Outras EspecialidadesNeurologia e Neurocirurgia

Ataxias hereditárias: o reflexo que some, o dedo que sobe e o coração que decide

Ataxias e doenças degenerativas hereditárias

Fenótipo, causas tratáveis e estratégia de investigação genética

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Sobre o rastreamento de risco na doença de Huntington, qual manifestação psiquiátrica exige vigilância ativa por sua alta prevalência e letalidade?

02

Como esse tema cai

O capítulo cobre a ataxia crônica e progressiva de causa hereditária no adolescente e no adulto jovem: a ataxia de Friedreich como protótipo recessivo, as ataxias espinocerebelares dominantes com destaque para a doença de Machado-Joseph, e as ataxias tratáveis que copiam as duas. O eixo é a ordem do raciocínio — primeiro localizar o sinal, depois excluir o que se trata, e só então pedir o teste que nomeia a mutação.

Fica de fora o que tem dono. A ataxia aguda do adulto por intoxicação, lesão vascular de fossa posterior ou encefalopatia de Wernicke é da apostila de Neurologia e Neurocirurgia em outros capítulos e da apostila de Toxicologia; a ataxia aguda pós-infecciosa da criança é da apostila de Neurologia Pediátrica. A esclerose múltipla, que também produz ataxia, tem capítulo próprio nesta apostila. A neuropatia periférica difusa e a síndrome de Guillain-Barré ficam no capítulo de polineuropatias, e as lesões focais de nervo e de plexo, no capítulo seguinte a este. A vertigem de origem vestibular periférica é da apostila de Otorrinolaringologia.

As fontes são de três tipos e a diferença resolve questões. Um texto clínico histórico fixou os critérios que a prova ainda usa para descrever o paciente. Uma revisão molecular definiu a mesma doença por outro caminho, e admite pacientes que os critérios clínicos rejeitariam. E uma norma brasileira define o que é doença rara no país e para onde o paciente é encaminhado. As três respondem perguntas diferentes sobre o mesmo doente.

Vale avisar de saída sobre a pegadinha epidemiológica. A ataxia hereditária mais frequente do mundo entre as de herança recessiva não é a mais frequente do Brasil quando se contam todas as heranças — e num estado do sul do país a proporção chega a extremos por razão histórica de colonização. Quem responde por manchete epidemiológica erra; quem responde pelo fenótipo descrito acerta.

03

O que muda decisão

Ataxia é um sinal, e ele tem três endereços

Ataxia é incoordenação do movimento sem fraqueza que a explique. Antes de discutir genética, é preciso responder de onde ela vem, porque três sistemas diferentes produzem marcha instável e a conduta muda em cada um.

A ataxia cerebelar vem da falha do próprio órgão que calibra o movimento. Ela combina alargamento da base de sustentação, decomposição do movimento nas provas de coordenação, tremor que aparece ao aproximar-se do alvo, fala escandida com sílabas separadas e nistagmo. O paciente oscila de olhos abertos, e fechar os olhos piora pouco: o cerebelo estava falhando com ou sem visão.

A ataxia sensitiva vem da perda da informação de posição que sobe pelos cordões posteriores da medula. O paciente compensa com a visão — olha para os próprios pés, bate os calcanhares no chão para sentir o contato — e desmorona quando a visão sai de cena. É por isso que ele descreve piora no escuro e ao ensaboar o rosto no banho, e é por isso que a manobra de Romberg o denuncia: em pé, pés juntos, o desequilíbrio aparece ou se acentua muito ao fechar os olhos.

A ataxia vestibular vem do labirinto ou de suas vias, e traz junto vertigem rotatória, náusea e nistagmo com características próprias. O paciente tende a cair para um lado, e a queixa dominante costuma ser tontura, não incoordenação das mãos.

Guarde o valor prático do Romberg, porque a prova o cobra por definição. Ele não testa cerebelo: testa a propriocepção. Positivo é o desequilíbrio que aparece ou piora nitidamente ao fechar os olhos, o que aponta cordão posterior ou nervo periférico sensitivo. A oscilação presente já de olhos abertos, que pouco muda ao fechá-los, é cerebelar. Descrever um paciente com marcha de base alargada e chamar o Romberg de positivo só porque ele oscila é o erro mais comum na leitura do exame físico.

A ataxia de Friedreich é interessante justamente porque tem as duas. Ela degenera cordões posteriores, tratos espinocerebelares e o trato corticospinal, e o resultado é um exame que mistura sinais de dois sistemas — a razão de o quadro parecer contraditório para quem espera que cada doença respeite um território.

A combinação que não costuma andar junto

O achado que identifica a ataxia de Friedreich num parágrafo é a coexistência de arreflexia profunda nos membros inferiores com resposta plantar em extensão. Normalmente esses dois sinais se excluem: reflexo abolido aponta lesão do arco reflexo, no nervo ou na raiz, e o sinal de Babinski aponta lesão do neurônio motor superior, que costuma cursar com reflexos vivos. Quando os dois aparecem no mesmo paciente jovem, a lista de diagnósticos encolhe drasticamente.

A explicação está na anatomia da degeneração. Os cordões posteriores e os gânglios da raiz dorsal perdem neurônios sensitivos, o que abole o braço aferente do reflexo e produz a arreflexia; o trato corticospinal degenera em paralelo, o que libera a resposta plantar. É a mesma doença atacando dois andares, e o exame registra as duas assinaturas ao mesmo tempo.

Corte de medula com tres pares de regioes hachuradas: posteriores junto a linha media, laterais externas e laterais internas, com ligacoes para uma estrutura sulcada acima e para um pequeno corpo arredondado ao lado.
Por que o exame parece contraditório. A mesma doença degenera os cordões posteriores e o gânglio ligado a eles, o que abole o reflexo e apaga a noção de posição; degenera os tratos que sobem para a estrutura sulcada acima, o que produz a incoordenação; e degenera o feixe descendente lateral, o que libera a resposta plantar. Três territórios, um só diagnóstico.

