, e o único recurso — a transferência — depende de músculos alvo ainda capazes de aceitar reinervação. Cada mês de espera reduz o que a operação pode entregar.

O que se confunde com plexo, e o que o enunciado entrega

Três diagnósticos disputam espaço com a lesão de plexo e cada um cai por um detalhe. A lesão medular cervical produz déficit que não respeita o território de um plexo e costuma comprometer também os membros inferiores e os esfíncteres — pergunta obrigatória em qualquer avaliação de membro superior parado após trauma. A radiculopatia cervical por hérnia produz dor irradiada em um dermátomo com déficit limitado, sem a devastação motora do plexo arrancado. E a lesão vascular — subclávia ou axilar — produz membro frio, sem pulso e doloroso, e é diagnóstico de urgência com outro fluxo.

Uma quarta confusão é mais sutil e aparece em enunciado de luxação de ombro: a lesão isolada do nervo axilar, que produz déficit de abdução do ombro e área de hipoestesia na face lateral do braço, sem comprometer o resto do membro. Ela é focal, tem bom prognóstico na maioria das vezes e não pertence à mesma conversa da avulsão.

Reconhecimento de padrão, para fechar. Ferida cortante na face volar do punho, com perda de sensibilidade nas polpas dos três primeiros dedos e dificuldade para afastar os dedos, em ferida suturada só na pele em outro serviço: secção de mediano e ulnar, com indicação de exploração e reparo microcirúrgico — e o exame elétrico precoce não muda essa indicação.

Queda de motocicleta com afastamento forçado entre cabeça e ombro, membro superior completamente parado e insensível desde o acidente, dor em queimação intensa, pálpebra caída e pupila menor do mesmo lado, hemicúpula diafragmática elevada na radiografia: lesão de plexo com avulsão de raízes. A conduta esperada é encaminhamento ao serviço de nervos periféricos respeitando a janela, fármaco para dor neuropática, mobilização passiva diária e órtese.

Punho caído após fratura da diáfise do úmero, com sensibilidade alterada no dorso da primeira comissura: lesão do nervo radial associada à fratura — e a decisão sobre explorar ou observar é discutida junto com o tratamento da fratura, na apostila de Ortopedia.

Parestesia noturna nas polpas dos três primeiros dedos, com meses de evolução e piora ao dirigir ou segurar o telefone, em paciente sem trauma: aprisionamento do mediano no túnel do carpo — quadro crônico, com outro tempo e outra conduta.

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Esquemas e tabelas

A sequência vale para o adulto com déficit motor ou sensitivo no membro superior após trauma, na primeira avaliação. A ordem é rígida: o mecanismo antes do grau, o grau antes do prazo, o prazo antes do exame complementar. Exame elétrico pedido fora de hora não corrige nenhum desses passos.

  1. 1Determine o mecanismo e o horário exato do trauma, e registre-os. Corte limpo, ferida contaminada, tração fechada e compressão têm condutas diferentes.
  2. 2Estabeleça quando o déficit começou. Déficit presente desde o momento do trauma difere de déficit que apareceu depois, que sugere hematoma, compressão progressiva ou complicação de procedimento.
  3. 3Mapeie a força por miótomos e a sensibilidade por dermátomos, dos dois lados, e escreva o resultado no prontuário como base de comparação.
  4. 4Teste os três nervos da mão com gestos simples: abdução palmar do polegar, afastamento dos dedos e extensão do punho e dos dedos.
  5. 5Pesquise o sinal de Tinel no ponto suspeito e, nas reavaliações, procure-o em pontos mais distais para acompanhar o avanço da regeneração.
  6. 6Em membro superior parado após trauma, pergunte e examine os membros inferiores e os esfíncteres antes de concluir que a lesão é de plexo.
  7. 7Procure ativamente os sinais de avulsão: pálpebra caída com pupila menor, escápula alada, fraqueza de romboides, elevação da hemicúpula diafragmática e dor em queimação intensa no membro anestesiado.
  8. 8Peça o exame elétrico no tempo certo. Na ferida cortante ele não muda a indicação; na lesão fechada, a partir de três a quatro semanas, e programando a repetição.
  9. 9Solicite ressonância do plexo e mielotomografia cervical quando houver suspeita de avulsão, sabendo que a pseudomeningocele apoia o diagnóstico e não o define sozinha.
  10. 10Prescreva fármaco de ação neuropática para a dor em queimação, em vez de escalonar analgésico comum ou anti-inflamatório.
  11. 11Inicie mobilização passiva diária e órtese de posicionamento desde o primeiro dia, e oriente os cuidados com a pele insensível.
  12. 12Encaminhe ao serviço de cirurgia de nervos periféricos no primeiro atendimento, com o exame documentado, respeitando a janela de três a seis meses.

