PediatriaNutrologia Pediátrica

Desnutrição grave na infância

Desnutrição energético-proteica: marasmo e kwashiorkor, manejo do desnutrido grave

O diagnóstico está na porta: emagrecimento visível ou edema nos dois pés já fecha, sem exame nenhum. A prova cobra a sequência das primeiras horas — e sobretudo o que não fazer, porque quase toda conduta que salvaria outra criança mata esta.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Menino de 18 meses é levado à unidade básica de saúde por baixo peso. Ao exame: aspecto emagrecido, olhar vivo e irritado, perda acentuada de tecido adiposo e muscular, com nádegas atróficas e costelas visíveis ("aparência de velho"). NÃO há edema. Peso/idade e peso/estatura muito abaixo do esperado. Não apresenta alterações de cabelo nem lesões cutâneas descamativas. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Desnutrição grave é o tema em que a prova cobra menos diagnóstico e mais sequência. O diagnóstico está na porta: uma criança com emagrecimento acentuado visível ou com edema nos dois pés já é desnutrida grave, e nenhum exame muda isso. O que a questão quer saber é o que você faz nas primeiras horas — e, principalmente, o que você não faz. Boa parte das mortes de desnutrido grave em enfermaria não vem da desnutrição: vem de soro fisiológico correndo rápido, de dieta cheia demais no primeiro dia, de ferro dado cedo, de um diurético prescrito para o edema. Todas essas condutas parecem corretas em qualquer outra criança.

O tamanho do ganho tem número brasileiro. Num hospital do Nordeste, a letalidade das crianças internadas por desnutrição grave caiu de 33,8% para 16,2% depois que o protocolo da OMS em dez passos foi implantado, sem tecnologia nova nenhuma — só ordem de execução. É por isso que a prova cobra a ordem, e não a fisiopatologia bonita.

Três documentos brasileiros dividem o tema e é preciso saber qual está na mão. Na porta da unidade básica manda o AIDPI Criança, de 2017, do Ministério da Saúde com a OPAS e o UNICEF: classificação por peso para a idade, mais dois sinais clínicos que fecham desnutrição grave sozinhos. Na enfermaria manda o manual hospitalar do Ministério da Saúde, de 2005, que traduziu a diretriz da OMS em dez passos para o Brasil e de onde vêm o F-75, o F-100 e o ReSoMal. E a Nota de Alerta nº 41 da Sociedade Brasileira de Pediatria, de fevereiro de 2023, é a versão curta e atual dos mesmos dez passos, já pela revisão de 2021 da OMS. Este capítulo trata da criança de 0 a 59 meses; a leitura das curvas e do escore Z tem capítulo próprio no acompanhamento do crescimento.

03

O que muda decisão

Marasmo e kwashiorkor: corpos opostos, mesmo plano terapêutico

Como usar este capítulo: reconheça a forma clínica e confirme os critérios de gravidade, mas lembre que marasmo e kwashiorkor percorrem o mesmo plano terapêutico. A sequência que salva é estabilizar complicações, avançar pelos dez passos, transitar para recuperação e definir alta segura.

As duas formas clássicas descrevem corpos opostos. No marasmo, a criança consome o próprio tecido celular subcutâneo: fácies senil, olhos encovados, fontanela deprimida, proeminências ósseas à mostra, pele frouxa sobrando nas coxas e nas nádegas. Antropometricamente, escore Z de peso para estatura ou de IMC para idade abaixo de -3, e circunferência braquial abaixo de 11,5 cm. A criança costuma estar alerta, às vezes irritada, e com fome.

No kwashiorkor, o achado que define é o edema, e ele tem gradação: + quando pega apenas os dois pés; ++ quando sobe para pés, pernas, mãos e antebraços; +++ quando é generalizado e inclui o rosto. Junto vêm o cabelo descolorido, branco-acinzentado, ralo e quebradiço; a dermatose, com pele xerótica de aspecto de esmalte descascado e coloração avermelhada; a esteatose hepática; e a hipoalbuminemia. O humor é o oposto do marasmo: apatia e recusa alimentar. Quando as duas apresentações coexistem, o nome é kwashiorkor marasmático.

O edema do kwashiorkor não é um problema de albumina baixa, e essa é a atualização que a prova moderna cobra. O mecanismo hoje aceito é multifatorial, com dois determinantes principais: exacerbação do estresse oxidativo e queda da defesa antioxidante. O excesso de radicais livres circulantes ataca o endotélio, a permeabilidade aumenta e líquido e proteínas — inclusive a albumina — vazam para o terceiro espaço. A hipoalbuminemia é consequência do vazamento, não a causa dele. Duas consequências práticas saem daí: albumina intravenosa não trata esse edema e diurético não trata esse edema. O edema do kwashiorkor sai sozinho quando a criança é alimentada direito, e a sua saída é justamente o que se acompanha.

Apesar das diferenças clínicas, o plano terapêutico das duas formas é o mesmo — é a Sociedade Brasileira de Pediatria quem escreve isso com todas as letras. Ambas cursam com carências múltiplas de vitaminas e minerais, ambas entram nos mesmos dez passos, ambas têm a mesma lista do que não fazer. A pergunta de prova que separa marasmo de kwashiorkor quase nunca é sobre tratamento; é sobre reconhecimento e sobre uma armadilha específica: no kwashiorkor, o edema pesa. Uma criança edemaciada pode ter um peso para a idade que parece aceitável e ainda assim ser desnutrida grave. O edema bilateral classifica sozinho, qualquer que seja o número da balança.