Em volta desse par, o quadro se completa com sinais que o enunciado costuma distribuir pelo texto. Perda de sensibilidade vibratória e proprioceptiva, com Romberg francamente positivo. Disartria escandida, que constrange o paciente ao telefone. Incoordenação das mãos, com dificuldade para escrever e abotoar. E, fora do sistema nervoso, dois achados esqueléticos que aparecem cedo: escoliose, muitas vezes já tratada com colete na adolescência, e pé cavo com dedos em martelo, que obriga calçado sob medida.

A idade de início típica está entre 5 e 15 anos, e a grande maioria manifesta a doença até os 25. O curso é lentamente progressivo, sem surtos e sem remissões — e essa característica é o que separa o quadro da esclerose múltipla numa questão que descreva paciente jovem com ataxia. Doença que melhora e piora em episódios não é degenerativa hereditária.

Dois achados sistêmicos mudam o desfecho e por isso mudam a conduta. A cardiomiopatia hipertrófica acomete a maioria dos pacientes e responde pela maior parte das mortes na doença — o que faz do eletrocardiograma e do ecocardiograma exames de rotina, e não de curiosidade. E o diabetes, que aparece em parcela relevante dos casos e justifica rastreio periódico com glicemia e hemoglobina glicada.

A régua brasileira: qual ataxia hereditária o paciente daqui tem

A ataxia de Friedreich é a mais frequente entre as ataxias hereditárias de herança recessiva no mundo, e é por isso que ela domina os enunciados. Mas quando se contam todas as ataxias hereditárias diagnosticadas no Brasil, sem separar por padrão de herança, quem aparece na frente é outra doença: a ataxia espinocerebelar tipo 3, também chamada de doença de Machado-Joseph.

A concentração tem explicação histórica. A doença chegou ao país com a colonização açoriana, e no Rio Grande do Sul a proporção alcança números extraordinários: as séries regionais descrevem a doença de Machado-Joseph respondendo pela grande maioria das ataxias dominantes diagnosticadas no estado. A prevalência estimada na região a mantém, ainda assim, dentro da definição brasileira de doença rara.

Essa definição é normativa e vale decorar, porque abre porta de serviço: pela política nacional, doença rara é a que afeta até 65 pessoas em cada 100 mil, o equivalente a 1,3 pessoa para cada 2 mil. A mesma norma divide o campo em dois eixos — doenças raras de origem genética, que reúnem anomalias congênitas ou de manifestação tardia, deficiência intelectual e erros inatos do metabolismo, e doenças raras de origem não genética — e habilita serviços de referência para diagnóstico, aconselhamento genético e acompanhamento.

A consequência para a prova é direta. Pergunta sobre epidemiologia brasileira de ataxia hereditária tem como resposta a doença de Machado-Joseph. Pergunta que descreve um paciente com arreflexia, Babinski, pé cavo, escoliose e cardiomiopatia hipertrófica tem como resposta a ataxia de Friedreich, por mais que a outra seja mais comum no país. O fenótipo vence a estatística sempre que o enunciado descreve alguém.

E a doença de Machado-Joseph tem fenótipo próprio, que vale reconhecer. Além da ataxia, ela costuma somar oftalmoparesia progressiva com limitação do olhar, olhos que parecem protuberantes pela retração palpebral, fasciculações de face e língua, distonia, sinais piramidais e síndrome das pernas inquietas. A herança é dominante, de modo que o heredograma mostra pessoas afetadas em gerações sucessivas — e não irmãos afetados com pais sadios, que é o desenho da recessiva.

As três dosagens que vêm antes do teste genético

Há um princípio que organiza a investigação e que a prova adora cobrar como conduta: antes de nomear a mutação, procura-se a ataxia que se trata. Teste genético confirma um diagnóstico que não muda com o resultado; dosagem sérica pode encontrar uma doença que regride com reposição. A ordem, portanto, não é de custo, é de reversibilidade.

A primeira dosagem é a vitamina E. A ataxia por deficiência isolada de vitamina E, causada por defeito na proteína de transferência do alfa-tocoferol, copia a ataxia de Friedreich quase item por item: início na adolescência, ataxia progressiva, arreflexia, perda proprioceptiva, às vezes pé cavo e cardiomiopatia. A diferença é que ela responde à reposição em doses altas, o que estabiliza e às vezes melhora o quadro. Deixar de dosar é perder a única ataxia hereditária com tratamento específico consolidado.

A segunda é a vitamina B12, com o ácido metilmalônico quando o valor for limítrofe. A deficiência produz degeneração combinada subaguda da medula, que ataca exatamente cordões posteriores e trato corticospinal — ou seja, reproduz a mesma dissociação entre arreflexia e resposta plantar em extensão que caracteriza a doença hereditária. A diferença está no tempo e no contexto: instalação em semanas a meses, em paciente com anemia macrocítica, gastrectomia, doença ileal, uso prolongado de inibidor de bomba de prótons, dieta estritamente vegetariana ou exposição a óxido nitroso.

A terceira frente é o perfil lipídico com pesquisa de acantócitos, que investiga a abetalipoproteinemia: colesterol muito baixo, hemácias espiculadas no esfregaço, esteatorreia desde a infância, retinopatia pigmentar e ataxia por má absorção de vitaminas lipossolúveis. Também é doença que responde à reposição.