Primeiro degrau: que mecanismo produziu isto

Corte limpo por vidro ou lâmina supõe secção e vai para exploração precoce. Ferida contaminada ou por esmagamento espera a demarcação do dano, por volta de três semanas. Tração fechada, sem ferida, é observada com exame seriado e decidida entre três e seis meses.

Segundo degrau: qual grau de lesão

Neuropraxia bloqueia a condução com o axônio inteiro e recupera em dias a semanas. Axonotmese interrompe o axônio e preserva o tubo, recuperando lentamente e no alvo certo. Neurotmese rompe axônio e envoltórios, não recupera sozinha e é cirúrgica.

Terceiro degrau: dentro ou fora do canal

O corpo do neurônio sensitivo mora no gânglio, fora da medula. Raiz arrancada dentro do canal deixa o gânglio ligado ao axônio periférico: o potencial sensitivo continua presente num território que o paciente não sente. Esse é o sinal que separa avulsão de lesão distal ao gânglio.

Quarto degrau: a janela e o alvo

A reconstrução tem melhor resultado até cerca de seis meses do trauma, e o alvo muscular perde a capacidade de aceitar reinervação com a denervação prolongada. Encaminhar ao serviço de nervos periféricos é conduta do primeiro atendimento, não do atendimento em que se conclui que não houve melhora.

Os três graus e o que cada um promete

GrauO que foi interrompidoDegeneração distalRecuperação esperada
NeuropraxiaBloqueio da condução, com axônio íntegroNão ocorreCompleta, em dias a semanas, sem depender de crescimento
AxonotmeseAxônio, com envoltórios preservadosOcorre no segmento distalBoa e lenta, guiada pelo tubo, à razão de cerca de um milímetro por dia
NeurotmeseAxônio e envoltórios, sem trilho de guiaOcorre no segmento distalNão há recuperação espontânea útil; o tratamento é cirúrgico

Pré-ganglionar e pós-ganglionar: o que muda de lado a lado

ItemLesão pré-ganglionar (avulsão)Lesão pós-ganglionar
Local em relação ao gânglioDentro do canal, com a raiz arrancada da medulaDistal ao gânglio, no tronco ou na divisão
Potencial sensitivo no território anestesiadoPresente, porque o gânglio segue ligado ao axônio periféricoAusente, porque o axônio periférico também degenera
Sinais associadosHorner, escápula alada, romboides fracos, diafragma elevado, dor de desaferentaçãoDéficit motor e sensitivo do território, sem esses sinais proximais
Imagem característicaPseudomeningocele junto ao forame na mielotomografia ou na ressonânciaEspessamento ou descontinuidade do tronco, sem pseudomeningocele
Recuperação espontâneaNão ocorrePossível quando a lesão é em continuidade
Estratégia cirúrgicaTransferência nervosa, por não haver coto proximal utilizávelNeurólise, sutura ou enxerto entre os cotos

Exame elétrico feito nas primeiras horas pode encontrar condução distal preservada num nervo completamente seccionado: a degeneração walleriana leva dias para abolir as respostas distais e duas a três semanas para produzir potenciais de desnervação à agulha.