Duas crianças pequenas lado a lado: à esquerda, corpo muito emagrecido, costelas e ossos aparentes, olhos fundos e pele frouxa nas coxas; à direita, pés, pernas e mãos inchados, rosto arredondado, cabelo ralo e descolorido e pele descamando nas pernas.
Marasmo à esquerda, kwashiorkor à direita. O tratamento das duas formas é o mesmo — o que muda é a armadilha: no kwashiorkor, o edema pesa e falseia o peso para a idade.

Quem é desnutrido grave depende do critério aplicado

O AIDPI Criança é o quadro que a prova de acesso direto mais reproduz, porque é o que está na unidade básica. Ele classifica em dois planos. O primeiro é clínico e fecha sozinho: emagrecimento acentuado visível ou edema em ambos os pés é desnutrição grave, e a conduta é prevenir, controlar e, se necessário, tratar a hipoglicemia; prevenir a hipotermia mantendo a criança agasalhada; dar megadose de vitamina A se ela não tomou nos últimos 30 dias; e referir urgentemente ao hospital. O segundo plano é antropométrico e usa peso para a idade: abaixo de -3 escores Z é peso muito baixo, com retorno marcado em cinco dias; entre -3 e -2 escores Z, ou com tendência da curva horizontal ou descendente, é peso baixo ou ganho de peso insuficiente, com retorno em duas semanas; de -2 a +2 é peso adequado; acima de +2 é peso elevado.

A Caderneta da Criança e o Sisvan trabalham com três índices, e o guia da atenção primária do Ministério da Saúde deixa explícito o que cada um serve para responder. Peso para a idade identifica o baixo peso, mas não distingue comprometimento agudo de crônico. Estatura para a idade é o índice que melhor mostra o efeito cumulativo de adversidade — é o crônico. IMC para a idade relaciona peso e estatura e é o mais recomendado na infância para dizer se há magreza agora. Nos menores de 5 anos, abaixo do escore Z -3 chamam-se, respectivamente, muito baixo peso para a idade, magreza acentuada e muito baixa estatura para a idade; entre -3 e -2, baixo peso, magreza e baixa estatura.

A Sociedade Brasileira de Pediatria e a OMS classificam a desnutrição aguda grave por peso para estatura ou IMC para idade abaixo de -3 escores Z e por circunferência braquial abaixo de 11,5 cm. A braquial entra porque, entre 6 e 59 meses, ela muda pouquíssimo com a idade — dá para triar sem saber a data de nascimento e sem régua antropométrica, o que faz dela a medida de campo por excelência. A OMS de 2023 acrescentou a faixa intermediária, que o Brasil não nomeia: wasting moderado é escore Z de peso para estatura entre -2 e -3, ou braquial de 11,5 cm a menos de 12,5 cm, sem edema.

Reunindo tudo, a regra prática que resolve a maioria das vinhetas é esta. Edema bilateral de origem nutricional é desnutrição grave, ponto — o peso não desempata. Emagrecimento acentuado visível é desnutrição grave, ponto — a antropometria vem depois, para acompanhar, não para autorizar. E quando a questão entrega apenas um número, olhe qual índice ela usou: peso para a idade abaixo de -3 é a linguagem do AIDPI e da Caderneta; peso para estatura ou IMC abaixo de -3, com ou sem braquial, é a linguagem da SBP e da OMS. As duas frases descrevem crianças diferentes, e é aí que a prova pega.

Por que a criança desnutrida pode piorar com o tratamento inadequado

A desnutrição grave produz o que se chama de adaptação redutora: tudo funciona mais devagar para gastar menos. A bomba de sódio e potássio perde eficiência, e a consequência é contraintuitiva. Sódio se acumula dentro da célula enquanto o sódio sérico aparece baixo no exame; potássio, magnésio e fósforo corporais estão depletados mesmo quando as dosagens vêm normais. Ler esse ionograma com olhos de criança eutrófica é o erro que mais mata: a hiponatremia do desnutrido grave não se corrige com sódio. Ela é de distribuição, não de falta.

O coração está pequeno e o débito, baixo. Volume intravenoso generoso, que em qualquer outra criança desidratada é a conduta certa, aqui produz insuficiência cardíaca. Por isso o passo da desidratação inverte a prioridade habitual: a via oral é a preferida, e a via venosa fica reservada à desidratação grave, à falha da terapia de reidratação oral e à suspeita de choque — e, mesmo aí, com solução de menor teor de sódio, como soro ao meio ou Ringer, e não com soro fisiológico corrido.

A reserva hepática de glicogênio está zerada, então a hipoglicemia é regra e não exceção. O corte é 54 mg/dL, ou 3 mmol/L. Ela pode ser assintomática, evoluir para rebaixamento do nível de consciência e convulsão, e a orientação da SBP é explícita: se não for possível medir a glicemia, considere a criança hipoglicêmica e trate. A termogênese também falhou e não há massa magra para queimar, de modo que a hipotermia — temperatura retal abaixo de 35,5 ºC ou axilar abaixo de 35,0 ºC — costuma vir de mãos dadas com a hipoglicemia e com infecção. Deixar a criança despida em sala refrigerada é causa frequente e evitável.