Ao redor dessas três, completam a exclusão do que é tratável ou reversível: hormônio tireoestimulante, cobre sérico e ceruloplasmina, sorologias, rastreio de doença celíaca quando o contexto sugere, e uma revisão honesta da lista de medicamentos e do consumo de álcool. Fenitoína em nível tóxico, lítio, alguns quimioterápicos e o etilismo crônico produzem ataxia cerebelar e não estão no capítulo de genética.

As causas adquiridas que imitam a doença hereditária merecem varredura própria, porque são frequentes e reversíveis. O etilismo crônico produz ataxia cerebelar de predomínio na marcha, e a encefalopatia de Wernicke, na forma aguda, junta oftalmoparesia e confusão à ataxia, com resposta à tiamina administrada antes de qualquer glicose. Fenitoína em concentração tóxica, lítio, alguns quimioterápicos e o uso prolongado de metronidazol produzem quadros cerebelares que regridem com a suspensão. A doença celíaca pode cursar com ataxia mesmo sem sintoma digestivo evidente, e o hipotireoidismo entra na lista pelo custo baixo da dosagem. Nenhuma dessas causas aparece em painel genético, e todas aparecem em enunciado que descreve um paciente com uso de medicamento crônico ou com hábito não perguntado.

A alfa-fetoproteína merece linha própria: elevada, aponta ataxia-telangiectasia e as ataxias com apraxia oculomotora, que têm início mais precoce, telangiectasias conjuntivais, imunodeficiência e risco oncológico aumentado. É um exame barato que redireciona a investigação inteira.

Quando o heredograma decide antes do laboratório

Construir o heredograma é ato médico com rendimento diagnóstico alto e custo zero, e é item de peso em estação prática. Três perguntas bastam para orientar a investigação inteira.

Há irmãos afetados com pais sadios? Esse é o desenho da herança autossômica recessiva: a doença aparece numa única geração, atinge irmãos de ambos os sexos e os pais são portadores assintomáticos. É o padrão da ataxia de Friedreich, da ataxia por deficiência de vitamina E e da ataxia-telangiectasia. Consanguinidade entre os pais reforça a hipótese, especialmente em famílias de comunidades pequenas.

Há afetados em gerações sucessivas? Esse é o desenho autossômico dominante, com metade dos filhos de cada afetado em risco, homens e mulheres igualmente. É o padrão das ataxias espinocerebelares numeradas, incluindo a doença de Machado-Joseph.

A doença começou mais cedo e mais forte a cada geração? Isso é antecipação, e ela é a marca das doenças causadas por expansão de repetições instáveis. Nas ataxias dominantes por expansão de trinucleotídeo, a repetição tende a crescer na transmissão, e uma expansão maior significa início mais precoce e curso mais grave. O avô que começou aos 50, o pai aos 38 e o neto aos 22 não é coincidência de relato familiar: é o fenômeno biológico que o enunciado está descrevendo.

A mesma lógica de tamanho vale dentro da ataxia de Friedreich, ainda que a herança seja recessiva e a antecipação entre gerações não seja característica dela: quanto maior a expansão nos dois alelos, mais precoce o início e mais grave a evolução, com maior chance de cardiomiopatia e diabetes. É a razão de o laudo genético informar o número de repetições, e não apenas dizer presente ou ausente.

Vale nomear o limite do heredograma. Família pequena, pais falecidos cedo, filho único ou paternidade não revelada podem apagar o padrão de herança sem que a doença deixe de ser genética. Heredograma negativo não exclui doença hereditária — e mutação nova, que não veio de nenhum dos pais, existe. O heredograma orienta a ordem dos testes; ele não é o teste.

As dominantes numeradas: o sinal que vem junto com a ataxia

As ataxias espinocerebelares dominantes são identificadas por número, e passam de quarenta descritas. Decorar a lista inteira não rende; o que rende é saber que cada uma tende a trazer um acompanhante, e é o acompanhante que o enunciado usa para apontar o tipo. A ataxia é o denominador comum; o sinal ao lado dela é a chave.

A tipo 3, doença de Machado-Joseph, é a que mais importa no Brasil, e seu acompanhante é ocular e motor: limitação progressiva do olhar conjugado, retração palpebral com aparência protuberante dos olhos, fasciculações de face e de língua, distonia, sinais piramidais e síndrome das pernas inquietas. A tipo 2 costuma trazer sacadas lentas, arreflexia e tremor postural. A tipo 1 soma sinais piramidais proeminentes e alteração da motricidade ocular. A tipo 6 tende a ser a mais pura e a mais tardia, quase só cerebelar, com nistagmo que bate para baixo. A tipo 17 pode somar declínio cognitivo e movimentos coreicos, aproximando-se do quadro de outra doença por expansão.

Uma delas merece destaque porque a consequência é irreversível e o achado é fácil de ignorar: a tipo 7 cursa com retinopatia pigmentar e perda visual progressiva, que pode preceder ou acompanhar a ataxia. Paciente com ataxia dominante que se queixa de dificuldade para enxergar precisa de avaliação oftalmológica com fundoscopia, e não de tranquilização.

Do outro lado da herança, o grupo recessivo tem outros integrantes além de Friedreich e da deficiência de vitamina E. A ataxia-telangiectasia começa na primeira infância, soma telangiectasias conjuntivais, infecções respiratórias de repetição, imunodeficiência e risco oncológico aumentado, com alfa-fetoproteína elevada. As ataxias com apraxia oculomotora cursam com dificuldade de iniciar movimentos oculares voluntários, compensada por movimentos bruscos da cabeça. E a abetalipoproteinemia junta ataxia, esteatorreia desde a infância, retinopatia e hemácias espiculadas, com colesterol muito baixo.

A utilidade prática dessa organização é econômica. O painel genético custa caro e demora; o exame físico dirigido, feito com a lista de acompanhantes na cabeça, restringe a hipótese antes do pedido e muitas vezes indica o teste dirigido em vez do amplo. Em estação prática, é exatamente isso que se pontua: olhar a motricidade ocular, a língua, a marcha e o fundo de olho de quem chega com desequilíbrio.