Na ferida aberta e cortante com déficit correspondente, a exploração cirúrgica é diagnóstica e terapêutica ao mesmo tempo, e nenhum exame complementar precoce muda essa indicação.

Membro superior parado após trauma exige exame dos membros inferiores e dos esfíncteres antes de se concluir que a lesão é do plexo: lesão medular cervical é o diagnóstico que mais se confunde com ela.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quando reparar o nervo seccionado: primário imediato ou primário tardio

Reparo primário precoce. Em ferida limpa por objeto cortante, com cotos identificáveis e sem contaminação, o reparo nos primeiros dias oferece melhor resultado: os cotos ainda não retraíram, a orientação dos feixes é mais fiel e o tempo total de denervação do músculo alvo é menor.

Grinsell D, Keating CP. Peripheral Nerve Reconstruction after Injury. BioMed Research International, 2014, seção de reparo primário.

Reparo primário tardio. Em ferida contaminada, por esmagamento ou por arma de fogo, a extensão real do dano ao nervo não é visível no primeiro dia e se demarca ao longo de duas a três semanas. Reparar antes dessa demarcação significa suturar tecido inviável, e a prática consagrada é limpar, estabilizar as partes moles e reparar depois.

Grinsell D, Keating CP. Peripheral Nerve Reconstruction after Injury. BioMed Research International, 2014, seção de reparo secundário; e Terzis JK, Kostopoulos VK. Plastic and Reconstructive Surgery, 2007.

Na prova

As duas posições não competem: elas se aplicam a mecanismos diferentes, e o enunciado escolhe qual delas está cobrando quando descreve o agente. Vidro, faca e lâmina em ferida limpa pedem reparo precoce; esmagamento, arma de fogo e ferida suja pedem espera com limpeza. Quando o texto descreve uma ferida limpa suturada só na pele em outro serviço, ele está pedindo exploração — e alternativa que mande apenas observar por semanas será a errada.

Quando operar a lesão fechada do plexo braquial

Imediatamente, quando há evidência inequívoca de avulsão. Sinais de lesão pré-ganglionar indicam que não haverá recuperação espontânea, e a transferência nervosa deve ser feita o mais cedo possível, sem período de observação.

Terzis JK, Kostopoulos VK. The surgical treatment of brachial plexus injuries in adults. Plastic and Reconstructive Surgery, 2007.

Depois de três a quatro meses de observação, quando o padrão é pós-ganglionar ou indeterminado. A lesão em continuidade pode recuperar sozinha, e operar cedo significa operar quem melhoraria; o exame clínico e eletrofisiológico seriado orienta a decisão, com o melhor resultado nas reconstruções realizadas até cerca de seis meses.

Terzis JK, Kostopoulos VK. Plastic and Reconstructive Surgery, 2007; e Grinsell D, Keating CP. BioMed Research International, 2014.

Na prova

O que decide entre as duas condutas é a presença dos sinais de avulsão, e é isso que o enunciado planta: pálpebra caída com pupila menor, escápula alada, romboides fracos, hemicúpula elevada, dor de desaferentação e potencial sensitivo preservado em território anestesiado. Com esses sinais, a resposta esperada é encaminhamento imediato. Sem eles, a resposta esperada é exame seriado com prazo — e, nos dois casos, o encaminhamento ao serviço de nervos periféricos ocorre já no primeiro atendimento, porque a janela é curta.

Quanto vale a pseudomeningocele para afirmar avulsão

É o sinal de imagem característico. A coleção liquórica em forma de divertículo junto ao forame corresponde ao ponto em que a raiz foi arrancada e a bainha se rompeu, e sua identificação na mielotomografia ou na ressonância sustenta o diagnóstico de lesão pré-ganglionar.

Yoshikawa T et al. Brachial plexus injury: clinical manifestations, conventional imaging findings, and the latest imaging techniques. RadioGraphics, 2006.