A infecção não se anuncia. Febre, piora do estado geral, leucograma alterado e proteínas inflamatórias podem simplesmente não aparecer. O sinal precoce mais confiável é a perda do apetite, e o retorno do apetite é o marcador de que a infecção está cedendo. Daí a regra: na suspeita, colher culturas, iniciar antibiótico e observar — não esperar febre para tratar.

O intestino também está adaptado. A atrofia vilositária compromete a produção de dissacaridases, sobretudo a lactase, e o resultado é intolerância secundária à lactose. Por isso a dieta da fase inicial é isenta ou pobre em lactose e de baixa osmolaridade: reduzir o risco de diarreia, vômito e desidratação vale mais, naquele momento, do que oferecer caloria. E, por cima de tudo isso, há a síndrome de realimentação: quando a alimentação recomeça, potássio, magnésio e fósforo despencam rapidamente, porque migram para dentro da célula. É o motivo de o passo 7 se chamar iniciar alimentação com cautela e não iniciar alimentação.

Os dez passos, na ordem em que salvam

Os dez passos não são uma lista de tarefas: são uma ordem de risco. Sete deles cabem na fase de estabilização, porque tratam o que mata primeiro; os passos 8 e 9 são a reabilitação; o passo 10 é a alta e o seguimento. A prova adora inverter dois passos vizinhos e perguntar qual vem antes.

Passo 1, hipoglicemia. Se a criança mama, ponha no peito. Se não mama mas engole, dê 30 a 50 mL de leite materno ordenhado, outro leite ou água açucarada — quatro colheres de chá rasas de açúcar, 20 g, em 200 mL de água potável. Se não engole, os mesmos 50 mL por sonda nasogástrica. Havendo acesso venoso, o AIDPI manda fazer um flush de 5 a 10 mL/kg de soro glicosado a 10% e manter a infusão a 10%. Passo 2, hipotermia: aquecer e agasalhar, e lembrar que hipotermia é sinal de infecção até prova em contrário.

Passo 3, desidratação e choque. Os sinais clássicos de desidratação são pouco confiáveis aqui, porque se confundem com os da própria desnutrição — olho fundo e prega cutânea são achados de base. Pesam mais a história de ingestão nas últimas 24 horas, vômitos e diarreia. A reidratação oral com ReSoMal, a solução adaptada, ou com soro de reidratação oral diluído é a preferida, porque o soro padrão traz sódio demais e potássio de menos para esse organismo. Passo 4, distúrbios hidroeletrolíticos: ofertar mais potássio, magnésio e fósforo e menos sódio, em tudo — soro de reidratação, dieta e suplementos —, e ter à mão soluções de eletrólitos para corrigir.

Passo 5, infecção. Colher culturas, iniciar antibiótico na suspeita e observar. Quando a criança está numa unidade básica e vai ser referida, o AIDPI manda dar a primeira dose intramuscular antes de mandá-la embora: penicilina G procaína 50.000 UI/kg, com dose máxima de 400.000 UI, ou ceftriaxone 100 mg/kg, com máximo de 2.000 mg. Passo 6, micronutrientes: repor multivitaminas e minerais antes de começar a recuperação nutricional, sem gastar exame para provar deficiência — a carência acompanha a desnutrição por definição. A megadose de vitamina A do programa brasileiro é de 100.000 UI para 6 a 11 meses e 200.000 UI de 1 a 59 meses, indicada na desnutrição grave e no peso muito baixo se a criança não recebeu nos últimos 30 dias. Havendo diarreia, zinco por dez dias: 10 mg/dia até 6 meses e 20 mg/dia acima disso. E aqui mora a exceção que a prova ama: ferro não entra na estabilização.

Passo 7, iniciar alimentação com cautela. Começa cedo, mas pequeno: volumes baixos, muitas tomadas ao longo do dia, dieta isenta ou pobre em lactose e de baixa osmolaridade, com monitoramento de potássio, magnésio e fósforo. É a fase do F-75 — a fórmula que leva 75 kcal em cada 100 mL. Passo 8, progredir a dieta para recuperação nutricional, quando a criança estiver clinicamente estável e o apetite tiver voltado: é a fase do F-100, com 100 kcal por 100 mL, e o alvo passa a ser melhora dos indicadores antropométricos e resolução do edema, com controle de ingestão e perdas e marcação nos gráficos de crescimento.

Passo 9, estimulação sensorial e emocional. Não é gentileza de enfermaria: é passo numerado. A recuperação nutricional envolve reabilitação neuropsicomotora, e ela se faz com equipe multiprofissional e com a família dentro do cuidado, durante a internação. Passo 10, preparar a alta e o seguimento — que é o passo em que a maioria dos serviços falha, e que a prova cobra pelo par de números do critério.

Onde tratar, o papel da atenção primária e os critérios de alta

Nem toda desnutrição grave precisa de leito, e a lista da SBP diz quem precisa. Acima de 6 meses, internam: ausência de apetite; vômitos intratáveis ou incapacidade de se alimentar; convulsão ou piora do nível de consciência; desidratação grave ou choque; hipoglicemia; hipotermia; febre alta, acima de 39 ºC central ou 38,5 ºC axilar; infecção presente, seja diarreia, respiratória, cutânea ou malária; anemia grave; dermatose intensa; edema +++; e sinais oculares de deficiência de vitamina A. Abaixo de 6 meses a lista muda: escore Z de peso para estatura ou de IMC abaixo de -3, edema bilateral em membros, perda de peso recente, ganho de peso inadequado por longo período e dificuldade em amamentar mesmo após orientação materna sobre manejo.