O teste que nomeia e o laudo que informa o tamanho

Quando o fenótipo é clássico, o teste dirigido é o caminho curto: pesquisa da expansão GAA no primeiro íntron do gene da frataxina, em busca de expansão nos dois alelos. Cerca de 96% dos pacientes têm a expansão bialélica; os demais são heterozigotos compostos, com uma expansão de um lado e uma variante pontual ou uma deleção do outro — o que importa clinicamente porque um teste que procura só a expansão pode vir parcialmente negativo em quem tem a doença.

Quando o padrão é dominante, ou quando o dirigido volta negativo com fenótipo compatível, entra o painel para as ataxias espinocerebelares, que investiga as expansões dos tipos mais frequentes de uma só vez. A escolha entre teste dirigido e painel depende de quão característico é o quadro e do que o serviço tem disponível; o erro a evitar é pedir painel amplo antes de excluir as causas tratáveis, porque nenhum painel dosa vitamina E.

A eletroneuromiografia ajuda e costuma aparecer no enunciado. Na ataxia de Friedreich o padrão é de potenciais de ação sensitivos ausentes ou muito reduzidos, com condução motora preservada em velocidade e amplitude — assinatura de perda do neurônio sensitivo no gânglio, e não de desmielinização do nervo. Esse achado separa o quadro de uma polineuropatia desmielinizante, em que as velocidades caem.

A ressonância completa a topografia e às vezes surpreende. Nas ataxias espinocerebelares dominantes costuma haver atrofia de cerebelo e de tronco; na ataxia de Friedreich o cerebelo pode ter volume preservado, com atrofia da medula cervical e alteração de sinal nos cordões posteriores. Imagem de cerebelo normal, portanto, não afasta a doença — e responder que afasta é erro frequente.

Uma palavra sobre o que o teste faz na família. O irmão que já tem sintomas faz teste diagnóstico, e ele se justifica pela própria doença. O parente assintomático em risco entra em outra categoria, a do teste preditivo, que se faz dentro de protocolo com aconselhamento antes e depois, apoio psicológico e decisão informada — e que não é atribuição de um atendimento de porta de entrada.

O que se oferece hoje, e onde isso acontece no Brasil

A conduta na ataxia hereditária tem quatro frentes, e nenhuma delas é o teste genético — o teste apenas as organiza.

A primeira é a vigilância cardiológica. Na ataxia de Friedreich, a cardiomiopatia hipertrófica é a principal causa de morte, e o seguimento com eletrocardiograma e ecocardiograma é sistemático, mesmo em paciente sem sintoma cardíaco. Um jovem com ataxia e dispneia desproporcional ao esforço não tem descondicionamento: tem coração hipertrofiado até prova em contrário.

A segunda é a reabilitação, motora e fonoaudiológica, com adaptação do ambiente e do calçado para prevenir quedas, avaliação ortopédica da escoliose e do pé cavo, e treino de deglutição quando a disfagia aparece. É o que preserva função e independência ao longo de anos, e é o que a estação prática espera ouvir.

A disfagia merece atenção nominal, porque é a complicação que mais mata depois do coração. Ela se instala devagar, e o paciente costuma adaptar a dieta sozinho antes de contar. Perguntar por engasgo com líquidos, tosse durante as refeições e pneumonias de repetição faz parte da consulta de rotina, e a avaliação fonoaudiológica com ajuste de consistência previne a broncoaspiração que encerra muitos casos. A escoliose importante acrescenta restrição ventilatória, o que torna a avaliação respiratória periódica parte do mesmo pacote.

A terceira é o rastreio das comorbidades: glicemia e hemoglobina glicada pelo risco de diabetes, avaliação respiratória quando a escoliose é importante, e atenção ao humor, porque doença degenerativa em adulto jovem carrega sofrimento que costuma ficar sem nome.

A quarta é o aconselhamento genético, que não é sinônimo de entregar um laudo. Ele explica o padrão de herança, o risco para irmãos e para descendentes, as opções reprodutivas e o que o teste preditivo significa para quem ainda não adoeceu. Pela política nacional de doenças raras, esse cuidado tem endereço no sistema público: serviços de referência habilitados, no eixo das doenças raras de origem genética.

Sobre tratamento que modifica a doença, vale ser preciso. Um ensaio randomizado sustentou o registro, por agência regulatória estrangeira em 2023, do primeiro fármaco específico para a ataxia de Friedreich, autorizado a partir dos 16 anos, com efeito medido como redução da progressão numa escala funcional ao longo de quarenta e oito semanas. É um marco real e é uma resposta ruim para questão brasileira de conduta: o que se espera do candidato, aqui, é a vigilância cardiológica, a reabilitação, o rastreio metabólico e o aconselhamento — porque é isso que o paciente recebe, e é isso que muda o desfecho dele hoje.

Fecha o capítulo a distinção entre validar e explicar. A paciente com desequilíbrio progressivo desde a adolescência costuma chegar depois de anos ouvindo que é sedentarismo, ansiedade ou falta de coordenação. Reconhecer que a queixa tem doença por trás, nomear o padrão de herança e dar destino ao irmão afetado é a parte do atendimento que a estação pontua e que nenhum exame substitui.

Como o enunciado entrega o diagnóstico

Adolescente ou adulto jovem, desequilíbrio progressivo há anos sem surtos, marcha de base alargada com piora no escuro, arreflexia nos membros inferiores com resposta plantar em extensão, perda vibratória e proprioceptiva, disartria escandida, escoliose, pé cavo e irmão com quadro semelhante: ataxia de Friedreich. Se o texto acrescentar dispneia aos esforços ou sopro, a pergunta seguinte é sobre o coração.