É um sinal indireto e imperfeito. Ele pode faltar em raízes comprovadamente avulsionadas e pode aparecer sem que a raiz correspondente esteja completamente arrancada, além de não excluir lesão associada em outro nível do mesmo plexo — de modo que o diagnóstico topográfico continua apoiado no exame físico, na eletrofisiologia e, em última instância, no achado cirúrgico.

Yoshikawa T et al. RadioGraphics, 2006, seção de limitações da imagem convencional.

Na prova

A prova costuma usar a pseudomeningocele como confirmação, e não como pergunta. O que ela testa de fato é se o candidato sabe que o diagnóstico de avulsão nasce do exame físico e da eletrofisiologia, com a imagem apoiando. Enunciado que descreva imagem sem pseudomeningocele em paciente com Horner, escápula alada e potencial sensitivo preservado em território anestesiado está pedindo que o candidato não recue: os sinais clínicos e elétricos pesam mais que a ausência do achado radiológico. Lesões combinadas, em mais de um nível do mesmo plexo, são frequentes.

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Caso resolvido

Homem de 22 anos sofreu ferimento cortante na face volar do punho esquerdo há 36 horas, ao cair sobre uma porta de vidro. Foi atendido em outro serviço, onde a ferida foi suturada apenas na pele, sem exploração das estruturas profundas e sem registro da função nervosa. Percebeu, imediatamente após o trauma, perda de sensibilidade nas polpas do polegar, do indicador e do médio, além de dormência na borda ulnar do anelar e do mínimo. Não consegue afastar e aproximar os dedos nem fazer pinça com o polegar. Refere sensação de choque irradiado para os dedos ao toque sobre a cicatriz. Está afebril, sem secreção purulenta. Traz eletroneuromiografia realizada no serviço de origem, feita 36 horas após o trauma, que mostra ausência de resposta motora e sensitiva à estimulação distal, sem potenciais de desnervação em repouso.
primeiro, localize a lesão pelo território, sem imagem
Polpas do polegar, do indicador e do médio anestesiadas com falha da pinça apontam nervo mediano. Borda ulnar do anelar e do mínimo anestesiada com incapacidade de afastar e aproximar os dedos aponta nervo ulnar. Os dois territórios juntos, com ferida na face volar do punho, localizam a secção dos dois nervos naquele nível.
segundo, use o mecanismo para presumir o grau
Vidro é agente cortante, e o déficit completo instalado no exato momento do trauma aponta neurotmese: axônio e envoltórios interrompidos, sem trilho de guia. Não há recuperação espontânea útil nesse grau, e o tratamento é cirúrgico.
terceiro, não deixe o exame elétrico precoce mudar a decisão
O laudo de 36 horas não distingue neuropraxia de secção completa: a degeneração walleriana ainda não aboliu tudo o que aboliria, e os potenciais de desnervação só aparecem em duas a três semanas. A ausência deles é esperada e não tem significado. A indicação vem do mecanismo somado ao exame físico.
quarto, reconheça que a ferida limpa abre a janela do reparo precoce
Ferida por vidro, sem sinal de infecção, com cotos presumivelmente pouco retraídos: é o cenário do reparo primário, feito nos primeiros dias, que oferece melhor resultado. O sinal de Tinel sobre a cicatriz indica axônios em brotamento ou neuroma no ponto da secção, e reforça a topografia.
quinto, antecipe o que a cirurgia pode encontrar
Se houver perda de substância entre os cotos que impeça a sutura sem tensão, o reparo exigirá enxerto de nervo, e isso deve ser previsto e conversado antes. Vale também explorar tendões flexores e vasos no mesmo tempo cirúrgico, já que a lesão é volar e as estruturas são vizinhas.
sexto, organize o depois e diga a verdade sobre o prazo
Órtese de posicionamento, reabilitação da mão e cuidados com a pele insensível para evitar queimaduras e ferimentos que o paciente não perceberá. Sobre o tempo, faça a conta na frente dele: a regeneração corre a cerca de um milímetro por dia, e a distância entre o punho e a musculatura intrínseca transforma isso em muitos meses — sem promessa de recuperação completa.
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Agora feche você