Na atenção primária, o guia do Ministério da Saúde de 2021 encaminha para a atenção especializada, secundária ou terciária, os casos com edema, emagrecimento acentuado visível, atrofia muscular, hipotermia ou hipoglicemia — e mantém a criança em acompanhamento pela própria equipe, por referência e contrarreferência. A APS continua sendo a coordenadora do cuidado; encaminhar não é transferir a responsabilidade.

O que a APS trata sozinha é a desnutrição leve e moderada, e o conteúdo dessa consulta é alimentar. Aumentar a densidade energética: reduzir o conteúdo de água da comida, evitando sopas, caldos e sucos, e oferecer consistência pastosa ou de purê para os menores de um ano; acrescentar uma colher de sopa de óleo ou gordura em cada refeição principal, almoço e jantar. Aumentar o fracionamento, porque a criança com baixo peso costuma estar inapetente e não dá conta de refeições grandes. Manter o aleitamento materno, exclusivo até os 6 meses e continuado até os 2 anos ou mais. Não oferecer alimentos com açúcar para menores de dois anos nem usar bebidas adoçadas e comidas prontas como atalho calórico. Garantir a suplementação de micronutrientes dos programas vigentes. E encurtar o intervalo entre as consultas em relação ao calendário da Caderneta — o AIDPI marca cinco dias para peso muito baixo e duas semanas para peso baixo ou ganho insuficiente.

A alta tem critério numérico e vale a pena decorar por faixa. Para a criança de 6 meses ou mais: escore Z de peso para estatura ou de IMC para idade maior ou igual a -2; circunferência braquial maior ou igual a 12,5 cm; e ausência de edema há pelo menos duas semanas. Para o menor de 6 meses: boa aceitação do aleitamento materno ou da dieta oferecida, ganho de peso efetivo com curva ascendente, e escore Z maior ou igual a -2. Em qualquer idade, sai com plano de alta escrito, acompanhamento ambulatorial ou domiciliar frequente — diário ou semanal — combinado com o serviço do território onde a família mora, e manutenção da suplementação de vitaminas e minerais. A desnutrição grave é uma doença de recaída; alta sem data de retorno marcada é meia alta.

Vale registrar por que a atenção primária brasileira encaminha em vez de tratar em casa. A alternativa internacional existe e é a regra da OMS desde 2023: criança com desnutrição aguda grave sem complicação, com apetite preservado, é tratada ambulatorialmente com alimento terapêutico pronto para uso, a 150 a 185 kcal/kg/dia até recuperar a antropometria e depois 100 a 130 kcal/kg/dia. Esse alimento não é distribuído pelo SUS e não aparece em documento do Ministério da Saúde. A régua brasileira é hospitalar porque o insumo brasileiro é hospitalar — é uma diferença de programa e de disponibilidade, não de evidência.

04

Classificar, decidir o lugar e tratar na ordem

O fluxo abaixo é o caminho inteiro, da porta da unidade básica à alta. Os cards destrincham a única escala verdadeiramente ordinal do tema — a graduação do edema do kwashiorkor, que a prova cobra pela extensão anatômica e não pelo cacifo, e cujo grau máximo é, sozinho, critério de internação. A primeira tabela é o quadro de classificação do AIDPI, que é o que a maior parte das questões de acesso direto reproduz; as duas seguintes fecham a ordem dos dez passos e as doses de micronutriente.

  1. 1Olhe a criança antes de pesar. Emagrecimento acentuado visível ou edema em ambos os pés fecha DESNUTRIÇÃO GRAVE no AIDPI, com qualquer peso.
  2. 2Se não há nenhum dos dois, classifique pelo peso para a idade: abaixo de -3 escores Z é peso muito baixo; entre -3 e -2, ou com curva horizontal ou descendente, é peso baixo ou ganho de peso insuficiente.
  3. 3Na desnutrição grave, antes de referir, faça as quatro condutas do quadro: prevenir e tratar hipoglicemia, prevenir hipotermia agasalhando, dar megadose de vitamina A se não recebeu nos últimos 30 dias, e a primeira dose intramuscular de antibiótico se houver indicação de tratamento prévio à referência.
  4. 4Decida o lugar. Complicação clínica, edema +++ ou ausência de apetite mandam internar; abaixo de 6 meses, os critérios são próprios e mais amplos.
  5. 5Na estabilização, execute os passos 1 a 7 nessa ordem: hipoglicemia, hipotermia, desidratação e choque, distúrbios hidroeletrolíticos, infecção, micronutrientes e alimentação cautelosa.
  6. 6Reidrate pela boca, com ReSoMal ou soro de reidratação oral diluído. Reserve a veia para desidratação grave, falha da via oral ou choque — e, aí, com solução de menor sódio.
  7. 7Quando o apetite voltar e a criança estiver estável, passe à reabilitação: progredir a dieta (F-100) e estimulação sensorial e emocional com a família.
  8. 8Dê alta pelo critério, não pela impressão: escore Z de peso para estatura ou IMC ≥ -2, braquial ≥ 12,5 cm e ausência de edema há duas semanas, com retorno já marcado no território.