Paciente com ataxia e afetados em gerações sucessivas, com limitação progressiva do olhar, olhos protuberantes, fasciculações de face e língua e distonia, especialmente com ascendência açoriana ou origem no sul do país: doença de Machado-Joseph, herança dominante.

Quadro de instalação em semanas a meses, com a mesma dissociação entre arreflexia e Babinski, em paciente com anemia macrocítica, gastrectomia prévia, dieta restritiva ou uso crônico de inibidor de bomba de prótons: degeneração combinada subaguda por deficiência de vitamina B12. O tempo curto e o contexto nutricional são o que separam.

Ataxia de início na infância com telangiectasias na conjuntiva, infecções de repetição e alfa-fetoproteína elevada: ataxia-telangiectasia. E ataxia com colesterol muito baixo, esteatorreia e hemácias espiculadas: abetalipoproteinemia. As duas são lembradas em alternativa justamente porque um exame simples as separa do resto.

04

Esquemas e tabelas

A sequência vale para o paciente com ataxia crônica e progressiva, sem surtos, na primeira avaliação ambulatorial. A ordem importa: localizar o sinal antes de nomear a doença, excluir o tratável antes de pedir genética, e pedir o exame do coração antes de qualquer discussão sobre prognóstico.

  1. 1Confirme que é ataxia: incoordenação sem fraqueza que a explique, e não fraqueza mal caracterizada nem tontura.
  2. 2Localize o sistema. Faça a manobra de Romberg com apoio de segurança e interprete o resultado pelo que ele mede: propriocepção, não cerebelo.
  3. 3Determine o tempo de instalação e o padrão de curso. Progressivo sem surtos aponta degenerativo; surtos e remissões apontam doença desmielinizante; instalação em horas aponta lesão aguda ou intoxicação.
  4. 4Examine os reflexos nos quatro membros e pesquise a resposta plantar dos dois lados. A dissociação entre arreflexia e extensão do hálux é o achado que estreita a lista.
  5. 5Procure os sinais fora do sistema nervoso: escoliose pelo teste de Adams, arco plantar e dedos, oclusão do olhar, telangiectasias conjuntivais.
  6. 6Ausculte o coração e peça eletrocardiograma e ecocardiograma sempre que a hipótese for ataxia de Friedreich, independentemente de sintoma cardíaco.
  7. 7Construa o heredograma perguntando por irmãos afetados, consanguinidade dos pais e afetados em gerações sucessivas, com idade de início de cada um.
  8. 8Peça as dosagens que encontram doença tratável antes de qualquer teste genético: vitamina E, vitamina B12 com ácido metilmalônico, perfil lipídico com acantócitos e alfa-fetoproteína.
  9. 9Revise medicamentos e consumo de álcool, incluindo nível sérico quando houver uso de fármaco que produz ataxia em concentração tóxica.
  10. 10Escolha o teste genético pelo fenótipo: dirigido para a expansão da frataxina quando o quadro é clássico, painel de ataxias dominantes quando o heredograma mostra gerações sucessivas.
  11. 11Ofereça aconselhamento genético ao paciente e aos irmãos, distinguindo teste diagnóstico em quem tem sintoma de teste preditivo em quem não tem.
  12. 12Encaminhe ao serviço de referência do eixo genético da política de doenças raras e organize reabilitação motora e fonoaudiológica desde o diagnóstico.

Primeiro degrau: de onde vem a incoordenação

Oscilação já de olhos abertos, que pouco piora ao fechá-los, com base alargada, fala escandida e nistagmo: cerebelar. Equilíbrio razoável de olhos abertos que desmorona ao fechá-los, com perda vibratória e proprioceptiva: sensitiva. Tontura rotatória dominante com queda para um lado: vestibular.

Segundo degrau: o par que estreita a lista

Reflexos profundos abolidos nos membros inferiores com resposta plantar em extensão é combinação que normalmente se exclui. Em paciente jovem com ataxia progressiva, ela aponta doença que degenera cordão posterior e trato corticospinal ao mesmo tempo — hereditária ou por deficiência de vitamina B12.

Terceiro degrau: procure primeiro o que se trata

Vitamina E, vitamina B12 com ácido metilmalônico e perfil lipídico com pesquisa de acantócitos vêm antes do teste genético, porque encontram doença que responde a reposição. Somam-se hormônio tireoestimulante, cobre e ceruloplasmina, alfa-fetoproteína e a revisão de medicamentos e álcool.

Quarto degrau: o exame que muda a sobrevida

Eletrocardiograma e ecocardiograma entram na rotina do paciente com ataxia de Friedreich, sintomático ou não: a cardiomiopatia hipertrófica responde pela maior parte das mortes. Dispneia desproporcional ao esforço em jovem com ataxia é coração até prova em contrário, e não descondicionamento.

Quatro diagnósticos que a mesma frase inicial pode esconder

DiagnósticoO que o enunciado acrescentaHerançaExame que decide
Ataxia de FriedreichInício entre 5 e 15 anos, arreflexia com Babinski, escoliose, pé cavo, cardiomiopatia hipertróficaAutossômica recessivaExpansão GAA bialélica no primeiro íntron do gene da frataxina
Doença de Machado-JosephAfetados em gerações sucessivas, oftalmoparesia, olhos protuberantes, fasciculações de face e língua, distoniaAutossômica dominantePainel de expansões das ataxias espinocerebelares
Deficiência de vitamina EQuadro que copia Friedreich item por item e responde à reposiçãoAutossômica recessivaDosagem sérica de vitamina E, antes de qualquer genética
Deficiência de vitamina B12Instalação em semanas a meses, anemia macrocítica, gastrectomia, dieta restritiva ou óxido nitrosoAdquiridaDosagem de vitamina B12 com ácido metilmalônico
Ataxia-telangiectasiaInício na infância, telangiectasias conjuntivais, infecções de repetição, risco oncológicoAutossômica recessivaAlfa-fetoproteína elevada e teste molecular dirigido