Homem de 23 anos, destro, no quinto dia de internação após queda de motocicleta em alta velocidade, com impacto sobre o ombro esquerdo e afastamento forçado entre a cabeça e o ombro. Fez osteossíntese de fratura da clavícula esquerda no segundo dia. Desde o acidente mantém ausência completa de movimento ativo e de sensibilidade em todo o membro superior esquerdo, sem qualquer recuperação. Queixa-se de dor em queimação e em choque no membro, de predomínio noturno, sem resposta a analgésico comum. O acompanhante notou queda da pálpebra esquerda e pupila menor desse lado. A radiografia de tórax mostra elevação da hemicúpula diafragmática esquerda em cerca de dois espaços intercostais. Não há alteração de força, sensibilidade ou esfíncteres nos membros inferiores.
Passo 1
Nomeie a topografia da lesão e liste os três achados já presentes no texto que apontam lesão proximal ao gânglio da raiz dorsal, explicando o que cada um significa anatomicamente.
Passo 2
Diga qual pergunta e qual exame são obrigatórios antes de fechar o diagnóstico de lesão de plexo, e qual diagnóstico eles afastam.
Passo 3
Explique por que a eletroneuromiografia pode mostrar potenciais sensitivos preservados justamente nos territórios em que o paciente não sente nada, e o que esse achado prova.
Passo 4
Defina os exames de imagem a solicitar, o que se procura em cada um e por que a ausência do achado característico não descartaria a hipótese.
Passo 5
Estabeleça a conduta: prazo e destino do encaminhamento, tratamento da dor, medidas de reabilitação iniciadas hoje e o que se pode e o que não se pode prometer ao paciente.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Pedir exame elétrico nas primeiras horas e concluir alguma coisa A degeneração walleriana leva dias para abolir as respostas distais e duas a três semanas para produzir potenciais de desnervação à agulha. Um exame de 36 horas pode mostrar condução preservada em nervo completamente seccionado, e a ausência de desnervação não significa nada nesse prazo.
  2. 2Adiar a exploração da ferida cortante para esperar resultado de exame Na ferida aberta e limpa com déficit no território correspondente, o mecanismo somado ao exame físico já indica a exploração, que é diagnóstica e terapêutica. Aguardar exame complementar consome a janela em que o reparo primário tem melhor resultado, com cotos ainda pouco retraídos.
  3. 3Reparar cedo o nervo em ferida contaminada ou por esmagamento Nesses mecanismos a extensão do dano não é visível no primeiro dia e se demarca em duas a três semanas. Suturar antes disso une tecido inviável e compromete o resultado; o caminho é limpeza, estabilização das partes moles e reparo primário tardio.
  4. 4Ler potencial sensitivo presente como nervo íntegro Na avulsão de raiz, o gânglio sensitivo permanece ligado ao axônio periférico e a resposta sensitiva continua registrável, embora o paciente não sinta nada naquele território, porque a conexão com a medula se rompeu. Potencial presente em área anestesiada aponta lesão pré-ganglionar, e não integridade.
  5. 5Concluir que é lesão de plexo sem examinar os membros inferiores Lesão medular cervical produz membro superior comprometido e não respeita o território do plexo, atingindo também membros inferiores e esfíncteres. A pergunta sobre força, sensibilidade e controle esfincteriano abaixo da lesão é obrigatória antes de fechar o diagnóstico topográfico.
  6. 6Ignorar a pálpebra caída como detalhe cosmético Ptose com pupila menor e menos suor na hemiface é síndrome de Horner, e indica lesão das fibras simpáticas que saem com a raiz de T1 dentro do canal. É um dos sinais mais valiosos de avulsão, e muda a conduta de observar para encaminhar imediatamente.
  7. 7Tratar a dor de desaferentação com analgésico comum em dose crescente Dor em queimação e em choque no membro anestesiado, de predomínio noturno, não responde a analgésico simples nem a anti-inflamatório. Ela exige fármaco de ação neuropática, e insistir no escalonamento do analgésico comum é a conduta errada mais frequente nessas questões.