Edema + (leve)

Edema restrito aos dois pés. Já é kwashiorkor e já é desnutrição grave — o edema bilateral de origem nutricional classifica sozinho, independentemente do peso. Não é critério de internação por si só: interna quem tem complicação clínica associada ou ausência de apetite.

Edema ++ (moderado)

Edema em pés, pernas, mãos e antebraços. O peso da balança já está claramente inflado pelo líquido do terceiro espaço, e o peso para a idade deixa de servir para acompanhar a evolução — o que se acompanha aqui é a saída do edema, não a queda do número.

Edema +++ (grave)

Edema generalizado, incluindo pés, pernas, mãos, braços e rosto. É critério de hospitalização por si só, mesmo sem outra complicação, e é a apresentação com maior letalidade. Albumina e diurético não fazem parte do tratamento: o edema sai com a alimentação cautelosa e com a correção de eletrólitos.

Achado ou índiceClassificação no AIDPI CriançaO que fazer
Emagrecimento acentuado visível ou edema em ambos os pésDESNUTRIÇÃO GRAVEPrevenir, controlar e tratar a hipoglicemia; prevenir a hipotermia; megadose de vitamina A se não recebeu nos últimos 30 dias; referir urgentemente ao hospital
Peso para a idade abaixo de -3 escores ZPESO MUITO BAIXOAvaliar a alimentação e as causas; dietas especiais; megadose de vitamina A se não recebeu nos últimos 30 dias; ferro profilático em menores de 24 meses; retorno em 5 dias; orientar sinais de retorno imediato
Peso para a idade entre -3 e -2 escores Z, ou curva horizontal ou descendentePESO BAIXO OU GANHO DE PESO INSUFICIENTEAvaliar a alimentação e as causas; orientar alimentação adequada; ferro profilático em menores de 24 meses; retorno em 2 semanas
Peso para a idade de -2 a +2 escores ZPESO ADEQUADOElogiar; reforçar as recomendações de alimentação saudável; ferro profilático em menores de 24 meses
Peso para a idade acima de +2 escores ZPESO ELEVADOAvaliar a alimentação e as causas; orientar alimentação adequada; estimular atividade física; retorno em 2 semanas

Os dez passos e a fase em que cada um entra

PassoO que se fazFase
1. HipoglicemiaCorte de 54 mg/dL. Peito, ou 30 a 50 mL de leite ou água açucarada; 50 mL por sonda se não engole; com veia, 5 a 10 mL/kg de soro glicosado a 10% e manutenção a 10%. Sem glicemia disponível, tratar como hipoglicêmicaEstabilização
2. HipotermiaRetal abaixo de 35,5 ºC ou axilar abaixo de 35,0 ºC. Aquecer e agasalhar; procurar hipoglicemia e infecção juntoEstabilização
3. Desidratação e choqueReidratação oral com ReSoMal ou soro de reidratação oral diluído. Veia só em desidratação grave, falha da via oral ou choque, com solução de menor sódio (soro ao meio ou Ringer)Estabilização
4. Distúrbios hidroeletrolíticosMais potássio, magnésio e fósforo; menos sódio. Não corrigir com sal a hiponatremia, que é de distribuiçãoEstabilização
5. InfecçãoColher culturas e iniciar antibiótico na suspeita, sem esperar febre. Perda de apetite é o sinal precoce; retorno do apetite é o marcador de melhoraEstabilização
6. MicronutrientesMultivitaminas e minerais antes da recuperação, sem dosagem laboratorial. Vitamina A em megadose. Ferro fica de foraEstabilização
7. Alimentação cautelosaF-75 (75 kcal/100 mL), volumes pequenos e muitas tomadas, dieta isenta ou pobre em lactose e de baixa osmolaridade, com monitoramento de potássio, magnésio e fósforoEstabilização
8. Progressão da dietaF-100 (100 kcal/100 mL) com o apetite de volta e a criança estável; alvo é a antropometria e a resolução do edemaReabilitação
9. Estimulação sensorial e emocionalReabilitação neuropsicomotora com equipe multiprofissional e a família no cuidadoReabilitação
10. Alta e seguimentoCritério numérico de saída, plano de alta e acompanhamento diário ou semanal combinado com o territórioAcompanhamento

Micronutrientes na criança desnutrida — e a exceção do ferro

NutrienteDoseQuando
Vitamina A (megadose)100.000 UI dos 6 aos 11 meses; 200.000 UI de 1 a 59 mesesDesnutrição grave ou peso muito baixo, se não recebeu nos últimos 30 dias
Multivitaminas e mineraisReposição empírica, sem dosarPasso 6, antes de iniciar a recuperação nutricional
Zinco10 mg/dia até 6 meses; 20 mg/dia acima de 6 meses, por 10 diasQuando há diarreia
Potássio, magnésio e fósforoOferta aumentada, por via oral ou intravenosa, com monitoramentoDo passo 4 em diante, e especialmente ao reiniciar a alimentação
Ferro — profilaxia1 a 2 mg/kg/dia de ferro elementarMenores de 24 meses classificados como peso baixo, peso muito baixo ou peso adequado no AIDPI — não na desnutrição grave em estabilização
Ferro — tratamento de anemia3 mg/kg/dia por 14 dias, entre as refeiçõesAnemia por palidez palmar leve; no desnutrido grave, apenas na fase de reabilitação

O quadro do AIDPI dá ferro profilático ao peso muito baixo e ao peso baixo, mas não à desnutrição grave: na coluna da desnutrição grave só estão hipoglicemia, hipotermia, vitamina A e referência urgente. Não é descuido de diagramação — é a regra de não dar ferro antes da estabilização.