O que cada padrão de herança desenha no heredograma

PadrãoDesenho na famíliaRisco declaradoExemplo do capítulo
Autossômica recessivaAfetados numa única geração, irmãos de ambos os sexos, pais sadios e portadoresUm em quatro para cada nova gestação do casalAtaxia de Friedreich, deficiência de vitamina E, ataxia-telangiectasia
Autossômica dominanteAfetados em gerações sucessivas, homens e mulheres igualmenteMetade dos filhos de cada afetadoAtaxias espinocerebelares numeradas, incluindo Machado-Joseph
Expansão instávelInício mais precoce e curso mais grave a cada geraçãoAntecipação, com expansão que cresce na transmissãoAtaxias dominantes por repetição de trinucleotídeo

A manobra de Romberg não avalia cerebelo. Positivo é o desequilíbrio que surge ou piora nitidamente ao fechar os olhos, o que aponta cordão posterior ou nervo sensitivo periférico.

Cerebelo de volume normal na ressonância não afasta ataxia de Friedreich: a doença atinge principalmente medula e gânglios sensitivos, e a atrofia cerebelar pode faltar.

Heredograma sem afetados não exclui doença genética. Família pequena, morte precoce dos pais e mutação nova apagam o padrão sem apagar a herança.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O que basta para chamar o quadro de ataxia de Friedreich

Critérios clínicos clássicos. O estudo que analisou noventa famílias fixou como essenciais a herança autossômica recessiva, o início antes dos 25 anos, a ataxia progressiva de marcha e de membros, a arreflexia nos membros inferiores e a resposta plantar em extensão. Por essa régua, início aos 34 anos ou reflexos preservados excluiriam o diagnóstico.

Harding AE. Friedreich's ataxia: a clinical and genetic study of 90 families. Brain, 1981.

Definição molecular. O diagnóstico se estabelece pela presença de variantes patogênicas bialélicas no gene FXN, com expansão GAA nos dois alelos em cerca de 96% dos casos. Por essa régua existem formas atípicas reconhecidas: início depois dos 25 anos, início depois dos 40 anos e formas com reflexos preservados, que reunidas alcançam cerca de um quarto dos pacientes com expansão de penetrância completa.

Bidichandani SI, Delatycki MB. Friedreich Ataxia. GeneReviews, revisão vigente.

Na prova

Os dois critérios não competem: um descreve o paciente típico, o outro define a doença. Enunciado que traga o quadro clássico está usando a régua clínica e espera o nome da doença. Enunciado que traga início tardio ou reflexos preservados com teste genético positivo está testando se o candidato sabe que a molécula manda mais que a idade — e a alternativa que descartar o diagnóstico por causa da idade de início estará errada. Quando o texto não informa o teste, responda pelo quadro clássico.

Qual é a ataxia hereditária mais frequente

A ataxia de Friedreich, quando se contam as ataxias de herança recessiva. É a mais frequente do grupo em populações de origem europeia, e é por isso que ela ocupa a maior parte dos enunciados e dos capítulos de referência.

Bidichandani SI, Delatycki MB. Friedreich Ataxia. GeneReviews, revisão vigente.

A doença de Machado-Joseph, quando se conta o conjunto das ataxias hereditárias diagnosticadas no Brasil. Séries do sul do país descrevem-na respondendo pela grande maioria das ataxias dominantes diagnosticadas na região, por efeito da colonização açoriana, com prevalência regional estimada que a mantém dentro da definição de doença rara.

Jardim LB et al. A survey of spinocerebellar ataxia in South Brazil. Journal of Neurology, 2001; e Portaria GM/MS nº 199, de 30 de janeiro de 2014.

Na prova

As duas afirmações são verdadeiras porque contam populações diferentes: uma separa por padrão de herança e a outra por país. Questão de epidemiologia brasileira responde com a doença de Machado-Joseph; questão que descreve um paciente com arreflexia, Babinski, escoliose, pé cavo e cardiomiopatia hipertrófica responde com a ataxia de Friedreich, ainda que ela seja menos frequente no país. O fenótipo vence a estatística sempre que existe um doente no texto.

O que se oferece como tratamento na ataxia de Friedreich

Fármaco específico. Um ensaio randomizado controlado por placebo mediu redução da progressão numa escala funcional ao longo de quarenta e oito semanas, e sustentou o registro, em 2023, por agência regulatória estrangeira, do primeiro medicamento aprovado para a doença, autorizado a partir dos 16 anos de idade.

Lynch DR et al. Safety and Efficacy of Omaveloxolone in Friedreich Ataxia (MOXIe Study). Annals of Neurology, 2021; e nota de registro da agência regulatória, 2023.

Cuidado organizado. A perspectiva europeia de diagnóstico e tratamento estrutura o seguimento em vigilância cardiológica sistemática, rastreio de diabetes, reabilitação motora e fonoaudiológica e manejo ortopédico; e a política brasileira de doenças raras dá a esse cuidado endereço institucional, com serviços de referência para diagnóstico, aconselhamento genético e acompanhamento no eixo genético.

Schulz JB et al. Diagnosis and treatment of Friedreich ataxia: a European perspective. Nature Reviews Neurology, 2009; e Portaria GM/MS nº 199, de 30 de janeiro de 2014.