  8. 8Deixar a fisioterapia para depois da cirurgia A mobilização passiva diária começa no primeiro dia, porque nervo reconstruído em articulação rígida não devolve função. Rigidez de ombro e retração de dedos instaladas durante a espera podem inutilizar o resultado de uma reconstrução tecnicamente perfeita.
  9. 9Encaminhar só quando ficar claro que não houve recuperação A janela de reconstrução do plexo se concentra entre três e seis meses, e a fila do serviço especializado consome parte dela. O encaminhamento é conduta do primeiro atendimento, feito em paralelo com a observação, e não uma decisão a tomar no fim do período de espera.
  10. 10Prometer recuperação porque o nervo foi reparado A regeneração corre a cerca de um milímetro por dia, o que transforma distância em meses, e a denervação prolongada leva à perda de placas motoras e à fibrose do músculo alvo. O resultado depende da distância, do tempo decorrido e do grau da lesão — e a conversa honesta sobre isso faz parte do atendimento.
  11. 11Descartar avulsão porque a imagem não mostrou pseudomeningocele O achado pode faltar em raiz comprovadamente arrancada e pode aparecer sem avulsão completa. Diante de Horner, escápula alada, romboides fracos e potencial sensitivo preservado em território anestesiado, o peso está no exame físico e na eletrofisiologia.
  12. 12Esquecer a pele que não sente Território anestesiado se queima em fogão, se fere em ferramenta e desenvolve úlcera de pressão sem que o paciente perceba. A orientação sobre proteção da mão insensível é item de conduta que costuma ser cobrado e que raramente é lembrado.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O trauma na face lateral do joelho lesa o nervo fibular (peroneiro) comum, superficial ao contornar o colo da fíbula, causando pé caído (perda da dorsiflexão e eversão) e hipoestesia no dorso do pé e primeiro espaço interdigital (território fibular profundo/superficial). O nervo tibial controla flexão plantar e sensibilidade da planta, poupados aqui. A lesão de artéria poplítea cursaria com isquemia e ausência de pulsos, que estão presentes. Hérnia de L5 não decorre de trauma direto lateral agudo do joelho e daria dor lombar irradiada. O nervo femoral inerva o quadríceps (extensão do joelho), não a dorsiflexão do pé.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória os três graus de lesão nervosa, dizendo para cada um o que foi interrompido, se há degeneração distal e que recuperação se espera. Em seguida, explique em três linhas por que uma eletroneuromiografia feita nas primeiras horas não distingue bloqueio de secção. Feche listando os quatro mecanismos de trauma e a conduta de tempo que cada um determina.

em 30 dias

Refaça de cabeça a tabela do pré-ganglionar contra o pós-ganglionar, com as seis linhas, e explique em voz alta por que o potencial sensitivo se mantém presente num território anestesiado. Depois reconstrua a janela de reconstrução do plexo, dizendo o que se faz nos meses em que ela corre e por que a mobilização passiva diária é decisiva. Termine nomeando os três diagnósticos que se confundem com lesão de plexo e o detalhe que derruba cada um.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Um homem de 22 anos chega com a mão esquerda enfaixada e diz que caiu sobre uma porta de vidro anteontem, que levaram pontos na pele em outro serviço e que os dedos continuam dormentes e sem força. Conduza a avaliação: localize a lesão pelo território, decida o grau pelo mecanismo e diga o que muda o resultado dele conforme o dia da semana em que a decisão for tomada. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Lesões de nervos periféricos e do plexo braquial – Nervo cortado e plexo arrancado: dois relógios que não são o mesmo — Preparatório para provas | OsceLabs