Reidratação oral com soro padrão é erro nesse paciente: ele traz sódio demais e potássio de menos. Onde não houver ReSoMal, a saída é o soro de reidratação oral diluído.

Febre pode faltar. Hipotermia, na criança desnutrida grave, tem o mesmo peso semiológico que febre alta teria em outra criança.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Qual índice antropométrico define a desnutrição aguda na criança brasileira

Peso para a idade, com dois sinais clínicos que fecham sozinhos

O quadro de classificação usa peso para a idade: abaixo de -3 escores Z é peso muito baixo, entre -3 e -2 é peso baixo ou ganho insuficiente. Independentemente do peso, emagrecimento acentuado visível ou edema em ambos os pés já classificam como desnutrição grave. Circunferência braquial não entra no quadro.

Ministério da Saúde, OPAS e UNICEF — Manual de quadros de procedimentos: Aidpi Criança, 2 meses a 5 anos, 2017

Peso para estatura ou IMC para idade, mais circunferência braquial

Desnutrição aguda grave é escore Z de peso para estatura ou de IMC para idade abaixo de -3 e/ou circunferência braquial abaixo de 11,5 cm; a alta usa os mesmos índices, com braquial de 12,5 cm. A OMS de 2023 acrescenta a faixa moderada, entre -2 e -3 ou braquial de 11,5 a menos de 12,5 cm.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Nutrologia — Nota de Alerta nº 41, 2023; e WHO guideline on wasting and nutritional oedema, 2023

Na prova

Os dois documentos são brasileiros e estão a seis anos de distância — 2017 e 2023 — e descrevem crianças diferentes, porque peso para a idade mistura o agudo com o crônico enquanto peso para estatura isola o agudo. A causa da diferença é operacional: o quadro do AIDPI foi desenhado para a consulta da unidade básica, onde o peso e a curva da Caderneta estão sempre à mão e a estatura aferida nem sempre; a régua da SBP pressupõe um serviço que mede comprimento e braquial. Para identificar o recorte, olhe o cenário e o vocabulário do enunciado: unidade básica, quadro de classificação, 'referir urgentemente' e a nomenclatura peso muito baixo ou ganho de peso insuficiente vêm do AIDPI; enfermaria, dez passos, F-75, circunferência braquial e escore Z de peso para estatura vêm da linha SBP-OMS. As alternativas costumam denunciar o mundo da questão: se uma delas cita 11,5 cm, a questão não está no AIDPI.

Onde se trata a desnutrição aguda grave sem complicação clínica

Hospital, por referência urgente a partir da unidade básica

Toda criança classificada como desnutrição grave é referida urgentemente ao hospital, depois das condutas de hipoglicemia, hipotermia e vitamina A. Na atenção primária, os casos com edema, emagrecimento acentuado visível, atrofia muscular, hipotermia ou hipoglicemia são encaminhados à atenção especializada, secundária ou terciária, permanecendo em acompanhamento pela equipe por referência e contrarreferência.

Ministério da Saúde, OPAS e UNICEF — Aidpi Criança, 2017; e Ministério da Saúde — Guia Rápido para o Acompanhamento de Gestantes e Crianças com Desnutrição na Atenção Primária à Saúde, 2021

Ambulatório, com alimento terapêutico pronto para uso

A internação fica reservada a quem tem sinal geral de perigo, problema clínico agudo, edema +++ ou teste do apetite falho. Os demais são tratados fora do hospital com alimento terapêutico pronto para uso, a 150 a 185 kcal/kg/dia até a recuperação antropométrica e depois 100 a 130 kcal/kg/dia, com saída quando peso para estatura for maior ou igual a -2 e a braquial maior ou igual a 125 mm em duas medidas consecutivas.

World Health Organization — WHO guideline on the prevention and management of wasting and nutritional oedema (acute malnutrition) in infants and children under 5 years, 2023

Na prova

A distância aqui não é de evidência: o alimento terapêutico pronto para uso não é distribuído pelo SUS e não aparece em documento do Ministério da Saúde, de modo que o manejo comunitário descrito pela OMS não tem insumo no Brasil. É restrição de programa e de disponibilidade. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS, e o cenário costuma entregar o recorte: unidade básica, agente comunitário, Caderneta da Criança e encaminhamento apontam para o corpo brasileiro; alternativas que citam alimento terapêutico pronto para uso, teste do apetite ou kcal/kg/dia de ATPU só existem no corpo internacional. Nas duas leituras, porém, a criança com edema +++, sem apetite ou com complicação clínica interna — esse ponto não é controverso.