Na prova

Questão brasileira de conduta espera o segundo conjunto: eletrocardiograma e ecocardiograma, rastreio metabólico, reabilitação e aconselhamento genético com encaminhamento ao serviço de referência. O fármaco específico é fato recente e verdadeiro, e serve para reconhecer que a doença deixou de ser apenas de suporte — mas alternativa que o apresente como a conduta a ser tomada no ambulatório geral brasileiro não é o que se cobra, e a idade mínima do registro estrangeiro exclui parte dos pacientes descritos nos enunciados.

06

Caso resolvido

Mulher de 19 anos com desequilíbrio de instalação insidiosa aos 12 anos, curso lentamente progressivo, sem surtos e sem remissões. Anda com base alargada, apoia-se nos móveis e cai cerca de duas vezes por mês, com piora nítida no escuro e ao fechar os olhos no banho. Há três anos tem dificuldade para escrever e abotoar, e fala escandida. Escoliose tratada com colete na adolescência e arco plantar elevado com dedos em martelo. Refere dispneia aos esforços moderados, desproporcional ao condicionamento. Um irmão de 16 anos tem quadro semelhante e os pais são primos em primeiro grau. Ao exame: arreflexia profunda nos quatro membros, resposta plantar em extensão bilateral, perda de sensibilidade vibratória e proprioceptiva nos membros inferiores, Romberg positivo e provas de coordenação alteradas.
primeiro, leia o par de sinais que estreita tudo
Arreflexia profunda com resposta plantar em extensão é combinação que normalmente se exclui: uma aponta interrupção do arco reflexo, a outra aponta lesão do neurônio motor superior. Num paciente jovem com ataxia progressiva, esse par aponta doença que degenera cordões posteriores, gânglios sensitivos e trato corticospinal ao mesmo tempo.
segundo, some o esqueleto e o heredograma
Escoliose desde a adolescência, pé cavo com dedos em martelo, irmão afetado e pais consanguíneos completam o desenho: doença de herança autossômica recessiva manifesta numa única geração. O padrão exclui, na prática, as ataxias espinocerebelares dominantes, que apareceriam em gerações sucessivas.
terceiro, não pule as dosagens que encontram doença tratável
Antes do teste genético entram vitamina E, vitamina B12 com ácido metilmalônico, perfil lipídico com pesquisa de acantócitos e alfa-fetoproteína. A deficiência de vitamina E copia esse quadro item por item e responde à reposição; deixar de dosá-la é abrir mão da única causa com tratamento específico consolidado.
quarto, trate a dispneia como sinal cardíaco até prova em contrário
Dispneia desproporcional ao esforço em jovem com ataxia pede eletrocardiograma e ecocardiograma no mesmo dia da suspeita. A cardiomiopatia hipertrófica acomete a maioria e responde pela maior parte das mortes na doença — e o achado muda o seguimento inteiro, independentemente do resultado genético.
quinto, escolha o teste dirigido pelo fenótipo
Com quadro clássico e padrão recessivo, o caminho curto é a pesquisa da expansão GAA no primeiro íntron do gene da frataxina, com laudo que informe o número de repetições nos dois alelos. Painel de ataxias dominantes é o exame errado para este heredograma, e teste negativo com fenótipo compatível ainda deixa aberta a possibilidade de heterozigoto composto.
sexto, dê destino à família e ao seguimento
Encaminhe ao serviço de referência do eixo genético da política nacional de doenças raras, ofereça aconselhamento genético à paciente e ao irmão sintomático — que faz teste diagnóstico, e não preditivo —, organize reabilitação motora e fonoaudiológica, avaliação ortopédica da escoliose e do pé, rastreio de diabetes e adaptação do ambiente para prevenir quedas.
07