06

Caso resolvido

Menino de 16 meses é levado à unidade básica de saúde pela avó, que relata que ele 'inchou' nas últimas três semanas e parou de querer comer. A família recebe auxílio de transferência de renda e relata falta de alimento em casa nos últimos meses. Ao exame: apático, pouco reativo ao ambiente, cabelo ralo, quebradiço e com áreas branco-acinzentadas; pele seca com placas avermelhadas descamativas nas pernas, com aspecto de esmalte descascado; edema depressível nos dois pés e nas pernas, e discreto nas mãos. Peso 8,9 kg, com peso para a idade em -1,8 escore Z na curva da Caderneta. Temperatura axilar 35,2 ºC, sem febre relatada. Não há glicosímetro disponível na unidade no momento. A avó informa que ele não recebeu vitamina A nos últimos seis meses.
achado
Edema depressível bilateral em pés, pernas e mãos, com alteração de cabelo e dermatose descamativa. É kwashiorkor, e o edema bilateral de origem nutricional classifica como DESNUTRIÇÃO GRAVE por si só.
armadilha
O peso para a idade em -1,8 escore Z cairia na faixa de peso adequado e não deve tranquilizar ninguém. O edema soma litros à balança: a antropometria do kwashiorkor está inflada e não serve para excluir gravidade nem, mais adiante, para acompanhar a resposta.
achado
Temperatura axilar de 35,2 ºC é hipotermia (corte de 35,0 ºC axilar), e hipotermia nessa criança tem o mesmo peso que febre alta teria em outra: costuma vir acompanhada de hipoglicemia e de infecção.
conduta
Sem glicosímetro, considere-a hipoglicêmica e trate: 30 a 50 mL de leite ou de água açucarada — quatro colheres de chá rasas de açúcar em 200 mL de água — por via oral, já que ela engole. Agasalhe e aqueça imediatamente.
conduta
Megadose de vitamina A de 200.000 UI, por ter mais de 12 meses e não ter recebido nos últimos 30 dias. Nada de ferro nesta consulta, e nada de diurético para o edema.
conduta
Referir urgentemente ao hospital. A criança tem edema em pés, pernas e mãos, está apática, sem apetite e hipotérmica — ausência de apetite e hipotermia são, cada uma, critério de hospitalização.
seguimento
A equipe da unidade não encerra o caso ao encaminhar: mantém o acompanhamento por referência e contrarreferência, aciona a rede intersetorial pela insegurança alimentar do domicílio e organiza o retorno para quando a criança receber alta hospitalar.
07

Agora feche você

Menina de 2 anos e 3 meses, internada há 18 horas por desnutrição grave com marasmo: fácies senil, olhos encovados, costelas visíveis, pele frouxa nas nádegas, escore Z de peso para estatura de -3,6 e circunferência braquial de 10,8 cm. Chegou com diarreia aquosa havia quatro dias, mais de oito evacuações por dia, e vômitos ocasionais. Foi recebida com glicemia capilar de 46 mg/dL, corrigida, e temperatura axilar de 35,4 ºC, também corrigida. Está alerta, aceita líquidos pela boca, sem vômitos nas últimas seis horas, sem sinais de choque: pulsos cheios, tempo de enchimento capilar de 2 segundos, sem rebaixamento. Exames desta manhã: sódio 128 mEq/L, potássio 2,9 mEq/L, magnésio no limite inferior. A enfermagem pergunta se inicia soro fisiológico em expansão pela hiponatremia e pela diarreia.
achado
Desnutrição aguda grave na forma marasmática, confirmada por escore Z de peso para estatura abaixo de -3 e circunferência braquial abaixo de 11,5 cm, com perdas por diarreia em curso.
achado
Sódio de 128 mEq/L com potássio de 2,9 mEq/L. A criança está alerta, aceita líquidos, sem vômitos recentes e sem nenhum sinal de choque.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Expandir com soro fisiológico a criança desnutrida grave desidratada Atrai porque é a conduta certa em qualquer outra criança com diarreia e desidratação, e porque o sódio sérico baixo parece pedir sal. Só que o coração está pequeno, o débito é baixo e a hiponatremia é de distribuição, não de falta. A via oral com ReSoMal ou soro de reidratação oral diluído é a preferida; a veia fica para desidratação grave, falha da via oral ou choque, e mesmo aí com solução de menor sódio.
  2. 2Prescrever ferro na admissão porque a criança está anêmica A anemia está lá, o hemograma confirma e a tentação é grande. Mas ferro não entra na estabilização — ele só volta na fase de reabilitação. O detalhe fino que a prova usa: o próprio quadro do AIDPI prescreve ferro profilático ao peso baixo e ao peso muito baixo, e não o prescreve à desnutrição grave. A diferença entre as duas colunas é a resposta.
  3. 3Dar diurético ou albumina para o edema do kwashiorkor Parece raciocínio fisiopatológico correto: edema com hipoalbuminemia, logo reponha albumina ou force diurese. Mas a hipoalbuminemia é consequência do extravasamento endotelial causado pelo estresse oxidativo, não a causa dele. Nenhum dos dois faz parte do tratamento, e o diurético agrava a depleção de potássio e magnésio que já existe.
  4. 4Descartar desnutrição grave porque o peso para a idade está normal É o erro que o kwashiorkor arma sozinho. O edema soma peso, e uma criança edemaciada pode aparecer em -1,5 escore Z. Edema bilateral de origem nutricional e emagrecimento acentuado visível classificam como desnutrição grave qualquer que seja o número da balança.
  5. 5Esperar febre para pensar em infecção Febre, leucocitose e proteínas inflamatórias podem simplesmente não aparecer nessa criança. O sinal precoce é a perda do apetite, e a hipotermia carrega o mesmo peso que a febre alta carregaria em outra criança. Na suspeita, colher culturas, iniciar antibiótico e observar.
  6. 6Alimentar bem no primeiro dia para recuperar o tempo perdido A intuição de 'ela está desnutrida, então precisa comer muito' é o caminho da síndrome de realimentação: ao reiniciar a alimentação, potássio, magnésio e fósforo migram para dentro da célula e despencam. Por isso o passo 7 se chama iniciar alimentação com cautela — volumes pequenos, muitas tomadas, baixa lactose e baixa osmolaridade, com eletrólitos monitorados.
  7. 7Dar alta pela impressão clínica de melhora A criança recuperou o apetite, o edema saiu e o humor voltou — parece pronta. O critério, porém, é numérico e composto: escore Z de peso para estatura ou de IMC para idade maior ou igual a -2, circunferência braquial maior ou igual a 12,5 cm e ausência de edema há pelo menos duas semanas, com plano de seguimento diário ou semanal já combinado com o serviço do território.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: Marasmo. O quadro de emagrecimento extremo com perda de gordura e massa muscular, ausência de edema, criança irritada/alerta e "aparência senil" é o marasmo clássico (deficiência global energético-proteica crônica). Kwashiorkor cursa com EDEMA, apatia, alterações de cabelo (despigmentação/sinal da bandeira) e dermatose descamativa — ausentes aqui. A forma mista exigiria edema sobreposto ao emagrecimento grave. A intensidade da perda e os achados descritos não são compatíveis com forma leve. A hipovitaminose A dá manifestações oculares (xeroftalmia/mancha de Bitot), não este fenótipo de emaciação global.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