Agora feche você

Homem de 41 anos procura o ambulatório por desequilíbrio progressivo iniciado aos 33 anos, com quedas ocasionais e alteração da fala. Conta que o pai começou com o mesmo problema aos 47 anos e faleceu aos 62, e que uma tia paterna e o avô paterno também tinham dificuldade para andar na idade adulta. A família é originária do sul do país, com ascendência açoriana. Ao exame: marcha atáxica de base alargada, limitação progressiva do olhar conjugado, retração palpebral que dá aparência protuberante aos olhos, fasciculações de face e de língua, distonia da mão direita, reflexos vivos nos quatro membros e resposta plantar em extensão. A sensibilidade vibratória está preservada.
Passo 1
Descreva o padrão de herança que o heredograma desenha e diga quais dois elementos do texto o definem, além do risco declarado para cada filho do paciente.
Passo 2
Nomeie a hipótese diagnóstica principal e liste os quatro achados do exame físico, além da ataxia, que a sustentam nesta família.
Passo 3
Compare as idades de início do avô, do pai e do paciente e explique o fenômeno biológico que elas sugerem, dizendo que tipo de mutação o produz.
Passo 4
Diga por que a sensibilidade vibratória preservada e os reflexos vivos afastam a hipótese que seria a primeira num paciente mais jovem, e nomeie essa hipótese.
Passo 5
Defina a investigação a solicitar e a conduta de seguimento, distinguindo o teste que se oferece ao paciente do teste que se discute com a filha de 19 anos, assintomática, que o acompanha na consulta.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Chamar de Romberg positivo quem oscila de olhos abertos A manobra avalia propriocepção, não cerebelo. Positivo é o desequilíbrio que aparece ou piora nitidamente quando os olhos se fecham. Paciente com marcha de base alargada que já oscila de olhos abertos e pouco muda ao fechá-los tem ataxia cerebelar, e chamar isso de Romberg positivo troca o endereço da lesão.
  2. 2Pedir teste genético antes de dosar vitamina E A ataxia por deficiência isolada de vitamina E copia o quadro de Friedreich e responde à reposição em doses altas. Nenhum painel genético dosa vitamina. A ordem da investigação é de reversibilidade, não de custo: primeiro o que se trata, depois o que se nomeia.
  3. 3Excluir Friedreich porque o paciente começou depois dos 25 anos Os critérios clínicos clássicos exigem início antes dos 25, mas a definição molecular reconhece formas de início tardio, de início muito tardio e com reflexos preservados, que somadas alcançam cerca de um quarto dos casos com expansão de penetrância completa. Idade fora do padrão pede teste, não descarte.
  4. 4Descartar a doença porque o cerebelo está normal na ressonância Na ataxia de Friedreich a degeneração é sobretudo medular e ganglionar, com atrofia da medula cervical e alteração de sinal nos cordões posteriores, e o volume cerebelar pode estar preservado. Imagem cerebelar normal não afasta o diagnóstico; ela ajuda a diferenciá-lo das ataxias dominantes, em que a atrofia é a regra.
  5. 5Tratar a dispneia do jovem com ataxia como descondicionamento A cardiomiopatia hipertrófica acomete a maioria dos pacientes e responde pela maior parte das mortes. Dispneia desproporcional ao esforço, palpitação ou síncope pedem eletrocardiograma e ecocardiograma imediatos, e a vigilância cardiológica é rotina mesmo em quem não tem sintoma.
  6. 6Ler o quadro subagudo com contexto nutricional como doença genética A deficiência de vitamina B12 produz a mesma dissociação entre arreflexia e resposta plantar em extensão, porque atinge cordões posteriores e trato corticospinal. O que separa é o tempo, de semanas a meses, e o contexto: anemia macrocítica, gastrectomia, doença ileal, dieta estritamente vegetariana, inibidor de bomba de prótons ou exposição a óxido nitroso.
  7. 7Concluir que não é genético porque ninguém na família tem Família pequena, pais falecidos cedo, filho único, paternidade não revelada e mutação nova apagam o padrão de herança sem apagar a herança. Heredograma negativo orienta a ordem dos testes; ele não exclui doença hereditária, sobretudo em padrão recessivo, em que os pais são portadores sadios.
  8. 8Confundir antecipação com relato familiar impreciso Início mais precoce e curso mais grave a cada geração é fenômeno biológico das doenças por expansão instável de repetições, típico das ataxias dominantes. Quando o enunciado dá as idades de início do avô, do pai e do neto em ordem decrescente, ele está descrevendo antecipação e apontando para expansão de trinucleotídeo.
  9. 9Aceitar laudo genético que só diz presente ou ausente O tamanho da expansão informa prognóstico: expansões maiores associam-se a início mais precoce, curso mais grave e maior chance de cardiomiopatia e diabetes. Laudo sem o número de repetições responde metade da pergunta, e um teste que procura apenas a expansão pode não detectar o heterozigoto composto, que responde por parte dos casos.
  10. 10Oferecer teste ao parente assintomático como se fosse rotina Teste em quem já tem sintoma é diagnóstico e se justifica pela doença. Teste em parente sem sintoma é preditivo, tem implicação sobre trabalho, seguro, planejamento reprodutivo e sofrimento psíquico, e se faz dentro de protocolo com aconselhamento antes e depois. A porta de entrada encaminha; ela não solicita.
  11. 11Responder pela estatística quando o texto descreve um paciente A ataxia hereditária mais frequente do Brasil e a doença que o enunciado descreve podem ser diferentes. Fenótipo com arreflexia, Babinski, escoliose, pé cavo e cardiomiopatia aponta ataxia de Friedreich mesmo num país onde a doença de Machado-Joseph é mais comum.
  12. 12Atribuir a queixa a sedentarismo ou a causa emocional Desequilíbrio progressivo em adolescente ou adulto jovem costuma acumular anos de explicações erradas antes do diagnóstico. Validar a queixa e examinar reflexos, sensibilidade profunda e coordenação custa minutos, e é o passo que a estação prática pontua com peso alto.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Depressão é frequente na doença de Huntington e o risco de suicídio é várias vezes maior que na população geral, com dois picos: logo antes do diagnóstico formal e no momento em que a independência começa a se perder. Isso torna a avaliação de humor e de ideação parte obrigatória do seguimento, e é também a razão de cautela ao prescrever depletores de monoaminas. Focar em outros quadros psiquiátricos engana quem busca sintomas mais chamativos e deixa passar o que mais mata nessa população.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória o que a manobra de Romberg mede e como se diferencia ataxia cerebelar de ataxia sensitiva em três linhas. Em seguida, explique por que arreflexia com resposta plantar em extensão é combinação que normalmente se exclui e o que ela significa num paciente jovem. Feche listando as quatro dosagens que vêm antes de qualquer teste genético e dizendo qual delas encontra a única ataxia hereditária com tratamento específico consolidado.

em 30 dias

Refaça de cabeça os três desenhos de heredograma — recessivo, dominante e antecipação — dizendo, para cada um, o risco declarado e um exemplo do capítulo. Depois reconstrua a diferença entre a régua clínica e a régua molecular da ataxia de Friedreich, nomeando as formas atípicas que a segunda aceita. Termine explicando em voz alta por que a ataxia hereditária mais frequente do Brasil e a doença descrita num enunciado clássico podem ser diferentes, e qual das duas responde a qual tipo de pergunta.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Uma mulher de 19 anos entra apoiando-se no batente e diz que cai desde os doze anos, que piora no escuro e que já ouviu de vários médicos que é falta de exercício. Conta que um irmão anda parecido com ela. Conduza a consulta: localize de onde vem o desequilíbrio, monte o heredograma, procure o que está fora do sistema nervoso e decida o que pedir antes do teste genético. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Ataxias e doenças degenerativas hereditárias – Ataxias hereditárias: o reflexo que some, o dedo que sobe e o coração que decide — Preparatório para provas | OsceLabs