As réguas numéricas, na ordem em que a questão as usa. Classificação do AIDPI: emagrecimento acentuado visível ou edema em ambos os pés é desnutrição grave; peso para a idade abaixo de -3 escores Z é peso muito baixo, com retorno em 5 dias; entre -3 e -2, ou curva horizontal ou descendente, é peso baixo ou ganho insuficiente, com retorno em 2 semanas; de -2 a +2 é adequado. Régua da SBP e da OMS: peso para estatura ou IMC para idade abaixo de -3 e/ou braquial abaixo de 11,5 cm. Hipoglicemia abaixo de 54 mg/dL; hipotermia retal abaixo de 35,5 ºC ou axilar abaixo de 35,0 ºC; febre alta acima de 39 ºC central ou 38,5 ºC axilar. Vitamina A: 100.000 UI dos 6 aos 11 meses, 200.000 UI de 1 a 59 meses, se não recebeu nos últimos 30 dias. Hipoglicemia sem glicosímetro: tratar como hipoglicêmica, com 30 a 50 mL de leite ou água açucarada (20 g de açúcar em 200 mL), 50 mL por sonda se não engole, ou 5 a 10 mL/kg de soro glicosado a 10% na veia. Zinco na diarreia: 10 mg/dia até 6 meses, 20 mg/dia acima, por 10 dias. Antes de referir: penicilina G procaína 50.000 UI/kg, máximo de 400.000 UI, ou ceftriaxone 100 mg/kg, máximo de 2.000 mg, intramusculares. F-75 tem 75 kcal por 100 mL e é da estabilização; F-100 tem 100 kcal por 100 mL e é da reabilitação. Alta: escore Z maior ou igual a -2, braquial maior ou igual a 12,5 cm e sem edema há 2 semanas.

em 30 dias

As decisões, sem os números. Reconhecer não custa exame: emagrecimento visível ou edema nos dois pés fecha desnutrição grave, e no kwashiorkor o peso mente porque o edema pesa. Marasmo e kwashiorkor têm o mesmo tratamento; o que muda é a apresentação e a armadilha antropométrica. O edema não é falta de albumina, é lesão endotelial por estresse oxidativo — por isso albumina e diurético não entram. Os dez passos são uma ordem de risco: sete na estabilização (hipoglicemia, hipotermia, desidratação, eletrólitos, infecção, micronutrientes, alimentação cautelosa), dois na reabilitação, um na alta. Reidratar pela boca; a veia é exceção e, quando usada, com menos sódio. Não corrigir a hiponatremia com sal, porque ela é de distribuição. Não esperar febre para tratar infecção — o apetite é o termômetro. Não dar ferro antes da estabilização, ainda que haja anemia. Não alimentar com generosidade no primeiro dia, por causa da síndrome de realimentação. Na atenção primária, o que se trata é a desnutrição leve e moderada, e o remédio é densidade energética e fracionamento: menos água na comida, uma colher de sopa de óleo por refeição principal, mais refeições, aleitamento mantido, consultas mais próximas que o calendário da Caderneta, e a rede intersetorial acionada quando há insegurança alimentar em casa.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Menino de 16 meses levado à unidade básica com inchaço nos pés e nas pernas há três semanas, recusa alimentar, cabelo ralo e descolorido, dermatose descamativa e temperatura axilar de 35,2 ºC, num domicílio em insegurança alimentar — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Desnutrição energético-proteica – Desnutrição grave na infância — Preparatório para provas | OsceLabs